S.W.A.L.K. [Sealed With A Loving Kiss]
(Selado com um beijo de amor)
Por: Lilah Aoki
Betada por: Beatriz Avanso



Prólogo
Tão presente em seu silêncio era o medo que sentia de perder tudo outra vez. Diante daquele retrato, posto sobre a mesa de dentro da casa onde morava, ela via seu passado estampado por detrás do molde. Queria que tudo tivesse sido diferente, desde o dia em que pensou ter encontrado a pessoa certa, até o dia em que a perdeu. Ela falhou e o tempo não estava sendo amigo, por não passar, por não levar consigo a dor que pairava no ar e por não ser dobrável, com botões de reversão.
Sobre a toalha de mesa, uma carta de papel amassado e as iniciais S.W.A.L.K. Dentro dela apenas uma frase impressa em letras pequenas e tinta de caneta azul:
"Você pode viver sem mim, eu sempre vou ser parte dos seus sonhos."


Capítulo 01
', está tudo bem?', uma voz feminina chamou a atenção da garota que encarava a janela da cozinha. Era outono e o típico "chá das cinco" já não era mais o mesmo.
'Sim, sim', respondeu sem certeza. Era uma pergunta que ela ouvira todos os dias durante os últimos meses.
'Pois não parece.' , a amiga que a acompanhava disse. 'Há quanto tempo você não sai de casa?'
'Só uma semana', falou. A outra garota cerrou os olhos, como se não acreditasse.
'Não minta pra mim, eu sei que você só foi até o mercado e voltou e isso não conta', disse.
'Mas eu pus os pés na rua, isso pra mim é sair de casa!'
'Tá legal, mas eu me referia à voltar a ser uma pessoa normal', deu de ombros e deu um gole no chá, já morno. 'Eu sei que ainda está sofrendo, mas já fazem seis meses...'
'Se disser que eu tenho que seguir em frente, cale a boca. Eu ando escutando muito isso ultimamente', resmungou, empurrando a bandeja de biscoitos para o lado. 'E não faça essa cara pra mim...'
'Que cara?' fez uma careta engraçada. 'Olha, e eu vamos velejar nesse fim de semana, você podia vir conosco, o que acha?'
'Não vou atrapalhar a vida amorosa e as noites ao mar de vocês?' quis saber e fingiu pensar.
'Claro que não, está na hora de você esquecer de tudo, começar de novo' ergueu os braços como se mostrasse algum fenômeno no ar da cozinha. 'Era o que gostaria.'
murchou. Todos a repreendiam, dizendo que ela era uma fraca por deixar o desânimo mexer com seu corpo. Suplicavam para que mudasse sua vida, para que desse a volta por cima, mas ela sentia que não era mesmo capaz, não sem . Depois do trágico acidente, ela só conseguia pensar em uma única questão: por que havia morrido e ela não? Ela dirigia, ela brigava com ele. Suas últimas palavras foram recheadas de ódio e isso tomava sua consciência e a levava para baixo, puxando-a para um poço profundo. Talvez quisesse que sua vida seguisse, talvez olhasse por ela, mas não queria saber, ela nunca o teria de volta.
'Sabe, ,' falou de repente. A amiga parou para escutá-la. 'Às vezes eu sinto que posso mudar, mas eu olho a minha volta e não vejo quem eu mais quero.'
'É difícil, não é?' pôs a mão sobre o ombro da menina. 'Mas ver você assim, também não é fácil pra nós. Ainda tem muitas pessoas em quem se apoiar, amiga...'
'Mas não ele...'
O soluço deu lugar ao choro. abraçou , tentando consolá-la. Uma entendia as dúvidas e arrependimentos da outra e isso as unia.
'Não fique assim, olhe', foi até a bancada e tirou um papel de sua bolsa 'eu queria que você fosse a primeira a ver.'
'O que é?'
'Meus votos.' sorriu, puxando uma cadeira para mais perto. 'Eu passei a noite toda em claro, pensando no que escrever'
'Bom, ficou lindo...' riu amarelo ' já preparou os votos também?'
'Se depender dele, eu não vou ouvir nada.' balançou a cabeça e fez um barulho com a boca 'Quer dizer... acho que ele está escrevendo uma música'
'Isso é ótimo, ele vai ser muito original' rolou os olhos e fez rir. Olhou novamente para a janela e suspirou.
'Que foi?' perguntou, pronta para dar-lhe uma bronca.
'Só estava pensando em como seria se e eu tivéssemos nos casado', ela disse sonhadora, admirando as folhas secas despencarem da árvore da frente 'Ia ser, no mínimo, interessante.'
'Por quê?'
'Porque ele era bom com as palavras...'

Capítulo 02
A tevê da sala de estar estava ligada num programa não muito interessante, e dormia no sofá. Foi quando o telefone tocou e ela despertou devagar.
'Alô?' Ninguém respondeu. 'Alô?' Ela repetiu e nada, parecia uma brincadeira, um trote. 'Hey!', chamou e desligou.
Estava silêncio. Então subiu as escadas e foi para o quarto, fazer o que parecia ser seu ritual diário. Abriu o armário e de lá tirou uma bonita caixa de madeira, que tinha ganhado da avó e onde guardava algumas recordações de . Levou-a até a cama, sentou-se e começou a rever os bilhetes, as fotos, os rascunhos musicais. Tudo ali fazia parte do lado bom da saudade, o lado que não nos pressiona a sofrer.
Dentre todos, havia um bilhete especial do qual gostava mais de ler nas tardes frias de outono. o tinha escrito depois de amontoar as folhas secas do jardim e antes de ir embora para casa.

"As folhas que caem são aquelas que já tiveram sua vez de colher luz. Elas alcançam o chão e, quando persistentes, são levadas pelo vento para lugares que nunca poderiam ir se continuassem presas aos galhos.
Quero ser o vento pra te tocar e te levar comigo para lugares que você nunca sonhou poder ir. Porque a luz que você colheu, little leaf, espelha em seus olhos.
Eu amo você.
."


