Capítulo 1
Não posso acreditar que ela fez isso comigo.
Quero dizer, é tão antiético. Acho que devia haver uma lei proibindo uma pessoa de fazer isso com a própria irmã gêmea.
Acho que todo mundo sabe que é feio delatar as pessoas. A não ser que tenha acontecido um crime, ou coisa assim.
O que não é o meu caso. Definitivamente não. Quero dizer, milhões de pessoas tiram notas baixas em Trigonometria todo tempo.
Talvez não milhões. Mas milhares, com certeza.
Mas acho que esqueceu que dedurar sua irmã é uma coisa muito feia. E me dedurou, total. Ela pode falar o quanto quiser: “Ah, por favor, , como se você tivesse sido realmente prejudicada”, mas eu não vou esquecer.
O pior de tudo é que eu sei que não fez por mal. Ela só não mede as conseqüências do que fala. Eu não consigo ficar com muita raiva dela. Mas é claro que ela tem que se sentir um pouquinho culpada, então eu vou torturá-la mais.
O caso foi o seguinte: queria ir a uma festa com as amigas dela, e papai não queria deixar. Discurso clássico do meu pai: “Suas notas estão caindo, . Assim que você for privada de certas coisas, vai pensar muito bem antes de tirar quatro em Português”.
poderia ter argumentado de várias formas. “Papai, você sabe, o Português é mais difícil que Inglês” ou “Papai, eu apenas não me acostumei com todas essas regras”. Mas não. Ela tinha que abrir sua boca absurdamente grande para falar, na cara-de-pau:
– Isso não é justo, pai! tirou quatro em Trigonometria e ainda pode sair com a e com os meninos.
Ao que meu pai respondeu:
– ... Trigonometria... Quatro... O quê?
deu um gritinho de susto ao perceber o que tinha falado. E olhou para mim com aquela cara de desculpas.
Meu pai, alheio às caretas de , decretou:
– Agora chega. As duas estão proibidas de sair de casa até aparecerem com notas acima de oito.
Não que eu tivesse realmente chateada. Quero dizer, é como disse: para mim, não faz a menor diferença. A popular dentre nós duas é . Quem é convidada a festas? . Quem vai ao shopping todo dia com sua turma de amigos? .
Em resumo, é muito popular.
Você sabe, quando nossa família se mudou para o Brasil, há três anos, eu também fui popular. Eu e fomos as sensações da Escola Isaac Newton: gêmeas americanas! Eu também tinha pessoas que adoravam puxar meu saco. Acho que a turma popular do colégio estava empenhada em fazer sua coleção de americanas. Mas eles tiveram uma grande frustração: eu, é claro.
Porque eu fiquei amiga de . E não é popular. Nem um pouco. Ela é reservada e tímida, uma garota invisível para os populares.
O caso é: eu nunca quis popularidade. As pessoas populares são falsas, dissimuladas. Então eu fui cada vez mais me afastando dos populares para ficar perto de , nossa vizinha.
E, bom, devo confessar que ela é minha única amiga de verdade no Brasil, além dos meninos.
Já , não. sempre foi popular, até nos Estados Unidos. E, aqui no Brasil, ela é a garota mais popular do colégio.
Acho que você pode perceber que eu e somos idênticas apenas por fora.
A única vez que me convidaram para uma festa foi quando um garoto meio troglodita me confundiu com . Ele me chamou, entregou o convite e foi embora. Quando eu li o nome no convite, estava escrito bem grande: .
Emocionante.
diz que ela pode me levar a essas festas se eu quiser. Eu não duvido nada, já que alguns amigos da ainda puxam um pouco meu saco. Mas, realmente, eu não tenho a menor vontade de ir às festas que a ela vai.
Por isso, está bem mais chateada com essa coisa toda do que eu.
Mas é claro que eu fiz o maior drama, só para torturar . Ela tem que aprender a pensar antes de falar.
Eu fiquei toda: “, não acredito! Por sua causa a gente não vai mais poder sair de casa!”.
Mas não caiu na minha. Infelizmente.
Eu acho que minha irmã exagerou na sua reação. Quando eu a encontrei, pouco depois do decreto de papai, ela estava chorando ao telefone do quarto dela. Eu tinha ido pedir emprestado o CD da Gwen Stefani, e escutei ela falando.
– Eu sei, Alê, eu sei que essa festa é importante. Mas o meu pai proibiu eu e a de sairmos de casa. É, a também.
Alexandre é o namorado de . Eles são tipo, o casal perfeito da escola, já que ele é atacante do time de futebol e ela... bom, é apenas .
Um tempinho depois, ela gritou, sem perceber que eu estava bem na sua frente:
– Eu não acredito que você pensou em levar no meu lugar! E daí que nós somos iguais? Não estou nem aí para o primo do seu amigo que quer me conhecer. Você ia fazer com ela as mesmas coisas que você faz comigo?
Ui. Não quero nem imaginar o que eles fazem. Dessa vez o Alexandre pisou na bola feio. E até parece que eu ia aceitar ir numa festa dessas no lugar da .
Eu resolvi interromper a discussão de relacionamento deles: “Hum, , me empresta o CD da Gwen Stefani?”.
Ela falou que eu podia pegar na mochila dela e voltou a brigar com o Alexandre.
Coisa de gente popular.
Capítulo 2
– Deus, às vezes a realmente se supera – disse . Nós estávamos na hora do intervalo da escola, sentadas debaixo da macieira. Você sabe, como Isaac Newton.
– Quero dizer, para começar, como ela foi tirar quatro em Português? – continuou . – E por que ela dedurou sua nota em Trigonometria? Deus, todo mundo foi mal naquela prova.
– É – eu concordei. Na verdade, não estava prestando muita atenção no que estava falando. Minha mente estava concentrada na imagem de Danny contando uma piada para o Dougie. Quando ele percebeu que eu estava olhando, riu e acenou.
Mas continuou a falar:
– Quero dizer, tenho certeza que a não fez por mal. Ela é legal, mas é tão avoada. Pelo menos ela é decente.
– Querida, todas as são decentes, inteligentes e lindas – fiz piada. sorriu para mim.
– Não finja deboche, . Você sabe que tem uma aparência acima da média e senso de moda.
– Sei. É exatamente por isso que nesses meus quinze anos de existência eu nunca fui convidada para sair por um garoto.
O que, eu devo dizer, não é totalmente verdade. Mesmo assim, eu sempre enfeito as histórias, mas a verdade é que vários garotos já quiseram ficar comigo, mas eu raramente aceitava. E quando eu digo raramente, é raramente mesmo. Além do que, o único cara por quem eu estive REALMENTE interessada:
a) é meu amigo e
b) tem uma namorada que me considera uma de suas amigas mais íntimas.
Bom, me considera tão íntima que me contava cada detalhe que acontecia entre ela e seu namorado. O que, é claro, é tudo o que eu queria saber.
Não.
Mas graças à Deus parou de me contar os detalhes de sua relação com Danny de uns tempos para cá. Acho que isso significa que as coisas andam mais quentes.
Bom, eu não quero dormir pensando nisso.
De qualquer modo, quando a continuou falando sobre a e do quanto ela é desligada, eu senti um cutucão no meu ombro. Quando me virei, vi que era apenas . Mas ela não queria falar sobre Danny (graças a Deus).
– Oh, , escuta essa: a treinadora marcou treino para hoje. Ela disse que o interestadual está chegando e que temos que treinar se quisermos chegar à taça.
Olhei para , meio perdida. Quero dizer, o interestadual só ia acontecer dali a quatro meses! Mas acho que a treinadora de futebol feminino não percebia que ainda havia tempo de sobra para os treinos.
Futebol é minha paixão. Acho que é a única coisa de bom na Escola Isaac Newton. Eu sou artilheira no time da Isaac Newton há um ano. E, bom, se eu quiser continuar na equipe, tenho que aturar os horários impossíveis da professora Raquel.
Foi por isso que eu apenas respondi:
– Certo, . Que horas vai ser o treino?
– Às três e meia. Acho que dá tempo para fazer um lanche depois da escola.
– Tudo bem – sorri para , que aliás, é goleira do time. – Te vejo às três.
sorriu de volta e saiu dando saltinhos até chegar perto de Danny e lhe dar um beijo digno de cinema. Não era uma coisa que eu queria prestar atenção, mas eu sou meio masoquista.
A ficou me olhando com uma cara de pesar, a mesma expressão que ela sempre faz quando eu fico observando o Danny por muito tempo.
– Deus, , você é tão idiota – declarou ela.
Percebe-se que ela é minha amiga de verdade.
Eu fiz cara de escandalizada, e fiz um pequeno discurso para ela sobre comentários que verdadeiras amigas não fazem, mencionando como exemplo o que ela tinha falado sobre a minha idiotice. Na verdade, eu estava menos chateada do que aparentei, porque eu sei que eu sou uma completa idiota.
Você sabe, a simplesmente acha ridículo o fato de eu nunca ter falado para o Danny que eu sou completamente louca por ele. Mas a tem um problema mental, porque ela sempre pensa que eu sou uma deusa poderosa do sexo ou coisa do gênero. Quero dizer, eu simplesmente não posso me arriscar a levar um fora, como eu sei que levaria se resolvesse falar com o Danny. Além do mais, o Danny é meu melhor amigo.
E ainda tem o fato da gostar tanto de mim. Para falar a verdade, eu não faço a mínima idéia do porquê de ela gostar de mim. A , que, além de ser adepta à teoria da conspiração, não vai muito com a cara da , diz que a tem medo de mim e me mantém por perto para ficar no controle da minha relação com o Danny. Toda vez que ela expõe essa teoria, eu começo a rir na cara dela, o que a deixa completamente maluca.
O caso é que a não conhece direito a , já que não faz parte do time de futebol. Aliás, a odeia qualquer tipo de esporte, ou qualquer jogo que não seja de cartas. Então ela não convive com a e as outras garotas do time, e não pode nem opinar sobre elas, ou eu vou totalmente defender meu time, o que vai deixá-la completamente maluca.
Aliás, a fica completamente maluca por várias coisas, o que me irrita completamente.
De qualquer forma, logo quando a ia começar a fazer um discurso respondendo ao primeiro discurso que eu fiz, eu senti outro cutucão no ombro. Eu já ia começar a estranhar tantas pessoas querendo falar comigo, quando eu vi que era apenas .
– Oi, . Oi, – cumprimentou. Porque apesar de não andar com , a simpatia reforça a popularidade de uma pessoa. – Escuta, , preciso falar com você, e dessa vez o assunto é sério.
Eu meio que fiquei curiosa, porque a nunca me procura na hora do intervalo apenas para conversar.
– Fala, .
– Ah, , na verdade eu tenho que te pedir um favor – falou , em inglês. Quando ela começa a falar em inglês significa que ou ela está nervosa, ou está com medo, ou está fazendo algo a contragosto. Na verdade, eu meio que não gosto quando ela fala comigo em inglês no colégio porque a maioria das pessoas presta mais atenção.
Eu fiquei meio desconfiada, já que a maioria dos favores que a me pedia eram coisas inúteis, como eu experimentar uma roupa dela ou uma maquiagem. Ela basicamente me faz de espelho.
Mas então porque ela aparentava estar tão nervosa?
– Pode pedir – falei eu, dando de ombros.
Ela me olhou com aqueles olhos azuis de bebê (que eu sei que tenho iguais) e disse:
– Você pode ir no meu lugar a uma festa do Alexandre?
Capítulo 3
Realmente, depois daquela eu fiquei realmente preocupada com a sanidade mental da minha irmã.
Porque eu nunca que iria numa festa dessas. Mas eu não queria ser tão rude com a , e tentei tirar essa idéia da cabeça dela de uma forma racional que não a deixasse tão chateada.
– Irmãzinha, eu realmente gostaria de ajudar – acho que eu forcei bastante –, mas você esqueceu que eu também estou de castigo? – eu disse, bastante fofa. Aliás, eu falei em inglês, meio que para acalmá-la. Eu sou a melhor irmã do mundo.
– Eu sei, . Mas, bom, eu já pensei em tudo, contando que você ia aceitar – disse ela, fingindo entusiasmo. Mas ela não me engana, porque eu já vi aquele falso entusiasmo tantas vezes que já até perdi a conta. faz quase tudo para agradar os amigos. – Eu vou falar para o papai que hoje o professor de Trigonometria nos disse que havia se enganado, que a nota 4 era minha. Você sabe, papai nem vai desconfiar.
Infelizmente, eu sabia que papai nem ia se importar. Sempre houve essa situação de trocas de notas, já que nós somos gêmeas e os professores geralmente vão com a cara da minha irmã e não com a minha, apesar de eu tirar as maiores notas. Bom, já que eu não podia contestar o plano dela, dei uma de irmã preocupada:
– Mas, , você não percebe? – fiz voz de tragédia. – Papai vai dobrar o seu castigo, talvez ele proíba você de usar o celular, ou o cartão de crédito, ou a TV... Acho que essa não é exatamente uma boa escolha, .
– Eu não estou nem aí para um futuro castigo – ela disse, rolando os olhos. – E, já que você concorda, aqui está o convite. Alexandre vai passar lá em casa depois de amanhã às sete e meia.
Ela sorriu e me entregou o convite: . Depois saiu correndo para encontrar os amigos.
estava boquiaberta.
– Deus, , por que diabos você foi aceitar essa idéia maluca?
– Eu meio que... não aceitei.
– Claro que aceitou. Você disse que realmente gostaria de ajudar.
– Não disse – eu falei, na defensiva.
– , eu não sei se você sabe, mas quando vocês falam em inglês todo mundo presta atenção. E tanto eu quanto a ouvimos você dizer que queria ajudar.
Eu abracei meus joelhos, e perguntei com voz de sofrimento mortal:
– Ai, , o que é que eu faço agora?
riu, jogando os cabelos para trás. pode dizer que eu sou bonita e todo mundo pode invejar meu cabelo loiro e liso, mas eu ainda acho que o cabelo da é mil vezes mais bonito do que o meu. Ele é ruivo, ondulado nas pontas, e tão comprido que atinge a cintura de . Tão perfeito.
– Ah, pelo amor de Deus, encare isso como um desafio e vá, ué – ela deu de ombros.
– Você não pode estar falando sério – disse eu. – Você sabe que eu não fui feita para essas festas e que não tenho paciência para popularidade.
– , você vai estar disfarçada. Ninguém vai ficar te perturbando depois ou coisa assim. Você pode fazer o que quiser e depois a culpa vai ser toda da .
Eu basicamente não estava acreditando no que ela estava me dizendo. Será que ela não tinha noção que eu ia me passar por namorada do Alexandre e por amiga de gente como a Bia e a Carol?
Quando eu expliquei essa situação a , ela me encarou como se eu fosse idiota.
– Aff, você não acha realmente que o Alexandre vai te beijar, ou que a Bia vai ao banheiro retocar maquiagem com você, ou que a Carol vai ficar fofocando com você sobre as roupas das pessoas, acha?
Quando ela viu que eu não respondi, ela riu e falou:
– , se liga, o Alexandre, a Beatriz e a Carolina vão saber que você é você. Deixa de ser burrinha, amiga.
Eu não me incomodei muito com a ofensa porque eu sabia que não era pra valer. E, de qualquer modo, eu realmente estava pensando em outras coisas, como, por exemplo, o que fazer para meu pai não me tirar do castigo.
Ei. Eu sei que parece estranho, mas é isso mesmo. Eu realmente estava arquitetando um plano para fazer com que meu pai me deixasse de castigo, mas sem que a percebesse que tinha sido totalmente intencional.
Bom, enquanto eu estava divagando, senti um terceiro cutucão no ombro. Eu me virei sorrindo, esperançosa, imaginando que tinha voltado para dizer que eu não precisava mais ir à nenhuma festa, que ela tinha resolvido tudo, mas era apenas Danny.
Perceba. A minha situação estava tão desesperadora que eu, , pensei numa mesma frase as palavras “apenas” e “Danny”. Numa boa, NENHUMA garota em sã consciência olharia nos olhos azuis de Danny e pensaria em outra coisa a não ser neles.
Mas eu realmente não estava em sã consciência.
Bom, acho que Danny viu minha expressão endurecer e se fez de ofendido:
– Qual é, ? Não quer me ver mais aqui? Eu não sou importante o suficiente para você, é isso? Eu fui apenas mais um na sua cama? – ele fingiu estar chorando.
Eu apenas ri e falei:
– Cala a boca, Danny! Daqui a cinco minutos o colégio inteiro vai estar falando que nós fomos para a cama.
– Baby, você está me negando? – brincou ele.
– Deixa de ser idiota e vem me dar um abraço – eu ri.
Ele estendeu a mão para me ajudar a levantar. Eu me segurei sua mão e ele me puxou, deixando nossos narizes a dois centímetros de distância.
O que, na verdade, foi um momento muito profundo para mim.
Ele, que não pareceu perceber nenhuma profundidade no momento, me deu um abraço de quebrar as costelas e foi falar com .
– Oi, – disse ele, dando um beijo em cada bochecha dela.
Eu ri, porque a odeia quando alguém a chama de . Eu acho legal, porque só o Daniel, o Thomas, o Harold e o Dougie a chamam assim. Eles são nossos melhores amigos.
Eu acho engraçado o fato de eu me dar bem com os meninos. é minha única amiga, e as meninas do futebol são legais, mas são apenas colegas legais. Mas o Danny, o Tom, o Harry e o Dougie são amigos meus e da desde que eu vim para o Brasil. E nesses três anos, muita coisa aconteceu, a gente se divertiu muito, já pegamos detenção juntos, já ouvimos cada um chorar, e tudo o que qualquer um possa imaginar.
Tudo bem, não TUDO.
Mas desde que o Danny começou a namorar a , há quatro meses, as coisas têm mudado um pouco.
– Cadê os meninos? – perguntei.
– Catando alguma garota por aí – respondeu ele, dando de ombros.
– E onde está a sua namorada, Danny? – perguntou , com cara de reprovação.
– Em algum lugar por aí com uma amiga – ele deu de ombros novamente.
– Você anda bem informado, hein?
– Vocês sabem que o meu trato com a é que...
– Vocês não abrem mão dos amigos na hora do intervalo – completei.
– É – ele falou, com voz de desafio.
– Então – começou – o que vocês estavam fazendo há alguns minutos?
– Ei, não fique com ciúmes, amor – brincou ele, jogando um beijo para ela.
– Não estou.
Eu ri. A tem mais ciúmes do Danny do que eu, e olha que ela não está apaixonada por ele nem nada disso. Eu acho.
Mas eu simplesmente aprendi a aceitar a e o fato de que o Danny passava todo o tempo livre dele com ela. Eu aceitei, os meninos aceitaram, mas acho que a nunca vai conseguir processar essa informação.
Depois que o Danny começou a sair com , eu, a e os meninos continuamos muito próximos, continuamos a sair, a ir uns nas casas dos outros para ver filmes e a fazer maluquices por aí. A diferença é que Danny não fazia mais essas coisas conosco, e só nos via na hora do intervalo e raramente saía conosco.
Todos nos acostumamos, mas a ainda é ressentida sobre isso.
De repente senti que alguém segurou minha cintura por trás de mim e me levantou. Eu dei um gritinho e Harry me pôs no chão. Ele estava gargalhando, assim como e os outros meninos.
– Você ficou maluco? – disse eu, começando a rir também.
– Desde quando nós não somos malucos? – falou Tom, e eu mostrei a língua para ele.
– Desde que Danny virou o namorado da – respondeu .
Dessa vez Danny ficou triste de verdade. Ele não comentou nada e apenas saiu de perto, com uma expressão de dor no rosto.
Harry lançou um olhar duro para e foi atrás do amigo. Tom só murmurou:
— Não era para você responder, – e foi embora também.
Dougie olhou para , que estava quase chorando, e disse:
— Eu entendi e concordo com o que você disse, . Mas não foi uma boa idéia você falar isso agora.
Ele me deu um beijo no rosto passou a mão pelo cabelo de , e nos deixou sozinhas debaixo da macieira.
– Calma, – eu me adiantei e a abracei, quando percebi que ela tinha começado a chorar.
– Não era para ser assim, ! A culpa é toda daquela vadia! – falou ela, entre os soluços. – Lembra de como nós éramos antes dela chegar?
Eu sorri tristemente, lembrando de uma cena engraçada.
Era um domingo à tarde, há mais ou menos um ano. , como sempre, estava no shopping com as amigas e eu, como sempre, estava na casa de . De repente a campainha tocou, e quando foi atender, eu vi nossos quatro melhores amigos entrando, todos com cara de tédio.
Eles entraram, sentaram no sofá e ficaram olhando para a nossa cara.
A gente ficou se olhando durante uns cinco minutos, e depois o Tom falou:
– Nós estávamos entediados e procurando alguma coisa louca para fazer, mas não veio nada à cabeça e nós viemos aqui para saber se vocês têm alguma idéia.
olhou para mim e riu. Nós estávamos sozinhos em casa porque os pais dela haviam viajado.
Dez minutos depois estávamos tirando várias fotos loucas, nas quais eu e estávamos com o sutiã por cima da blusa e os garotos estavam com as cuecas por cima das calças.
Meu sutiã era todo preto e comum, mas o de era branco com coraçõezinhos desenhados. Danny e Harry usavam boxers pretas, mas Tom usava uma samba-canção de xadrez e Dougie usava uma samba-canção cheia de Piu-Pius desenhados, o que seria motivo de gozação para o resto da vida.
Nós tiramos fotos nos lugares mais inusitados, como dentro do guarda-roupas dos pais de e em cima da mesa de jantar. A minha foto favorita, que hoje está no meu mural de fotos no meu quarto, é uma onde todos nós nos esprememos na banheira da suíte de . A banheira era tão pequena que para todos nós cabermos nela, Danny e Tom se sentaram no meu colo e Harry e Dougie sentaram no colo de .
Bons tempos eram aqueles.
Capítulo 4
Quando eu e saímos da sala de aula, depois da última aula, Dougie, Harry e Tom estavam nos esperando. Eles são do mesmo ano que nós duas, mas são de turmas diferentes.
Eu abracei o Harry, e abraçou o Tom, enquanto Dougie fazia ceninha, gritando:
– Ei, e eu? – e se jogou sobre nós quatro, fazendo um sanduíche de gente.
Todos olharam para nós, rindo. Apesar de nem chegarem perto da popularidade de , nossos amigos arrasam o coração das meninas, fazendo parte da “Lista dos Caras Mais Gostosos da Isaac Newton”, uma lista que as garotas da minha turma fizeram e grudaram numa parede de um dos corredores. Harry está em segundo lugar, apenas atrás de Alexandre, o namorado da . Dougie está em quarto lugar, e Danny e Tom estão, respectivamente, em sexto e sétimo lugares. É uma boa classificação, considerando que a lista contém apenas dez garotos.
E as todas as meninas do nosso colégio não acham eu e a boas o bastante para andar com eles, embora eu até seja um pouco famosa por ser americana e gêmea de .
Mas quem disse que a gente liga?
– Cadê o Danny? – perguntou , quando o sanduíche de gente foi desfeito.
– Com a – respondeu Dougie, dando de ombros e rolando os olhos.
– Não vamos voltar a essa discussão, vamos? – perguntou Harry, olhando para mim.
– Nem olhe para mim – falei da defensiva –, converse com a .
– Eu não quero discutir, só quero pedir desculpas por hoje cedo - falou ela, olhando para baixo.
– Essa não é uma má idéia – sorriu Dougie.
– Como ele está? – perguntei para Harry.
– Chateado, triste e reclamão.
– Ele está reclamando de quê?
– Ele diz que nós não damos apoio suficiente para ele – respondeu Tom.
– Claro que não, ele basicamente esqueceu a gente! – falou , indignada.
– Você falou que não ia discutir sobre isso – lembrou-lhe Harry.
– Desculpa – pediu ela, olhando para baixo novamente.
– Acho que não é para mim que você deve pedir desculpas – Harry deu de ombros.
– Eu não vou falar com ele enquanto aquela vadia estiver por perto!
Eu resolvi interferir, antes que dissesse outra besteira e deixasse todo mundo chateado.
– Céus, onde eles estão? Eu e temos treino daqui a quinze minutos!
Dougie riu, percebendo o meu desespero para fazer calar a boca, e respondeu:
– Calma, , eles já estão no campo de futebol, o Danny disse que vai assistir o treino de futebol.
– Acho que é você que vai ter que correr – falou Tom.
– Na verdade, eu estou morrendo de fome. Quem vai à lanchonete comigo, comprar alguma coisa para comer? – eu disse, tentando imitar a carinha do gato de botas do filme Shrek 2.
– Vamos todos, né, ? Você esqueceu que nós te proibimos de andar sozinha porque você pode se perder por aí? – riu Harry, lembrando do dia em que nós estávamos na praia, quando eu tinha treze anos, e achei que estava perdida e comecei a chorar. Depois eu vi que estavam todos ao meu lado, não entendendo o porquê de eu estar chorando. Nesse dia eles prometeram que eu nunca andaria sozinha, pois poderia me perder por aí.
– Quando nós fizemos essa promessa – começou –, o Danny ainda era nosso amigo.
– Ah, , você sabe muito bem que o Danny ainda é nosso amigo – eu falei.
– Não é.
Eu já estava ficando estressada com aquela situação e explodi:
– Cala a boca, .
A me deu a língua. Fiquei feliz em saber que ela não tinha perdido todo o senso de humor.
Os meninos resolveram aproveitar o repentino bom humor de e começaram a brincar também. Harry começou a fazer cócegas em , dizendo:
– Ninguém pode dar língua para a loirinha!
deu um tapa nas mãos de Harry para ele parar de fazer cócegas e disse, fazendo ceninha, mas sem conseguir esconder o riso:
– Viu, se ela fosse ruiva você não a estaria protegendo.
– Nada a ver, esse não é o único motivo pelo o qual ela precisa de proteção – disse Tom.
– É verdade – disse Dougie. – Ela é muito baixinha, não ia ver sua língua e não poderia se defender.
– E se ela tentasse se defender, ia ser perder e não saberia o que fazer e podia começar a chorar – implicou Tom.
Eles estavam pegando no meu pé, mas eu não me importava de verdade. A gente estava se divertindo demais. Só faltava o Danny.
Capítulo 5
– , você está atrasada! – falou . Eu tinha acabado de chegar, e as meninas estavam fazendo o aquecimento. Comecei a correr em volta do campo ao lado de .
– Não estou. São três horas, trinta e três minutos e vinte e quatro, vinte e cinco, vinte e seis... ah, trinta segundos!
– Não pude escalar você para meu time! – disse , parecendo mesmo chateada.
– Ah, , a culpa não é toda minha, você me deu bolo. Eu não pedi para você se encontrar comigo às três?
– Eu sei... Mas eu estava com Danny! – falou ela, ansiosa.
– É, os meninos me falaram. Eu demorei um pouquinho porque fui lanchar e não tinha ninguém para ficar me apressando, como você sempre faz.
– Hoje eu não pude, o Danny estava tão fofo...
– Tudo bem – eu cortei ela, tentando evitar ouvir qualquer detalhe –, eu só estou dizendo que a culpa não é toda minha – eu disse, encerrando o assunto.
O treino foi bom, apesar de eu ter me sentido um pouco culpada quando eu fiz todos aqueles gols em cima de . Tudo bem, essa era a minha função, já que ela era a goleira do time adversário, mas eu podia ter evitado fazer ela passar pela humilhação de levar um lençol, eu acho.
Não me leve a mal, ela é uma ótima goleira, mas, não sei por que, eu realmente estava inspirada.
Não, mentira, eu sei o porquê. Danny estava lá, e fazia tempo que ele não me via jogar, e eu acho que eu meio que me exibi demais.
Deus, eu sou péssima.
Mas não me pareceu muito chateada quando nós estávamos no vestiário tomando banho. Ela me pareceu bem animada quando começou a me contar o que ela e Danny tinham feito antes do treino.
O que, é claro, eu não precisava saber. Mas, fazer o quê, eu já me acostumei.
Quando nós saímos do vestiário, Danny estava lá fora, nos esperando. Na verdade, ele estava esperando , mas eu gosto de me iludir achando que ele estava me esperando também.
Ao nos ver, ele sorriu e deu um beijo na bochecha de cada uma. pareceu um pouco chateada por ele não ter demonstrado sua paixão por ela de uma forma mais explícita, se é que você me entende.
– Oi, , oi, .
– Oi, Danny – respondi, mexendo na mochila e pegando o celular para chamar um táxi.
Quando ele me viu pegando o celular, perguntou:
– Ei, o que você vai fazer?
Eu olhei para ele como se ele fosse retardado e respondi:
– Chamar o táxi, ué.
– Não, eu te levo para casa – respondeu ele, sorrindo orgulhoso. – Estou com o carro do meu pai.
– Mas você não tem carteira de motorista!
– Você não se importou com isso naquela vez que tinha quatorze anos e você me implorou para te levar de carro no show daquela banda cover dos Beatles – ele deu de ombros. Aquele dia havia sido um dos bons momentos do passado. Eu realmente queria ir àquele show, mas papai não tinha deixado e se recusou a me levar. Até hoje papai pensa que eu passei a noite na casa de , mas na verdade eu fui de carro com Danny, que na época tinha quinze anos, e nós viramos a noite no show.
É, realmente nós fomos bem inconseqüentes.
– Vamos! – ele insistiu. A cara de estava cada vez pior, como se ela estivesse murchando.
– Não tenho certeza...
– Ah, , pára de palhaçada! Eu deixo em casa e depois te levo!
Acho que não se agüentou, porque resolveu falar:
– Daniel, a gente não ia sair hoje? – ela fez cara de desespero.
– Hoje não vai dar, eu tenho que estudar... – ele respondeu, olhando para baixo.
– Desse quando você estuda? – ela perguntou para Danny, que perdeu a paciência e praticamente gritou:
– Bom, eu estou indo. Se quiserem carona, me sigam.
Eu e a nos olhamos. Ela acenou com a cabeça, e disse:
– Venha – e seguiu Danny para o carro dos pais dele.
Eu suspirei pesadamente e segui os dois.
No carro, o clima estava um pouco estranho. Nós três fomos em silêncio até a casa de , que não é muito longe do colégio. Quando ela saiu, dando um selinho rápido em Danny e acenando para mim com a mão, eu passei para o banco da frente, enquanto Danny dava a partida do carro. Ele olhou para mim marotamente e disse:
– Você está sendo oficialmente seqüestrada, .
Eu joguei a cabeça para trás e ri. Há meses ele não me seqüestrava.
Deixe-me explicar. Toda vez que dizemos um para o outro que estamos o seqüestrando, significa que eu, , Danny, Dougie, Tom e Harry vamos nos encontrar na casa de um de nós para fazer alguma coisa muito louca. E nós não podemos reclamar nem recusar o seqüestro.
– E os seus estudos, Danny? Você não pode me seqüestrar se tem que estudar.
– Eu não tenho que estudar – respondeu ele –, foi só uma desculpa para a .
Eu fiquei um pouco feliz com isso. Significava que Danny não tinha nos esquecido totalmente.
– E para onde nós estamos indo? – perguntei.
– Para a casa do Tom. A gente combinou que nós íamos ver toda a coleção de Matrix hoje.
– E... Danny? – ele me olhou e sorriu para mim. Eu me arrepiei toda.
– Fala, loirinha.
– A vai estar lá? – perguntei, olhando para meus joelhos.
– Essa pergunta foi para mim ou para seus joelhos?
Eu ri.
– Foi para você mesmo, porque meus joelhos ainda não aprenderam a falar.
– É claro que a vai estar lá.
– É que eu pensei que depois daquilo de hoje cedo...
– Tá, eu entendi.
Fomos para a casa de Tom em silêncio, ele se concentrando na direção não-autorizada e eu apenas olhando para saia que tinha posto depois do treino de futebol. Eu sempre tinha roupas extras no armário do vestiário, porque sempre podia acontecer da treinadora marcar um treino em cima da hora.
Foi quando eu me lembrei que não tinha ligado para casa nem para avisar que tinha treino de futebol. E foi quando eu lembrei que eu estava de castigo, proibida de sair de casa. E percebi que a minha salvação da festa de era essa: passar o resto da tarde com meus amigos ia deixar meu pai louco! Ele NUNCA ia me liberar do castigo! Yes!
Eu estava tão feliz pelo Danny ter me seqüestrado que gritei:
– Danny, EU TE AMO!
Ele me olhou rindo e gritou:
– EU SEI! Eu sou demais, esperto, lindo e PERFEITO!
Depois eu percebi o quão minha declaração anterior era verdadeira. Ainda bem que Danny achou que eu estava brincando. O que, em parte, eu estava, pois eu não tinha querido dizer que eu o amava desse jeito.
Eu gargalhei durante uns dois minutos e quando tomei fôlego expliquei para ele toda a história da festa da minha irmã.
Ele pareceu abismado.
– Então, peraí, você vai ter que se passar pela numa festa do Alexandre? Tudo bem que vocês são idênticas, mas você se vestem totalmente diferentes, agem de forma totalmente diferente e tudo o mais...
– Danny, você não percebe? Eu TERIA que me passar pela minha irmã, TERIA, meu fofo, mas agora meu pai NUNCA vai me tirar do castigo! – eu falei, radiante.
Ele sorriu quando viu minha cara de felicidade.
– , você é a primeira que pessoa que eu vi que fica tão animada por que seu pai não vai te tirar do castigo.
Eu ri, e quando percebi Danny estava estacionando na frente da casa de Tom.
Capítulo 6
Quando nós dois entramos na casa de Tom, foi aquela gritaria. Quem tinha atendido a porta foi o próprio Tom, que gritou: “Eles chegaram!”
Escutamos o som de controles de vídeo game caindo no chão enquanto entrávamos, e em menos de um minuto eu já estava sendo carregada para a sala nas costas de Harry e já tinha abraçado Danny com muita força, e estava chorando e pedindo desculpas pelo o que ela tinha dito mais cedo.
Eu fiquei feliz quando vi o Danny falar baixo para a : “Eu te desculpo, sua ruivinha. E eu seqüestrei a só para te provar que nós ainda somos malucos”. Ele já estava carregando ela nas costas, assim como o Harry fazia comigo.
De repente, vi Dougie subindo nas costas de Tom, alegando que estava se sentindo solitário e que queria carinho e atenção.
– Cara, eu não poderia ter um amigo mais gay – reclamou Tom.
– Claro que poderia, amor – Danny fez voz de mulher e Harry mandou um beijinho para ele, nos fazendo rir muito.
Nós todos sentamos e começamos a conversar sobre a banda que os meninos têm. Eu e temos orgulho em dizer que, caso a banda fique famosa, nós fomos as primeiras a conhecê-la. Tom é vocalista e toca guitarra e piano. Harry é baterista, Dougie é baixista e se arrisca a cantar algumas músicas. E Danny é o guitarrista, e tem a voz mais bonita que eu já escutei na vida. Acho que mesmo que eu nunca tivesse visto Danny, se eu apenas escutasse a voz dele, me apaixonaria instantaneamente.
Eles ainda não tinham arranjado um nome para a banda, mas já tinham escrito e ensaiado várias músicas. Eles diziam que no momento em que surgisse uma oportunidade, já estariam prontos para fazer sucesso.
Depois de uma meia hora conversando, decidimos começar a ver o filme. Como sempre, fiquei entre Harry e Danny, e ficou entre Dougie e Tom.
Danny costumava reclamar que nunca havia uma garota entre ele e Dougie, e dizia que a culpa era minha e da , que não arranjávamos uma amiga para apresentá-los.
Mas dessa vez Danny nem reclamou de seus joelhos estarem batendo nos joelhos de Dougie, porque ele agora tinha sua própria garota.
Mas Dougie, para não deixar em branco os velhos hábitos, gritou:
– Aí, de novo não! A gente tem que colocar uma pessoa do sexo feminino entre nós dois!
Danny riu, mas não pareceu se sentir muito culpado por não ter sido ele a falar aquilo.
Logo assim que Dougie falou essa idiotice, a campainha tocou.
Todos se olharam, e Dougie ainda soltou piada: “Pô, Tom, vai me dizer que você ouviu nossas preces e resolveu convidar mais uma garota?”
Tom riu mas não respondeu, e foi atender a porta.
De repente escutei a voz de falando: “Ah, oi, Thomas, o Danny tá por aí?”
Danny gemeu, e eu fiquei preocupada, porque lembrei que supostamente não deveria saber que estávamos ali. E Tom não sabia de nada disso. E foi por ele não saber de nada que nós escutamos: “Tá sim. Você quer entrar?”
Depois escutamos a voz de : “Não, você pode pedir para ele vir aqui conversar comigo?”
Quando Tom chegou à sala, Danny já estava se levantando para falar com .
Nós só escutamos os gritos dela: “JONES, VOCÊ NÃO ME DISSE QUE NÃO PODERIA SAIR COMIGO PORQUE TINHA QUE ESTUDAR? E AGORA VOCÊ ESTÁ AQUI NA CASA DE THOMAS FLETCHER! ENTÃO QUER DIZER QUE VOCÊ NÃO TEM TEMPO PARA MIM, MAS TEM TEMPO PARA THOMAS FLETCHER?”
Danny respondeu alguma coisa tão baixinho que ninguém conseguiu escutar, e Tom tentou fazer piada: “Meu Deus, acho que a realmente pensa que Danny está a traindo comigo. Até parece, tendo a e a aqui do lado...”, o que fez rir baixinho, e me fez ficar vermelha.
Eu já disse que eu fico muito vermelha com freqüência? Uma vez Harry começou a me chamar de Tomatinho, o que me deixou maluca.
continuou a gritar: “EU IA FAZER UMA SURPRESA PARA VOCÊ NA SUA CASA, MAS VOCÊ NÃO ESTAVA LÁ E SUA MÃE DISSE QUE VOCÊ TINHA IDO PARA A CASA DE THOMAS FLETCHER, ENTÃO EU VIM AQUI E AH, É, VOCÊ ESTÁ AQUI, MAS EU DUVIDO QUE ESTEJA ESTUDANDO, COMO VOCÊ ME DISSE!”
Danny perdeu a paciência e começou a gritar também, o que me deixou assustada. Danny raramente perde a paciência, e nunca gritou comigo, então eu não estava acostumada a ouvi-lo usando aquele tom de voz. Quando ele começou a berrar, eu dei um gritinho de susto, e abracei Harry.
“NÃO, EU REALMENTE NÃO VIM ESTUDAR, EU MENTI PARA VOCÊ, PORQUE VOCÊ SEMPRE QUER TOTAL ATENÇÃO, E HÁ QUATRO MESES EU NÃO SAIO COM MEUS AMIGOS, PARA PODER SAIR COM VOCÊ! VOCÊ NUNCA ESTÁ SATISFEITA, MAS VOCÊ ACHA QUE EU FICO SATISFEITO, VENDO TODOS OS MEUS AMIGOS JUNTOS E SEM SAIR COM ELES NENHUMA VEZ? EU CANSEI, E RESOLVI DAR ATENÇÃO PARA ELES HOJE, EM VEZ DE SAIR COM VOCÊ COMO SEMPRE, PORRA!”
“ENTÃO ISSO QUER DIZER QUE VOCÊ NÃO FICA SATISFEITO EM SAIR COMIGO?”
“FICO, DESDE QUE EU TAMBÉM POSSA SAIR COM OS MEUS AMIGOS! VOCÊ SABE HÁ QUANTO TEMPO NÓS NÃO ENSAIAMOS? A BANDA ESTÁ SEM TOCAR NADA HÁ QUATRO MESES!”, ele berrava cada vez mais, eu já estava chorando, e ele não estava nem falando comigo. Harry acariciava meus cabelos lentamente, mas ele estava pálido. Todos estávamos.
“ENTÃO EM VEZ DE FICAR COMIGO, FIQUE COM FLETCHER, POYNTER, JUDD, E ! PORQUE PARA MIM JÁ CHEGA, ACABOU, DANNY!”
Nós escutamos a porta batendo, e Danny voltou para a sala. Seus olhos estavam cheios de ódio, e quando ele me viu chorando, abaixou a cabeça e disse: “Acabou”.
, apesar de um pouco assustada pelo nervosismo de Danny, parecia estar muito feliz pelo término do namoro entre e Danny.
Dougie foi o primeiro a falar:
– Vamos começar a ver o filme?
Danny concordou e sentou ao meu lado, como sempre. Eu ainda estava chorando silenciosamente, as lágrimas escorriam, eu não conseguia fazê-las parar, e eu já estava me irritando com aquela situação. Afinal, Danny já havia parado de gritar.
Depois que Danny se sentou ao meu lado, encostou a cabeça no meu ombro, e ficou olhando a televisão, mas sem parecer que realmente estava prestando atenção no filme.
Eu estava muito nervosa. O que aconteceria agora?
e eu não vimos à trilogia Matrix. Assim que acabou o primeiro filme, fomos embora.
Capítulo 7
Quando cheguei em casa, a primeira coisa que eu escutei foi:
– , sua idiota, onde é que você estava?
Obrigada, . Obrigada pelo: “Olá, irmãzinha querida, que saudades de você! E, por falar nisso, onde mesmo que você esteve nessa linda tarde de outono?”
Até parece.
Eu, tentando me fazer de irmã má, respondi:
– Não é da sua conta.
Ela se indignou e me atacou com um:
– Ah, é da minha conta sim, e você vem aqui comigo! – disse, e me puxou escada acima, abrindo a porta de seu quarto e me jogando lá dentro.
Depois começou o discurso da irmã rejeitada:
– Você tem noção da dificuldade que tive para convencer papai e te tirar do castigo depois dessa que você aprontou hoje? , eu disse que ia te livrar desse castigo, mas você nem colaborou chegando em casa no horário combinado!
– Eu tive treino de futebol! – me defendi.
Ela riu da minha cara.
– Até às sete e meia? Duvido. Onde você se meteu?
– Depois do treino, eu dei uma passada rápida na casa de Tom, só isso – eu retorqui, fazendo minha melhor expressão de cinismo. – Agora vamos ao que importa: papai me tirou do castigo?
Eu tinha certeza que eu ficaria de castigo por mais ou menos a minha vida inteira, mas perguntei para ser gentil e solidária com .
Eu já disse que eu sou a melhor irmã do mundo?
Mas , para minha surpresa total, disse: “Claro que tirou. Você sabe do meu poder de persuasão.”
Pára o mundo que eu quero descer! Então quer dizer que eu tiro quatro em trigonometria, fico até mais tarde no colégio, vou assistir filme na casa de Tom sem permissão, e meu pai me tira do castigo?
Cara, não existe justiça nesse mundo.
Fui para meu quarto, liguei o laptop e comecei a conversar com .
SoccerQueen: Hey, , vc acredita que meu pai não me tirou do castigo?
RedHairGirl: O quê?Impossível, vc só fez merda hoje!!!
SoccerQueen: Eu sei! Mas parece que não vai ter jeito de eu me livrar dessa festa de depois de amanhã.
RedHairGirl: Meus pêsames. Escuta. Não, lê. O que foi aquilo entre a e o Danny hoje?
SoccerQueen: Não sei. Acho que a tem ciúmes mortais da gente.
RedHairGirl: Da gente quem?
SoccerQueen: Vc sabe. Eu, vc, Tom, Harry, Dougie.
RedHairGirl: Acho que eles não vão voltar mais.
SoccerQueen: Vc não acha, vc deseja, é diferente.
Mono-Dimple: log on
Mono-Dimple: Do que estão falando?
SoccerQueen: Nada.
RedHairGirl: Nada.
Mono-Dimple: O que foi aquilo hoje mais cedo, hein?
SoccerQueen: O quê?
Mono-Dimple: Vc sabe. O término do namoro mais polêmico dos últimos quatro meses: Danny e .
SoccerQueen: Ah, isso.
Mono-Dimple: O que vc pensou que fosse?
SoccerQueen: Sei lá, aconteceu tanta coisa hoje.
Dougster: log on
Dougster: Oi. Do que estavam falando?
RedHairGirl: Nada.
SoccerQueen: Nada.
Mono-Dimple: Nada.
Dougster: Tom, já contou para elas?
Mono-Dimple: O quê?
Dougster: Ai, depois eu e o Danny somos os lesados. Meninas, descobrimos um nome para a banda.
SoccerQueen: SÉRIO??? QUAL É O NOME?
RedHairGirl: É, qual é o nome?
SoccerQueen: QUAL É O NOME?
Mono-Dimple: log off
Dougster: log off
SoccerQueen: , vc viu o que eles fizeram com a gente?
RedHairGirl: Não me chama de !
SoccerQueen: Que seja. , vc viu o que eles fizeram com a gente?
RedHairGirl: É. São uns idiotas mesmo. Às vezes, custo a acreditar que somos amigas deles.
SoccerQueen: É verdade. Vou fazer greve.
MrFit: log on
MrFit: Oi, amores!
SoccerQueen: Amores, uma ova! Qual é nome?
MrFit: Eita. Que nome?
RedHairGirl: Como assim, que nome? NÃO SE FAÇA DE DESENTENDIDO, HAROLD JUDD!
MrFit: QUE NOME???
SoccerQueen: O NOME DA BANDA!
MrFit: Que banda?
RedHairGirl: A banda de vcs!
MrFit: Ah, o nome da nossa banda.
SoccerQueen: É! Qual é o nome? Eu juro, Harry, se vc não falar o nome da banda, eu vou te matar com um palitinho de dentes!
MrFit: Interessante. Como vc faria para me matar com um palitinho de dentes?
SoccerQueen: Não importa, qual é o nome da banda?
MrFit: log off
SoccerQueen: Eu vou matar o Harry com um palitinho de dentes!
RedHairGirl: Se me permite perguntar, como vc vai fazer para matar o Harry com um palitinho de dentes?
SoccerQueen: Fácil. Primeiro, estouro os ouvidos dele, depois eu vou enfiar aquele palitinho no nariz dele, depois na garganta e, para finalizar, vou desmoralizá-lo quando colocar o palitinho no...
RedHairGirl: Chega, isso já está ficando nojento.
SoccerQueen: Mas vc não acha que ele merece?
RedHairGirl: Claro que merece.
RatLeg: log on
RatLeg: Oi, , oi, .
SoccerQueen: Desembucha!
RatLeg: O quê, fofa?
SoccerQueen: A PORRA DO NOME DA PORRA DA BANDA QUE VCS TÊM!
RatLeg: Ah. McFly.
RedHairGirl: Como?
RatLeg: McFLY.
SoccerQueen: Ei! Como Marty McFly, de “De Volta Para O Futuro”?
RatLeg: É, foi de onde tiramos a idéia.
RedHairGirl: Fantástico! A gente te ama, Danny!
RatLeg: Eu sei. Mas agora eu tenho que ir, hora de comer alguma coisa e capotar.
SoccerQueen: Tá bom, a gente se vê amanhã na escola.
RatLeg: Tá.
RatLeg: log off
RedHairGirl: Amiga, também tenho que ir. Te vejo amanhã. Beijo.
RedHairGirl: log off
SoccerQueen: log off
Viu? É por isso que eu amo o Danny. Ele faz tudo o que a gente quer.
Mas eu o achei tão triste na nossa conversa que resolvi ligar para ele. Peguei o celular, disquei o número dele, que eu sei de cor. Ele atendeu no terceiro toque.
– Alô?
– Oi – disse eu.
– Oi.
– Oi.
Ele riu e falou:
– Acho que você não me ligou para falar oi.
– Não – eu falei rindo –, eu liguei para saber como você está.
– Mas você acabou de falar comigo no computador.
– Eu sei. Mas você não usou nenhum ponto de exclamação.
– E?
– Como assim, “e”? Você sabe muito bem que a ausência de pontos de exclamação é um problema muito sério.
– Sei, é? – ele gargalhou.
– Sabe.
Acho que a gente ficou uns trinta segundos em silêncio, até que eu resolvi falar:
– Você está triste, Danny? Ai, que pergunta idiota, é claro que você está triste. Desculpa, eu sou uma insensível mesmo. Uma pessoa do mal. Mas é que eu sei que você está triste, então eu liguei para saber se eu posso te ajudar em alguma coisa. Você sabe, qualquer coisa. Eu estou aqui para isso. Se você precisar de alguma coisa, é só falar comigo. Você quer que eu fale com a ? Amanhã a gente deve ter treino. Ou então, eu posso ligar para ela, eu tenho o telefone dela...
Perceba que esse meu discurso foi feito em exatos dezessete segundos. Acho que pode ter sido um recorde.
Danny apenas riu:
– Ai, loirinha, eu não estou triste, apenas pensativo. E um pouco confuso. E não, eu não quero que você fale com a , mas obrigado, mesmo assim.
Eu dei um suspiro.
– Espere. Você não está triste?
– Não muito. Quero dizer, é claro que eu estou chateado, mas eu fiquei muito mais triste quando a jogou aquela verdade na minha cara.
Mais dez segundos em silêncio e depois:
– Danny?
– Oi, pode falar – ele respondeu.
– Danny, você ama a ?
Eu me senti tão infantil dizendo isso. Você sabe, o clássico “Papai, você ama a mamãe?”
Ele riu, percebendo também a infantilidade da pergunta.
– Ah, sei lá, , acho que não.
– Não?
– Não sei, mas acho que, se eu amasse a , eu me sentiria muito mais triste do que me sinto agora que acabou o namoro.
– Hum. É. Suponho que sim. Mas, Danny, você sabe que ela te ama, né?
Eu não acreditei no que estava fazendo. Quero dizer, acho que eu basicamente estava atuando de cupido entre o garoto-que-eu-gosto-e-que-por-acaso-é-meu-melhor-amigo e a minha colega-do-time-de-futebol-que-me-considera-sua-melhor-amiga. Isso é sacrificante, considerando que ainda nem tinha me pedido nada. Mas eu sempre fui meio masoquista.
Eu disse que a AINDA não tinha me pedido nada porque tinha certeza que ela ia me pedir, de qualquer forma.
– É, eu sei – respondeu Danny. – Ela me ama mais do que deveria.
– Por quê?
– Porque eu acho que não a amo assim.
– Danny?
– Oi, loirinha.
– Minha mãe está me chamando para jantar. Tenho que ir.
– Tudo bem.
– E... Danny?
– Fala.
– Você não vai sumir de novo e me deixar sozinha com aqueles nossos amigos malucos, vai?
– Não vou – prometeu ele, rindo, e desligou.
Capítulo 8
– , amanhã nós vamos ao shopping porque você precisa de roupas novas para a festa do Alexandre – falou. Nós estávamos indo para o colégio com a , andando. Só mesmo para começar uma conversa sobre moda às seis e meia da manhã. – Eu poderia te emprestar umas roupas, mas iria parecer que está repetindo roupas, e isso não seria legal.
– , não seja tão chata, vai. Você sabe que eu odeio ir ao shopping com você e suas amigas. Vocês nunca me deixam comprar nada que eu usaria.
– Porque o que você usaria não é legal. Graças a Deus que a Isaac Newton nos obriga a usar uniforme, ou você poderia ser taxada de mal-vestida.
Eu já falei do uniforme patético que somos obrigados a usar? Os meninos têm que vestir uma calça cinza, blusa social branca, sapatos pretos, gravata azul e, para os dias de frio, o casaco azul da escola. As meninas usam saia de pregas cinza na altura do joelho, blusa social branca de manga curta, sapatilhas pretas e meias-calças brancas, gravata vermelha e, no inverno, blusa social branca de manga três-quartos e blazer vermelho.
de repente explodiu:
– , a se veste superbem! Todos falam, ela tem senso de moda!
– Ah, , quem você quer dizer com “todos”? – disse , um pouquinho arrogante.
revirou os olhos e enunciou:
– Tom, Danny, Dougie, Harry, , eu...
– Pois é, , não são pessoas influentes. O importante é ser apreciada por quem importa.
Eu me intrometi, afinal, a discussão era sobre a minha pessoa.
– , um: isso que você falou foi a maior redundância, e dois: as pessoas que a falou são as pessoas que importam para mim, se é que você não entendeu.
levantou uma sobrancelha.
– Que seja, , mas você não vai numa festa fingindo ser eu com roupas que, para as pessoas que me importam, são horríveis.
Quando reparamos, tínhamos acabado de chegar do colégio e já estava correndo para dar um beijo em Alexandre e falar com Bia e Carol.
Já eu fui sorrateiramente com atrás dos meninos. Quando nós os vimos, eu saquei um palitinho de dentes do meu bolso.
– Ai! – gritou Harry, quando eu espetei seu braço com o palitinho.
– Eu avisei que ia te matar com um palitinho de dentes se você não me falasse o nome da banda – disse eu, dando-lhe um abraço. foi falar com os outros meninos, dando-lhes um beijinho nas bochechas.
– Isso não é justo – reclamou Harry –, Tom, Dougie e Danny não foram feridos pelo palitinho de dentes!
Eu tive que explicar:
– Tom e Dougie não tinham sido avisados, e Danny nos falou o nome da banda, então não merece nenhuma maldade.
– Ô, Jones, não acredito que você contou o nome para elas! – Tom deu um tapa na cabeça de Danny.
– Qual é o problema? Elas são nossas amigas mesmo...
– Mas nós queríamos contar para elas pessoalmente, seu inútil. Você é um cabeção mesmo! – resmungou Dougie.
– Oh, não fiquem tristes com o Danny porque ele estragou a surpresa de vocês! – disse , imitando voz de bebê e bagunçando os cabelos de Danny.
– Aliás, amei o nome, McFly! – eu me entusiasmei, dando pulinhos de alegria.
– Eu sabia que você ia gostar! – disse Tom, sorrindo.
– É, esse nome é tão a cara da ... – disse Harry.
– Eu sei! – eu gritei, e todos que estavam por perto olharam para mim. – Eu até imagino: McFly!
O primeiro tempo de sexta-feira é aula de música, e todas as turmas de primeiro ano se juntam para a orquestra. Os meninos dizem que não suportam a orquestra porque tocam violino em vez de uma boa guitarra, um baixo ou uma bateria, mas eu acho que na verdade eles curtem a aula. toca piano, e eu sou flautista, na primeira cadeira.
Aliás, Tom costumava ficar realmente chateado pelo fato de ser a pianista, e não ele. No meu íntimo, eu realmente acredito que Tom toca piano melhor, mas isso é algo que eu nunca vou admitir em voz alta.
Como teríamos aula juntos, fomos andando devagar para o auditório, rindo e conversando sobre o McFly, quando uma garota chegou perto de nós e disse, olhando para mim:
– , eu estava te procurando! Nathalya pediu para eu te entregar esse convite – ela empurrou o papel em minhas mãos. – Ela disse que você não pode deixar de ir à festa de dezesseis anos dela, que sem você a festa vai ficar chata e...
