UNTOUCHABLE
por Adelle Rodrigues
Beta-Reader: Loma R

CAPÍTULO UM

“That's just the way things are

(Esse é apenas o jeito que as coisas são)
And the way they'll always be
(E o jeito que elas sempre serão)
Girls do what they want
(Garotas fazem o que querem)
Boys do what they can…”
(Garotos fazem o que podem...)

- Você tem certeza que quer fazer isso? – a garota baixinha de cabelos pretos na altura do ombro perguntou insegura.
- Claro! Eu sou O’Donnel. O que eles podem fazer contra mim?! – a garota, de olhos cor de chocolate e cabelos extremamente lisos, que batiam na metade de suas costas, disse cheia de si.
- Mas e se eles pedirem as nossas identidades? – a menina de cabelos levemente avermelhados perguntou olhando todos ao redor, desconfiada.
- , eu já disse, eles nunca vão nos impedir de entrar. Vocês estão comigo, esqueceram? – respondeu com um sorriso convencido.
- E com seu ego também, não se esqueça de colocar ele pra dentro – a quarta garota, que até então tinha permanecido calada olhando suas unhas, com um ar de superioridade, se manifestou. Ela tinha grandes olhos negros e a pele levemente bronzeada, resquícios de seu verão nas ilhas gregas.
- HÁ-HÁ, e suas piadas sem graça – reclamou, mostrando a língua – eu apenas encaro a realidade. Quando foi que a gente foi barrada em qualquer lugar?! – perguntou arqueando a sobrancelha.
- Isso lá é verdade, eu não posso negar. Mas mesmo assim eu fico insegura, ta?! Se meu pai sonhar que eu não estou em casa, estudando para a minha prova de cálculo avançado, ele me deporta pro interior do Afeganistão! – a baixinha falou novamente – Eu ainda estou de castigo desde que ele descobriu que a gente gazeteou aula pra ir à inauguração da filial da Barney’s perto do condomínio – ela reclamou fazendo uma careta.
- Então nada de fotos hoje, ?! – perguntou com um bico enorme.
- Claro que não! Pelo menos não comigo, . Pra todos os efeitos, eu estou indisposta, trancada no meu quarto, tentando estudar – ela respondeu.
- Seu pai é um chato. Tudo o que o meu pai fez foi perguntar se eu estourei o limite do meu AMex* de novo! – disse sorrindo satisfeita. (N/A: AMex* = American Express = Cartão de crédito de luxo)
- Minha mãe me deu um sermão, mas nada que eu já não tivesse escutado... – falou dando os ombros.
- O mesmo comigo. Mas a gente vai entrar quando?! Eu estou na seca desde que terminei com o Half – falou com um brilho nos olhos.
- Você já terminou com ele? – perguntou impressionada.
- Ele deu em cima de mim. Todas as vezes que eu o encontrava longe de respondeu entediada.
- De novo? O próximo cara que eu conhecer, eu vou levar na frente da e perguntar “Hey! O que você acha dela? Vai querer fazer uma troca?!” falou sem paciência, arrancando risos de suas amigas.
- O que eu posso fazer? Eu sou gostosa. Pensei que vocês já tinham aprendido a lidar com isso – falou fazendo uma pose sensual e atraindo o olhar dos caras mais próximos.
- Eu disse que hoje era mais uma entrada pro ego dela? Errei... Duas entradas com certeza ainda serão insuficientes! – falou com ar de riso.
se fingiu de magoada.
- Você sabe que me ama! – falou rindo alto junto com as outras duas.
- Ah, você me ama mais! – respondeu rindo e entrelaçando o braço com o da amiga – Vamos hottest?! – perguntou à e , que a olharam com um brilho nos olhos.
As quatro seguiram para a entrada vip da boate, atraindo o olhar de todas as pessoas em volta. Não só por serem, de longe, as mais bem vestidas, elas eram lindas. Mas era inegável que a mais bonita das quatro era . E a mais convencida, com certeza.
- Boa noite, senhoritas. Nomes, por favor? – o rapaz que estava na porta perguntou olhando a prancheta em sua mão, entediado.
Ele não devia ter mais que 20 anos. Era alto e tinha a pele clara, com olhos verdes que se destacavam debaixo dos fios negros de seu cabelo, que insistiam em cair sobre seus olhos.
- Eu realmente preciso dizer meu nome?! – perguntou com a voz falsamente magoada, chamando a atenção do rapaz.
O menino olhou pra cima, curioso.
- Eu conheço você... – ele comentou olhando a garota com um brilho nos olhos – O’Donnel, certo? Filha de Steve e Sarah O’Donnel, donos dos hotéis Golden Star? – ele perguntou a encarando.
- Com certeza. Como eu, só existe... Eu! – falou rindo – Eu deveria conhecer você? – ela perguntou arqueando a sobrancelha.
- Bom... Eu sou Chace Peterson. Faço historia da arte e biologia II com você – Chase falou, parecendo um pouco desapontado por ela não se lembrar dele.
- Hm... Historia da arte? Você não é um daqueles caras estranhos que sentam no fundo da sala e passam a aula inteira falando merda e secando as piranhas do colégio, é?! – ela perguntou com uma cara de nojo.
- Na realidade, eu sou o novo capitão do time de pólo. Sou o aluno transferido dos Estados Unidos – ele falou sem desgrudar os olhos dela.
E atenção era tudo o que ela queria. Sempre.
- E o que você faz tão longe? E trabalhando como recepcionista? – estranhou.
- Meu pai resolveu que era hora de nossos investimentos atingirem outro continente e preferiu se mudar pra garantir o desempenho. E eu, estou aqui hoje como uma forma de castigo pelas minhas últimas ações no outro continente... – respondeu com um sorriso travesso nos lábios.
- Ah, agora eu sei quem você é. Sinto por não termos tido a oportunidade de nos conhecermos antes. Nada que não possa ser resolvido mais tarde, acredito – falou com um sorriso provocante, que fez com que o menino sorrisse mais ainda.
- Com certeza não.
e Chase ficaram se encarando por mais alguns segundos até que tossiu, chamando a atenção deles.
- Ah! Essas são minhas amigas...
- , e . Eu sei – ele interrompeu.
As três sorriram satisfeitas. até podia roubar a cena, na maioria das vezes, mas era muito improvável elas passarem despercebidas.
- Meus amigos devem chegar logo, vocês nos dariam o prazer de suas companhias mais tarde? – Chace perguntou arqueando a sobrancelha com um sorriso sedutor.
- Se vocês acompanharem nosso ritmo, não vejo porque não – respondeu medindo o garoto da cabeça aos pés com um sorriso no canto dos lábios.
- Então se sintam em casa... E podem colocar a bebida na minha conta – ele falou apontando pra dentro da boate.
- See ya! respondeu soltando um beijo no ar e entrando confiante na boate. Parece que alguém já achou sua próxima aquisição.
As quatro seguiram direto pro bar, atraindo a atenção de toda a ala masculina da boate lotada.
- Gostei desse lugar – comentou com um sorriso animado enquanto batia os pés no ritmo da musica.
A boate era enorme, com um bar grande no fundo, um palco à direita, e a esquerda, no lugar mais escuro, várias poltronas e sofás que mais tarde com certeza seriam preenchidos de vários casais mais “calorosos”. O chão era de vidro com um imenso aquário embaixo. O teto também era de vidro, permitindo que a visão do céu negro e sem estrelas fosse claramente possível, enquanto as luzes mudavam, acompanhando a batida da musica. No momento tocava um house, fazendo as cores variarem de um verde claro para um azul muito escuro.
- Que bom! Porque pelo que eu vi lá na porta, nós ainda vamos frequentá-lo muito – falou rindo enquanto a barwoman vinha atendê-las.
- Quatro Martinis na conta de Chase Peterson – pediu.
- Chace é bem hot, e eu estou precisando de um namorado à minha altura. Ou que chegue perto, pelo menos – comentou dando os ombros enquanto pegava uma das quatro taças que eram servidas e comia a azeitona do drinque.
- Você realmente não sabia quem era ele? – perguntou se desligando da música e virando pra pegar a sua taça.
- Hm... Deveria? – perguntou sem entender.
- Ele é, atualmente, o melhor partido daquele lugar entediante em que a gente estuda! Tem as melhores notas, é o capitão do time de pólo, seu pai é dono de uma das redes de boates mais quentes do mundo, a qual ele tem acesso livre, é de uma família tradicional e é um tremendo gostoso. Todo mundo sabe quem ele é – falou enumerando as razões nos dedos.
- Então era apenas uma questão de tempo até nós nos conhecermos. Os melhores sempre se atraem. E ele, com certeza, se sentiu atraído por mim – falou com um sorriso travesso.
- Como sempre – comentou mexendo no drinque, distraída.
- Mas isso são detalhes, que tal arrasarmos todos esses reles mortais antes de nossos deliciosos novos amigos chegarem? – perguntou saltando do banco em que estava sentada em frente ao bar.
As outras três olharam pra ela, animadas.
- Foi o que eu achei! – falou com um sorriso tão animado quanto o delas.
No instante seguinte, virou a taça de Martini de uma só vez, e pegou outra que já a aguardava em cima do balcão enquanto as quatro seguiam para o meio da pista.

Enquanto isso, quatro rapazes entravam, animados, pela porta principal.
- Dude, eu amo o fato do seu pai ser advogado, ! E amo mais ainda quando ele tem clientes como esse, que nos colocam na lista vip! – o garoto de cabelo e olhos , falou animado esfregando uma mão na outra.
- Pra alguma coisa ele tinha que servir, reclamou emburrado.
- Vai ficar com essa cara de novo? – o garoto ao lado de perguntou arqueando a sobrancelha.
- Eu só tenho essa, retrucou, cruzando os braços.
- Dude, sabe o que eu acho? – o quarto garoto perguntou.
Os três olharam pra ele esperando a resposta da pergunta.
- Eu acho que você deveria esquecer seu pai, ou a ausência dele, essa noite, assim como nós deveríamos esquecer nossos problemas, arranjar umas gostosas doidinhas pra dar, e beber até cair! – propôs animado.
- Sabe, ? Não é que, às vezes, seu cérebro resolve funcionar? Acho que é só pra não pifar de vez – comentou rindo enquanto colocava a mão no ombro do amigo e os quatro seguiam animados atrás de bebida.
Os quatro encostaram-se no balcão e pediram o que tinha de mais forte.
- Wow! Olha lá quem está dando showzinho no meio da pista – comentou com o olhar fixo e um sorriso tarado.
Os três olharam pra onde indicou, onde tinha um pequeno palco redondo, mas eles não se surpreenderam ao comprovar quem era.
, , e dançavam de maneira provocante, enquanto a batida forte, do remix de uma musica do Flo Rida, fazia as paredes tremerem. Um grupo de garotos cercava o pequeno palco, gritando e rindo alto.
- Pensei que não ia ter espetáculo hoje, soube que uma delas estava de castigo – comentou, sentando de frente e focalizando as pernas nuas de .
- Como se isso bastasse pra impedir as rainhas aí, de fazerem o que querem. Essas garotas são impossíveis – falou fazendo uma leve negação com a cabeça.
- Nesse caso, eu sugiro que nós sigamos o nosso destino e deixemos as donas da festa seguirem o delas – falou desviando o olhar com certa amargura – Olha aquelas cinco ali.
- Opa, dude! Uma pra cada um e ainda rola um ménage! – comentou, dando uma gargalhada, com cara de tarado, enquanto ele e iam na direção das garotas que não tiravam os olhos deles.
- Você não vem, ? – perguntou, ao notar que o garoto nem se moveu. Na realidade, ele não parecia ter escutado uma só palavra do que foi conversado. E era bem isso mesmo...
Desde que colocou os olhos naquele palco, não conseguiu mais se concentrar em nada, a não ser ela. Como aquela garota conseguia ser tudo aquilo, ao mesmo tempo?
“You spin in my head right round, right round
When you go down, when you go down, down”

Ele tinha que concordar com o Flo Rida. Ela conseguia fazer isso e muito mais com ele. sentiu sua garganta secar ao olhar a garota sorrir.
- Idiota – reclamou consigo mesmo enquanto bagunçava os cabelos, nervoso.
seguiu o olhar do garoto e sorriu de lado.
- de novo, dude?
- Essa garota me tira do sério, . Eu não consigo evitar olhar pra ela e sentir tudo isso. Eu sei que ela pode ser melhor que essa merda... – ele respondeu olhando a garota com uma expressão de dor.
- Você ta ficando louco, . Tem que tirar essa garota da sua cabeça. Você sabe que ela é só uma riquinha sem caráter, e que esse mundinho dela é inacessível pra você – falou sentindo pena do amigo.
Sabia bem que aquela situação dele não era fácil. Afinal, era sempre com ele que o amigo ia desabafar desde que pôs os olhos naquela garota.
- Bem que eu queria, . Mais agora é tarde demais – respondeu suspirando alto.
- Que tal esquecer ela pelo menos por alguns instantes? Vamos, dude. Os caras já acharam a nossa diversão da noite – falou apontando para os amigos que “interagiam” com um grupo de garotas.
- Tanto faz – respondeu dando os ombros.
O garoto olhou mais uma vez pra , que parecia dançar como se fosse a última coisa que faria na vida. Mas seu contato visual foi cortado por um empurrão de , que o levava rumo à mais uma entediante noite de sua vida.

No meio da pista, as coisas pareciam um pouco diferentes. e as amigas riam alto enquanto bebiam mais um copo de sei-lá-o-que, com muito gelo. Chase e os amigos tinham chegado há pouco tempo, mas pareciam ter gostado do espetáculo delas, já que gritavam como um monte de macacos no cio. Em minha opinião, uma comparação exata. As quatro ficaram dançando até que o conteúdo de seus copos secasse, pela sexta vez naquela noite.
- Certo, hora de interagir – falou concentrada em não cair, enquanto puxava consigo.
Essa já estava rindo sem parar, de qualquer coisa que passasse na sua mente. Fazia tempo que não se divertia assim. A garota olhou pra sua roupa e viu que seu vestido estava mais pra cima do que deveria. Mesmo sendo puxada por tentava se ajeitar, o que acabava gerando mais risos ainda.
- Hey! Ajuda aqui! – gritou animada chamando a atenção de Chase e dos dois amigos que estavam mais próximos.
- Cadê as meninas, ? – perguntou preocupada ao notar a ausência das mesmas.
- O que você acha?! – perguntou erguendo a sobrancelha e apontando pro outro lado da boate.
No sofá mais próximo dava pra enxergar os cabelos avermelhados de , num emaranhado de pernas e braços, e ... Bom, era só seguir os flashes.
- Safadinhas! – pensou alto, soltando uma gargalhada em seguida.
- Precisando de ajuda pra descer? – Chase perguntou a olhando com luxúria.
- Opa! Adivinhou, adivinhão – respondeu rindo e tentou descer se apoiando nele. Mas devido à falta de equilíbrio, junto com o excesso de álcool, ela usou mais força do que era necessário pra descer, fazendo com que o garoto recuasse alguns passos pra evitar uma queda – Ops! – falou rindo com a mão na boca e um sorriso travesso.
- Sem problemas... – o garoto sussurrou olhando os lábios dela.
notou a intenção dele e foi se aproximando lentamente dos lábios do rapaz, que a segurava com força nos braços. Ela tocou de leve seus lábios nos dele e pode vê-lo fechando os olhos, então rapidamente desviou para o lado de seu rosto, mordendo o lóbulo de sua orelha.
- Que tal um lugar mais reservado? – perguntou sussurrando e vendo os cabelos da nuca de Chase arrepiarem.
- Não precisava nem pedir – ele falou com um sorriso sensual e com os olhos brilhando.
No segundo seguinte, o garoto a soltou e segurou em sua mão, levando pra o sofá mais afastado de todos. Enquanto eles seguiam pra lá viam vários casais que pareciam ter tido a mesma idéia que eles, olhava cada rosto na escuridão, procurando suas amigas, mas tudo o que achou foi um par de olhos a encarando com um brilho tão intenso que a fez esquecer o que estava prestes a fazer.

tinha arranjado uma morena bonita, que tinha passado a noite inteira se jogando em cima dele. Se ela não fosse tão gostosa e não estivesse tão disposta, a fazer o que ele quisesse, ele já teria ido embora. Mas sabe como é... a carne é fraca. Enquanto eles se jogavam num sofá vazio se beijando, os pensamentos de , inevitavelmente, paravam na única garota com quem ele gostaria de estar. A menina começou a beijar e lamber seu pescoço, e por mais que ele gostasse daquilo, nunca era como ele esperava. Nesse momento um garoto, de quem ele se lembrava por ser o aluno transferido e o novo queridinho da escola, passou correndo com, ninguém menos que, segurando em sua mão. O coração de acelerou e seus olhos grudaram na figura sorridente e levemente descabelada, que corria procurando alguém com os olhos. Na opinião dele ela estava linda daquele jeito. Foi então que ela achou os seus olhos.

ainda olhava para aquelas duas bolas brilhantes, e sentiu um arrepio estranho no pé da espinha. Por mais que ela soubesse que tinha que procurar as amigas, alguma coisa naqueles olhos, alguma coisa que eles queriam dizer, a impediam de olhar pra qualquer outro lugar.

a olhava, esquecendo completamente da garota que parecia engolir seu pescoço. Por um momento só havia aquele par de olhos, o encarando na escuridão.

- Chegamos! – Chase falou puxando a garota com certa violência, fazendo-a sentar em seu colo de qualquer maneira.
ainda se sentia um pouco tonta com o que tinha acabado de acontecer. “Que merda foi aquilo? E quem é aquele garoto? Eu devo está muito bêbada mesmo... Chega de álcool por hoje.” Pensou enquanto Chase beijava seu pescoço. Opa. Chase! Como ela pôde se esquecer dele?
- Calma, hon... Você ainda tem que aprender que quem manda aqui, sou eu – ela falou levantando da posição desconfortável que estava, o fazendo ficar de pé também.
o empurrou para que ficasse sentado de frente pra ela e sentou em seu colo, passando uma perna de cada lado. O menino a olhava com fogo nos olhos, mordeu o lábio inferior e segurou o cabelo da nuca dele com força, puxando sua cabeça pra trás.
- Entendeu, lindo? – perguntou mordendo seu queixo enquanto as mãos do garoto apertavam firme suas coxas.
A garota aproximou seus lábios dos dele, a fim de provocá-lo mais, enquanto arranhava o peito dele por cima da blusa com a mão livre. O rapaz gemeu contrariado, e resolveu que era hora de tornar as coisas mais calorosas. Quando finalmente encostou seus lábios nos dele, Chase invadiu a sua boca com a língua, sem nenhuma delicadeza. Ótimo, ela nunca gostou de nada muito delicado mesmo. O gosto do beijo dele não era tão ruim, mas a decepcionou, um pouco. Se já não estivesse tão animadinha, teria largado o garoto ali mesmo e ido arranjar um melhorzinho.
Os dois ficaram se beijando com violência por um tempo. A cada segundo as coisas pareciam esquentar mais e mais. já tinha desabotoado os quatro primeiros botões da camisa dele, enquanto Chase segurava a bunda da garota por baixo do vestido frouxo, a apertando cada vez mais forte. se distraia no pescoço dele entre beijos e mordidas enquanto a mão de Chase subiu até a barra de sua calcinha. O garoto colocou os dedos por dentro, se preparando pra puxá-la. Opa! O sinal de pare acabara de soar na cabeça enevoada de .
Quando ele já estava no ponto de puxá-la, se levantou rapidamente do colo dele. Marcas rosadas eram facilmente encontradas pelo pescoço e colo dela, enquanto sua boca estava muito vermelha. Chase olhou ofegante pra ela, sem entender.
- O que... – tentou falar.
- Você não acha que vai ser tão fácil assim transar comigo, vai, bonitinho? – ela perguntou erguendo a sobrancelha com um sorriso no canto da boca – Você ainda tem que fazer por merecer – ela falou puxando o garoto pela gola da camisa.
- você não... Vai fazer? – Chase perguntou ainda ofegante, olhando a garota perigosamente próxima de novo.
- Só quando eu disser que vamos fazer, bonitinho... Esqueceu quem manda aqui? – ela falou mordendo o lábio inferior dele.
O garoto soltou um gemido frustrado.
- Tudo que eu posso dizer, é que você não vai se arrepender... Até segunda, Peterson! – se despediu dando um beijo intenso nele, que ficou sem reação por uns instantes.
- Até segunda, O’Donnel – ele falou, ofegante, com a mesma cara de tarado de momentos atrás.

CAPÍTULO DOIS

“All eyes on me, in the center of arena

(Todos os olhares estão em mim, no centro da arena)
Just like a circus…”
(Como num circo...)

Após resgatar cada amiga, as arrastou para suas casas, onde tiveram que ajudar a escalar o segundo andar sem vomitar ou cair do telhado. Quando chegou, por fim, à sua casa, subiu direto para seu quarto, jogando as roupas pelo meio do caminho assim que entrou. Apesar do alto nível de álcool no sangue, tudo o que ela sentia era fome, já que não tinha comido nada o dia inteiro. Tomou um banho quente, vestiu um moletom velho, de seu irmão que estava em Yale, e um shortinho branco folgado.
Enquanto descia os degraus de mármore das escadas silenciosas, uma imagem invadiu seus pensamentos. Aqueles olhos apareceram olhando pra ela com todo aquele segredo que o fazia brilhar diferente. A menina suspirou alto e balançou a cabeça. Quando chegou a cozinha, abriu a geladeira, pegou uma jarra de suco de laranja pela metade e cortou uma fatia da torta de limão que tinha lá. Sentou-se à mesa com a jarra do lado e com o pedaço de torta no colo. Aquele era o seu segredo pra evitar qualquer dor de cabeça no dia seguinte. Sempre que se alimentava depois dos porres acordava apenas com uma leve olheira embaixo dos olhos, mas nada que um pouco de creme e maquiagem não resolvessem. Enquanto mastigava a torta vagarosa, os mesmos olhos voltaram a encará-la na escuridão.
- Mais que merda! Por que não consigo esquecer esse garoto e seus malditos olhos, hem?! – resmungou.
A menina saltou da mesa aborrecida e largou o lanche pela metade na pia, sem se importar com o barulho que fez. Quando chegou ao seu quarto podia ver os primeiros raios de sol passar por suas cortinas. É... Estava na hora de dormir.

A segunda feira chegou mais rápido do que a maioria dos estudantes do St. Clarr gostariam, e a regra se aplicava a . Ao escutar o despertador tocar pela quarta vez não teve escolha a não ser se levantar. Tomou um banho rápido e ao sair do banheiro, já encontrou seu uniforme devidamente passado em cima da cama.
- Dude, eu amo a Tezinha! – falou rindo enquanto penteava os cabelos.
Vestiu sem paciência a saia pregueada verde musgo, depois a blusa branca deixando os três primeiros botões abertos, calçou seus sapatos Jimmy Choo preferidos, pretos com um laçinho de veludo azul marinho na ponta e um salto fino, e por fim colocou a boina que sua avó tinha tricotado pra ela. Aquele foi o ultimo presente que ela tinha lhe dado antes de morrer. sempre a usava, assim sentia que carregava um pedacinho de sua avó com ela. Pegou a mochila, que estava jogada no canto do quarto, um cachecol preto e o paletó da cor da saia, com o brasão do colégio bordado no peito direito, e seguiu para o café da manhã.
Quando chegou ao terraço da piscina encontrou apenas Ester arrumando seu café, como sempre.
- Bom dia, Ester – a garota cumprimentou a senhora com um beijo estalado na bochecha.
- Bom dia, menina . Seu pai pediu para avisar que não vai poder estar aqui no fim de semana para o baile de inverno e pediu desculpas – a senhora avisou enchendo o copo da garota de suco enquanto ela olhava aborrecida pro prato cheio de rodelas de abacaxi com leite condensado por cima.
- Como sempre... Não sei por que ele ainda perde tempo pedindo desculpas se sabe que sempre vai fazer isso... E mamãe? – perguntou bebendo um gole de suco.
- Ainda esta dormindo – respondeu arrumando a gola da camisa da garota, que devido à pressa de se vestir, ficou pra dentro.
- Hum... - resmungou olhando o prato de comida e sentindo seu estomago revirar.
bebeu mais um gole de suco e se levantou apressada.
- Eu estou atrasada, Ester. Guarda o prato na geladeira que mais tarde, se der, eu como – falou vestindo o paletó e o cachecol.
- Mas você tem que se alimentar, menina ! – Ester tentou, preocupada.
- Faz aquele frango que eu gosto pro jantar então. Agora eu tenho que ir. Até mais tarde, Tezinha – falou rápido pegando uma maçã e a mochila.
correu até a garagem onde sua Mercedes já a aguardava com o motor ligado. A garota jogou tudo no banco de trás e pegou o estojo de maquiagem que sempre deixava no porta-luvas para dias como esse.
- Suas chaves, senhorita – um homem, nos seus 40 anos, entregou a um chaveiro com um enorme coração de brilhantes enquanto ela terminava de passar o gloss.
- Valeu, Jobs! Até mais tarde – falou soltando um beijinho enquanto acelerava.

Enquanto corria pelas ruas de Londres até o colégio, sentiu algo batendo em seu pé. Com certa dificuldade, esticou o braço e pegou o objeto, se assustando ao olhar a maçã. A garota suspirou e jogou a maçã no banco de trás, pensando no por que tinha a pego se sabia que não iria comer. Aliás, comer era uma coisa que não era mais rotina na sua vida. “Ester, claro...!” suspirou mais uma vez. Odiava enganar Ester. Ela, junto com sua falecida avó, a havia criado. Os pais dela mais pareciam enfeites, perante a sociedade, do que pais. Na realidade, a única família que ela tinha eram os empregados de sua casa. Não podia negar que sentia certo vazio quando estava só. Mas é como sempre dizem: “Não se pode sentir falta do que não se teve”. suspirou mais uma vez e ligou o som do radio a fim de espantar esses pensamentos. Asthenia, do Blink 182, tocou alto fazendo a menina cantar animada até chegar ao colégio.
Como sempre sua vaga estava lá, entre e , que junto com a aguardava.
- Bom dia, gatas! – cumprimentou enquanto descia do carro.
- Pra você... Hoje descobri que meu carro também foi confiscado, como parte do castigo, acredita?! – reclamou aborrecida – Ainda bem que a estava passando lá em frente na hora que eu era obrigada a vir andando...
- Eu sei que sou sua salvadora, falou convencida – Eu sou demais, não?! – comentou rindo.
- Só não te dou um fora porque vou precisar das suas caronas – reclamou de olhos serrados.
- Bom mesmo, mocinha... – mangou passando a mão na cabeça dela – Mas mudando de assunto, como foi lá com o bonitão do Chase, hem ?! – perguntou curiosa enquanto entravam no colégio.
deu um sorriso safado, fazendo as amigas gargalharem.
- O que você acha?! O fiz morrer na praia... – respondeu dando os ombros.
- Como você é má, ! Negou fogo pra tudo aquilo? – perguntou rindo.
- Pra falar a verdade, ele tem mais é pose... Mas como a embalagem também conta, acho que posso fazer o sacrifício... – falou fazendo uma careta.
- Não creio! Quer dizer que no fim das contas, o príncipe beija que nem sapo? – perguntou.
- Pois é. Pelo visto ainda está para nascer quem consiga me pôr de quatro... – falou dando os ombros – Mas e vocês, hem senhoritas? , eu sei que teve uma noite muito da boa...
- É né... Não posso dizer que a falta de talento do Chase seja de família. O primo dele sabia o que fazer com a boca... – falou rindo e ficando tão vermelha quanto seus cabelos – Pena que foi embora ontem – comentou fazendo um barulhinho com a boca.
- Ahhh! Sua safada! – gritou rindo alto.
As quatro andaram mais um pouco até acharem o carvalho em que se sentavam desde pequenas. Como sempre, à medida que passavam, todas as atenções eram viradas pra elas. As três amigas sentaram e quando estava prestes a sentar, escutou alguém chamar seu nome.
- Ih... Lá vem o príncipe-sapo, amiga – falou rindo, enquanto Chase se aproximava em toda a sua glória.
- É né?! Acho que vou ter que fazer o sacrifício de ir até ele... Até daqui a pouco, amadas – falou fazendo drama.
foi caminhando devagar até onde Chase a esperava com um sorriso doce. Todos os olhos estavam em cima deles, esperando pra saber o que os dois mais populares teriam em comum, além do óbvio.
- Bom dia, Peterson – cumprimentou.
- Bom dia, princesa - Chase respondeu a segurando pela cintura e lhe beijando.
- Wow! Calminha, garanhão. Me deixa respirar pelo menos – falou rindo com as mãos espalmadas no peitoral dele.
- Desculpa... É que eu esperei o fim de semana todo pra poder fazer isso... E umas coisinhas mais também, se você quer saber... – ele falou com um sorriso no canto da boca.
- Hum... Quem sabe você não pode me mostrar essas coisinhas mais tarde? Meus pais vão estar fora da cidade hoje – falou mordendo o lábio inferior.
- Passo na sua casa de noite então – falou segurando a nuca dela.
- Perfeito então. Agora, aula – falou dando um selinho nele.
O garoto balançou a cabeça concordando e segurou sua mão. Enquanto eles seguiam para a sala, conversando banalidades, uma notícia corria sem parar pela boca de todos ali: A rainha tinha achado um novo rei.

- Isso é uma merda! Cacete! Porra! Put...
- Wow! Que boquinha suja é essa, ? Tenho certeza de que a senhora sua mãe não lhe ensinou isso – comentou ao encontrar o amigo chutando tudo que via pela frente enquanto andava sem rumo pela escola.
- Você sabe da última? – ele perguntou sem paciência.
- Hum... Sei – comentou encarando a parede.
- A rainha encontrou um príncipe! Fala sério, meu. Esse cara mal chegou e já é o rei do pedaço! – Dougie reclamou aborrecido – Como se ele fosse muita coisa.
- Bom... Ele é um ótimo aluno, é o maior garanhão, capitão da merdinha do time de pólo e têm uma das heranças mais legais daqui. É bem óbvio porque a nossa rainha preferiu isso tudo – falou enumerando tudo nos dedos.
Quando os dois se aproximaram da sala sentiu o sangue lhe subir por completo até a cabeça. estava com as costas na parede com um sorrisinho nos lábios enquanto Chase tinha seus braços prendendo a garota na parede. Ao notar a distância mínima entre eles, o garoto ficou ainda mais aborrecido.
- Eu mereço... – resmungou raivoso, entrando rápido na sala e batendo em Chase.
O garoto cambaleou para o lado, cortando o contato visual com .
- Que é dude? Ta pensando que é quem? – Chase esbravejou segurando o ombro de antes que ele sumisse de vista.
- Calma Chase! Foi um acidente, você não viu? – perguntou olhando pro garoto sem entender pra quê aquela cena.
Odiava qualquer tipo de discussão.
apenas olhava pra Chase com as sobrancelhas erguidas e com a expressão irritada.
- Calma, Peterson. Foi mal aí. Ele só está tendo um dia ruim – falou parando ao lado de , tentando segurar o riso.
- Hum, olha por onde anda então – Chase resmungou e se virou pra falar com – Então, linda? Tudo certo pra hoje à noite? – perguntou segurando a cintura da garota.
- Vamos ver se você é tão bom quanto fala, bonitinho – falou com um sorriso sedutor, dando um selinho nele e entrando rápido na sala.
Ela também odiava demonstrações de afeto em público. Ou de qualquer coisa próxima a isso.
bufou e entrou na sala logo após a entrada da garota, se jogando na última cadeira com ao seu lado.
- Garoto imbecil – reclamou encarando sentar ao lado de , que ria de alguma coisa que ela tinha falado – como ela pode querer um cara desses?
- não é pro teu bico, . Acho melhor você entender logo isso. Quase apanhou lá fora! – comentou com um sorriso irritante – ia ser uma surra histórica.
- Ele que viesse pra cima de mim. Ia amar quebrar aquela cara de idiota dele. Cara mais estúpido... Chegou se achando e pegando tudo pra ele – reclamou aborrecido.
- Você ainda está com raiva disso?! Você nem queria entrar pra aquele time, quanto mais ser o capitão! – falou sem entender o amigo.
- E continuo não querendo, mas era importante para minha mãe. Meu pai foi capitão do time de pólo quando estudava aqui. Se ele estivesse vivo ia ficar muito satisfeito se eu conseguisse a vaga, assim como minha mãe ficaria. Ela anda tão deprimida esses dias. Eu só... Queria aliviar um pouco as coisas... – explicou olhando a janela de vidro do outro lado da sala com um olhar vago.
apenas encarou o amigo, sem dizer mais nada.

