As Lovers Go
Por Bibia B.
01
Os ponteiros pareciam arrastar-se de forma cada vez mais lenta e quanto mais eu olhava para aquele relógio amarelo, mais embrulhado meu estômago ficava. Mr. Murphy havia terminado o assunto duas aulas atrás e agora simplesmente fazia com que ficássemos sentados durante os 50 minutos de aula completos. Eu precisava de férias, precisava muito de férias! Meus órgãos estavam todos distorcidos de tanto nervosismo pelo qual passei durante o ano.
Tentando ignorar o relógio idiota que parecia congelado, olhei para o outro lado da sala. me encarava e, assim que me viu olhando-o, me deu seu melhor sorriso idiota, e eu o retribui, cansada demais para procurar outra coisa que me ocupasse.
Ele era estranho. , quero dizer. Ele era bonito e estranho, sempre com as calças embaixo da bunda e as roupas e cabelo totalmente estilosos. Eu nunca tinha parado realmente para falar com ele, ou seus outros dois amigos - e -, também nunca soube diferenciá-los, para mim eram todos iguais. Mas estava na minha turma de história desde a oitava série, então eu já estava mais familiarizada. Se é que raras trocas de "oi" e "tchau" fosse o mesmo que se familiarizar.
Quando o sinal finalmente soou dos aparelhos presos na parede, eu tirei meus olhos de meu companheiro de classe e juntei meus livros de forma desajeitada. Só queria sair daquele lugar o mais rápido possível. Por favor, por favor, continuei repetindo mentalmente enquanto uma fileira de alunos se formava a minha frente para sair da sala.
- ! - Escutei gritarem por mim e bufei antes de virar-me e encontrar ainda com aquele seu sorriso. - Vi que você também ficou de recuperação em história e vim te perguntar se...
- Peraí! – O cortei, processando todas as suas palavras. Como assim eu havia ficado em história? Eu nunca fico de recuperação, pelo menos não nesse mundo. - Você tá tirando com a minha cara ou o quê? Eu não fiquei de recuperação em história, , eu passei de ano numa boa.
Ele riu novamente de forma idiota e fofa, mas dessa vez deixando escapar uma pequena gargalhada. Me perdi no barulho que saía de sua boca por alguns segundos. Ele era realmente... Charmoso. Não charmoso do tipo que eu ficaria. Nunca. Mesmo bonito e com estilo, ele ainda agia de forma esquisita com aqueles amigos esquisitos e sempre afastava os outros de perto deles.
Menos as meninas atiradas e desesperadas que davam para eles no mesmo momento que abriam a boca. Claro, essas eles agradeciam por existir.
- Eu vi no mural, , se tá duvidando a gente vai lá agora.
Com a passagem desobstruída, eu segui para o corredor com em meu encalce. Simplesmente me custava muito, muito, acreditar que eu tinha realmente bombado em história. Não porque meu boletim é a coisa mais impecável do mundo ou algo do tipo, é só que a iria realmente me matar quando eu lhe contasse que nossa viagem para o Caribe nessas férias estaria suspensa. Permanentemente.
Dobrei alguns cruzamentos e finalmente vi o mural no qual eram presos os resultados das turmas do meu ano. Procurei primeiro meu nome na lista de aprovados, não o achando. Tive a impressão de ouvir rir às minhas costas, mas ignorei, empurrando sem pena um garoto que estava ao meu lado e olhando a lista da recuperação.
Oh, sim. Lá estava o meu nome. O penúltimo da lista. . Totalmente ao contrário do de e seus amigos, que eram os primeiros nominados. Quer dizer que ele andava procurando por meu nome, uh?
- Deveria ensinar um pouco de educação às suas novas amigas, . Esse empurrão realmente doeu. - Uma voz falou atrás de mim e virei-me, encontrando ainda com seu sorriso imbecil - que eu já não achava tão fofo - e um de seus amigos bonitos que eu não conseguia lembrar o nome.
Merda! Eu realmente não sabia a diferença entre e .
- Nós não somos amigos - respondemos eu e em uníssono.
- Então, a senhorita sou-melhor-que-você- já se tocou que ficou de recuperação e pode finalmente nos escutar? – não sorria mais com os lábios, mas seus olhos ainda o faziam para mim. Aquilo era permanente? Porque eu estou prestes a socá-lo.
- E o que você e... Haam... - Tentei forçar minha mente e descobrir o nome do amigo dele que eu havia empurrado, mas a coisa não estava fácil. Ele era incrivelmente bonito naquele estilo próprio largado e zombeteiro. - ?
- Nop - o bonitinho negou, prendendo o riso e eu senti meu rosto esquentar.
- Ok, .
- - ele me corrigiu e eu desviei meu olhar de seu rosto bonito, envergonhada o suficiente.
- O que você e o querem tanto falar comigo, então? Por que se for pra publicar isso num jornalzinho de vocês por aí, podem ir tirando os cavalinhos da chuva. - Optei por falar apenas seu sobrenome, fazendo os dois gargalharem de meu devaneio.
- Na verdade, nós dois e o também estamos, caso não tenha percebido. – passou um braço pelos meus ombros e juntou nossas cabeças, como quem falava com um brother. Eu me afastei, achando a distância - ou falta dela - perigosa demais. - E precisamos de uma ajudinha.
- Bem pequenininha. - completou, sorrindo de forma mais fofa e menos idiota do que o amigo.
Levantei minhas sobrancelhas e afastei meu corpo do de no momento em que entendi o que os dois queriam dizer. Eles só deveriam estar brincando! Analisei seus rostos risonhos e percebi que estavam realmente esperando por uma resposta minha.
- Vocês querem que eu ensine a matéria a vocês? - Perguntei atordoada e eles concordaram com acenos de cabeça.
Vi se aproximando ao longe, com a testa franzida, estranhando eu estar ali parada com dois dos garotos mais trash do colégio. Eu fiz uma careta em sua direção e os dois olharam para ela, que estava cada vez mais próxima.
- Eu? Ensinando vocês?
- Se você quiser pode chamar sua amiga também. - piscou pra mim e gargalhou alto, me deixando mais atordoada ainda.
parou ao meu lado sem entender nada e eu percebi que meu rosto ainda estava fazendo a careta de antes.
Oooh merda!
- Olha só... Eu não acho que vá dar certo, sabe - comecei meio desajeitada e cutucou meu braço.
- Que é que tá pegando? - Ela sorria para os garotos de forma educada e eu só queria sair dali o mais rápido possível.
- Sua amiga ficou em história. - respondeu antes que eu pudesse formular uma frase melhor.
me encarou já não mais sorrindo e estreitou seus olhos no meu rosto. Ela definitivamente iria me matar por ter ficado de recuperação e estragado nossa tão planejada viagem. Mas a culpa não era minha! Quer dizer, eu tirei notas boas o ano inteiro, algo muito errado deve ter acontecido pra ter sido barrada em história.
- Como assim?
- Quer dizer que ela não passou na matéria. Sinceramente, , eu esperava que você fosse mais inteligente que isso, tem certeza que seu nome não tá na lista de recuperação de português? - perguntou sutil e ela o ignorou, ainda me fuzilando.
- Você sabe o que isso quer dizer, não sabe?
fez uma careta pelas costas dela, e segurou o riso. Aquilo quase me fez rir. Quase. Eu estava numa situação muito pior e rir só faria com que minha adorável amiga arrancasse de uma vez por todas a minha cabeça. O que não seria nada mal, já que assim eu não iria precisar fazer a maldita prova.
- A culpa não é minha, amiga... - choraminguei e sorria ao meu lado.
- Claro que não. A culpa é minha, eu quem fiz sua prova e te deixei de recuperação.
- Você quer realmente apanhar, não quer? - perguntei o encarando, mesmo sabendo que não seria capaz de bater naquele rosto bonito nem em um milhão de anos.
Ele não me respondeu, apenas continuou com aquele maldito sorriso que eles pareciam ensaiar várias vezes antes de sair de casa, e eu desviei meu rosto, voltando-o para o nome dos alunos na lista, ainda sem acreditar que o meu estava ali. Era realmente um pesadelo ter que ficar presa naquela cidade, e naquele colégio, durante todo o verão que eu poderia estar passando numa praia com a minha melhor amiga e vários gatos.
Merda.
Ficamos calados por um tempo, até que o celular de tocou e ele o puxou, balbuciando alguma coisa, e depois batendo no braço de , que ainda sorria e que eu ainda evitava.
- O já tá no carro, cara.
- Ok, ... - O olhei e vi que estavam ambos na minha frente. - Nos vemos amanhã e depois a gente vai pra casa do estudar, ok? - terminou de falar e beijou minha bochecha e a de rápida e timidamente, saindo pela extensão do corredor logo depois.
Senti minha pele começar a arder no local onde ele havia encostado sua pele e eu olhei zonza para .
- Quanto mais cedo começarmos a estudar, melhor - ele bagunçou meu cabelo e eu apenas fechei os olhos, mas os abri em tempo de o ver piscando para antes de seguir o mesmo caminho que o outro. - Você pode ir se quiser.
E eu fiquei ali, com a bochecha ardendo, zonza e estática, ao lado de uma totalmente sem entender nada além de que havia sido convidada para uma tarde com os garotos que ela sequer imaginaria que iria falar antes de terminar o colegial.
Eu realmente iria perder minhas férias ensinando três garotos burros sobre a Revolução Francesa?
- Você não tá realmente pensando em ensinar os dois sobre a Revolução Francesa, tá? Porque se tiver, tenha certeza que eu quero estar fora disso. – Foi a primeira coisa que ouvi dizer ao entrarmos no carro dela.
- Aos três, , também ficou, lembre disso.
Ela sorriu.
- Eu gosto do , ele tá nas minhas turmas de espanhol e química e ele é realmente fofo! Nem parece que anda com o ogro do . – Eu ri e ela levantou os braços, fazendo um rabo de cavalo desajeitado. – Mas o ponto não é esse, o ponto é que você vai desistir da nossa viagem para o Caribe e gatos bronzeados por três garotos branquelos e burros que só sabem pensar em música e... Peitos.
Não os meus, espero.
era realmente implicante quando queria. Digo, ela é minha melhor amiga e tudo o mais, mas quando algo simplesmente não está do seu lado, ela é capaz de mover Deus, o mundo e um pouco mais para conseguir de volta. Eu não sei o que ela via demais em perder umas duas tardes ensinando história aos meninos. Não é como se eles fossem feios ou como se fosse tomar todos os meus dias de férias. Era só história.
- Passo aqui amanhã de manhã? – Ela me perguntou quando eu desci de seu carro ao chegarmos a minha casa.
- Infelizmente.
Os pneus arrancaram de minha calçada e eu observei até que o carro dela virasse a esquina em segurança, vai ver ela batia numa lata de lixo ou atropelava um gato. E eu realmente queria saber para onde correr se isso acontecesse. Para a direção contrária.
Ri comigo mesma e chutei uma pedra amarela na ponta do meu tênis, e quando ia virar o corpo em direção ao jardim, escutei uma buzina. O que ela havia esquecido?
Mas não era quem estava lá quando eu me virei. acenava alegre do banco do passageiro enquanto me mandava beijos do bando traseiro e – eu imaginei que fosse ele – buzinou três vezes antes de acelerar mais e seguir o mesmo caminho que o carro de minha amiga.