Os olhos de se encheram de lágrimas. Cada palavra que encaixava em suas frases sempre a fazia se emocionar, com esse dom que ele tinha de descrever seus sentimentos. Era tão doce, tão forte, mexia demais com a cabeça da menina, que naquele momento só sabia recordar do passado. Um passado tão presente, tão impregnado em seu ambiente. Ela queria poder encaixar cada pedacinho de papel no buraco que sentia ter dentro de seu corpo, o vazio emocional que não a deixava em paz.
Então, deixou o bilhete que tinha em mãos sobre a cama, ao lado da caixinha. Se levantou pra pegar um casaco grosso e decidiu dar uma volta, espairecer.
Fechou a porta de casa e viu uma rua deserta. Folhas voavam com a leve brisa que gelava suas bochechas e as deixavam coradas. caminhou por algum tempo, sem muito o que planejar. Não havia mais dia seguinte, todos eles eram iguais. Ela enfiou as mãos nos bolsos do casaco e se contraiu com o frio daquela tarde.
Ouviu o barulho do celular e o atendeu.
'?', perguntou ao ler o nome da amiga na bina.
'Cadê você?', a menina parecia desesperada do outro lado. 'Onde você está?'
'Calma, estou só dando uma volta' esclareceu rindo. 'Por que a aflição?'
'Estou na porta da sua casa e ninguém atende, pensei que tivesse acontecido alguma coisa e... Peraí? Você saiu de casa pra dar uma volta? O que você fez com a minha amiga?!' brincou e as duas gargalharam.
'Eu só fiquei com vontade, sei lá.'
'Hm... Muito estranho... Mas, então', se animou, 'eu voltei pra te mostrar as fotos do meu sobrinho, eu tinha esquecido ontem... Volta pra cá logo?'
'Está bem, estou dando meia volta.' falou mole, fazendo rir. 'Há quanto tempo está aí?'
'Bem, uns vinte minutos, esperei pra caramba!' resmungou e arregalou os olhos.
'Nossa, nem percebi o tempo passar' riu. Estava conversando qualquer coisa com a amiga quando viu uma luz forte bater em seus olhos. escutou um estrondo.
'? ? Meu Deus, ?'

Capítulo 03
'Amor, acorda!' escutou alguém dizer. Ela sentiu a cabeça latejar de tanta dor e espremeu os olhos com força. Estava num lugar claro; pôde perceber enquanto abria os olhos aos poucos. Pôs uma mão sobre a testa e sentiu lábios macios e quentes tocarem os seus. Tomou um susto.
'?' Ela quase gritou, assustando-o também.
', o que foi? Parece que viu um fantasma', ele estranhou.
Ela abriu a boca sem acreditar. Não podia ser real, mas era o sonho mais perfeito que ela já tivera. Tão vivo, tão pretensioso. estava ali, na sua frente, vivo! Ela não sabia o que fazer.
', está tudo bem?' se aproximou e a tocou. Ela se afastou levemente ao senti-lo. Da última vez estava tão frio... '? Está me assustando, o que foi?', ele repetia, vendo os olhos da menina se encherem de lágrimas.
'Estou bem, estou ótima!' Ela finalmente reuniu forças e deu um abraço apertado nele, juntando toda a saudade que sentira nos últimos seis meses.
Ainda não acreditava no que estava acontecendo, só podia estar louca, mas procurava não se importar naquele momento, porque tinha quem mais queria ao seu lado.

Depois de se acostumar um pouco mais com a situação, ela desceu para a cozinha, sentindo o cheiro do brócoli, que tinha o hábito de cozinhar quando precisavam de algo rápido para o almoço. Ele estava com o mesmo avental que ela havia guardado no armário há semanas e parecia inacreditável ver uma cena como aquela.
Ela se sentou num banquinho do balcão da cozinha e percebeu que embaixo de uma xícara de chá tinha um bilhete dobrado. Mirou o papel e depois mirou que se virou um instante, sorrindo. Era pra ela.

"Todas as manhãs, quando eu acordar e te encontrar inconsciente na cama, eu vou te abraçar e te proteger do frio que a madrugada esquece no ar, te aconchegar em meus braços como se não houvesse nada ao redor, sussurrar palavras de amor em seu ouvido e te ver acordar com os olhos embaçados.
Mesmo que não possa me ver direito, você sabe que estou lá, porque me sente, porque pertenço à você..."


'Ah, me desculpe, eu esqueci de assinar.' disse, dando um beijo no pescoço de e pondo a panela com brócolis na mesa. Ela não sabia o porquê, mas teve vontade de chorar. Tinha as palavras dele para emocioná-la.
'Tudo bem, amor, está lindo', disse e o viu abrir uma gaveta.
Ele tirou uma caneta preta e pegou o papel das mãos dela, rabiscando-o.
'Pronto, eu acrescentei uma coisinha', ele falou sapeca, se sentando.

"...e porque eu amo você independente do que venha a ocorrer.
."


'Eu amo você...' leu nos lábios do menino e sentiu borboletas no estômago.
Não era fome, disso ela tinha certeza.