- Pelo visto, você ganhou mais um fã obcecado – comentou assim que a amiga se aproximou dela.
- Fazer o quê?! Ser gostosa dá um trabalho – falou rindo e sentando ao lado dela.
- O que ele queria? Virar seu escudeiro? Ou quem sabe um novo guarda-costas novo! A gente podia fazer bom uso de um – mangou.
- Se ele continuar me seguindo assim, eu vou enjoar rapidinho... – comentou rindo – Você sabe como eu odeio que me sufoquem.
- E o pior é que seu enorme histórico comprova. É só o cara começar a querer você demais que ele dança – falou olhando a amiga – Eles nunca conseguem ganhar seu coração. No fim das contas, tudo não passa de um lance físico, um passatempo – ela concluiu.
- Eles simplesmente não entendem que eu não fui feita pra ser presa... A culpa não é minha – reclamou fazendo bico – Se eles não são bons o suficiente pra ganhar minha confiança, o que mais eu vou fazer?
- Fora o fato de que você só atrai gente meio possessiva! Viram perseguidores assim que o caso acaba. E sobra pra gente fazer ele se tocar que já era – falou fazendo uma careta.
- E é por isso que vocês são as únicas pessoas que eu amo nesse mundo! – falou sorrindo e abraçando a amiga.
- Sai pra lá, meu negocio é homem! – reclamou rindo e tentando se soltar dos braços de .
- Ah ... Eu sei que no fundo você é apaixonada por mim, assim como todo mundo. Admite! – falou rindo, sem soltá-la.
- Ew! Eu não. Já disse que gosto de calças e não saias... Não conhecia esse seu lado, ... – comentou a olhando desconfiada.
- Brincadeirinha, amada. Você sabe que te amo, mas sem lesbianismos – respondeu finalmente soltando a amiga.
- Assim espero... Sou muito nova pra traumatizar – comentou olhando o professor Hoffman entrar sorridente.
- Bom dia mentes frescas e ávidas por conhecimento! Tenho uma novidade muito empolgante à todos vocês – falou batendo as mãos, animado.
- Aí vem bomba... – sussurrou pra , que ria da animação do professor.

O professor Hoffman era um senhor no auge dos seus 60 anos. Tinha a cabeça praticamente toda branca e as bochechas vermelhas e salientes. Era um dos professores preferidos de . Ele sempre a tratou como se fosse uma de suas netas, sempre com um sorriso doce e palavras animadoras, mas ela nunca entendeu o porquê.
- Esse semestre nós teremos um incrível trabalho extraclasse! – falou sentando-se à mesa e pegando a chamada. – mas primeiro, vamos dividir as duplas. Essas serão suas duplas até o fim do ano.
- Tomara que eu caia com alguém hot! – sonhou.
- Não ficando com um dos esquisitos do clube de xadrez ou um daqueles nerds que tem o nariz escorrendo, pra mim está perfeito – falou fazendo uma careta.
Enquanto isso o professor Hoffman anunciava as duplas.
-... Carl Smith e Stepan Boswort, Smoother e , Melissa Gobind e Michel Murr...
- Ufa... Nenhum nerd! – suspirou aliviada.
- Quem é esse? – perguntou atenta ao seu nome.
- É o fofinho que senta lá trás. Vou indo, amiga – falou se levantando e jogando um beijo pra ela enquanto ia para o fundo da sala.
-... Adam Carter e Jane Fox, O’Donnel e ...
Nesse momento , que até então olhava aborrecido pro nada, tomou um susto ao escutar seu nome e o de na mesma frase.
- Como?! – perguntou sem acreditar.
- O senhor é dupla com a senhorita O’Donnel – repetiu o professor.
Aquilo era surreal! sempre foi um azarado quando se tratava de duplas. A sua última era uma gótica que ficou obcecada por ele e que quando ele disse que não queria nada com ela, passou a persegui-lo e fazer bonecos de vudú dele. Sem acreditar na sua repentina sorte, o garoto levantou e caminhou lentamente até a cadeira vazia de .
, que depois de descobrir que não ia ficar com ninguém que ela gostaria, cutucava um sinal em seu braço, distraída. A garota tomou um susto ao sentir que alguém preencheu o lugar de . Um perfume masculino invadiu seus pulmões, a fazendo olhar para frente, curiosa.
- Hey! Sou , sua nova dupla – o garoto se apresentou.
sentia cada nervo do seu corpo pulsar de nervosismo. Aquela era a segunda vez que ele ficava tão próximo da garota, a ponto de sentir o perfume cítrico que vinha de seus cabelos.
- Oi – respondeu lhe lançando um olhar rápido e voltando a cutucar no braço.
se mexeu desconfortável na cadeira. Não tinha idéia do que fazer perto dela.
- Hum... Como foi o fim de semana? – perguntou olhando o rosto de perfil dela.
- Pra quê você quer saber? Eu nem te conheço – respondeu seca, sem ao menos olhá-lo.
- Nossa, só estava sendo educado – falou ofendido.
- Guarde sua educação para suas peguetes, docinho. Comigo não vai funcionar – respondeu arqueando as sobrancelhas, finalmente olhando o garoto.
Ela se surpreendeu ao notá-lo de perto. Ele era bem atraente para um Zé-ninguém. E tinhas olhos hipnotizantes. Algo lhe dizia que ela já os tinha visto em algum lugar.
- Bom, meus alunos, para essa atividade vocês serão liberados até a hora do almoço. Venham comigo e tragam seus cadernos para anotarem o que irei ministrar – o professor Hoffman falou empolgado enquanto seguia para fora da sala.
Os alunos se levantaram barulhentos, recolhendo o que seria utilizado. Todos se mostravam animados e curiosos para saber do que se tratava a atividade daquele semestre.
- O que você acha que é? – perguntou a enquanto eles seguiam o grupo.
apenas bufou e permaneceu calada observando mais a frente, que conversava animada com , sua dupla. Até que eles faziam um casalzinho bonitinho.
- Ele sempre faz trabalhos meio estranhos. Ano passado a turma teve que criar sapos – continuou falando.
Ele imaginou como seria se eles tivessem que cuidar de sapos, rindo da imagem que se formava em sua mente. Queria conversar com ela assim como seu amigo fazia mais a frente. E não ia deixar a oportunidade passar.
Ao escutar o relato de , fez uma careta. Ela não ia criar sapos. Não mesmo.
- Você não vai falar mesmo? – perguntou um pouco decepcionado, a observando pelo canto dos olhos.
arqueou a sobrancelha com uma expressão vitoriosa.
- Acho que não... – ele comentou rindo.
Ao escutá-lo rir, o encarou. Uma coisa não podia deixar de admitir, ele tinha um sorriso realmente encantador. Era doce, meio sapeca. O tipo de sorriso que faz você rir junto sem nem ao menos perceber. Foi o que ela notou ao sentir um pequeno sorriso no canto de seus lábios.
- Não se preocupe, eu perdôo você pela sua falta de educação – falou suspirando – E eu posso falar pelos dois! Eu falo bastante na maior parte do tempo – concluiu animado.
- Eu não sou mal educada! – reclamou indignada.
- Olha... Ela fala! – comentou rindo.
- Claro que eu falo! Só não estou a fim de gastar minha saliva com você – resmungou cruzando os braços.
riu, estremecendo por dentro. Ela era incrivelmente teimosa, o que só o deixava ainda mais instigado a tentar cruzar a barreira que ela colocava entre os dois. O garoto continuou falando e permaneceu calada, fingindo que não escutava, até chegarem a um dos jardins do colégio, próximo a área das estufas.
- Bom meus alunos, aqui está sua atividade – professor Hoffman falou com um sorriso apontando pra a parte coberta de grama.
Lá tinham as mais diversas espécies de animais, sendo todos filhotes, espalhados pelo gramado. Varias gaiolinhas estavam empilhadas no canto do jardim, com etiquetas em branco penduradas nelas.
- Algumas pessoas não tiraram notas boas ano passado porque não quiseram criar sapos, então resolvi que era melhor deixar vocês escolherem o que gostariam de criar. Mas ainda temos os sapinhos ali, se alguém se interessar. Vão, escolham! – o professor Hoffman falou animado enquanto a turma corria para os filhotes.
Os suspiros das meninas eram os mais ouvidos. , assim como as outras, não sabia o que escolher até que viu uns filhotes de coelho saltando no canto esquerdo. Ao se encaminhar pra lá sentiu uma coisa gelada em sua canela. A garota deu um passo pra trás, com medo de ser algum sapo, mas ao olhar pra baixo se deparou com um par de olhos grandes e brilhantes a encarando.
- Oi, rapazinho! – falou carinhosa ao ver um filhote de bloodhound balançando o rabinho animado pra ela.
se abaixou um pouco e fez carinho na cabeça do cãozinho. Esse parecia ainda mais animado que antes.
- Parece que ele já escolheu você, – o professor Hoffman falou com um sorriso doce apontando pro filhote.
- Eu posso ficar com ele, Mr. Hoffman? – perguntou animada, pegando o filhote no colo.
- Isso é com seu parceiro, querida. A escolha tem que ser de ambos – falou apontando pra .
Esse apenas observava desde que ela se distanciou pra ver os filhotes. Ver ali, sorrindo sincera como quase nunca ele via acontecer, iluminando tudo ao seu redor, fazia seu coração acelerar. Queria um dia poder ser o causador desses sorrisos.
se aproximou correndo com o filhote no colo, que lambia suas mãos.
- A gente pode ficar com ele, ? Pode? Por favor! – pediu com os olhos brilhando de excitação.
Sempre quis ter um cachorro, mas seus pais eram muito preocupados com a aparência da casa para que um animal destruísse tudo.
- Não vejo porque não – respondeu dando os ombros.
soltou um gritinho de satisfação enquanto sentava na grama e colocava o cachorro no chão. O filhote correu pro colo dela e se aninhou ali, fazendo-a sorrir mais ainda. se agachou ao lado dela e passou a mão de forma carinhosa pelo pêlo do animal. Ele estava satisfeito por ter colocado um sorriso no rosto da menina.
Enquanto isso, o professor Hoffman se dirigiu para a parte do gramado onde um quadro branco tinha sido fixado.
- Vocês vão ter que levar o filhote pra casa e criá-lo. Os dois devem participar da criação do animal. A cada quinze dias vou querer um relatório com base genética, fisiologia e psicológica acerca de cada mudança e atitude característica da espécie escolhida. Esse trabalho valerá uma nota no fim do ano – o professor Hoffman explicou – agora quero que se distribuam pelo gramado e anotem o que eu irei ministrar – terminou se virando e escrevendo algumas coisas no quadro enquanto todos sentavam pelo chão, com os cadernos no colo, atentos.
Eles ficaram lá até a hora do almoço. Quando finalmente a aula parecia ter acabado, o professor Hoffman tornou a falar.
- Hoje, depois de terem escolhido seus filhotes, quero que façam um trabalho escrito sobre seu desenvolvimento até o estágio em que se encontram, com tudo que eu explanei nessa aula. Para me entregar na próxima aula, ouviram? – falou vendo alguns alunos reclamarem.
- Mas a próxima aula já é depois de amanhã! – reclamou.
- E não me venham com porcarias, senhores. O ano mal começou e eu sei que vocês ainda não têm nada. Vão! Estão liberados agora. Os filhotes estarão guardados aqui com o nome das respectivas duplas neles, pra serem pegos até as seis horas. Até a próxima aula! – instruiu os expulsando do local.
e se levantaram limpando suas roupas e caminharam lado a lado, sem dizer muita coisa.
Depois de escutarem e marcarem a confecção do trabalho, se tocaram que deveriam estar fazendo o mesmo.
- Mais que merda! Eu vou ter que desmarcar meu programa da noite... – resmungou aborrecida.
- Na minha casa ou na sua, O’Donnel? – perguntou sentindo a satisfação, pelo programa com Chase ter de ser desmarcado, só aumentar.
- Na minha. Meus pais estão fora. Assim ficará mais fácil e mais silencioso – ela falou ainda aborrecida.
Queria aproveitar essa noite de outra maneira.
- Às quatro horas, eu apareço por lá. Até mais – falou se distanciando.
Um sorriso insistente não saia da sua boca. Ele passaria a tarde e a noite inteira com ela.
- Como você vai chegar lá? Não te dei meu endereço – estranhou, parando.
- Todos sabem onde fica a luxuosa mansão dos O’Donnel... – comentou seguindo seu caminho.
encarou aquele menino irritante sumir pelo corredor. Definitivamente não era assim que planejava passar a sua noite.

No almoço, todos os alunos já estavam no refeitório refrigerado. Esse dia, em particular, estava muito abafado, fazendo com que o local estivesse mais barulhento e lotado que o normal. aguardava na fila do caixa com , que calculava as calorias do que estava em seu prato. e já as esperavam em uma mesa estrategicamente localizada perto de um dos ar condicionados.
- Oi, princesa – escutou sussurrarem em seu ouvido.
- Oi, bonitinho – cumprimentou o garoto com um sorriso rápido.
Ela estava extremamente aborrecida por ter que passar o dia na companhia de um estranho irritante.
- Deixa que eu pago o almoço – Chace se ofereceu segurando a bandeja dela.
- Não precisa, bonitinho. Eu já estou com meu cartão na mão – falou mostrando o cartão escolar, verde metalizado com seu nome em prata, onde todos os gastos escolares eram depositados, enquanto dava outro sorriso rápido - A propósito, vou ter que desmarcar nosso programa de hoje – ela falou passando o cartão e esperando pagar o almoço dela.
- Por quê? O que aconteceu? – Chase perguntou contrariado.
- O professor Hoffman marcou um trabalho pra entregar depois de amanhã, e eu não quero ter nenhuma alteração nas minhas notas – explicou fazendo uma careta.
- Eu posso te ajudar, assim, quando terminarmos o trabalho, podemos continuar de onde paramos lá na boate – falou com um sorriso sacana, colocando uma mão na sua cintura e pressionando-a de leve.
- Boa tentativa, bonitinho. Mas o trabalho é em dupla, então já vou ter toda a ajuda que preciso. Eu espero pelo menos... – falou rindo.
Até que não ia ser tão ruim fazer o garoto sofrer mais um pouquinho. Ela gostava de saber que tinha tudo sobre seu controle.
- Nesse caso... – ele bufou contrariado – Vai ao baile de inverno? – perguntou mudando de assunto.
- Claro... Não perco as After Parties nunca – falou com um sorriso animado.
- Hum... Então que tal se eu e você foss...
Ao ver o que o garoto pretendia, tratou de interrompê-lo.
- Até mais bonitinho. tem que se alimentar e as meninas estão me esperando – falou rápido puxando a amiga pelo braço – eu te ligo quando puder – se despediu soltando um beijo no ar.
Ao se sentarem, olhou desconfiada pra amiga.
- O que foi aquilo? Dispensando o bonitão, é?! – perguntou comendo sua salada.
- Claro! Ele ia me chamar pra ir com ele à After Party do baile de inverno... – falou como se fosse obvio.
- E o que tem de errado com isso? – estranhou.
Ela e estavam comendo distraídas enquanto as outras duas não chegavam.
- Tem que, eu não quero ficar com ele me perseguindo – ela explicou – Vocês sabem que eu odeio ficar presa a alguém, principalmente nas After Parties falou sorrindo enquanto pensava em algo.
- Eu conheço essa cara... O que é que você está omitindo da gente? – perguntou curiosa.
- Meu irmãozinho vai vir esse fim de semana me visitar – ela falou animada batendo palmas.
- Scott está vindo? – perguntou com um sorriso largo.
Ela e Scott sempre tiveram uma espécie de affair. Toda vez que se encontram pareciam dois malucos na seca.
- Exatamente. E alguns amiguinhos dele vêm também – completou com um sorriso sacana – Logo, pretendo estar solteiríssima – completou rindo.
- Adoro os amiguinhos do seu irmão... – falou rindo.
- Somos duas. Ainda tenho boas lembranças da nossa última visita ao campus... – falou com um suspiro – Eu definitivamente vou pra Yale – ela completou rindo.
- Eu não quero o Chase me perturbando quando o meu irmão e os amigos dele chegarem... Ainda por cima nessa After Party. A casa de praia da Camille é imensa. E ela até já separou um quarto pra gente e outro para o Scott e companhia.
Quase todo mês o colégio promovia uma festa de gala a fim de conseguir tirar algum dinheiro dos pais. Apesar de super badaladas, elas eram um saco. Então os alunos criaram as After Parties. Essas sim eram festas. Regadas a muito álcool e drogas, os alunos se reuniam na casa de alguém, que eram escolhidas previamente, onde os mais seletos tinham direito a quartos para passar o fim de semana. Elas nunca duravam uma só noite.
- Nesse caso, acho bom você definir essa situação com ele. Pelo que eu vi hoje ele acha que vocês têm algo – falou terminando sua “enorme” salada.
- Ele e todo colégio! Pra variar vocês foram o assuntou comentado essa manhã... “a rainha encontrou um novo rei!” – falou imitando os jornais de fofocas.
- Que ridículo! Onde você leu isso? – perguntou rindo enquanto brincava com a comida no prato.
- Onde mais? No site “The Pretender”. Às vezes eu acho que esse pessoal não tem nada pra fazer... – comentou rindo.
- Ou estão vendo TV demais. Me sinto em um capítulo de Gossip Girl – falou fazendo uma pose.
- A gente tem até um Chace... Só não é o Crawford. Infelizmente... – se lamentou.
- Me dá seu celular pra eu ver o que colocaram dessa vez – pediu curiosa enquanto tirava o celular do bolso falso da saia e lhe entregava.
Há um pouco mais de dois meses, um grupo desconhecido do colégio resolveu fazer um site à lá Gossip Girl para manter as coisas quentes pelo colégio. A partir daí, tudo o que acontecia e que quase ninguém sabia acabava virando notícia de domínio publico. Nunca descobriram quem são os responsáveis pelo site, mas ninguém perde uma fofoca que sai. E o fato de celulares serem proibidos, tornava tudo mais interessante.
riu ao ler a noticia.

“A Rainha Encontrou Um Novo Rei!”
“A nossa glamourosa e soberana, rainha O’Donell, parece ter encontrado um novo rei. Ela e Chace Peterson foram vistos aos beijos no último fim de semana na inauguração da mais nova boate do garoto. Hoje, alguns afortunados puderam ver os dois trocando alguns sussurros antes das primeiras aulas. A pergunta que fica é: até quando ele conseguirá ficar nas graças na nossa rainha Maneater?! Só nos resta aguardar... xx
The Pretender Boss.”

- Maneater? Eu?! – perguntou fingindo indignação.
- Claro que não... Você só não gosta de repetir garotos assim como a gente não gosta de repetir roupas... – falou rindo.
soltou uma risada irônica, quando os celulares apitaram.
- Acho que teve mais uma atualização – comentou olhando todos mexerem nos celulares.
aproveitou que já estava no site e leu a noticia em voz alta.

“Quem também deu as caras na inauguração, foi a “doce e certinha” Smoother. Mas não estava de castigo?! Hum... vamos torcer para que essas fotos não caiam nas mãos de seus rígidos pais, certo?! Não queremos uma de nossas estrelas encrencadas. Ou será que sim?! Com certeza teríamos menos concorrência... xx The Pretender Star.”

Embaixo das noticias tinha uma foto de dançando com as amigas e outra dela agarrada com o primo de Chace no sofá.
- Fodeu! – sussurrou com a mão na boca.
- Como... Como esses merdas conseguiram essas fotos? – perguntou pálida, com a voz fina. Algumas pessoas as olhavam e cochichavam entre si.
- Eu não sei. e eu estávamos olhando tudo ao redor, sempre verificando tudo! – falou sem entender – Não tinha ninguém nem com máquina digital próximo de nós...
- Eu também não notei nada de suspeito. E vocês sabem que essas coisas nunca escapam das minhas vistas... – falou olhando as fotos – acho que foi de celular. A primeira dá pra ver claramente que é você, já a segunda foi mais dedutiva – comentou observando as imagens.
- Se meus pais pegarem uma dessas fotos... Eu não quero nem imaginar o que vai acontecer comigo... – falou se jogando na cadeira, com uma expressão assustada.
- Não vai acontecer nada, sabe por quê? Porque se alguém deixar essas fotos vazarem a gente vai saber. Vai estar nesse sitezinho de merda no dia seguinte. E ninguém vai querer ir contra a gente – falou séria e em com a voz alta o suficiente, pra que todos a escutassem por cima do barulho habitual – até porque quem nunca saiu escondido pra ir à uma festa?!
Todos olhavam pra elas. olhou ao redor e pode ver que nenhum deles iria contra as regras. Eles pesavam demais suas posições e sua rotina pra correrem o risco de serem riscados da vida em sociedade.
Alguns segundos depois, o sinal bateu indicando a volta às aulas. Todos se levantaram ainda mais barulhentos seguindo para suas aulas. E assim se foi o resto do dia até a hora de seguir pra casa. Pra alguns uma tortura os aguardavam. Já pra outros, a chance se suas vidas.

CAPÍTULO TRÊS

“Some say I’m cruel,

(Alguns dizem que sou cruel,)
But nobody knows what I feel for you…”
(Mas ninguém sabe o que eu sinto por você...)

’s P.O.V.

Assim que cheguei em casa, corri para meu quarto. chegaria em meia hora e eu não queria que ele me visse do jeito que saí do colégio. Já pensou se ele sai espalhando por aí que eu tenho preguiça de tomar banho?! Do jeito que as coisas andam, aquele merdinha de site iria transformar isso numa calamidade pública e ia ferrar com a minha vida.
Depois do banho rápido, vesti uma bermuda jeans clara com a barra virada, uma bata rosa bebê com estampa em azul e uma Havaianas cinza. Eu não queria que ele me visse suja, mas também não tinha motivo nenhum pra me produzir. Peguei meu macbook, que estava na bancada, já todo carregado, meu caderno e meu estojo e segui para o deck da piscina.
- Tezinha, já já vai chegar um colega meu pra fazer um trabalho. O nome dele é . Pode permitir a entrada, viu?! – avisei assim que passei pela sala principal e avistei Ester verificando as coisas lá.
- Claro, menina ... Mando-o pra onde? – ela perguntou me olhando com carinho.
- Pro deck. Alguma notícia dos meus pais? – perguntei já esperando uma resposta negativa.
- Eles embarcaram na hora do almoço pra Nova Iorque. Avisaram que voltam na semana que vem e pediram pra você e Scott não faltarem ao baile de inverno – ela explicou enquanto se aproximava de mim.
Me encostei na parede, aborrecida. Quando meus pais vão perceber que há dezessete anos eles tiveram uma filha?
- E o Scott? Alguma notícia? – perguntei esperançosa.
- Ele ligou na hora do almoço. Disse que não estava conseguindo falar com a senhorita e pediu pra avisar que vai chegar um pouquinho mais cedo pra poder receber os amigos – ela respondeu sorrindo satisfeita.
Eu sei que ela morre de saudades dele assim como eu.
- Finalmente uma boa noticia! – suspirei com um sorriso aliviado.
Dei um beijo em Ester e segui com as minhas coisas para a mesa principal do deck. O fim de tarde estava lindo, alaranjado e sem nuvens. Eram raros dias como aquele. Eu devia estar deitada no jardim escutando música... Merda de vida.
Um vento frio passou fazendo com que eu me arrepiasse toda. Eu devia ter trazido um casaco.
Liguei o computador e me encolhi na cadeira. Odiava esperar, então pra me distrair coloquei uma playlist qualquer. Estava distraída, cantando alguma música do Ben Montague, quando escutei passos.
- Você tem uma voz bonita...
Virei assustada e me deparei com me encarando com um meio sorriso. Ele trazia sua mochila nas costas e tinha as chaves, que eu supus ser do carro dele, em uma das mãos. Mas o que me deixou surpresa foi o que ele trouxe na outra mão.
- A Ester me pediu pra lhe entregar – falou se aproximando e me estendendo meu cardigã salmão.
- Obrigada – respondi ainda olhando pra ele.
É impressão minha ou ele ficou ainda mais charmoso do que estava hoje de manhã?!

- Hum... Eu trouxe o computador, mas a gente vai ter que ir à escola – ele falou sem jeito colocando a mochila em cima da mesa.
Eu não consegui tirar os olhos dele. A maneira como o os raios de sol se derramavam em seu rosto, fazendo seus olhos brilharem tão misteriosos, me deixavam sem muito que falar.
- Hum? – resmunguei tentando me concentrar.
- O cachorrinho. A gente tem que pegá-lo até as seis. Achei melhor perguntar a você se você não prefere ir logo, antes que anoiteça – ele falou coçando a nuca.
Ao levantar o braço, notei que ele era mais musculoso do que aparentava.
- Claro. Eu vou só pegar a minha bolsa e os óculos – falei me levantando e correndo até o quarto.

Quando voltei, me esperava encostado na parede de vidro ao lado da porta principal. Ele ainda usava seu casaco de couro surrado, com uma blusa branca lisa e um jeans extremamente folgado. Só que um detalhe me surpreendeu: ele usava um Ray Ban espelhado e ficava incrivelmente charmoso com ele. Era a primeira pessoa que eu via com esse modelo de óculos e ficava bem. Não me entenda mal, eu amo a marca, mas depois que surgiram tantas falsificações e todo mundo tinha uma réplica, esse modelo ficou extremamente brega em todos que usavam. Bem... Em quase todos.

Segui até a frente da casa.
- Onde está seu carro? – estranhei ao não encontrar nenhum carro ali.
- Quem disse que eu vim de carro?! – ele perguntou com um sorriso divertido enquanto se dirigia a uma autêntica Harley, toda customizada. Mais uma vez me surpreendi.
- Tem algum problema? – ele perguntou colocando o capacete enquanto eu permanecia parada.
- Não. Só não esperava isso – falei me aproximando dele e pegando o capacete que me oferecia.
- Com medo? – indagou enquanto eu ainda olhava tudo desconfiada.
- Medo? Eu nasci em cima de uma dessas, docinho... – respondi sarcástica, o encarando.
- Você?! – ele me perguntou desconfiado.
- Claro! Inclusive, eu posso lhe garantir que piloto muito bem... – resmunguei montando nela.
Okay, meia verdade. Mas eu não ia dar o braço a torcer.
- Se eu não amasse tanto essa moto arriscaria te colocar pra guiar – respondeu rindo enquanto ligava a moto e dava uma arrancada.
Tomei um susto ao sentir meu corpo ser jogado pra trás e agarrei a cintura de com força. Escutei ele dar uma risadinha me deixando ainda mais contrariada.
- Nem pense em se acostumar com isso! – berrei enquanto ele dirigia habilmente pelas ruas vazias.

Ao sentir a velocidade e a adrenalina brotando pelo meu corpo, não pude segurar o sorriso saudoso que insistia em aparecer. Aquela situação me trazia algumas lembranças de verões passados.
Não demoramos muito a chegar ao colégio. Apesar de terem várias aulas extras esse horário, não tinha ninguém no estacionamento. Desci e entreguei o capacete a ele, prendendo o cabelo em seguida. Com certeza esse vento tinha acabado com ele.
Seguimos lado a lado, sem dar mais nenhuma palavra até o local da aula de biologia. Alguns alunos estavam lá, recolhendo os seus filhotes, inclusive .
- Amiga! - Gritei assim que a vi.
Ela estava conversando animada com e tinha um coelhinho preto nas mãos.
- E ai, gata garota?! Pensei que não vinha pegar sua cria – falou rindo enquanto me dava um abraço desajeitado, já que ainda segurava o animalzinho.
- Que exagero, ... Ainda são quatro e meia da tarde – resmunguei rindo.
- Escolheu o que? – ela perguntou apontando com a cabeça pra gaiolas.
- Um cachorrinho! Você sabe que eu sempre quis ter um, mas meus pais nunca deixaram. Agora eles não têm como negar – falei animada procurando meu parceiro com os olhos.
Sorri satisfeita ao vê-lo se aproximar com uma gaiolinha vermelha numa mão e com o cachorrinho na outra. vinha rindo e conversando com .
- Olha aqui meu xuxuzinho. Da oi pra tia, amoreco – falei rindo e pegando o filhote das mãos de .
- Ele é lindo, ! Já deram um nome? – perguntou quando parou ao lado dela e ao meu.
- Não... – falei fazendo uma careta – Você já?
- Claro! Esse é o Tambor – ela respondeu animada.
- Que lindo! Igual ao de Bambi – falei animada.
- Foi o que escolheu – falou dando um sorriso enorme.
Eu conheço esse sorriso...
- Foi é? – perguntei desconfiada tirando os óculos escuros e os colocando na cabeça.
- Humrum – ela respondeu corando um pouco – a propósito , essa é a . esse é o ! – ela apresentou apontando pro menino ao seu lado.
Ele acenou com um sorriso animado e eu acenei de volta. Ele parecia ser legalzinho. Pelo menos era um gato! Assim que me apresentei, escutei o pigarrear ao meu lado. Bufei e apresentei-o.
- , . , – falei sem paciência apontando de um pro outro.
- Oi – ela falou com um sorriso animado, o qual devolveu com um leve aceno.
- Vamos? – perguntei a – quanto antes a gente começar, antes a gente termina.
- Claro. Até mais, dudes – ele falou com um sorriso se afastando.
Acenei pra e e acompanhei com o cachorrinho no colo. Quando chegamos em frente à moto, bati com força na testa.
- Mais que anta, ! Como a gente vai levar ele nesse trambolho? – perguntei sem paciência encarando a moto.
- Merda... – escutei ele reclamar.
Já vi que hoje realmente não é o meu dia...

’s P.O.V.

Quando escolhi vir no meu bebê, pensei só na oportunidade de tê-la mais perto de mim. Tinha esquecido completamente do cachorro.
- E agora, seu demente? – ela perguntou de novo, ainda mais brava.
Olhei mais um pouco pra moto até ter alguma idéia.
- É só amarrar a gaiola na traseira e você leva ele na bolsa – falei já levantando o banco e pegando uma corda que sempre deixava ali.
- Como é? Você é realmente um retardado, né?! – ela perguntou ficando vermelha.
Se ela soubesse o quanto fica irresistível daquele jeito, não faria isso perto de mim. Olhar ela ali, com os olhos pequeninos de raiva, as bochechas e a testa coradas e com alguns fios de cabelo soltando e caindo sobre seu rosto, só a deixava ainda mais linda. Por um momento eu esqueci onde estávamos e o que estávamos fazendo.
- ?! Eu estou falando com você! – ela gritou com uma voz fina irritante.
- Oi? – perguntei um pouco alheio a tudo.
- Você não espera mesmo que eu vá colocar o filhote na minha bolsa, espera? – ela perguntou erguendo as sobrancelhas com um sorriso cético.
- Espero... – respondi dando os ombros.
- E se ele fizer cocô ou melar minha bolsa de xixi? Minhas coisas estão aqui dentro! E ia estragar minha bolsa! Você tem noção do quanto foi difícil conseguir ela? O quanto eu tive que pagar?!– ela perguntou dando um pití.
- Não vai acontecer nada, O’Donnel... E se por acaso algo acontecer, eu pago outra pra você, satisfeita? Agora deixa de escândalo e vamos logo... – falei sem paciência voltando a prender a gaiola.
Escutei ela soltar alguns palavrões, com raiva enquanto acomodava o filhote na bolsa.
- Você vai aqui bebê, mais se fizer alguma besteirinha na bolsa da mamãe se prepare pra virar jantar... – ela resmungou com o cachorro, que olhava pra ela balançando a cauda, animado.
Prendi o sorriso enquanto colocava meu capacete e entregava o dela. Ela me mirou um olhar mal humorado enquanto subia na moto.
- Vê se vai mais devagar pelo menos... – resmungou segurando a bolsa com uma mão e minha cintura com a outra.
- Será como ordenas, vossa majestade – falei rindo e pude ver um meio sorriso surgir nos lábios dela.