Uma risada escapou de minha garganta outra vez e eu comecei a andar em direção à minha casa.
Duas tardes, prometi a mim mesma. Duas tardes tentando progredir com os garotos e então eu finalmente voltaria a pensar em água, sol e homens de verdade.
02
Meus tênis fediam naquela manhã.
Não que eles não fedessem todas as manhãs, mas hoje eles estavam incrivelmente... Fedidos. Umas garotas sorriram pra mim quando eu cruzei o portão e lhes mandei uma piscadela de volta, eu ainda não tinha arranjado o que fazer à noite, de qualquer forma, e elas me pareciam mais animadas do que o normal. Talvez fossem as férias chegando.
- ! – vinha andando de encontro à mim e eu passei a mão nos cabelos inconscientemente, bangunçando-os da forma certa. – Parece que temos problemas, a amiga da não quer ir ajudar a gente hoje à tarde e ela disse que só iria se a amiga fosse junto.
Era só o que me faltava! Eu não tinha tempo para drama de garotas, só queria passar de ano sem ir para a recuperação final e estava ótimo assim. Se queria dizer férias antes do que estava acostumado, então iria mesmo significar isso. Quer ela queira, ou não.
- Ela tá com medo do ou o quê? – Perguntei rindo, enquanto seguia para a sala onde as meninas estavam e ele riu, olhando rápido para mim antes de voltar-se para a frente.
- Exatamente isso, meu caro.
Gargalhei, balançando a cabeça. Aquela estava ganha.
Era o último dia de aula e quem quer que andasse por aqueles corredores notaria a quantidade de alunos que já não davam importância às últimas aulas do ano. Eu nunca havia dado à nenhuma delas, pra falar a verdade, mas ver as caras daqueles perdedores todos os dias e armar algo para cima deles não tinha preço, era a melhor coisa no mundo. Ok, talvez não a melhor, mas com certeza estava no top 10. Ou top 20. Tanto faz.
- Qual o grilo? – Soltei, assim que eu e entramos na sala de química, me olhou com cara de poucos amigos.
Eu queria contar uma piada sobre como ela ficava com aquela cara, mas me limitei a sorrir. Educado, sempre educado, falei pra mim mesmo e olhei para e , que estavam com caras piores que a da .
- Santo , vocês podem me explicar o que aconteceu? – Perguntei de novo e e riram, mas as duas continuaram caladas.
Ótimo, não era pra rir mesmo.
- A não quer ajudar nas aulas de história... – começou.
- E a só vai se ela for – fez uma careta, e falou pela primeira vez.
- – Ela o corrigiu e eu ri mais uma vez. Era fácil rir com aquelas garotas por perto.
Talvez fosse pelo contraste que elas tinham ao ficar do nosso lado. Nós sempre fomos os idiotas do colégio – idiotas, porém bonitos -, armando contra o time de futebol e quebrando lixeiras e outras inutilidades mais, sempre indo bater com a cabeça na porta do diretor. Era rotina, e eu já conhecia cada mínimo detalhe daquela madeira velha que a porta do Mr. Touch era feita.
Eu nunca havia tido muito contato com elas – nenhuma das duas -, sempre tivera aulas com e nunca consegue parar de falar sobre como a encobre ele em química. Mas nada disso havia acontecido entre mim e elas, não que eu quisesse. É só que, não sei. Era estranho.
continuava encarando o com uma cara de poucos amigos e ele não tirava o sorriso do rosto, fazendo e se segurarem para não rir, esquecendo do quão irritados também estavam. Vendo ela daquele ângulo, encarando meu amigo com tanta firmeza, eu quase entendi porque ela não lembrara do meu nome de primeira.
Veja bem o porquê de eu quase entender, nós tínhamos no mínimo duas aulas juntas desde a sexta série, e olhando sua postura eu pude perceber que ela era fechada demais, talvez com medo. E quase também porque eu não entendo porcaria nenhuma sobre as mulheres e não tenho a menor idéia de porque eu estou tentando entender .
Ela é... Estranha.
- Ei, você! Dá pra voltar pra terra dos normais um pouco? Porque eu tô tentando arranjar uma forma de salvar sua pele em história. – Uma voz me despertou e eu olhei pro lado.
Era ela. A garota estranha.
- Por que você não quer ajudar a gente? – ignorei , virando-me para , que já tinha o rosto mais calmo. – Eu sei que eles dois podem assustar, mas olha pra mim! Eu sou lindo.
- Nada contra você, fofo – Ela respondeu simpática – É só que eu realmente não quero perder minha primeira tarde de férias com três garotos estudando história. E além do mais, é a quem deve ajudar, não eu.
Ok, problema resolvido com a . Sorri agradecido e me virei para a outra.
- Então qual o problema em nos ajudar, ?
- – ela corrigiu mais uma vez, impaciente. – Eu não vou ficar sozinha com vocês! E a é bem melhor que eu em matérias decorativas.
- É, , por que você não ajuda a gente? – perguntou divertido e abriu a boca, carrancuda, mas ele a interrompeu – Não me mande te chamar de , porque eu não te chamo assim nas aulas que temos juntos.
Eu e nos entreolhamos e começamos a rir, enquanto ficava incrivelmente vermelha e exclamava um “uuuh” sacana.
- Eu não ia mandar – Ela falou em voz baixa e olhou a amiga, que ainda ria. Não tinha mais graça alguma naquilo tudo, mas a risada de era tão empolgante e até mesmo engraçada que fazia meu estômago doer e eu não conseguir parar também – Ah, tudo bem, eu prometo pensar, agora saiam logo daqui que minha aula já vai começar!
Com um sorriso vitorioso, bagunçou os cabelos dela e saiu gritando um “até mais, cocotas”, fazendo bufar mais uma vez. sentou ao seu lado, ainda sorridente e mandou um beijo pra , que levantou uma das sobrancelhas e logo me encarou.
Os olhos dela me prenderam. Hipnóticos e profundos, combinando perfeitamente com sua feição dominadora.
- Vai ficar ai parado? Nós temos literatura agora.
Sorri, enquanto andava atrás dela. Então quer dizer que a garota lembrava de uma de nossas aulas juntos?
- Pensei que não soubesse meu nome. –Brinquei, ainda mais atrás.
A bunda dela não era nada mal. Nada mal mesmo.
- Só porque não sei seu nome, não quer dizer que não escute seus roncos no fundo da sala. – Sua voz ainda estava irritada e ela virou-se para me olhar. – Pára de encarar minha bunda, .
- Não estou – Disse simplesmente, sem tirar os olhos de onde estavam.
- Idiota – Escutei ela bufar impaciente e parei de encarar suas partes baixas.
- Amarga – Sorri, recebendo seu olhar sarcástico.
- Irônico !
Então eu não agüentei. Não que eu queira ficar com ela ou algo do tipo, mas foi inevitável. Eu sorri aquele sorriso que só uso quando quero conseguir algo. Aquele sorriso que eu sei que não vai me trazer prejuízos. Lhe sorri o meu sorriso, e isso pareceu deixá-la tonta.
Senti meu corpo inteiro se realizar com aquela reação.
Eu realmente gostei de deixá-la assim.
- – Corrigi, e seus olhos voltaram a me encarar, atordoados e visivelmente confusos – .
03
Parecia simplesmente loucura que eu estivesse realmente fazendo isso para ajudar dois caras que eu ao menos conhecia e um que eu trocara palavras no mínimo duas vezes ao ano. Ou talvez fosse loucura eu fazer tanta confusão por causa disso. Não havia sido eu mesma quem tinha pensado que seria apenas história? Duas tardes, me fiz lembrar e respirei fundo antes de tocar a campanhia da casa dos .
estava inquieta ao meu lado.
- Dá pra você ficar parada um segundo? – Perguntei em voz baixa e escutei passos do outro lado da porta.
- Não – Ela respondeu rápida e apareceu na nossa frente sorridente.
- Oi, gatas! Entrem, entrem! – Ele se afastou, dando espaço para que nós duas entrássemos e eu fiz uma careta para .
Gatas?
- Posso perguntar uma coisa? Eu realmente quero perguntar isso desde que vi vocês pela primeira vez! – Falei eufórica e me olhou como se eu fosse um tipo de alien – Tipo, vocês já nasceram assim? Quer dizer, esses sorrisos são permanentes?
Ele gargalhou e não respondeu, apenas bagunçando meu cabelo e nos guiando até uma sala. Qual o problema deles com cabelos? Eu tinha que começar a usar rabo-de-cavalo sempre que estivessem por perto.
- Pergunta imbecil – me sussurrou, quando nos aproximávamos de onde os outros estavam.
Apenas dei de ombros e vi que e já estavam ali, esparramados pelo sofá. A boca de se movia devagar, mas continuava de olhos fechados e com a cabeça no encosto do móvel, como quem dormia.
Quando finalmente chegamos no mesmo cômodo, pude escutar o que falava. O que na verdade, ele não falava, cantava.
- The signal is subtle, we pass just close enough to touch... – Ele não precisava respirar entre os versos, sua voz saía num perfeito sussurro audível - No questions, no answers...
- We know by now to say enough – Completei sem me dar conta, e ele me encarou, notando minha presença na sala. Pude sentir todo o sangue subindo para meu rosto. – Desculpe.
Idiota! Por que eu pedi desculpas? A letra não é dele, eu posso cantar o quanto quiser. Mas mesmo assim nós continuamos a nos encarar, com as palavras da música pairando no ar. Senti alguém me cutucar, mas eu só quebraria o contato assim que ele respondesse ao meu pedido.
- Sem problemas, – Suas palavras soaram lentas e tediosas, quebrando tudo o que pensei ter existido.
O que pensei ter existido? Deus, eu precisava de férias ou acabaria imaginando coisas demais.
- Então, por onde começamos? – Esfrenguei minhas mãos uma na outra e sentei entre e , de frente para o , que estava entre e (que consequentemente sentara ao lado de ).
- Que tal pelo começo, Bi... ? – perguntou simpático e eu ri de sua auto correção, morrendo de vontade de apertar suas bochechas.
- Você pode me chamar de , bonitinho – Falei sorrindo e também sorriu ao meu lado – Eu falei o , , não você.
- Mas eu te conheço desde a oitava série! – Ele berrou indignado, e me olhou assustada por causa do grito dele, eu ri.
- Mas o é fofo – Disse enquanto pegava um livro à minha frente e abria na página do assunto.
- Isso mesmo, eu sou fofo – repetiu orgulhoso.
Eles eram mais idiotas do que eu imaginava, e algo me dizia que estavam bastante felizes por ter duas garotas não-bêbadas e não-drogadas em sua casa. Com um beliscão para que se acalmasse ao meu lado, eu comecei a explicar os ideias Iluministas. Não deram dez minutos para que cada um se ocupasse com suas próprias coisas e parassem de escutar sequer uma palavra que eu proferia.
Fechei o livro com raiva e me olhou, mas eu continuei encarando a capa verde em minha frente. Eu não tinha obrigação de ensiná-los! Eu já sabia aquele assunto de cor, e passaria fácil na prova, e se eles – os supostos interessados – não estavam nem ai, não seria eu quem perderia meu tempo explicando à mim mesma algo que já havia lido vinte vezes só naquela semana.
