Destinos Entrelaçados
Beta-Reader:Tamy
Capítulo 1.
Em pé, ao lado da cama,
Bourne contemplava o homem que não tinha consciência de sua presença. Os olhos fechados e a respiração calma indicavam um sono profundo.
A palidez da parte visível do rosto era impressionante; a outra estava recoberta de ataduras, que escondiam os danos causados pelo acidente.
- , querido... – Ela falou baixinho, tentando conter um soluço.
O som da porta do quarto do hospital fez com que ela voltasse. A enfermeira fez-lhe um sinal e ela a acompanhou pelos corredores em direção ao escritório central.
- O Dr. Giger vai recebê-la agora, sra. Bourne. Ele a informará sobre o estado do paciente.
- Obrigada. – agradeceu.
Tudo ocorrera com tal rapidez que ela ainda estava atônita. Viera a Manchester de férias com uns amigos e no Palace Hotel de Leeds recebera um telefonema de , sua melhor amiga em :
- , tenho más noticias e preciso lhe falar. Meu irmão acaba de sofrer um acidente em Londres e não podemos nos afastar de papai, que ainda está se recuperando de uma cirurgia. Posso contar com você?
A princípio, o choque deixara-a sem ação, mas levara poucos minutos para se recuperar: cancelara a reserva no hotel, deixara um bilhete na portaria para os amigos que haviam saído para jantar, e um curto vôo a levara até Londres, onde o homem que jamais esquecera se encontrava em um leito de hospital.
- Sente- se, Sra. Bourne. – A voz cordial do médico soou firme e gentil.
- Obrigada, doutor.
- O sr. sofreu um acidente muito sério e só poderemos dar um diagnóstico preciso dentro de setenta e duas horas. Tudo o que a medicina pode fazer está sendo aplicado aqui. Agora só nos resta esperar.
Após despedir-se do médico, voltou para o quarto. Ao olhar , as lembranças voltaram à sua mente. Ela recordou a sossegada rua onde passara a infância, os vastos jardins das grandes casas, separados uns dos outros apenas pelas sebes bem aparadas, e as brincadeiras infantis nas quais era sua parceira constante. A amizade dos pais propiciava um contato permanente, e fora num piquenique na fazenda dos avós da amiga que ela conhecera , e com ele, o mundo masculino, tão diferente mas encantador.
Tinha quatorze anos quando quase se afogara no lago e nunca se esquecera das braçadas rápidas de , da voz infundindo-lhe coragem, salvando-a da morte. A partir daí, ele se tornara o herói de seus sonhos, o príncipe de suas fantasias juvenis.
As famílias acompanhavam o namoro com complacência e alegria e, nas raras brigas que surgiam entre ambos, sempre intervinha, mediando, procurando encontrar uma solução apaziguadora. A querida e eterna amiga , que dispensara a
toda sua bondade e energia quando
, abandonando a vice-presidência de & Bourne e ao mesmo tempo cancelando o casamento sem nenhuma explicação, partira para outro lugar, despedaçando o coração de .
dirigiu-se para a janela e apoiou a testa na vidraça, o olhar fixo nas luzes da cidade que brilhavam ao longe. Ela relembrou cada fato que antecedera seu casamento com John Bourne, o filho do sócio de seu pai: o comportamento cordial, às vezes quase terno, a falta de atritos, o sexo disciplinado, o tédio... Mas a ambição o levara a uma vida estressante... E à morte prematura aos trinta e três anos.
O som da campainha do telefone despertou-a das divagações:
- Alô?
- ?
- , é você?
- Como está ? – A ansiedade na voz da amiga era evidente.
- Conversei com o médico que está cuidando dele e dentro de três dias teremos uma posição mais clara a respeito. E seu pai?
- Está se recuperando. Pergunta a todo o momento por , e já não sabemos mais o que fazer para explicar a ausência dele. Está tudo tão complicado...
As duas amigas conversaram por mais alguns minutos e só se tranqüilizou quando prometeu telefonar para ela no dia seguinte. Ao desligar o telefone, ficou pensando em como os dois irmãos eram diferentes um do outro.
Ela sempre fora a menina de bom senso, prática e lúcida, enquanto ele era o aventureiro, o sonhador, o audacioso. Mas tinham um ponto em comum: o amor às pessoas, a sensibilidade, a beleza física. Quando fora obrigada a assumir a presidência da
& Bourne, escolhera como conselheira e aliada na dura batalha de se fazer respeitar nos meios comerciais em que a empresa atuava. E, com o tempo, a dedicação e a seriedade de ambas começaram a render frutos: o respeito dos associados, fornecedores e clientes. Mas, apesar de seu êxito, não gostava do trabalho executivo. Por isso sentira-se aliviada ao encontrar a pessoa perfeita para assumir o posto que tão bem soubera administrar, mas que nada tinha a ver com a meta de vida que estabelecera para si. Agora, na sua primeira viagem de férias após a morte do marido, estava ali, em um quarto de hospital... Ao lado de !
O dia havia amanhecido. tomara um banho, descera até o restaurante para tomar café e já estava de volta ao lado de . A luz que entrava pelas persianas proporcionava ao quarto uma penumbra fresca e reconfortante. Aproximando-se da cama, ela puxou uma cadeira e sentou-se, fitando-o longamente, como se quisesse despertá-lo, trazê-lo novamente à vida. Acariciou-lhe os cabelos claros, quase loiros, a face, tocando-lhe a boca, desenhando lhe o contorno dos lábios, parando no queixo proeminente.
Os olhos de se abriram devagar e se fixaram em .
- ... – A ternura transparecia na voz trêmula de emoção. – Como está se sentindo?
- É você, , minha querida?
Sem poder se controlar, ela se desfez em lágrimas. Era exatamente desse modo que ele costumava tratá-la. Então fora reconhecida, apesar de haver se passado tanto tempo.
- Sim, querido, sou eu.
A voz de perdeu-se no quarto, pois o sono voltara a lhe roubar o homem que amava, levando-o para lugares mágicos onde, talvez, estivesse agora nas nuvens, sentindo o frio do vento, o sorriso desafiador brincando nos lábios sensuais.
- Durma, querido, e reponha suas energias. Ficarei ao seu lado até que se reestabeleça.
passou o dia ali, ao lado de , os pensamentos e as emoções tomando conta de seu coração. A noite chegou e o sono, junto com um tênue sentimento de solidão, embalou-a.
A manhã já ia adiantando quando despertou. A consciência de que estava em um hospital e de que corria sério risco de morte atingiu-a de imediato. Levantou-se e em segundos estava sob a forte ducha que lhe fustigava o corpo, levando com a água que escorria para o ralo os últimos vestígios de sono que a embalara.
As recordações de viagem que fizeram a à Manchester transportaram-na a... George.
- Meu Deus, ele deve estar furioso! – Exclamou em voz alta.
Trocou-se rapidamente e dirigiu-se à mesinha de telefone. Como pudera esquecer-se de George, ela se perguntava.
O namoro havia começado em , e então ambos tinham decidido viajar juntos, o que lhes daria uma chance de se reconhecer melhor.
Quando George atendeu, percebeu que ele não estava nem um pouco feliz com o bilhete lacônico que deixara para ele dois dias atrás...
- Onde você está, que emergência é essa a que você se referiu no bilhete que me deixou? Você voltou para ?
- Estou em Londres. Um amigo sofreu um acidente de carro e a irmã, que mora em , pediu-me que viesse pra cá.
George respirou fundo e perguntou:
- Qual a sua verdadeira ligação com esse homem, ?
