Por: Lih~NG


Capítulo I

Eu estava diante daquela enorme torre de ferro e mal conseguia piscar. Lá de baixo, a Torre Eiffel não era aquele lindo monumento turístico, parecia mais um gigante pronto para devorar a cidade. Tentei enxergar seu topo, mas mudei de idéia quando senti vertigem e minhas pernas amoleceram, talvez fosse melhor manter os olhos nas pessoas que passavam como baratas tontas na minha frente. Pessoas de diversas nacionalidades, menos francesa. Provavelmente os franceses nem se importavam mais com aquela construção majestosa que tanto fascinava o mundo. Como fascinava a mim.
Senti que uma brisa gelada tocava meu rosto e minhas bochechas queimaram com o frio. Enquanto isso eu caminhava tranquila por debaixo da torre e entre a multidão que esperava em fila para poder subi-la. Levei minhas mãos, vestidas com grossas luvas pretas de lã, ao rosto para tentar aquecê-lo e me lembrei de - que as havia comprado e que daria tudo para estar ali comigo.
era minha melhor amiga desde os 7 anos – quando havíamos começado a estudar juntas - e viajar a Paris para comemorar os nossos 21 anos era algo que planejávamos desde os 8. Não que fosse muito difícil, considerando que vivíamos em Londres, mas por termos estudado durante quase toda a vida em um colégio interno, aproveitávamos as férias para ficar com nossa família. Por essa razão, havíamos prometido fazer nossa viagem dos sonhos aos 21, quando fôssemos maiores de idade e já estivéssemos livres do internato. Mas, infelizmente, não pôde me acompanhar.
Estava quase tudo preparado para a viagem quando uma incrível oportunidade de emprego surgiu para ela. estava estudando Medicina Veterinária e havia conseguido estágio em uma das maiores clínicas de Londres. Cheguei a desfazer meus planos, mas ela me fez prometer que viria e me divertiria por ela: “Se você não for agora, logo também estará trabalhando. Prometemos que iríamos com 21 anos, certo? Realiza esse sonho por mim", me pediu. Seus olhos brilhavam e notei como ela estava feliz, mesmo que um pouco decepcionada por não poder ir comigo.
Demorei alguns dias decidindo, mas logo percebi que precisava daquela viagem, não só por ser algo com o que eu sonhava, mas por precisar respirar um pouco. Eu amava minha vida em Londres, adorava minha faculdade e o curso de Jornalismo que fazia, mas, exceto por , me sentia sozinha. Eu não tinha muitos amigos e o único relacionamento amoroso que havia tido fora um total desatre, visando que, antes de terminar comigo, o cara havia dormido com metade das meninas da minha sala - e as que se diziam minhas amigas só me contaram o que sabiam depois que o namoro havia acabado. Resumindo: minha vida estava arruinada e eu precisava descansar.

Continuei a caminhar, sentindo uma alegria inexplicável por finalmente estar no lugar com o qual eu havia sonhado por anos, mas logo meus passos foram interrompidos por dois brutamontes que se puseram em meu caminho e começaram a falar coisas que eu não entendia.
- Pardon, eu não falo francês - disse sem graça, com um forte sotaque britânico, e tentei passar por eles, mas os dois voltaram a fechar meu caminho e falar palavras indecifráveis para mim.
Eu sei que é bastante idiota viajar para um lugar sem saber falar sua língua natal, mas, durante minha vida como estudante no internato, fui obrigada a aprender alemão e italiano e, embora desejasse desde pequena saber falar francês, só pude começar o curso meses antes da viagem, o que não adiantou em nada quando eu finalmente cheguei a Paris.
Naquele momento, em frente à Torre Eiffel, em meio a pessoas de todas as partes do mundo e sendo abordada logo por dois gorilas franceses, ponderei se não teria sido melhor concluir meu curso antes de ir parar ali.
- Me desculpe, eu não entendo. Não sei falar francês - falei inultimente em inglês e os dois abriram sorrisos medonhos, enquanto me examinavam com os olhos. - Je ne parle pas français - arrisquei uma das poucas frases que havia aprendido, apesar de ter certeza que aquilo soara muito estranho, e eles começaram a rir.
Suas risadas eram assustadoras e logo percebi que eu estava numa enrascada. Afinal, eu era uma garota sozinha sendo encarada por dois homens enormes e feios. O mais alto tinha uma cicatriz em cima do olho direito e usava blusa sem manga naquele frio de fim de outono. Boa coisa não podia ser. Eu precisava encontrar uma maneira de me livrar daqueles dois. E rápido. Quando os vi caminhando para mais perto de mim, contei até três, abaixei a cabeça e sem pensar me joguei no meio deles, tentando correr o mais rápido que pudesse. O que, obviamente, foi intútil. Eles mal se mexeram com o impacto do meu corpo e, quando eu tentei passar, um me segurou pelo braço e continuou a dizer coisas sem sentido. Eu já me preparava para gritar quando ouvi algo familiar.
- Tá tudo bem por aqui? – uma voz masculina perguntou atrás de mim e eu me senti um pouco, bem pouco, aliviada por ouvir alguém falar inglês. Em seguida, a mesma voz começou a dizer coisas em francês e os dois brutamontes que estavam na minha frente começaram a parecer envergonhados. Engoli em seco, tentando manter uma pose de mulher segura, e senti que a mão que apertava fortemente meu braço se afrouxava e me largava. Sem pensar, recuei dois passos.
Entre aquele monte de palavras em francês que eram ditas, consegui reconhecer um mademoiselle e um pardon saindo da boca dos dois gorilas e eles logo se viraram para ir embora, com a mesma cara de idiotas que estavam quando se aproximaram de mim.
Mal pude acreditar quando me vi livre daqueles dois e só então notei o quanto meu coração estava acelerado. Parecia que ele trabalhava em dobro para tentar garantir que o oxigênio, que se recusava a entrar nos meus pulmões, chegasse ao meu cérebro. Permaneci parada, tentando me acalmar e ouvi o homem que estava atrás de mim voltar a dizer:
- Você está bem? Eles fizeram alguma coisa? - sua voz parecia sinceramente preocupada e eu decidi encará-lo para agradecer por seja lá o que ele tivesse feito.
Eu estava conseguindo recuperar novamente meu raciocínio quando me virei. E tudo voltou a se embaralhar na minha mente. A primeira coisa que identifiquei foram seus olhos brilhantes, que se destacavam acima das bochechas rosadas, e a segunda foi sua boca desenhada perfeitamente. Tudo bem, ele não era o cara mais lindo do universo - talvez de Paris, sim -, mas havia algo nele que realmente me chamava atenção. Talvez fosse a profundidade de seus olhos ou a forma como suas sobrancelhas estavam franzidas sobre eles, indicando sua preocupação, ou talvez fosse sua voz levemente rouca e incrivelmente sexy, quando ele voltou a falar, me encarando.
- Tá tudo bem? - ele insistiu ao ver que eu não dissera nada e pisquei várias vezes seguidas antes de conseguir recuperar a sanidade e disparar um milhão de frases em seus ouvidos.
- Oh, sim, muito obrigada! De verdade, eu não sei o que você disse a eles, mas realmente me ajudou, eu estava ficando desesperada porque não sei falar francês. Eu sei que é estranho vir a Paris sem saber falar francês, mas...
- - ele me interrompeu, com um leve sorriso no rosto, e ofereceu sua mão direita. Eu o encarei confusa e ele ampliou seu sorriso. - Meu nome. . E o seu? - Continuou com sua mão esticada e eu a apertei retribuindo seu sorriso.
- Me chame de... Gigi - falei, não muito convicta do que estava fazendo, e ele riu divertido.
- Gigi... Esse não é realmente seu nome, não é? - me perguntou, piscando um olho. Eu devo novamente ter ficado com cara de idiota observando-o, pois, só quando ele soltou minha mão, eu me lembrei que ainda não havia respondido.
- Hã? Por que não? Eu não posso me chamar Gigi? - perguntei confusa, sem saber como ele havia percebido que eu estava mentindo.
- Pode, claro que sim. Mas eu sei quando uma pessoa tá mentindo e você mente muito mal - riu e eu me peguei embasbacada com o quanto ele se sentia à vontade conversando comigo, considerando-se que fazia menos de cinco minutos desde que eu o vira pela primeira vez na vida. - Eu estive estudando os gestos humanos pela internet, como quando uma pessoa está desconfortável, mentindo ou desinteressada. Eu tô ficando realmente bom nisso. Por exemplo, agora você está se sentindo um pouco desconfortável, assustada, você se fechou - ele disse e apontou para meus braços, que eu havia cruzado fortemente sobre o peito, sem ao menos notar, logo depois de cumprimentá-lo.
- Isso não é difícil de deduzir, senhor espertão. Eu acabei de ser abordada por dois homens medonhos, é de se esperar que eu esteja receosa e assustada - falei convicta, descruzando meus braços e apoiando minhas mãos na cintura. - Aliás, o que você disse a eles?
- Primeiro me diga seu nome, Gigi - ele riu, parecendo estar realmente se divertindo com aquilo e eu rolei meus olhos.
- Não te conheço o suficiente... Nem sequer entendi o que você estava dizendo a eles, você pode ser parte da gangue e estar encontrando uma maneira de se aproximar.
- Gangue? - gargalhou. - Juro que não sou parte de nenhuma gangue, só quero saber o nome da mocinha indefesa que eu ajudei a salvar hoje...
Mocinha indefesa, ótimo! Era realmente essa a impressão que eu queria passar a ele. Rolei novamente os olhos e o encarei séria.
- Muito bem, Superman, então me chame de Louis Lane - sorri cínica e ele pareceu gostar daquilo, pois abriu um meio sorriso. Um meio sorriso muito sexy. Um meio sorriso que fez com que eu desfizesse o meu e voltasse a olhá-lo com cara de idiota.
- Você é muito complicada, Louis Gigi Lane. Mas eu tenho uma proposta: eu te digo o que falei aos caras e você me diz seu nome, combinado? - propôs, dessa vez me encarando seriamente, e concordei balançando a cabeça. - Eu disse a eles que você é uma garota muito bonita e que eu adoraria te convidar pra sair.
Eu não sei o porquê, nem como, mas senti meu coração dar um giro completo dentro do meu peito naquele momento. Enquanto me encarava com um pequeno sorriso, eu me perguntava se aquilo estava realmente acontecendo. Um minuto atrás eu estava sendo atacada por franceses malucos e agora estava sendo convidada para sair por um cara que eu nunca havia visto antes. Um cara muito lindo.
- Você não disse isso a eles - falei, não conseguindo segurar um sorriso.
- Não... Você também é boa em detectar mentiras, hein? - ele piscou um olho pra mim e riu. - Mas estou falando isso agora pra você.
- E por que eu deveria concordar? - perguntei, tentando pensar rapidamente em algo. Eu precisava ser sensata, não podia decidir uma coisa assim enquanto estava completamente vulnerável ao sorriso sexy que ele estava dando de novo.
- Por que eu sou o Superman? Ou talvez porque eu seja lindo e sexy? Ou por eu não ser um francês estranho que quer se aproveitar de você?
Era até engraçado como eu concordava com tudo aquilo. E estava prestes a aceitar quando um pouco do meu bom senso retornou a mim. Eu não podia sair com um cara qualquer simplesmente porque ele havia caído do céu e me salvado de dois malucos. Eu estava em um país estranho, onde pessoas falavam uma língua completamente diferente da minha, e havia acabado de passar por uma situação perigosa justamente por isso. E se ele quisesse se aproveitar de mim? Ou roubar meus rins? A vive falando que um órgão pode custar mais de 20 mil dólares no mercado negro. Não podia me encontrar com um homem qualquer porque ele havia sido brincalhão e sabia falar inglês. E era incrivelmente sexy.
- Ou talvez você devesse aceitar por ser o destino. Eu estava aqui no exato momento que você precisou, isso você não pode negar - ele continuou insistindo e eu encontrei ali a desculpa perfeita para me safar. Aliás, eu sequer sabia o que ele havia visto em mim para querer que nos encontrássemos de novo. Aquilo definitivamente não podia ir pra frente.
- Se foi obra do destino, ele vai te colocar no meu caminho de novo - falei, com um sorriso vitorioso no rosto. - Vamos deixar nas mãos da sorte, se for pra gente se encontrar mais uma vez, isso vai acontecer.
- Você já viu o tamanho dessa cidade? - perguntou, parecendo desanimado, e eu dei de ombros.
- Isso não é problema para o destino - pisquei um olho para ele e respirei fundo, decidida. - Obrigada de novo por ter me ajudado, foi legal te conhecer. Adeus, . - Me virei e comecei a caminhar, tentando não pensar em nada que pudesse me fazer mudar de idéia.
- Ei, espera! - ele gritou. - Você não me disse seu nome!
Olhei para trás, sem parar de caminhar, e abri um enorme sorriso. esperou, mas logo entendeu que eu não diria nada e apenas levantou a mão para me dar um adeus silencioso.
Caminhei sozinha até encontrar um táxi, certa de que havia tomado a melhor decisão. Afinal, se ele estava ali na hora que eu precisei, não seria difícil encontrá-lo de novo. Eu estava segura a respeito disso durante todo o trajeto até o hotel onde estava hospedada, mas, quando finalmente cheguei ao meu quarto, uma angústia enorme me invadiu ao me dar conta de que provavelmente não o veria nunca mais. Tudo que eu sabia era seu nome e isso não significava nada. Eu nem sequer o havia agradecido direito e apesar de ter sido bastante simpático comigo, eu me neguei a dizer meu nome.
Dei um pequeno tapa na minha cabeça, me culpando por ser tão insegura, e me lembrei novamente de , que vivia me dizendo o quanto eu precisava “me abrir para o mundo”. Eu já imaginava o que ela diria quando eu a contasse sobre : “Amiga, pára de esperar um príncipe bater na sua porta com um sapatinho de cristal em mãos. Esse garoto, com certeza, foi o mais perto de um príncipe que você vai chegar na sua vida. Aparecer com esse jeito de super-herói é piegas, mas é o jeito mais fácil de se aproximar de um conto-de-fadas. Você deveria ter dado seu nome, seu telefone, o endereço do hotel, e marcado o dia e a hora do encontro”. Tudo bem, ela não diria tudo isso. No máximo a primeira frase. E o resto ficaria por conta de minha imaginação que me auto-culpava.
Tentei me desligar um pouco daqueles pensamentos e peguei o roteiro de atividades do meu pacote turístico para ver o que faria no dia seguinte. Uma visita ao Museu de Louvre e o resto da tarde livre para fazer compras. Uma tarde inteira livre para fazer compras. Uma tarde inteira livre. Uma tarde perfeita para se marcar um encontro. Um encontro que eu poderia ter marcado com .
Dei outro tapa na minha testa, me recusando a voltar a pensar naquilo. Afinal, o que eu poderia fazer agora? Já havia tomado minha decisão e não havia volta. Talvez aquilo tivesse realmente sido o melhor. E se ele fosse um maníaco? Ou fosse amigo dos dois brutamontes que haviam me atacado? Eu não sabia o que ele havia dito a eles, poderia muito bem ser um “tudo bem, deixe comigo”. Não era só porque ele era lindo que era confiável e eu sabia que era por isso que havia tomado a decisão de ir embora. Mas, então, por que eu estava tão arrependida?
Desanimada, olhei no relógio do meu celular e vi que já passava das sete horas. Decidi tomar um longo banho para relaxar e depois jantei no restaurante do hotel, antes de voltar para o meu quarto e ligar para meus pais, apenas para garanti-los de que eu ainda estava viva. Quando minha mãe conseguiu desligar, já passava das nove horas e, apesar de não me sentir nem um pouco com sono, achei que seria melhor dormir e tentar apagar as lembranças desse dia estranhamente inusitado.
Acordei na manhã seguinte com uma disposição inexplicável e fiz minha higiene matinal ao som de algumas músicas francesas que eu havia conhecido nos primeiros bistrôs que visitei ao chegar a Paris. O ponteiro das horas do relógio se aproximava do número oito e eu nem me importei com o fato de ter acordado tão cedo nas férias. Fui ao salão de café-da-manhã e encontrei ali o guia que me levaria, junto a um grupo de turistas alemães, ao Louvre.
Eu não era uma grande fã de museus, mas saber que eu iria ao Louvre era diferente. Era como dizer que não era fã de música pop, mas ter uma chance de ficar cara a cara com Michael Jackson, algo realmente grandioso. E isso era o que me mantinha tão empolgada naquela manhã.
Não demoramos a sair e igualmente rápido chegamos àquele lugar maravilhoso, onde, mais uma vez, era possível encontrar gente de toda parte do mundo, exceto da França. Passeei por todas as galerias, fiquei horas babando no quadro da Mona Lisa e quase me perdi do grupo diversas vezes por ficar para trás observando alguma coisa, ou tentando descobrir algum segredo em um quadro misterioso – no melhor estilo Dan Brown, aquele autor de O Código Da Vinci. Era realmente engraçado como eu estava me comportando como alguém realmente apaixonado por museu, algo que eu não era até pisar ali.
Louvre nos tomou várias horas e só nos demos conta de que tínhamos que almoçar, e de quanta fome sentíamos, quando vimos em nossos relógios que já era quase uma hora da tarde. Almoçamos juntos em um restaurante próximo ao museu e foi ali que o guia se despediu de nós, afirmando que poderíamos curtir nossas compras. A maldita tarde livre havia chegado.
Me senti frustrada ao perceber que toda a minha tentativa de fazer aquele dia valer a pena havia ido embora juntamente com o guia. Tudo bem que fazer compras é sempre bom, mas além de não ter para me acompanhar, eu não podia sair pelas ruas de Paris olhando no rosto de todas as pessoas, esperando ver alguém em especial, assim como eu havia feito a manhã inteira, embora tivesse tentado esconder até de mim mesma.
Eu não tinha outra alternativa a não ser voltar para o hotel e passar o resto do dia com a cara enfiada no computador, conversando com ou vendo coisas sem sentido na internet. Mas eu sabia que aquilo também não me deixaria satisfeita. Eu estava em Paris, curtindo as férias da minha vida, não podia ficar trancada em um hotel.
Com aquela decisão na cabeça, abandonei o restaurante e busquei em minha bolsa o mapa que eu havia comprado, procurando ali algo que pudesse me distrair. Caminhei por praças, comprei uma entrada para um teatro que aconteceria no dia seguinte e assisti a um filme. Tentei manter minha mente ocupada o bastante e consegui um bom resultado, considerando que já era quase seis horas da tarde quando voltei a pensar naquele garoto desconhecido do dia anterior. E se eu o visse de novo, o que eu faria? Correria até ele dizendo o quanto estava feliz por vê-lo outra vez?
Sacudi a cabeça lentamente, rindo de mim mesma por ser tão ridícula, e comecei a procurar por um táxi que pudesse me levar de volta ao hotel, sentindo que já havia caminhado mais do que minhas pernas podiam aguentar por um dia. Dei sinal para um dos carros que passavam por ali e exatamente no momento em que ele parava perto de mim, uma imagem do outro lado da rua me fez congelar. O rapaz estava de costas, mas seu cabelo e o modo como gesticulava... Não, não podia ser ele! Permaneci observando-o, sem perceber que involuntariamente estava prendendo minha respiração, enquanto o motorista reclamava impaciente. Pedi mentalmente que ele olhasse para trás, eu precisava de uma confirmação. Então, quando o taxista ameaçou partir sem mim, o garoto se virou e me encarou com um sorriso divertido nos lábios.

Capítulo II

Meu coração começou a bater tão forte quando nossos olhos se encontraram que tive que me apoiar na lataria do táxi para não cair, enquanto meus joelhos amoleciam. O motorista continuou a reclamar, mas eu já não prestava mais atenção. Estava completamente presa ao sorriso vitorioso que mantinha no rosto.
Levei alguns longos segundos para me recuperar do choque de encontrá-lo ali, tão casualmente, e dispensei o taxista ao ver que o garoto fazia um movimento com a cabeça, me chamando. Algumas meninas estavam ao seu redor, mas, após algumas palavras dele, elas se foram e ele me aguardou sorridente enquanto eu atravessava a rua.
- Me diz que isso não é uma coincidência... - falei, tentando não demonstrar no meu tom de voz o quanto eu estava nervosa, assim que o alcancei - Paris é enorme, não tem como nos encontrarmos por acaso por dois dias consecutivos.
- Juro que não estava te seguindo! - riu - Acho que o destino nos mandou uma mensagem.
Fiquei muda ao ouvir aquela frase e me lembrei do que havia dito no dia anterior. Seria possível? Eu não era uma pessoa completamente cética, mas também não confiava muito nisso de destino, astrologia e todas essas coisas místicas. Porém, se aquilo estava realmente acontecendo, tinha que ter uma explicação. A menos que ele fosse um maluco que estivesse me vigiando o tempo inteiro, esperando me pegar desprevenida e terminar de colocar seu plano em prática.
Involuntariamente, recuei um passo.
- Pelo menos dessa vez você não estava em apuros... Já aprendeu a andar por aqui? - ele perguntou, tranquilamente, e eu não pude conter um pequeno sorriso.
- Estou melhorando... - falei modestamente.
- Você sabe que aquele táxi é só para quem vai ao aeroporto, né? - questionou com uma expressão um tanto engraçada e eu arregalei meus olhos, já imaginando a confusão que eu arrumaria ao descobrir aquilo. Mas logo meus pensamentos se desfizeram com sua risada alta. - É brincadeira, aquele era só um táxi normal... Mas foi divertido ver sua cara de assustada. Você ainda está completamente perdida em Paris, Gigi.
Comecei a rir, sem poder acreditar no quão besta eu era por cair naquela brincadeira, mas logo parei ao perceber como ele havia me chamado. Ele havia lembrado meu nome. Bom, não meu nome, o pseudônimo que eu inventara de última hora no dia anterior. Enquanto respirava fundo e sacudia um pouco minha cabeça negativamente, notei que ele me observava e parecia estar pensando exatamente no mesmo que eu.
- Agora já pode me dizer seu nome?
Fechei meus olhos devagar e respirei lenta e profundamente, antes de voltar a abri-los e o encarar com um pequeno sorriso.
- . Meu nome é - falei e ofereci minha mão para, finalmente, cumprimentá-lo corretamente. Mas, ao invés de apertá-la, ele a segurou com leveza e deu um pequeno beijo em seu dorso.
- Encantado - falou com uma voz sedutora demais para minha sanidade e eu me peguei, involuntariamente, observando como seus lábios se movimentavam.
- Então, - falei após pigarrear, soltando minha mão da dele - o que você fazia por aqui, ?
- Ah, eu estava trabalhando em um projeto aqui por perto. Digamos que fui liberado há poucos minutos. - Ele sorriu confiante, parecendo não notar o quanto eu estava nervosa.
- Projeto? Como projeto de engenharia? Projeto de arquitetura? - comecei a sugerir e ele me pareceu confuso.
demorou um pouco a responder e aparentava estar pensando seriamente no que me dizer. Eu continuei a encará-lo, mas não quis insistir muito em minha dúvida quando ele, finalmente, me respondeu:
- Er... Engenharia. É, estou participando de um projeto de engenharia aqui em Paris.
- Isso explica muita coisa. - Sorri, sem saber se realmente significava algo útil.
- E você? O que te trouxe a Paris? - ele perguntou curioso.
- Essa era uma viagem que eu havia planejado com minha melhor amiga, mas ela não pode vir - comentei superficialmente, embora já houvesse percebido que ele não se daria por satisfeito.
- Que tal tomarmos um capuccino enquanto você me conta direito essa história?
- Agora? - perguntei, consultando o relógio do meu celular, e ele deu de ombros, nem um pouco preocupado em saber que horas era. - A história não é muito pequena...
- Não tenho pressa - falou sorrindo e eu não consegui dizer não.
Enquanto caminhávamos até o Le Café Marly, contei a ele sobre e o quanto eu gostaria que ela estivesse comigo. pareceu bastante interessado nas coisas que eu dizia, embora, algumas vezes, me interrompesse para mostrar certos lugares que garantia serem indispensáveis de se conhecer, se eu quisesse voltar para Londres dizendo que havia visto o melhor de Paris.
Tomamos nossos capuccinos enquanto ele me contava também um pouco de sua faculdade e seus projetos, mas eu não consegui prestar muita atenção em suas palavras já que meus olhos apenas acompanhavam os movimentos de seus lábios e seus lindos sorrisos.
De qualquer maneira, era estranho pensar em como um engenheiro. Aquela profissão definitivamente não se encaixava com ele. Talvez ele se saísse melhor como um ator de Hollywood ou, pelo menos, naqueles seriados juvenis de sucesso. Ou ainda, quem sabe, como um rockstar... Cantando em cima de um palco com uma multidão de garotas chorando por ele, gritando seu nome e...
- ? - a voz de me trouxe de volta à realidade e eu pisquei algumas vezes seguidas para voltar a me concentrar no que ele dizia.
- Me desculpe, eu me distraí - falei sem graça e ele sorriu.
- Estava perguntando quanto tempo mais você ficará na cidade...
- Ah, sim. De acordo com meu pacote turístico, eu ainda tenho três noites em Paris - falei aparentemente tranquila, mas ao terminar de dizer aquilo, me assustei ao perceber que era aquele o prazo para conhecê-lo melhor também.
- Eu queria te propor algo - continuou, sem permitir que meus pensamentos fossem mais longe dessa vez. - Estou indo para Lille amanhã e gostaria que você também fosse.
- Você o quê? - perguntei, sem saber se eu havia entendido direito. Ele estava realmente me convidando para uma viagem? Mesmo a gente tendo se conhecido há pouco mais de 24 horas?
- Vamos, vai ser legal! Eu já ouvi dizer que os melhores vinhedos são daquela região... Você vai gostar.
- , se eu levei um dia inteiro para te dizer meu nome, o que te faz pensar que eu aceitaria uma proposta de viajar com você tão rápido? - perguntei, tentando me manter em sã consciência.
- Aposto que sua amiga não diria 'não'... E já que você gosta tanto de deixar as coisas na mão do destino, que tal deixarmos ele escolher mais uma vez? - perguntou tirando uma pequena moeda do bolso. - Se der 'cara' você vem comigo. Se der 'coroa' eu vou sozinho e a gente provavelmente não se vê nunca mais.
Tentei esconder o quanto sua última frase havia mexido comigo e ponderei se deveria aceitar seu desafio. Eu sabia que estava correndo risco, mas ao mesmo tempo queria acompanhá-lo. Mais uma vez, sem saber o que fazer, resolvi deixar nas mãos do destino. Ele não havia me desapontado da primeira vez... E eu esperava que não desapontasse de novo.
- Espera. Como vou saber se sua moeda não tem algum problema? Ou se não tem dois lados iguais? - questionei cruzando meus braços.
- Pegue uma sua então. - rolou os olhos e eu concordei, pegando em minha bolsa uma moeda de cinco cêntimos.
Segurei-a entre o dedo indicador e o polegar, engoli em seco e a joguei para cima. não deixou que ela voasse por muito tempo e a pegou no ar com sua mão direita. Em seguida, a colocou sobre o dorso de sua mão esquerda e me encarou com um olhar divertido.
- 'Cara', você vem. 'Coroa', eu vou sozinho - repetiu seriamente, como se fosse algum mantra, e eu sacudi a cabeça concordando.
Notei então como meu coração estava disparado e isso só piorou quando ele começou a tirar sua mão direita de cima da esquerda. Semicerrei meus olhos, como se estivesse com medo do resultado, e senti meu coração pular no peito ao ver estampada na moeda a Efígie de Marianne.
- Que Lille nos aguarde, então! - falou, com um sorriso gigantesco nos lábios.
Eu não tinha muita ideia do que estava fazendo, mas de alguma forma aquilo parecia certo. Eu não era uma pessoa importante, nem muito rica, para acreditar que tudo era um plano maligno para me sequestrar. Pela primeira vez eu havia decidido fugir das normas dentro das quais havia vivido toda a minha vida.
Após conversamos mais um pouco, nos despedimos e eu segui para o hotel. prometeu que cuidaria das passagens e tudo que eu tinha que fazer era estar na estação de trem no horário certo. Ele também havia se proposto a pagar minha passagem, mas eu lhe garanti que o daria o dinheiro assim que nos encontrássemos, embora já soubesse que ele dificilmente aceitaria. Não que eu não gostasse de gentilezas e cavalheirismos, mas eu realmente achava uma exploração ele pagar as passagens de trem a Lille para uma estranha. Uma estranha. Meu estômago gelou ao pensar que iria viajar com uma pessoa completamente desconhecida! Se minha foto aparecesse no noticiário de desaparecidos das 20h, minha mãe ia me matar. Isso se eu já não estivesse morta!
No meu quarto de hotel, liguei meu notebook e resolvi que precisava dos conselhos de . Já fazia um tempo que eu não conversava com ela e queria saber sua opinião sobre o que havia acontecido. Talvez fosse melhor e mais prático contar por e-mail, já que ela provavelmente não estaria online, então logo comecei a escrever:

Ei, !
Espero que esteja tudo bem por aí, principalmente no estágio. Cuide bem desses bichinhos!
Queria muito que você estivesse aqui comigo. Você não imagina o quanto essa cidade é maravilhosa! Muito mais do que sonhávamos quando passávamos horas olhando fotos e assistindo a vídeos daqui.
Mas não é por isso que estou te escrevendo. Essas coisas eu te conto e mostro quando voltar a Londres. Estou te mandando esse e-mail porque preciso de um super conselho da minha melhor amiga. Acho que estou me metendo em uma enrascada. E o pior é que eu quero isso...
Ontem eu conheci um garoto muito lindo, ele me ajudou quando alguns brutamontes estavam me assustando, e, desde então, eu não consigo tirá-lo da cabeça. É estranho, eu nunca tinha pensado tanto em alguém antes.
Seu nome é e ele parece um rockstar, tenho certeza que você babaria por ele se estivesse aqui. Ontem nós conversamos por pouco tempo e eu nem sequer dei a ele meu verdadeiro nome. Passei a noite inteira acreditando que nunca mais o veria novamente, mas hoje nós voltamos a nos encontrar, não é estranho? Quer dizer, olha o quanto essa cidade é grande, a chance de vê-lo de novo era mínima.
Nós fomos tomar um capuccino juntos e então ele me convidou para ir com ele a Lille amanhã, disse que iríamos conhecer alguns vinhedos... E eu aceitei. Bom, não fui bem eu que aceitei, o destino resolveu por mim. Nós tiramos no "cara ou coroa" e acabou saindo a opção que me comprometia a acompanhá-lo. É claro que eu posso simplesmente não aparecer na estação amanhã, mas esse é o problema: eu quero ir.
Preciso da sua opinião! Você acha que estou ficando louca? Por favor, responda assim que receber esse e-mail.
Estou com saudades,


Reli tudo que havia escrito e cliquei em 'enviar'. Em seguida, rezei para que não demorasse muito a me responder, já que o trem partiria logo após o almoço e eu precisava ter uma decisão formada até lá.
Resolvi tomar um banho quente, colocar meu pijama preferido e me enfiar embaixo das cobertas, já que o sono já começava a tomar conta de mim, mas antes de desligar meu notebook, dei uma última olhada na minha caixa de e-mails e senti meu coração disparar ao ver que ela já havia me respondido:

Oi, !
Até que enfim se lembrou que tem uma melhor amiga morrendo de saudades de você, não é?
Fiquei feliz ao ver seu e-mail, principalmente quando acabei de ler o que você havia escrito. Que gracinha, minha amiga está apaixonada...
Esse tal deve ser mesmo um deus grego pra conseguir te deixar assim. Então aqui vai meu conselho: aproveite, amiga!
Eu já te contei aquilo dos rins no mercado negro, não é? Mas não se preocupe, tenho certeza que vai ser muito melhor se ele te roubar o rim e vender por 20.000 do que te roubar o coração e deixá-lo para trás, quebrado e sem valor.
Depois quero saber de tudo que acontecer por lá!
Desculpa não escrever muito, estou morta de cansaço e já estava indo dormir quando chequei minha caixa de e-mails. A clínica é maravilhosa, mas aqueles bichinhos realmente me cansam! Quando você voltar eu te conto tudo.
Aproveite Paris, aproveite Lille e aproveite o !
To morrendo de saudades de você,


Não pude conter um sorriso ao terminar de ler aquilo. estava certa, eu não deveria ter medo... Mas, ela havia escrito "apaixonada"? Eu não estava apaixonada! era bonito e eu poderia estar bastante empolgada, mas isso estava longe de ser uma paixão. Afinal, quem se apaixona em apenas dois dias por uma pessoa que mal conhece?
Respondi a agradecendo e pedindo que, caso eu não desse sinal de vida em 48 horas, ela tentasse me achar. Em seguida, fui dormir, já sabendo que o dia seguinte seria longo.

O relógio da estação ferroviária marcava duas horas da tarde quando cheguei lá. Segundo havia combinado com , nós iríamos no trem das 14:30 e, já que estava ali, eu esperava que ele também aparecesse, até porque eu havia desperdiçado o ingresso da peça de teatro que comprei no dia anterior.
Caminhei pelo lugar à sua procura e então ouvi que alguém me chamava. Senti um enorme frio na barriga ao me virar e vê-lo escorado no batente da porta de uma sala qualquer, com os cabelos molhados, levemente bagunçados, e óculos escuros. Irresistivelmente sexy.
- Não tinha te visto - falei sorrindo, me aproximando dele.
também estava sorrindo e, quando cheguei perto, ele envolveu minha cintura com um braço e me deu um beijo macio na bochecha, fazendo minhas pernas se amolecerem rapidamente.
- Fiquei com medo de você não aparecer... - ele disse com a voz calma, fazendo um gesto para que eu entrasse na sala. O acompanhei e notei que aquela era uma espécie de área vip da estação, como as dos aeroportos.
- Eu te dei minha palavra - respondi, franzindo minha testa ao reparar o local. - Por que estamos aqui?
- Digamos que estou me escondendo dos meus amigos. - Ele apontou para a janela de vidro fumê e vi lá fora três garotos rodeados por um bando de adolescentes.
- Parece que são bem populares... - observei e ele deu de ombros.
- Eles costumam fazer sucesso com as garotas.
- E você? - perguntei, o encarando com um meio sorriso de lado.
- Eu fujo e me escondo deles - falou, rindo. - Estou brincando, eu não sou tão antissocial assim. Hoje eu fugi porque acreditam que eu estou indo com eles de volta para Londres e sei que vão se irritar ao descobrirem que vou a outro lugar. - Fez uma cara sapeca e piscou um olho pra mim.
- Então quer dizer que essa sua viagem a Lille não era planejada?
- Claro que sim! Eu a planejei enquanto íamos àquele café ontem - me respondeu, rindo.
- Você é maluco! - comentei, também rindo um pouco, e dei um pequeno tapa em seu braço. - Seus amigos também estão trabalhando nesse seu projeto?
- Sim, terminamos hoje... - falou baixo e, após olhar as horas em seu relógio, começou a encarar os pés.
Ficamos então em silêncio, apenas ouvindo o zumbido das conversas das pessoas que passavam apressadas pela estação, e esperando o anúncio da nossa viagem. Não demorou nem cinco minutos para que aquela voz eletrônica anunciasse nos alto-falantes a chegada do nosso trem e , após me entregar meu bilhete, colocou sua mochila nos ombros e se prontificou a carregar minhas malas.
Saímos daquela sala e partimos em direção ao trem. Fiquei espantada com a quantidade de gente que havia surgido de repente e, a cada passo que dava, o frio em minha barriga se intensificava. Porém, se antes eu sentia medo, naquele momento estava decidida a continuar com aquela loucura.
ia na frente, tentando abrir caminho entre a multidão, e eu o seguia animada. Algumas pessoas passavam entre nós e outras me faziam ficar um pouco para trás, mas eu mantinha minha vista presa em sua cabeça, para não perdê-lo.
Eu estava tentando permanecer tranquila e caminhar rapidamente para alcançá-lo, porém, aos poucos, foi ficando mais longe. Comecei a passar deseducadamente pelas pessoas, numa tentativa de me aproximar de novo e foi aí que esbarrei em uma senhora que usava uma blusa tricotada e minha pulseira ficou presa numa linha. Depois de quase derrubá-la, pedi desculpas e tentei seguir, mas ainda estava agarrada. Desesperada, comecei a puxar minha pulseira, mas isso só fazia com que a blusa daquela senhora estragasse mais.
Levantei minha cabeça, a fim de enxergar por onde ia, e o vi muito distante. Tentei gritá-lo algumas vezes, fazer com que ele olhasse para trás e visse onde eu estava, mas minhas tentativas foram inúteis. Derrotada, voltei a abaixar minha vista e cuidei de soltar minha pulseira da blusa da senhora, que também estava tentando e me pedindo mil desculpas.
Quando, finalmente, me vi livre daquela situação, procurei pela cabeça de , mas já não era mais possível encontrá-lo. Ignorando todas as pessoas que passaram por mim em seguida, continuei meu caminho até o trem, afinal, ele tinha que estar ali dentro. Mas, quando cheguei à entrada do meu vagão, meus passos se detiveram e um medo estranho surgiu em mim. Enquanto buscava uma solução, permaneci ali parada, sozinha e com apenas um pequeno bilhete em mãos.