- Quer ir na cozinha pegar algo pra comer? – Me assustei com a pergunta e vi que sorria para mim em minha frente.
Com uma olhada em volta, deduzi que ninguém se importaria se sumissemos por alguns minutos. e estavam ocupados demais com seus próprios cabelos, enquanto falava algo no celular.
Concordei com a cabeça e esperei que ele se levantasse, estendendo-lhe minha mão em seguida, para que me ajudasse. Saímos cambaleando de lá, com tamanha força que ele havia me puxado.
- Não tenho a menor idéia de como vocês vão passar de ano – Comentei ao entrarmos na cozinha.
- Nem eu – Ele riu e se virou pra mim – Você poderia me dar umas aulas particulares depois.
- Com certeza – Concordei irônica e sorriu de novo. Aquele sorriso mais fofo e menos idiota que o dos outros, fazendo com que eu corasse. – Vocês deveriam ser mais responsáveis, pra variar.
- , você tem noção de com quem está falando?
Balancei a cabeça em negação e o olhei, antes de andar até os armários.
- Vejamos o que temos aqui...
Na primeira porta que abri, encontrei apenas salgadinhos e pacotes de balas, entupindo completamente aquela área da dispensa e me fazendo abrir a boca um pouco mais que o normal. Nem na minha casa, com a minha irmã viciada em porcarias, eu tinha tanta comida industrializada assim!
- Parece que o é beem equipado – Sorri de meu comentário e escutei gargalhar nas minhas costas, provavelmente pela mesma razão.
Frases com duplo sentido eram uma merda.
Peguei dois tubos de Pringles e dois sacos de Cheetos e concordou com o polegar, quando eu me virei de volta.
- Está me saindo melhor que a encomenda – Ele brincou, sentado no balcão, com as pernas balançando no ar. Dei um tapa de leve em sua coxa, assim que passei pelo mesmo, indo em outro armário pegar alguns potes para despejar tudo aquilo – E safada também!
- Respeitada também deveria entrar nessa lista – Minha voz soou um pouco abafada, já que eu estava com o rosto dentro do móvel, procurando as travessas.
- Só quando você deixar de ser safada – Ele continuou brincando, soltando uma risada em seguida, eu virei meu rosto para encará-lo, segurando o riso – O que eu espero sinceramente que não aconteça tão cedo.
Eu ri, já de costas para , enquanto colocava a comida nos potes e sentia meu rosto esquentar devido ao sangue circulando rápido demais outra vez. Por Deus, o que ele tinha que fazia eu me sentir assim? As falas dele pareciam tão usuais, tão calculadas... E mesmo assim ainda me constrangiam.
Foi inevitável pensar em quantas outras meninas ele conseguia deixar no mesmo estado. Aquilo me fez acordar um pouco, ao me dar conta que não queria ser que nem as outras meninas. Não mesmo.
- Quem é safada? – Escutei a voz de , e me virei assim que tive certeza que não estava mais vermelha como antes.
- Ninguém, eu achei umas porcarias por aqui e coloquei nessas vasilhas pra a gente comer, não tem problema, né?
Ele me olhou fofo. Um dia eu ainda mordo as bochechas do !
- Não, bonitinha – Ele piscou pra mim, me imitando mais cedo e eu sorri agradecendo. – O ligou, ele disse que tá passando pra pegar a irmã na casa do pai e eles vão passar aqui depois.
- Achei que a gente iria estudar – Ergui minhas sobrancelhas e os dois deram de ombros, como quem se desculpa – Ah, tanto faz, quem é ?
- Um amigo.
- Um amigo o qual você não vai se interessar – acrescentou, me encarando e eu sorri maliciosa.
- Ele é tão lindo assim?
- Mas hein?
começou a rir e eu coloquei um Pringles em minha boca, ainda sorrindo da cara de taxo de em cima do balcão, ele estava realmente sem entender nada.
- Idiotas, querem morrer? – apareceu berrando com um nada feliz logo atrás. – Como vocês me deixam sozinha numa sala com esse estúpido?
- Caralho, dá pra alguém me dizer o que eu tinha na cabeça quando convidei essa absurda pra vir estudar com a gente? – rebateu, ainda fuzilando com o olhar.
- Absurda é o seu c...
- Ok, ok, dêem um tempo, santo ! – Ele realmente achava que aquilo era engraçado? Porque numa atitude idiota, ele continuava a repetir e os outros imbecis continuavam a rir.
Bufei alto e a campahia soou.
- O chegou! – Gritei sorridente e e me olharam sem entender. sorria engraçado e me encarava.
Eu quase podia ler seus pensamentos. Longe do meu amigo, eles pareciam gritar para mim. Os pensamentos do , quero dizer.
Claro, até parece.
04
Aquilo já estava começando a ultrapassar o ridículo! Quero dizer, desde que o pôs os pés naquela sala todas as meninas só sabiam falar o nome dele. A gente tava ali pra estudar ou não? E por que fica esfregando a mão no braço dele? Cadê a , Deus, cadê a ?
- ! - Exclamei ao entrar na cozinha e encontrar ela rindo e comendo uvas com o .
Ela não gosta de dizer que é irmã do , e a coisa só piora quando ela tem que dizer que é irmã gêmea do . Desde que eles eram pequenos o (o macho, quero dizer) sempre era o que atraía mais atenção e as meninas só queriam ser amigas da pra poderem ir para a casa dela e tudo o mais. Eles eram meio que um complemento, o que não tinha em um, encontrava no outro.
Tipo, o é um ogro, e a é linda. E simpática. E não dá em cima das garotas que deveriam estar ajudando os amigos!
- Diga, my love - Ela falou sorrindo pra mim e me lançou um olhar ridículo.
Qual é? Eu também tenho uma queda por ela. Todo mundo tem uma queda por ela! Egoísmo não leva amizade nenhuma pra a frente, deveria saber disso. A moda agora é dividir. Dividir comida, casa, cama, garotas irmãs dos nossos melhores amigos...
- O tá dando em cima das meninas - Falei indignado. rolou os olhos.
- Por mim ele pode levar a pra casa!
- Senti ciúme no ar - gargalhou.
- Mas hein? Ela é absurda! - exagerou no movimento com as mãos e eu olhei pra , nós sorrimos e eu falei maldoso.
- Tem ciúme no ar.
- Não tem.
- Tem.
- Não tem.
- Quem tá com ciúme? - Alguém falou da porta da cozinha e todos olhamos, vinha andando com e . - Quem tá com ciúme? - repetiu a pergunta e eu indiquei meu dedo em sua direção.
- É ela - falei pra e sorri, passando pelos três que tinham acabado de chegar - Alguém viu a ?
- O que tem eu? - perguntou, soltando o braço de e encarando - Que merda você andou falando pra eles, ?
- Ela tinha ido ao banheiro - me respondeu, antes de puxar a pra um lugar bem longe de .
Oh, agora além de dar em cima delas, ele também as puxa? Preciso lembrar de perguntar quando ele vai começar a beijá-las, pra que, você sabe, eu possa arranjar um lixeiro e vomitar.
Eu odiava quando o dava uma de macho. Por que ele tinha sempre que ficar com todas? Digo, não que eu esteja me importando pelo fato dele estar dando em cima dessas garotas, a é legal e tudo o mais, mas ele não podia se controlar? Fala sério, eu ainda quero passar de ano!
Encontrei na frente do espelho na parede da sala, ela tentava - inutilmente - prender os cabelos num rabo-de-cavalo sem que ficasse um fio de fora. Mas o que ela não sabia é que ficavam vários fios de fora, não só os da parte da frente que ela parecia puxar desesperadamente sempre que eles saíam da xuxa.
- Tem uma revolução na parte de trás também, caso não saiba! - Falei enquanto apontava para sua nuca, mas ela sequer me olhou e soltou os fios já presos - Por que você não tá lá na cozinha que nem uma urubu em volta do ?
- Porque eu tô aqui amarrando o cabelo.
- Tentando.
Ela bufou.
- Tanto faz.
- Que bicho te mordeu, gracinha? - Perguntei sorrindo e ela revirou os olhos, desistindo de vez do rabo-de-cavalo.
- Nenhum.
- Deixa solto, fica melhor - Apontei pro cabelo e ela me ignorou outra vez.
- Por que você não tá na cozinha que nem um urubu em volta da ? - me perguntou com as sobrancelhas suspensas.
Eu ri. Qual era a dela?
- Eu não sei se eu tenho cara, mas eu não sou gay, .
- Não sei se você estuda, mas a gente tem Português no colégio, - Ela falou pausadamente como se eu fosse um retardado e eu cerrei os olhos - Eu perguntei por que você tá aqui me enchendo o saco e não tá na cozinha que nem um urubu em cima DA .
AAAAAH, saquei! Ela tá com ciúme. Sabia, ninguém resiste à , nem mesmo uma menina como . Estranha, quero dizer.
- Porque eu tô aqui te enchendo o saco - Dei de ombros.
- Tentando - Ela me imitou e eu sorri.
- E além do mais, eu não dou em cima das minhas amigas, e muito menos das irmãs dos meus amigos. - Apontei pra a cozinha e ela seguiu o meu olhar - Tô dizendo, se quer pegar o , vai logo, porque a tá indo com tudo.
me olhou intrigada por alguns instantes e eu usei meu sorriso cínico.
Veja bem, eu tenho vários tipos de sorrisos e sei muito bem como usá-los, e está me saindo uma pessoa difícil demais, nunca usei tantos sorrisos num mesmo dia. Tudo isso por umas aulas de história! Aulas de história! Deus, onde esse mundo vai parar? Preciso de mais sorrisos, quem sabe que eu possa até lançar uma máquina, sabe.
"Poupe o esforço do seu maxilar e o utilize na língua! A máquina de sorrisos te garante garotas de qualidade e com disposição!".
Não que eu queira garantir ou algo assim. Não mesmo. Eu já disse que ela é estranha? Ela é.
- Ok... - Ela começou ainda com aquele olhar pra cima de mim. Meu Deus, essa menina me quer! - Você é estranho sabia?
Eu ri. De novo. HÁ! Olha só quem fala, garotaestranha.com.
- ... Você estava mesmo se olhando no espelho? Tem certeza?
- - Ela me corrigiu, tentando não rir - Pra você é .
- Você me quer - Falei malicioso, ela se permitiu rir.
Ok, não foi exatamente rir. Ela gargalhou. Isso fez com que eu me sentisse um pouco desconfortável, só um pouco. É que, assim, eu estou acostumado com as pessoas rirem PARA mim, e não DE mim. E ela estava definitivamente rindo de mim. Sem sombra de dúvidas.
- Certo, eu te quero, e a é um ET.
- Já era hora de descobrir! Você é muito ingênua - Balancei a cabeça negativamente e ela riu mais ainda.
- Acorda, .
sorriu menos sarcástica e passou por mim, indo pra a cozinha. Não vou mentir que eu não demorei uns segundos olhando aquela bunda de novo. Porque eu demorei. É que realmente chama atenção, sabe? Se a garota que esteve na minha cama noite passada - aquela que eu não lembro como se chama - tivesse essa bunda, eu com certeza lembraria do nome dela pela manhã.
Assim como eu lembro do nome de desde a oitava série. Pela bunda, só pela bunda.
- Hey, ! - Gritei antes que ela já estivesse na cozinha, virou-se e me olhou com as sobrancelhas erguidas, como se perguntasse o que eu queria. - Você faz academia?