– Com licença – eu disse, interrompendo a tagarelice da garota –, eu sou , irmã de . Você quer que eu entregue o convite para ? – perguntei, tentando ser gentil.
Gentileza essa que não foi retribuída.
– Não precisa – ela respondeu friamente, puxando o convite de minhas mãos e indo embora, não antes de lançar um olhar sedutor a Harry.
Eu segurei o riso até a garota ir embora e depois todos começamos a curtir com a cara de Harry.
– O que foi aquilo, Harry? – disse eu, entre gargalhadas. – Você conhece aquela garota?
– Se não conhece – Tom respondeu por ele – vai passar a conhecer!
– Caro Judd, em toda minha vida nunca vi um olhar tão fatal quanto o que aquela garota mandou para você – zoou Dougie.
– Parecia que ela ia te comer com os olhos – falou . – Assustadora.
– Na verdade, eu fiquei morrendo de medo dela – brincou Danny, fingindo que estava assustado e se escondendo atrás de mim.
– Dá para vocês pararem? – berrou Harry, nervoso.
– Harry, não grita senão eu choro – fiz ceninha fingindo que ia chorar.
– O quê? – gritou Tom, tentando não rir. – O Harry vai fazer a loirinha chorar? – ele perguntou para Danny e Dougie.
– Nem pensar! – respondeu Danny, e os três pularam em cima de Harry, derrubando-o no chão. e eu aderimos à brincadeira e nos jogamos em cima deles, e todos que passavam riam e comentavam, mas a gente nem se importava.
Entramos no auditório cinco minutos adiantados e começamos a observar as pessoas que estavam lá. , que é flautista da segunda cadeira (isso mesmo, logo atrás de mim), já estava conversando com Bia e Carol sobre suas unhas. Eu sei que era sobre as unhas porque Bia tinha erguido o indicador e apontou para um pedacinho de unha em que faltava esmalte. Tinha também o grupo dos nerds, que odiavam a aula de música porque não era nada que você poderia decorar lendo nove livros sobre o assunto. Tinha um grupinho de garotas aspirantes a populares que conversavam animadamente, dando gritinhos de excitação de vez em quando. Uma dessas garotas olhou para mim, sorriu e caminhou calmamente até onde eu estava sentada com meus amigos.
– Oi, !
Só depois que ela abriu a boca é que eu percebi que era .
Mas não parecia nadinha com a ! A garota, que antes tinha cabelo castanho e ondulado, agora estava com as mechas lisas e louras. Os olhos, antes verdes, passaram a ser azuis com uma lente de contato. Para finalizar, ela, que costumava usar quilos de maquiagem, usou apenas lápis preto debaixo dos olhos, máscara para cílios e brilho labial.
Na verdade, ela não estava bonita. Mas o pior disso tudo é que ela parecia comigo: cabelo liso e louro, olhos azuis e pouca maquiagem, mas sem dispensar o lápis preto. Era assustador.
Acho que percebeu que estava muito parecida comigo antes de eu mesma ter percebido isso, porque ela falou, sem escrúpulos:
– , o que você fez consigo mesma?
Feliz ou infelizmente, achou que era um elogio, como se tivesse amado o novo visual:
– Você gostou, ? Eu pintei e alisei meu cabelo e passei a usar lentes de contato azuis!
– Ficou... muito legal, ! – eu menti. Porque, na realidade, eu estava morrendo de parecer com ela. Atrás de mim, percebi que os meninos estavam com os olhares fixados em . Será que eu era a única que estava a achando feia?
– Obrigada! – ela sorriu, radiante. – Te vejo no treino, às três?
– Três e meia, acho que eu vou lanchar hoje...
– Tudo bem, mas não chega atrasada não! Tenho tanta coisa para te contar! – ela acenou com a mão e foi embora.
Esperamos se afastar, para que não nos ouvisse e Dougie falou para Danny:
– Dude, o que você fez com essa garota?
Danny riu.
– Não sei, mas o que ela fez com a aparência dela?
interrompeu:
– Vocês por acaso não a estão achando bonita, estão? – ela perguntou com olhar de súplica.
– Claro que não! – respondeu Tom, olhando para ela como se ela fosse louca. – A garota pirou e se estragou toda!
– Ei – começou Harry –, algum de vocês reparou que ela tentou imitar a loirinha?
– Espere – eu protestei –, eu sou tão feia assim?
– Não, loirinha, você é linda! – falou Danny, me fazendo corar.
– É, , a tentou ficar parecida com você, mas não conseguiu – reforçou Harry, me fazendo suspirar de alívio.
– Loirinha, você é insubstituível – falou Dougie.
Tom fez cara de quem estava pensando.
– Não, acho que a poderia substituí-la – ele disse. Eu fiz cara de escandalizada, e bati nele. – Na aparência! – ele esclareceu.
– Por falar na semelhança entre eu e a , já contei para vocês da roubada em que a me colocou?
– Não – respondeu Dougie.
– Ela já contou para mim – disse Danny, dando de ombros. Os outros garotos fingiram ter uma crise de ciúmes.
– Ai, agora você magoou, ! – falou Harry, fingindo que ia chorar.
– O quê? – a instigou. – A vai fazer o Judd chorar?
– Nem pensar – falaram Danny, Tom e Dougie juntos, e começaram a fazer cócegas na minha barriga.
Mas, felizmente, quando o professor chegou, ele pôs ordem no auditório, e os meninos foram obrigados a parar. Eles se afastaram, junto com todos os violonistas, mas Harry ainda teve tempo de me mandar uma mensagem ameaçadora, abrindo a boca, mas sem emitir som: “A gente acerta as contas depois”.
foi para o piano, e eu peguei minha flauta e sentei na primeira cadeira, e senti quando sentou atrás de mim.
– Oi – ela sussurrou –, você está pronta?
Já é tradição me perguntar isso. Quando nós ainda morávamos nos Estados Unidos, nós fazíamos parte da orquestra da nossa antiga escola para meninas, e sempre quando sentava atrás de mim (eu sempre fui primeira cadeira, sempre foi segunda), ela perguntava se eu estava pronta.
sempre fica tão animada nas aulas de música. Eu, apesar de não admitir, também gosto muito, até porque essa é a única aula que o professor gosta de mim. Outro motivo é que quando eu começo a soprar a flauta, esqueço de tudo, de todos os problemas.
E foi isso que aconteceu. Quando eu deixei de ser e passei a ser “a flautista da primeira cadeira”, esqueci da festa do dia seguinte, de Danny, de , de tudo...
Capítulo 9
– Oi – Danny disse sentando do meu lado no refeitório. Há muito tempo ele não almoçava com a gente.
– Oi – respondi. – Onde estão os meninos?
– Pegando mais comida – respondeu ele, rindo.
– E por que você não está pegando mais comida com eles?
– Sem fome – ele deu de ombros. – Onde está ?
– Se sentiu mal e foi para casa – menti. A verdade é que um garoto do terceiro ano tinha chamado para sair, e ela foi sem hesitar, falando para eu não esperá-la hoje. Safadinha.
– Hum. Eu ia chamar vocês duas para ver o ensaio da banda.
– Ah, eu vou sim! – respondi, entusiasmada. – Qualquer coisa para me tirar de perto da – no intervalo, eu tinha contado para os outros meninos sobre a festa, e todos eles ficaram animados, como se fosse uma coisa realmente legal.
Claro, muito legal. Tão legal quanto uma montanha-russa com defeito.
Dougie chegou por trás de mim e apertou minha barriga, me fazendo sentir cócegas e dar um tapa na mão dele.
– Ai, amor, você está agressiva hoje! – Dougie brincou, fazendo uma voz de dor.
– Você ainda não viu nada... espere até nós chegarmos em casa – eu entrei na brincadeira de Dougie, fazendo-o rir. Ele se sentou na minha frente.
– Ei, do que estão falando? – Tom chegou e se sentou ao lado de Dougie.
– disse que vai ver nosso ensaio hoje – falou Danny.
– E ? – perguntou Tom, olhando em volta. – Onde ela está?
– Passando mal. Foi para casa, mas talvez ela vá ver o ensaio do McFly.
– Espere – começou Dougie –, se ela está doente, ela não vai ver o ensaio.
– Ela não está doente – falou Danny calmamente.
Eu deixei o garfo cair.
– Como assim, ela não está doente? Eu acabei de falar que ela está passando mal.
Danny deu de ombros.
– Mas isso é o que as garotas dizem quando estão tentando esconder alguma coisa dos garotos.
– Quem está tentando esconder o quê? – perguntou Harry, se sentando ao meu lado.
– Essa é a grande questão, caro Judd – falou Tom. – Por que a loirinha está nos escondendo o paradeiro da ruiva.
– Não estou escondendo nada! – protestei.
– Você não nos engana, loirinha, onde é que a está? – questionou Harry.
– Não falo! – gritei. – Vocês não vão arrancar essa informação de mim!
– Ih, aí tem coisa – implicou Dougie.
– Coisa não, meu caro Poynter, aí tem garoto! – falou Danny.
– Vocês podem calar a boca? – falei, exasperada.
– Nem pensar, até você falar quem é – disse Tom.
– Quem é quem?
– A pessoa com a qual está se agarrando nesse exato momento – respondeu Danny.
– não está se agarrando com ninguém!
– Mentira! – exclamou Danny.
– Vamos, loirinha, quem é? – perguntou Harry.
– Vocês não conhecem! – tentei fazê-los desistir.
Só que é difícil...
– Opa, isso significa que ele é do terceiro ano... – pensou Dougie.
Eu me levantei, irritada.
– Quer saber? Não vou mais a nenhuma porcaria de ensaio hoje, e a também não! – exclamei, dando as costas para eles.
Infelizmente, minha saída estratégica foi impedida por Danny, que agarrou meu braço, me impedindo de andar.
– Me solta, Danny – falei, cansada.
– Não, fica aqui, a gente promete que não te pergunta mais nada! – pediu ele, olhando nos meus olhos.
POR QUE EU TINHA QUE OLHAR NAS DROGAS DOS OLHOS AZUIS DELE?
Tudo bem, eu sei que eu sou uma fraca.
Bom, eu sentei, e Danny perguntou: “Você não vai deixar a gente na mão no ensaio, vai?”
Ai, merda, não dá para dizer não para aqueles olhos.
Eu sou uma babaca mesmo.
– Não, Danny, eu não vou deixar de ir ao ensaio de vocês, porra!
Todos começaram a rir.
– Posso saber qual é a graça? – perguntei, olhando para todos eles.
– Você fica tão engraçada com essa cara de enfezada! – Harry respondeu.
Idiota.
– Fica tão bonitinha, parece uma criança mimada que não conseguiu o que queria! – falou Danny, ainda rindo.
Peraí, ele falou que eu fico BONITINHA? Ai, que fofo.
– Onde vai ser o ensaio? – perguntei, esquecendo que eu estava estressada.
– Na casa de Dougie, é a mais perto daqui. – respondeu Tom.
– Tudo bem. Depois do treino eu vou pra lá – falei, observando a reação de Danny ao lembrar do treino, e, conseqüentemente, de .
– Não seja burra – começou Dougie, e eu lhe mandei um olhar de como-é-que-é-você-realmente-falou-que-eu-estou-sendo-burra –, nós podemos assistir ao seu treino e vamos todos juntos.
Eu pensei em como Danny ficaria ao ver como goleira, e falei:
– Não precisa não, Dougie, há três anos eu vou para sua casa, sei bem onde fica.
Tom percebeu que eu não queria que Danny fosse ao treino por causa de , e falou para Dougie:
– Ela está certa, dude, a gente vai ter mais tempo para ensaiar se não esperarmos.
Dougie deu ombros:
– Tudo bem, então.
Passei toda a aula de biologia pensando nos olhos azuis de Danny, e foi uma surpresa total quando eu estava saindo da sala de aula e o pensamento se tornou realidade, os olhos azuis de Danny realmente estavam na minha frente.
O dono daquele par de olhos me abraçou, e eu senti o cheiro do uniforme de Danny. Era cheiro de sabão em pó misturado com amaciante, e Danny usava 212 Men, o meu perfume masculino favorito. Eu fiquei curtindo o cheirinho dele, apoiando a cabeça em seu peito, durante uns trinta segundos, que me pareceram horas.
É. Droga, eu realmente me apaixonei.
Depois ele se afastou e olhou para mim dando um sorriso fraco.
– Loirinha, você parece triste.
Céus, eu amo quando Danny fala “loirinha” com aquela voz bonita e grave dele, que ele usa para cantar no McFly.
Aliás, eu adoro tudo em Danny. Não que ele seja perfeito, porque ninguém é, mas para MIM ele é perfeito.
E eu sei que eu não sou boa o suficiente para ele.
– Não estou triste – menti, porque a verdade era que eu estava em depressão. Por que tudo tinha que ser tão difícil? Por que Danny não ficava logo apaixonado por mim? E por que tem que gostar tanto de mim? Seria tão mais fácil para mim se ela me odiasse. Eu não sentiria tanta culpa por gostar tanto de Danny.
Tentando mudar um pouco meus pensamentos sobre os olhos de Danny, perguntei:
– Onde estão os outros meninos?
Danny pareceu decepcionado pela súbita pergunta.
– Por quê? – ele fez manha. – A minha companhia é tão ruim que você não agüenta ficar sozinha comigo por uns minutos? – ele brincou.
Até parece.
– Ah, Danny, você é insuportavelmente chato, eu não suporto sua presença! – ironizei. É claro que eu estava amando ficar sozinha com ele, pelo menos um pouco.
Não me leve a mal. É claro que eu também amo ficar com Harry, Dougie, Tom e . Mas um pouquinho de privacidade não faz mal a ninguém.
Não que eu e Danny aproveitemos bem nossa privacidade. Posso pensar em inúmeras coisas melhores para fazer com Danny na privacidade do que conversar sobre a minha tristeza ou sobre o paradeiro de nossos outros amigos.
– Já estão vindo – ele respondeu.
– Já chegamos – ouvi a voz de Tom atrás de mim.
– Oi. O que estão fazendo aqui? – perguntei, dando um abraço em Tom e beijos rápidos nas bochechas de Dougie e Harry.
– Você esqueceu que precisa de escolta para ir ao campo de futebol? – perguntou Harry.
– Vocês têm que parar com isso! Vocês sabem muito bem que eu não vou me perder daqui até o campo.
– Nunca se sabe – disse Dougie sombriamente.
– É, nunca pode-se confiar na loirinha – falou Danny.
Todos eles riram, mas eu falei:
– É sério, não precisa mesmo.
Infelizmente, eu não fui rápida o suficiente para Danny, que me pegou no colo e saiu correndo em direção ao campo, enquanto eu esperneava.
De repente ele parou, e se virou para os outros meninos:
– Vamos brincar de revezamento de ? – ele riu e fez cara de malvado.
– Ah, vamos! – falou Harry. Danny me passou para os braços de Harry, e eu ainda gritava.
– ME SOLTA, PORRA! VOCÊS ME PAGAM POR ESSA! AI, HARRY, A GENTE VAI CAIR, SEU DESAJEITADO!
– Ih, loirinha, cala a boca aí – Harry corria muito rápido, e eu estava morrendo de medo de cair.
Depois de um tempo, foi a vez de Tom me levar. Ele me pôs nas costas, em vez de no colo, segurou minhas pernas para que eu não caísse (o que eu sabia que não estava sendo nada bom para minha saia da escola), e saiu correndo. Para fazer ele me soltar, eu fiquei dando soquinhos nas costas dele, mas ele era mais forte do que eu esperava.
– Tom, me solta, eu tô de SAIA!
Tom parou com essa afirmação, e os meninos chegaram logo atrás dele. Tom me soltou, percebendo que eu realmente tinha me irritado.
– , sem querer te irritar, mas nós três tivemos uma bela visão daqui de trás – falou Danny. Que vontade de bater nele.
– E, a propósito, , da próxima vez não usa o short por baixo da saia, não, tá? – riu Dougie, fazendo uma cara maliciosa.
– Ai, seu pervertido!
Dessa vez eu não me segurei e bati muito em Dougie. Só não bati na cara porque seria muita humilhação, e eu nem tinha ficado tão chateada assim, afinal todos eles já tinham visto eu e a de pijamas mesmo, qual era o problema de ele me ver de short?
Mesmo assim, eu só parei de bater nele quando ele segurou meus pulsos e me pôs no colo, correndo até chegar ao campo de futebol.
– Êêêê! Concluímos o revezamento! – comemorou Danny, pulando e fingindo que estava abrindo uma garrafa de champanhe.
– Meninos – comecei, e todos eles olharam para mim. – Eu não sei se vocês sabem, mas eu realmente preciso jogar futebol. E eu também não sei se vocês sabem, mas vocês precisam ensaiar. Então, tchau – terminei, virando de costas para eles e andando em direção ao vestiário.
– Ei – Dougie segurou meu braço –, larga de ser metida e vem se despedir da gente direito.
Eu sorri e dei um beijinho em cada bochecha de cada um deles. Quando estava me despedindo de Danny, escutei me chamando.
– , você não vai se trocar não? – ela perguntou, gritando porque estava em frente à porta do vestiário.
O sentimento de culpa tomou conta de mim.
– Já vou! – gritei de volta da para .
Eu acenei para os meninos e fui embora correndo, tentando não pensar nos olhos azuis de Danny.
Capítulo 10
– Ai, , acho que Danny já te contou que nós terminamos o namoro – esse foi o papo entre e eu no vestiário enquanto trocávamos o uniforme da escola pelo uniforme do Harpya, o time de futebol feminino da Isaac Newton.
– É – respondi. Não queria mentir para ela, mas eu simplesmente não conseguia admitir que tinha escutado tudo, toda a discussão. Afinal, em parte, era culpa minha e da eles terem terminado, porque se eu não tivesse tocado no assunto “maluquice entre nós”, não teria jogado na cara de Danny que ele não era mais maluco, e Danny não teria me seqüestrado para provar para que ele ainda era maluco.
Ou seja, a culpa é toda minha.
– Mas, , eu não consigo esquecê-lo! Toda vez que eu lembro daqueles olhos... – droga, taí um ponto em que a gente concorda. – , eu ainda amo o Danny.
Sério? Juro que eu não sabia!
Até parece.
– Que péssimo, !
– Eu sei. , será que você pode falar com ele?
Eu sabia! Eu sabia que ela ia me pedir para eu dar uma de cupido. Fiz-me de desentendida:
– Falar o quê com Danny?
– Você sabe. Falar para ele que eu ainda o amo, e que eu o perdôo.
Como é que é?
– , me desculpa – disse eu calçando minha meia –, mas você acha que Danny tem que ser perdoado por exatamente o quê?
– Ah, , vejo que Danny não te contou toda a história. Lembra quando nós estávamos saindo do treino ontem, e ele disse que tinha que estudar e que não poderia sair comigo? Então, eu descobri que ele foi para a casa de Thomas Fletcher, e não foi para estudar!
– Eu sei disso – respondi. – Foi para ver a trilogia Matrix.
– Então! – berrou . – Danny basicamente me trocou por Matrix e Thomas Fletcher!
Eu resolvi pôr um ponto final naquilo, ainda que cautelosamente.
– Mas , nesses quatro meses que vocês dois estiveram juntos, a única coisa que Danny fez foi sair com você! Durante quatro meses, Danny não saiu uma única vez comigo, ou com , ou com Tom, Harry ou com Dougie! Você não acha que ele tem direito a sair com os amigos de vez em quando?
terminou de calçar os tênis e me encarou.
– Já vi que você está do lado dele, . Isso é ruim, porque ele é quem está errado. Mas tudo bem. Eu só peço uma coisa: conversa com ele? Por favor?
Eu respondi que sim, ela se deu por satisfeita e eu mudei de assunto bruscamente.
– , por que você mudou o visual?
Ela olhou para baixo.
– Ah, sei lá, acho que eu estava tentando imitar você. – Eu a vi ficando vermelha, mas fingi que estava concentrada em amarrar meus tênis.
– Me imitar? Para quê?
fez menção de chorar, mas vi que ela estava segurando as lágrimas fortemente.
– O que foi? Por que você está chorando? – perguntei, assustada pela reação dela.
– , você não percebe? – falou ela.
– Não percebo o quê? – perguntei, abismada.
– Danny sempre fala que você é linda, e ele te chama de loirinha! Eu queria apenas que e-ele me a-achasse t-tão b-bonita quanto ele te a-acha! – ela disse isso muito rápido, e isso somado ao fato de que ela estava soluçando fez com que se tornasse muito difícil entender o que ela estava dizendo.
Todas as garotas do Harpya chegaram mais perto, sem entender por que estava chorando. Eu, sem me importar muito com a presença das outras meninas, comecei a conversar com , colocando minha mão sobre seu ombro para reconfortá-la.
– , por favor, não fique assim. Isso não tem nada a ver, certo? Danny mesmo me disse que achava você mais bonita com o cabelo castanho e ondulado.
– Ele disse isso?
– Não exatamente com essas palavras – eu expliquei, me lembrando que ele tinha mencionado que agora estava feia.
E isso me fez lembrar que Danny tinha dito na mesma ocasião que eu era linda.
“Ai, será que ele gosta de mim?”, pensei, involuntariamente.
Voltei à realidade quando escutei os soluços de . Culpada.
– E, , todos os meus amigos me chamam de loirinha, não é só o Danny.
parou de soluçar por um momento, olhou nos meu olhos e disse:
– , você está sendo tão burra! Está na cara que Danny está apaixonado por você!
Um momento. O quê?
só pode estar pirando. É impressão minha ou ela está com ciúmes de mim e Danny?
Essa é a única explicação para o que ela me tinha me dito.
Porque, sinceramente, há um ano eu espero que Danny se apaixone por mim. É claro que não faço o menor esforço para isso, mas tenho esperanças que ele absorva esse sentimento por osmose ou coisa assim.
E, acredite, essa minha tática não está funcionando. Danny não parece estar sentindo por mim nada diferente do que ele sentiu quando nós nos conhecemos, há quase quatro anos.
Era época de volta às aulas e eu estava sentada sozinha na sala, no primeiro dia de aula, na hora do intervalo. já estava enturmada e as pessoas populares (é, popularidade aos doze anos) já estavam puxando nossos sacos, mas eu tinha arranjado uma desculpa para sair de perto deles e ficar na sala. Danny estava passando pelo corredor e me viu sentada sozinha, escutando música no meu iPod. Ele chegou perto me mim, se sentou ao meu lado e perguntou:
– Posso escutar com você?
Eu fiquei surpresa por aquele garoto que nem sabia meu nome estar pedindo para escutar música comigo. Mesmo assim, eu dei de ombros e entreguei um dos fones de ouvido para ele. Quando ele percebeu que era Beatles, ficou em êxtase.
– Cara, essa banda é demais! Eu e meus amigos amamos Beatles! E essa música, Help, é a melhor! “Help me if you can, I’m feeling down...”
Eu sorri porque a voz dele já era bonita, mesmo aos treze anos de idade.
– Qual é o seu nome? – ele perguntou para mim, se lembrando de que nem me conhecia.
– .
– Eu sou Danny – disse ele simplesmente. – Na verdade, é Daniel Jones, mas eu prefiro que você me chame só de Danny.
– Okay – eu falei. Ainda não era tão boa em português, então em vez de usar um “tá bom” ou um “tá legal”, eu simplesmente usei o clássico americano. – Na verdade, eu prefiro que me chamem de .
– Tudo bem – ele concordou e continuou cantando – “Help, I need somebody, Help, not just anybody...”
O sinal tocou e ele teve que voltar para sala. Ele se levantou, me entregou o fone de ouvido e falou:
– Você é legal, .
Eu ri.
– Você também é legal, Danny.
Ele parou na porta, virou para mim e observou:
– Eu não sei se alguém já te disse, mas com essa sua loirice, nem parece que você é aqui do Brasil.
E foi embora, sem nem dar tempo de eu falar que eu não pareço brasileira porque eu não sou brasileira.
Viu? Danny sempre sentiu AMIZADE por mim, antes mesmo até de saber que eu era americana.
E essa amizade não mudou, e nunca vai mudar.
E foi exatamente por isso que eu ri de , na cara dela.
Eu sei. É uma coisa má de fazer quando a pessoa realmente está passando por problemas psicológicos relacionados à insegurança.
Mas eu não me agüentei.
– , Danny não gosta de mim desse jeito – disse eu, tentando parecer animada. – Nós somos amigos há tanto tempo! Ele me ama assim como ama , Tom, Dougie e Harry.
– Não, , é diferente! Dá para perceber, quando nós estávamos namorando, ele sempre falou mais de você, você é a pessoa com a qual ele mais se preocupa!
– Isso é porque nossa amizade dura há praticamente quatro anos, Harry e os meninos...
– , pára! – ela exclamou, me olhando como se suplicasse. – Eu sei que posso confiar em você porque você não gosta de Danny desse jeito, mas ele está tão obviamente apaixonado por você!
Ela soltou as lágrimas e me abraçou. Eu não sabia o que fazer. Como estava errada.
Mas uma coisa eu sabia: eu não podia trair a confiança de .
E nós duas saímos do vestiário, abraçadas, em direção ao campo: era hora de jogar.
E as duas tentavam evitar ao máximo pensar naqueles olhos azuis.
Capítulo 11
Eu toquei a campainha e não precisei esperar nem um minuto para que a mãe de Dougie abrisse a porta e me puxasse para dentro de casa, sorrindo.
– , como você demorou, os garotos acharam que você não vinha mais! – ela disse, me cumprimentando com dois beijinhos no rosto.
– Eu saí do treino na hora normal, Sra. Poynter!
– É, Danny ficou falando isso o tempo todo, mas Harry, Douglas e Thomas estavam tendo colapsos nervosos.
Eu ri. A mãe de Dougie era tão legal, nos tratava como se fôssemos seus amigos, não amigos de seu filho.
– Onde eles estão? – perguntei, mas já sabia a resposta.
– Oh, querida, eles estão ensaiando no porão. Vá lá, eles vão ficar felizes em te ver.
Eu fui até o porão, que era onde os meninos ensaiavam desde sempre. Quando cheguei lá, vi que eles estavam tocando You’ve got a Friend, que é o cover que eles fazem que eu mais gosto. Fiquei escondida, sentada na escada pouco iluminada para não interrompê-los.
When you're down and troubled
And you need a helping hand
And nothing, oh nothing is going right
Close your eyes and think of me
And soon I will be there
To brighten up even your darkest night
You just call out my name
And you know wherever I am
I'll come running (yeah) to see you again
Winter, spring, summer or fall
All you got to do is call
And I'll be there, yeah, yeah, yeah.
You've got a friend (oh oh)
If the sky above you
Should turn dark and full of clouds
And that old north wind should begin to blow
Keep your head together
And call my name out loud, yeah
Soon I'll be knocking upon your door
You just call out my name
And you know wherever I am
I'll come running, oh yes I will
To see you again
Winter, spring, summer or fall
All you got to do is call
And I'll be there, yeah, yeah, yeah.
Hey, ain't it good to know that you've got a friend
people can be so cold
They'll hurt you, and desert you
well they'll take your soul if you let them
Oh yeah, but don't you let them
You just call out my name
And you know wherever I am
I'll come running to see you again
(Oh baby don't you know about)
Winter, spring, summer or fall
Hey Now! All you have to do is call
Lord, I'll be there yes I will.
You've got a friend
Oh, you've got a friend.
Aint it good to know you've got a friend.
Aint it good to know you've got a friend.
You've got a friend.
A música lembra a nossa amizade, talvez por isso que eu sempre gostei tanto dela. A gente sempre pode contar um com o outro em QUALQUER situação.
E quando eu digo qualquer, é qualquer mesmo.
– Bravo! – Eu fiz o maior escândalo por causa da música, que estava linda, e eles fizeram o maior escândalo por me virem ali.
Todos se levantaram, largaram os instrumentos e fizeram um montinho em cima de mim.
– Loirinha!
– Danny!
– !
– Tom!
– !
– Dougie!
– Tomatinho!
– Idiota! – essa última foi para o Harry, é claro.
– Estávamos com saudades de você – eles falaram juntos, fazendo um corinho ridículo.
Eu ri.
– Nossa, até parece que eu fui viajar por um mês, e não que eu fui jogar futebol durante duas horas!
– Você nos troca por futebol, , esse é o problema! – disse Tom, emburrado.
– Ei, eu estou aqui, não estou? Vim assistir ao ensaio, e vocês não vão ficar aqui me paparicando quando era para estarem ensaiando! – eu falei, fazendo cara de superioridade.
– Calma, mamãe! – riu Dougie.
– É, você não precisa ser tão mandona, amor! – Harry fez voz de mulher e todos riram.
– Pára, amor, assim eu fico com ciúmes! – reclamou Danny para Harry, que subiu em suas costas e deu um beijinho em seu rosto.
– Ai, assim eu fico arrepiada, Harry! – brincou Danny, ainda com voz de gay.
– Viu, é por isso que eu me sinto tão à vontade com vocês, é como se vocês fossem meninas, como eu! – eu falei.
– , não quer ficar mais à vontade não? Está calor aqui dentro, não? – Tom disse maliciosamente.
– Tom, seu pervertido! – eu gritei e saí correndo atrás dele, e ia bater nele se Dougie não tivesse me posto no colo e me virado de cabeça para baixo.
Calma, gente. Eu estava de calça jeans.
Nós rimos e brincamos mais uns dez minutos, mas os meninos realmente tinham que ensaiar.
– Ei, – começou Harry –, a gente tem uma música nova!
– É? – eu perguntei. – Quem foi que escreveu?
– Foi o Danny – entregou Dougie.
– É, foi o Danny – confirmou Tom.
– Por que vocês estão pondo a culpa em Danny com tanta veemência?
Danny riu.
– Porque se você não gostar, o idiota que escreveu a música fui eu!
– Eu vou gostar – garanti a eles –, então comecem logo!
– Tá, o nome da música é Get Over You.
– Nome sugestivo – brinquei.
E eles começaram.
She was looking kinda sad and lonely
And I was thinking to myself if only
She gave me a smile but
Its not gonna happen that way
So I took it upon myself to ask her
And be her company and maybe after
We can talk a while but
I just don't know what to say
Coz you've got all the things that I want and
I just can't explain so
Help me babe I gotta get over you
And now and then she looks in my direction
I'm hoping for a sign of her affection
But she’s in denial and
She’s got some worries today
But I think if she gives me a chance
I'll pleasently surprise but
Help me babe I gotta get over you
She has everything that she wants and
I just can't explain so
Help me babe I gotta get over
Help me babe I gotta get over
Help me babe I gotta get over you
– Linda! – eu levantei e bati palmas, entusiasmada. Os meninos fizeram reverências.
A música era mesmo linda, mas era óbvio que fora escrita para . Era sobre uma garota que, apesar de estar triste, solitária e preocupada, não dava uma chance para o eu-lírico. Ele apenas queria UMA chance com ela, mas como ela negava essa chance, ele pedia ajuda porque precisava esquecê-la.
Só havia uma diferença: Danny ainda não sabia que estava disposta a dar a chance a ele.
E sabe o que era o pior de tudo? Eu era a pessoa que tinha a tarefa de dar essa notícia a ele.
Mas eu faria isso depois. Então eu apenas assisti ao ensaio deles em silêncio, apenas sorrindo quando eles olhavam para mim. Todos eles me amavam e eu sabia disso. Não podia desapontá-los.
Mas, principalmente, não podia desapontar o Danny.
Eles tocaram por mais uma hora e depois nós resolvemos sair para lanchar alguma coisa na rua. Eu liguei para casa para avisar (claro, eu não merecia outro chilique por parte de ) e nós fomos ao McDonald’s.
Como sempre, pedimos o eterno número 1, e quando sentamos para comer, o papo “ e sua suposta doença” recomeçou.
– Sabe – falou Dougie, de boca cheia –, nós ligamos para a hoje.
– É mesmo? – eu disse mais concentrada no meu hambúrguer do que no que eles estavam falando.
– É – confirmou Harry –, e quando nós perguntamos se ela poderia vir ver nosso ensaio, ela falou que não estava passando bem.
– Eu não falei? – eu sorri, mostrando aquele arzinho de superioridade que minha irmã às vezes faz.
– É, mas a ligação estava no viva-voz e nós quatro percebemos uma coisa muito estranha – observou Harry.
– O quê? – perguntei eu, ainda concentrada no hambúrguer, sem ligar muito para o que ele ia dizer.
– Não, é que ao fundo, parecia ser um lugar cheio e barulhento, como por exemplo...
– Um shopping? – sorriu Danny. – E não é só isso, ainda escutamos uma voz masculina ao fundo, algo como “Vem cá, !” e que por acaso parecia muito ser a voz de...
– Luiz Felipe Manta, do terceiro ano? – completou Tom.
– Que coisa feia, , algo me diz que houve uma pequena mentirinha da parte de nossas duas melhores amigas... – Dougie fez cara de decepção.
– Não houve! – eu falei, na defensiva. – Eu não acredito em vocês!
– Pois deveria acreditar, loirinha – falou Harry. – Luiz Felipe Manta, se é que você não sabe, está logo após de mim na Classificação dos...
– ... Caras Mais Gostosos da Isaac Newton de Maya, é, eu sei quem é Luiz Felipe Manta.
– E o que será que nossa querida amiga estava fazendo com Luiz Felipe Manta no shopping, numa sexta-feira à tarde? – Tom perguntou, se fazendo de burro.
– Um caso de amor tórrido, talvez? – opinou Danny.
– Não há nenhum caso de amor tórrido! – eu exclamei, largando o sanduíche. – E, aliás, você é a última pessoa que pode falar sobre casos de amor tórridos sem se incluir em um deles, Danny Jones.
– Eu? O que você quer dizer, loira?
– me procurou para conversar hoje – respondi, fazendo suspense.
Deu certo. Todos esqueceram qualquer caso de amor tórrido que poderia estar tendo com Manta e viraram as atenções para o que eu estava falando. Principalmente Danny.
– E?
– E o quê, Jones?
– E o que ela falou?
– Ela disse que ainda te ama e que não consegue esquecer aquela parte do seu corpo.
– Ih... – os outros meninos fizeram coro e Danny ficou vermelho.
– Que parte do corpo? – ele perguntou. Eu estava segurando o riso com muita classe.
– AQUELA parte do corpo, Danny Jones. Ai, como você é lento.
– Mas como assim?
– Ela disse que não esquece a beleza daquela sua parte do corpo, e que nunca vai esquecer o dia que a viu pela primeira vez – eu enfeitei um pouco a história. Os meninos estavam dando gargalhadas.
– Dá para você especificar QUAL parte do corpo ela estava falando, ?
– Ah, Danny, aqui na frente de todo mundo?
– É, porra – ele respondeu, irritado.
– Calma, Danny, não precisa ser grosso! – eu falei e todos os meninos perceberam o duplo sentido da frase. Eles estavam rindo demais. Harry colocava a mão da barriga, Dougie abaixou a cabeça e enfiou o rosto entre os braços, para abafar o som das risadas, e saíam lágrimas dos olhos de Tom, de tanto que ele ria.
– , se você não abrir a porra dessa boca e não falar qual é a porra da parte do corpo da qual estava falando, eu juro que eu te mato de forma lenta e dolorosa, com uma espinha de peixe!
– Ela estava falando dos seus olhos, seu bobão! – esclareci, e os meninos não agüentaram. Eles riram tão escandalosamente que todos em volta nos olharam com aqueles olhares de reprovação que só os adultos sabem fazer.
Danny estava tão irritado, mas tão irritado que não parecia nem encontrar palavras ou xingamentos que pudessem expressar o que ele estava sentindo.
Ele só murmurou no meu ouvido:
– Você vai pagar por isso.
Eu ri mais ainda, e não pude deixar de ver que ele estava sorrindo quando me viu rir daquele jeito.
Capítulo 12
– Oh, meu Deus, como eles descobriram?
estava histérica no telefone.
– Ah, , eles falaram que te ligaram e que ouviram a voz do Luiz Felipe Manta atrás de você, te chamando.
– Aff, eu bem que o mandei calar a boca, mas o garoto simplesmente não tem cérebro!
– É, mas a ausência de cérebro é compensada pela total presença de músculos, né?
– Com certeza! Minha filha, que braços são aqueles... – suspirou.
– Chega, , olha os detalhes que eu não quero saber – eu falei, rindo. – , você não gosta mesmo do Manta não, ou gosta?
– Nãããão, eu só saí com ele pela sua excessiva gostosura.
– Ah, tá. – Por um momento eu tinha pensado que estava gostando de Luiz Felipe, o que não seria uma boa idéia.
– Mudando de assunto, como foi o ensaio dos meninos hoje?
– Ah, foi ótimo! – eu disse, sorrindo e me tacando em minha cama. Eu tinha acabado de sair do banho quando me ligou, e a toalha ainda estava em meu cabelo. Percebi que ela estava molhando toda a cama, mas não me importei muito. – Danny escreveu uma música linda para , e os meninos ainda fizeram o cover de You’ve got a friend.
– Eu amo quando eles tocam essa música! – exclamou . – E como você sabe que a música que Danny escreveu era para ? Ele falou isso?
– Não, mas a música se chama Get Over You, e fala sobre uma garota que tinha tudo, mas mesmo assim estava triste e sozinha. Ela era tudo o que ele queria, mas mesmo assim ela negava uma chance a ele, então ele tinha que esquecê-la.
– , eu já te falei que você é muito burra? – me veio com essa.
– Já, várias vezes – respondi.
– E você mesmo assim não consegue se livrar da sua burrice, pelo visto.
Eu perdi a paciência.
– , o que você quer dizer com essa análise da minha inteligência?
– , não é óbvio para você que essa música é sobre você? – Agora ela é quem parecia impaciente.
– Não, não é nada óbvio porque essa música não é sobre mim.
– Raciocina, , eu sei que é complicado, mas use alguns dos seus neurônios, por favor. Você tem tudo o que quer?
– Tirando o Danny, acho que sim. Quero dizer, de forma material, com certeza, e, bom, eu tenho meus amigos, não é isso o que importa?
– Você está triste e sozinha?
– Na verdade, sim.
– Você está negando uma chance ao Danny?
Eu tive que rir, apesar de saber que ela ficaria completamente maluca com isso.
– , o Danny não quer uma chance comigo.
E, para minha surpresa, bateu o telefone na minha cara.
Okay, a pergunta que não quer calar é: Porque diabos ela bateu o telefone na minha cara?
Mas eu ia tirar isso a limpo.
Penteei meus cabelos rapidamente e desci as escadas da minha casa.
– Pai, eu vou à casa da ! – berrei, e escutei um “Tá bom” vindo da cozinha. Não é como se demorasse muito para chegar lá. Eu abri o portão da minha casa e logo depois toquei a campainha da casa vizinha. Quem atendeu foi .
– Posso perguntar o que é que foi aquilo? – eu a repreendi assim que o portão abriu.
– Entra aqui – ela respondeu, me puxando pelo pulso. Eu fui sem oferecer resistência. O quarto de também ficava no segundo andar, então enquanto ela me puxava escada acima, eu quase caí, mas tudo bem.
Quando entramos no quarto de , que era todo roxo e meio sombrio, ela me soltou e me disse:
– Vou te dar uma prova de que Danny está apaixonado por você, e se depois dessa você continuar a me contestar, eu juro que vou te matar com uma agulha de tricô da minha avó.
– Se me permite perguntar, como você me mataria com uma agulha de tricô?
– Da mesma forma que você mataria o Harry com um palitinho de dentes! Agora senta essa bunda em frente a esse computador e lê o que está na tela!
Eu totalmente aceitei a ameaça dela e li. Para minha surpresa, era uma conversa entre Danny e , que ela tinha deixado na tela do computador.
RatLeg: É claro que Get Over You foi para ela, para quem mais poderia ser? Para a ?
RedHairGirl: Bom, até ontem vc era apaixonado pela , pelo o que eu saiba.
RatLeg: Eu NUNCA fui apaixonado pela . Há mais de um ano eu sou louco pela , mas ela não me dá nenhuma chance!!!
RedHairGirl: Vc usou a para esquecer a ????????
RatLeg: Vc falando assim parece ficar pior. Hum, é, foi isso mesmo.
RedHairGirl: Por que vc não fala para a que gosta dela?
RatLeg: Mais do que já tentei? E a música?
RedHairGirl: Hum, Danny, sinto em lhe informar que acha que aquela música foi escrita para a .
RatLeg: O quê? Vc só pode estar brincando!
RedHairGirl: Na verdade, nós acabamos de falar sobre isso no telefone.
RatLeg: OMG! O que ela quer que eu faça? Grite um “, EU TE AMO”?
RatLeg: ?
RatLeg: ?
RatLeg: ?
RatLeg: ?
RatLeg: PORRA, , DÁ PARA RESPONDER?
RatLeg: log off
Depois que eu li aquilo, não me agüentei, comecei a chorar.
olhou para mim, assustada.
– , o que está acontecendo com você? Você acaba de saber o que você sempre quis saber, e começa a chorar?
Mas eu só queria ir para casa.
– Tchau, – eu falei e fui embora. Sabia que seria esperta o suficiente para não me seguir.
Quando entrei em casa, subi direto para meu quarto, não querendo falar com ninguém. Por sorte, eu não estava soluçando, então a única pessoa que viu minhas lágrimas escorrendo quando eu passei pela sala foi , que, para variar, não fez nenhum escândalo dessa vez. Apenas me seguiu até o meu quarto, e quando me viu deitada na cama, chorando e com a cabeça enfiada no travesseiro, apenas se sentou ao meu lado e fez carinho nos meus cabelos.
– Ai, , o que aconteceu dessa vez? – ela perguntou, parecendo preocupada.
– N-nada. – Sobre aquilo de eu não estar soluçando, esquece, tá? Eu já estava soluçando e gaguejando e, infelizmente, meu nariz estava escorrendo. Eca.
– , acho que você já sabe que ninguém chora por nada. O que houve? É o Jones de novo?
Eu parei de chorar instantaneamente.
– O que o Danny tem a ver com isso?
– Não seja idiota, , eu sei muito bem que você gosta do Jones há séculos.
– Não gosto – protestei, rápido demais.
– Ah, por favor, , não tente negar. Eu te conheço desde que você nasceu, dois minutos e treze segundos depois de mim. E eu sei que você é louca pelo Danny.
– Nós somos amigos! – Eu estava desesperada. Minha irmã não podia saber de forma nenhuma que eu gostava de Danny, ou minha vida seria arruinada.
– Se você não quiser falar comigo, não fale. Mas você não vai para a festa do Alexandre com o rosto inchado desse jeito, você está horrível!
Obrigada, maninha, pelas palavras de consolo.
– Mais uma coisa – continuou falando –, como eu estou proibida de sair de casa e você não, amanhã você vai sair para comprar uma roupa com Bia e Carol.
– Nem pensar! , você sabe muito bem que eu me recuso a ir ao shopping com sua amigas! Eu até visto uma roupa sua, mas não vou sair para comprar roupas com elas! Você sairia para comprar roupas com ?
– Não, porque a não sabe nada sobre moda.
– Na verdade, eu acho que a Bia e a Carol não sabem nada sobre moda. E, de qualquer forma, amanhã eu vou sair com meus amigos.
Bom, eu ainda não tinha combinado nada, mas eu PRECISAVA me livrar de , Bia e Carol.
– Ah, tudo bem – desistiu e andou até a porta do meu quarto –, mas você está PROIBIDA de acordar com essa cara inchada.
Ela saiu do quarto, me deixando sozinha com meus pensamentos.
Capítulo 13
Acordei na hora do almoço.
Deixe-me explicar. A verdade é que passei a noite em claro, pensando na situação em que me encontrava.
Análise da minha situação:
1) Eu amo Danny Jones.
2) ama Danny Jones.
3) confia em mim.
4) é praticamente minha amiga.
5) Danny Jones gosta de mim.
6) Não posso ficar com Danny Jones porque não posso trair a confiança de . Conseqüentemente, não ficando com Danny Jones, vou deixar Danny Jones arrasado. Não posso fazer isso, porque Danny Jones é um dos meus melhores amigos.
7) Ou seja, não posso fazer nada.
Esse foi o resumo da minha noite.
Sendo assim, eu fui dormir já eram cinco horas da manhã, por isso, mesmo que tenha acordado na hora do almoço, estava morrendo de cansaço.
Minha mãe achou estranho o fato de eu estar completamente MOÍDA, mas é claro que ela não conseguiu arrancar nenhuma informação de mim.
Almocei em silêncio e logo fui para meu quarto. Peguei meu laptop e resolvi fazer alguma coisa como, por exemplo, falar com Harry.
SoccerQueen: Harry, o que vc está fazendo?
MrFit: Esperando minha vez de jogar vídeo-game.
SoccerQueen: Interessante. Quem está aí com vc???
MrFit: Dougie e Tom. Eles estão mandando vc vir para cá AGORA.
SoccerQueen: Eu posso???
MrFit: Pergunta idiota, tolerância zero, loirinha. Vem para cá, a gente tá jogando Mortal Kombat.
SoccerQueen: Mortal Kombat!!! Chego aí em dez!
MrFit: Estamos te esperando! Ih, deixa eu ir, Tom acabou de perder! Beijo!
MrFit: log off
SoccerQueen: log off
Eu já falei que Harry é muito legal? O que eu precisava era uma partidinha de Mortal Kombat e tudo se resolveria.
Alguém aí falou em enganar a si mesmo? Ha, ha.
Eu tomei o banho mais rápido da minha vida e pus uma calça jeans, meu All Star xadrez rosa, uma blusa branca e prendi o cabelo num rabo-de-cavalo, colocando-o para dentro de um boné rosa.
Perfeita para chutar a bunda daqueles manés em Mortal Kombat.
A casa de Harry não era muito longe, e eu fui correndo, então cheguei lá em cinco minutos.
Toquei a campainha e Tom atendeu, sorrindo. Ele me deu um abraço de quebrar as costelas e ficou gritando: “Você chegou, você chegou!”
– É, eu cheguei! – respondi.
– Escuta, os pais de Harry foram viajar, você não se importa, né?
– Não – eu respondi. Confiava demais nos três para me importar.
– Então venha.
Ele me arrastou até o quarto de Harry, onde os meninos estavam jogando vídeo-game. No momento em que Tom abriu a porta, Dougie gritou: “Ganhei!”
Dougie começou a pular na cama de Harry cantando: “Eu ganhei, eu ganhei, eu ganhei” e Harry ficou olhando para ele com cara emburrada até que me viu.
– Olá, pequena ! – ele disse e me puxou para um abraço.
– Oi, pequeno Harry! – eu respondi. – Não acredito que você perdeu o jogo!
Ele emburrou de novo e Dougie, que ainda estava pulando na cama de Harry, me puxou pela mão.
– Oi, , vamos pular porque EU GANHEI! – Ele me pôs no colo e voltou a pular na cama de Harry, até que se desequilibrou, e nós dois caímos.
Sorte que a cama de Harry era bem fofinha.
Depois de nós dois nos recompormos, eu desafiei:
– Dougie, eu aposto que te venço no mortal Kombat.
Ele me olhou com ar de superioridade e respondeu:
– Tudo bem. Se você perder, vai ter que fazer a Dança do Ventre para Harry, Tom e eu.
Eu analisei a proposta e aceitei.
– E – eu contrapropus –, se você perder, vai ter que ir e voltar da esquina de cuecas!
Ele aceitou, e nós começamos a partida.
Dez minutos depois, eu estava gritando: “Ganhei!”, e Dougie estava com a cara de decepção mais engraçadinha do mundo.
Tom e Harry estavam comemorando a minha vitória mais do que eu, porque os dois tinham perdido para Dougie. Este, por sua vez, reclamava:
– Seus gays! Vocês não queriam que a dançasse para a gente, não?
Eles pararam para pensar um minuto e responderam, em uníssono:
– Não!
Harry falou:
– A gente queria mais que você perdesse!
E sobrepus minha voz a dos meninos:
– Ei, esperem! Agora é a vez de o Dougie ir até a esquina só de cuecas!
Todos eles riram, até Dougie, que tirou a calça e saiu correndo, de boxers.
E, bom, apesar da nossa amizade, não pude deixar de observar que Dougie fica MUITO BEM só de boxers.
Mas isso é só um comentário.
Quando Dougie voltou, sem fôlego, foi diretamente até a calça jeans e a vestiu rapidamente. Ele fingiu estar irritado, mas eu sabia que ele estava adorando a brincadeira.
Tanto que ele falou:
– A partir de agora, eu não descanso enquanto não fizer a Dança do Ventre!
Eu nem dei bola para ele e disse:
– E aí, quem vai ser o próximo?
Uma hora depois, nós paramos para lanchar. Eu já tinha feito Harry dançar “Macho Man”, Tom teve que fazer uma declaração de amor convincente para Dougie, Dougie teve que dançar a Dança do Ventre, Harry já tinha dançado funk e os três tiveram que dançar três músicas do Backstreet Boys.
Tudo isso porque Dougie ainda não tinha visto minha Dança do Ventre.
Enquanto nós estávamos comendo pizza e falando besteiras, meu celular tocou. Quando vi que era , dei um pequeno gemido. O nome dela no visor do celular me fez lembrar toda aquela coisa da noite anterior.
– Alô?
– Oi, , graças a Deus você atendeu – ela falou, num tom de alívio.
– O que houve, ?
– Onde você está? – ela perguntou.
– Na casa do Harry – respondi. – O que houve? – eu repeti.
– Ah, , é a . Ela está desesperada, procurando você. Já me ligou sete vezes para saber onde você está.
– Mas eu avisei aos meus pais aonde ia!
– Seus pais não estão em casa. Pelo o que entendi, eles foram à casa de uns amigos.
– E aconteceu alguma coisa com ?
– Ela quer que você volte para casa imediatamente, mas não sei porquê.
– Ela está aí com você?
– Não, , ela só me ligou, parece que ela não está conseguindo falar com você no celular...
Eu suspirei pesadamente e concordei:
– Tudo bem, , você pode avisá-la que eu chego em casa em cinco minutos?
– Eu aviso – falou e desligou.
Eu guardei o celular, me espreguicei e comuniquei aos meninos:
– Tenho que ir. Parece que está me procurando.
– O que ela quer com você? – perguntou Tom, desconfiado.
– Não sei, mas acho que tem a ver com a festa que vou ter que ir daqui a algumas horas.
– Mas não é só sete e meia? – perguntou Dougie. Estava óbvio que ele queria ter a chance de me derrotar no vídeo-game.
Eu rolei os olhos.
– Conhecendo a , ela vai querer passar horas me arrumando. Ninguém merece, mas...
– Essa festa é uma droga – falou Dougie, emburrado.
Eu joguei a cabeça para trás e ri.
– Meninos, se não me falha a memória, ontem mesmo vocês disseram que ia ser divertido?
– É, mas pelo visto não vai ser mais – disse Harry.
Eu, ignorando as expressões de bunda dos meninos, dei um beijo na testa de cada um e saí da casa de Harry, com um péssimo pressentimento sobre a festa.
Quando cheguei em casa, não era a única pessoa que estava me esperando, Bia e Carol estavam junto com ela.
Depois, eu passei as três horas mais chatas da minha vida.
Tudo bem, eu exagerei. Poderia ter sido pior.
Mas é que Bia e Carol ficavam falando coisa inúteis, como por exemplo o comportamento que eu deveria ter diante de Alexandre, diante dos amigos de Alexandre, diante das garotas populares, diante da bebida que oferecerem...
Calma aí, até da bebida? Tudo bem que eu não sou uma alcoólatra, mas eu não sou exatamente uma virgem quando se trata de beber.
E, além disso, eu fui posta em um milhão de vestidos diferentes e, no final, resolveram que usaria o PRIMEIRO!
Tudo bem, eu sou vaidosa. Mas elas EXAGERAM, eu estou falando sério!
Quero dizer, vestido rosa-bebê com flores brancas? TÃO nada a ver.
Bia fez questão de secar meus cabelos com o secador de enquanto Carol pintava minhas unhas da mão e as do pé.
Carol repetia sem parar:
– Ela tinha que ter ido ao salão de beleza hoje...
Enfim, depois de tanto trabalho, o resultado...
– , você está linda! – falou Carol.
– É, você está realmente parecida com a !
– Por que seria, né, Bia... Talvez pelo fato de sermos GÊMEAS UNIVITELINAS?
Elas ignoraram meu comentário.
– , você sabe que nós poderíamos fazer com que você virasse popular em um segundo, não sabe? – falou Carol, esperançosa.
– Não, Carol. O que eu acho engraçado é que vocês falam da popularidade como se fosse um prêmio, algo que faz as pessoas serem melhores. A popularidade não é NADA se formos comparar com a verdadeira amizade.
me olhou com pesar.
– , popularidade é poder. Quem não gosta de poder?
Eu ri.
– , eu prefiro ter cinco amigos verdadeiros a ter vinte colegas falsos.
ficou indignada:
– Você está querendo dizer que Bia e Carol não são amigas de verdade?
Eu dei de ombros.
– Talvez sejam. Mas, , um dia pare para pensar no número de pessoas que arriscaria qualquer coisa por você, e depois venha conversar sobre popularidade. Agora eu vou para meu quarto, esse papo está mórbido.
Quando eu fui subir as escadas, as meninas preveniram:
– Não deite para não amassar o vestido! – Bia.
– É, e não apoie o rosto em nenhum lugar, pode estragar a maquiagem! – Carol.
Eu me segurei para não rir e subi correndo as escadas.
Capítulo 14
– Você... você realmente está bonita, – disse Alexandre. Eu forcei um sorriso e sentei ao lado dele, no banco do táxi.
– Obrigada – eu respondi, tentando ser simpática. – Você também está muito bonito.
Não estava mentindo. Alexandre fazia jus ao primeiro lugar na classificação de Maya. Ele era moreno, alto e tinha o tipo físico clássico de um atleta. Aliás, quando ele ia lá para casa, a única coisa sobre a qual nós conversávamos era futebol, já que nós dois somos atacantes dos times da Isaac Newton.
Alexandre também joga muito bem. Eu sei disso porque todas as garotas do Harpya são obrigadas a ver os jogos do Deyotus, o time de futebol masculino.
– Bom, nós vamos para a casa de um amigo meu, o Henrique. Você já ouviu falar, provavelmente.
– Já – confirmei. Henrique também é do Deyotus, mas é zagueiro. Aliás, Henrique já tinha tentado ter alguma coisa comigo várias vezes, sem sucesso, é claro. Eu considero-o o garoto mais idiota de toda a Isaac Newton.
Ficamos o resto do caminho falando sobre futebol e quando vimos, o táxi já estava parando em frente a uma casa grande e bonita, onde a música estava alta e cada adolescente que se via estava com um copo de bebida na mão.