Capítulo III

Última chamada para embarque. Passageiros com destino a Lille, se dirijam a seu trem.
A voz metálica saía de uma pequena caixa de som perto da minha cabeça e meu coração batia acelerado. Eu tinha duas opções e poucos minutos para decidir o que fazer: ou eu embarcaria, correndo o risco de ir parar sozinha em uma cidade completamente desconhecida, e sem minhas bagagens, ou ficaria ali, também correndo o risco de ficar sozinha e sem minhas bagagens.
Sem saber direito o que estava fazendo, movimentei meus pés em direção ao trem e entrei segundos antes de as portas se fecharem.
Caminhei pelos vagões em busca do meu assento, torcendo para que também estivesse lá. Um funcionário que passava por mim pareceu notar que eu estava perdida e me ofereceu ajuda, então mostrei a ele meu bilhete e, pelos sinais e as poucas palavras que pude traduzir na minha cabeça, entendi que ele me mandava seguir em frente.
Continuei andando, notando que algumas pessoas me olhavam, e supus que elas estavam se perguntando onde estariam minhas malas, já que eu estava apenas com o bilhete nas mãos. Acabei chegando a uma porta fechada e, sem saber direito se poderia abri-la, tentei enxergar por uma parte de vidro o que havia lá dentro, com a enorme esperança de poder ver ali. Mas tudo que eu enxerguei foi o rosto de um outro funcionário que, ao me ver ali parada, abriu a porta e pediu para ver minha passagem.
O jovem rapaz abriu um sorriso ao ver ali algo que provavelmente eu havia ignorado e, em seguida, permitiu que eu entrasse, apontando para onde eu deveria seguir para encontrar meu assento. Eu não fazia ideia do por quê daquela parte do trem ficar fechada e o que havia em meu bilhete que me permitia entrar, ou por que ali havia um terço do número de assentos dos outros vagões e o dobro do conforto. Mas não foi preciso pensar muito para que eu começasse a entender. Eu iria viajar na primeira classe.
Xinguei mentalmente ao me dar conta de quanto devia custar aquela passagem e me perguntei por que eu havia deixado que ele comprasse os bilhetes sem, ao menos, combinar primeiro o que seria melhor para ambos. Reembolsá-lo a quantia de uma passagem de trem, em Paris, de primeira classe, era muito além do que eu havia planejado gastar naquela viagem. Porém, eu não podia continuar a pensar em dinheiro. Naquele momento, tudo que eu mais queria era que pelo menos estivesse ali.
Passei os olhos por todas as poltronas, procurando por ele, mesmo entre as pessoas que estavam sentadas em lugares com números muito distantes dos nosssos, até que achei a 13A que estava marcada em minha passagem. E foi então que senti meu coração bater apertado, ao me dar conta de que não havia ninguém na poltrona ao lado. Por um momento, tive vontade de mandar pararem o trem e voltar correndo a Paris, mas apenas permaneci imóvel olhando aquele assento vazio e deixando um desespero começar a crescer em mim.
Enquanto continuava ali, com o olhar vago e o pensamento rodando a mil na cabeça, uma porta, que ficava na outra extremidade do vagão e que eu ainda não havia notado, se abriu. Desviei minha atenção para lá no exato momento em que a pessoa entrava e mal pude acreditar ao reconhecer aqueles olhos brilhando em minha direção. pareceu aliviado ao me ver ali e eu fechei meus olhos, soltando lentamente a respiração que eu havia mantido presa sem perceber.
- Eu achei que você tivesse ficado... O que aconteceu? - ele perguntou, se aproximando, e, em um ato impulsivo, me envolveu em um abraço apertado, que fez eu me sentir ainda mais confusa do que já estava. Quando então percebeu o que estava fazendo, ele me soltou e encarou seus pés, desconcertado.
- Er... Minha pulseira ficou presa na blusa de uma senhora e eu tive que parar... Tentei te chamar, mas também logo te perdi de vista. Fiquei em dúvida se você tinha embarcado e por pouco não fiquei em Paris - comentei, enquanto ele me indicava nossos assentos e nós, finalmente, nos acomodávamos.
- Me desculpa, eu deveria ter percebido que você tinha ficado para trás, mas estava com medo de me reconhecerem, então saí correndo - ele falava, mas então se deteve ao perceber minha testa franzida. - Quer dizer... Meus amigos... Eu estava com medo dos meus amigos me reconhecerem e verem que eu estava fugindo deles. - Riu. - Eu só fui notar que você não estava comigo quando embarquei e fiquei sem saber o que fazer. Agora mesmo eu estava indo atrás do chefe de trem para perguntar se você não estava por aí, ou se tinha algum telefone para eu ligar para a estação.
Enquanto ele falava, um pequeno sorriso surgiu em meus lábios e eu não consegui contê-lo. Embora mal nos conhecêssemos, ele havia se preocupado de verdade por eu ter me perdido e até mesmo tentava encontrar uma solução para o nosso desencontro. Ouvi continuar a contar o que se passara por sua mente, o que ele planejara fazer e onde estavam minhas bagagens, e percebi o quanto me sentia à vontade ao seu lado. Era estranho, eu nunca havia me sentido daquela maneira com outros garotos, nem mesmo com os que eu já conhecia por muitos anos. Com tudo parecia diferente.
Quando ele terminou de falar, eu não sabia mais o que dizer e então nós apenas ficamos em silêncio, mas nem mesmo o silêncio era desconfortável ao seu lado. Observei um pouco o que estava passando do lado de fora da janela e recostei minha cabeça no assento para tentar descansar e esquecer um pouco o sufoco que havia passado minutos antes. Mas, ao fazer isso, acabei me lembrando do conforto em que estava e aquilo me levou a iniciar um novo assunto.
- Eu não sabia que viajaríamos na primeira classe... - comentei baixo, tentando não condená-lo pelo meu olhar. girou sua cabeça, que também repousava encostada na poltrona, e me encarou com um sorriso nos lábios.
- É mais confortável, não acha?
- Sim, mas... É mais cara também - falei, rindo sem graça.
- Não se preocupe com isso, as passagens já estão pagas. - sorriu tranquilo e piscou um olho para mim. O velho truque para me deixar completamente desarmada, até parecia que ele já havia percebido aquilo.
- Eu sei, mas... - mesmo assim, tentei argumentar, mas então ele colocou um dedo nos meus lábios, enquanto fazia um som de silêncio com a boca, e eu fiquei muda. Um arrepio percorreu meu corpo e vi seus olhos se desviarem dos meus e olharem para meus lábios. Depois de longos segundos, que mais pareceram horas, ele retirou o dedo e virou seu rosto para frente.
- Me desculpa.
Percebi que ele estava um pouco encabulado e sacudi a cabeça, concordando, antes de também me virar para frente. Ele havia se desculpado, mas eu não tinha muita certeza se era por ter colocado a mão nos meus lábios ou por ter desestabilizado completamente meus batimentos cardíacos.
O silêncio que se seguiu foi um pouco constrangedor e eu apenas voltei a observar a paisagem pela janela, imaginando como deveria ser linda aquela vegetação na primavera, já que agora estava completamente coberta pela fina neve branca que caía. Tentei manter meus pensamentos longe do que havia acabado de acontecer e do efeito que o toque de havia causado em mim. Já estava sendo loucura demais embarcar nessa viagem com ele, eu não podia estar ainda mais vulnerável do que já costumava ser, precisava manter minha auto-proteção bastante firme.
A hipnose que aquela paisagem conseguiu causar em mim foi logo interrompida pelo toque de celular de , mas quando me virei para, finalmente, olhá-lo de novo, vi que ele se levantava e caminhava para longe. Tentei não ficar curiosa, nem deixar que preocupações malucas surgissem em minha mente, e apenas o aguardei paciente. Mas, quando voltou, ele não parecia mais tão à vontade.

A chegada a Lille foi quase tão perturbada quanto o embarque em Paris. Várias pessoas corriam com suas malas pela estação e multidões se espremiam em frente às portas do trem. Enquanto observava toda a movimentação, me perguntei se aquilo acontecia todos os dias ou se todas as pessoas apenas haviam decidido viajar no mesmo dia que nós.
colocou seus óculos escuros e dessa vez não se ofereceu para carregar minhas malas. Caminhou em meio às pessoas com um pouco de pressa e a cabeça baixa e eu continuei repetindo na minha mente o que ele havia dito antes de sairmos do trem. "Caso se perca de mim, me encontre na sala 6. Se eu chegar ao táxi e você não aparecer, eu irei para lá". Como se eu soubesse onde ficava a tal sala 6.
Para evitar qualquer problema, e ele não ficar pensando que eu era uma idiota que vivia me perdendo das pessoas por aí, me mantive firme enquanto passava pela multidão. Mal me desculpei quando esbarrei em alguns passageiros e apressei meu passo quando ele começou a se afastar, conseguindo me aproximar novamente. Então, com um sorriso vitorioso no rosto, parei ao seu lado no exato momento em que um taxista vinha nos buscar.
sorriu para mim ao perceber que eu já estava ali e entregou nossas malas ao taxista. Em seguida, abriu a porta para que eu entrasse e o vi dar uma rápida olhada sobre o ombro antes de entrar atrás de mim.
- Por que você tinha que correr tanto? Parece até que tá fugindo da polícia - brinquei, enquanto prendia meu cabelo em um rabo para que ninguém percebesse a bagunça que ele havia virado.
- Não gosto de ficar no meio de muita gente, tento logo ir para um lugar menos sufocado - ele respondeu meio desajeitado, dando um de seus sorrisos sexys e me fazendo não pensar em mais nada. - Me desculpa ter te deixado pra trás de novo.
Observei dar um endereço ao taxista, assim que o homem ligou o carro, após ter guardado nossas malas no bagageiro, e só então passou por minha mente que eu não fazia ideia de onde ficaríamos. Eu não sabia se havia reservado algum hotel e, caso o tivesse feito, apenas esperava que não fosse o mais caro da cidade.
Mas, quando o taxista pegou uma pequena estrada de terra, eu percebi que não iríamos a nenhum hotel. parecia tranquilo ao meu lado, vez ou outra fazia algum comentário a respeito das histórias que já havia ouvido sobre Lille, e eu tentava me manter calma e não fazer perguntas demais.
Poucos minutos depois, o táxi estacionou em frente a um casarão branco. tirou algumas notas de sua carteira e o pagou, antes mesmo que eu pudesse entender que havíamos chegado ao nosso destino. Ele logo desceu e deu a volta no carro para abrir minha porta, enquanto milhares de coisas já começavam a passar por minha cabeça. Como, por exemplo: o que estávamos fazendo ali?
Enquanto o taxista tirava nossas malas e o ajudava a carregar para dentro da casa, comecei a observar o lugar ao meu redor. O céu nublado escondia um pouco a beleza da vegetação daquele lugar, que, ao contrário das outras que havia visto até então, não estava coberta de neve. Havia um enorme campo de grama verde escuro e bem longe algo que me lembrou uma plantação. Em frente ao casarão, que parecia ter sido construído centenas de anos atrás, uma fonte enorme estava desligada.
Fechei meus olhos e uma imagem veio à minha mente, de um dia ensolarado, a fonte ligada, pássaros voando e fazendo barulho sobre nossas cabeças, crianças correndo e rindo, e um leve sorriso surgiu em meus lábios. Mas, então, eu senti a mão de em meu ombro e abri os olhos, voltando àquela paisagem aparentemente morta de inverno.
- Não quer conhecer a casa? - ele perguntou com um leve sorriso no rosto e eu o encarei receosa.
- Onde estamos? Quer dizer, de quem é essa casa? Nós vamos ficar aqui? - comecei a distribuir um pouco das várias perguntas que surgiam em minha mente e riu. Em seguida, ele segurou em minha mão e começou a me puxar para perto da porta do casarão.
- Essa casa é de um amigo do meu pai, ele me convidou para visitá-lo já faz muitos anos, mas só agora eu tive a oportunidade. Acho que você vai concordar comigo que ficar aqui, já em meio à natureza e pertinho de um vinhedo, seja muito mais interessante do que se hospedar em um hotel.
Eu não disse nada, embora concordasse mesmo com o que ele havia acabado de dizer. Na verdade, eu tinha vontade de perguntar sobre aquele telefonema no trem e por que ele sempre corria na minha frente quando estávamos nas estações. Queria saber por que tinha me ajudado aquele dia em Paris e o que viu em mim para querer que eu o acompanhasse até ali. Mas, ao invés de fazer qualquer uma daquelas perguntas, eu apenas permaneci calada.
Entramos no casarão e eu senti como se tivesse entrado em uma máquina do tempo. Os móveis, a decoração e até mesmo o modo como ele havia sido construído me lembrava as casas dos filmes e novelas antigos que eu costumava assistir no internato. Provavelmente, aquela ali havia sido repassada pelas gerações até chegar às mãos do amigo do pai de . E, claramente, não havia sido uma herança qualquer, aquilo devia valer uma fortuna.
- Bonito, né? - ele me perguntou, observando todo o ambiente com um leve sorriso e as duas mãos enfiadas nos bolsos dianteiros da calça. Em seguida, notei que um senhor de cabelos já completamente brancos se aproximava de nós com um sorriso amigável no rosto.
- , meu menino! - exclamou com os braços abertos, envolvendo em um forte abraço. - Pensei que nunca te veria por aqui, ainda mais agora que anda tão ocupado e ficando conhecido pelo mundo... - o senhor falava, mas logo foi interrompido por , que me olhou com um sorriso sem graça.
- Ele sempre diz isso, acho que é um dos que mais torce para que eu seja o melhor engenheiro do mundo.
Sorri de volta para e olhei novamente para o senhor, que dessa vez parecia estar um pouco constrangido e talvez um pouco confuso também, provavelmente se perguntando quem eu era e o que estava fazendo ali.
- Essa é , espero que não se importe de eu tê-la trazido comigo.
- Imagina! Seja bem-vinda, minha querida - o senhor logo tratou de me receber da melhor maneira possível e eu entendi que ele era o dono daquele casarão. Se estivesse ali, ela provavelmente estaria fazendo alguma brincadeira sobre eu me casar com ele, apenas para herdar tudo aquilo depois que ele morresse. Contive uma risada ao me lembrar de e voltei a prestar atenção no que os dois diziam, enquanto me apresentavam alguns cômodos da casa - dentre eles, o quarto maravilhoso onde eu dormiria.
Mal vi as horas passarem depois que chegamos ali e, por estarmos um pouco cansados, combinamos que deixaríamos para conhecer o vinhedo - que depois descobri ser a plantação que eu vira ao chegar ali - no dia seguinte. Quando anoiteceu, eu e fizemos um lanche leve e uma empregada nos entregou toalhas limpas para que pudéssemos tomar banho.
Meu quarto era, na verdade, uma imensa suíte e o banheiro possuía uma banheira enorme e super convidativa. Minha malas já haviam sido levadas para lá pelos empregados e, enquanto separava meu pijama mais quentinho, voltei a me lembrar de e tentei imaginar o que ela faria se estivesse ali. Bom, provavelmente, se ela tivesse ido a Paris comigo, quem não estaria ali seria eu. Então, por um momento, mesmo que tenha me sentido mal por isso depois, fiquei feliz por ter ficado em Londres.
Tomei um longo e relaxante banho e tentei manter meus pensamentos longe de qualquer preocupação. Se eu havia decidido arriscar ir com até ali, agora não havia mais nada com o que me preocupar, mesmo sabendo que minha mãe enfartaria se ao menos desconfiasse daquilo. Pensei em como seria lindo passear por aquele vinhedo e como era aconchegante a casa em que estava, em como o dia seguinte seria divertido ao lado de e como eu desejava poder, um dia, ter uma casa enorme como aquela para aconchegar minha família, meus filhos e o homem que eu amar.
Estranhamente, a imagem de surgiu em minha mente ao idealizar aquele sonho e então eu decidi que já era hora de encerrar o banho. Mantive minha mente em branco enquanto me enxugava e vestia meu pijama e saí do banheiro me sentindo muito mais relaxada. Enquanto tentava decidir se deixava a toalha molhada no banheiro ou levava a algum outro lugar, ouvi alguém bater à porta. Era .
- Ei, só vim saber se tá tudo bem, se você está bem acomodada... - perguntou, colocando apenas o rosto para dentro do quarto. - Se precisar de alguma coisa, você pode bater no meu quarto, é esse aqui em frente.
- Está tudo ótimo, . Obrigada por perguntar e obrigada por me trazer a esse lugar maravilhoso - respondi sincera, me aproximando dele, que sorria satisfeito.
- O senhor Marback já foi se deitar, amanhã ele tem que estar bem cedo na cidade. E eu também vou pro meu quarto. Se precisar, já sabe, é só bater - ele disse, fazendo um gesto com a mão no ar, como se estivesse batendo na porta, e eu concordei com um sorriso no rosto. - Boa noite!
Senti o hálito quente dele, com cheiro de hortelã, quando se aproximou para me dar um beijo no rosto, e meu estômago se revirou na hora. Quase sem voz, também desejei boa noite e, assim que a porta se fechou, continuei a encarando por um momento, como se esperasse que ela se abrisse de novo e ele aparecesse falando que, na verdade, preferia passar a noite inteira conversando comigo... Mas, ao invés disso, ela permaneceu fechada e em silêncio.
Apaguei as luzes do quarto e me acomodei na imensa cama que havia ali, praticamente afogada em travesseiros. Nunca entendi porque gente rica precisa dormir com quatro travesseiros e algumas almofadas, será que é para não se sentir tão sozinho em uma cama enorme dessas? Me sentindo angustiada, decidi que seguiria o exemplo de todos da casa e também dormiria, afinal, eu tinha que estar bem disposta no dia seguinte, para fazer com que ele fosse perfeito. Fechei meus olhos e esperei que o sono chegasse, mas minha mente se recusava a descansar.
Rolei na cama por mais de horas e acabei perdendo a paciência quando percebi que o sono não estava nem perto de aparecer. Procurei minhas pantufas no chão com o pé e me levantei para acender as luzes. Em seguida, abri a porta e me deparei com um corredor de iluminação fraca e à minha frente o quarto de . Notei, pela fresta debaixo da porta, que as luzes ainda estavam acesas lá dentro e logo deduzi que ele também não havia conseguido dormir.
Caminhei devagar até a porta, mas não tive coragem de bater e apenas permaneci encarando a maçaneta, esperando que, talvez, ela pudesse se movimentar por conta própria. De repente, percebi um movimento e, com um susto, vi a porta aberta e na minha frente. Ele também pareceu se assustar ao me ver ali e nós ficamos nos olhando sem saber o que falar.
- Eu... Eu não consegui dormir - falei baixo, procurando desviar meu olhar de seus olhos e começando a encarar meus pés. - Vi que sua luz estava acesa e pensei que talvez você também...
- É, eu também não consegui. Estava indo buscar um pouco de água, você quer?
Voltei a levantar meu rosto e vi que olhava para mim com tanta intensidade que minhas bochechas coraram e eu dei um pequeno sorriso, concordando. Ele foi à frente e eu o segui um pouco receosa. À noite, com as luzes fracas, aquela casa não era tão charmosa, mais parecia um daqueles casarões de filmes de terror.
- To me sentindo em Transilvânia - comentei baixo, torcendo para que ele não se importasse com aquela comparação, e acabei arrancando uma risada de . Em seguida, ele colocou uma mão sobre a boca, com medo de ter acordado alguém, e eu também ri baixinho.
Chegamos à cozinha e me senti mais confortável quando acendeu as luzes. Ele me indicou um banquinho em frente a uma bancada e eu me sentei, enquanto ele ia até a geladeira.
- Tive uma ideia melhor. Ao invés de água, que tal tomarmos um vinho feito aqui mesmo? - ele propôs já tirando a garrafa da geladeira e eu concordei, enquanto ele pegava duas taças e depois se sentava no banquinho ao meu lado.
serviu um pouco nas duas taças e me entregou uma, antes de pegar a sua. Em seguida, levantou seu vinho na altura dos olhos e ofereceu um brinde - Saúde! -Tomamos um gole e, no momento em que tocou na minha língua, senti que aquele era o melhor vinho que eu já havia experimentado.
- Uau! - falei, ainda sentindo o gostinho de uva em minha boca, voltando a depositar a taça na bancada e vendo que ele fazia o mesmo.
- Delicioso, não? Lembro que meu pai sempre falou dos vinhos que tomava aqui... - começou a contar algumas coisas que já havia ouvido falar sobre os vinhos que eram feitos ali e depois contou também um pouco da história daquele casarão, que, como eu havia suposto, pertencera a várias gerações daquela família.
Depois de falar por longos minutos, ele me perguntou sobre o que eu tinha achado da cidade e do lugar onde estávamos hospedados e eu comecei um longo discurso sobre como estava encantada, embora, por vezes, perdesse a linha do raciocínio, quando seus olhos se desviavam dos meus e começavam a encarar meus lábios.
Quando terminei de falar, nós dois então ficamos em silêncio e, olhando as horas em um antigo relógio que estava pendurado na parede, percebi que era melhor irmos nos deitar.
- Já são três horas da manhã! - comentei, espantada com o fato de não ter notado que estávamos havia tanto tempo ali. Mas não pareceu tão espantado assim, ele apenas deu um pequeno sorriso e continuou com aquele jogo de mover seus olhos até meus lábios e depois voltar aos meus olhos. - Acho melhor... - Tentei manter minha linha de raciocínio e devagar dizer o que pretendia. - Acho melhor irmos...
Sacudi lentamente a cabeça para que as minhas ideias continuassem no lugar, mas então tudo piorou quando levantou sua mão e de leve tocou meu rosto. Ele ainda levava o pequeno sorriso nos lábios e dessa vez fuzilava meus olhos com os seus. Enquanto sentia que ele colocava uma mecha de cabelo atrás da minha orelha, engoli em seco e involuntariamente fechei meus olhos. Mas quando ia tornar a abri-los, senti a respiração de batendo em meu rosto e, antes que pudesse fazer qualquer coisa, nossos lábios se tocaram.

Capítulo IV

Um forte cheiro de bacon invadiu minhas narinas quando respirei um pouco mais forte e percebi que já passava da hora de me levantar. Ainda me sentindo sonolenta, busquei meu celular com as mãos e quase pulei da cama ao ver que já se passava das 11 horas da manhã. provavelmente estava cansado de me esperar, já que havíamos combinado de acordar cedo para irmos ao vinhedo naquele dia.
... Algo se mexeu no meu estômago ao pensar nele, mas eu ainda estava muito sonolenta para conseguir raciocinar direito. Calcei minhas pantufas, corri para o banheiro e foi no momento em que coloquei minha escova de dentes na boca que eu me lembrei do que havia acontecido na noite anterior, a razão para que eu tivesse aquela sensação ao pensar nele. Encarando meu reflexo no espelho, levei uma mão aos meus lábios e os toquei, enquanto milhares de imagens retornavam à minha cabeça.
Fechei os olhos por um momento e pude sentir de novo a maciez dos seus lábios contra os meus, o calor de sua língua em busca da minha, o leve gostinho de uva do seu beijo e o arrepio que percorreu minha espinha quando ele apertou forte minha cintura com uma mão. Voltei a abrir os olhos, com o coração disparado, e tentei tirar da minha cabeça aquelas imagens, enquanto lavava meu rosto, mas elas se tornavam ainda mais intensas à medida em que eu tentava apagá-las.
Me lembrei então de quando conseguimos desgrudar nossos lábios e do sorriso sexy que ele abriu, enquanto minhas ideias ainda estavam completamente confusas. Será que eu havia agido certo ao dizer que precisávamos dormir e sair correndo da cozinha em seguida? O que teria acontecido se eu tivesse permanecido exatamente onde estava? Mas, na verdade, a pergunta que mais me preocupava era: como seria a partir de então? Eu deveria descer até lá e agir como se nada tivesse acontecido, como se a noite anterior fosse apenas um sonho maluco da minha cabeça? Ou aquele beijo havia realmente significado alguma coisa?
Por sorte, não estava no salão de café da manhã para me dar aquela resposta. Enquanto tomava meu café sozinha, as empregadas me contaram que ele havia ido à cidade para resolver algum problema e pedira para que me deixassem dormir, garantissem que eu tivesse uma ótima refeição ao acordar e me fizessem sentir em casa. Ele também havia deixado bem claro que não demoraria e nossa visita ao vinhedo só seria adiada por algumas horas.
Eu estava concentrada em meu café da manhã, tentando manter minha mente em branco, quando chegou e me pegou de surpresa. Eu estava esperando que ele realmente demorasse horas para chegar, mas então ouvi um "bom dia" sussurrado em meu ouvido e quase me engasguei com o suco que tomava naquele momento. Ele pareceu se divertir ao me ver tossir algumas vezes e se sentou ao meu lado com um sorriso no rosto.
- Me disseram que você tinha ido à cidade, pensei que só chegaria mais tarde... - comentei quando consegui recuperar minha voz, e ele sacudiu lentamente a cabeça. - Por que não pediu para me acordarem? Eu poderia ter ido com você.
- Não! Eu estava só resolvendo algumas coisas do projeto, coisas bem chatas. Não tinha por que te acordar... Aliás, eu fui um pouco culpado por você ter ido dormir tarde, não é? - piscou um olho para mim e por pouco eu não me engasguei novamente. Desviei meus olhos de volta para a comida e tentei permanecer assim até finalmente ter terminado.
Ele esperou pacientemente e em silêncio até que eu estivesse satisfeita, parecendo ter acordado em um extremo bom humor.
- , me desculpe por te perguntar isso, mas você já comprou nossas passagens de volta? - perguntei, mais tarde, enquanto íamos em direção ao vinhedo, me lembrando de que minha viagem dos sonhos estava com as horas contadas. - Eu preciso pegar meu avião de volta a Londres amanhã à noite.
- Amanhã? Tão rápido? Eu pensei que poderíamos passar mais tempo por aqui - ele pareceu genuinamente desapontado e imediatamente eu comecei a me perguntar se não deveria ter deixado aquele assunto para mais tarde.
- Eu te disse que só tinha mais três dias na França e hoje já é o segundo. - Franzi minha boca de lado e evitei encarar seu olhos, analisando os pedregulhos que passavam por debaixo dos meus pés. - Mas não importa, amanhã eu dou um jeito. Agora vamos esquecer isso, eu quero aproveitar devidamente a minha primeira visita a um vinhedo.
Ao passar pelas primeiras videiras, todos aqueles pensamentos se esvaíram da minha mente e não consegui conter um sorriso. Por ser inverno, não havia nenhuma uva nos pés e as folhas não pareciam tão vivas quanto eu imaginava, mas, de qualquer maneira, ainda era lindo e romântico.
Caminhamos em silêncio, apenas observando o local e sentindo a brisa fria que tocava a pele de nosso rosto. ia um pouco a minha frente, mas sem se apressar. Pude perceber que, apesar da bela vista do vinhedo, meu olhar sempre caía em cima dele. Perdi longos segundos apenas reparando no movimento de seu corpo, na forma como ele se movia e em sua calça jeans justa, bem apertada no traseiro. Deus! Aquelas cenas de filmes antigos, em fazendas, com lindos cowboys rolando aos beijos pelos campos com as mocinhas, surgiram na minha mente. Senti meu rosto enrubescer e voltei meus olhos para o chão antes que ele percebesse algo.
Aos poucos fui observando como o clima parecia estar esfriando ainda mais e, apesar de estar bem agasalhada, cruzei meus braços contra o peito para tentar me aquecer. , como se notasse o que eu sentia, parou e se virou para mim com seu típico sorriso sexy, que me deixou mole por alguns segundos - é, eu ainda não havia conseguido me acostumar -, e passou um braço pelo meu ombro, me aproximando mais do seu corpo. Tive que manter meu auto-controle muito firme para evitar que a fumacinha que saía da minha boca denunciasse minha respiração acelerada e descruzei meus braços para passar um por sua cintura.
então deteve seus passos e, antes que eu pudesse sequer pensar em fazer alguma coisa, me puxou para sua frente e me abraçou com força. Naquele momento eu não consegui sentir mais nada, parecia que meu corpo inteiro havia se anestesiado ao sentir seus braços em volta de mim. Fechei meus olhos, torcendo para que meu coração não estivesse batendo tão forte a ponto de que ele pudesse senti-lo, mesmo através de todas aquelas roupas grossas.
- Fala sério, você estava louca para me abraçar, não é? - perguntou convencido, rindo um pouco, e eu sorri.
- Bom, a ideia de vir até aqui foi sua. Acho que era tudo parte de um plano para chegar a esse momento - revidei, tentando entrar na brincadeira. Senti então que os braços de se afrouxavam e, em seguida, senti suas mãos em meu rosto. Ele se afastou um pouco para poder me olhar nos olhos.
- Na verdade, era tudo parte de um plano para chegarmos a isso. - E antes que eu pudesse terminar de compreender o sentido de suas palavras, senti seus lábios tocarem os meus.
Meu coração começou a bater ainda mais forte e senti minhas pernas fraquejarem quando ele voltou a passar um braço em volta do meu corpo e apertou minha cintura contra a sua. Passei meus braços por seu pescoço e me deixei levar por seu beijo, enquanto sentia fogos de artifício explodirem em meu estômago - isso é bem piegas, eu sei, mas foi exatamente como me senti.
Seu beijo não estava com o leve gosto de uva, como no dia anterior, mas era igualmente delicioso, muito melhor que uma tonelada daquelas garrafas de vinho - não que eu fosse tão viciada em vinho quanto estava viciada em naquele momento.
Quando conseguimos nos desgrudar, fiquei um pouco constrangida e ele riu, se divertindo com a situação, antes de dar um beijo em minha testa e pegar minha mão para seguirmos com a caminhada. Mas a partir dali eu já não conseguia prestar atenção em nada mais. O simples fato de ter minha mão junto à dele era suficiente para desviar meus pensamentos em sua direção. Eu me sentia feliz, de uma maneira que só havia sentido poucas vezes na vida e, embora soubesse que aquele sonho estava quase chegando ao fim, não podia deixar de ansiar por voltar a Londres e descobrir se aqueles poucos dias juntos haviam sido tão importantes para quanto para mim, e se ele me procuraria quando chegasse lá.
- Você não acha estranho? - perguntei, rompendo o silêncio que havia se instalado entre nós, e ele me encarou, esperando que eu completasse o raciocínio. - Nós dois aqui, sozinhos em uma viagem, sem nos conhecermos direito. Quer dizer, eu não sei quase nada sobre você e vice-versa. Fico me perguntando quantas garotinhas inocentes você já trouxe aqui para seduzi-las. E quantas não aceitaram o convite.
soltou uma gargalhada e eu também não contive meu riso.
- Essa é a primeira vez que venho aqui, então vamos dizer que você foi minha cobaia nesse novo método de sedução. E nenhuma garota nunca recusou um convite meu.
- Que prepotente!
- E você? Também é uma tática sua fingir que não está com sono, levar os homens para a cozinha, embebedá-los com vinho e depois se aproveitar deles?
Continuamos com as brincadeiras, nos divertindo bastante e dando altas gargalhadas, já nem nos lembrando do vinhedo ou do frio que fazia. era uma pessoa engraçada e pouco tempo depois eu já sentia meu maxilar doer de tanto rir.
Naquela tarde, decidi ligar para , antes que ela resolvesse realmente chamar a polícia pelo meu desaparecimento. estava extremamente entusiasmada e, quando contei sobre o que havia acontecido entre e eu, quase me deixou surda com seus gritos histéricos.
- Eu sabia que isso ia acontecer! Como foi? Você disse que ele é engenheiro, né? Vocês vão namorar?
Tentei responder algumas de suas milhares perguntas e apenas mais de meia hora depois consegui desligar o telefone. Era praticamente impossível ligar para e ficar poucos minutos conversando, principalmente quando se tinha tanto para contar.
- me disse que estava uma bagunça ao lado da clínica hoje, parece que tem alguma banda fazendo uma tarde de autógrafos e os fãs estão enlouquecidos nas filas - comentei com mais tarde, enquanto nos encaminhávamos à vinícola, onde seríamos apresentados a todo o processo de transformação da uva em vinho.
Mas ele não quis dar continuidade ao assunto e eu comecei a pensar que talvez não gostasse muito de música, já que sempre falava de outra coisa quando eu começava a discutir sobre bandas. Talvez isso fosse coisa de engenheiros, que estavam acostumados mais aos números que às palavras.
- Às vezes, acho estranho pensar em você como um engenheiro, sabia?
- Não acha que combina comigo?
- Sei lá, tem vezes que acredito que você se sairia bem como ator, modelo ou um rockstar. Você é bonitinho demais para engenharia.
Pela primeira vez desde que o havia conhecido, vi corar, e um sorriso sincero se abriu em seus lábios. Naquele momento eu tive certeza de que o que havia entre nós era recíproco.
O resto das horas daquele dia passou tão rapidamente que, quando me dei conta, já eram quase dez da noite. Durante a visita à vinícola, pudemos provar diversos tipos de vinhos que haviam acabado de serem produzidos. E depois passamos o restante da tarde dando voltas pelo jardim do casarão, um pouquinho tontos – é verdade -, e conversando sobre detalhes da nossa vida.
Eu havia acabado de tomar banho e vestir meu confortável pijama, quando bateu à porta do quarto.
- Vim te avisar que já vou dormir, acordei muito cedo hoje e nós passamos praticamente o dia inteiro caminhando...
- Tudo bem, não tem problema - respondi com um pequeno sorriso, embora por dentro me sentisse triste de pensar que aquela era nossa última noite juntos.
- Não vai me dar meu beijinho de boa noite? - perguntou com um sorriso safado no rosto e eu ri, antes de passar os braços por seu pescoço e colar meus lábios nos dele.
Eu imaginava que aquele seria realmente apenas um beijo de boa noite, mas me surpreendeu ao puxar meu corpo para mais perto do seu e ir intensificando o beijo à medida em que começava a caminhar para dentro do quarto comigo. Senti ele dar uma parada e ouvi o barulho da porta se fechando, provavelmente com um empurrão do seu pé, e logo continuamos a caminhar.
Meu coração estava batendo em um ritmo completamente desordenado e, quando chegamos à cama e ele me deitou, senti que iria ter um ataque cardíaco ali mesmo. se deitou sobre mim e, quando largou meus lábios, começou a distribuir beijinhos por meu pescoço, fazendo meu corpo inteiro se arrepiar. Mas, embora estivesse absurdamente gostando daquilo, eu sabia até onde ele queria chegar, e conhecia também os meus limites.
Senti sua mão escorregar pela lateral do meu corpo, enquanto minha mente passava por um imenso conflito, simplesmente porque uma parte dela teimava em me lembrar que aquela poderia ser a última noite que passaríamos juntos na vida.
- ... Eu não vou fazer isso agora - falei, embora minha voz não tenha soado decidida nem para mim mesma. Mas entendeu meu pedido e parou com os beijinhos em meu pescoço. Ele demorou um tempo para levantar o rosto e me olhar nos olhos e, durante aqueles segundos, não consegui sequer respirar. Porém, ele logo me encarou e eu reparei que sua testa estava franzida, em uma expressão pensativa.
- Por quê? - ele perguntou, simplesmente.
- Porque... Porque a gente se conhece há pouco tempo, não sabemos quase nada um do outro e eu acho que isso é algo muito íntimo para acontecer assim - respondi, dessa vez completamente certa do que eu estava dizendo, e vi que se jogava ao meu lado na cama, virado de barriga para cima, e começava a encarar o teto, assim como eu.
- Você fica dizendo que a gente não se conhece direito. Eu sei tudo sobre você, todas as suas características. Sei que você é uma garota bonita, seu beijo é gostoso e... Bom, é isso - respondeu e eu não pude acreditar no que estava ouvindo. Então eu não significava nada mais que um rostinho bonito.
Abri a boca para tentar responder alguma coisa, mas não saiu nenhum som. Eu estava tão desapontada naquele momento que demorei a perceber que ele entrelaçara seus dedos aos meus, mas assim que o fiz, me soltei e comecei a me levantar da cama.
- Ei, eu estava brincando, ! - também se levantou e segurou meu braço, me puxando de volta. - Era só uma brincadeira idiota, você é muito mais que isso - ele começou a dizer e eu me sentei na cama, o encarando e esperando que ele completasse sua fala. - Você é inteligente, engraçada, cuidadosa, preocupada e corajosa ao mesmo tempo, e sempre fica vermelhinha assim quando é elogiada. - Passou o dorso de sua mão por minha bochecha e eu não consegui segurar meu sorriso por muito tempo.
Ele então voltou a se deitar e dessa vez me puxou até que eu me deitasse junto a seu corpo, com a cabeça apoiada em seu peito. Seu coração batia tão disparado que o meu decidiu seguir o ritmo e eu tive que controlar minha respiração para que ela não voltasse a se acelerar.
- Para ser sincero, eu já imaginava que você não iria querer. Afinal, você demorou um dia inteiro só pra me dizer seu nome... Gigi - ele disse e nós dois gargalhamos. – Mas eu não pude resistir e ignorar o meu desejo por você.

Eu estava no meio de uma roda, cercada de gente se debochando de mim e rindo da minha cara. Eu estava desesperada e lágrimas escorriam por minhas bochechas.
- Você acreditou mesmo que ele estivesse interessado por você?
- Você só era mais um rostinho bonito para ele.
E então aparecia entre todas aquelas pessoas. Ele me olhava seriamente nos olhos, observava minhas lágrimas e ia embora.

Acordei com o coração disparado e a respiração pesada. Procurei por meu celular e vi que já passava das oito horas da manhã, mas eu não me sentia disposta a levantar. Na verdade, eu não sabia se voltava a dormir e corria o risco de voltar ao pesadelo, ou acordava e via meu sonho chegar ao final.
Enquanto a dúvida persistia, fiquei por mais alguns minutos rolando na cama, mas acabei decidindo me levantar. Minha última lembrança da noite anterior era de estar deitada sobre o peito de , mas quando acordei, ele já não estava mais ali. Talvez tivesse resolvido ir para seu quarto no meio da madrugada.
Porém, quando bati à sua porta, descobri que ele já estava de pé e, ao descer para o salão do café da manhã, fui avisada de que ele havia ido à cidade mais uma vez e deixado as mesmas ordens do dia anterior às empregadas.
Enquanto ainda estava sozinha, organizei minhas bagagens e aproveitei para ligar para minha mãe, contando a ela o quanto Paris estava linda e como havia sido bom o teatro da noite anterior, evitando que ela desconfiasse de onde, como e com quem eu realmente estava. Eu havia acabado de desligar o telefone quando apareceu na porta do meu quarto.
- Bom dia, princesa! - ele disse sorridente e caminhou em minha direção, me deu um selinho e se sentou na cama. - Tive que ir à cidade de novo e aproveitei para comprar as passagens, embora isso não fosse muito bem o que eu queria.
- E quanto eu te devo por elas? - perguntei, me aproximando e passando as mãos por seus cabelos.
- Já te disse que você é minha convidada e não vai pagar nada. Mas já que você está insistindo muito, então quero meu pagamento em beijos - ele sorriu e eu me abaixei até encostar nossos lábios.