Capítulo 04
Enquanto o tempo passava, decidia o que fazer. Não queria entender por que estava ali, então fazia de tudo para distanciar tais pensamentos.
De tarde, anunciou que ia trabalhar e saiu, deixando-a sozinha com aquela imensa casa. encarou pela primeira vez suas mãos, e algo brilhante chamou sua atenção: uma aliança. Ela estava casada!
Sorriu sozinha e a campainha tocou.
'!' Ela gritou, abraçando a amiga como se não a visse há muito tempo.
'Por que a alegria? Está tão... contente.' estranhou. A amiga costumava estar meio rabugenta de uns tempos pra cá. 'Aconteceu alguma coisa?'
'Não sei nem por onde começar, olha só isso!' rodopiou de braços abertos.
'O que tem?'
E foi aí que se deu conta de que não entenderia bulhufas daquilo que nem ela sabia direito o porquê de estar vivendo. Optou por se calar. Estava numa vida estranha, como em seus sonhos, uma realidade alternativa.
', está tudo bem?' perguntou e saiu de seu devaneio.
'Está, está, vem, senta', ela convidou a amiga a se aconchegar em sua casa.
As duas conversaram por horas, como sempre estava acostumada a fazer. Sempre achavam que eram unha e carne, por estarem sempre no mesmo barco. era a amiga de quem mais gostava.
'Bom, a conversa está ótima, mas eu tenho que ir,' anunciou, 'mas antes eu queria te dizer uma coisa...'
'Vá em frente, sou toda ouvidos.' sorriu e a amiga se aproximou, cabisbaixa.
', acho que... bem... acho que o tem outra.' disse e murchou. arregalou os olhos.
'Como é?'
'Ele está distante, entende? Não quer mais... você sabe... ele anda cansado, meio que fugindo de mim.' contava os detalhes, quase chorando. 'Acho que ele está me traindo há um bom tempo ...'
', o que é isso? O te ama!' tentou levantar o astral do lugar.
'Eu sei disso, mas as pessoas se cansam fácil das outras... Eu tô com medo, eu não sei o que fazer.'
'Vem cá, , me dá um abraço.'
tentou consolar a amiga, que aos poucos ficou melhor. Muitas dicas depois, elas se despediram e seguiu para casa, deixando pensativa.
'Tem alguma coisa errada em tudo isso, alguma coisa muito errada.'

Capítulo 05
'E então ele nos convidou para a festa de sábado, aquele jantar que eu te falei.' comentava seu dia com , enquanto vestia seu pijama para dormir.
'A e o vão?' Ela perguntou, mexendo na aliança. deitou do seu lado e sorriu.
'Vão sim, mas agora... Tan-dan!' Ele esticou um papel e o pegou. Mais um bilhete. 'Só pra garantir bons sonhos', ele beijou o pescoço da menina e esperou ela ler.

"As noites frias são as que mais me deixam feliz. Porque de frias, na verdade, elas só têm o nome.
Gosto de nossas noites, porque você demonstra seu amor de uma forma mais precisa e direta, com seu jeito de me beijar, de dizer meu nome baixinho, de me fazer não parar de pensar que sou o cara mais sortudo do mundo.
Eu te amo.
"


'Adorei!' Ela sorriu verdadeira e o beijou. Queria aproveitar que o tinha de volta para tentar ser feliz de novo.

No dia seguinte, tudo tomou a mesma forma, com tomando um café rápido e saindo para o trabalho. ainda sorria abobada com tudo, deixando transparecer claramente que estava muito contente. Ela correu para a cozinha para pegar um papel que estava posto sob uma colher de açúcar e o leu.

"Doce ,
eu não sei mais o que dizer, porque minhas palavras são curtas e poucas para preencher seu coração todos os dias. Mas prometo não deixar o silêncio nos amaldiçoar, nem que eu tenha que te fazer gemer ou suspirar, eu sempre precisarei do seu som pra saber que você está comigo.
Te amo.
.
P.S.: Desculpe a perversidade."


A menina riu. Às vezes ele se expressava tão claramente que soava engraçado. Ela amava isso.
Segurou o pequeno e delicado papel e um pensamento curioso lhe veio em mente. Subiu as escadas correndo, entrou no quarto e abriu o armário, se surpreendendo. A caixa onde guardava os bilhetes de estava lá, como se ela o estivesse mantendo do jeito que sempre fez. Ela calmamente levou a caixa até a cama, a abriu e depositou lá dentro os três bilhetes que havia ganho do companheiro desde que a loucura toda havia começado. Ela fechou o objeto, levando-o para o mesmo lugar.
Então a campainha tocou e desceu para atender. Não estava esperando ninguém, mas como surpresas não faltavam nesse novo "mundo" ela nem piscou de ansiedade. Talvez fosse querendo fofocar um pouco, ou só uma entrega do jornaleiro. Abriu a porta e deu de cara com .
'?' Estranhou ver o amigo ali. Ele estava bem vestido, sorrindo pra ela de uma forma estranha. 'Entre.'
Ele deu alguns passos enquanto fechava a porta.
'O que você está fazendo aq...' Ela foi interrompida pelos lábios dele. Não teve nem tempo de completar a frase e entendeu porque ele estava ali. Tratou logo de empurrá-lo.
', o que foi?' perguntou, achando que ela estava brincando com ele.
'O que você tá fazendo?' Ela quis saber. Estava assustada, não sabia como agir.
'Como assim o que eu tô fazendo? , você está bem?' Ele a seguiu, quando a garota caminhou até o sofá. Ela se sentou com as mãos na cabeça, sem acreditar. Então estava certa a respeito de a estar traindo, mas justo com quem? A melhor amiga dela?
sentou junto de , ergueu seu rosto carinhosamente.
'Fala comigo, estou preocupado'.
'Eu...' ela não sabia o que dizer. Viu os olhos dele compenetrados nos dela e sentiu uma coisa estranha em seu corpo. Algo errado. Ela não podia fazer aquilo, mas por que, diabos, queria fazer?
Não falou mais e apenas deixou que a consolasse. Era como se ela não pudesse controlar seus movimentos. Como se essa outra realidade a estivesse transformando.

estava na cozinha um tempo depois, tomando um chá quente e tentando não olhar para , que se vestia na sala. Ele colocava o casaco quando chegou perto dela e lhe depositou um beijo no rosto.
'Vai ao jantar no sábado?' perguntou, pegando uma xícara para si. Ele parecia muito à vontade.
'Talvez. estava comentando comigo.' respondeu educadamente. Não queria deixar claro que estava se sentindo mal.
' está doida para ir, precisava ver como ela ficou bonita com aquele vestido azul que eu comprei,' ele piscou, 'com a sua ajuda, é claro.'
sorriu fraco. Então ela era uma falsa, que além de trair o marido e a melhor amiga, ainda ajudava o amante a escolher presentes para agradar aos outros? Ela sentiu a cabeça doer.
'Bom, eu tenho que ir, antes que dêem pela minha falta.' deixou a xícara, agora vazia, sobre a pia e pegou pela cintura, apertando seu corpo com o dela e lhe beijando os lábios. Se tivesse mais tempo, ele tiraria as peças de roupa para se divertir mais um pouco, mas como estava atrasado, apenas acariciou de leve a pele da menina e foi embora.
No fundo não era ruim, mas a consciência de estava péssima.