Foi a vez de suspirar e responder:
- Não sei dizer, George...
Ela sabia que aquela resposta poria um fim a qualquer tipo de relacionamento que quisesse ter com George. Mas, naquele momento, só conseguia pensar em ...
Capítulo 2.
Ao abrir os olhos, sentiu-se terrivelmente debilitado. Tentou se mexer, mas uma dor intensa percorreu seu corpo. O que acontecera com ele?
As recordações começaram a chegar, uma a uma, formando o painel que o levou à compreensão de onde estava e porquê.
O telefonema de , avisando da operação a que o pai seria submetido, tinha-o colocado na estrada em direção ao aeroporto. Havia se despedido dos amigos que moravam perto de sua casa e arrumara as malas precipitadamente.
A pista estava escorregadia e perigosa. A neve tinha derretido e se solidificado, depois formado uma crosta lisa e dura, onde o carro derrapara logo após a curva, indo de encontro a um enorme pinheiro coberto de neve.
Do choque não conseguia se lembrar; apenas do barulho insuportável dos ferros rangendo e do vidro estilhaçado.
Estava num hospital, claro, e agora tinha consciência da sorte que o destino lhe reservara: era um verdadeiro milagre continuar vivo depois daquele horrível acidente.
Levou uma mão ao rosto, e a bandagem extensa deu-lhe a impressão de cobrir um grande ferimento. Algumas outras recordações esparsas vieram-lhe à mente, assim como a lembrança súbita de em meio a febre e ao delírio, mas tão real e linda como se estivesse mesmo presente.
- Por onde andará você, minha flor? – Murmurou, antes de voltar ao estado de inconsciência.
Quando voltou ao quarto, já havia adormecido. Ela tomou o lugar de costume à cabeceira, com um livro que pegara na biblioteca do hospital. As horas passaram rápido e ela não percebeu que, em dado momento, estava sendo observada.
voltara mais uma vez à consciência e agora tinha certeza, não era um sonho: estava mesmo sentada ali; vinda não se sabia de onde, mas real, palpável. A luz suave do abajur incidia sobre o livro em suas mãos e o reflexo se espalhava pelo rosto concentrado na leitura, belo, sério e tão próximo.
Tanto tempo havia se passado, ele pensou, mas continuava a mulher mais linda que um homem poderia desejar. Uma onda de emoção despertou-lhe uma súbita vontade de tocá-la,beijar os lábios rosados que tão bem conhecia, mas mal tinha forças para conservar os olhos abertos. Mesmo que pudesse levantar-se para acariciá-la, tinha certeza de que ela o rejeitaria. E como poderia reagir, depois do que ele fizera, abandonando-a às vésperas do casamento sem dar nenhuma explicação? Mesmo assim, era maravilhoso poder vê-la tão perto: um presente inesperado que jamais lhe ocorrera sequer desejar. E já fazia tantos anos...
A conversa áspera com John Bourne e o levara a arrumar as malas e tomar o primeiro avião de para Londres, sem pensar duas vezes, e seguir seu caminho,o de músico.
Morara em Londres a maior parte do tempo e nas raras vezes que voltara para para visitar a família, evitara aproximar-se de , embora no íntimo sentisse um irresistível desejo de vê-la, e uma dor intensa por tê-la perdido. Sim, fora quase insuportável...
Mas agora, por mais incrível que pudesse parecer, ela estava ali, à cabeceira de sua cama. O olhar de percorreu os traços delicados do rosto que tanto amava, os cabelos macios que sabia serem sedosos e perfumados. E aquela pele perfeita, onde anos não haviam colocado ainda a marca da existência, a curva delicada do pescoço, os ombros redondos e macios de tocar... Como era bela! Jamais lhe parecera tão desejável quanto naquele momento em que, ignorando a observação a que era submetida, expunha toda a beleza de seu ser.
A entrada da enfermeira fez com que se afastasse da cama, indo sentar-se próximo a janela, sem desconfiar que estava consciente havia bastante tempo.
- Como está se sentindo, Sr. ? – A enfermeira indagou contente por vê-lo desperto.
- Dolorido. – Ele admitiu. – Quando cheguei aqui?
assustou-se com a resposta dele. Céus! Como não percebera que ele estava acordado?
- Há três dias. O senhor sofreu um acidente e teve algumas lesões. – A enfermeira falou, tentando parecer o mais despreocupada possível.
- E meu rosto? Ficará marcado?
- O senhor está em um hospital que tem todos os recursos. Uma pequena plástica o colocará em forma, o Dr. Giger lhe explicará melhor.
- Quando poderei vê-lo?
- Amanhã, na sua costumeira visita matinal.
- E aquela senhora... Há muito tempo está por aqui?
- Desde o dia seguinte à sua entrada, e tem sido de uma dedicação admirável. Agora, por favor, deixe-me fazer-lhe os exames de controle.
O termômetro foi introduzido na boca de e ele sentiu o braço no aparelho de medir a pressão. Em poucos instantes a enfermeira anotou os resultados na ficha, prendeu a prancheta ao pé da cama e se despediu:
- Passar bem, Sr. . Até logo, Sra. Bourne.
O silêncio tenso que se seguiu foi cortado apenas pela respiração difícil de . O coração de batia descompassado.
- Então é verdade que você está aqui. – Ele falou, pronunciando devagar as palavras. – Custou-me crer que não era delírio. – E a viu aproximar-se como num sonho: o corpo perfeito, as longas pernas, o rosto belo e um tanto pálido.
Sentando-se à cabeceira. perguntou, com ternura:
- Como vai, ?
- Agradecido por estar vivo. O acidente foi terrível. – Ela assentiu com um gesto de cabeça. – E você, o que faz aqui?
- ... – fez uma pequena pausa e prosseguiu. - Eu estava em Leeds e ela me pediu que viesse vê-lo.
- E meu pai? – indagou, ansioso.
- Está se reestabelecendo.
- Ele sabe a meu respeito?
sacudiu a cabeça em negativa e os longos cabelos acompanharam o movimento. O gesto familiar encheu de uma dolorosa emoção. Ela não mudara, apenas se tornara mais bela e desejável.
- Eles lhe contaram?
- Não. Acharam melhor não contar nada...
- Boa tática... – comentou, com um suspiro.
- Seu cunhado, David, vem pra cá; aliás, já deve estar chegando. Resolveu alguns negócios pendentes e se pôs a caminho assim que pôde.
- Ótimo, vai ser bom revê-lo – Então comentou pensativo: - Abusei da pista escorregadia e em vez de ajudar acabei complicando mais a vida de todo mundo. Fui um grande tolo, sabe?
não discordou. Sentia-se penalizada pela situação em que se encontrava e faria qualquer coisa para ajudá-lo, menos retirar-lhe dos ombros a responsabilidade que ele na verdade tinha. Por isso, apenas comentou num tom casual.
- Bem, você arrisca sua vida o tempo todo nas pistas de corrida. As revistas comentam sempre de você, ‘O músico radical’. Você virou um homem famoso, , e um tanto audacioso também.
Ele a olhou longamente. Do jeito que ela falava, até parecia que se preocupava com ele. Mas era ridículo imaginar isso, disse para si mesmo. Como podia sentir-se assim com relação a ele? Sem dúvida o odiava pelo que ele lhe havia causado com aquela atitude inexplicável, ao abandoná-la pouco antes do casamento. Suspirou, achando tudo muito confuso. Eram acontecimentos demais para tão poucos dias...
