We’ll Be a Dream - II
Autora: Naa Breda.
Beta-Reader: Annie Brissow.




Eu admito: estava atrasado mesmo. Sai de casa com alguns minutos apenas para conseguir chegar ao estúdio, e com o transito que estava era óbvio que iria chegar atrasado. Mas o que me intrigava era por que o estúdio estava com as luzes apagadas. Não podia estar tão atrasado assim! E a minha surpresa foi ver que meu relógio não estava mais em meus pulsos como sempre estava. Provavelmente esqueci quando sai de casa com muita pressa.
Na vã esperança de encontrar alguém ainda dentro do estúdio, tentei abrir a porta dupla, mas estava trancada. Eles tinham desistido de me esperar e foram para casa. Será que estava muito brava comigo? Mas a culpa não foi minha, eu não sei como consegui chegar tão tarde no estúdio. Não faz nenhum sentido e, além do que, eles não estão mais ai dentro e... Como eu estava confuso agora. Por que diabos eles não estavam dentro do estúdio? E como eu consegui me atrasar tanto? E cadê meu carro? Cadê meu celular e meu relógio?
Pude então perceber que ao fundo, um som distante estava em minha cabeça, um barulho agudo e ritmado, mas de novo eu não sabia o que estava acontecendo e nem da onde vinha tal barulho. Talvez fosse de algum acidente pelas ruas ou de algumas das casas por perto. Resolvi perguntar a hora para um homem que passava na rua.
- Moço, que horas são? – perguntei chegando perto dele, mas perecia que ele não me via e que não me escutou, porque nem para mim olhou, continuou andando como se eu não estivesse ali do seu lado. Rapaz mal educado!
Perguntei a mesma coisa para outra pessoa, mas de novo me ignoraram. Que má sorte que eu tinha ao perguntar para duas pessoas mal educadas. Quando a terceira fez a mesma coisa eu comecei a ficar preocupado. Por que todos estavam me ignorando? Era impossível que três pessoas fossem tão mal educadas assim. Sim, estava tarde e não se deve falar com estranhos, mas eu apenas perguntei o horário, custava muito me responderem?
Bom, minha única opção foi voltar para a casa e tentar ligar para a para ver o que estava acontecendo e tentar explicar como cheguei tão atrasado. O único problema é que eu não me lembro onde estava o meu carro e eu não conseguia vê-lo ali por perto. Será que eu tinha andando até o estúdio? Sorte que a minha casa não era tão longe dali, caso contrário pegaria um táxi mesmo. Mas espera. Cadê minha carteira?
A minha cabeça estava girando em torno de perguntas que não faziam sentido e as quais eu não tinha resposta, o que estava me deixando desesperado. Eu podia sentir que havia alguma coisa errada, eu só não sabia o que era, mas iria descobrir rapidinho.

Olhei a porta do meu apartamento sem saber como havia chegado. Minha mente me dizia que eu havia corrido até ali, mas meu corpo não demonstrava estar cansado depois de uma corrida, como deveria estar. Aquele realmente não era o meu dia, tudo ao meu redor estava estranho e a minha mente doía em busca de respostas que eu não tinha. Porém, a esperança é a ultima que morre, não é mesmo?
Entrei e fui direto para o telefone. Havia algumas mensagens, quatro para ser mais exato, e eu até podia imaginar de quem eram, então as ignorei e disquei os números da casa de . Os toques soaram incômodos, perturbando minha cabeça, estava quase insuportável de continuar a escutá-los. Admito que esperar nunca fora meu forte. Alguns segundos se foram e ninguém atendeu. Estranho, onde mais ela estaria? Tentei seu celular, mas só deu caixa postal. Intrigado, tentei os vários telefones dos meus companheiros de banda, e, principalmente, dos parentes de . E, por mais incrível que possa parecer, todos estavam fora de área. Não havia alternativa se não ir até a casa dela e conversar pessoalmente. Claro que isso só seria possível se estivesse em casa.