Me despedi com muita tristeza do casarão, do vinhedo e de Lille, enquanto minha vontade era ficar vivendo ali para sempre, sobrevivendo à base de uva e vinho.
A viagem foi menos tumultuada que a anterior e andou um pouco menos apressado no caminho entre o trem e o táxi, embora por alguns momentos meus passos tivessem ficado um pouco atrás dos seus. Eu tinha a impressão de que ele estava constantemente fugindo de alguém.
Quando chegamos a Paris, seguimos em direção ao meu hotel, pois eu ainda tinha que fazer o check-out e organizar as malas que havia deixado ali, afinal, se eu tivesse resolvido levar toda a minha bagagem a Lille, seria preciso dois trens para que coubesse tudo, e, de qualquer maneira, as diárias já estavam inclusas no pacote turístico que eu comprei.
, porém, não ficou lá comigo. Ao me deixar na porta do hotel, disse que precisava ir para casa tomar um banho, deixar suas malas e ligar para seus amigos para saber novidades do tal projeto de engenharia. Mas prometeu que me encontraria no aeroporto, pedindo que eu o esperasse em frente ao Salão de Embarque 5.
Tudo correu tranquilamente até lá. Consegui chegar cedo ao aeroporto, fiz meu check-in e me sentei em uma cadeira em frente ao local combinado. Porém, com o passar do tempo, uma sensação angustiante começou a tomar conta de mim. E se não aparecesse? E se ele tivesse simplesmente decidido não me ver nunca mais? Nós nem ao menos havíamos trocado nossos números telefônicos ou endereços.
Ouvi o anúncio de que meu avião tinha chegado e segurei um nó que começava a crescer em minha garganta. Não era possível, ele não podia simplesmente ter me abandonado ali. Me pus de pé e vi em minha passagem que eu deveria embarcar no portão 7, então, quando o anúncio tornou a ser soado, me vi caminhando mecanicamente em direção a ele.
Tentei não deixar meus sentimentos se intensificarem, mas eu não podia deixar de reparar que, mais uma vez, eu estava parada sozinha, com minha passagem em mãos, em meio a várias pessoas e buscando uma em especial. Mas a diferença é que aquela seria a última vez.

Capítulo V

Eu estava nervosa, sentia meu coração bater apertado e meus olhos vasculhavam o saguão do aeroporto, mas já era tarde demais, ele não viria e eu sabia disso. Desolada, me virei para passar pelo portão de embarque, então algo me disse para olhar para trás mais uma vez.
Um homem entrava correndo no aeroporto naquele momento, tentando passar pelas pessoas que pareciam se tornar mais numerosas e se fecharem entre nós. Ele tentou se livrar, chegar até mim, levantou uma mão e gritou meu nome, mas acabou sendo engolido pela multidão.

- ! - chamou um pouco mais alto, desviando por um momento seus olhos do trânsito e me encarando no banco do carona. - Você tava me ouvindo?
Cocei meus olhos, meu coração ainda batia acelerado pelo sonho.
- Desculpe, - falei com a voz rouca e senti que minha cabeça começava a doer – acho que estou com jet lag...
Virei meu rosto para a janela e comecei a observar a rua, que estava praticamente vazia. Me sentia feliz por estar novamente em casa e havia adorado a surpresa de ao ir me buscar no aeroporto, completamente ansiosa para saber das novidades, mas não podia ignorar aquela sensação que começava a crescer em meu peito. A sensação de que faltava algo.
- Você tem que me contar dele! Como ele é? Vocês vão continuar se vendo? Ah, , estou tão feliz por você!
Aquilo fez com que eu desviasse os olhos da rua e a encarasse, pensativa. Tinha me feito exatamente as mesmas malditas perguntas durante o voo. Quem era ? Quando estava em sua companhia, tinha a constante sensação de que o conhecia, pensava saber tudo a seu respeito, mas quando se afastava, ele se tornava um enigma. O que tanto escondia de mim? Por que evitava certos assuntos? Mas, principalmente, o que havia me perguntado a viagem inteira era: a gente se veria de novo?
Embora me sentisse estranha e cansada, contei a alguns detalhes, guardando as melhores coisas para dizer quando me sentisse mais animada. Como já esperava, ela se empolgou e exibiu um enorme sorriso durante todo o trajeto, sempre exclamando o quanto gostaria de ter podido me acompanhar.
Já em casa, tomei um banho e me joguei na cama. Mesmo que ainda não tivesse planos para o dia seguinte, sentia que precisava descansar. Fechei os olhos e tentei relaxar, deixar a mente livre, mas imagens começaram a aparecer e inundar meus pensamentos com lembranças da melhor viagem da minha vida.
Senti um frio no estômago quando o rosto de surgiu em minha memória, com um sorriso divertido e me encarando furtivamente. Por que ele não havia aparecido no aeroporto? Será que estava ansioso por se livrar de mim, mas apenas era cavalheiro demais para demonstrar isso em Lille? Não. Eu sabia muito bem que não era aquilo, havia sentido em seu beijo, no modo como ele me olhava e na maneira com que havíamos nos despedido na porta do hotel.
- Às vezes, sinto como se te conhecesse – eu havia dito em um momento, enquanto caminhávamos de mãos dadas pelo vinhedo, no dia anterior. Fora naquele instante que ele me encarara com o sorriso divertido do qual me lembrava. - Estou falando sério, parece que eu já te vi em algum lugar. Será que já nos vimos em Londres e não nos lembramos?
Mas então o sorriso dele havia se desfeito e ele desviara o assunto. E era aquele seu mistério e suas mudanças de humor repentinas que me incomodavam, não conseguia entender o que fazia com que ele mudasse de alguém espontâneo e brincalhão a uma pessoa fechada em questão de segundos. O que será...
- Ei! ! - alguém gritou do lado de fora.
Assustada, me levantei da cama e caminhei devagar até a janela. Uma pessoa estava parada em meu jardim, encarando os pés. Enquanto tentava descobrir quem chamava àquela hora, vi o rapaz levantar lentamente a cabeça. Meu coração deu uma batida em falso ao reconhecer aqueles olhos brilhando em minha direção.
Sem conseguir controlar meu corpo, desci as escadas o mais rápido que pude, embora não parecesse ser rápido suficiente. A casa estava completamente escura e tive dificuldade para encontrar a chave certa e abrir a porta, enquanto minha mente lutava para entender como e porque ele havia ido até ali.
Quando abri a porta, me deparei com uma multidão andando sem rumo. Não sabia de onde haviam surgido aquelas pessoas. Tentei passar por elas para chegar a , mas ele ficava cada vez mais distante.
- ! ! - eu gritava, sacudindo os braços no alto para que ele me notasse.
Me senti aliviada quando nossos olhos se encontraram, mas então percebi que os dele estavam frios e distantes. Ele não sorriu, nem fez nenhum gesto que desse a entender que havia me reconhecido, e então voltou a olhar para outra direção.
Sem saber o que estava acontecendo ou o que deveria fazer a seguir, me deixei ser empurrada pela multidão e então ele foi se afastando mais... E mais... E mais...

Abri os olhos e encarei o teto do meu quarto, levemente iluminado pela luz do meu abajur, sentindo que, aos poucos, meu coração voltava a se acalmar.
No dia seguinte, acordei com meu telefone chamando sem parar. Me esgueirei para fora da cama, resmungando e me questionando por que pessoas ligavam umas para as outras pela manhã e onde diabos estavam meus pais que deixavam com que o aparelho continuasse tocando.
Ignorando a ligação, me tranquei no banheiro durante longos minutos para fazer minha higiene matinal e tentar manter meus olhos abertos. Em seguida, coloquei roupas aquecidas e desci diretamente para a cozinha, onde vi que, na verdade, já passava do meio-dia, e encontrei, pregado na geladeira, um bilhete da minha mãe e algumas notas.
“Querida,
Seu pai e eu fomos convidados para um almoço da empresa. Esquecemos de te dizer ontem à noite. Tem comida na geladeira e estou deixando esse dinheiro, caso você queira comprar algo. Voltamos logo.
Beijos,
Mamãe”

Abri a geladeira e torci o nariz. Eu estava realmente faminta, mas nada que tinha ali me agradava. Resolvi então pegar o dinheiro e dar uma volta em busca de comida.
No meio do caminho pensei em ligar para , mas acabei me lembrando que provavelmente ela estaria muito ocupada cuidando de animaizinhos em sua clínica, e decidi que faria isso mais tarde, quando tivéssemos tempo para conversar e eu estivesse mais disposta a contar os detalhes que havia omitido propositalmente na noite anterior.
Estava justamente me lembrando de um desses detalhes – que envolvia taças de vinho e uma cozinha bem iluminada – quando algo chamou minha atenção. Uma barraca de cachorro-quente estava armada a poucos metros à minha frente e o cheiro que vinha de lá fez meu estômago faminto dar saltos.
Com os olhos brilhando, comprei o maior cachorro-quente e comecei a comê-lo ali mesmo, sem me preocupar se estava sujando minha boca toda com o molho. Dei alguns passos para o lado quando algumas crianças se aproximaram da barraca e então avistei uma banca de jornal e decidi ir até lá ler as manchetes das revistas de fofoca. Não havia nada demais, como já imaginava, mas mesmo assim resolvi comprar uma que falava sobre a festa de aniversário de Justin Timberlake.
Tentando não derrubar o cachorro-quente ou sujar alguma coisa, segurei a revista um pouco sem jeito e fui até o vendedor pedir que ele a pegasse, enquanto eu procurava meu dinheiro, mas o homem parecia muito ocupado, tentando abrir uma das caixas que estavam jogadas no chão da banca.
- Com licença, quero comprar essa revista – falei, após esperar um pouco em vão. Fiquei encarando o vendedor, mais uma vez esperando que ele prestasse atenção, e então pigarreei ao perceber que ele não dava nenhum indício de que largaria a caixa para me atender.
- Essas chegaram hoje cedo, mas ainda não tive tempo de abrir – ele respondeu depois de um tempo, conseguindo, finalmente, retirar o lacre da caixa. Tirou uma revista de lá e entregou a mim, que, pega de surpresa, deixei a outra cair ao tentar segurar a que ele oferecia. - Não sei por que essas revistinhas fazem tanto sucesso, estão sempre falando de adolescentes fúteis e muito mais ricos do que qualquer um de nós...
E depois daquilo, não consegui ouvir mais nada. Não que o homem tivesse parado de falar, foi meu cérebro que bloqueou as palavras. Ele também foi responsável por fazer meu cachorro-quente perder o sabor. E isso tudo aconteceu por culpa da imagem que meus olhos haviam captado e mandado até ele.
Ali, na capa da revista que o homem havia acabado de me entregar, uma menos famosa, estava ninguém menos que: eu mesma. Mas eu não estava sorrindo, cheia de maquiagem e retoques de photoshop, muito pelo contrário, estava descabelada, com as bochechas ridiculamente coradas e me abaixando para entrar em um táxi.
Levei um choque ao reconhecer a outra pessoa que aparecia na foto, olhando por sobre o ombro e esperando que eu entrasse logo no carro. Eu me lembrava muito bem de como parecera estar fugindo de alguém ao desembarcar em Lille. Aliás, ele parecia estar fugindo todas as vezes em que havíamos estado em lugares públicos.
Mas o que mais me chocou foi o que notei em seguida, e estava escrito em letras garrafais: “ ENCONTRA NOVO AFFAIR NA FRANÇA”.
Sem saber ao certo por quanto tempo havia ficado de boca aberta observando aquela imagem, voltei a mim e percebi que minha mão tremia descontroladamente. Só então notei que o vendedor estava ao meu lado, depois de sair para recolher a revista que eu havia deixado cair.
- Eu... Eu vou levar essa – falei gaguejante e joguei fora meu cachorro-quente, que já estava começando a me irritar, antes de pegar algumas moedas e entregar ao homem.
Em seguida, corri para o banco mais próximo, onde me sentei e passei longos minutos encarando a capa, tomando coragem para enfrentar o que quer que estivesse escrito lá dentro. Então, decidi ligar para , talvez ela dissesse “não tenha medo, não vai ter nada demais” e isso me acalmaria.
Peguei meu celular e só naquele momento percebi que havia sete chamadas não atendidas de . Também notei que ela estava ligando de novo. Atendi, com medo do que iria ouvir.
- Por que não me atendeu ou retornou quando acordou? Estou como louca tentando falar com você! - começou com um sermão e me senti mais tranquila.
- Achei que você estaria trabalhando e não quis te atrapalhar... – falei, depois pensei por um instante e então dei um tapa em minha própria testa. - Hoje é segunda-feira e você não trabalha às segundas-feiras.
- Exato! E sabe por que eu estou como louca atrás de você? - Pronto, era aquilo que eu não queria ouvir. - Porque, por acaso, você se esqueceu de me avisar que seria capa de uma revista de fofoca. Aliás, você também se esqueceu de me contar que estava namorando um cara famoso!
- Nós não estamos namorando – respondi rapidamente, embora soubesse que aquilo não era o mais importante no momento. - Me encontre na minha casa em dez minutos.
Na verdade, eu não demorei nem isso para chegar lá, minhas pernas pareciam estar ligadas a alguma corrente elétrica e não conseguiam parar. Fiquei sentada sozinha na sala, encarando a televisão desligada – com medo de ligá-la e ver meu rosto aparecer ridiculamente ali – enquanto aguardava .
Ela já chegou pedindo por explicações e me acusando de ter escondido um detalhe tão importante de minha melhor amiga, mas expliquei que esperava aquilo tanto quanto ela – se não menos - e acabei sendo convencida a ler a matéria depois da pressão que fez.
ENCONTRA AFFAIR NA FRANÇA
Após lotar o Palais Omnisports, em Paris, com um show da mais nova turnê do , foi visto desembarcando de um trem em Lille, ao lado de uma garota misteriosa.
De acordo com uma fonte próxima aos integrantes da banda, não planejava encontrar alguém nessa viagem. “Ele me disse que estava muito bem e precisava de um tempo sozinho”, conta.
Mas foi inevitável não notar o quanto a tal garota misteriosa sorria ao seu lado, enquanto corria pela estação, tentando passar despercebido.
“Os dois foram juntos a Lille, mas não a vi por lá nos dias em que ele apareceu pelo centro”, afirma Kristen Howard, fã de , que o encontrou algumas vezes durante a viagem.
Aparentemente, o passeio a Lille durou apenas três dias e logo o casal foi visto desembarcando novamente em Paris e se despedindo carinhosamente na porta de um hotel.
Enquanto isso, os outros três integrantes da banda faziam uma tarde de autógrafos em uma loja de discos no centro de Londres.
(...)

A matéria era relativamente pequena, se levado em consideração que havia virado capa, mas era ilustrada por mais duas fotos. A primeira mostrava caminhando sozinho e tinha a legenda: “Discreto, caminha desacompanhado pelo centro de Lille”. Em seguida, havia uma foto na qual era apenas possível ver meu cabelo, um táxi e sorrindo com uma mão tocando meu rosto, a legenda era: “De volta a Paris, casal troca carícias na porta do hotel”.
- Eu preciso vomitar! - joguei a revista no colo de e sai correndo em direção ao banheiro, me arrependendo profundamente de ter gastado meu dinheiro com aquele cachorro-quente.
- Vai ver eram eles que estavam lá perto da clínica quando você me telefonou, lembra? – começou a falar, ignorando minha suposta ausência. Mas, de qualquer maneira, eu não havia corrido até o banheiro, apenas estava parada próxima à janela tentando respirar melhor. - ... Acho que já ouvi falar deles. Você não sabia mesmo que ele era famoso? - Se virou para olhar para trás e me viu parada com uma cara nada boa.
Eu não consegui responder, meu cérebro estava rodando demais para que eu conseguisse formar uma frase coerente. ... Famoso... Banda... Música... Correria... Garotas empolgadas... Mistério... Agora tudo fazia sentido.
Mas por que ele escondera algo tão importante de mim? Como eu podia ser tão tapada para não perceber os sinais que estavam piscando em luz neon debaixo de meu nariz? O resultado disso era que agora minha imagem estava estampada nas bancas por todo o país – tudo bem, a foto não era muito boa, mas quem me conhecia bem certamente me reconheceria ali. Será que ele havia feito tudo aquilo apenas para se promover? Será que teria sido capaz de me usar daquela forma?
- , para de ficar verde. Você precisa fazer alguma coisa... Vai atrás dele – me aconselhou, finalmente largando a revista e se aproximando de mim. - Vai até lá e faz todas as perguntas que estão rodando em sua mente.
- Como se fosse fácil! – bufei e me desvencilhei dela para me jogar no sofá, de braços cruzados. - Para começar, ele ainda deve estar em Paris. Depois, temos o fato de que ele é famoso e não vai ser tão fácil chegar perto.
- Use suas habilidades jornalísticas.
- Ok. Mas, mesmo assim, não sei se quero ir atrás dele. Estou com medo de fazer papel de idiota. Me sinto como uma groupie que acabou se apaixonando. E, por último, se ele estivesse realmente interessado, não teria me deixado esperando sozinha naquele aeroporto.
Chegar àquelas conclusões trouxe de volta o desconforto em meu peito, mas não era mais um vazio, agora eu sentia uma invasão de sentimentos conflituosos.
- Ele fez isso? - franziu a testa e, após concordar com a cabeça, contei a ela tudo que não havia dito na noite anterior, embora tivesse planejado contá-la em uma situação bem diferente, que envolvia sorrisos, empolgação e esperança de que ele me procuraria de novo.
- O que eu faço agora? Procuro por ele e digo umas boas verdades ou me enterro em um buraco? - perguntei derrotada, esperando que tivesse alguma ideia, mas ela estava tão confusa quanto eu.
- Começa rezando para que seus pais não tenham dado uma olhada nas revistas de fofoca hoje – respondeu quando o barulho do motor do carro dos meu pais indicaram que o almoço já havia acabado.
Tudo bem, eu já tinha mais de 21 anos, mas já mencionei o quanto minha mãe era paranóica e como ficaria desesperada se descobrisse que eu havia viajado na companhia de um estranho? Então acrescente a isso o fato de o “estranho” ser um cara famoso. Isso sem contar o quanto meu pai gritaria que “estando debaixo desse teto, você ainda me deve obediência e deve seguir minhas regras”, o que, definitivamente, não era o que eu parecia estar fazendo naquela foto.
Prendi a respiração quando a porta da frente se abriu e meu pai entrou, seguido por minha mãe. Eles nos cumprimentaram, disseram a que haviam sentido sua falta, já que fazia muito tempo que não se viam, e perguntaram como estava sendo trabalhar na clínica. Minha mãe me perguntou se eu havia visto o bilhete e almoçado. E então os dois seguiram para dentro de casa, nos deixando sozinhas novamente.
Após suspirar aliviada, percebendo que eles não voltariam mais e tocariam no assunto, me virei para , que ria da expressão de desespero superado em meu rosto.
- Você tem sorte que eu sou a única que dá atenção àquela revista. Agora, vem comigo, eu tive uma ideia!
se levantou depressa e subiu correndo as escadas que davam acesso ao segundo andar da casa, onde ficavam meu quarto e o dos meus pais. Eu a segui desanimada, já sabendo que não havia nada ali que pudesse realmente ajudar em alguma coisa, e, ao chegar a meu quarto, vi que já estava sentada em frente a minha bancada, com meu notebook aberto.
- Deixe-me adivinhar sua ideia... Pesquisar tudo sobre ele na internet – supus, rolando os olhos e confirmando meu pensamento de que ali não tinha nada que ajudaria de fato.
- Exato! Nessa belezinha chamada internet provavelmente vai ter de tudo, desde a data de nascimento até o que ele comeu no café da manhã hoje. Além de poder conhecê-lo direito, você também pode procurar uma maneira de entrar em contato.
Franzi minha testa e me sentei na beirada da cama.
- Eu não quero fazer isso.
- Isso o que? Entrar em contato ou saber tudo sobre ele? – perguntou, sem desviar os olhos da tela, enquanto começava a digitar “ ” no Google.
- Os dois. Não acho justo, já que ele não pode saber tudo sobre mim só de dar uma olhada em algumas páginas. Tem coisas que a gente não quer que a pessoa saiba logo no início e ele tem o direito de querer omitir algo, assim como eu posso querer fazer.
- Como esconder que é famoso?
- Não. Ele tinha que ter me contado, porque de certa forma acabou me envolvendo. E essa é a razão pela qual não quero entrar em contato.
Dito isso, deixei meu corpo cair deitado na cama e fiquei encarando o teto. Comecei a imaginar o que teria acontecido se ele tivesse dito a verdade. Eu teria ido a Lille? Teria deixado que ele me beijasse? Não sabia dizer. Poderia ter sido tudo completamente diferente, nós dois poderíamos ter continuado sendo dois estranhos. Mas ele havia mentido e isso mudara tudo.
De repente, porém, me dei conta de que, na verdade, ainda éramos dois estranhos. Eu havia beijado o que era um engenheiro desconhecido e estava trabalhando em um projeto em Paris, alguém que não existia. O tal eu não conhecia, não fazia ideia de como era sua vida.
Enquanto pensava nisso, as lembranças de Lille se tornaram confusas e comecei a me perguntar se haviam realmente acontecido. A ligação que pensara haver entre nós fora real? Talvez aquilo havia sido o que eu desejava que fosse verdade... Sendo ele o tal , como havia me enxergado de fato? Como uma groupie? E com quantas garotas ele já havia usado aquele joguinho?
Pensar nessas coisas fez um nó começar a se formar em minha garganta e lágrimas queimaram meus olhos, enquanto eu me perguntava como podia ter sido tão idiota por acreditar completamente em alguém que havia acabado de conhecer.
- Ei, olha isso! – chamou, fazendo com que eu me assustasse. Eu nem me lembrava mais que ela estava ali, pesquisando sobre a vida de alguém que, agora, fazia meu estômago se embrulhar, ao invés de se transformar em um viveiro de borboletas.
- , já te disse que não quero saber.
- Ah, isso você quer, sim!
Ela parecia empolgada por algum motivo e decidi satisfazê-la e olhar o que ela mostrava. Enxuguei uma lágrima que havia escapado pela lateral do meu olho direito, me sentei novamente e olhei para o notebook, onde lia uma notícia em uma página de celebridades. Olhar para aquele site fez meu estômago se revirar de novo. Estava acostumada a visitar a página, às vezes, para saber notícias dos meus artistas favoritos e agora estava vendo algo sobre o cara com quem tinha passado os últimos dias. Será que já havia visto algo sobre ali e por isso seu rosto me parecera familiar?
- Ele voltou a Londres!
Sem saber como era possível, senti meu estômago se contorcer ainda mais.
- Pegou um vôo ontem à noite e foi visto desembarcando aqui. Ele deve ter vindo atrás de você – disse, finalmente desviando os olhos da tela e me encarando.
Mas, ao invés de sorrir, permaneci pensativa, olhando para a notícia. Será que tinha razão? Ou ele havia apenas esperado eu ir embora antes de pegar seu voo?
- Ele tinha que voltar de qualquer forma, me parece que a banda está bem ocupada. – Dei de ombros e apontei para uma chamada na lateral, que anunciava outra tarde de autógrafos do .

-Tenho uma entrevista de estágio hoje à tarde – comentei com meus pais, enquanto tomávamos café da manhã.
Era segunda-feira e o dia havia amanhecido anormalmente com um clima agradável, que seria ideal para uma volta no parque ou qualquer outro programa ao ar livre, se eu não estivesse cheia de compromissos.
Já fazia uma semana que havia retornado de Paris e voltado à minha velha rotina de faculdade. Fiz minha matrícula para o próximo período na terça-feira anterior, retornei às aulas na quarta e fui surpreendida por provas e trabalhos nos dias que se seguiram. Fiquei indignada, já que sequer havia conteúdo suficiente para ser cobrado em avaliações.
Também fazia uma semana que eu não ouvia falar de . Havia me segurado várias vezes quando quis procurar por notícias suas na internet e também havia proibido de fazê-lo, embora ficasse torcendo interiormente para aparecer algo sobre sua banda quando estivesse assistindo televisão.
Eu tentava fingir para mim mesma que não me importava com essa ausência e que isso não significava que ele não estivesse procurando por mim, mas era impossível controlar meus pensamentos e sentimentos toda noite, quando ia dormir. A verdade é que eu me importava, queria que estivéssemos juntos e imaginava como seria se ele não fosse famoso. E se tivesse ido me encontrar naquele aeroporto.
Houve apenas um momento durante aquela semana em que eu e tocamos no assunto. Era quinta-feira e estávamos rodando pelos arredores da clínica onde trabalhava, durante seu horário de almoço.
- Quero que você escute uma música. Fiz download dela por acaso e gostei – disse, buscando seu celular dentro da bolsa. Ela pegou o aparelho, localizou a música e apertou o play, enquanto eu esperava pacientemente.
Ouvi o primeiro toque e prestei atenção quando começaram a cantar, a música era realmente legal. Sorrindo, me virei para para perguntar qual era a banda, mas então uma lembrança invadiu minha mente e minha garganta secou. Eu havia ouvido cantarolar aquele ritmo, em uma das únicas vezes em que ele demonstrara algum interesse em música. Apertei os olhos e, em seguida, encarei , boquiaberta.
- Não é legal?
- Isso é ?
- É. Eles não são bons? Fiquei me perguntando como a gente nunca os tinha ouvido antes. Ou talvez até já ouvimos, só não sabíamos que eram eles – falava, ignorando a expressão em meu rosto.
A música realmente era boa e seguia o estilo que eu estava acostumada a ouvir, mas me trazia sensações estranhas e fazia com que eu me lembrasse de tudo que estava querendo esquecer. Forcei um sorriso a ela quando acabou e disse que tinha gostado, mas pedi que aquele assunto voltasse a ficar esquecido entre nós duas.
Na segunda-feira, passei a manhã ocupada na faculdade e depois do almoço me arrumei ansiosa para a entrevista de estágio. Era a primeira vez que ia trabalhar e me sentia animada.
Peguei o metrô, segurando firmemente o endereço de onde seria minha entrevista em mãos. Caminhei por algumas ruas pelas quais nunca havia passado, temendo ficar perdida, e desejei que estivesse comigo naquele momento, ela tinha um melhor senso de direção.
Virei uma esquina, chegando finalmente à rua que estava escrita no papel que eu segurava, e notei que mais à frente uma fila de garotas enchia a calçada. Franzi a testa e segui meu caminho, ciente de que não podia chegar atrasada.
As garotas esperavam para entrar em uma loja de discos e eu estava passando direto quando vi algo e minhas pernas se recusaram a continuar, instantaneamente parecendo pesar toneladas. Meu coração começou a bater acelerado e senti minhas mãos tremerem quando me dei conta de que o que estava vendo era real.
Dentro da loja, sentado através de uma mesa comprida e ao lado de seus companheiros de banda, autografava alguns CDs e posava para fotos.
Fiquei longos segundos olhando boquiaberta através da vitrine, reconhecendo aquele sorriso e os gestos que ele fazia ao falar. Ouvi algumas garotas perguntarem se eu tinha comprado o CD, pois só assim poderia entrar, mas não respondi. E já estava decidida a seguir meu caminho quando ele levantou os olhos de um encarte que acabara de autografar e acidentalmente os parou em mim.
congelou e permaneceu com os olhos pregados aos meus, com uma expressão de choque no rosto. Um dos seus companheiros cutucou seu braço, tentando passar a ele o próximo encarte, mas não obteve nenhuma resposta.
Do lado de fora, sentia meus joelhos fraquejarem, mas me mantive de pé. Enquanto lutava com meus próprios pensamentos para me manter direita, vi que se levantava e um dos seus companheiros segurava em seu braço, perguntando, nervoso, algo como “o que diabos você está fazendo?”. Eu também não sabia o que fazer, mas antes que pudesse decidir, algumas meninas passaram gritando e se amontoaram em frente à vitrine.
- O ta olhando pra cá! , eu te amo! – elas gritavam e acenavam.
Abaixei a cabeça e resolvi que era hora de voltar a caminhar. Lutando para conseguir deslocar meus pés, que teimosamente tentavam permanecer pregados ali, me arrastei pela rua. Minha cabeça estava rodando e eu tentava não pensar em nada, sabia que tinha um importante compromisso dentro de poucos minutos e precisava estar apresentável.
Cheguei à esquina e estava começando a atravessar a rua quando ouvi alguém gritar meu nome. Assustada, olhei para a direção de onde vinha a voz e meus pés voltaram a pesar como chumbo, não acreditando quando reconheci correndo até mim. O que mais me assustou, porém, foi que ver ele se aproximando fez com que todas as lembranças de Lille retornassem com força total à minha mente. E por um instante cheguei a acreditar que aquele homem que vinha em minha direção era o desconhecido gentil e engraçado que havia conhecido em Paris e não o idiota famosinho que estava autografando CDs na loja ao lado.
parou a uma distância curta. Sua testa estava franzida, apesar do pequeno sorriso que levava nos lábios, e sua respiração estava ofegante.
- O que diabos você está fazendo aqui? – me forcei a perguntar, antes que minha boca parasse de obedecer a meu cérebro e começasse a dizer coisas sem sentido. Aliás, coisas que tinham muito sentido, mas eu não sabia se deveria dizer. Pelo menos, não naquele momento.
- Saí pela porta dos fundos – ele respondeu, com um sorriso sapeca no rosto, como uma criança que acaba de descobrir uma passagem secreta.
Eu não respondi, não sabia o que dizer. Deveria gritar com ele e perguntar por que havia mentido? Deveria exigir explicações por ele não ter aparecido no aeroporto? Ou deveria perguntar se tudo aquilo fora realmente real e se ele ainda sentia o que eu sentia? Ao invés disso, permaneci calada, olhando em seus olhos, enquanto ele tentava recuperar a respiração normal.
- Me desculpe, . Eu estou atrasada – tomei coragem e disse, então, quebrando o silêncio momentâneo que havia se instalado entre nós. franziu ainda mais a testa e seu sorriso desapareceu.
- Vamos conversar em algum lugar mais tranquilo?
- Eu não posso. Tenho um compromisso muito importante agora e inclusive já estou atrasada. – Me mantive firme e cheguei a planejar virar as costas para ele e começar a caminhar para longe, mas, novamente, minhas pernas não me obedeceram e permaneci onde estava.
- , eu tenho tanto pra te explicar. Sei que deve estar tudo estranho para você, mas quero que escute minhas razões. Também tenho que me desculpar pelo aeroporto, me senti péssimo por ter me atrasado, peguei o primeiro voo depois do seu na esperança de conseguir te encontrar ainda, mas não adiantou – ele falava rápido. Lançou um olhar sobre meu ombro, vendo algumas meninas atravessarem a rua distraídas, e depois voltou a me encarar. – Por favor, vem comigo?
ofereceu sua mão direita e eu desviei os olhos para ela, voltando a olhar em seus olhos, em seguida. Longos segundos se passaram, nós dois em silêncio, a mão de esticada em minha direção, e minha cabeça dando voltas e fazendo meu estômago se contorcer. E então eu percebi que aquele era mais um daqueles momentos em que eu tinha que fazer uma escolha. Só não sabia se deveria agir como a garota inconsequente de Paris ou a centrada que eu havia tratado de ser desde que voltara a Londres.