Confesso que aquilo estava sendo melhor do que eu imaginava. Ter ela ali, colada comigo, presa a mim, era melhor do que qualquer sonho meu. Suas mãos pequenas seguravam firmes em mim, fazendo com que se concentrar na estrada fosse mais difícil do que o normal. Assim como ela pediu, eu fui bem mais devagar, demorando mais no percurso. Consequentemente, demorando mais com ela junto a mim.
- Chegamos, madame – falei assim que parei em frente a casa dela.
Mesmo já tendo visto aquela casa outras vezes, e até entrado nela em alguns eventos que a família O’Donnel já tinha promovido lá pra essa sociedade de merda, não cansava de admirar. As paredes, quase todas de vidro, tinham a melhor vista da cidade. Era um verdadeiro espetáculo.
desceu da moto resmungando e tirando o animal de sua bolsa.
- Você é um filho da mãe muito sortudo, – ela falou sem me encarar.
- Eu disse que não ia acontecer nada... – comentei guardando os capacetes.
Nós entramos e seguimos para a área da piscina onde estávamos anteriormente. O sol já estava quase no fim do horizonte e algumas estrelas já apareciam tímidas no céu.
- Ele fica com você essa semana, tudo bem? – perguntei me sentando e tirando o computador da mochila.
- Claro. Não ia deixar você levar o fofinho com você naquele troço. Ele não ia chegar vivo... – ela falou erguendo a sobrancelha e sentando com o cachorrinho no colo.
Rolei os olhos e comecei a procurar informações pra complementar o trabalho.

Nós ficamos ali algumas horas, apenas comentando alguns detalhes do trabalho que era feito. Só paramos quando fomos interrompidos pela governanta, que trazia uma bandeja com comida.
- Olá, crianças! Está na hora do jantar, sabiam? – ela perguntou com um sorriso maternal enquanto colocava a bandeja na nossa frente – espero que goste de hambúrguer de frango e suco de abacaxi com hortelã, senhor – continuou colocando um enorme sanduíche na minha frente com um copo vazio. Colocou também um perto de e uma jarra de cristal com um conteúdo levemente esverdeado e um prato com algumas rodelas de abacaxi com leite condensado em cima da mesa.
- Por favor, me chame de . O senhor é meu pai... – falei com um sorriso amargo.
- Assim como preferir. E é pra mocinha comer tudo, viu dona ? – brigou olhando pra menina que dava um sorriso amarelo.
- Não precisava isso tudo, Tezinha... Eu comi bem no almoço. Você quer me deixar gorda, não é? – reclamou fazendo uma careta enquanto encarava a comida.
- Eu conheço essa história. Tenho certeza que se ligar pra uma das meninas elas vão dizer que você não almoçou. Vigie ela, – ela falou ainda olhando pra .
- Claro, Ester. Não se preocupe – falei com um sorriso amigável.
Assim que ela saiu, ataquei meu sanduíche. Não notei que estava tão faminto até ver a comida na minha frente.
- Eca, ... Come direito. Parece que nunca viu comida – reclamou fazendo uma careta enquanto mordiscava o seu sanduíche.
- Você que viu tanta que não aguenta mais. É pra comer, . Você escutou o que ela disse – falei sério, mirando ela com os olhos.
Ela me olhou com o cenho franzido e um sorrisinho cínico.
- Vai à merda – resmungou voltando a encarar seu jantar.
comia distraída. Na realidade ela quase não comia. Depois que mordeu a primeira vez o sanduíche, o deixou de lado e se serviu de uma rodela de abacaxi. Em seguida tomou meio copo de suco e parou de comer.
- Você gosta bastante de abacaxi, não? – perguntei assim que acabei com o meu sanduíche.
Nossa... Nunca tinha comido um tão bom como aquele. Com certeza eu repetiria se pudesse.
- Como?! – ela perguntou me encarando.
Por um momento esqueci o que ia perguntar. Era só ter atenção dela pra mim que eu agia igual a um babaca.
- Abacaxi. Você... Gosta muito – repeti, tentando não parecer um idiota.
Mas era meio difícil com aquela garota me olhando tão inocentemente. Era até difícil acreditar que ela fosse aquela mesma garota que sobe em mesas pra dançar sensualmente nas festas.
Se eu não a tivesse visto aquele dia, talvez nunca acreditasse que o que via agora era verdadeiro.
- Gosto... Minha avó sempre me dava quando eu era pequena. Ela fazia um doce tão bom... E depois aproveitava a casca e fazia várias receitas - Ela contou com um sorriso saudoso e os olhos úmidos.
- Desculpe, eu... Eu não devia ter tocado nesse assunto – falei fazendo uma careta ao ver o semblante triste dela.
- Acho que já está bom por hoje. Amanhã a gente termina – ela falou rude virando o rosto e ficando de costas – Você pode ir.
- Hum... Até amanhã então. E obrigado pelo jantar. Estava delicioso – agradeci enquanto recolhia minhas coisas, relutante.
Sair de perto dela quando ela parecia tão repentinamente frágil, me torturava por dentro. Tudo o que eu queria era acolhê-la em meus braços e dizer que tudo ia ficar bem. Mas eu não podia. Talvez nunca pudesse. Respirei fundo e a deixei lá. Quando subi na moto e peguei o primeiro capacete que vi e seu perfume cítrico invadiu minhas narinas. Era o capacete que ela tinha usado. Algo me diz que esse capacete não será usado por mais ninguém...

’s P.O.V.

Depois que deixou minha casa, peguei o sanduíche que não comi, um pouco mais de suco, minha bolsa e o cachorrinho e segui até o sofá que ficava no patamar mais baixo do jardim. Soltei-o ali e coloquei o resto do sanduíche no chão pra ele se alimentar.
- Por hoje você come isso, docinho. Amanhã eu providencio ração e o resto das suas coisinhas – falei alisando o bichinho, que comia o sanduíche com gosto.
Em seguida mexi na minha bolsa a procura de meus cigarros e meu isqueiro com a bandeira da Inglaterra. Acendi o cigarro e dei a primeira tragada, vendo a fumaça branca se misturar com o vapor que saia da minha boca, devido à baixa temperatura que vinha junto com a noite. A mesma sensação de relaxamento de sempre invadiu meu corpo, relaxando os músculos aos poucos. Me joguei no sofá olhando o céu, que estava estrelado e quase sem nuvens. Ao encarar aquela imensidão, senti um aperto no coração e a solidão estranha de sempre aumentar, fazendo com que tragasse mais uma vez, ainda mais forte. Fique ali, deitada, fazendo formas estranhas com a fumaça que saia da minha boca até o cigarro acabar. Enquanto isso o cachorrinho brincava pela grama, correndo a trás de um grilo.
- Queria que minha vida fosse tão simples assim como é a sua, lindinho – suspirei olhando ele tentar dar um bote frustrado no grilo.
Peguei o cinzeiro que sempre escondia ali, estava repleto de cinzas então as despejei em um saquinho vazio que carregava na bolsa. Em seguida bebi o resto do suco que tinha colocado no copo. A menta sempre me ajudava a disfarçar o cheiro de cigarro. Se Ester desconfiasse que eu fumava, ela ia arrancar minhas unhas com alicate. Peguei o cachorro, recolhi minhas coisas e segui para o meu quarto. Ao chegar, larguei tudo em cima da cama enquanto pegava uma cesta que guardava umas revistas. Joguei todas elas no chão e cobri-a com uma toalha bem felpuda.
- Pronto, chuchu. Hoje você dorme aqui. Amanhã eu compro uma caminha bem fashion pra você – falei com um sorriso enquanto acomodava o filhote lá.
Depois segui para o banheiro largando as peças de roupa pelo caminho. Não ligava muito em arrumar. Amanhã, quando eu voltasse o colégio, esse quarto ia estar brilhando mesmo. Assim que cheguei ao banheiro enchi a banheira com água quente.
- Merda, esqueci o IPod – resmunguei correndo sem roupas até o quarto.
Peguei o controle remoto universal e apertei pra fechar as cortinas e ligar o aquecedor. Em seguida peguei o IPod na bolsa e segui pro banheiro.
- O que o senhor está fazendo aqui? – me assustei ao ver o cachorrinho tentando ver o conteúdo da banheira. – não pode ver a mamãe tomar banho, seu safadinho - falei rindo enquanto o empurrava pra fora do local e encostava a porta.

Assim que retornei, entrei na banheira, sentindo calafrios devido à mudança de temperatura. Coloquei os fones e deixei tocar um cd qualquer do Snow Patrol. Estava na terceira faixa quando vi meu celular tocar escandaloso em cima do batente. Estiquei-me contrariada e atendi sem nem ao menos ver quem era. Odiava ter que interromper meus banhos de beleza...
- Oi pimpolha!
- Scott! – vibrei sentindo um pequeno conforto ao escutar a voz rouca do outro lado da linha.
- Tentei falar contigo hoje cedo, mas seu celular não pegava.
- Estava no colégio e você sabe que naquele buraco não se aceitam celulares... – resmunguei.
- Mas também sei que vocês são ótimas contrabandistas... – ele comentou com uma risada baixa.
Dei a língua mesmo sabendo eu ele não ia ver.
- E nem adianta dar a língua, pirralha – ele comentou rindo ainda mais.
- Odeio como você me conhece melhor que eu mesma – resmunguei com um pequeno sorriso.
- Liguei pra avisar que vou chegar na quinta.
- A Tezinha me avisou! – falei me animando – Que bom que você vem! – comentei sincera.
- Eu sei que você não vive longe de mim, ... – falou convencido.
- Você é tudo que eu tenho, meu bombom – suspirei com um ar triste.
- Pra onde eles foram agora? – Scott perguntou com o tom duro e desgostoso.
- À Big Apple. Estão pertinho de você...
- E nem se dão ao trabalho de me fazer uma visita ou avisar. Típico.
- Esses são nossos pais, bombom. Eu já nem ligo tanto... – tentei mentir.
- Você mente tão mal que até pelo telefone eu percebo – Scott falou em tom de deboche.
- Me erra, idiota... – reclamei rindo – Ligou só pra avisar ou estava com saudades de escutar minha voz?
- Algo me dizia que você estava precisando escutar a minha. E é sempre bom falar com você. Você também é tudo que eu tenho pimpolha - ele falou doce.
- Você é o melhor, bombom – falei rindo e deixando uma lágrima escorrer.
Minha garganta tinha um nó e meu coração parecia esmagado por uma mão invisível.
- Eu devia fugir pra ir morar com você, sabia? Ai você se formava e ia ser o arquiteto dos ricos e famosos enquanto eu me tornaria uma modelo super famosa – comentei rindo enquanto imaginava a cena.
- Aí eu iria querer matar todos os babacas que se aproximassem de você... – ele resmungou.
- E desde quando você é possessivo e ciumento dessa maneira? – perguntei rindo.
- Desde que você ia ser desejada mais do que já é! Não é porque eu não me meto na sua vida ou lhe dou espaço pra fazer suas escolhas que eu não seja ciumento e possessivo. Eu só disfarço bem – ele falou rindo –Eu protejo o que é meu sabia?!
- Bom saber que eu tenho um guarda costas que trabalha de graça – comentei rindo – Basinha ficou bem animadinha quando eu contei que você vinha.
- Ah é?! E ela continua solteira? - perguntou fingindo desinteresse.
- Ela sempre fica quando você vem, não é?!
Scott deu uma risada safava alta, me fazendo rolar os olhos. Uma vez safado, sempre safado.
Ficamos conversando mais um pouco, até eu notar que meus dedos já pareciam uva passa e a água estava fria. Me despedi de Scott e fui deitar. Era mais fácil dormir sabendo que tinha alguém por você, mesmo que ele estivesse do outro lado do oceano.

CAPÍTULO QUATRO

“She's all or nothing,

(Ela é tudo ou nada,)
But my feelings never change…”
(Mas meus sentimentos nunca mudam...)

Quando acordou de manhã, se sentia um pouco mais animada.
- Menos um dia pra chegada do Scott! – comemorou se levantando da cama.
A menina correu para o banheiro e tomou um banho rápido. Assim como todos os dias, quando voltou, sua farda já a esperava em cima da cama. Ela vestiu tudo e terminou de se arrumar, recolheu suas coisas e seguiu pro café da manhã.
Quando chegou ao deck, lá estava a mesma quantidade absurda de comida de sempre.
- Ainda não entendo pra quê tanta comida só pra mim... – resmungou pegando um pão de batata e o partindo no meio.
- Que bom que a senhorita está comendo – Ester comemorou ao entrar trazendo uma jarra de suco de laranja.
- Eu falei com o Scott ontem... – Ela falou animada enquanto melava o pão no patê – E você sabe que ele briga comigo quando me vê magra demais. Não quero perder tempo brigando – explicou dando os ombros e colocando o pão na boca.
- O menino Scott tinha que vir com mais freqüência então... Ele é o único que consegue fazer você me obedecer – a senhora suspirou.
- Mas eu te obedeço, Tezinha... – comentou fingindo mágoa.
- Você só obedece a sua própria vontade – a senhora falou com um sorriso doce enquanto apertava seu nariz – e o seu irmão.
deu a língua e continuou a comer. Quando terminou, seguiu rapidamente pro colégio, encontrando as amigas sentadas embaixo da árvore, como sempre. Só que hoje tinha mais uma pessoa...
- Oi meninas... E ! – se surpreendeu.
Todos sorriram pra garota, que se sentou ao lado de .
- A gente conversa mais tarde mocinha... – sussurrou vendo a amiga corar.
soltou um riso baixo e se encostou no caule da árvore.
- Vocês conseguiram terminar o trabalho ontem, ? - perguntou olhando a menina, que pensava distraída.
- Não... Já tem mais da metade pronto, mas ainda falta finalizar umas coisas... – respondeu fazendo uma careta.
- Ufa... Pensei que só a gente que não tinha conseguido – o menino falou rindo.
- Eu queria ter ficado com esse trabalho... – reclamou fazendo bico.
- Mas a gente ficou com a Sra. Finningans – completou fazendo uma careta.
- Pelo menos puderam ficar uma com a outra – comentou fazendo uma cara de desgosto.
- Não gostou da dupla? – perguntou rindo de alguma coisa que elas não sabiam.
- O é muito chato e enxerido. E tapado... – ela resmungou.
Ela não gostava de ter por perto. Ele a fazia ficar confusa e sem ter muito a noção das coisas. Não conseguia agir normalmente. E não entendia o porquê disso.
O sinal tocou, indicando o início das aulas e todos seguiram para suas respectivas salas.

Logo o almoço chegou e junto com ele, mais uma atualização do "The Pretender".
- Estão falando de você de novo, ... – comentou sentando numa mesa perto da parede de vidro. - O que foi dessa vez?! – ela perguntou sem paciência espetando a batata em seu prato.
- Tão falando que você e o estão muito juntos e que parece que tem um novo e inesperado casal se formando – resumiu lendo em seu celular – e tem uma foto do com a gente lá na árvore, "Parece que até a aprovação das amigas já tem..." - leu.
- Como esse povo consegue, hein?! Deviam era arrumar o que fazer... – reclamou cruzando os braços.
Hoje ela comia um sanduíche natural com um copo de suco de laranja.
- Eu não sei, mas daria uma perna, um braço e uma das minhas Marc Jacob pra descobrir – falou olhando ao redor.
- A gente nunca vai descobrir nada, xuxuzinho. Quem quer que seja, sabe fazer bem esse negócio – falou olhando de longe.
- Mas bem que eles tem razão, hein ?! Você e o andam cheios de risinhos e conversinhas... Como foi ontem à tarde? – perguntou olhando na mesma direção que a amiga olhava.
, , e estavam numa mesa próxima, rindo e implicando uns com os outros. O alvo da vez parecia ser . Com certeza relacionado ao que tinha sido publicado essa manhã.
- Não tem nada ué... – ela comentou vermelha.
- Então porque você ficou coradinha?! – mangou fazendo a amiga ficar ainda mais vermelha.
- Anda, sua vaca! Fala logo como foi ontem – pediu animada.
- Nada demais... A gente fez o trabalho, depois ficamos conversando e vendo o Tambor brincar no jardim. É só que... Ele é tão fofo! – a menina falou com um sorriso bobo ainda olhando pra mesa dos meninos – E a gente tem tantas coisas em comum... Vocês sabiam que ele e os outros têm uma banda? – ela perguntou.
- Não – comentou dando os ombros.
O gesto foi imitado por .
- É tão poético... E romântico! – comentou rindo.
- A nossa pitxuquinha ta apaixonadinha! – mangou abraçando uma vermelha.
- Coisinha mais lindinha! E ele ainda é um gostoso, hein?! – comentou rindo – Dessa vez você escolheu bem amiga.
- Quem escolheu o quê? – perguntou sentando na mesa.
A menina estava ligeiramente descabelada e tinha as roupas amassadas. - Onde estava, hein Basinha?! – perguntou já prevendo a resposta.
- Treinando para quando o Scott chegar... – ela falou com cara de tarada.
As quatro soltaram uma gargalhada, atraindo alguns olhares. Inclusive da mesa que anteriormente era o assunto.

- Como foi ontem, dude? – perguntou olhando .
- É... A musa inspiradora é tão perfeita quanto você achava? – perguntou rindo.
- Ela é incrível! Foi bem difícil ficar perto dela e não agarrá-la – falou com um sorriso babaca enquanto bagunçava os cabelos.
- Ela falou que te achou insuportável e um babaca... – comentou convencido.
- Como você sabe? Desde quando você fala com ela?! – perguntou murchando o sorriso.
- Desde que eu e a somos amigos... – ele falou com um sorriso pervertido – Por pouco tempo, é claro...
- Olha ai, o colocando as manguinhas de fora – mangou.
- Aquela garota é incrível! Não sei como não notei antes – ele falou olhando ela e as amigas rirem de alguma coisa.
- Acho que mais uma princesinha ganhou o coração de um dos integrantes do McFLY... – comentou de boca cheia.
- Fecha essa boa, seu porco! Ta voando comida pra todo lado – reclamou fazendo uma careta.

Na outra mesa o assunto não era muito diferente.
- Quer dizer a moça aqui caiu nas graças do babaca ali?! – ergueu a sobrancelha.
- Fazer o quê se ele é um fofo?! – falou dando os ombros.
- E você, ? Também vai cair no charme deles?! – perguntou rindo.
olhava pra mesa perdida em pensamentos.
- Oi?! – perguntou voltando o olhar pra amiga.
- Eu acho o um tremendo de um gostoso... Na realidade, ele o passavam pela minha mão fácil, fácil – ela continuou a falar.
arqueou as sobrancelhas, séria.
- O ?!
- Claro que se você quiser, pode ficar amiga. Eu me contento com o – ela falou rindo com cara de tarada – até porque competir contigo é saber que vai perder...
- Eu não quero o ! Quem disse que eu queria?! – ela perguntou alterada.
- Você não tirou os olhos dele a manhã toda... – comentou lixando as unhas.
- Eu só estava olhando naquela direção, mas estava pensando em outra coisa – falou contrariada.
Como assim ela e o ?!
- Vai dizer que ele não é uma delicia?! – perguntou.
- Não vou negar que ele pode ser bem charmoso, mas vocês sabem que eu não me prendo a ninguém. E também ele é muito chato... – resmungou.
- Isso só o futuro dirá, lindinha... – comentou mudando de assunto – o Scott chega quando?
- Depois de amanhã! Mas nada de ir lá pra casa, Basinha. Eu quero aproveitar bem meu irmão antes – brigou apontando o dedo pra amiga.
- Estraga prazeres... – falou com cara de bunda.
- Afanadora de irmãos! – rebateu dando a língua.
- Empata foda.
- Sua tarada!
- Sua...
- Dá pra parar?! tem o direito primeiro, . Depois você pode passar o resto do fim de semana se comendo com o Scott – falou encerrando a briguinha.
- Minha própria amiga querendo roubar meu irmão... Em que mundo nós estamos?! – se lamentou dramática.
- Por falar em foda... Cadê o Chase, em?! O cara sumiu... – comentou rindo.
- O cara é foda mesmo – pensou com um sorriso pervertido.
- Treino extra – falou rápida.
As três a olharam, impressionadas.
- Digamos que ele tenha ficado sem um de seus artilheiros por um tempo – comentou rindo.
- Ryan de novo, ?! – perguntou assustada – Daqui a pouco vão pensar que vocês estão juntos!
- Relaxa monga, é só pegação. O Ryan definitivamente não é o tipo pra se namorar. Pra esse cargo eu tenho outro em mente – ela falou olhando pra mesa dos meninos.
- Ainda com isso na cabeça? – perguntou rindo.
- Claro! Não tem quem me tire da mente que o Judd seria meu namorado ideal – ela continuou a falar com um sorriso maior – se vocês soubessem como ele pode ser habilidoso...
- Iuc, ! Nem vem... Desde que você ficou com ele naquele verdade ou conseqüência há uns mil anos atrás não tira essa idéia da cabeça. Ele nem deve pensar mais nisso... – falou empurrando o sanduíche pela garganta.
- O que esses meninos têm, em?! Porque até anda pensando num deles! A ! – falou assustada apontando exageradamente pra ela.
- Eu o quê? Pára com essa idéia absurda! Eu vou ao banheiro... – resmungou e saiu correndo.
As três olharam se afastar, preocupadas.
- Será que ela vai...?
- Não, Scott está vindo. Ela vai tentar se manter na linha – falou séria.
- Eu só queria que ela parasse com isso... Ela acha mesmo que a gente não sabe?! – perguntou nervosa. apenas olhava o nada, pensativa.
- Talvez ela precise de alguém.
- Como assim?! – não entendeu.
- Ela precisa de alguém pra cuidar dela... A gente não ta conseguindo dar conta e o Scott ta longe. Eu fico preocupada com ela – falou com uma expressão de dor.
- Isso, minhas queridas, é que vai ser um desafio – comentou se levantando e indo na direção que havia tomado.
As outras duas fizeram seus os passos dela.

No banheiro olhava seu café e lanche descerem pela descarga. Toda vez que ela tentava comer era isso. A comida nunca ficava muito tempo em seu estômago. A menina suspirou e sentou ao lado do vaso. Merda. Será que ela nunca ia conseguir fazer alguma coisa certa?!
suspirou mais uma vez, se preparando pra vomitar de novo, quando escutou as vozes das amigas. Imediatamente ela baixou a calcinha e sentou no vaso.
- ? Ta ai? – perguntou olhando por baixo de cada divisória.
- To aqui! Espera – ela gritou levantando a calcinha e dando descarga novamente. Puxou um pouco de papel higiênico e o amassou, jogando na lixeira - Tiveram um desarranjo em conjunto, foi? – perguntou rindo e indo lavar as mãos.
- A gente só pensou que... – começou a falar, mas foi interrompida por .
- Você não veio vomitar, não é?! – perguntou direta.
- De novo com isso?! Quantas vezes eu preciso dizer que eu não faço mais isso? – mentiu – Vocês mesmas viram por debaixo da porta, que eu sei. Que saco! – reclamou.
- A gente se preocupa com você, ... Desculpa – falou magoada.
suspirou e jogou água no rosto. Depois pegou um vidrinho de anticéptico bucal que carregava sempre na sua bolsa e gargarejou o liquido azul.
- Eu sei. Mas não precisam se preocupar, ok?! Eu estou bem... E nós estamos atrasadas pra educação física, amores – ela falou com um sorriso doce e empurrou as amigas pela porta.

A educação física era uma das poucas aulas que todos faziam juntos. As quatro seguiram pro vestiário, onde trocaram a farda habitual por um short xadrez curto, uma camiseta de gola careca branca com o brasão do colégio e os tênis que sempre deixavam lá. Quando chegaram ao campo principal, atraíram todos os olhares como sempre. As quatro caminharam rindo de alguma coisa até o grupo principal, onde a maioria dos alunos já estava por lá.
- Tomaram que só coloquem a gente pra correr ao redor da quadra enquanto os meninos jogam alguma coisa – Babbi comentou observando a quadra.
- E que tenha o time sem camisa... – sonhou fazendo as amigas rirem.

Enquanto isso, se aproximava com os amigos.
- Oi meninas – ele cumprimentou com um sorriso animado.
- Oi ! – as quatro responderam em uníssono, causando algumas risadas.
- Que horas a gente se encontra hoje, ? – ele perguntou mirando sua atenção toda pra menina, que corou.
- Umas quatro. Não falta muita coisa, mas é melhor garantir tudo. Você vai jantar lá em casa de novo? – ela perguntou nervosa.
- Acho que sim. Mas hoje é minha vez de providenciar o jantar – ele falou piscando o olho, fazendo dar um sorriso empolgado.
- Mesma hora de ontem, O'Donnell? – perguntou sem dar muita importância.
- Certo, . Mas vê se vai de carro. A gente tem que comprar as coisinhas do cachorrinho. E decidir um nome pra ele – ela falou encarando o garoto.
- Oi ... – cumprimentou com um sorriso sedutor.
- Oi, Campbell – respondeu com um sorriso pervertido se formando em seu rosto.
observava atentamente. Já esse parecia mais interessado nas pernas da garota.
- Vocês vão pra a After Party? Soube que a casa da Camille é imensa, não é, ? – perguntou rindo enquanto deixava o outro sem graça.
fechou a cara, se limitando a observar as unhas. sorriu de lado ao vê-la emburrar.
- Com certeza. Teremos convidados e eles merecem ir pro melhor – comentou.
- Convidados? – estranhou.
- Meu irmão e uns amigos estão vindo passar o fim de semana comigo... – falou abrindo um sorriso sincero.
- Hum... – resmungou, emburrando.
Ele sabia que e Scott tinham uma espécie de casinho. Isso atrapalharia seus planos pro fim de semana. Já parecia muito satisfeita.
- Vocês vão tocar? – perguntou animada.
- Talvez. É provável que sim – respondeu dando os ombros.
- Oi princesa. – Chase falou puxando a menina pela cintura e lhe dando um selinho. estava tão distraída, perdida em pensamentos que não o viu se aproximar.
- Oi bonitinho – falou puxando os cabelos de sua nuca.
- Hoje você ta livre?
- Infelizmente não, bonitinho. Ainda tenho que terminar esse trabalho chato – reclamou fazendo bico.
Ao olhar a cena bufou e se afastou praguejando com toda a árvore genealogia de Chase.
- E quando você vai poder me dar um pouquinho do seu tempo? – ele perguntou ficando nervoso – Não avisou nem nada ontem. Podia ter me ligado pra compensar a ausência do nosso encontro.
Essa mania dele de achar que era alguma coisa dela, irritava profundamente. Ela não tinha que dar satisfações a ele!
- Eu terminei tarde. E tinha outras coisas mais importantes pra fazer – falou com pouco caso se afastado dele – Cadê o ?! – estranhou ao notar a ausência dele ali.
- Foi alongar, acho – comentou segurando o riso. ia amar saber que ela perguntou por ele.
- O idiota nem falou se ia ou não lá pra casa de carro! Espero que ele não se esqueça... – resmungou se afastando. Mas assim que deu o segundo passo sentiu a mão de Chase se fechar em seu pulso.
- O que você vai fazer com aquele mongol? – ele perguntou bravo.
arqueou a sobrancelha e o encarou com ar de riso. Era só o que faltava mesmo...
- O que eu vou fazer não é da sua conta, bonitinho... – ela falou o encarando – e me solte que agora eu tenho mesmo mais o que fazer – mandou, puxando o pulso com força e se afastando.
- Acho que o mongol aqui é outro... – comentou com ar de riso se afastando. As meninas riram e se juntaram a , assim como os outros, deixando Chase só, com o ódio borbulhando em suas veias.
- Você me paga, – bufou encarando o garoto, que se alongava com o resto do grupo.

A tarefa foi exatamente o que todos previram. As meninas deram algumas voltas na quadra, tirando a atenção dos meninos que jogavam futebol. Assim que terminaram, elas seguiam pra arquibancada sentando em seus grupinhos de costume.
, , e sentaram nos primeiros bancos, bem próximas à quadra.
- Eu quero ver bem de perto o time sem camisa – comentou ao escutar o nome de ser selecionado pro mesmo.
Junto com ele e também foram. ficou do outro lado, no time do Chase.

- Porque eu sempre tenho que ficar no time ruim?! – reclamou enquanto os amigos tiravam a camisa e seguiam pro outro lado da quadra.
- Porque ninguém quer ver teu bucho... – comentou rindo enquanto lhe mostrava o dedo e ia pro seu time, contrariado.

As quatro assistiam ao jogo, alheias ao que acontecia. Na realidade, a vista parecia ser a melhor atração.
- O realmente é uma delicia, amiga - comentou vendo o menino driblar alguns jogadores. - Eu sei... Eu tenho um excelente gosto – se gabou.
- Depois eu que sou a modesta – reclamou em tom de sarcasmo.
- Isso não vem ao caso, vocês já sabem o que vão vestir sábado? – perguntou antes que outra briga se iniciasse.
- Não. Eu pensei em irmos as compras... – falou empolgada – Na sexta, talvez. O Scott vai ter que receber os amigos dele mesmo – completou dando os ombros.
- A gente podia sair com eles na sexta, né? – perguntou com um sorriso travesso – Mostrar o que nossa terra tem de bom...
As quatro riram alto.
- Vocês se arrumam lá em casa então. Fica mais fácil pra sair – falou olhando pro campo – E eu já sei até pra onde a gente vai – completou com um sorriso perverso olhando Chase correr.
As quatro conversaram mais algumas banalidades até serem interrompidas por um grito. corria feliz pelo campo, com e pendurados nele.
- Olha lá, acho que foi gol – comentou encarando os meninos.
- Você é tão inteligente, amiguinha... – comentou com ar de riso – chegou a essa conclusão só, foi?
deu a língua enquanto as outras riam.
- Vocês sabem muito bem que esportes nunca foram meu forte – ela falou se encostando preguiçosa.
- Chase não parece muito feliz hoje não – comentou.
O garoto gritava com alguns dos jogadores do seu time.
- Por falar nisso, que cena foi aquela?! – perguntou virando pra .
- Esse garoto é insano! Ele pensa que é meu dono, só pode. Achando que pode mandar em mim... – comentou com os olhos serrados - ninguém manda em mim! Eu faço o que eu quero, quando eu quero e sem dar satisfação a ninguém! – terminou aborrecida.
- Quando será que você vai arrumar alguém que não queira mandar em você? – indagou pensativa – ou que pelo menos não te trate como se fosse um bibelô e sim um ser humano.
- Nunca... Parece que eu só atraio esses doidos psicopatas... – falou com uma careta.
- Mas...