- Mas hein? - Ela mudou a expressão para uma de confusão e eu ri.
- Esquece.
Ela deu de ombros e entrou na cozinha.
Não importa, ela ainda me quer, eu sei que quer. Todas querem, de qualquer forma.
Não sei se eu dormi de verdade. Só sei que a última coisa que lembro - antes de agora - foi de sair da porta da cozinha e sentar no sofá da sala - onde eu estou agora, sem ter certeza se estava dormindo ou não - e então eu abri os olhos e está chovendo e... Eu escuto gritos. Do andar de cima.
Acho que isso quer dizer que eu dormi, não quer? Eu tenho algum problema com sensores, neurônios, algo assim, nunca me lembro se dormi/cochilei de fato ou se só entrei em stand by. Eu posso ser bem autista às vezes.
Num impulso, tentei me levantar, mas meu corpo (sarado) caiu de volta no estofado. É normal as pessoas ficarem meio tontas depois de acordarem, não é? Porque se não for, é mais uma coisa pra a minha lista de problemas, e olha que ela já tá enorme. Esperei então alguns segundos, você sabe, pra eu tentar de novo e ver se fico tonto mais uma vez, mas eu não fiquei, eu consegui me levantar. Se eu tivesse ficado, seria uma vergonha.
É, vergonha. Porque tipo, pelos gritos dá pra perceber que as meninas ainda estão ai, é escandalosa, mas nem tanto, e seria extremamente embaraçoso se eu começasse a berrar o nome do que nem uma menininha, pra que ele chame uma ambulância porque eu estaria tendo um enfarte ou algo do tipo. Extremamente embaraçoso.
Então eu subi as escadas, já que não estava tonto, ou tendo um enfarte, tanto faz. Quando cheguei lá em cima descobri que os barulhos vinham do quarto do . Malditos! Estavam fazendo uma suruba e nem sequer se deram o trabalho de me acordar.
Nunca mais ligo pra as putas no lugar dos três. Egoístas! Já falei de minha teoria sobre a nova moda não falei? Então, pois é.
- Mas que putaria é essa? - Perguntei assim que abri a porta.
e estavam em pé em cima da cama enquanto e estavam deitados lá. Pelo que deu a entender, os dois tavam pulando em cima deles ou algo assim.
Crianças.
- que estava num canto BEM afastado do - me olhou e riu, antes de falar.
- Ops, acabou a brincadeira.
A última coisa que ela viu foi o logo do Arctic Monkeys da minha camisa, porque no outro segundo eu já tinha voado para onde ela estava e pegado-a no colo, a jogando na cama super lotada.
- Engole essa, ET.
riu do meu lado e eu vi um dedo do meio direcionado à mim no bolo da cama.
- Já era hora de alguém descobrir! Vocês são muito ingênuos - disse e eu e nos olhamos sorrindo.
- É o que eu sempre digo, meu caro. - Falei batendo em seus ombros e fazendo e rirem, porque estava quase os derrubando.
05
Eu observava conversando com e quando senti algo me cutucando fortemente na cintura. Ignorei. Dica: se você quer que algo irritante pare, ignore.
Bem, eu ignorei, mas os cutucões não pararam! Na verdade, eles começaram a ficar mais fortes e quando fui perceber, eu já estava me virando - com vários xingamentos na ponta da língua - para ver o animal que pegava no meu pé. Ou cutucava minha cintura, tanto faz.
- Ah, oi, - Falei ao me virar e encontrar a cara safada do .
Bem que eu estranhei os cutucões não terem parado. Ele não é necessariamente um animal. O , quero dizer. Ele - assim como os outros inúteis - estava classificado na minha lista de vegetais. Talvez tenha sido por isso que ele não entendeu o meu recado quando o ignorei, o de parar de cutucar.
Mas, esse é o caso, ele não parou! Nem quando eu me virei e o cumprimentei. Ele continuou ali, deitado ao meu lado no chão, com o corpo virado de frente para o meu. Não tinha como ele não perceber que eu já tinha o notado, ele não é tão vegetal assim. Pelo menos eu esperava que não fosse.
Então, da forma mais simpática que pude, eu olhei para aquele dedo pálido que entrava e saía das minhas amadas banhas (acreditem, aquilo doía) e depois olhei para seu rosto novamente, sorrindo antes de repetir.
- Ah, oi, - exclamei simpática.
Ele riu.
- Oi, .
E então continuou ali, me cutucando. E minha cintura já estava realmente começando a doer, mas você sabe, eu não queria ser grossa e gritar com ele ou coisa do tipo.
Mentira, eu queria.
Mas é que o é extremamente fofo e está me saindo bem melhor do que imaginei, então talvez não seja justo, gritar com ele e tudo o mais.
- Será que você pode parar ai? Tá doendo - Lá estava eu, tentando ser simpática mais uma vez.
- Oh - exclamou, e então parou. Mas continuou me olhando daquele jeito. Como se fosse me beijar ou coisa assim.
Ri com a idéia.
- Quê? - Eu perguntei.
Então ele finalmente desfez a cara de safado e pareceu desapontado.
- Pensei que te encarasse, você me beijaria - falou de forma inocente e eu levantei as sobrancelhas. Ok, ele estava delirando - O disse que se eu te encarasse, você me beijaria, assim como fez com o .
Claro! De qual outra cabeça oca poderia sair aquele tipo de pensamento? era o primeiro nome na lista que se materializou em minha mente. E seu nome estava escrito com tinta vermelha. Em negrito. E sublinhado.
- Eu não beijei o ! - Ri, ainda não acreditando no que ouvi - E o é um imbecil.
- Ele falou que você ficou se esfregando no braço do - deu de ombros, ainda parecendo inocente.
- E o que o tem a ver com eu me esfregando no braço do ? - Eca! Isso soa tão... Preciso ficar mais distante do , os pensamentos dele já estão invadindo minha cabeça aos poucos.
Não me pergunte como.
- Ele disse que você era atirada!
Cheguei a uma conclusão. deve morrer (meio óbvia, eu sei).
- Ele é um estúpido - Acho que pareci emburrada quando disse isso, porque riu ao meu lado.
- Acho que não. O só fala o que vem na cabeça.
- Então não deveria falar nada! - riu de mim mais uma vez e eu tentei parecer inteligente. Porque você sabe, eu sou. - De onde eu venho, isso se chama estupidez.
- E de onde você vem? - Te digo uma, ele parecia bem interessado em saber.
- Da minha casa - Respondi em tom óbvio.
riu de novo. Eu hein, vai entender! Vegetais...
- Engraçada ela, né? - se aproximou da gente e sentou do meu outro lado - Eu digo isso pra ele desde que nos conhecemos.
- Você não diz não - Ri, o olhando.
, que ainda estava em pé ao lado de (mamma mia!), sorriu maliciosa. Ops, eu vi isso, !
- Não? Tinha a impressão de ter dito - ele abanou as mãos em frente ao rosto, como se afastasse algo, e completou - Então acho que só pensei mesmo.
Todos rimos e fez cara confusa.
Coitado, esse é do pior tipo. De vegetal, quero dizer.
- Ai é que fica difícil. Você não pensa, meu caro - escuto falar.
A voz dele estava perto. Tão perto que eu quase levei um susto - o que o fez sorrir - quando percebi que ele já não estava mais ao lado de , e sim abaixado atrás da minha cabeça (minha cabeça!) e mexia em meus cabelos.
Ah. Meu. Deus.
estava mexendo em meu cabelo! E vou te contar, era extremamente...
- O que fica difícil o ter pensado? - apareceu perguntando, com um sanduíche na mão e atrapalhando meu pensamento de forma brusca.
Tão brusca que eu demorei um pouco para me recuperar, afinal, HARRY JUDD AINDA MEXIA EM MEUS CABELOS! Delícia.
Enfim, quem respondeu a pergunta do (o empata foda).
- Que a é engraçada.
- Ela não é - disse simplesmente.
- É, eu não sou - falei ainda perturbada.
- Tá vendo. Eu sempre tenho razão.
Olha pra frente e vejo parado ali, com um sorriso vitorioso que rasgava seu rosto. Mas eu não consegui ficar com raiva do que ele disse, por ter se achado e tal.
Não consegui porque ele estava, simplesmente (simplesmente? Até parece!), sem camisa. E aquilo - a visão - era incrivelmente satisfatória! Até mesmo para alguém como , o empata foda. Miserável.
Então eu me dei conta. estava mexendo em meu cabelo (meu cabelo!), e estava na minha frente, sem camisa (sem camisa!).
E a única coisa que saiu da minha boca foi:
- Acho que... Que tá na hora de ir pra... Pra casa.
Merda! Eu fiz de novo, não fiz? Fiquei sem graça que nem uma menininha de cinco anos na frente de menininhos de cinco anos pura sedução.
Deus, eu era uma menininha de cinco anos!
- Aaah, é! - escutei falar, a voz dela soando risonha.
- Vem - empurrou e ficou na minha frente - Eu te ajudo a levantar. Larga ela, , porra!
Assim que parou de mexer em mim e resmungou algo, eu segurei a mão que me oferecia e fiquei em pé num impulso.
E lá estavam as duas meninas em minhas frente, ambas prendendo o riso.
Ótimo... Elas perceberam meus nervosismo infantil.
- JÁ? - berrou e ficou em pé também.
e riram e fez uma careta. Será que ele só sabe fazer isso? Caretas? Tomara que um vento passe e a cara dele fique assim pra sempre. Ou tomara que alguém me bata pra que eu páre de pensar - e agir - que nem uma menininha de cinco anos seduzida.
Menininhas de cinco anos seduzidas são patéticas!
- Urrum, bonitinho - falei bagunçando seus cabelos, para minha alegria interna - Não foi exatamente uma tarde de estudos, mas até que eu gostei, vocês são legais.
- Até eu?
- É. Até você, - ri, e vi abrir a boca, mas logo fechá-la. a beliscou ou algo do tipo, tenho certeza.
Nós começamos a andar em direção à porta e as duas engraçadinhas andaram mais rápido, me fazendo ficar entre e durante todo o caminho. Mas esperem, vacas, vocês me pagam.
- Então voltem amanhã e a gente estuda de verdade - propôs enquanto abria a porta da casa - A vai vir ajudar.
- Não vou não - Ela falou rindo - Me deixa fora dessa furada, .
Põe furada nisso.
- Sem problemas - falei pra e me virei pra - Amanhã a gente já vai ter aula de manhã pra a recuperação de história.
- E daí?
- Amanhã a gente já vai ter aula de manhã pra a recuperação de história - repeti, pra que ele se tocasse do que eu falava.
- Meu Deus, você gosta de repetir as coisas, hein - riu - Ok, depois de amanhã, então?
veio para o meu lado e respondeu antes que eu pudesse abrir a boca.
- Tá, tanto faz, eu quero ir pra casa tomar um banho - ela segurou meu braço, fazendo com que a gente desse um passo pra trás e acrescentou - Vocês são legais. Menos você, . E, , depois me liga pra a gente sair.
- É! Liga! - reforcei e todos riram.
e deram tchau com as mãos ao mesmo tempo e fechou a porta.
- Ai, ! Quase bateu em minha cara.
- Desculpa, .