Capítulo 06
Naquela noite, quando chegou, encontrou dormindo no sofá. Ela tinha passado todo o resto da tarde se martirizando e se questionando. Tantas coisas, tantos truques e enganos estavam confundindo ainda mais a sua cabeça.
O menino largou a pasta num canto, tomou a esposa nos braços e a levou para o andar de cima, deixando-a deitada sobre a cama.
'Eu te amo tanto...' Ele sussurrava no ouvido dela, acariciando a pele macia da menina com todo o carinho que sentia. Ele sabia tudo sobre ela, cada traço, cada detalhe... Conhecia as diversas qualidades e os poucos defeitos. Às vezes, pensava saber demais e, mesmo assim, escondia a amargura que lhe invadia. Porque a amava, a queria.
Porque também sabia que seria pra sempre.

abriu os olhos, mas os fechou ao sentir uma dor aguda na cabeça. Ela tentou se desvencilhar da luz, mas a agonia logo foi embora. Olhou pro lado e não estava, apenas um pedaço de papel.

"É tudo sobre você, tudo o que eu sei. Quando você diz que me ama, eu acredito.
Quando você dança na cozinha, me controlo pra que você não tenha que parar e me beijar.
Eu te vejo e sei o que faz, mas também sei que tem algo mais forte nisso.
Eu te amo.
."


deixou seu corpo cair em meio aos lençóis e abraçou o pequeno bilhete. Algo nas palavras de a faziam recordar o toque de e pensar sobre o quão rude estava sendo seu comportamento.
parecia saber como ela se sentia naquele exato momento. Seria mais um dom dele?
Ela suspirou e foi até o armário, onde guardou o papel na caixinha, e desceu as escadas à procura do marido, que não estava. Decidiu voltar pra cama.
Cochilou um pouco e acordou de sobressalto, quando o celular tocou.

'Alô?' atendeu sonolenta, ouvindo um risinho.
'Dormindo? Não tem nada melhor pra fazer?' Ela reconheceu a voz de .
'Tipo o quê?' Indagou, sem se mover.
'Hm... Tipo... Me ver, o que acha?' Ele propôs e a menina bufou.
'Você tá louco? Depois do que aconteceu, eu...' Ela ia dizendo, mas foi cortada.
'A está vindo pro café aqui da esquina, vocês podiam se encontrar, colocar o papo em dia.' Ele sugeriu. 'E assim, eu poderia matar as saudades...'
'Eu não vou, esqueça...' Ela falou nervosa, mas ele pareceu não notar.
'Você vai sim, aliás... Você tem que vir, né, ?' mudou o tom de voz, o que fez com que percebesse que a amiga havia acabado de chegar. O garoto passou o telefone pra ela.
', te convidou pra um café, por que não vem? Estou aqui, querendo falar com você também...' parecia feliz.
'Ah, não sei... Tinha umas coisas pra eu fazer...' Inventou.
'Tss, deixa pra depois... Eu preciso de você, amiga, por favor!'
sentiu as costas pesarem, mas cedeu.
'Tá, tudo bem, estou indo...'

'Que bom que você veio!' abraçou com força, enquanto esta notava o olhar maldoso de . Ela se sentou com eles na mesa.
'Você insistiu tanto que não pude recusar.' Ela sorriu sem graça, meio constrangida.
'Podíamos chamar o e sair um dia desses, o que acham?' disse e os outros dois se entreolharam discretamente. 'Uma saída de amigos... Como fazíamos antes.'
'É uma ótima idéia.' apoiou e cerrou os olhos.

Depois de um tempo conversando, pediu licença e foi até o banheiro. Estava se olhando no espelho quando ouviu o clique da porta e em seguida viu parado, observando-a.
'Você não fez isso!' disse, incrédula. Estavam passando dos limites.
'Fiz e eu sei que você quer, tanto quanto eu.' Ele foi se aproximando e , se afastando. 'Calma, eu tranquei a porta e a me viu atender o celular...'
'Cínico.'
'Adoro quando você me chama assim.' sorriu e beijou . Não sabia por onde começar, então a levou até a pia e a ergueu, fazendo-a sentar-se no mármore branco de modo que podia tê-la muito, muito perto.
As mãos do garoto amassavam o tecido do casaco que a menina usava e eles pareciam dois vampiros sedentos por sangue. pousou a cabeça no pescoço dela, posicionando-se entre suas pernas, enquanto ela mantinha os olhos fechados, procurando uma saída. Seu corpo pedia para não interromper, mas não tinha mais forças pra manter a mentira em pé.
Ela respirou fundo e o fez parar. Ficou cabisbaixa, tentando recuperar o fôlego, e fazia o mesmo.
Alguns minutos se passaram e ele decidiu perguntar o que havia acontecido.
'Eu só, não... não posso com isso... sabe?' respondeu. 'A está lá fora.'
'Se é esse o problema, vamos pro carro, pra qualquer lugar.' Ele se atreveu a dizer. 'O que foi? Você quer acabar com tudo? Não me quer mais? É isso?'
parecia visivelmente irritado. Ele esperou uma fala, mas como não escutou nada, caminhou até a pia, lavou o rosto e parou em frente à garota.
'Você sabe que não dá pra voltar atrás, agora já me fez ficar apaixonado por você...' Ele falou naturalmente. Estava sendo sincero, o que assustava . 'Sei que é errado com o , com a , mas, é o que nós sentimos.'
'Eu me sinto mal, , isso não é bom.' Ela lamentou e ele apenas franziu a testa.
'Se lembra de quando nos beijamos pela primeira vez? Naquele dia, o veio com aquela de marcar a data do casamento e você não se importou.' Ele recordava, mas não tinha essas lembranças. 'Então vocês se prepararam, se uniram e, na sua festa de casamento você se entregou a mim.'
sentiu o estômago embrulhar. As palavras de estavam soando terrivelmente grosseiras.
'Ficou comigo e me fez enxergar o que havia entre nós. Eu sei que parece piegas, mas foi a maior prova de amor do mundo...'
'Não foi uma prova de amor...' conseguiu soltar. Estava abalada e nitidamente perplexa.
'Mas...'
'Eu amo o .' Ela o interrompeu. 'Isso, do meu casamento até aqui, agora... Tudo faz parte da minha fraqueza.'
'Não, , você não entende?' disse aflito, segurando os ombros da menina com força.
'Você é quem não está entendendo.' Ela foi clara, abriu a porta e apontou pra fora. ' está ali. Ela ama você e é com ela que você deve se preocupar. Eu já tenho quem faça isso por mim, acredite, eu... não posso mais...' E saiu correndo.