Como eu disse, eu e meus amigos não somos virgens em matéria de bebida, mas aquele povo estava arrasando!
Eu não estava muito nervosa, mas quando Alexandre me pegou mela mão e eu percebi que agora era , deu um friozinho na barriga.
– Você está bem? – sussurrou Alexandre para mim.
Eu confirmei com a cabeça e nós dois entramos na casa de Henrique.
Eu reconheci Henrique logo que nós entramos, e ele veio até mim e me cumprimentou, colocando a mão na minha cintura e me dando um beijinho em cada bochecha.
Peraí, suportava isso o tempo todo? Quero dizer, mão na CINTURA???
E Alexandre? Supostamente eu era a namorada dele, ele não tinha que me defender ou algo do gênero? E se eu REALMENTE fosse , ele ia falar alguma coisa?
Oh.
– Oi, . Oi, cara – falou para Alexandre e deu um tapa no ombro. Alexandre sorriu para ele, mas eu percebia que estava me olhando com o canto do olho o tempo todo.
Deus, ele estava tão óbvio.
Henrique continuou a falar para Alexandre:
– Os caras ali atrás – ele apontou para um grupo de meninos que estavam bebendo e dando em cima de umas garotas – querem conhecer a sua gata… Vem que eu te apresento a eles. Não, não, peraí, antes pega uma bebida aqui...
Ele nos conduziu até a mesa de bebidas:
– O que você quer, cara? E você, ?
– Eu quero só vodca... – falou Alexandre e olhou para mim. – E você, amor?
Aquilo estava ficando repulsivo, fingir que era namorada de Alexandre.
Eu sorri e respondi:
– Eu quero um Sex On The Beach.
Henrique nos entregou duas taças e nos levou até onde os garotos estavam.
– Oi, caras – arrotou ele. Nojo, nojo, nojo! – Esse aqui é o Alexandre – ele indicou o Alexandre, que acenou com a cabeça – e essa aqui é a , a garota mais gostosa da escola.
REPULSIVO!
Eu sorri e acenei, pondo para fora meu lado Miss Simpatia.
Alexandre pareceu se tocar que, apesar de não estar ali, Henrique ESTAVA falando de .
– É, só é uma pena para vocês que ela tenha namorado – ele falou, apesar de estar sorrindo, e me puxou pela cintura.
Que droga! Que tipo de pessoa era para que TODO MUNDO pegasse na cintura dela?
E, tudo bem, Alexandre era o namorado dela. Mas o HENRIQUE? Não estava conformada com isso.
O idiota (Henrique) ainda fez piada:
– Se querem uma dica, caros rapazes, procurem a irmã de , que é tão gostosa quanto ela e está solteirinha.
Opa. Isso era um elogio?
– Quantos anos tem a sua irmã, ? – perguntou um dos garotos, o mais feio deles.
REPULSIVO!
– Nós somos gêmeas – esclareci.
– Por isso que eu digo: procurem a e vocês vão se dar bem! – riu O idiota.
– E onde está ? – perguntou outro garoto, menos feio do que o primeiro, mas ainda assim...
REPULSIVO!
O idiota riu mais ainda.
– anda com os losers da escola! Ela não foi convidada para a festa!
Os garotos fizeram cara de decepção, e um deles ainda falou:
– Henrique, a garota é gostosa e você nem a convida para vir aqui dar uns amassos...
Eu realmente me irritei, e Alexandre percebeu isso. Eles podiam não saber, mas estavam falando de MIM.
– não é tão fácil assim e... AI! – comecei a falar, mas fui interrompida por um beliscão de Alexandre.
– O que foi? – perguntou O idiota, por causa do meu grito.
– Unha – falei simplesmente, e virei a bebida de um gole só.
– De qualquer forma – falou O idiota –, eu já chamei para as festas. Ela recusava, mas um dia eu ainda pego aquela garota...
– Henrique? – chamei O idiota.
– Fala, gata – ele respondeu, sorrindo.
REPULSIVO!
– A Bia e a Carol já estão aqui?
– Já, há um tempo... Acho que a Bia exagerou na bebida e tá pondo tudo para fora no banheiro, eu acho.
Pronto. Uma desculpa para sair dali.
– Eu vou lá ver como elas estão! – eu disse e fui embora para não ter que escutar o Henrique falando mal de mim.
Fiquei de um lado para o outro na festa por uma hora, apenas bebendo e evitando encontrar O idiota.
Aquilo estava muito chato, então eu resolvi pegar mais bebida, e me sentei num sofá, ao lado de um garoto que eu não conhecia. Ele tinha cabelos e olhos escuros, e olhava para a festa como se não tivesse paciência para aquilo.
Tá, eu admito: ele era MUITO gostoso.
Eu dei o meu melhor sorriso e perguntei para ele:
– Hey, posso sentar aqui?
Ele sorriu de volta:
– Claro que pode. Em circunstâncias como essa, eu nunca poderia dizer não.
Eu olhei para ele, interessada, e sentei ao seu lado.
– Que circunstâncias?
Ele riu, jogando a cabeça para trás, de uma forma MUITO sexy.
– É óbvio que você está achando a festa tão chata que prefere se sentar e beber a ficar falando com as pessoas.
Eu sorri.
– Como você sabe?
– Porque eu sinto o mesmo – ele respondeu, simplesmente. Parecia ser um cara muito seguro de si, confiante. – Rafael Fahetzy, mas pode me chamar de Rafinha.
Rafinha. Gostei.
Não me leve a mal, eu ainda amo o Danny e talz. Mas, qual é, eu sou uma garota, e quando garotos gostosos e confiantes começam a falar comigo, eu não sou exatamente invulnerável.
– , mas pode me chamar de – me apresentei, querendo poder me apresentar como .
– Então, , me diga, o que uma garota bonita e simpática como você faz numa festa tão chata que temos que nos contentar a beber?
Eu bebi mais um gole de vinho e sorri.
– Eu poderia lhe perguntar o mesmo, Rafinha.
Céus, que sorriso era aquele!
– Mas eu perguntei primeiro – ele disse rindo.
Eu entrei no jogo dele, totalmente.
– Mas – comecei meu contra-argumento –, você parece ser um cavalheiro, então tenho certeza que fará as honras de responder primeiro.
Ele riu maliciosamente e respondeu:
– Talvez eu não seja tão cavalheiro quanto pareço.
Ele estava me provocando.
Eu não sei se era o álcool ou não, mas eu estava adorando aquilo.
– Tenho certeza que é – eu falei, desafiando-o.
– Bom, você está certa. Por enquanto, eu ainda sou um cavalheiro.
Ele disse “por enquanto”? Safado!
Mas bem que eu estava gostando.
– Então, conte-me. O que faz aqui, Rafinha?
– Simples: tédio, minha cara .
– Tédio? Impossível. Qual é, não tinha nenhuma garota para chamar para sair?
Agora eu estava provocando. Eu admito.
O pior é que eu esqueci que estava fazendo o papel de uma garota comprometida.
– Onde você estuda, ? – ele me veio com essa.
– Eu? Na Isaac Newton.
– Pois é, , infelizmente na Sandler Prep não há garotas tão interessantes para sair quanto você.
A Sandler Prep era a maior rival da Isaac Newton. As duas escolas competiam nos esportes, nos resultados do vestibular e em tudo o mais que você possa imaginar.
– Isso foi um elogio? – perguntei.
– Talvez – ele respondeu, sorrindo.
O que é que aquele garoto tinha? Não podia ser apenas gostosura.
Ou podia?
– Mas você não me respondeu por que VOCÊ está aqui – ele falou.
Eu bebi o último gole de vinho e fui buscar mais uma taça.
Quando voltei, vi que ele estava me acompanhando com os olhos. Sentei de novo, bebi um gole do vinho e ofereci a ele:
– Quer? – eu disse, mostrando a taça de vinho.
– O quê? – ele perguntou, olhando nos meus olhos.
Eu ri.
– Vinho, Rafinha.
Eu estendi a taça. Para minha surpresa, Rafinha a pegou da minha mão e a pôs na mesinha ao lado do sofá. Virou-se para mim e foi aproximando seu rosto do meu.
– Ei, campeão, pode parando por aí – eu ri, colocando a palma da minha mão sobre sua boca.
Ele segurou meu pulso.
– Me dê um motivo – desafiou.
– Meu namorado está na festa – eu respondi, dando de ombros. – Aliás, olha ele ali! Alexandre!
Eu chamei Alexandre antes que o vinho falasse mais alto do que meu cérebro, e vinte minutos depois eu estava entrando em casa, completamente bêbada.
Capítulo 15
Eu acordei no dia seguinte com uma baita dor-de-cabeça. A sorte é que meus pais não estavam em casa, ou eles iriam perguntar o porquê da enxaqueca.
E é claro que eu NUNCA ia informá-los que eu estava com a maior ressaca.
Mesmo assim, não pude escapar da . Ela me poupou das perguntas na noite anterior, ao ver meu estado, mas depois não havia jeito.
– , me conta o que aconteceu ontem! – ela exigiu, no segundo em que pus meus pés na cozinha.
– Não grita – eu pedi, sentando à mesa e abaixando a cabeça com um gemido de dor.
– Eu não estou gritando – ela respondeu calmamente. – Mas o que causou essa sua ressaca, ?
Pergunta idiota.
– Bebida, é claro.
– Sério mesmo? – ela debochou. – O que quero saber é... a festa estava tão boa assim?
– Não – eu respondi. – Foi por isso que eu bebi demais, a falta do que fazer é um problema.
me olhou com pesar.
– , ontem o Alexandre me contou que você sumiu por uma hora e meia, e quando ele te achou, você estava quase se agarrando com um garoto lá.
– Eu estava bêbada, . Não ia fazer nada para “manchar seu nome”, ao contrário do que você fez comigo.
Ela me olhou como se eu fosse louca.
– Como assim, o que eu fiz com você?
Eu só queria dormir, mas a gente realmente precisava conversar. Eu fui tida como piranha!
– Henrique estava falando de mim como se eu fosse a garota mais fácil do planeta. O que você fala para eles sobre mim, ?
quase chorou.
– Eu não falo nada sobre você, . O que o Henrique falou?
– Ele falou que a minha vantagem é que eu sou tão gostosa quanto você, mas não tenho namorado e que eu sou uma loser, mas vale à pena me pegar e que se eles quisessem alguma coisa, você sabe, era só me procurar. E tem mais, : que tipo de pessoa é você? Porque o Henrique pôs a mão na minha cintura como se fosse a coisa mais normal do mundo.
abaixou a cabeça.
– Ele às vezes faz isso – ela confirmou, sussurrando.
Eu levantei uma sobrancelha.
– E o que você faz?
– Nada, . O Henrique é uma das pessoas mais populares do colégio.
Eu me irritei ao escutar aquilo. Levantei da cadeira em que estava sentada e fui para meu quarto, deixando sozinha com seus pensamentos.
Fiquei morgando na cama o dia inteiro, me curando da ressaca. Às cinco da tarde eu me levantei de novo, disposta a comer alguma coisa.
Repare: a última coisa que eu tinha posto na boca foi vinho.
Quando, meia hora depois, eu voltei para meu quarto, eu já tinha atacado um boi na cozinha. Minha mãe, que finalmente tinha chegado em casa, se assustou a ver minha fome, mas não falou nada. E meu pai continuou a viajar em seus pensamentos.
Bom, eu liguei o laptop e comecei a falar com .
Ela provavelmente estaria morrendo de curiosidade
RedHairGirl: CONTA, COMO FOI A FESTA ONTEM?
Eu sabia.
SoccerQueen: Não foi muito boa, não. Na verdade, foi chata.
RedHairGirl: Hum. Detalhes, por favor.
SoccerQueen: Bom, além de descobrir que eu sou uma loser gostosa, eu conheci um cara realmente muito lindo. Realmente.
RedHairGirl: E?
SoccerQueen: Como assim, “e”? O cara é realmente gostoso. Seriamente.
RedHairGirl: Quem ele é?
SoccerQueen: O nome dele é Rafael, e ele estuda na Sandler.
RedHairGirl: Oh. Um inimigo. Interessante.
SoccerQueen: Ei, não é só porque ele estuda na Sandler que ele é meu inimigo. Eu só sou inimiga do time de futebol feminino da Sandler Prep.
RedHairGirl: Até onde exatamente vcs foram nessa de... se conhecerem?
SoccerQueen: EI, eu não sou como vc e o Luiz Felipe que já se conhecem muito bem após apenas um dia no cinema.
RedHairGirl: Oh oh. Vc está na defensiva. Isso não é nada bom. Pare de desviar o assunto e me diga até onde vcs se conheceram.
SoccerQueen: Se vc quer saber se nós nos beijamos, a resposta é não. Não que ele não tenha tentado.
RedHairGirl: OMG! O que vc fez, ?
SoccerQueen: Eu disse a ele que meu namorado estava na festa. Bem, como eu era a , eu realmente tinha que manter a compostura.
RedHairGirl: E... se vc não fosse a ? O que você teria feito?
SoccerQueen: Ah, sei lá, . Eu estava um pouquinho bêbada.
RedHairGirl: Quantas taças?
SoccerQueen: Eu não bebi tanto assim.
RedHairGirl: QUANTAS TAÇAS, ?
SoccerQueen: 6.
RedHairGirl: Agora eu entendo porque vc estava dando papo por um aluno da Sandler. Vc sempre foi fraca para beber.
SoccerQueen: Eu não sou fraca para beber, certo? Eu não estava tão bêbada assim.
RedHairGirl: Ai, , o que eu faço com você?
SoccerQueen: O que vc quer dizer?
RedHairGirl: Ah, fala sério, . Depois de muito tempo esperando pelo príncipe encantado, vc descobre que ele também está te esperando e de repente cai nas garras do lobo mau!
SoccerQueen: Ok, essa intertextualidade é em relação à Bela Adormecida ou Chapeuzinho Vermelho?
RedHairGirl: Vc sabe do que eu estou falando. Vc, Danny, garoto da Sandler.
SoccerQueen: Rafinha.
RedHairGirl: O quê?
SoccerQueen: O nome do garoto da Sandler Prep. Rafinha.
RedHairGirl: Ai, vc está querendo dizer que desistiu do Danny?
SoccerQueen: Vc sabe que eu não posso ficar com Danny. confia demais em mim para que eu possa fazer isso com ela.
RedHairGirl: E agora vc vai se jogar em cima do primeiro gostosão que passar?
SoccerQueen: Hum. É.
RedHairGirl: Vc é inacreditável. Agora que vc sabe que o Danny gosta de vc...
SoccerQueen: log off
fez aquilo para me torturar, é a única explicação lógica. Será que ela não percebe que eu também estou sofrendo, caramba?
Aquele papo com a não tinha adiantado de nada. Resolvi ler um livro.
Na verdade, o livro meio que só atrapalhou. Por que aqueles casais tinham que ser tão perfeitos? E, mesmo se não fossem, tudo sempre dava certo no final.
Fiquei em depressão por causa do livro versus minha situação que resolvi dormir mais cedo. Você tem noção de que eu fui dormir às nove da noite? Eu não posso chamar isso de outra coisa a não ser de depressão crônica.
Mesmo assim, eu não consegui dormir como um anjo até o dia seguinte. Enquanto estava sonhando com Danny, Rafinha, , um campo de flores e um rave (não necessariamente nessa ordem), escutei um barulho que normalmente me deixaria feliz, mas naquela situação me deixou muito chateada. E que toque “Help”, dos Beatles.
Meu toque do celular sempre foi um motivo de orgulho para mim, mas agora tudo o que eu queria é que John Lennon e Paul McCartney tivessem matado um ao outro antes de terem gravado “Help”.
Viu a gravidade da situação? Eu queria que não existisse “Help”. Isso é sério.
De qualquer forma, atendi o celular, mal-humorada, sem nem ao menos olhar o visor.
– Que é? – eu falei, não muito educadamente.
– Nossa, , se você for falar assim comigo, é melhor eu desligar – eu escutei a voz de Tom do outro lado da linha. Eu suspirei.
– Ai, Tom, desculpa – eu falei baixinho, mais preocupada com Tom do que com o meu sono. – É que eu estava meio que dormindo – expliquei.
– , você pirou? Não são nem onze horas! – ele exclamou.
– É, eu sei, Tom. Mas diga, o que traz sua linda voz aos meus ouvidos?
– Sei lá, . Só queria saber como foi sua festa. Estou te ligando desde nove horas da noite e você não atendeu...
– É, desculpa – eu respondi. Percebi que com o meu humor, eu ia acabar devendo desculpas a todos os meus amigos. – A festa foi boa.
Na verdade, a festa não tinha sido boa, mas eu estava cansada demais para dar detalhes a Tom.
– Ah, , deixa pra lá, eu percebo que você não quer falar. Te vejo amanhã, certo?
– Não, espere, Tom...
– Boa noite, loirinha – ele disse e desligou. Eu fiquei chocada. Eu estava sendo tão má!
Imediatamente, eu apertei o botão de discagem rápida e liguei para ele.
Bip.
Bip.
– Fala, .
– Tom – eu comecei, triste –, me desculpa por isso. Eu só não estou com muita vontade de falar na verdade, não é nada pessoal...
– Tudo bem – ele concordou, e eu pude escutar uma risadinha forçada do outro lado da linha. – Eu não estou chateado com você, loirinha.
Eu suspirei de alívio.
– Jura?
– Juro – ele respondeu. – Agora, vá dormir, tá bom?
– Tá bom. Boa noite, fofo.
– Boa noite, baixinha – ele respondeu rindo, e desligou.
Eu segui o conselho de Tom. Apoiei minha cabeça no travesseiro e comecei a dormir instantaneamente.
Capítulo 16
Na segunda-feira, eu acordei com a cabeça girando. Você sabe, a ressaca já tinha acabado, mas isso não apagava os fatos que eu tive que assimilar desde sexta-feira: Danny também me amava mas nós não podíamos ficar juntos; a maioria dos garotos da cidade parecia achar que eu era a garota mais fácil do planeta; parecia não se importar que idiotas como o Henrique pusessem a mão na sua cintura; no dia anterior eu tive uma pequenina discussão com meu melhor amigo; e, finalmente, eu tinha conhecido um cara muito lindo do maior colégio rival da Isaac Newton, e eu provavelmente nunca iria vê-lo de novo.
Não que eu estivesse interessada nele. Porque eu não estava.
De qualquer forma, não importava o quão tonta eu estivesse, eu estava atrasada. Corri para o banheiro, tomei um banho rápido, escovei os dentes, penteei o cabelo e pus o uniforme. Na verdade, eu lutei contra o uniforme: a saia estava apertada e curta demais, e eu não conseguia colocar a gravata direito.
Eu não sabia se estava falando com . Enquanto tentava desesperadamente abaixar a saia, pensei que talvez fosse conversar com ela quando estivéssemos andando para a escola. Na verdade, eu estava tão atrasada que era melhor pegar um táxi ou coisa assim.
Meus planos foram frustrados quando eu desci as escadas correndo em direção à cozinha. Não havia tempo para o meu ritual de leite e cereais, mas eu peguei uma maçã da fruteira, só para não ficar com o estômago vazio. Não havia ninguém em casa, exceto Tânia, nossa empregada. Ela havia acabado de chegar e ainda estava sentada à mesa, folheando o jornal.
– Tânia, você sabe onde está? – eu perguntei, olhando para meu relógio impacientemente.
Tânia me olhou rapidamente e logo depois voltou a ver o jornal.
– já saiu de casa, querida, há cerca de quinze minutos – ela respondeu, ainda encarando o papel.
Eu suspirei. Me despedi de Tânia e dei meia-volta, correndo para a porta de casa. Estava furiosa. Por quê diabos estava me evitando? Supostamente, eu é quem deveria estar com raiva dela.
E, quer saber, por que eu me importava?
Peguei um táxi, que me deixou na escola em pouco mais que cinco minutos, e acabei chegando antes da primeira aula começar.
Enquanto andava no corredor em direção à minha sala de aula, esbarrei em um garoto que estava curvado sobre o bebedouro. Demorou algum tempo para eu perceber que era Danny.
Ele parecia realmente contente por me ver, o que me deixou apenas pior. Ele me deu um largo sorriso, um sorriso que ia até seus olhos azuis, e me abraçou pela cintura, fazendo os pêlos do meu braço e da minha nuca se arrepiarem.
– Minha loirinha, você apareceu! Não falo com você desde sexta-feira... – ele me deu um beijo na bochecha esquerda, fazendo o local ficar queimando.
Ele tinha que usar o “minha”? Já não era difícil o suficiente?
– Desde quando eu sou “sua” loirinha, Danny? – eu perguntei em tom de brincadeira, mas tentando repreendê-lo ao mesmo tempo.
Ele rolou os olhos para o teto e soltou minha cintura. Só aí que eu pude voltar a respirar.
– Desde sempre, oras. Você seria a loirinha de mais quem?
Felizmente, eu já tinha uma resposta na ponta da língua.
– Caso você não saiba, Jones – eu comecei meu pequeno discurso –, eu também sou a loirinha do Harry, do Dougie e do Tom. Você não pode monopolizar meu apelido.
– Na verdade, eu posso sim – ele respondeu, me surpreendendo. – Caso você não lembre, eu fui a pessoa que inventou o “loirinha”, há três anos. Então eu posso processar o Judd, o Poynter e o Fletcher por direitos autorais se você não admitir que é a MINHA loirinha.
Certo. Eu não tinha resposta para essa.
Então, usei a clássica desculpa da sala de aula.
– Bom, Jones, eu adoraria continuar essa construtiva discussão, mas eu estou atrasada para minha aula.
Ele fez carinha de gato de botas do Shrek, mas, para não ser contagiada com aqueles olhos azuis, eu dei um tapa no braço dele.
– Que violência é essa? – ele reclamou.
– Apenas a violência que você merece, Danny. Agora eu realmente tenho que ir – falei, tentando passar por ele.
Acho que essa foi a melhor expressão que eu já usei, a expressão “tentando”. Fracassei total, é claro, já que os braços dele me puxaram para outro abraço.
– Você ia embora sem se despedir do seu Danny, loirinha? – ele resmungou.
Repare no uso do “seu”. Eu estava com vontade de gritar, aquela situação estava ficando difícil demais.
– Quem disse que você é meu, Jones? – eu perguntei, um pouco sem ar.
Ele franziu a testa.
– Eu disse. E se eu disse, é porque é verdade – ele deu o assunto por encerrado. – Agora venha falar comigo direito, sua baixinha.
Eu não pude deixar de rir e o abracei com vontade, segurando sua cintura e apoiando minha cabeça em seu peito. Ele encostou o nariz nos meus cabelos e eu agradeci intimamente por eles estarem limpos.
Quando eu o soltei e fui correndo para a aula, escutei um risinho familiar atrás de mim. Ao virar para trás, vi Danny entrando em sua sala de aula. Eu segui seu exemplo e entrei na minha também, ainda imersa em pensamentos.
A sala já estava lotada quando eu entrei, apesar de, inacreditavelmente, o professor ainda não ter chegado.
Sentei ao lado de , evitando olhar em seus olhos. Eu sabia que ela estava certa sobre o príncipe encantado e o lobo mau, apesar de não achar que Rafinha era uma má pessoa. Mesmo assim, eu nunca ia admitir que ela tinha razão.
Graças a Deus o professor entrou na sala logo em seguida a mim, me poupando de ter que falar com .
Na verdade, eu não estava prestando tanta atenção ao professor de trigonometria, o que foi um erro da minha parte, considerando o meu quatro e coisa e tal, eu estava mesmo era concentrada em , algumas cadeiras à minha frente. Eu não entendia muito bem o que se passava na cabeça da minha irmã, que, definitivamente, era mais complicada do que a minha. Então eu meio que passei a aula inteira viajando quando era para estar entendendo o círculo trigonométrico.
Bom. Realmente, muito bom, .
O sinal tocou para o primeiro intervalo e eu saí da sala depressa, mesmo sabendo que de qualquer forma estava sendo seguida por . Não foi muita surpresa quando eu pus o pé no corredor e Dougie imediatamente me puxou pelo braço.
– Ai, Dougie, mais cuidado com a bonequinha aqui! – eu reclamei, enquanto via correr para dar um abraço em Harry e Danny ao mesmo tempo.
Dougie riu e fez menção de me abraçar, mas eu o parei com as mãos.
– Espere um pouco, Poynter. Antes eu tenho que abraçar outra pessoa – eu expliquei, me virando para me jogar em Tom.
– Desculpa, desculpa, desculpa! – falei para ele, dando pulinhos.
Ele me pareceu desencanado.
– Ah, eu já te disse que você ta perdoada, .
Enquanto eu tentava me desculpar com Tom, escutei a reclamação dos meninos atrás de mim.
– Por que você deu abraço primeiro no Tom? – perguntou Dougie, emburrando.
– É, loirinha, que preferência é essa? – reclamou Harry.
Eu dei língua para eles, me sentindo uma criança de cinco anos.
– Eu devia desculpas ao nosso amigo aqui – eu expliquei, estalando um beijo na bochecha de Tom.
Ele sorriu.
– É, ontem a loirinha estava de mau humor.
Harry fingiu ser inflexível.
– Não me interessa. , venha aqui agora dar um abraço e um beijo no seu ursão.
Eu rolei os olhos, mas mesmo assim fui dar um abraço em Harry, que me levantou do chão como se eu não pesasse muito mais que um chumaço de algodão. Ele me deu um selinho e me pôs no chão.
Quando eu olhei para os outros, todos estavam calados e boquiabertos, olhando para mim e para Harry. Eu corei.
– Que foi? – perguntei, confusa.
– O que foi isso? – Danny me olhou horrorizado.
– Isso o quê? – Eu estava começando a achar que tinha algo estranho no meu rosto ou coisa assim.
– O beijo – explicou .
– Ah, poupem-me, vocês todos – falou Harry.
– É, o Harry é meu amigo, não tem maldade entre a gente – expliquei, ainda ruborizada.
– , não tem maldade entre a gente também, né? – perguntou Dougie, esperançoso.
Eu ri.
– Não tem mesmo não, Dougie...
– Então vem aqui me dar um beijo também – ele reclamou.
Eu tive uma crise de risos depois dessa.
– Na próxima vez, Dougie – eu falei, dando nele um abraço e um beijo na bochecha. Ele riu.
Eu olhei com o canto do olho para Danny. Ele estava encostado na parede e parecia chateado.
Estava muito, muito, muito, muito, muito difícil para mim torturar Danny desse jeito. Eu tinha certeza que estava machucando-o, e isso era basicamente uma tortura para mim.
– Ei, faltou eu falar com o Danny – eu amenizei a situação, correndo para dar um abraço rápido nele. Sem direito a beijinhos.
se pronunciou:
– Bom, vocês podem continuar aí com esse amor todo, mas o meu estômago não está pedindo amor, e sim comida. Alguém vem comigo?
Foi assim que, cinco minutos depois, nós estávamos todos sentados numa das mesas da lanchonete, rindo e conversando.
Eu contei por alto como tinha sido a festa, deixando de lado a história do Rafinha. Mesmo assim, quando eu falei sobre Henrique, todos os garotos se revoltaram e começaram a bolar vários planos de vingança, nenhum deles particularmente infalível, é claro.
Foi bem no meio do intervalo que conseguiu falar comigo. Ela me alcançou quando eu, e os meninos estávamos saindo da lanchonete e me puxou para conversar, ignorando os olhares de reprovação dos meus amigos.
Ela me contou que o treino de hoje tinha sido cancelado – pelo o que parece, a professora não estava em condições de nos fiscalizar.
Depois, ela começou a falar sobre Danny, o que eu mais temia. Ela contou que havia conversado com ele por telefone, e disse que ele tinha sido educado com ela, apesar de estar pondo um “não” definitivo na relação deles. Foi aí que ela começou a chorar no meu ombro e eu fiquei numa das situações mais difíceis da minha vida. Eu tentava consolá-la, alisando seus cabelos recém-loiros, mas era quase impossível dar palavras de consolo sem estar sendo falsa.
O sinal tocou, me libertando daquela situação, já que eu e estudávamos em turmas diferentes. Quando me despedi dela na porta da sala de aula, seu nariz ainda estava vermelho, dedurando seu choro.
Ao entrar na minha sala, fiquei surpresa quando percebi que Danny, Harry, Dougie e Tom se encontravam lá. Eles não eram da minha turma, então que diabos estavam fazendo ali?
É claro que eu tinha esquecido que eles eram as pessoas mais curiosas do planeta.
– Ei, – Dougie sussurrou quando eu cheguei perto deles com uma expressão intrigada.
– O que vocês estão fazendo aqui? – perguntei num sussurro urgente.
– Como assim, “o que vocês estão fazendo aqui”? – Harry falou e rolou os olhos. – Queremos saber o que quis falar com você, é óbvio.
– Eu não quero saber de nada! – protestou Danny.
– É, mas você é minoria, Danny, então cala a boca e só escuta – mandou Tom, fazendo , que estava ao seu lado, rir.
– Ela só queria falar sobre futebol. O treino de hoje foi cancelado – eu respondi, dando de ombros.
Harry me olhou com cara de tédio.
– Ah, vamos, , você sabe que não foi só isso. Dava para ver o nariz da há quilômetros de distância, e eu tenho certeza que ela não estava chorando por causa do treino.
Eu levantei uma sobrancelha para ele.
– Harry, querido, quem foi a criatura abissalmente tola que disse para você que estava chorando?
Ele encarou o desafio.
– O Danny.
Eu me virei para Danny.
– Danny, querido, para sua informação, a não estava chorando. Ela espirrou muito, por causa do meu perfume. Alergia, já ouviu falar?
Danny, que para início de conversa não queria saber de nada, irritou-se com minhas palavras.
– , caso você não tenha percebido, está usando um perfume igual ao seu desde sexta-feira. Então, a não ser que ela tenha alergia ao próprio perfume...
– Ela tem – eu garanti a ele. Droga! Por que ele tinha que ser tão observador quando se tratava de ?
E, droga, por que eu tinha que ser tão péssima mentirosa?
Parecendo que tinha ouvido meus pensamentos, Dougie falou:
– Não adianta, você não tem o dom de mentir.
limpou a garganta, nada discretamente. Danny pareceu agora inteiramente integrado à conversa.
– Loirinha, eu aprendi um pouco sobre nos últimos quatro meses, e uma das coisas que eu sei sobre ela é que quando ela chora, seu nariz fica absolutamente grande e vermelho.
Eu não sabia o que responder a isso, então simplesmente sentei na minha cadeira, do outro lado de , e fiquei em silêncio, reconhecendo minha derrota.
Os meninos e sorriram entre si, e Dougie, Harry e Danny, que ainda estavam de pé, sentaram-se ao redor de e eu: Dougie atrás de , Harry atrás de mim e Danny ao meu lado.
Droga! Por que logo o Danny ao meu lado? Era tão mais difícil resistir quando o cheiro dele me atingia daquele jeito...
Resolvi virar para trás para falar com Harry.
– O que vocês pensam que estão fazendo? Vocês não são dessa turma e não têm aula de química agora.
Ele riu, percebendo meu desespero para eles irem embora.
– Calma, loirinha, temos tudo sob controle... – ele me deu aquele sorriso bonito e tranqüilizante bem na hora que a professora entrou na sala.
Quando ela viu os quatro intrusos, falou, numa voz ríspida:
– Jones, Judd, Poynter e Fletcher, a aula de vocês é só depois do almoço.
Quem não tinha percebido a presença de Harry, Danny, Tom e Dougie, passou a perceber, e eu nos vi cercados de olhares. Maya estava dividida entre um olhar de admiração para Harry ou um olhar de reprovação para mim, quando percebeu que ele estava brincando com uma mecha do meu cabelo.
Tom foi o primeiro a falar.
– Ah, professora, é que na verdade nós queríamos saber se podíamos assistir sua aula agora, que com certeza é muito mais importante que a aula de Francês, é claro.
Tom tinha tocado em dois pontos fracos da professora: o primeiro é que todos sabiam que ela considerava sua matéria a mais importante, acima de qualquer outra matéria; o segundo é que ela odiava a professora de Francês e vivia reclamando sobre ela enquanto dava aula, fazendo comentários sugestivos enquanto explicava sua matéria. Todo mundo jurava que era inveja.
Tom espertinho.
A professora ficou sem saber o que fazer por um momento, mas logo depois se recompôs.
– É, você está absolutamente certo, Fletcher. É claro que você e os outros podem ficar. Realmente, seria uma perda de tempo ficar assistindo à aula daquela... top model, enquanto poderia estar aprendendo sobre os óxidos.
Tom deu um sorriso fofo, mostrando a covinha, e eu percebi a respiração de várias garotas parar por alguns segundos.
Durante a aula nós não prestamos realmente atenção nos óxidos. Harry estava distraído com o meu cabelo, brincando com uma mecha entre seus dedos, às vezes ele dava um pequeno puxão na mecha, me fazendo virar para trás e rir baixinho com a expressão marota dele.
Tom estava conversando baixinho com . Toda vez que ela ria, eu ficava morrendo de curiosidade para saber o que era. Umas duas vezes eles viraram para mim e riram. Ah, eles iam pagar por aquele suspense.
Dougie ficava olhando para o nada, aparentemente sem perceber que cada indivíduo que usava saias estava olhando para ele com uma expressão sonhadora. Com o canto do olho, eu vi quando ele discretamente pegou seu iPod e pôs os fones no ouvido. Nessa hora, ele olhou pra mim e sorriu. Eu sorri de volta, mesmo percebendo que cada indivíduo de saia me fuzilou com o olhar.
E Danny simplesmente encostou a cabeça no meu ombro e fechou os olhos. Eu não sabia se ele estava dormindo ou se estava escutando tudo ao seu redor, mas a proximidade dele me fez ficar totalmente nervosa.
Quando o sinal tocou, Danny finalmente desencostou a cabeça de meu ombro e se espreguiçou.
– Você sabia que é um ótimo travesseiro, ?
Eu rolei os olhos.
– Ha, ha, muito engraçado, Danny. Agora, você sabia que a sua cabeça é muito pesada?
Danny riu.
E é claro que a risada dele me deixou completamente maluca.
Capítulo 17
O segundo intervalo e a aula seguinte passaram muito bem, dessa vez com os meninos em sua devida sala de aula.
A surpresa ficou por conta do almoço. Nós estávamos sentados na nossa mesa, e íamos começar a comer quando Luiz Felipe Manta chegou perto de e a chamou para sentar junto com ele.
ficou muito vermelha, coisa que não acontece freqüentemente. Apesar de ela ser ruiva, eu sou a que fica mais vermelha mais vezes. Mesmo com vergonha, ela aceitou e foi se juntar a ele num almoço a dois.
Pobre . Ela não merecia agüentar as gozações e as brincadeiras idiotas dos garotos. Eles às vezes podem ser tão infantis.
Mas vou te falar uma coisa: foi tão divertido ver a cara de Maya quando saiu atrás de Luiz Felipe. Ela já tem algo contra nós porque somos amigas do segundo, quarto, sexto e sétimo lugares da Lista. Agora está saindo com o terceiro lugar. Rá.
Eu sei que essa coisa de Lista é meio idiota, mas convenhamos que me tanto orgulho dos meus fofinhos por eles serem tão lindos!
Entre as besteiras que estávamos falando, surgiu o papo sobre a banda.
– , você vai ver o ensaio do McFly de novo, não vai? – perguntou Dougie.
– Não sei, vou pensar no seu caso – respondi, fazendo charminho.
– Ora, VAMOS, ! – pediu Tom.
Eu segurei o riso.
– Já disse que vou pensar no caso, Tom.
– Por favor, loirinha, vai ao nosso ensaio – implorou Harry, com uma carinha fofa demais.
– Tá bom, eu vou – aceitei o convite.
Dougie ficou chocado.
– Por que você só aceita quando o Harry pede? – ele acusou, com um ar afetado.
– Porque ele é mais bonito do que você – eu respondi, dando de ombros.
– O quê? – exclamou Dougie, tão alto que todos olharam para ele. – Ah, você vai pagar por isso – ele ameaçou, dando a volta na mesa para ficar de frente para mim.
Eu o encarei.
– Ah, é, e o que você vai fazer? – desafiei.
Erro meu. Dougie se inclinou sobre mim e começou a fazer cócegas em minha barriga e na parte interna do meu joelho, o lugar para mim onde a tortura é maior.
– Ai, pára, Dougie, PÁRA! Harry, pede pra ele parar! – eu gritava escandalosamente.
Dougie ria junto comigo; eu ria por causa das cócegas e ele ria da minha cara. Eu percebi que todos estavam rindo conosco, mas reparei que estava com uma expressão assustadora.
Não que eu realmente estivesse assustada. Mas qualquer outra pessoa com alguns neurônios na cabeça ficaria.
Depois de um tempinho, Dougie parou de fazer cócegas e se sentou na minha cadeira, fazendo um sinal com a mão para eu me sentar no colo dele. Eu sentei, mais para ver a cara de do que por qualquer outro motivo.
Valeu a pena. Ela ficou tão vermelha que Harry podia tirar o meu troféu de Tomatinho e dar para ela. Dougie também percebeu isso e começou a rir.
Ao ver que não desgrudava os olhos da gente, Dougie resolveu implicar um pouco mais. Como eu estava no colo dele, ele agarrou minha cintura e me abraçou com tanta força que eu literalmente perdi a respiração.
– Ai, Dougie, eu não tô conseguindo respirar – reclamei, rindo um pouquinho.
Ele me soltou, e eu recuperei o fôlego, ofegando.
– Poxa, loirinha, eu te deixo tão nervosa assim? – ele falou num tom bastante audível para , fazendo a garota se levantar e sair do refeitório.
Aquilo foi tão hilário que eu e Dougie começamos a rir escandalosamente. Aliás, era difícil passar um minuto com Dougie sem rir nenhuma vez.
Eu percebi que Tom e Harry estavam rindo conosco, mas, para minha surpresa, Danny estava vermelho e brincava com o sanduíche, sem olhar para nós.
Eu suspirei. Não era justo. Eu só ficava cada vez mais triste quando Danny ficava daquele jeito, e eu ficava mais triste por ficar triste.
Eu estava perdendo a cabeça e isso estava me assustando. Eu tinha que superar, tinha que superar. Não podia trair a confiança de .
Era isso. Superação. Eu tinha que tratá-lo como se nada tivesse mudado. Nós éramos amigos, não éramos?
– O que foi, Danny? Você está bem? – eu perguntei, afinal, não queria ver ele triste.
Danny me deu um sorriso amarelo, e se recompôs.
– Não estou passando muito bem – ele disse.
Harry ergueu a sobrancelha.
– Você quer ir à enfermaria ou coisa do gênero? – ele perguntou, visivelmente preocupado com o amigo.
– Não, daqui a pouco passa – Danny respondeu, ainda amuado.
Eu levantei, não suportando mais aquilo.
– Aonde você vai? – perguntou Dougie quando fiquei de pé.
– Andar por aí – respondi, com sinceridade.
– Ei, você esqueceu que não pode andar sozinha? – brincou Tom.
Eu dei um sorrisinho tímido e suspirei novamente.
– Agora não, certo, Tom?
Inclinei-me e dei um beijinho no rosto de Dougie, peguei minha mochila, acenei para os outros e saí de perto.
Fui andando até a minha macieira favorita, tentando segurar o choro. Danny sofria, eu sofria, até sofria. Ninguém estava ganhando nada com aquilo.
Quando sentei no chão, apoiando minhas costas na macieira, senti as lágrimas caírem involuntariamente. Eu detestava chorar em público, mas o local estava vazio, então era seguro.
Eu pus minha cabeça entre os joelhos, tentando encontrar alguma solução para meu maior problema. Cada solução que vinha à minha mente era rapidamente descartada, então depois de um tempinho eu desisti de pensar e decidir apenas ficar curtindo a fossa.
Não que eu tivesse tido muito tempo para aproveitar minha solidão e tristeza. Em menos de vinte minutos, já havia uma mão acariciando meus cabelos.
É esse o preço que se paga por ter amigos tão fiéis.
– O que foi, loirinha? Por que você está chorando? – eu escutei Harry perguntar pacientemente.
– Eu quero ficar sozinha, Harry – eu murmurei, mimada. Quando levantei o rosto, percebi que ele e Dougie estavam ajoelhados na minha frente, e eles pareciam decididamente assustados com o meu rosto, o que me fez pensar que eu estava horrível.
Isso só me deixou pior.
– É sério, eu quero ficar sozinha. Saiam, os dois – eu mandei, colocando meu rosto entre os joelhos novamente e tentando parar de chorar.
– Como assim, ? A aula de educação física vai começar em cinco minutos – falou Dougie, parecendo preocupado.
Eu analisei as possibilidades de ir para a aula de educação física. Quando lembrei que a turma de Danny, Dougie, Tom e Harry fazia a aula com a minha turma, desisti imediatamente.
– Eu não vou à aula – eu resmunguei. – Acho que vou para casa.
Eu menti sobre a última parte, é claro. Eu não iria para casa nem que me pagassem, queria ficar o mais distante possível de .
– Você não vai para a casa – disse Harry. – Você prometeu que iria assistir ao ensaio do McFly.
Eu mordi o lábio inferior, agoniada. Ao mesmo tempo que eu não queria machucar ninguém, eu queria ficar longe de Danny.
Mas eu não podia deixar meus amigos na mão.
– Ah, eu realmente queria ir. Mas eu não vou agüentar a aula de educação física.
Dougie deu um meio-sorriso.
– Desde quando não quer ir à uma aula de educação física?
– Desde hoje – eu respondi. As lágrimas estavam diminuindo.
Dougie levantou meu queixo, me obrigando a olhar para ele e para Harry.
– Então você vai lá para casa, onde a gente vai ensaiar. Aliás, nem minha mãe nem Jazzie estão em casa – mandou ele.
Harry concordou.
– Se você quiser, nós podemos matar a aula e ir com você – ele ofereceu.
– É, matar aula não é um problema para nós – falou Dougie, me fazendo rir um pouquinho. Era impossível não rir com Dougie por perto, mas acho que eu já disse isso.
Quando eu percebi, eu já estava abraçada com os dois, cada braço meu estava no ombro de cada um, e nós estávamos saindo do colégio, passando pelos portões sem a menor dificuldade e andando em direção à casa de Dougie, com Harry segurando minha mochila e Dougie, minha cintura.
Tudo o que eu queria era deitar numa cama, dormir e esquecer de tudo.
E foi o que eu fiz quando chegamos na casa de Dougie. Fui para o quarto dele, deitei em sua cama e dormi como um bebê, esquecendo até mesmo de tirar os sapatos.
Coitados dos meus amigos. Eles não mereciam uma amiga tão problemática como eu.
Capítulo 18
Acordei com um som de passos e vozes.
– Fale mais baixo, seu idiota, vai acordar a loirinha! – eu escutei Harry falando.
– Eu estou acordada – respondi, abrindo os olhos.
Harry e Danny estavam sentados na cama de Dougie; Tom e estavam na porta do quarto; Dougie estava em pé ao lado da cama. Todos estavam olhando para mim.
– Que foi, gente? A cara de vocês me faz pensar que eu sou uma enferma.
Ninguém riu.
– , você está bem? – perguntou Danny, todo preocupado.
– Estou – respondi. – Por que não estaria? – questionei, lançando olhares de ameaça a Harry e Dougie. Se eles tivessem contado a alguém sobre meu choro, eu ia matá-los com meu apontador de lápis para os olhos.
Ou com o próprio lápis para olhos. Eu não estava raciocinando muito bem.
Dougie balançou a cabeça.
– Como assim, 'por que você não estaria'? Talvez pelo fato de que você chegou em casa e deitou na minha cama e imediatamente dormiu por duas horas, sem nem ao menos tirar os sapatos?
Eu olhei para meus pés. Estavam descalços.
– Não se preocupe – explicou Dougie –, eu os tirei para você. O cheiro era ruim, mas dava para suportar.
Eu ri, porque sabia que meus pés não fediam. A piada entre nós era que, perto dos pés de Harry, meus pés eram Gabriela Sabatini.
– Ficamos preocupados quando vocês três não apareceram para a aula de educação física – falou Danny.
– É, , logo você, que não perde nenhuma aula de educação física! – falou Tom, rolando os olhos.
Eu ignorei o comentário de Tom.
– E como vocês ficaram sabendo que nós estávamos aqui? – eu perguntei, indiferente.
riu.
– Acho que você realmente dormiu como uma pedra, . Harry foi até a porta da escola para nos avisar – ela disse, e depois completou: – E avisar à , também. Você sabe como ela dá uns chiliques quando você sai do controle dela.
– Eu nunca estou sob o controle dela! – eu protestei.
– É, mas ela não sabe disso – disse .
– Espere um pouco – eu disse, e todos olharam para mim. – Vocês estão me dizendo que me deixaram sozinha nessa casa com esse garoto pervertido? – eu apontei para Dougie.
Todos riram, e Dougie fez piada.
– Poxa, amor, você me disse estava gostando naquela hora...
Eu ri e entrei na brincadeira dele.
– Como assim, eu falei alguma coisa enquanto dormia? – perguntei.
– Você não tem nem noção...
– Ei, dá para vocês dois pararem de palhaçada e vamos ensaiar? – perguntou Danny, aparentemente nervoso.
– Ele está certo – Harry falou. – Nós temos que ensaiar. E, de todo modo, a já é minha mesmo... – ele brincou
– Claro, gatão – eu gargalhei e levantei da cama.
Seria tão mais fácil se Danny não se importasse! Se ele me rejeitasse ou me ignorasse, ou se pelo menos eu não soubesse que ele gostava de mim mais do que como se eu fosse uma mera amiga.
Nós fomos para o porão da casa de Dougie. No início, nada de ensaio, eu e ficamos brincando com os instrumentos dos meninos como se nós soubéssemos tocá-los.
roubou as baquetas de Harry e ficou batucando na bateria, fazendo com que Harry quase tivesse uma síncope quando ela começou a bater mais e mais forte, e a empurrasse para perto de Tom, que olhou para ela com aquele olhar nem-pense-chegar-perto-da-minha-guitarra.
Enquanto isso, Danny tentava me ensinar a tocar guitarra. Eu era um fracasso total, até porque o fôlego que eu tinha ganhado tocando flauta não me servia de nada quando se tratava de coordenar os dedos na guitarra.
– Assim não, – ele explicava pacientemente, tentando me ensinar pelo menos como se segurava uma guitarra decentemente.
– Acho que eu fui feita para a flauta, de qualquer forma – eu falei, quando quase deixei a guitarra cair de minhas mãos.
– Nada a ver – garantiu Danny. – Você sabe que você consegue tudo o que quer.
Eu gargalhei, expressando meu ceticismo em relação à idéia dele. Tudo o que eu queria, claro!
Se eu fosse fazer uma lista das coisas que eu queria mas não podia, ele ficaria realmente assustado. Mas entre essas coisas, estavam principalmente: que parasse de gostar de Danny, que ela não confiasse tanto em mim, que Henrique se explodisse, que Maya se explodisse, que fosse mais humilde, que nós voltássemos a nos falar, queria aprender a mentir direito, queria que o Harpya vencesse o campeonato estadual, queria que Danny não cheirasse tão bem e que os olhos dele não fossem tão azuis. Ah, sim, claro. A paz mundial (sempre), e que o aquecimento global acabasse.
Como você pode ver, eu realmente tenho muitas coisas incompletas na minha vida.
Logo depois, Tom se intrometeu e disse que eles realmente tinham que ensaiar.
E eles ensaiaram. Ensaiaram até ficarem com os dedos sangrando e os pulsos doendo.
Tudo bem, isso foi definitivamente uma hipérbole. Mas você entendeu o que eu quis dizer.
E posso fazer um comentário que NÃO é uma hipérbole? A voz de Danny ficava mais linda a cada ensaio.
É claro que a evolução não era apenas de Danny, todos estavam cada vez melhores. Mas você sabe, Danny era a pessoa sobre a qual eu REALMENTE não podia deixar de comentar.
Quando eles tocaram a última música do dia, Help, dos Beatles, era hora de ir embora. Eu desanimei. A verdade é que eu não estava com humor para ir para casa.
– Galera, eu já to indo – falou Danny. – Meus pais têm uma festa idiota para ir e vão me obrigar a ir junto.
Tom parou e encarou Danny.
– Não me diga que é a festa dos Amudsen! – ele exclamou.
Danny ficou boquiaberto.
– Você vai a essa festa? – ele perguntou, de olhos arregalados.
– Vou. Meus pais também me obrigaram, parece que o filho dos Amudsen ficou noivo ou coisa assim...
Danny riu.
– Na verdade, ele abriu uma empresa – ele corrigiu Tom, que rolou os olhos.
– Que seja. Que bom que você vai, cara. Pelo menos eu vou ter o que fazer na festa.
se intrometeu.
– Bom, já que ninguém me chamou para a festa, eu vou para casa – ela fez ceninha.
– Acredite, você não gostaria de estar sendo obrigada a ir nessa festa estúpida. Acho que eu e Danny vamos ser as únicas pessoas jovens naquele lugar – falou Tom.
– Mesmo assim, eu tenho que ir para casa. Meus pais estão enchendo o meu saco desde sexta-feira.
Dougie piscou os olhos.
– O quê, aquele dia que você ficou doente? – ele sorriu maliciosamente.
mostrou o dedo médio para ele.
– Acho que todos nós aqui temos plena consciência de que eu não estive doente na sexta-feira – ela suspirou. – E desde aquele dia, meus pais estão impossíveis, então eu acho bom eu andar na linha por uns tempos. , você vem comigo?
Eu franzi o nariz.
– Acho que não, . Vou ficar mais um pouco antes de ir para casa, se não tiver problema – eu olhei para Dougie.
Ele riu.
– Você sabe que não tem.
pegou a mochila e deu um tapa na cabeça de Danny. Ele se encolheu, massageando o lugar onde a garota tinha batido.
– Jones e Fletcher, vocês vêm comigo? – ela perguntou. Na verdade, não era uma pergunta, parecia mais uma ordem.
Tom assentiu com a cabeça e foi se despedir de Dougie, Harry e eu. Estalou um beijo na minha bochecha e deu tapinhas amigáveis nos garotos. deu dois beijinhos no rosto de cada um de nós e Danny abraçou os amigos.
Quando Danny me abraçou, deu um beijo nos meus cabelos e me ergueu do chão. Eu ri, mais de nervosismo do que de alegria. Ele me soltou, piscou um olho para mim e foi atrás de Tom e , que já estavam saindo da casa de Dougie.
Eu me larguei no sofá da sala de Dougie e encostei minha cabeça no braço do sofá. De repente, Dougie se sentou ao meu lado.
– Você vai dormir aqui, não vai, loirinha? – ele perguntou. Harry estava ao lado dele, e os dois estavam novamente com aquela mesma expressão de preocupação que eles tinham quando nós estávamos debaixo da macieira.
– Claro que não – eu respondi.
Ele amarrou a cara.
– Por que não? Essa não seria exatamente a primeira vez – ele questionou.
– Eu sei que não seria – A verdade é que eu tinha dormido na casa de Dougie umas trinta vezes só no último ano. A mãe de Dougie simplesmente me amava, e meus pais eram amigos da família de Dougie desde que nós chegamos ao Brasil.
– E a minha mãe vai chegar à noite – ele continuou.
– Dougie, até parece que eu estou preocupada com isso. – Eu era amiga deles há tanto tempo que nem me passou pela cabeça nenhum tipo de desconfiança.
– Então, qual é o problema? Harry também vai dormir aqui.
– Vou, é? – perguntou Harry, me fazendo rir.
– Vai – respondeu Dougie, sem nem olhar para ele.
– Tudo bem, então eu vou – Harry deu de ombros.
– E você também, né, ? – Dougie pediu.
Eu suspirei.
– Dougie, eu realmente queria ficar, mas como você espera que eu vá para o colégio amanhã sem livros e uniforme limpo?
Dougie parecia estar louco para dar a resposta, mas Harry falou primeiro:
– A falou que a sua turma não vai ter aula de história amanhã. Sua primeira aula então só começa às 08:50h, dá tempo de passar em casa para pegar as roupas e o material.
Eu devia estar boquiaberta, porque Dougie riu e disse:
– A gente acaba perdendo muita coisa quando dorme por duas horas enquanto deveria estar na aula de educação física.
Eu sorri.
– Mas eu não quero ir para casa sozinha amanhã às sete da manhã – resmunguei.
– A gente vai com você – Harry falou, indiferente.
Eu ri com essa.
– Meninos, sinto em informar a vocês que a minha turma não vai ter a primeira aula, mas a sua turma vai ter.
Dougie fez aquela carinha de vou-aprontar-alguma e disse:
– Ei, loirinha, alguma vez eu já disse que matar aula não é um problema para nós?
Eu e Harry rimos.
– Acho que você já comentou – eu falei, gargalhando.
– Então, mais algum problema que te impeça de dormir aqui? – Harry perguntou.
Eu estava pensando. Nada seria mais saudável para mim naquele momento do que dormir na casa de Dougie naquela noite. Poderíamos ficar jogando vídeo game, pedir pizza, ver filmes, tantas coisas que iriam me distrair...
– Eu ainda estou de uniforme. Não tenho nenhuma roupa para usar, e tenho que tomar banho urgentemente – falei, dessa vez esperando ansiosamente para eles resolverem meu problema.
– Você pode pegar uma camisa minha no meu armário – disse Dougie, dando de ombros.
Eu tentei me imaginar nas roupas de Dougie, e ri com a idéia.
– Tudo bem, vocês venceram. Eu fico.
Dougie e Harry começaram a pular no sofá, apenas parando quando Harry escorregou e quase caiu em cima de mim, que estava sentada, apenas apreciando a cena.
Morra de inveja, Maya.
Liguei para os meus pais, eles não ofereceram muita resistência, como eu havia previsto. Meus amigos eram sinônimos de confiança e eram os amigos que todo pai implorava a Deus para sua filha ter.
Antes de tudo, eu fui tomar banho. Dougie pegou uma toalha branca bastante cheirosa no quarto da mãe dele e me empurrou para o banheiro do quarto dele.
– Quando sair, pegue alguma coisa no meu guarda-roupas, tá? – ele disse, e desceu para falar com Harry.
O banho quente estava me fazendo bem. Enquanto a água escorria pelos meus cabelos, eu não pensava em absolutamente nada, apenas curtia a sensação da água quente. Eu poderia ficar ali por horas, se não fosse Dougie socando a porta do banheiro.
– Qual é, , se perdeu aí dentro?
Eu ri, imaginando por quanto tempo eu havia ficado embaixo da água quente.
– Já estou acabando – respondi. – Agora saia do quarto porque eu vou sair do banheiro de toalha!
– Agora que eu não saio! – ele gritou, me fazendo rir mais um pouco com a brincadeira dele.