- Quem tem cara é cavalo - a voz de soou distante e então o barulho de que algo tinha caído.
Sorri, assim que escutei aquilo e me afastei da porta fechada, destravando meu carro e indo até ele. me acompanhou num segundo, com um sorriso malicioso.
- Então, né. e ... - ela começou, mas logo a cortei, sentindo minhas bochechas esquentarem.
- Se você não tirar esse sorriso e esse assunto da sua boca, eu vou te deixar na rua, à pé e imunda.
Ela riu e andou até a porta do passageiro, abrindo-a.
- Mas...
- , cala a boca.
06
Minhas mãos estavam suando desesperadamente e eu me dei conta de que meu primeiro pensamento ao passar pelos portões do colégio eram sempre sobre as consequências dos meus malditos poros. Ótimo, agora eu era um psicopata ultra higiênico.
Não tinham muitas pessoas por ali, estava na moda aquela coisa de tirar notas boas e viajar. Até parece! Olha só pra mim, nunca não fiquei de recuperação e sou extremamente... Conformado.
É, talvez eu deva começar a andar na moda.
- ! - escutei alguém gritar meu nome, mas continuei andando - Porra, !
Eu não mereço. Cara, alguém com uma beleza como a minha não deveria ser incomodado. Nunca. Jamé.
Virei o pescoço, ainda andando e não vi ninguém. Bufei, ainda meio nervoso e sem saber ao certo o que fazer, voltando a cabeça à posição original. Assim que levantei os olhos dei de cara com parado em minha frente, me olhando com aqueles olhos de bola, totalmente assustador.
Dei um pulo, berrando e deixando meu caderno cair.
- PUTA QUE PARIU, ! SE FODER! QUAL O CARALHO DO SEU PROBLEMA? VOCÊ É DEMENTE?
- , porra, cala a boca! As paredes têm ouvidos.
- Não, , as pessoas têm ouvidos. E nós somos os únicos aqui - dei um tapa na cabeça dele e me abaixei, pegando meu caderno e olhando para o portão pra ver se alguém chegava - E não me chame de porra. Você sabe o que é porra?
Ele balançou a cabeça e eu ri.
Pobre virgem.
Não.
Pobre .
- É o que sai do caralho - dei de ombros e voltei a andar, sabendo que ele me seguia.
- E o que é caralho?
Às vezes eu me pergunto como ele consegue acordar e lembrar do próprio nome.
Andei rápido pelos corredores até meu armário e estendi a mão, girando o cadeado com os digitos da minha senha.
- Você, alguma vez, já se olhou no espelho? - perguntei despreocupado.
Qual era a senha mesmo?
ficou quieto por um tempo e eu imaginei que ele estava tentando absorver tudo aquilo.
Ah sim! 7...
- ENTENDI! - ele gritou e eu balancei a cabeça, rindo e marcando o sete no cadeado.
Agora é um 16...
Escutei passos se aproximando, mas ignorei.
8...
- Hey, , você sabe o que é caralho? - escutei perguntar, e errei o último número, colocando um 15 no lugar do 14.
- Merda - resmunguei baixinho, depois de puxar e ele não destravar.
Vi pelo canto do olho fazer uma careta e dar um peteleco no nariz do .
- Eca, , vai arranjar o que fazer - ela riu e eu coloquei o número certo, abrindo o cadeado com força e puxando a porta do armário. - Dia, .
Tirei minha apostila amassada de História e joguei meu skate de qualquer jeito lá dentro.
- Dia, - sorri e amassei mais ainda o papel, colocando-o no bolso - Feliz por passar mais uma manhã ao meu lado?
Ela sorriu mais ainda e eu senti, de repente, minhas bochechas pesarem.
- Supimpa! Estou quase vomitando de emoção. Pode abrir a boca pra mim?
- Qualquer coisa que saia da sua boca é bem vinda na minha - pisquei e ela riu, revirando rapidamente os olhos.
- Certo... Vou me lembrar disso - não entendi muito bem o que ela quis dizer, mas logo voltou a falar, olhando para os lados - Cadê o ?
- O que você quer com o ? - perguntei sem pensar, e a vi levantar as sobrancelhas e sorrir de forma totalmente pretenciosa.
Qual era o meu problema?
- Com ciúmes, ?
Ri, sentindo minhas bochechas voltarem a pesar, sem motivos aparentes.
- Supimpa! Estou quase vomitando de ciúmes. Pode abrir a boca pra mim? - repeti o que ela tinha falando minutos atrás.
riu e apoiou seu braço no ombro de , que nos olhava ao mesmo tempo em que segurava o riso.
- Qualquer coisa que saia da sua boca não é bem vinda na minha - ela disse num tom brincalhão.
Foi a minha vez de levantar as sobrancelhas e sorrir de lado.
Oh-ho, então a garota queria brincar com fogo?
Fechei o armário e olhei pra ela, que ostentava aquele mesmo olhar divertido de antes.
Aumentei meu sorriso antes de voltar a falar.
- Certo... Vou me lembrar disso.
Cuidado pra não se queimar.
parou ao lado da minha cadeira quando o sinal tocou e algumas garotas do time das líderes de torcida se levantaram mais à frente. Olhei para as pernas delas e depois para , que tinha o olhar fixo no mesmo lugar. Ri, pensando em como ele parecia lerdo as olhando daquela forma, e me levantei, dando um tapa leve no ombro dele, fazendo-o acordar.
- Vamos, meu caro! Vamos à caça - falei animado e amassei a apostila quase permanentemente amassada, voltando a colocá-la no meu bolso.
olhou pra mim rindo e saímos em passos largos na direção da porta, quando, de repente, sinto alguém nos barrar.
estava parada de costas pra a gente, falando no telefone e tapando totalmente a passagem.
Me remexi desconfortável e vi as meninas já saindo pelas portas pesadas do colégio, provavelmente indo pra a praia ou coisa do tipo. A imagem delas de biquíni invadiu minha mente e eu percebi que comecei a salivar. Voltei a olhar pra e escutei bufar do meu lado e cutucá-la.
- Vamos, bonitinha, eu preciso arranjar diversão pra hoje à noite. - ele falou baixinho e o olhou, com a testa franzida, sem entender nada.
Eu ri e a empurrou um pouco, correndo pelo corredor.
Dei de ombros. já tinha estragado a porra toda, de qualquer forma.
- Qual o problema com ele? - ela perguntou, sorrindo, depois de desligar e guardar o telefone na bolsa.
- Você - dei de ombros e andei até o meu armário, com ela ao meu lado, continuou me olhando sem entender e eu girei rápido os números, destravando logo a porta e pegando meu skate - Você tapou a porta quando nosso querido estava pronto pra o ataque.
- Ah - ela me olhou ainda confusa - Bem, mas ele saiu depois, de qualquer forma.
- Mesmo assim - eu ri e nós dois começamos a andar pra fora do colégio - Você sabe quanto tempo demora pra ele tomar coragem de correr atrás de garotas sem que ele esteja bêbado?
Nós nos olhamos e rimos, vendo - assim que chegamos à parte externa da escola - andar em nossa direção com uma feição triste.
- Digai, perdedor - riu, dando um tapinha no ombro dele.
- Eu só não te bato agora, porque você tem pernas lindas - ele disse ainda triste.
Mas hein? O que bater nela tem a ver com as pernas? Digo, se ele fosse bater nela, bateria nas pernas?
- Obrigada - ela agradeceu, ainda rindo - Eu acho. Então, eu já vou, meninos, mandem um tchau pra o .
- Ok, a gente se vê depois - beijou-a na bochecha e gargalhou.
- Só se eu for muito azarenta. - então acenou pra mim e começou a andar em direção ao carro dela parado no estacionamento do colégio.
Eu demorei um pouquinho pra raciocinar e então me dei conta de tudo. Corri até ela e puxei seu braço antes que ela pudesse apertar o botão da trava.
me olhou confusa e eu sorri.
- Pra onde você pensa que vai?
- Hm... Sair. - ela respondeu, tentando soltar o braço da minha mão - O que você tem a ver com isso, ?
- Você não acha que vai sair por ai de boas quando acabou de estragar a minha saída e a do , acha? - perguntei ainda sorrindo e ela pareceu mais transtornada.
Adoro sorrir quando os outros querem me bater. É tão excitante.
- Eu não acho ¬- fez uma voz engraçada de quem estava com raiva e então conseguiu soltar seu braço - Eu tenho certeza. E me poupe se vocês não conseguem ao menos arranjar alguma idiota que queira dar pra vocês numa noite de...
- Quinta - completei - Hoje é quinta.
Ela deu de ombros.
- Tanto faz.
- Vamos lá, - falei enquanto ela abria o carro e jogava sua bolsa no banco do passageiro. - Você vai lá pra casa e a gente estuda - falei sem pensar e escutei ela rir.
- Meu Deus, você é realmente bipolar, não é? Numa é legal, depois briga comigo, na outra tenta arruinar minha vida social, e então você quer que eu te ajude? - ela balançou a cabeça e entrou no carro - Tá maluco.
É, eu estava. De verdade, eu não sei o que merda tava pensando quando falei aquilo. Sabe como é, eu só estava realmente irritado pelo fato dela ter atrapalhado minha noite com a loira líder de torcida e agora ia ter uma saída legal com as amiguinhas e os peguetezinhos dela.
Ok, eu não estava tão irritado assim. A coisa toda era mais por orgulho. Quem ela pensa que é pra sair por ai atrapalhando os outros e ficar de boa?
Tá, ela não atrapalhou de propósito... Mas dá pra entender. Quero dizer, ELA NÃO PODE SAIR E PRONTO.
Agora é a hora que eu saio daqui porque já estou pensando e agindo que nem um imbecil.
- Você que é estranha.
- Será que dá pra virar o disco, por favor? - sorriu e fechou a porta, ligando o motor. - Ah, e pode me dar o número da ? A me pediu pra chamar ela pra sair com a gente hoje.
- Por que você acha que eu faria isso? - sorri ao ver que ela já estava se irritando de novo.
- Como raios eu ainda falo com você? - a escutei resmungar, meio pra si mesma, meio pra mim, depois ela me olhou e sorriu cínica - Bom final de tarde no mofo, . Tchau.
E então arrancou com o carro.
Sorri e gritei.
- PARE DE CHORAR POR MIM, EU NÃO VOU TE BEIJAR!
Vi um dedo ser colocado pra fora e ri mais ainda. Me virando e vendo e chegando do meu lado.
- O que foi, cara? - riu, me olhando e eu fiz um movimento com a mão, dizendo pra deixar pra lá e puxei meu celular do bolso.
- Liga pro , nós vamos sair hoje - sorri e disquei um número já conhecido. A voz sonolenta soou do outro lado e eu olhei pra , que dizia o número de para que alegava dizendo não lembrar do número de ninguém e ter preguiça e ir na agenda. - ?
- Diz, .
- Será que dá pra a gente sair hoje?
07
A parte mais difícil em toda essa história de recuperação foi não deixar que meus pais soubessem desse deslize, ou eu não teria um momento sequer de paz até que as aulas recomeçassem.
Vejam bem, eu gosto de paz, e de liberdade. E justamente por querer preservar todas essas coisas foi que eu pedi ajuda à Lisa.