Sem me lembrar de como havia chegado em frente a porta da casa de , lá estava eu, sem qualquer cansaço aparente, sem carro e sem táxi. Algo muito estranho acontecia e eu só pensava que poderia ser um sonho. Na verdade, um pesadelo, porém eu não estava lembrado de ter ido dormir e as sensações pareciam bem reais para mim. Sacudi minha cabeça e toquei a campainha. Poucos minutos ninguém me atendeu. Insisti na campainha até perceber que realmente não havia ninguém em casa. Tentei abrir a porta, e consegui. Outra pergunta sem resposta: por que deixaria a porta da sua casa aberta? Estávamos em Londres, uma cidade grande e perigosa e não fazia sentido ela deixar a porta aberta. Será que tinha algum ladrão lá dentro e estava mantendo como refém? Assustado, nervoso e com medo entrei pela porta e subi a pequena escada que tinha até a sala principal da casa.
Estava tudo apagado, todas as luzes, e não conseguia identificar nenhum som aparente, mas isso não me impediu de procurar por pelo resto da casa. Mas a tentativa foi em vão, ela não estava ali. Não havia ninguém ali. Nada. E não tinha nenhum indicio de que alguém estava frequentando aquele lugar. Havia poeira sobre os móveis, sujeira na sacada, e os objetos estavam dispostos do mesmo jeito que eu me lembro dele, a mesma pequena bagunça de Mandy.
Onde estariam todos? Onde estaria ?
O telefone apitou, avisando que alguém estava ligando, mas logo no segundo toque caiu na secretaria eletrônica.
Espera ai, por que quando eu liguei não foi ativada a caixa eletrônica?
Reconheci a voz da melhor amiga de . .
-“Mandy, como você está? Não responde mais meus telefonemas, estou começando a ficar preocupada com você. Tom me falou que você passa o dia inteiro naquele hospital e isso não esta fazendo nada bem para você. Por favor, amiga, me responda quando, e se, você escutar essa mensagem. Eu estou realmente preocupada. E me desculpe por não estar aqui mais cedo, mas só fiquei sabendo do acidente alguns dias depois e tentei vir o mais rápido que pude, mas já faz algumas semanas agora e você ainda não me respondeu, e falar com Tom não é a mesma coisa que conversar com você pessoalmente. Bom, me liga. Beijos e...”
A mensagem foi encerrada, talvez pelo limite de minutos, ou pela falta de memória, já que havia mais de dez mensagens na secretaria.
Hospital? Acidente? Semanas? O que diabos estava acontecendo?
Apertei o botão para conseguir ouvir as outras mensagens na secretária, mas parecia que o botão estava emperrado, ou alguma coisa do tipo, o que importava era que ele não estava funcionando.
O que havia dito mesmo?
estava em um hospital, provavelmente tinha sofrido um acidente, só que não estava conversando com ela. Porém, pelo o que eu me lembrava, não tinha sofrido nenhum acidente, e ninguém havia me avisado de nada. Mas é claro que ninguém havia me avisado, eu estava sem celular. E sua ausência explicava a poeira.
Poeira... estava viajando a negócios e só voltaria depois de um mês, ou seja, se ela já havia voltado fazia pelo menos um mês que estava no hospital. Onde eu poderia estar durante um mês? Como eu não conseguia me lembrar do que havia acontecido nesse período de tempo? Será que eu havia sido sequestrado? Isso explicaria a falta de pertences...
Calma. havia falado que conversara apenas com Tom. Claro! Tom! Minha única esperança agora, já que eu não iria conseguir descobrir o nome do hospital.

Novamente, em um piscar de olhos eu estava parado na porta da casa de Tom, assim como fizera com a de . Foda-se, eu apenas queria saber o que estava acontecendo. Entrei com a mesma facilidade que entrei no apartamento de e, para a minha enorme alegria, lá estava Tom, sentando na sala, acariciando os cabelos da namorada, que dormia profundamente. Pude ver uma lágrima sair dos olhos do meu amigo e escorregar pelo seu rosto. Então era verdade, estava mesmo no hospital.
- Tom! – gritei, correndo ao seu encontro, mas ele pareceu me ignorar – Tom! – gritei novamente de frente para ele, olhando diretamente em seus olhos, porém estes pareciam perdidos nas chamas à sua frente – Thomas! Não me ignore! – gritei.
Por que ele não conseguia me ver, sendo que eu estava ali, em seu frente?
Giovanna acordou, um tanto assustada. Seus olhos arregalados, a respiração rápida, o que assustou meu amigo.
- O que aconteceu Gio? – perguntou passando a mão pelo rosto da Giovanna.