voltou pra mesa, fingindo estar normal.
'Cadê a ?' perguntou, estranhando a demora.
'Foi pra casa, me mandou avisar que se esqueceu de alguma coisa, sei lá... Eu... Não entendi direito...'

Capítulo 07
Três dias e não queria mais sair de casa. Ela passava as tardes vendo tevê, enquanto se ocupava no trabalho e se preocupava com sua esposa. Sempre gostara de passear, de se encontrar com as pessoas na rua, ir ao parque, ao clube, mas parecia outra pessoa. Talvez porque ela fosse realmente outra pessoa.
A cada minuto um novo pensamento surgia em sua cabeça e a fazia questionar esse mundo estranho em que vivia agora. Não sabia como ou porque havia parado ali, nessa complexidade alternativa.
Lembrou-se das semanas difíceis depois do acidente. Ela tinha acordado no hospital, vendo sua amiga ler alguma coisa numa cadeira ao seu lado. Estava nevando e ela sentia como se tivesse sido dopada por séculos. A notícia do falecimento de fez com que ela aprendesse a viver sozinha, depressiva e muda.
Quando visitou o túmulo dele pela primeira vez, ainda com faixas nos braços feridos, sentiu como se não merecesse respirar. Ficou bem umas duas horas olhando para o gramado verde e para as palavras gravadas na placa. Não levou flores, apenas um último bilhete escrito antes de entrarem no carro naquele dia tenebroso:

"Não queria brigar com você. Espero que possa me perdoar por ser tão imaturo, por achar que as palavras são capazes de concertar quaisquer erros... Enfim, por eu ser tão desgastante quando você precisa de espaço.
Amanhã vou comprar as flores das quais você tanto gosta e fazer você sorrir com a promessa de te amar pra sempre.
Soa repetitivo, mas é a única coisa da qual eu tenho certeza.
Amo você.
."


Ele não teve tempo de comprar as flores.

O tal jantar de sábado tinha colocado certo medo na menina. estava terminando de se arrumar enquanto tomava banho. Ela estava preocupada com o fato de ter que estar no mesmo lugar que e , pois a última saída com eles tinha sido um tanto quanto perturbadora.
saiu do banheiro, ajeitando o cinto que teimava em enroscar em alguma coisa nas calças dele. Estava lindo. ainda sentia o buraco que seis meses haviam cavado em sua vida e estava, em certo ponto, radiante por tê-lo ali. O corpo que ela tanto quis tocar, o cara de quem ela quase se matou de saudade, estava perfeito demais.
'Você está linda.' elogiou, assim que pôs sua camisa social branca. sorriu e encarou o garoto por um tempo. 'O que foi?'
'Você...' Ela falou simplesmente. Caminhou até ele e acariciou seu rosto com as pontas dos dedos.
Não queria que tudo acabasse, o tempo podia parar e ela seria feliz pra sempre...
'Adoro quando você chega tão perto... Me deixa maluco.' Ele disse, segurando na cintura dela. Ela riu baixinho e o beijou. Mas ele se separou logo. 'Não podemos, amor, vamos nos atrasar.'
'Podíamos ficar aqui.' Ela tentou convencê-lo a não ir. Afinal, era a sua vontade.
'Não, não. Tenho que ir a esse jantar. É parte do trabalho, você sabe, vida em sociedade.' Ele explicou e bufou. ', não fica assim, prometo que voltamos logo.'
'Não gosto de jantares de trabalho.' Ela fez bico e se desvencilhou para o espelho, dando retoques na maquiagem. simplesmente sorriu fraco.
'Eu sei que não.' Ele disse. 'Mas é só essa noite, e acabou.'

'E essa é minha esposa .' apresentava a garota para um de seus amigos.
Durante os cumprimentos, que tomaram um bom tempo, todas as pessoas ali presentes pareciam ter sido feitas para sorrir. O jantar foi servido e como de costume, as conversas se estenderam até mais tarde.
e estavam sentadas no sofá, enquanto e encontravam-se numa roda masculina, no centro da sala principal.
'Não está com uma cara boa, . O que foi?' perguntou, bebendo um gole de seu vinho com delicadeza. Estava tão bonita em seu vestido azul, aquele que disse ter sido a ajudante na escolha.
'Não estava com vontade desse jantar, não gosto muito.' Ela respondeu.
'Nem eu, o se afasta de mim e fica jogando conversa fora.' entortou a boca e procurou não olhá-la. 'Sabe... Ainda suspeito que ele tenha outra, acho que preciso de um detetive.'
', se for assim, o tem várias outras mulheres também.' tentou despistar. 'Eles trabalham juntos... em turnos distintos, mas juntos, tempo é o que lhes falta.'
'Eu sei disso, mas eu... Ah, antes era tão mais fácil.' resmungou. 'Odiei ficar noiva dele. Quando só namorávamos, ele era bem mais atencioso.'
'As coisas mudam, é normal.'
'Normal o caramba! Eu não vou agüentar se ele virar as costas pra mim na cama de novo!' riu. Ela parecia querer ver graça, mais para não chorar do que por estar se divertindo realmente.
'Bom, a confiança é a chave, , não a jogue fora.' falou e se levantou, ajeitando seu vestido preto básico. 'Vou ao banheiro.'
'Ok.'