Lisa, minha irmã (aparentemente) renovada, que quase bombou em todo o Ensino Médio, mas que está tirando a faculdade de letra. De letra dos outros, só se for, porque todo mundo já fez uma prova e assinou como Elizabeth , menos ela.
Papai e mamãe que não soubessem disso, nem dos outros 47 tipos de drinks que minha irmã sabe fazer com uma garrafa de vodca. Para eles, ela ainda era Lisa, Liz, Lizzie... A renovada.
Bem, a Elizabeth que eu conheço está vindo em minha direção nesse momento, com dois drinks, na frente de uma eufórica.
- IRMÃZINHA! - ela gritou e jogou seus braços envolta do meu pescoço, derrubando um pouco de wisky na parte de trás da saia que eu usava.
Tudo bem, era dela mesmo.
- Hey, Lisa - sorri e peguei o copo que ela me estendia - Vocês demoraram.
- A tava de amasso com um bonitão ai.
fez uma cara indignada e gargalhou, dando um tapinha nos ombros de minha irmã.
- Calúnia!
- Ah, fica quieta, você sabe que é verdade - Lisa entortou a boca e me olhou - Aquele cara tá te olhando, .
Eu ri. Aquilo era tão típico de Elizabeth.
- Não, ele não está - dei de ombros, bebendo um pouco da minha bebida - Droga, o que é isso?
- Qualquer coisa - Lizzie respondeu e riu.
Como assim?
- Não entendi.
- Eu perguntei o que você queria beber, e você respondeu toda monga: "qualquer coisa". Eu falei isso pra o barman e ele me deu isso. Tá ai, qualquer coisa.
Apenas sorri de volta, irônica.
Esse foi o maior dos motivos para eu ter pedido a ajuda de Lisa. Ela era tão irritante quando queria que ninguém nunca lhe negava nada. Foi fácil fazer meus pais desistirem de querer saber minhas notas finais depois que ela começou um discurso sobre como eu tinha o direito de não querer mostrar o boletim, já que privacidade é algo que se deve respeitar e etc.
Extremamente fácil, uma vez que ela não consegue calar a boca depois que começa a falar.
- Cadê a putaaa? - berrou, mexendo as pernas e rindo.
Eu olhei envolta, passando os olhos por todo o pub.
Estava tão cheio que mal dava pra respirar direito. O ar era uma mistura de perfumes, cigarro, álcool e pasta de dente. Isso mesmo, pasta de dente.
- Qual puta? - perguntei e tomei outro gole, dessa vez maior e menos ardente.
- .
- Hmm - deixei um dos gelos que tinham no copo entrarem na minha boca e logo depois o cuspi - Ela vem?
- Deveria estar a caminho. Pelo menos foi o que eu entendi através dos gritos do .
Sorri sem perceber.
, o deus grego reencarnado. O símbolo de beleza e sensualidade britânica. Deus, ele acaba comigo.
- Preciso conhecer esse - Lisa riu - Vocês fazem uma cara tão idiota e pervertida quando falam dele que só aumenta minha curiosidade.
Lizzie amaria o quando o conhecesse, ia ser o tipo de brinquedo que ela ainda não tinha testado.
Mais novo, gostoso, malicioso, charmoso, gostoso, charmoso...
- Como alguém pode fazer uma cara de idiota e pervertida ao mesmo tempo? - deixou seu copo vazio em cima da mesa e voltou a mexer as pernas, impaciente.
Primeiro sinal de que ela estava ficando bêbada: inquietação.
Primeiro sinal de que eu estava ficando bêbada: eu estava reparando naquilo.
- Pergunte aos seus músculos - Lisa mexeu nos cabelos e sorriu - Vire-se, , vários gatos atrás da sua pessoa.
Ela não tinha falado exatamente comigo, mas quem não se viraria depois de escutar algo desse tipo? Bem, eu me virei ao mesmo tempo que , para ver os garotos que se aproximavam ao lado de uma garota bem vestida e saltitante.
Tomei o resto do conteúdo do meu copo de uma vez só.
Puta merda, o que porra eles estavam fazendo aqui?
- Sentiu minha falta, lindinha? - escutei aquela voz irritante me perguntar e olhei indiferente para ele, sorrindo de forma cínica.
- Não o suficiente.
riu e virou-se para falar com . Lizzie me lançou um olhar malicioso quando lhe apresentava e e balancei a cabeça num movimento de quem não acreditava naquilo. Bem, aquela era a minha irmã.
Olhei para , que vinha andando até mim e sorri de forma engraçada.
- Quem te vestiu, ? Sua avó?
- Não, o .
, que estava parado do meu outro lado falando com , olhou pra a gente e mostrou o dedo do meio, soltando alguns palavrões que eu nem imaginava existir.
, , Lisa e haviam sumido alguns minutos atrás, quando o lugar começou a esvaziar e as brigas entre e se tornaram constantes. Eu não tinha a mínima idéia de onde estavam e não fazia a mínima questão de saber. Já tinha ingerido mais álcool do que pensei ser possível ingerir em apenas quatro horas e já começava a sentir meus dedos dos pés e das mãos formigarem.
- Mas eu não briguei, porque eu não sou cara de brigar - terminava de contar a história e eu olhei rindo pra , sem nem lembrar mais sobre o que ele falava.
- Claro que não! Você apanhou! - berrou e eu quase cuspi minha cerveja de tanto rir.
- Isso mesmo - gargalhou e deu uns tapinhas do ombro do - não é menino de bater, e sim de apanhar.
Eu e fizemos um legal com os polegares e contorceu o rosto numa careta.
- Menino não, , homem, faz o favor - ele estendeu a mão aberta pra ela, fazendo uma expressão de pena e eu joguei a tapinha de minha garrafa nele.
- Só fazendo favor mesmo, né?
e fizeram um coro de "uuh" e ele fingiu se levantar para vir atrás de mim, mas eu gritei, balançando minhas pernas em frente ao corpo para que ele não chegasse perto.
- Você bem que queria ver como eu sou homem - inflou o peito e eu fiz um bico.
- Oh, por favor, , me mostre como você é homem.
- EW! - e gritaram ao mesmo tempo e bateu seus ombros com os meus, fazendo uma cara sacana.
Sorri maliciosa pra o .
- E ai, gato? Dois cocos caíram de um coqueiro, rola ou não rola?
- Ah, cala a boca - ele virou a cara vermelha - e emburrada - pra o outro lado.
Um barulho alto chamou nossa atenção e nós vimos se aproximar, empurrando pelos ombros, que berrava e ria ao mesmo tempo.
- Segura aí! - a empurrou com mais força, fazendo-a cair em cima de .
- Você pesa, - ele fez uma careta e ela o xingou, mudando para o colo de , que nem ao menos reclamou - Você não sabe o que eu viii, ! - ela fez uma cara de suspense exagerada e colocou os braços envolta do pescoço dele.
Eu olhei maliciosa para , que balançou a cabeça rindo e sentou na cadeira vazia ao lado de .
- Não, , eu não sei. Me conte - riu e ela concordou animada, abrindo tanto os olhos que eu pensei que eles fossem saltar de suas órbitas, depois se virou em minha direção e me deu um tapa no braço, para que eu também prestasse atenção.
Gente bêbada tem uma força impressionante, acreditem.
- A Lisa, isso mesmo, , sua irmã, com o MEU irmão na porta do banheiro e sabe o que eles tavam fazendo?
Eu não sei se fazia tanta questão assim de saber. Tipo, eca! Mas tinha uma breve - e pervertida - idéia do que seria.
- Te digo que, depois do que eu vi - fez um movimento com os braços, batendo o cotovelo no olho de , que berrou - Ahh, desculpa, . Mas siiim... Meu irmão pega pra caralho.
- A Lisa tá se pegando com o ? - falou alto e espantada, a olhou irônico.
- ACHO que era o que falava.
- Não me dirigi a você, .
- Eu não sou carro pra você me dirigir.
Bebi um pouco da cerveja de , pra não rir, depois de ver fazer uma cara de desprezo e ignorá-lo, puxando conversa com . Que ainda estava bêbada e no colo do . Que ainda sorria e parecia longe de reclamar.
Mais um gole.
Acho que eu tava começando a entender como as coisas funcionavam ali.
- está se revelando um filtro de primeira! - me deu um tapinha de camarada e eu ri, sem saber por que - Minha pobre garrafa já está vazia.
Ri de novo ao escutar aquilo, e então outra vez depois de ver a forma qual me olhava.
De repente, tudo me pareceu mais engraçado do que antes e eu, além de não sentir as pontas de meus dedos, também começava a não sentir minha língua. Sabia o que aquilo significava, também sabia o que vinha depois. E cá entre nós, eu simplesmente adorava tudo aquilo.
- Eu preciso de muitas outras garrafas pra agüentar vocês, bonitinho - falei divertida.
- Outch! - fez uma cara irônica e se virou pra mim - Bate aqui, gata.
Nós fizemos um high five e começamos a rir.
- Ahh, eu também quero! - guinchou do outro lado da mesa.
cuspiu um pouco do que bebia e fez uma voz fina, imitando minha amiga.
- Ahh, eu também quero!
Droga, onde todo mundo tinha se metido? De uma hora pra a outra, eles começaram a se dissipar e quando fui perceber, só sobrávamos eu e (que roncava com a cabeça encostada na mesa), sozinhos, abandonados, desamparados, e fazendo uns barulhos estranhos. Pelo menos ele fazia uns barulhos estranhos.
Eu não conseguia enxergar um palmo na minha frente. Tentei me levantar da mesa, mas acho que não fui tão bem sucedida, porque assim que estendi a mão pra me apoiar em algum lugar, escutei o baque surdo de algo no chão, mas não me importei, eu precisava achar um banheiro ou minha bexiga explodiria!
Me desculpem, mas eu tenho um afeto extremo por todos os meus órgãos. Principalmente minha bexiga.
- Finalmente - suspirei aliviada e empurrei uma porta grande e laranja, que pensei ser o banheiro feminino.
Como se o banheiro feminino tivesse aquela porra de cheiro. Eu achei que iria vomitar em minha própria boca!
- ? - escutei alguém perguntar e olhei para o lado de onde vinha a voz, vendo apenas um corpo se aproximar e tocar em minha testa - O que você tá fazendo no banheiro masculino?
- Oh, droga! - passei a mão pelos cabelos, desesperada com a idéia de algum aproveitador me achar ali - Desculpa, não foi minha intenção.
Mexi meu corpo para sair por onde tinha entrado e escutei a risada da pessoa que falava comigo. Parei e o olhei mais uma vez, conseguindo distinguir os cabelos sempre bagunçados e o som do riso de . O meu karma, o meu inferno astral, a pedra no meu caminho, o meu empata foda. E, ironicamente, a única pessoa que poderia me salvar do meu desespero fisiológico.
Mas parece que a porra da minha salvação só sabia rir de como eu estava bêbada.
- ? - minha voz soou embolada até mesmo para os meus ouvidos e eu pensei ter visto ele fazer uma careta, mas tudo parecia fazer careta para mim, então talvez fosse só minha visão distorcida - Eu tô me mijando, dá pra parar de rir da minha cara? Minha bolsa vai explodir!
- Bexiga, , sua bexiga vai explodir - ele continuava rindo.
- Tanto faz, é tudo a mesma coisa.