- Você quer alguma coisa? Um suco, talvez? – perguntou, para quebrar o clima tenso.
- Água, se for possível.
Ela alcançou a jarra sobre a mesinha-de-cabeceira e serviu um copo; aproximou-o da boca de e deu-lhe de beber, enquanto procurava controlar as emoções que aquele contato lhe despertava. Com as mãos trêmulas, esperou que ele acabasse de tomar o líquido e a seguir afastou-se em direção a janela.
- Acho que vou tomar uma xícara de café. – Disse com voz baixa, evitando encará-lo. – Precisa de mais alguma coisa?
- De você, . Mais do que nunca, preciso de você.
Ela engoliu em seco e exibiu um sorriso trêmulo. Em seguida, reprimindo um soluço, saiu e fechou a porta atrás de si.
As palavras de ainda ecoavam em seus ouvidos. Ele dissera que precisava dela! Ah como queria acreditar!Mas não se encontrava em seu estado normal de consciência...
Tomou a terceira xícara de café e já estava pronta para voltar ao quarto de quando alguém lhe tocou o ombro. Virando-se, reconheceu David, com o costumeiro sorriso gentil, as maneiras agradáveis e educadas de sempre e um ar um tanto cansado.
- Como vai, boneca?
- Oh, David, que bom que você chegou! Já viu ?
- Acabei de sair do quarto dele. Tomou a sopa e fez piadas com a enfermeira. Pensei que iria encontrá-lo num estado mais grave.
- O pior já passou. Sente-se, David.
- O que o médico disse?
- Parece que agora está fora de perigo, mas houve momentos em que pensei que fôssemos perdê-lo. – A voz de tremeu um pouco ao pronunciar aquelas palavras.
- sempre foi daquele jeito. Não seria uma simples batida de carro que derrubaria o herói das ruas, não é mesmo?
Ela sorriu encantada. A presença de David com sua bondade e compreensão sempre havia sido grande ajuda nos momentos de tristeza. E depois que ele se casara com , podia vê-lo com mais freqüência. Tinha, em ambos, dois grandes amigos.
- Agora tudo será mais fácil. – comentou, aliviada.
Ele acenou compreensivo:
- Vamos vê-lo?
- Sim, claro.
De mãos dadas, como faziam há tantos anos, desde o inicio da amizade, caminharam em direção ao quarto de .
- Sejam bem-vindos – a voz de soou na penumbra. – Sentem-se e acomodem-se, por favor. Temos muito a conversar.
Então os três falaram de lembranças divertidas, dos passeios que faziam juntos quando adolescentes, dos projetos e sonhos, tendo sempre cuidado de manter o assunto do casamento de e fora da conversa. A tarde transcorreu agradável, e quando finalmente tornou a adormecer, David e saíram silenciosamente para o jardim de inverno, reconfortados e confiantes na recuperação de , juntos corriam como duas crianças...
Capítulo 3.
- Diga-me, o que preocupa agora, ? – David fitou-a.
Sentados num banco de madeira rústico e confortável, no jardim de inverno do hospital, os dois amigos sentiam-se muito bem na companhia um do outro e a conversa tinha um tom de confidência.
- Você sabe, David, que nunca esqueci , nem mesmo quando me casei com John. Agora, revê-lo nessas circunstâncias me trouxe de volta todas as velhas emoções, e preciso reagir, meu amigo. Sofri demais por ele e não tenho intenção de alimentar ilusões que com toda a certeza irão me magoar mais uma vez.
- Compreendo e lhe dou razão, mas a experiência tem demonstrado que lutar contra nossos sentimentos na maioria das vezes é inútil.
- Mas eu tenho alternativa?
- Parece-me que não.
- Gostaria de ser mais forte, mas estou com medo...
- De ficar perto dele?
- Sim.
- E o que pensa fazer?
- Ir embora, assim que ele estiver fora de perigo.
- E de que vai adiantar ficar longe dele?
Os olhos de encheram-se de lágrimas e ela encostou a cabeça no ombro de David, que compreendeu e respeitou em silêncio a dor da amiga. Conhecia-a bem para saber que ela reagiria por si mesma. Era uma mulher de valor, ele pensou. Qualquer homem poderia ser feliz ao lado de .
- Vou procurar o dr. Giger. Ele me dará um panorama mais exato da situação de , e assim poderei tomar minhas decisões de maneira mais acertada – ela afirmou, depois de um longo silêncio.
- Espero você no quarto de , está bem?
- Certo, David. Até já.
Separaram-se numa bifurcação do longo corredor, com um aceno discreto e cheio de compreensão.
Vinte minutos mais tarde, entrava no quarto com uma idéia já formada na mente. O dr. Giger isentara-a da responsabilidade que assumira, já que David estava presente e viera para ficar. O mais importante da conversa fora, entretanto, a afirmação categórica do médico sobre o estado de .
- O pior já passou, senhora. Salvo imprevistos, a recuperação agora é apenas uma questão de tempo.
As palavras deixaram aliviada. A enfermeira estava de saída, levando uma bandeja com restos de suco de laranja e torradas.
- Seja bem-vinda – a saudou, num tom de voz um pouco mais forte.
- Pelo que vejo, o paciente está sendo alimentando com bastante freqüência – ela comentou, com um sorriso – Como se sente, ?
- Melhor. Eu e David estávamos falando sobre os velhos tempos, matando a saudade. Acomode-se ai no sofá, ou na cadeira, se preferir.
A conversa fluiu naturalmente entre os três, até que percebeu que parecia cansado.
- Acho que está na hora de você dormir – disse ela, levantando-se. Lançou um breve olhar para David – Eu... já que David está aqui para lhe fazer companhia, vou para o hotel..
- Mas você vai voltar amanhã, não?- perguntou , ansioso.
Ela levantou-se, tomou a bolsa e caminhou para a porta. A súplica contida na voz dele a atingira duramente, muito mais agora que já tinha decidido partir. A conversa com o dr. Giger havia lha dado o impulso de que precisava para se afastar em definitivo do homem que amava – mas que não podia compreender e, por isso mesmo, perdoar. Com um suspiro, voltou-se e respondeu, com expressão triste:
- Não posso lhe prometer nada, . De qualquer forma,boa sorte. – Sua voz quase falhou ao preferir as ultimas palavras e saiu apressada, sem ousar encara-lo mais uma vez.
- Ela está muita abalada – David comentou, num tom casual.
- Eu compreendo – murmurou, deixando-se levar mais uma vez pelo sono reparador.
Quando acordou no dia seguinte, sentia-se descansado e lúcido . O corpo ainda estava dolorido, mas a desconfortável sensação de semiconsciência desaparecera por completo.
- Bom dia, dorminhoco – David sorriu, sentando perto da cama, com uma xícara de café nas mãos. – Hum...meus músculos estão reclamando da cama supostamente confortável que há aqui.
- Você deveria ter dormido no hotel, mas pelo visto continua teimoso como sempre.
- Não me sentiria melhor, acredite. Pelo menos aqui, olhando você o tempo todo, sei que não vai fazer nenhuma arte. – A ironia bem-humorada era uma característica de David.
- O que você esperava? Que eu saísse com umas das enfermeiras para uma boate ou algo assim? – fingia seriedade.
- Sei lá, pode-se esperar qualquer coisa do imprevisível sr. .
- Deixe de história e veja se me consegue um café.
- Vou ver se acho uma enfermeira – disse David, levantando-se. – Assim aproveito para esticar um pouco as pernas.