A conversa delas foi interrompida por outro grito, mas dessa vez não parecia de comemoração. No campo uma multidão se formou rapidamente ao redor de duas pessoas. Algumas meninas já desciam até lá pra saber o que tinha acontecido.
- Parece que alguém se machucou. Vamos lá ver – comentou curiosa puxando pela mão.
e se levantaram e acompanharam as duas. Quando se aproximaram o suficiente pra ver o que era, alguns gritos já ecoavam pela quadra.
- Você é um imbecil, Peterson! – gritava.
Ele estava sentado no meio do campo. Um filete de sangue escorria do seu supercílio e seu pescoço estava sujo, assim como o resto do corpo tinha terra, grama e alguns arranhões. Chase o encarava com uma expressão satisfeita.
- Eu não tenho culpa se você não agüenta nada ... – ele falou com ar de riso – Quem manda correr que nem uma garotinha?! – zombou.
- Eu vou te mostrar quem é a garotinha... – bufou se levantando e indo na direção de Chase.
Mas foi inesperadamente impedido por , que entrou no meio dos dois. Todos que estavam ali se calaram, espantados.
- O que está acontecendo aqui?! – perguntou olhando de um pro outro. - Esse bicha ai que não aguenta nada... – Chase falou apontando pro garoto com a cabeça.
encarou . O garoto olhava Chase com o ódio brilhando em seus olhos azuis. Mesmo assim, ela ainda os achava lindos. Agora seu peito também estava melado do sangue que não parava de descer de sua testa e suas mãos estavam fechadas em punho.
- Bicha é tua bunda, seu filho da mãe! Você me empurrou de propósito! Não aguenta perder pra mim, não é?! – perguntou sarcástico – tem medo de concorrência, Peterson?!
Chase o encarou em fúria.
- Você é um merdinha, . Não é ameaça nenhuma pra mim... – bufou enquanto o outro o olhava com ar de riso – vamos embora daqui, – falou puxando a garota pelo braço.
- QUANTAS MIL VEZES EU TENHO QUE DIZER QUE VOCÊ NÃO MANDA EM MIM?! - gritou sem paciência puxando o braço, enquanto uma onda de riso correu pelo grupo.
A garota já estava farta do comportamento dele.
- Eu já disse pra a gente ir – ele a olhou com os olhos escurecidos de ódio. Quem ela pensava que era pra envergonhá-lo daquela maneira?
- Eu não vou a lugar nenhum a não ser que eu queira ir – ela completou séria.
O garoto a encarou com a boca aberta, sem saber o que dizer, enquanto ela pegava um lenço em seu bolso.
- Limpa esse sangue, – ela falou entregando a ele – eu odeio sangue... – comentou com uma careta.
- Valeu – agradeceu com um meio sorriso.
Depois encarou Chase com um sorriso ainda maior. Chase começou a andar na direção do garoto quando o professor apareceu.
- O que está acontecendo aqui? É só eu sair pra ir ao banheiro que vocês conseguem armar uma confusão?! – perguntou sem paciência.
Todos olharam pra ele, calados.
- O que foi que aconteceu aqui? – perguntou novamente.
De repente todos começaram a falar.
- SILÊNCIO! – gritou – Você. Explique – falou apontando pra .
- A gente estava jogando normal quando o senhor saiu, ai o pegou a bola que eu passei pra ele. Quando ele ia chutar pro gol, o Peterson apareceu e o empurrou, fazendo ele cair e bater com a testa no chão – explicou com a maior cara de santo que conseguia fazer.
- Eu não empurrei coisa nenhuma! Ele que é um fraco! – Chase protestou com indignação.
Mais uma vez a barulheira começou.
- CHEGA! Você, enfermaria – falou apontando pra – você, vem comigo, e o resto está dispensado – terminou puxando Chase pelo braço enquanto as pessoas começavam a se deslocar para os vestiários.

As quatro amigas caminharam em silêncio até o vestiário, onde as outras meninas falavam alto, empolgadas sobre o que aconteceu. Já foi escoltado pelos seus amigos até a enfermaria. Mesmo machucado, não conseguia tirar o pequeno sorriso do rosto ao sentir o perfume que vinha do lenço mínimo que estancava seu ferimento, agora já quase todo vermelho de sangue.

Quando as quatro meninas estavam no estacionamento, resolveu quebrar o silencio.
- Você sabe que em menos de dez minutos isso tudo vai estar estampado no The Pretender, certo?
suspirou alto e se encostou em seu carro.
- Sei... – falou fazendo uma careta.
- Então se prepara pra eles começarem a especular por que você defendeu o em vez do Peterson – continuou a falar.
- Mas eu não o defendi! – protestou – não defendi nenhum deles!
- Mas foi o que pareceu, falou se encostando ao lado da amiga.
- Vocês sabem muito bem que eu não suporto sangue. Muito menos briga – ela se explicou – que se fodam os outros... – resmungou encarando os saltos recém colocados.
- Mas só nós sabemos, já os outros estão livres pra pensar o que bem entenderem - falou olhando no relógio – É melhor a gente ir. Tanto eu quanto você temos um maravilhoso trabalho pra fazer essa tarde... - falou animada mudando de assunto.
- Espero que o não use essa briguinha como desculpa pra jogar todo o trabalho pra mim – resmungou desativando o alarme do carro.
- Algo me diz que ele não vai faltar... – comentou como se soubesse de algo.
As outras três olharam pra ela. Vendo que ela não ia falar mais nada deram os ombros, se despedindo e seguindo cada uma seu rumo.

CAPÍTULO CINCO

“She’s like a fast train running away,

(“Ela é como um trem fugindo veloz,)
She’s a storm on my rainy Day.”
(Ela a tempestade no meu dia de chuva.")

P.O.V.

Quando cheguei em casa, estava mais cansada do que normal. Era sempre assim que eu ficava quando presenciava uma briga. Sabia as consequências que elas podiam trazer e a última coisa que queria era ver aquilo acontecer à outras pessoas. Me joguei na cama, ainda de farda, e fiquei muito satisfeita ao notar que ainda faltavam três horas pra encontrar com o . Dava tempo de tomar um banho relaxante, comer alguma besteira e ainda podia dar um cochilo...
- Menina ! Chegou cedo hoje! – Estér comentou entrando no quarto e recolhendo o que eu já tinha espalhado – Aconteceu alguma coisa grave? – perguntou preocupada.
Ela sentou-se ao me lado e começou a mexer de forma carinhosa no meu cabelo.
Um sorriso involuntário se formou no meu rosto, fazendo com que eu me enroscasse e me encolhesse no colo dela.
- Fazia tanto tempo que você não fazia isso em mim... – falei com a voz abafada enquanto ela permanecia mexendo no meu cabelo.
Estér sorriu alto.
- Achei que você não gostava mais desse tipo de coisa, agora que já é uma mulher – ela comentou.
- Eu nunca vou ser grande o suficiente pra impedir você de fazer isso, Tezinha – falei com voz de criança.
- Eu sei, minha menininha – ela respondeu com um sorriso doce.
Não sei quanto tempo mais eu fiquei ali. De uns tempos pra cá, o buraco que eu tenho dentro do meu peito veio aumentando gradativamente. Nunca soube bem o que era um afago de pai e mãe, já que os meus faziam questão de se manter afastados de mim e quando ficávamos juntos era quando eles queriam posar de família perfeita perante a sociedade ou pra arranjar algum motivo banal para brigar. Mas acho que deve se assemelhar bem a isso. Até porque, Estér era a figura materna mais próxima que eu tive em toda minha vida, principalmente depois que minha avó faleceu.
- Nem invente de dormir, mocinha. Você ainda não tirou essa farda suja – ela brigou se afastando de mim e levando a tranquilidade que seu toque me causava.
Soltei um gemido de protesto.
- Vá colocar uma roupa mais confortável e desça pra comer alguma coisa. Você está muito pálida pro meu gosto – ela mandou rindo – se você se comportar, hoje à noite eu posso fazer uma visitinha antes da menina dormir.
- Eu vou cobrar... – resmunguei com um sorriso no canto da boca.
Assim que Estér saiu do quarto, voltei a olhar o relógio. Mais de vinte minutos haviam se passado. Merda. Assim eu não ia aproveitar nada do pouco tempo que me restava. Corri pro closet e peguei uma camisa antiga de Scott, que eu sempre usava porque ainda tinha um pouco do perfume dele, e uma calça de moletom. Depois segui pra cozinha onde Estér já instruía nossa cozinheira, Carmem, a fazer algo que fosse bastante nutritivo pra mim.
- Hola, Carmem! – cumprimentei-a com um beijo na bochecha.
- Hola, mi sol! – ela respondeu com um sorriso caloroso e com seu sotaque carregado.
Carmem era uma mexicana que veio trabalhar aqui em casa quando eu ainda estava nas fraldas. Desde pequena ela fala comigo em espanhol. Como sempre tive um fetiche pelas terras quentes do México, não foi um esforço muito grande aprender. Era uma mulher corpulenta com grandes cachos que desciam de sua cabeça, num tom preto vistoso. Pena que ela sempre os mantinha preso, por trabalhar na cozinha.
- O que vocês aprontaram pra mim hoje? – perguntei fazendo uma careta.
- Hoje a gente vai pegar leve, mas sempre nutritivo. Você anda magrinha demais, chica – Carmem brigou mexendo alguma coisa no fogão, que tinha um aroma apetitoso.
- Eu conheço esse cheiro... – comentei respirando fundo e salivando – Sopa de tomate! – festejei ao ver um prato cheio com um líquido vermelho fumegando ser posto na minha frente.
- É forte e eu sei que você nunca recusa minha sopa de tomate – Carmem explicou rindo enquanto limpava as mãos no avental branco amarrado em sua cintura.
- Fazer o quê se é a melhor?! – comentei rindo.
Mas antes que e pudesse colocar a primeira colherada na boca, senti uma coisa gelada tocar no meu pé descalço.
- Meu amorzinho! Como você está?! – perguntei feliz ao encontrar meu filhotinho balançando o rabinho pra mim, entusiasmado.
Peguei o cachorrinho nos braços e deixei que ele se aninhasse em meu colo, bem parecido com a maneira que eu tinha feito mais cedo com Estér.
- Esse rapazinho passou a manhã fuçando tudo aqui. Quase me mata se susto... – Carmem comentou rindo e apontando uma colher de pau pra o filhote – Ele que não venha fuçar minha despensa de novo. De lo contrario será lo plato principal de la cena – brigou.
- Não escute isso! Ela não disse por mal, viu?! – falei colocando as mãos na orelha dele – Por falar nisso, o vem hoje aqui de novo, Tezinha. E é provável que eu não fique pro jantar.
- Você está namorando com o Sr. , menina ?! – Estér perguntou com os olhos brilhando e um sorriso empolgado.
- Claro que não! Onde já se viu eu namorar?! Ainda mais com alguém como ele... – briguei assustada.
- Pois eu o achei um doce de menino. É educado, gentil e parece ter muito cuidado com você – ela explicou suas razões, se sentando na minha frente – Comece a comer, criança! – mandou com um sorriso.
Eu dei a língua e coloquei uma colher na boca. Hum... Deliciosa como sempre.
- Por que você acha isso? – perguntei curiosa depois de ter comido mais um pouco.
- Ontem, quando ele chegou, a primeira coisa que ele me perguntou era se você estava agasalhada, porque ele viu que o clima ia esfriar e era provável que você não soubesse – ela falou com um sorriso no canto da boca – Se ele não é seu namorado, eu gostaria muito que fosse – completou.
Olhei assustada pra Estér. Ele tinha falado pra me trazerem um casaco?! E ainda mentiu dizendo que tinha sido a Tezinha! O que isso significa?
- Ele é um menino tão bonito... Não consigo entender o porquê dessa repulsa – Estér continuou a falar, ao notar minha confusão momentânea.
- Isso eu não vou negar. Ele é bem... Atraente – confessei sentindo meu pescoço esquentar. Essa, com certeza, não é a única coisa que eu poderia dizer a respeito dele.
Depois de assistir correr pelo campo sem camisa, fica um pouco difícil de atribuir outro adjetivo que não seja delicioso.
- Eu ficaria muito feliz se você namorasse com ele – ela comentou se levantando e me dando um beijo na testa, enquanto eu comia calada, ainda perdida em pensamentos.
Dei um riso amarelo pra ela enquanto observava a mesma sumir na direção da entrada.
Com um suspiro, tentei me levantar e sair despercebida, mas quando já estava na porta, escutei Carmem gritar.
- Nem pense em fugir, chica! Pode comer tudo – Carmem brigou comigo, apontando a colher de pau na minha direção – depois você poder subir e se enfeitar toda pra esse chico guapo... – falou rindo e voltando a atenção pra seu fogão.
- Engraçadinha você... – resmunguei enquanto terminava de tomar a sopa.
Assim que terminei, peguei o cachorrinho, que dormia no meu colo, e fui pro meu quarto.
Foi só me jogar na cama que o sono veio antes que eu notasse.

’s P.O.V.

Assim que parei o carro em frente à casa de , senti minhas mãos formigarem de nervoso. Minha boca secava só com a expectativa de encontrá-la em alguns minutos. Era ridículo como essa garota me deixava igual a uma bicha, sem nem ao menos ter me dado um beijo. Acho que quando isso acontecer, eu desmunheco de vez... Ok, brincadeira. Eu sou muito macho. E é muito provável que depois que ela me beijar, porque isso vai acontecer e ela vai me beijar, eu mostre a ela o que é um homem de verdade.
- Pois não? – escutei a voz do segurança sair pelo interfone do portão.
- É . me aguarda – falei.
Alguns segundos depois, o portão menor foi destravado com um clique, permitindo minha passagem. Apressei o passo, afim de chegar logo e diminuir de uma vez essa distância dela. Era doloroso ficar tanto tempo sem poder apreciar seu perfume cítrico ou a sua risada sarcástica.
Assim que cheguei à porta principal, Estér me recebeu com um sorriso no rosto.
- Boa tarde, ! Como tem passado? – perguntou simpática quando a cumprimentei.
- Bem, na realidade. Tive alguns imprevistos mais cedo, mas eles me saíram melhor do que eu imaginava – comentei com um sorriso.
Ela me levou até a mesa que nos sentamos ontem, onde eu pude arrumar minhas coisas.
- Se precisar de algo, não hesite em me chamar – Ela falou antes de se retirar.
Depois de ter tudo que precisaríamos pra finalizar o trabalho ali, me levantei e me aproximei da piscina, onde passei a encarar meu reflexo. Minha testa tinha um pequeno curativo branco e alguns pequenos arranhões. Ao lembrar dos acontecimentos que os causaram, um sorriso divertido escapou da minha boca.

Flashback on
Depois de comemorar o gol feito em cima do time do Chase, nós voltamos a jogar. Observei Danny tomar a bola dos pés de Tom com facilidade e correr na minha direção, enquanto o mesmo o olhava aborrecido. Tom nunca foi o melhor em esportes. Ainda bem que isso não se repetia com relação à música.
Assim que Danny se aproximou o suficiente pra eu poder ver seu sorriso empolgado, a bola foi chutada em meus pés. Imediatamente eu corri com ela na direção do gol. As traves ficavam cada vez maiores e eu já podia ver os olhos do goleiro mirados em mim. Mas quando eu chutei a bola, não vi pra onde ela tinha ido, e sim o corpo do Peterson.
- O que você quer com a ?! – ele me perguntou grosso.
- Não acho que seja da sua conta. Mas por que não pergunta a ela, se quer tanto saber?! – perguntei com um ar de riso.
Ele estava mesmo me pedindo explicações?!
- Não me responda com outra pergunta – Chase esbravejou.
Sua boca parecia uma linha fina enquanto ele me encarava com fúria.
- Eu não vou dizer o que eu a fazemos ou deixamos de fazer! – falei rindo com vontade agora – Não tenho culpa de ela não ter lhe passado o itinerário dela. Mas você já devia saber que isso ia acontecer. Ela nunca foi de ninguém. E não vai ser sua também – falei com um sorriso frio.
- E você acha que ela vai ser de quem? Sua?! – ele perguntou com um ar de riso.
- Se é visível que ela prefere se ocupar com a minha companhia pro resto do dia a de seu suposto casinho, não vejo necessidade de responder – falei o encarando mais de perto, desafiando-o.
Chase apenas me olhava com os olhos cada vez menores. Sua respiração não passava de algumas lufadas. Como um touro bravo.
- Sabe Peterson, você devia cuidar melhor do que “supostamente” é seu. Se não os outros vão fazer melhor e aí... – comentei com um sorriso cínico enquanto estralava os dedos.
- Você não ouse se aproximar dela. Ela é minha – sussurrou com os punhos serrados.
- Isso só ela pode afirmar. Mas não estranhe quando ela aparecer agarrada comigo no The Pretender, e você como o mais novo corno da O’Donnel... – comentei sorrindo e me virando.
Mas tudo que eu pude sentir depois foi a grama do campo entrando pelo meu nariz e uma dor aguda na testa.

Flashback off

Minhas lembranças foram interrompidas pela voz que eu ansiei escutar desde que saí daquele campo.
- Desculpe a demora, . Mas eu acabei dormindo e perdi a hora – falou como quem não se desculpa e sim informa.
- Sem problemas... – falei me perdendo na imagem que se formou diante dos meus olhos.
sentava na cadeira usando um suéter claro e um jeans justo, que marcava cada curva de seu corpo. Seus cabelos chicoteavam contra seu rosto, devido ao vento frio daquela tarde, que também se encarregava de avermelhar suas bochechas e nariz. Seu rosto ainda continha resquícios do sono interrompido. Simplesmente... Linda.
- Como vai a testa? – ela perguntou quando eu me sentei ao seu lado.
- Melhor. Não foi nada muito grave no fim das contas – comentei com um pequeno sorriso brotando ao notar a preocupação dela – Obrigado, a propósito.
, que até então não tinha olhado na minha direção, me encarou com uma expressão confusa.
- Obrigada pelo quê?! – perguntou.
- Por ter apartado a briga – respondi a olhando.
- Eu não defendi nem apartei por sua causa... – ela respondeu ríspida.
- Eu sei.
me olhou novamente, com a expressão levemente curiosa.
- Mas também tenho consciência que se você não tivesse aparecido, eu poderia estar bem pior agora. Claro que o Peterson também não ia continuar com aquele rostinho com tudo no lugar... – falei com um sorriso amargo.
soltou um riso baixo.
- Vocês dois tem a cabeça dura. Não iria ter uma grande sequela ou uma perda de neurônios imprescindíveis ao mundo... – falou dando os ombros e voltando sua atenção pro seu computador – E eu não gosto de sangue. Não ia aguentar ver você com mais sangue ainda.
Automaticamente, um sorriso idiota surgiu no meu rosto. Mesmo ela afirmando que não teve a intenção de me defender, uma faísca de esperança esquentava o meu peito. Quem sabe lá no fundo, no inconsciente dela, ela não quisesse isso?!
Ficamos um pouco mais de uma hora ali até finalizarmos o trabalho.
- Nossa... Pensei que isso não terminaria nunca – reclamei me espreguiçando.
- Agora a gente vai comprar as coisas do cachorrinho – mandou, se levantando e indo até o gramado mais a frente.
Quando ela voltou, trazia o filhote em seus braços.
- E ai, nanico?! – falei rindo enquanto pegava o cachorro dos braços dela.
O animal deu um pequeno latido, me reconhecendo.
- A gente tem que dar um nome pra ele – falei alisando o animal.
- Nada muito estranho, por favor – falou fazendo uma careta – Ele é um animal e não uma meia fedida...
- Mas eu não ponho nomes em meias fedidas... – reclamei rindo baixo.
- Não quero saber... Vamos?! Quanto antes nós formos, antes voltamos... – falou puxando a bolsa de cima da mesa.
- Você vai deixar tudo assim?! – estranhei olhando a pequena bagunça que nós fizemos.
deu os ombros.
- Alguém limpa.
Soltei uma risada sarcástica enquanto juntava minhas coisas.
- As pessoas não são escravas, . Sua mão não vai cair se você juntar meia dúzia de coisas – falei decepcionado.
me encarou arqueando as sobrancelhas.
- E você, quem é?! A rainha da limpeza?! – perguntou mais ríspida que antes.
- Alguém que aprendeu o que a mãe ensinou. Minha educação e meu bom senso não me permitem deixar tudo assim – respondi sério, sustentando o olhar no dela.
Não sei quanto tempo nós nos encaramos. me fuzilava com os olhos, se mostrando cada vez mais fria e sem paciência.
- Minha casa. Minhas regras – ela falou por fim enquanto me dava às costas e seguia pra fora de casa.
Bufei contrariado e a segui como o cachorrinho que sempre fui. Aquela garota podia ser incrivelmente irritante e boçal certas horas... Só quando chegamos do lado de fora ela voltou a me olhar.
- Espero que tenha vindo de carro hoje. Não subo naquela moto cheia de sacolas, nem que me matem... – reclamou cruzando os braços.
- Não se preocupe, rainha. Eu vim com o transporte real adequado – respondi sarcástico enquanto apertava o alarme do carro.
Ao ver de onde o barulhinho do alarme vinha, sorriu satisfeita pra Lamborghini Murciélago.
- Isso sim é um veículo digno da minha presença – falou entrando no carro.
Dei um sorriso de canto enquanto entrava junto com ela no carro. Após ligá-lo, passou a observar a paisagem.
Nem eu, nem ela dizíamos uma palavra. Aquele silêncio já estava me incomodando. também não parecia muito confortável com ele. Ela mexia as mãos impacientes em seu colo. De vez em quando arriscava me olhar de rabo de olho, mas logo voltava a encarar as ruas.
- Tenho que dar o braço a torcer, . Quando se trata de veículos, você até tem bom gosto – falou interrompendo o silêncio.
Dei um sorriso de canto enquanto me desviava habilmente dos outros carros.
- Viu, O’Donnel?! Ninguém morre por fazer um elogio... – comentei com ar de riso.
apenas me encarou com um sorriso desagradável.
- Eu sempre gostei de carros. Da velocidade em si. Acho que herdei do meu pai – comentei com um sorriso triste – Só não sou tão burro a ponto de perder a vida por causa dos meus brinquedinhos... – completei com um sorriso mórbido.
- Não precisa falar disso se não quiser – disse rápido, me assustando – Eu sei como pode ser desconfortável falar dos que já se foram – completou com um suspiro.
- Mas guardar pra si também não é lá muito inteligente... – comentei a olhando de canto do olho.
me olhou rapidamente com o olhar carregado de tristeza. Senti meu coração apertar e uma vontade imensa de colocá-la no colo e afastar toda essa dor dela.
- Certas coisas não podem ser ditas. São íntimas demais, ou simplesmente não são traduzíveis em palavras. E quando conseguem ser traduzíveis, machucam mais quando são postas em voz alta – falou voltando a olhar a janela.
E mais uma vez o silêncio predominou. Mais pesado e incômodo que nunca.

’s P.O.V.

Quando chegamos no estacionamento do shopping, desci do carro sem nem esperar o . Aquele carro estava me deixando sufocada e me remetendo a sentimentos que eu faço questão que permaneçam mortos e enterrados.
- Isso tudo é pressa de se livrar de mim?! – perguntou com ar de riso quando finalmente me alcançou.
Ele arfava pesadamente e seus cabelos caíam sobre seus olhos de forma charmosa. Suas bochechas estavam mais vermelhas que antes enquanto um sorriso travesso pairava sobre seus lábios. É impressão minha ou ele está ficando cada dia mais encantador?! Eu só posso estar enlouquecendo... Preciso de férias. Fato.
- Como você adivinhou?! – perguntei no mesmo tom.
Eu não ia conseguir ser grossa com ele me olhando daquela maneira. Seus olhos sempre me tomando a razão.
- Eu sei que no fundo tudo isso é amor, ... – ele falou rindo pelo nariz e soltando vapor quente no ar.
Nós já estávamos na entrada da maior pet shop da redondeza. Pra variar, estava cheia de gente que não tinha o que fazer.
- You wish, sweetie – falei com um sorriso sedutor – Seu e de todo mundo – comentei mostrando com a cabeça um grupo de meninos que não parava de me secar.
- Não se preocupe. Eu não sou ciumento – ele falou abanando o ar – No momento certo, você vai vir até mim – ele completou confiante.
Olhei da cabeça aos pés. E a modéstia onde fica?! Ele ainda me encarava com as mãos nos bolsos, um sorriso misterioso e com aqueles dois oceanos . Por um segundo, eu tive vontade de me afogar neles. Por um segundo.
- No dia que isso acontecer, me lembre de avisar pra me internarem num manicômio... – falei com deboche enquanto pegava uma cesta e ia pra primeira fileira de prateleiras da loja.
soltou um riso baixo e me seguiu em silêncio. Fui pegando tudo que me interessava. Umas coleirinhas bonitinhas, umas roupinhas bem gays e até um par de sapatinhos super charmosos.
- O nosso cachorro não vai usar isso... Ele é macho! – reclamou ao notar o conteúdo da cesta.
- Claro que vai! Ele é super moderno e contra esses tabus – falei encarando ele, incrédula.
- Mas ele é macho! – voltou a dizer, erguendo as mãos no ar.
- Claro... Ele é tão macho que não vão ser roupinhas super fashion que vão fazer ele ou qualquer um ter duvidas de sua sexualidade – expliquei bem devagar. Isso não é óbvio?!
ainda me olhava assustado. Ele parou um pouco, pensativo, até voltar a falar.
- Certo. Então eu escolho o nome... – falou com um sorriso satisfeito.
- No way! – gritei ao imaginar os nomes toscos que ele podia colocar no meu bichinho.
- Então você escolhe: Ou pega coisas heterossexuais e de macho, ou eu tenho total liberdade pra escolher o nome – propôs – Pensei em algo como Onofre, Rex ou Fluffy – comentou pensativo.
Ele não está falando sério, certo?!
- Ta bom! Eu tiro as coisas mais coloridinhas. Mas você não vai chamar ele de Fluffy. Isso sim é nome gay... – reclamei cedendo.
sorriu satisfeito mais uma vez enquanto eu tirava as coisinhas da cesta contrariada. Aquilo estava sendo mais difícil do que eu previa...

Depois de comprar tudo o que precisávamos, o que inclui um monte de potinho de pôr comida, e caminhas pra ele ter nas duas casas, nós seguimos pelo shopping à procura de algo pra comer. Já estava escuro e mais frio que antes.
- O que você quer comer? – perguntou enquanto olhava os vários restaurantes que nos cercava.
Eu amava aquele shopping porque ali tinha de tudo, desde o básico, como o Burguer King, até bistrôs e restaurantes mais finos.
- Que tal lá? – perguntei apontando pro meu restaurante preferido.
Era de comida mexicana, pra variar. Eu comia ali pelo menos umas três vezes por mês. Já até conhecia alguns funcionários e um dos donos.
- Boa noite, senhor. Boa noite, senhorita O’Donnel... A mesa de sempre? – o maitre perguntou ao entrarmos.
Sorri agradecida confirmando, e ele os levou até uma mesa próxima ao jardim de inverno. Era lindinho demais aquele lugar.
- Obrigada – agradeci ao chegarmos – O Charlie está? – perguntei colocando minhas sacolas no lugar vazio ao meu lado.
- Na realidade saiu agora há pouco – ele falou com um sorriso amarelo.
- Que pena... Nesse caso fica pra próxima – respondi desapontada.
Charlie era um dos donos. Ele é meio novo pra ser dono de tudo isso, mas nesse meio, você já tem que nascer sabendo como gerenciar os negócios da família. Era um descendente direto de mexicanos, com a pele morena, os olhos pretos e lábios muito convidativos. Tinha acabado de voltar de Cambridge pra assumir parte dos negócios. E sim. Eu já peguei ele. Três vezes.
- O de sempre, senhorita? – o garçom que sempre me atende apareceu do nada.
, que estava distraído, tomou um susto e olhou de olhos arregalados pra ele.
- Claro. Você se importa? – perguntei olhando pra ele.
apenas negou com a cabeça, confirmando que estava tudo bem. Ele ainda olhava pro garçom com um ar de medo.
- Esse lugar tem brotamento de garçom, é?! O cara parece Houdini! – falou impressionado enquanto o garçom se afastava.
- Aqui é sempre assim. Charlie faz questão que o atendimento seja o mais rápido possível – comentei enquanto pegava o celular e verificava as horas.
Na tela pairava uma mensagem com o endereço do “The Pretender”. Com isso eu me aborreço mais tarde. bufou ao escutar o nome de Charlie.
- Que foi?! Pensei que você disse que não era ciumento... – comentei rindo – medo de concorrência?
- Não é isso... Pode ter certeza que eu não tenho medo de concorrência – respondeu com um sorriso misterioso, como se soubesse de algo que eu não sei - Tudo que eu faço é muito bem feito. E irresistível – falou com um sorriso sedutor brincando nos lábios.
Dessa vez eu precisei de um pouquinho mais de força pra me focar. Desviei os olhos dele e encarei a parede com a expressão vaga. Esse garoto já estava me dando nos nervos - Não sabia que você gostava de comida mexicana... – comentou me olhando divertido, chamando minha atenção.
O garçom já tinha servido uma coca bem gelada, que eu fiz questão de beber metade do conteúdo do meu copo de uma vez.
- Tem muitas coisas sobre mim que você não sabe... – comentei sem maldade.
- Mas não faria questão de descobrir... – ele falou rindo e dando os ombros.
- Como sempre, sonhador... – disse rindo baixo – mas a respeito do seu comentário, sim. Na realidade, eu tenho um fetiche por tudo que vem do México, apesar de nunca ter estado lá.
Inclusive os mexicanos. E seus descendentes...
- Nunca esteve lá? Acapulco é incrível! – falou com um sorriso empolgado – Meu tio tem um apartamento lá, num local incrível. Passei uns dias lá, nessas férias, inclusive.
- Nossa... Sempre quis ir! Mas toda vez acontece alguma coisa que me impede – falei despontada e com uma pontinha de inveja – deve ser incrível mesmo...
- Eu te levo – ele afirmou seguro.
- Ficou louco?! O que te faz imaginar que eu iria justo com você?! – perguntei rindo da afirmação absurda – eu preferiria ir pro meio da guerra do Iraque à viajar com você.
- Um dia você vai pagar pela língua. E um dia bem próximo - falou com um meio sorriso, me encarando novamente.
Só que dessa vez eu não consegui desviar meus olhos dos dele. Eles eram como imãs, que só me atraíam mais e mais. Parecia que as coisas ao redor iam morrendo aos pouquinhos e só existiam seus olhos . Mas, como sempre, eu sou salva pelo gongo. O garçom chegou com o jantar interrompendo a troca de olhares. Ufa. Aquilo já estava ficando muito bizarro. Fato.
Depois de comermos aquela deliciosa comida, a qual, segundo , eu mal toquei, fomos embora. Apesar de não me deixar dividir a conta com ele, estava me saindo mais suportável do que eu imaginava. Era quase interessante conversar com ele. Talvez se ele fosse menos metido, eu até gostasse da companhia dele. Talvez.

CAPÍTULO SEIS

“Cause your perfume's smelling sweeter

(“Porque o seu perfume está mais doce,)
Since when I saw you down on the floor.”
(Desde quando vi você no chão.")

- Até amanhã, O’Donnel – se despediu assim que pararam em frente a casa dela.
- Até nunca... – resmungou descendo do carro atrapalhada, por causa do número de sacolas.
riu divertido enquanto descia também. Ao reparar no garoto pegando a maior parte das sacolas, se assustou.
- Você não precisa levar. Eu consigo sozinha! – reclamou indignada – São só sacolas!
- Me deixa te fazer uma gentileza sem ouvir você reclamar, por favor?! – comentou com ar de riso – Garota mais teimosa...
bufou e passou apressada por ele. Assim que chegaram na porta principal, ela largou ali parte das sacolas. colocou as que ele trouxe ao lado das dela.
- Pronto. Agora já pode ir – falou dando as costas e subindo pela escada principal.
olhou a garota subindo sem acreditar. Como ela podia ser irritante às vezes.
- Garotinha mais grossa... – bufou se retirando.
Ele não demorou muito a chegar em casa. Estava cansado e satisfeito ao mesmo tempo. podia ser irritante e metida, mas ele sabia que ela era muito mais do que aquilo que ela mostrava a todos. E ele não ia desistir até conhecer a verdadeira . Com esse pensamento ele adormeceu.