- ! – respondeu. Nossa, finalmente alguém sabia que eu estava ali – Sonhei com . Ou não. Ele estava aqui na sala com a gente, nos chamando, nos pedindo ajuda – uma lágrima escorreu dos olhos de Giovanna, assim como escorria dos de Tom. O maroto a abraçou e lhe beijou o topo da cabeça.
- Eu também sonho com ele quase todas as noites. – confessou, voltando a perder o olhar na minha direção. Como era possível Giovanna ter sonhado com o que eu acabara de fazer? – Em todos eles está rindo com a gargalhada escandalosa, nos animando, fazendo minha irmã rir junto. – completou em tom de tristeza.
- Não consigo imaginar como deve estar sendo para ela, se tudo parece tão ruim para nós que somos amigos dele... – Giovanna voltou o olhar para as chamas.
- Nunca a vi sofrer daquele jeito. Não é bom para ela. Ela precisa sair daquele quarto, parece que ela já faz parte de decoração. – Tom estava preocupado demais.
- Tom, tente entender, depois do acidente de ela se culpou por não estar perto dele, por não tê-lo feito ir junto com ela antes e talvez evitando o acidente, evitando toda essa situação. – Calma de novo. Então quem havia sofrido o acidente tinha sido eu? Como eu poderia ter sofrido um acidente se eu estava ali, bem em frente à eles?
- Ela não sabia! Ninguém sabia o que iria acontecer! – exclamou Tom nervoso – Ela precisa sair do lado dele, pelo menos alguma hora. O médico está mais preocupado com o estado de saúde dela do que de , isso porque é ele quem está em coma.
Coma! Agora tudo fazia sentido! Tudo! A falta de pertences, como eu não estava sendo enxergado por ninguém, porque eu me ‘materializava’ de um lugar para o outro sem saber como, e como tudo estava confuso. Além de explicar o som irritante que não sumira de minha cabeça. Era o som dos meus batimentos cardíacos no hospital.
- Amanhã vamos até o hospital e você tenta convencê-la a sair do quarto, pelo menos para ir até o apartamento dela tomar um banho de verdade. – disse Gio, levantando-se do sofá e esticando a mão para Tom, em um convite silencioso para sair dali e ir até o quarto dormir – Vem, vamos dormir.
Tom aceitou após um longo e profundo suspiro. Depois de vê-los subir as escadas até o quarto que dividiam, resolvi ir até a minha casa, que era do lado da de Tom.

Sentei em minha cama. Tudo estava do mesmo jeito que eu lembrava. As fotos espalhadas para fazer o álbum para , como presente de namoro – eu a ia pedir em casamento – algumas camisetas jogadas sobre a cama, as partituras sobre a escrivaninha de maneira nada organizada também e a poeira sobre todos os objetos e móveis. Suspirei. Toda essa situação me assustava. Eu era um tipo de fantasma, afastado do meu corpo em coma, que tinha sofrido um acidente que nem ao menos conseguia me lembrar. Olhei para minhas mãos pensando em como tudo aquilo parecia surreal. Eu estava ali, eu conseguia me sentir, mas não sentia as coisas ao redor, como a cama que eu estava sentado, eu sabia que estava sentado nela, mas não conseguia senti-la.
O som dos meus batimentos cardíacos ainda ecoava em minha cabeça, e, tentando me concentrar no som, pude ouvir algo junto, algo que era mais tenebroso do que meus batimentos em uma maquina. Era o som de choro, um choro fraco e desesperado. Era chorando ao meu lado. Então, de alguma forma, eu senti sua toque sobre a minha mão. Seu toque macio, delicado, cheio de esperanças.
Assim que abri meus olhos, me vi sentado em uma cadeira no meu quarto de hospital. Eu estava ali, de frente à , observando meu corpo deitado sobre o leito da cama e o rosto pálido de chorando sobre nossas mãos entrelaçadas. Um grito saiu de meus lábios, um grito medonho, um grito nervoso.
- , eu estou aqui! – gritei bem perto de seu corpo – Eu estou aqui meu amor, do seu lado. Por favor, me escute. Me veja, me sinta! – continuei a gritar, enquanto colocava a minha mão sobre a dela que estava entrelaçada com a mão do meu corpo.