– Sai sim! – eu mandei, apesar de que minha ordem perdeu um pouco o efeito por causa das minhas risadas.
– Tudo bem, eu saio – ele falou –, mas não demora muito não, , Harry só está te esperando para pedir a pizza e minha mãe quer te ver, você sabe como ela te ama – ele acrescentou, com voz de impaciência.
– Tá bom, eu não vou demorar, agora sai daí!
Eu o escutei indo embora e terminei meu banho rapidamente, já imaginando o que eu ia roubar do armário de Dougie. Eu sempre fui tão baixinha, e isso às vezes pode ser irritante.
Eu sabia que tinha um short dentro da mochila, então eu só precisava de uma blusa. Saí do banheiro com o short e uma toalha enrolada no corpo, abri o armário de Dougie para procurar uma blusa que não ficasse tão ridícula em mim. Escolhi uma rosa que ficava linda em Dougie e que não era tão grande quanto as outras.
É claro que a blusa, que ficava certinha em Dougie, ficou enorme em mim, quase cobrindo por completo o short que eu estava usando, por isso enrolei a barra da blusa e dei um nó. Funcionou. Penteei os cabelos loiros e os deixei soltos e molhados. De repente, eu escutei socos na porta do quarto de Dougie.
– , o que você está fazendo aí dentro? Eu quero pedir as pizzas! – eu ouvi Harry dizendo.
– É, , eu tô com fome! – reclamou Dougie.
– Ai, Poynter, Judd, calem a boca! – eu berrei. – Podem entrar, eu já estou completamente vestida – eu completei.
A porta abriu e Harry entrou no quarto, impaciente.
– Graças a Deus, que demora, !
Dougie entrou logo atrás dele. Quando ele me viu, ficou indignado.
– , o que você fez com a minha blusa?
– Enrolei, ué, não pode?
– Essa é uma das minhas blusas favoritas! – ele resmungou.
– Ah, Dougie, você não ia fazer uma concessão para sua melhor amiga?
– Quem disse que você é minha melhor amiga? – ele perguntou, mas pude ver que o humor dele tinha melhorado.
– Eu disse – eu respondi. – E, se eu disse, é porque é.
Harry riu.
– Você parece até o Danny falando, . Agora podemos pedir as pizzas? – ele chorou.
– Judd, qual é o seu problema? Você geralmente não é tão morto de fome.
– Estou com fome agora, . Isso é humano, caso você não saiba.
– Eu só não sabia que você era humano – eu respondi, dando de ombros.
Harry ergueu uma sobrancelha.
– Eu vou pedir as pizzas – ele se levantou e saiu do quarto.
– Pede de presunto para mim! – eu gritei enquanto ele estava descendo as escadas.
– E de calabresa para mim! – gritou Dougie.
Nós rimos quando os passos de Harry começaram a fazer mais barulho.
Harry pediu as pizzas e nós começamos a jogar vídeo game no quarto de Dougie. Harry estava me vencendo, mas de repente ele pausou o jogo.
– O que foi? – eu perguntei.
Harry olhou para mim, depois para Dougie, que acenou com a cabeça, incentivando-o.
– Loirinha, agora somos nós três. Você vai ter que nos contar por que estava chorando hoje – ele disse, muito sério.
Capítulo 19
– Eu não estava chorando – menti automaticamente.
Eu sei que eu sou uma péssima mentirosa, mas essa foi a pior mentira que já contei na vida. É claro que eu estava chorando, eles tinham visto com seus próprios olhos.
Dougie riu com a minha mentira.
– Ah, loirinha, você sabe que nós sabemos que você estava chorando. Então, responde: por que você estava daquele jeito?
Eu queria contar a eles. Queria mesmo. Mas era uma coisa que, além de embaraçosa, envolvia Danny. Era basicamente um segredo de Danny que eu supostamente não devia saber.
– Eu não estava me sentindo bem – respondi.
– , eu já te falei que eu odeio quando você mente? – perguntou Harry.
– Acho que não – eu murmurei, olhando para baixo.
O silêncio era angustiante. Eles não tiraram o olhar de mim e eu não tirava o olhar do chão.
– Sabe, meninos, não é que eu não queira contar para vocês, mas é que eu realmente não posso – eu resolvi falar.
– Por que não? – perguntou Dougie. – Nós somos seus amigos, . Você supostamente deveria confiar na gente.
Ai. Aquilo foi jogo sujo.
– Eu confio! – eu quase gritei, já com lágrimas nos olhos. – Não é por isso que não posso contar para vocês.
– É por que, então? – perguntou Harry, visivelmente confuso.
– É que é uma coisa que envolve não somente eu, mas também outra pessoa – eu tentei explicar.
– Mesmo assim, . Você pode confiar na gente – Harry falou, como se isso não fosse óbvio depois de todos esses anos e principalmente depois de toda a ajuda que eles haviam me dado mais cedo.
Eu amoleci depois dessa. Afinal, Danny também era amigo deles. E eu estava entrando em desespero. E eles podiam ajudar. Certo?
Então, eu botei tudo para fora. Falei que eu estava indiscutivelmente apaixonada por Danny há mais ou menos um ano, mas que eu sempre achei que ele só gostava de mim como amiga. Falei que confiava cada vez mais em mim, e isso só me fazia sentir mais culpada. Falei que tinha descoberto que Danny também gostava de mim daquele jeito e por isso eu tinha enlouquecido de culpa. Falei sobre Rafinha, que tinha sido a forma que eu, na minha bebedeira, tinha encontrado para superar Danny. E, por último, falei que não sabia se estava ou não falando com minha irmã gêmea.
Harry e Dougie ficaram me olhando em silêncio por uns dois minutos, mas eu não agüentei o silêncio e resolvi falar.
– E então? Vocês vão ficar só me olhando ou vão emitir alguma opinião sobre o assunto? – perguntei, dividida entre a confusão e a irritação.
– Ah, , você meteu os pés pelas mãos – falou Harry subitamente.
Eu olhei para Harry. Ele estava com uma expressão confusa e irritada, assim como eu.
– O que você quer dizer? – eu perguntei.
Harry me olhou como se eu fosse mentalmente deficiente, e a irritação superou minha confusão.
– Ah, , não leva a mal, mas você foi bem burra – ele explicou, o que só me fez ficar cada vez mais irritada.
– Eu continuo sem entender, Harry. Desembucha.
– , você foi uma idiota em não perceber que Danny gostava de você há séculos.
Alguma coisa naquela frase chamou minha atenção mais do que o resto.
– Como assim, “gostava”? Ele não gosta mais? – eu perguntei rapidamente, desolada. Eu não estava mais me entendendo. Há pouco tempo tudo o que eu queria era que Danny não gostasse de mim, para eu me sentir menos culpada, e agora eu estava surtando só com a idéia de ele não gostar de mim.
Dougie riu.
– , é claro que Danny ainda gosta de você, e acho que esse é justamente o seu problema. Ele sempre gostou, e vai continuar gostando, não importa o jeito como você o trate.
– O que você quer dizer? – eu perguntei novamente.
– Ah, todos percebemos que você está evitando o Danny e o tratando com indiferença hoje. Danny está completamente perdido – ele respondeu.
– E, , se você tivesse percebido que Danny gostava de você antes, nada disso teria acontecido – falou Harry.
– Você está me culpando por essa situação? – eu questionei, escandalizada.
– Não, a culpa foi de vocês dois – Harry falou, dando de ombros. – Os dois não tiveram neurônios suficientes para perceber que se gostavam e agora ficam sofrendo por aí, ele por achar que você não gosta dele, e você por saber que se gostam mas não ficam juntos.
Ai. Essa doeu lá no fundo do peito.
Eu olhei para meus joelhos.
– Vocês sabiam que Danny gostava de mim? – eu perguntei, ainda evitando os olhos deles.
Harry e Dougie começaram a rir descontroladamente.
– Ah, deixe-me explicar – disse Harry. – Danny sempre negou, mas nós o conhecemos bem o suficiente para saber a verdade. Nunca falamos nada porque pensávamos que você só gostava dele do jeito que gosta da gente, você sabe, como...
– Irmãos – Dougie completou.
– É – confirmou Harry. – Então ficamos na moita porque não queríamos ver os dois sofrendo, mas parece que nosso plano não deu certo – ele completou.
Eu não agüentei e comecei a chorar desesperadamente, sendo logo amparada por Dougie, que me pôs em seu colo e começou a alisar meus cabelos, afastando-os de meu rosto.
– Ei, loirinha, o que foi dessa vez? – ele perguntou, olhando de esguelha para Harry, fato que não me passou despercebido. Eles claramente não sabiam o que fazer comigo e com Danny, o que me fez sentir sozinha apesar da proximidade de Dougie.
– N-nada – respondi, pensando em seguida em como minha resposta tinha sido idiota. – É só que eu me sinto tão... tão perdida! – eu exclamei, afundando o rosto no peito de Dougie.
– Você não precisa – me garantiu Harry, chegando mais perto e esticando o braço para alisar meus cabelos também. – Você ainda tem seus amigos, principalmente o seu ursão aqui.
– Ei, e eu? – perguntou Dougie, fingindo revolta.
– Você é só mais um – respondeu Harry, irônico, me fazendo rir.
Eles olharam para mim, claramente aliviados com minha súbita risada.
Eu ri mais ainda com a expressão de alívio deles e eles riram com a minha risada, ficamos os três rindo que nem idiotas por alguns minutos.
– Você está de volta, certo, risonha? – perguntou Dougie.
– Estou – respondi, mostrando os dentes para ele, que riu. Harry, ao nosso lado, também riu.
– Então, já que voltou ao normal, ela já está apta a fazer a dança do ventre – declarou Harry.
– Nem pensar! – respondi. – Poxa, Harry, pensei que o único tarado aqui era o Dougie.
– Você nem sabe – respondeu Harry, piscando um olho para mim. Eu bati no braço dele.
– AI, , eu não sou seu saco de pancadas não! – ele reclamou.
– Claro que é.
– Não, se quer bater em alguém, bata no Dougie, que está mais perto de você – ele mandou.
Eu olhei para Dougie, que imediatamente me tirou de seu colo e se levantou, saindo de perto de mim.
Eu fiz biquinho e chamei os dois com o dedinho indicador. Eles continuaram parados, a alguns metros de distância. Eu fiz menção de levantar, e eles rapidamente saíram do quarto e correram escada abaixo.
“Crianças”, eu pensei, só para depois sair correndo atrás deles.
All American Girl
Capítulo 20
A noite foi divertida. Dougie e Harry fizeram questão de me animar e de me deixar feliz depois de tudo que eu havia contado a eles. Minha mente se dividia em três partes: uma das partes trabalhava para compreender as brincadeiras e as conversas dos meninos; outra, tentava imaginar o que os dois estavam pensando sobre eu também gostar de Danny – eu tinha certeza que eles ainda não tinha processado essa informação muito bem. A última parte, mas decididamente não a menos importante, simplesmente pensava em Danny, no que ele estaria fazendo na festa (ciúmes?) e se ele realmente estava sofrendo como os meninos deram a entender que ele estava.
Quando deu meia-noite e meia, a terceira parte do meu cérebro recebeu algumas respostas. Eu estava jogando vídeo-game com os meninos no quarto de Dougie (nenhum de nós estava com sono) quando o celular de Dougie tocou, decidindo a luta entre eu e Dougie ao meu favor quando as primeiras notas de Don’t Tell Me It’s Over começaram a tocar e Dougie perdeu a concentração.
– Mas que droga – falou Dougie, largando o controle e indo buscar o celular. Ele olhou o visor e se virou para Harry e eu.
– É o Tom. O que será que aconteceu para ele estar me ligando a essa hora?
– Ah, dude, atenda e veja – falou Harry.
Eu entrei em parafuso. Será que tinha acontecido alguma coisa com Tom? Ele tinha se machucado ou coisa assim?
E Danny, será que estava bem? A idéia de Danny em problemas me deixava nauseada.
– Calma – falou Harry baixinho, adivinhando meus pensamentos. – Dougie vai descobrir o que houve, certo? Tenho certeza que não é nada demais – ele acrescentou, enquanto nós observávamos Dougie falando ao celular, com um ar resignado.
Os segundos foram intermináveis. Você poderia dizer que eu estava fazendo uma tempestade num copo d’água, mas eu REALMENTE estava assustada com a perspectiva de alguma coisa ruim ter acontecido com Tom. Ou, pior, com Danny.
Não me entenda mal. É claro que eu ficaria desesperada se Tom estivesse mal ou coisa assim, mas Danny... Eu simplesmente não saberia viver sem Danny. Seria literalmente impossível. O que eu sentia era forte, excessivamente e inquestionavelmente forte.
Dougie girou nos calcanhares para nos encarar.
– Dude, temos que ir buscar Tom e Danny na festa – ele falou, se dirigindo a Harry.
O chão sumiu por um momento.
– O que aconteceu? – eu perguntei, com a voz fraca.
Dougie fez um gesto de impaciência com as mãos.
– Parece que Danny bebeu demais por uma noite só. Tom está preocupado porque os pais de Danny estão na festa e não podem vê-lo bêbado daquele jeito.
– De que jeito? – Harry perguntou, incerto.
Dougie franziu a testa.
– Pelo o que eu entendi, ele ainda está consciente, mas com alucinações malucas – ele respondeu, como se soubesse exatamente como era estar bêbado ao ponto de ter alucinações malucas.
– Que tipo de alucinações? – eu perguntei, sem ter certeza de que realmente queria saber.
– Ele está chamando por você, na verdade, – Dougie respondeu, dando um forte suspiro e rolando os olhos.
O que eu mais temia. Daquele jeito não dava para continuar. Eu tinha ficado bêbada no sábado por causa de Danny (vamos admitir que eu tinha quase me agarrado com um desconhecido para tentar esquecê-lo) e, dois dias depois, Danny fica BASTANTE bêbado por minha causa?
Aquilo não era NADA saudável.
E só tendia a piorar.
– Tá, QUE MERDA NÓS ESTAMOS ESPERANDO? – eu berrei, fazendo os dois olharem para mim com um ar assustado.
– Como assim, “nós”? – perguntou Harry. – Você fica aqui, e eu e Dougie vamos buscá-los – ele esclareceu, determinado.
Eu ri sarcasticamente.
– Até parece, Harry – disse para ele, que me olhou com raiva.
– É sério, , você não vai com a gente.
– Quero ver quem vai me impedir – desafiei, colocando celular e dinheiro nos bolsos do short e desenrolando a blusa de Dougie, fazendo-a cair sobre meu short.
Dougie riu, nervoso.
– Você vai assim? – ele perguntou, apontando para o short, quase invisível sob a blusa rosa.
Eu franzi a testa.
– Por que não?
– Porque simplesmente parece que você não está usado short! - respondeu Harry, prendendo a respiração.
– Poupe-me – eu disse, virando para a porta do quarto e abrindo-a. – Vou ver se consigo parar um táxi.
Quando pus um pé para fora do quarto, senti uma mão agarrando meu antebraço.
– , você não vai – falou Harry com firmeza.
– Você não vai me impedir, você não pode me trancar em casa. Eu vou, de um jeito ou de outro, cabe a vocês decidirem se vêm comigo – respondi, impressionada com minha própria audácia. Normalmente eu teria seguido os conselhos de Harry, mas eu estava fora de controle.
Ele suspirou e me soltou.
– Espere por nós lá embaixo. Tente parar um táxi – ele disse, inconformado.
Eu concordei com um aceno de cabeça e desci as escadas, saindo pela porta da frente e esperando um táxi. Graças aos céus a mãe de Dougie já estava dormindo, ou teríamos que explicar e perderíamos tempo.
Quando vi o táxi, corri para o meio da rua, fazendo sinal para ele parar. Eu devia estar parecendo uma espécie de suicida, porque o motorista buzinou e gritou para eu sair do caminho.
Em todo o caso, o táxi parou, e eu vi os meninos saindo da casa e Dougie trancando a porta. Infelizmente, Harry tinha visto a minha tentativa bem-sucedida de parar o táxi, e fez aquela cara de vamos-conversar-depois-e-você-tá-ferrada enquanto entrava no carro e segurava a porta para eu entrar também (até nos momentos críticos ele é capaz de ser cavalheiro).
Dougie entrou logo em seguida e disse ao motorista o endereço que havia pegado com Tom. Não demorou mais de vinte minutos para chegarmos ao local. A casa era grande e imponente, mas os terrenos ao redor eram maiores ainda. A festa também não parecia tão ruim quanto Danny e Tom descreveram, a música era jovem e dava para ver os efeitos de luz no interior do ambiente.
Dougie pegou o celular para ligar para Tom, mas ele não foi preciso. Tom já estava fora da casa, a poucos metros de distância de nós, carregando um Danny bêbado e risonho, e sendo seguido por um grupinho de três garotas bonitas.
Não pude deixar de sentir ciúmes. Quero dizer, as garotas estavam usando vestidos longos e bonitos, os cabelos estavam presos em elegantes coques e elas carregavam taças nas mãos. Eu estava com uma blusa larga de Dougie, um short que sumia por baixo da blusa e tênis. Meus cabelos estavam úmidos e eu provavelmente estava com uma cara assustada e nada divertida.
Mesmo assim, a preocupação foi maior que o ciúme, e eu fui a primeira a chegar perto deles, sendo seguida por Harry e Dougie. Tom pareceu preocupado ao me ver e olhou para Dougie com aquele olhar de desespero que eu conhecia muito bem.
Outra coisa que eu também não pude deixar de reparar foi na roupa dos garotos. Tanto Danny quanto Tom estavam muito bem vestidos, de smoking, apesar de Danny estar com sua roupa toda amarrotada.
– , o que você está fazendo aqui? – perguntou Tom, confuso.
– Ah, Tom, adivinha? – eu falei, sarcástica. Eu olhei para Danny, que parecia mais confuso do que todos nós juntos.
– Loirinha? – ele perguntou, piscando os olhos para me ver melhor.
– Oi, Danny, o que você fez consigo mesmo? – eu sussurrei, já com lágrimas nos olhos. Danny estava realmente mal. Eu já tinha visto Danny bêbado algumas vezes, mas nunca daquele jeito. Ele parecia completamente perdido.
Danny riu e virou para Tom.
– Viu, Tom, eu te disse que ela estava aqui! Mas você mudou de roupa? – ele perguntou para mim. – Você não estava vestida assim...
Eu suspirei e não respondi. Olhei para Harry e Dougie e eles também não estavam reconhecendo o amigo. Tom disse:
– Eu avisei que ele estava mal.
Danny de repente se soltou de Tom e agarrou meu pulso, fazendo todos se entreolharem.
– O que foi, Danny? – eu perguntei, com medo que ele caísse e me puxasse junto. Mas Danny pareceu bem firme.
– , tenho que falar com você – ele disse.
– Pode falar – eu consenti, nervosa.
– Vem aqui – ele mandou, saindo de perto dos outros e me puxando junto. Eu pude ouvir os protestos dos meninos.
– Danny, volta aqui, cara! – chamou Tom, se adiantando para nos seguir, mas eu o parei com um olhar de aviso.
Harry se escandalizou.
– , que merda você pensa que está fazendo?
Eu mandei um olhar tranqüilizador para ele, enquanto era puxada por Danny. Harry não se convenceu e também se adiantou para nos seguir, mas Dougie o parou com a mão.
– Ela sabe o que está fazendo, dude – eu escutei Dougie falar.
Danny parou e colocou a mão nos meus ombros, dando uma leve sacudida.
– Loirinha, por que você me ignorou hoje? – ele perguntou com lágrimas nos olhos.
Eu suspirei. Eu não ia agüentar ver Danny chorar.
– Olha, Danny, eu não te ignorei hoje...
– Claro que ignorou! – ele gritou, apertando meus ombros com muita força e me fazendo dar um pequeno gemido de dor.
– Danny, nós somos amigos, certo? Eu nunca iria te ignorar... – tentei amenizar a situação.
Danny riu forçadamente.
– Você não sabe mentir, , não adianta. Eu só quero saber por quê motivo você me ignorou hoje!
Eu inspirei fundo.
– Você está bêbado. Você não sabe o que fala, okay?
– EU NÃO ESTOU BÊBADO! – ele berrou e as mãos dele começaram a machucar meus ombros, tamanha a força do aperto.
Eu olhei para meus ombros.
– Danny, você está me machucando – eu falei baixinho, porque sabia que se Harry, Dougie ou Tom escutassem isso, iam vir correndo, achando que o mundo estava acabando.
Danny me soltou e me encarou com aqueles olhos azuis como o céu nos dias ensolarados.
Clichê, eu sei.
– , você não tem noção de como você me magoou me ignorando daquele jeito! – ele exclamou, parecendo irritado.
As lágrimas saíram dos meus olhos depois dessa.
– Ei, você não é o único que está sofrendo com isso, certo? – eu falei, sem pensar.
Ainda bem que Danny estava bêbado demais para raciocinar.
– Do que você está falando? – ele perguntou, mas seus pensamentos pareciam estar longe. Na verdade, não tenho certeza que ele estava pensando ou dormindo de olhos abertos.
Tudo bem, exagerei. Ele não estava dormindo, definitivamente.
– , eu tenho que te falar uma coisa.
Eu olhei para ele, sem saber o que esperar.
Ele me olhou nos olhos, inspirou e soltou essa:
– Eu te amo.
– Eu também te amo, Danny, a também te ama, os meninos te amam, e é por isso que temos que ir para casa, certo? – eu falei, tentando sair daquela situação. Pô, o Danny tinha que falar aquilo naquela hora? Meu único consolo era saber que ele não se lembraria de nada pela manhã.
Ele concordou com a cabeça e eu o puxei pela mão para perto dos meninos e das garotas bonitas que tentavam puxar papo com eles.
Para minha infelicidade, Dougie reparou nas minhas lágrimas.
Mas, graças a Deus, ele não falou nada e só mandou aquele olhar “nós falaremos sobre isso mais tarde”.
A garota que estava se jogando para cima de Dougie se irritou ao perceber que ele estava olhando para mim e me atacou:
– Quem é você, garota? E que porra de roupa é essa? – ela questionou, zombando de mim e de minhas roupas.
Eu me virei irritada para ela, mas antes que eu tivesse a chance de mandá-la tomar em algum lugar feio ou, melhor, de dar um belo soco naquele nariz perfeito, Dougie segurou meu braço e me puxou para o táxi, deixando Danny com Tom e Harry.
– Entra aí – ele mandou, me jogando para dentro e se sentando ao meu lado.
Eu olhei irritada para ele, mas minha preocupação com Danny era maior, então eu apenas perguntei:
– E os meninos?
Dougie apontou com a cabeça em direção aos meninos. Harry e Tom tentavam puxar Danny, mas ele estava muito ocupado com uma das garotas bonitas para ouvi-los.
De repente Harry separou Danny da garota à força e o empurrou para dentro do táxi. Como o carro era muito pequeno para nós cinco mais o motorista, eu tive que sentar no colo de Dougie para que Harry pudesse sentar ao lado de Danny. Tom sentou no banco da frente.
Nós fomos até a casa de Dougie em silêncio; Danny tinha dormido. Quando o táxi parou em frente à casa de Dougie, Harry e Tom tiveram que carregar Danny até a cama e o deitaram lá. A única reação de Danny foi roncar.
Bom, Danny. Realmente, bom.
O resto de nós desceu as escadas e sentamos nos sofás da sala de Dougie.
– Gente, eu tenho que voltar para casa – falou Tom. – Meus pais estão esperando.
De repente, me veio à cabeça mais uma preocupação.
– Tom, o que vamos falar para os pais de Danny? – perguntei, assustada.
Tom sorriu, me tranqüilizando.
– Eu já disse a eles que Danny resolveu vir dormir aqui na casa de Dougie, e eles não se opuseram.
Eu suspirei, aliviada. Tom se despediu rapidamente e logo foi embora. Quando eu dei por mim, já estava bocejando.
– Ah... estou com sono... – reclamei, me apoiando em Dougie, que estava sentado ao meu lado.
Dougie esfregou os olhos e comentou:
– Hum, gente, eu acho que eu vou dormir no quarto junto com o Danny.
Eu e Harry nos olhamos e começamos a rir.
– O que foi? – perguntou Dougie, confuso.
– Dude, você não tem noção de como isso foi gay – falou Harry.
– Demais – eu concordei, rindo.
Dougie amarrou a cara.
– Não é isso, seus idiotas, mas é que o Danny pode passar mal ou coisa assim, se algum de vocês quiser assumir meu posto...
Eu fiz cara de ofendida.
– Dougie, você me chamou de idiota?
– Chamei – ele confirmou, dando de ombros.
O tapa que dei no braço dele foi tão fraco que passou despercebido.
– Bom, eu vou dormir no quarto de hóspedes – falei, me levantando.
– Vou com você, loirinha – falou Harry, se levantando também.
Dougie fez o mesmo que nós, e nós subimos as escadas, evitando fazer barulho para a mãe de Dougie não acordar.
– Boa noite – Dougie sussurrou para nós quando chegou na porta de seu quarto.
– Boa noite, pequeno – eu respondi, dando um beijinho no rosto dele.
– Olha quem fala, sua baixinha – ele respondeu rindo baixinho.
– Boa noite, cara – falou Harry.
Dougie bocejou em resposta e entrou no quarto silenciosamente, evitando acordar Danny. Na verdade, Dougie podia fazer todo o barulho do mundo, mas Danny não ia acordar tão cedo.
Eu e Harry entramos no quarto de hóspedes e nós jogamos na cama, morrendo de sono. Alguma coisa no fundo do meu cérebro me lembrou que eu tinha que escovar os dentes, então eu fui ao banheiro, escovei os dentes e depois deitei, tentando dormir enquanto era a vez de Harry de se apossar do banheiro.
Mas eu não conseguia dormir de jeito nenhum, apesar de estar morrendo de sono e de saber que teria que acordar cedo no dia seguinte.
Fiquei pensando por mais um bom tempo antes de Harry voltar do banheiro. Meus pensamentos estavam focados nas garotas bonitas da festa em que Tom e Danny estavam. Por que elas tinham que estar lá? Por que elas não estavam simplesmente numa festa na casa de um de seus amigos populares e sim JUSTAMENTE na festa onde Danny estava? Quantas garotas mais havia naquela festa? QUANTAS garotas ficaram com Danny? O que Danny fez com cada garota?
É, minha cabeça estava explodindo.
Demorou um pouco para eu perceber que Harry já tinha voltado do banheiro e estava deitado ao meu lado. Era estranho saber que qualquer garota dava a vida para estar em meu lugar, deitada numa cama de casal ao lado de Harry Judd, enquanto eu não sentia nada por Harry além de amizade.
E, para falar a verdade, eu sou a única garota da qual se tem notícia que ficou deitada numa cama com Harry Judd sem... bom, sem uma evolução no relacionamento.
Não, espere. também já deitou numa cama com Harry Judd sem haver uma evolução em seu relacionamento.
Então, cara, eu vou te dizer: eu e podíamos ser consideradas heroínas, com toda a certeza.
Bom, de qualquer forma, Harry estava deitado do meu lado, mas ele não parecia estar dormindo também.
– , você ainda está acordada? – eu o escutei perguntando.
É. Ele não estava dormindo mesmo.
– Estou – eu resmunguei.
– Por que você ainda não dormiu? – ele perguntou.
Ah, Harry, querido, foi só porque eu fiquei imaginando cenas horríveis de Danny com cem sósias da Angelina Jolie.
– Não sei – respondi. – Por que você não está dormindo?
– Estou preocupado com você – ele respondeu.
Eu virei minha cabeça para olhar para ele, mas, graças à escuridão, não pude ver absolutamente nada.
– Não devia – eu falei, ainda tentando ver o rosto dele naquele breu. Nada. – Eu estou perfeitamente bem e não sou motivo para tirar seu sono.
Ele riu, e eu não entendi o motivo. Não tinha feito nenhuma piada, tinha?
– , em que você está pensando nesse exato momento? – ele perguntou.
– Estou me perguntando aonde você quer chegar com toda essa análise – respondi, e era verdade.
– Você não está chateada pelo fato de Danny ter agarrado aquela garota, está? – ele perguntou, cauteloso.
– Não – eu menti automaticamente.
Harry riu de novo.
– Você ainda não aprendeu a mentir, loirinha.
Droga! Como ele adivinhou? Deus, ele nem podia enxergar meu rosto e ainda assim sabia quando eu estava mentindo! Como eu posso ser tão má mentirosa?
– Certo, Harry, eu estou chateada sim – eu admiti, até porque eu sabia que não ia conseguir mentir mesmo.
Ele deu um pesado suspiro.
– Por favo, não fique triste, tá? O Danny estava realmente bêbado.
– Eu sei – eu respondi.
Eu o senti virando o corpo para ficar de frente para mim, apesar de nenhum dos dois estar enxergando coisa alguma. Na realidade, eu nem sabia que ele estava deitado de costas até ele se virar.
– Olha, , você sabe que nenhum de nós faria qualquer coisa para magoar você ou a , não sabe?
– Sei – eu respondi, não entendendo aonde ele queria chegar.
– Então... o Danny preferiria morrer a te deixar triste. Ele não sabia o que estava fazendo, então não fique magoada com ele, ok?
– Okay – eu respondi, mas até eu mesma senti que soava falso, então complementei: – Eu apenas não consigo evitar de ficar chateada.
Harry deve ter percebido a melancolia na minha voz, então me abraçou (não sei como, considerando que não dava para ver nada na escuridão) e falou baixinho:
– Só pense no que eu disse: ele não sabia o que estava fazendo. Boa noite, .
– Boa noite, Harry – eu respondi, ainda aninhada nos braços dele.
Ah, se Maya visse isso.
Capítulo 21
Acordei com uma almofada sendo tacada na minha cara.
– Ei, ! Que traição é essa? – eu escutei Dougie perguntar.
Abri os olhos, desnorteada. Harry estava do meu lado, se espreguiçando, e Dougie estava parado na porta. Quando ele percebeu que eu estava olhando para ele, se jogou na cama, em cima de mim.
– Ai! – eu gemi. – Dougie, você pode até não saber, mas pesa um pouco mais do que eu – eu reclamei, minha voz abafada por causa do peso dele.
Dougie riu e saiu de cima de mim, me deixando respirar. Ele sentou na beirada da cama, olhando para mim e para Harry, que estava bocejando.
– Mas, hein? – falou Dougie. – Eu vim aqui acordar vocês e pego os dois abraçados, como um casal de namorados! O que vocês têm a me dizer sobre isso, mocinhos?
Eu ri. A idéia de Harry e eu namorando era ridícula.
– Ah, Dougie, você sabe que eu nunca te trairia – eu brinquei, sentando na cama e esfregando os olhos.
Dougie riu e falou para Harry:
– Perdeu, meu amigo.
Eu também ri depois dessa.
De repente, escutamos um grito vindo do corredor.
– Ai, que dor!
Era a voz de Danny. Fiquei de pé imediatamente e saí do quarto, sendo imediatamente seguida por Dougie e Harry. Quando entrei no quarto de Dougie, vi Danny encolhido na cama de Dougie, com as mãos sobre os olhos.
Eu fiquei preocupada, mas Harry apenas riu.
– Quem mandou beber tanto ontem, Jones?
Dougie riu também, mas eu não estava achando muito engraçado. No domingo, a minha dor de cabeça estava quase insuportável, e eu não tinha nem de perto bebido tanto quanto Danny.
Danny ainda estava desnorteado.
– O que eu tô fazendo aqui? – ele perguntou.
– Bem, você não estava exatamente em condições de voltar para casa sem que seus pais te deixassem de castigo para o resto da vida, Jones – respondeu Harry.
– Ai, merda – falou Danny. – Não lembro de nada que aconteceu ontem. O que foi que eu fiz?
– Nada de mais – eu respondi automaticamente.
– ? – ele abriu os olhos para me olhar. Eu dei um pequeno sorriso forçado. – O que você está fazendo aqui?
– Ela participou do seu resgate, Danny – respondeu Dougie, rindo.
– Que resgate? – perguntou Danny.
– Você quis ir embora da festa, só isso – eu menti.
Danny riu baixinho.
– , mesmo com essa dor de cabeça dá para perceber quando você está mentindo.
Eu totalmente fiquei estressada depois disso. Quero dizer, meus Deus, até uma pessoa de RESSACA sabe quando eu estou mentindo? Isso é demais, até mesmo para os meus padrões.
– Okay, então, já que eu estou mentindo, eu vou para casa! – gritei, irritada. – Aliás, caso vocês não lembrem, vocês deveriam estar na escola, em vez de remoendo uma dor de cabeça causada por muita diversão envolvendo garotas e bebidas na noite passada!
– Ei, , calma – pediu Harry, apontando para Danny, que estava apertando os olhos.
Ops. Alto demais.
– É, , a gente prometeu que nós íamos com você buscar o uniforme, então espera pela gente, certo? – falou Dougie.
– Nem pensar – eu respondi, dessa vez num volume mais baixo, para evitar que a cabeça de Danny explodisse de vez e eu que tivesse que catar os pedacinhos. Se bem que não seriam muitos, uma vez que está claro para todos que Danny não tem cérebro.
Eu virei para a porta do quarto de Dougie, mas fui impedida de sair quando senti uma mão agarrando meu pulso.
Era Dougie, é claro.
Já falei da desvantagem de ter amigos meninos? Eles SEMPRE são mais fortes que você.
– Espere – ele mandou, me mandando um olhar de censura completamente irritante. – Eu vou com você.
– E o Danny? – eu perguntei. Mesmo com raiva de Danny, eu não queria que ele morresse sem pelo menos tomar uma aspirina.
– Eu fico com ele – falou Harry.
Tudo bem, Harry era uma pessoa responsável, o que significava que pelo menos o último desejo de Danny (a aspirina) seria realizado.
– Vamos, então – eu disse, puxando Dougie pelo braço em direção ao quarto de hóspedes, para que eu pudesse pegar minha mochila, que eu tinha deixado lá na noite anterior.
Entrei no quarto e fui buscar minhas coisas, enquanto sentia Dougie fechando a porta.
– O que foi? – eu perguntei a ele, não entendendo o porquê de ele ter fechado a porta.
– Quero falar com você.
– Fala, então – eu olhei confusa para ele, que tinha acabado de sentar na pontinha da cama.
Ele me olhou com olhos sérios, e pediu:
– Quero saber o que Danny falou para você ontem à noite.
Eu estremeci. Droga, eu estava com raiva de Danny e Dougie ainda tinha que lembrar daquela cena da noite anterior em que Danny tinha falado que me amava e tudo o mais?
– Nada de mais – respondi, dando de ombros e voltando meu olhar para a mochila.
– Cara, loirinha, você REALMENTE tem que parar com isso - Dougie falou com uma voz dura.
– Com o quê, Dougie?
Ele me encarou.
– Você tem que parar de mentir para os seus amigos tão descaradamente! Porra, , qual é o seu problema? Eu não sou nem cego nem burro, eu vi e entendi muito bem aquelas lágrimas todas ontem à noite.
Lágrimas essas que, infelizmente, se repetiram naquele momento.
– Ah, Dougie, quer saber de uma coisa? Você não tem nada a ver com a minha vida ou com o que eu e Danny estávamos fazendo, certo? E daí se eu prefiro mentir? Eu não tenho a menor obrigação de contar tudo a vocês! – eu passei a mão pela minha bochecha, secando as lágrimas que escorriam. – E, olha só, eu vou para casa SOZINHA, e vê se você e o Harry me deixam em paz! – eu explodi de vez, deixando Dougie assustado. Coloquei minha mochila nas costas, desci as escadas correndo e sai da casa de Dougie batendo a porta como uma criança mimada.
Corri sem parar até minha casa, mal conseguindo ver o caminho por causa de meus olhos embaçados.
Ao entrar em casa, subi direto para meu quarto, tranquei a porta furiosamente e deitei na cama impecavelmente arrumada, agarrando a almofada e chorando até não poder mais.
O que estava acontecendo comigo? Parecia que absolutamente TUDO estava dando errado, desde minha nota em trigonometria, passando pelos meus amigos e minha irmã e chegando até Danny.
E eu não fazia a menor idéia do que fazer para parar de sofrer daquele jeito.
Não foi exatamente uma surpresa quando eu comecei a escutar “Help”. E, pela segunda vez em três dias, eu desejei que aquela música não existisse.
O visor do celular indicava que era Dougie. Ao lado do nome dele, o visor também mostrava uma foto, onde eu e Dougie estávamos abraçados na praia. Aquela foto era do tempo em que eu ainda não gostava tanto de Danny, e eu fiquei literalmente com inveja daquela , totalmente sem preocupações e toda feliz e alegre ao lado de um dos seus melhores amigos.
Ai, ai. sortuda.
É claro que eu não atendi o celular. Eu sabia que tinha sido péssima com Dougie mais cedo. Ele sempre me ajudou em QUALQUER coisa e eu fui super grossa com ele, ele não merecia isso da minha parte. Mesmo assim, eu sempre fui muito orgulhosa e definitivamente não estava pronta para pedir desculpas.
Quando eu fui olhar o relógio, percebi que já tinha perdido a segunda aula também. De novo, o que estava acontecendo comigo? Nunca fui de matar aula, mas já tinha matado duas aulas nos últimos dois dias, sendo que uma delas era de Educação Física, minha aula preferida de todos os tempos.
Fui tomar um banho quente para me acalmar, mas não posso dizer que funcionou muito. Na verdade, não funcionou nada, eu continuei nervosa e chateada e depressiva e arrasada e prestes a explodir.
Mais uma vez, o uniforme estava afim de brigar comigo, mas eu nem me importei. Deixei a saia curta, a gravata desarrumada, a blusa amassada, a meia-calça esticada demais e os sapatos folgados. Não estava absolutamente nem aí.
Nem passei pela cozinha para falar com Tânia. Cara, eu estava tratando mal a minha própria empregada, a pessoa mais fofa e mais preocupada comigo que eu conheço!
Não fui para o colégio a pé, estava chateada demais para isso. Peguei um táxi e cheguei meia hora antes de a aula que eu tinha faltado acabar. Não tinha nada para fazer, então resolvi sentar embaixo da minha macieira favorita.
Péssima idéia. Aquela macieira trazia lembranças demais para meu gosto, e eu estava ficando agoniada de estar ali. Por isso, levantei e fiquei andando pelos corredores do colégio, incerta de onde queria estar e do que queria fazer.
O sinal tocou, dando início ao intervalo. Nessa hora, eu realmente quis me esconder, não queria ver Danny, Dougie, Harry, Tom, , , ninguém.
Mas você já ouviu falar em Lei de Murphy? Pois é, essa lei rege minha vida. E foi exatamente por causa da lei de Murphy que eu vi meus cinco amigos parados em um canto, conversando baixo. Aquilo estava muito estranho, desde quando eles passavam mais de um minuto sem gritar?
Mas eu não queria chegar perto de ninguém, principalmente deles, então em dei meia-volta e andei na direção contrária à deles, rezando para que nenhum deles tivesse me visto.
Tarde demais. Lei de Murphy.
– Ei, , volta aqui! – eu escutei Tom falar. Falar não, melhor, gritar.
Não dava para fingir que não tinha ouvido, eu estava perto demais e não tinha nenhum fone de ouvido em mãos para disfarçar.
Parei e virei para eles, procurando os olhos de Tom, que para mim eram os olhos mais seguros para eu olhar sem me sentir tão culpada.
Ei, eu escutei um “enganar a si mesmo”? Ha, ha, muito engraçado.
– Oi, Tom. Oi, gente – eu falei, olhando em volta, tentando achar alguma justificativa para sair dali.
Tom chegou perto de mim e me abraçou, me fazendo sentir muito culpada.
– Ei, você não ia falar com a gente não? – perguntou ele.
Culpada.
– Err... eu meio que não vi vocês – eu menti, já sabendo que eles não iam acreditar.
chegou perto de mim, me abraçou e falou alto:
– Ei, , vamos ao banheiro comigo.
Eu concordei com a cabeça, e me puxou para o banheiro mais próximo.
Quando nós entramos, ela virou para mim e perguntou:
– Certo, o que foi isso? Você briga com Dougie, sai furiosamente da casa dele, não atende o celular, não vem assistir à primeira aula e depois finge que não nos viu e dá as costas para gente? E o que você fez com sua saia?
Eu olhei para baixo, e reparei que a saia estava realmente muito curta. Puxei a saia para baixo o máximo que pude, tentando evitar e seus comentários sobre minha agitada manhã.
– E então? – ela perguntou, de repente.
– E então o quê?
– Como assim, “e então o quê”? , você não tem a menor noção de como o Dougie tá mal.
Eu fiquei triste com aquilo. De novo, a má ataca.
– Para falar a verdade, tenho sim – eu respondi. – Tenho até demais, e é por isso que eu vou me afastar de vocês por enquanto, okay?
boquiabertou-se.
– Você ficou maluca? Olha só, nenhum de nós sabe o que realmente houve com você, mas nós estamos dispostos a ajudar, certo? E o que você está dando em troca, ?
Eu chorei um oceano depois daquilo que disse.
– Eu sei, e é por isso que eu vou me afastar, vocês não merecem ficar cheios de dor de cabeça por minha culpa, certo?
Foi aí que eu saí do banheiro e corri como uma louca para longe de todos eles. Eu admito que estava tentando fugir dos meus problemas, e estava enganada ao pensar que correr ia fazer com que eu os esquecesse.
Foi correndo que eu esbarrei em , que estava andando sozinha por um dos corredores. Ela se assustou ao me ver correndo e chorando e parou para falar comigo.
– , o que aconteceu? Por que você está chorando desse jeito? Onde estão a e os meninos? – ela perguntou, como se fosse uma coisa absurda eu estar andando sem eles por perto.
O que, na verdade, era.
– Não aconteceu nada, – eu respondi, chateada.
– Como assim? Ninguém chora por nada – ela falou. – Venha, eu vou lanchar agora, vamos sentar na cantina para você poder me explicar melhor.
Eu estava, como sempre, me sentindo a mais horrível das criaturas, pior do que o Voldemort. Ou do que o Hitler. A estava sendo tão legal, e na verdade era minha culpa o fato de ela ter perdido o namorado.
E foi aí que eu descobri a solução de todos os meus problemas: eu só tinha que fazer com que Danny e ficassem juntos de novo, aí eu seria a única pessoa que ia sofrer e todas as outras pessoas iam ficar bem! E, tipo, o meu maior problema não era eu sofrer, e sim fazer as pessoas que eu amo sofrerem. Então, se os dois voltassem, todos ficariam felizes!
– , você tem que dar um jeito de voltar para o Danny – eu falei, num impulso, enquanto nós atravessávamos os corredores da escola.
– E você não acha que isso é o que eu mais quero? – ela perguntou. – Eu já tentei, . Umas mil vezes. Mas ele diz que não me quer de volta, ele diz que já está gostando de outra pessoa...
Engoli em seco. Culpada.
– ... Mas eu bem que gostaria de saber quem é a garota. Ah, eu ia fazer picadinho dela.
CULPADA!
– , você realmente ama o Danny, né? – eu perguntei. Eu tinha que confirmar. Simplesmente TINHA.
– Mais do que deveria – ela respondeu, baixando os olhos tristemente.
Eu sei como é isso, . Taí uma coisa que concordamos.
– , onde estão os seus amigos? – perguntou. – Vocês nunca se separam, ficam naquele grude todo, uma amizade de dar inveja... Por quê você estava sozinha?
Eu inspirei fundo.
– Ah, , eu simplesmente não estou bem para andar com eles hoje. Não sei, tanta coisa acontecendo, eu estou cheia de problemas...
riu, me deixando confusa.
– Você, , cheia de problemas? Impossível. Sua vida é perfeita, você tem vários amigos, é inteligente, é bonita e rica, é invejada por cada indivíduo de saias e desejada por cada indivíduo de calças. O que mais você pode querer?
Pobre . Como Danny, ela não fazia a menor idéia do quanto minha vida NÃO é perfeita.
Eu fiquei calada durante todo o resto do intervalo. Aliás, aquele intervalo estava insuportável, todos estavam me olhando com e comentando. O olhar de presunção de ao perceber que eu não estava ao lado dos meninos me fez querer dar um belo tapa no rosto dela.
E, por falar nos meninos, não os vi em nenhum momento. Não que eu estivesse procurando. Porque eu não estava.
Quem estava procurando, na verdade, era Luiz Felipe Manta. Enquanto eu estava em silêncio, afogada em pensamentos, ele veio até a mim e falou:
– Oi, .
Eu fiquei surpresa, mas decidi ser simpática.
– Oi, Luiz Felipe. – Na verdade, o que eu queria perguntar era: “Que diabos você está fazendo aqui?”, mas eu sou muito educada para fazer isso.
Ele me deu um pequeno sorriso.
– Err... Você sabe onde a está? – ele perguntou, olhando em volta de mim, como se estivesse esperando que saísse do meu bolso ou coisa assim. O que nunca poderia acontecer, já que a saia do uniforme nem tinha bolso, de qualquer forma.
– Na verdade, não sei não...
Ele me olhou, meio surpreso e meio desconfiado, como se achasse que eu estava escondendo alguma coisa.
– Tudo bem. A gente se vê por aí, – ele respondeu e foi embora, atraindo todos os olhares femininos.
É, ele merecia o terceiro lugar, .
O sinal tocou, e eu dei um pequeno gemido ao lembrar que era aula de música. Pela primeira vez, eu pensei: “Por que a aula de música não é só uma vez por semana?”
Eu e andamos vagarosamente até o auditório. Chegando lá, eu imediatamente vi e os meninos parados perto da porta, conversando.
Eu JURO que só fui lá para falar para que Luiz Felipe estava procurando por ela.
Cheguei perto, evitando olhar para os meninos e disse:
– , o Luiz Felipe Manta quer falar com você. Ele acabou de me perguntar onde você estava quando eu estava na cantina com a .
Ela me olhou, séria, e respondeu:
– Ah, tá, obrigada, .
Eu estava morrendo de vontade de me ajoelhar e pedir desculpas para o Dougie, mas era orgulhosa demais para isso. Mesmo assim, eu estava completamente agoniada; sentia medo de ficar sozinha e de perder meus amigos, o que mais me importava na vida.
Antes que eu perdesse completamente a cabeça e REALMENTE me ajoelhasse, eu girei nos calcanhares e fiz menção de ir embora.
– Aonde você vai? – eu escutei Dougie perguntar.
Eu fiquei de frente para ele, mas sem coragem de olhar nos seus olhos.
– Não sei – respondi. – Para a aula, eu acho.
– Vem aqui, eu quero conversar com você – ele pediu, estendendo a mão.
Eu olhei para a mão de Dougie; estava hesitante em segurá-la. Dougie, percebendo minha hesitação, pegou minha mão e me levou para um canto do corredor que estava vazio.
– Olha – ele começou a falar, e eu prendi a respiração. –, desculpa.
Eu não entendi aquilo. Ele estava pedindo desculpas por exatamente o quê?
– Loirinha, desculpa por me meter daquele jeito, eu não tinha nada que exigir resposta nenhuma, é a sua vida, e você tem razão, você não deve satisfação a ninguém, e...
– Pára – eu pedi, desesperada. Quer dizer que eu sou grosseira com ele, o trato mal quando ele só queria me ajudar, e depois ELE me pede desculpas? Isso definitivamente prova o quão má eu sou.
Ele me olhou assustado, e havia um ar de súplica nos seus olhos que eu não merecia.
– Dougie, não é você que tem que me pedir desculpas, certo?
– Não? – ele perguntou, parecendo confuso.
– Não. Eu é que tenho... Dougie, desculpa por ser uma pessoa horrível e insensível. Desculpa pelo o que eu disse hoje cedo, eu estava nervosa por causa de Danny e acabei descontando tudo em você. Desculpa, desculpa, desculpa, desculpa... – eu só parei de pedir desculpas quando Dougie me abraçou forte, me tirando do chão.
Acho que isso significava que eu estava perdoada.
– Ai, sua baixinha, é claro que eu te desculpo! Você sabe que eu não consigo ficar brigado com você por muito tempo, né?
É. Eu estava perdoada.
Eu ri. O recorde de brigas entre eu e Dougie tinha sido sete horas e trinta e seis minutos sem nos falar. Isso tinha acontecido no ano anterior, depois de uma discussão que nós tivemos por causa de um garoto que queria sair comigo no dia do ensaio da banda. No final, é claro, Dougie ganhou e eu não saí com o garoto.
Eu já falei que meus amigos são muito insistentes e que na maioria das vezes eles me vencem pelo cansaço?
Eu dei um beijo na bochecha de Dougie e perguntei:
– Promete que me desculpa?
– Prometo. Agora vamos que a aula já deve estar começando.
– Dougie?
– O quê? – ele perguntou.
– Vai ter ensaio hoje?
Ele riu.
– Não, mas...
– Mas o quê, garoto?
– Mas você está oficialmente seqüestrada! – ele falou, sorrindo.
Eu ri, e lembrei a ele que tinha treino de futebol.
– Ah, não se preocupe. Não vai custar muito te esperar quando vão haver várias garotas com pernas malhadas correndo e... AI!
Eu dei um tapinha na cabeça dele.
– Você não vai ficar olhando para as pernas das minhas colegas, Dougie! – eu falei, rindo.
Ele me olhou com aquela cara de “tudo bem, vou deixar que ela pense isso” e concordou:
– Tudo bem, mamãe.
Quando nós entramos no auditório, o professor, inacreditavelmente, ainda não tinha chegado. Nós nos aproximamos dos nossos amigos e eles nos olharam sem surpresa.
– Se resolveram, né? – perguntou Harry, quando nos viu abraçados.
– É – eu respondi.
– Já não era sem tempo! Achei que vocês iam quebrar o recorde do ano passado, mas só durou três horas e cinqüenta e dois minutos – falou , revirando os olhos.
– É que eu não consigo ficar longe desse nanico por muito tempo – eu disse carinhosamente, apertando as bochechas de Dougie, que riu da minha observação.
– Pelo amor de Deus, , perto de você eu sou o gigante daquela história do João e o Pé de Feijão!
Eu franzi a testa para ele, lhe enviando um olhar do tipo não-estou-nem-aí-para-sua-consideração.
Harry se manifestou:
– Loirinha, agora você vem aqui para me dar um abraço, porque graças ao nanico aí, eu mal falei com você de manhã cedo! – ele reclamou.
Eu gargalhei.
– Harry, por acaso quando eu acordei você não estava exatamente ao meu lado? – eu falei, sem mencionar que nós tínhamos dormido juntos (leia bem, DORMIDO) e que tínhamos acordado abraçados, sendo separados por Dougie.
– É verdade, eu tive que separar os dois na base da almofadada - entregou Dougie.
Obrigada, Dougie. Realmente, muito obrigada.
Quando Dougie disse isso, olhei com o canto do olho e de relance para Danny, que estava calado, curtindo sua dor de cabeça.
A reação de Danny foi se engasgar com a própria saliva e começar a tossir desesperadamente, fazendo parecer que ele estava tendo um ataque.
Tom deu um tapa nas costas de Danny, que ficou vermelho mas parou de tossir.
– Você está bem, Danny? – perguntei, assustada com a reação dele.
– Estou ótimo – respondeu ele, parecendo estar longe do estado “ótimo”.
– Certo, então – eu falei, insegura. Danny me olhou com aqueles olhos azuis penetrantes, e eu perdi o fôlego. Estava levemente irritada por não conseguir ler aqueles olhos, e mais irritada ainda por me intimidar com eles. Eu simplesmente não estava mais me reconhecendo, eu simplesmente não sabia mais o que fazer na presença de Danny. Isso nunca tinha sido problema para mim antes, eu sempre tratei Danny normalmente, mesmo gostando dele. Mas desde o dia que eu descobri que Danny também gostava de mim, eu tenho perdido a noção das coisas: estava tratando Danny mal, estava magoando-o e estava me magoando por magoá-lo. Que confusão.
O professor finalmente chegou na sala de aula e eu finalmente pude desconectar meus olhos dos de Danny, o que provavelmente foi a salvação da minha vida. Tinha certeza de que se eu continuasse a olhar naqueles olhos, eu ia ter uma embolia.
E isso não seria nada legal.
Eu sorri para os meninos e andei até minha cadeira. Vi , logo atrás de mim, e imediatamente lembrei dos meus problemas com minha irmã. Afinal, nós estávamos ou não estávamos nos falando?
Você sabe, eu reclamo muito de , mas ela é minha irmã e eu a amo por isso. Não dá para odiar uma pessoa que tem genes idênticos aos seus e que te conhece desde que você nasceu, exatos dois minutos e treze segundos depois dela.
Acho tão engraçado o fato de se achar mais velha do que eu só por causa dessa mínima diferença de horários. Desde que nós aprendemos a falar, vive me lembrando que ela é a mais velha. O que no início me deixava chateada, mas depois se tornou quase uma piada para mim.
Peguei minha flauta e sentei na cadeira, senti pegando a flauta dela.
E, de repente, escutei uma voz no meu ouvido: “Você está pronta?”
E sorri para mim mesma, pensando que talvez nem tudo estivesse perdido.
Capítulo 22
Como sempre, saí da aula de música nas nuvens. Eu nunca entendi o poder que a música tem sobre mim, tudo o que sei é que toda vez que toco flauta, esqueço dos meus problemas. Às vezes eu penso que a música controla minha vida: toda vez que escuto uma música triste, me identifico com a letra; quando escuto uma música alegre, fico imediatamente mais feliz; quanto toco flauta, me entrego totalmente à música; quando escuto os meninos tocarem, sinto orgulho e assim por diante.
Não estava com muita fome, mas mesmo assim acompanhei e os meninos na hora do almoço. Resolvi sentar para esperar eles comprarem a comida.
Estava sozinha na mesa, olhando para o nada, quando Maya apareceu ao meu lado. Ela me viu sozinha e me mandou um olhar desdenhoso, e eu tive que respirar bastante para me controlar. Ela se aproximou e sussurrou, maldosamente:
– Parece que a vadiazinha loira perdeu seus amigos.
Eu saí do controle. Eu juro que não costumo fazer esse tipo de coisa. Nunca gostei de brigas, muito menos das que envolvessem agressão física, mas algo se apoderou de mim. Quando dei por mim, eu e já estávamos atracadas no meio do refeitório, ela puxando meus cabelos e eu arranhando cada parte do corpo dela que conseguia alcançar com minhas unhas afiadas.
Ei, eu sei que esse foi um comportamento selvagem e totalmente fora do século vinte e um. Mas, mesmo assim, tudo o que eu queria era machucar . Pô, ela tinha me chamado de vadia!
E, bom, a coisa que eu mais tenho certeza no mundo é que eu NÃO sou uma vadia.