Assim que subiu, se jogou de barriga pra baixo na cama. Ia ser um verdadeiro exercício de paciência fazer aquele trabalho com o . Já estava quase dormindo quando sentiu sua bolsa vibrar.
- Quem me incomoda? – perguntou sem paciência e sem ao menos olhar quem era.
- Quando a gente estava se agarrando na minha boate, você não parecia estar incomodada.
- Ah... Você... O que você quer, Peterson?! – perguntou sem paciência.
- Me desculpar pela minha conduta. Eu agi errado e fui bruto e infantil.
- Nossa... Não é que você está certo?! – comentou sarcástica.
- Eu apenas... Fiquei com medo de perder você. Não suporto essa idéia. – confessou.
suspirou alto. Vai começar tudo de novo...
- Olha Peterson, é o seguinte: a gente só ficou uma vez. Só isso! Eu estava gostando da sua companhia e tudo. Mas isso não significa que eu seja sua. Deus! Eu não sou de ninguém! Porque todos os homens que eu conheço insistem em dizer que eu sou deles?! Eu não sou um objeto! – falou bruta.
- Mas ...
- Mas nada. Se você quiser ter alguma coisa comigo algum dia, tem que aprender um mpunhado de coisas. E parar de agredir os outros... – lembrou da briga.
- Então o você defende e a mim não?! – ele bradou.
- Que porra de ? Quem foi que falou nele? – ela perguntou sem paciência.
Porque diabos tudo tinha que chegar em ?!
- Eu não aceito ver você com ele... E você ficou com ele a tarde toda, não foi?! Aposto que ele também já andou fazendo o mesmo que eu...
- Como é? O ?! Faz-me rir, meu caro... Eu disse que não suportava brigas! Nunca gostei! Independente de quem seja a pessoa que você está batendo, eu não aceito. E de pessoas psicologicamente instáveis eu já estou cheia... Quer saber? Vai plantar batata no asfalto e me esquece – falou irritada desligando na cara dele, e arremessando o celular de qualquer jeito.
Assim que o jogou na cama, lembrou da mensagem de mais cedo. Correu pro computador e abriu a página do “The Pretender”. Assim como o esperado, uma foto dela entre um Chase extremamente vermelho de raiva e um vermelho de sangue estampava a página principal. O titulo, em um vermelho sangue, parecia pular na tela.


“A disputa pela rainha.
Parece que as coisas estão esquentando pra o novo casinho da nossa rainha! Hoje mais cedo, na aula de educação física dos veteranos, o gostozíssimo do Peterson tentou se impor com a rainha, mas tudo que ganhou foi mais um fora. Tsc, tsc. Esse aí ainda não aprendeu quem dá as cartas... E parece que está perdendo cada vez mais terreno, já que ela preferiu defender o delicioso , nosso baixista preferido, a defender o jogador. Parece que mais alguém está caindo nas graças de vossa majestade. Só falta saber quanto tempo o baixista vai aguentar antes de ter o coração estraçalhado pela nossa Maneater preferida. Xxx.
The Pretender Queen.”

respirou fundo uma, duas, três vezes, mas nada parecia acalmá-la. Sentiu seu estômago revirar e correu pro banheiro. No segundo seguinte, ela já sentia um gosto ácido em sua garganta, enquanto o pouco que ela tinha conseguido comer no jantar caía dentro do vaso sanitário. Algumas lágrimas involuntárias lhe escorriam pelo nariz, pingando no conteúdo abaixo de si.
puxou um papel higiênico assim que terminou. Seu estômago doía e sua cabeça rodava. Ela limpou a boca e ficou sentada ali, encostada na parede fria, até sentir condições de se levantar. Assim que juntou forças suficientes, tomou um impulso e seguiu para a pia, onde escovou os dentes e lavou o rosto, que estava molhado de suor. Mais uma vez, o telefone tocou, mas ela não moveu um músculo sequer. Preferiu ficar ali, encarando sua imagem no espelho. Ela sabia que era linda, mas não conseguia enxergar mais isso. Tudo que ela via era uma menina vazia, com olhos sem vida e gordura por todos os lados. Sentiu um calafrio e a velha bola se formar na garganta, fazendo-a se sentir sufocada com tudo a sua volta.
- Merda! – esbravejou jogando alguns vidros de perfume no chão.
Por incrível que pareça, a misturas de aromas importados lhe acalmaram um pouco. Todos eles misturados lembravam o cheiro de alguém que ela nunca esperaria que fosse acalmá-la um dia.


- Scott chega hoje mesmo? – perguntou enquanto enrolava uma mecha de cabelo no dedo.
- Quantas milhões de vezes eu tenho que responder que sim?! – perguntou sem paciência – Virou deficiente mental agora, foi?
Aquele dia estava sendo extremamente desagradável. Acordou atrasada, descobriu que um dos vidros de perfume que tinha quebrado era o que seu irmão tinha lhe dado no seu último aniversário, seu carro resolveu não funcionar, obrigando-a a vir andando já que todas as suas amigas já estavam na escola. Assim que chegou, encontrou Chase fazendo vigília na frente do portão e agora não conseguia achar seu trabalho de biologia. Definitivamente não era seu dia.
- Nossa... Que falta de amor o coração em?! – comentou magoada.
respirou fundo e encarou a amiga.
- Vai ver se eu estou lá na china, vai... – resmungou guardando suas coisas de volta no armário.
- Imbecil... - sussurrou com os olhos marejados enquanto saía de perto dela.
Ótimo! Agora também tinha magoado ! Quer saber?! Danem-se todos...
A garota encostou a testa no metal frio, suplicando mentalmente que tenha impresso uma cópia do trabalho por segurança.
- Dia ruim?! – escutou uma voz rouca perguntar.
se virou rápido, encarando parado próximo a ela. O perfume dele pairava no ar em volta dela, trazendo um pouco mais de tranquilidade. Uma tranquilidade estranha, mas que não deixava de ser boa.
- Por favor, diz que você imprimiu o relatório de biologia... – falou com a voz baixa.
- Por quê?! A senhorita “eu-tenho-empregados-até-pra-limpar-a-bunda” não está com ele aí? – perguntou com ar de riso.
sentiu o sangue esquentar em suas veias. Já estava pronta pra estapear quando ele a interrompeu.
- Eu sou responsável, sabe como é?! Então imprimi uma cópia assim que cheguei em casa – falou estufando o peito.
- Responsável desde quando? Que eu me lembre bem, você sempre arrumava uma desculpa pra entregar o trabalho fora da data... – falou arqueando as sobrancelhas.
- Mas aí era quando eu fazia só. E eu sei que você é muito preocupada com suas notas – ele falou simplesmente.
olhou pra ele, sem palavras.
- É melhor se apressar, se não vai chegar atrasada pra entrega do relatório – falou se distanciando e deixando a garota calada encostada no armário.
encarou o garoto se distanciar. Era a segunda vez que ele fazia algo pelo simples fato de se preocupar com ela. Ela já estava acostumada com todo mundo fazendo as coisas pra agradá-la. Mas quando faziam, era sempre porque queriam algo em troca. Nesse mundo que eles viviam, nada era de graça. E por mais que ela pensasse, não conseguia ver o que queria com isso. Ele nunca foi nada além de educado e extremamente atencioso com ela. Essa situação a deixava sem chão, sem saber como agir. E não estava acostumada com isso. Ela sempre soube o que fazer. Sempre. Até agora era como andar de vendas, tateando pra descobrir onde estava indo.
- Vai ficar com cara de mongol aí até quando?! – escutou falar rindo, interrompendo seus pensamentos.
apenas lhe deu o dedo enquanto pegava a bolsa e se dirigia pra sala com a amiga ainda rindo dela.


O resto do dia passou rápido. Apesar de ter corrido tudo certo com o trabalho, toda a situação não melhorou o humor de . ainda estava chateada com ela e Chase não parava de encará-la, na esperança de que ela o olhasse de volta. Na realidade, foi um alívio escutar o sinal anunciando o fim daquelas aulas. e saíram da sala de cálculo II conversando distraídas. Assim que atravessaram o portão escutaram algumas pessoas cochichando. Ao olhar na direção do estacionamento, a menina encontrou sua cópia masculina encostada numa BMW azul conversando animado com e , que estava abraçada a ele. não pensou duas vezes antes de correr e se jogar nos braços do irmão.
- Bombom! – gritou com a voz embargada no ouvido dele.
- Assim você me deixa surdo, pimpolha... – Scott comentou rindo enquanto apertava mais a irmã nos braços.
Ao sentir os braços fortes do irmão a envolvendo, sentiu o coração desacelerar e uma pequena onda de paz invadí-lo. Finalmente uma coisa realmente boa. Assim que ela se soltou dele, foi cumprimentá-lo.
- Pensei que você chegava mais tarde – comentou jogando suas coisas no banco de trás e abraçando a cintura de Scott. Esse lhe deu um beijo na testa e passou os braços pelo seu ombro.
- Consegui uma carona com um amigo que vinha em um vôo particular pra Europa. Como ele ia abastecer por aqui antes de seguir viagem, não teve erro – explicou dando os ombros – Ai quando cheguei, vi seu carro parado com um mecânico mexendo no motor e resolvi fazer uma surpresa... – terminou com um sorriso maroto.
- Eu amei! Já estava sem paciência de esperar... – falou apertando o braço na cintura de Scott.
- Os meninos chegam quando? – perguntou interessada.
- Amanhã à tarde. Hoje eu arrumo os quartos de hóspedes pra eles – Scott falou brincando com a ponta da blusa da irmã.
- Mas eles quase não vão ficar lá em casa... – comentou notando que o irmão a olhava confuso – Esqueceu do baile desse fim de semana, seu demente? – perguntou rindo.
Scott bateu com a mão na testa.
- Completamente... E agora? Você tinha comentado que vai ser na casa de alguém na praia... – ele falou olhando pra ela, preocupado.
- Mas como a gente é muito eficiente, já cuidamos de um quarto pra vocês e outro pra nós. Ser da realeza desse colégio tem suas vantagens... – comentou rindo.
- Nesse caso, se me lembro bem, vai rolar uma after party como aquelas da minha época... – ele falou com um sorriso safado.
- Aquilo?! Você vai ver o que é after party agora, meu amor... – comentou rindo – Vamos? Quero aproveitar o resto do dia na concorrida companhia do meu bombom – falou apertando as bochechas dele.
- Claro. Tchau, meninas – falou se despedindo delas e piscando pra , que sorriu pervertida.
Essa daí não tem jeito mesmo...
Assim que entramos no carro, reparou que Chase a fuzilava com os olhos.
- Imbecil... – resmungou rolando os olhos e colocando os óculos escuros.
- Quem é aquele babaca olhando pra você? – Scott perguntou assim que saíram do estacionamento.
- Qual deles?! – perguntou encarando as unhas.
- O idiota do carro verde... – falou rindo e rolando os olhos.
- O Chase?! Meu novo fã psicopata – respondi fazendo uma careta.
- Ele não parecia muito feliz com você... Aprontou o que dessa vez, pirralha? – Scott perguntou rindo enquanto acelerava mais.
- Nada! Ele é que acha que virou meu dono! Você sabe que eu não suporto que queiram mandar em mim ou na minha vida.
- Sei bem disso sim... Só toma cuidado com esses garotos. Às vezes eles não sabem perder e acabam fazendo idiotices – ele falou me olhando rápido, com preocupação.
- Pode deixar que eu sei me virar – disse dando os ombros com um sorriso maroto, fazendo Scott gargalhar alto.
No caminho, passaram na locadora e no supermercado. Uma tarde comendo besteiras e assistindo filme com o irmão era tudo que precisava pra recarregar as energias. Era ainda melhor do que fazer compras com as amigas.
Chegaram em casa e foram direto almoçar. Estér tinha mandado preparar um verdadeiro banquete pra chegada de Scott, com direito a seus pratos favoritos. Ao olhar toda aquela comida sentiu o estômago revirar. Mas não podia fazer nada do que queria. Tinha que comer e torcer pra que a comida permanecesse em seu estômago, se não Scott não iria mais largar do seu pé. Assim que terminaram, seguiram pro quarto do garoto, onde arrumaram tudo pra tarde deles. tomou um banho rápido e vestiu a camisa velha de Scott em sua homenagem com uma calça de moletom verde escuro. Ao entrar no quarto dele, se jogou na sua cama.
- Tatuagem nova? – perguntou ao ver o irmão passar só de toalha pro closet.
- É... Lembra que você falava que queria que alguém fizesse uma tatuagem em sua homenagem?! Pois bem... Aqui está! – falou rindo e se aproximando pra mostrar mais de perto.
Era um sol egípcio com os seguintes dizeres dentro: “Always together”. Estava no alto do ombro esquerdo dele, nas costas. ajoelhou-se na cama e encarou a tatuagem com os olhos marejados.
- Você lembra quando nós éramos pequenos e eu costumava dizer que quando você sorria, era como o sol em dia nublado? – ele perguntou olhando a irmã por cima do ombro.
balançou a cabeça e abraçou o irmão ainda de costas.
- Queria que você nunca fosse embora – falou com a voz falha.
- Não se preocupe, pimpolha. Assim que eu me formar, eu compro um apartamento pra gente morar no lugar do mundo que você quiser – ele falou afagando a mão dela.
- Não vejo à hora desse ano acabar... – comentou rindo e dando um beijo nele.
- Eu posso me trocar agora?! Se não daqui a pouco a toalha cai... – Scott comentou rindo e soltando o braço dela.
- Vai logo. Sou muito nova pra traumatizar... - Resmungou com um travesseiro no rosto – Por mais gostoso que você seja, ainda é meu irmão... Eca!
Depois que Scott se trocou, ele e se aninharam na cabeceira da cama e colocaram o primeiro filme.
estava feliz. Sorria fácil por qualquer besteira e nem notava o tempo passando. Eles já estavam na metade do segundo filme, quando escutou a campainha tocar.
Scott reclamou alguma coisa e se levantou.
- Pra onde você vai? – estranhou.
- Atender a porta?! – respondeu como se fosse óbvio.
- Alguém atende... – resmungou rolando pela cama, preguiçosa.
- Na realidade, só está a gente em casa. Tezinha e Carmem foram fazer feira e as outras duas empregadas, que eu não sei o nome, foram cuidar das minhas roupas sujas – ele falou dando os ombros enquanto sumia pela porta.
- Porra, Scott... Aqui ta com cara de lavanderia?! – reclamou rindo.
- Deixa de ser pentelha. Só o pessoal daqui sabe cuidar das minhas cuecas... – respondeu piscando o olho,
bufou e foi atrás dele.
- Ta vindo atrás de mim por quê? – estranhou.
- Fiquei curiosa... – falou sem jeito.
- Besta... – Scott mangou indo na direção da porta enquanto ia buscar um copo d’água na cozinha.
A garota se encostou no balcão enquanto bebia a água vagarosamente. Ia ter que ligar pra pra se desculpar... Será que ela estava acordada agora?! Ficou pensando ali, até notar a demora do irmão. Quem quer que fosse que tinha chegado, era conhecido. Tudo bem que Scott falava até com as portas, caso elas o respondessem, mas não lembrava de ninguém que ele conhecesse vir uma hora dessas... Escutou então algumas risadas masculinas alta. Com a curiosidade falando mais alto, foi até a sala. E se surpreendeu com quem estava ali.
- O que você está fazendo aqui, ?! – perguntou bruta.
O garoto a encarou divertido. Ele e Scott estavam sentados na sala de visitas conversando alguma coisa muito interessante. Pelo menos para os dois.
- Vim pegar nosso filho. Custódia dividida, lembra?! – perguntou piscando o olho.
Scott arregalou os olhos e pulou assustado da poltrona que estava acomodado.
- Como assim? Filho?! Que porra é essa, ? – perguntou quase gritando.
- Calma, seu dramático. É só um cachorro... – falou fazendo careta – O é a última pessoa do mundo com que eu faria um filho... – comentou dando os ombros.
- Que merda é essa?! Mamãe e papai sabem que você tem um cachorro?! – Scott perguntou com as sobrancelhas erguidas – Ela vai pirar... Deixa eu contar?! – perguntou com um ar divertido se jogando no sofá novamente.
- Ela não sabe e nem vai saber. Você cale esse seu bocão – resmungou cruzando os braços – Ela nunca vem em casa mesmo. É capaz do cachorro crescer e morrer e ela nunca saber... – falou se encostando na parede.
- Isso é bem verdade... – Scott comentou com um ar pensativo – Mas eu daria tudo pra ver a cara dela! – falou rindo alto.
- E você nem pra vir num outro horário, em ?! Estragou minha tarde... – resmungou.
- Eu só quero o cachorro. É só me dar ele e eu me mando – falou se levantando.
- Whatever...
suspirou e foi direto pro quintal, onde tinha deixado o cachorro brincando com seus brinquedinhos novos.
- Falou, dude! Vê se aparece por aqui antes de eu ir. A gente pode dar uma olhada nos meus últimos brinquedinhos – Scott comentou se levantando e seguindo pro quarto.
- Pode deixar, cara. Vai pra after party? – perguntou antes de ir atrás de .
- Claro... Uns amigos meus vem, então é meu dever mostrar a boa diversão daqui... – respondeu com um riso sacana
- Até lá então – se despediu apertando a mão dele e passando por uma aborrecida que esperava na saída pro quintal.
Os dois seguiram em silêncio até a bolinha de pêlos que brincava perto da piscina.
- De onde você conhece meu irmão? – perguntou curiosa enquanto alisava a cabeça do animal.
- Digamos que pessoas que apreciam bons veículos aqui são raras, apesar de terem dinheiro pra bancar. Então as poucas que tem, acabam se conhecendo por aí – explicou dando os ombros.
- E por que você nunca me falou?! – perguntou aborrecida.
- Por que você nunca perguntou?! – respondeu sarcástico.
A garota bufou e se jogou no chão, sentando. Ela estava aborrecida, afinal tinha planejado essa tarde com o irmão há semanas. Já o garoto, foi lá por não ter o que fazer. Pelo menos nada que fosse mais interessante do que ficar na companhia dela ou irritá-la. E foi a observando ali, sem maquiagem ou roupas de grife, sendo apenas ela na sua real essência, que ele concluiu satisfeito que tinha feito a escolha certa em ir vê-la. Era uma visão muito boa pros seus olhos, principalmente quando ela ficava emburrada.
- Ta olhando o quê? – ela perguntou ainda mais emburrada, o encarando.
- Nada... – falou com um meio sorriso.
Em seguida sentou ao seu lado. Os dois observavam o cachorrinho brincando em frente a eles.
- Eu sei que eu fico estranha sem maquiagem ou sem minhas coisas caras, então sem comentários, por favor. E pare de me encarar – falou nervosa olhando pro outro lado e se abraçando.
Uma corrente fria passava bagunçando seus cabelos, que se soltavam aos poucos do coque frouxo que ela havia feito.
- Se você soubesse como fica muito mais linda assim, sendo apenas você, não diria uma asneira dessas – comentou com um sorriso meigo – Mas não se preocupe, eu faço questão que ninguém te veja assim. Essa é uma imagem que eu quero ter só pra mim – falou encostando a bochecha nos joelhos que estavam envolvidos pelos seus braços, sem tirar os olhos dela.
sentiu suas bochechas esquentarem. Ela nunca se sentiu muito bem sem seu habitual visual. Aquilo dava segurança a ela. Mascarava-a de todos os problemas. Era como pôr uma nova personalidade a mostra. Mas nesse momento, ela estava sendo apenas ela mesma. E era intimidante demais deixar que os outros lhe vissem tão desarmada daquela maneira. Principalmente quando os outros são .
- Pirralha, eu vou dar uma saidinha! – Scott gritou da porta.
e se viraram para encará-lo.
- Aonde você vai? Era pra ser nossa tarde! – reclamou fazendo bico.
Que se dane o . Ela não o teria por perto sempre mesmo... Ser um pouquinho mais ela mesma na frente dele, era o mínimo nesse momento.
- Vou ver a . Ela estava meio deprimida. Vocês brigaram?! – ele perguntou colocando um casaco de couro.
fez uma careta.
- Talvez...
- Nesse caso, eu devo demorar um pouco mais... Você se importa de ficar com ela, ?! – ele perguntou se aproximando e parando em frente aos dois sentados na grama.
- Sem problemas – respondeu com um meio sorriso.
Por dentro ele festejava.
- Hey! Eu posso muito bem ficar só... – reclamou cruzando os braços.
- Claro que não! O fica até alguém chegar... E vê se ela come alguma coisa, dude. Qualquer dia desses, ela some... – Scott comentou rindo – Até mais tarde, pimpolha. Qualquer coisa, me ligue – se despediu dando um beijo na testa da garota.
Segundos depois, eles escutaram o ronco do motor do carro de Scott.


’s P.O.V.

Quantos anos o Scott acha que eu tenho?! 10?! Eu não preciso de ninguém cuidando de mim ou do meu jantar... Muito menos se esse “ninguém” em questão, atende pelo nome de !
- A gente ainda tem que escolher um nome pra ele – ele falou me tirando das minhas lamúrias.
- Desde que não seja um ridículo, qualquer um serve – respondei sem paciência.
- Nesse caso, não seria qualquer um – ele comentou com um ar de riso.
Já estava ficando no fim da minha paciência. Resolvi me virar pra brigar com ele, mas uma rajada de vento veio e trouxe alguns grãos de areia até meus olhos.
- Ai! Ai! Ai! Ai! – gemi balançando as mãos em frente ao meu rosto.
- Que foi? Ta tudo bem? – escutei perguntar preocupado.
- Se estivesse, eu não estaria gemendo... – bufei sem paciência.
Escutei ele soltar o ar pelo nariz com força. Ótimo! Pelo menos eu o irritei... Já não saí perdendo...
- Então você não precisa da minha ajuda... – ele falou fazendo pouco caso.
Dei um sorrisinho amarelo pra ele e tentei limpar os olhos, mas parece que cada movimento que eu fazia só espalhava mais a areia.
- Merda... – gemi sentindo meus olhos lacrimejarem.
- Vai ou não pedir minha ajuda?! Afinal, só tem a mim mesmo... – comentou com um tom calmo.
Bufei. Ele estava certo. E eu odeio quando ele está certo.
- Er... Será que dá pra me ajudar aqui?! Por favor? – perguntei sem jeito.
- Claro... – ele respondeu com um risinho baixo.
Mais uma rajada de vento passou por nós, dessa vez trazendo o perfume que tanto me confundia. O cheiro forte e desconcertante de me atingiu de cheio, fazendo com que, involuntariamente, eu respirasse fundo. Foi como se eu tivesse aspirado uma rajada de ar quente, que, à medida que corria por cada milímetro do meu sistema respiratório, esquentava tudo de maneira acolhedora e aconchegante. Senti tocar minha pele com a ponta dos dedos frios, provocando leves arrepios pelos meus braços e minha nuca. Ele segurou meu rosto de maneira delicada, como se tivesse medo de quebrar.
- Eu vou assoprar seu olho e você me diz se saiu ou não – falou tão próximo do meu rosto, que eu podia sentir seu hálito quente bater em mim.
Mais uma vez, meu corpo reagiu com uma onda de arrepios involuntários.
- Lá vai... – falou baixo, numa voz concentrada.
Como uma bomba, a segunda rajada de perfume dele me atingiu. Minhas pernas estavam sem força e meu coração começou um batuque totalmente novo. Agradeci mentalmente por estar sentada.
- Saiu? - Ele perguntou.
Pisquei os olhos algumas vezes seguidas. Estava bem melhor, mas ainda sentia alguma coisa incomodando.
- Um pouco... Mas acho que só lavando... – sussurrei sem muitas forças.
- Vamos então. Eu te levo – ele falou levantando.
Estendi minha mão pra frente, a fim de segurar a dele pra conseguir subir. Assim que toquei minha palma na dele, senti meu coração bater ainda mais desesperado. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo e tinha medo de descobrir. Eu nunca tinha me sentido tão vulnerável na vida. Principalmente com alguém como ! O que ele tinha de diferente eu não sabia. Mas ele tinha que ter alguma coisa! Pelo menos algo que fosse suficientemente bom pra me deixar desnorteada dessa maneira.
me segurou pelos braços e me guiou até o banheiro de baixo, onde pudesse lavar meus olhos. Assim que coloquei água suficiente pra que eles ficassem limpos novamente, me encostei de costas na pia enxugando o rosto com uma toalha felpuda.
- Melhor agora? – perguntou com a expressão levemente preocupada.
- Humrum... – sussurrei mirando os olhos dele.
Como sempre, eles me prenderam de uma maneira completamente estranha. As coisas ao meu redor foram morrendo e eu só enxergava seus malditos olhos . Seu perfume amadeirado impregnava todo o ambiente, me deixando ainda mais desnorteada. se aproximou aos poucos de mim, até ficar parado em minha frente. Ele me olhava com um brilho diferente nos olhos. Era sedutor, impossível de não apreciar. Mais uma vez, senti seus dedos contra minha pele. Agora eles faziam caminhos aleatórios pelo meu rosto, como se quisessem gravar por onde passavam. Sua outra mão estava depositada em minha cintura, onde fazia uma leve pressão. Ele foi ficando cada vez mais próximo. Meu coração já estava fora de controle, assim como eu. Eu estava desarmada. Estava completamente inibida por ele. encostou sua testa na minha enquanto arrastava seu nariz no meu de maneira carinhosa, fazendo um mínimo sorriso tímido apareceu em meus lábios.
- Menina ?! Chegamos! Scott já voltou? – Ester gritou da sala próxima a nós.
deu um pulo pra trás, batendo com sua cabeça na parede enquanto eu senti uma descarga de adrenalina e o choque de realidade me dominar. Ele não deveria estar ali, muito menos fazendo o que ele pretendia fazer.
- Ester e Carmem já chegaram. Você pode ir – falei com a voz fraca e com os batimentos em um ritmo frenético enquanto segurava a bancada da pia com força. Se eu soltasse, caía – agora – completei com uma voz mais firme que consegui.
apenas me olhou com os olhos turvos antes de sair rápido. Assim que ele saiu, levando seu perfume e seus malditos olhos , senti um estranho incômodo crescendo no meu peito.
- Fuck... Preciso de uma bebida. Com dose tripla – sussurrei antes de sair andando da melhor maneira que conseguia na direção do bar.

CAPÍTULO SETE

“She's sophisticated, or so she seems

(“Ela é sofisticada, ou assim que parece,)
This place is over rated, but is the place to be
(Este lugar é o mais cotados, mas é o lugar para aparecer,)
She never comes alone, and everyone is her friend
(Ela nunca vem só, e todo mundo é seu amigo,)
Her home is away from home
(Sua casa é longe de casa,)
Well, she thinks she's looking classy but is easy to see
(Bom, ela acha que está parecendo elegante, mas é fácil ver que)
She shines like a diamond, thinks she's a queen"
(Ela brilha como um diamante, acha que é uma rainha.")

’s P.O.V.


Merda... Eu não deveria ter bebido tanto assim, principalmente no meio da tarde... Mesmo devido à necessidade da situação. Parece que as escolas de samba brasileiras resolveram competir por algum título nela. Está doendo tanto que eu me sinto tonta. Ou talvez ainda seja o efeito da bebida...
- Pirralha?! Cheguei! – Scott gritou ainda do corredor.
Fodeu. Se ele me pegar aqui, nesse estado, eu estou morta. Era melhor que meus pais tivessem que me pegar do que ele. O que eu fiz? Corri pro banheiro e me joguei debaixo do chuveiro com roupa e tudo.
- Onde você ta, em!? O jantar já está na mesa! – ele gritou já dentro do meu quarto.
- Eu estou tomando banho! Não ta escutando o chuveiro não, seu surdo?! – gritei sentindo as gotas frias arrepiarem minha pele – E nem sonhe em entrar aqui! – ordenei segurando o queixo pra não tremer.
- Relaxa... Não tem nada aí que me interesse... – ele falou rindo – Vou preparar alguma coisa e trago pra gente jantar aqui mesmo – avisou antes de sair – Assim a gente termina de ver os filmes que a gente pegou.
Suspirei fundo assim que escutei a porta do quarto bater. Minha cabeça já doía um pouco menos e a tontura também já era menor. Por que foi que eu bebi a garrafa de vodka toda mesmo?!
Ah! , claro... A imagem do quase momento que nós tivemos no meu banheiro social me veio à mente. E por mais que eu não queira admitir, o cheiro dele, mesmo em lembrança me deixava entorpecida. Só a porcaria da lembrança era o suficiente pra me trazer a habitual falta de equilíbrio que eu passei a ter perto dele. E esse fato está completamente errado! Quantas vezes será que eu tenho que repetir isso pra poder realmente tomar alguma atitude aceitável e arrumar essa confusão?!

’s P.O.V.


Wow... O que diabos foi aquilo?! Eu ainda não sei como cheguei em casa... Mas a proximidade com ela, o cheiro dos seus cabelos, o calor do seu corpo, tudo era como um imã. Eu necessitava daquela proximidade. Foi como entrar numa piscina cheia de gelo depois do maior calor: arrepiante e refrescante. Apenas a possibilidade de ter ela de alguma maneira me deixava... Alegrinho. Eu sei que eu pareço um gay ficando nesse estado só por ter quase beijado ela, mas... Nossa! A gente teve um momento! Eu sabia que rolava alguma coisa! Não tem como negar! E quando a gente se tocou... Porra. Me arrepio só de lembrar. Eu desmunhequei de vez. E nem arrependido eu estou.
Escutei a porta do meu quarto abrir e um filete de luz iluminou a ponta da minha cama. Desde que eu cheguei, estou jogado na cama, no escuro. Às vezes é bom ficar assim. É mais sossegado e tem silêncio suficiente pra eu ficar confuso com meus pensamentos.
- Você não vem jantar, querido? – mamãe perguntou colocando apenas a cabeça pra dentro do quarto.
- Não, mãe. Valeu, mas eu estou sem fome. Na realidade, acho que vou dormir. E antes que você se preocupe, eu não estou doente nem nada do tipo. Não precisa tirar minha temperatura ou verificar se eu estou pálido – falei rápido sem me mover.
Minha mãe soltou um riso baixo.
- Tudo bem, ... Se sentir fome mais tarde, seu jantar está na geladeira, é só esquentar. Boa noite, meu amor – falou com seu costumeiro sorriso doce.
Depois do barulho da porta fechando, voltei a mergulhar no silêncio e na escuridão do meu quarto. Eu sabia que não ia dormir. Na realidade pretendo passar a noite toda recordando momento por momento tudo o que aconteceu naquele breve espaço de tempo.

P.O.V's off

- Você está distraída demais pro meu gosto. Que foi que aconteceu? – Scott perguntou pela quarta vez.
Desde que ele e tinham se acomodado no quarto da garota pra terminar de ver os filmes alugados mais cedo, ela não tinha falado mais que cinco palavras nem comido quase nada do que ele trouxe.
- Eu estou bem, bombom. Não se preocupe... – respondeu mais uma vez com um olhar vago.
Seus pensamentos estavam atribulados. Nada prendia sua atenção por mais de cinco minutos. Na realidade, ela nunca apreciou tanto a vista da sua enorme janela.
- Vai a merda, ! Você está estranha demais! Nós dois sabemos que aconteceu alguma coisa que você não quer me contar – Scott reclamou ficando sem paciência.
respirou fundo. Ela sabia que ia ser difícil esconder a verdade pra ele. Mas admitir sua confusão interna e sua nova fraqueza era algo que ela nunca ia fazer. Com ninguém. Inclusive ela mesma.
- Eu já disse que não tem nada, caramba! É só TPM... – resmungou se virando na cama e acomodando a cabeça no peito do irmão – Você podia calar a boca e me deixar dormir, sabia? É até mais seguro pra você... – falou já de olhos fechados, encolhida ao lado dele.
Scott soltou um riso baixo.
- Você é uma pirralha muito mimada, sabia? – perguntou no mesmo tom que ela enquanto mexia no cabelo dela.
Ele observou a irmã deitada ao seu lado, encolhida da mesma maneira que ela fazia quando eles eram duas crianças bagunceiras. com certeza não tinha, fisicamente, quase nada daquela menina. Seu corpo era de uma mulher formada. Mas, por dentro, ele sabia que ela ainda era a mesma menina carente e insegura de sempre. Partia-lhe o coração não estar por perto pra cuidar melhor dela. Scott temia que sua irmã adquirisse essa capa que ela mesma havia feito e que esse personagem se tornasse permanente de alguma forma. Isso iria destruir a maior beleza dela. Aquela que só quem olhasse fundo em seus olhos e visse através de seu coração iria enxergar. E o que ele mais queria era que alguém visse isso logo. Antes que fosse tarde demais.