Queria que ela me sentisse, que soubesse que eu a estava vendo, que estava vivo ao seu lado para tirar a dor dos seus olhos e as lágrimas de seu rosto, e devolver a vida àquela pessoa que eu amava mais do que tudo.
Frustrado, continuei chamando seu atenção, continuei a gritar seu nome, porém nada adiantou. Ninguém me ouvia, ninguém me sentia, nem mesmo Mandy.
Passou alguns minutos e adormeceu com a cabeça sobre as mãos juntas, a respiração fraca e às vezes de ‘soquinho’, como se não tivesse mais força para respirar corretamente, de tanto que já havia chorado. Preocupado em devolver a vida para o rosto de , peguei a minha ficha médica, bom, pelo menos tentei. Tive que ver o que estava apenas escrito na primeira folha e nada mais. Ali, não ajudava muito, mas me dei conta que talvez não conseguisse acordar, nunca mais. A previsão médica não era esperançosa. Eu havia sofrido um grave trauma craniano e alguns ossos do meu corpo haviam se quebrado no acidente. Segundo o que estava escrito, haviam marcas de batidas correspondentes ao choque do meu corpo com o veiculo.
Eu havia sofrido um acidente de carro? Será que eu perdera o controle do meu carro e bati em algum lugar? Será que eu tinha matado alguém? Meu desespero só aumenta a cada pergunta que eu me fazia e não conseguia obter respostas. dormia tranquilamente sobre nossas mãos, e meu corpo estava quase curado. Havia alguns arranhões apenas e gesso nos membros quebrados, mas eu tinha que obter respostas, eu tinha que saber o que realmente tinha acontecido na noite do acidente - da qual eu não conseguia me lembrar.
Sentei novamente na poltrona perto da janela e, ao olhar pelo vidro embaçado da janela, vi algumas luzes pelo lado de fora. Faróis de carros passando apressadamente pela rua e janelas com as luzes acesas, mas o que realmente me chamou atenção foram algumas pessoas postadas na frente do hospital, abraçadas umas nas outras. Uma menina estava chorando no ombro da amiga, seu corpo soluçava em reação a um forte choro. Me perguntando por quem aquelas meninas estavam chorando, vi um cartaz grande com o escrito “Estamos aqui por você ”. Por mim. Aquelas meninas estavam ali, fora do hospital, por mim.
Algo se aqueceu dentro de mim, um reconforto, como aquele que é causado pelas chamas de uma lareira em um dia frio de inverno. Sorri e decidi descer até lá, e dessa vez eu sabia o caminho, eu estava presente durante todo o percurso até finalmente chegar ao saguão de entrada do Hospital.
Havia poucas meninas, e alguns meninos apenas. Se falar que havia dez pessoas era muito, mas só pelo fato de estarem ali já me trazia alegria por possuir fãs tão incríveis, fãs carinhosos e dedicados como aqueles. Passei pela porta e cheguei perto de um grupo de três pessoas, duas meninas e um menino. Esse mantinha um braço ao redor de uma das garotas.
- Eu ainda não consigo acreditar que o está em uma cama de hospital desacordado. Era para eu estar vendo em cima de um palco há essas horas, cantando para mim, se divertindo junto com os outros guys – falou a menina que estava sem o namorado. Os olhos dela estavam inchados e avermelhados, seu rosto mantinha uma expressão cansada demais, como se ela estivesse ali todo o dia, esperando alguma notícia.
- É tudo tão surreal. Eu tenho tanto a agradecer a eles. Sem eles acho que não conheceria o Stephan, sem o show que fui deles não teria descoberto como é bom amar alguém e ser correspondida – disse a menina sorrindo para o namorado. Eu sorri por dentro por ter participado, de alguma maneira, da felicidade dessa menina – Eu sinceramente espero que o melhore, foi por causa dele que me apaixonei pela banda.
- É, eu penso o mesmo. Nunca imaginei que estaria em uma cama de hospital depois de ter sido atropelado por um caminhão desgovernado. Penso que ele teve até sorte, já que, onde eu li a notícia, ele poderia não ter sobrevivido se não fosse pelo motorista ter tirado o caminhão da direção dele a tempo. Há essa hora o McFly poderia estar procurando por um outro membro da banda e não rezando para que ficasse bom. – comentou o namorado, Stephan.