David deixou o quarto e minutos depois retornou, com outra xícara de café. Enquanto bebia, conversaram sobre diversos assuntos, a começar pela intervenção cirúrgica que o pai sofrera, o filho que David e esperavam para o verão, os negócios e a situação política.
David estava descrevendo um caso que defendera nos tribunais quando foi interrompido bruscamente:
- Você acha que ela voltará? – Havia ansiedade na voz de .
- É difícil dizer, e você não poderá se queixar, caso não venha, não é verdade?
- Sim, sei que a magoei demais. – Ele suspirou – Mas acredite, David, eu tinha razão de sobra para agir daquela maneira.
- Ouça- me, : há dez anos você não deu explicações a ninguém quando decidiu partir. Agora a única pessoa a quem interessa o fato é , e se você tiver algo a explicar para ela, faça-o agora.
- Esse é o problema. A situação permanece e eu continuo sem poder dar explicações. Mas acredite, eu a amo, sempre a amei.
Um sorriso incrédulo surgiu no rosto cansado de David:
- Você desaparece dois dias antes do casamento, sem nenhuma explicação, e chama isso de amor?
- Bem, de certa forma ela se recuperou depressa, pois três meses depois estava casada com John.
- E que você esperava que ela fizesse? Que ficasse sentada na varanda, esperando eternamente pelo homem que quase a destruiu? E, se quer saber, , seu próprio pai e foram os primeiros a incentivar o casamento com John. De certa forma, alguém teria de compensa-la pelo que você fez.
- Certo, meu caro. Admiro sua lealdade a e sei o quanto pareceu condenável a todos minha atitude naquela época, mas preste atenção, meu amigo; as coisas nem sempre são o que aparentam. Se eu pudesse, teria voltado e mudado a situação...Mas isso não foi possível.
Com um gesto de cabeça, David hesitou. Não fazia sentido discutir com um homem que quase morrera e acabava de voltar a consciência. E dez anos haviam se passado...
- Bem, o fato é que não podemos voltar no tempo, não é verdade?
- Não – concordou. – Infelizmente, não.
Ele mergulhou em seus pensamentos e o silêncio tomou conta do quarto por um longo tempo até que, erguendo a cabeça, ele comentou:
- Você está quase caindo dessa cadeira. Trate de ir dormir numa cama decente, amigo, que também vou descansar.
- Tudo bem – concordou David no mesmo instante. – Está se sentindo bem?
- Dentro do possível, sim. Mas não se preocupe, tenho as enfermeiras e dr. Giger para cuidar de mim e mantê-lo avisado sobre o meu estado.
- Bem, um bom sono me colocará novo em poucas horas. Além do mais, tenho de ligar para .
- Mande-lhe um beijo e diga-lhe para não se preocupar comigo.
- Certo. – David já estava na porta, vestindo o casaco, quando a voz de soou novamente:
- E, por favor, diga a que eu ficaria muito feliz se a visse ao menos mais uma vez.
- Darei seu recado. Até mais, .
- Até, seu rabugento.
Quando a porta se fechou atrás de David, retomou os pensamentos sombrios que há tanto tempo o atormentavam. Lembrava-se do que ocorrera dez anos atrás como se estivesse acontecido na véspera; embora o verão estivesse apenas começando, o calor já era insuportável. Recordava-se da sensação de bem estar que o ar condicionado lhe proporcionava enquanto escrevia suas canções em seu quarto.
sabia que a vida de executivo não era pra ele, e em pouco tempo assumira o posto de vice-presidente da & Bourne, mas já dominava as funções como um veterano, apesar de não se encontrar muito. Na verdade, devia o importante posto que assumira ao fato de seu próximo casamento com , mas sabia que tinha capacidade para o cargo e por isso se esforçava o dobro para merecer a confiança de , seu futuro sogro. Estava feliz e confiante, os negócios corriam bem e fora elogiado na ultima reunião pelos colegas e pelo próprio , que dissera enfático:
- Sempre tive bom palpite na escolha dos executivos. Conheço este rapaz desde menino e há muito vinha pensando em traze-lo para nós...
As palavras ainda ecoavam em seus ouvidos enquanto ditava uma carta à secretária naquela manhã quente de junho. Então, o telefone o interrompera: era , convocando-o com urgência.
Ao entrar no escritório luxuosamente mobiliado, notara que algo estranho acontecia: John Bourne, filho do sócio de , que ocupava na firma o modesto mas influente posto de secretário particular do velho Bynton, encontrava-se presente e parecia muito à vontade na poltrona em frente à imensa mesa do chefe. De qualquer maneira, concluíra, devia se tratar de algum problema relativo às vendas na América, e ele estava pronto para responder a qualquer questão sobre o assunto, num piscar de olhos.
- Do que se trata?
Vinte e cinco minutos mais tarde, saíra do escritório de terrivelmente chocado com a atitude daqueles dois homens. E, para poupar de um profundo desgosto, só lhe restava afastar-se de sua vida, embora isso fosse magoá-la. Ela sempre tivera adoração pelo pai, e por isso não queria denegrir a imagem que ela tinha do pai dela. Não por consideração a ele, que não merecia, mas para que ela não sofresse o que certamente seria a maior decepção de sua vida.
O pai que idolatrava tivera uma atitude desprezível. sabia disso, mas jamais poderia revelar, nem a nem a ninguém. Ao contrário, teria de abandona-la, sabendo que ela jamais o perdoaria.
Com um telefonema lacônico ele pôs fim ao sonhado casamento, dizendo que ‘mudara de idéia’, e em seguida partiu para Londres, depois de recusar as fantásticas vantagens que lhe oferecera como prêmio de consolação.
Em Londres, conheceu os outros rapazes, e assim, conseguira realizar seu sonho, e montara uma banda com eles.
- Minha linda... – ele murmurou, antes que a fraqueza que o dominava o levasse de volta ao sono.
David não foi de imediato para o hotel onde se registrara. Sentia urgência em conversar com sobre o pedido de e sabia que era bem provável que ela já estivesse com as malas prontas para partir. Não precisou subir ao apartamento no décimo segundo andar do hotel onde ela estava hospedada, pois na recepção o informaram de que ela se encontrava no restaurante. E para lá ele se dirigiu.
levantou-se e beijou-o no rosto.
- Como vai ?
- Bem, passou uma noite tranqüila. Um pouco fraco, é verdade, mais lúcido e determinado a sair do hospital o mais breve possível.
- Fico feliz em saber disso. Você já tomou o café da manhã?
- Não, e estou faminto – ele respondeu, acomodando-se.
Conversaram por alguns minutos e, no momento propício, David indagou:
- Você vai me substituir enquanto eu descanso?
- Não vejo motivo. está bem, e com você aqui, nada mais tenho a fazer. Voltarei hoje mesmo para a minha casa.
- vai ficar desapontado. Ele esperava vê-la mais uma vez antes que partisse. Aliás, me pediu que lhe transmitisse este recado.
- Por que ele quer me ver, David? – indagou ela, confusa e angustiada.
- Eu não sei. Ele apenas me pediu para lhe dar o recado.
recostou-se na cadeira e suspirou longamente.
- Eu não sei o que fazer, David..Eu...sinto tanto medo...
- Você ainda o ama, não é?
- Como uma idiota – ela admitiu, amarga. – Apesar de não lhe fazer nenhum sentido, eu amo ele.
David tomou a mão dela entre as suas e disse, com ternura:
- ... e eu fomos testemunhas do que você sofreu.. e também tivemos oportunidade de constatar que você não parecia feliz durante o período do seu casamento.