O dia amanheceu preguiçoso. Apesar do seu alarme já ter tocado sete vezes, preferiu arremessá-lo contra a parede. Ela não ia pra escola hoje. Pela primeira vez na vida não tinha segurança em suas ações e escolhas. Ela temia fraquejar quando encontrasse , sem saber como agir ou o que falar. E a última coisa que ela queria era ser taxada de fraca. Por isso, resolveu tirar o dia pra cuidar dela e de seus pensamentos. E claro, pra receber os novos e deliciosos hóspedes...
- O que você está fazendo aqui essa hora, pirralha? Você devia estar numa aula de química avançada não sei das quantas ou sei lá o que você estuda... – Scott brigou assim que ela entrou na cozinha já tomada banho e vestida pra sair.
- Eu não vou a aula hoje. Quero comprar umas coisinhas, além de precisar pôr algumas idéias no lugar – falou pegando uma torrada do prato dele – Não me esperem por almoço! – gritou já saindo da cozinha.
Assim que entrou no carro, mandou uma mensagem pras amigas. Sabia que, se não aparecesse e não avisasse, era capaz daquelas três desmioladas pensarem que ela se matou com um cabide. Elas ainda tinham que se encontrar pra saírem todas juntas hoje. E nada melhor do que uma mensagem curta e grossa pra não esquecerem.
- Shopping, aí vamos nós! – falou com uma expressão animada dando partida no carro rumo ao seu shopping preferido.
Adelle parecia estar com sorte hoje. Assim que chegou ao seu destino encontrou uma excelente vaga e ao passar na frente da sua loja preferida lá estava a coleção nova sendo exibida.
- Desse jeito vai ser meio impossível pensar em alguma coisa que não seja "Obrigada pelo meu cartão de crédito sem limite!” – ela comentou feliz entrando na loja.
passou a manhã fazendo compras. Comprou tudo que julgava necessário e até o que chegava a ser inútil, só pelo prazer de ocupar a mente. Pena que não durou o tempo que ela gostaria. Depois de girar toda a praça de alimentação, a garota se decidiu por um pedaço generoso de torta alemã com um copo de suco. Ao sentar em uma das mesinhas, após seu pedido ser anotado pela garçonete, ela sabia que era a hora que tinha evitado todo o dia. Mas querendo ou não, a garota tinha que decidir o que fazer. Foi por causa dessas idéias obtusas que não havia comparecido a aula e se encontrava sentada nessa mesa, só.
respirou fundo e mandou um sorriso frio a garçonete ao ver seu pedido em sua frente. Enquanto comia a torta vagarosamente, deixou que seus pensamentos vagassem. E assim ela ficou por um longo tempo. Quando finalmente chegou a uma conclusão plausível, duas horas já haviam se passado desde que sentou-se ali. Ela se assustou e tratou de seguir pra casa.

’s P.O.V.


É isso. Minha decisão está tomada e é imutável. Nada daquilo realmente aconteceu e é um completo estranho na minha vida. Chega de ser fraca. À partir de hoje eu vou ignorar e tudo que tem haver com ele. E tudo volta a ser como era antes!
Essa foi minha decisão depois de muita reflexão. E foi com essas exatas palavras em mente que eu segui de volta pra casa, satisfeita por, finalmente, voltar ao normal. E nada mais normal do que interagir com um amiguinho do Scott... Ou até dois...


- A senhorita quer que levem essas sacolas pro seu quarto? – Jobs perguntou assim que entreguei a chave do meu carro a ele.
- Sim, Jobs... Seria muito bom – falei com um sorriso – Os amigos do meu irmão já chegaram?
- Sim, senhorita. Estão todos no deck.
- Perfeito! – concluí satisfeita.
Peguei minha bolsa e segui na direção do deck. Estava na hora da diversão de verdade.
- Scott, bombom... Cheguei! – falei entrando com toda a minha glória na área da piscina onde quatro rapazes conversavam animados com meu irmão.
- Finalmente, pirralha... Pensei que ia jantar lá no shopping também... – Scott reclamou se levantando e vindo na minha direção. Assim que me alcançou, já na metade do caminho, me deu um abraço apertado.
- Isso tudo é saudade?! – perguntei com ar de riso.
- Pensei que você ia me trocar por um cartão de crédito idiota! Eu sou o único que pode ser sem limites na sua vida – reclamou me soltando.
- E deixar de bancar a anfitriã? Nunquinha! – falei rindo e apertando as bochechas dele.
Enquanto eu falava com Scott, notei que os quatro me observavam atentamente. Do jeito que eu gosto.
- Você arrumou tudo direitinho? O jantar já foi organizado? – perguntei o abraçando pela cintura e deixando ele me guiar até o sofá que eles se encontravam.
- Sim, madame. Já está tudo organizado. Relaxa, nanica... – Scott falou rindo.
Assim que chegamos lá, reconheci dois rostos.
- Steve! Bob! Há quanto tempo! Como estão? – perguntei animada enquanto os dois vinham na minha direção.
Abracei cada um enquanto os outros dois também se aproximavam.
- E ai, ?! Vejo que você continua a mesma... – Bob falou com um risinho no canto dos lábios.
- Na minha humilde opinião, ela está ainda melhor do que eu me recordo... – Steve discordou me abraçando pelos ombros.
Bob e Steve eram os melhores amigos de Scott. Era com eles que ele dividia o apartamento dentro do campus. Steve fazia exatamente o mesmo curso que meu irmão. Já Bob estudava advocacia. Ele era alto e tinhas grandes olhos verdes. Seus cabelos avermelhados pareciam em chamas e tinha sempre comentários impertinentes na ponta da língua. Ele era o casinho de em Yale.
Já Bob, era bronzeado, com os cabelos loiros caindo sobre os olhos castanhos. Ele e tiveram um breve affair quando nós fomos a Yale.
- Não vão me apresentar o resto da trupe? – perguntei com um sorriso malicioso, mirando os dois desconhecidos a minha frente.
- Esses são Adrian e Joe – Scott falou rolando os olhos e apontando pros dois.
- Muito bom conhecer a famosa ! - Adrian falou divertido me cumprimentando.
Ele era um cara um pouco mais baixo que os outros, com a pele cor de azeitona. Os olhos negros faziam parte de um conjunto harmonioso que compunha suas feições. Tinha o cabelo baixo e raspado e um sorriso incrivelmente branco e simétrico.
Mas foi Joe que me prendeu a atenção.
- Hey... – Joe me cumprimentou um pouco mais lento que os outros.
Ao sentir o corpo dele mais próximo, pude concluir que ele era o mais malhado dos quatro. Joe tinha a pele levemente bronzeada e a barba rala. Seus cabelos negros eram lisos e estavam pra trás, dando uma visão ampla do seu rosto. Os olhos de um azul claro me miravam cheio de interesse e um sorriso misterioso brincava em seus lábios grossos.
O que eu poso dizer... Ele era muito apetitoso. Um verdadeiro deleite aos meus olhos.
- Você é bem mais linda pessoalmente. Com certeza as fotos com o Scott não fazem jus – ele comentou me encarando com um sorriso no canto dos lábios.
- Se você diz... – falei dando os ombros e o encarando com interesse – Devo dizer que Scott anda escolhendo as amizades cada vez melhor... – completei piscando pra ele, que sorriu abertamente.
- Já organizou nossos horários, ? O trato era que quando a gente viesse, você ia levar a gente pras melhores festas... – Bob comentou sorrindo animado – Quando você e as meninas foram, a gente levou vocês pro mais vip – lembrou.
- Você sabe muito bem que eu só frequento o que é melhor, então não precisa se preocupar... – falei rindo – Na realidade, eu conheço o lugar perfeito pra irmos hoje – comentei.
- Eu sei que você não vai decepcionar a gente... Mas e aí? Cadê o resto da sua escolta? – Steve perguntou se jogando no sofá.
- Devem aparecer por aqui a qualquer minuto... – comentei – Mas você está bem mais interessado em saber onde está a , não é?! – questionei.
Steve soltou um sorriso sacana.
- Sabe como é... Ainda tenho boas recordações da última visita de vocês... – falou com o sorriso ainda maior.
Soltei um riso baixo enquanto rolava os olhos. Nesse momento escutei algumas gargalhadas conhecidas vindas da entrada.
- Como eu disse antes... Timing perfeito – comentei observando e se aproximando com algumas sacolas.
- Opa! Olá, garotos – falou indo até o grupo.
Apresentei Adrian e Joe às meninas e deixei que elas cumprimentassem Bob e Steve.
- Ué... Cadê ? – estranhei. O combinado éramos nós nos arrumamos aqui em casa, mas sem ela não ia ser a mesma coisa. E nunca furava comigo.
- Ela está emburrada na sala – falou rindo – por causa daquela besteira de ontem de manhã.
- podia crescer às vezes... – falei sem paciência.
- Pra mim, ela ta no ponto – Scott falou dando os ombros.
- Me poupe de seus comentários chulos, bombom... Sou muito mais feliz sem saber nada disso – falei cerrando os olhos enquanto puxava e – Eu tenho que ir agora.
- Já? – Joe perguntou desapontado.
- Não se preocupe. A gente vai ter muito tempo pra se conhecer melhor... – comentei me aproximando e beijando no canto de sua boca – Até mais tarde, Joe – me despedi.
- Até... – ele respondeu com um sorriso torto de satisfação.
Esperei as meninas se despedirem do resto do pessoal e seguimos até onde estava.
- Hey bobona! Ainda está com raiva de mim é?! – perguntei me jogando ao lado dela no sofá.
- O que você acha?! – perguntou erguendo a sobrancelha.
- Deixa de drama, ... Eu só estava num dia ruim. Nunca iria ser grossa com você de propósito. Você me conhece muito bem pra pensar uma asneira dessas... – reclamei abraçando ela pelos ombros – Anda... Vamos lá pra cima que eu comprei um monte de coisinhas pra gente usar hoje. Inclusive uma sandália linda da última coleção da D&G que é a sua cara – comentei me levantando e encarando ela com um sorriso empolgado.
me encarou mais uns segundos séria, mas logo a expressão se desfez em um sorriso mínimo.
- Ai... Ta! Eu te perdôo... – ela comentou rindo e me puxando pra subir pro meu quarto – Mas só por causa da sandália... Você sabe que D&G é meu fraco.
- E quem disse que eu pedi seu perdão?! – perguntei com um ar de riso.
- Eu te conheço muito bem, como você mesma disse. Você não precisa pedir pra eu saber que quer – ela falou piscando o olho.
Eu rolei os olhos e deixei ela me levar. Realmente ela estava certa. Entre a gente, certas coisas não precisam ser ditas, principalmente as minhas milhares de desculpas que elas tanto sonham em escutar. Elas já estão subentendidas em nossas expressões e palavras. E é por detalhes como esses que eu já não me vejo sem nenhuma delas por perto.

P.O.V's off


- Nada de interessante no colégio?! – perguntou jogada de costas na cama.
Elas já tinham organizado toda a roupa da saída para mais tarde e agora estavam aguardando o jantar. mexia no computador de , em busca de alguma atualização do The Pretender. Já e estavam deitadas na cama de , junto com a mesma.
- Nada de novo. O The Pretender postou dizendo que o seu suposto sumiço era por causa de alguma coisa estragada que você tinha comido. Ri-dí-cu-lo – comentou rolando os olhos.
- Foi só porque não tinham nada que colocar e iam morrer se não falassem de você. Mas fora isso, nadinha de novo – falou brincando com a ponta da coxa.
- O também faltou hoje. Eles também cogitaram que vocês poderiam estar juntos, mas depois eu escutei que o tinha falado com ele e ele não veio porque tinha passado a noite mal ou sei lá o que. Logo o site também postou isso e voltou a teoria da comida estragada – falou ainda mexendo no computador.
- Como se eu tivesse alguma coisa a ver com esse garoto... – resmungou – Pelo contrário, meus planos envolvem uma pessoa completamente diferente... – ela completou com um sorriso malicioso se formando.
- Que atende pelo nome de Joe, acertei?! - perguntou rindo.
- Ta com a mente veloz hoje, em amiguinha?! – comentou rindo.
- É só olhar a maneira que ele te encarou... Só faltou te comer com os olhos, mesmo com Scott a três metros dele... - falou com a expressão levemente espantada.
- Como se o Scott ali fosse muita coisa. Ele sabe que não é pra se intrometer na minha vida que eu sei me cuidar muito bem. Quando eu quero que ele se meta, eu não preciso nem falar – disse dando os ombros – Ainda por cima quando um cara como aquele está tão a minha disposição.
- Também... Um puta de um gostoso como aquele não tinha nem como você não encarar de volta. Se você não o fizesse é que eu me preocuparia... – falou rindo.
- Não vejo a hora dessa saída chegar... – comentou perdida em pensamentos com um sorriso ainda maior no rosto.
E logo a hora de eles saírem chegou. Durante o jantar, , que fez questão de sentar ao lado de Joe, tratou de jogar seu charme em cima dele. Não que precisasse, já que o cara já estava praticamente de quatro por ela.
Assim como marcado, todos estavam na garagem às doze horas em ponto.
- Como vamos fazer agora? – perguntou encarando o grupo.
- Eu não pretendo dirigir essa noite... – comentou.
- Então vou chamar três táxis, assim ninguém chega apertado – Scott concluiu enquanto se afastava já com o telefone na mão.
Nesse momento, Joe se aproximou e segurou na cintura desnuda de , que estava de costas pra ele.
- Você ta linda com essa roupa... – ele sussurrou no pé de seu ouvido, provocando leves arrepios.
- Isso porque você ainda não me viu sem ela – ela comentou se virando e segurando na azelha da calça de Joe.
O garoto a puxou mais pra perto, com um sorriso cheio de luxúria estampado.
- Não vejo a hora então.
- Se você se comportar, quem sabe... – a menina falou fazendo pouco caso – É melhor irmos. Os táxis já chegaram – falou puxando de leve o garoto.
Joe beijou seu pescoço de leve e passou os braços por seus ombros enquanto ela o abraçava pela cintura e eles seguiam os amigos na direção da entrada.


Assim que chegaram na boate, o grupo foi colocado pra dentro. Joe e permaneciam de mãos dadas e muito próximos enquanto conversavam aos sussurros e cheios de sorrisos. A cena não foi passada despercebida. Do outro lado da boate, Chase observava tudo com fúria. Aquela garota estava o tirando do sério. E ele não ia deixar barato.
O grupo se dirigiu pro bar, onde fizeram os pedidos. Por onde passava, atraía olhares. Joe parecia muito satisfeito, chegava até a ficar mais cheio de si por estar com a garota que todos desejavam.
- Que tal uma dança? – perguntou puxando ela pra perto de si enquanto mexiam o corpo no ritmo da batida que saía das caixas de som.
- Mais tarde, lindinho. Hoje a noite é nossa! – ela comentou passando os braços pela sua cintura – Agora vamos beber! – falou animada.
- Você manda! – Joe respondeu rindo e levando ela até a mesa que tinham conseguido pra eles, próxima a pista.
- O lugar é excelente! Ele é novo? – Scott perguntou puxando pra sentar em seu colo.
- É sim. Abriu semana passada – respondeu sentando bem próxima a Steve, que tratou de colocar o braço ao redor de sua cintura.
- Eu disse que só frequentava os melhores lugares... – comentou jogando o cabelo pra trás.
- E a gente nem precisou enfrentar fila... – Joe comentou verificando o local – Aquele cara não pára de encarar você... – ele falou apontando com a cabeça pra Chase, que estava próximo.
Desde que ela entrou, seus olhos não desgrudaram dela.
- Ele não é ninguém – ela falou fazendo pouco caso – Já você... É alguém com quem eu vou dançar – terminou se levantando e chamando o menino com o dedo.
- Espera! Vamos virar só mais esse shot de tequila! – pediu, amimada.
Os dois se aproximaram enquanto cada um se levantava. De uma vez o grupo virou, sendo a última.
- Droga... Eu sempre perco... – se lamentou.
- Que tal um prêmio de consolação?! – Steve perguntou já se aproximando dela.
No segundo seguinte eles estavam em um beijo caloroso.
deu uma gargalhada e puxou Joe pela gola da camisa até o centro da pista, um remix de uma música conhecida tocava, animando eles. se afastou encarando o garoto enquanto rebolava até o chão. Sem tirar os olhos de Joe, ela o chamou com o dedo mais uma vez. O garoto abriu um sorriso malicioso e a puxou com força, colando seus corpos. A mão de deslizou até a nuca de Joe e puxou os cabelos ali com ainda mais força que ele quando a puxou. O garoto soltou um gemido baixo, prendendo-a em seus braços enquanto ela mordia seu queixo de forma sensual. Os dois se moviam ao som da música, sem notar que formava-se uma platéia.


Assim como Chase, os olhos de grudaram na silueta da garota logo quando a avistou. Mas ao contrário dele, era a decepção e o ciúme que corroíam seu corpo. Olhando ela ali, praticamente se fundindo com aquele estranho que ele deduziu ser um dos amigos de Scott, o fez perceber que talvez somente ele tivesse tido um “momento especial” com ela. Tudo não tinha passado de ilusão de sua mente fantasiosa.
- Esquece ela, dude. Eu já disse que ela não é pro teu bico – falou segurando o ombro do garoto – Deixa o papel de idiota pro Chase. Afinal, nenhuma delas vale a pena no final das contas... – falou olhando com amargura pra que bebia e conversava animada com um garoto de cabelos loiros.
bufou raivoso e pegou a garrafa de vodka que Harry tinha comprado e colocado na mesa, tomando metade dela de uma só vez. Era melhor ele beber, afinal essa noite ia ser longa...
Dê play.

e Joe já haviam dançando duas músicas apenas se provocando. O garoto agora deslizava os dedos por dentro do cós do short dela enquanto ela arranhava a base das costas dele por dentro da camisa. Tudo disso com as testas coladas e dançando sensualmente. Mas toda a dança foi interrompida por uma mão que puxou o ombro dela com força.
- O que diabos você quer?! Fora o prazer de me interromper, claro – perguntou irritada ao olhar quem era.
- O que você pensa que ta fazendo com esse aí? Na minha boate?! – Chase perguntou com os olhos turvos e com bafo de bebida.
Ótimo. Um Chase, e ainda bêbado, era tudo que ela precisava pra estragar sua noite.
- O que você acha? Quer que eu explique?! – perguntou erguendo a sobrancelha.
- Ta tudo bem, ? Esse babaca aí ta te incomodando? – Joe perguntou o encarando sério enquanto envolvia a mão na cintura de .
- O babaca vai te pôr pra fora se você não desencostar dela agora! – esbravejou apertando o gargalo da garrafa com força, esbranquiçando a ponta de seus dedos. suspirou. Sua noite estava boa demais pra ser verdade... Mas um sorriso maligno logo tornou a se formar na sua face, assim como a idéia veio em sua cabeça.


“Ooh boy, would you mind if I got closer?
Ooh boy, I can tell you want me don't ya?
And I say “why do you think that's wink can get you anything
You ask for out on the dance floor?”

“Oo menino, você se importaria se eu fosse mais perto?
Oo menino, eu posso dizer que você me quer, não quer?
E eu digo “por que acha que com essa piscada você consegue tudo
que quer fora da pista?”


- Você está certo… Como eu fui tão burra de perceber isso só agora?! – ela se indagou se soltando de Joe e se aproximando dele

She said
Ooh do you love me?
I wonder why she talks like that

Ela disse
Ooh você me ama?
Eu me pergunto por que ela fala assim”



- Finalmente um pouco de sanidade… - ele comentou com um sorriso enquanto jogava a garrafa vazia em qualquer lugar.

“Ooh Tell me something
Tell me how'd you get to be so bad”

Ooh Diga-me algo
Diga-me como conseguiu ser tão má”



- Sabe essa música que ta tocando? Ela é a nossa cara... – comentou enquanto “She Said” do Stephen Jerzak tocava a todo vapor.

“Hey I know something you don't
Let's go”

“Hey, eu sei algo que você não sabe
Vamos”


O garoto sorriu ainda mais satisfeito ao reconhecer a letra.

“We can go wherever you want to go”
Nós podemos ir para onde você quer ir”

se aproximou, parando a sua frente e agarrou o colarinho da camisa de Chase. Eles estavam tão próximos que Adelle podia sentir a animação do garoto. Tsc, tsc. Incrível como alguns meninos se excitavam com tão pouco...
- Ela é perfeita, mas só se eu cantasse o vocal masculino – falou soltando ele com um empurrão.
Em seguida ela se colocou em pé nas costas dele, onde segurou em sua cintura e se aproximou de seu ouvido. O garoto arfou com a proximidade do corpo dela.
- How would you feel if I told ya, You ain't worth the trouble…? – sussurrou acompanhando a música.
No momento seguinte, se virou e beijou Joe, que observava a cena calado. Ele a beijou de volta ainda surpreso, mas logo tomou conta da situação enquanto o beijava com luxúria. Suas mãos passeavam pela cintura e costas da garota, por baixo de seu paletó. bagunçava o cabelo dele com uma mão enquanto a outra estava por baixo de sua blusa, arranhando seu abdômem. Assim que se separaram pra tomar ar, ela se virou e encarou Chase, com um sorriso satisfeito. Esse a encarava furioso, com os dentes cerrados e respirando alto.
- Isso sim é beijo... – falou com deboche – Que tal se a gente for pra aquele lado, Joe? Eu conheço um sofázinho ótimo... – comentou rindo e puxando o garoto na direção do mesmo sofá que usou com Chase.
Ela ria satisfeita, sem nem olhar que estava na frente até sentir bater em alguém. Seu sorriso muchou ao ver quem era.

já estava quase perdendo sua lucidez de tanto beber. Os amigos encontraram um grupo de garotas que se mostravam bastante interesse neles. logo se enturmou e estava abraçado a duas loiras, que queriam o arrastar pra um canto escuro, até que sentiu alguém esbarrando nele. Seus olhos arregalaram ao mirar a pessoa e o xingamento que pretendia soltar morreu na ponta de sua língua. Ao ver ali na sua frente, sorrindo com as bochechas levemente avermelhadas, estremeceu por dentro. Então olhou melhor e viu que ela ainda estava de mãos dadas com o suposto amigo de Scott enquanto se dirigiam para a área mais privada.
- Pode passar rainha – falou debochado enquanto fazia uma reverência e saía do caminho.
o encarava ladeado das duas loiras e soltou um sorriso ainda mais debochado, deixando que Joe a guiasse até o sofá mais escondido. Assim que se afastou o suficiente pra não escutar mais a voz dos amigos dele, olhou pra trás uma última vez. E assim que o fez, encontrou os mesmo olhos que a faziam perder o ritmo da respiração, mas dessa vez eles brilhavam de decepção. A menina suspirou, sentindo o coração dar uma estranha pontada. Mas a sensação foi esquecida assim que sentiu a língua quente de Joe pedir passagem em sua boca e se deixou levar pelas ótimas sensações que ela lhe provocava.

CAPÍTULO OITO

“Dance, dance

(“Dance, Dance,)
We're falling apart to half time
(Estamos desmoronando na metade do tempo)
Dance, dance
(Dance, dance)
And these are the lives you love to lead,
(Estas são as vidas que você adoraria levar,)
Dance, this is the way they'd love,
(Dance, é assim que eles amariam,)
If they knew how misery loved me"
(Se soubessem como a miséria me amou.")

’s P.O.V.

Acordei com o sol machucando meus olhos e uma leve dor de cabeça. Espera... Sol?! Que milagre! Assim que abri os olhos, constatei que realmente era a sua claridade que preenchia meu quarto, onde algumas peças de roupa estavam jogadas no chão. Já outras estavam em lugares mais... Inusitados. Olhei pro lado e pude ver Joe dormindo com os cabelos caídos nos olhos e o lençol cobrindo de sua cintura pra baixo. Nossa... Que noite foi essa?! Fazia tempos que eu não me divertia tanto… Ou interagia com alguém como o Joe. Na realidade, acho que nunca fiquei com alguém tão talentoso quanto ele. Esse cara só podia estar se graduando no Kama Sutra...
Ainda o olhando, me levantei e vesti sua camiseta que estava jogada próxima a janela. O sol brilhava com tudo lá fora, o que atraiu alguns dos meus hóspedes pra piscina. , Bob, , Steve e Adrian gritavam e pulavam nela, aproveitando o tempo bom.
- Que tal se a gente for até lá também? – escutei a voz de Joe no pé do meu ouvido, ainda rouca de sono, enquanto ele envolvia minha cintura.
- Até que não seria má idéia... – comentei encostando meu corpo nele, ainda de costas pra ele, e constatando que ele não vestia nada – Mas acho que o sol não deve ir embora agora... – falei deslizando minha mão pela lateral do seu corpo.
- Nesse caso, eu tenho uma ótima idéia do que a gente pode fazer... – disse me puxando na direção da cama com um sorriso malicioso enquanto eu tratava de me livrar da camisa dele.


- Ainda não ta pronta, ?! – escutei a voz entediada de Scott se aproximar – Nossa... Se eu não fosse teu irmão – comentou me olhando de cima a baixo enquanto eu colocava os brincos.
Depois de me divertir com Joe algumas vezes, resolvi descer e ir pra piscina. Um bronze vinha a calhar! Nós todos ficamos lá até chegar a hora de nos arrumar pra esse bendito baile de inverno. As meninas se arrumaram rápido enquanto eu vegetava na cama. Gostava de ser a última, assim, quando eu aparecesse, seria o centro das atenções. E nesse dia não foi diferente. Todas se arrumaram pra que eu começasse a me arrumar. Já eram quase dez horas e eu estava terminando alguns detalhes.
- Se você não descer em dez minutos, a gente vai te deixar! – escutei gritar sem paciência do corredor – É tão deselegante chegar fora do horário!
Scott e eu sorrimos enquanto ele se aproximava. Ele parou atrás de mim, que estava parada de frente pra o espelho que preenchia toda a minha parede do canto do banheiro.
- Queria que vovó nos visse agora – suspirei segurando as pulseiras de ouro branco que finalizariam meu traje.
- Ela ia sorrir e mentir, dizendo que nós éramos os mais bonitos do mundo – Scott falou com um sorriso saudoso.
- Só se for mentira pra você, porque eu realmente sou a mais linda... – comentei com um sorriso presunçoso.
- Você ta usando o anel preferido dela... – Scott comentou segurando minha mão próxima de seus olhos – Pensei que ele estava com a mamãe.
- Ela me deu um pouco antes de ir. Disse que mamãe ia se matar por ele, mas que ela não merecia ter a relíquia da família, herdado dos nossos...
- ...Antepassados, pertencentes a mais alta corte da Inglaterra – Scott completou rindo – Ela sempre contava essa historia.
- Eu sinto falta dela... – suspirei sentindo os olhos lacrimejarem.
- Eu também. Mas as coisas são como são. E ela ia odiar ver você destruir sua produção de horas por besteira – ele falou me puxando pra um abraço apertado.
O nó já se formava em minha garganta enquanto ele me mantinha em seu abraço.
- É melhor a gente ir – falei me soltando e colocando um pouco do Chanel que estava no balcão.
- Cadê o perfume que eu te dei? – estranhou vasculhando tudo com os olhos.
- Eu tive um pequeno acidente e ele quebrou... – contei com um sorriso amarelo – Você compra outro? – perguntei fazendo bico.
Ele me encarou sério por um momento, mas logo sorriu.
- Vou ver o que posso fazer... – comentou rindo enquanto me puxava pra fora do banheiro.
- É por isso que você é meu irmão preferido! – falei rindo satisfeita.
- Eu sou o único... – suspirou rolando os olhos, me fazendo rir ainda mais.

Logo nós chegamos na garagem. A limusine nos aguardava com todos já acomodados e incrivelmente elegantes. A pequena bagagem, com o que íamos usar no fim de semana, já estava no porta-malas. Nós não tardamos a chegar no local do evento, que era num dos salões de eventos mais disputados da Inglaterra.
- Pronta pra mais uma encenação?! – Scott perguntou divertido, segurando meu braço.
- Pelo menos eu vou ser o centro das atenções – dei os ombros.
Scott soltou uma risada baixa enquanto seguíamos pelo tapete vermelho estendido na entrada. Paramos para algumas fotos para as colunas sociais e entramos no local tão familiar. O lugar era uma mansão antiga, um pequeno castelo na realidade, onde a parte térrea foi transformada num grande salão ladeado por um jardim ornamentado pelos melhores decoradores de ambiente do mundo. Um palco alto estava ocupando toda uma parede com grandes cortinas vermelhas, onde uma banda tocava músicas entediantes. Do lado oposto, um bar feito na mesma madeira que o palco, ocupava toda a extensão da parede. Tudo estava decorado delicadamente com tons dourados e azul petróleo.
Enquanto andávamos pelo local, os rostos já conhecidos viravam pra nos encarar e os cochichos começavam. Depois de cumprimentar boa parte das pessoas ali, me encaminhei até o bar onde pedi uma dose de gin tônica. Eu odiava esses eventos. Era só pra as pessoas se gabarem do carro super caro ou da mansão super luxuosa que tinham adquirido recentemente. Fora quem doava a maior quantia. Ridículo e um gasto totalmente desnecessário de dinheiro.
Eu, com certeza, gastaria ele muito melhor...