- E é isso que temos que fazer também, rezar para que ele melhore. Graças aos céus ele continua vivo, e eu sei que ele vai melhorar. Poxa, é do que estamos falando, ele vai conseguir! – exclamou a amiga do casal com lágrimas nos olhos.
Minha vontade foi de abraçá-la e dizer que estava tudo bem, que eu iria encontrar uma maneira de voltar a consciência, nem que eu passasse todo a minha vida tentando. Eu precisava voltar, por , por Tom, por , por , pelos fãs, pela minha família, por mim. Não queria mais ser ignorado, não queria mais não sentir as coisas quando as tocava, não queria mais presenciar a dor em sem ter como ajudá-la.
Caminhei para o quarto como se tivesse indo para uma prisão. Eu sentia que caminhava para uma armadilha mortal, uma armadilha que me levaria à morte da maneira mais dolorosa e sofrida possível. Segundo o que escutei um caminhão me acertou e por muito pouco eu não estava morto. Mas qual é a diferença entre estar com seu corpo em coma e sua alma viva, e a real morte? Eu já me considerava morto, era só uma questão de tempo para meu corpo não aguentar mais e eu partir. Tinha a impressão que talvez doeria menos se eu morresse de uma vez, pois assim não haveria nenhum vestígio de esperança de que eu pudesse voltar e sorrir de novo, contar piadas e divertir a todos. É, a morte é realmente muito mais simples do que ficar vivo, menos doloroso para os que eu amava.
Chegando ao quarto vi o meu amor na mesma posição que a havia deixado. Por inconsciência, caminhei até chegar ao meu corpo e me toquei. Senti um arrepio muito forte passar pela minha espinha. Foi estranho, foi frio, vazio, e então uma luz me cegou, e como se tudo ao meu redor não existisse mais, me vi na rua.
Vi a mim, , correndo nervoso para chegar no horário no estúdio, com o celular na mão e o rosto virado para o pulso na tentativa de enxergar as horas. Olhei para o lado e me deparei com o caminhão. A luz forte e branca vindo na minha direção, o som agudo e alto da buzina, as pessoas gritando, até que o meu eu viu, tardiamente, o veículo. Eu gritei, como se meu grito pudesse, de alguma maneira, alterar o passado, mas de nada adiantou, eu fiquei ali, parado, observando o caminhão me atropelar, jogar meu corpo para o outro lado da rua, e, como se alguém tivesse ligado a câmera lenta, corri para perto do meu corpo, onde, ao redor, começava a se juntar um grupo de pessoas horrorizadas. O caminhão tinha batido em um muro e conseguira parar. Alguém ligou para a polícia e outro para a ambulância, mas não escutei mais nada. Vendo o meu corpo ensanguentado, com meus braços e pernas em ângulos anormais, com uma poça de sangue se espalhando ao meu redor, desabei e fechei os olhos, rezando para que tudo tenha sido apenas um grande e horrível pesadelo.
Quando abri os olhos lentamente, me vi no quarto do hospital, segurando a mão do meu eu em coma. Eu ainda conseguia ver meus olhos se arregalando aos poucos ao perceber a aproximação do caminhão, eu conseguia sentir o desespero em saber que talvez não sobrevivesse, que ali eu encarava o final de tudo.

Algumas semanas se passaram e eu estava perdendo a cabeça, tentado fazer um jeito de voltar para o meu devido lugar. Ver chorar todas as noites, sem poder abraçá-la, lhe dizer que tudo iria ficar bem, sem sentir o gosto de seus lábios, a textura da sua pele sobre a minha, o cheiro de seus cabelos, sem poder dizer que a amava mais do que tudo. Os guys vinham me visitar todos os dias, sem exceção, e traziam com eles uma caixa grande com cartas que lia durante todo o dia. Algumas ela respondia, outras apenas ria, mas sempre estava lendo para mim, sempre conversava comigo, e a cada palavra que saia da boca de minha angustia aumentava por não conseguir dizer que estava ali do seu lado.
Estava me sentindo exausto mentalmente. Era como se todo o mundo estivesse apoiado em cima da minha cabeça e eu estava tentado mantê-lo ali, equilibrado, para não cair no chão e quebrar. Não aguentava mais ver chorar, não aguentava mais o que estava acontecendo, não conseguia aguentava não ter respostas para as minhas perguntas.