A única coisa que impediu eu e de nos matarmos foi a intervenção dos garotos. Eu mal percebi quando Danny se aproximou por trás de mim e me tirou de perto de , enquanto eu fazia de tudo para me soltar de Danny e voltar a bater no rosto da garota.
Mas eu já mencionei que os garotos são bem mais fortes que eu?
E foi assim que eu acabei com Danny me segurando pela cintura, me puxando para trás, e estava sendo segurada por Harry, que prendia seus pulsos firmemente.
Acho que preferiria se Harry a segurasse pela cintura, como Danny estava fazendo comigo.
– Danny, me solta! – eu gritava, nem me importando com o fato de que toda a Isaac Newton estava me observando.
– Fica quieta, ! – ele mandou, e quando eu não parei de me debater, ele pegou no colo e me tirou de lá.
E, lamentavelmente, devo admitir que a tática dele de me pegar no colo (você sabe, daquele jeito que se pega uma noiva) funcionou totalmente.
Quando eu percebi, já estava debaixo da minha macieira favorita e Danny estava ao meu lado, me lançando olhares de reprovação.
– , o que você pensou que estava fazendo? – ele me perguntou, como se estivesse preocupado com minha sanidade.
– Batendo em Maya até uma de nós morrer – eu respondi, com muita raiva.
Ele me olhou com irritação, aqueles olhos azuis frios como pedra.
– Por que diabos você queria bater nela?
– Porque – eu respondi, mais irritada do que ele – ela me chamou de vadia!
Eu fiquei observando a reação dele. A expressão dele mudou de irritada para preocupada, e de volta para irritada.
– Ela te chamou de quê? – ele perguntou, escandalizado.
Eu ri sarcasticamente.
– Vadia. Se você não sabe, significa prostituta, fácil, piranha, pessoa que ganha dinheiro usando seu corpo, garota de programa, brinquedinho sexual...
Ele tapou minha boca com a mão.
– Eu sei o que significa, . Eu... eu só não consigo acreditar que ela te chamou disso!
Ele estava meio desesperado, e eu não entendi o porquê. De repente, do nada, ele me abraçou. Muito, muito forte. E eu... eu não fiz nada para pará-lo. Eu sabia que não era certo abraçar Danny desse jeito, afinal, AINDA confiava em mim, mas eu simplesmente não QUERIA que ele parasse de me abraçar. Eu poderia ficar eternamente daquele jeito; não tinha mais necessidades básicas como comer, dormir e fazer xixi, só precisava de Danny ao meu lado, me abraçando daquela maneira.
Eu enfiei minha cabeça no ombro de Danny, sentindo aquele cheiro maravilhoso. Percebi que a mão dele estava na minha cintura e me arrepiei com aquela sensação. Sentia os lábios dele tocarem meus cabelos fragilmente, e senti a respiração dele ficar cada vez mais pesada enquanto inalava o cheiro do meu cabelo.
Os lábios de Danny foram descendo gentilmente, dos meus cabelos para minha testa, percorrendo meu nariz e deslizando para minha bochecha. Eu fechei os olhos, tentando guardar o máximo da sensação dos lábios de Danny, que dava pequenos beijos na minha bochecha direita.
E foi aí que ele beijou meus lábios suavemente.
Deus, como aqueles lábios eram macios! Ele não aplicava muita força, o beijo dele era muito apaixonado. A língua de Danny acariciava a minha com muito cuidado, como se a minha língua fosse quebrável ou algo do gênero. Eu não me contive e o beijei de volta, sem pensar nas conseqüências dos meus atos.
Bom, como eu havia dito antes, eu não tinha muita experiência com garotos ou beijos: na verdade, Danny era o terceiro garoto que eu tinha beijado. Mesmo assim, pude perceber que havia algo diferente no beijo de Danny em comparação ao beijo dos outros caras com quem havia ficado. Eu simplesmente não sentia minhas pernas, elas estavam moles e débeis. Meu estômago estava embrulhado, de um jeito bom. Eu me sentia como se minha vida dependesse dos lábios de Danny, como se eles fossem meu oxigênio.
Mas, de repente, eu lembrei de dizendo que podia confiar em mim, e me afastei dele, empurrando-o com as mãos.
Ele me olhou, confuso e magoado ao mesmo tempo. Como sempre, ver Danny magoado me deprimia, e eu senti minha expressão murchar.
– Desculpa – ele pediu, baixando os olhos. – Não pude evitar.
Eu quase chorei com aquilo. Aliás, eu andava chorando por tudo, e isso me deixava completamente irritada.
– Tudo bem, Danny – eu respondi, controlando firmemente o choro e levando a melhor sobre ele. O choro, eu quero dizer. – A culpa não é só sua.
Cara, aquilo era a maior mentira. É claro que a culpa era toda dele! Se ele não fosse tão lindo, tão legal, tão perfeito... sim, a culpa era dele.
Se bem que ele não tinha culpa de eu ser uma fraca que sucumbia ao jeito dele. Então... bom, a culpa era toda minha.
– O que você quer dizer? – ele perguntou, ainda encarando o chão.
Pô, ele tinha que me pedir para eu ser mais específica? Eu não podia ser mais específica!
– Olha, vamos fingir que isso não aconteceu, certo? – eu pedi, evitando olhar nos olhos azuis dele. Porque era óbvio que se eu olhasse naqueles olhos, eu ia perder o controle de mim mesma.
Danny procurou os meus olhos e me obrigou a encará-lo.
Erro meu.
Danny se aproximou, me pegou meu braço e murmurou:
– Não. Não, , não dá para fingir que nada aconteceu. , olhe para mim! – ele exigiu, enquanto meus olhos tentavam fugir dos olhos dele.
Eu olhei.
Erro meu.
– , eu gosto muito de você.
Eu prendi a respiração. Certo, era a segunda vez no dia que ele falava isso (considerando que a primeira vez tinha sido nas primeiras horas da madrugada), e o pior é que dessa vez não havia escapatória: ele estava sóbrio.
Em que situação eu fui me meter?
Resolvi bancar a indiferente.
– Eu sei, Danny, eu também gosto muito de você – eu tentei sair da situação da mesma forma que tinha saído da vez anterior.
Ele riu, nervoso.
– Não, você não está entendendo – ele disse, e ficou sério. – Eu te amo, de verdade.
AI, QUE DROGA!
POR QUE AQUELES OLHOS TINHAM QUE SER TÃO IMPORTANTES PARA MIM?
Eu inspirei várias vezes, tentando recuperar o ar que me escapava. Lembra que eu falei que não precisava de nada além de Danny? Esquece. EU PRECISAVA DE OXIGÊNIO!
Ficamos em silêncio por um bom tempo.
– , essa seria uma hora perfeita para você falar alguma coisa – Danny falou, olhando para os pés e ficando muito, muito vermelho. Ele estava claramente nervoso, e eu achei isso muito fofo.
– Ah, Danny, o que você quer que eu diga? – eu perguntei, desesperada.
– Que tal que você me ama também? – ele sugeriu. Estava sarcástico, mas eu percebi que havia uma pontinha de esperança na sua voz.
– Certo, Danny, eu também te amo, está feliz agora?
– Ah, , fala sério... espere, O QUE VOCÊ DISSE? – ele perguntou, com os olhos arregalados.
– Okay, Danny, não torne essa situação mais difícil do que ela é. E, sim, foi isso mesmo, eu disse que eu também te amo – eu confirmei, e o sorriso dele foi de orelha a orelha. Os olhos dele brilhavam mais do que qualquer pedra preciosa. – Danny, não é de hoje que eu sinto isso por você, mas...
– Sempre tem que haver um “mas”! – ele retrucou, indignado, dando um soco de irritação na minha macieira favorita. Era impressionante: o brilho de seus olhos desaparecera como se nunca tivesse existido, um fogo de artifício de curta duração que espoucara e morrera, deixando tudo escuro, molhado e frio. – Eu sabia! Estava bom demais para ser verdade.
– Olha, Danny, pára e me escuta. Isso que aconteceu hoje não pode acontecer mais, certo?
Ele pareceu confuso. Também, pudera.
– Por quê? – ele perguntou, sem entender nada. – Você não acabou de falar que também gosta de mim?
Eu confirmei com a cabeça.
– Então, qual é o problema? – ele desafiou.
– Danny, você sabe muito bem que a ainda te ama.
– E? O que a tem a ver com isso?
– Danny, a confia em mim! Ela me conta todos os seus problemas, tudo o que ela pensa E tudo o que vocês faziam quando ainda eram namorados, tudo!
Pronto. Desabafei. Cara, eu juro que eu não queria contar tudo isso para Danny, eu apenas não consegui controlar minha boca. Tudo o que eu queria era que eu não tivesse falado para Danny que gostava dele. Melhor, que Danny não tivesse falado que gostava de mim. MELHOR AINDA, que ele não tivesse me beijado.
Mentira. Eu adorei o fato de ele ter me beijado.
– E daí? – perguntou ele. – Você duas nem ao menos são amigas!
– Claro que somos! confiaria a alma em mim!
– E você? Confiaria a alma nela?
– Eu... – fiquei pensando. Será que eu confiava em tanto quanto ela confiava em mim? – Isso não importa, Danny!
Ele explodiu de vez; foi a primeira vez que ele gritou comigo.
– CLARO QUE IMPORTA! VOCÊ ESTÁ DIZENDO QUE NÓS NÃO PODEMOS FICAR JUNTOS POR CAUSA DA MINHA EX-NAMORADA, QUE POR ACASO SÓ FOI MINHA NAMORADA PARA EU TENTAR ESQUECER VOCÊ!
As lágrimas caíram dos meus olhos sem a minha autorização. Obrigada, Danny. Obrigada, muito obrigada por me fazer chorar por você na sua frente. Era absolutamente tudo o que eu queria.
Não.
– Danny, essa discussão não está nos levando a lugar nenhum – eu falei, passando a mão no rosto para secar as lágrimas não-autorizadas. – É melhor eu ir embora.
Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas eu virei de costas e fui embora. Escutei o barulho de mais um soco na macieira, mas não virei para ver o que tinha acontecido.
Tudo o que eu precisava era sair dali.
Capítulo 23
– , o que aconteceu?
Estava na hora do meu treino de futebol, e eu estava andando com passos firmes e rápidos, até que esbarrei em Tom.
– Nada, Tom – respondi, dando um sorriso bastante forçado, que eu sabia que Tom não ia engolir. – Só estou com pressa, é hora do treino e depois eu vou para casa.
– Ei, Dougie me disse que tinha seqüestrado você – Tom disse, andando atrás de mim. – Ele me falou que nós íamos ver seu jogo e depois íamos para a casa de Harry.
Eu suspirei. Agora mesmo é que eu não ia aceitar ir para a casa de Harry, não tendo que ficar no mesmo ambiente que Danny e fingindo que nada tinha acontecido.
Eu estava completamente arrasada. Tinha perdido meu melhor amigo e ainda estava sendo difícil processar essa informação.
Tinha passado toda a aula de português pensando na cena debaixo da macieira e estava ficando cada vez mais magoada. Quero dizer, Danny poderia ter sido mais compreensivo, não?
Mas não. Ele preferiu gritar comigo. O que mais me irritava era não poder saber o que Danny estava pensando. Ah, como eu queria saber Legilimência.
– Tom, sinto muito, mas avise aos outros que eu não vou, certo?
Ele me olhou como se eu fosse retardada.
– , você não pode recusar um seqüestro. Essa regra foi você que inventou.
Eu não podia tratar Tom mal. Eu precisava dele. Precisava dos meus amigos. Precisava das coisas como elas eram antes.
Por isso, tratei Tom com a maior gentileza do mundo.
– Você está certo, Tom, mas hoje eu realmente não vou. É sério. Por favor, avise a Dougie.
Ele suspirou, aceitando a derrota.
– Tudo bem, , mas cada dia eu entendo menos você.
Eu tive que soltar um risinho.
– Ah, Tom, agradeça a Deus por isso. Se você entendesse, nós seríamos dois no manicômio. Tchau, Tom – eu me despedi dando um beijinho na covinha dele.
Saí correndo para o estádio antes que Tom me parasse para falar mais alguma coisa.
O treino foi péssimo. Eu estava totalmente desconcentrada e não fiz nenhum gol. Errava passes, chutava mal, caía no chão o tempo todo. Na metade do segundo tempo, a treinadora me tirou do jogo.
– Mackenzie, o que aconteceu?
Eu olhei para minhas chuteiras.
– Nada, treinadora.
– Como nada? , é sério, só pode ter acontecido alguma coisa para você estar jogando desse jeito. Aquela bola que a Angelina passou para você era imperdível, e mesmo assim você a deixou passar! Você joga melhor que isso, .
Legal. Além de tudo, levo um esporro da treinadora de futebol.
– , pode ir para o vestiário. E o que quer que tenha acontecido, resolva. O Harpya precisa de você, garota.
Fui tomar banho, cabisbaixa. A última coisa que precisava era jogar mal, e adivinha? Lei de Murphy tinha entrado em ação. Andei até meu armário do vestiário e peguei a roupa mais sombria que tinha lá: uma saia preta, uma blusa preta da Hurley e meu All Star vermelho de cano curto, que contrastava com todo o resto do conjunto. Coloquei minha faixa de cabelo preta e minha munhequeira preta com guitarrinhas brancas desenhadas.
Argh, guitarras!
Peguei minha mochila e saí do vestiário antes que as outras meninas entrassem. Não queria conversar com ninguém, MUITO MENOS com .
Fui andando para casa e parei numa sorveteria que havia perto da minha rua. Eu sabia que a sorveteria vendia açaí (a melhor parte da vinda para o Brasil), e entrei logo para comprar a maior tigela. Sentei numa mesinha e ia dar a primeira colherada quando meu celular tocou.
O visor mostrava uma foto em que eu estava pendurada nas costas de , e ela estava estalando um beijo na minha bochecha esquerda. Aquela foto era linda, o sol tinha definitivamente ajudado, e as árvores ao fundo também.
– Fala, .
– , onde você está? O que você está fazendo?
– Tomando açaí aqui na sorveteria perto de casa.
– Você pode vir para minha casa? – ela pediu.
– Para quê? – eu perguntei, desconfiada.
– E por acaso eu preciso de motivos para querer passar algum tempo de qualidade com minha melhor amiga? Venha, meus pais viajaram a trabalho e Dayse está de férias.
Dayse é a empregada de , mas se comporta como se fosse mãe dela. Como os pais de trabalham muito, Dayse é quem sempre cuidou de , desde que tinha cinco anos. É mais ou menos como Tânia é para mim.
– Tá, pode ser, . Apenas me deixe terminar o açaí e já estou indo para aí. Ih, rimou! – eu exclamei, que nem uma idiota. riu. – Que seja, chego aí em quinze minutos.
– Quinze minutos para tomar um açaí?
– É que eu comprei a maior tigela. Agora me deixa comer. Beijo.
– Beijo – ela respondeu e desligou o telefone.
Como previsto, em quinze minutos eu estava tocando a campainha da casa de . Eu escutei o barulho dos passos dela descendo as escadas. Ela abriu a porta para mim, ofegante, e soltou uma gargalhada quando me viu.
– O que foi? – perguntei, confusa.
– Sua boca está toda suja por causa do açaí! – ela esclareceu, ainda rindo, e eu ri também.
– Certo, eu preciso usar seu banheiro para escovar os dentes.
– Não antes de tirar uma foto! – ela falou, me puxando para dentro da casa dela e fechando a porta atrás de mim. – Venha – ela mandou, subindo as escadas; eu a segui.
Entramos no quarto de , e ela rapidamente pegou a câmera digital e apontou para mim. Eu fiz careta, mostrando os dentes sujos, e bateu a foto, rindo. Depois eu fui direto para o banheiro escovar os dentes e me livrar dos vestígios de açaí.
Eu demorei uns cinco minutos, a paçoca cismava em grudar nos meus dentes, e quando voltei para o quarto, já estava teclando no computador, conversando com alguém.
– Certo, , como você não me contou isso? – ela perguntou, ultrajada.
– Não contei o quê? – perguntei, sem entender nada.
– Isso – ela disse, e virou o monitor do computador para mim.
E aí eu pude ver.
RatLeg: É, , ISSO MESMO, EU BEIJEI A !
RedHairGirl: Calma, não precisa gritar.
RatLeg: NÃO ESTOU GRITANDO!
RedHairGirl: Claro que está, usar maiúsculas é como gritar quando você está online.
RatLeg: Não estou gritando.
RedHairGirl: Mas me conta, hein? Como isso aconteceu?
RatLeg: Bom, eu estava lá consolando ela por causa de umas coisas que a Maya disse (longa história), e aí a gente estava abraçado e coisa e tal, aí eu não agüentei e beijei a .
RedHairGirl: E ELA?
RatLeg: Ah, depois de me empurrar, me disse que gostava de mim também, mas que não ia ficar comigo por causa da .
RedHairGirl: Ah. É. Ela já tinha mencionado algo do tipo para mim.
RatLeg: Peraí! VC JÁ SABIA QUE A GOSTAVA DE MIM?
RedHairGirl: Ah... SIM?
RatLeg: E COMO VC NÃO ME DISSE ISSO ANTES?
RedHairGirl: me pediu para não te dizer, e eu não disse.
RatLeg: MAS QUE DROGA!
RedHairGirl: Ih, não fica nervosinho não.
RatLeg: EU TENHO VONTADE DE TE MATAR!
RatLeg: ?
RatLeg: , EU JÁ DISSE QUE ODEIO QUANDO VC FAZ ISSO?
RatLeg: ?
RatLeg: ?
RatLeg: CADE VC?
RatLeg: !
RatLeg: log off
– E aí, nada a declarar? – perguntou , quando percebeu que eu já havia terminado de ler o que estava no monitor.
– Hum... não?
– Vamos, , diga logo. O que foi isso?
– Não há nada a dizer. Danny parece que já contou tudo – eu acrescentei com um vestígio de amargura, o que não passou despercebido de .
– Okay, você não ia me contar, né?
Eu olhei para ela, escandalizada. Como assim? Por que ela estava dizendo aquilo? É claro que eu ia contar para ela, somos melhores amigas desde sempre.
– Claro que ia contar! , você não me conhece mais não?
– Estou em dúvida, ! Você tem andado tão distante e estranha!
Eu suspirei. Não podia tirar a razão de , ultimamente eu andava MESMO estranha.
– , desculpa, certo? Eu sei que não tenho sido exatamente a melhor amiga do mundo.
baixou os olhos e falou:
– Tudo bem, . Você tem seus motivos. É só que... Eu sinto falta daquela divertida, engraçada e alegre o tempo todo.
– Eu também sinto – concordei com ela, sentando na beiradinha de sua cama.
Ela sorriu para mim e disse:
– Então vamos fazer um trato: você volta a ser a antiga só por uma tarde, certo?
Eu ri depois dessa.
– Completamente aceito esse trato.
– Então tá. Hoje você não vai mais pensar em problema nenhum, nós vamos ficar rindo e conversando até a te perturbar, querendo companhia.
Minha expressão murchou.
– Ah, , acho que você nem vai precisar se preocupar com isso. Não falo com desde domingo. A não ser que você considere o “Você está pronta?” que ela me disse hoje na aula de música.
É horrível admitir, mas eu estava sentindo falta da minha irmã gêmea patricinha, chata e fútil. Sentia falta das reclamações dela e das vezes que ela batia na porta do meu quarto porque estava entediada. Sentia falta do complexo de superioridade que tinha, sempre achando que era a irmã mais velha só por nascer dois minutos e treze segundos antes de mim.
percebeu que eu tinha ficado triste e logo tentou me animar:
– Ah, , você mala acabou de prometer que ia ficar alegre e já está triste de novo? – ela brincou.
Eu ri e balancei a cabeça, como se quisesse afastar os pensamentos.
– Você está certa como sempre, ruiva. Vamos falar só de coisas legais, e vamos nos divertir e rir muito!
Ela me olhou com aquele ar de quem vai aprontar alguma coisa.
– Rir muito? Você que pediu! – ela disse, se jogando sobre mim e fazendo cócegas na minha barriga, só parando quando percebeu que eu ia morrer por falta de oxigênio.
Nós resolvemos ver o filme “O Filho do Chuck”, porque esse é o melhor filme quando se trata de morrer de rir. Não sei quem foi que o pôs na categoria terror, porque o filme é hilário!
E quando estava no meio do filme, a campainha tocou. Eu pausei o filme para que pudesse atender, afinal, ela era a única moradora da casa. Mas em vez de descer as escadas correndo para abrir a porta, ela simplesmente foi até a sacada para ver quem era. Eu nunca poderia fazer isso na minha casa, uma vez que a sacada do quarto de dá para a frente da casa, mas a sacada do meu quarto dá de frente para o jardim e a piscina. Não que seja uma vista ruim, pelo contrário, é uma vista ótima, mas eu bem que gostaria de ficar observando as pessoas passarem ou coisa assim.
De qualquer modo, gritou para as pessoas que estavam na rua:
– Ei, o que vocês estão fazendo aqui?
Eu percebi imediatamente quem estava lá embaixo. E corri para perto de para confirmar minhas suspeitas.
E eu estava certa.
– Como assim, o que estamos fazendo aqui? , abre logo essa porta! – Dougie gritou, e eu ri. Dougie olhou para mim. – Oi, !
olhou para mim, meio que pedindo minha permissão, e eu concordei com a cabeça. Ela saiu correndo do quarto para atendê-los, e eu fiquei observando os meninos pela sacada.
Harry estava contando alguma piada para Tom, fazendo-o gargalhar. Sorri, porque pude ver a famosa covinha. Dougie estava escutando música, provavelmente Blink, e Danny estava olhando mim. Quando nossos olhares se cruzaram, eu dei um sorrisinho tímido e acenei com a mão. Ele abriu um largo sorriso, nada tímido, mas não acenou de volta.
Eu vi quando os meninos entraram e saí da varanda do quarto de . Desci as escadas correndo, por muitíssimo pouco não caindo. Quando entrei na sala, os meninos abriram sorrisos idênticos e falaram, em uníssono:
– Oi, !
Já comentei que às vezes eles parecem irmãos quadrigêmeos? Eles podem ser mais parecidos do que eu e .
Não fisicamente, é claro. Mas você entendeu o que eu quis dizer.
– Oi, meninos! – eu respondi, com um sorriso tão largo quanto o deles. – O que traz a ilustre presença de vocês à nossa humilde companhia?
– Queríamos ver vocês – Harry respondeu.
– Harry queria ver vocês – Dougie consertou, e eu o olhei com uma expressão confusa. – Eu só vim aqui para te matar, .
Eu fiz uma expressão escandalizada.
– Matar? Eu? Por quê? Como?
Todos riram após essas minhas frases muito bem articuladas.
– Bom, para começar, eu vou te matar porque você me deu o maior bolo hoje – ele começou, mas eu o interrompi.
– Mas eu pedi para Tom te avisar! – eu exclamei, olhando para Tom, que se defendeu:
– Eu avisei, nem olhe para mim.
– E – Dougie continuou – eu vou te matar de uma forma extremamente lenta e dolorosa.
Eu ergui uma sobrancelha, já imaginando o que Dougie ia falar.
– E que forma seria essa?
– Cócegas – ele revelou, confirmando minhas suspeitas. Desculpa se eu sou extremamente esperta, ok?
Mas Dougie não me deu tempo para responder: assim que terminou de pronunciar a palavra, se atirou sobre mim e começou a fazer cócegas na minha barriga e na parte interna do meu joelho. Eu já comentei que esse último é o lugar que eu mais sinto cócegas? É realmente tortuoso.
Eu tentava escapar dos dedos de Dougie, mas acho que já comentei sobre a desvantagem de ter amigos meninos. Dougie, apesar de ser o menor dos quatro, era muito mais forte do que eu. Ele me dominou facilmente, quando eu dei por mim já estava caída no chão, com metade do corpo de Dougie sobre mim, ainda insistindo na tortura enquanto eu não conseguia respirar de tanto rir.
– Ei, vocês dois podem parar com esse agarramento? – pediu , e Dougie parou de fazer cócegas em mim e olhou para ela. Eu fiz o mesmo, e quando meus olhos encontraram os de , ela olhou para Danny. Eu segui seu olhar e vi Danny com uma cara muito emburrada e impaciente. Dougie também deve ter percebido a expressão assustadora de Danny, porque imediatamente ficou de pé, saindo de cima de mim.
Bom, eu me recompus e falei, para quebrar aquele clima péssimo:
– O que vocês querem fazer, meninos? Podemos ver um filme, que tal?
Eles concordaram.
– Vamos ver o quê? – perguntou Tom. Eu tinha certeza que ele já tinha uma sugestão pronta, então respondi:
– Não sei. O que você acha, Tom?
Ele sorriu para mim, mostrando a covinha.
– Podíamos ver “De Volta para o Futuro” – ele sugeriu, com os olhinhos brilhando.
Eu levantei uma sobrancelha, um truque que havia aprendido com Harry.
– De novo, Tom? Pensei que você já estivesse cansado de ver esse filme.
– É mesmo, Tom, esse filme já saturou – concordou Danny, me surpreendendo.
Pelo visto, também havia se surpreendido.
– Como é, Danny? Por quê você aceitou que o nome da banda fosse McFly se já está enjoado do filme?
Todos os meninos riram, e Harry respondeu:
– Ah, , essa é fácil. Danny só aceitou o nome porque no filme aparecem as palavras “D Jones” gravadas num caminhão.
Eu olhei para Danny como se não pudesse acreditar.
– Ei – ele se defendeu –, isso só pode ter sido uma premonição, cara. Obra do destino, obra do destino!
Eu ri junto com todos. Eu estava adorando o fato de Danny estar brincalhão e divertido, o mesmo Danny de sempre. Eu quase tinha esquecido a cena ocorrida debaixo da macieira algum tempo antes.
Ei, não estou mentindo. Eu disse “quase”, certo?
– Mas, hein? – Dougie perguntou. – O que vamos fazer, sem ser assistir “De Volta para o Futuro”?
Eu dei um sorrisinho maléfico.
– Acho que tive uma idéia...
Capítulo 24
– Droga! – berrou, largando o controle. Nós rimos da impaciência dela e ela nos mandou língua, emburrada.
Nós estávamos jogando vídeo-game há uma hora, mas nem todos já haviam passado pelo controle. O jogo era de futebol, e eu estava ansiosa para chegar minha vez. Infelizmente para mim, eu era a última a ter direito a jogar.
– Vem, Tom, é sua vez! – chamou Danny, que tinha acabado de vencer . Na verdade, Danny havia vencido , Harry e Dougie.
Tom gargalhou.
– Você não acredita realmente que eu vou jogar isso, não é, Danny? Você sabe que eu odeio futebol.
Danny girou os olhos, impacientemente. Porém, ele imediatamente deu um sorrisinho maléfico e disse:
– Bom, se o Fletcher não vai jogar, acho que é a vez da .
Eu fiz minha melhor cara de má e peguei o controle.
– E aí, Jones, pronto para ser massacrado? – eu desafiei, sentando ao lado dele no sofá.
De repente, Dougie anunciou, praticamente berrando:
– Pára tudo! , se você perder vai ter que fazer a Dança do Ventre!
– Como é que é? – perguntaram e Danny em uníssono.
Harry e Tom estavam rindo, se lembrando do sábado anterior. Eu ri também.
– Longa história – eu resumi. – Bom, Dougie, se você quer saber, eu ACEITO o desafio, com uma condição.
Dougie me desafiou com seus olhos azuis.
– Qual é? – ele perguntou, quase arrogante.
– Se o Danny perder, Poynter, VOCÊ vai ter que fazer a Dança do Ventre.
Ele pensou um momento e concordou.
– Certo. Tenho certeza que o Danny vai ganhar, de qualquer forma.
– É o que vamos ver – respondi, me virando para a televisão.
Danny se fez de ofendido.
– Qual é, , está duvidando da minha capacidade?
– Não, Danny, eu apenas confio na minha – eu respondi. – Agora, se não for pedir demais, vamos começar a partida.
E nós jogamos. Nós dois jogamos bem. Foi uma disputa acirrada, uma partida apertada. Mas, é claro, tinha que haver um vencedor.
E o vencedor foi Danny.
– O quê?! – eu berrei, indignada. Não dava para acreditar que eu havia perdido para Danny! Cara, eu era atacante do time de futebol, como eu podia PERDER uma partida de futebol VIRTUAL?
Dougie estava exultante.
– Danny, a partir de hoje você é meu maior herói!
Tom também estava comemorando.
– Duuuude, eu te venero, Jones! Graças a você a finalmente vai fazer sua Dança do Ventre!
– Não vou nada! – protestei, já sabendo que estava gastando saliva à toa.
– Claro que vai, ! Trato é trato – falou .
– Cara, até você, ? – eu perguntei, escandalizada.
Ele rolou os olhos.
– Dãh, claro, né, . Eu vou gravar a dança e ainda vou te subornar para não pôr o vídeo no Youtube.
Eu dei língua para ela e cruzei os braços. Harry olhou para mim, divertido, e instigou:
– Vamos, , o que está esperando?
Foi aí que a campainha tocou.
– Vou atender – disse rapidamente, e corri para a porta. Quando a abri, encarei meus próprios olhos.
Não eram meus próprios olhos. Eram os olhos de .
– O que você está fazendo aqui? – perguntei, desconfiada e aliviada ao mesmo tempo. Desconfiada por se dar ao trabalho de vir até a casa de e aliviada porque ela tinha me poupado da vergonha de dançar a tão esperada Dança do Ventre.
– Vim resgatar você – ela respondeu. Eu ainda não sabia o que havia acontecido, mas sabia que havia algo errado. Eu me comuniquei com daquele jeito que apenas irmãos gêmeos conseguem fazer, com o olhar: “Você vai me contar o que aconteceu”.
– Quem é? – perguntou , vindo para perto da porta. – Ah. Oi, . Você quer entrar? – ela ofereceu, dando um pequeno sorriso.
– , vamos para casa – pediu, sem responder à pergunta de .
Eu achei o comportamento de estranho, mas não cedi.
– , vamos fazer o seguinte: fique um pouco conosco, e daqui a pouco eu volto para casa com você – eu negociei, confusa.
– Tudo bem – ela aceitou, entrando na casa de um pouquinho apreensiva. Assim que nós chegamos à sala, viu os meninos e sorriu timidamente.
Como é que é? Desde quando é TÍMIDA?
Eu JURO, eu realmente me assustei depois disso.
– Oi, – falou Harry e ela respondeu acenando com a mão.
Ela também cumprimentou os outros meninos. Eu não pude deixar de sorrir com a expressão que os meninos faziam, quase assustados. Era engraçado pensar que eles tinham medo da minha irmã. Ou, mais provavelmente, da popularidade dela.
estava tímida, mas ainda era social.
– E aí, meninos? O que vocês estavam fazendo?
Harry respondeu primeiro:
– Jogando vídeo-game. Quer jogar com a gente?
Ela olhou desconfiada para o controle que Harry estendia para ela.
– É jogo de quê? – ela perguntou, ainda encarando o controle.
– Futebol – eu respondi, pensando que isso ia fazer sair correndo ou coisa assim.
Ela fez cara de decepção.
– Ah. Eu não sei jogar – ela respondeu, dando de ombros.
– A gente te ensina – ofereceu Danny, parecendo inseguro.
abriu um sorriso e os olhos dela brilharam.
– Eu quero aprender sim! – ela exclamou e sentou-se no sofá, ao lado de Danny.
Foi aí que Harry se pronunciou.
– Danny, vaza daí – ele mandou.
– Por quê? – perguntou Danny, indignado.
– Porque a não sabe jogar ainda, e você não sabe ensinar nada – Harry respondeu, como se fosse óbvio. Na verdade, Harry estava sendo bem fofo, porque a verdade oculta atrás daquelas palavras era: se Danny jogasse contra , a garota ia ser massacrada e ia ficar traumatizada.
Danny captou a mensagem, para minha surpresa. Ele não costumava captar mensagens rapidamente. Ele geralmente levava tanto tempo para entender as coisas...
Mas isso foi só um comentário.
– Tudo bem – ele respondeu, dando de ombros e entregando o controle a Harry. – Você ensina, então.
Nós ficamos vendo Harry ensinar a como jogar, depois eles começaram a partida. Foi uma surpresa para todos quando a partida acabou e a vencedora foi .
– Êêêêêêê! – gritou .
– Parabéns, ! – gritou Tom.
– Sorte de principiante – resmungou Harry.
– Eu ganhei! – berrou e começou a pular no sofá.
Aquilo era legal de se observar. estava se divertindo como nunca, parecia até um de nós. A prova disso foi quando ela sentou e abraçou Harry.
– Não fique triste, Judd! Você sabe que o aprendiz sempre supera o mestre! – ela falou para ele, rindo.
De repente, Dougie gritou:
– Gente, eu tive uma idéia!
Ninguém deu atenção a ele, e ele fez uma carinha de dar pena.
– Estou escutando, Dougie – eu respondi, e ele sorriu para mim. Chegou mais perto e falou baixinho, para somente eu ouvir.
– Eu ia sugerir que nós tirássemos fotos, mas ninguém me escutou. Então vamos tirar fotos sem eles saberem? – ele adicionou, com um sorrisinho maléfico no rosto.
Eu considerei a idéia. Ia ser muito legal de fotos de como uma pessoa normal em vez daquelas fotos de patricinha que tirava com Bia e Carol.
– Tá, vamos pegar a câmera – eu sugeri e, sem que ninguém percebesse, Dougie e eu subimos para o quarto de , com o objetivo de pegar a câmera dela.
Vasculhamos o quarto dela e demoramos uns cinco minutos para encontrar a câmera.
– Dougie, sua blusa está toda amassada! – eu ri.
– É porque eu tentei achar a câmera embaixo da cama – ele justificou.
– Por que diabos você achou que a câmera estava debaixo da cama? Agora você está todo amarrotado!
– Não seja por isso – ele respondeu e me abraçou forte, amassando minha blusa preta favorita.
Eu dei um tapa no braço dele, mas não estava chateada de verdade.
Nós dois ficamos uns cinco minutos tirando fotos no quarto de , e depois resolvemos descer. Ainda estávamos rindo da última foto, onde Dougie me obrigou a fazer pose de “Homem-Aranha” com ele.
Quando estávamos no meio da escada, reparamos que todos estavam olhando para a gente. Mas cada um olhava de um modo diferente. Os olhos de transbordavam interesse e curiosidade. Harry parecia desconfiado, mantinha uma das sobrancelhas erguidas. me mandava olhares de reprovação, Tom era a própria imagem da malícia e Danny parecia estar tendo uma síncope.
– O que vocês dois estavam fazendo lá em cima? – perguntou Harry, de um jeito mandão.
– E por quê os dois estão todos amarrotados? – questionou Tom maldosamente.
Eu rolei os olhos, e Dougie respondeu por mim.
– Não podemos contar a vocês – ele respondeu, fazendo cara de criança que aprontou alguma coisa.
– Por que não? – perguntou Danny. Eu disse que ele estava tendo uma síncope? Acho que não. Taquicardia é mais provável.
– Porque – eu respondi – é uma surpresa.
A câmera estava bem escondida nas mãos de Dougie. É por isso que eu amo a tecnologia. Obrigada por os aparelhos eletrônicos estarem sendo cada vez menores.
Eles pararam com as perguntas depois da minha resposta, mas eu ainda pude ver a insatisfação no olhar de cada um com a falta de respostas.
Nós ficamos jogando por mais uma hora, mas eu e Dougie nem pegamos no controle. Ficamos tirando várias fotos, algumas delas realmente boas, como por exemplo uma de Harry arremessando uma almofada na cara de Tom, uma de abraçando Danny quando venceu , uma de pulando que nem uma retardada em cima de Tom quando venceu Harry e uma de Danny exultante quando venceu .
Depois que eu tirei a última, Dougie chegou atrás de mim e olhou por cima do meu ombro para o visor da câmera.
– As fotos ficaram boas – ele comentou.
– É – eu concordei.
– Vamos mostrá-las para os outros?
Eu concordei de novo e fui mostrar as fotos. Todos gostaram delas também, e riram quando nós contamos que essa era a surpresa, o porquê de Dougie e eu termos sumido anteriormente.
Eu subi até o quarto de para imprimir as fotos, afinal, queria pôr algumas delas no meu mural assim que chegasse em casa. Estava lá, super concentrada em pôr o papel de fotografia na impressora, e demorei para perceber que Danny estava atrás de mim.
– Sabe, essas fotos não ficaram tão boas assim.
A voz dele me deixou arrepiada, mas eu me controlei.
Virei para encará-lo.
– E por que não, Danny?
Ele me olhou como se fosse óbvio.
– Você não aparece em nenhuma delas – ele deu de ombros.
Eu fiquei vermelha, mas logo me recompus. Peguei uma das fotos que tinha tirado com Dougie, na qual Dougie estava me dando um beijo na bochecha e mostrei para Danny.
– Que tal essa? Eu apareço nessa foto.
Ele franziu a testa.
– Não.
– Como não?
– Apenas não, .
– Mas por quêêêêê?
– Porque – ele explicou – esse cara aí da foto não sou eu, e eu estou com ciúmes de você recebendo um beijo dele.
Eu caí na gargalhada.
– Ciúmes do Dougie, Danny? Ah, poupe-me!
Ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas foi interrompido pelo grito de que veio do primeiro andar.
– ! Desce logo, vamos para casa!
Eu peguei as fotos, minha mochila e me virei para a porta, andando em direção a ela e me despedindo de Danny sem olhar para ele.
– Tchau, Danny – eu falei, acenando com a mão.
Mas é claro que a minha saída estratégica foi impedida pela mão de Danny, que agarrou meu braço antes que eu pudesse fugir. Ele sorriu meu sorriso favorito, aquele misterioso, e falou:
– Ei, . Os meninos podem até ter esquecido, mas você ainda está me devendo uma Dança do Ventre.
Eu nem respondi, apenas fiz uma cara debochada e desci as escadas.
Capítulo 25
– Deus, , o que foi aquilo?
Eu estava deitada na cama de enquanto ela copiava uma das fotos que eu tinha tirado para colocar no mural dela. No mural do quarto de , havia várias fotos de com Alexandre, de com Bia e Carol, de só com Bia, de só com Carol, de com O Idiota, e tinha até mesmo uma foto comigo. Agora ela estava adicionando uma foto com ela abraçando Danny e Harry, depois de vencer outra partida de vídeo-game.
– Aquilo o quê? – ela perguntou, distraída.
Eu sentei para encará-la melhor.
– Aquilo, , foi você jogando vídeo-game e ganhando de Harry.
Ela sorriu.
– Eu sei! Foi demais! Você viu como o Harry ficou engraçado com aquela cara de decepção?
– Ficou mesmo – eu concordei.
– Ele é muito fofo.
– Eu sei, meus amigos todos são demais!
sentou ao meu lado.
– Você está certa. Sabe, eles são realmente legais.
Eu confirmei com a cabeça.
– , é impressão minha ou você realmente se divertiu hoje?
Ela riu.
– É, hoje foi legal.
Escutei um barulho de risadas do lado de fora da casa. Você sabe, para nós escutarmos do quarto de , as risadas deviam ser bem altas. E eu só conhecia um grupo de pessoas que risse tão alto e com tanta freqüência assim.
Pulei da cama de , quase caindo no chão, e fui até a sacada. Não foi surpreendente ver meus quatro meninos andando e falando bobagens. veio logo atrás de mim e sorriu ao ver a cena. Dougie tentava pular nas costas de Danny, sem muito sucesso, enquanto Harry falava alguma idiotice para Tom, que ria escandalosamente.
– Ei! – eu gritei, e eles olharam para mim, sorrindo. – O que vocês estão fazendo na MINHA rua?
– Ow, , a rua não é só sua não! – gritou Harry de volta.
– Não, é minha também! – gritou de volta.
– Como quiser, mademoiselle! – gritou Tom, fazendo uma reverência.
– Isso não é justo! – eu protestei. – É porque ela é loira?
– Você também é loira, – lembrou Dougie.
– É porque ela tem olhos azuis?
– Você também tem olhos azuis, – me lembrou Danny.
– Ah, eu desisto!
Eles riram e acenaram com a mão, e nós acenamos de volta.
Eu e conversamos por mais algum tempo e depois eu fui dormir, estava cansada.
Sonhei a noite toda com a macieira. Droga, Danny realmente tinha mexido comigo mais ainda, se é que isso era possível.
Acordei com me cutucando.
– Ei, , acorda!
Ela puxou as cortinas e a claridade invadiu o quarto, me deixando cega por um momento.
– O que foi, ?
– Vai tomar banho e se arrumar logo. Papai hoje vai nos levar à escola.
Eu fiz o que ela tinha mandado, e logo já estava pronta. Fui tomar café-da-manhã, para variar, e com a carona de papai, eu, e chegamos na escola adiantadas.
saiu correndo para falar com Bia e Carol, e eu e fomos andando vagarosamente para a sala de aula, passeando pelos corredores. Mas, de repente, minha visão foi bloqueada por mãos que taparam meus olhos.
– Okay, seja lá quem for o idiota, tire as mãos do meu rosto imediatamente – eu falei, arrogante.
Ao meu lado, eu escutei perguntar:
– Harry, é você?
Escutei a risada de Harry. Bom, isso significava uma redução a três possibilidades no meu mistério quem-tapou-meus-olhos: Tom, Danny ou Dougie.
Foi aí que tive uma idéia.
– Gato mia! – eu disse.
Ha, ha. Não tinha jeito de eles saírem dessa.
– Miau – eu escutei Dougie.
Mas não era Dougie, eu sentia. A voz de Dougie estava mais distante.
– Danny – eu disse, com certeza.
Minha visão foi desobstruída na hora.
– Droga, , como você adivinhou? Não fui eu que miei!
Eu ri.
– Por isso mesmo, Danny. Se fosse realmente Dougie que estivesse tapando meus olhos, a voz dele estaria mais próxima.
– Droga – ele resmungou.
Eu o abracei com força, e pude vê-lo sorrir. Sabe, eu estava bastante confusa. Ao mesmo tempo em que eu tentava tratá-lo com indiferença, não resistia a abraços, sorrisos e brincadeiras. Ao mesmo tempo em que eu tentava não dar a ele esperanças, eu me enganava e dava esperanças a mim mesma.
Eu era uma pessoa BURRA, isso sim.
Pergunta: o quão insuportável aquilo poderia ser? E o quão desejável Danny podia ser?
Soltei Danny para poder falar com os outros meninos. Dei um beijo no rosto de Dougie, mordi a covinha de Tom (quantas garotas não dariam a vida para fazer isso?) e pulei em cima de Harry.
Não havia muito tempo para papear, a nossa aula já estava começando. Eu e fomos para nossa sala, e suponho que os meninos também foram para a sala deles.
Será?
Bom, em todo o caso, a aula foi chata como sempre, e eu estava viajando como sempre. Como sempre não, eu costumava ser uma aluna aplicada antes de a minha cabeça ficar completamente ocupada com Danny Jones.
Mas sabe, realmente teve uma novidade que me tirou do meu torpor.
– Bom, meninos e meninas, acho que o que eu vou falar para vocês agora vai interessá-los mais que minha aula sobre o tecido adiposo.
Definitivamente.
– Nosso colégio – ele continuou – está organizando uma viagem para o próximo feriadão da semana que vem. Como vocês provavelmente sabem, o feriado vai desde quarta-feira até o domingo, e esse também será nosso tempo de viagem.
ergueu a mão, pedindo autorização para falar.
– Sim, ?
– Professor, para onde exatamente nós vamos viajar mesmo?
Ele deu uma risadinha e continuou a falar.
– Calma, senhorita , eu vou falar sobre isso agora. Vocês vão para um acampamento no interior de São Paulo. Para se inscrever na viagem, é só assinar essa lista e depois depositar o dinheiro na conta do colégio ou pagar a quantia na secretaria.
Eu e só nos olhamos.
Viagem. Acampamento. Eu, , Danny, Harry, Dougie e Tom. Péssima combinação. Pobres monitores.
Algo me dizia que eu ia me divertir MUITO nessa viagem.
Quando a aula acabou e eu pus o pé para fora da sala, meu pulso foi agarrado por Tom.
– Ei, você já assinou a lista? – ele perguntou, animado.
– Já, Tom. também assinou.
– Cadê ela? – ele perguntou, olhando em volta.
– Não sei, na verdade – eu respondi, estranhando a ausência de . – Ela estava ao meu lado há dez segundos, e agora sumiu.
De repente, um sorriso malicioso apareceu o rosto de Tom, evidenciando a famosa covinha.
– Olha a ali – ele me indicou com a cabeça. Eu segui seu olhar, e pude ver atracada com Luiz Felipe não muito distante dali. Juro que não estava sabendo dividir onde acabava e começava Luiz Felipe e vice-versa.
A realmente não perdia tempo.
Quando me virei para encarar Tom, os outros meninos já haviam chegado e estavam olhando para a cena de se agarrando com Luiz Felipe. Harry cochichava alguma besteira para Danny e Dougie tinha um sorriso pervertido no rosto.
– O que é que foi? Nunca fizeram isso não? – eu impliquei, sabendo que isso estava beeeeeeeeeem longe da realidade.
Dougie me lançou um sorriso mais pervertido ainda.
– Não, . Por que você não me mostra com se faz? – ele respondeu. Eu sabia que Dougie estava brincando, mas isso não me impediu de fazer ceninha. Eu o olhei com aquele meu olhar de desprezo e superioridade que eu sabia que era totalmente irritante, e Dougie riu.
– Ah, , você sabe que eu estou brincando – ele falou, dando de ombros.
Eu ri também.
– Eu sei. Se eu ao menos DESCONFIASSE que você estava falando sério, você não estaria aqui para contar história, Poynter.
Ele girou os olhos para o teto e me abraçou.
– Fala sério, Poynter – eu escutei Harry falando –, será que você pode parar de monopolizar a ? Sabe, ela também tem outros amigos.
– Mas nenhum deles é tão bom quanto eu – respondeu Dougie.
Eu soltei Dougie e fui abraçar Harry e Danny.
– E vocês, já assinaram a lista? – eu perguntei, mudando bruscamente de assunto.
Eles confirmaram com a cabeça, sorridentes.
– Vamos aproveitar muito essa viagem – declarou Harry, com um olhar malicioso.
– É verdade – concordou Dougie, com um olhar mais malicioso ainda.
Dougie e seus sorrisos pervertidos. As meninas MORREM com eles.
Bom, será que eu posso abrir um parêntese aqui? Apesar de eu amar Danny e coisa e tal, eu não posso deixar de admitir que eu não sou uma exceção à regra. Dougie realmente é muito gostoso.
Mas isso foi só um comentário.
De repente, um inspetor chegou trazendo revistas que eu não consegui identificar muito bem. Ele entregou uma revista para cada um de nós, e aí eu pude perceber que era a revista do acampamento. A revista dava cada detalhe do programa do acampamento.
Quarta-feira:
~> Viagem (partida às 08:00h)
~> Almoço de abertura
~> Campeonato de vôlei (14:30h)
~> Festa de abertura (19:00h)
Quinta-feira:
~> Café-da-manhã (07:00h)
~> Trilha (08:00h)
~> Almoço (12:00h)
~> Campeonato de futebol (14:00h)
~> Festa à fantasia (19:30h)
Sexta-feira:
~> Café-da-manhã (07:00h)
~> Equitação (08:00h)
~> Almoço (12:00h)
~> Paintball (13:30h)
~> Festival de música (17:00h)
~> Ghost hunting (21:00h)
Sábado:
~> Café da manhã (07:00h)
~> Ida à cachoeira (08:30h)
~> Almoço (12:00h)
~> Patinação no gelo (14:00h)
~> Festa de encerramento (19:00h)
Domingo:
~> Café-da-manhã de encerramento (08:00)
~> Viagem (partida às 09:30h)
– Dude, eles estão querendo matar a gente? – Danny perguntou, horrorizado. – Acordar às sete horas todos os dias?
– Não, Danny, a gente vai ter que acordar antes, para estarmos prontos para o café-da-manhã – respondeu Tom, ainda analisando a revista.
– Ah, eu acho que vai ser legal – eu opinei, feliz com o programa que tinha visto. – Quero dizer, tem futebol E trilha E equitação E paintball E patinação no gelo! E o melhor, tem Caça aos Fantasmas!
– Futebol vai ser um saco – falou Tom, emburrando.
– Não, futebol vai ser legal – discordou Danny. – E, olha, vamos caçar fantasmas, que nem a Buffy!
Todos nós olhamos para ele, e caímos na gargalhada.
– O que foi? – ele perguntou, confuso.
– Danny – eu expliquei, com lágrimas nos olhos de tanto rir –, a Buffy é uma “caça-vampiros”, não uma “caça-fantasmas”!
– Ah, dá no mesmo! – ele se defendeu, ficando vermelho.
Ai, eu já disse que ele fica lindo quando está com vergonha? Fofo demais.
Nós ficamos conversando por mais um tempo, mas logo tocou o sinal e eu voltei para assistir ao tempo de geografia.
Enquanto escutava o professor falando mal dos Estados Unidos (tão bom nascer num país tão amado por todos), , que estava sentada ao meu lado, jogou um papelzinho sobre meu caderno.
Ei, . Você não vai acreditar no que acabou de acontecer – .
O quê? – .
O Luiz Felipe, ! Ele... ele pediu para namorar comigo!!! - .
O QUÊ? CONTA MELHOR COMO FOI ISSO! – .
Bom, foi agora mesmo. Nós estávamos lá nos beijando e coisa e tal, e de repente ele chega e sussurra no meu ouvido: “, quer namorar comigo?” – .
E você? Você aceitou? – .
Na verdade, eu pedi a ele um tempo para pensar – .
E ele? – .
Ah, ele levou na boa, falou que estava esperando minha resposta e que não ia me apressar. Foi muito fofo, na verdade – .
Hum. Você está pensando em aceitar? – .
Não sei. Acho que sim. O que você acha? – .
Eu? O que eu tenho a ver com isso? – .
O que você faria no meu lugar? – .
Não sei. Você gosta dele? – .
Gosto. Quero dizer, eu acho que gosto – .
Tem alguma ex-namorada dele que confia em você como se você fosse a melhor amiga dela? – .
, NÃO. Isso é sobre mim, não sobre você e o Danny – .
Você acha que o Luiz Felipe gosta de você? – .
Acho. Bom, se ele não gostasse não ia pedir para namorar comigo – .
Então, acho que você já sabe o que fazer – .
Capítulo 26
Certo, eu confesso: aquilo com a e o Luiz Felipe foi uma coisa muito esquisita.
Quero dizer, o Luiz Felipe tem fama de ser “pegador”, então por que diabos ele pediu a em namoro?
Bom, mas isso é a vida da . Eu não tenho que me meter em nada, certo?
O resto da manhã passou tranqüilamente, e monotonamente também. Deus, por quê nós temos que estudar matérias tão chatas?
A hora do almoço foi meio torturante, também. Você sabe, eu tentei evitar ao máximo olhar para a cara de Maya durante as aulas, e acabou dando certo, já que ela sentava a quilômetros de distância de mim. Mas, para minha infelicidade, almoçava na mesa ao lado da minha, provavelmente para ficar olhando para os meninos por mais tempo. E, sinceramente, tudo o que eu queria fazer atacar por tudo o que ela tinha dito no dia anterior, mas eu sou melhor do que isso.
Depois do almoço tinha aula de educação física com a turma dos meninos, novamente. Nós fomos andando em direção ao ginásio, e quando chegamos perto dos vestiários, eu e fomos para um lado e os meninos foram para o outro.
– Eu não acredito que vou ser obrigada a jogar handebol – reclamava , enquanto trocava a saia do uniforme pelo shortinho de lycra.
Aliás, eu achava aquele short de lycra uma indecência. Eu queria que o uniforme de educação física da Isaac Newton fosse igual ao uniforme do Harpya: short largo, blusa larga, nada apertando nas coxas.
– Não reclame, . Você até que joga bem.
Ela me olhou com desdém, enquanto prendia o longo cabelo ruivo e ondulado num rabo-de-cavalo.
– Eu sei que jogo bem. Eu só não gosto de jogar, muito menos de ficar usando esse short na frente de todo mundo.
tinha paranóias com o corpo dela, que, aliás, é lindo. Como uma típica brasileira, é cheia de curvas, e, ao contrário de mim, tem quadris largos e bumbum avantajado. Como eu tenho inveja dela.
Eu rolei os olhos para o teto e virei para o rosto para as outras meninas do vestiário, tentando reconhecer alguém. Vi minha irmã com as amigas dela: Bia e Carol estavam tendo alguma discussão idiota, e as olhava com uma expressão desgosto, o que me deixou bastante curiosa. parecia triste também, e eu fiquei confusa por um momento. Ela tinha se divertido bastante na tarde anterior, não tinha? Por que ela parecia tão triste?
Era uma coisa que eu definitivamente tinha que investigar.
– ! – eu chamei, e ela olhou para mim, com uma espécie de alívio no olhar. Ela veio andando até onde eu estava e cumprimentou a mim e .
– Oi, . Oi, – ela falou.
– Oi – respondeu . – Escuta, eu já vou lá para fora, certo?
Eu concordei com a cabeça e saiu do vestiário.
Eu olhei para com a expressão mais maternal que eu podia fazer, e perguntei:
– , o que aconteceu? Você não parece bem.
Mas apenas me olhou com relutância e disse:
– Vamos fazer o seguinte: quando você chegar em casa nós conversamos, certo?
Eu confirmei com a cabeça e voltou para perto das amigas.
Eu não podia evitar de ficar preocupada com . Ela era sempre tão alegre e seus únicos problemas se resumiam a qual seria a roupa do dia. Fiquei imaginando o que poderia ter deixado-a tão para baixo, e concluí que ela me contaria mais tarde, de qualquer maneira.
Saí do vestiário e dei de cara com , que estava me esperando encostada na parede.
– Eu decidi aceitar – ela me disse, em um fôlego só.
Eu sorri para ela, percebendo seu nervosismo. sempre foi tão segura de si mesma (exceto quando colocava o uniforme de educação física), e agora agia como uma garotinha totalmente indefesa e desconfiada.
– Isso é bom, não é? – eu tive que lembrar a ela, que sorriu.
– Sim – ela respondeu. – Sim, é ótimo.
– Então! Parabéns, amiga! – eu exclamei, dando um abraço de urso nela.
Ela correspondeu ao abraço, me tirando do chão, conseqüência por eu ser menor do que todos os meus amigos.
– Ai, , eu estou TÃO feliz! – ela deu um gritinho, e eu fiquei feliz por ela estar feliz.
– Nossa, por que tanta felicidade? – eu escutei Tom perguntando, atrás de mim.