P.O.V. off

encarava tudo ao redor com uma expressão entediada enquanto terminava sua bebida. Seu irmão e os amigos foram arranjar algumas bebidas com um barman conhecido e as meninas ainda faziam um pouco de social com seus pais.
- A senhorita está encantadora – Mr. Hoffman a elogiou.
olhou o senhor com uma expressão assustada. Não tinha notado a chegada dele.
- Desculpe pelo sobressalto! Não notei que estava tão distraída – desculpou-se com a expressão risonha.
- Mr. Hoffman! Que bom ver o senhor por aqui! – o cumprimentou com um abraço enquanto dava o primeiro sorriso sincero da noite.
- Eu tinha que vir certo?! Faço parte da junta responsável pela arrecadação das doações – explicou – A propósito, agradeça a seus pais pela generosa quantia que eles doaram.
fez uma careta.
- Eles já têm tanto dinheiro que não tem mais onde gastar – comentou encarando as pessoas ao redor – E ainda assim, não conseguem parar de querer mais – falou num suspiro.
- Não os culpe. Às vezes o dinheiro pode cegar as pessoas e impedir que elas vejam que o que realmente é valioso não se preço – comentou com o olhar perdido.
- Minha avó costumava dizer a mesma coisa pra mim... – falou o olhando impressionada.
- Ela sabia bem o que era isso... – ele comentou com um sorriso misterioso.
encarou o velhinho a sua frente. Ele conhecia a sua avó?! Todos esses anos e ela nunca soube de nada que ligasse um ao outro.
- Que tal nós mostrarmos a essas pessoas como se dança realmente? – propôs estendendo a mão na direção dela.
riu enquanto aceitava seu convite. Mr. Hoffman a levou até o centro da pista e a guiou ao som da voz melancólica do cantor.
- O senhor conheceu minha avó? - perguntou curiosa.
- Ah sim... Somos conhecidos de outra época. Quando tínhamos exatamente a sua idade pra ser mais exato – comentou saudoso – Ela era tão bela quanto você. Na realidade, você tem muitos traços dela – elogiou.
- Verdade? – perguntou sorrindo com as bochechas coradas.
- Acho que tenho uma foto dela. Apareça lá em casa pra tomarmos um chá – ele convidou – Mas claro, se a conversa for monótona demais, eu vou entender sua ausência.
- Claro que não! Vai ser ótimo! Eu adoraria saber de historias de minha avó – a menina falou empolgada.
- Ficarei aguardando a senhorita então – ele concluiu com um sorriso doce.
Os dois ficaram rodando o salão em silêncio por alguns minutos até se pronunciar.
- Sabe Mr. Hoffman, espero não ser indelicada perguntando isso, minha mãe me mataria se me escutasse, mas eu queria saber por que o senhor leciona? O senhor tem uma das maiores fortunas daqui, poderia viver em qualquer lugar, apenas desfrutando dela, mas prefere ficar dando aula pra adolescentes, que podem ser bem arredios às vezes – falou rápida.
O senhor sorriu alto.
- É por causa de jovens como a senhorita – ele falou erguendo as sobrancelhas enquanto ainda sorria.
- Como eu?! – perguntou sem entender – E me chame de você – acrescentou com um sorriso.
- Sim, como você. Veja, . A maioria dos jovens hoje já nasce corrompido pelo meio. Como se os desejos vazios de seus pais fossem passados geneticamente. Mas ainda existem alguns que são puros em seu interior e só precisam de algum suporte pra enxergar que podem ser bem mais do que isso que essa realidade tem a oferecer. Na minha época, esses jovens até tentavam lutar contra isso, mas a maioria era submissa demais a seus pais, que fraquejavam – começou a explicar.
ouvia tudo atentamente, com a curiosidade e o espanto cada vez maiores. Aquela era uma pergunta que ela sempre quis fazer ao Mr. Hoffman, mas nunca teve oportunidade. Ela só não esperava aquela resposta.
- Veja você, eu conheci um jovem casal. Ela era linda, incrível. E ele estava completamente apaixonado por ela. Eram o casal mais lindo de toda cidade, sem duvidas. Mas ela estava sendo corrompida pelo meio, levando a acreditar que aquela era a melhor realidade a se viver. Mas ele não queria desistir dela. Ela era o amor de sua vida, ora mais...! Só que ele não pode ser forte o suficiente pelos dois. Apesar de terem vivido a mais bela historia de amor, ela foi forçada a casar com alguém que os pais julgavam melhor, principalmente para os negócios, mas que ela abominava. Eu acompanhei o sofrimento deles. E odiaria ver isso acontecer novamente. Principalmente em frente aos meus olhos.
- Nossa... Que história triste – comentou com um sorriso fraco.
- Muito triste... Essas pessoas sofreram com a perda o resto de suas vidas. E ela acabou perdendo parte de seu brilho. Os jovens de hoje estão mais forte, tem mais condições de lutar contra o sistema pelos seus sonhos. E é por isso que eu quero estar perto. Eu tenho muita sabedoria guardada nessa cabeça velha – falou apontando pra sua cabeça - Eu quero ajudar pessoas como você a seguirem pelo caminho da felicidade verdadeira. Aquela que não pode ser comprada ou negociada.
- Como eu?! Mas... Do que o senhor está falando? – perguntou confusa.
Como assim, ela?! Estava acontecendo alguma coisa que ela não estava sabendo?
- Você é uma criatura linda... Mas está se perdendo aos poucos. Você só precisa... – ele começou a explicar, mas foi interrompido por uma terceira pessoa.
- Boa noite, Mr. Hoffman. Boa noite, O’Donnel – cumprimentou ambos com um meio sorriso.
olhou assustada. Não esperava ver ali. Muito menos tão perto.
- Boa noite, meu jovem! – Mr. Hoffman cumprimentou animado.
- Me disseram que o senhor estava me procurando. É algo errado com o trabalho? – perguntou preocupado olhando rapidamente pra .
Essa olhava tudo sem entender. Os três estavam parados no meio da pista.
- Claro que não. Foi um excelente trabalho o de vocês... Um dos melhores – falou com satisfação.
sorriu convencida. É claro que foi. Seus trabalhos sempre eram os melhores.
- Então seria por que... – começou a falar esperando uma resposta.
O senhor se calou e olhou pro fim do salão concentrado. Segundos depois suspirou.
- Me perdoe , mas minha mente cansada já não funciona mais como antigamente, você sabe. Eu realmente não consigo me recordar o que seria... – pediu com um sorriso culpado.
- Nesse caso, se me derem licença... – pediu já se retirando.
- Espere um momento. Por que você não dança com a jovem O’Donnel? Veja você, meus pés também já não são como antigamente, quando eu passava horas nos salões. Seria muita gentileza sua se dançasse um pouco com ela – pediu.
arregalou os olhos. não era bem com quem ele queria falar agora. Ela também não parecia muito satisfeita com isso. Tinha medo de como iria agir perto dele. Ela ainda podia se recordar do último olhar que ele lhe lançou e aquilo a deixava ligeiramente perturbada.
- Eu?! Hum... Cla-claro – respondeu inseguro.
- Você se importaria? – Mr. Hoffman perguntou a mirando com um brilho estranho nos olhos.
- Ar... – hesitou.
Claro que ela não queria...! Hell no! Mas ela simplesmente não podia negar a um pedido do Mr. Hoffman.
- Mas e a nossa conversa? – perguntou na esperança de ele levá-la pra conversar e esquecesse dessa idéia sem cabimento.
- Nós conversaremos melhor quando você for me visitar. Mas mantenha os olhos abertos e não tenha medo. A felicidade está bem debaixo de seu nariz. Basta à senhorita aceitá-la de bom grado – falou se retirando.
encarou o senhor se afastar ainda mais confusa que antes. O que diabos ele quer dizer com tudo aquilo?!
- Se importa? – perguntou a tirando de seus pensamentos.
- Como? – perguntou olhando pro menino.
Só então observou ele de verdade. usava Black Tie assim como a maioria dos homens ali, mas nele a roupa parecia ter um charme a mais. Os cabelos estavam cuidadosamente arrumados para traz, deixando uma visão ampla de seus olhos. Seus benditos olhos .
- Se você não aceitar, é capaz de ele permanecer a festa toda ali em pé, só esperando nós dançarmos – explicou apontando com a cabeça pra o velhinho, que os observava com um sorriso.
- Claro. Mas seja rápido – retrucou, sem saída.
- Como a senhorita ordenar – ele falou com deboche.
o encarou com as sobrancelhas arqueadas.
Nesse momento, sentiu depositar suas mãos em sua cintura, puxando-a delicadamente mais pra perto. A garota se assustou ao notar a pequena distância que tinha de seus olhos. O perfume masculino impregnou a atmosfera ao redor deles, ainda mais forte que o normal. Por um momento, ela esqueceu completamente do último dia e se sentiu novamente em seu banheiro, onde eram apenas eles dois e nada mais.
- Pra que esse medo, vossa majestade? Não precisa ficar tão distante. Sabe... Eu só mordo se você quiser – ele falou com um meio sorriso, mais uma vez quebrando sua linha de raciocínio.
Ou a falta dele.
- Eu gostaria muito que você parasse com esse negócio de rainha – ela falou sem paciência.
a olhou com ar de riso enquanto soltava rapidamente sua cintura e segurando suas mãos. o olhou mais uma vez sem entender o que ele queria com aquilo. Logo ela sentiu ele colocá-las apoiadas em seu ombro e segurar sua cintura com delicadeza, mais uma vez. Apesar do rápido choque de peles, foi o suficiente para que seu coração adquirisse a mesma batida desritmada e estranha que seu toque provocava.
- Por quê?! Cansou da vida da realeza? – perguntou sustentando o ar de riso, enquanto deslizavam no salão.
o olhou incomodada enquanto ele os movimentava suavemente ao som de uma melodia conhecida.

Dê Play

- Joe Brooks? Desde quando eles tocam esse tipo de música? – perguntou impressionada ao escutar os primeiros acordes da música.
- Parece que eles falaram pra tocarem alguma coisa suave que fosse do gosto dos alunos, pra ver se conseguiam manter eles por mais algum tempo na festa – explicou – E eu acho que está funcionando – comentou.
olhou ao redor e viu alguns casais se aproximarem pra dançar. Sorriu satisfeita ao ver e seu irmão, e um pouco surpresa ao ver e dançarem próximos a eles. olhava pra com brilho nos olhos, enquanto ele sorria abobado pra ela. Parece que Bob ia dançar hoje. E ia ser só.
- Como você sabe disso? – perguntou curiosa, voltando à atenção pra ele.
- Você não respondeu minha pergunta – ele comentou.
- Você também não respondeu a minha... – ela reclamou emburrada.
a encarou ali, tão próxima a ele. Achava que ela não podia ficar mais bonita, mas a cada novo momento próximo dela, se surpreendia.
- Foi meu avô. Satisfeita? – perguntou divertido.
- Pode ser... – resmungou.
- Agora é a sua vez de responder por que você não quer que eu a chame de rainha.

"When all that you've tried, leaves nothing but holes inside,
It seems like you're wired, to stay here held in time,
‘Cos nothing seems to change, oh no.
No nothing's gonna change, at all.
I can see it in your face, the hope has gone away."

respirou fundo. Ela não queria dizer. Pra quê?! Pra mostrar o que os outros não deveriam ver?! Aquilo era só dela. Mas foi só olhar nos olhos dele, tão convidativos e calorosos. Ao olhar neles foi como se nenhum mau a afligiria mais e que ela podia confiar neles.
- Porque eu não sou rainha. Odeio que me babem, porque se eles fazem isso é porque querem alguma coisa de mim e não porque querem ser gentis ou qualquer coisa assim. Eu estou cansada disso. No começo até era bom, mas agora... Não quero ser obrigada a sempre parecer feliz quando eu não sou... – falou rápido, sentindo o velho nó na garganta se formar.
a olhou espantado. De todas as respostas que ela poderia dar àquela era a última que ele imaginava.

"Your feet are stuck, no they cannot move,
Don't tell me that they're glued,
Yeah, they're far from.
At home, at ease but give sometime to breathe"

- Não olhe assim pra mim... – ela reclamou encarando as pessoas por cima do ombro.
Era isso. Ela fora derrotada por um ridículo par de olhos . Tanto sacrifício pra provar que era forte pra nada. Foi só olhar nos olhos dele que ela desarmou. Fraca. Dez mil vezes, fraca.
- Eu só... Estou surpreso. Não esperava essa sua resposta – falou franco, a encarando – Mas você não precisa fazer nada disso. Se não gosta disso só manda tudo pra merda – ele opinou dando os ombros.
o encarou. Ela estava mesmo recebendo conselho de como levar sua vida de ?!
- As coisas não são simples assim. Quando se vive nesse mundo, deve ter um certo comportamento. E eu não acho de todo ruim. Eu só... – tentou explicar, mas tudo que saiu foi um suspiro – Deixa pra lá – resmungou sentindo os olhos arderem.

"When nothing seems to change, oh no.
No nothing's gonna change, at all.
I can see it in your face, the hope has gone away."

Chega. Ela até podia ser fraca com ele. Mas não a ponto de chorar. A menina voltou a encarar o nada, torcendo pra que isso tudo acabasse e ela pudesse beber alguma coisa que fosse forte o suficiente pra levá-la a nocaute na primeira dose.
Ao escutar a explicação dela, suspirou a puxando mais pra perto de si, como num ato de reflexo. Matava-lhe ver tanta dor em seus olhos. Ele só queria que ela soubesse que ele estava ali pra ela. Acima de qualquer coisa.

"But if you hold tight, shadows will be lost in the light.
Oh ‘cos sometimes, fate and your dreams will collide.
So don't walk away from me,
Don't walk away from me,
Don't walk away from me."

- But if you hold tight, shadows will be lost in the light. Oh ‘cos sometimes, fate and your dreams will collide. So don't walk away from me, Don't walk away from me, Don't walk away from me… – cantarolou perto do ouvido dela.
Ao ouvir o sussurro de , sentiu o nó desafrouxar em sua garganta. E por um único momento, acreditou nas palavras que lhe eram ditas, mesmo sabendo que era impossível serem reais. Pra surpresa de , a menina encostou a cabeça em seu ombro e se deixou ser levada pela música e pelo calor dos seus braços dele, que a confortavam de alguma maneira desconhecida.

"But everything will be ok,
I know that it's so easy to say,
But the pain inside will fade,
Please tell me that you'll stay.


If you hold tight, shadows will be lost in the light.
Oh cos sometimes, fate and your dreams can collide.
When all that you've tried, leaves nothing but holes inside"

Assim que a música acabou, uma onda de aplausos encheu o salão. se afastou de e o encarou. Era só aquilo que a acalmava de verdade. Como uma droga, ela só precisava de mais e mais. Mas como uma droga, aquilo não ia lhe fazer bem. Ela só precisava entender essa parte e ter forças pra se afastar antes que fosse tarde.
- Será que eu posso dançar a próxima música com você?! – eles escutaram uma voz grave interromper sua troca de olhares.
- Mais não é possível... Você tem o prazer de me importunar! – reclamou reconhecendo a voz.
- Como sempre, chegando sem ser convidado – reclamou o encarando aborrecido.
- Que foi?! Vai me negar uma dança?! Olha, que todo mundo ta olhando... – Chase comentou com satisfação.
bufou.
- Se você se aproximar demais, vai se arrepender – ameaçou segurando a mão dele e colocando a outra em seu ombro.
- Porque comigo você fica longe e com o imbecil do você dança toda agarradinha?! – Chase reclamou mirando com raiva.
- Cala a boca e vai logo – reclamou.
se afastou, ainda aborrecido por ter sido interrompido. Mas estava satisfeito ao constatar que Chase já fazia parte da “lista dos indesejáveis” da garota. Ele só precisava se tocar disso.
- Está esperando o que, ?! – perguntou rude.
- Tudo bem, Peterson, eu vou deixar você ter seu momento de glória e tornar seu fora ainda mais público, já que só o de ontem não bastou. Até mais tarde, O’Donnel – ele se despediu com um meio sorriso que lhe impedia de raciocinar – Não esqueça do que eu disse – terminou saindo pela porta mais próxima.
E ela não ia esquecer.
Sua concentração só retornou quando sentiu a mão de Chase em sua cintura. Eles começaram a se mover no ritmo da música, mas ela ainda meio travada. estava perdida em seus pensamentos, torcendo pra que a música fosse rápida. Infelizmente Chase não tinha o mesmo efeito calmante que tinha sobre ela, o que tornava tudo ainda mais entediante e estressante.
- Já se arrependeu do que me disse ontem? – ele perguntou cheio de si.
- Como?! Bonitinho, você bebeu o que, em?! Já ta até delirando... – debochou.
- Você devia voltar logo pra mim. Nós somos o casal perfeito – ele voltou a afirmar.
- Eu não formo o casal perfeito com ninguém. Eu já sou perfeita só. Não preciso de você pra isso – falou erguendo as sobrancelhas.
- Eu quero você, ... Nós temos que ficar juntos! Pára de fazer doce e fica logo comigo – falou aborrecido.
- Você me quer assim como toda a população masculina daquele lugar, até umas mulheres querem. Mas querer não é poder. E eu não tenho que ficar com você coisa nenhuma... O que eu tinha que fazer com você eu já fiz. No momento, eu tenho distração melhor – falou fazendo pouco caso – E eu não faço doce. Quando eu quero alguém, eu tenho. Ponto final. Quando eu não quero, eu não quero de maneira nenhuma! Só falta você entender que está no segundo grupo – terminou com um sorriso de deboche.
- Você vai ser minha , de qualquer maneira. Pro seu bem, é melhor aceitar logo – Chase falou sem paciência, segurando-a com força. encarou o menino a sua frente. Seu olhar estava turvo de ira, lhe assustando um pouco.
- Eu não vou ser sua nem de ninguém. E me solte. Você está me machucando – falou séria.
- É melhor você aceitar logo e parar de me fazer perder tempo... – ameaçou.
- A única pessoa que perdeu tempo aqui, fui eu! Eu sinto muito se você é uma criança mimada que quando não consegue o que quer, fica fazendo escândalo. Então me faz um favor: manda teu pai comprar um cover meu pra você e me deixa em paz – respondeu puxando a mão da dele com força.
Se ele achava que ia fazer medo a ela, estava muito enganado.
- Você vai se arrepender dessas palavras, garota – sussurrou com raiva e com os punhos fechados.
- Isso é uma ameaça?! – ela perguntou erguendo a sobrancelha e o encarando de frente.
- Isso é um aviso.
- Pois aqui vai um meu pra você: deixe-me em paz e vai arranjar uma idiota com a qual você possa usar sua pose de macho! – falou aumentando a voz e se retirando.
- Depois não diga que eu não avisei – falou alto pra que ela escutasse enquanto ela saía em busca de ar puro e uma dose forte de bebida.

CAPÍTULO NOVE

“The sun is so hot

(“O sol está tão quente,)
The drinks are so cold
(As bebidas estão tão geladas)
Your clothes just fall off as the day goes
(As suas roupas vão caindo conforme o dia passa)
We're gonna stay up, ain't gonna lay low
(Vamos ficar acordados, não vamos descansar)
We're gonna dance all night because we said so"
(Nós vamos dançar a noite toda, porque dissemos que sim")

se encaminhou até o bar e pegou uma dose dupla de Whisky puro. Em seguida, foi discretamente até o jardim mais próximo, onde se sentou em um banco de pedra. A garota suspirou alto enquanto encarava algumas pessoas que passavam por ali.
- Merda de festa... Essa noite está me saindo é uma bela bosta – resmungou.
Em seguida virou todo o conteúdo do copo garganta abaixo. Sentiu o líquido âmbar descer rasgando por sua garganta enquanto fazia uma pequena careta. Fechou então os olhos, sentindo o leve topor que a bebida causava.
- Agora sim! Mais umas três dessa e eu vou estar no paraíso da felicidade – comentou com um leve sorriso nos lábios.
Ela já estava se preparando para seguir novamente para o bar quando escutou seu nome.
- ! Finalmente te achei. Está todo mundo atrás de você, linda – Joe falou segurando a cintura dela e beijando seu pescoço. sorriu um pouco mais ao sentir o perfume masculino agradável dele lhe atrair a atenção.
- Nós já vamos? – ela perguntou se virando e segurando a gola do paletó dele.
- Sim. Já arrumamos algumas garrafas de whisky e estamos só aguardando você pra poder seguir viagem – explicou puxando-a pra mais perto.
- Então não vamos deixá-los esperando... – falou a alguns centímetros dele.
Em seguida, ela mordeu o queixo dele, que a encarava com um meio sorriso. Joe se aproximou pra beijá-la, mas ela desviou assim que ele chegou perto demais.
- Vamos deixar pra fazer isso mais tarde, sim?! – falou começando a andar, enquanto puxava ele pela mão – Quanto mais desejo reprimido, melhor – explicou com um sorriso pervertido.
- Se você diz, quem sou eu pra negar... – ele comentou com a mesma expressão, se deixando levar por ela.
Assim que chegaram à limusine, o motorista já saiu cantando pneu.
- Nossa... Vocês estão com pressa mesmo ein?! – Joe comentou rindo depois que caiu de qualquer jeito no banco, devido a súbita aceleração.
- Assim que a gente chegar, você vai entender o porquê – Scott falou enquanto virava o conteúdo de uma das garrafas arranjadas pela garganta.
- E então meninas, as coisas estão todas aqui? – perguntou tirando os brincos e o anel.
- Já. É só nos arrumarmos – falou imitando seus gestos, assim como e .
aproveitou que estava mais próxima das bagagens e foi jogando as respectivas malas nos pés de suas donas.
- O que vocês vão fazer? – Bob perguntou curioso, vendo elas tirarem todas as jóias e guardarem nas malas enquanto colocavam outras.
- O que você acha?! – perguntou com um ar divertido enquanto subia o vestido.
- PORRA! VOCÊS PERDERAM A NOÇÃO FOI?! PODE PARAR COM ISSO, O’DONNEL! – Scott gritou ao ver a irmã tirar o vestido na frente de todos.
Os meninos começaram a rir, aplaudir e assobiar enquanto elas retiravam suas roupas ali. soltou uma gargalhada alta enquanto exibia não uma lingerie, mas sim um biquíni por baixo. Pode se ouvir uma lamentação do grupo após a revelação.
- Que foi, irmãozinho? Achou que eu ia fazer um strip, foi?! – perguntou erguendo as sobrancelhas enquanto dobrava o vestido e guardava na bolsa.
Os demais ocupantes já haviam se recuperado da rápida decepção e secavam o corpo das meninas, principalmente o de , que encarava todos com uma expressão satisfeita.
Nada como ser o centro das atenções pra lhe fazer se sentir melhor.
- Você ainda vai me matar, pirralha – Scott resmungou distraído, encarando .
riu alto mais uma vez, pegando o resto de sua produção na bolsa. Mais alguns minutos se passaram e então ela vestiu o short e a jaqueta roxa de couro, assim que o carro entrou na propriedade da praia escolhida pra a festa.
- Como sempre, meu timming é perfeito – falou satisfeita enquanto descia do carro.
A garota olhou tudo ao redor. Era um lugar grande e com um jardim extravagante. Várias pessoas já estavam lá, enquanto outras ainda chegavam.
- Até que não é tão mau para uma caipira como a Camille – comentou assim que suas amigas apareceram ao seu lado.
- Eu confesso que estava um pouco nervosa quanto a essa escolha, mas acho que vai ser bem interessante essa festa – concluiu olhando tudo, assim como .
- Joe, fofinho, você poderia pegar minha mala? – perguntou ao garoto parado ao seu lado, que olhava tudo com interesse.
- Claro – respondeu com um sorriso enquanto se esticava e pegava sua maleta Louis Vuitton.
- Espero que tenham separado um quarto decente – comentou assim que eles se dirigiram até a entrada.
Foi só se aproximarem alguns metros para que todas as atenções se voltassem pra eles.
- Que bom que vocês vieram! – uma garota de cabelos cor de palha se aproximou gritando. Ela era um pouco alta e desengonçada, mas tinha uma pele incrivelmente aveludada e uma conta bancária considerável, o que a salvava de cair em total esquecimento naquele lugar.
- Você acha mesmo que eu iria perder uma after party, Camille?! Elas não seriam as mesmas sem mim... – falou fazendo pouco caso enquanto encarava as unhas.
- Claro... Eu separei os melhores quartos pra vocês. É só me seguirem – falou sem jeito.
sorriu falsa enquanto acompanhava Camille. À medida que passavam, algumas pessoas os cumprimentavam. Às vezes eles falavam, às vezes nem se davam ao trabalho. Já a menina que seguia à frente fazia questão de falar com todo mundo e mostrar que estava andando com eles. Como todos sempre faziam.
- Aqui está. O outro quarto é semelhante a esse – ela falou abrindo uma porta de madeira escura – E mandei eles colocarem mais três camas em ambos os quartos pra que vocês pudessem se acomodar bem – Camille continuou.
- Até que não é tão mau... – comentou jogando a sua mala em uma cama de solteiro.
- Já estive em melhores – falou olhando tudo com ar superior – Pode colocar as minhas coisas na cama de casal, Joe. Ela sempre é minha – falou apontando com a cabeça pra cama perto das cortinas.
- Tem um bar montado na sala principal, onde está o DJ. É só chegar e pedir, a gente tem de tudo. Do lado de fora tem uma pista com o palco onde a banda vai se apresentar mais tarde. Também tem um bar montado lá, com show dos barmen. Como a praia é privada, não precisam se preocupar com nenhum estranho – Camille falou depressa, na tentativa de agradar – Há! E o Demille está com uma leva potente de balinhas e doces que ele trouxe da sua última viagem à Índia.
- Ótimo! Vamos logo que eu quero me divertir... – falou puxando Joe pelo cós da calça enquanto os outros os seguiam animados.
- Qualquer coisa que vocês precisarem, é só me procurar. Eu vou atender na hora – Camille falou tentando acompanhar o passo deles.
Mas, assim que eles alcançaram a multidão que se espalhava pela casa, ela ficou pra trás. O grupo seguiu animado com suas bebidas até a parte externa, onde estava tudo ornamentado com tochas e uma decoração havaiana. A frente da casa era enorme. Tinha o terraço principal onde estava a piscina logo em frente. Ao lado, uma quadra de tênis servia de camping para quem não teve os quartos reservados. Mais a frente, uma pista de madeira extensa foi colocada com um bar em sua extremidade e com sofás acompanhando toda a sua extensão. Uma escada curta e larga finalizava toda frente da casa, dando passagem pra uma praia de areias claras.
- Até que aqui ta legal – comentou enquanto Joe a abraçava por trás.
- Finalmente alguma coisa agradou a rainha – comentou mordendo o lóbulo da orelha dela.
- Fazer o que se eu só gosto do bom e do melhor?! – perguntou com um ar de riso.
virou para falar com Scott, mas não achou mais ninguém.
- Ué?! Cadê todo mundo? – perguntou sem entender, olhando tudo ao redor.
- Foram arranjar coisa melhor pra fazer. Coisa que a gente também deveria fazer... – Joe comentou colando o corpo com o dela, girando-a pra ficar de frente pra ele.
- E o que você tem em mente? – a garota perguntou andando alguns passos até o meio da multidão, que dançava a luz da lua, das tochas de fogo e de algumas luzes estrategicamente posicionadas que piscavam sem parar.
- Você não tem idéia... – respondeu com um sorriso sacana, colando os lábios no dela.
O que se seguiu foi uma seção de beijos calorosos. Joe fazia questão de explorar o corpo dela com as mãos, sem ao menos se importar com o fato de estarem em público ou não. Quando pararam de se beijar, sua mão estava parada sobre a bunda dela, que tinha as mãos por dentro da camiseta dele.
- O que a garotinha lá queria dizer com balas e doces?! – Joe perguntou enquanto distribuía chupões pelo seu pescoço.
Assim que escutou essas palavras, a garota sorriu empolgada.
- Você vai ver... – falou olhando ao redor e sorrindo ainda mais ao encontrar o que procurava.
Em seguida, ela puxou o garoto pela mão até um grupo conhecido próximo à saída da pista pra praia.
- Dude! Você tem que experimentar isso! – Bob falou empolgado enquanto tragava um baseado – Maconha indiana, meu! Isso é coisa de louco! – vibrou com um sorriso débil enquanto encarava a fumaça se dissipar pelo ar.
Joe pegou o baseado da mão dele e tragou fundo, fechando os olhos. Assim que a fumaça já estava perdida pelo ar, ele voltou a tragar novamente.
- Porra! Esse bagulho é poderoso! – falou animado.
- É... Agora me devolve – Bob reclamou emburrado.
- Se vira, meu irmão. Perdeu, playboy! – falou rindo e tragando mais uma vez.
Enquanto isso falava com Demille e .
- E aí? Trouxe meus docinhos, Demille? – perguntou encarando o menino com um sorriso sedutor.
- Você acha mesmo que eu ia esquecer da minha cliente mais gostosa?! – ele perguntou secando a garota da cabeça aos pés com um sorriso sacana.
Demille era um garoto alto e de pele extremamente branca. Seus olhos tinham um tom esverdeado intenso e os cabelos escuros e lisos batiam na metade de seu pescoço. Ele usava uma regata branca com uma bermuda verde cana e sandálias Calvin Klein azul, mostrando as várias tatuagens que cobriam seu corpo. Era de uma família de industriais e vivia viajando com os pais, o que lhe dava acesso as mais diferentes substâncias já criadas.
- Você não tem jeito, dude – comentou rindo – Mais e ai?! Cadê a balinha? – perguntou pulando animada, sem sair do lugar.
- Aqui, gatinha. Pra você e sua amiguinha . Eu sei que ela manja essas coisas... – ele comentou dando algumas pílulas cor de rosa para , que vibrou.
Ele tinha um olhar impertinente e uma pose impetuosa, como se estivesse pronto pra arrumar briga. O que era bem verdade. Demille já tinha arranjado tantos problemas que seus pais eram obrigados a doar quantias exorbitantes pro colégio pra evitar sua expulsão. Um verdadeiro troublemaker.
Em seguida, ela colocou duas na boca e virou a garrafa de Absolut que tinha na mão.
- Essa noite promete... – falou com um sorriso – Vamos, lindos. Eu quero ficar louca na pista – falou puxando Bob e Steve em direção a multidão que dançava sem parar.
- Cadê a , ?! – gritou antes de eles sumirem.
- Sei lá! A está se comendo com teu irmão em algum lugar e ela sumiu! Só sei que se ela não aparecer logo, eu vou ficar com as balinhas todas pra mim! – riu alto sendo encoxada pelos dois garotos. soltou uma gargalhada enquanto roubava o baseado de Joe e dava um trago. O garoto sorriu enquanto ela devolvia seu baseado e a segurou pela cintura, próximo a si.
- E ai, Demille? Cadê a minha?! – perguntou impaciente. já segurava uma garrafa de Absolut na mão, que foi pega com Steve.
- Pra você eu trouxe essas. São o último lançamento – falou com ar de riso, entregando um punhado de pílulas azuis a ela.
- Me arranja também um desses daí – falou apontando para o baseado de Joe.
- Sem problemas. Pra você tudo, gatinha – Demille falou com um sorriso tarado.
Ela pegou a mercadoria e colocou tudo no bolso da jaqueta sob o olhar atento de Demille.
- Agora a gente vai dançar – ela falou puxando Joe pro meio da pista.
Ao chegarem ao meio da multidão, o garoto a puxou com força pela bunda enquanto tragava. sorriu sensualmente e segurou com força nos cabelos de sua nuca. Com a outra mão, que ainda segurava a garrafa de Vodka, pegou um baseado e acendeu no dele. Os dois se moviam lentamente e muito próximos. podia sentir cada músculo e cada membro de Joe pulsando embaixo de si. E aquilo a estava deixando cada vez mais excitada. A menina deu um gole de sua bebida e jogou a cabeça pra trás, sentindo o vento em seus cabelos e a língua quente de Joe percorrer toda a extensão exposta de sua garganta. Permaneceram nessa dança até a garrafa secar e seus baseados acabarem.
- Minha última tragada. – Joe falou com os olhos vermelhos, encarando o pequeno baseado em sua mão.
- Então é melhor fazer valer a pena – falou jogando a garrafa vazia no chão e tomando o baseado de sua mão.
Em seguida ela tragou tudo e jogou o resto por cima do ombro. Ela foi se aproximando do menino, que abriu a boca, pronto pra receber a fumaça. encarou Joe e negou com o dedo. Eles iam fazer do jeito dela. Assim que se aproximou o que julgava suficientemente perto, ela puxou a nuca dele em sua direção colando seus lábios. A fumaça que estava em sua boca se espalhou pela dele. O garoto agarrou a cintura dela, que o beijava com violência. Ambos sentiam suas mentes vagarem em sensações intensas e grandiosas. sentia sua cabeça girar enquanto o que ia restando da fumaça ia passando de sua boca pra dele.
Assim que se soltaram, ambos estavam de olhos fechados e tinham os lábios vermelhos. abriu os olhos lentamente e encarou o menino a milímetros dela. Estava tonta e com a vista desfocada. Mas assim que voltou a enxergar com nitidez, sentiu o coração dar um pulo dentro do peito. Por um segundo tudo o que ela viu em sua frente foram seus tão odiados e necessários olhos e um sorriso levemente debochado a encarando. A menina arregalou os olhos lentamente. Em seguida, os fechou com força. Aquele bagulho que Demille tinha trazido realmente era dos bons. Ela já estava até delirando!
- Que tal a gente ir experimentar esse sofá aí atrás? – Joe perguntou ao pé de seu ouvido, lhe atraindo a atenção.
abriu os olhos e tudo o que viu a sua frente foi Joe com um sorriso tarado. Sentiu uma ponta de decepção no peito. Era impossível estar ali, no lugar de Joe. Mesmo que por um momento fosse o que ela queria. A garota balançou a cabeça, afim de espantar os pensamentos estranhos que insistiam em lhe desconcentrar.
- Demorou – falou voltando a rir, pulando em seu colo e prendendo as pernas ao redor de seu tronco.
Mais do que depressa, o garoto foi se sentar nos sofás. Assim que se jogou lá, atacou seu pescoço. Ela tinha as duas pernas ainda ao seu redor, por onde Joe passava as mãos com força. Ele começou a subir a mão até a bunda dela, enquanto ela encarava os lábio dele com um sorriso. Assim que o beijo começou, as mãos dele foram direto para o botão de seu short. Já tinha suas mãos enfiadas debaixo da blusa bege de botões Armani, arranhando seu abdômen. Ela arrastou as unhas até a barra da blusa, pronta pra abrir os botões. Mas qualquer decisão seguinte foi interrompida quando a voz que assombrava a sua consciência ecoou pelo local.
- Hey, galera! Nós somos o McFly e vamos animar sua noite agora – falou ao microfone atraindo a atenção de - Até porque, até onde eu sei “Everybody like to party on the saturday night!” – gritou, fazendo a platéia gritar animada.
E assim a banda começou a tocar. se levantou desajeitada do colo de Joe, que gemeu indignado.
- Onde você está indo? – perguntou enquanto ela se afastava trôpega através da multidão, em direção ao palco.
simplesmente continuou andando, ignorando qualquer outra coisa e deixando seu corpo ir até onde ele achava que era certo. Seu coração batia acelerado, da mesma maneira desconhecida que batia todas as vezes que ela se aproximava de . Assim como tudo em , sua voz também a atraia como imã. Ela estava sem controle de seu corpo e de suas ações, se deixando levar pelos seus estranhos sentimentos por ele pela primeira vez. Logo que chegou em frente ao palco, encontrou e pulando e cantando animadas.
- AMIGAAAA! OLHA COMO O ESTÁ GOSTOSO! – gritou puxando pelo braço com força, a fazendo cambalear.
Mas não escutou nada do que ela falou. Assim que seus olhos chegaram a figura de , ali eles ficaram. Por algum motivo aquela visão era melhor do que qualquer outra que ela já teve. pulava animado, enquanto tocava alguma música conhecida. Seu sorriso infantil era grande e os cabelos já estavam colados em sua testa suada.
- PORRA, AMIGA! VAMO DANÇAR QUE HOJE A NOITE É NOOOSSA! – gritou com uma voz estranha enquanto fazia uma dancinha ridícula.
finalmente encarou as amigas e soltou uma gargalhada. Ambas estavam um pouco descabeladas e com os olhos avermelhados, dançando de maneira sensual e desengonçada ao mesmo tempo. ainda trazia sua fiel câmera na mão, tirando fotos de tudo e todos. Em seguida, a garota começou a dançar da maneira mais sensual que sua coordenação motora lhe permitia. Pegou a garrafa que estava na mão de e ingeriu o resto do conteúdo sem nem ver o que era. A essa altura tudo era fraco como água pra ela. Ela continuou dançando, sentindo cada batida da música pulsar dentro de si. O ritmo era contagiante e trazia certo conforto aos seus ouvidos. Como ela nunca tinha reparado no quanto eles eram bons?!
olhou estarrecida para o palco e notou que a encarava com um meio sorriso. Sentiu um formigamento na base da barriga e, automaticamente, sorriu de volta fazendo o sorriso dele se tornar ainda maior.
- Porra... O é muito gostoso! Se eu não estivesse pegando os amigos do Scott com certeza ele seria meu alvo da noite – se lamentou.
- Caralho, ! Tu ta pegando os dois? – perguntou a encarando.
Ela me olhou com um sorriso tarado. Em seguida voltou os olhos para .
- Vocês sabem que eu não me contento com pouco – respondeu dando os ombros – Sabe como é: um é bom e dois é muito melhor – respondeu soltando uma gargalhada bêbada.
se aproximou e segurou o ombro da amiga.
- Eu estou orgulhosa. Você aprendeu tudo que eu te ensinei! – elogiou emocionada.
- Eu sei! – falou a encarando, também emocionada.
, que observava as amigas, gritou pulando em cima delas.
- EU AMO VOCÊS, SUAS VADIAS! – gritou com os olhos marejados.
As outras duas riram alto enquanto as abraçava.
- E HOJE EU TE PEGO, ! – gritou mandando beijos pra , que riu piscando.
- GANHOOOOOU! – e gritaram zoando a amiga, que mandou o dedo pra elas enquanto sorria débil pra o garoto.
O show teve sete músicas. não parava de dançar, sempre dando olhadas ocasionais para . A essa hora, Joe e o resto do pessoal já estavam lá com elas. O garoto não desgrudava dela, que já nem sentia mais ele por perto, nem as mãos de polvo do rapaz. Muito menos os seus dedos dos pés...
- ! Eu quero cantar! – falou de repente enquanto a banda anunciava a saideira.
A menina a encarou sem acreditar. Depois apontou do palco pra ela sem parar.
- Você?! Cantar? – perguntou com um ar de riso.
confirmou com a cabeça, com um sorriso infantil.
- MANDA VER, PORRA! ARRASA AMIGA! VOCÊ TEM O PODER! – gritou a empurrando em direção ao palco.
Com a ajuda de Scott, que olhava a cena rindo sem acreditar, subiu ao palco ao som de palmas, gritos e assobios. , que desde que observou a mudança de atitudes dela, não desgrudou a vista da menina, esbugalhou os olhos, impressionado com ela ali em cima. Ela se aproximou dele e o segurou pela gola sussurrando o nome da música que queria cantar. Em seguida, ele lhe ofereceu o microfone e virou pros outros.
- Que merda é essa?! O que essa doida quer? – perguntou rindo.
- A gente vai tocar Cherry Bomb, The Runaways – falou empolgado – Isso vai ser inesquecível... – comentou encarando a menina na frente do microfone.
- Eu sabia que aprender a tocar essa música ainda ia servir pra alguma coisa... – comentou rindo e se posicionando.
olhava ansiosa pra os integrantes da banda, aguardando seu pedido. Assim que escutou os primeiros acordes deu o maior sorriso que conseguia. Em seguida fechou os olhos e começou a rebolar no ritmo.