Sinceramente, eu estava pedindo para que meu corpo desistisse de lutar e me livrar de uma vez desse meio terno que se tornara minha vida. Seria melhor, eu sei que seria. Porque a esperança iria embora, e ninguém mais se prenderia a mim, todos iriam continuar suas vidas, dias após dias, tentado superar a perda, até que um dia o que resta seriam lembranças minhas.
Mas não! Eu tinha que fazer todo mundo sentir nem que fosse um fio de esperança, fazer eles presos a mim, enquanto o meu interior era destruído, dia a dia.
Sai do quarto e me sentei no banco da sala de espera do andar, fiquei ali, observando. Eram enfermeiras conversando sobre seu final de semana, médicos conversando com médicos sobre pacientes, familiares chorando, pessoas recebendo alta e sendo abraçados, telefones tocando, pessoas rindo, crianças correndo, alguns liam revistas do meu lado. Tudo parecia normal, como sempre, até a enfermeira gritar “Código Azul”. Alguém teve uma parada cardíaca. Médicos correram, enfermeiras correram, os parentes começaram a chorar, as pessoas ao redor olharam nervosas e, ouso dizer, curiosas. Era apenas mais um dia no hospital.
Assim que virei o rosto para frente novamente, vi um menino me encarando. Óbvio que assustei, não tinha como não assustar, só que o susto foi passageiro, já que a sensação que senti quando olhei para aqueles olhos tão profundos foi tão relaxante que me perdi um mundo vazio.
- Oi. – disse o menino ainda olhando fixamente para mim, mas agora sorrindo. Um sorriso que, ouso dizer, eu tinha certeza que já conhecia, mas não lembrava onde.
- Oi. – respondi ainda hipnotizado pelo moleque.
- Sou . – falou ainda sorrindo. Ele me lembrou uma estatua grega. Branca, perfeita, profunda e, claro, parada.
- Oi , sou . – respondi um pouco confuso com aquele começo de conversa.
- Eu sei quem você é, está aqui no hospital há muito tempo. O que aconteceu com você? – perguntou ele, finalmente se mexendo e sentando ao meu lado.
- Eu sofri um acidente, um caminhão me atropelou e agora estou dormindo. O que você faz aqui? – falei sem querer assustá-lo.
- Estou apenas de passagem. Vim ajudar.
- Ajudar quem ?
- Apenas ajudar. – respondeu com os olhos perdidos no corredor branco – Há quanto tempo você está dormindo?
- Algumas semanas já. – respondi, olhando para o corredor também.
- Quando você acha que vai conseguir acordar?
- Eu venho que fazendo essa pergunta por muito tempo já e não sei a resposta.
- Por que você não abre os olhos apenas? As pessoas normalmente acordam assim, depois de abrir os olhos.
- É, verdade, elas acordam assim mesmo, mas eu não sei como abrir os olhos.
- Mas você já está de olhos abertos. – disse o menino olhando para mim.
Foi então que percebi que reconhecia aqueles olhos de algum lugar também, só não lembrava onde.
- É, você tem razão. – o que eu diria depois daquilo? era apenas uma criança e talvez se assustasse se eu lhe contasse o que realmente aconteceu, e, com as suas respostas, percebi o quão ingênuo ele era e não queria estragar isso.
- Onde você está dormindo?
- Em um quarto aqui perto.
- Quem está com você?
- Minha namorada, . Ela fica comigo o tempo todo cuidando de mim.
- Posso ir ver ela?
- Claro! – respondi levantando, seguido pelo menino – Venha. – chamei, lhe oferecendo a mão. Ele a pegou sem hesitar e juntos fomos até o meu quarto de hospital.
estava ao meu lado, deitada na poltrona desconfortável e lendo um livro grosso. Com uma mão ela segurava o livro, a outra, segurava a minha mão apoiada na cama. Como eu queria poder sentir.
- Ela é bem bonita. – comentou assim que adentramos o quarto.
- Sim, ela é a mulher mais bonita que eu já vi em toda a minha vida. – respondi hipnotizado por .
- Você a ama? – perguntou ainda segurando minha mão, mas dessa vez olhando para mim.
- Mais do que tudo no mundo! – respondi.