Capítulo VI

Existem momentos na vida em que seu coração e sua mente entram em conflito e começam a mandar ordens antagônicas a seu corpo. E eu estava passando por um daqueles momentos. Enquanto meu coração gritava para que eu desse a mão a , minha mente pedia para que eu usasse essa mesma mão para lhe dar um tapa na cara. Assim, meu corpo só conseguia responder não fazendo nenhuma das duas coisas.
- , por favor! – disse, chamando minha atenção e sacudindo a mão. Notei que havia um tom de urgência em sua voz, mas meu conflito interno ainda estava sem resolução.
Senti minha mão tremer um pouco e, como se tivesse ganhado vontade própria, começar a se mover em direção à dele, mas um grito agudo vindo de alguém às minhas costas fez com que ela se recolhesse novamente.
Assustada, mal tive tempo de olhar para trás antes que várias garotas nos alcançassem e, entrando entre nós dois, atacassem . Ele também havia se assustado, provavelmente por não tê-las visto se aproximando, como se elas simplesmente tivessem se materializado ali entre a gente.
A gritaria pareceu chamar atenção de mais gente e em milésimos de segundos a rua estava lotada de garotas histéricas que o abraçavam e lutavam para tirar fotos. Enquanto isso, eu permanecia parada, embora já tivesse sido empurrada para o lado pelo menos vinte vezes. Minhas pernas se recusavam a caminhar para longe dali, porque meu cérebro fazia questão de registrar cada segundo daquela bagunça, como se quisesse provar para o meu coração que estava correto ao impedir que eu estendesse a mão a ele.
Era realmente ridículo ver aquilo e a única coisa que eu conseguia sentir era meu estômago se embrulhando cada vez mais. A gritaria não diminuía e parecia perdido e apavorado. Notei que ele recuava alguns passos quando encontrava um espaço, provavelmente tentando chegar à porta da loja, mas em momento algum ele voltou a olhar para mim. Foi nesse instante que eu percebi como meus pesadelos tentavam me mostrar havia tanto tempo o que eu não conseguia enxergar ao estar com ele. Era sempre a mesma história, pessoas caminhando entre nós, se afastando de mim e eu ficando para trás com um nó crescendo na garganta.
Mas eu não ia chorar, não ali, não em frente a todas aquelas pessoas, muito menos onde ele pudesse ver. Satisfeita com tudo que havia presenciado, consegui finalmente desgrudar meus pés do chão e andei o mais rápido que pude para longe daquele inferno. Virei a esquina e continuei a caminhar, com os braços fortemente cruzados sobre o peito, ainda ouvindo a algazarra que vinha de onde ele estava.
O nó em minha garganta era grande e eu tentava engoli-lo. Estava nervosa e com muita raiva de . Raiva por ele ter me envolvido em toda aquela situação, raiva por ter feito com que eu sentisse tudo que estava sentindo sem me avisar das conseqüências, raiva por ele não ter olhado para mim e dito para todas aquelas pessoas que fossem embora, pois ele queria ficar comigo.
- Ei, moça – ouvi um rapaz me chamar e detive meus passos, respirando fundo. Olhei para trás, esperando ver algum fã insuportável vindo me perguntar algo, mas tudo que consegui enxergar foi um flash.
– O que diabos... – comecei a perguntar, momentaneamente cega, mas fui interrompida.
- Então você é a garota com quem está tendo um caso? – uma mulher, que eu nem havia notado ali, perguntou, colocando um gravador em frente à minha boca.
- Eu, o que? Não! Claro que não! – respondi, assustada, e me virei para continuar meu trajeto, esperando que eles se tocassem e fossem embora, mas ela veio atrás.
- Qual é seu nome? Como vocês se conheceram? – perguntava, colocando o gravador perto do meu rosto sempre que terminava de falar. Notei também que o rapaz continuava fotografando. - Nós vimos vocês dois na França e agora estavam se encontrando novamente, de onde surgiu o sentimento?
- Olha aqui – gritei, parando de repente e quase fazendo os dois tropeçarem em mim. – Eu não sei do que vocês estão falando. Não conheço nenhum e muito menos estou tendo um caso com ele. Estou apenas atrasada para minha entrevista de emprego e vou agradecer muito se vocês derem o fora agora e me deixarem em paz.
Os dois pareceram um pouco confusos, provavelmente se perguntando se haviam se confundido, mas eu sabia que eles me reconheceriam quando olhassem novamente a capa daquela revista e publicariam o que eu havia acabado de dizer.
Toda a raiva que havia dentro de mim pareceu quadriplicar quando pude respirar novamente. Se antes eu estava nervosa pelo fato de ser um cara famoso, agora estava perturbada por as pessoas, de repente, começarem a pensar que eu também era e me seguirem pela rua.
Enquanto caminhava até onde supostamente eu deveria estar um bom tempo atrás, cheguei a pensar se queria realmente fazer aquela entrevista. Na verdade, eu pensei até mesmo se queria continuar no curso que fazia. Estava com tanto nojo de tudo que envolvesse jornais e publicações, e tanta raiva da mulher que havia tentado arrancar respostas da minha boca, que jornalistas me pareceram os seres mais abomináveis do planeta naquele momento.
Cheguei ao prédio que estava escrito no papelzinho que, surpreendentemente, ainda estava em minha mão e entrei, tentando não pensar em nada. Eu sabia que não estava nem um pouco apresentável e provavelmente muito atrasada, mas já que estava ali, tudo que eu podia fazer era tentar. Me apresentei a uma moça que ficava atrás de um balcão, na entrada, e, após me confirmar que eu estava atrasada, pediu que eu esperasse um momento - o que, para mim, não fazia nenhum sentido, já que, como era eu quem havia chegado depois, provavelmente já era para estarem me esperando.
Depois de ficar alguns minutos sentada em um sofá desconfortável, a mesma moça pediu que eu a seguisse e me guiou até a sala onde eu seria entrevistada. Entrei um pouco sem graça e encontrei uma mulher séria, de uns 40 anos, me aguardando, sentada atrás de uma mesa velha, feia e entulhada de papéis. Ela me examinou com os olhos, pigarreou e concertou os óculos na face, antes de indicar a cadeira para eu me sentar.
- A senhorita sabe que está atrasada para sua entrevista, certo? – me perguntou de imediato e concordei com a cabeça, mas ao ver que ela olhava para um papel em suas mãos, provavelmente meu currículo, percebi que tinha que responder em voz alta.
- Sim, senhora. E peço desculpas.
- Não tem um motivo? – ela perguntou, desviando por um segundo os olhos do papel. – Todo mundo chega cheio de histórias sobre seus atrasos...
Aquilo me pegou de surpresa. Eu realmente não tinha pensado em nada para dizer, achei que apenas pedir desculpas resolveria o problema. O que mais eu poderia falar? Que, sem querer, encontrei com um cara com quem passei alguns dias na França, e que, por acaso, é super famoso, então suas fãs vieram e nos atrapalharam e quando eu resolvi ir embora fui abordada por uma repórter e um fotógrafo, que queriam meu depoimento sobre nossa semana amorosa? Aquilo não parecia real nem para mim mesma.
- Bom, senhorita , se não é seu desejo conseguir este estágio, te peço que se retire, pois ainda tenho muito o que fazer – a mulher disse, séria, ao ver que eu não respondia e voltei a me concentrar. Eu não podia perder aquela oportunidade. Ele não podia me atrapalhar até nisso.
- Por favor, me desculpe. É que o motivo do meu atraso foi algo pessoal e não pensei que senhora se interessaria em saber – respondi sincera e, ao ver que ela não dizia mais nada, decidi que era melhor continuar falando. – Eu tive uma relação com um cara, um músico, mas eu não sabia que ele era famoso. No caminho para cá nós nos encontramos e ele quis me explicar por que havia mentido, mas eu disse que não podia, pois estava atrasada para a entrevista. Tentei sair, mas suas fãs apareceram e demorei a me livrar delas também. Quando consegui, uma repórter veio atrás de mim, querendo uma entrevista e tive mais um grande problema para conseguir mandá-la embora. Esse foi o motivo de eu não ter conseguido chegar a tempo.
Quando terminei de falar, notei que a mulher me olhava, com as sobrancelhas arqueadas por cima dos óculos. Ela não pareceu surpresa, mas também não deu indícios de que acreditava.
- É uma história e tanto, senhorita . Perfeita para um romance, não para um jornal – disse.
Engoli em seco e franzi minha testa, sem saber o que ela queria afinal. Pelo que me lembrava, havia sido pedida para explicar meu atraso, não para criar uma matéria para ser publicada.
- E você fugiu da repórter que queria um depoimento seu. Não pensou que ela estava fazendo o trabalho que você fará daqui a um tempo? Como se sentiria se suas fontes começassem a correr de você?
- Não é a mesma coisa. Primeiramente, porque não quero trabalhar com a área de celebridades. E, segundo, porque se tratava da minha vida pessoal e não quero ver isso em capas de revista de fofoca.
- Então, a senhorita é uma pessoa discreta, que não gosta de fama – ela disse e foi aí que comecei a entender. Ela estava usando toda essa baboseira para analisar minha personalidade. De repente, me senti um rato de laboratório sendo observado. – Nunca pensou que a fama quase sempre é resultado de um bom trabalho?
- Para mim, há dois tipos de fama: a conseqüência de um trabalho bem feito e a bajulação de pessoas que não tem mais nada a fazer da vida. A primeira, senhora, eu espero ter um dia. Mas espero passar bem longe da segunda.
Aquela última frase causou uma confusão no meu estômago. Eu sabia que não era hora para voltar a pensar em , mas afirmar que queria passar bem longe daquele tipo de fama incluía também passar bem longe dele. E afirmar isso era mostrar mais uma vez para meu coração que meu cérebro estava fazendo as escolhas certas.
A mulher continuou a me fazer perguntas que pareciam sem sentido e a observar minhas respostas, depois analisou rapidamente meu currículo, fez algumas perguntas de praxe sobre minha faculdade, minhas experiências, o porquê de eu estar querendo o estágio e o motivo de ter escolhido aquela profissão, e depois me liberou, garantindo que me ligariam em poucos dias.
A rua estava silenciosa quando deixei o prédio, mas eu sabia que não havia passado tempo suficiente para que a tarde de autógrafos tivesse terminado. Não queria caminhar novamente por aquele lugar, não queria correr o risco de ver de novo e não queria ter que entrar em conflito com meus sentimentos mais uma vez.
Enquanto decidia o que fazer, ouvi meu celular chamando. Era , como eu já imaginava.
- Espero não estar te ligando no meio da entrevista – ela disse, assim que atendi. – Só queria saber como tinha ido e se já podemos ir ao shopping.
- Eu vi ele – falei, sem pensar e ignorando tudo que havia falado.
- Ele quem?
- – respondi e então houve um silêncio, mas, mesmo sem ouvir nada, eu podia imaginar perfeitamente a cara de surpresa de . – Aquela tarde de autógrafos estúpida é perto de onde foi minha entrevista.
- E ele te viu? Vocês se falaram? – Dessa vez, percebi um leve tom de empolgação em sua voz e rolei meus olhos. Será que não entendia que aquilo não era legal?
- Viu. Ele até fugiu de lá, para tentar conversar comigo – falei e senti algo em meu estomago se contrair. Dizer aquilo em voz alta trouxe detalhes à minha mente que eu tinha deixado passar despercebido.
havia realmente fugido de sua própria tarde de autógrafos, simplesmente porque me vira do outro lado daquela vitrine. E, mesmo que eu não entendesse por que ele havia feito aquilo, era um gesto bastante admirável. Ele havia mentido, havia me deixado sozinha no aeroporto, mas não havia se esquecido de mim. Talvez o garoto por quem eu havia desenvolvido sentimentos ainda existisse em alguma parte dele.
- ? Ta aí? – Ouvi perguntar e voltei à realidade.
- Me desculpe, , eu me distraí.
- Estava dizendo para você me encontrar no shopping. Estou indo para lá agora.
Apesar de ter concordado, assim que desliguei o telefone eu voltei a me lembrar que não podia sair dali. Não apenas porque meus pés pareciam grudados no chão, mas porque eu não queria ter que enfrentar toda aquela multidão mais uma vez. Estava com medo. Não apenas de ser reconhecida por mais algum repórter maluco, mas também por sentir que tudo que eu havia reprimido durante aquele tempo sem pensar em estava voltando com força total dentro de mim.
- Esperando alguma coisa? – Ouvi alguém perguntar, às minhas costas, e senti meu coração palpitar três vezes mais forte com o susto. Olhei para trás, com medo de quem poderia estar ali, mas me tranqüilizei ao ver que era apenas um velho colega de turma. – Me desculpe, não queria te assustar...
havia estudado comigo e no colégio interno e, coincidentemente, também resolvido fazer Jornalismo na mesma faculdade que eu. Freqüentávamos quase todas as aulas juntos, mas nunca havíamos trocado mais de duas palavras, apesar de que eu o achava bastante simpático. Ele também era bonito. Não do tipo que faz todas as garotas babar a seus pés, mas possuía uma beleza bastante singular e altamente apreciada, principalmente, por , embora ela nunca admitisse isso.
- Estou apenas pensando no melhor caminho para voltar para casa – respondi, dando a ele um pequeno sorriso. – Não me diga que você também veio para a entrevista de estágio...
- Não. Na verdade, eu já estagio aqui há uns meses – ele disse, também sorrindo. – Estou de carro, quer uma carona?
Era exatamente o que eu estava precisando ouvir naquele momento. Sem nem pensar, aceitei seu convite e caminhamos juntos até onde seu carro estava estacionando, enquanto eu me sentia muito mais aliviada e feliz por ter dado a sorte de ter aparecido por ali.
- Estou indo encontrar no shopping, quer ir também? – perguntei, tentando retribuir sua gentileza.
- Eu adoraria, mas tenho que fazer uma matéria daqui a pouco. De qualquer forma, deixa seu número comigo e, qualquer coisa, eu te ligo – ele falou, me estendendo seu celular, para que eu anotasse meu contato.
Entramos em seu carro e senti meu sangue gelar quando, após sairmos, vi que ele seguia na direção onde acontecia o evento de . Eu sabia que não tinha como nada acontecer comigo de dentro do carro, mas, de qualquer maneira, só o fato de passar por ali já me causava uma sensação desconcertante.
- O que está acontecendo ali? – perguntou, assim que notou o bando de adolescentes que se amontoava na calçada da loja.
- Me parece que é uma tarde de autógrafos – comentei superficialmente, tentando esconder o quanto eu me relacionava àquilo. Muito mais do que eu gostaria.
- Ah, é mesmo! Ouvi as meninas comentando na redação. É o . Eles são super queridinhos por elas – ele disse, rindo, e eu forcei um sorriso.
Eu já sabia que era o que estava ali e também já sabia que eles eram queridinhos por grande parte das garotas do país, mas ouvir dizer trouxe de novo a sensação de desconforto ao meu estômago. Era como se aquilo só se tornasse verdade quando eu ouvia em voz alta.
Mas eu não queria pensar naquilo. Não queria pensar em mais nada que me ligasse a , nem mesmo pensar no que teria acontecido se eu tivesse aceitado conversar com ele antes daquelas fãs aparecerem. O que ele teria dito? Eu o teria perdoado? Eu me sentia estúpida por uma parte de mim estar convicta que sim.
- Posso te contar um segredo? – falou baixo, como se tivesse mais alguém no carro que pudesse ouvir. Vendo que eu concordava, ele continuou. – Me contaram que o não ta muito em alta ultimamente, então estão pedindo às revistas para divulgá-los. Quem me contou isso foi uma amiga que trabalha nessas revistas dedicadas à vida das celebridades.
Eu não sabia por que ele estava me contando aquilo, mas era como se ele soubesse do que havia se passado entre e eu. acabou trazendo de volta uma das suposições que surgiram em minha mente quando me vi na capa daquela revista: a de que havia feito aquilo para se auto-promover.
- Como assim ‘pedindo’ para divulgá-los? – perguntei, me fazendo de desentendida, apenas para tentar arrancar mais detalhes. Eu precisava saber de tudo que ele sabia a respeito disso e então poderia ignorar ou confirmar essa minha suposição, embora a segunda alternativa me assustasse bastante.
- Por exemplo, um deles saiu na capa da revista dessa minha amiga essa semana. Ela me contou que ligaram para a redação dando detalhes de onde ele estava, o que estava indo fazer etc. Bastou reunir uma equipe e ir para lá e a matéria já estava pronta, entende? Eles simplesmente te dão tudo, você nem precisa se preocupar em apurar.
De repente, o carro pareceu estar pequeno e abafado demais. Abri a janela, em busca de um pouco de ar, mas tudo que entrou foi frio, então tornei a fechá-la, ainda com a cabeça embaralhada. Tanta coisa passava por minha mente naquele momento. Quando acordei naquela segunda-feira, tudo que eu planejava fazer era uma entrevista de estágio e, não, descobrir que havia sido usada para ganho de publicidade. Principalmente por alguém que havia sido tão especial para mim.
Embora ainda um pouco desorientada, resolvi que seria melhor trocar de assunto. Eu não queria que acabasse se lembrando da tal capa e me reconhecendo, porque, além de que seria constrangedor, eu temia que ele acabasse contando a sua amiga quem era a garota que estava com . E aí eu estaria realmente arruinada.
me deixou no shopping e entrei procurando por como uma louca. Eu precisava contar a ela tudo que havia acontecido naquela tarde, precisava de seus conselhos malucos. Mas, na verdade, o que eu mais queria era ouvi-la dizer que havia se equivocado, mesmo sabendo que isso não era verdade.
- Calma, , respira! – ela disse, zombando da minha cara, assim que nos encontramos. - Do jeito que te conheço, sei que você deve estar quase dando um colapso.
- , você não sabe metade das coisas que realmente aconteceram. Quando eu terminar de contar, até você vai estar à beira de um colapso.
Nos sentamos em uma das mesas da praça de alimentação para podermos conversar melhor e, ali, contei tudo a : desde o momento em que havia posto meus olhos em , através da vitrine daquela loja, até o que havia me contado no carro. Quando terminei, ela estava muda e embasbacada.
- Você só pode estar brincando! – ela exclamou, quando conseguiu dizer algo. Ficamos um momento em silêncio, pois eu não tinha mais nada a dizer e ela mal conseguia abrir a boca. Porém, de repente voltou com sua expressão facial normal e me encarou pensativa. – Amiga, pensa uma coisa comigo, se o estivesse procurando por publicidade, você não acha que ele se envolveria com alguém famoso? Não te desmerecendo, mais atrairia muito mais os paparazzi, não acha?
Ela tinha razão. Embora um mistério seja sempre apreciado pela imprensa, não há nada mais chamativo do que duas celebridades que começam a namorar de repente. Mas eu também não podia afirmar que não havia me usado, do mesmo modo que não podia culpá-lo. E era essa maldita dúvida eterna que não me deixava descansar.
- , procure por ele. Peça por explicações, escute o que ele tem a dizer e então tire suas conclusões...
tinha razão, não dava mais para ficar me escondendo. Eu teria que encarar a verdade.

- E então? – ela me perguntou, algum tempo depois, enquanto procurávamos na internet por algum meio de falar com .
- Nada, não tem nada – falei, fechando um site. – Nenhum evento durante os próximos dias.
Já havia passado por vários sites em busca de alguma notícia sobre uma nova tarde de autógrafos, um show ou qualquer outro evento que me possibilitasse uma aproximação, mas, depois de ver que não havia nem sequer uma notinha sobre o tal , eu já estava começando a desistir.
- Talvez isso seja um sinal, algo para me dizer que é melhor eu não ir atrás.
- , você voltou muito supersticiosa de Paris – disse, rolando os olhos.
- Você também ficaria se o destino começasse a te colocar frente a frente com uma pessoa durante vários dias seguidos – respondi, me lembrando de tudo que havia acontecido naquelas férias em Paris.
Tudo havia começado quando ele me salvara dos brutamontes, aparecendo exatamente na hora e no local que eu precisava, e decidindo interferir em uma “conversa” que ele nem sabia do que se tratava. Depois, no dia seguinte, havíamos nos encontrado no meio da rua, em uma cidade daquele tamanho. Naquela mesma tarde, uma moeda havia decidido que eu fosse com ele a Lille. E, por fim, sua banda fez uma tarde de autógrafos há pouco mais de um quarteirão de onde eu faria uma entrevista de estágio.
Mas, se o destino nos queria tanto juntos, porque havia permitido que não chegasse a tempo naquele aeroporto, já que foi isso que ele disse ter acontecido? Ou porque não me deixava encontrar uma maneira de falar com ele, agora que havia decidido fazer isso?
- Se o destino está querendo tanto juntar vocês dois, então espere e deixe que ele faça seu trabalho.
Isso foi o que me respondeu e uma calma repentina surgiu em meu peito. Ela estava certa mais uma vez, eu não deveria me precipitar e também não acreditava que o destino me deixaria na mão depois de ter tentado tantas vezes. Nós iríamos nos encontrar de novo, se isso fosse o melhor para nós dois.
Naquele dia, eu tive uma das melhores noites de sono desde que eu havia conhecido . Nada de pesadelos, nada de acordar no meio da noite com o coração batendo apertado. De repente, uma confiança havia crescido dentro de mim e eu estava disposta a mantê-la por perto por quanto tempo fosse possível.
Os dias que se seguiram também foram tranqüilos. As aulas da faculdade estavam cada vez mais puxadas e então me foquei nos estudos e trabalhos, não deixando nenhum espaço da minha mente para pensamentos desagradáveis. Minhas saídas com também estavam sendo bastante divertidas, principalmente depois de ela ter assumido que sentia falta de na sala de aula e faria de tudo para vê-lo novamente. Mas chegou um dia em que meu coração voltou a bater apertado.
Desde que havia decidido deixar as coisas nas mãos do destino, eu tinha tirado essa preocupação da minha cabeça. Mas, com o passar do tempo, ao ver que nada acontecia, não pude evitar que o sentimento voltasse. E se o destino houvesse desistido de mim? E se realmente não fosse para que eu e ficássemos juntos?
Naquele mesmo dia me ligou, me convidando para uma festa. Seria a comemoração do aniversário de uma empresa importante, em um grande salão, e estaria repleta de jornalistas. “Vai ser ótimo para você ter novos contatos profissionais, sabe como é...”, ele havia dito, para me convencer. Perguntei a ele se poderia ir comigo, já imaginando o quanto ela ficaria chateada se eu fosse sozinha a uma festa com e ele me pareceu até animado ao concordar.
A festa ocorreria naquele final de semana, então os dias que se seguiram foram de compras. Seria uma noite de gala, e - que havia ficado bastante entusiasmada com a notícia - e eu precisávamos de novos vestidos e sapatos.
A noite da festa chegou mais rápido do que esperávamos e, quando dei por mim, já estava caminhando ate o salão, ao lado de . Era realmente uma noite de gala, a decoração estava impecável e fotógrafos, espalhados por todos os lugares, registravam os sorrisos dos senhores e madames, que conversavam e riam com suas taças de champanhe nas mãos.
Por sorte, já estava lá e veio nos cumprimentar assim que nos viu chegando. Ele estava extremamente elegante e reparei no quanto ficou embasbacada ao vê-lo. Os dois trocaram sorrisos e ele então nos convidou para uma volta.
Fomos apresentadas a um grupo de pessoas que discutia política, um que falava de economia e um que conversava a respeito de jornais e revistas. Foi neste último que me deixou, enquanto levava para continuar sua volta pelo salão – ou, pelo menos, isso foi o que me disseram.
Conversei com algumas pessoas interessantes, expus minha opinião em suas discussões e já estava começando a concordar que aquela festa seria boa para a minha carreira quando algo captou minha visão e eu senti tudo congelar ao meu redor.
entrava de braços dados a uma garota e chamava atenção de um grande grupo de fotógrafos. Minha mente se embaçou quando me dei conta de que nunca o havia visto tão lindo, estava ainda mais elegante que , vestindo um smoking preto. Ao seu lado, a garota também estava bonita, mas não consegui reparar nela por muito tempo, já que meus olhos teimavam em voltar a se pousar sobre ele.
Enquanto me perguntava o que diabos fazia naquela festa, vi que ele cumprimentava algumas pessoas e seguia em minha direção, ainda sem notar minha presença. Na dúvida entre correr e me esconder ou ficar ali como uma mulher madura, comecei a procurar por com os olhos, na esperança de que ela me salvasse, mas não encontrei nem sinal da minha amiga ou de .
Meu coração batia completamente desordenado e minhas mãos começaram a suar. Eu já não prestava nenhuma atenção às palavras que eram dirigidas a mim. E foi no momento em que um garçom oferecia uma taça de champanhe a que ele finalmente me viu.
A expressão de surpresa em seu rosto não demorou a dar lugar a um sorriso e senti minhas pernas amolecerem quando ele abandonou sua acompanhante e seguiu em minha direção.
- , que bom te ver aqui! – exclamou, quando chegou próximo suficiente para ser ouvido acima de todo aquele ruído. – A propósito, você está linda.
Não consegui conter um sorriso.
- Será que hoje podemos conversar? Aqui não tem fãs malucas, eu espero – continuou, antes que eu pudesse dizer alguma coisa.
- Eu quero conversar com você – respondi, embora minha voz não tenha soado tão segura quanto eu esperava. – Mas não acho que essa seja a melhor ocasião para isso, até porque sua acompanhante vai ficar sozinha.
Eu não queria falar sobre ela, mas aquelas palavras simplesmente escaparam da minha boca. Vi que olhava para a garota, que conversava com alguns senhores bem mais velhos que ela, e então concordava, sacudindo a cabeça positivamente.
- Você esta certa – ele disse, ainda olhando para lá. – Não quer ir, ao menos, cumprimentar o senhor Marback?
Franzi minha testa e voltei a olhar naquela direção. Um dos senhores com quem a acompanhante de conversava era o dono do casarão onde havia me hospedado em Lille. E, embora não tivesse a mínima vontade de me aproximar daquela garota, não podia negar cumprimentar alguém que havia sido tão gentil comigo.
No meio do caminho, porém, notei que a acompanhante de parecia estar bastante confortável naquela conversa, o que me levou a pensar que talvez eles já se conhecessem antes. E, se isso fosse verdade, talvez eu estivesse certa ao pensar que: ou já havia usado aquela tática para conquistar garotas antes de mim. Ou eu havia realmente sido a cobaia, provando a ele que aquilo funcionava.
- Me lembro de ver você e o correndo pela casa como malucos, quando vocês eram mais novos. Vocês sempre foram inseparáveis – Sr. Marback estava falando com a garota, quando nos aproximamos.
- Senhor Marback, se lembra da ? – o interrompeu e me puxou para mais perto com um sorriso no rosto.
Vi o homem me olhar curioso, então sua expressão se abriu em um largo sorriso e toda aquela humildade que eu havia conhecido em Lille transpareceu por sobre sua pose séria.
- Como vai, querida? – ele perguntou, me dando um abraço. – Estava dizendo a esses dias que ele precisa te levar lá em casa de novo, quando as videiras estiverem cheias...
Enquanto concordava e agradecia o convite, comecei a observar a garota novamente. Queria saber se ela se surpreenderia ao ouvir que ele havia me levado a Lille, mas sua expressão permaneceu a mesma e aquilo me intrigou. Que tipo de garota não ficaria chateada ao saber que seu cara viajou com outra? Ou, talvez, ela já soubesse e a raiva que eu esperava ver agora já tivesse transbordado.
- Aliás, sua irmã estava me dizendo que você não avisou a ninguém que estava indo. Eu teria adorado a companhia dela também – Sr. Marback continuou a falar, se dirigindo agora a .
Mais uma vez fui pega de surpresa ao descobrir que ele tinha uma irmã. Não que eu esperasse saber tudo sobre uma pessoa com quem havia passado poucos dias, mas cada novo detalhe de sua vida pessoal que me era revelado parecia apenas mostrar que ainda era um completo desconhecido para mim.
- E eu tinha dito a ele que estava doida para te ver – sua acompanhante disse.
Demorei alguns segundo até finalmente conseguir ligar os pontos e entender o que estava se passando ali. A garota que estava com naquela festa não era sua namorada, era sua irmã. Uma irmã que eu nem sabia que ele tinha. E eu havia sido tremendamente sem educação ao não cumprimentá-la, simplesmente porque, embora fosse difícil admitir, ela havia me causado um pouco de ciúmes.
pareceu se divertir ao ver minha expressão de surpresa, provavelmente já imaginando o que se passava por minha mente. Então, notei que ele me oferecia sua mão, como havia feito naquela tarde de autógrafos, e, antes que pudesse acontecer algo para me fazer mudar de idéia, a segurei com força.
Começamos a caminhar em busca de um lugar mais afastado e imaginei que soltaria minha mão, mas ele a manteve firme junto à sua. Aquilo me trazia uma sensação antagônica, uma mistura de conforto e aperto no peito. Minha cabeça oscilava entre lembranças de Lille e do que eu havia ouvido falar a respeito de e sua banda.
Chegamos a uma espécie de sala de repouso instalada em um dos cantos do salão. Era um lugar fechado e com temperatura agradável, havia poltronas e almofadas espalhadas por lá, mas não havia mais ninguém além de nós dois. Me soltei de e me sentei em um sofá, eu estava extremamente nervosa. Vi que ele se sentava ao meu lado e apoiava os braços no joelho, cruzava as mãos e começava a encarar seus pés.
- Tenho tanta coisa para te falar. Nem sei por onde começo...
Eu também não sabia. Tínhamos muitos assuntos pendentes, muitas explicações a serem dadas... Permaneci em silêncio, esperando que ele dissesse o que queria e imaginando se ele teria coragem de continuar mentindo para mim.
- Primeiramente, me desculpe por não ter chegado ao aeroporto a tempo. Quando consegui chegar, você já tinha partido. Eu me senti horrível, tentei pegar o próximo vôo depois do seu, mas também não adiantou de nada. Fiquei com medo de nunca mais te ver – ele falou, ainda encarando os pés. – Eu me atrasei porque me ligaram para resolver alguns problemas...
- Do seu projeto de engenharia? – perguntei, irônica. Naquele momento, voltei a me sentir uma estúpida por ter acreditado em toda aquela história de ser engenheiro. Estava claro que não era verdade. Eu deveria ter percebido. Deveria ter, ao menos, desconfiado que ele estivesse mentindo para mim.
- Eu sei que você deve estar pensando o pior de mim agora e sei que a culpa é minha. Eu não deveria ter mentido, mas tenta entender meu lado...
- Tentar entender seu lado? Você mentiu para mim, me fez acreditar que era uma pessoa completamente diferente de quem você realmente é. Eu tinha o direito de saber com quem estava me envolvendo, principalmente porque agora tem uma foto minha estampada na capa de uma revista de fofocas – comecei a falar, finalmente me livrando de tudo que estava preso na minha garganta havia tanto tempo. – Eu não sei quem você é. Na verdade, eu nunca soube, mas antes eu podia fingir que sim. Você era uma pessoa comum, um engenheiro que estava trabalhando em Paris e que tinha resolvido tirar uns dias de folga para viajar com uma menina que havia chamado sua atenção. Nós tínhamos nos divertido bastante e nos lembraríamos daquela viagem com um sorriso no rosto. Mas agora eu não faço idéia de quem você seja ou do que passava pela sua cabeça enquanto caminhávamos de mãos dadas por aquele vinhedo.
Quando terminei de falar, imaginei que tentaria se justificar, mas ele ficou calado. Permaneci observando-o, enquanto sentia meu coração bater acelerado no peito e minhas mãos tremerem um pouco.
- Eu não sabia que tinha significado tanto para você.
Foi o que ele disse, e eu desviei meus olhos. Ele não sabia que tinha significado tanto para mim. Talvez por não ter significado nada para ele.
- Eu não sei como te pedir desculpas – ele continuou, depois de um breve silêncio, ao ver que eu não iria dizer nada. – Você tem razão, eu não deveria ter mentido, mas como iria te dizer tudo isso? Você teria aceitado viajar comigo até Lille se soubesse a verdade? Teria deix...
Então ele foi interrompido por um flash que iluminou todo o ambiente. Olhei assustada para o local de onde vinha a luz e me deparei com dois fotógrafos se preparando para tirar mais fotos. Havia também uma moça com um gravador nas mãos e, ao ver que tinha sido notada, começou a caminhar rapidamente até nós.
- , essa é a garota com quem você se encontrava em Paris? –perguntou. Em seguida, se virou para mim. – Qual é seu nome? Com o que você trabalha? Quantos anos você tem?
Sem saber o que fazer, olhei assustada para e vi que ele engolia em seco. Imediatamente, lembranças do que havia me contado encheram minha mente. “Ligaram para a redação dando detalhes de onde ele estava, o que estava indo fazer etc. Bastou reunir uma equipe e ir para lá e a matéria já estava pronta”, ele havia dito. Ao ver então que não fazia nada, me levantei, tampei meu rosto e corri para fora dali o mais rápido que pude.