Soltei e me virei para encarar Tom.
– Não podemos ficar felizes, não, Fletcher? – eu perguntei, fazendo meu melhor papel de garota arrogante.
Ele deu alguns passos para trás.
– Eita, calma, ! Foi só um comentário!
Eu ri da cara que ele fez, como se realmente estivesse assustado.
– Ei, Tom, só estou brincando – eu disse, dando um abraço de urso nele e mordendo a covinha.
Ele me olhou, indignado.
– Sabe, de tanto você morder essa covinha, um dia você vai me machucar seriamente! – ele reclamou, passando a mão sobre a bochecha.
Ai, tadinho do Tom. É verdade, um dia não vai sobrar covinha para contar história, de tanto que eu e a mordemos.
– Tá, desculpa, Tom – eu pedi, sinceramente.
Ele riu para mim com cara de criança.
– Ei, , só estou brincando.
Eu ri também, assim como , que se adiantou:
– Que bom que você está brincando, Fletcher, porque eu ainda não mordi a mono-cova hoje! – ela falou, se atirando sobre ele e mordendo a covinha.
Harry e Danny chegaram nesse exato momento, e Danny resmungou.
– Não sei o porquê dessa fixação que vocês têm por esse buraco no rosto dele.
Eu e demos língua para ele, e Harry o defendeu.
– O Danny está certo! Afinal, é só uma deformação na cara dele, não é? – ele concordou, apontando para a bochecha de Tom, que riu.
– Que absurdo! – eu exclamei. – A covinha é linda!
Tom riu mais ainda.
– Não liguem, meninas, eles têm inveja – ele disse, fazendo ar de superioridade.
– Inveja de quê? – Harry perguntou, levantando a sobrancelha.
– Vocês não têm uma mono-cova – falou, dando de ombros.
– Pelo amor de Deus, . Quem precisa de rombos na bochecha quando se tem esse estilo do Judd aqui? – Harry se gabou, apontando para si mesmo.
– E por acaso vocês já viram meus mamilos? Eles são perfeitos – Danny observou, nos fazendo gargalhar.
– Gente, cadê o Dougie? – eu perguntei, olhando para Harry e Danny.
– Não sei – respondeu Harry. – Quando eu e Danny saímos do vestiário, ele ainda estava lá.
– Falando de mim? – eu escutei a voz de Dougie atrás de mim. Que mania que esses meninos tinham de aparecer do nada!
– Perguntando onde você estava – esclareceu .
– Ah. Claro.
De repente escutamos um apito, dando início à aula de educação física.
A aula foi tranqüila, mas acho que eu sou suspeita de falar, porque eu amo EF. Não haveria treino, porque a professora considerava muito sacrificante jogar futebol depois de aula de handebol. Então, eu tomei meu banho e me preparei para ir para casa.
Eu estava adiantada em relação à , porque tinha tomado meu banho mais rápido do que ela. Saí do vestiário e andei em direção a saída, planejando ficar esperando por ela na porta da escola.
E foi o que eu fiz. Estava tranqüilamente encostada na parede, escutando música no meu iPod, quando eu vi Rafael Fahetzy não muito longe. Ele estava incrivelmente gostoso com o uniforme da Sandler, os cabelos perfeitamente bagunçados pelo vento, e aquele ar de confiança que me impressionou desde a primeira vez que eu o vi.
Ele percebeu que eu estava olhando para ele e sorriu, me fazendo sorrir de volta automaticamente. Pediu licença aos amigos e andou na minha direção. Eu percebi que cada indivíduo de saias prendeu a respiração ao vê-lo passar.
– Oi, – ele disse, quando chegou perto o suficiente de mim.
Droga, eu tinha esquecido de que ele não sabia que eu era .
– Oi, Rafinha – eu respondi, pensando na melhor maneira de revelar minha verdadeira identidade.
Nossa, essa frase pareceu vinda de algum livro de espionagem.
– Como vai você? – ele perguntou. – Vim aqui ontem e segunda-feira, mas você nunca estava...
Bom, deve ser porque na segunda-feira eu tinha surtado e decidido matar aula na casa de Dougie e na terça-feira eu tinha surtado e levado um esporro da treinadora por estar jogando muito mal.
– Rafinha, eu tenho que esclarecer algumas coisas que você ainda não sabe a meu respeito – eu despejei em cima dele.
Ele me olhou com curiosidade.
– Diga, então – ele respondeu tranqüilamente. Cara, como ele conseguia ser tão calmo e confiante o tempo todo?
Eu tomei fôlego e falei.
– Para começar, meu nome não é . Eu sou , muito prazer.
Dessa vez ele pareceu realmente surpreso. Yeah, um ponto para mim.
Eu continuei minha “revelação”.
– Bom, na festa do Henrique eu estava me fazendo passar por , porque a verdade é que estava de castigo em casa, e, como uma boa irmã gêmea, eu a representei na festa. Alguma pergunta?
Ele sorriu.
– Na verdade, sim, algumas – ele respondeu. – Você por acaso é a garota do Harpya que fez os cinco gols contra o time da minha escola na final do intercolegial do ano passado?
Eu confirmei com a cabeça, sorrindo internamente.
– Uau – ele pareceu impressionado. – Eu sou seu fã.
Eu ri com a brincadeira dele, me sentindo à vontade. Aliás, Rafinha tinha o dom de deixar as pessoas mais à vontade.
– Mais alguma pergunta?
– O garoto da festa, Alexandre, é seu namorado ou da verdadeira ?
– De . Eu não tenho namorado, para falar a verdade. Mais alguma pergunta?
– Sim – ele respondeu, com os olhos brilhando. – Você vai sair comigo amanhã?
Ai, Jesus! Ele me chamou para sair, foi isso mesmo?
Eu me imaginei saindo com Rafinha. Ele era um cara legal, bonito e divertido. Seria perfeito para esquecer Danny.
É claro que eu ia aceitar.
Eu abri a boca para responder um belo “Com certeza!”, mas fui interrompida por um grito de “!”.
Eu me virei automaticamente ao escutar a voz de Danny. Ele estava junto com os outros meninos e , e estavam todos vindo na minha direção.
Legal, eles não podiam escolher um momento pior para aparecer.
– Estamos te procurando por toda a parte – falou Harry.
– Aconteceu alguma coisa? – eu perguntei, confusa.
– Não, mas nós estávamos te esperando para irmos andando para casa, e não te achávamos em lugar nenhum – explicou .
– Eu estava aqui o tempo todo – respondi.
– É, nós não te vimos – disse , olhando levemente para Rafinha, que estava tranqüilo como sempre.
– Ah, tudo bem. Bom, gente, esse é o Rafinha. Rafinha, estes são Dougie, Harry, Danny, Tom e – eu apresentei, apontando para cada um quando dizia seus nomes.
– Oi – ele cumprimentou, misterioso, parecendo que estava analisando cada um deles. Depois, virou para mim: – Então, o que me diz?
– Okay – eu concordei. – Mas amanhã eu tenho treino de futebol, certo?
– Sem problemas – ele respondeu, com um sorriso. – Não me incomodo de ver você jogando.
Com o que ele se incomodava, de verdade?
– Então até amanhã – ele disse, me dando um beijo na bochecha. – Tchau, gente – ele falou para os outros, e logo depois se afastou em direção aos amigos.
Quando ele ficou longe o suficiente para não nos ouvir, Danny perguntou:
– Quem era esse cara?
– Já disse, ele é o Rafinha. Eu o conheci na festa do Henrique, no sábado.
– E o que ele veio fazer aqui? – ele continuou a perguntar, parecendo extremamente irritado.
Também, pudera.
Mas eu tinha que esquecê-lo! Nós não íamos ficar juntos de qualquer maneira...
– Ele veio falar comigo, certo? – eu respondi, me irritando também. Na verdade, era mais uma forma de ficar na defensiva para não me sentir muito culpada.
O mais estranho era que Danny não era o único a estar irritado. me mandava freqüentes olhares de reprovação; Harry me olhava desconfiado; Dougie parecia confuso e nervoso ao mesmo tempo e Tom, sempre o mais calmo, parecia estar me desaprovando também.
– Vamos para casa? – eu perguntei, tentando me livrar daquela situação. Nenhum deles respondeu, mas quando eu fiz menção de andar, eles me seguiram.
O caminho foi silencioso: o máximo foi um “tchau” quando algum de nós tinha que se separar do resto. No fim, só sobramos e eu. Quando paramos em frente à casa dela, eu me despedi:
– Tchau, .
Mas ela não respondeu. Eu não tinha mais nada a fazer a não ser me virar e entrar na minha própria casa.
Capítulo 27
– Certo, . Desembucha.
Foi assim que eu ataquei minha irmã logo que ela chegou em casa, uns quinze minutos depois de mim. Eu já a estava esperando em seu quarto, deitada em sua cama, pensando em que diabos eu tinha feito ao aceitar o convite de Rafinha. Tudo bem, eu realmente tinha que tentar esquecer Danny, mas a melhor maneira não era magoando-o.
Bom, só pelo o fato de eu estar meio confusa, isso não significava que eu tinha esquecido dos problemas da minha irmã. Ou melhor, dos supostos problemas, já que eu ainda não sabia de absolutamente nada.
– Ah, , eu estou acabada – ela disse, se tacando na cama ao meu lado.
– Por quê?
– Eu acho que vou terminar com Alexandre – ela disse, olhando para o teto.
Opa, isso era novidade. O casal mais popular do colégio acabando?
– Por quê? Vocês parecem se gostar tanto.
Ela gargalhou.
– Por Deus, , às vezes você é tão inocente. Eu e o Alexandre, nos gostando? Só aparência. Tenho quase certeza que ele está gostando de outra garota. E acho que eu também estou gostando de outro garoto.
Nossa, quantas revelações.
– Jura? De quem? – perguntei, curiosa.
Pode me chamar de fofoqueira agora.
Ela me olhou, escandalizada, e balançou a cabeça.
– Nem pensar. Você não vai me arrancar essa informação, não mesmo – ela disse com veemência.
– Conta, ! Eu sou sua irmã, você pode confiar em mim!
Ela me olhou como se estivesse me analisando, e discordou:
– Nunca. Mesmo. Você riria da minha cara.
Eu apoiei meu cotovelo na cama, de modo a olhá-la melhor, e propus:
– Que tal assim? Você não me conta, mas se eu adivinhar, você tem que confirmar.
Ela pensou por um momento e depois concordou:
– Okay. Se você acertar, eu vou confirmar. Mas se você errar, ainda vai ter que comprar para mim aquela bolsa da Chanel linda que eu vi.
Eu concordei; tinha certeza que não ia errar. Minhas suspeitas já eram de longo prazo.
– Fechado. E o meu palpite é... – eu brinquei, fazendo voz de apresentador de quiz show – Harry Judd!
Ela me olhou boquiaberta, e eu sorri internamente. Eu sabia. EU SABIA!
– Como... como você...? – ela mal conseguiu articular uma frase.
Eu sentei, já totalmente animada. Cara, minha irmã e Harry. Minha irmã gêmea e meu melhor amigo. Quer coisa melhor?
Harry podia transformar numa pessoa melhor, sabe? Menos fútil. Só o fato de ela estar gostando de Harry, uma pessoa que só lava o cabelo uma vez a cada três semanas, já indica uma sensível mudança de atitude.
– Ai, , isso é tão perfeito!
Ela sorriu para mim.
– Jura que você gostou da idéia? – ela disse, meio abobada.
– Claro! Eu amei! , você sabe que Harry é um dos meus melhores amigos, eu confio SUPER nele, vocês ficariam fofos juntos.
Ela sorriu mais ainda com a minha empolgação, e eu sorri porque ela estava sorrindo, e ficamos as duas rindo que nem retardadas. De repente, a Nicole do PCD começa a gritar, e a foi correndo atender o celular.
E não, não vou fazer nenhum comentário sobre o fato do toque do celular da minha irmã ser When I Grow Up.
Eu saí do quarto de para dar a ela um pouco de privacidade e resolvi tomar um banho quente. Nem demorei tanto debaixo do chuveiro (milagre), e quando saí do banheiro, enrolada na toalha, já estava sentada na minha cama, me esperando.
Ela me encarou e falou:
– Era o Alexandre. Nós resolvemos terminar, é oficial agora. Ele me disse que já está gostando de outra.
Hum. O que eu deveria falar sobre isso? “Sinto muito” não parecia apropriado. “Parabéns” também não.
Mas a verdade é que cada vez mais eu acredito na teoria de de que eu sou um ser com cinqüenta e nove cromossomos, que, apesar de ter uma compulsão por jogar futebol e tocar flauta, não tem capacidade para lidar com situações emocionais.
E, provavelmente, nem com números ou ângulos, considerando minha nota de trigonometria.
Mas que seja. Resolvi não falar nada, só fiquei encarando , esperando que ela falasse algo a mais.
De repente, depois de um tempo em silêncio, ela se pronunciou:
– Bom, agora que eu sou uma menina descompromissada – ela começou, com um sorriso fofo no rosto –, a pergunta que não quer calar é: , você acha que eu tenho alguma chance com o Harry? – ela completou, com os olhinhos brilhando.
Eu tive vontade de rir. , a garota mais bonita e popular do colégio, em dúvidas sobre conseguir um garoto? Cara, isso era hilário.
E, pior, esse garoto era HARRY? Eu gostaria de saber o que ele pensava sobre isso.
Mas eu não podia fazer isso com a minha irmã.
Ou podia?
Não, ! NÃO PODE!
Pronto, recuperei.
– Você deve tentar, . Você sabe, talvez ele também goste de você.
fez uma expressão horrorizada, e eu a encarei com um olhar indagador. Ela arregalou os olhos e sussurrou:
– MAS E SE ELE NÃO GOSTAR DE MIM? – ela se desesperou.
– Aí você o faz gostar de você, maninha. De qualquer forma, o Harry não é tão babaca ao ponto de não gostar de você.
Ela me olhou esperançosa.
– Isso significa que ele gosta? – ela perguntou, com os olhinhos brilhando novamente.
Cala a boca, !
– Eu não sei, . – Era verdade. Eu só desconfiava.
Foi aí que a Nicole do PCD começou a gritar de novo, e a se levantou.
– Deve ser a Bia ou a Carol. Vou atender – ela completou, correndo em direção ao seu quarto.
Eu sorri comigo mesma e resolvi ligar o laptop.
Legal. Harry estava online.
SoccerQueen: Harry!
MrFit: Oi.
SoccerQueen: Eu tenho algo para te dizer.
MrFit: Fala.
SoccerQueen: Esse é o problema, eu não posso te dizer.
MrFit: Então não diz.
SoccerQueen: Vc não está nem um pouquinho curioso?
MrFit: Um pouco.
SoccerQueen: Pois é, eu acho que vc vai ficar sabendo logo.
MrFit: Que bom.
SoccerQueen: Mas eu não sei se vc vai gostar da notícia ou não.
MrFit: , desembucha logo. Dá para perceber que vc está louquinha para contar.
SoccerQueen: EU NÃO POSSO, HARRY. Vcs têm que resolver isso sozinhos, eu não posso me meter.
MrFit: VCS QUEM?
Eu e essa minha boca enorme.
Ou, nesse caso, dedos ágeis demais.
SoccerQueen: Ah, esquece, Harry. Vc logo vai saber do que eu estou falando.
MrFit: , por que você está fingindo que nada aconteceu?
Hã?
SoccerQueen: Não entendi. Nada aconteceu, né?
MrFit: Não se faça de burra, . Aquele cara da Sandler pareceu estar bastante interessado em vc.
SoccerQueen: E daí?
MrFit: E daí que isso deixou Danny péssimo. Qual é a sua, ? Achei que você gostava de Danny.
Legal. Agora mais um dos meus melhores amigos estava contra mim. Já não bastava a ?
SoccerQueen: Eu GOSTO do Danny, Judd, e vc sabe disso. Acontece que eu tenho que deixar de gostar dele, entendeu?
MrFit: Não entendi nada. Vcs se gostam, qual é o problema disso?
SoccerQueen: Será que eu vou ter que explicar de novo? Eu acho que eu já disse cem vezes para cada um de vcs que ainda gosta do Danny.
Legal. De volta aos seus problemas, .
MrFit: Tudo isso é muito confuso.
SoccerQueen: Eu, mais do que ninguém, sei disso, Harry querido.
MrFit: Esse tal Rafael... vc gosta dele?
SoccerQueen: Hum, acho que não. Mas ele é bem legal, acho que nós vamos nos divertir amanhã.
MrFit: Como assim? Vc vai sair com ele amanhã?
Eu ODEIO quando eu escrevo sem pensar. Não dá nem para dizer um “não foi isso que eu disse, você que entendeu errado”, porque a prova já está registrada.
SoccerQueen: É. Meio que sim.
MrFit: , vc confia mesmo nesse cara? Pra onde vcs vão? Porque eu não gosto desses caras da Sandler, eu não confio neles, e se ele fizer alguma coisa com vc, eu e os meninos vamos surrá-lo até a morte.
Eu ri. Harry às vezes era mais protetor que meu pai.
E, por falar em meu pai, o dito cujo estava me chamando nesse exato momento.
SoccerQueen: Harry, fica tranqüilo, eu sei cuidar de mim mesma. E agora eu tenho que ir, meu pai está me chamando. Beijos, te amo, ursão.
MrFit: Também te amo, sua baixinha.
Desliguei o laptop e desci as escadas correndo.
– Hey, Dad, did you call me? – eu perguntei assim que cheguei à sala, onde meu pai, minha mãe, Tânia e estavam sentados me esperando.
Meu pai sorriu tímido para mim, e eu me sentei no sofá à sua frente.
Minha relação com meu pai era muito estranha. Ele e mamãe viviam viajando, e ele sempre trabalhou muito, tanto que nunca teve tempo para mim e para . Mesmo assim, eu sempre me achei muito parecida com meu pai. Tímidos, sem capacidade para expressar os verdadeiros sentimentos.
Talvez nós dois tenhamos 59 cromossomos.
Já , era a cópia de mamãe: popular e vaidosa. Mamãe sempre trabalhou também, mas não tanto quanto papai, o que fez com que ela fosse mais presente em nossas vidas do que ele.
– Bom, filha – papai começou –, o caso é que eu e sua mãe vamos ter que viajar amanhã.
Grande novidade. Eles nunca param quietos em um canto. É por isso que eu e não seríamos nada sem Tânia.
Eu concordei levemente com a cabeça, esperando ouvir mais.
– O problema é que Tânia terá que viajar amanhã também – ele continuou.
– Meu neto está doente – Tânia explicou –, e a creche não quer ter a responsabilidade de cuidar dele, então eu disse à minha filha que eu tomaria conta do Dudu.
Peraí, então isso significava que...
– Bom, isso quer dizer que você e vão ficar sozinhas em casa até segunda-feira, e eu estou contando que vocês serão grandinhas o suficiente para se cuidarem.
Eu concordei com a cabeça novamente, entendendo aonde ele queria chegar.
– , você continua de castigo e, , por favor, cuide da sua irmã – pediu minha mãe com um ar de súplica.
Eu olhei de relance para e percebi o olhar chocado que ela mantinha sobre mamãe. Eu quase ri, mas me controlei.
Controlar a ? Até parece que alguém consegue.
– É só isso, filha. Se quiser, pode voltar para o quarto.
Foi o que eu fiz. Voltei para meu quarto e fiz todos os meus deveres de casa pendentes, vi desenho animado e escutei música, antes de capotar na cama e dormir como uma pedra.
Capítulo 28
Acordei bastante agitada na manhã seguinte e corri para tomar banho. Lavei o cabelo e o sequei rapidamente com o secador. Coloquei o uniforme pensando na roupa que eu usaria para sair com Rafinha.
Abri o guarda-roupa e fui direto para a seção de calças jeans.
“Algo mais feminino”, eu pensei, enquanto observava as calças. Imediatamente, fui para a parte de vestidos.
“Por que eu só tenho vestidos pretos?”, eu me maldizia, enquanto caçava desesperadamente por um vestido colorido.
Foi aí que eu lembrei do meu vestido rodado cuja parte do busto era listrada e a saia era branca. Procurei-o, afobada, no meio de todas aquelas roupas pretas e finalmente o encontrei e o guardei com todo o cuidado na mochila.
Peguei um par de sandálias rasteirinhas brancas e coloquei na mochila também.
Peguei uma nécessaire e enfiei nela metade dos produtos de maquiagem que eu tinha. Depois, guardei-a na mochila.
Ansiosa, eu? Que isso, como poderia?
Assim que terminei de me arrumar, desci as escadas correndo, com a intenção de tomar café-da-manhã. Só intenção, porque quando eu cheguei à cozinha, já tinha terminado de comer e já me aguardava impacientemente para nós sairmos de casa.
Eu peguei uma barrinha de cereais para ir comendo e saí de casa com . Passei na casa de , mas ela já havia saído de casa.
Cara, a realmente guarda rancor das coisas.
estranhou que tivesse ido para sozinha o colégio, mas não insistiu muito depois das minhas evasivas. Nós andamos em silêncio, eu comendo a minha barrinha e parecendo pensativa.
Quando chegamos ao colégio, vi Tom e Harry sentados num banco, não hesitei e fui correndo até eles. E, para minha surpresa, veio atrás de mim.
– Oi, meninos – eu disse, dando um beijo na bochecha de Harry e um na covinha de Tom. Eles sorriram fraquinho, os dois estranhando a presença de .
– Oi, . Oi, – falou Harry, com os olhos brilhando na direção da minha irmã.
É isso. Suspeitas confirmadas.
– Oi – ela respondeu, ofegante. É realmente estranho ver minha própria irmã gêmea ofegando por Harry. Queria saber o que ela pensaria sobre todas as vezes que eu e Harry já dormimos na mesma cama.
Deixando claro, novamente, que nada nunca aconteceu enquanto eu e Harry DORMÍAMOS na mesma cama.
– , você vai hoje ver o nosso ensaio? – Tom perguntou. Depois olhou para e completou: – Se você quiser ir também, , não tem problema.
Ela sorriu radiante para Tom e Harry.
– Claro! – ela concordou. – Estou louca para ver vocês tocando.
Tom retribuiu o sorriso e virou para mim.
– Você vai, né?
Eu senti minha expressão murchar.
– Desculpa, Tom, hoje eu não vou poder ir.
– Por quê? – ele perguntou, decepcionado.
Nãããããããããão! Por que você tinha que perguntar?
Nunca soube mentir, então lá vai:
– Vou sair hoje depois do colégio – eu respondi casualmente, como se não fosse algo realmente importante.
Mas era. Era minha chance de esquecer o Danny.
– Posso saber com quem? – perguntou Dougie, que tinha acabado de chegar, me pegando de surpresa.
Eu dei língua para ele.
– Você não é meu pai, Poynter, não te devo satisfações.
olhou para mim e riu.
– , se você não contou isso nem para o papai, pelo menos conte a Dougie.
Jogou sujo, irmãzinha.
Mas eu mantive a classe. Eu conhecia aqueles meninos o suficiente par saber driblá-los um pouco.
– Não preciso. Harry já sabe, de qualquer forma – eu dei de ombros.
Dougie e Tom fizeram cara de escandalizados, a exata reação que eu esperava.
E Harry fez cara de “eu-sou-demais-e-sei-disso”, a exata reação que eu esperava.
– O Harry sempre sabe de tudo – comentou Danny, chegando por trás de mim e apoiando a cabeça no meu ombro.
Calafrios. Eu os odeio.
estava ao lado de Danny, mas ela mal olhou para mim.
Qual era o problema dela? Até o DANNY estava falando comigo.
– Não de tudo – minha irmã se pronunciou, e eu olhei para ela, chocada. realmente estava provocando?
– Claro que sei – Harry respondeu, olhando espantado para , que gargalhou.
– Bom, eu já vou indo encontrar minhas amigas – ela disse. – Onde encontro vocês na hora da saída?
Danny tirou a cabeça de meu ombro e olhou surpreso para .
– Vai ver o ensaio da banda, ? – ele perguntou, olhando de relance para Dougie, que também estava surpreso.
confirmou.
– Se não tiver problema, claro – ela adicionou rapidamente.
– Não tem problema – respondeu Danny. – E a gente pode se encontrar no portão de saída.
Dougie se animou.
– Legal, hoje nós vamos ter gêmeas no ensaio!
Tom e Harry amarraram a cara.
– A não vai hoje – resmungou Tom, insatisfeito.
– Por quê? – perguntou Danny, me olhando de uma forma estranha.
Mas eu fui salva pelo gongo, ou melhor, pelo sinal, quando deu o horário da primeira aula e eu saí correndo e balbuciando alguma desculpa idiota.
Eu passei o dia inteiro evitando o assunto “ensaio”, que levaria ao assunto “minha saída”, que levaria ao assunto “Rafinha”. Eu tentei distrair os meninos de várias formas, falando sobre filmes e outras bobagens.
Mas na hora da saída, eu sabia que não haveria jeito de escapar deles. Dito e feito, assim que eu saí da sala de aula estavam todos os meninos esperando por mim e .
Uma coisa que sempre foi um mistério para mim é como os meninos SEMPRE saem da aula antes do que eu e e SEMRE estão esperando a gente.
Mas que seja.
– Pronto, agora não tem escapatória. Por que você não vai ao nosso ensaio? – perguntou Danny.
Eu olhei nos olhos azuis dele e desmanchei por dentro.
– Eu vou sair.
Era incrível como os olhos de Danny me dominavam completamente!
– Posso saber com quem? – ele continuou o interrogatório.
– Com o Rafinha.
Ele me olhou de forma estranha de novo e decretou:
– Você não vai sair com ele.
Legal. Agora ele estava tentando mandar em mim.
– Ah, eu vou sim. Aliás, ele deve estar me esperando no campo de futebol agora.
– Ele vai ver você jogando? – Danny perguntou, incrédulo.
– Vai – eu confirmei. – E eu estou atrasada, então com licença.
Eu saí de perto deles sem nem ao menos falar com os outros meninos. Cheguei ao vestiário antes de todas as meninas (eu definitivamente NÃO estava atrasada), e quando terminei de trocar de roupa, vi entrando no vestiário.
– Te procurei pelo colégio todo – ela disse, sentando no banco ao meu lado e tirando os tênis.
– Por quê?
– Por nada, ué, só queria falar com você.
– Então fala.
– Já estou falando, . Você está bem? Está meio esquisita.
Eu me olhei no espelho. Completamente normal.
– Eu estou bem – respondi.
Logo o apito da treinadora soou e nós saímos correndo do vestiário.
Eu olhei para as arquibancadas. Vi Rafinha logo de cara. Ele me viu, sorriu e acenou.
Impossível resistir ao sorriso dele. Sorri e acenei de volta.
Logo duas fileiras acima, estavam Danny, Tom, Dougie e .
Na fileira acima deles, estavam Harry e , completamente absortos na conversa que estavam tendo.
Legal. Nunca tive tanta platéia.
O treino começou, e não foi ruim. defendeu todas as bolas do outro time, eu fiz dois gols, Angelina fez um gol e nosso time ganhou.
Assim que o jogo acabou, Rafinha veio me procurar. Desceu da arquibancada e veio correndo na minha direção.
– Bom jogo, – ele me deu parabéns com um sorriso.
– Obrigada – eu respondi sorrindo também. Aliás, tudo o que eu e Rafinha fazíamos era sorrir um para o outro.
– Olha, eu vou tomar uma ducha rápida e já vou sair, certo? – eu falei, apontando para o vestiário.
Ele concordou com a cabeça e acrescentou, sussurrando no meu ouvido:
– Estarei lá fora esperando por você.
E aí, ele me deu um beijo na bochecha e saiu do campo de futebol.
Eu corri para o vestiário e tomei minha ducha super-rápida. Tive alguns problemas na hora de colocar o vestido e a sandália, mas a maquiagem foi o pior. Cara, como é que eu usava aquele pincelzinho preto chamado DELINEADOR?
Desisti do delineador, total.
Quando achei que estava APRESENTÁVEL, saí do vestiário, completamente envolvida com meus pensamentos.
Tão envolvida que nem reparei que Danny estava bem na minha frente.
– Ai, Deus, olhe para onde... ? – Foi assim que eu fui recebida por Danny, depois que esbarrei com ele.
Danny ficou olhando vidrado para meu vestido, me fazendo corar.
– Oi, Dan. Bom, tenho que ir – falei, com um meio-sorriso, me desviando dele.
– Não, espera! – ele me interrompeu, segurando meu pulso.
Péssima hora para sentir choques térmicos, .
Ou arrepios.
Ou calafrios.
Ou suor nas palmas das mãos.
Mas, que seja.
– O que foi, Danny?
– Eu não quero que você saia com ele.
Jogo sujo. Muito, muito sujo. Mas eu não ia cair nessa. Eu ia resistir.
É. Isso aí.
– Eu já combinei de sair com ele, Jones, e eu VOU sair com ele. Aliás, ele está me esperando. Bom ensaio, Danny – eu me despedi, batendo levemente no ombro dele, ao mesmo tempo em que tentava evitar um maior contato com o corpo dele.
E contato visual, também.
Saí praticamente CORRENDO, indo ao encontro de Rafinha, que me esperava na porta do colégio, como ele havia dito que faria. Ele abriu um sorriso enorme ao me ver, e sussurrou perto do meu ouvido:
– Você está linda.
Não pude deixar de sorrir. Não é todo o dia que chega um cara muito gostoso e legal e engraçado e diz para mim que eu estou linda.
Ele me pegou pela mão e me levou até onde estava uma Indian muito irada.
– Você é um dos Hell’s Angels? – eu perguntei, de brincadeira. Ele gargalhou.
– Não, não sou. Mas tenho um fraco por motos.
Legal. Alguma coisa em comum.
– Eu também. Amei sua Indian.
– Obrigado – ele respondeu. Ele se encostou na Indian e me olhou diretamente nos olhos, como se me avaliasse. – Sabe, você não parece ser do tipo que curte motos.
A culpa é do cabelo loiro. Por que todo mundo estereotipa as loiras?
– Mas eu curto – garanti a ele. – Então, para onde vamos?
– Não sei. Quer ir para minha casa? Podemos fazer alguma coisa lá. E eu posso te mostrar minha coleção de motos.
Eu analisei a proposta. Ver uma coleção de motos na casa provavelmente grande e luxuosa de um cara gostoso e divertido? Amei.
E, além do mais, eu não tinha nada a perder.
– Claro – respondi, o fazendo sorrir verdadeiramente. – Por que não?
Ele me entregou um capacete, colocou o outro e subiu na moto, dizendo:
– Venha, suba.
E foi isso o que eu fiz, me amaldiçoando por estar de vestido.
– Segure-se – ele pediu, e eu pus minhas mãos em sua cintura.
E foi aí que ele deu a partida na Indian, dando início ao caminho em direção à sua casa.
Capítulo 29
– Fica à vontade, .
Isso foi o que Rafinha me disse assim que eu pus os pés na casa dele.
Como eu tinha imaginado, a casa era enorme. A propriedade onde ficava a casa também era consideravelmente GIGANTESCA, e, além da casa, havia jardins, piscinas (isso mesmo, no plural, porque havia três piscinas), garagens (isso mesmo, no plural. Uma garagem era para carros e outra era para motos) e uma sauna.
A primeira coisa que nós fizemos ao chegar na casa dele foi estacionar a moto. Quando entrei na garagem e vi a coleção de motos que ele possuía, eu simplesmente BABEI. Fiquei perdida dentre tantas máquinas perfeitas, e em meu íntimo eu desejava todas elas. Motos de todas as cores, modelos e anos. Eu merecia aquilo.
Rafinha ficou bastante surpreso quando eu corria de uma moto à outra, dizendo seus nomes. Ele realmente não fazia a menor idéia do meu amor por motos.
Depois de me afogar em baba por causa daquelas motos todas, ele me levou para conhecer rapidamente os jardins (todos impecáveis) e a casa.
A sala de estar era simplesmente perfeita, enorme e organizada. Tudo era branco, desde as paredes até os móveis, dando uma aparência de limpeza tamanha que eu jamais tinha visto em outras casas.
Mas, ao mesmo tempo, a limpeza e clareza daquela sala me dava uma impressão de abandono. Não, abandono não é a palavra correta. Deixe-me tentar explicar. Parecia que a casa era um hotel, e não uma residência. Você não podia sentir aquele ar de moradia; e eu senti falta daquele ar de bangunça que sempre encontrava na casa dos meninos quando a mãe deles não estava em casa.
Mas por que é mesmo que eu estava fazendo comparações? Eu queria isso, não era? Mudanças?
Acho que sim.
- Então, , você quer um suco ou coisa assim?
Eu sorri agradecida, e falei:
- Alguma coisa assim. Tem refrigerante? – eu perguntei. Não queria parecer estar reclamando, mas, qual é? Suco? Eu estava bem longe da dieta.
Eu sorriu surpreso. Cara, eu consegui surpreender o Rafinha! Não só uma vez, mas duas! Eu sou demais, eu sei.
- Nunca ia imaginar que uma menina magrinha como você E jogadora de futebol ia preferir refrigerante a suco.
Eu fiz uma expressão meio contrariada. Bom, ele estava certo em parte. A treinadora realmente prefere que nós tomemos suco. Mas, fala sério, eu tava louca por uma bela coca-cola.
- Bom, você sabe, sobre a parte de ser magrinha, eu não faço dieta nem nada... Nunca ia deixar de comer qualquer coisa só para ficar magra. Mas quanto ao futebol... Você está meio que certo, então... Que venha o suco.
Eu riu e ofereceu:
- Laranja, limão, morango...
Eu prontamente respondi:
- Laranja. Com certeza. Meu favorito.
Eu me deu um sorriso lindo (cara, realmente muito lindo) e andou até a cozinha falando:
- É o meu também. Espere, eu já volto. Sente-se.
Foi meio robótico, mas mesmo assim... Lindo. Muito lindo.
Ele era gostoso demais.
Eu sentei no sofá branco (dãh, de cor você acha que seria?) e de repente me peguei pensando no ensaio dos meninos. Droga, eu estava tentado esquecer o Danny e ficava pensando no McFly. Legal. Como eu realmente esperava esquecê-lo?
Bom, se nem eu sei, não é você quem vai saber.
Mas eu simplesmente não podia, de uma hora para outra, parar de pensar nos meus amigos. Quero dizer, eles são meus amigos desde que eu me mudei para o Brasil. Eles têm crédito.
Outra coisa que eu não pude deixar de pensar foi na minha irmã. E eu percebi que naquele dia eu tinha invertido os papéis com ela. Ela estava lá, vendo o ensaio da banda dos amigos (MEUS amigos), enquanto que eu estava saindo com um garoto.
Tão .
Assim que Rafinha voltou, meus pensamentos pararam de se voltar para o McFly. Tudo o que eu conseguia pensar era em como o Rafinha era sexy com aqueles sorrisos misteriosos que só ele sabia dar, e em como eu era sortuda por estar lá com ele. A gente bebeu nossos sucos em silêncio, o que me deixou um pouco incomodada. Quando eu estava junto de Danny, silêncio era uma coisa rara.
, SEM COMPARAÇÕES.
Depois de nós terminarmos de beber nossos sucos (devo salientar que o suco de laranja estava realmente gostoso), Rafinha se virou para mim.
- Então, , eu estava aqui pensando no que você gostaria de fazer.
Eu ri.
- O engraçado é que eu também fiquei pensando nisso.
Era verdade. Eu sinceramente queria saber o porquê de ele ter resolvido me trazer para a casa dele assim, sem mais nem menos.
- E eu decidi que o melhor a fazer é isso – ele completou.
Você deve estar se perguntando o que é “isso”. Eu também me perguntei isso durante alguns segundos, até que ele me beijou.
Se eu disser que foi um beijo comum, eu totalmente estaria mentindo. Aquele beijo foi bom. Bastante bom, na verdade. Quer saber, se eu quiser ser sincera eu vou dizer que o beijo foi ótimo.
Rafinha beija bem. O beijo foi tão bom que eu o pude sentir até nas unhas dos dedos dos pés.
Isso não significaria que eu o beijei de volta. Definitivamente, não.
Bom, isso não significaria, mas o que aconteceu foi que eu realmente o beijei de volta. Quero dizer, Rafinha beijava tão bem. E eu não me sentia tão desejada e livre há algum tempo.
Bom, na verdade essa foi a primeira vez que eu me senti tão desejada e livre.
Foi por isso que a única coisa que fiz foi agarrá-lo pelos cabelos e beijá-lo de volta.
Erro meu, eu sei. Não é só porque eu amo um cara com o qual eu não posso ficar que eu vou sair me agarrando com o primeiro gostosão que me aparece pela frente.
Mas eu fiz isso em um impulso, tá? Logo, não me julgue.
E eu juro que eu tentei consertar meu erro impulsivo assim que voltei à razão.
Mas não foi exatamente a tarefa mais fácil do mundo. Primeiro pelo fato de Rafinha ter se empolgado com a minha reação e ter praticamente se deitado sobre mim, o que eu sabia que não estava sendo nada bom para minha saia do vestido. E, acredite, não é fácil tentar sair debaixo de um garoto que pesa muito mais que você.
Segundo porque, naquela empolgação toda, ele acabou segurando meu pulso. Com força, o que me impediu de bater nele ou coisa assim.
Terceiro porque, além de ele estar em cima de mim, ele colocou uma perna de cada lado do meu corpo, me prendendo. Eu estava basicamente imobilizada.
E me sentindo culpada. Muito, muito culpada.
E foi exatamente por isso que eu consegui virar a cabeça para o lado direito, e pedi:
- Rafinha, me solta.
Ele nem se moveu. Continuou a beijar meu pescoço vorazmente, o que me deu certeza de que ia ficar marcada.
Merda.
- Qual é, . Não me diga que você não está querendo isso desde o dia que nós nos conhecemos. – ele respondeu, e eu devo admitir que a voz dele estava carregada de paixão.
Isso mesmo. Paixão. Por mim, .
Uau.
Mas, , não perca a cabeça.
- Não, não estou querendo isso. Você é extremamente convencido, Rafael. Agora saia de cima de mim – eu mandei, fazendo meu melhor tom de voz de pessoa segura.
- É por causa daquele tal de Danny? – ele perguntou, entre os beijos que dava no meu pescoço. - Porque eu percebi o jeito que ele te olha, sabe.
Será que era mesmo tão óbvio assim?
- E, além do mais, ele não está com nada. Mais um perdedor. Você não ia querer ficar com aquele idiota quando pode ficar comigo. – A pergunta é: como ele tem a capacidade de beijar e falar com clareza ao mesmo tempo? Incrível. – Eu posso te dar coisas que ele não pode, eu posso te satisfazer mais do que ele é capaz – nessa hora ele mordeu meu pescoço e depois voltou a beijá-lo. – Ele não pode fazer você se sentir desse jeito que você se sente agora.
E foi exatamente nessa hora que eu lhe dei uma bela joelhada entre as pernas.
Como ele podia OUSAR dizer o que eu estava sentindo? Como ele ousava comparar-se com o Danny, quando simplesmente não há comparação? Danny é bom demais. Perfeito.
Ele urrou de dor. Eu tenho pernas fortes, e tenho certeza que minha joelhada deve ter doído. Bem-feito.
O fato é: ele saiu de cima de mim. E eu finalmente pude me libertar e levantar do sofá, enquanto ele ainda estava encolhido no chão.
Uau. Essa foi forte.
- Tchau, Rafinha.
Eu peguei a minha mochila, mas não fui rápida o suficiente para Rafinha, que se recuperou da joelhada e veio até mim, segurando meu braço.
- Espere, . Não vai embora agora.
Ha, ha. Claro que não.
- Eu quero ir embora, Rafinha. Larga meu braço.
Ele largou, mas me olhou com uma espécie de arrependimento, e disse:
- Pelo menos me deixe te levar para casa.
- Relaxa, Rafinha, eu sobrevivo. Tchau, e por favor não me procura mais.
E, antes que ele me impedisse, eu saí correndo da casa dele.
Capítulo 30
Eu não queria voltar para casa. Pela primeira vez, depois de alguma situação não-legal, eu não queria ficar sozinha. Foi por isso que eu liguei para Danny.
Ei, eu fiz isso em um impulso. Eu sei que eu não poderia pedir nada para Danny depois daquela coisa toda de “Jones, eu vou sair com Rafinha e ponto final”. Mas eu tinha certeza de que eu poderia contar com Danny. Ele é meu porto seguro.
- Loirinha? O que houve?
Como ele sabia que tinha havido alguma coisa? Credo.
- Nada de mais, Danny. Escuta... eu posso ir para sua casa?
Ele nem ao menos perguntou o porquê.
- Pode. Eu estou indo para lá.
- Brigada, Danny. Te vejo lá.
Eu pensei em como ia chegar até a casa de Danny; para ser sincera, o único tipo de transporte público que eu sabia usar era o táxi, e não estava passando nenhum naquela hora. Resolvi andar até encontrar alguma rua que conhecesse ou até que passasse um táxi, o que viesse primeiro. Acabou que o táxi venceu, e quando dei por mim, já estava na porta da casa de Danny.
Toquei a campainha, mas estranhamente ninguém atendeu. Achei isso estranho. Onde estavam os pais dele? E Vicky, a irmã?
Sentei no meio-fio, na esperança de que Danny chegasse logo e eu não precisasse ficar sozinha por muito tempo.
Minhas preces felizmente foram atendidas. Cerca de cinco minutos depois, Danny chegou e me olhou esquisito. Certo, eu não estava tão feia assim, ou estava?
- O que é isso no seu pescoço? – ele perguntou, parecendo meio engasgado.
Ótimo. Eu sabia que ia ficar uma marca.
Respirei fundo e me preparei para mentir.
- Nada, foi só que um mosquito me mordeu e estava coçando demais, eu acho que a minha unha provavelmente me arranhou e...
Danny me olhou numa mistura de exaspero com impaciência.
- Ah, claro, e eu sou o Bozo. Foi o Rafinha? Foi por isso que você foi embora de lá? – ele me perguntou num tom acusatório.
Eu suspirei e depois confirmei com a cabeça.
- Foi. Eu não queria ficar mais lá. Não pensando em você o tempo todo.
A pergunta é: de onde eu tirei coragem para falar isso?
Ele se sentou ao meu lado e me abraçou com um braço só.
- Ei, por que a gente dificulta tanto as coisas?
Eu sabia o porquê. Eu sabia que o que eu estava prestes a fazer era uma traição com uma das minhas amigas. Eu sabia que eu era a criatura mais desprezível do mundo.
Mas, ao mesmo tempo, eu não queria pensar naquilo. Não com Danny tão perto de mim. Tudo o que eu queria era esquecer meus problemas e me entregar. E foi que eu fiz.
E quando meus lábios tocaram nos de Danny, eu consegui exatamente o efeito que eu desejava. Eu só podia senti-los forçando os meus, só podia sentir a mão de Danny na minha cintura, me apertando contra seu corpo, e sua língua quente explorando minha boca sem pudor; tudo o que eu sentia era o desejo urgente que eu e Danny tínhamos um pelo outro.
E esse desejo era mais forte do que qualquer resquício de desejo que eu pude ter por Rafinha.
Quando o beijo se partiu, a única coisa que fiz foi olhar nos olhos azuis de Danny e tentar lê-los. Impossível.
Mas o sorriso que ele deu foi bastante legível. O sorriso dele, tão bonito, o sorriso que eu não me incomodaria nem um pouco de ver todos os minutos da minha vida.
Isso foi piegas, eu sei.
- Então – ele falou -, nós devíamos tentar fazer isso outras vezes.
Eu ri, e ele me abraçou de um jeito bem fofo.
De repente, ele se levantou e ficou na minha frente, parecendo agitado.
- Ei, . Eu tive uma idéia. Que tal você se levantar e vir comigo?
- Para onde?
- Confie em mim. Venha comigo – ele pediu e estendeu a mão.
É claro que eu ia com ele. Eu confiava minha vida nele. Foi por isso que eu segurei sua mão e Danny me puxou, para que eu levantasse.
E foi assim que nós fomos parar na praia.
Você sabe, eu já estava mais do que acostumada a ir à praia. Mas a praia nunca esteve tão deserta, e tão perfeita.
Feita sob medida para mim e para Danny.
Ele andou pela areia até chegar a um ponto aleatório, e então se sentou, me puxando junto. Eu sentei entre suas pernas, pensando em como isso era aconchegante.
- Aqui é tão bonito – eu comentei, mais para mim do que para Danny. Mas não é por isso que ele deixou de escutar.
- É – ele concordou. – Principalmente a essa hora, que não tem praticamente ninguém aqui.
Cara, como ele podia adivinhar o que eu estava pensando? Isso foi definitivamente assustador.
- ? – ele chamou. – Tenho que te fazer uma pergunta.
- Vai em frente – eu consenti, já imaginando qual seria a pergunta.
- Por que depois de me evitar durante tanto tempo você resolveu me procurar? Eu juro que a última coisa que eu esperava era receber aquele seu telefonema quando estava na garagem.
De repente, me bateu uma súbita preocupação.
- Ai, meu Deus. Você não interrompeu o ensaio só para vir se encontrar comigo não, né? Ai. Desculpa, desculpa mesmo, eu juro que eu não queria atrapalhar, mas é que eu esqueci completamente e...
Ele calou minha boca com a mão, rindo.
- Calma, . Você nem precisa se preocupar, acabou que não teve ensaio. É impossível ensaiar sem um baterista.
- O que houve com o Harry? – eu berrei. – Ele está bem?
Danny gargalhou mais ainda.
- Ele está ótimo. Melhor do que todos nós, até. Ele não pôde ensaiar porque sua irmã o deixou bastante ocupado.
Fiquei boquiaberta. É, a realmente não perdia tempo.
- Ah. Claro. Bom, eu meio que já imaginava, para falar a verdade.
- Eu também – Danny respondeu. –Não é de hoje que o Harry está de olho na . Mas você está fugindo da minha pergunta.
Nada a declarar. Eu estava mesmo.
- Ai, Deus. Eu sou péssima para falar o que eu sinto.
- Tenta, vai. Eu preciso escutar – ele pediu.
É POSSÍVEL NEGAR UM PEDIDO DESSES?
- Olha, Danny, tudo é muito complicado, sabe. Eu gosto de você há muito tempo, mas eu sempre pensei que você só gostava de mim como amiga, até porque nós somos amigos desde sempre. Depois você começou a namorar a , e as minhas suspeitas meio que foram confirmadas.
- Eu nunca gostei da... – ele começou a falar, mas eu interrompi.
- Danny, fica quieto, certo? Agora eu já comecei a falar, não dá para parar.
Ele concordou com a cabeça e me olhou com olhos muito sérios, esperando eu recomeçar a falar.
- Você passou um tempo meio distante da gente, e isso foi péssimo. Eu podia jurar que você amava mesmo a , ou então, porque você nos abandonaria daquela maneira? Até quando vocês terminaram, eu achei que você estava mal com isso tudo. A também estava super mal. Nós meio que viramos amigas, juntando o fato de jogarmos no mesmo time e termos você em comum. Tudo o que a sabia fazer era chorar, e eu tinha que estar ali para consolá-la. Era o meu papel.
Eu pausei por um momento. Era difícil para mim falar daquela maneira sobre tudo o que eu sofri. Dava aquele conhecido aperto no coração que eu tentava tanto evitar.
Mas eu tinha que continuar.
- Depois, eu li uma conversa entre você e a , na qual você dizia que gostava de mim. Eu passei aquela noite chorando, desesperada. A gente se gostava e não podia ficar junto, porque eu devia aquilo à . Ela realmente gosta de você, sabe.
Ele parecia compreensivo, mas não falou nada. Cumpriu a promessa de ficar calado, e por isso eu continuei.
- Mas enquanto eu tentava desesperadamente esquecer você, eu meio que exagerei na bebida e flertei descaradamente com o Rafinha na festa de sábado. Ainda tentando esquecer você, eu aceitei sair com ele hoje. Eu não sei se você entende a necessidade que eu tinha de esquecer você. Era te esquecer ou ficar sofrendo por alguém que eu não podia ter.
Ele assentiu com a cabeça, mas acho que estava meio que em choque, por isso continuou em silêncio.
- Mas hoje, quando o Rafinha e eu ficamos – eu achei que “nos agarrando” era muito forte, então ignorei esse detalhe -, eu só conseguia pensar no fato de que ele nem chegava aos seus pés. O que eu sentia por ele era pura atração, enquanto o que eu sinto por você é algo muito mais... é algo muito melhor do que pura atração física. Então eu o dispensei – melhor ignorar a parte de que eu tive que bater nele para ele me deixar ir – e a primeira coisa que pensei em fazer foi te ver. Eu precisava disso.
Ele me deu um beijo na bochecha e sussurrou no meu ouvido:
- Eu preciso de você.
E foi aí que as minhas lágrimas caíram. Eu também precisava dele. Mais do que tudo.
- Ei, loirinha. Eu tenho uma proposta a fazer.
Eu apenas o olhei, esperando que ele continuasse.
- Que tal nós esquecermos todos os problemas, pelo menos por hoje, e curtir um ao outro como nós tanto queremos fazer?
Eu concordei sem nem ao menos pensar.
- Eu só tenho uma última pergunta – ele disse, e dessa vez eu não pude imaginar o que ele iria perguntar. - Há quanto tempo você gosta de mim mais do que como um amigo?
Eu sorri com a lembrança.
- Desde o dia do show da banda cover dos Beatles.
Ele riu, e acrescentou:
- O mesmo para mim. Aquele foi um dos melhores dias da minha vida.
- Qual foi o melhor? – eu perguntei, curiosa.
- Esse – ele respondeu simplesmente. Eu senti minha garganta seca.
Uau. Então, eu era tudo isso para ele?
Incrível.
- Mas – ele disse -, para esse dia ficar melhor falta uma coisa.
- O quê? – Desta vez não era mais a curiosidade que me movia a fazer a pergunta, e sim a vontade que eu tinha de tornar aquele o melhor dia da vida dele de fato.
- Você entrar na água comigo – ele falou, com um sorriso maroto.
- Na água? Nem pensar, Danny, provavelmente está muito gelada e a praia está deserta, se eu me afogar não vai ter ninguém aqui para me ajudar a não morrer.
Ele se ajoelhou na minha frente e apoiou as mãos na areia de modo que nossos rostos ficaram bem próximos.
- , você realmente acha que eu deixaria você se afogar?
Eu considerei a possibilidade, sem pensar muito. A proximidade de Danny me fazia ficar nervosa.
Ah, os costumeiros calafrios.
- Não. Não acho. Quero dizer, eu sei nadar. Mas a água está fria. Vou morrer de hipotermia.
Ele continuou a me provocar.
- Sinceramente, você acha que eu deixaria você morrer de hipotermia? Nem está tão frio assim hoje, ou você não estaria usando esse vestido.
É verdade, total. A temperatura beirava os 27ºC, mais ou menos 80º Fahrenheit.,n/b: posso implicar com a minha autora e dizer que isso foi extremamente desnecessário? -q]
- Vou pegar um resfriado com as roupas molhadas. E eu não quero chegar em casa toda molhada.
- Nós podemos passar lá em casa, você toma um banho. Agora, do que você estava reclamando mesmo?
- Nada – eu suspirei.
- Então vamos – ele disse e se levantou. Ao ver minha indisposição para levantar, ele simplesmente me pegou no colo.
É, isso aí. Como se eu não pesasse mais do que um laptop ou coisa assim.
Quando ele entrou na água a ponto de sua cintura ficar submersa, ele falou:
- Vou mergulhar com você.
- Isso foi um pedido? – eu perguntei.
- Não, foi um aviso. No três. Um, dois, três.
Nós pegamos fôlego e mergulhamos. Abri os olhos debaixo da água e olhei para Danny, reparando que ele também mantinha os olhos bem abertos.
Eu sorri com aquela visão. Tudo parecia mais mágico debaixo da água; os contornos menos definidos, as cores mais opacas. Os olhos de Danny pareciam fundir com a água do mar, os cabelos revoltos dele pareciam flutuar. Tudo isso o tornava menos real, como se ele fosse um personagem de um livro de ficção. Ou um anjo.
Mas aí ele se aproximou de mim e me beijou, e eu pude constatar a realidade de Danny. E o fato de eu ter comprovado de que ele era real me deixou mais feliz do que tudo, e por isso eu pus meus braços em volta de seu pescoço e o beijei de volta.
E aquele beijo debaixo da água foi o melhor beijo da minha vida.
Rafinha estava errado. Ele nunca poderia me fazer tão feliz quanto Danny fazia.
Capítulo 31
Aquele crepúsculo foi o melhor da minha vida, com toda a certeza. Depois daquele beijo no mar, eu e Danny nos deitamos na areia e ficamos vendo o sol se pôr.
Incrível, mas o Sol nunca ia barrar a beleza de Danny.
E essa foi a primeira vez que eu e Danny passamos tanto tempo em silêncio. Não por falta do que falar, mas por falta de vontade de falar. Era muito melhor ficar em silêncio, apenas curtindo a presença de Danny. Curtindo o modo com que o peito dele subia e descia enquanto respirava, curtindo o modo com que seus dedos faziam desenhos irreconhecíveis no meu braço; curtindo o modo com que os lábios dele percorriam meu cabelo.
Mas o sol se pôs e nós tínhamos que ir embora.
Droga. Maldito sol.
O bom de morar perto da praia era o fato de poder ir e voltar andando. Isso defitinivamente era bom, considerando que eu podia voltar de mãos dadas com Danny até a casa dele. Sua mão era quente: dava uma sensação de proteção e conforto que há muito tempo eu não sentia.
A parte ruim era o fato de que, como nós demoramos um relevante tempo andando para casa, meu vestido branco cismou em grudar na minha perna, o que definitivamente não foi nada legal.
Assim que nós chegamos na casa dele, eu perguntei para Danny:
- Onde estão Kathy e Vicky? E seu pai?
Ele gargalhou e me repreendeu, mas ao mesmo tempo brincando:
- Se você passasse mais tempo comigo, saberia que eles foram viajar. Para um lugar bem interessante, aliás. Califórnia.
Meu país! Deus, que saudade de lá.
Mas, voltando, não era uma coincidência absurda o fato de meus pais terem ido viajar ao mesmo tempo que a família de Danny?
Credo. Esse tipo de coincidência me assusta. É o tipo de coisa que eu só apostaria que acontecesse em livros.
Mas, que seja.
Entramos na casa e eu fui direto tomar banho. O bom de meus pais não estarem em casa é o fato de que eu não teria que dar explicações a ninguém quando chegasse em casa de noite e ainda com o uniforme do colégio.
É claro, o uniforme seria bem útil se eu ao menos tivesse lembrado de levá-lo para o banheiro de Danny. Mas não, a idiota aqui esqueceu o uniforme dentro da mochila.