passou por um grande corredor e encontrou uma porta bonita, que era a do banheiro. Ela odiava casas enormes como aquela, exatamente por medo de se perder, o que não era difícil. Fechou a porta para ter certeza de que ninguém ou mesmo a estava seguindo, e para não correr o mesmo risco do encontro anterior.
Ela mirou o espelho, se odiando por dentro.
Se estava em uma realidade alternativa, por que, diabos, estava tudo errado? Não deviam seguir os padrões de seus sonhos?
Sua cabeça latejava tanto, a ponto de explodir. Ela só queria entender a história toda.
Lavou o rosto, ajeitou os cabelos e saiu pelo mesmo corredor. De repente uma porta se abriu ao lado dela e uma mão a puxou para dentro de uma sala lateral, com poltronas cor de vinho, cortinas decoradas e uma imensa lareira. Era a típica sala com portas em todos os cantos, para todos os cômodos à direita daquela casa.
sentiu a pessoa segurar seus braços com força e não esperou para tentar se soltar, pois já sabia de quem se tratava.
', eu já disse para parar com isso!' Ela gritou e ele a calou com um beijo violento.
'Ficou louca? Quer que nos vejam?' Ele disse, assim que a soltou e fez sinal para a menina parar de gritar.
'O único louco aqui é você. Todos estão na sala ao lado! O que te deu na cabeça?'
'Nada, é só você que não entende que eu preciso disso, de nós.' Ele quase suplicou e foi até ela, agora congelada por conta do medo. tocou sua pele e a fez estremecer. Ela não queria sentir aquilo, mas era inevitável. 'Por que não me quer mais, ? Não fuja de mim.'
'Não estou fugindo de você, , é só... só que eu não estou me sentindo limpa, entende? Estou traindo as pessoas que eu amo, estou magoando elas.'
'Elas nunca vão saber...' Ele sussurrou, beijando a orelha dela.
'Mas vão sentir.' completou e o abraçou, carinhosa. Estava hipnotizada com aquele clima tenso, mas delicioso. ' já está sentindo, eu...'
'Não diz nada.' Ele selou seus lábios lentamente, enquanto passeava as mãos pelo corpo dela. Mas foi por pouco tempo. Um estrondo os fez parar, deixando-os com a respiração falha e com os olhos assustados. Era o fim.

Capítulo 08
'A confiança é a chave, não é?' disse alto, observando a cena com os olhos marejados.
', não... Não...' tentou tirar palavras de qualquer lugar, mas não conseguia. Ele finalmente estava entendendo o motivo pelo qual queria romper com tudo.
', por favor...' também ousou se pronunciar, mas se calou quando a amiga estendeu a mão, pedindo que parasse. Estava visivelmente chocada com a situação.
'Eu vou pra casa e não quero ouvir falar de nenhum de vocês... nunca mais!' Ela gritou e saiu depressa, sob os olhares de alguns convidados que não notaram muita diferença.
se sentou no sofá aconchegante da sala e pôs as mãos no rosto, sentindo-o ferver. continuou de pé, mexendo no queixo, preocupado.
'O que foi que nós fizemos?' Ele lamentava baixinho e não tinha forças para falar. Depois de algum tempo, adentrou o lugar e, não contradizendo o silêncio abrangente no ar, pegou a esposa pela mão e a fez se levantar. Ele olhou para sério, em dúvida e com receio, e tocou a cintura de , calmamente guiando-a para fora dali.

À volta para casa foi longa e tediosa, sem ruídos. Eles desceram do carro, e abriu a porta, mas se recusou a entrar.
',' ele se pronunciou pela primeira vez, 'entra.'
Ela negou com um aceno de cabeça. Sentia-se mal, péssima. Ela queria morrer.
', por favor.' Ele insistiu e caminhou até a garota, pegando-a pelos ombros. Ele trancou a porta e ficou de frente pra ela. 'Fala alguma coisa.'
'Não, , não tenho mais direito a nada.' Ela disse.
respirou fundo e a abraçou de repente. encarou aquilo como uma despedida. Talvez ele subiria e largaria as malas dela na rua depois daquilo.
'Eu já sabia... de tudo.' Ele sussurrou no ouvido dela, o que doeu mais que um tapa.
'Você... O quê?' Ela indagou, surpresa.
'Já sabia sobre você... e o . Eu já sabia.' Ele repetiu sereno.
A menina arregalou os olhos, ainda sentindo o calor do corpo dele e sem saber o que fazer. O que é que ele estava dizendo? Que já sabia de sua traição? Ela simplesmente permaneceu com os braços mortos, sem se mexer, controlando sua vontade de tocar em . Ela não podia nem estar ali, era egoísmo demais.
'Por favor... Diz alguma coisa.' Ele pediu, mas não suportou. Ela impulsionou o corpo para trás, separando-se do rapaz. Não era ele quem devia falar tais frases, a única culpada era ela.
'Não podemos continuar... com isso.' Ela começou, sentindo as lágrimas escorrerem por sua face ruborizada, por medo e vergonha da situação. 'Não é justo com você...'
'Eu não me importo com justiça, , eu só... preciso entender.' deu um passo para frente, contrastando com o passo que deu para trás. Ela não queria que eles ficassem tão próximos.
'Eu errei com você, é isso. O que mais precisa saber? Você já pode me colocar para fora! Você pode acabar com a minha vida como eu fiz com a sua, , ande com isso, eu não agüento mais!' Ela se alterou, deixando toda a mágoa se voltar contra si própria. Ela se odiava.
'Você não pode pensar assim, vem...' Ele sussurrou e a puxou pelas mãos. não tinha mais forças para impedi-lo a nada. Apenas o seguiu.
Ela esperou que ele descontasse sua raiva, pensou que sairia com olho e pele roxos, talvez com dores de cabeça e nos músculos, mas não fez nada contra ela. Ele só deixou que o silêncio julgasse todos os fatos. Não era fácil pra ele se comportar tão bem diante de tal traição, mas ele a amava e ele sempre soube que esse dia ia chegar.
Só o que lhe veio à cabeça foi a idéia de que não podia deixar de lado. Ela era como o sol, como o ar, como o céu... Ele precisava dela.