- Ora, David, o que se podia esperar de uma união de conveniência? John sabia que eu continuava amando e,de minha parte, nunca tive ilusões sobre os sentimentos dele. Nosso relacionamento era cordial, sem grandes altos e baixos...
- Assim como... Um limbo?
- Oh, David! – exclamou ela, choramingando.
- , nesses três anos após a morte de John, você se apaixonou por alguém?
- Bem... eu conheci homens bastante interessantes...
- Interessantes? – ele repetiu, implacável.
- Sim, o que mais se poderia esperar?
- Amor, paixão.
- Nunca – falou, arrasada. – Mas...
- – ele a interrompeu – o que estou querendo que entenda é que você talvez não tenha outra chance como esta. Aceite um conselho de amigo, não a perca. A vida inteira seria curta demais para se arrepender. Agora vamos tomar este café, antes que esfrie.
Capítulo 4.
Ao abrir a porta do quarto do hospital, deparou-se com uma infinidade de flores espalhadas pelo aposento.
- Isso que dá ser famoso –comentou, tentando parecer alegre e despreocupada.
Abaixando o jornal que lia, sorriu feliz ao vê-la:
-Estou me sentindo numa floricultura. Venha sentar-se aqui . – Apontou para a cadeira ao lado da cama.
- Como está se sentindo hoje? – ela indagou, aproximando-se.
- Muito melhor que ontem. Aliás, o doutor parece bastante satisfeito com minha recuperação. Não tive febre o dia todo. A não ser por meu joelho, no geral sinto-me bastante bem.
- O que aconteceu com seu joelho?
A expressão de anuviou-se.
- Foi seriamente atingido no acidente e terei de me submeter a fisioterapia durante algum tempo. Mesmo assim, é possível que tenha alguma dificuldade para caminhar novamente.
- Oh...
- Ouça, , o que aconteceu entre nós, foi terrível, eu sei, mas nada mais podemos fazer. Tudo aquilo representa o passado e agora estamos no presente. Magoei você, sei que magoei, e só posso dizer que sinto muito...
- Sinto muito? – ela repetiu indignada. – Então você acha que estas duas simples palavras conseguirão apagar a desilusão que me causou, a humilhação e a dor?
- São inadequadas e parecem fracas, mas o que posso dizer?
- Escute, , não estou esperando desculpas. Compreendo que um homem possa mudar de idéia ao descobrir que não ama a mulher que pediu em casamento, mesmo que a tenha conhecido por toda a vida. Mas ao menos agora você percebe o peso da sua atitude?Ou talvez seja necessário que eu lhe conte dos quinhentos telegramas enviados aos convidados na última hora, com as palavras humilhantes: “A cerimônia foi adiada.Desculpe-nos pelo transtorno...”? Tente imaginar com que estado de espírito eu tratei de devolver todos aqueles pacotes de presentes! E os telefonemas? E as explicações impossíveis? Estou falando apenas dos aborrecimentos e humilhações exteriores, para que você tenha uma idéia do que provocou. Agora, quanto ao que se passou dentro de mim, não quero nem comentar...
- Agi daquela forma porque seria muito pior para você se eu ficasse.
- Oh, como você é bondoso! – ela retrucou com sarcasmo.
- Não tive outra escolha.
- Sei... Sabe, , às vezes eu tento racionalizar e sentir-me grata por você ter me mostrado a tempo o homem que realmente era.
- Então, por que está tão zangada?
- Por nada, apenas pela sua falta de tato, delicadeza e consideração. Quando descobriu que seu sentimento por mim não era suficiente para se casar comigo, poderia ao menos ter pensando nas outras pessoas que estavam envolvidas. Seus pais, minha família, nossos amigos, todos sofreram com sua atitude brutal de me deixar literalmente às vésperas do casamento, sem uma única explicação.
- Não tive escolha – repetiu, num tom seco.
- Suponho que não, a falta de amor explica tudo.
- Eu a amava...
- Então por que me deixou, ?
- Nem agora posso dizer, .
- Como, não pode? Nem depois de todos esses anos? – ela indagou, em tom de desafio.
- , a única coisa que posso lhe dizer é que você sempre foi a melhor coisa que tive na vida. Mesmo longe, as recordações de nossos dias felizes me deram forças para continuar vivendo.
- Oh, meu Deus ... – cedeu por fim, às lagrimas, escondendo o rosto entre as mãos.
- Não chore, minha flor, tente esquecer o passado. Não podemos fazer nada a respeito do que passou, mas podemos tentar construir algo a partir de agora.
- Não, . Não acredito em você.
- É natural. – suspirou e fez uma breve pausa antes de acrescentar: - Gostaria de lhe pedir um favor.
- Sim?
- Sei que David terá de voltar pra casa por esses dias, então queria que você ficasse aqui.
- Pra quê? – o fitou, amargurada.
- Preciso de você aqui.
ia protestar, mas desistiu. Não tinha forças para argumentar contra algo que, no fundo, era o que mais desejava.
- Eu não sei... preciso pensar – foi tudo que conseguiu dizer.
passou boa parte da noite lutando com os próprios pensamentos. Por mais que procurasse, não encontrava um motivo razoável para ficar. Por outro lado, seu coração suplicava para que desse ouvidos a voz dos sentimentos e assim, sem conseguir dormir, rolou na cama hora pós hora. O dia já começava a nascer quando a exaustão a venceu.
O relógio de cabeceira marcava dez horas quando finalmente despertou, indisposta e com dor de cabeça. Decidiu que um banho quente, um analgésico e um copo de suco de laranja, seguidos de uma boa xícara de café, a colocariam em condições para enfrentar o dia.
estava nervosa ao abrir a porta do quarto de e verificou, surpresa, que ele não se encontrava no leito e sim numa cadeira perto da janela. Vestia um roupão azul sobre o pijama e os cabelos brilhavam a luminosidade do sol. notou comovida que precisavam de um corte.
As defesas que construíra em torno do coração desmancharam-se como neve ao sol e um súbito impulso fez com que ela colocasse a mão no ombro forte de , que se virou com um largo sorriso.
- , que bom vê-la. – O prazer contido naquelas simples palavras a comoveram. – Julguei que esta hora você já se encontrasse a caminho de .
- Mas como pode ver, fiquei por aqui. E esta é uma boa novidade, não? – disse ela, apontando para a cadeira.
- Progressos... – Um sorriso radiante enfeitou o rosto de – O doutor me ajudou pessoalmente; aliás, disse-me que dentro de dois ou três dias serei transferido para uma clínica particular, onde começarei o tratamento de fisioterapia para este joelho.
- Ótimo, sinto-me feliz por você.
Os olhos claros e profundos de procuraram os de e ele indagou, ansioso:
- Então, você vai ficar?
- Todos nós temos direito de cometer uma asneira de vez em quando. – Ela se afastou, caminhou até o centro do quarto e tirou o casaco. – E David? Pensei que o encontraria aqui.
- Foi buscar o material que estava no meu carro por ocasião do acidente. Pedi a ele que passasse na delegacia e apanhasse alguns objetos, entre eles um manuscrito de uma musica que estou compondo. Terei tempo de sobra para me dedicar à banda enquanto em me recupero.
- Fico contente por você ter uma ocupação para ajudá-lo a transpor esse momento difícil. Mas conte-me, você se desligou totalmente do mundo dos negócios?
- Ainda tenho que alguns interesses espalhados por ai que me rendem um bom dinheiro e me colocam de vez em quando em contato com velhos amigos. Mas a minha maior paixão mesmo é a musica.