Estava ficando confuso. Como um garoto que não aparentava ter mais do que cinco anos podia dizer coisas assim? Fazer perguntas assim?
- Isso é bom. Quero que meus pais se amem como vocês se amam.
- Você não tem pais?
- Ainda não, mas um dia eu vou ter. – coitadinho, ele era órfão.
- O que aconteceu com você?
- Como assim?
- O que aconteceu para você estar aqui no hospital junto comigo ?
- Eu não sei. Só sei que estou aqui para ajudar. – respondeu olhando para com os olhos brilhando de alegria – Aquele ali em cima é você?
- Sim, sou eu. – respondi, esperando varias perguntas como: Como é possível você estar aqui e ali ao mesmo tempo?’ Mas ele apenas ficou olhando meu corpo sobre a cama por alguns segundos, depois voltou seus olhos para .
- Você sente quando ela te toca?
- Não, não consigo sentir.
- Por que você não consegue?
- Eu também não sei te responder isso .
- Você sente a minha mão na sua?
- Sinto.
O silêncio se estabeleceu entre nós. ainda mantinha sua mão sobre a minha e os olhos fixos em .
- Eu vou ter uma mãe igual a .
- Vai é? Como pode ter tanta certeza assim?
- Porque eu sei que eu vou ter. Por que você acha que ainda não acordou?
- Talvez meu corpo não esteja preparado para acordar.
- Você sente que está preparado?
- Sim, eu estou preparado, não quero mais dormir.
- Então abra os olhos. – assim que disse isso, os guys entraram no quarto e não pude mais sentir o mão de junto a minha.
Olhei para o quarto e não o vi em lugar algum. Fiquei preocupado por alguns instantes, mas tudo sumiu quando eu vi meus melhores amigos ali, perto de mim, fazendo sorrir um pouco.
‘Então abra os olhos.’
Aquela frase não saia da minha cabeça. Como assim apenas abre os olhos? Meus olhos já estavam abertos.
Fechei os olhos numa tentativa boba de entender o que menino quis dizer com aquela frase. Sem a visão, escutei tudo ao meu redor: o ritmo dos aparelhos ligados ao meu corpo, o som das vozes de Tom, , e , escutei os passos que eles davam, os suspiros, as lamentações. Escutei o que acontecia fora do meu quarto, escutei enfermeiras correndo, pessoas passando chorando, outras conversando. Senti, mais uma vez, a mão gentil de sobre a minha, apertando-a levemente, logo em seguida, soltando-a. Escutei ela dizer ‘Eu não tinha visto que tinham fãs aqui no hospital’ e com a falta de seu toque eu abri os olhos, curioso com o que acontecia a minha volta. Junto com os meus olhos mexi as mãos, nervoso.
Meu nervosismo refletiu no meu corpo, fazendo minha mão mexer. Eu estava conseguindo, estava conseguindo voltar. Eu tinha um jeito de voltar agora! Não sabia direito como faria, mas tudo o que importava é que meu corpo e a minha alma estavam preparados para eu voltar.
gritou em êxtase com o meu movimento, porém, como ele fora o único que viu, ficou um pouco bravo e logo eles saíram. Me deixando sozinho novamente com .
- Acordou? – perguntou ao meu lado.
Esse menino estava me deixando curioso, nervoso e ansioso. Como ele vinha e ia daquele jeito? E por que ele estava me ajudando? E o que havia acontecido com ele para estar aqui? Calma. Ajudar... “Vim ajudar”... “Apenas ajudar”. Por que aquele menino estava ali para me ajudar?
- , você veio aqui para me ajudar. – não foi uma pergunta. Eu já sabia a verdade.
- Sim. – respondeu sorrindo angelicalmente.
- Por quê?
- precisa de você. – respondeu olhando para o rosto cansado da minha namorada.
-Como assim?
- Venha, escute. – ele se encaminhou até Mandy.
Caminhei até e fiquei ao lado dela e de , não escutava nada a não ser o barulho dos aparelhos ligados ao meu corpo.
- Escutar o que?
-F eche os olhos e escute.
Escutei tudo ao meu redor novamente. Os aparelhos, os passos, a respiração cansada de ... Não conseguia escutar nada alem disso. O que queria que eu escutasse? Concentrando-me, escutei os batimentos cardíacos de , porém havia mais um. Um mais rápido, acelerado, que não era o meu, nem o dela. Era de outra pessoa.