Capítulo VII

Eu simplesmente não conseguia acreditar que tudo aquilo estava acontecendo. Minhas pernas se movimentavam de maneira automática na direção que julgavam capaz de me tirar daquele lugar e eu só me dei conta de que já havia deixado a parte principal do salão quando um segurança me perguntou se eu estava me sentindo bem. Mas eu nem sequer parei para lhe responder, tudo que eu queria fazer era ir embora dali o mais rápido que pudesse.
Notei que algumas pessoas me olhavam assustadas e deduzi que minha expressão facial não devia estar das melhores. Mas eu tinha esse direito. Eu tinha o direito de estar com raiva, eu tinha o direito de não querer mais uma vez ver meu rosto estampado na capa de uma revista de fofocas barata. Eu tinha o direito de querer sair de uma situação na qual havia sido colocada à força.
Quando cheguei ao portão que dava à rua, outro segurança voltou a me perguntar se eu estava bem e foi ali que eu finalmente consegui deter meus passos. Respirei fundo, tentando encher meus pulmões com o máximo de ar possível, mas estava frio e única coisa que consegui foi me sentir pior do que eu já estava.
Enquanto tentava me recompor e pensar em uma maneira de ir para casa sem , que àquela altura devia estar se agarrando em algum canto com e entenderia meus motivos para deixá-la para trás, ouvi alguém chamar meu nome. O barulho dos carros que passavam na rua, dos que estacionavam bem na minha frente e das pessoas que conversavam e se cumprimentavam ao chegarem à festa, não me permitiu identificar a pessoa que procurava por mim.
Sem saber quem esperar, tentei manter uma expressão firme e séria, mas não agressiva, em meu rosto e me virei para a porta de entrada do salão. Passei meus olhos rapidamente pelas pessoas que ainda estavam ali, mas não reconheci ninguém.
Havia uma senhora vestida de maneira extravagante, que parecia ter enrolado um esquilo inteiro em volta do pescoço e seu acompanhante gordo, careca e com um dos bigodes mais nojentos que eu já havia visto, conversando com outro casal, cuja mulher era magra, alta e bonita, mas estava acompanhada por um senhor que eu podia jurar que estava usando peruca.
Também havia um casal que nem era preciso reparar muito para perceber que as coisas não iam bem entre eles, já que o homem estava de braços cruzados, com um olhar impaciente no rosto, enquanto sua mulher cumprimentava outra senhora da maneira mais falsa possível. E, finalmente, havia um homem de cerca de 40 anos, com uma pose bastante elegante, conversando seriamente com... .
Meus olhos demoraram longos segundos ali. Reparei em como ele estava especialmente bonito naquela noite e como parecia alguém sério, responsável e maduro dentro daquele smoking. Também notei que ele parecia impaciente, esfregando uma mão na outra e concordando várias vezes com as coisas que ouvia, como se isso fosse fazer o assunto acabar logo. Mas bem no momento em que decidi dar outro rumo ao meu olhar, vi que ele virava a cabeça em minha direção.
Sem saber direito o que deveria fazer, ou o que qualquer garota normal faria naquela situação, permaneci parada, com meus olhos presos aos seus. Ele também pareceu se desligar do que quer que estivesse conversando com aquele senhor e, após dar uma leve batida no ombro do homem, começou a caminhar até onde meus pés estavam fincados no chão.
parou a uma distância segura e, ao contrário do que eu imaginava, não disse nada. Ficamos nos encarando por longos segundos, enquanto pessoas passavam ao nosso lado e ignoravam nossa presença. Então ele estendeu sua mão direita, em um gesto que eu já conhecia, mas não a segurei. O que ele poderia querer com aquilo? O que me garantia que ele não me guiaria de volta até a frente de uma daquelas câmeras? Se havia uma coisa que havia me ensinado, era a não confiar em todo mundo que me oferecia a mão.
- Vamos embora daqui, – ele disse, quando percebeu que eu não conseguia sequer me mover. – Chega dessa festa, quero conversar com você.
- Não – respondi, secamente, quando consegui fazer esforço suficiente para proferir alguma palavra. – Eu vou embora, mas vou sozinha, não quero correr o risco de ir parar dentro de alguma outra revista. Volte para a companhia da sua irmã e me deixa em paz.
Com o máximo de autocontrole que consegui manter, recuei um passo e notei que recolhia sua mão e a colocava no bolso dianteiro de sua calça. Seus olhos se desviaram para o chão, me libertando da prisão que havia se transformado seu olhar, e eu pude mirar ao redor para me certificar de que não estávamos sendo observados por ninguém.
- Sei que não é fácil para você confiar em mim agora, mas, se for suficiente, você pode escolher para onde vamos. Minha irmã está bem acompanhada lá dentro. Escolha o lugar, a maneira como iremos, qualquer coisa. Eu só quero um lugar tranqüilo em que possa te explicar tudo que aconteceu. – Sua voz estava calma e macia e me trouxe lembranças das noites em Lille, de quando ele falava baixo, ou sussurrava, ao inventar histórias sobre os antigos donos do casarão, como se as pinturas nas paredes pudessem ouvir o que dizíamos.
Um sorriso ameaçou surgir em meu rosto, mas eu tratei de segurá-lo e me lembrar o motivo de estarmos parados ali naquele momento.
- Eu não preciso de mais nenhuma explicação, já entendi o que aconteceu – respondi, embora minha voz tenha soado tão fraca que eu sabia que não o convenceria nem depois de cinco garrafas de champanhe.
- Deixa de ser cabeça dura, Gigi – ele disse, com um leve sorriso.
Uma sensação estranha surgiu de repente em meu estômago, como se eu tivesse levado socos de milhares de formigas ao mesmo tempo, e o ar pareceu ter fugido completamente da atmosfera. Eu não consegui dizer nada, apenas arregalei meus olhos e tentei engolir minha própria saliva, que também pareceu ter desaparecido naquele momento. Não era possível que ele ainda se lembrasse do pseudônimo estúpido que eu tinha inventado no dia em que nos conhecemos.
- Sim, eu ainda me lembro – ele falou, como se lesse meus pensamentos. - Eu sou o mesmo cara que você conheceu em Paris, , eu só preciso que você me deixe te mostrar isso.
Então, mesmo sabendo que eu poderia me arrepender daquilo depois, mesmo sabendo que eu estava sob efeito de uma tática de sedução barata, mesmo sabendo que ele já esperava que aquele simples nome me deixasse de novo aos seus pés, eu segurei firme em seu rosto e juntei seus lábios aos meus.
Senti os braços de envolverem minha cintura e sua boca se abrir para dar passagem à minha língua. Senti as milhares borboletas, que eu já conhecia bem, começarem a voar em meu estômago. Senti seus lábios macios massagearem os meus de maneira calma e doce. E, principalmente, senti a falta que me fazia aquele beijo.
Quando nos separamos, permaneci ainda alguns segundos de olhos fechados, tentando obrigar o ar a entrar em meus pulmões e fazer minha cabeça parar de rodar, mas logo os abri e vi que estava sorrindo. Ele fez um leve carinho em meu rosto e segurou minha mão, enquanto tudo que eu conseguia fazer era olhar para ele e enxergar na minha frente o cara por quem eu tinha começado a sentir algo que nem sabia ser capaz de sentir. Eu não disse nada, não conseguia colocar meus pensamentos em ordem, então apenas deixei que ele me guiasse para longe dali.
Paramos em frente a um rapaz, onde ouvi pedir por seu carro e esperamos em silêncio, com nossas mãos grudadas, como se o simples gesto de soltá-las fosse fazer todos os desentendimentos voltarem a se colocar entre nós dois. O manobrista logo parou um Audi R8 preto onde o esperávamos e entregou a chave a .
Tentando não demonstrar em meu rosto o quanto havia ficado espantada, olhei novamente para sua mão que segurava a chave, apenas para ter certeza de que não estava maluca. Aquele era realmente seu carro e, mesmo que eu fosse uma leiga em relação a automóveis, não precisava de muito para entender que havia custado uma quantia que, provavelmente, eu nunca poderia gastar em uma simples vaidade, mesmo que trabalhasse minha vida inteira. Um calafrio percorreu minha espinha e me mantive firme quando soltou minha mão para abrir a porta do carona para mim.
Quando entrei, vi que seu interior era ainda mais impressionante e observei todos os detalhes enquanto minha mente divagava sobre como dinheiro não deveria significar nada para ele. Não era de se espantar que tivesse me pagado aquelas passagens de primeira classe a Lille. Mas eu não deixei que meus pensamentos continuassem e, assim que entrou no lado do motorista e deu partida no carro, voltei a colocar minha mente em branco.
Eu nem sequer me importei em perguntar aonde íamos, não queria pensar em nada, não queria que todas as minhas neuroses voltassem e me impedissem de fazer o que meu coração gritava para fazer naquele momento: confiar em uma última vez. Ele dirigiu por longos minutos e nos mantivemos em silêncio durante todo o trajeto. Aquele beijo havia tirado todas as palavras de minha boca e eu não queria voltar a estragar tudo com perguntas idiotas. Pelo menos durante aquela noite, eu não queria pensar em nada.
Notei que ele dirigia cada vez para mais longe do centro da cidade e em poucos minutos pegamos uma pequena estrada. Olhei para , pela primeira vez desde que havíamos entrado naquele carro, e já estava me preparando para perguntar a ele aonde íamos, já que pegar uma estrada não estava, definitivamente, dentro dos meus planos – não que eu tivesse um -, quando ele parou no acostamento.
- Acho que aqui não vai aparecer ninguém para nos interromper.
Não pude deixar de sorrir, era bom saber que ele também estava incomodado com todas aquelas interrupções. Talvez não fosse verdade o que havia dito sobre ele... Não, eu não queria pensar naquilo. Observei ligar o pisca alerta e descer do carro rapidamente, para dar tempo de dar a volta e abrir a porta para mim antes que eu o fizesse.
- Senhorita – ele disse, oferecendo sua mão como um perfeito cavalheiro, e soltei uma risada enquanto a segurava e descia do carro.
Estava frio do lado de fora e eu pude sentir a ponta do meu nariz congelar quase instantaneamente. Abracei meu próprio corpo e segui até a frente do carro, sem saber direito o que ele pretendia fazer do lado de fora, já que lá dentro estava muito mais confortável. Ele então deu um impulso no chão e se sentou no capô do carro, fazendo meu coração se apertar um pouco. O que ele pensava que estava fazendo? Aquele era um Audi R8!
- Senta aqui – chamou, batendo a mão no capô ao seu lado, e eu neguei com a cabeça. – , vem, não tem problema.
É claro que não tinha problema, ele provavelmente tinha dinheiro suficiente para comprar, pelo menos, um carro daquele por ano. Ainda com dor no coração, apoiei minhas mãos no capô e, depois de um pequeno pulo, me sentei ao seu lado.
- Você não tem dó de nada? – perguntei.
- Tenho, mas olha isso – ele falou e segurou em meu ombro, me empurrando levemente para trás. – Lá de dentro não dava para ver direito.
Abri minha boca, enquanto me deitava no capô, ignorando o quanto ele estava frio, e via todas as estrelas que enfeitavam o céu sobre minha cabeça. Era uma das noites mais bonitas porque, apesar do frio, não havia neblina e a Lua havia decidido se manter escondida, garantindo escuridão suficiente para que fosse possível enxergar as manchas de constelações bastante distantes da Terra. Vênus brilhava com força total e, pouco a pouco, fui identificando as estrelas mais conhecidas.
se deitou ao meu lado, com um enorme sorriso no rosto, e também ficou a observar o céu. Ele parecia realmente estar gostando daquilo e me peguei pensando no quanto ele era um cara romântico, daqueles à moda antiga. Paris, viagem para conhecer um vinhedo em Lille, saída às escondidas de uma festa para ver o céu estrelado...
- Tem horas que parece que eu to em um filme – falei baixinho. – Todos esses desentendimentos, as coisas que acontecem entre a gente... Sei lá, me parece tudo muito surreal.
segurou minha mão e entrelaçou seus dedos aos meus. Meu coração batia acelerado e eu fechei meus olhos, tentando registrar seu toque em minha memória. Um pequeno sorriso surgiu em meus lábios e então senti a respiração de bater em meu rosto, mas, ao invés de abrir meus olhos, eu apenas esperei que ele me beijasse.
Seus lábios tocaram os meus com leveza e maciez e senti que ele fazia um carinho gostoso em minha bochecha. Nós nos beijamos como dois adolescentes apaixonados, embora eu notasse que ele tinha por mim o respeito de um homem. E foi naquele momento que eu percebi que já não tinha mais volta. Mesmo que eu vivesse lutando contra eles, meus sentimentos por tinham chegado a um nível praticamente impossível de se reverter.
Depois de me beijar, ele voltou a deitar no capô e observar as estrelas e eu percebi que já não sentia mais frio. Nem mesmo o fato de estarmos deitados sobre seu carro me incomodava, tudo parecia perfeito.
Continuamos a olhar para o céu e começamos a conversar sobre as constelações. tentou me mostrar algo que ele jurava ser uma mulher nua, mas tudo que eu conseguia enxergar era um amontoado de estrelas desordenadas. Eu tinha quase certeza que ele estava inventando aquilo. Ele também riu bastante do meu escândalo quando consegui ver uma estrela cadente e passou longos minutos tentando me convencer a contar o que eu havia desejado.
Quando eu já não conseguia mais tocar a ponta do meu nariz, tanto por ele estar congelado, quanto por meus dedos estarem sem sensibilidade por causa do frio, decidimos que seria melhor voltar para o carro e ligar o aquecedor. mais uma vez se fez de cavalheiro, abrindo a porta para mim, e no pequeno espaço de tempo que ele levou para dar a volta no carro, aproveitei para abrir um largo sorriso e respirar fundo, deixando o sentimento bom que crescia em meu coração se espalhar por todo o meu corpo.
Ele se sentou no banco do motorista, mas não ligou o carro. Ficou em silêncio, encarando o volante, e, com o coração voltando a apertar e impedindo que o sentimento bom continuasse seu trajeto, eu logo entendi o que se passava por sua cabeça. Ele não havia me levado ali à toa, havíamos ido a um lugar onde não pudéssemos ser interrompidos, porque tínhamos muito que conversar, mesmo que eu não quisesse ter que voltar a pensar em tudo aquilo.
- ... – ele começou e apenas fechei meus olhos. – Acho que chegou a hora de discutirmos sobre tudo que se passou entre nós.
Concordei com a cabeça, ainda sem coragem para abrir meus olhos e ser obrigada a encarar o brilho dos seus enquanto ele me contava como havia mentido para mim. Ouvi que ele respirava fundo.
- Meu nome é , mas as pessoas me chamam de . Eu faço parte de uma banda chamada há alguns anos e eu tenho fãs... – Ele deu uma risada abafada. – Eu sou péssimo em matemática, então nem que quisesse eu conseguiria ser um bom engenheiro. Eu estava em Paris porque fomos fazer um show lá e não por causa de um projeto. Eu não menti quando disse que estava fugindo dos meus amigos lá na estação de trem, porque eles realmente não sabiam que eu iria para Lille e ficaram bem nervosos quando descobriram, já que tínhamos uma tarde de autógrafos marcada em Londres. Todas aquelas vezes que eu corria, era porque eu queria passar despercebido, estava com medo de me reconhecerem e não queria te expor. Quando...
- Por quê? – perguntei, interrompendo-o.
- Por que eu não queria te expor?
- Por que eu? – Finalmente abri meus olhos e o encarei seriamente. Sua testa estava franzida e seu maxilar rígido. – Com todas essas garotas morrendo para ter um segundo da sua atenção, porque você se interessou por mim? Por que me convidou para ir a Lille com você? Por que me salvou daqueles dois brutamontes, mesmo sabendo que isso poderia chamar atenção...
Então eu mesma interrompi minha fala e me calei. Ele não precisava responder para que eu soubesse sua real intenção. Será que desde o começo havia sido assim? Havia sido tudo apenas um jogo para chamar atenção?
- Você não entende que é justamente isso que me fez querer você? Eu tenho realmente várias garotas atrás de mim, mas, sendo sincero, estou cansado disso. E, de repente, lá estava você, precisando de ajuda, me dando oportunidade de ser um homem normal, que ajuda alguém sem ter que parar para dar autógrafos a cada cinco segundos. E então, além de não me reconhecer, você desconfiou de mim e me deu um nome falso porque achou que eu podia ser de uma gangue. – Ele riu. – , você me deu a oportunidade de ser um cara comum por um tempo, eu podia ser eu mesmo, não tinha que estar o tempo inteiro mantendo aparências.
- E você não acha que eu tinha direito de saber a verdade? Eu te ajudei a ter um tempo de descanso e, enquanto isso, você me colocou no meio de uma tremenda confusão...
- Eu não queria te envolver em nada, me desculpa. – Ele se calou por alguns segundos e abaixou seu olhar. – Eu achei que seriam apenas alguns dias divertidos ao lado de uma boa companhia, não imaginei que fosse significar tanto.
- Significar tanto para quem? – perguntei, me lembrando do que havia ouvido ele dizer mais cedo, que não imaginava que havia sido tão importante para mim. – Eu não sou uma garotinha apaixonada, . Eu posso agüentar o fato de não ter significado tanto para você quanto significou para mim, mas eu não quero fazer papel de idiota. Você imagina o susto que eu levei ao ver uma foto minha na capa de uma revista? Pior, você consegue imaginar o que eu senti quando descobri que você era famoso e que o cara que tinha me beijado em Lille era uma farsa, um personagem fabricado?
- Não era um personagem! Você não entende, ? Você é uma das únicas pessoas que me conhece de verdade. O personagem é esse cara aqui, vestindo um smoking caro e indo a festas lotadas de gente esnobe e hipócrita. O verdadeiro é aquele que gosta de passear por vinhedos, que se diverte com uma boa companhia e que beija uma garota quando não consegue mais tirar ela da cabeça, e não apenas para garantir a capa da revista da semana que vem.
- O problema, , é que eu nunca sei com qual dos dois eu estou conversando – falei, sentindo que minha cabeça estava mais uma vez dando voltas. Eu não sabia o que pensar, em que acreditar, como reagir a tudo aquilo que estava ouvindo. Ele estava me dizendo que o famosinho era capaz de beijar uma garota para garantir a capa da revista, mas o verdadeiro não? Aquilo não fazia sentido nenhum, principalmente por eu não conseguir descobrir qual dos dois havia me beijado.
Nós ficamos em silêncio por alguns segundos, em um clima estranho e constrangedor, como se tivéssemos perdido a linha da conversa. Ou como se ele não conseguisse encontrar uma maneira de se explicar depois do que eu havia falado. Mas logo meu celular começou a chamar alto, quebrando completamente o silêncio que havia se instalado ali. Era e atendi rapidamente.
- Onde diabos você se meteu? – ela perguntou do outro lado da linha, com um tom de voz que logo percebi ser de alguém que já havia tomado champanhe demais. – Fui dar uma voltinha com o e quando voltamos você tinha desaparecido.
- , eu precisei ir embora e não consegui te encontrar – expliquei rapidamente, já que não queria ter que falar sobre aquilo na frente de . – Será que tem como o te deixar em casa?
- Er... Acho que sim.
- Ótimo. Então, amanhã eu te ligo, pode ser? Boa noite e toma cuidado com o champanhe.
Desliguei o telefone, após ouvir dizer a que devolvesse sua taça, e guardei o aparelho, voltando ao silêncio constrangedor entre eu e . Ele estava olhando para a estrada além do pára-brisa, com uma expressão pensativa.
- Eu fui egoísta, mas tudo que eu queria era um tempo com alguém que não fosse me julgar pelo que já havia lido nos jornais – ele disse, então, retomando a conversa. – Mas acabei sendo um babaca ainda maior. Eu não pensei nas conseqüências e, quando me dei conta, já era tarde demais. Era por isso que eu saía cedo quando precisava resolver coisas no centro de Lille, eu tinha medo de que, se você fosse comigo, acabasse descobrindo a verdade.
- Eu descobriria de qualquer forma, quando voltássemos a Londres.
- Eu sei, mas eu queria mais um tempo. Eu sabia que não seria fácil, que você se chatearia, e não queria estragar nosso passeio. Planejei te contar toda a verdade no aeroporto, então você teria a viagem inteira para pensar nisso e me perdoar, mas então me ligaram para me dar uma bronca pela tarde de autógrafos e o trânsito estava um inferno. Quando consegui resolver tudo, eu já havia perdido o horário.
Me mantive em silêncio, apenas pensando em tudo que ele estava dizendo. fez uma breve pausa e respirou fundo. Depois olhou em meus olhos de maneira firme e um pequeno sorriso se abriu em seus lábios.
- Sabe por que meu plano não deu certo? Por que eu planejei tudo sem considerar que, no final, eu acabaria me apaixonando por você.
Meu coração deu uma batida muito mais forte do que o normal quando ouvi aquilo e, instantaneamente, minha cabeça começou a rodar. Ele havia realmente dito que estava apaixonado por mim? O cara por quem eu havia passado tantas noites em claro também se sentia da mesma forma?
Eu não consegui dizer nada, abri e fechei a boca várias vezes, na esperança de que saísse algum som, mas acabei desistindo. , então, sorriu e voltou a olhar para a estrada.
- Você é uma pessoa bem difícil de encontrar... Quando voltei a Londres, comecei a te procurar, mas então percebi que seu nome, suas qualidades e o jeitinho lindo com que você olhava para mim não eram suficientes para que eu descobrisse seu endereço ou, pelo menos, seu telefone. Me amaldiçoei tantas vezes por ter sido burro demais e não ter sequer pegado o número do seu celular. Mas no final acabei entendendo que não daria certo daquela forma. Afinal, tudo que funcionou para a gente até hoje foi obra do acaso, não é? Deixei na mão do destino e, então, você apareceu bem na minha frente, do outro lado daquela vitrine. – Ele deu uma pequena risada. – Os garotos ficaram com muita raiva naquele dia, porque eu simplesmente abandonei a mesa e fui atrás de você. Mas o que eles queriam que eu fizesse? Te deixasse ir embora?
- É tão fácil acreditar em tudo que você diz – falei, embora tivesse planejado que aquilo fosse apenas um pensamento não pronunciado. – Todas as dúvidas que passaram pela minha cabeça, todas as minhas desconfianças, tudo parece ridículo quando você começa a contar suas histórias.
- Talvez por você estar, finalmente, se convencendo da verdade. Para de lutar contra mim, .
Mais uma vez, eu não disse nada. Deixei que um sorriso se formasse em meus lábios e passei de leve uma mão por seu rosto, observando ele fechar os olhos quando toquei sua pele. Havia uma sensação estranha em meu peito, mas não era algo ruim, pelo contrário, era algo que me dava vontade de continuar sorrindo pelo resto da noite. Então, sem que eu me desse conta, meus lábios se abriram e pronunciaram palavras que saíram direto de dentro do meu coração.
- Eu estou completamente apaixonada por você.
voltou a abrir os olhos e deu um dos sorrisos mais bonitos que já vi em seus lábios. Ele também levou uma mão ao meu rosto e então nós nos beijamos de uma maneira como nunca havíamos nos beijado antes. Era um beijo intenso, cheio de paixão, como se quiséssemos recuperar todos os beijos que havíamos deixado de dar durante o tempo em que estivemos perdidos um do outro.
Quando afastamos nossos lábios, em busca de um pouco de ar, nós dois estávamos sorrindo. puxou de novo meu rosto para perto e deu um pequeno beijo em minha testa. Fechei meus olhos, sentindo seus lábios tocarem minha pele, e então o abracei, apoiando minha cabeça em seu peito e encaixando meu rosto em seu pescoço, de modo que seu perfume delicioso me deixasse inebriada por longos segundos. Eu nem sequer me importei com o desconforto de estarmos em seu carro, eu não queria pensar em nada que pudesse atrapalhar aquele momento.
Não tenho idéia do tempo que passamos abraçados, mas então foi a vez do celular de tocar e tivemos que nos afastar para que ele pudesse pegá-lo. Porém, ao invés de atendê-lo, ele apenas apertou um botão e o som parou.
- Alarme – ele explicou. – Coloquei para me avisar quando fosse quatro horas.
- Já são quatro horas da manhã? – perguntei, arregalando meus olhos e pegando meu próprio celular, para conferir o relógio. Era impressionante como, ao lado de , as horas passavam muito mais rápido que o normal. – Você tem algum outro compromisso?
- Agora, não. Mas vamos sair de turnê hoje e combinamos de nos encontrarmos às seis, então planejei que duas horas seriam suficientes para sair da festa, tomar um banho, pegar minhas coisas e ir até onde o ônibus vai estar nos esperando.
Abaixei minha vista e voltei a me recostar em meu assento. Ainda não havia conseguido me acostumar com a idéia de que era um cara famoso e pensar nisso me fazia sentir frágil. Eu sabia que meu coração havia perdoado o cara de Lille, que havia escondido alguns detalhes de sua vida de mim, mas o famoso ainda era alguém desconhecido, de quem eu tinha medo de me aproximar demais.
- Antes que eu cometa o mesmo erro que tenho cometido durante todas as vezes em que nos vimos... Você pode me dar seu número? – ele perguntou, abrindo um largo sorriso, e me oferecendo seu celular.
Também sorri e peguei o aparelho de sua mão. Anotei meu número, dei um toque no meu celular, para poder também gravar o seu, e depois o devolvi.
- Nós vamos fazer alguns shows aqui pelo Reino Unido e logo estaremos de volta. Eu posso te ligar?
Sacudi a cabeça positivamente e me puxou para um selinho antes de ligar o carro. Ele dirigiu durante todo o trajeto em silêncio e eu fui olhando para a paisagem que passava por minha janela, me perguntando se aquela sensação estranha continuaria a aparecer entre a gente toda vez que tocássemos no assunto de sua banda. Mas logo também meus pensamentos foram se tornando mais silenciosos, já que eu estava cansada demais para continuar criando problemas para mim mesma.
Quando chegamos próximos ao salão onde ainda acontecia a festa em que deveríamos ter estado durante toda a noite, disse que me deixaria em casa e eu ensinei o caminho. Em poucos minutos, ele estacionou em frente à minha porta e eu percebi que era hora de me despedir mais uma vez.
- Obrigada por me trazer... – comecei, mas não era realmente aquilo que eu queria falar. – Obrigada por ter me contado todas aquelas coisas, por ter me tirado daquela festa e por ter feito minha noite ser muito melhor do que ela teria sido lá dentro.
sorriu e me deu um breve e suave beijo. Depois, fez um carinho em meu cabelo e me deu mais um selinho, antes de se afastar.
- Eu que tenho que te agradecer. Obrigado, , por ter entrado na minha vida.

Capítulo VIII

Na manhã seguinte, acordei dez minutos antes de o meu despertador tocar e já com um sorriso nos lábios. Não que eu fosse uma pessoa que acorda fácil e já de bom humor, mas eu mal havia aberto meus olhos e a imagem do rosto de surgiu em minha mente, causando um rebuliço tão grande em minhas entranhas que não me permitiu continuar deitada e, ao mesmo tempo, fez com que as laterais da minha boca se levantassem em um pequeno sorriso.
Me levantei, procurando pelas minhas pantufas com os pés, e caminhei em direção ao banheiro estranhando o silêncio que estava no restante da casa, pois meus pais costumavam acordar bem antes de mim e minha mãe já deveria estar preparando o café. Porém, no momento em que alcancei a porta, a verdade se enfiou em minha cabeça: era domingo e eu não havia acordado dez minutos antes do despertador tocar, porque ele sequer estava programado para aquele dia.
Rindo de mim mesma, dei meia volta e me arrastei de volta para a cama, pensando que, na verdade, se meu cérebro estivesse em condições de fazer uma conta corretamente, significava que fazia apenas uma hora e meia desde que eu havia me deitado. Me enfiei debaixo das cobertas ainda sorrindo e o sorriso persistiu em meu rosto até que eu adormecesse novamente.
Cerca de sete horas mais tarde eu voltei a acordar, dessa vez sabendo exatamente que dia era, embora não estivesse mais tão certa se eu havia realmente acordado antes pensando que era dia de semana ou apenas sonhado que havia feito aquilo. De qualquer forma, meu bom humor ainda estava intacto e eu levei o rádio para o banheiro quando decidi tomar um banho.
Demorei um tempo extra cantando embaixo do chuveiro, coisa que deveria me deixar envergonhada nesses tempos de aquecimento global, eu sei, mas minha empolgação foi tão grande que não me contive. Dancei enquanto me enxugava e usei minha escova de cabelo como microfone enquanto escolhia minha roupa, os acessórios e fazia uma leve maquiagem, mesmo sem ainda saber quais seriam meus planos para aquela tarde.
Eu estava distraída, passando meu delineador, quando as músicas acabaram de tocar e o radialista disse uma palavra que fez minha mão dar uma leve tremida e borrar praticamente toda a minha têmpora direita. Corri até o rádio, largando o delineador em qualquer lugar no caminho, e aumentei o volume no máximo, praticamente abraçando o aparelho para ter certeza de que eu ouviria bem.
- É isso aí, eles mal chegaram à cidade e já vieram direto para a nossa rádio. Estão aqui agora comigo, é o ! – o radialista disse e houve uma pequena bagunça.
Meu coração começou a bater mais rápido e percebi que até minha mão tremia um pouco. Eu sabia que era estúpido estar me sentindo daquela forma, mas o sorriso que havia carregado no rosto desde que havia acordado se tornou ainda maior só de saber que ele estava ali.
- Me contem garotos, o que os trouxe a Birmingham?
Uma ansiedade começou a crescer em meu peito apenas por pensar que a qualquer momento a voz de sairia do meu rádio. Esperei paciente, mas não foi ele quem respondeu.
- Estamos em uma turnê para divulgar nosso novo álbum. Estamos planejando alguns shows incríveis e temos certeza de que nossos fãs irão adorar as surpresas.
- Excelente. A última vez que vocês estiveram aqui foi, o que, seis meses atrás? – prosseguiu o apresentador.
- Exatamente. A gente veio fazer algumas tardes de autógrafos e assinar alguns papéis, mas ainda não podemos falar muito sobre isso... - Mais uma vez esperei ouvir a voz de , mas foi outro integrante da banda que respondeu.
Tentando normalizar meu batimento cardíaco, fechei meus olhos e continuei a ouvir a entrevista, enquanto eles discutiam sobre coisas da banda, os últimos shows, a ansiedade pela nova turnê e riam de alguns comentários. Por um momento, tive a impressão de que havia conseguido distinguir a risada dele em meio a de seus colegas, então apenas comecei a imaginá-lo lá, sentado de uma maneira relaxada, com um largo sorriso no rosto e se divertindo.
Sem perceber, eu já estava sorrindo de novo. Porém, logo meus olhos se abriram novamente e meu coração deu um salto desordenado quando ouvi o que o apresentador falava.
- Agora, , uma perguntinha mais pessoal... - Naquele momento eu definitivamente abracei o rádio e colei meu ouvido na caixinha de onde saía o som, mas logo percebi que aquilo tornava minha audição pior e voltei a me afastar, com as mãos começando a tremer novamente, os olhos se arregalando e involuntariamente prendendo a respiração. – Alguns anos atrás você deixou escapar que tinha uma ligação especial com Birmingham, mas não quis entrar em detalhes. Ficamos curiosos e agora queremos saber, que ligação é essa?
Soltei pesadamente a respiração, agradecendo por não ser nenhuma pergunta referente a mim, e sorri quando percebi, pelo som que saiu do rádio, que ele provavelmente havia feito o mesmo. Mas então sua voz soou pela primeira vez, ecoando pelas paredes do meu quarto silencioso e senti todo o meu interior se contrair. Era realmente ele, com sua voz sexy e rouca que eu tanto adorava.
- Ah, foi uma grande bobagem. Quer dizer, eu adoro Birmingham, nosso público daqui é incrível, os shows são bem animados, mas eu vivia brincando que acabaria me mudando para cá por causa das garotas, elas eram mais saidinhas e bem bonitas. – Ele fez uma pausa e riu. – Sabe como é, quando você está começando uma banda, não está acostumado com o assédio e aqui foi o primeiro lugar que eu comprovei essa fama. Tinha que considerar a cidade especial, não?
Risadas ecoaram quando ele terminou de falar, seguidas por palavras de aprovação, e eu acabei me juntando a eles e rindo também. Era estranho, mas o simples fato de termos tido aquela conversa na noite anterior parecera mudar tudo. Quer dizer, ainda não era fácil pensar nele como alguém famoso, mas ao ver que o meu , aquele cara por quem eu havia me apaixonado, ainda estava lá fez minha mente começar a digerir melhor todas as informações que haviam sido jogadas em cima de mim de uma hora para outra.
Eu também não me importei com o fato dele ter falado de outras garotas. Sendo realista, não dava para fingir que um cara lindo, sexy e famoso, membro de uma banda conhecida internacionalmente, não seria atacado. E não gostaria disso. Apesar de difícil, aquilo era outro detalhe com o qual eu teria que me acostumar se quisesse continuar vendo .
Ri de mim mesma ao perceber no que eu estava pensando. Nós só havíamos conversado por algumas horas na noite anterior e eu já estava presumindo que havia algo sério entre nós dois. De uma maneira que chegou a ser irritante, ouvi a voz de falando em minha consciência “ah, , você está tão apaixonada!”. Então rolei meus olhos, larguei o rádio e me levantei para limpar a marca de delineador borrado do meu rosto e terminar de me maquiar.
A entrevista não durou mais muito tempo e me peguei encarando minha própria imagem no espelho quando eles se despediram e músicas voltaram a ser tocadas. Eu não tinha certeza de quem era aquela garota que me olhava no reflexo, mas uma coisa eu sabia: seus olhos estavam brilhando como nunca.
Como que para me desvencilhar de todo o ar romântico que havia se instalado, meu celular começou a tocar alto pelo quarto. Mas isso teve o efeito contrário, pois, ao invés de voltar à realidade, eu me joguei em sua direção, desesperada para saber se quem estava me ligando era a pessoa que eu tanto esperava. Era um número desconhecido e atendi apreensiva.
- Boa tarde, gostaria de falar com a senhorita – uma voz feminina disse do outro lado da linha, mas eu mal tive tempo de me sentir desapontada por não ser quem ligava, pois, assim que confirmei ser eu quem havia atendido, a mulher me deu uma notícia que me deixou longos segundos boquiaberta. - Estou ligando do jornal Relicário para dizer que você conseguiu o cargo. Seu estágio começa nesta segunda-feira, às 14 horas.
Eu não respondi, apenas fiquei imóvel, tentando entender as palavras que minha audição havia captado. Ela tinha realmente acabado de dizer que eu havia conseguido o estágio? Aquele da entrevista na qual eu apareci descabelada, desesperada e extremamente nervosa? Só podia ser uma brincadeira.
- Alô? Senhorita ?
- Ah, perdão, estou aqui – falei rápido, antes que ela mudasse de idéia e ligasse para o segundo da lista. – Muito obrigada. Definitivamente, estarei aí na segunda-feira. Muito obrigada mesmo!
Quando desliguei, não pude me controlar e comecei a pular como louca pelo meu quarto. Fiz uma dança esquisita, joguei meu celular de qualquer jeito sobre a cama e fiquei sorrindo para todos os cantos como uma boba. Eu havia conseguido o estágio, iria trabalhar em um jornal! Eu não sabia o que havia acontecido, mas algo definitivamente havia mudado minha sorte e as coisas estavam finalmente entrando nos eixos.
Quando já estava começando a me sentir cansada, decidi ligar para para dar as boas notícias. Além de tudo que havia acontecido desde que eu havia acordado, nós também não tínhamos conversado sobre os acontecimentos da noite anterior. Mas, infelizmente, para minha amiga, as coisas não estavam tão leves naquele dia.
- Por favor, só não grita, minha cabeça está a ponto de explodir. Eu não sabia que champanhe podia ter um efeito tão horrível – foi a primeira frase que ela disse quando atendeu o celular depois da décima chamada.
- A ressaca está forte assim? – perguntei, esquecendo por um segundo os outros assuntos que tinha para tratar com ela. – Eu te disse para maneirar nas taças...
- Disse? Não me lembro – respondeu, soltando um gemido. – O pior é isso. Achei que bebida de rico não deixava ressaca – falou e soltei uma risada, mas logo percebi que não devia ter feito isso, já que ela começou a brigar comigo, aparentemente por ter rido muito perto do telefone. – Sério, , o mundo inteiro está girando na minha cabeça.
- Tenho notícias para te dar, prefere que eu fale por telefone ou passe aí?
- Por favor, venha logo, não agüento mais segurar esse celular no meu ouvido – e com isso ela desligou.
Com dó de , mas sem deixar que nada estragasse meu humor, peguei minha bolsa e corri em direção à sua casa, deixando um bilhete pregado na geladeira avisando a meus pais aonde eu ia, já que eles não estavam em casa.
A aparência de estava pior do que sua voz, constatei quando cheguei lá. Ela estava pálida e com o rosto amassado, deitada em sua cama com uma bolsa de água gelada sobre a cabeça. Quando me viu entrar por seu quarto, ela fez um gesto que não tenho certeza se foi um sorriso ou uma careta.
- Amiga, tem certeza que isso é só bebida? Ta parecendo que você foi atropelada – comentei, me sentando na beirada da cama.
- Obrigada, isso ajudou bastante no meu humor – respondeu, rolando os olhos. – Você disse que tinha notícias...
- Sim, mas antes quero saber do . Me conte tudo que aconteceu entre vocês – pedi e dessa vez tive certeza que ela me lançava um sorriso. – Vocês ficaram?
- Algo assim... Na verdade, eu queria me lembrar mais dos detalhes, porque sei que foi bem legal. Ele é um fofo, ! Me tratou super bem e disse que ficou muito feliz quando você me convidou, porque estava doido para me ver de novo...
pareceu até se esquecer de sua ressaca ao me contar o quanto sua noite havia sido maravilhosa – pelo menos até onde ela se lembrava. Ela voltou a dizer que tinha sido um cavalheiro e tratado-a bem o tempo inteiro. Não me poupou dos detalhes de como se sentiu quando ele a beijou e de como aquilo havia reacendido sua velha paixão escolar pelo garoto.
Quando terminou de falar, estava suspirando e eu me sentia estranha ao perceber que, pela primeira vez, entendia de verdade como ela se sentia. Ficamos um tempo em silêncio, cada uma contemplando seus sentimentos, mas logo ela quis saber da minha noite e foi a minha vez de sorrir ao relatar a conversa com .
chegava a parecer mais empolgada do que eu em determinados momentos. Contei a ela tudo que havia em dito e de como ele também parecia se irritar com o abuso dos paparazzi. Meus batimentos cardíacos se aceleraram quando algumas imagens surgiram de repente em minha cabeça e eu me empolguei ainda mais ao contar sobre o que havia ouvido na rádio naquela manhã.
- Meu coração quase parou quando o entrevistador disse que faria uma pergunta pessoal. Pensei que ele iria falar sobre mim, mas foi só de uma coisa que o havia dito algum tempo atrás – contei.
- O que será que ele responderia se a pergunta fosse realmente sobre você? – perguntou com um sorriso no rosto.
Eu não sabia a resposta, mas também sorri ao pensar no assunto. Mesmo que não quisesse assumir, eu estava curiosa para saber o que ele pensava sobre mim e essa nossa relação um pouco estranha. Será que ele considerava isso um romance? Algo que valesse a pena falar sobre na rádio? Ou será que apenas desmentiria e diria que estava muito bem solteiro?
Sacudi um pouco minha cabeça e tentei parar de pensar sobre isso. Eu ainda tinha uma última notícia para contar a e senti um frio na barriga ao me lembrar do telefonema que havia recebido naquela manhã.
- Ainda tenho mais uma notícia! Recebi uma ligação hoje, logo depois que o programa de rádio terminou... – comecei a contar e me olhou curiosa. – Consegui o estágio!
Se a cabeça de ainda doía, ela esqueceu completamente ao comemorar e me abraçar apertado. Nós duas rimos um pouco e percebi que minha amiga estava genuinamente feliz.
Aquela tarde de domingo passou rapidamente, perdida entre conversas, risadas e tentativas de adivinhar o que aconteceria dali para frente, mas com o chegar da noite, percebi que era hora de voltar para casa e tentar me manter relaxada, pois o dia seguinte seria bastante movimentado.
E assim foi. Meu primeiro dia no Relicário foi basicamente de apresentações e introdução aos princípios, ideologias e métodos do Jornal. Tentei me manter concentrada em tudo que via e ouvia, e agir profissionalmente ao dar de cara com e tentar esconder que eu sabia o que havia rolado entre ele e minha melhor amiga.
Mas apesar de não ter realmente trabalhado, aquele dia me pareceu estranhamento longo depois que ouvi algo que ficou martelando em minha cabeça até o final da tarde.
Eu havia sido levada até a mesma sala onde havia feito a entrevista e lá encontrei a mesma mulher, que acabei descobrindo ser minha chefe. Ela pediu que eu me sentasse em uma cadeira à frente de sua mesa e abriu um pequeno sorriso, me olhando por cima dos óculos.
- Espero que esteja gostando do seu primeiro dia aqui – começou a dizer e apenas concordei sorrindo. Eu não sabia por que, mas estar sentada ali me deixava desconfortavelmente nervosa. – Já deu uma olhada no nosso jornal da semana? – perguntou, me oferecendo um exemplar.
Estranhei um pouco sua pergunta, pois era óbvio que eu não o havia visto, já que o Relicário era publicado às terças-feiras e, portanto, sequer havia chegado às bancas. E mesmo que eu fosse uma funcionária dedicada, seria impossível ter tempo para ver o rascunho do jornal com pessoas me arrastando o tempo inteiro de um lado para o outro durante meu primeiro dia.
De qualquer forma, aceitei o exemplar que ela me oferecia e comecei a folheá-lo tensamente, sem saber se aquele era mais um de seus testes estranhos, como os que ela havia feito comigo na entrevista. Então, senti meu coração bater apertado quando me dei conta de que havia uma parte do Jornal voltada exclusivamente para o mundo das celebridades. Tentei me lembrar se eu havia sido muito crítica em relação a esse tipo de Jornalismo em nossa primeira conversa, e sorri sem graça ao ver que ela ainda me observava.
Eu sei, é estúpido não conhecer o Jornal para o qual eu havia sido contratada, mas confesso que havia espalhado meu currículo por tantos deles que sequer conseguia me lembrar de todos. E o Relicário também não era um grande Jornal. Na verdade, ainda estava bem no começo e não tinha um editorial muito conhecido pelos leitores assíduos de jornais.
Continuei a folhear o exemplar em minhas mãos, tentando não demonstrar antipatia por aquela área, mas então uma fotografia chamou minha atenção e me fez congelar por um momento. Não era possível, aquela não podia ser...
- ? – minha chefe me chamou, mas meus olhos se negaram a abandonar aquela foto.
Eu não podia acreditar que havia acontecido de novo. Tudo bem, não era tão inesperado que fosse publicado algo sobre mim, considerando os paparazzi que haviam surgido de repente naquela festa, mas uma publicação no Relicário era bem mais preocupante do que a daquela revista, porque, mesmo que não fosse um grande número, os leitores do jornal eram pessoas como meus pais. E mesmo que meu rosto não estivesse totalmente à mostra, agora eu tinha uma imagem positiva a passar, porque estava trabalhando. E coincidentemente, era naquele mesmo Jornal.
De repente, uma idéia surgiu em minha mente Talvez minha chefe tivesse me entregado aquele exemplar por isso, talvez estivesse esperando por uma reação minha, uma confirmação de que aquela garota com o cabelo sobre o rosto na fotografia era realmente eu.
Sem saber o que fazer, continuei encarando o jornal, até que senti que ele era puxado das minhas mãos. Minha chefe me olhou mais uma vez, antes de começar a ler em voz alta a nota que eu havia tentado evitar.
- Flagrados mais uma vez. Muitos rumores têm se espalhado a respeito do novo affair de , um dos queridinhos de , mas errou quem afirmava que era apenas um caso de viagem. O casal foi flagrado junto novamente em uma sala reservada durante uma festa de gala em Londres. Porém, enquanto ele parecia gostar da atenção, a garota misteriosa não quis aparecer e deixou o espaço rapidamente, desaparecendo também da festa a seguir. – Ela dobrou o jornal, ao terminar de ler, e o colocou sobre a mesa, enquanto voltava a sorrir para mim.
Eu não sabia o que fazer, minha garanta estava seca e rapidamente escondi minhas mãos para que ela não visse o quanto estavam tremendo. Permaneci em silêncio e evitei olhar para ela, mantendo minha vista presa ao jornal sobre a mesa.
- Me parece que seu plano de se manter longe das publicações de celebridades não tem dado muito certo – falou, ao perceber que eu não diria nada. Fechei lentamente meus olhos e tentei pensar em algo que pudesse me tirar daquela situação. Eu sabia que não adiantaria de nada fingir que não sabia do que ela estava falando. – É você na fotografia, não é?
- Você pode impedir? Você pode pedir para não publicarem, não pode? – perguntei, abrindo meus olhos rapidamente, quando a idéia surgiu em minha mente. Talvez ainda tivesse uma maneira de impedir um estrago, então me agarrei àquela possibilidade.
- Poderia... Mas o jornal já foi enviado para impressão, não da mais para voltar atrás.
Desapontada, tentei pensar em mais alguma coisa para dizer. Eu não sabia como agir. Não sabia se ela esperava que eu dissesse ou fizesse algo ou se deveria apenas permanecer quieta como estava. Mas eu não tive que pensar por muito mais tempo, já que logo um rapaz entrou correndo na sala, dizendo que precisava falar com ela urgentemente.
Me senti aliviada ao me levantar para dar licença do local e caminhei pelos corredores da redação com a cabeça dando voltas. “Enquanto ele parecia gostar da atenção...”, a voz da minha chefe lendo a nota ecoava por minha mente, mas eu não me permiti continuar a pensar naquilo. Havia decidido no dia anterior que não duvidaria mais de , então eu precisava parar de pensar em tudo que os artigos de fofocas diziam.
Mas não foi muito fácil esquecer o assunto, principalmente porque eu tinha a constante impressão de que algumas pessoas da redação me encaravam como se tentassem ter certeza de que era eu naquela maldita fotografia. Eu já estava começando a me sentir incomodada, mesmo sabendo que, pelo menos metade daquelas pessoas não estava me encarando de verdade e tudo não passava de mais uma paranóia da minha cabeça.
Sem ter muito mais no que pensar, comecei a imaginar o que diria ao ver aquela nota. Será que ele sequer chegaria a vê-la? Será que se preocuparia com o que eu poderia estar pensando? Será que gostaria de ver aquela foto publicada?
A resposta às minhas perguntas veio na manhã seguinte, quando meu celular tocou no meio da minha aula de Economia. Foi como se tudo ao meu redor desaparecesse quando reconheci o nome que piscava em meu visor e saí da sala da forma mais rápida possível, para atender à chamada antes que ele mudasse de idéia.
- ? Espero que não tenha te acordado... – disse e senti um frio no estômago ao ouvir sua voz. Involuntariamente prendi minha respiração e nós dois ficamos em silêncio por um segundo, enquanto ele esperava uma resposta minha e eu tentava colocar minha cabeça no lugar para conseguir falar alguma coisa.
- Na... Não, eu estou na aula.
- Ah, não quero atrapalhar. Se quiser, posso ligar mais tarde... – começou a falar, mas o interrompi antes que ele decidisse realmente desligar.
- Não! Tudo bem, eu estou livre agora. – Soltei pesadamente minha respiração e, em seguida, respirei fundo, para tentar me acalmar.
- Ok. Ahn... Como você ta? – ele também parecia um pouco desconsertado e fiquei imaginando se por acaso ele já sabia da publicação e se era por isso que estava ligando.
- Bem e você?
- Bem, bem...
Um silêncio constrangedor se formou entre nós e fiquei encarando os rabiscos da parede enquanto tentava pensar em algo para dizer, embora esperasse que ele fizesse isso, já que tinha sido ele a fazer a ligação. também me parecia incomodado e ouvi ele soltar pesadamente o ar antes de finalmente falar sobre o motivo de ter me ligado.
- , eu não sei se você já viu ou já está sabendo... Saiu uma nova foto de nós dois em um jornal. Eu não queria que isso acontecesse, me desculpa, mas você viu como eles apareceram de surpresa lá na festa...
- Eu sei e também já vi a foto – respondi calmamente, não adiantaria de nada ficar nervosa naquele momento. E, de certo modo, era bom saber que havia se preocupado de me ligar para eu não ser mais uma vez pega de surpresa com a minha cara em um jornal.
- Você não ta brava comigo de novo, está? Porque eu juro que se tivesse como, eu teria impedido isso de sair, você sabe que eu não gosto...
- Fica tranqüilo, eu sei que não foi sua culpa – falei e, involuntariamente, abri um sorriso. – Eu inclusive tentei encontrar uma maneira de impedir a publicação, mas já era tarde demais – disse e notei que ele continuava em silêncio, provavelmente se perguntando como eu poderia impedir alguma coisa. – Eu comecei a estagiar nesse jornal ontem, da para acreditar?
- Uau, sério? Parabéns! – pelo tom de voz de , pude notar que ele sorria enquanto dizia aquilo, então ampliei ainda mais meu sorriso. – Espera... Essa foto não vai te prejudicar, né?
- Espero que não. Pelo menos minha chefe não disse nada, mas está tudo bem, não há mais nada que possamos fazer, não é? – falei e então decidi que era hora de mudar de assunto. Realmente não havia nada que pudéssemos fazer e, já que havia me ligado, eu queria aproveitar aquele telefonema para conversar sobre coisas legais. - E como está a turnê? Ouvi a entrevista de vocês na rádio de Birmingham...
- Sério? – ele perguntou, parecendo realmente empolgado com o que eu havia acabado de dizer.
- É, foi por coincidência, mas eu realmente me diverti ouvindo. Vocês ficam por aí até quando mesmo?
Eu não queria parecer desesperada para vê-lo de novo, embora não fosse totalmente mentira, mas não consegui conter minha curiosidade. E mesmo que fizesse apenas dois dias desde que havíamos resolvido as coisas entre nós dois, eu sentia que se demorasse muito tempo para nos reencontrarmos, outra onda de maus entendidos e complicações se colocariam entre nós.
- Na verdade, esse é outro motivo para eu ter te ligado – ele respondeu. – Vou estar em Londres na sexta, então pensei que talvez a gente pudesse se ver. Podemos sair para comer alguma coisa ou assistir a um filme. O que você acha?
Comemorei silenciosamente ao ouvir aquilo e ignorei as expressões estranhas das pessoas que passavam por mim no corredor. havia me convidado para sair com ele. No final daquela semana nós nos veríamos de novo. Dei mais alguns pulinhos antes de me lembrar que tinha que responder alguma coisa.
- Claro! Claro que sim! Você já tem algo planejado?
- Não, você decide e depois me fala – disse com um tom de voz alegre. – Ah, droga, eu tenho que ir, . Estão esperando por mim. Antes de voltar a Londres eu te ligo de novo e você me diz o que decidiu, pode ser?
- Com certeza – respondi, ainda com um sorriso abobalhado no rosto. – Aproveite sua turnê.
Quando desliguei o telefone, eu não podia acreditar na felicidade que sentia. Era como se tudo estivesse dando certo, mesmo com aquela maldita publicação, mesmo que estivesse longe, mesmo que nossa relação não fosse nada muito sério. Mas o simples fato de ele ter acabado de me ligar, de ter dito que queria me ver assim que voltasse a Londres e de ter demonstrado preocupação por aquela fotografia, me davam segurança para acreditar, que, independente do que acontecesse, o destino sempre encontraria um jeito de fazer as coisas voltarem ao lugar que elas pertencem.