- Você possui um raro talento, .
- Não me diga que escuta as minhas músicas.
- Todas. Era uma maneira de ... – hesitou.
- De quê?
- Deixe pra lá. Não vamos complicar ainda mais a nossa situação, . Vamos esquecer esse assunto, certo?
- O que você me pede é impossível; não consigo esquecer um só instante daquela noite no lago, quando conheci pela primeira vez a felicidade.
- E naquela noite você já sabia que não iria se casar comigo. No entanto...
- Não fale assim, não é verdade – ele protestou
- Não acredito em você.
- Eu sei. – suspirou, desanimado. – E não há nada que eu possa fazer para mudar isto, não?
- Nada – ela declarou, num tom áspero e definitivo.
Na véspera de ir embora, David convidou para jantar. Depois de reforçar os agradecimentos pelo apoio que estava dando a , despediu-se dela na porta do hotel.
O telefone tocou quando já estava pronta para se deitar. Era sua mãe.
- Liguei para sua casa e lá me disseram que você estava em Londres e que sofreu um acidente. Como estão as coisas?
- Agora muito bem, mas a princípio o médico que cuida do teve sérias dúvidas quando às possibilidades de ele sobreviver ou não. O acidente foi muito sério, mãe.
- E pensar que o pobre do estão tão longe de casa e que o pai dele tem problemas com o coração... Ele sabe do pai?
- O acidente ocorreu quando se preparava para deixar Londres. avisou-o pelo telefone que o pai seria submetido a uma intervenção cirúrgica, e ele estava a caminho do aeroporto quando o carro derrapou numa curva. E você, mamãe? Tem notícias do pai dele?
- Falei com há pouco. Parece que ele está bastante forte; e a outra operação será na próxima terça-feira.
- Ótimo.
- Quanto tempo você pretende ficar ai, com ?
- O tempo que for necessário, mamãe.
- Ele tem sorte... – a velha senhora comentou. – O fato de você estar ai, poder correr em seu auxilio demonstra isso.
estava surpresa com a reação da mãe. Quando rompera o noivado daquela maneira, ninguém ficara tão furiosa quando ela. Durante todos os anos seguintes, evitara cuidadosamente tocar no nome do homem que magoara a sua filha de maneira tão imperdoável. E agora parecia concordar com a atitude de sem nenhum questionamento.
- Eu imaginava que você desaprovasse minha conduta, mamãe. O que aconteceu que a fez mudar de idéia quanto a ?
Depois de um breve silêncio; a voz de sua mãe soou cansada:
- O tempo, minha querida, é poderoso, capaz de mudar tudo. O que passou pertence ao passado. Fico contente por você estar enfrentando seus problemas com tanta maturidade, espero que seja feliz, minha filha.
- Quanto a isso, não posso dizer nada, mamãe, mas quero livrar meu coração das mágoas e rancores que me atormentam durante tantos anos.
- Toda essa história me parece agora tão distante... O fato é que me sinto contente por saber que vocês dois têm uma chance de chegar a um acordo. Seja qual for o resultado desse reencontro, será melhor do que a fria distância que mantiveram até agora. Bem, querida, dê lembranças minhas a e um grande beijo para você.
- Adeus, mamãe, e ... obrigada.
Na manhã seguinte, pediu o café no quarto e só sentiu disposição para sair por volta das duas horas da tarde. Decidiu dar um pequeno passeio pelo cidade antes de ir para o hospital.
Tinha acabado de entrar no quarto quando uma leve batida na porta precedeu a entrada de um simpático casal, que trazia flores e alguns pacotes. Eram ambos muito elegantes e vestiam-se com um bom gosto que denotava um nível social elevado.
- Estamos tentando falar com você há dias, mas apenas hoje nos deixaram visitá-lo – disse a mulher. – Como se sente, , querido?
Um largo sorriso estampou-se nos lábios de .
- Que bom vê-los aqui! Quando voltaram do Canadá?
- Há poucos dias, e então ficamos sabendo o que aconteceu – respondeu o homem, colocando os presentes no pé da cama e apertando a mão estendida que lhe oferecia.
- Estou bastante bem, como podem ver.
A mulher beijou-o no rosto e a seguir ambos se acomodaram nas cadeiras em torno de .
- Deixem-me apresentar-lhes – ele disse, num tom amável. – esses são Fletch e Anna Prestley. Os conheci quando me mudei para cá. é... – Hesitou por alguns segundos e sorriu. – É minha noiva.
- Sua noiva? – Anna repetiu, surpresa. – E desde quando, querido?
- Meus parabéns – disse Fletch, entusiasmado. – Mas onde você andava escondendo esta beleza durante todo o tempo?
- Ele está brincando – interveio , embaraçada. – Sou uma amiga de .
- Bem, eu estou tentando me tornar mais que amigo, mas até agora... – sorriu. – Como vocês podem ver... Mas me contem como foram as férias.
A conversa transcorreu agradável e o excelente humor de Fletch provocou por diversas vezes um riso claro e alegre em . Anna era inteligente e bastante culta. Pareceu simpatizar com , a ponto de fazer um convite para visitá-la.
- Gostaria que você conhecesse onde moramos, um lugar perfeito. Vá uma tarde dessas tomar um chá comigo, certo?
- Com o maior prazer – concordou, ao se despedir.
Ao ficar a sós com , fitou-o com ar de censura, porém, ele não lhe deu oportunidade de repreendê-lo, apressando-se a perguntar:
- O que achou dos meus amigos?
- Gostei muito deles. São simpáticos e agradáveis, e nem sei como podem conviver com um troglodita como você.
- , espere...
- Por hoje basta de para mim. Até amanhã, mocinho...
A porta fechada impediu que as últimas palavras chegassem aos ouvidos de , e então só restou a o eco de sua própria voz, que dizia, sincera:
- Eu te amo,meu amor.
Capítulo 5.
Alguns dias mais tarde, foi transferido para a clínica particular. A suíte que ocupava era espaçosa e não possuía nada que lembrasse um hospital. As amplas janelas proporcionavam uma vista espetacular dos vales e picos nevados, a saleta era decorada com extremo bom gosto, com quadros nas paredes e tapetes felpudos, e a lareira era acolhedora naquela clima frio da montanha. A sensação era de se estar num pequeno chalé, não numa clinica.
Nos primeiros dias, se queixava muito das sessões de fisioterapia, mas pouco a pouco foi se acostumando ao tratamento e não reclamava mais do rigor dos exercícios que lhe eram impostos.
Para seu imenso alívio, a segunda cirurgia de seu pai fora bem-sucedida, e o relacionamento com se estabilizava mais a cada dia, embora ele soubesse que qualquer tentativa de uma aproximação mais intima seria desastrosa, ao menos por enquanto.
Quando enfim o dr. Giger o dispensou das dolorosas sessões fisioterápicas, pensou em imediato em viajar a para visitar o pai. Mas o conselho final do médico prevaleceu e ele acabou por aceitar a oferta de Fletch, que pusera a sua disposição a casa que possuía nos Estados Unidos, perto do mar, onde o clima contribuiria para a recuperação. Estava ainda em observação e teria de voltar para casa dentro de vinte dias. Assim, a oferta do amigo veio em boa hora, e sem muito pensar, ambos partiram: ... e .
O vôo de Londres à Miami, não era tão longo e logo eles desembarcaram nos Estados Unidos, num dia cinzento e chuvoso que parecia acolhê-los de mau humor. O motorista dos Prestley os aguardava no aeroporto.