- De quem é esse outro coração?
- É do bebê
- Que bebê?
- Do seu bebe, . – respondeu sorrindo, olhando para a barriga de .
- Meu bebê?
- Sim, seu bebê. – o menino riu e depois tudo sumiu.
Os sons sumiram, sumiu, minha concentração sumiu, sumiu, eu sumi. Eu ia ter um filho. está carregando um filho meu. Eu ia ter um filho! Eu ia ter um filho! Eu vou ser pai porque eu vou ter um filho! Pai! Eu. Pai!
Quando a ficha caiu, minha visão voltou e eu vi lendo para mim, e eufórico me ajoelhei ao seu lado e passei a mão sobre sua barriga. Eu o sentia. Ele estava ali, meu pequeno. Eu precisava voltar agora. Precisava voltar por , por mim, pelas fãs, pelos amigos e, principalmente, pelo bebê. Eu ia ser pai!
- ? – chamei, olhando para todos os cantos do quarto sem encontrá-lo em lugar algum. Ele tinha sumido.
Eu havia ficado com a única opção que tinha: abrir os olhos. Fechei os olhos e me concentrei novamente, só que agora tudo o que eu conseguia ouvir era os batimentos acelerados do meu filho. Eu imaginei ele brincando, correndo, sorrindo... Sorriso! Eu sabia que reconhecia aquele sorriso de de algum lugar, é igual ao de , e os olhos, eram iguais aos meus quando eu era bebê. é o meu filho. Ele é a alma do meu filho!
Tudo ficou mais claro quando entendi o que estava acontecendo. Ele fora para me ajudar porque era meu filho. Em choque abri os olhos.
A luz foi muito forte para as retinas cansadas e desacostumadas com a claridade.
- ! Eu sabia que você ia voltar para mim. – exclamou me abraçando. Não conseguir fazer o mesmo, meus músculos também estavam cansados, mas eu conseguia falar.
- ! – falei baixinho e fraco – Como senti sua falta.
- Eu também senti a sua, meu amor. – me respondeu dando o sorriso que senti saudade.
- , presta atenção. – falei franco ainda - Você está grávida, amor.
- O que ? Espera que eu vou chamar um médico. – falou se afastando de mim.
- Não, me escute. – a segurei pela mão – Você está grávida , você precisa se cuidar.
- Ok, veremos isso depois, agora o mais importante é você. – respondeu depois de alguns segundos paralisada. Com um lindo sorriso nos lábios, me beijou levemente e saiu, me deixando com o meu próprio sorriso nos lábios.

Meses se passaram e eu pude finalmente sair do hospital. A barriga de estava enorme, faltando menos de um mês para recebermos o pequeno . O meu pequeno .
Com a fisioterapia, recebi meus movimentos de volta, mas ainda tinha que praticar bastante se quisesse voltar algum dia a tocar na banda de novo. Os guys e as fãs estavam me dando muito suporte e apoio durante esses meses. Confesso que não podia estar mais feliz do que agora e, olhando para , lembrava da sensação de abrir meus olhos novamente.
Ver aqueles olhos , redondos e marcantes olhando diretamente para os meus foi uma das melhores sensações que eu já tinha sentido, não tinha como explicar. Por isso, enquanto eu saia do hospital sentado em uma cadeira de rodas, conseguia sentir o que havia no meu bolso da calça. Eu conseguia sentir o formato quadrado da caixinha e, só de imaginar o que viria junto com a aquela caixinha, meu sorriso já aumentava. É, não vai ser fácil, mas era o que cada célula do meu corpo me dizia para fazer.

Fim!


N/A: Espero que tenham gostado dessa continuação. Sejam boazinhas ao comentarem ok? Adoro ler os comentários de vocês, sério! Kkk Obrigada por terem a paciência de ter lido mais uma das minhas fics e mesmo se não tiverem gostado, pode comentar, ajuda na hora de escrever mais. Obrigada Annie por ter betado mais uma das minhas kkk E desculpe pela demora na continuação . Me sigam no twitter @naabreda [quem quiser, claro]. Beijos e até a próxima, quem sabe?

Nota da beta: Deixei passar alguma coisa? E-mail.
AnnieB.