Capítulo IX

O dia havia começado estranho. Desde o momento em que abri meus olhos, uma sensação engraçada se instalou em meu estômago e ficou ali por mais tempo do que eu esperava. Minha cabeça também estava um pouco aérea e eu tinha a constante sensação de que algo estava prestes a acontecer, embora não conseguisse manter uma linha de raciocínio por tempo suficiente para descobrir o que era.
Durante minhas aulas pela manhã, havia tentando me manter concentrada na matéria e pela tarde me esforcei para não perder o foco em meu trabalho no Jornal. Já fazia uma semana desde que eu havia sido contratada pelo Relicário e, embora ainda não estivesse pegando as matérias mais difíceis, eu tinha que me manter concentrada para evitar que qualquer pensamento desnecessário desviasse minha atenção e me fizesse cometer algum erro.
Porém, por mais que estivesse tentando realmente não pensar em nada que pudesse me distrair, a sensação engraçada no meu estômago não dava trégua. Como aquilo já estava começando a me incomodar, resolvi tirar alguns segundos para pensar nisso e tentar descobrir seu motivo. E foi então que apareceu e me deu a resposta.
- , já tem alguma coisa programada para essa noite? – ele questionou, se aproximando da minha mesa. Estranhando a pergunta, apenas franzi a testa e sacudi a cabeça negativamente. – Você vai ficar em casa em plena sexta-feira?
Ouvir aquilo fez a sensação engraçada se triplicar e eu arregalei os olhos, assustada. Era sexta-feira? Era sexta-feira! Como eu podia ter me esquecido de que era sexta-feira? Se tornou óbvio, então, o motivo daquela sensação engraçada me incomodando o dia inteiro. Eu estava daquela forma porque, mesmo inconscientemente, sabia que havia chegado o dia em que veria de novo.
Involuntariamente, um sorriso se abriu em meus lábios e eu não consegui acreditar que havia realmente me esquecido de que dia era hoje, sendo que eu havia passado praticamente a semana inteira esperando que ele chegasse. pareceu perceber minha animação e me cutucou, rindo.
- Acho que te lembrei de alguma coisa...
- Definitivamente. Obrigada! – o agradeci, também rindo um pouco. Notei então que ele ainda me olhava, provavelmente esperando por uma resposta. – Pois é, acho que eu já tenho compromisso, só havia, estranhamente, me esquecido disso.
- Planos emocionantes, acredito – ele insistiu, com um sorriso encorajador. Senti minhas bochechas corarem um pouco e confirmei com a cabeça.
- Vou ver uma pessoa especial.
Coincidentemente, naquele momento meu celular tocou e eu senti meu coração ir à boca ao pensar que podia ser . Revirei minha bolsa desesperadamente em busca do aparelho, mas me desapontei ao ver o nome de piscando na tela. Provavelmente, ela estava ligando apenas para avisar que já havia saído da Clínica e estava livre para fazermos alguma coisa.
- Amiga, acabei de me lembrar que é hoje que você vai ver o , não é? – ela disse, assim que atendi. Ri um pouco ao pensar que se ela tivesse ligado um minuto antes, provavelmente seria quem me lembraria dos meus planos. – Vocês já decidiram o que vão fazer?
- Eu não consegui pensar em nada, minha mente se bloqueia toda vez que penso nisso. De qualquer forma, ele ficou de me pegar lá em casa às 8, aí decidimos o melhor destino – respondi, brincando com um bloquinho de papel que estava sobre minha mesa.
- Ótimo amiga, mas se lembre de levar camisinha.
- !
- O que? Só estou sendo prevenida! Apesar de que não seria nada demais engravidar de um cara famoso. Já pensou no quanto ele teria que pagar de pensão? – começou a viajar em pensamentos e eu ri, enquanto sacudia lentamente a cabeça.
- Claro, porque eu sou uma aproveitadora. Quem te escuta falando essas coisas, até acredita que você da realmente muito valor a dinheiro.
também riu e ficamos uns segundos em silêncio, embora ela logo tenha tratado de quebrá-lo e me perguntado como eu estava me sentindo. Contei a ela sobre meu esquecimento e de como agora estava extremamente nervosa ante a perspectiva de poder vê-lo de novo.
Fazia uma semana que eu não falava direito com , mesmo que ele tivesse me ligado algumas vezes, e saber que o veria naquela noite me deixava nervosa, como se estivesse esperando por um primeiro encontro.
Na verdade, se eu considerasse que durante nossos dias em Lille eu pensava estar com uma pessoa diferente e que apenas na noite da festa havia descoberto toda a verdade, essa noite seria, sim, um primeiro encontro. O primeiro encontro com , um cara famoso que, mesmo que eu já estivesse começando a me acostumar, ainda me deixava um pouco receosa.
Depois do telefonema de , a sensação engraçada em meu estômago se intensificou, já que seu motivo havia sido descoberto, e também fez com que eu passasse longos minutos olhando para a tela do meu computador imaginando como seria quando nos víssemos de novo e o que ele diria. E com isso, mais aérea do que antes, mal vi minha tarde de trabalho passar.
Dessa forma, quando se aproximava das sete horas eu estava uma pilha de nervos, mergulhada em meio a centenas de peças de roupa que havia espalhado pelo chão do meu quarto, à procura de algo que fosse bom - porque a roupa que havia planejado durante a semana inteira de repente me parecera feia demais.
Depois de acabar optando pela mesma roupa, derrotada por não encontrar nada que fosse melhor, fiz minha maquiagem e esperei ansiosa sentada no sofá da sala, encarando meu celular e esperando que ele tocasse a qualquer momento. não havia me ligado durante o dia inteiro, portanto eu não sabia se ele se atrasaria ou se sequer estava se lembrando do nosso combinado. Mas meus pensamentos não foram muito longe, já que menos de dois minutos depois meu celular tocou e era seu nome que estava no visor.
- Escuta, , eu acho que não vai dar para a gente se ver hoje – foi a primeira coisa que ele disse quando atendi e senti o ar falhar em meus pulmões por um momento. Eu havia entendido direito? Tentei dizer alguma coisa, mas as palavras desapareceram da minha mente e eu apenas aguardei em silêncio, que apesar de breve, para mim pareceu durar horas. – É brincadeira, estou aqui fora.
Demorei alguns segundos para entender sua segunda frase, mas quando consegui, respirei fundo e soltei uma gargalhada, ouvindo que ele se juntava a mim e ria também. Enquanto meus batimentos cardíacos tentavam decidir se se acalmavam ou se aceleravam mais, por saber que ele estava tão perto, me levantei do sofá e fui em direção à porta.
- Eu te odeio – falei, antes de desligar.
Notei que minha mão tremia um pouco quando tentei trancar a porta de casa, depois de sair, e respirei fundo duas vezes antes de me virar e ver seu carro estacionado logo à frente. O frio no meu estômago parecia se transformar em um buraco negro à medida que eu me aproximava e tudo piorou quando ele abriu a porta e saiu em minha direção.
Vê-lo de novo me deixou mais vulnerável do que eu imaginava e temi que meus joelhos cedessem ou meus pés se recusassem a se movimentar. estava ainda mais lindo do que eu me lembrava, embora não soubesse como isso era possível, e quando ele envolveu seus braços em volta do meu corpo, me embriaguei na mistura do aroma de seu perfume com a loção de barbear.
- Senti sua falta – ele sussurrou em meu ouvido e abri um pequeno sorriso, enquanto sentia seus dedos se entrelaçarem aos meus e me guiarem até a porta do carona.
Um conforto enorme se acomodou em meu peito ao estar novamente em seu carro e percebi que era impossível desfazer meu sorriso. entrou e se sentou no banco do motorista, também sorrindo, daquele jeito que eu tanto amava. Ele me olhou com intensidade durante alguns segundos e antes que eu pudesse pensar em dizer alguma coisa, segurou meu rosto entre suas mãos e me beijou.
Pega de surpresa, senti meu coração dar um giro em meu peito e meu estômago se contrair, mas logo eu já não estava sentindo mais nada. Uma onda anestésica percorreu meu corpo enquanto seus lábios massageavam os meus e toquei seu rosto, sentindo a maciez de sua pele com a barba recém-feita. Meus pêlos se arrepiaram quando ele se afastou por um momento e senti sua respiração bater em meu rosto, com um delicioso aroma de menta.
- Me desculpa, mas eu não consegui esperar mais – ele disse baixo e nós dois rimos um pouco, ainda com a ponta dos nossos narizes se tocando.
- Se você tivesse demorado mais um minuto para fazer isso, quem não conseguiria seria eu – comentei e ele me deu mais um selinho, antes de nos afastarmos novamente, ainda ambos com nossos enormes sorrisos no rosto.
Observei, então, girar a chave na ignição e depois me olhar com uma expressão sapeca.
- Já pensei em onde podemos ir.
- Onde? – perguntei curiosa, mas ele sacudiu a cabeça negativamente em resposta.
- Você vai ver – falou. Em seguida, segurou minha mão, deu um beijinho em seu dorso e começou a dirigir.
Eu tentei não ficar sorrindo como uma idiota o caminho inteiro, mas era praticamente impossível. Também não consegui tirar meus olhos dele enquanto dirigia e fiquei um bom tempo apenas reparando em como cada detalhe de seu rosto era perfeito. Ele pareceu notar em um momento e me olhou com uma expressão engraçada no rosto, me fazendo rir como uma boba.
- Para de olhar para mim. Eu quero que você ainda esteja me querendo, pelo menos até chegarmos ao lugar que estou te levando – brincou e eu aproveitei que o sinal estava fechado para dar um beijinho em seu rosto. Imediatamente, um sorriso lindo se abriu em seus lábios.
Em seguida, ficamos o resto do caminho falando sobre a semana que passou. Contei a ele como estava sendo trabalhar no Relicário e como havia ficado surpresa ao ver nossa foto na publicação de terça-feira, já que sequer tinha conhecimento daquela seção do Jornal. Ele, por sua vez, me disse como estava sendo a turnê e pareceu extremamente empolgado ao contar cada detalhe de seus shows. Sacudi a cabeça lentamente ao me lembrar que antes eu acreditava que ele sequer gostava de música.
- Desculpa, devo estar te aborrecendo – ele comentou, provavelmente reparando em meu gesto.
- Não! Estou adorando ouvir. Eu só estava me lembrando de uma bobagem...
Mas depois disso ele não voltou mais ao assunto, já que logo estacionou o carro em um lugar que eu facilmente reconheci: a doca St. Katharine. Ali não era um lugar muito desconhecido para mim, já que por vezes havia ido fazer compras com ou minha mãe nas lojinhas que rodeavam a doca. À noite, porém St. Katharine ficava irreconhecível, com as luzes dos restaurantes colorindo as passarelas e se refletindo nas águas.
olhou para mim e sorriu, provavelmente esperando algum sinal de aprovação e eu apenas sorri de volta. Não me importava, na verdade, para onde ele estava me levando, contanto que pudéssemos ter um momento juntos. O que não pude deixar de reparar, porém, era que ali era muito mais freqüentado do que imaginava e tudo que eu menos precisava naquela noite era de pessoas nos interrompendo o tempo inteiro ao reconhecê-lo.
- Eu sei que vir a St. Katharine não é um grande programa, mas pensei em procurarmos uma área mais isolada e sentarmos para bater um papo. Podemos comprar um café na Starbucks e mais tarde jantarmos em algum lugar. O que me diz? – perguntou.
- Parece perfeito.
- Ótimo, vou comprar nossos cafés, então. O que você vai querer? – questionou empolgado e só então eu notei que, do outro lado da rua, havia uma Starbucks que eu nunca havia reparado antes. Pedi a ele meu café preferido e ele ampliou seu sorriso ao me dizer que era seu favorito também. – Me espere aqui.
- Não vou a lugar nenhum – falei, dando de ombros.
saiu do carro e atravessou rapidamente a rua, enquanto eu começava a reparar a doca. Ali era realmente um lugar bonito, mas que me passara despercebido a vida inteira. De repente, me lembrei de como as pessoas em Paris também pareciam não ligar para a Torre Eiffel ou o Museu de Louvre e me perguntei quantas pessoas em Londres já haviam parado para observar a beleza da doca St. Katharine. Era engraçado pensar que a maioria de nós estava ocupada demais procurando beleza no exterior e ignorando as que estavam debaixo do nosso nariz.
Algumas pessoas passeavam alegremente pelo lugar, alguns casais de mãos dadas, famílias que saíam dos restaurantes, todo mundo parecendo extremamente relaxado e feliz. Então, quando vi atravessando de volta com nossos cafés em mãos, percebi que não havia outro lugar onde eu gostaria de estar naquela noite.
Ele entrou no carro e sorriu para mim, enquanto pedia que eu segurasse nossos cafés, que estavam encaixados em uma bandejinha de papelão, para que pudesse dirigir até algum lugar menos movimentado, para termos mais privacidade. Continuei reparando as pessoas que caminhavam pela doca e os restaurantes tão bonitinhos e aconchegantes, mas logo tudo isso foi sumindo e acabamos parando em uma área praticamente isolada de tudo, com fraca iluminação.
desceu do carro e correu para abrir minha porta. Ele segurou nossos cafés e, em seguida, me ofereceu sua mão. Entrelacei nossos dedos e senti ele me puxar para mais perto da água. Pensei que iríamos nos sentar em algum dos banquinhos que estavam ao nosso lado, mas ele continuou caminhando e parou apenas para levantar uma das cordas de isolação e ultrapassá-la.
- O que você ta fazendo? – perguntei assustada. – Isso é proibido!
- Quem se importa? – falou, dando de ombros e rindo um pouco. Eu fiquei observando boquiaberta e ele levantou a corda para que eu passasse também, mas meus pés não se movimentaram. – Deixa de ser medrosa, !
Olhei ao meu redor, temendo ver algum policial se aproximando, mas só havia um cara parecendo despreocupado um pouco longe de nós. Voltei a olhar para , que ainda sorria, com a corda levantada, e rolei os olhos ao finalmente caminhar em sua direção.
- Se nos virem aqui, podemos ser presos – reclamei e senti que ele voltava a entrelaçar seus dedos aos meus e me puxava até a beirada, onde nos sentamos, com nossos pés quase tocando na água.
- Você se preocupa demais.
- Para você é fácil, você é famoso, não duraria nem cinco minutos na prisão – falei e vi que ele rolava os olhos, discordando do que eu havia acabado de falar. então me entregou meu café e começou a observar a água e os iates que estavam parados à nossa frente.
- Você já pensou que se eu não fosse famoso, nada disso teria acontecido entre a gente? Aquele encontro pela vitrine na minha tarde de autógrafos, a festa da semana passada...
- O que você fazia lá, a propósito? – perguntei, curiosa, me lembrando de que não havia mais nenhuma celebridade. Pelo menos, ninguém que eu reconhecesse. tomou um gole de seu café antes de responder.
- Algumas pessoas da minha gravadora estavam participando e minha irmã precisava de alguns contatos que estavam lá também, então achei que seria legal levá-la comigo. Eu não fazia idéia de que te encontraria, mas foi uma ótima surpresa. – olhou para mim e ri ao ver que ele havia deixado um bigode de espuma de propósito em sua boca. – E você, o que fazia por lá?
- Um colega de sala, que trabalha no Relicário também, me convidou. Disse que seria bom para mim, porque tinha vários Jornalistas e donos de Jornais importantes... Mas acabou que eu fui trabalhar no mesmo jornal que ele. A propósito, você se lembra que eu disse que estava atrasada no dia que nos vimos em sua tarde de autógrafos? Eu estava indo fazer minha entrevista. Ainda não sei como me aceitaram, porque eu estava completamente desconcertada quando cheguei lá.
- Efeito pós-? – perguntou convencido e eu concordei, enquanto dava de ombros, dando a entender que não havia outra explicação. Ele sorriu e voltou a olhar para a água. – Já te disse que meus amigos ficaram nervosos comigo também, né? Na verdade, tenho até dó dos fãs que entraram depois que eu consegui voltar, porque eu não tava dando a mínima para o que eles estavam me dizendo.
- Que maldade – comentei, o reprovando.
- O que eu podia fazer? Você tinha acabado de aparecer pela vitrine!
- É por isso que eu acho que não faria diferença você ser famoso ou não. O destino daria um jeito de te colocar no meu caminho da mesma forma – falei e me olhou de um jeito fofo. Ele levou uma mão à minha bochecha e fez um carinho, enquanto eu fechava meus olhos para sentir seu toque.
- Estou feliz por ter te conhecido. Eu não posso dizer que minha vida estava ruim, mas às vezes eu sentia como se estivesse vivendo em piloto automático, sabe? Você me trouxe sensações boas e coisas nas quais pensar.
- Que jeito legal de dizer que está apaixonado por mim – brinquei e riu.
- Não é? Fiquei treinando isso no espelho antes de sair para te encontrar – ele também brincou e nós dois caímos na gargalhada.
Depois de rirmos bastante, respirei fundo e tomei um gole do meu café, enquanto observava a água, os iates, o céu e sentia a tranqüilidade que aquele lugar me trazia. passou um braço pelas minhas costas e repousei minha cabeça em seu ombro. Ficamos em silêncio por alguns minutos, apenas aproveitando a companhia um do outro, mas ele logo voltou a falar, dessa vez com a voz mais baixa e levemente rouca.
- Quando pensei em vir para cá, eu esperava que o céu estivesse bonito como o daquela noite, não assim – comentou e notei como as nuvens estavam bloqueando todas as estrelas.
- Não importa, ainda está bonito – falei, quase num sussurro. Ficamos mais alguns segundos em silêncio, mas então foi minha vez de começar um assunto. – , posso te fazer uma pergunta? – questionei, me desencostando de seu ombro e endireitando minha postura. Ele sacudiu positivamente a cabeça e eu sorri, antes de falar. – O que você disse para aqueles caras que estavam me assustando no dia em que a gente se conheceu?
Ouvi soltar uma gargalhada e esperei curiosa, mas ele apenas balançou a cabeça e disse que não se lembrava mais.
- É claro que se lembra, você estava rindo! – insisti, indignada, e vi ele revirar os olhos.
- Oh, não. Ok, vou te dizer... Eu não faço a mínima idéia.
- Como assim?
- Meu francês é quase tão péssimo quanto o seu. Eu apenas ouvi um cara dizendo isso para afastar uns idiotas em um filme e resolvi testar. Deu certo – ele disse e deu de ombros. O encarei boquiaberta por alguns segundos e, depois de rir mais uma vez, ele respirou fundo e continuou a falar. – Tá, não é que eu não faço idéia, só não tenho certeza. Acho que é algo como “ela é minha esposa, vocês estão com algum problema?” e também algo de ter seguranças pessoais nos observando, mas essa parte eu não tenho muita certeza, já que foi um dos meus amigos que disse que significava isso e eu nunca sei quando eles estão falando a verdade.
- Você é totalmente inacreditável! – exclamei, ainda boquiaberta. – Se você tivesse me dito isso quando eu te perguntei pela primeira vez, eu nunca teria aceitado ir a Lille com você. Imagine se eu iria acompanhar alguém que confia em frases de filme que ele nem sabe do significado!
- É por isso que eu não disse – ele falou e me lançou um sorriso sapeca, o qual eu não pude deixar de responder. – Imagine se eu iria perder a chance de passar mais um tempo com essa menina linda!
apertou minha bochecha e eu ri, sacudindo lentamente minha cabeça. Mas ele então segurou meu rosto e me olhou nos olhos. Engoli em seco ao reconhecer aquele olhar e sentir a força magnética que de repente surgia entre nós dois. Nós nos aproximamos lentamente e nossos lábios se roçaram por alguns segundos antes de começarmos a nos beijar de verdade.
Dessa vez, o beijo foi lento e calmo, quente e saboroso, com um leve gosto de café. Senti uma das mãos de deslizar pelo meu braço e depois pela lateral do meu corpo, até chegar à minha cintura, onde ele deu uma apertada. Um calafrio surgiu em minha barriga, enquanto, apesar do frio, uma onda de calor parecia descer pela minha pele.
Foi um dos nossos beijos mais longo e, ao mesmo tempo, mais profundo. Depois que nos separamos, deu alguns beijinhos em minha bochecha, depois em meu pescoço e me envolveu em um abraço apertado. Meu coração batia acelerado, enquanto eu sentia um conforto e uma segurança inexplicáveis, pelo simples fato de ter seus braços em volta de mim.
Depois de algum tempo, senti seus braços se afrouxarem e ele fazer um carinho em meu cabelo, me dar mais alguns selinhos e se afastar para me olhar nos olhos. Dei um pequeno sorriso, mas ele não retribuiu, parecendo perdido em pensamentos.
- O que foi? – perguntei baixinho.
- Estou pensando em algo que eu queria te perguntar, mas tenho medo de me antecipar...
- Tem medo de se arrepender? – sugeri e ele sacudiu negativamente a cabeça. – Então, fala.
respirou fundo e dessa vez abriu um pequeno sorriso. Eu esperei ansiosa, tentando não deixar meus pensamentos se anteciparem também, e senti ele fazer mais um carinho em meu rosto antes de começar a falar.
- Você já sabe que eu estou apaixonado por você. Da última vez que eu chequei, você também estava apaixonada por mim – ele brincou e eu ri um pouco. – Então pensei em, sei lá, oficializarmos isso ou algo assim.
- Isso é um pedido de namoro? – perguntei, tentando ajudá-lo, e riu.
- É. Não achei que eu me embolaria tanto para falar isso, mas, sabe como é, fiquei nervoso. Eu sei que tem toda essa coisa de você não gostar da minha fama e você também pode pensar que está muito cedo...
- O máximo que pode acontecer é eu te dizer um “não” – falei e ele concordou. Notei como ele parecia realmente nervoso, como se já não soubesse que eu obviamente diria que sim. Eu estava perdidamente apaixonada por ele, de uma maneira como sequer achava ser capaz de me sentir. Tudo bem que sua fama ainda me incomodava um pouco, mas eu sabia que nós encontraríamos uma maneira de lidar com aquilo.
Mas eu não pude dizer isso ele, porque quando pensei em abrir minha boca para dar a resposta, ouvi o barulho de um carro estacionando atrás de nós e, ao me virar para olhar, vi duas pessoas saindo com câmeras nas mãos. Só podia ser brincadeira!
- Paparazzi – falei, nervosa, e olhou para trás imediatamente. – Droga! O que a gente faz?
- Não da para correr, vai ser pior. Vamos ficar aqui, você vai ver que eles não mordem – ele falou, em uma tentativa de descontrair, mas eu não achei nenhuma graça. Era óbvio que eu não queria ficar parada.
- Não, vamos voltar para o carro e ir embora – eu disse, já preparada para me levantar, mas senti sua mão na minha perna, me segurando ali.
- , fica tranqüila.
Os paparazzi se aproximaram, já tirando algumas fotos de nós dois, e aquilo me deixou ainda mais nervosa. Como esperava que eu me acalmasse? Eu não queria aparecer em fotos, eu não gostava daquilo e ele sabia!
- , vamos embora. Eu não quero aparecer em mais nenhuma publicação, você não entende? – falei, tirando sua mão da minha perna e me pondo de pé. Ele também se levantou e segurou meu braço, me impedindo de caminhar para longe. – O que você ta fazendo?
- Confia em mim – ele sussurrou, mas eu apenas neguei com a cabeça.
De repente, um pensamento surgiu em minha mente. Como aqueles paparazzi haviam ido parar ali? Ninguém sabia que eu me encontraria com naquela noite, além de nós dois e de , que eu tinha certeza que não comentaria com ninguém. Aliás, sequer sabia aonde iríamos! Os únicos que sabiam éramos nós, e eu tinha certeza de que ninguém mais havia nos reconhecido enquanto seguíamos para lá. Isso só podia significar que...
- Foi você que os chamou? – perguntei, franzindo minha testa.
- Então, vocês estão namorando? – um dos repórteres que estavam lá me perguntou e eu fiquei momentaneamente cega por um flash, ao me virar para olhá-lo. – Você já a pediu em namoro, ?
Ouvir aquilo fez meu coração se apertar ainda mais. Como diabos eles sabiam que o me pediria em namoro naquela noite? Uma sensação sufocante começou a crescer em meu peito e eu tirei a mão de do meu braço, para tentar sair dali. Porém, no momento em que eu dei meu primeiro passo, ele me puxou de volta e colou seus lábios nos meus.

Capítulo X

De repente, todos os músculos do meu corpo pararam de responder, assim como meu cérebro. Fiquei imóvel, sentindo os lábios de prensados contra os meus e ouvindo a barulheira que os paparazzi e suas câmeras faziam ao nosso redor. Mas eu já não conseguia entender mais nada, nem distinguir uma palavra das perguntas que nos eram dirigidas. Só havia uma coisa passando por minha cabeça, a frase: ‘Ele me enganou mais uma vez’.
Depois de render centenas de fotos para as capas das revistas da próxima semana, pareceu satisfeito e me soltou. Eu não sabia como reagir, estava chocada demais para conseguir fazer alguma coisa, então permaneci parada, com os olhos arregalados como uma coruja idiota, respirando aceleradamente e esperando que ele fizesse algo.
- É isso que vocês querem? Estão satisfeitos agora? – ele disse, recebendo mais umas 15 perguntas de volta. – E, sim, eu a pedi em namoro. Acabei de fazer isso, a propósito, mas eu sequer tive tempo de ouvir a resposta, porque vocês apareceram e nos atrapalharam.
Todas as câmeras se voltaram para mim e fui engolida por uma avalanche de perguntas, todas envolvendo o pedido de namoro de . Mas enquanto eles esperavam por uma resposta, eu apenas desejava que pudesse abrir meus olhos a qualquer momento e encarar o teto do meu quarto, constatando que tudo aquilo não passava de um terrível pesadelo.
- ... – me chamou baixo e, embora eu não tivesse certeza de como fui capaz de ouví-lo, aquilo fez com que eu finalmente voltasse à realidade e percebesse que, se ele não iria fazer nada, quem tinha que fazer era eu.
Os paparazzi ainda nos rodiavam, esperando mais alguma demonstração de carinho ou que eu respondesse suas perguntas, mas eu já estava cansada de ficar em pé ali. Mais uma vez, me soltei das mãos de e, sem sequer olhar em sua direção, empurrei todo mundo que vi pela frente e comecei a caminhar para qualquer outro lugar.
- ! ! – gritou, tentando vir atrás de mim, mas eu apressei meu passo e ignorei todos que me seguiam.
A essa altura, já tinhamos chamado atenção de quase toda a doca. Pessoas sentadas nos restaurantes e cafeterias nos olhavam, algumas ainda tentando disfarçar, e comentavam sobre a muvuca que havia se formado onde estávamos. Havia até mesmo alguns garçons parados olhando em minha direção, tentando descobrir o que estava acontecendo.
Eu estava furiosa, caminhava com passos rápidos e pesados e empurrava todos os paparazzi que se colocavam em meu caminho. Embora ainda ouvisse me gritar, sabendo que ele vinha logo atrás de mim, não parei em nenhum momento . Na verdade, a minha grande vontade era começar a gritar que era um ser inescrupuloso, frio e interesseiro e deixar que as manchetes que ele tanto buscava manchassem sua imagem, ao invés de elevá-la. Mas eu também não fiz isso, porque embora fosse muito tentador, minha vontade de desaparecer dali ainda prevalecia.
Sem saber direito o que fazer para voltar para casa, tentei encontrar uma solução que não envolvesse entrar no carro de novamente, então, como que por milagre, um táxi apareceu em meu campo de visão, estacionado a poucos metros à minha frente. Eu não cheguei sequer a perguntar se o taxista estava ocupado ou esperando alguém, quando alcancei a maçaneta, abri a porta rapidamente e praticamente me joguei dentro do carro, implorando para que o motorista dirigisse para longe dali.
Alguns paparazzi ainda tentaram tirar fotografias minhas enquanto outros ficavam sem saber se deveriam dar mais atenção a mim ou a , que tentou chegar ao meu taxi, mas o taxista arrancou antes que ele conseguisse se aproximar.
Só depois de conseguirmos alcançar uma boa distância eu pude respirar fundo. Notei que minhas mãos ainda tremiam e meu coração batia acelerado. Meu cabelo provavelmente estava uma bagunça e uma alça da minha bolsa havia estragado no meio daquela confusão. Xinguei baixinho e, enquanto recostava minha cabeça no banco, ouvi que o motorista dirigia sua palavra a mim.
- Me desculpe se estiver sendo muito intrometido, mas o que estava acontecendo? A senhorita está com algum problema? – ele perguntou, parecendo genuinamente curioso e um pouco desconfiado.
Eu respirei fundo e fiquei alguns segundos analisando como poderia responder àquela pergunta e se deveria fazer isso. O motorista se desculpou mais uma vez pela intromissão e eu apenas dei de ombros antes de dizer:
- Não é nada demais. Um babaca me convidou para sair e depois chamou alguns paparazzi para nos fotografarem, na tentativa de ganhar a capa da revista de fofocas da próxima semana.
Eu não havia me dado conta de quanta raiva crescia dentro de mim até começar a dizer aquilo. Foi como se tudo viesse à tona e tive vontade de começar a contar ao taxista tudo que havia me feito até ali, mas meu bom senso acabou pedindo que eu me mantivesse calada. Infelizmente, a minha cabeça estava impossível de calar e passou o caminho inteiro até em casa gritando mentalmente com e comigo mesma, fazendo planos de vingança e até mesmo pensando em possíveis desculpas que ele poderia inventar para mim.
Por essa razão, quando finalmente desci do taxi e corri até minha casa, estava me sentindo extremamente exausta. Parecia que fazia dias desde que eu tinha saído por aquela mesma porta, com um sorriso amplo no rosto e a ideia de que aquela noite seria perfeita. Mas nenhuma noite com era perfeita, porque ele estava sempre mentindo para mim, e agora eu conseguia enxergar isso.
Fui direto para a cozinha, em busca de água, pois minha garganta estava seca. Procurei por um copo limpo e me senti ainda mais nervosa por não conseguir encontrar nem mesmo isso. Derrotada, lavei um dos que estavam na pia e o levei até a geladeira, onde encontrei apenas garrafas vazias. Aquilo já estava me deixando extremamente irritada. Fui até o filtro e enchi o copo de água quente, porque eu realmente precisava de algo que me molhasse a garganta. Então, no momento em que eu levava o copo até minha boca e meus olhos passeavam despreocupadamente pela janela da cozinha, uma pessoa apareceu do lado de fora.
Com o susto, senti o copo deslizar pelos meus dedos e ir parar no chão, onde se estilhaçou com um alto barulho e derramou água por todos os lados. Ouvi minha mãe perguntar do andar de cima se era eu quem estava ali e demorei alguns segundos até conseguir responder, me lembrando que se eu não fizesse isso, ela provavelmente desceria para saber o que estava acontecendo e veria parado na frente da janela.
Boquiaberta e pouco me importando com o copo que havia quebrado – já completamente esquecida da sede que sentia – continuei observando aquele garoto parado do lado de fora e vi que ele fazia um gesto para que eu abrisse a janela. Neguei com a cabeça e ele juntou as mãos como se implorasse, depois fez sinal de que estava frio lá fora e eu dei de ombros.
Mas depois de todo aquele jogo de mímica, eu percebi que não iria embora enquanto eu não abrisse a janela e dissesse isso a ele, então caminhei cuidadosamente por entre os cacos de vidro e a abri, sentindo um vento frio entrar.
- O que diabos você está fazendo aqui, ? – perguntei secamente. – Veio trazê-los até a minha casa também? O que mais você quer, um testemunho dos meus pais?
- Você está vendo algum paparazzo por aqui? – ele rebateu, mas depois de ver que eu ameaçava fechar novamente a janela, percebeu que era melhor agir com a maior educação possível para que eu me dispusesse a ouví-lo. – Eu consegui despistá-los, antes de vir para cá. Olha, , eu nem sei como fazer você acreditar nisso, mas eu realmente não os chamei. Eu não fazia ideia de que eles apareceriam por lá e fiquei tão chateado quanto você por isso ter acontecido – sua voz estava melosa e eu apenas arqueei as sobrancelhas. – Estou falando sério, acredite em mim.
- Sabe qual é o problema, ? É que é muito fácil acreditar em tudo que você diz. Foi assim até hoje, eu podia passar semanas te odiando e tendo certeza de que você era a pior pessoa do mundo, mas no momento em que você abria a boca e começava a dizer as primeiras palavras, eu acreditava em você e me esquecia de tudo que havia acontecido antes. Eu me esqueci de que você mentiu para mim durante três dias inteiros, fingindo falar de uma faculdade que você nunca frequentou, fingindo desinteresse em música enquanto esse é seu verdadeiro trabalho, me mantendo em casa ou correndo na minha frente para que eu não visse as pessoas te reconhecendo. Depois você me levou para um lugar reservado em uma festa, me fez confiar em você de novo e chamou paparazzi para registarem o momento. Minutos depois... Apenas minutos, , você se aproximou de mim e me convenceu de novo, me levou para um lugar romântico, disse coisinhas bonitinhas e inventou histórias que me fizeram acreditar no que você dizia. Tudo isso para que? Para que, uma semana depois, você armasse esse grande circo!
- ...
- Você já tem sua matéria de capa, . Agora, por favor, vá embora, desapareça da minha vida, me deixe em paz. Você não tem mais nada a fazer aqui – falei, tentando engolir o nó de raiva que se embolava em minha garganta. Ao terminar, voltei a querer fechar a janela, mas ele me impediu, colocando suas mãos sobre as minhas. Eu as recolhi imediatamente.
- Eu não estou mentindo para você, . Eu não menti para você desde que voltamos a Londres e você descobriu minha verdadeira profissão. E eu também já te expliquei o porquê de ter mentido em Paris. E essa explicação é real. Agora, você acha mesmo que eu chamaria paparazzi para me promover? Eu odeio paparazzi! – ele falava rapidamente, se embolando um pouco nas palavras e tentando dizer tudo que precisava antes que eu perdesse a paciência e fechasse a janela de vez. – Você quer toda a verdade, então aí vai. Houve um dia, sim, eu que eu soube que haveriam paparazzi nos esperando. E foi no dia em que estávamos indo a Lille. Eu recebi um telefonema do meu produtor, avisando que, de alguma forma, a notícia de que eu estava indo a Lille acompanhado havia vazado, logo após notarem minha ausência entre o resto da banda na volta a Londres... Você se lembra do que aconteceu a seguir? Eu corri na sua frente, não foi para que você não visse ninguém me reconhecer, foi para tentar proteger sua imagem, para tentar evitar o que acabou acontecendo, que foi aquela maldita publicação. Aquela foi a única vez em que eu soube que paparazzi estavam nos esperando.
Ouvir aquilo foi um choque. nunca havia mencionado o conteúdo daquele telefonema, que eu realmente havia notado que mudara um pouco seu comportamento. Mas eu não sabia o que sentir em relação àquilo. Enquanto a parte idiota de mim, que teimava em acreditar em , se sentia agradecida por ele ter tentado me proteger, a parte esperta dizia para xingá-lo mais uma vez.
- Você deveria ter aproveitado, então, para me contar toda a verdade antes mesmo que aquele trem parasse na estação de Lille – respondi.
- Deveria, sim. Mas eu já te disse como me sentia em relação a você descobrir que eu era famoso. Eu estava interessado em você, , e agora estou completamente apaixonado. Me desculpe se minha profissão acaba sempre estragando tudo entre nós, me desculpa se eu nunca consigo fazer a coisa certa...
Enquanto ele dizia, minha mente passava por um de seus maiores conflitos, porque as palavras dele eram bastante convincentes e havia uma pequena chance de que eu acreditasse nelas novamente e me deixasse levar, então ele teria mais oportunidades para me enganar e me fazer sofrer. Porém, por outro lado, as imagens do que ele havia feito na doca voltavam a todo instante e me lembravam de quem ele realmente era.
Respirei fundo e mantive uma expressão séria quando resolvi que era hora de interrompê-lo e dizer, em uma voz baixa e aparentemente calma:
- , eu já te disse, suas palavras são realmente convincentes e você conseguiu me enganar direitinho até agora. Mas acabou. Esse é o ponto final, o momento em que eu finalmente percebo que não vale a pena continuar acreditando em você e me magoando. Portanto, eu vou pedir educadamente que você se retire da frente da minha casa e me deixe em paz de uma vez por todas.
- Não, Anny, eu não vou fazer isso. – Ouvir aquilo pareceu tê-lo deixado nervoso. Ele segurou a janela, para evitar que eu resolvesse fechá-la novamente e me olhou sério. - Droga! Olha quanta coisa a gente fez pra se encontrar, quantas coincidências, quantas aparições inesperadas na frente um do outro. E você quer que eu simplesmente vá embora e esqueça tudo isso? Não! Não! Eu não vou me conformar em te perder porque alguns malditos paparazzi se colocaram em nosso caminho. Eu esperava que você confiasse um pouco mais em mim e queria ter tempo para te provar que eu não sou esse cara que você pensa que sou agora. Mas eu não tenho tempo, . Eu tenho uma maldita turnê para terminar, aquela da qual eu dei uma pequena escapa no única dia em que tive folga para correr de volta a Londres e te ver. Eu tenho que terminar e isso só vai acontecer daqui a algumas semanas. Mas eu não posso correr o risco de deixar Londres sabendo que você ainda me odeia, que vai tentar me esquecer e me tirar totalmente da sua vida. Eu não posso e não vou correr esse risco. Me diz o que eu tenho que fazer para te provar que estou falando a verdade.
- Quer saber de uma coisa? – falei, dessa vez tentando segurar as lágrimas que começavam a se formar em meus olhos. Maldito seja, . Por que você sempre tinha coisas tão bonitas a dizer? – Se você está realmente disposto a me provar que se importa comigo, vá viver sua vida e me deixe fora dela. Isso é a melhor coisa que você pode fazer por mim.
Senti um aperto enorme em meu peito ao dizer aquilo e uma pequena lágrima pulou de meu olho direito. Me virei para o lado, tentando evitar que ele visse aquilo e ficou em silêncio por longos segundos. Depois, lentamente, ele retirou suas mãos da janela, me olhou com uma expressão que eu não soube identificar e deixou minha casa sem dizer mais nenhuma palavra.
Vê-lo partir doeu mais em mim do que eu esperava. Fiquei ainda algum tempo com a janela aberta, encarando o vazio, tentando descobrir se havia feito a coisa certa e ignorar a sensação angustiante em meu peito. Porque, por mais que eu soubesse que não valia a pena me deixar iludir novamente, doía pensar que eu havia colocado um ponto final na nossa história, aquela com a qual havia sonhado por tanto tempo, a que pensei que um dia contaria aos nossos filhos.