Imaginei que ele tivesse feito outra careta e tive vontade de socar aquela carinha cínica dele. E dessa vez, se eu socasse, não teria a menor pena de quebrar qualquer uma daquelas partes bonitas que tinham ali. Merda! Por que ele não tava tão bêbado como eu e pronto? Agora eu ficava aqui, agindo que nem uma monga enquanto ele ria de mim.
Parabéns para mim, nessa data querida, muitas felicidades, menos na minha vida.
- ! - berrei e tentei segurar seus braços, mas tava meio difícil me mexer com aquela coisa pesando no meu ventre - É sério, eu preciso tirar a água do joelho!
- Deus, pare de falar que nem um homem! Você quer que eu faça o que? Abra a boca pra que faça xixi dentro dela?
- Contanto que eu tire toda essa água de dentro de mim.
- Cara, você é nojenta. - ele balançou a cabeça em negação e eu pensei que iria vomitar ao vê-lo fazer tal movimento - Vem, eu te levo pra casa.
Certo... Como? Tentei livrar meus braços dos dele, que me puxava levemente para que o seguisse e tentei o enxergar de forma mais nítida. Eu não estava bem, eu não sabia o que via, a única coisa que martelava na minha cabeça era que eu não queria deixar que ele me levasse para casa. Não que também não pudesse estar bêbado e tudo o mais, mas é que simplesmente quando a idéia de ter me arrastando bêbada até a porta de minha linda e humilde residência (a qual os meus pais ainda freqüentavam, diga-se de passagem) passou pela minha mente, eu senti que não poderia deixar que ele a executasse.
Eu não queria que ele me arrastasse para casa. Já bastava eu estar gritando em sua cara que queria mijar.
- Não, não vai - falei rápido e nem soube como conseguir soletrar as palavras coerentemente - Você não sabe onde é e eu vou passar vergonha.
- Passar vergonha por me ter te levando até em casa?
- Nops, só depois, quando fizer questão de esfregar isso em minha cara.
- Você é realmente meio maluca - riu e voltou a pegar em meus braços de forma mais firme. Toda a vontade de que ele me soltasse pareceu evaporar de meu corpo no mesmo instante - Eu não estou bêbado e eu sei onde você mora porque, por acaso, minha casa é do outro lado da rua.
Claro, e ele não estava bêbado.
? Morando do outro lado da minha rua?
Ri debochada e senti minha bexiga apertar mais, cruzei minhas pernas e o olhei.
- Certo, chega de tirar com minha cara. Pre-ci-so de um va-so - falei devagar e pausadamente, sentindo minha consciência voltar aos poucos, talvez pelo fato de eu estar realmente precisando fazer xixi. Será que não dava pra ele entender isso? - , olha, lindo, fofo - falei mansinha e o vi sorrir. Claro que o desgraçado sorriria depois de eu chamá-lo assim - Me deixa ir ao banheiro que eu te deixo me levar em casa, ok? Tudo bem sobre a mentira de morar na minha rua.
- Não é mentira!
- ! - berrei desesperada e ele me soltou.
Não falei mais nada e corri para o box mais próximo, esquecendo no mesmo instante do que havia prometido.
Eu era uma imbecil. Uma enorme imbecil e me tornava uma maior ainda quando tentava negar, ou enganar a mim mesma de que eu não era. O que eu tinha na cabeça quando fui dizer que tudo bem ele me levar pra casa? e nos olharam com caras tão perversas quando pedimos para que eles avisassem aos outros que eu quase desejei um buraco para me enterrar.
Nesses momentos, eu preferia continuar de pique, sem me lembrar de porcaria nenhuma e com quase todos os meus membros dormentes. Mas a merda do líquido que saiu do meu corpo levou consigo todo o álcool que eu ainda carregava e agora eu tinha plena consciência do que estava acontecendo e da forma qual eu cheirava. Não lembrava de ter fumado nada, mas minha blusa estava simplesmente insuportável com o cheiro do tabaco.
Normalmente, eu gostava do cheiro do tabaco. Não que eu fumasse, mas eu achava bom, assim como certas pessoas gostam do cheiro de gasolina. Podem me chamar de estranha ou o que for, mas não posso mudar o meu organismo completamente maluco. Mas enfim, naquele momento, com meu estômago embrulhado e uma vontade de sair de perto de , eu nunca desejei tanto não estar cheirando assim. Aquele odor que entrava pelas minhas narinas só fazia com que eu ficasse ainda mais agoniada em toda aquela situação.
- Não sei pra quê tanta questão de me trazer, eu já estou melhor, não vê? Esperaria de boas a Lisa se soltar do para voltar pra casa - bufei depois de um tempo calados e não mudou seu estado, de frente ao volante com os olhos fixos no trânsito e totalmente silencioso - Eu estava falando com você.
- Eu sei, é que eu tava tentando imaginar o porquê de você implicar tanto com eu querer te trazer em casa - ele respondeu simples - Não vou te abusar nem nada, só tava meio sem saco pra ficar e se eu saísse sem desculpa, os caras tirariam uma com a minha cara.
Bem feito. Bem feito mesmo. Imbecil.
- Foi porque quis! Dando uma de infantil querendo acabar com a minha noite só porque eu tirei sua chupeta de hoje - eu disse maldosa e riu.
- Como se você mesma não tivesse estragado. Já tava vendo a hora de outro cara ter te pegado lá no banheiro e você arranjando uma briga com ele. Seria expulsa da boate e ainda faria xixi nas calças do lado de fora.
Bufei, porque sabia que no fundo, ele tinha razão. Eu, na verdade, não tinha mais do que reclamar, tinha? Estava voltando pra casa e ainda tinha tido uma noite engraçada, animada, divertida... Pelo menos as partes quais eu lembrava.
- Seria engraçado - eu tentei não rir, mas foi impossível, a situação me pareceu extremamente cômica - Eu me mijando do lado de fora da boate.
riu ao me ouvir falar aquilo e arriscou me olhar por alguns segundos, mas logo voltando sua atenção para os carros na rodovia.
- Nem me fale, eu pagaria 30 libras pra ver.
- 50.
- 40.
- 35! - berrei e gargalhamos - Aw, 35 não, eu sou uma atração que merece muito mais do que só isso.
Ele fez um barulho com a boca debochando e eu dei um tapa em seu braço, voltando a rir levemente e em seguida encostando minha cabeça no vidro da janela.
- Sua cabeça dói? - o escutei perguntar, mas continuei de olhos fechados.
- Não muito, mas amanhã ou ela acorda boa, ou doendo mais do que tudo - suspirei e me dei conta de que estava sem Lizzie e conseqüentemente, sem chave - Droga! A chave ficou com a Liz.
- Você pode ficar lá em casa até ela chegar, se quiser.
Hm... Melhor não. Digo, tudo bem que a gente brigasse às vezes e ele fosse meio que insuportável, e tá que também tinham as horas em que a gente se dava bem e ele não era tão ogro assim. Mas a mesma sensação que eu tinha sentido no banheiro ao imaginá-lo me levando em casa totalmente bêbada voltou a percorrer pelo meu corpo. Como se a idéia de me ver naquele estado por tanto tempo realmente me incomodasse.
- Não precisa - sorri sincera, abrindo os olhos e olhando seu rosto de perfil - Provavelmente a porta de trás tá aberta.
Nos calamos mais uma vez e eu vi o cruzamento da minha rua. Observei como se fosse pela primeira vez todas aquelas casas que de alguma forma, eram ridiculamente iguais e tentei imaginar como vinha morando todos aqueles anos na porta em frente à minha e eu nunca tinha notado. Será que eu era realmente tão olhos fechados para certas coisas? Digo, eu nem ao menos sabia diferenciá-lo do e hoje, depois de apenas alguns dias de convivência eu já nem consigo encontrar um ponto que os torne iguais.
Eu hein. Bizarro demais.
O carro parou em frente à minha casa e eu abri a porta, cambaleando levemente ao sentir o ar gelado se chocar contra meu corpo. Qual insana aquela noite tinha sido? Eu começara sem ao menos querer encarar o e agora saía de seu carro depois de aceitar sua carona. Todo aquele lance de altos e baixos entre a gente me deixava tonta.
- Então, como te disse, minha maravilhosa casa é ali - ele apontou para a construção do outro lado da rua, exatamente em frente à minha e eu a observei. Nunca tinha realmente parado muito tempo para notá-la - Claro que ela parece humilde e igual a todas as outras, mas um dia, quando você entrar nela, vai ver como é o lar de - ele estufou o peito e eu ri, apertando os braços contra meu corpo, de frio.
- Claro, porque humildade e a sua pessoa não podem coexistir pacificamente - mexi minhas pernas e coloquei meu corpo de lado - Vou entrar, , está muito frio e eu já tô começando a sentir meus membros outra vez, e bem, eles doem.
Nós rimos outra vez e parou me olhando por alguns segundos.
Então eu não pensei em mais nada por alguns segundos.
Nada.
- Boa noite - ele disse de repente e sorriu de uma forma que eu nunca o tinha visto sorrir para mim - Espero que você não tenha uma ressaca quando acordar amanhã.
- Boa noite - respondi e dei um soquinho em seu braço, correndo até a média que separava o gramado da frente da parte de trás do quintal da minha casa.
Passei um braço para o outro lado, vendo que o pequeno cadeado não estava fechado e abri a portinha, entrando no quintal e então voltando a fechá-la, dessa vez deixando a tranca sem fingimento algum. Levantei meu olhar uma última vez e vi que já estava em sua calçada, me observando atentamente.
Sorri sem perceber.
- Não sonhe comigo! - o escutei gritar e ri alto, procurando responder antes que ele entrasse em sua casa.
- Não se apaixone por mim!
08
Eu gostava desse clima, no geral eu sempre meio que gostei desse friozinho e tudo o mais, mas dessa vez me pegou em cheio. É uma maldição, por mais que você se acostume com a coisa, ela sempre acaba te pegando no final.
No geral, eu gostava quando algo me pegava, mesmo achando melhor quando eu era quem pegava. Pegar é uma arte, se é que você me entende.
- Tô saindo! - gritei, enquanto abria a porta da frente.
Escutei um "ok" em resposta e tentei não imaginar por que os passos pareciam tão fortes no andar de cima. Não era hora de me preocupar com os problemas de casa. Não era hora mesmo.
Ela estava debruçada sobre um livro, com uma caneta na mão, sentada em uma mesa na varanda. Observei espirrar e fechar os olhos, visivelmente incomodada. Destravei o alarme do carro ainda a encarando e ela logo virou o rosto para ver de onde tinha vindo o barulho. Tava na cara que era um alarme de carro! Ela só deve ter olhado pra ver se era eu. Na verdade, ela só devia estar ali fora pra atrair a minha atenção. ApaixonadaporDougie .
- Hey, você! - falei casualmente, e ela sorriu, acenando com a mão que segurava a caneta.
Não tinha me ligado no que eu estava fazendo até que pisei na grama de seu quintal e encostei na madeira da varanda, ficando com a cara nas pernas da cadeira que estava sentada.
E que pernas. Não as da cadeira.
- Aw, - grunhiu e fez um careta - Se eu soubesse que isso ia fazer você se aproximar, não teria sido simpática!
Levantei as sobrancelhas, rindo.
- Você sabe que queria que eu viesse - ela bufou do meu comentário e eu balancei uma de minhas mãos em sua direção - Belas pernas.