Grande, .
E foi assim que eu tive que sair de toalha do banheiro de Danny e por acaso me encontrei com ele deitado na cama, todo arrumadinho, num estado pós-banho.
- ? – ele se engasgou quando me viu naqueles trajes. Ou melhor, na falta de trajes apropriados. Era meio engraçado saber que eu causava essa reação nele.
E a parte não tão engraçada assim era o fato de que, há pouco tempo, ele me veria de toalha e não teria nenhuma reação estranha a isso.
Eu sei, eu sou estranha.
- Oi, Danny. Bom, desculpa pela toalha, mas é que eu totalmente esqueci a minha mochila e...
Ele riu com o meu embaraço.
- Tudo bem, loirinha. Aqui a mochila – e me entregou minha mochila preta de bolinhas brancas. Super fashion.
Corando mais uma vez, eu agradeci e entrei no banheiro novamente.
E, minutos depois, eu saí do banheiro mais uma vez, dessa vez vestida com o uniforme do colégio. Por sinal, nada fashion.
- Você está bonita – ele falou. E, por incrível que pareça, ele não estava brincando.
- Seu idiota. É assim que eu me visto todo santo dia para ir àquele inferno particular chamado de escola.
Ele pareceu ofendido.
- Ei! Não fale assim do colégio, ! Foi lá que nós nos conhecemos, você esqueceu?
Eu ri, sentando na beirada da cama.
- Não, não esqueci. É inesquecível quando vem um intrometido para roubar um dos seus fones só para escutar Beatles.
- Mas Beatles é um clássico! Não dava para não escutar!
- Ok, ok. Eu só aceito isso porque eu também amo os Beatles.
De repente ele chegou MUITO perto de mim, e eu pude sentir o cheiro do sabonete que ele tinha acabado de usar.
Muito bom. O cheiro natural dele era muito melhor do que qualquer 212 Men.
- Mais do que me ama?
Ok, a pergunta é: O QUE SE RESPONDE A UMA PERGUNTA DESSAS?
Melhor optar pela verdade.
- Não, e você sabe disso, Jones. Agora você pode parar de tentar me deixar constrangida?
- O quê, vai me dizer que eu não estou conseguindo?
Dãh.
- Está, Jones, e esse é o problema.
Ele gargalhou e me puxou pela cintura.
Droga, calafrios.
Pôs a boca no meu ouvido e sussurrou:
- “Close your eyes, and I’ll kiss you. Tomorrow I’ll miss you. Remember I’ll always be true…”
Beleza, é só umas das minhas músicas favoritas de todos os tempos. Numa boa, Danny com toda a certeza sabe como me ganhar. Nem é difícil, é só sussurrar All My Loving no meu ouvido que eu já fico tonta.
Bom, o fato é: eu total fiz o que ele mandou.
Fechei os olhos, e ele não me decepcionou: me deu um beijo daqueles de tirar o fôlego.
Nossas línguas brincavam como se fossem conhecidas há muito tempo. Ele aplicava muita força nos lábios, e sua mão em minha cintura deslizava por debaixo da minha blusa, acariciando minhas costas. Eu não deixei barato: pus minhas mãos sob a camisa dele e dei leves arranhões em suas costas, sentindo-o ficar arrepiado com o meu toque.
Depois de um tempo, o beijo se quebrou, e eu sussurrei, meio sem fôlego:
- Sabe, Danny, acho que é hora de ir para casa.
Ele concordou levemente, mas sem parecer estar gostando daquilo.
Eu ri com a expressão insatisfeita dele. Extremamente engraçadinho. E fofo, muito fofo.
Mas apesar da resignação, ele se levantou e estendeu a mão para mim.
- Vamos – ele resmungou, me fazendo rir mais ainda.
- Ai, Danny, você não precisa ir, de verdade. Eu vou sozinha, não tem problema.
Ele me olhou meio irritado.
- Você está maluca? Devem ser umas oito horas. Não vou deixar você voltar sozinha para casa.
- Jones, a pergunta é: VOCÊ está maluco? Para começar, porque ainda são sete e meia. Depois, porque eu SEMPRE voltei para casa sozinha, qual é o problema?
- O problema é que antes eu não tinha que te proteger de tarados alheios. E não me olha com essa cara de impaciência, eu vou com você e pronto.
- Danny, mas isso é absolutamente desnecessário! Olha, sua casa não fica nem há vinte minutos de distância da minha.
- Não importa. Além do mais, o que os seus pais vão pensar? Que eu te deixo sozinha e pronto?
- Meus pais não vão pensar nada, porque eles nem estão aqui. Viajaram.
Ele pareceu realmente surpreso.
- Nossa. Que coincidência.
- Também achei – eu admiti.
- De qualquer modo, não adianta discutir, . Vou te levar para casa e acabou o assunto.
Não adiantava discutir realmente, eu percebi. Deus, às vezes Danny pode ser tão teimoso.
Saímos da casa dele de mãos dadas: ele fazia carinho na minha mão e nós andávamos como se fôssemos namorados de longa data. Enquanto estávamos passando por uma pracinha, uma senhora comentou com o marido:
- Tão lindo, esses dois juntos... parecem conosco há alguns anos, não é, meu velho...
Isso me deixou muito vermelha, e eu fiz menção de soltar a mão de Danny. Mas quem apostou que ele não largou minha mão, ganhou totalmente.
Fiquei imaginando eu e Danny quando ficássemos velhos. Sei que isso soa muito idiota, mas eu não podia deixar de sonhar.
- Eu vou querer ter quinze filhos – ele falou repentinamente. – Um time de futebol e...
- Uma banda – eu completei. – É claro. Os meninos jogam futebol e as meninas montam uma banda só para elas, com uma baterista, uma baixista, uma guitarrista e uma vocalista.
- Mas por que a guitarrista não pode ser também vocalista? – ele perguntou, inconformado.
Eu gargalhei depois daquela.
- Danny, nem todos nós podemos ser tão talentosos a ponto de ter uma voz linda E sabermos tocar guitarra.
Ele riu junto comigo, mas logo em seguida completou:
- Isso por acaso é um elogio?
- É – eu respondi simplesmente. – Um dos grandes.
- Mas a filha que herdar a minha voz pode ser ensinada a tocar guitarra, eu e Tom não vamos nos incomodar. E Harry ensinará bateria para a baterista, Dougie ensinará baixo para a baixista. E a que herdar o seu dom para a flauta pode aprender piano com o Tom também.
Até então eu não tinha reparado que nós estávamos falando sobre supostos futuros filhos entre nós dois. Mas quando ele disse que uma das filhas ia herdar a voz dele e a outra, o meu talento para a flauta, eu captei tudo rapidamente.
Isso me deixou mais embaraçada do que a senhora da pracinha. Principalmente pelo fato de que, em meu íntimo, eu desejava que aquelas previsões todas estivessem corretas. Ao mesmo tempo, era tudo muito impressionante, aquela coisa toda de quinze filhos e tal. Quero dizer, aquilo tudo era idéia minha!
Eu fiquei em silêncio depois daquela constatação, e Danny fez o mesmo. Chegamos em frente à minha casa e eu percebi que as luzes estavam ainda apagadas. Das duas, uma: ou ainda não tinha chegado em casa, ou ela já tinha chegado e estava com Harry. Eu preferi mais do que tudo acreditar na primeira opção.
Ei. Não é que eu ache minha irmã tão fácil assim, mas você sabe com são as coisas, o Harry é bastante gostoso e os hormônios adolescentes só perdem para os das grávidas no quesito “bipolaridade”. Ou sei lá, talvez polipolaridade. Tá, eu sei que isso não existe. Ok, calei.
- Parece que as coisas entre Harry e estão divertidas. Ela ainda nem chegou em casa.
Ótimo. Primeira teoria.
- É – eu concordei. – Então, te vejo amanhã? – perguntei. Mas que pergunta idiota, hein, ? Tipo, HELLO, ele estuda no mesmo colégio que você, e SEXTA-FEIRA É DIA DE AULA.
- É, com certeza. Tchau, loirinha – ele disse, e se inclinou para me dar um selinho. Correspondido por mim, é claro.
Eu andei até a porta de entrada, e reparei que Danny ficou me olhando enquanto eu abria a porta. Entrei em casa e, antes de fechar totalmente a porta pelo lado de dentro, acenei com a mão.
Mas em vez de ele acenar de volta, e berrou: - !
Eu interrompi meu ato de fechar a porta e o observei correr até a porta da minha casa. Ele chegou até bem perto de mim e falou:
- Sabe, apesar do que eu disse antes, eu realmente duvido que o pôr-do-sol do Harry tenha sido melhor do que o meu.
E, com um beijo na minha bochecha direita, ele virou as costas e saiu andando.
E, com um último sorriso, eu fechei a porta.
Capítulo 32
- Meus Deus, foi perfeito.
- Posso imaginar, . Você sabe, Harry é muito legal.
- Mais do que legal! Ele é perfeito! , ele é tão carinhoso, tão fofo, sabe?
- Sei – eu respondi. Para falar é verdade, era meio embaraçoso escutar minha irmã gêmea idêntica falando assim de Harry.
Mas isso foi só um comentário.
- E os meninos tocam tão bem, !
Eu gargalhei.
- , Danny me disse que eles nem ao menos ensaiaram, porque você deixou o baterista muito ocupado.
- Calúnia! Eles ensaiaram uma música, okay?
- Que música foi? – eu perguntei, interessada.
- Não sei o nome – respondeu. Ótimo. Já sei que ela é uma péssima informante.
EU QUERO SABER O QUANTO DO ENSAIO EU PERDI COM O IDIOTA DO RAFINHA!
Ok, não foi tão ruim assim. Se não fosse pelo idiota do Rafinha, eu não teria passado aquele crepúsculo maravilhoso junto com Danny.
Logo: Rafinha, eu te amo.
Calma, , não é para tanto.
- !
- O que foi, ? – Ok, eu admito. Viajei por um momento.
- Você não escutou o que eu falei?
- Bom, sendo sincera, , não.
- Onde você estava com a cabeça? – ela perguntou, rindo.
- Bom, nas nuvens é que não era.
- Eu não ia falar sobre as nuvens. Eu ia chutar um palpite mais aceitável: Danny Jones – ela completou, com um sorriso perverso.
Ela às vezes me assusta, total.
Eu me engasguei e respondi apressadamente:
- Não sei do que você está falando.
- Ah, por favor, , não se faça de idiota. Nós estávamos lá quando Danny recebeu a ligação. Aliás, Dougie, Tom e Harry ficaram preocupados. Na verdade, eu meio que achei que os três iam ter uma embolia. Eles REALMENTE cuidam de você, não é? Porque o que eu mais escutei hoje à tarde foram reclamações do tipo: “Eu odeio quando a não nos ouve!”, ou então: “Ela às vezes parece que não tem nenhum juízo na cabeça!”.
Eu quase chorei com aquilo. Deus, eu amo muito os meus amigos, fato.
- É. Eu sou como a irmã mais nova deles.
- Mas Dougie não tem a nossa idade?
- Tem – eu confirmei. – Mas Dougie não tem tanta responsabilidade assim. Ele é mais como meu irmão mais novo.
discordou.
- Sabe, pelo o que eu percebi, Dougie pode ser bem idiota, mas quando se trata de você ou da , ele se torna mais responsável. Tom é excessivamente responsável o tempo todo, menos quando dá uns ataques infantis. Harry é o mais carinhoso, mas eu acho que eu sou suspeita de falar – ela completou, sorrindo. – E Danny... , como Danny gosta de você. Chega a ser irritante.
- Hum... É. Escuta, o que você ia falar mesmo?
- Ah, é porque eu já decidi sobre o nosso Sweet Sixteen!
COMO É QUE É?
- Pára tudo, ! Que Sweet Sixteen?
me olhou impacientemente.
- Ok, , eu sei que já está meio em cima da hora, mas eu já liguei para papai e ele disse que vai assinar o cheque.
- Mas, ! Eu não quero nenhum Sweet Sixteen!
- Mas eu quero, ! Olha, no ano passado você não quis fazer festa de quinze anos, mas me prometeu que íamos fazer nossa Sweet Sixteen Party, como se fosse lá no nosso país!
Dude, como eu pude ter me esquecido?
O caso foi o seguinte: no ano anterior estava insistindo para nós fazermos uma festa de debutantes. Eu me recusei, total, até porque acho isso a maior palhaçada. Mas ela não queria aceitar, então eu prometi a ela que nós íamos fazer nossa festa de dezesseis anos do jeito que ela quisesse, tudo para me livrar dela.
E agora olha a furada na qual eu me meti!!!
Ferrou total.
- Mas, ... Por favor. É sério, eu imploro. Eu definitivamente não quero nenhuma festa!
- Ah, , eu é que imploro! Não dá para fazer uma festa sem você, e você sabe disso! E a festa vai ser tão linda, nós duas como princesas descoladas entrando numa carruagem puxada por quatro cavalos brancos...
Eu olhei nos olhos de , que definitivamente estavam brilhando, e amoleci.
Cara, que tipo de pessoa PATÉTICA eu sou? Só olhar para a cara de pidona da minha irmã que eu aceito completamente tudo o que ela pede?
- Okay, . Eu aceito fazer a tal festa.
- Eba! – ela berrou, em êxtase.
- Mas, com uma condição.
Ela me olhou surpresa e curiosa ao mesmo tempo.
- O quê?
Eu suspirei e falei:
- Olha, , na verdade, eu não quero festa nenhuma, eu estou fazendo isso por você. Então, tudo o que eu tenho a pedir é para me deixar fora desse lance de organização da festa e pans. Eu realmente não tenho saco para esse tipo de coisa.
- Tudo bem, . Deixe as coisas por minha conta, e só garanta estar linda no dia da festa.
Legal. Realmente ótimo. Festa de dezesseis anos no maior estilo de filmes americanos. Tudo o que eu precisava.
Não.
Ai, ai. Como papai e mamãe se certificaram que não haveria bebida em casa na ausência de algum adulto responsável, a decisão que eu tomei foi: afogar as mágoas no computador.
Liguei o laptop e, para começar, entrei no meu site de compras favorito. Passei horas gastando dinheiro em frente à telinha do laptop, comprando muito mais do que o necessário. Dentre blusas, casacos, maquiagem, filmes, CDs, revistas e livros, a coisa mais interessante que eu comprei foi uma coleção de livros de uma autora chamada Stephenie Meyer. O primeiro livro da série se chamava Crepúsculo, e pareceu bastante apropriado para eu ler depois da tarde anterior.
Logo no final das minhas compras, recebi uma mensagem instantânea.
Dougster: Porra, , POR ONDE VC ANDOU?
SoccerQueen: Oi para vc também, Doug. Como vão as coisas? Também senti sua falta.
Dougster: Vc é ridícula, , espero que saiba disso. E não faça doce, pelo amor de Deus. Você sabe que fez falta no ensaio hoje.
Engoli em seco.
SoccerQueen: Não estou fazendo doce coisíssima nenhuma, anão. E, se vc quiser saber, eu SENTI falta de ver o ensaio hoje, certo?
Dougster: Certo, GIGANTA. E depois nos mata de preocupação quando liga daquele jeito para o Danny.
Mono-dimple: log on
Mono-dimple: , sua retardada! O que vc pensou quando ligou para o Danny daquele jeito e nos matou de preocupação?
Credo. Pessoas estressadas.
SoccerQueen: Vcs se preocuparam à toa. Eu não sei se vc sabe, mas eu sei me virar muito bem sozinha.
Mono-dimple: Não, não sabe. Tanto não sabe que precisou do Danny hoje à tarde.
GOLPE BAIXO, TOM!
SoccerQueen: Olha, hoje à tarde foi um lapso, certo?
Dougster: Não foi nada, . A sorte é que Danny podia ir te ajudar. Aliás, o que aconteceu hoje? Danny parecia excessivamente feliz quando eu falei com ele pelo telefone.
Mono-dimple: É, ele estava insuportavelmente satisfeito.
SoccerQueen: Mesmo?
Dougster: Não enrola, loirinha. O que aconteceu hoje à tarde?
SoccerQueen: Nada, seu curioso.
Mono-dimple: É, e eu sou o Luke Skywalker. Conta logo, .
SoccerQueen: Nada mesmo. O Danny me levou para a praia para me acalmar.
Dougster: E por que você precisava se acalmar? O que aquele playboyzinho da Sandler fez com vc?
Eita. Dá para parar de ler meus pensamentos, Dougie?
SoccerQueen: Ele só ficou um pouco entusiasmado demais, isso é tudo.
Fez-se o caos.
Ao mesmo tempo que meu celular começou a tocar, o telefone de casa tocou também.
Eu fui atender o celular, deixando o telefone por conta da minha irmã, e percebi que era Dougie por causa da foto no visor do celular.
- Fala, Dougie.
- O QUE EXATAMENTE AQUELE CARA FEZ COM VOCÊ?
Nossa, que cara encanado o Dougie.
- Dougie, você tem que relaxar, de verdade. Não aconteceu nada demais, o Rafinha apenas me agarrou e eu tive que dar um chute entre as pernas dele para ele me soltar, mas foi só. Ah, espere aí – eu pedi, quando escutei me gritando.
- O que foi, ? – berrei de volta.
- Telefone para você – ela disse, entrando no quarto e me entregando o aparelho.
Eu voltei para o celular.
- Calma aí, Doug, te ligo daqui a pouco.
- Mas...
- Beijo, Dougie, prometo que te ligo mais tarde – e desliguei o celular, passando para o outro telefone.
- Alô?
- O QUE VOCÊ QUIS DIZER COM “ELE FICOU UM POUCO ENTUSIASMADO DEMAIS?”?
- Nada, Tom.
- O QUE AQUELE IDIOTA FEZ COM VOCÊ?
- Tom, calma. Ele só meio que me agarrou, mas eu dei um belo chute entre as pernas dele e depois saí da casa dele, certo?
- Como assim, você estava na casa dele?
- É, Tom, como eu vou para sua casa, ou a casa de Harry ou a do...
- Mas isso é completamente diferente, ! Você não pode sair por aí indo para a casa de meninos desconhecidos e...
- Mas eu conhecia o Rafinha, Tom.
- Não do jeito que conhece a gente.
- Tá, Tominus, eu entendi o recado. Tenho que ir, o celular tá tocando, beijo.
Mas que sufoco! Atendi o celular, sem nem ao menos olhar para o visor.
- Oi.
- , me conta essa história direito de você ter se agarrado com o tal do Rafael! – eu escutei Harry falando, com raiva.
Cara, quanta marcação!
- Ai, Judd, não foi nada demais, quem te falou isso?
- O Dougie, é claro. Ele acabou de me ligar. Agora dá pra explicar essa história direito?
- Meu Deus, não aconteceu nada, você, Tom e Dougie estão fazendo uma tempestade num copo d’água. Faça algo de melhor proveito e ligue para minha irmã, Harold.
Silêncio.
- Nossa, você já está sabendo?
- Claro. Harry, eu vou desligar, vê se esfria a cabeça e liga para a .
E desliguei.
Mas ainda não tinha acabado. Afinal de contas, eu tinha prometido que ligaria para Dougie.
E eu não costumo quebrar promessas.
Bom, não muitas, de qualquer maneira.
- Oi, .
- Mais calmo agora, Poynter?
- Não – ele resmungou.
- Ah, Dougie, pára de fazer doce.
- Não estou fazendo doce.
- Está sim, é uma super glicose anal.
- Ai, , é que todos nós ficamos preocupados com você.
- Não sei porque. Vocês não ficam no pé da o tempo todo.
Ele gargalhou do outro lado da linha.
- A sabe se cuidar três vezes mais do que você.
- Não é verdade! – eu me defendi. – Sabe, às vezes eu acho que vocês se preocupam demais comigo e se esquecem da . Vocês nem se preocuparam com o fato de que a está namorando um cara do terceiro ano, mas ficam nessa palhaçada toda comigo.
- A O QUÊ?
Opa.
Eu e minha língua enorme.
- Esquece o que eu falei, sério. Olha, a última coisa que eu preciso é brigar ainda mais com a , e se ela descobrir que eu deixei escapar para você, eu perco minha amiga para sempre, por favor, Dougie.
- Mas quem é o cara?
- Não vou falar.
- Mas, , isso que você está falando é sério, eu não confio nesses caras do terceiro ano, não com a ruiva, nem pensar. Espera, eu tenho que falar com Danny sobre isso, como assim, namorando e...
Ok, isso é problema.
- Dougie! Por favor! Não fale a ninguém sobre isso.
- Mas eu não posso deixar isso assim! , nós estamos falando da .
- Por favor, Doug. Pelo menos até amanhã. Aí a gente conversa.
Silêncio.
- Tá – ele concordou, parecendo emburrado.
- Beijo, Dougie, amo você. Até amanhã. Tenho montes de coisas a falar sobre a .
- Tá bom. Te vejo amanhã. Amo você também, beijo.
E assim ele desligou o telefone. Finalmente.
Mal desliguei o celular, ele tocou novamente.
MAS QUE DROGA! NÃO POSSO TER UM MINUTO EM PAZ?
Quando olhei no visor, vi que era e me assustei. O que Dougie tinha feito?
- Alô? – atendi, temerosa.
- , nós precisamos conversar. Mesmo.
- Certo. Estou indo para aí.
Eu saí correndo de casa, e em menos de dois minutos já estava no quarto de .
- Fala, . O que você quer comigo?
Ela suspirou pesadamente.
- Eu sinto sua falta, . Você não é mais a mesma. E eu acho que nem eu sou mais a mesma. Sabe, desde que você falou com o Rafinha, ontem, o Danny ficou bastante mal, e eu totalmente o apoiei.
Eu baixei a cabeça, consternada. Eu sabia de tudo isso.
- Ele acabou de me ligar, sabe – ela se sentou na cama e me encarou. - Contou sobre essa tarde.
Eu senti o sangue subir ao rosto. Droga. Eu sempre fico vermelha.
- Hum – foi tudo o que saiu de minha boca.
- Eu decidi uma coisa: não me importa mais a sua vida e a vida do Danny, vocês é que decidem o que vão fazer. Mas eu vou estar por perto se você precisar de um ombro amigo.
Uau. Isso sim é uma mudança de atitude.
- Obrigada, .
- Não me chama de .
Eu ri.
- Ok, – eu consertei, dando ênfase à última palavra.
Ela riu também.
- E como andam as coisas com o Luiz Felipe? – eu perguntei, me sentando na cama também.
E nós ficamos conversando sobre os músculos do Luiz Felipe até dar cerca de meia-noite e a aparecer para me tirar da casa de , reclamando que queria companhia.
Capítulo 33
Ninguém pode me acusar de violência sem motivo.
Tudo bem, violenta? Um pouquinho.
MAS EU TENHO OS MEUS MOTIVOS.
Quem mandou o idiota do despertador tocar NAQUELA HORA?
Bom, considerando que fui EU quem programou o despertador, a culpa é toda minha.
Mas, olha só. Não é toda noite que eu tenho um sonho daqueles. E, na MELHOR PARTE o despertador toca?
Ele totalmente mereceu ser estraçalhado pela minha mão.
Você pode se perguntar qual era meu sonho, mas você também já deve saber, logo não faz sentido nenhum eu contar que estava sonhando com Danny.
Ops. Contei.
Ah, mas que seja.
Eu levantei, já meio brava, e fui tomar meu banho quente. Enquanto deixava a água quente cair em meu rosto, tentava resgatar o sonho no meu cérebro. Inútil. Eu sempre fui péssima para lembrar-me claramente dos meus sonhos.
Não sei quanto tempo demorei tomando banho, só sei que estava nervosa à porta, socando-a furiosamente.
- , pelo amor de Deus! Sai desse banheiro! Nós vamos chegar atrasados!
Peraí, “atrasados”?
A explicação para o adjetivo usado no gênero masculino foi dada um segundo depois.
- , por favor! – eu escutei Harry falando também, menos alterado do que minha irmã.
Mas como é que é?
Eu sou amiga de Harry há quase quatro anos, e Harry só passou na minha casa de manhã umas cinco vezes. Agora é só Harry dar uns pegas na minha irmã que no dia seguinte ele aparece?
Já estava com raiva por causa do sonho. Depois daquilo, minha cabeça ferveu, total.
- Eu já estou saindo! Harry, você pode sair do meu quarto? – eu berrei.
Não quis nem saber se ele realmente já tinha saído do meu quarto, simplesmente me enrolei na toalha e saí do banheiro. Para minha sorte (e sorte do Judd também), Harry e já tinham ido embora.
Você deve estar achando que eu estava com ciúmes.
E DAÍ? ESTAVA MESMO!
Coloquei o uniforme de qualquer maneira, sem realmente me importar com a minha aparência. Nossa, eu já tinha despertado com o pé esquerdo.
Arrumei a minha mochila, e percebi que ela estava pesada. Ótimo, dor nas costas era tudo o que eu precisava.
Desci as escadas correndo. Quando estava no quarto degrau, percebi que tinha esquecido a gravata.
Merda.
Amaldiçoando o uniforme ridículo que a escola nos obrigava a usar, larguei a mochila na escada e voltei para o quarto. Coloquei a gravata de uma forma muito mal-feita, mas não me importava de verdade.
Quando recomecei a descer as escadas (correndo, para variar), escutei as risadas de Tom, Harry e Dougie.
COMO É QUE É? ALÉM DE HARRY, MINHA IRMÃ TINHA ROUBADO TODOS OS MEUS AMIGOS?
No susto e raiva, aconteceu o que faltava para coroar minha manhã: tropecei nos meus próprios pés e rolei escada abaixo.
REALMENTE ÓTIMO.
Quando cheguei ao primeiro andar, senti a dor aguda nas costas e na cabeça. Senti minha canela arder e quando olhei, vi que tinha ganhado um machucado aberto na perna.
- ! – escutei Tom gritando, ao mesmo tempo em que sentia Dougie se ajoelhando ao meu lado.
Como eu sabia que era Dougie? Não me pergunte.
- Ei, , você está bem? – Dougie perguntou baixinho.
- Estou. Ai. Me ajuda a levantar, Doug.
Dougie segurou meu braço com uma das mãos e com a outra me levantou pela cintura, depois me fez sentar no sofá e começou a observar meu machucado. Tom pegou minha mochila, que até então estava largada nos degraus da escada. Harry e apenas me olhavam.
- Tudo bem aí, ? – perguntou Harry.
- Aham – respondi, seca. Ainda não tinha superado aquela coisa toda.
- Mesmo? – ele insistiu, mesmo que À distância.
- Já disse que estou, ok, Harry!
A campainha tocou.
Numa boa, os fatos estavam ocorrendo tão sucessivamente que eu não consegui nem assimilá-los direito.
foi atender a porta e depois de alguns segundos e Danny entraram em casa, ainda falando:
- Mas por quê vocês ainda estão em casa a essa hora, a gente vai se atrasar e...
Ela calou a boca quando viu meu machucado.
- Mas o que aconteceu aqui?
Então Danny veio correndo até onde eu e Dougie estávamos. Ele se ajoelhou na minha frente e segurou a minha perna, para olhar melhor o machucado. Parecia preocupado, de uma forma fofa.
- Acho que é melhor te levar para o médico, – ele falou, os olhos azuis inquietos e a testa franzida.
Eu ri.
- Pelo amor de Deus, é só um arranhão, Danny.
Tom se intrometeu.
- Acho que o Danny está certo dessa vez, . Você rolou a escada, pode ter tido uma concussão.
O que era aquilo agora, complô?
- Se eu tivesse uma concussão, estaria sentindo, né, Fletcher? Eu não vou ao médico coisíssima nenhuma. Aliás, nós estamos mais do que atrasados para a escola.
Tom me olhou com uma expressão desconfiada, mas não comentou nada. Dougie, que estava calado, apenas observando minha perna, sacudiu a cabeça como se estivesse espantando uma mosca, e me perguntou:
- Você tem certeza que não está doendo?
Eu apertei as bochechas dele.
- Tenho, Dougie. Só a perna está ardendo um pouco, mas eu vou fazer um curativo e...
- Eu faço – afirmou Danny.
Eu olhei nos olhos dele. Erro meu.
Tentando recuperar o fôlego, falei de uma vez:
- EU faço, Danny, não tem problema nenhum, e vocês vão se atrasar mais ainda se continuarem aqui. Não quero que vocês se atrasem por culpa minha, sabe. Vocês podem ir e eu faço o curativo, daqui a pouco eu chego lá no colégio.
Danny riu sarcasticamente.
- Tá, se você acha que vai ficar sozinha está muito enganada, . – E, virando para os outros: - Vocês podem ir, eu faço o curativo na perna da e a levo para a segunda aula.
MAS COMO É QUE É?
E A MINHA OPINIÃO, COMO É QUE FICA?
Mas antes que eu pudesse intervir, veio com essa:
- Gente, vamos fazer o que o Danny disse, vamos para a aula...
E Dougie interrompeu:
- Tá louca?
mandou a Dougie um olhar de não-fale-do-que-não-sabe e concluiu:
- Agora. VAMOS!
Dougie pareceu meio assustado, mas não discutiu. Tom seguiu seu exemplo e os três saíram da casa. Harry me mandou um olhar estranho, indecifrável, antes de o puxar para a porta de casa. Assim que a porta bateu o ar ficou mais quente por causa do vento que tinha parado de entrar. Isso ou o fato de eu estar sozinha em casa com Danny.
- Onde tem curativo, ? – Danny perguntou, não parecendo estar tão alterado quanto eu com o fato de estarmos sozinhos.
Desperta do transe em que estava enquanto via os lábios dele se mexendo, eu respondi, num sussurro:
- No armário do banheiro aqui do primeiro andar.
Minha voz saiu fraca, provavelmente representando como eu estava no momento.
Ele se levantou e seu corpo sumiu da minha vista quando ele entrou no corredor pouco iluminado.
Muitas coisas passavam pela minha cabeça. Eu tinha caído da escada. Isso foi sorte ou azar?
Danny não demorou muito para chegar à sala com gaze, esparadrapo, algodão e um vidrinho contendo um líquido estranho que eu supus que ele fosse passar na minha perna.
Ele se sentou com as pernas cruzadas no chão em frente ao sofá onde eu ainda estava sentada. Embebeu um chumaço de algodão no líquido contido no vidrinho e começou a passar em cima do machucado.
Os movimentos dele foram os mais suaves possíveis. A ardência que houve na reação do meu machucado ao líquido não foi nada comparada ao que eu sentia enquanto Danny acariciava meu ferimento.
Fechei os olhos, aproveitando cada segundo. Nunca tinha gostado tanto de ser cuidada por alguém.
Assim que ele tirou o algodão da minha pele, eu reabri os olhos; Danny estava sorrindo enquanto cortava a gaze em um tamanho ideal.
- Por que você está sorrindo? – eu perguntei, a curiosidade como sempre me atiçando.
- Você, de olhos fechados – ele respondeu simplesmente, e eu senti o rosto ficar quente.
- Você acha isso justo? – eu perguntei, com um pouco de irritação.
- Isso o quê?
- Esse efeito que você tem sobre mim enquanto está simplesmente cuidando da minha perna.
- Acho – ele falou. - Na verdade, acho que continua injusto para mim.
- Não entendi – eu disse, e não tinha entendido mesmo.
Ele parou de mexer na gaze e no esparadrapo e olhou no fundo dos meus olhos.
Aquilo também não era justo.
- , isso que você acabou de sentir é o que eu sinto o dia todo por você. Logo, ainda é muito, muito injusto para mim.
Eu senti o rosto ficar mais quente do que o normal.
Na verdade, eu não achei aquilo muito possível. Danny Jones nunca iria se sentir DAQUELE JEITO por . Ele simplesmente não sabia do que estava falando.
Quando ele percebeu que eu não ia responder nada, voltou ao trabalho de grudar o esparadrapo na gaze. Enquanto ele estava colocando aquilo em cima do meu machucado, eu questionei:
- Você sabe que eu sou perfeitamente capaz de cuidar da minha perna sozinha, não sabe?
- Sei – ele respondeu, rindo. - Mas eu tinha que ter uma desculpa para ficar sozinho com você.
POR QUE ELE CONSEGUIA ME DEIXAR TÃO ENVERGONHADA?
- Você gosta de me deixar constrangida, né?
- Adoro – ele confirmou.
- Mas por quêêêêêêê?
- Eu já disse, tudo isso é muito injusto comigo. Quando você fica constrangida, eu tenho a sensação de ter mais poder sobre você.
- Você TEM poder sobre mim – eu resmunguei.
Ele terminou de colocar a gaze na minha perna e levantou do chão, só para depois sentar-se no sofá ao meu lado.
Eu não agüentava mais um mínimo de distância de Danny. Cada segundo sem contato com a pele dele era um segundo morto. Por isso, eu fiz o que cada célula do meu corpo pedia, e me inclinei para beijá-lo.
Danny me puxou pela cintura, de modo que meu corpo ficasse sobre o dele, e me beijou de volta tão intensamente que eu achei que ia sufocar. De um jeito bom, claro. Não me importaria de morrer sufocada se fosse DAQUELE JEITO, nos braços de Danny.
E nós nos atrasaríamos para a segunda aula, se não fosse o relógio a apitar na hora certa.
Ou errada, dependendo do ponto de vista.
Capítulo 34
- Eu juro para vocês que esse foi o curativo mais demorado de toda a História – falou Dougie, assim que encontrou comigo e com Danny.
Eu larguei a mão de Danny imediatamente, sem nenhuma resistência, para minha surpresa. Fiquei preocupada que Dougie tivesse visto o movimento, mas felizmente ele não percebeu nada.
- E essa foi a piada menos engraçada de toda a História, Dougie – eu respondi. - Aliás, o que você está fazendo aqui, sozinho, na hora de aula?
Tínhamos nos encontrado com Dougie no meio do pátio, um pouco antes da segunda aula. Isso não era nem um pouco estranho, devido ao fato de que Dougie era o “pegador-mor” da escola. Tenho certeza absoluta que ele tinha acabado de se agarrar com alguma menina mais nova – eram as preferidas dele.
– O mesmo que vocês estiveram fazendo esse tempo todo, óbvio – ele respondeu, parecendo divertido e impaciente ao mesmo tempo.
Eu me engasguei com a minha própria saliva.
– C-como é q-que é? – eu questionei, entre tossidas. Dougie riu e, para meu total espanto, Danny riu também.
– Se você continuar a vai morrer, Dougie – falou Danny, ainda rindo.
Peraí, acho que eu perdi alguma coisa.
QUAL É A GRAÇA?
Eu podia sentir meu rosto esquentando à medida que o sangue subia. Merda, ia ficar vermelha outra vez.
– Danny, se você fizer a chorar de novo, é um homem morto, fato – ameaçou Dougie, me fazendo ficar mais vermelha ainda, se é que isso era possível. Felizmente eu já tinha me recuperado do meu acesso de tosse, ou ia parecer que estava tendo um ataque: vermelha como um pimentão e parecendo que ia cuspir o pulmão para fora.
Nada agradável.
– Como assim, chorar de novo? – Danny perguntou, franzindo a testa.
Eu fuzilei Dougie com os olhos, e ele engoliu seco.
Ai, se aquele moleque abre a boca.
Naquele momento o sinal tocou e as turmas foram liberadas para o intervalo. Nessa pequena distração, Dougie teve tempo para criar uma desculpa, por mais idiota que fosse:
– Uh, Danny, você conhece a . Chora por tudo - o que nem é verdade, mas tudo bem. – Chorou até no dia que você terminou com a , e supostamente ela devia ter ficado feliz.
MEU DEUS.
A .
Tinha me esquecido completamente dela.
Jesus, eu realmente estava ficando com o ex-namorado da minha amiga. Ex-namorado pelo qual a amiga ainda é apaixonada.
Eu tornei a me engasgar com a própria saliva e, considerando que já estava vermelha, minha aparência provavelmente ERA de uma pessoa que estava tendo um ataque.
Eu estava.
EU ESTAVA TENDO UM ATAQUE.
– , você está bem? – perguntou Danny, meio que me abraçando com um dos braços.
Braço este que eu imediatamente tirei do meu ombro.
Eu estava surtando. E se alguém me visse abraçada a Danny? E se alguém tivesse escutado o que Dougie tinha dito? Pior, e se tivesse escutado?
PIOR AINDA, e se tivesse escutado?
De qualquer forma, eu estava muito ferrada.
Muito.
Realmente.
Foi por isso que, assim que meu ataque de tosse melhorou relativamente, eu me despedi dos meninos e comecei a correr em direção à sala de aula.
Mas o meu plano de chegar na minha sala calmamente, sentar na minha cadeira e começar a escutar Blink no iPod foi totalmente frustrado quando eu percebi que a sala não estava vazia.
E quando eu vi QUEM estava na sala, pensei um palavrão. Mas eu sou uma menina muito educada e não vou reproduzí-lo aqui.
Mas é uma coisa meio traumatizante quando você vê sua irmã gêmea e seu melhor amigo (ou pelo menos, um dos) se agarrando em cima da mesa do professor.
Certo, eles não estavam fazendo nada de mais, se é que você me entende.
Mas, mesmo assim...
Muito traumatizante.
E triste, também. Acabo de perceber que Harry não estava passando o intervalo com seus amigos, e sim com sua... Bom, sei lá o que era de Harry.
E, apesar de eu ter dado todo o apoio para que e Harry ficassem juntos, eu não podia evitar o pensamento de que ela estava roubando meu amigo de mim.
Por isso, quando eu vi os dois se pegando, eu dei meia-volta e fui embora, sem que eles percebessem.
Graças a Deus. Porque, é claro, mais constrangedor do que ver sua irmã e seu melhor amigo no maior amasso é ELES SABEREM QUE VOCÊ OS VIU NO MAIOR AMASSO.
Humilhante.
Os gregos dizem que você nunca deve pensar que nada de pior pode acontecer, porque, se você pensar isso, AÍ SIM que acontecerá. E eu cometi o belo erro de pensar que pior não podia ficar.
E foi por isso que, quando eu estava fazendo a curva do corredor, eu encontrei com .
A culpa se apoderou de mim. Eu imaginei se ela sabia de tudo. Bom, não de TUDO, porque ninguém sabia de tudo. Mas talvez de uma história no geral.
E eu comecei a suar frio.
Desde o dia anterior, eu tinha esperanças de não estar fazendo nada de errado. Quero dizer, aquilo me fazia bem, me fazia feliz, me fazia sentir viva e inteira. Como algo tão bom podia ser errado?
Mas aquilo era tão bom que eu tinha que abusar. E, abusando, aquilo virava um erro.
E, errando, eu me sentia a pior das criaturas do mundo.
– ! Tudo bem com você, amiga?
Argh. Amiga. Aquilo fez doer três vezes mais tudo o que estava doendo.
– Tudo ótimo, – mentiras já se tornaram tão presentes na minha vida que já é natural para mim não falar a verdade. Acho que eu até passei a mentir melhor. Não que isso seja alguma coisa boa. – E você?
- Ah, eu estou bem, na medida do possível, você sabe.
Ela ainda ama Danny. Ótimo.
Aquilo era péssimo. sofrendo e eu absolutamente feliz e ficando junto de Danny.
Eu sou um monstro, fato.
– , vai ter treino hoje? – eu mudei de assunto rapidamente.
balançou a cabeça negativamente.
– Acho que a treinadora está pirando. Lembra daquela história toda de – ela imitou a voz da treinadora – "o campeonato está chegando, temos que nos preparar"? – Eu assenti e continuou, retornando a sua voz normal: – Então, agora o discurso dela mudou. Eu perguntei o porquê de não termos treino hoje, e ela falou que nós precisávamos de descanso, de pensar mais nas nossas vidas pessoais...
Claro, pensar mais na minha vida pessoal. Tudo o que eu queria.
– De qualquer forma – finalizou –, nós não teremos treino até depois do acampamento.
COMO É QUE É?
– O quê? – eu berrei. – Não, , você só pode está brincando. Nós não podemos ficar duas semanas sem treinar!
me olhou quase como se estivesse me ridicularizando.
– , nosso time é imbatível, você sabe disso. Você e Angelina fazem gols o tempo todo e, modéstia à parte, nossa defesa é muito bem articulada. Não tem jeito, nós vamos ganhar o campeonato.
Eu suspirei, derrotada.
– Certo, . Te vejo por aí, então.
Ela abriu um sorriso radiante e me deu um beijo no rosto.
– Tchau, amiga.
Amiga. Que bela amiga que eu sou.
– Tchau, .
Continuei meu caminho, pensando que DESSA VEZ não poderia piorar.
Mas... os gregos fizeram um fundamento realmente bom.
– Ora, ora. Se não é a vadiazinha - eu escutei a voz de atrás de mim.
Pensei em outro palavrão, mas não vou reproduzí-lo porque EU sou muito educada.
Agora, a pergunta é: por que ela me chamava de vadia o tempo todo? Se tem uma coisa que eu não sou é vadia.
Respirei fundo e me virei na direção dela, tentando me controlar.
Ela estava rodeada de amiguinhas, as adoradoras dos meninos. Mas elas ficavam caladas, deixando o trabalho para .
Não vou bater nela, falei para mim mesma. Sou uma pessoa educada e superior, não vou deixar me atingir, a minha parte boa falou.
– Olá, . Posso te fazer uma pergunta?
Ela não me respondeu, apenas me olhou com aquela cara de nojo que ME deixava com nojo.
– Por que você não vai cuidar da sua vida e me deixa em paz?
Ela riu, o que só me deixou com mais raiva.
Minha parte má começou a borbulhar de fúria.
– Porque você, , é uma vadiazinha, e vadiazinhas merecem ser atormentadas.
– Mas, criança, de ONDE você tirou esse "vadiazinha"? Nunca dei nenhum motivo para ninguém pensar que eu sou que nem você, .
e as amigas riram mais ainda.
– Que nem eu? , eu não sou nada perto de você. Que tal aquele cara da Sandler que estava aqui ontem? Que tal o jeito como o Danny olha para você?
Aquilo foi um baque para mim. Que me invejava, eu sabia. Agora, como assim, ela andava me espionando?
Vamos lá, , use sua habilidade recém-adquirida para a mentira.
– Não eu sei do que você está falando, sinceramente, - eu falei, com um risinho forçado que pareceu irritá-la. - Você quer dizer quem, Danny, meu melhor amigo?
– Ah, querida, queria ser amiga do Danny do jeito que você é. "Amigos com privilégios", é isso que eu chamo.
– O que você quer dizer com isso, garota? – eu perguntei, já mais agressiva.
– Que eu imagino muito bem o que você faz todo dia na casa dos seus "amigos com privilégios". Sim, porque você não se contenta com Danny, ainda tem Harry, Dougie e Tom... Mas com Danny é pior. , você nunca parou para pensar na , aquela sua amiguinha tão loser quanto você? Nossa, ela deve estar desolada ao saber que o namorado a dispensou para ficar com a amiga...
Nossa, naquela hora eu me controlei MUITO para não bater em . Quem ela pensava que era para me falar aquelas coisas? E o que eu tinha a ver com Harry, Dougie e Tom? Absolutamente nada.
Mas se eu batesse nela, as suspeitas dela seriam confirmadas, e minha vida estaria acabada.
E foi por isso que eu usei o sarcasmo ao meu favor.
Eu comecei a fingir uma crise de risos.
Sério mesmo. Eu comecei a GARGALHAR.
e suas amigas não pareciam nada felizes com a minha reação.
Nem um pouquinho.
E foi por isso que eu continuei a rir.
– – eu falei, entre os risos fingidos –, você realmente é ótima para imaginar coisas. Você devia escrever um livro, sério mesmo, essa foi ótima!
– Pode negar o quanto quiser, . Mas você ainda vai se arrepender por roubar os meninos de mim.
– De nós – umas das amigas dela corrigiu, o que me fez rir de verdade.
Eu cheguei mais perto de , meio que desafiando-a.
– , por que você simplesmente não TENTA com os meninos? Eu faria uma aposta com você.
– Certo – ela aceitou o desafio. – Se eu conseguir qualquer um dos quatro, você me deve um vestido da Chanel e um convite para o Sweet Sixteen Party seu e da .
Cara, ela não podia ser mais sem-noção? Ela estava apostando comigo para conseguir ir NA MINHA FESTA.
E, tudo bem, a festa era mais de do que minha. Mas isso a gente abafa.
– Fechado. E se você perder, nunca mais vai ousar chegar perto de mim, de e dos nossos amigos. Nunca mais vai me xingar, e nunca mais vai dar em cima deles.
– Certo – ela concordou e se virou para ir embora. Antes que ela fosse, porém, eu a chamei pelo nome, e ela me olhou com profundo desgosto.
– O que é? - ela perguntou, agressiva.
Eu sorri cinicamente e avisei.
– Se quiser um conselho, , fique longe de Harry. Se vencer uma já é contar com a sorte, nem a sorte pode fazer você vencer duas.
E, com essa advertência, eu me virei e fui embora.
Capítulo 35
Uau. Nem eu contava com essa audácia para falar isso para .
Próximo passo: avisar aos meninos. Eu não ia jogar limpo, fato. Ia pedir para eles não sucumbirem a qualquer insinuação de , pelo amor de Deus. Por mais que eu tivesse o dinheiro para pagar o vestido da Chanel, não estava nem um pouco a fim de ter que ver usando-o no meu Sweet Sixteen Party.
E, tudo bem, como eu já disse, essa festa era mais de do que minha. Mas mesmo assim ia ser EU quem estaria desfilando com aquela porra de vestido enorme.
Saí correndo pelo colégio até encontrar os garotos e - sem Harry, obviamente - nos jardins dos fundos, sentados embaixo de uma árvore.
Não a minha macieira.
– Nossa, ! Por onde você se enfiou? – perguntou Tom, quando eu cheguei, ofegante, perto deles.
– Acabei de fazer uma aposta com – eu despejei, de uma vez só, enquanto sentava junto deles. – Preciso da ajuda de vocês para ganhar.
– Fala, – disse Dougie, já interessado. Ele simplemente ADORAVA implicar com , só pelo fato de ela sempre ter dado em cima dele. – Eu não suporto aquela garota.
Eu ri, e contei:
– Bom, eu apostei com ela que ela não conseguiria ficar com nenhum de vocês quatro. – começou a rir. – Não ria, . Se eu perder, vou ter que pagar um vestido Chanel para ela, além de dar um convite para minha festa de dezesseis anos.
– Sua festa de QUÊ? – perguntou, assustada.
Oh-oh. Eu não tinha contado para eles, acabo de lembrar.
– Bom, ontem minha irmã apareceu com um comunicado: como eu me recusei a fazer festa de quinze anos no ano passado, esse ano nós teremos festa de comemoração aos nossos dezesseis aninhos. Eu choraminguei, mas nem rolou, ela vai dar a festa de qualquer maneira. E o pior é que dessa vez meus pais vão estar do lado dela - eu finalizei com um suspiro.
Danny começou a rir desesperadamente. Eu não entendi e virei para ele.
– Por que você tá rindo, Jones? – eu perguntei, confusa.
Ele se recuperou do acesso de risos e declarou:
– Eu estou morrendo para ver o Judd de príncipe.
Todos riram depois daquilo. Nossa, Harry como príncipe? Aquilo era algo que valia à pena ver.
Mas obviamente não era nesse sentido que Danny estava falando.
Agora vou falar uma coisa, se e Harry não ficassem juntos até a festa, isso seria decepcionante.
– E você, Danny? – desafiou . – Acha que vai ficar muito melhor?
Eu fiquei imediatamente vermelha. Nossa, meus amigos são tão... Não-reservados.
Tom começou a zoar Danny, que estava rindo, provavelmente da própria desgraça.
– Jones, você vai ficar uma belezura... Espero que ajeite esse cabelo no dia, porque, se ele ficar bagunçado desse jeito, os convidados nunca vão adivinhar que você é o príncipe...
Eu parti em defesa dos cabelos de Danny, obviamente. Eu amava aquele cabelo!
– Nem vem, Tom, o cabelo do Danny é lindo. Tão lindo quanto a sua covinha é fofa.
Danny me olhou com uma cara de decepção.
– Poxa, , você está comparando O MEU CABELO com esse buraco no rosto do Fletcher?
Eu ergui a sobrancelha de um modo muito Judd, e fui defender a covinha do Tom.
– Cala a boca, Jones, sinto muito se VOCÊ não tem uma covinha perfeita – eu disse, indo morder a bochecha de Tom. Porém, assim que eu a mordi, Danny me puxou pelo braço, com uma cara não muito amigável.
Ele tinha ficado com ciúmes. Ai, que fofo.
– O que foi isso, Daniel? – eu perguntei, enquanto via Dougie e morrendo de rir.
– Você podia me defender de vez em quando - ele resmungou, parecendo mesmo chateado.
– Mas eu acabei de defender o seu cabelo! – eu exclamei, indignada. – Quer saber? Vocês dois são muito complicados, é por isso que eu sou mais o Dougie! – falei, me soltando de Danny e pulando nos braços de Dougie, que gargalhou.
– Ôh, Poynter, dá para soltar a , por favor? – Danny pediu, irritado. Eu sorri de lado: estava amando fazer ciúmes em Danny.
– Claro que não, Danny. Você não escutou? Ela me escolheu! – Dougie respondeu, rindo e entrando no meu jogo.
Céus, é por isso que eu amo o Doguildo. Ele tem as mesmas idéias maléficas que eu.
– É, mas EU não dei a ela esse direito de escolha – Danny continuou a reclamar.
– Ah, Danny, cala a boca – Tom falou, revirando os olhos. – , você ainda não disse por que você precisa de ajuda.
Eu olhei para os três meninos e para , que parecia ter sido a única a sacar a minha intenção.
Às vezes é ótima essa coisa toda de ser esperta.
– É ÓBVIO, né, Thomas? É só nenhum de vocês aceitar ficar com ela.
Tom pareceu decepcionado.
– Mas SÓ isso? Cara, , nem precisa pedir, né? Eu sinceramente achei que era algo mais trabalhoso.
Dougie estava analisando a situação.
– Bom, ela é bastante bonita... – eu olhei para ele, incrédula, e ele riu logo em seguida. – Mas não. , pelo amor de Deus, se fosse para eu ficar com aquela garota, eu já teria ficado.
Eu abri um sorriso e me virei para Danny, esperando a vez dele.
– O quê? Tá me olhando por quê? - ele pareceu assustado.
– Danny, querido, sua vez de prometer que não vai ficar com aquela oferecida da .
Ele pereceu incrivelmente irritado.
– Eu me recuso a responder isso.
COMO É QUE É?
Será que ele tinha planos de ficar com outras garotas, mesmo meio que "estando" comigo? Será que a estava dentre essas garotas?
Ai, Jesus.
– Mas, hein? – eu perguntei, mostrando minha confusão. – Você vai ficar com a ? Por favor, Danny, eu APOSTEI com ela! Eu odeio perder apostas, sério e...
Danny nesse momento virou de costas e saiu resmungando, enquanto Tom e rolavam de rir e Dougie parecia tão confuso quanto eu.
– Por que ele foi embora? – perguntou Dougie, olhando incrédulo para Tom.
Tom recuperou o ar e respondeu, ainda vermelho de rir.
– Danny ficou irritadinho com a lerdeza da .
Eu me virei para Tom, indignada, mas, antes que eu pudesse falar alguma coisa, ainda zoou:
– Detalhe: para o lerdo do Danny perceber a lerdeza de alguém, é porque essa pessoa é muuuuuuuito lerda, fato.
Dougie pareceu entender, mas eu não. Logo eu pedi:
– Será que algum de vocês pode me explicar o que está acontecendo e por que diabos vocês estão me chamando de lerda?
Agora os três estavam rindo. Cara, meus amigos são um saco de vez em quando.
Quase sempre.
Mas eu não consigo deixar de amá-los de qualquer maneira, então...
– , o Danny não vai ficar com ninguém além de você, e se irritou porque você não percebeu isso – explicou .
CARA, AINDA BEM QUE O LUGAR ESTAVA VAZIO.
Será que a não podia ser mais inconveniente? Porque, É CLARO, ela não estava sendo o suficiente.
Não.
IMAGINA se alguém escuta aquilo? Em 8 minutos a Isaac Newton toda ia descobrir o que eu tentava esconder com tanto empenho.
Nada de discussões agora, . Finja-se de desentendida. Finja que você não ficou COM RAIVA pelo comentário de .
– Bom, isso significa que eu vou ganhar a aposta, certo? – eu perguntei, tentando obter alguma confirmação.
Depois de um corinho rídiculo de "dãh", Dougie respondeu:
– A não ser que Harry seja um suicida e queira morrer pelas mãos de duas .
– Não acho que ele seja tão burro, Dougie – contrapôs Tom, enquanto analisava uma manchinha na barra da camisa.
O celular de tocou, e ela se afastou um pouco para atender. Dougie me olhou com impaciência, e eu percebi que ele queria retornar ao assunto da noite anterior. Já Tom nos olhou com curiosidade e eu mentalmente disse a ele: "Calma que daqui a pouco a gente te explica".
voltou sorrindo de lado. Pegou a mochila, que estava largada em cima da mochila de Tom, no chão e anunciou:
– Bom, o papo estava ótimo, mas eu realmente tenho que ir agora, antes que bata o sinal.
– Posso saber para onde? – questionou Dougie, como se não soubesse o que estava acontecendo.
Bom menino.
– Não, não pode, Poynter. Tchau para vocês. , te vejo na aula.
Ela saiu andando, e Tom comentou:
– A está meio misteriosa. Hoje na aula de música ela errou mais de três vezes.
Dougie não perdeu tempo para zoar Tom.
– E você está louco para que ela erre mais, né, Fletcher? Eu bem sei que você tem andado louco para ser o pianista...
Tom tacou a mochila na cara de Dougie.
– Não fala isso nem brincando, Poynter! – ele retrucou, irritado. – Eu não quero o mal da de maneira alguma!
Dougie revirou os olhos, impaciente.
– Credo, Tom, você pode ser mais normal de vez em quando? Eu estava brincando, seu idiota.
Tom amarrou a cara mesmo assim.
– Que seja. A tá estranha.
Dessa vez foi Dougie quem amarrou a cara.
– Ela está namorando – ele resmungou, e eu bati nele.
– Dougie! – eu exclamei. – Você não é capaz de guardar um segredo não?
Tom pareceu ofendido.
– Como é que é? A está namorando e eu sou o último a saber? – ele disse, apontando para mim e Dougie com um tom acusatório.
Dougie, emburrado, começou a reclamar.
Meu Deus, ele é uma criança.
– Você na verdade nem é o último a saber. Até agora, a pensa que só a sabe. Ela não nos contou nada – ele disse, chateado.