Eu estava deitada em um chão de terra, uma estrada que eu não sabia aonde chegaria. O sol incidia fraco sobre meu rosto e uma pequena brisa bagunçou meu cabelo. Senti então um mão macia tocar minha pele e levar a mecha que havia caído em frente aos meus olhos de volta para trás da minha orelha. Um pequeno sorriso se abriu em meus lábios e me virei na direção de , só então notando que ele também estava ali, deitado ao meu lado, com a cabeça apoiada em uma das mãos e um sorriso sincero no rosto.
Uma sensação de conforto surgiu em meu peito e me aproximei de seu corpo, me embrulhando e sentindo seu braço passando pela minha cintura. Ele então beijou o topo da minha cabeça e sussurrou três palavras ao pé do meu ouvido:
- Confie em mim.

Abri os olhos com o coração disparado e levei alguns segundos para entender que estivera sonhando. Por um momento, aquelas imagens me pareceram lembranças de algum momento que eu já havia vivido, mas logo me dei conta de que eram apenas coisas que havia imaginado ultimamente.
Fui até o banheiro tentando me lembrar das coisas que havia feito depois que fora embora na noite anterior, mas estava tudo um pouco borrado e confuso, como se eu tivesse passado a agir em piloto automático para evitar que meus sentimentos transbordassem. Eu me lembrava, porém, de ligar para chorando, confessando que o cara por quem eu estava apaixonada havia quebrado meu coração. Ela pediu que eu me acalmasse e disse que pediria a para passar na minha casa, para que ela pudesse me dar um abraço, antes que ele a deixasse na sua. Mas se ela chegou a vir, eu não sei, porque minutos depois estava dormindo.
Sem saber o que esperava ver ali, conferi em meu celular se havia alguma mensagem não lida ou chamada não atendida, mas ele estava vazio. Então, um pouco involuntariamente, fui até a última mensagem que havia recebido e senti meu coração se apertar ao reler “Mal posso acreditar que vou te ver amanhã!”, que havia me mandado na quinta-feira.
Àquela hora, ele provavelmente estava a caminho de alguma outra cidade, para se reencontrar com o restante da banda e seguir a turnê. Era inacreditável pensar que ele havia tido tanto trabalho para voltar a Londres apenas para armar aquela cena. Era inacreditável e ridículo. E em qualquer outra situação, eu diria que não era verdade, mas se tratando de tudo que acontecera, das circunstâncias, não havia outra explicação. era a única pessoa que sabia daqueles detalhes. E ele havia me beijado na frente das câmeras. Me segurado e me beijado à força.
Uma ideia, então, passou pela minha cabeça: e se realmente não fosse ? E se ele tivesse comentado com alguém de sua banda e essa pessoa tivesse resolvido falar com as revistas? havia me dito uma vez que eles costumavam fazer isso!
Meu coração deu um giro dentro do meu peito e eu senti o ar ficar mais pesado. Talvez eu tivesse brigado com ele à toa, talvez não fosse totalmente culpado. Talvez ainda houvesse uma chance para nós... Quer dizer, haveria uma chance, se ele não tivesse viajado para uma turnê que ainda duraria algumas semanas.
Sem conseguir decidir entre meus sentimentos e tentando não me segurar muito a nenhuma suposição, para evitar novos desapontamentos, resolvi dar uma volta para esfriar a cabeça. provavelmente ainda estaria dormindo àquele horário e eu não me sentia muito disposta a bater papo naquele momento com ninguém além de mim mesma.
Caminhei por algumas ruas perto da minha casa e evitei olhar para bancas de revistas, mesmo sabendo que, além de ser sábado, também não havia tido tempo suficiente para que publicassem alguma coisa. Depois passeei por um parque e me sentei em um banquinho quando minhas pernas começaram a reclamar de cansaço. Havia duas meninas sentadas no banco ao lado, olhando alguma coisa no celular, empolgadas.
- Tem certeza que estão falando isso deles? Porque eu bem conheço aqueles garotos, quer dizer, tenho acompanhado a banda desde que começaram, e eles não são nem um pouco oportunistas. Nunca tiveram necessidade de apelar para manchetes e tenho certeza que também não estão fazendo isso agora – uma delas dizia, aparentemente chateada com algo que havia acabado de ouvir de sua amiga.
- Pois é, foi exatamente o que eu pensei. Mas com isso do e essa garota misteriosa, eu já não tenho tanta certeza. Algum dos dois deve estar querendo aparecer nessa história, ele ou ela.
Arregalei os olhos e senti algo querer voltar do meu estômago. Elas estavam conversando sobre o que eu pensava? Estavam discutindo as mesmas coisas que eu discutia comigo mesma? De repente, aquela conversa me pareceu bastante interessante para se prestar atenção.
- Eu queria acreditar que não é ela que quer aparecer, porque não aguento mais ver o namorando piranhas. Se lembra daquela última? Uma capa de revista por semana não era suficiente! – a primeira continuou com o raciocínio. – Mas é difícil encontrar outra explicação. Tenho certeza que não foi nenhum deles, muito menos o . Ela deve ter entrado em contato com alguma revista e contado tudo.
Em primeiro momento, me senti extremamente irritada por ainda estar sendo culpada por aquilo que eu tanto queria evitar. Mas, depois, o que ela disse fez algo surgir em minha mente. Uma ideia assustadora. Uma suposição que fazia todo sentido. E, se fosse verdade, o coração que se quebraria não seria o meu dessa vez.

Capítulo XI

Meu coração batia apertado à medida que me aproximava do prédio onde ficava o Relicário. Embora ainda não estivesse muito certa a respeito do que diria e de como faria para descobrir o que eu tanto precisava, eu sabia muito bem até onde deveria ir.
Havia passado o final de semana inteiro sem descansar, pensando em tudo que havia acontecido na minha vida desde aquela viagem a Paris, tentando fazer com que as coisas se encaixassem e me dando conta de tudo começava a fazer sentido quando eu decidia que minha última suposição estava certa. Tive que evitar em alguns momentos, porque eu não queria mentir, mas também não queria dizer a ela o que estava pensando sem antes ter certeza, porque eu sabia que, de uma maneira ou outra, acabaria a machucando.
Eu também havia tentado evitar saber notícias sobre , porque me sentia culpada. Agora que estava quase certa de sua inocência, eu havia começado a me sentir estúpida e não merecedora de tudo que ele já havia feito por mim. No sábado, assim que me dei conta de quem era mais provável de ser o culpado de tudo aquilo, procurei por notícias suas, mas acabei descobrindo que ele havia voltado à turnê. Sua banda estava bastante ocupada, com shows quase todos os dias da semana, exceto quarta-feira, por várias cidades diferentes. Então, por mais que meu coração gritasse para que eu fosse atrás dele, minhas desculpas teriam que ser adiadas por alguns dias, porque eu precisava me resolver com outra pessoa, primeiro.
Dessa forma, na segunda-feira à tarde eu mal podia me agüentar. Havia passado a manhã inteira tentando bolar uma maneira de descobrir a verdade, porém nada me vinha à mente. Quando entrei no prédio do Relicário, eu ainda não tinha noção do que faria, mas minhas pernas estavam se movimentando frenéticas e, quando dei por mim, já estava no elevador, apertando o botão que indicava o andar da redação.
Segui direto até onde eu sabia que o encontraria. Aquela não era uma região que eu costumava freqüentar, por isso as pessoas ficaram me olhando com expressões estranhas quando passei, talvez também por eu ter deixado estampado no rosto que não estava de bom humor. Bati à porta da sala onde ficava a mesa de e não obtive resposta, então girei a maçaneta e me deparei com uma sala vazia. Porém, antes que eu voltasse a fechá-la, ouvi uma voz vinda lá de dentro e entrei devagar. Havia outra porta à minha direita e a voz de estava saindo de lá.
Hesitei por um momento, sem saber se deveria esperá-lo ali dentro ou pedir que me avisassem quando ele estivesse livre. A voz de era a única possível de se ouvir e concluí que ele deveria estar falando ao telefone, então resolvi ignorar qualquer questão ética e ouvir deliberadamente a sua conversa. Me sentei silenciosa em uma cadeira que estava ao lado da sua mesa e agucei minha audição.
- Não, não, isso sai amanhã. Eu vou ver se consigo algo para semana que vem, mas acho difícil, ela ficou bem nervosa... Não, cara, é claro que não dá. Eu já tentei falar com a amiga dela, estou tentando arrancar alguma coisa, mas parece que ela é bem reservada em relação a isso – dizia, embora fosse um pouco difícil ouvi-lo por aquela porta. Senti uma sensação estranha no estômago ao me dar conta do assunto que ele tratava. – Eles estão em turnê, provavelmente só depois que acabar... Ok, vou ver se consigo convencer a menina a convencê-la, mas não garanto nada... Então vamos fazer isso! Vou ligar para os outros e ver quem pode me acompanhar. Depois te ligo de volta.
Senti minhas mãos começarem a tremer, ele estava realmente falando sobre aquilo. Era verdade. era o culpado por todas as minhas discussões com , ele havia armado várias situações para me expor e, pior, ele também havia usado para isso. Eu não podia acreditar.
Me assustei quando ele abriu a porta e senti algo parecido a um soco no estômago, mas isso não chegou perto à expressão de espanto em seu rosto ao me ver ali. imediatamente ficou pálido, com os olhos arregalados e abrindo e fechando a boca como um peixe fora d’água.
- ... O que você ta fazendo aqui? – ele perguntou com a voz fraca, ainda parado à porta, percebi que ele estivera conversando dentro do banheiro.
- Nada, , só queria saber se você quer um depoimento ou mais alguma foto... – falei irônica, ele engoliu em seco e caminhou para dentro da sala, esfregando as mãos uma na outra.
- Não entendi...
- Não se faça de idiota, eu ouvi o que você estava falando. Na verdade, eu nem precisava ter ouvido, porque já tinha realmente desconfiado de você, mas foi bom poder confirmar. Como você pôde? – Eu me sentia enjoada e mal podia olhar em sua cara.
Ele ficou por alguns segundos em silêncio, provavelmente tentando pensar numa saída ou ponderando se era melhor continuar com a farsa ou dizer a verdade de uma vez. Ele acabou decidindo pela última opção.
- , me desculpe, não é nada pessoal, eu só tenho que fazer meu trabalho.
- Como não é nada pessoal? Seu trabalho é me ridicularizar na frente do país inteiro e você não se incomodou nem um pouco em fazê-lo. Eu pensei que fôssemos amigos! – Eu não queria gritar, mas era um pouco impossível conter meus nervos. me olhou com uma expressão estranha no rosto e eu sacudi a cabeça negativamente. Como eu podia ser tão burra? – É claro que não somos amigos, você se reaproximou de mim porque já sabia que eu era seu alvo...
- Como eu disse, não é nada pessoal. Eu até gosto de você, , mas sou pago para isso.
- Você é um babaca! – Sacudi mais uma vez a cabeça e ri ao me lembrar de tudo que ele já havia feito. – Eu deveria ter percebido, um dos seus primeiros assuntos comigo foi o e como eles estavam buscando popularidade. Você queria ver minha reação e descobrir se eu te diria algo tão facilmente. – Dei mais uma risada sem graça. – Depois você me convidou para uma festa, sabendo que estaria lá, tirou de perto de mim e apenas esperou que ele se aproximasse... Mas, como você descobriu sobre sexta-feira?
- ...
- Não me esconda, você me deve pelo menos isso! – falei um pouco mais alto do que deveria e ele olhou assustado para a porta que dava para o resto da redação.
- Você falou isso ao telefone, na minha frente. Foi bem fácil, na verdade. Eu pedi que um paparazzo te seguisse sem que você percebesse e fui me encontrar com , para o caso de ela saber mais alguma coisa ou você ligar em algum momento – ele falava calmamente, como se estivesse contando um caso qualquer a uma velha amiga. Senti meus olhos começarem a queimar com lágrimas, mas não permiti que elas fossem adiante.
- Eu acho melhor você impedir que essas fotos sejam publicadas amanhã ou a vai saber de tudo agora mesmo – falei, tentando chantageá-lo. A verdade é que saberia de qualquer maneira, porque eu nunca deixaria minha amiga nas mãos de uma pessoa tão fria e sem escrúpulos quanto , mas aquela jogada era minha melhor opção.
Porém, ao invés de parecer triste ou desesperado, ele apenas franziu a boca de lado e sacudiu a cabeça lentamente. Abri minha boca e fiquei por alguns segundos em silêncio, me certificando do que ele queria dizer com aquilo.
- Eu não acredito. Você também não se importa nem um pouco com ela, não é? Como... Como você pôde? Você tem alguma idéia do que ela sente e de como vai ficar ao saber a verdade? Você é um ser abominável!
Me levantei e me virei de costas para ele, respirando fundo e tentando desfazer o embrulho em meu estômago, eu sentia que poderia vomitar a qualquer momento. Notei que ele se aproximava de mim e me afastei, ainda um pouco trêmula.
- , eu não te entendo. Qualquer garota no país daria tudo para estar em seu lugar. O cara é famoso, a banda está em alta, você está saindo nas capas de revistas e jornais... – ia dizendo, mas lancei a ele um olhar bravo, dando a entender que o mataria na primeira oportunidade que tivesse, e ele se calou. – Ok, você não gosta dessas coisas, então pensa pelo outro lado, você conseguiu um ótimo emprego.
Franzi minha testa e me virei de frente para ele, com os braços fortemente cruzados sobre o peito.
- O que meu emprego tem a ver com isso? – perguntei, temendo sua resposta.
- Qual é, ?! Você tem que me agradecer por estar nessa redação hoje! Não se lembra que me disse que tinha acabado de fazer uma entrevista de estágio aqui quando a gente se reencontrou? Eu corri para saber o que sua chefe tinha pensado e ela me contou que você foi um desastre, estava nervosa, atrasada, desarrumada e inventando histórias, embora tivesse um currículo até bom. Eu tive que convencê-la de que ter você no jornal seria ótimo e ela acabou aceitando...
Eu não podia acreditar, senti o ar falhar em meus pulmões e a sala girar ao meu redor. Me apoiei no encosto da cadeira para não cair e coloquei a outra mão sobre o peito, meu coração batia acelerado. Não podia ser verdade, ele não podia estar falando sério.
- Ah, , não seja boba, você mesma disse que já havia desconfiado de que fosse eu quem estava ligando para os paparazzi e tal, então deveria saber também qual é o propósito de termos você aqui.
Respirei fundo, sentindo minha mão tremer tanto que chegava a balançar um pouco a cadeira. Evitei olhar em seu rosto quando endireitei meu corpo, para que eu não acabasse avançando nele, e ordenei a minhas pernas que caminhassem, embora elas estivessem fracas e trêmulas. Ouvi chamar meu nome, mas não parei, abri a porta quase automaticamente e no mesmo momento todos os rostos das pessoas que estavam ali se viraram para mim.
A próxima coisa que me dei conta foi de estar caminhando até a casa de , meus pés haviam me guiado automaticamente até lá, mas eu não sabia muito bem como contar à minha melhor amiga que o cara por quem ela estava apaixonada era um tremendo idiota, que havia usado a nós duas para conseguir boas matérias.
Eu estava me sentindo estúpida. Como não havia desconfiado dele desde o princípio? trabalhava na parte que falava sobre esse tipo de coisa no Relicário e também já havia mencionado algumas amigas que trabalhavam em revistas dedicadas inteiramente a fofocas de celebridades. Estava tudo tão à vista, eu só precisava ter prestado mais atenção.
Toquei a campainha na casa de e sua mãe me atendeu sorridente. Ela logo notou que eu não estava bem e me perguntou se havia acontecido alguma coisa, mas apenas sorri sem graça e disse que eram preocupações com as provas da faculdade e problemas no trabalho. A mulher concordou, dizendo que eu deveria me acostumar com a correria de hoje em dia e depois me indicou a direção do quarto de . Por sorte era segunda-feira, o dia que tinha folga na clínica onde estagiava.
- , posso entrar? – perguntei, batendo à porta. não respondeu, apenas a abriu, segundos depois, e me olhou com a testa franzida.
- O que você ta fazendo aqui? Quer dizer, você não tinha que estar trabalhando? Não vá me dizer que te demitiram por causa...
- Não, nada disso – a interrompi. – Na verdade, é algo pior. Preciso conversar com você.
abriu mais a porta, me dando passagem para dentro do quarto. Segui diretamente até sua cama, onde me sentei, vendo ela me olhar curiosa e preocupada, enquanto voltava a fechar a porta e vinha se sentar ao meu lado.
- , eu descobri quem tem contado aos paparazzi que eu vou me encontrar com – falei sem rodeios. – Não é ele, nem ninguém da banda, como eu suspeitei. É o .
demorou alguns segundos para entender o que eu havia dito e depois arregalou os olhos. Essa foi sua única reação e fiquei preocupada, sem saber se isso era bom ou ruim.
- Amiga, eu sinto tanto. Na verdade, nem sei muito bem como te contar isso, mas ele estava usando a gente esse tempo todo. Ele se reaproximou de mim ao perceber que era eu a garota que estava saindo com e...
levantou uma mão e fez sinal para que eu parasse de falar. Observei seus olhos se encherem de lágrimas com uma velocidade absurda e meu coração se apertou. Ela abriu a boca e levou um tempo para conseguir proferir algum som.
- ? O meu ? Foi ele quem fez aquilo tudo? – Uma pequena lágrima escorreu por sua bochecha e eu me senti mal ao vê-la assim. Sacudi a cabeça bem devagar e ela mordeu seu lábio inferior, que estava tremendo. Eu sabia que era esperta e provavelmente já tinha entendido que sua relação com ele também havia sido uma farsa, mas eu sentia que precisava dizer alguma coisa.
- Eu sinto muito. Também achei que ele fosse uma boa pessoa.
-Até faz sentido, ele sempre me perguntava sobre você. Parecia indiferente e descontraído, mas no fundo só estava recolhendo informações. Não acredito que eu fui tão burra. – Mais lágrimas seguiram o exemplo da primeira e escorreram por seu rosto, ela sequer fez menção de enxugá-las. – Como você descobriu?
- Na verdade, eu não sei direito. A verdade simplesmente surgiu na minha mente quando ouvi duas garotas conversando no parque, no sábado. Elas estavam falando sobre o caso de com a tal garota misteriosa e supondo que ela, no caso eu, deveria ser quem estava entrando em contato com as revistas de fofocas e paparazzi em busca de atenção. Eu fiquei nervosa a princípio, mas logo pensei em e em seu cargo no Relicário e a verdade me atingiu – comecei a contar tudo de uma vez. Vi que me olhava com a testa franzida e os olhos se avermelhando cada vez mais. – Eu não quis te dizer nada antes de ter certeza, porque poderia ser apenas mais uma idéia errada e não queria te ver assim... Então, esperei até poder tirar essa história a limpo. Hoje eu fui lá e cheguei bem a tempo de ouvi-lo falar ao telefone com alguma de suas fontes ou fotógrafo ou sei lá o que.
- O que ele disse? – ela perguntou, parecendo querer se agarrar à minha resposta como uma desculpa para dizer que talvez ele tivesse seus motivos e não fosse tão ruim assim.
- Que não era nada pessoal, era apenas seu trabalho. – Dei de ombros. me olhou magoada e deixou mais algumas lágrimas caírem.
Eu estava com um nó na garganta. Odiava ver chorar e me sentia pior ainda por saber que eu era culpada por tudo aquilo. Toda aquela confusão, toda a armação de era por causa de mim, ela não tinha nada a ver com a história. Nos abraçamos por um tempo e ouvi que ela soluçava. Deixei que ela colocasse para fora toda a dor que devia estar sentindo.
- , me desculpe. Tudo isso foi por minha culpa, você não tinha que ter sido envolvida. Eu tenho vontade de arrancar as bolas dele ao pensar em como ele te usou. Se eu pudesse fazer alguma coisa...
- , não é sua culpa. O filho da mãe foi o . A gente deveria ter percebido. EU deveria ter percebido.
- O que você vai fazer?
- Nada. Ele provavelmente está esperando que eu vá chorar aos seus pés ou fazer algum barraco na redação. Mas, ao invés disso, vou agir maduramente e simplesmente fingir que não faz diferença nenhuma na minha vida – disse, finalmente passando seu cobertor pelo rosto para enxugar as lágrimas. Ela respirou fundo e depois me encarou, mas apesar de tentar demonstrar que estava tudo bem, eu podia ver em seus olhos o quanto ela havia ficado triste e decepcionada. Eu mal podia imaginar a dor no coração que ela estava tentando esconder de mim. – De qualquer maneira, você não deveria estar trabalhando? Não acho que sua chefe vai contar isso como uma razão plausível para falta...
- Esse é outro problema – falei, respirando fundo. – Eu acho que vou sair do Relicário.
- O que? Não, , você não pode fazer isso. Você estava tão feliz lá, agora vai sair por causa desse idiota? Ele não pode tirar isso de você também – começou a reclamar, despejando toda a sua raiva naquilo.
- Não é isso. É que, bem, também me contou outra coisa que eu não sabia. Eles não me chamaram para trabalhar lá porque me acharam uma boa aspirante a jornalista, . Eu fui chamada por estar saindo com do e ser uma ótima nova fonte de fofocas em primeira mão.
arregalou tanto os olhos que eu pensei que eles fossem saltar para fora das órbitas. Ela ficou em dúvida se xingava, me consolava ou apenas me olhava boquiaberta. Fez um pouco das três coisas o que acabou me fazendo rir um pouco. Era impressionante como eu ainda era capaz de sorrir depois daquilo tudo.
Nós passamos longos minutos xingando até a quinta geração de e desejou diversas vezes que ele fosse atropelado e saísse nas capas dos maiores jornais do país com o rosto completamente amassado. Depois ela me perguntou o que eu faria em relação a , agora que sabia a verdade, e eu não soube o que responder. O certo é que não fazia a mínima idéia de como ir atrás dele, de como me desculpar. Eu não sabia sequer se ele ainda me queria.
então tratou de se colocar para cima, disse que não queria mais pensar em nada que pudesse deixá-la triste e decidiu que o melhor a fazer para desviar seu pensamento de coisas ruins era descobrir uma maneira de consertar minha história com . “Não é porque minha vida amorosa é um desastre que a sua tem que ser também”, foi o que ela falou.
Um pouco mais animada do que antes, procurou na internet pela agenda do e minutos depois me olhou com um sorriso no rosto.
- Amanhã eles estarão em Chelmsford, . O destino está colaborando com vocês de novo! – ela disse empolgada e eu apenas sorri. Tudo bem que Chelmsford era perto de Londres, mas eu ainda tinha que pensar em uma maneira de fazer uma viagem repentina atrás de um cara que estava em turnê com sua banda. então deu um tapa em minha testa e eu me assustei. – , o que eu te disse semana passada?
- Que você adora ser minha amiga? – perguntei, brincando, sem fazer idéia de a que ela estava se referindo. deu uma pequena risada e sacudiu a cabeça.
- Não, sua boba. Que meu chefe pediu que eu fizesse uma viagem... – ela começou e então parou, esperando que eu me lembrasse.
- Para acompanhar alguns veterinários que vão olhar uma clínica mal cuidada em... Não! – me assustei ao me dar conta do que ela queria dizer. – Amanhã você está indo a Chelmsford!
- Exatamente. E agora você virá comigo também. Esteja aqui ao meio-dia – disse animada e eu sorri.
Então, foi como se aquilo tivesse limpado minha mente. Eu parei de me importar com as outras coisas e tudo que passei a pensar foi no quanto eu precisava conseguir de volta.
Capítulo XII

me olhava de cima do palco, uma multidão de garotas desesperadas gritava seu nome, eu tentava dizer alguma coisa, mas não tinha voz. Queria pedir desculpas, queria dizer que acreditava nele, mas o que conseguia fazer era apenas olhar em seus olhos e ver na minha frente tudo que eu havia perdido.