Capítulo 09
abriu os olhos e ainda estava escuro. O relógio marcava cinco e alguma coisa da manhã. Olhou para o lado e viu dormindo, com uma expressão estranha, como se estivesse tendo sonhos ruins. Talvez ele só estivesse imaginando o que sua esposa fazia com seu melhor amigo. A menina suspirou e se sentou na ponta da cama, sentindo a dor voltar ao seu corpo, tão rápido quanto o sono que lhe tomou horas antes. Ela não sabia o que fazer, encarou o marido novamente e se sentiu culpada por tudo. Ela ainda não sabia muito bem o que estava acontecendo. Num dia, estava sentada em sua casa, chorando e tomando chá, sozinha, apenas com a foto de nas mãos. Ela pretendia passar mais três meses tentando se esquecer do acidente, e não esqueceria, porque tudo a fazia se lembrar do garoto que amava - e que não estava mais lá. Num dia estava assim, mas no outro, tinha uma aliança no dedo, uma casa imensa e seu amor de volta. Tudo estava tão perfeito quanto em seus sonhos, mas de repente, as paredes começaram a cair e os erros se tornaram maiores, multiplicados. Erros que ela nem tinha noção de ter cometido.
levou as mãos à cabeça, levando os cabelos para trás com os dedos. Sentiu o frio da madrugada tocar a pele de seu pescoço e então pensou em fugir. Sim, a covardia era sua melhor companheira.
Ela se levantou e caminhou em direção ao seu armário, tirando de lá uma mala. Começou a jogar as roupas de qualquer jeito dentro dela, tentando não fazer muito barulho. Ela só precisava de algumas calças, blusas e um casaco grosso. As peças íntimas cabiam com facilidade. Ela podia escapar para qualquer lugar, mochilar, pedir carona, ir para bem longe. Só precisava de um pouco de dinheiro e seus documentos. A garota ajeitou da melhor maneira que pôde seus objetos pessoais e então rumou até o último e precioso item: a caixinha.
Ela engoliu em seco, abriu a porta do armário mais uma vez e lá a encontrou. Ajoelhou-se, levando as mãos até o quadrado de madeira, o pegando e trazendo para perto de si. Suas coisas mais preciosas: todos os papéis, palavras e tinta que lhe fariam recordar de .
Ela sorriu por um instante, abrindo a caixa devagar. Foi então que notou um papel diferente, que não estava lá. Nunca o havia visto antes. Ela pegou para ler e não acreditou. realmente sabia de tudo.

Acredite, eu não tenho raiva e nem pena de você.
E então eu calculei o que você poderia fazer. Talvez esteja tentando fugir, tentando se esconder... mas, por favor, meu amor, desfaça suas malas, pois você ainda tem que consertar as coisas.
Ainda tem que ficar comigo. Você quis assim, criou tudo isso, não pode fugir porque não consegue voltar atrás.
Não pode porque eu te amo.
."

ficou surpresa. Olhou para o marido, ainda desacordado, depois para a mala que acabara de arrumar. Estaria errando ainda mais se partisse? Ou estaria apenas deixando as coisas correrem? Ela agora não tinha mais alternativa. Fechou os olhos com força, relutou, mas não podia fingir. Ela tinha que ficar e encarar as coisas de frente. Ela queria entender o que acontecia e entender a si mesma.
Suspirou e devolveu o papel para a caixinha. Depois de um tempo já tinha posto tudo no devido lugar, desistindo da mala. Ela objetivou esclarecer as coisas, precisava fazer isso.
Mais que tudo.

Capítulo 10
não disse nada no café da manhã, apenas depositou um beijo no rosto de antes de sair para o trabalho. Isso foi bastante reconfortante para ela, já que ao menos os mínimos contatos estavam sendo mantidos.
Durante um bom tempo, tudo parecia se estabilizar. Talvez não voltando totalmente ao normal; apenas perdendo o tom melancólico e obscuro.
Os dias se passaram e não saía de casa. Não sentia falta do sol, pois o via da janela de seu quarto todas as manhãs, e das janelas da sala de estar todas as tardes. O frio e o vento não deixaram saudade; ela os queria longe, por tempo indeterminado. A única coisa da qual sentia falta era dos bilhetes de .
Nada na cama, nada na mesa de jantar. Todos os papéis daquela casa pareciam ter evaporado.
Isso deixava um vazio imenso tomar conta de seu corpo. E se fosse mesmo o fim?
Num dia qualquer, a campainha anunciou uma visita.
'?'