– DOUGIE POYNTER, EU PEDI A VOCÊ PARA NÃO COMENTAR COM NINGUÉM! – eu berrei. – Será que você não pode ficar de boca calada por um segundo?!
Olhei para Tom, que ainda estava em estado de choque, e comecei a controlar a situação.
– Tom, fofinho, o Dougie só sabe porque eu sou uma menina muito linguaruda, e simplesmente deixei escapar isso na conversa de ontem, ao telefone. Não era nem para ele saber. A me pediu segredo.
– Mas quem é o cara? – ele perguntou, inconformado. – Não vai me dizer que é o Luiz Felipe...
– Manta - eu completei. – É sim. Mas eu repito, não era para eu estar contando a ninguém, a vai me matar se descobrir que eu contei...
– Mas eu tenho que conversar com ela! – Dougie exclamou. – Ela não é auto-suficiente desse jeito, ela não sabe se cuidar sozinha e...
– Ontem mesmo você disse que ela sabia se cuidar sozinha – eu lembrei a ele, franzindo a testa.
– É, mas isso foi antes de saber que ela estava namorando!
– Mas... – eu comecei a falar, mas fui ignorada.
– E – adicionou Tom, não parecendo estar gostando nem um pouco dessa história – com um garoto do terceiro ano. Sabe-se lá o que ele vai querer fazer com ela!
– Garotos... – eu tentei novamente, mas dessa vez Dougie me interrompeu.
– Se ele fizer mal à ruivinha, a gente junta o Danny e o Harry também e dá um jeito nessa história...
– GAROTOS! – eu berrei, e eles pararam de me ignorar e me encararam. – Vocês não acham que isso é problema da ? O que ela faz ou deixa de fazer com o namorado dela não é da conta de vocês!
Dougie e Tom ficaram calados, mas eu continuei meu sermão, na esperança de que eles me dessem ouvidos pelo menos uma vez na vida.
– Vocês são uns hipócritas, isso sim. Vocês já pararam para pensar nas garotas que VOCÊS ficam, queridinhos?
– É diferente! – Dougie protestou. – Elas não são que nem você e a , elas são bem mais atiradas e bem menos inocentes e...
– Ah, claro, Dougie, você realmente nos acha tão inocente assim? Nós não somos burras, vocês deviam saber disso. A sabe o que faz, e se ela ainda não contou para vocês sobre o namoro dela, é exatamente porque ela tem medo DESSA reação!
Finalmente eles entenderam o que eu quis dizer (o que não significa que eles tenham aceitado). Ficaram em silêncio e fizeram aquela expressão de não-concordo-com-o-que-você-diz-mas-entendi-aonde-você-quer-chegar.
– Acabou agora? – eu perguntei, exasperada.
– Tudo bem – Dougie deu de ombros. – Temos outras coisas para conversar, senhorita .
– Que tipo de coisa? – eu perguntei, desconfiada, para Dougie. Mas quem respondeu foi Tom.
– Do tipo "como foi sua tarde ontem?".
Eu sorri e depois fiquei séria para encarar os dois.
– Olha aqui, eu vou contar para vocês, mas esse papo não sai daqui, certo?
Eles concordaram, e eu lhes contei. Tudo. Desde a moto de Rafinha (pela qual eu ainda tenho um surto), passando pela parte de agarração (na qual Tom ficou vermelho e Dougie ia começar a reclamar se eu não o mandasse calar a boca), chegando na parte da praia (certo, eu não contei cada detalhe dessa parte) e terminando com a parte da despedida de Danny na minha casa. Não reparei que estava sorrindo que nem uma idiota até o Tom me zoar:
– Aeeeee, , tira essa expressão pateta do rosto! – Eu e Dougie rimos e eu dei língua para Tom, que começou a me fazer cócegas.
– Bom – Dougie se pronunciou –, agora nós sabemos de onde veio "Walk In The Sun", Tom.
Tom riu e eu os encarei, confusa.
– Como é que é? – perguntei, não entendendo nada.
Tom fez o grande favor de me explicar o que estava acontecendo.
– Bom, – ele começou –, quando estávamos indo para sua casa hoje de manhã, o Danny nos mostrou uma música que ele tinha escrito, que se chama Walk In The Sun. É muito bonita até, mas a gente ainda não sabe qual é o ritmo, porque assim que a gente chegou na sua rua, o Danny foi correndo até a casa da para mostrar a música para ela, e depois teve aquela coisa toda de você cair da escada...
O sinal tocou, e eu fui para a aula sorrindo.
Capítulo 36
Aula maçante.
Que saco.
Aula maçante.
Que saco.
Quando chegou a hora do almoço, meus pensamentos se resumiam a isso.
Sentei à mesa com e os meninos, e, para minha surpresa, não estava conosco. Eu pude vê-la sentada com as amigas, conversando e rindo.
Harry pareceu um pouco incomodado com isso. É, acho que ele realmente estava gostando da minha irmã.
Mas eu, que ainda estava na minha política de estou-chateada-com-Harry-e-ponto-final, continuei sem falar com ele. De vez em quando ele me lançava um olhar indagador, mas eu não retribuía o olhar.
, que estava sentada ao meu lado, começou a cochichar:
- , você está reparando na cara de Harry? - ela sussurrou.
- Estou - eu sussurrei de volta.
- O que a gente vai fazer a respeito? - ela continuou a sussurrar. Dougie pareceu ter percebido nossa conversa alheia, mas não disse nada, respeitando nosso sigilo.
Uau, essa frase ficou legal.
- Eu não vou fazer nada - respondi, ainda sussurrando.
- Como não? - ela perguntou, estranhando.
- Se ele está dependente da minha irmã, o problema é dele - eu disse, sem me preocupar em manter o tom de voz baixo.
Todos os meninos pararam de falar e me encararam, assustados. Danny parecia estar confuso, mas Tom lançou a Dougie um olhar de "eu avisei", ou pelo menos assim me pareceu.
Harry parecia chateado e resolveu me confrontar.
- , você está com algum problema? - ele me perguntou, descansando o garfo.
Eu também larguei os talheres.
- Estou - eu respondi, desafiando-o.
- Então me diga qual é o seu problema logo, em vez de ficar me ignorando e falando de mim pelas costas!
COMO É QUE É?
Ah, aquilo não ia ficar daquele jeito. Não mesmo.
- Não, Harold, eu não vou falar o meu problema, porque eu simplesmente não estou a fim de FALAR COM VOCÊ.
Ele pareceu chocado com o que eu falei; não moveu nem um centímetro.
Quanto a mim, eu simplesmente dei um sorrisinho de vitória e voltei a comer.
Quanto a todos os outros na mesa, ficaram calados.
Terminei de comer em silêncio. Não estava realmente apreciando a comida, que ao meu paladar tinha se tornado péssima. Aliás, meu estômago a rejeitava totalmente, e eu frequentemente sentia algo subindo pelo meu esôfago. Que nojo.
Assim que acabei de comer, levantei e decidi ir para a aula de biologia mais cedo. Bem mais cedo, aliás. Para ser precisa, vinte minutos antes da aula começar eu já estava pacientemente (aham) sentada e folheando meu livro "Núcleo celular e genética", nem remotamente interessada por ele.
Olhava no relógio a cada exato um minuto e meio. Percebi o padrão depois da oitava olhada, quando eu me irritei e fechei o livro.
Nessa hora, escutei a risada de alguém. Mas não era um alguém qualquer. Eu conhecia aquela risada como ninguém, e foi sem levantar os olhos que eu perguntei:
- O que você quer?
Ele riu novamente e eu pude sentir o corpo dele sentando na cadeira ao lado da minha.
- Eu preciso de motivos para te procurar?
Eu finalmente o encarei; ele estava sorrindo, e os olhos brilhavam daquele jeito característico dele.
São nessas horas que eu percebo que o conjunto "sorriso mais olhos" de Danny me fazem suspirar sem que eu perceba.
Mas Danny percebe.
E, como sempre, ri.
Eu ignorei a risada dele (e isso é um feito e tanto) e respondi:
- Para começar, não responda uma pergunta com outra, Danny. Depois, é claro que precisa! Todo mundo tem algum motivo para procurar outra pessoa.
- Bom, eu queria te ver. É um bom motivo?
Eu senti o sangue subir ao rosto, mas incrivelmente tive coragem para responder:
- É um ótimo motivo - eu sussurrei, olhando para os pés. Subitamente, veio a idéia de perguntar: - Quando você ia me contar sobre a música?
Dessa vez foi a vez dele de ficar sem jeito. Era mesmo engraçado. Danny era sempre tão espontâneo, e raramente se sentia constrangido com alguma coisa (ao contrário de mim, devo acrescentar). Era bom ter a sensação de estar controlando-o.
- Bom, eu não tenho certeza - ele falou, hesitante. - Talvez nunca.
Eu franzi a testa, surpresa com a resposta dele.
- Mas por quêêêêêêê? - eu perguntei, ainda que soasse um pouquinho rastejante.
Só um pouquinho.
Ele gargalhou, mas não respondeu nada. Pegou minha mão e ficou brincando com os meus dedos, completamente concentrado.
Dude, que tipo de pessoa fica entretida brincando com OS MEUS DEDOS?
- Hein? - eu insisti. O mais racional a fazer seria puxar minha mão de volta, mas quem disse que eu estava com vontade?
- Ela não está muito boa, é sério. Aliás, como você ficou sabendo da música?
- Tenho meus informantes - respondi, sem querer especificar nenhum dos meus amigos. - Aliás, senhor Jones, desde quando eu sou a última amiga a saber da existência de uma música?
- Você não é a última. ainda não sabe.
Ok, ainda não sabia. E DAÍ? Desde quando estava incluída no nosso grupo de amigos?
Ah, é. Desde quando ela começou a sair com Harold Judd.
- Eu não gosto dessa idéia - eu resmunguei, puxando minha mão de volta.
- Que idéia? - ele perguntou, aparentemente decepcionado por ter que parar de brincar com meus dedos.
- De você incluir como "nossos amigos".
Ele pareceu surpreso e se ajeitou na cadeira, de modo a não me encarar nos olhos.
- Pensei que era isso o que você queria, que deixasse de ser uma patricinha fútil e passasse a andar conosco.
Eu analisei. Realmente, era isso o que eu queria. Até o dia anterior.
- Isso parece péssimo, com você falando desse jeito.
Ele voltou a olhar para mim, e voltou a pegar minha mão. Dessa vez, em vez de brincar com meus dedos, ele acariciou as costas da minha mão.
- Mas, , sinceramente, por que você não está gostando de ter como nossa amiga? - ele perguntou, me encarando com os olhos sérios. Eu não consegui sustentar seu olhar e comecei a falar olhando para meus joelhos.
- Acho que estou com ciúmes. Vocês quase nunca apareciam na minha casa antes do colégio, mas foi só a começar a ficar com Harry que no dia seguinte vocês aparecem lá.
Depois que falei, arrisquei a olhar para Danny. Ele parecia divertido, e não segurou o riso. Eu ergui a sobrancelha, mas ele não parou de rir.
- Do que você está rindo, seu doente mental?
- É bom te dar o troco - ele disse, simplesmente. Se levantou, me deu um beijo na bochecha e saiu da sala, me deixando sozinha com meu livro de biologia e o meu relógio.
A aula de biologia começou, mas eu estava bem distante. Passei a maior parte do tempo conversando com , que se recusou a me dar detalhes sobre a música que Danny havia escrito, mas, por outro lado, me apoiou quando eu falei que estava com ciúmes dos meninos em relação à .
- Realmente, , eu tenho que concordar com você – ela dizia, aos sussurros, enquanto a professora escrevia coisas incompreensíveis no quadro branco à frente da sala. – Também não gosto muito disso. Quero dizer, passou a vida inteira rejeitando os meninos, e agora quer se tornar amiga deles sem mais nem menos? Além do mais, ainda tem aquelas duas amigas dela, insuportáveis.
- Aham – eu concordei, mas parei de falar quando percebi o olhar da professora fixado sobre nós duas. Assim que ela se virou para o quadro novamente, eu continuei minha conversa.- Quando disse para Danny que estava com ciúmes, ele começou a rir e disse que era bom me dar o troco. Por Deus, , você tem alguma idéia do que isso significou? Porque, sinceramente, eu não entendi nada.
começou a rir, mas imediatamente se calou diante do olhar severo da professora, que tinha parado novamente de escrever no quadro. Eu e ficamos uns bons três minutos sem ousarmos nos falar novamente, mas logo em seguida começou a me explicar:
- , Danny disse isso porque ele morre de ciúmes de você com os meninos, e está te dando o troco quando você ficou com ciúmes – ela murmurou, mas sem conseguir esconder o fato de que estava prendendo o riso.
Eu mal ouvi a segunda parte; minha mente se concentrou em dizendo que Danny sentia ciúmes dos meninos. Quero dizer, eu sabia que ele tinha um pouco de ciúmes, mas não sabia que era tanto ao ponto de ele ir reclamar isso com .
- Do que ele acha que tem ciúmes? Da covinha do Tom? – eu perguntei, controlando o riso também.
rolou os olhos, mas quando abriu a boca para responder, nós ouvimos o berro da professora:
- , você não pode ficar quieta por um segundo?
não respondeu, apenas baixou a cabeça. Eu percebi que ela ia ficar vermelha: ela não gostava muito de ter todas as atenções voltadas para ela. Isso era meio que contraditório, uma vez que ela andava comigo e com os meninos, e o que nós mais gostávamos de fazer era barulho.
Cinco minutos sem a resposta de . Eu já estava impaciente e desenhava distraidamente no canto da folha. Eu sempre desenhei mal, excetos corações e borboletas. Não era uma surpresa muito grande que minha folha estivesse totalmente tomada por borboletas cujas asas tinham corações desenhados.
Recebi um bilhetinho de , o que também não foi muita surpresa. não ia abrir a boca durante os próximos trinta minutos de aula.
É claro que ele não tem ciúmes da covinha, sua lesada – .
Então é de quê? – .
Do jeito como você e o Dougie são próximos, do jeito como o Harry é protetor, do jeito como você vive mordendo a bochecha do Tom... – .
Ei, você também morde a bochecha do Tom, não é justo! – .
Mas eu não sou a namorada dele – .
Nem eu – .
Não deixe ele te escutar falando isso – .
Mas é verdade! Eu e Danny não estamos namorando – .
Mas você entendeu o que eu quis dizer. Se quiser, eu reformulo a frase. Mas eu não sou a garota pelo qual ele está apaixonado – .
Danny não está apaixonado por mim – .
COMO NÃO? VOCÊ PIROU? Pensei que ele já tivesse te dito que te amava – .
Ele disse que me amava, não que estava apaixonado por mim – .
Dá no mesmo, sua idiota – .
Claro que não. , eu amo você, mas eu DEFINITIVAMENTE não estou apaixonada por você – .
Se Danny não fosse apaixonado por você, como você explicaria aquela coisa toda do beijo dentro da água? – .
Espere. Como você sabe desses detalhes? – .
O Danny é um amigo realmente ótimo, me conta tuuuuuuudo – .
Aquele traidor. Tudo? – .
TUDO – .
Ok. Vamos dizer que ele esteja apaixonado por mim. Não é motivo para ele ter ciúmes do DOUGIE, pelo amor de Deus. E do Tom, ele pirou. E do Harry então? Hello, o Judd está saindo com a minha irmã, não comigo – .
É, isso deixou o Danny um pouquinho mais tranquilo. Mas ele me confessou que achou muito estranho ver uma garota idêntica a você beijando um dos melhores amigos dele – .
Eu não consegui controlar o riso nessa hora. A professora me olhou com aquele olhar de: “ , você está ferrada”, mas antes que ela pudesse falar alguma coisa, o sinal tocou, e eu e saímos da sala o mais rápido possível.
Surpreendentemente, os meninos não estavam nos esperando, e foi prazerosamente que eu e fomos esperá-los sair. Não que tivessem demorado muito – após cerca de três minutos que nós ficamos na porta da sala deles, eles apareceram com uma cara de tédio extremamente engraçada.
- Oi – falou Harry, totalmente emburrado. Eu não respondi, nem . Acho que ela aderiu à minha política de estou-chateada-com-Harry-e-ponto-final.
Dougie se apressou para nos cumprimentar.
- Oi, ruivinha. Oi, senhorita beijei-um-cara-dentro-da-água.
Eu o fuzilei com o olhar, e não respondi, enquanto e Tom davam risadas e Danny simplesmente estava passando mal de tanto gargalhar. Harry pareceu confuso.
- Como é que é? – perguntou Harry, meio que boiando no assunto.
Bom, eu juro que não ia dizer que ele estava pedindo por isso.
- Ah, é – lembrou . – Esqueci que você ainda não sabe a história toda.
- Que história? – perguntou Harry, ainda confuso.
- A da pequena com o garanhão Da... – Tom começou a falar, mas eu tapei a boca dele com minha mão. Ele me olhou com uma expressão de quem não está entendendo nada.
- Aqui não, Tom – eu expliquei apressadamente, olhando de esguelha para Danny, que parecia meio chateado com a minha atitude.
Mas o que exatamente ele esperava? Que eu fosse falar para Deus e o mundo que nós tínhamos ficado uma vez? Que eu ia contar para a escola inteira que estava completamente apaixonada por ele? Que eu ia dizer a que a menina pela qual o namorado dela a largou sempre fui eu?
Nem pensar.
Harry reclamou:
- Porra, eu sempre sou o último a saber das coisas.
Os meninos riram, mas eu e ficamos sérias.
- Não costumava ser assim – retorquiu friamente. – Você geralmente era o primeiro a saber de tudo, coisa que deixava os meninos muito irritados.
E, sem mais explicações, ela me pegou pela mão e me puxou até a saída do colégio, deixando os meninos com caras de idiota.
E assim que nós duas cruzamos os portões da escola, eu vi algo que não queria ver.
Ou melhor, alguém que eu não queria ver.
Capítulo 37
- ! – gritou Rafinha, enquanto eu ainda estava estática, olhando para ele.
E, não, eu não estava paralisada com a beleza dele, apesar do fato de que ele realmente estava gostoso com aquele cabelo meio jogado e o ar despreocupado.
Não, eu estava paralisada pelo fato de ele estar ali. Quero dizer, eu achei que tinha dito a ele que eu não queria mais vê-lo, não tinha?
, que não ficou paralisada nem com a beleza dele (ela já tinha um namorado muito gostoso para apreciar) nem com o fato dele estar ali, apenas me olhou e ergueu a sobrancelha esquerda.
Segredos Judd que apenas eu e sabemos.
Se bem que eu não dava muitos dias até que também aprendesse a levantar a sobrancelha.
Mas que seja.
Rafinha chegou perto de nós duas em menos tempo do que eu esperava. Não que eu tenha pensado em fugir, ou correr, ou coisa do gênero.
- O que você está fazendo aqui? – eu perguntei, num tom particularmente inquisitivo e ameaçador.
Não que eu consiga ficar ameaçadora. Eu simplesmente não ofereço risco a ninguém. A não ser, talvez, para as meninas do time adversário do Harpya. E, ah, para . Só.
- Eu vim te ver. Isso não é um bom motivo? – ele perguntou, e essa pergunta me soou extremamente familiar.
- Não – eu disse, categoricamente. – Não se EU já disse que não queria mais te ver.
- Ah, não se finja de durona, quando ambos sabemos que nós nos queremos. Você vai estar mentindo se disser que não gostou daquele beijo de ontem.
Com o canto do olho, eu percebi que tinha franzido a testa de tal modo que eu me espantei. Ela murmurou alguma coisa e saiu de perto, mas eu não vi para onde.
Bom, vamos, , use seu dom da mentira recém-adquirido.
- Não, eu não gostei, Rafael. Eu não, eu não estou mentindo – eu menti. Duas vezes, se você for parar para pensar.
- Está – ele disse, com um tom de voz que demonstrava certeza. – Se estivesse falando a verdade, não aparentaria estar tão nervosa. Alguém por acaso já te disse que você não sabe mentir?
Merda.
- Já. Muitas vezes, até. Certo, Rafinha, você ganhou, eu gostei do beijo. Você beija bem, e você sabe disso. Mas eu não sinto nada por você além de atração. Eu gosto de outra pessoa e você sabe muito bem disso.
- Sei. Mas também sei que você não resiste a mim – ele afirmou, e me puxou pela cintura. Eu virei o rosto, mas ele foi mais esperto do que eu pensava e, com a outra mão, segurou meu rosto e me beijou.
Eu por acaso falei que foi na boca?
E que foi em frente a todas as pessoas da Isaac Newton?
OH, MEU DEUS.
- Será que dá para você soltá-la? – eu escutei a voz de Harry atrás de mim, e Rafinha finalmente me soltou. Eu dei vários passos para trás, meio que sem reação. Olhei à minha volta. Além de toda a Isaac Newton estar olhando, Harry estava afrontando Rafinha, estava cochichando alguma coisa no ouvido de Luiz Felipe. estava ao lado de suas amigas, parecendo preocupada. Danny parecia estar nervoso, e Tom dizia alguma coisa baixinho para ele. Eu tive certeza que estava tentando acalmá-lo. Dougie veio até perto de mim e me puxou pela mão, parecendo prever o que ia acontecer em seguida.
Bom, eu não sei realmente o que aconteceu, mas a próxima coisa que eu vi foi Harry metendo um lindo soco em Rafinha.
A próxima coisa que eu vi foi Danny indo correndo para ajudar e dando outro soco em Rafinha.
A outra coisa que eu vi foi Rafinha revidando e dando um soco no rosto de Danny, que urrou, mas revidou com um belo soco no estômago de Rafinha.
Depois eu não vi as coisas muito bem, pois já estava no meio da briga.
- MAS QUE PORRA VOCÊS PENSAM QUE ESTÃO FAZENDO? – eu berrava, me metendo no meio dos três e sendo empurrada não sei por quem. Respirei fundo e voltei para o meio da briga. – Rafinha, dá para você soltar o... HARRY, você também, pára, pelo amor de... Danny, não adianta nada e... Harry, você não... AI!
Legal. Fui atingida por um soco.
Cara, isso DÓI.
Senti as lágrimas instantaneamente. Escutei Dougie falar um palavrão (que eu não vou reproduzir aqui porque sou muito educada), e Tom e ele vieram até mim e me tiraram da briga.
Isso teria sido cômico, se eu não estivesse tão preocupada.
Depois que eles me tiraram da briga, foram até lá e tentaram separar os meninos.
O que, se você for parar para pensar, não é muito justo. Quero dizer, eles me tiraram da briga e depois vão lá para o meio?
Com um pouco de esforço da parte de Tom, Dougie e Luiz Felipe (que eu não faço a menor idéia de como se meteu nessa roubada) e muitos gritos da minha parte, a briga foi apartada. Tom segurava Danny, que tinha um corte aberto na testa; Dougie segurava Harry, que tinha um lábio cortado, com muita dificuldade (o que não é uma surpresa, se você for comparar o tamanho de Harry e o tamanho de Dougie); já Luiz Felipe, se concentrava em controlar Rafinha.
Rafinha gritou um palavrão (que eu não vou reproduzir aqui porque sou extremamente educada) e se soltou de Luiz Felipe. Apontou o dedo indicador para mim e falou:
- Você ainda vai se arrepender da sua escolha, , escuta o que eu estou te dizendo. Nem sempre eu vou estar aqui para você.
E, com esse aviso agourento, ele se virou e foi embora.
Eu não ia me preocupar com Rafinha; havia coisas mais importantes.
Virei-me na direção dos meninos. Dougie já tinha soltado Harry, que estava sendo amparado por , mas Tom ainda segurava Danny, que se debatia.
- VOCÊS! – eu berrei, apontando para Danny e desviando meu dedo para Harry. Tom murmurou alguma coisa e largou Danny, saindo de perto de nós. – O QUE VOCÊS PENSAVAM QUE ESTAVAM FAZENDO?
- Batendo no Rafael até um de nós morrer – respondeu Danny, e a frase foi extremamente familiar.
Ah, é mesmo. Foi o que eu disse que estava fazendo quando briguei com .
Ah, isso faz todo o sentido.
- Vocês não tinham nada que fazer isso! Eu estava me virando perfeitamente bem.
Danny me encarou, sério.
- Você estava se virando se isso significava que você estava gostando do beijo – ele disse, com raiva.
Eu fiquei estática, a incredulidade tomando conta de mim.
- Você não está falando sério – eu disse, olhando nos olhos azuis dele. – Você sabe que isso não é verdade.
Ele me encarou, sério, e respondeu, a contragosto:
- Eu sei.
Eu suspirei, aliviada.
- Sua testa está sangrando – eu observei, apontando para o machucado. Ele olhou para cima, como se estivesse tentando enxergar o ferimento, mas, uma vez que não conseguiu, voltou a olhar para mim. – Vamos – eu chamei -, eu vou dar um jeito nisso.
Eu estiquei a mão e, para minha felicidade, ele não hesitou em segurá-la. Antes que nós estrategicamente saíssemos de cena, Dougie nos chamou.
- Ei, vocês dois. Nós vamos todos para a casa de Tom, certo?
Eu concordei com a cabeça, e eu e Danny nos juntamos aos outros para irmos para a casa de Tom. Harry e Dougie estavam mais à frente, reclamando de alguma coisa que eu não consegui entender. Tom estava se despedindo de – pelo visto, ela não iria para a casa dele, já que ainda estava de mãos dadas com Luiz Felipe; e não se moveu para acompanhar Harry, preferindo ficar com as amigas.
Eu, ainda de mãos dadas com Danny, comecei a seguir os meninos, tentando não me abalar com os olhares e observações que todos faziam.
Mas eu não pude deixar de perceber o olhar de quando eu passei em sua frente, de mãos dadas com Danny, que fazia carinho na minha mão com o polegar. Suas sobrancelhas se ergueram ao momento em que seus olhos se pousaram nas mãos entrelaçadas; ela imediatamente procurou meus olhos, e eu tentei ficar o mais calma possível. Sorri de um jeito inocente, e acenei com a mão.
Tinha fé de que o meu recém-adquirido dom para a mentira me salvasse naquela hora.
Ela não sorriu de volta.
Oh-oh.
Pega no pulo.
Fiquei preocupada, mas o melhor a fazer era deixar para pensar sobre isso depois.
Continuei andando como se nada tivesse acontecido. Danny estava meio aéreo, e não reparou em . Eu dei uma corridinha básica para alcançar Harry e Dougie, sem nem ao menos reparar em onde Tom estava.
- Dougie! – eu berrei. – Espera a gente!
Os meninos pararam de andar e olharam para trás. Enquanto isso, eu arrastava Danny comigo – eu sempre corri mais rápido do que ele quando eu queria.
- Onde está Tom? – perguntou Harry. Eu meio que esqueci que estava chateada com ele, e respondi, na maior educação:
- Em algum lugar lá atrás. – E dei de ombros.
- Está falando comigo agora? – ele perguntou, levantando a sobrancelha de um jeito bem Judd.
- Eu não tinha parado de falar com você – eu respondi, parando de andar e encarando-o. – Seria criancice, para não falar em idiotice. Eu só estava chateada com você.
- Mas não está mais? – ele questionou.
- Não sei – disse verdadeiramente, olhando para baixo. – Só um pouco, eu acho. Menos do que estava mais cedo.
- Afinal, qual é o motivo dessa chateação toda?
- Ela está com ciúmes – falou Danny, antes mesmo que eu pudesse emitir algum som. Eu olhei para ele completamente em choque e, ao perceber meu olhar, ele completou: - Ei, é verdade. Você ia ficar o dia inteiro enrolando quando a mais simples verdade é essa.
- Eu não estou com ciúmes – retruquei, entre dentes. Os três me olharam incrédulos, e eu acrescentei: - Okay, talvez esteja um pouco, mas nada que não possa ser contornado.
Tom nos alcançou, e chegou reclamando:
- Vocês nem para me esperarem, né? Para a casa de quem mesmo que vocês vão?
- Para a sua – disse Danny, parecendo um pouco surpreso.
- Então! – disse Tom, parecendo aborrecido.
- Então o quê, dude? Você acha o quê, que a Deb ia nos deixar esperando do lado de fora? – desafiou Dougie sarcasticamente.
Tom amarrou a cara e mostrou o dedo médio para Dougie, que gargalhou, jogando a cabeça para trás, o que fez com que seus cabelos loiros voassem.
Uma cena muito digna de filme, eu devo dizer.
- Mas sobre o que vocês estavam falando? – perguntou Tom, meio bravo.
- Nada de mais – eu respondi rapidamente, antes que qualquer um dos outros se pronunciasse, e resolvi mudar de assunto imediatamente. – Tom, fofinho, queridinho, lindinho, perfeitinho, meu melhor amiguinho, eu já disse que eu te amo hoje? – eu perguntei, na minha melhor voz de criança.
Ele me olhou estranho, mas completamente certo em estar desconfiado.
- O que você quer, ? – ele perguntou, meio rindo, meio desafiando.
- Tom, meu amor, você tem por acaso alguma blusa minha na sua casa?
Ele riu e respondeu:
- Era só isso? – Eu concordei com a cabeça e esperei ele dar a resposta concreta. – Tem uma saia lá e umas duas ou três blusas, mas eu não sei se são suas ou da .
- Como assim você não sabe, Thomas? – eu perguntei, indignada. – O meu cheiro e o da são muito diferentes, ok? Sem contar o tamanho das roupas, a bunda da é muito maior!
Dougie fez uma careta sonhadora e concordou:
- Realmente...
Ele estava fazendo piada, eu tinha certeza, mas isso não me impediu de dar uma de amiga reprovadora:
- Dougie, seu safado, a menina é comprometida!
Danny prendeu a respiração e Harry tossiu.
Merda.
- Mas como assim? – perguntaram os dois, em uníssono.
Por que eu sempre falo a coisa errada no momento mais errado ainda?
Agora todos estavam sabendo do namoro de . Graças à minha bela e enorme boca.
- Olha, aqui não é o lugar nem a hora para falarmos disso, certo? A gente chega na casa de Tom e depois conversamos sobre isso, ok?
Harry assentiu, parecendo meio perdido. Danny não parecia muito preocupado. Soltou nossas mãos e pôs o braço ao redor dos meus ombros, me dando um meio-abraço.
Não demorou muito para vermos a casa de Tom, principalmente com as brincadeiras idiotas dos meninos que duraram por todo o caminho. Tom abriu a porta da casa e, enquanto nós entrávamos, berrou para a Sra. Fletcher:
- Mãe! Eu trouxe os meninos, tudo bem?
Eu ergui a sobrancelha para ele, fazendo-o rir. Em seguida, completou, ainda aos berros:
- E a também!
Deb estava na cozinha, e assim que ouviu meu nome veio correndo para a sala de estar.
- , querida, quanto tempo que eu não vejo você!
Tom, que não perdeu tempo para ir assaltar a geladeira, gritou:
- Pelo amor de Deus, mãe, a veio aqui na semana passada!
Ela rolou os olhos para o comentário do filho e comentou:
- Mas eu não estava em casa no dia em questão, Thomas! Será que você pode ser menos chato?
Eu, Danny, Dougie e Harry rimos, enquanto Tom resmungava lá da cozinha.
- Danny, querido, o que houve com sua testa? – a mãe de Tom perguntou, preocupada. Harry, como que por instinto, pôs a mão no lábio, mas eu reparei que já não estava sangrando.
Não deixei Danny responder.
- Danny é um idiota, por isso se machucou. Mas não se preocupe, vou cuidar dele.
- Ah, que ótimo, querida. Eu me ofereceria para ajudar, mas eu tenho que sair agora. Vocês vão precisar de alguma coisa? – ela perguntou, olhando para Harry e Dougie.
- Não precisamos de nada, não – respondeu Harry. – Só vamos jogar vídeo-game, ou algo assim.
A mãe de Tom concordou com a cabeça e, apressada, pegou a bolsa e saiu de casa, sem nem falar com Tom direito.
- Vocês viram isso? – perguntou Tom, chegando à sala com um ar revoltado. – Ninguém me dá atenção, olha isso!
Todos rimos de Tom, que revirou os olhos.
Dougie fez uma carinha de criança e perguntou:
- Vamos jogar Guitar Hero?
Danny se entusiasmou, e respondeu:
- Vamos, vamos!
Eu ri da cara dele.
- Danny, fofinho, você não vai jogar nada agora. Eu ainda tenho que limpar esse machucado, esqueceu?
Os meninos riram da cara de sofrimento de Danny: era fato que ele amava Guitar Hero.
- Tom, onde tem as coisas para eu cuidar da criança aqui?
- Lá no banheiro.
- Eu vou lá com Danny enquanto vocês jogam, certo? – eu falei, tentando não mostrar que eu estava realmente interessada em ficar sozinha com Danny.
Inválido.
- Ihhhh... – os meninos começaram a zoar, menos Harry, que ainda não sabia da história.
- Calem a boca, vocês são muito chatos! – eu reclamei, enquanto puxava Danny para o banheiro.
Entramos no banheiro, ele fechou a porta e se sentou na tampa abaixada do vaso sanitário, enquanto eu procurava a maletinha de primeiros-socorros no armário. Não demorei muito para achá-la, e logo comecei a cuidar da testa de Danny. Limpei o local, mas Danny se recusou a colocar qualquer tipo de curativo, e eu não insisti muito.
Estava nervosa por estar ali sozinha com ele. As lembranças do dia anterior simplesmente não saíam da minha cabeça, e eu tive que respirar fundo para não enlouquecer. Não deu certo. Respirar fundo significou sentir o perfume de Danny, o que me deixou completamente entorpecida.
- Ei, – ele chamou, enquanto eu estava guardando a maletinha. Eu o olhei, ele ainda estava sentado, exatamente no mesmo lugar de antes. – Vem aqui – ele pediu, me chamando com a mão.
Eu não hesitei em ir até ele; não teria capacidade para isso.
- O que foi? – eu sussurrei, assim que cheguei bastante perto.
- Eu quero conversar com você, só – ele murmurou de volta, segurando minha mão.
- No banheiro? – eu perguntei, tentando fazer piada para esconder o fato de que eu estava completamente nervosa.
- Afrodisíaco demais? – ele perguntou, fazendo uma cara forçadamente sexy e engraçada, o que me fez rir.
Ele reclamou:
- Não pode rir, , você estraga o clima!
Eu segurei a risada mais ainda. Ele podia achar que eu estava rindo da cara dele ou algo assim, mas a verdade é que eu estava rindo de nervoso.
- Ok, desculpa – eu pedi, me aproximando mais ainda dele. Me encaixei entre suas pernas e comecei a enrolar o cabelo dele com meu dedo. Não sei por quanto tempo fiquei daquele jeito, mexendo distraidamente em seu cabelo, enquanto sentia uma de suas mãos segurando firmemente a minha, e a outra, mais carinhosamente, massageando minha cintura.
Mas sei que poderia ficar a eternidade daquele jeito.
Ok, não poderia. Eu sei que não poderia porque não aguentaria ficar tanto tempo sem tocá-lo ainda mais; eu estava fazendo um esforço enorme para não beijá-lo.
- Está divertido aí com o meu cabelo? – ele perguntou, meio rouco.
Eu soltei o cachinho que estava enrolado em meu dedo indicador, e apoiei meu cotovelo em seu ombro.
- Eu não disse que era para você soltar – ele disse, soltando minha mão e me puxando mais para perto pela cintura, com ambas as mãos.
Então eu pus minhas próprias mãos por entre os fios de cabelo castanho dele, puxando sua cabeça para trás e o obrigando a olhar para meu rosto.
Fazendo com que eu olhasse nos olhos azuis dele.
- Sobre o que você queria falar? – eu perguntei, sentindo contínuos calafrios quando seu polegar acariciava minha barriga.
- Eu quero te levar para um lugar hoje – ele disse, dando um sorriso que só ele tinha a capacidade de dar.
OH, MEU SENHOR.
- Onde? – eu perguntei, sem fôlego.
- Surpresa – ele respondeu, ainda com aquele sorriso lindo.
- Eu quero saber! Não quero esperar! – eu reclamei, de uma forma meio mimada.
- Ei – ele sussurrou. – Você não vai ser arrepender, eu prometo.
Analisei a proposta. No dia anterior, não tinha me arrependido.
Impossível de se arrepender de estar em qualquer lugar com Danny.
- Tudo bem – eu respondi. – Que horas?
- Agora? – ele pediu, parecendo um anjinho.
- Tudo bem – eu respondi novamente, e o sorriso dele ficou tão lindo que eu quase me desmanchei. – Mas com uma condição – eu completei.
Dá dó ver aquele sorriso se desmanchando, ainda que não por completo.
- Qual?
- Você vai ter que cantar Walk In The Sun para mim. Agora.
Ele analisou a proposta, assim como eu tinha feito. Mas eu duvido que eu tenha feito uma cara tão fofa quanto a dele.
- Quando chegarmos lá? – ele negociou, e eu concordei.
- Fechado.
Ficamos mais um tempo só nos olhando, até a hora em que ele me abraçou mais forte ainda e enterrou a cabeça na minha barriga. Distribuiu uns três beijos por cima da minha blusa, mas que mesmo assim deixaram dormentes os pontos exatos onde ele tinha beijado.
Num impulso, abaixei minha cabeça até nossos narizes se encostarem. Fechei os olhos, apenas sentindo a respiração dele e meu nariz formigando. Sentindo o ponto de contato mínimo que havia entre nossos rostos.
Sentir é muito melhor do que ver.
Mas Danny fez o favor de aumentar os pontos de contato entre nós dois, levantando-se, puxando minha cabeça mais para perto, pela nuca, e me dando um beijo daqueles inesquecíveis, como cada um que ele já havia dado até o momento.
Inesquecíveis de um jeito que só ele sabia fazer.
Capítulo 38
Por mais que eu quisesse, não podia ficar beijando Danny durante o dia inteiro.
Não com os meninos lá embaixo jogando Guitar Hero.
Mandei Danny descer enquanto ia até o quarto de Tom descobrir se tinha alguma roupa lá. Felizmente Tom era organizado, o mais organizado dos quatro. Logo, não foi difícil encontrar as roupas femininas dobradas na gaveta.
Uma saia minha, duas blusas minhas e uma blusa da . Ótimo, a saia combinava com uma das blusas. Ótimo, era aquilo que eu ia usar: saia preta, blusa roxa com detalhes em preto e o All Star sempre companheiro.
Desci as escadas e encontrei Danny numa partida de Guitar Hero contra Harry. Ótimo, um guitarrista jogando GUITAR HERO contra um baterista, há justiça nesse mundo?
- Não é justo – eu entrei na sala reclamando. – Harry não é guitarrista.
- A vida não é justa – filosofou Dougie, enquanto eu sentava em um dos sofás da sala.
- Ah, , essa roupa é sua? – perguntou Tom.
- Óbvio, Tominus.
A partida acabou, Danny venceu (grande surpresa). Ele largou a guitarra e se jogou ao meu lado, no sofá. Segurou minha mão, o que me fez corar.
- Vamos? – ele perguntou.
- Espere, vocês não vão ficar aqui não? – perguntou Dougie, coçando a testa.
- Não – respondeu Danny -, eu vou sair com a .
Porém, antes que eu pudesse falar alguma coisa, ou ao menos enterrar meu rosto em uma almofada amiga, Harry se pronunciou:
- Esperem. A prometeu que nós conversaríamos sobre o namoro da .
Opa.
- Para começar, quem é ele? – perguntou Harry.
- Luiz Felipe, óbvio.
- Ela gosta dele?
- Sim.
- Ele gosta dela?
- Sim.
- Ele tá fazendo bem para ela?
- Sim.
- Ele já por acaso encostou em lugar proibido?
- S... HARRY, EU LÁ VOU SABER?
Eu olhei para todos eles, brava.
- Vocês não têm o direito de querer saber desse tipo de detalhe da vida da , vocês entenderam?
- Eu sei. Foi só um tipo de pergunta de amigo protetor, dá licença?
- Não! Você fica o dia inteiro se agarrando com a minha irmã, e não pode se agarrar com o namorado dela?
Opa.
- Já que estamos aqui, vamos conversar sobre isso! Qual é o problema de eu estar saindo com a sua irmã?
Todos os outros meninos estavam calados, apenas Harry e eu conversávamos (leia-se: gritávamos).
- O problema é que vocês nunca aparecem na minha casa de manhã, e hoje apareceram porque você está saindo com a minha irmã! O problema é que você não presta mais atenção nas nossas conversas, e que você some do nada, e quando eu te encontro você está praticamente comendo minha irmã em cima da mesa do professor! Eu sinto como se tivesse roubando CADA AMIGO QUE EU TENHO!
- Eu gosto da sua irmã, ok? Quando você realmente gostar de alguém, , você vai saber do que eu estou falando!
Eu fiquei parada, estática, sem reação. Era impressão minha ou Harry tinha acabado de insinuar que eu não gostava de Danny?
Eu não falei nada, apenas olhei para Harry, ultrajada. Então era isso. Depois de tudo o que eu tinha contado para ele e para Dougie, ele dizia uma coisa desse tipo.
Ótimo.
Realmente, ótimo.
Olhei para Dougie, buscando apoio. Ele também parecia assustado com o que Harry tinha dito; seus olhos se encontraram com os meus, e, como melhores amigos sempre conseguem fazer, ele me transmitiu uma mensagem: “Fique calma e não diga nada”.
Eu segui o conselho quase telepático de Dougie e fiquei calada. Respirei fundo, acenei para os meninos e saí da casa de Tom.
Eu não podia acreditar. realmente tinha me feito brigar com um dos meus melhores amigos.
NÃO DAVA PARA ACREDITAR.
Harry, sempre o mais protetor, sempre o mais confidente, sempre o mais “pai”.
NÃO DAVA PARA ACREDITAR.
Eu escutei Danny me chamando e olhei para ele, chateada. Tinha perdido toda a vontade de sair.
Mas acho que ele tinha percebido isso, porque, quando me alcançou, apenas falou:
- Vamos voltar lá para dentro e jogar Guitar Hero. Agora, .
- Eu não quero. Não quero falar com Harry. Não quero que ele diga aquilo de novo.
De repente, bateu uma preocupação. Será que Danny tinha acreditado no que Harry tinha dito? Será que ele também achava que eu não gostava dele?
- Danny – eu comecei, baixinho -, você não acreditou no que o Har...
- Não – ele disse, aparentando estar tranqüilo. – Ele não quis dizer aquilo, , foi da boca para fora. Ele está chateado com isso tudo, você sabe disso. Volta lá, vamos jogar vídeo-game.
Ele estendeu a mão, e eu a segurei firmemente. Ele me puxou para dentro da casa, onde os meninos aparentavam estar ansiosos.
- Ela vai jogar – Danny disse.
Os meninos se arrumaram: Tom ia jogar contra Dougie.
- Gente, tive uma idéia – disse Dougie, parecendo animado. – Que tal se nós jogarmos em duplas, e quem perder terá que cumprir um desafio?
Ha, ha, Dougie era tão engraçado. Só porque EU não faço parte de nenhuma banda e não tenho a menor coordenação motora com a guitarra.
- Nem pensar – eu e Harry falamos ao mesmo tempo.
Eu olhei mal-humorada para ele, sabendo que só podia contar COM ELE nessa idéia maluca.
- Eu não sei tocar guitarra – falamos eu e Harry ao mesmo tempo, novamente. Aquilo estava me deixando seriamente irritada.
- Mas – disse Danny – nós somos três e vocês são dois, logo nós ganhamos.
- Quem disse que isso aqui seria votação? – eu perguntei, meio estressada.
- Sempre foi votação, essa regra foi você quem inventou, – esclareceu Tom, me vencendo completamente.
Droga. Eu com minhas regras idiotas.
Emburrada, sentei no sofá e cruzei os braços, fazendo Tom e Danny rirem. Dougie estava implicando com Harry de alguma maneira, mas eu senti compaixão por Harry: Dougie sabia ser chato quando queria.
A partida começou, e não foi surpresa quando Tom ganhou. Você pode pensar que aquela era uma brincadeira justa, mas não era. No final, o vencedor seria Tom ou Danny, aquela seria a única partida realmente emocionante.
Tom analisou Dougie por um momento, e depois disse:
- Eu te desafio a lutar boxe com Danny.
PERAÍ. A VIDA REALMENTE ERA INJUSTA, OU ERA IMPRESSÃO MINHA?
- Nem pensar! – eu falei. – Tom, que tipo de amigo você é?
Dougie resmungou alguma coisa. Eu sabia que ele não ia quere dar uma de covarde, mas ele também sabia que não havia como vencer Danny numa luta de boxe.
Acreditem, eu já tentei. Mas Danny defendeu cada tentativa infrutífera de soco que eu dava.
Tom caiu na gargalhada, assim como Harry e Danny. Depois pensou por mais um momento e trocou de desafio:
- Ok, então eu desafio Dougie a ir até o meio da rua e berrar: “Eu tenho pinto pequeno!”
Até eu ri depois dessa. Dougie fez aquela cara de sofrimento básica, mas não negou o desafio. Saiu de casa, meio irritado (leia: BASTANTE irritado), e tudo o que eu pude escutar foi a voz fina de Dougie berrando:
- EU TENHO PINTO PEQUENO!
Eu não me aguentei de rir depois disso. Dougie voltou para a sala batendo a porta, e se sentou ao meu lado bastante mal-humorado.
- Ei, – chamou Tom, fazendo uma dancinha esquisita. – Sua vez.
Eu, praticamente bufando, levantei e peguei a guitarra cheia de botões coloridos.
A partida começou, mas, porra, eu realmente era ruim naquilo. Nunca conseguia acertar os botões na hora certa e, apesar de estar no modo “Easy”, consegui apenas 61%.
Enquanto Tom, no modo “Expert”, conseguiu 99%.
Eu me sinto patética freqüentemente.
- , minha querida amiga – começou Tom, e eu já pude prever que coisa boa não viria -, a única coisa mínima que mandarei você fazer é se trancar por quinze minutos no meu quarto...
Ótimo. Do jeito que Tom não presta, provavelmente ele me mandaria ficar trancada com Danny. Só para me matar de vergonha.
Mas se bem que não seria muito ruim.
- ... com o Harry.
MAS HEIN?
O que exatamente eles esperavam que eu fosse fazer com o Harry, trancada num quarto?
Eu esperei que Danny fosse reagir a isso. Quero dizer, eu conheço Danny há muito tempo, e uma coisa que todos sabem é: nunca deixe Danny com ciúmes. Era de se esperar que Danny ficasse com ao menos UM POUQUINHO de ciúmes da minha pessoa.
Nada feito.
Sem o apoio de Danny, e apesar das reclamações de Harry, logo nós dois estávamos presos no quarto de Tom.
- O que eles querem que nós façamos? – perguntava Harry, inconformado. – Quero dizer, eu estou ficando com a ...
Eu olhei para Harry e me veio uma súbita vontade de abraçá-lo. Eu meio que senti falta dos abraços de Harry, e só tinha ficado chateada com ele naquela manhã.
Percebe-se que eu sou completamente dependente dos meus amigos.
Mas eu sempre fui uma pessoa orgulhosa, então não disse absolutamente nada. Apenas continuei sentada na cama de Tom, e olhei o relógio.
Não tinha se passado nem um mísero minuto.
Continuei a encarar fixamente o relógio. Assim que tinham se passado exatamente um minuto e quarenta e oito segundos que nós estávamos presos ali, eu senti o colchão afundando e percebi que Harry estava sentando ao meu lado.
- Ei, – falou ele, em voz baixa.
- O que é? – eu perguntei, impaciente. Relógio. Um minuto e cinquenta e nove segundos.
Dois minutos.
Eba.
- É só que eu quero te pedir desculpas. Por agora há pouco. Eu não quis dizer aquilo.
Olhei para ele, que parecia chateado. Eu me surpreendi comigo mesma ao perceber que não havia nenhum vestígio de lágrimas nos meus olhos.
- Eu sei. – eu respondi. – Eu estou com medo, Haz.
Ele me encarou nos olhos, parecendo ao mesmo tempo aliviado e triste.
Será que eu tinha parado para pensar se ele estava bem? Se ele estava aceitando bem o jeito da minha irmã? Se ele estava se incomodando com o namoro de ? Será que ele estava chateado por não saber o que estava acontecendo comigo e com Danny?
Por que eu sempre achava que era tudo sobre mim?
- Me fale sobre isso – ele pediu.
- Eu acho que a está roubando meus amigos. Eu acho que ela está invadindo minha vida. Eu acho que ela conquistou meu paizão para ela.
Ele ficou calado, sabendo que eu ia continuar. Harry realmente me conhecia bem.
- Mas eu quero que ela seja feliz, você sabe, ela é minha irmã. E eu quero que você fique bem. Você sempre cuida de mim, Judd. Eu realmente acho que é a hora de você cuidar de si mesmo.
- Eu não sabia que você se sentia assim. A é realmente legal e... Eu meio que me sinto bem com ela.
De repente, eu consegui ver todos os lados bons do relacionamento de Harry e . Todos os incentivos que eu havia dado para eram verdadeiros. Eu queria mesmo que e Harry ficassem juntos. Eles simplesmente combinavam.
não estava tentando roubar meus amigos, ela simplesmente queria fazer parte deles.
Era estranho pensar que minha irmã gêmea não fazia parte do meu grupo de amigos. sempre foi diferente de mim, desde as atitudes até o jeito de se vestir. Mas ela me amava. E é claro que eu amava minha irmã.
E eu amava meu “irmão” também. Então, quero dizer, por que mesmo eu estava criando aquela confusão toda?
Eu não sabia o que dizer. Apenas abracei Harry bem forte, um pedido de desculpas que eu tenho certeza que ele ia entender. Uma das vantagens de seu melhor amigo te conhecer melhor do que você mesma.
Nos soltamos, já com sorrisos nas faces.
- Acho que você não ficou sabendo de todos os acontecimentos das últimas vinte e quatro horas.
- Já sim, criança. E, aliás, eu tenho que te fazer um pequeno questionário de irmão mais velho.
Eu ergui a sobrancelha esquerda, e ele fez o mesmo.
- Pode começar – eu disse, me ajeitando na cama de Tom para ficar mais confortável.
- Vocês estão usando preservativos? – ele perguntou, mal disfarçando o riso.
Fiz minha melhor expressão de escandalizada, e comecei a bater nele:
- Harry, seu ridículo, olha o respeito, idiota! – eu dizia, entre tapas e gargalhadas.
Ele se defendeu dos tapas e começou a fazer cócegas em mim. Cara, não adianta, cócegas sempre acabam comigo.
Ficamos nos batendo (na verdade, EU fiquei batendo nele) e fazendo cócegas (na verdade, ELE ficou fazendo cócegas em mim) até que Tom abriu a porta e nos viu rindo.
- Deu certo! – ele berrou por cima do ombro, e eu escutei Danny gritando um “Yeah” e Dougie um “Merda!”, o que também me fez rir.
- Eles apostaram? – eu perguntei para Tom, enquanto descia as escadas.
- É, Dougie disse que você era orgulhosa demais, mas Danny falou que você ia ouvir a voz da razão.
Eu gargalhei, e quando cheguei ao primeiro andar Dougie estava emburrado:
- Hoje não é meu dia.
- E aí, Dougie, de quanto foi o prejuízo? – eu perguntei tranquila, sentando ao lado de Danny no sofá.
- Vinte reais – ele respondeu, rolando os olhos.
Ficamos algum tempo em silêncio, sem muito assunto. Harry estava bebendo uma latinha de Coca-Cola enquanto Dougie mexia no celular e Tom estava na cozinha. Danny ficou me encarando por um bom tempo e eu, cujas bochechas vermelhas denunciavam meu conhecimento que ele estava com o olhar fixo em mim, fiquei olhando toda a casa, desde o vaso de flores da mãe de Tom até a formiga que andava sobre a televisão.
Sim, minha visão sempre foi ultra-mega-super-boa.
Mas isso não vem ao caso.
O que vem ao caso foi Danny, que se espreguiçou e falou:
- Vamos, , vou te levar para casa.
Continua...
N/A (07/06/09): Oizinho, leitoras! Desculpem pela atualização pequena, mas tenho que scriptar isso rapidinho... as atualizações vão começar a ser menos frequentes, mas eu vou dar o melhor de mim, ok?
E aí, quem foi ao show? Eu fui, e, numa boa, foi maravilhoso! Melhor noite da minha vida EVER, quero tanto que se repita!
E a emoção de Dougie Poynter falando que ia voltar dia 27 de março? Tá que eu sei que foi brincadeira, mas, HELLO, meu aniversário! Adorei, ri muito!
Dia 2 AAG fez 6 meses de site... Dude, COMO PASSA RÁPIDO! Parece que foi ontem que eu estava procurando que nem uma desesperada por uma beta, tentando aprender a scriptar em um dia, criando conta no haloscan e photobucket, tentando entender como se colocava A MALDITA CAIXA DE COMENTÁRIOS na fic... HSUAIHSIUAHSIUAS, agora eu rio de tudo isso, mas foi muito complicado pra mim, ok? E o medo de ter muitos erros e a beta querer me matar? E o medo da rejeição, imagina se ninguém gostasse de AAG? O=
Anteontem minha nova fic entrou no site... se quiserem ler, ela é Into Your Arms. É finalizada, short fic e restrita, mas leiam mesmo assim!!!
Melhor eu calar meus dedinhos, ou a nota da autora vai ficar maior do que o capítulo! HUAHAUHAUAHUAHUAHUAHUAH’ Não se esqueçam de comentar, apesar de eu não ter respondido os comentários como eu prometi (cada dia que passa eu fico mais ocupada D:), eu estou lendo TODOS, sem tirar nem pôr. Aliás, é verdade que tem um colégio chamado Isaac Newton? Eu JURO que não sabia, me achava tão inteligente e criativa pelo nome... /MIMIMIMIMIMI
Tá, parei.
Beiijones ;*
Marii-Marii
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N/B: surtei. a capa antiga estava fora do padrão do site e eu não podia admitir isso numa fic q eu beto...
Eu queria manter o estilo Starbucks, mas o Jones não é o Fletcher -q e não posta foto de starbucks no twitter HUAHAUHAUAHUA
Então decidi escolher outro objeto americanóide: óculos. E FA-TO que o Dan fica MA-RA-VI-LHO-SO com eles, né? Eu babo nessa foto desde sempre!
Mas anyways, a capa é temporária! A Ayla vai fazer uma nova rapidinho, eu vi ela se oferecendo no Twitter! *corre da Ayla*
vou conter meus dedos agora HUAHUAHUAHUAHU
Se alguma das leitoras achar algum problema na fic, seja ele erro de script, português ou qualquer coisa, primeiramente mandem um email pra MIM, e não para o site.
Obrigada, gente!
beijos babados,
Tamy <3