- Me poupe.
Ri de novo e voltou a espirrar. Eca, eu precisava sair dali ou ia acabar pegando seus vírus.
- Melhoras aí, tô saindo - sorri um dos meus sorrisos e tentou retribuir, mas espirrou outra vez.
Tudo bem que ela às vezes era bonita. E tinha belas pernas. E bunda. Mas isso não me obrigava a ficar com pena dela e levá-la pra tomar um remédio ou coisa do tipo. Porque eu não estava com vontade de fazer essas coisas.
Ah, cara. A carne é fraca.
Me virei de volta pra ela, já no meio do caminho. ainda me olhava e franziu a testa, confusa.
Sério, eu mereço ir pra o céu!
- Vem, entra no meu carro que eu te levo numa farmácia - falei, me dando por vencido, mas a engraçadinha continuou a me olhar sem entender - Olha, , eu sou uma ótima pessoa e já que nós vamos conviver por um tempo...
- Não por minha vontade, que fique claro - ela me interrompeu, mas eu ignorei.
-... Eu não quero que você me transmita esses trecos. Eu sou lindo e importante demais pra ficar doente - parei pra respirar e voltei a sorrir - Então, dá pra entrar no carro pra que a gente vá logo comprar essa porcaria?
Dessa vez ela levantou as sobrancelhas, com um ar divertido.
- Você sabia que não precisava tudo isso, né? Era só pedir.
Cerrei meus olhos e apontei para o carro. Como uma pessoa tão anormal e bonitinha pode tirar alguém tão perfeito, completo e lindo como eu do sério que nem ela?
- Vai ou não?
riu e se levantou, correndo pra deixar os livros dentro de casa e logo vindo ao meu encontro, dentro do carro.
- Eu não fiz nada demais - falei me defendendo, mas continuava com o rosto virado pra a janela e uma mão puxando o cordão do meu casaco, que ela vestia - A culpa não foi minha.
De verdade, nem sei por que eu estava me desculpando! era uma menina mimada que achava que, só porque tem o corpo que realmente tem, pode sair por ai pulando. Quer dizer, a culpa não foi minha se ela quicou como um bola até o meu lado na farmácia e bateu o copo de chá na minha mão.
Agora eu estava com frio e o casaco dela fedia à erva-doce no meu banco traseiro. Ela iria pagar a lavagem.
- Oh, , por favor, cale a boca. Eu ainda tô tentando descobrir por que aceitei vir com você - ela bufou e encostou a cabeça no banco, fechando os olhos.
- Já disse que a culpa não foi minha! Você que veio pulando que nem uma idiota até onde eu tava!
- Aí você bateu sua mão no meu copo! - me olhou inconformada.
- Eu? Você quem se jogou em cima de mim!
- QUE ABSURDO!
- Você tá doente! Pessoas doentes ficam quietas. Não saltitantes! - bati com força no volante, já sem paciência e vi pelo canto do olho que ela tinha retraído os ombros, se encolhendo mais no banco.
- Tudo bem, me leve pra casa.
Eu não me impus. E daí que ela estava com raiva? Eu não sou a Oprah pra me dispor e escutar o que ela tem pra falar, e também não vou me desculpar. Eu sou homem, eu estou certo e eu não vou me desculpar. Se eu fizer, ela vai sair por aí se gabando e todo mundo vai achar que eu perdi minhas bolas. Foi mal, , mas eu preciso das minhas bolas.
- Obrigada - ela murmurou quando eu parei o carro na porta de sua casa.
- Disponha.
Destravei as portas e ela abriu a sua, dando um pulinho pra sair da caminhonete. Deus, essa menina gosta de pular!
Merda, pensamento pervertido.
- A gente se vê! - eu acenei e ela concordou com um aceno de cabeça, virando-se para andar até sua casa.
Esperei fechar a porta e tirei o carro do freio de mão, acelerando e saindo pela esquina oposta da qual tinha entrado.
Liguei pra quando parei no primeiro sinal.
- Encontrei doente e tive que levar ela na farmácia pra comprar um remédio, mas já saí - respondi quando ele atendeu gritando "cadê você, porra?" - Onde vocês tão? Não, , eu não dei uns pegas na ... Dá pra você me dizer onde vocês tão? - parei pra escutar ele falar outra coisa, ri, e ele finalmente disse onde estavam - Valeu.
Fechei o flip e foquei em minha mente um mapa de como chegaria no Stamps Bar em vinte minutos. De repente, minha garganta parecia gritar por álcool.
- Eu vou parar de beber! - gritou e bateu o copo vazio na mesa.
Eu e rimos.
- É sério, eu tenho 17 anos e bebo como um velho - ele fez uma voz indignada e tirou sua atenção da gostosa atrás do balcão.
- Isso é relativo, meu caro. Não se tem idade pra beber.
- Você falaria isso se a sua filha de dez anos bebesse?
- Não meta a filha que eu não tenho nisso - apontou um dedo pra e depois riu sacana - Ela não vai chegar perto de nada com álcool até os 18, é só criar ela bem longe de você.
- Nada com álcool? Ela vai ser mulher, ! Mulheres usam aquela coisa, acetona... É acetona? Nas unhas!
Rolei os olhos, cutucando e falando baixo pra não atrapalhar a discussão das bichas.
- Tinha esquecido que o parece uma moça depois que bebe.
riu e concordou, voltando a prestar atenção em outra coisa.
Cara chato. Todos chatos. Eu chato. Dia chato.
- Que história foi aquela da ?
Me virei pra olhar pro e peguei minha cerveja. Dei um gole antes de falar, minha garganta ainda arranhando.
- Ela tava com cara de doente na frente de casa e me obrigou a levar ela na farmácia pra comprar remédio.
- Sei - fez um barulho debochado com a boca.
- Sério! Você já viu as pernas dela?
- , o que as pernas dela tem a ver com você perdendo as bolas e levando ela pra comprar remédio? - eu não disse? Meus amigos lêem meus pensamentos!
- Não tem como negar alguma coisa com aquela visão - dei mais um gole e lambi meus lábios. A visão das pernas de em minha mente.
- Cara, ela é boa - riu e fez high five com .
Eu ri, porque de repente aquilo me pareceu engraçado. Meu celular vibrou e eu escutei perguntar:
- Quem é boa?
- - respondeu.
Assim que li o nome de na bina, olhei pra , estranhando ela estar ligando pra mim e não pra ele.
- A Lisa é demais - ele se gabou e arrotou.
- Demais pro seu carrinho-de-mão, isso sim.
Escutei soltar uma gargalhada exagerada e ri também, virando o rosto pra o outro lado, tentando não pegar muito barulho. Atendi o telefone.
- Oi?
- ? , tá me escutando? Alôô? - como dois irmãos podem ser tão parecidos? Ah, claro, eles são gêmeos!
- Eu tô te escutando, , não precisa falar que nem uma débil mental!
me olhou quando eu falei o nome de sua irmã e mexeu os lábios perguntando o que era e eu dei de ombros, sem saber.
- Perdão, bundão. O ridículo do meu irmão tá ai com você? Ah, claro que tá! Passa logo ai pra ele.
Um dia eu vou afogar a . Sério. Não me importo se ela é bonita ou irmã do meu melhor amigo. Às vezes eu simplesmente tenho vontade de afogar ela.
- , sua irmã - dei um tapa no ombro dele, que me olhou feio e pegou meu celular.
Todos nós paramos pra ver as caretas que ele fazia e os gritos de ", não!", "Me poupe!", "Tá me achando com cara de quê?", "Vá se foder!" e "Ok, tô indo te pegar". desligou, me entregou o celular, bebeu um gole de sua cerveja e parou pra ver a forma que a gente ainda olhava pra ele.
- Quê? - ele perguntou com cara de idiota.
- Quê o que? - rebateu e todos reviramos os olhos, batendo na cabeça dele ao mesmo tempo - Ai, caralho!
- O que foi ae, ? - perguntou e se levantou, jogando uma nota de 20 na minha frente.
- Isso deve dar - ele só comentou e eu levantei minhas sobrancelhas, fazendo cara de indignado.
- Isso não dá nada, querido! Meu programa aumentou. Cinqüenta paus por hora - fiz uma voz afetada e riu.
- Idiota - soltou uma risada meio que bufada e puxou pela camisa - Vamos, Pinky, temos que salvar o mundo!
o olhou confuso.
- Hein?
- Vamos pegar a no shopping, imbecil! - revirou os olhos e se levantou - Agora me chama de Cérebro!
- , Pinky e Cérebro querem conquistar o mundo! Não salvar ele.
- Ah, tanto faz, meu nome é Cérebro, o seu é Pinky, e você é gay - começou a andar e foi atrás dele, desajeitado.
- Não, seu nome é , e você é idiota.
Ri e olhei pra , que pegava o dinheiro de e juntava com mais um pouco que eu achei ser dele.
- mão-de-vaca não deixou nada, vou ter que pagar a parte dele - bufou e eu ri, tirando uma nota de vinte e uma de dez da carteira.
- Toma, vai lá pagar! Tá de carro ou quer carona?
- Posso dormir na sua casa hoje? Tô de saco cheio da minha irmã.
Concordei e saiu pra o balcão, indo pagar a conta. Me levantei, tirei as chaves do bolso de trás e fui pra a saída. Eu esperaria no carro, precisava me aquecer, já que estava sem o meu casaco favorito.
- Olha sóóó! - escutei berrar e apontar pra algum lugar assim que parei o carro na frente da minha casa.
Me virei pra olhar e vi que estava sentada nos degraus em frente à sua porta, conversando normalmente com . Vi abrir a porta e sair com uma rapidez enorme e correr até onde elas estavam, gritando um monte de porcarias que fez rir e girar os olhos. Merda! Odeio quando dá uma de retardado extremamente sociável e vai falar com as pessoas quando eu não estou afim de falar com elas.
Nem elas comigo.
Vi lançar um olhar em minha direção e tenho certeza que ela ainda tava de birra pra cima de mim por causa do lance do chá na farmácia. Suspirei quando ela voltou a olhar pra e prestar atenção no que ele falava, me virei, pegando o casaco dela, cheirando à chá e ainda úmido, do banco de trás e sai do carro, fechando a porta e acionando o alarme.
Ótimo, agora eu tinha que ir até eles, falar com um idiota que não sei por que ainda é meu amigo, uma garota que até era legal e outra que usava meu casaco e tinha as pernas mais lindas que eu já tinha visto.
n/a: nossa, demorei de novo, não foi? HSAUIHS vocês têm que entender que ALG é uma fic que exige muito dos meus pobres neurônios e meu desprezível senso de humor. Ou seja, demorar é normal, mas eu sempre volto! HSIAUHSUIAHS nem tenho o que comentar hoje ): só que meu pulso tá doendo muito, que eu já tenho o próximo capítulo na cabeça, e que é pra vocês torcerem pra eu ter recuperado as notas das matérias que eu fiquei em recuperação, senão sem computador o resto das férias! YEY! Vou tentar garantir o próximo capítulo até segunda (depois de amanhã), que é quando meu prazo acaba e minha mãe tira meu neném de mim mimimimi dia 28 saberemos se eu sou inteligente ou não, há! Beijos, vocês são lindas e eu sei que me amam, TCHAUUUUUUUUUUU.
xx