Os dois estavam sentados no sofá, cada um envolvido com seus próprios pensamentos. tinha dito que eles precisavam conversar e arranjar um jeito de consertar o que fizeram. já pensava nisso antes, desde que tentou fugir e encontrou aquele bilhete de . Aquilo, de uma forma ou de outra, lhe deu coragem.
Mas ela não sabia o que dizer para .
'Falou com a depois daquilo?' perguntou, sabendo que não era o melhor jeito de se começar a conversa que o garoto queria ter. Mas era preciso.
'Ela não quer me ver,' respondeu, tristonho, 'ela não me recebe nem no trabalho.'
'É, eu a conheço e sei que é assim que ela se comportaria em qualquer situação parecida.'
'Por isso eu preciso da sua ajuda.' Ele olhou para , que estremeceu. Na verdade, ela estava com medo que ele pedisse algo que estava fora de seu alcance.
Mas ela tinha que consertar as coisas. Era só o que importava.
'Não sei o que fazer, estou com medo de errar de novo.' Ele desabafou. 'Eu quis demais, quis o que não podia ter, o que não me pertencia. Acho que o meu maior erro foi ter tido sonhos que eram impossíveis. Eu os criei e agora não sei lidar com as conseqüências.'
ouviu atentamente, sem acreditar. Estava claro demais agora. As falas de soavam como pistas. As primeiras pistas que ela precisava para descobrir como curar as dúvidas que tinha.
',' ele continuou, 'eu sentia que você não era pra mim, mas eu insisti em me enganar, dizia para mim mesmo que um dia você me amaria como amava o , ou talvez mais. Tolice. Eu estava cego, você tinha me cegado, mas não era sua culpa, você só não queria me deixar para baixo. Então quando começou a dizer aquelas coisas, quando você quis me afastar, eu recuei, mas continuei cego. Eu não queria perder você e, no final das contas, acabei perdendo muito mais.'
Os olhos de encontraram o chão. Era verdade, tudo o que tinha dito era verdade. Todos estavam cegos naquele lugar – o lugar ao qual ela não deveria pertencer.
Os pontos estavam sendo ligados e a menina percebeu seu grande erro: sonhar alto demais.
Ela quis tanto ter de volta, que não conseguia lidar com isso. Não tinha mais o controle dos sonhos, e eles estavam se tornando pesadelos reais.
suspirou.
'Precisa me ajudar...' Ele pediu.
fungou e piscou os olhos com força. Depois levantou a cabeça e encarou o garoto.
'Eu vou. Eu preciso consertar as coisas. Preciso consertar tudo... De uma vez.'

Capítulo 11
fechou os olhos e sentiu se mexer na cama. Toda vez que o sentia perto, que o calor dele lhe invadia a pele, a menina não conseguia segurar a vontade de tê-lo para si. Ela o queria, mas não o merecia.
Suspirou.
Os dias agora estavam passando rápido, mas dolorosamente silenciosos. Era como uma casa cheia de balões que nunca estouram. Talvez precisasse de uma agulha, mas ela não pensava em soluções, ela pensava em consertos. E tudo dependia de seus esforços. O problema era por onde começar.

imaginou a cabeça cheia da esposa incomodando-a, já que, mais uma vez, ela estava falando enquanto dormia. Ele abriu os olhos devagar e se mexeu um pouco, prestando atenção nela.
dizia coisas como inverno, carro, flores e . Ele pensou na culpa que ela estava carregando: na traição à melhor amiga, na traição que ele sofrera.
Será que ele não era um bom marido? Será que faltava algo em seu comportamento, em seu amor? Será que não era suficiente?
Naquela noite ele não conseguiu dormir.

'Eu não sei bem como aconteceu...' Alguém dizia, mas não conseguia reconhecer aquela voz, mesmo sendo tão familiar.
'Eu sinto muito...' Outra voz falou e um barulho invadiu o ambiente. Parecia com o arrastar de uma cadeira.
'Inventaram muitas coisas, disseram que ela se jogou à frente do carro.'
'Acho que ela não faria isso... Faria?'
'Faria?'

levantou de repente, olhando em volta. O quarto estava vazio e não estava mais lá. Ela passou a mão pelos cabelos, tentando aliviar a sensação de inconsciência. Que sonho estranho era aquele que tivera! Ela sentiu o chão macio enquanto caminhava na escuridão à procura daquelas vozes e não achou nada... Não viu nada.
Isso a fez pensar novamente naquele universo paralelo em que vivia e acordar sozinha não era um bom sinal.
Ela se preocupou. E se as coisas tivessem voltado ao normal? Por um lado o peso que estava em suas costas diminuiu, já que, como antes, ela e nunca teriam nada e ela não estaria brigada com a melhor amiga. Por outro lado, seu coração desabou. Se a normalidade fosse instalada, ela perderia mais uma vez.
Piscou os olhos com força e se levantou rapidamente, percorrendo o corredor e vasculhando cada cômodo. Ainda estava na enorme casa, com a mesma luz entrando pela janela e os mesmo móveis, portas, objetos.
'?' Chamou, mas ninguém lhe respondeu. '?' Insistiu e nada.
Apenas seu desespero emitia algum tipo de ruído. Ela resolveu respirar e se acalmar; de certo, tudo ainda estava como nos dias anteriores. De certo ela estaria em sua casa, de onde nunca deveria ter saído naquela tarde onde tudo começou.
Sua casa.
parou. Como não tinha pensado nisso antes!
Ela correu para o telefone e discou o número, esperando ansiosamente que alguém estivesse do outro lado da linha pra explicá-la o que estava acontecendo. Pra dizer que aquilo era tudo uma grande piadinha, um reality como naquele filme do Jim Carrey. A chamada foi sendo completada e após quatro toques, alguém atendeu.
'Alô?' Era , era a voz dela, a voz do sonho. arregalou os olhos, surpresa.
'!' Ela quase gritou.
'Alô?' Mas a amiga parecia não estar escutando. 'Alô?'
', sou eu, ... Está me ouvindo?' tentou mais um vez, falando bem alto.
E nada.
'Quem é?' Ela pôde ouvir ao fundo. Era a outra voz do sonho, a voz de .
'Não sei, parece mudo.' respondeu e desligou.
'Não... Não...' sentiu as mãos fraquejarem ao ouvir o telefone ser posto no gancho.
Ela discou mais uma vez e esperou pacientemente. atendeu, com a voz mais nervosa, talvez achando que alguém estava brincando com ela e desligou. Duas, três, quatro vezes.
Quando tentou uma quinta vez, já era tarde – não havia mais ninguém para atender.

Continua...

N/A: Hiii, depois de anos eu estou de volta o/ Tenho que dizer: faculdade toma muitoooo tempo, sério! Eu só tenho tempo pra fazer trabalhos agora... maquete, desenhos, projetos...ahhh! Muita saudade de escrever fic, viu? Mas vou aproveitar as férias pra deixar muitos capítulos prontos xD Espero que gostem desses ^^ eles dão pistas hohoho
x*
.Lilah.


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