A esplêndida casa ficava em Glory, Miami, e a viagem transcorreu de maneira agradável, apesar do clima. não havia planejado continuar ao lado de depois de que ele recebesse alta, mas ele não tivera muita dificuldade para convencê-la. O fato era que estavam mantendo uma cordial amizade, não destituída de carinho e afeto. E não abordara mais o assunto do relacionamento deles.
- Este lugar é lindo – comentou, extasiada, assim que chegaram à Villa.
- Tem certeza de que não se aborrecerá por passar aqui algumas semanas? – ele perguntou, num tom suave.
- Bem, na verdade não sei. Nunca antes fui dama de companhia de um músico famoso.
- Sempre existe uma primeira vez pra tudo. Na verdade, estou bastante atrapalhado com uma composição que estou escrevendo.
- Por quê?
- Bem, eu não consigo terminá-la, e a música sempre acaba no final sendo a mesma coisa.
- Ora, não acredito que esteja tão ruim assim. Por que não me deixa ver?
- Se você quiser, não faço objeções, mas devo avisá-la de que acabará se aborrecendo com toda certeza.
- É um risco que me disponho a correr.
- Combinado, então.
Depois de rodar pela alameda coberta de cascalho e o luxuoso carro estacionar sob a proteção de um telhado que se estendia até a entrada de casa, o motorista abriu a porta e ambos se encaminharam para a varanda ampla e repleta de plantas.
- Você já esteve aqui antes? – indagou, lançando um olhar aprovador ao redor.
- Duas vezes, em companhia de Max.
O motorista afastou-se com as malas, em direção a uma outra porta e a principal se abriu, revelando duas mulheres simpáticas e sorridentes. Uma era a cozinheira e a outra a governanta.
- Que prazer em revê-lo, Sr. – uma delas comentou e estendeu a mão, com um largo sorriso.
- Como vai, Olivia? E você, Giovanna?
- Muito bem,obrigada.
- Esta é – ele apresentou com um aceno. – Ficaremos por duas ou três semanas.
- O Sr. Prestley nos avisou. Vamos entrar. Giovanna acabou de fazer café.
- É exatamente disso que precisamos. O dia está dos mais acolhedores. – Com um braço sobre os ombros de , ele a conduziu para a sala de estar, onde se acomodaram em frente à lareira acesa.
As cortinas descerradas deixavam entrever, através de uma ampla janela, o mar revolto pelo vento e o vôo solitário de uma gaivota.
- Em dias de sol a vista é maravilhosa – comentou.
- Pra mim está bem assim. Ás vezes gosto da melancolia dos dias de chuva. Aliás, só o fato de ter me afastado do hospital e da presença obsessiva das enfermeiras já muda muito o meu estado de espírito.
- Mas vou sentir saudade das sessões de fisioterapia. – ele brincou.
- Este comentário era inevitável, Sr. . – Ela sorriu. – Mas o que estou vendo à esquerda... Uma mesa de ping- pong?
- Fletch e Anna adoram. E você, ainda pratica?
- Sempre que possível.
- É uma pena que no estado em que me encontro, não possa lhe servir de companhia. Mas, quando Fletch e Anna chegarem, vocês poderão se divertir. – concluiu, um pouco triste.
fitou-o com carinho, compreendendo-lhe a frustação.
- Não fique aborrecido. Tenho certeza de que dentro de algum tempo voltaremos a nos preocupar com o maluco dos carros e o músico palhaço.
- Talvez... – ele murmurou sorrindo, com o olhar perdido.
Havia dias em que demonstrava um otimismo contagiante e outros em que caía em depressão, como naquela momento. “É preciso muita paciência.”, pensou, enquanto ele a olhava agradecido, sem acreditar nas palavras de incentivo, mas recebendo inteiramente o carinho nelas contido.
Giovanna entrou com o café e depois de servi-los saiu discretamente, deixando-os a sós.
Em apenas dois dias, a rotina já havia sido estabelecido. Pela manhã, se exercitava no jardim e na quadra, enquanto cuidava da correspondência. O almoço era servido no terraço e depois de uma conversa amena, ele se recolhia e trabalhava toda a tarde na composição. Nesses momentos, ela costumava sair para uma caminhada a beira-mar, ou pegava um dos carros da propriedade para um passeio. À noite, quando o tempo permitia, conversavam sobre as novidades do dia enquanto faziam um lanche leve na varanda dos fundos. Ou então, quando esfriava, sentavam-se em frente à lareira acesa e tomavam uma saborosa sopa, ouvindo o som mágico do crepitar do fogo e do vento frio que soprava do Sul.
Era agradável e convivência que vinham desenvolvendo, como um renascer da intimidade e da antiga admiração e camaradagem que nutriam um pelo outro. Quanto ao amor... não queria pensar assim.
Ela se mantinha constantemente em contato com a secretária e com Halley James, que a substituía na direção da e Bourne. As conversas com sobre finanças, política e o mundo dos negócios eram sempre estimulantes e muito informativas para , que o ouvia fascinada. Apesar de ter se afastado dos negócios e de agora ser considerado um esportista e um escritor, ele não perdia o senso acurado e a visão perspicaz do mundo financeiro.
Tudo corria muito bem entre ambos, mas... Era inevitável que todas as vezes que se separavam para dormir, cada um num quarto, sentissem uma espécie de frustração e tristeza. Afinal, estavam sozinhos, exceto pela discreta criadagem, numa romântica casa, e nada podiam fazer.
Por isso, a notícia de que Fletch e Anna passariam por lá e ficariam dois ou três dias na casa foi um alivio para . Além de apreciar a companhia de Anna, sabia que a presença do outro casal diminuiria, e muito, o clima normalmente tenso entre ela e .
Havia iates brancos, escunas elegantes, muitas velas e barcos leves ancorados na magnífica baía.
A noite começava a cair quando , e os Prestley entraram no bar de um luxuoso hotel para um coquetel antes do jantar. ficou fascinada com a visão das belas mulheres que desfilavam belo lugar, exibindo belos corpos e o ar de elegância um tanto displicente dos homens, acostumados aquele estilo de vida.
Depois dos drinques, decidiram passar uma hora no cassino enquanto aguardavam o jantar, e para lá se encaminharam, conversando. O movimento era surpreendente, os turistas tomavam conta dos espaços em torno das roletas, máquinas caça-níqueis e todo tipo de jogos.
caminhava ao lado de , com um braço sobre seus ombros, quando uma mulher belíssima se aproximou, sorrindo.
- Olá, – O sotaque americano era evidente na voz ligeiramente rouca.
- Como vai, Kendra? – ele retrucou.
- Você está bem? – O olhar de Kendra percorria o corpo de sem muita descrição.- Ouvi dizer que sofreu um acidente grave. Fico contente em ver que está com ótima aparência.
- Ainda estou em fase de recuperação. – Ele virou-se para – Kendra, está é a ... e... , está é Kendra Krull, minha ex... noiva.
precisou fazer um esforço enorme para parecer natural. Afinal, ela também era ex- noiva de ! Uma noiva que fora abandonada praticamente no altar. E Kendra? Que significado teria tido para ele... Ou ainda teria? Não acreditava que ele tivesse feito a mesma coisa duas vezes.
Por um segundo ocorreu-lhe a possibilidade de a ter abandonada por causa daquela mulher.
- Kendra é modelo – disse ele a , à guisa de explicação, antes de voltar-se para a jovem sofisticada e exuberante a sua frente.- E então, quais são as novidades?