- Não se desespere, , foi só um sonho – dizia, tentando me acalmar, enquanto aguardávamos na porta da sua casa os outros veterinários com quem iríamos a Chelmsford.
Na noite anterior, logo depois de termos descoberto que o tinha agendado um show na cidade naquela mesma data, havia ligado para o responsável pela sua viagem e perguntado se, por acaso, eles poderiam dar uma carona a uma prima sua que precisava, urgentemente, visitar um parente que estava internado em um hospital da cidade. Ela havia chegado a pensar em oferecer que eu pagasse a gasolina, mas isso não foi necessário, já que o homem concordou prontamente, dizendo que não haveria problema nenhum.
Depois daquele obstáculo vencido, foi a vez de convencer meus pais. Para eles eu contei que iria ajudar na tal clínica, disse que havia sido convidada e não pude dizer não a um bando de animaizinhos maltratados. Eles não pareceram muito satisfeitos a princípio, reclamaram que eu deveria ter mais responsabilidade agora que estava trabalhando e eu senti ânsia de vômito ao me lembrar do local onde trabalhava. Mas, por fim, os dois acabaram concordando. Isso me fez pensar em como eles reagiriam se soubessem o que eu estava realmente indo fazer. Porque eu estava indo lá para recuperar e, se tudo desse certo, mais cedo ou mais tarde, eles teriam que acabar sabendo sobre meu romance com aquele rockstar.
A noite foi praticamente um tormento, dividida entre insônia causada pelo nervosismo e pesadelos em que: a) fingia não me conhecer; b) brigava comigo; c) beijava outra menina na minha frente; d) virava e ria descaradamente da minha cara. Em todas as opções, eu acordava desesperada, com o coração batendo forte e uma vontade de chorar enorme presa na garganta, então eu voltava a dormir e começava tudo de novo.
- Pense positivo, você pelo menos dormiu – continuou a falar. Ela tinha olheiras escuras debaixo dos olhos e eu nem precisava reparar muito para perceber que minha amiga não estava bem. Perto de mim, ela fingia não se importar com o fato de ter sido um canalha e tê-la usado para ganhar matérias fresquinhas para o Jornal, mas eu sabia que, assim que a havia deixado sozinha na noite anterior, ela havia corrido para abraçar o travesseiro e despejado ali suas lágrimas.
Um telefonema que ela havia recebido mais cedo nos alertara sobre um possível atraso na viagem, devido a alguns outros problemas que os veterinários que nos levariam a Chelmsford precisavam resolver. Aquilo não me pareceu um problema a princípio, mas com o passar do tempo uma angustia começou a surgir. Já passava das 17 horas quando um Astra prateado parou à nossa frente, interrompendo nossos murmúrios e reclamações, e lá de dentro dois homens simpáticos nos cumprimentaram.
Um pouco mais aliviada, me apresentou como sua prima e eu tentei parecer bastante devastada pelo meu suposto parente que estava internado, embora não precisasse fazer muito esforço, já que provavelmente minha cara não estava mesmo muito boa. Eles disseram alguns “vai ficar tudo bem”, “espero que seu parente possa sair logo” e esse tipo de coisa que se diz quando não se conhece a pessoa muito bem, e eu apenas sorri agradecida.
A viagem, que não era muito longa, foi marcada por um enorme e excruciante silêncio, quebrado apenas por alguns comentários esporádicos e informações que precisavam ser passadas a antes que chegassem à clínica. Eu tentei ficar quieta e fazer com que eles se esquecessem completamente da minha presença e não tentassem puxar papo, porque queria realmente ficar na minha.
Eu estava nervosa e preocupada, sabia que precisava achar um jeito de me encontrar com , de fazer com que ele me ouvisse depois de ter pedido que ele sumisse da minha vida, de fazer com que ele esquecesse minhas desconfianças e voltasse a me querer como antes. E eu precisava fazer isso rápido. O problema é que minha mente não queria colaborar. Toda vez que tentava bolar um plano, eu acabava pensando em como a estrada até Chelmsford era bonita, como um dia queria comprar uma casa de campo, ou como estava com fome e queria comer um pastel. Isso me deixava irritada comigo mesma, porque eu sabia que o tempo estava se esgotando e, mais cedo ou mais tarde, teria que partir para a ação. E eu odiava agir sem antes ter programado tudo que precisava. Porém, com o passar do tempo, acabei sendo vencida pelo cansaço e parei de tentar. De qualquer maneira, seria impossível prever o que aconteceria a partir do momento em que pisasse naquela cidade, então acabei decidindo deixar, mais uma vez, nas mãos do destino. Ele saberia como agir.
- , onde é o hospital? – o homem que estava dirigindo me perguntou de repente, me tirando dos meus pensamentos. Eu olhei meio perdida para os lados e senti algo estranho no estômago ao perceber que já havíamos chegado a Chelmsford. Olhei para com os olhos arregalados e ela segurou minha mão, com um pequeno sorriso, provavelmente já entendendo que por dentro eu estava começando a pirar de nervosismo.
- Acho melhor você dar uma passada no hotel primeiro. Provavelmente sua mãe está lá, não? – me perguntou, piscando um olho, e eu assenti, sem nem mesmo pensar no que ela tinha dito. – Você pode deixá-la no Chelmsford Serviced Apartments?
- Claro.
Eu nem sequer me lembrava mais que e eu havíamos pesquisado em qual hotel o se hospedaria em Chelmsford. De repente, minha mente havia ficado completamente em branco, como se eu tivesse levado uma pancada na cabeça e esquecido até mesmo meu nome.
O nervosismo só aumentava à medida que passávamos pela cidade e, quando o carro parou em frente ao hotel, minhas pernas amoleceram. Havia uma multidão na porta, meninas gritando, cantando, segurando cartazes e se espremendo para tentar entrar escondidas no hotel.
- Não se preocupe, tenho certeza que vai dar tudo certo – sussurrou. Ela abriu a porta e desceu, puxando minha mão para que eu a acompanhasse, embora eu tivesse certeza de que minhas pernas não tinham força suficiente para me segurar em pé.
Os dois veterinários amigos de estranharam aquela bagunça, mas não fizeram nenhum comentário. Eles desejaram melhoras ao meu parente e disseram que se eu precisasse de mais alguma coisa, era só entrar em contato. Agradeci sincera e então tomei coragem para sair do carro.
- É uma pena eu não poder ficar com você, mas, se precisar, me liga e eu dou um jeito de fugir rapidinho – disse, quando fiquei de pé do lado de fora. Ela sorria empolgada e tudo que eu conseguia fazer era assentir.
- Isso é uma loucura, . Olha todas essas pessoas! Como eu vou conseguir falar com ele? O que eu to fazendo aqui?
– Relaxa, ! Não vá desistir agora, o destino está a seu favor, lembra? Vai dar tudo certo, você vai conseguir ele de volta. Quando estiver tudo resolvido, me liga também. – me deu um beijo na bochecha e um abraço apertado. – Preciso ir.
- Ok... Obrigada, . Obrigada por tudo.
Vi desaparecer da minha frente e olhei para o hotel sem a mínima idéia do que eu faria para entrar ali e chegar até . A multidão parecia aumentar com o passar do tempo e o hotel era tão alto que, quando tentava enxergar seu topo, eu sentia vertigem.
Peguei meu celular, a bateria estava fraca. Notei que minha mão tremia e respirei fundo, tentando tomar coragem para discar seu número. Eu ainda não tinha muita certeza do que dizer, sabia que seria ridículo falar algo como: “Oi, , eu sei que mandei você sumir da minha vida, mas agora estou na porta do hotel em que você está hospedado. Tem muita gente aqui embaixo, então será que você pode descer e me pegar? Ah, é, me desculpa”. Mas ligar para ele parecia ser a melhor solução naquele momento, já que nenhum segurança me deixaria passar do portão com aquele bando de meninas tentando fazer o mesmo.
Fechei os olhos quando encostei o celular ao meu ouvido e senti meu coração bater com pancadas fortes no peito quando ele começou a chamar. Uma chamada, duas, três... não atendeu. Quando a voz chata de uma mulher surgiu, dizendo que a ligação seria transmitida para a caixa postal, eu desliguei. Estava ainda mais nervosa agora, mas voltei a ligar, torcendo para que ele não tivesse ouvido, ou não tivesse atendido a tempo. Porém, a resposta foi a mesma. não queria me atender.
Enquanto uma parte de mim começava a querer desistir e voltar correndo para Londres, a outra pareceu ficar ainda mais decidida a consegui-lo de volta. Respirei fundo algumas vezes e tentei me acalmar. Voltei a guardar o celular no bolso e, enquanto tentava inventar alguma maneira maluca de conseguir entrar no hotel, três meninas passaram perto de mim e me encararam com a testa franzida. Eu só tive tempo de pensar “oh, não!” antes de uma delas resolver falar alguma coisa.
- Ei, você... Não, deixa para lá. – Ela deu uma leve sacudida na cabeça e continuou a me olhar com um ar pensativo. Suas amigas olhavam para ela e para mim repetidamente. – Como é seu nome?
Em qualquer outra situação eu pensaria que aquela menina era maluca, mas eu sabia o que se passava em sua mente. Ela devia estar me reconhecendo de alguma foto... Oh, droga, era terça-feira! Provavelmente havia saído uma nova publicação e, dessa vez, seria muito difícil não ter meu rosto estampado nas fotos.
Sem saber o que fazer, engoli em seco e tentei inventar uma desculpa qualquer para fugir dali o mais rápido possível. Vi algumas das meninas trocarem olhares cúmplices e a que veio falar comigo primeiro deu um pequeno sorriso, confirmando sua suspeita.
- Não se preocupe, a gente não vai gritar que você está aqui – disse, com uma risadinha. – Mas, se você está aqui, quer dizer que o ainda está no hotel? Ouvimos falar que eles já tinham saído para a passagem de som, por uma porta escondida, e só voltariam depois do show...
Passagem de som... É claro! Som alto, barulheira, toda a banda em cima do palco. provavelmente não havia ouvido o celular tocar. Uma nova onda de esperança surgiu em meu peito e eu tive que me segurar para não sorrir aliviada. Agora eu só precisava dar um jeito de chegar até o estádio onde seria o show, encontrar uma maneira de entrar lá, já que eu sequer tinha um ingresso, escapar dos seguranças e encontrar . Fácil...
As meninas continuaram a me olhar, provavelmente esperando alguma resposta, e eu apenas sorri sem graça. Será que alguma delas seria bondosa suficiente para me dar seu ingresso?
- Er... Eu não vim com eles – respondi apenas.
- Mas você vai encontrá-los depois, não é? Será que não tem como você pelo menos colocar a gente para dentro? Ninguém conta que foi você e prometo que vamos nos comportar super bem, é que a gente veio de... – outra mais baixinha começou a falar e eu me perdi no meio do caminho. Quanta ironia, eu estava prestes a fazer a mesma pergunta.
- Meninas, me desculpem, eu sei que vai parecer mentira, mas eu nem sei se vou vê-los. Digamos que estou no meio de uma confusãozinha e agora mesmo eu não deveria estar aqui, então é melhor que eu vá...
- Como você não sabe se vai vê-los? Você não ta saindo com o ? – ela pareceu meio ofendida e eu apenas respirei fundo. – Aliás, vocês estão namorando?
- Eu não sei... Quer dizer, não, nós não estamos namorando. E eu não sei mesmo se vou vê-los. Agora eu preciso ir, de verdade – falei depressa e me afastei delas, antes que centenas de outras perguntas surgissem ou que elas ficassem irritadas e decidissem espalhar para o resto das meninas que eu estava ali. Me arrepiei ao imaginar a cena.
Caminhei rapidamente, evitando passar por perto das outras fãs e ser reconhecida de novo, e tentei procurar por um táxi. Seria fantástico se encontrar táxis fosse tão fácil quanto nos filmes, que bastasse levantar a mão e gritar “táxi!”, então magicamente um apareceria ao meu lado. Dei uma risada para mim mesma e então arregalei meus olhos ao olhar para a esquerda.
Não, não era um táxi, era uma banca de revistas. E lá estava meu rosto, na primeira página do Relicário, em uma pequena foto à direita da barra superior. Engoli em seco e detive meus passos, depois me aproximei devagar, como se estivesse com medo de sair um bicho de dentro do jornal e me atacar.
- Moço, quero um exemplar do Relicário, por favor – falei ao jornaleiro, abrindo minha bolsa e pegando algumas moedas. Minhas mãos tremiam descontroladamente e eu não fazia idéia de como ainda cabia espaço para nervosismo dentro de mim. Tentando me controlar, levantei a cabeça e entreguei as moedas ao homem. Ele olhou para o jornal, depois olhou para mim e deu um pequeno sorriso enquanto me passava o exemplar.
- É você...
- Não! – falei rapidamente, pegando o jornal e saindo sem nem olhar para trás. Maldito !
Tentando organizar um pouco as coisas na minha mente, guardei o jornal na bolsa e decidi que o leria quando estivesse no táxi, a caminho do estádio. Eu não podia perder mais tempo no meio da rua se ainda quisesse chegar lá antes do show acontecer.
Andei por mais um tempo e antes que perdesse as esperanças, consegui encontrar um táxi disponível. Eu praticamente voei até ele, para não correr o risco de alguém pegá-lo primeiro, e o taxista me olhou assustado quando abri a porta violentamente e me joguei lá dentro. Dei um sorriso sem graça ao ver que ele me olhava com uma cara nada amigável pelo retrovisor.
- Desculpa... Será que o senhor pode me levar até o show do ? – perguntei, cruzando os dedos e torcendo para que ele soubesse onde era, pois minha cabeça estava tão bagunçada que era capaz de eu falar o nome de um estádio que sequer existia.
O homem assentiu com a cabeça, ligando o taxímetro e eu relaxei. Me sentei mais confortável e, assim que o carro arrancou, abri minha bolsa e peguei o jornal. Respirei fundo e abri na página que estava indicada abaixo da minha foto.
Nela, havia uma pequena matéria, que eu sequer tive paciência de ler, e mais algumas fotos. A primeira era de e eu de costas, andando de mãos dadas enquanto ele segurava nossos cafés, a segunda mostrava o beijo que ele havia me dado na frente dos paparazzi e a terceira era do meu rosto, enquanto a palma da minha mão fazia uma tentativa inútil de tampá-lo. Ali estava tudo que eu havia tentado evitar, tinha meu nome, meu rosto, minha profissão. Mas, naquele momento, eu não me senti chateada ou irritada. Na verdade, eu só consegui enxergar naquele pedaço de papel o que agora eu tanto desejava. Ali estava retratado o que eu estava tentando recuperar.
Um fogo pareceu surgir dentro de mim e me remexi no banco inquieta. Olhei para frente e depois para trás, notando que a gente tinha andado muito pouco desde que eu havia entrado no táxi. Franzi a testa e cutuquei o braço do motorista.
- Er, será que o senhor poderia acelerar um pouco? Eu pago a mais... Estou realmente com pressa.
- Desculpe, estou indo o mais rápido que posso. Agora é horário de pico e o caminho até o show está bem cheio de gente que está com tanta pressa quanto a senhorita.
Começando a me sentir nervosa de novo, voltei a me recostar no banco e sacudi as pernas impaciente. Olhei as horas no relógio do painel do carro e senti meu coração bater mais forte, já era 19 horas e o show estava marcado para as 20. Excelente! Eu deveria ter ido a Chelmsford de avião pela manhã, ou, pelo menos, ter ido direto até o estádio... “Relaxa, , agora não há mais nada que você possa fazer”, pensei, tentando me tranqüilizar. Voltei a guardar o jornal em minha bolsa e depois fechei os olhos, tentando esvaziar minha mente. Ia dar tudo certo, ia dar tudo certo, ia dar tudo certo...
- Senhorita? – ouvi uma voz me chamar e abri os olhos lentamente. Então dei um pulo no banco e me sentei com o coração batendo acelerado. Eu tinha cochilado. Que horas eram? Onde estávamos? Eu não podia ter perdido o horário! – Senhorita!
Olhei assustada para o motorista, me localizando e percebendo que eu ainda estava no táxi. O relógio do painel marcava 7:40 da noite. Abri a boca assustada e olhei ao redor, estávamos presos em um engarrafamento e algumas pessoas passavam apressadas pelas laterais do carro.
- Acho melhor a senhorita ir andando, se quiser chegar antes do show começar – o taxista disse, me olhando pelo espelho retrovisor e vendo o quanto eu estava assustada. Sacudi a cabeça em concordância e revirei minha bolsa em busca de dinheiro. Como eu podia ter dormido? Como eu podia ter dormido? Isso era ridículo!
- Aqui, pode ficar com o troco – falei, entregando umas notas emboladas ao motorista e desci rapidamente do carro, ainda muito irritada comigo mesma.
Eu não fazia idéia de para que lado ficava o estádio, mas deduzi que bastava seguir em frente, já que a maioria das pessoas que andavam apressadas, e que tinham cara de serem fãs de e de estarem indo para um show, seguia naquela direção. Meu coração estava tão acelerado que eu pensei que poderia ter um ataque a qualquer momento.
Já era 7:40, o show estava marcado para as 8, isso significava que eu tinha 20 minutos para chegar até o local antes do show começar. VINTE MINUTOS. E eu não fazia idéia de onde me encontrava. Ri da minha própria desgraça e tentei apressar ainda mais meus passos, embora eu já não tivesse mais tanta certeza do que estava fazendo ali. De repente, a idéia de ter esperado na porta do hotel até que ele voltasse depois do show me pareceu muito mais inteligente. Maldito destino! E eu achando que ele estava do meu lado...
Depois de muito caminhar, consegui avistar mais à frente uma fila enorme. Havia garotas e garotos de todas as idades, conversando alto, aparentando nervosismo, cantando algumas canções. Algumas meninas já haviam começado a chorar e levavam cartazes com frases malucas escritas neles.
Passei direto até onde estava o portão, pelo qual a fila passava pouco a pouco. A bilheteria estava fechada, não havia ninguém vendendo ingressos ilegalmente e muito menos algum fã disposto a me vender o dele. Olhei ao redor sem saber o que fazer e vi que algumas pessoas me olhavam com a cara fechada, provavelmente imaginando que eu tentava furar fila. Um segurança se aproximou.
- Com licença, o senhor sabe se eu posso encontrar algum ingresso à venda?
O homem me olhou de cima abaixo e sacudiu a cabeça negativamente.
- Estão esgotados há semanas.
Fechei os olhos e respirei fundo, xingando mentalmente todas as pessoas que haviam comprado ingressos para aquele show. Quando voltei a abri-los o segurança ainda estava ao meu lado, observando os adolescentes entrarem no estádio.
- Olha só, será que não tem como o senhor me dar uma ajudinha? – perguntei, chamando sua atenção novamente. Ele apenas desviou o olho em minha direção. – É que eu preciso urgentemente falar com um dos meninos da banda, mas não tenho ingresso. Ele me conhece e tenho certeza que vai ficar feliz em saber que eu estou aqui...
O segurança rolou os olhos e voltou a olhar para a fila. Respirei fundo mais uma vez, antes de recomeçar.
- Eu sei que parece mentira, mas o senhor mesmo pode perguntar a ele. Diga apenas meu nome e ele vai liberar minha entrada, eu tenho certeza!
- Você é a terceira que me diz a mesma coisa hoje – o homem respondeu, dando uma risada sem graça. – Se algum deles tivesse uma convidada especial, o nome dela já estaria comigo. Aliás, muito provavelmente ele teria te dado um ingresso.
- Ele não sabia que eu viria. Por favor, estou falando a verdade – implorei, vendo que ele começava a andar para outro lugar. De repente, uma idéia me veio à mente, abri minha bolsa e puxei o jornal, depois segurei em seu braço. – Olha aqui, o senhor mesmo pode ver, aqui está minha foto com ele – falei, procurando desesperadamente pela página onde estava a matéria. – A gente tem saído junto, mas houve um problema de comunicação e ele não sabe que eu vim hoje. Eu só preciso que o senhor pergunte a ele se pode liberar minha entrada, eu tenho certeza que ele vai liberar.
O segurança olhou para a página que eu mostrava com a mão tremendo, fez uma cara de surpresa ao ver que era mesmo eu quem estava ali, mas depois voltou a me olhar, sacudindo negativamente a cabeça.
- Sinto muito – disse, se afastando para chamar atenção de uma menina que tentava furar fila de verdade.
Aquilo não podia ser real, eu não podia ter chegado tão perto para terminar assim. Ouvi um barulho alto e meu estômago se revirou quando guitarras, baixo e bateria começaram a ser tocados. Senti lágrimas começarem a queimar meus olhos ao me dar conta que, provavelmente, naquele momento, estava subindo ao palco, a tão pouca distância de mim.
Algumas meninas que ainda estavam do lado de fora começaram a gritar e se empurrar para tentarem entrar mais rápido e eu pensei em me juntar a elas, mas o segurança logo me lançou um olhar bravo, dando a entender que estava de olho em mim. Idiota! Será que ele não podia nunca quebrar uma regra? Ninguém perceberia que havia UMA pessoa a mais no estádio!
Quando a última das meninas entrou, eu olhei desolada para a porta e uma pequena lágrima escorreu por meu rosto. Uma música começou a ser tocada e eu me afastei um pouco, sentindo meu corpo inteiro tremer.
Peguei meu celular, sem saber o que mais poderia fazer, e liguei para . Ela atendeu ao terceiro toque, provavelmente já esperando pela minha ligação.
- Ai meu Deus, já? E aí, como foi? O que ele disse? Que barulheira é essa? Você está no show? – ela foi perguntando, sem sequer me dar a chance de dizer “alô”.
- Já era, , deu tudo errado – falei, tentando não começar a chorar como uma criança ali mesmo. – Ele não estava no hotel, paguei uma fortuna para um taxista me trazer até o estádio, cheguei um minuto antes do show começar e eu sequer tenho um ingresso.
- Conversa com um segurança! Diz que você é a garota do e ele vai ser demitido se souberem que ele te barrou.
- Já tentei de tudo, até mesmo mostrei uma foto minha com o que foi publicada no Reli... – eu ia começar a dizer, mas logo me lembrei que aquele assunto ainda era um pouco delicado para , porque falar do Relicário era o mesmo que lembrá-la da babaquice de . – Não importa, ele não quer me deixar entrar de jeito nenhum. – Lancei um olhar feio para o segurança e naquele momento vi que um homem se aproximava dele e mostrava um crachá. O brutamonte indicou a ele outra porta, onde estava outro segurança e o homem mostrou novamente o crachá, antes de entrar por ali. A idéia então surgiu em minha mente como uma luz intensa e eu arregalei os olhos, sem me dar conta de nenhuma palavra que dizia. – , eu te ligo depois.
Desliguei o celular e guardei em minha bolsa, antes de começar a remexê-la como louca. Como eu não havia pensado naquilo? Era tão óbvio! Meu crachá do Relicário pareceu brilhar quando o peguei, embaixo dele estava escrito “imprensa” e eu o segurei com força, enquanto rezava para que aquilo fosse suficiente para garantir minha entrada.
Caminhei com passos firmes em direção à porta pela qual vi o homem entrar e notei que o segurança com quem eu havia falado anteriormente me olhava com a testa franzida. Por sorte, aquela porta não era ele quem guardava.
- Com licença, aqui o acesso é restrito para a im... – o outro segurança, que estava em frente à porta pela qual eu pretendia entrar, começou a dizer, segurando meu braço, mas se calou quando virei para ele meu crachá. Tentei mostrar firmeza em meu rosto e ele observou meu crachá por um momento. Depois deu uma olhada ao redor, como se procurasse alguém para quem pudesse perguntar se aquele era válido.
- Com licença, estou perdendo tempo – falei séria e me livrei da sua mão. Meu coração palpitava como uma máquina quando passei pela porta e fechei meus olhos brevemente, com medo de ouvir ele me chamar de volta. Mas ele não o fez e, depois de mais alguns passos, uma atmosfera incrível me alcançou. Eu estava dentro!
Um sorriso enorme surgiu em meus lábios e eu coloquei o crachá do Relicário em volta do pescoço ao notar que estava em uma área separada do restante do público, para evitar que algum outro segurança resolvesse me parar. A área da imprensa era uma espécie de camarote, que ficava na lateral da arena, abaixo da arquibancada e acima do público geral. Senti que em meu estômago repousava uma sensação engraçada e meus joelhos tremiam à medida que eu caminhava para mais perto do palco.
A música estava alta e as pessoas gritavam, pulavam e cantavam junto, naquele clima gostoso de shows. Eu não conseguia desfazer meu sorriso e observava tudo ao meu redor, tentando parecer apenas mais uma jornalista em busca da sua matéria do dia seguinte e passando por entre as outras pessoas da imprensa.
Senti um frio no estômago ao conseguir ver um pedaço do palco e meu coração parou de bater por um momento quando me desvencilhei de todas as outras pessoas e meus olhos se pousaram sobre apenas uma, ali em cima do palco. estava de olhos fechados, tocando e murmurando um pedaço da música, enquanto outro de seus companheiros a cantava no microfone. Ele parecia estar completamente entregue, sentindo a energia que vinha do seu público, embora naquele momento eu não conseguisse enxergar mais ninguém naquela arena enorme. Era meu , fazendo aquilo que ele sabia melhor. Uma sensação de orgulho invadiu meu peito.
Observei pela primeira vez o restante da banda, todos eles pareciam extasiados, tocando, cantando, pulando, e levando centenas de adolescentes ao delírio. No meio do público, eu vi um cartaz que dizia “, case comigo!” e não pude conter uma risada. Como eu podia ter odiado o fato de ele ser um rockstar? Estava mais do que óbvio que aquilo era o que ele havia nascido para fazer. pertencia aos palcos.
Eles trocaram de música, fazendo algumas piadinhas no microfone, e depois voltaram a entrar em uma espécie de transe, no qual ficavam enquanto tocavam. Voltei a observar , dessa vez ele estava de olhos abertos, olhando o público e sorrindo. Mesmo de longe, era possível ver em seus olhos o quanto ele amava estar ali.
O show foi passando e eu me mantive praticamente imóvel. Não queria que nenhum jornalista ou fotógrafo tomasse minha vista ou que me reconhecesse e viesse me encher de perguntas, me impedindo de assistir ao homem por quem eu estava apaixonada fazer seu trabalho.
Em certo momento, notou o cartaz da menina que pedia para se casar com ele e soltou uma risada gostosa no microfone, dizendo que ela poderia procurá-lo depois do show para discutirem os detalhes do casamento e brincando que um dos meninos do não deveria ser padrinho. Eu ri, sacudindo minha cabeça levemente, e então, novamente como uma luz, outra idéia maluca surgiu em minha cabeça. Olhei para trás, vendo que a maioria dos jornalistas estava mais preocupada com as comidas do camarote do que com o show.
- Ei, você tem algumas folhas em branco para me emprestar? – perguntei ao homem que estava ao meu lado, fumando despreocupadamente seu cigarro. Ele sacudiu negativamente a cabeça e depois me ignorou. Outros dois jornalistas tiveram reações parecidas quando os perguntei e a única coisa que consegui arranjar foi um pincel grosso que uma senhora me deu ao perceber que sua letra ficava ilegível ao escrever com ele.
Olhei ao redor por mais algum tempo, mas ao perceber que ninguém parecia muito disposto a me ajudar, resolvi apelar mais uma vez para o Relicário. Pelo menos, para duas coisas aquele jornal idiota já havia me servido naquele dia.
Separei uma folha dupla e pedi licença a um fotógrafo que estava abaixado sobre sua máquina ao meu lado, apoiando o jornal em suas costas para escrever. Ele me olhou com a cara feia, mas depois sacudiu a cabeça e deixou por isso mesmo. Certo, agora só faltava decidir o que eu deveria escrever. Fechei os olhos por alguns segundos, então deixei que minhas mãos obedecessem meu coração e escrevi as primeiras coisas que ele quis dizer.
Agradeci ao fotógrafo e devolvi a caneta à senhora, que a deixou jogada em cima de uma mesinha. Depois consegui me encaixar de novo em meu lugar com vista perfeita e respirei fundo antes de abrir a folha à minha frente, torcendo para que estivesse legível.
Uma música passou sem que olhasse em minha direção, depois passou outra, e outra, e outra. Então, quando minha mão já não sustentava mais a folha com tanta segurança, ele passeou o olhar por aquela área e se deteve em meu aviso. Aquela frase poderia ter sido escrita por qualquer pessoa, mas ele fez questão de levantar um pouco mais os olhos para ver quem havia escrito: “We will always have Paris” (Nós sempre teremos Paris). Aquela era uma frase que havia ficado famosa depois de Casablanca, mas eu sabia que ele entenderia que eu não estava me referindo a Rick e Ilsa. Nós sempre teríamos Paris. Eu e ele. e .
A expressão que surgiu em minha cara ao me dar conta de que ele estava lendo meu aviso se refletiu no seu rosto quando ele viu que era eu quem segurava aquele papel. Seus olhos se arregalaram ao encontrarem os meus, sua boca se abriu levemente e seus braços se imobilizaram, deixando de tocar seu instrumento e atrapalhando a melodia, embora meu coração batesse tão forte e tão acelerado que seria capaz de fazer o som por ele.
Então, quando eu tentava dar um sorriso, um dos seus companheiros de banda correu até ele e chamou sua atenção, tentando ser um pouco discreto, embora aquela falha tivesse sido bastante perceptível. piscou algumas vezes, depois olhou assustado para seu amigo, para o público à sua frente e para mim uma última vez, como se quisesse ter certeza de que eu estava realmente ali, antes de voltar a tocar.
Embora eu não tivesse a mínima idéia do que se passava na cabeça de , uma sensação de alívio tomou conta de mim, como se aquela simples troca de olhares tivesse dito tudo que era necessário, os meus dizendo que eu estava ali para pedir desculpas e os dele mostrando o quanto ele estava esperando por isso.
Notei que algumas pessoas que estavam assistindo ao show olhavam para cima, procurando o motivo de ter deixado de tocar por alguns segundos, mas a maioria estava tão absorta que sequer havia notado. Um ou outro jornalista que estava no camarote e, surpreendentemente, prestava atenção ao show, também olhou em minha direção e eu tratei de guardar o papel antes que começassem a me fazer perguntas.
Durante o restante do show, olhou algumas vezes em minha direção e eu tentei mostrar que estava me divertindo, embora ele parecesse ainda não acreditar muito em minha presença ali. Toda a sua energia, sua concentração e suas brincadeiras haviam desaparecido, sua mente parecia ter se transportado para outro lugar e eu me senti um pouco culpada. Talvez fosse melhor ter esperado para levantar aquele papel mais ao final do show.
De qualquer maneira, o público pareceu se divertir bastante e, quando o se despediu, depois do bis, foi aplaudido fervorosamente. Eu, porém, não consegui me mexer, pois sabia que havia chegado o momento em que saberia se me evitaria, se fingiria que eu não estava ali, se demonstraria que não tínhamos mais nada a falar um com o outro. Como se estivesse pensando na mesma coisa, ele desviou rapidamente seu olhar até mim, enquanto jogava algumas coisas para o público e, depois de respirar fundo, fez um leve movimento com a cabeça, indicando o backstage. Em resposta, eu apenas sacudi os ombros e mostrei as mãos, dando a entender que não tinha como ir até lá. Enquanto algumas meninas brigavam entre si para decidir de quem seria a toalha que ele tinha acabado de jogar, chamou um segurança que estava na beirada no palco, falou alguma coisa em seu ouvido e o homem olhou para mim. Sorrindo aliviada, levantei a mão, para que ele pudesse me identificar, e vi um aceno positivo com a cabeça. Em seguida, deixou o palco, sem olhar para trás.
Sentindo minhas mãos voltarem a tremer, mantive minha visão no segurança, que seguiu até debaixo do camarote da imprensa e fez sinal para que eu saísse da arena. Eu obedeci o mais rápido que pude, ansiosa por poder chegar logo até e dizer tudo que precisava.
Me encontrei com o segurança em frente à mesma porta pela qual eu havia entrado, ao lado de onde saíam os adolescentes descabelados, suados, roucos e decepcionados pelo fim do show. Ele me guiou até uma terceira porta, que ficava bem mais afastada, em um lugar quase imperceptível, e nós entramos em um corredor comprido e cheio de portas. Seria impossível encontrar a certa se eu não estivesse acompanhada.
Depois de andarmos um pouco, o segurança indicou uma delas, ao lado da qual havia uma placa onde estava escrito: “Camarim – ”. Eu me detive, nervosa, e tentei conter minhas mãos trêmulas, mas o segurança não parecia estar com paciência e abriu a porta para mim, fazendo meu coração dar um pulo assustado.
Meus olhos identificaram uma ampla sala branca e percebi que havia ali mais pessoas do que eu esperava. Reconheci o cara da banda que havia chamado a atenção de , ele estava sem camisa, bebendo uma garrafa de água, enquanto ouvia o que uma mulher falava. Um pouco mais ao lado, os outros meninos da banda brincavam de bater um no outro com uma toalha, enquanto alguns homens mais velhos conversavam e rolavam os olhos ao ver seu comportamento.
- Entre, senhorita, preciso voltar a fechar a porta – o segurança falou, atrás de mim, e me assustei de novo. Eu não havia me dado conta de que ainda estava parada no mesmo lugar. Meus pés se moveram lentamente para dentro da sala e notei que algumas pessoas olhavam para mim.
Tentei parecer simpática e abrir um sorriso, mas eles logo desviaram o olhar, pensando se tratar de alguma fã que havia conseguido despistar os seguranças e encontrar o camarim. Exceto pelo que tomava água sem camisa, ele olhou para mim, acenou brevemente com a cabeça e depois bateu em uma porta, dizendo alguma coisa.
Segundos depois aquela porta se abriu e saiu de lá. Seus cabelos estavam molhados, ele estava vestido com uma blusa xadrez e uma bermuda e havia uma pequena toalha jogada pelo seu ombro. O cheiro de sabonete que senti ao me aproximar me confirmou que ele havia acabado de tomar um banho rápido.
- Ei – falei baixo, sem saber o que mais poderia dizer, embora milhares de coisas já começassem a surgir em minha mente. Tentei dar um sorriso, mas meus lábios desistiram da idéia quando segurou minha mão e me puxou para fora do camarim. Torci para que seus braços estivessem bem cansados de tocar um show inteiro, assim ele não perceberia o quanto minha mão tremia junto a sua.
Nós entramos em outra das dezenas de portas que havia naquele corredor e me deparei com uma sala vazia e pouco iluminada, já que pelo menos umas duas lâmpadas estavam queimadas. Ali dentro, soltou minha mão e indicou que eu me sentasse em um dos sofás, enquanto se sentava em uma poltrona que estava ao lado. Toda aquela formalidade e as poucas palavras me deixaram ainda mais nervosa, mas ele pareceu perceber e deu um pequeno sorriso para me tranqüilizar.
- Fiquei realmente surpreso ao te ver aqui.
Senti meu estômago se contrair ao ouvir sua voz, macia e levemente rouca e tive que controlar minha vontade de pular em seu pescoço e abraçá-lo. Respirei fundo e tentei abrir um sorriso também.
- Eu percebi, você até parou de tocar... – Dei uma pequena risada. Nós dois nos encaramos por um momento, então eu respirei fundo e disse: – Me desculpa.
não falou nada, ele sabia que eu não estava me referindo a tê-lo atrapalhado no show ou ter rido ao me lembrar disso. Aquelas desculpas significavam muito mais, eram a razão para eu ter ido até ali, enfrentado uma cidade inteira e entrado de penetra em um show.
- Eu pensei que você tinha dito que o melhor para você era que eu me mantivesse afastado. Então, por que veio até aqui? – Havia mágoa em sua voz e eu senti um aperto no peito ao me dar conta de que havia chegado o momento mais difícil para mim.
- Eu sinto muito por tudo que te disse aquele dia. Eu estava confusa, amedrontada, eu pensei que você fosse o culpado por aqueles paparazzi terem aparecido...
- E não acha mais? Quem te garante que agora mesmo não tem uma câmera escondida aqui? – ele perguntou e me incomodei com a ironia em sua voz, mas não disse nada, agora era minha vez de engolir o orgulho e agüentar o que viesse.
- Eu já encontrei o culpado – falei baixo e ele me olhou visivelmente curioso. – Foi o .
- O que trabalha com você e sai com a ? – perguntou e eu concordei com a cabeça. Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso, e contei brevemente como havia descoberto todos os seus truques, inclusive o que me levou a ser contratada pelo Relicário. Notei que ficou realmente incomodado com aquilo e sua expressão ficou mais séria e fechada, mas ele não disse nada. Depois que me calei, ele esperou alguns segundos até respirar fundo e dizer:
- Acho que as coisas teriam sido mais fáceis se fosse tivesse simplesmente confiado em mim.
- Teriam, talvez. Mas se ponha em meu lugar, , todas as evidências estavam sempre apontando em sua direção, você já tinha mentido antes, era difícil assimilar tudo aquilo e acreditar que você não estava me usando para ganhar fama...
- E você já tentou se por no meu lugar, ? – De repente, ele pareceu ficar nervoso. Ou, talvez, aquilo que eu disse apenas havia dado a ele coragem para falar o que estava sentindo. - Tudo que você sempre fez foi me acusar! No momento em que a gente se conheceu eu estava correndo um risco, eu não fazia idéia de quem era você ou do que poderia querer comigo. Mas ao invés de me questionar se você era alguma interesseira, eu resolvi confiar em você, mesmo quando descobri que você era uma estudante de Jornalismo e sair comigo poderia te render várias matérias. Eu me precavi em alguns momentos, mas não foi por não confiar em você, foi por medo de te afastar de mim. Enquanto você achava que eu estava te usando, eu tentava evitar que seu rosto fosse parar em capas de revistas e jornais. Eu abandonei uma tarde de autógrafos, uma festa importante para a minha própria irmã, eu deixei o pessoal da minha banda nervoso diversas vezes por sua causa, principalmente por sair no meio da turnê para te ver, ao invés de estar ensaiando. E tudo que eu te pedi em troca foi que confiasse em mim, mas você não foi capaz de fazer isso e disse que eu deveria te deixar em paz.
- E aquele beijo que você me deu na doca? Você acha mesmo que me expor daquela maneira era a melhor forma de me fazer acreditar que não era você quem estava chamando os paparazzi? – perguntei, tentando conter o nó em minha garganta.
- Aquela foi a minha última tentativa. Eu queria te mostrar que não havia nada demais em ser fotografado. Queria também dar um jeito de dar aos paparazzi o que eles tanto queriam, assim eles nos deixariam em paz. Mas, quer saber, deixa isso para lá. Eu demorei, mas percebi que, no final das contas, você tinha razão, a melhor coisa que eu podia fazer era ir viver minha vida e te deixar fora dela.
Quando terminou de falar, diversas lágrimas já rolavam por minhas bochechas. Eu estava sem ar e sentia uma dor tão profunda em meu coração, que parecia ter sido aberta uma cratera em meu interior. não agüentou ficar olhando muito tempo em minha direção e começou a encarar os pés, enquanto eu tentava pensar em algo para dizer. Mas o que dizer nessas horas? Eu havia acabado de me dar conta da verdade, eu realmente não merecia ficar com ele.
- Eu... Eu... Eu sou uma idiota. A pessoa mais estúpida do mundo. E você tem toda razão para não querer olhar na minha cara agora – falei, com a voz trêmula, e tentando, inutilmente, impedir que mais lágrimas saíssem dos meus olhos. – Você está certo, eu fui egoísta, ignorante... Eu realmente não tinha me dado conta de tudo isso, estava concentrada demais em meus próprios problemas. Eu sinto muito, . Sinto muito por não ter correspondido as suas expectativas, por ter perdido a oportunidade de fazer as coisas darem certo entre a gente. Eu ia te dizer “sim” aquele dia, quando você me pediu em namoro, mas agora sei que já é tarde demais. – Parei alguns segundos para respirar fundo e tentar conter meu choro. Notei que ele voltava a levantar a cabeça e tudo piorou quando vi seus lábios tremerem e seus olhos se encherem d’água. – Foi para isso que eu vim hoje. Eu precisava que você soubesse que eu sinto muito.
Me levantei da cadeira, embora ainda estivesse um pouco trêmula. Eu precisava ir embora, estava me sentindo sufocada, precisava encontrar e ir para casa. Aquele dia seria eu quem abraçaria o travesseiro em meio a lágrimas. Dei alguns passos vacilantes em direção à porta.
- We will always have Paris disse de repente e eu parei. Meu coração batia acelerado. – Foi o cartaz mais legal que eu já li durante um show... Depois de um em que a menina dizia que seria capaz de ir pelada para a escola se eu falasse com ela.
Uma risada estúpida saiu pela minha garganta e isso resultou em mais lágrimas escorrendo por minhas bochechas. ainda era capaz de brincar comigo depois de tudo... Ouvi o barulho da poltrona se arrastando um pouco quando ele se colocou de pé e esperei imóvel até que ele se aproximasse. Com um arrepio, senti suas mãos tocarem meus braços e lentamente me virei. Seus olhos estavam tão próximos que fiquei momentaneamente tonta, mas voltei à realidade ao sentir ele soltar meus braços e segurar meu rosto.
- Quer saber, eu não vou embora – falei, ganhando uma confiança estranha de repente. – Não me importa se você já desistiu de mim, se percebeu que eu não merecia nada do que você fez. Eu vou te provar que a gente ainda pode dar certo, o destino não estava errado ao unir a gente, porque nós pertencemos um ao outro. E não importa mais o que aconteça daqui para frente porque eu confio em você, . Eu confio em você – sussurrei e vi um pequeno sorriso se abrir em seu rosto. se aproximou de mim devagar e roçou seus lábios nos meus.
- Isso era tudo que eu precisava ouvir.

Epílogo

- Ela estava tremendo igual cachorro com medo de fogos de artifício – dizia, em meio a risadas. – Mas eu não tiro sua razão, o olhar que o pai dela levava na cara assustaria a qualquer um!
Nós estávamos reunidos na sala da casa de e ela contava aos outros meninos da banda como meus pais tinham recebido a notícia do meu namoro com um rockstar. Na verdade, eles haviam descoberto primeiramente através dos jornais e revistas, porque o Relicário não havia sido o único a publicar as fotos. Me procuraram nervosos, pedindo por explicações, e eu acabei tendo que contar tudo, inclusive da minha viagem escondida a Lille e a Chelmsford. Por sorte, estava lá em casa naquele momento, então eles se controlaram um pouco mais ao brigar comigo. Tentaram me fazer desistir da idéia, meu pai até mesmo ameaçou parar de me sustentar e tudo piorou quando eu dei a notícia de que havia me demitido do Relicário. Talvez aquela não fosse mesmo a melhor hora para ter contado. Minha mãe quase desmaiou, meu pai ficou vermelho de raiva e eu apenas os encarei, pensando no quanto os dois exageravam com tudo. A sentença final foi um castigo que meu pai tentou me dar, se esquecendo que eu já tinha 21 anos, e eu apenas dei de ombros. De qualquer forma, ainda não havia terminado a turnê, então, por mais que eu quisesse, ainda não poderia vê-lo.
As coisas na minha casa, porém, melhoraram bastante depois que eu recebi um telefonema de um dos maiores jornais de Londres. Eles alegavam terem lido algumas das minhas matérias no Relicário, depois de analisarem meu currículo, que eu havia deixado lá alguns meses atrás, e resolvido me chamar para um teste. Antes de aceitar, eu me certifiquei que aquele jornal não possuía nenhuma ligação com o mundo de celebridades.
Quando o voltou a Londres, parecia mais empolgada que eu. Ela ficou amiga dos meninos em questão de minutos e, apesar de terem tido algumas primeiras impressões negativas a meu respeito, por eu ter sido o motivo de várias falhas de com a banda, eles também acabaram sendo extremamente simpáticos e receptivos. Bastou alguns dias para que nos tornássemos bons amigos.
- , o ta te chamando lá em cima – um dos meninos falou, enquanto descia a escada. Assenti agradecida e deixei a sala, onde ainda ria e exagerava sobre meu comportamento ao ouvir a bronca dos meus pais.
A casa de era incrível, linda, enorme, aconchegante e, embora já tivesse ido lá algumas vezes, eu ainda ficava embasbacada quando reparava em seus detalhes. Subi as escadas sem pressa e dei duas batidas leves na porta de seu quarto. Ouvi pedir que eu entrasse e rolei os olhos ao ver que ele estava apenas com uma toalha amarrada na cintura, enquanto mexia em seu closet. Me sentei na beirada de sua cama.
- Você não me chamou aqui só para te ver de toalha, né? – brinquei e, ao ver que ele dava uma rebolada, soltei uma gargalhada.
- Não estou sexy? – ele deu uma voltinha e parou em uma pose, apoiando uma das mãos na porta do banheiro e outra na cintura. Eu ri e sacudi levemente a cabeça.
- Muito!
caminhou sorrindo até perto de mim e me deu um selinho, depois voltou para a porta do banheiro com algumas roupas na mão.
- Espere aqui, tenho um presente para você.
Aguardei ansiosa enquanto ele trocava de roupa no banheiro. Eu não fazia idéia do que era ou do porquê dele querer me dar um presente, já que não se tratava de nenhuma data especial. Talvez fosse apenas uma bobeirinha para me fazer rir ou aquela poderia ser também apenas uma desculpa para que ficássemos um pouquinho a sós. Ele não demorou a voltar ao quarto e eu sorri ao ver como ele estava lindo.
me deu um sorriso de volta e se abaixou perto de mim para abrir a gaveta do seu criado-mudo, permitindo que eu sentisse seu cheiro gostoso de banho recém-tomado. De lá, ele tirou um pacotinho e o colocou em minhas mãos, se sentando ao meu lado. Eu lancei a ele um olhar curioso e o vi fazer um gesto para que eu abrisse. Obedeci, ainda mais curiosa e apreensiva. Meu coração se acelerou quando vi do que se tratava: era uma passagem aérea. Havia também um pequeno bilhete, no qual estava escrito: “We will always have Paris”. Abri lentamente minha boca e me virei para dizer alguma coisa, mas não deixou.
- Na verdade, isso é simbólico, porque ainda temos que ver uma data que você e eu possamos ir. Vamos rodar aquela cidade inteira e eu vou poder te guiar com meu francês perfeito. Eu também vou alugar um carro por lá, assim poderemos ir a Lille. E a gente pode escolher uma época em que os vinhedos estarão cheios, para que a gente possa se embebedar de vinho e você possa abusar de mim na cozinha – ele brincou e eu gargalhei, ainda sem acreditar no que via.
- Você é perfeito – sussurrei e sorriu daquele jeito que eu tanto amava. Deixei as passagens de lado e passei as mãos por seu rosto, vendo ele fechar os olhos ao sentir meu carinho. Meus lábios se curvaram em um sorriso sem que eu percebesse. Era sempre esse o efeito que ele causava em mim.
Fiquei alguns segundos observando os traços do seu rosto e pensando no quanto eu era sortuda por tê-lo ao meu lado. era exatamente o homem com quem eu sempre havia sonhado e ele havia se colocado na minha vida de uma maneira tão maluca e inesperada que fazia tudo aquilo soar como um conto de fadas.
Era engraçado pensar em como tudo poderia ter sido diferente. poderia não ter conseguido o estágio na clínica e ter ido àquela viagem de Paris comigo, como havia sido combinado. Eu poderia ter ficado constipada e decidido não visitar a Torre Eiffel naquele certo dia, ou talvez poderia ter sido atacado por várias fãs malucas e ter tido que se esconder. Ele também poderia simplesmente ter decidido não me ajudar ou sequer ter visto que eu estava sendo incomodada. Eu poderia ter ido diretamente ao hotel no dia seguinte, assim que o guia havia nos liberado ou não tê-lo enxergado do outro lado da rua ao pegar o táxi. Aquela moeda que ele jogou para o alto, no café, poderia ter indicado a opção em que eu não iria com ele a Lille, eu poderia não ter aparecido na estação ou ter decidido não pegar o trem quando nos perdemos um do outro.
De volta a Londres, eu poderia ter passado por outra rua para chegar ao prédio do Relicário no dia da minha entrevista, ele poderia não ter levantado a cabeça e me visto através daquela vitrine. poderia ter desistido na última hora de ir àquela festa em que nos encontramos depois.
Tudo poderia ter sido diferente. Mas eu estava feliz por não ter sido. O destino havia nos colocado frente a frente em diversas situações porque assim era para ser. Nós pertencíamos um ao outro. Eu e ele. e .


NA: Terminou! Depende da História chegou ao fim. Vocês devem ter notado que faz apenas dois dias que se encerrou a votação, certo? Eu tentei escrever o mais rápido possível como uma forma de agradecer a todos vocês pelo apoio. Eu também tentei escrever esse capítulo baseado nas ideias que vocês deixaram como comentário e espero que tenha saído à altura. Gostaria de agradecer a todo mundo que leu, votou, comentou e acompanhou essa fic desde o começo. Também preciso agradecer a Gui, que começou escrevendo Depende da História junto comigo e me deu ótimas ideias! Espero que vocês tenham gostado e que se lembrem dessa fic com muito carinho... Mas esse não é o fim do VQD. Fiquem de olho no FFADD que logo, logo anunciaremos algo bem legal. Obrigada, obrigada, obrigada.
Grandes beijos, Lih~NG // Twitter // Email



Resultado da última votação: 55
1 - Ela assiste ao show, depois conversa com ele - 37
4 - Sim (ela deve sair do Relicário) - 52