Teste

Era a sétima vez que eu o via. Parecia uma pessoa reservada. Chegava sempre sozinho, com passos lentos e despreocupados, e seguia até a mesma seção todas as vezes: a de livros de ficção científica. Ele havia me chamado atenção desde sua primeira visita. Talvez pelo modo peculiar de se vestir, por ser tão quieto que passava a impressão de não querer ser notado, ou talvez pela profundidade dos seus olhos quando se virou na minha direção e percebeu que eu o observava. E a partir da terceira vez eu notei que ele também era uma pessoa que seguia padrões, já que suas visitas aconteciam sempre às quintas-feiras, às seis horas da tarde, à mesma seção da biblioteca, para olhar o mesmo livro.
- Chegou o esquisitinho, olha lá – Mark me cutucou, apontando na direção do garoto que eu já estava cansada de observar.
Mark trabalhava comigo na Biblioteca Municipal desde o mês anterior e era aquele tipo de cara que gostava de apontar todo mundo e rir do seu jeito de se vestir, do cabelo, do jeito de falar ou do livro que escolheu para ler. Não que eu não gostasse dele, ele era um cara até divertido, mas certas vezes suas críticas cansavam e me faziam questionar o que o perturbava tanto a ponto dele precisar apontar o que havia de ruim no resto do mundo.
- Ele não é esquisito – respondi, franzindo minha testa. – Só parece um pouco desligado do que acontece ao seu redor.
Batuquei meus dedos no balcão, ainda sem tirar meus olhos dele. Minha curiosidade crescia cada vez que ele fazia uma nova visita à biblioteca. Como será que se chamava? O que devia fazer da vida? Será que era apenas um nerd que havia se cansado do computador e resolvido fazer algumas visitas à vida real?
Uma menina que devia ter cerca de doze anos de idade se aproximou de mim, pedindo algumas informações a respeito de um livro que queria pegar emprestado e eu tive que desviar minha atenção. Por essa razão, não vi quando ele abandonou a mesa na qual havia se sentado e me assustei ao vê-lo parado à minha frente, logo depois que a menininha saiu. Era a primeira vez que ele fazia aquilo. Geralmente, depois de ler algumas páginas do livro, ele voltava a guardá-lo na mesma estante e deixava a biblioteca sem falar nada com ninguém.
Mas, naquele dia, alguma coisa o havia feito mudar de idéia e abandonar seu padrão. Me senti nervosa ao perceber a intensidade com que olhava em meus olhos e um arrepio percorreu meu corpo quando ele abaixou a cabeça, sorrindo levemente. O garoto me ofereceu o livro.
- Percebi que você não parava de me observar – disse. Minha reação ao ouvir aquilo foi uma mistura de surpresa, por ter ouvido sua voz pela primeira vez, e vergonha, pelo que ele havia acabado de dizer. Minhas bochechas coraram levemente. – Vou levar esse livro.
- Ah, não. Quer dizer, me desculpe, eu não queria te incomodar. Não precisa fazer isso, você pode vir aqui e ler o livro quantas vezes quiser... – comecei a dizer, ainda um pouco sem graça, imaginando que ele havia tomado a decisão de levar aquele livro por ter se incomodado com meus olhares e, provavelmente, com o dedo de Mark apontado em sua direção.
- Não é isso. – Ele deu uma pequena risada. – Estou precisando do livro em casa, mas eu o devolvo amanhã mesmo.
Sacudi a cabeça em concordância e então peguei o livro que ainda estava estendido em minha direção. A idéia de finalmente poder descobrir várias coisas a seu respeito me entusiasmou. Antes, eu já havia pensado em procurar pelo livro que ele tanto gostava de ler, mas a biblioteca era tão grande que, na maioria das vezes, eu mesma acabava perdida entre aquelas estantes. Desta vez, porém, ele estava ali nas minhas mãos. Na capa, havia apenas seu nome, “Escolhas”, escrito com letras pequenas e quase escondido. Na lateral, o código de barras colocado pela biblioteca. E só. Não havia mais nada, nenhum desenho, nenhuma resenha, absolutamente nada.
Não querendo parecer mais inconveniente do que já havia sido, segurei minha vontade de começar a folhear o livro e apenas passei o leitor de código de barras por sua lateral antes de devolvê-lo ao garoto. Era só esperar até que ele o devolvesse no dia seguinte, então eu poderia matar a minha curiosidade ao ter o livro inteiramente em minha disposição.
Na hora de preencher sua ficha, acabei descobrindo que seu nome era Josh. Ele tinha 22 anos e morava naquele mesmo bairro. No campo “profissão”, pediu que eu escrevesse apenas “pesquisador”. Mais uma vez, tive que conter minha curiosidade e me limitei a sorrir, quando ele acenou levemente com a cabeça e se dirigiu à saída da biblioteca.
- O esquisitinho sabe falar? O que ele disse? E por que resolveu levar o livro hoje? – Mark se aproximou me enchendo de questionamentos, mas eu apenas rolei os olhos e saí do balcão para guardar os livros que algumas pessoas haviam deixado sobre a mesa após terminarem de ler.
Eu não sabia explicar o porquê, mas aquela mudança no comportamento de Josh hoje também havia causado algo diferente em mim. Minha curiosidade a seu respeito havia subido inúmeros leveis e de repente eu me peguei pensando nele muito mais do que o normal. As horas que me restavam de trabalho passaram rapidamente e já era mais de seis quando percebi que havia chegado o momento de fechar a biblioteca.
Despreocupadamente, avisei às pessoas que ainda estavam lá dentro que estávamos fechando, registrei alguns pedidos de empréstimos e, quando todos já haviam saído, ajudei Mark a terminar de arrumar os livros que ainda estavam espalhados nas mesas. Enquanto ele cuidava das seções de História e Filosofia, eu me dirigi à de Ficção Científica. Guardei uns dois ou três livros que as pessoas haviam deixado espalhados, arrumei uma prateleira que estava completamente bagunçada e, quando me preparava para ir a outra seção um pequeno papel me chamou atenção. Eu não me lembrava de ter deixado ali nenhum aviso. Me aproximei devagar e então reparei que ele estava colado abaixo de um espaço vazio, antes pertencente a algum livro que havia sido emprestado, algum livro que começava com a letra E.
Ei, Anne. Me encontre amanhã, às 10 horas da manhã, em frente ao Teatro Municipal.
Uma leve tremura percorreu minhas mãos quando terminei de ler. Engoli em seco e olhei ao redor. Mark estava cantarolando alguma música enquanto guardava os últimos livros que levava nos braços e apagava as luzes das seções pelas quais já havia passado. Não podia ser ele, Mark não faria uma brincadeira dessas. E, se eu me lembrava bem, ele sequer havia passado por aquela seção hoje.
Com uma sensação estranha no peito, juntei minhas coisas e mal me despedi de Mark ao sair da biblioteca, ainda um pouco atordoada. Porque, no fundo, eu sabia muito bem quem havia deixado aquele bilhete pregado ali.


Resultado da votação:
- Ela vai ao encontro.
- Ela descobre o assunto que é tratado no livro.