- Estou de férias, descansando um pouco antes de iniciar um filme que fui convidada a fazer. Deixe-me apresentá-lo ao meu amigo... – Ela gesticulou na direção de um homem elegante que se aproximava. – George, este é .
- Prazer, George Karalexis.
O homem, mais velho que Kendra, mas ainda em plena forma física, cumprimentou-os com um forte aperto de mão. Nesse momento, Fletch e Anna se aproximaram.
- Kendra, você conhece os Prestley, não?- perguntou .
- Claro que sim. – Kendra sorriu para ambos. – Prazer em revê-los.
Após uma conversa superficial, Kendra se despediu:
- Foi um prazer conhecê-la – disse a , e a simpatia em seu olhar parecia sincera.
“Que mulher estranha”, ela pensou, observando a mulher se afastar. “Além da beleza e do magnetismo, tem algo de profundamente humano e comovente no seu modo de fitar as pessoas.” Então dirigiu-se a em voz baixa:
- Que moça simpática... Você ficou muito abalado por revê-la?
Um sorriso calmo precedeu a resposta:
- Eu diria que fiquei surpreso. Qual jogo você prefere? – indagou ele, mudando abruptamente de assunto.
- Não gosto muito de nenhum deles – respondeu com um suspiro. – Mas não se preocupe comigo, se quiser jogar fique à vontade, vou dar uma volta lá fora enquanto isso.
Com expressão confusa, ele acompanhou com os olhos, até que ela se afastasse completamente, sem nenhum comentário.
A noite estava agradavelmente fresca e sentou-se no jardim, apreciando a brisa suave em seu rosto. Estava perdida em pensamentos quando percebeu que alguém se aproximava: era Kendra, que no mesmo instante a reconheceu. Pareceu hesitar por um momento, mas em seguida adiantou-se e sentou-se do lado dela.
- Está abafado lá dentro, não?
Sorriram uma para a outra, com simpatia.
- Importa-se se eu lhe fizer companhia?
- Claro que não, será um prazer!
- Você é a que ia se casar com o ?
A pergunta pegou-a desprevenida, mas respondeu de pronto:
- Bem... sim.
Um lindo sorriso iluminou os lábios sensuais de Kendra, que replicou:
- Fiquei contente por ver com a mulher que sempre amou. Eu sinto muito carinho por ele e quero que ele seja feliz.
As palavras de Kendra surpreenderam , porém, ela se limitou a explicar:
- Não estamos juntos como parece. Fui fazer companhia a depois do acidente porque sou amiga da família dele, e com o problema de saúde do pai, eles não puderam dar o apoio o necessário. – fez uma pausa antes de acrescentar, curiosa: - Ele disse que você também foi noiva dele.
Kendra sorriu, porém havia uma ponta de melancolia em seus olhos, quando falou:
- Sim... Terminei o relacionamento por causa de um homem de quem nem me lembro o nome. Mas, na verdade, isso aconteceu depois de uma noite em que exagerou no vinho e passou horas descrevendo a mulher que ele amava e que deixara na Inglaterra, ou seja, você. Minha reação foi imediata ao perceber que ele não me amava e, com o passar do tempo, acabei descobrindo que teria sido um erro continuar. é uma pessoa maravilhosa, mas... as qualidades dele são como uvas verdes para mim, entende?
- Entendo sim, Kendra, mas não consigo entender a atitude de . Você diz que ele me ama, no entanto, me deixou praticamente na porta da igreja.
- Eu também estranhei quando ele me contou, mas quando perguntei o motivo ele foi evasivo, disse que era a melhor coisa que poderia ter feito pela mulher que amava. O que queria dizer com isso?
- Não faço a menor idéia. Ele nunca me explicou nada. Compreende agora a dificuldade que tenho em acreditar de novo nesse homem?
Num gesto afetuoso de simpatia, Kendra acariciou a mão de .
- É uma bela confusão. Mas veja bem, se estou certa em supor que você ainda o ama e não tenha dúvida de que esse sentimento e correspondido, será apenas uma questão de tempo até vocês conseguirem se entender. Agora preciso entrar, querida... George deve estar achando que eu fugi. Boa sorte e... seja feliz.
Com um leve abraço, ambas se despediram, ficou ali por mais alguns minutos, tendo por companhia o reflexo da lua que despontava sobre o mar.
Dois dias mais tarde os Prestley voltaram a Londres, deixando e novamente sozinhos. Já não havia motivo para ficar, ela sabia que deveria partir, mas seu coração a impedia de tomar tal atitude. , por sua vez, descobriu, feliz que o renascimento da confiança mútua e da camaradagem era uma base bastante solida para o relacionamento, e assim, evitava tocar no assunto da partida de para . Sem uma palavra, o acordo tácito foi estabelecido e ambos desfrutavam de momentos maravilhosos na companhia um do outro.
O tempo havia melhorado sensivelmente e, numa bela manhã, convidou para um passeio. Sentado ao volante de um dos carros da propriedade, ele dirigiu rumo ao interior, onde os vinhedos emprestavam à paisagem já um romântico toque de sonho.
Num local particularmente lindo, estacionou sob uma árvore frondosa e, com auxilio da bengala, iniciou uma longa caminhada exercitando os músculos, principalmente o joelho, que ia se recuperando muito bem. o acompanhava, solícita. Agora já podiam falar sobre fatos do passado sem que a mágoa viesse toldar os momentos íntimos e felizes. O assunto proibido era apenas o casamento desfeito sem explicações, e ambos o evitavam com cuidado.
- Você não esta ouvindo um ruído estranho? – ela perguntou, quando margeavam um verdejante campo de alfafa.
- Parece um animalzinho ganindo – ele concordou.
- Será que está ferido?
- Vamos ver.
Caminharam para a estrada e, aos poucos, foram se aproximando do local de onde partia o som pungente.
Um cãozinho de apenas alguns dias de vida parecia perdido na imensidão da pista deserta; era marrom e preto e os olhos ainda não tinham se aberto de todo. correu em direção ao animalzinho e quando chegou, ela já o aninhava contra o peito.
- É muito novinho e está assustado. De onde será que ele veio?
- Alguém deve tê-lo abandonado ai – concluiu, pois não havia nenhuma casa nas proximidades.
- Podemos levá-lo conosco?
- Claro! – concordou ele de imediato, acompanhando de volta para o carro. – E Flea? – perguntou, enquanto se acomodava ao volante, lembrando-se da gata siamesa que era a paixão de .
- John não gostava de animais em casa, e assim, tive de deixá-la com a minha mãe.
- Nada de animais... e nada de filhos, também, suponho?
fez que não com a cabeça.
- Como era o seu casamento, ?
- Na verdade, John me tratava muito bem... como se eu fosse uma governanta eficiente e indispensável, entende? Mas você percebe a terrível desilusão que sofri ao ser usada como meio de promoção social e, pior ainda, ao ser exibida como um objeto raro diante da alta sociedade?
- Eu... sinto muito – foi só o que conseguiu dizer.
- Muito mais sinto eu – a voz dela soou carregada de amargura.
concluiu em silêncio que ele e John tinham se encarregado de matar todas as esperanças que o coração jovem de depositava na vida. Como o destino fora cruel com ele e !
Ainda haveria tempo de viver o amor que as circunstâncias de anos atrás haviam interrompido de modo brusco, sem se importar com seus pobres e desiludidos corações?
Continua...
Obrigada pelo carinho das pessoas que disseram que a fic está ótima! Adoro todas vocês meus amores.
Beijos.
|