Can't stay at home, can't stay at school
Old folks say, ya poor little fool
Down the street I'm the girl next door
I'm the fox you've been waiting for


Ela cantava animada, agarrada ao microfone, dançando cada vez mais sensual. O público gritava ensandecido e toda a atenção da festa se voltou pra ela em cima do palco. Finalmente as aulas de piano e técnica vocal que sua avó lhe dera serviram pra alguma coisa.

Hello Daddy, hello Mom
I'm your ch ch ch ch ch cherry bomb
Hello world I'm your wild girl
I'm your ch ch ch ch ch cherry bomb


observava a garota se apresentando, tentando se concentrar ao máximo nas notas. Mas isso estava se tornando cada vez mais difícil. Ele estava surpreso com a desenvoltura dela. Seu sorriso não parava de aumentar.

Stone age love and strange sounds too
Come on baby let me get to you
Bad nights cause'n teenage blues
Get down ladies you've got nothing to lose

Hello Daddy, hello Mom
I'm your ch ch ch ch ch cherry bomb
Hello world I'm your wild girl
I'm your ch ch ch ch ch cherry bomb

Hey street boy whats your style
Your dead end dreams don't make you smile
I'll give ya something to live for
Have ya, grab ya til your sore

Hello Daddy, hello Mom
I'm your ch ch ch ch ch cherry bomb
Hello world I'm your wild girl
I'm your ch ch ch ch ch cherry bomb


Assim que a música foi chegando ao fim, se virou pro garoto e segurou a gola de sua camisa, os aproximando.
- I’m you cherry bomb, cherry bomb, cherry bomb, cherry boooomb! – Cantou encarando ele, com um sorriso nos lábios.
tocava automaticamente, já que sua concentração estava voltada toda pra , seus cabelos molhados grudados em sua testa e sua voz hipnotizante. Assim que terminou a música, ela largou o microfone no chão.
- Eu também sei cantar pra você – falou encarando seus olhos .
Em seguia o soltou com um leve empurrão e desceu do palco. Já , continuou onde estava, com o coração acelerado e um sorriso bobo. Aquilo tinha realmente acontecido?!
A festa seguiu então ainda mais animada. bebia e se drogava cada vez mais, até chegar ao ponto de perder a noção do tempo e do espaço. Ela estava dançando com quando se deu conta de que Joe estava sumido. Ele tinha saído há uma meia hora pra arranjar mais maconha e não voltara ainda.
- Porra. O Joe sumiu! – grunhiu irritada para , olhando tudo ao redor com a vista embaçada enquanto um trance tocava extremamente alto – Eu vou atrás dele! Não sai daqui! – informou à amiga que sorriu de forma a mostrar que tinha escutado.
começou a rodar por toda pista, esbarrando nas pessoas e sentindo o mundo girar. Nem mesmo as mãos que passavam pelo corpo dela, ela sentia mais. Estava já desistindo quando avistou agarrada a , próximo ao palco. Os dois estavam sorrindo e conversavam em sussurros. tinha as duas mãos em volta da cintura dela enquanto ela mantinha suas mão ocupadas no cabelo do garoto.
- , vadia! Tu viu o Joe? – perguntou cutucando amiga assim que chegou perto.
e a encararam aborrecidos.
- Não ta vendo que ta interrompendo?! – perguntou de dentes cerrados.
- Tenho certeza que quando eu sair vocês vão se comer. Então... Você viu ou não o Joe? – perguntou fazendo uma careta engraçada e rindo em seguida – É um beeeem alto e beeeem gostoso – detalhou fazendo uma cara sonhadora enquanto mostrava o contorno de um violão com as mãos – Ops. Contorno errado – comentou com uma cara sapeca e rindo mais ainda.
- Não. Vê se ele não ta na praia... – resmungou aborrecida voltando sua atenção pra , que olhava pra com ar de riso.
rolou os olhos e seguiu desajeitada em direção a praia. Ela estava tão concentrada em se manter equilibrada em seus saltos que acabou esbarrando em alguém que passava a caminho da pista.
- Foi mal aí – falou tentando enxergar quem era.
Mas tudo o que via era uma silueta embaçada.
- Você está bem?! ?! Você ta me ouvindo?
Ao escutar a voz da silueta a sua frente, ela sentiu os pêlos de seus braços arrepiarem.
- Ah... Oi você! – falou com um sorriso débil.
encarou a garota a sua frente e não conseguiu deixar de sorrir alto. Aquela festa estava sendo realmente reveladora. Depois da apresentação e da declaração dela a ele no palco, o garoto foi até a praia refletir qual seria seu próximo passo. Mas parece que o destino queria acelerar mais ainda as coisas.
- Está indo pra onde, !? – perguntou curioso, seguindo a garota que andava bamba pelas escadas, em direção a praia.
- Pra praia... Procurar... Alguma coisa que eu não lembro... – falou parando e colocando a mão no queixo enquanto se concentrava em lembrar o que fazia ali.
Mas tudo o que ela tinha em sua mente agora era como o perfume da praia era parecido com o de . Definitivamente um bom lugar pra procurar coisas, concluiu ela. A garota voltou a olhá-lo, ainda tentando lembrar, mas logo desistiu e voltou ao seu caminho. Desceu os três últimos degraus da escada da melhor maneira que podia, mas assim que pisou na areia se desequilibrou e caiu sentada.
- ! Você está bem? – perguntou preocupado correndo na direção dela.
Mas ela apenas o olhou e começou a rir sem parar.
se abaixou na altura dela e observou se ela não havia machucado nada. Enquanto isso, ela ria cada vez mais alto. A menina já sentia o fôlego faltar e pequenas lágrimas formarem em seus olhos.
- Que noite divertida! – comentou se mexendo desengonçada na areia e voltando a rir ainda mais alto - Tem... Areia na... Minha bunda! – falava sem fôlego – Faz... Cócegas!
riu baixo enquanto tirava a sandália dela.
- Melhor evitar outros acidentes... – falou segurando a sandália em sua mão – Vem – ofereceu a mão a ela.
segurou e se levantou tentando manter as pernas firmes. Assim que se pôs de pé sentiu sua cabeça rodar mais que carrossel de parque de diversões.
- Wow! – sussurrou tentando não cair - Você sempre vai me salvar das areias más, é ?! – ela perguntou segurando no ombro dele enquanto encarava seus olhos, se mantendo um pouco mais firme.
- Sempre que for preciso... – respondeu dando os ombros, sentindo a menina nos seus braços.
Internamente, o garoto agradecia por não ter bebido muito essa noite. Assim ele poderia lembrar de tudo sempre e ter a certeza que não era uma ilusão de bêbado. o encarava cada vez mais de perto. O menino parecia tão lindo e a parte de tudo que ela estava acostumada a ver. Como se fosse limpo daquela sujeira que a cercava. Ela se aproximou mais, apertando o nariz dele.
- Você tem olhinhos tão pequenininhos, ! Parecem duas pedrinhas de vidro bem pequeninas... Assim oh!– falou com um sorriso bobo enquanto aproximava o dedo indicador do dedão – Pequenininho! – falou mais uma vez soltando uma risada – Eu quero ver o mar! – gritou apontando pro oceano extenso em frente a eles.
sorriu e começou a andar com ela até a beira do mar. A noite estava clara e com a lua cheia só no céu. Seu reflexo, assim como o de algumas estrelas solitárias, podia ser visto numa grande parte do mar, que se movia vagaroso apesar do vento que varria a praia. Os dois se aproximaram lentamente, parando só pra se livrar de seus tênis e meia, que segurou junto ao par de sandálias dela.
- Gelada! – gemeu, se encolhendo nos braços dele, assim que a primeira onda lambeu seus pés nus – Por quê? - Perguntou encarando com curiosidade.
- Porque o quê? – perguntou sem entender o que ela queria saber.
- Porque o que o quê?! – voltou a perguntar rindo.
sorriu a encarando. agora olhava pra cima distraída. Ela ainda tinha as mãos no pescoço dele enquanto o rapaz a envolvia com os braços pela cintura, sem conseguir parar de rir.
- Eu quero ir pras estrelas, ! Você me leva?! – perguntou animada.
- Claro – falou rindo – Ao infinito e além! – comentou piscando o olho pra ela e abriu um sorriso ainda maior
- Uiii! – gritou de soltando dos braços de e girando na beira do mar com os braços abertos – Eu vou pras estrelas! Pras estrelas! – gritava cada vez mais alto enquanto gargalhava.
apenas riu e foi se sentar na areia, próximo a ela. Aquilo estava sendo insano... Cada segundo que a noite seguia era mais e mais estranho e fora da realidade. era, literalmente, dele. Como ele sempre sonhou que ela seria.
- I am the egg man! Huuu! I am the egg man! Huuu! I am the Walrus! Gu gu catchu! Gu gu gu gu catchu! Gu gu catchuuu! – cantava pulando de um lado pro outro com água em seu joelho.
saltava sem ligar pra mais nada. Ela se sentia livre, sem o habitual peso nos ombros. Era seu mundo, onde mais nada importava só ela, o mar e o perfume de . Ela pulou mais algumas vezes até uma onda maior vir e a derrubar dentro d’água. Ao ver a menina encharcada e com a expressão assustada, apenas conseguiu soltar uma gargalhada. Ela tinha algas por todo corpo. Ele correu até ela rindo a plenos pulmões.
- Você ta bem? – perguntou assim que conseguiu parar de rir e tirando uma alga marinha enorme de sua cabeça e algumas em seus braços.
o encarava com um bico enorme e com uma última alga marinha enganchada no short. Seu queixo batia de frio e ela se abraçava.
- Não t-teve gra-graça - resmungou com o queixo batendo ainda mais.
- Se não fosse com você, você ia achar graça... – ele respondeu a puxando pra perto dele enquanto se livrava do novo adereço marinho dela – Vem. Vamos arranjar uma toalha e uma bebida pra você se esquentar – completou envolvendo ela em seus braços e seguindo na direção da pista, sem se importar se estava se molhando ou não.
- Hu-uu! Eu que-e-ro Wisky! – gritou levantando os braços e saindo correndo escada acima.
correu atrás dela. Quando chegara lá em cima, avistou um grupo brincando de virar com algumas garrafas de tequila. Ao reconhecer e ali no meio, ela correu em sua direção. Assim que chegou lá, puxou uma cadeira e pegou um copo que estava em frente a , virando-o de uma vez.
- Hey! Exe era meu! – reclamou bêbado.
- Era! Agora eu também quero brincar! – gritou animada ganhando um copo de .
- ! Por que você ta molhada, amiga?! – perguntou sem entender.
Essa estava com desde que o show acabou. E, como previu, eles já se engoliram várias vezes desde então.
- Sei lá! – respondeu dando uma gargalhada, dando os ombros.
- Dude! Finalmente apareceu! Quer brincar de virar?! – perguntou animado agarrado a uma garrafa de tequila assim que apareceu, se colocando por trás de .
- Não... Vê se fica quieta ai, . Eu vou pegar uma toalha – falou apontando o indicador pra ela enquanto a garota o encarava com a cabeça virada pra trás, por cima do encosto da cadeira.
- Você ta de cabeça pra baixo, ! – falou rindo.
O garoto rolou os olhos rindo e saiu em seguida. viu ele se afastar e voltou a olhar a roda. Ela estava sentada entre e , que estava ao lado de . estava sentada em seu colo. Também estavam na mesa Demille e mais três meninos que ela não conhecia.
- E aí?! Quem ta ganhando?! – perguntou virando mais um copo, sentindo a garganta arder.
- Eux clraro! – levantou o dedo com um sorriso débil e os olhos brilhando – E vou contxinuar gánhando... – resmungou enchendo seu copo e o dos outros na roda.
O garoto estava tão tonto que mais derrubava a bebida na mesa que nos copos que servia.
- Isso é o que nós vamos ver... – falou desafiadora, o encarando e se preparando pra virar.

Depois de rodar a casa atrás de uma toalha, finalmente achou uma e voltou pra onde tinha deixado . Mas o que ele viu fez seu sangue ferver nas veias.
- QUE MERDA É ESSA, DUDE?! – gritou para .

CAPÍTULO DEZ

“So why does your pride make you run and hide?

(“Então por que seu orgulho faz você correr e se esconder?)
Are you that afraid of me?
(Você está com medo de mim?)
But I know it’s a lie what you keep inside
(Mas eu sei que é uma mentira o que você guarda por dentro)
This is not how you want it to be”
(Não é assim que você quer que seja”)

, depois de um monte de copos virados e quase uma garrafa de tequila ingerida, subiu na mesa e começou a dançar. A garota rebolava até o chão sensualmente enquanto a mesa estava rodeada de gente gritando e passando a mãe nela.
- A gostosa aí ta dançando pra gente! Ela fez o perder, dude... Tem noção do quanto ela pode beber?! Mas a gente convenceu que ele dançando ia ser muito broxante. Então ela subiu pra ensinar a ele como se faz – explicou comendo a menina com os olhos.
passou as mãos no cabelo, cada vez mais nervoso.
- Quanto ela bebeu? – perguntou.
apenas apontou pra um amontoado de copinhos perto do pé dela.
- E vocês deixaram?! O que... – começou a reclamar assustado, mas foi interrompido.
agora estava tirando suas peças de roupa. Primeiro tinha tirado o casaco e o jogado pra . Agora ela tinha as mãos no cós do short, já desabotoando o botão. Os garotos ao redor da mesa gritavam enquanto falavam palavras sujas. A menina, no entanto, nem escutava. Apenas dançava enquanto tirava a roupa de olhos fechados, como se estivesse apenas ela naquele lugar.
- Anda, gostosa! Tira tudo! – gritou um dos garotos batendo na bunda dela com força, desequilibrando-a.
Isso foi a gota d’água para . Ele avançou com tudo em cima do garoto, dando-lhe um murro. O menino caiu sentado com cara de dor enquanto o encarava sentindo a mão latejar. Ele estava furioso. Sentia vontade de bater em cada um ao redor daquela mesa, por tratarem daquela forma.
- Está maluco, meu?! – o amigo dele perguntou o encarando confuso enquanto o outro tentava se levantar com um filete de sangue escorrendo do lábio.
apenas o encarou com raiva enquanto sacudia a mão dolorida, fazendo o menino se afastar com as mãos erguidas até o rosto, em sinal de rendição. Em seguida ele puxou pelas pernas. A menina cambaleou e se sentou de qualquer jeito na mesa.
- Chega de festa por hoje – falou sério, puxando-a pra perto dele – O show acabou! Se mandem! – reclamou olhando os meninos que o encaravam com raiva.
- Oooooi ! Voxê xumiu! – reclamou com a língua enrolada.
Ela mal enxergava o que tinha na sua frente e sua cabeça pendia mole sobre seu ombro. Sentia todo seu corpo dormente e não tinha mais domínios sobre seus atos e palavras. Sua mente vagava e a única coisa que ainda a mantinha desperta era o perfume amadeirado do rapaz.
- Eu fui pegar a toalha, lembra?! Era pra você ter ficado quieta... – reclamou a enrolando na toalha que levava em seu ombro.
- Maix o não xabi reboular! Eu txinha que inxinar! – explicou gesticulando exagerada, passando os braços pelo pescoço dele em seguida.
sorriu ao imaginar a cena enquanto segurava a garota nos braços ao som de protestos de sua antiga platéia.
- Fica pra outra oportunidade – falou andando com dificuldade pela multidão de bêbados.
A festa já estava no seu ápice. Várias pessoas estavam se agarrando por todo lugar, algumas até transando, sem ligar pro fato de estarem em público. Outras se drogavam e bebiam sem parar. Ao encarar tudo ao redor, apenas tinha mais vontade de tirá-la dali. Com alguma dificuldade, eles chegaram no segundo andar da casa.
- Onde é seu quarto, ?! – perguntou sentando em uma poltrona com ela no colo.
Precisava de um ar. Subir aquela escada com ela e ainda ter que desviar dos bêbados e casais calorosos no meio do caminho não era fácil. Sua testa já estava molhada de suor apesar do tempo ameno.
- É o de porta roxa com estrelinhas azuis! – falou com um olhar sonhador – Elas brilham no escuro, olha! – falou apontando pra uma janela cumprida próxima a eles.
apenas riu.
- É o jeito você ficar no meu quarto... – falou se levantando e seguindo pra última porta do corredor.
Assim que abriu a porta, ele a colocou na cama de casal no meio do quarto e verificou se estava realmente vazio. Em seguida trancou a porta e colocou os sapatos e a jaqueta dela em cima de uma das poltronas que enfeitavam o ambiente e que já tinham o tênis dele.
- Vem... Vamos tomar um banho... – falou tirando as roupas e ficando só de boxer.
A menina apenas encarava o teto concentrada em algo. Em seguida, ele tirou o short dela e a pegou no colo novamente.
- Você tem cheiro de big Mac, – ela falou rindo e enterrando o rosto no pescoço dele – É o meu sanduíche favorito... – comentou respirando fundo o local e sorrindo ao sentir um calor no peito.
- Bom saber – comentou rindo.
Em seguida ligou o chuveiro no frio. O garoto teve um pouco de dificuldade de colocá-la ali, mas logo estava lavando seus cabelos com delicadeza. Assim que terminou com eles, pediu que ela se ensaboasse.
- Pensei que você ia cuidar de mim... – reclamou pegando o sabonete.
- Eu não quero que pense que eu me aproveitei de você só porque você está assim – ele explicou – Quando eu lhe der um banho completo vai ser por que você pediu em sã consciência – comentou baixo.
Apesar disso, ela escutou e deu um sorriso tímido. É... Ele realmente não era como os garotos que ela estava acostumada a lidar. Enquanto ela se ensaboava, ele aproveitou pra fazer o mesmo. Alguns minutos depois, o menino já tinha colocado ela enrolada numa toalha deitada novamente em cima da cama enquanto vestia uma boxer seca por debaixo da toalha.
- Levanta os braços – pediu enquanto segurava uma camiseta grande dele, pra que ela dormisse mais a vontade.
- As pessoas não podem saber que eu estou aqui... – ela resmungou enquanto levantava os braços – Vira – pediu ao receber uma boxer que ele lhe oferecia.
Ela se enrolou na toalha e vestiu a peça de roupa rapidamente. Em seguida tirou o sutiã molhado do biquíni e jogou junto com a calcinha em um lugar próximo.
- E por quê?! É tão vergonhoso assim ser associada ao meu nome?! – perguntou desapontado enquanto esperava ela terminar.
O garoto sentiu uma onda fria invadir seu estômago e o desânimo lhe tomar conta. Já apenas se acomodou na cama depois de ter trocado o biquíni pelas roupas dele, enquanto ele se deitava calado ao seu lado.
- Não... – suspirou se virando entre as cobertas – Só não quero que você entre nesse mundo. Você é bom demais pra isso... – comentou antes de cair em sono profundo.
- Você também... – comentou com um sorriso triste enquanto observava ela adormecer.

Logo a manhã chegou. Junto com ela, vieram os raios de sol e a tremenda ressaca do dia anterior.
- Porra. Minha cabeça vai explodir... – resmungou cobrindo o rosto com as mãos.
Ela tentou voltar a dormir, mas a banda marchando na sua cabeça e a impedia até de fechar os olhos. Logo ela estava sentada na cama, tentando reconhecer onde estava. Ao olhar ao redor, assustou-se ao encontrar seu biquíni jogado num chão que não era o do seu quarto. A menina se olhou e sentiu o coração martelar mais ainda ao se ver com roupas masculinas. Ela olhou rápido pra cama, mas não encontrou mais nada lá. Um movimento desnecessário, visto que ela conhecia muito bem o perfume que exalava das roupas que usava.
- ?! – chamou, mas só obteve silêncio como resposta.
se levantou pegando suas coisas e seguindo pro seu quarto. Ao abrir a porta, só encontrou e dormindo profundamente na sua cama. Deduziu que deveria ter dormido com seu irmão. Ela correu pro banheiro, levando sua mala junto consigo. Não queria que ninguém visse o que ela estava usando. Elas iriam fazer perguntas das quais ela não sabia as respostas.
Enquanto se trocava, alguns flashes da noite passada vinham a sua mente. Ela e o Sr. Hoffman no salão; Ela e dançando ao som de Joe Brooks; Ela e Chase. A menina fez uma careta ao lembrar dele. Buscou na memória, mas parece que aquele tinha sido o único encontro desagradável com ele. Assim que se vestiu, resolveu ver o que tinha pra comer. Enquanto descia as escadas voltou a refletir. Ela sabia que tinha começado a noite com Joe, mas não conseguia entender como terminara com . Apesar de não lembrar nada concreto, sentia que essa escolha lhe tinha rendido uma noite bem mais agradável.
Assim que chegou à cozinha, sentiu os olhos virarem em sua direção. Até aí nada muito diferente. O problema foram os cochichos indiscretos que os acompanhavam. pegou dois pratos na pilha da mesa de almoço montada pra receber todos os convidados e se serviu de um pouco de macarrão e um fino pedaço de torta de morango. Depois pegou um copo com suco de laranja e foi se sentar em uma mesa ao lado de fora.
A varanda parecia bem mais agradável. E estranhamente arrumada pra bagunça que foi feita na noite anterior. Com certeza ia pedir à Camille o número da empresa responsável.
- Aí está a minha festeira favorita! – escutou uma voz familiar enquanto seus ombros eram envolvidos por grandes braços.
- Oi, bombom – cumprimentou o irmão com um beijo estalado na bochecha – Como foi a noite?
- Melhor do que eu imaginava. Quando você falou que essas festas estavam melhores, não estava brincando – comentou rindo enquanto colocava o prato na mesa e se sentava ao lado dela.
- Isso significa que você gostou então. Fico satisfeita – falou dando um pequeno sorriso enquanto mexia no conteúdo de seu prato.
- Pode ter certeza que sim... – concluiu com um sorriso sacana fazendo a garota rir – E você, pirralha?!
o encarou por um instante. Em seguida respirou fundo e se encostou na cadeira com os pés na mesma.
- Até onde eu me lembro... – respondeu dando os ombros.
- E o sol?! Não vai aproveitar a raridade que é ele aparecer nessa época?! – estranhou ao notar as roupas dela.
- Nah... Quem sabe mais tarde eu agracio as pessoas com minha bela visão de biquíni... – respondeu piscando o olho.
Scott riu alto enquanto comia a montanha que tinha em seu prato. Parece que todo o apetite da família tinha ido pra ele. Enquanto ele comia, aproveitou pra varrer os olhos pelo local com mais atenção. A pista agora estava limpa e com algumas cadeiras de sol espalhadas. Junto com elas algumas mesinhas ondeestavam Smartphones de onde a pessoa deitada podia fazer o pedido do que quisesse. Algumas pessoas já estavam lá, aproveitando o sol tímido que pairava no céu. No canto do terraço onde eles estavam, tinham outras mesas espalhadas, mas uma em especial lhe prendeu a atenção.
estava sentado com seus amigos, rindo alto enquanto comiam um absurdo. Ele parecia bem feliz ali, com os cabelos jogados no rosto devido à brisa morna. suspirou contrariada tentando lembrar de mais algum fato da noite anterior, mas o branco em sua mente só servia pra deixá-la ainda mais estressada. Ela teria ficado horas ali, apreciando a vista e vasculhando sua memória fraca, se não fosse interrompida por e .
- Oi, ! Você está bem?! – perguntou com uma expressão hesitante. a olhava com medo, passando de uma perna pra outra, inquieta.
- Com um pouco de dor de cabeça, mas estou sim. Por quê? – perguntou confusa olhando de uma pra outra.
- Você não está com o seu telefone!? – voltou a perguntar.
- Até estou, mas ele descarregou ontem... Gastei a bateria tirando fotos – explicou dando os ombros.
- Nesse caso, acho melhor você olhar o meu. O The Pretender atualizou. E acho que dessa vez você não vai gostar... – explicou fazendo uma careta.
pegou o celular da mão da amiga, enquanto elas sentavam-se ao seu lado. Na tela pairavam 3 links de acesso. À medida que lia o conteúdo deles, seu sangue foi esquentando e seu rosto foi avermelhando de ódio. Scott, vendo a reação da irmã, logo se aproximou e começou a ler junto com ela, por cima de seu ombro.

“Meus queridos diabinhos! Vocês viram a disputa pela dama hoje?! Uau... Como sempre, a nossa rainha criando intrigas... Mais uma vez Hot e o Deus Peterson foram vistos duelando pela dama. Mas dessa vez tiveram que manter o nível já que estavam rodeados da mais alta e selecionada sociedade londrina. Primeiramente, a menina foi vista dançando coladinha com e logo após, com Chase. Coisa que nós, reles mortais, só podemos sonhar em fazer. Quem também estava toda agarradinha com um músico foi a . Ela e pareciam até um casalzinho de namorados apaixonados. Eca... Me deu ânsia... E para apimentar ainda mais a situação, nos presenteou com uma apresentação reveladora de “Cherry Bomb”. Foi só eu que notei que a música parecia dedicada a um certo membro da banda?! Parece que ela tem um novo preferido, não?! E desde quando a rainha também é cantora?! Se eu não estivesse tão bêbada, com certeza faria bem melhor que aquilo... The Pretender Star.”

“Uau! Parabéns a Camille! Não é que ela subiu no nosso conceito?! Que festão... Em pensar que eu imaginava que isso iria acontecer apenas quando ela fizesse um longo e milagroso tratamento capilar... Mas vamos ao que interessa: quem viu a deliciosa e excitante performance da nossa rainha?! Apesar de “Cherry Bomb” ter sido incrível e reveladora não é dela que estamos falamos. Os privilegiados que ainda não estavam drogados demais ou bêbados ao extremos, ou ainda que não estivessem ocupados demais comento alguém ou sendo comido, puderam ver algumas peças de roupa voando pela pista externa enquanto a vossa majestade dançava igual a prostituta de boate de luxo. Embora excitante, a performance foi breve, já que o empata foda resolveu interrompê-la no ápice. Será que ele foi ganhar uma apresentação particular?! Afinal... O que tem entre esses dois!? Bom... Se não viu ai em baixo estão duas fotos pra provar. Eu não sei vocês, mas depois dessa eu tive que ir me aliviar... The Pretender Boss.”

“E aí vai a última atualização da festa! Quem pensou que tudo que tinha que acontecer já tinha acontecido vai se surpreender agora. Preparem-se para o choque, meus amados súditos! Algum informante conseguiu uma foto reveladora. Agora vocês vão poder confirmar o que houve após a apresentação mais sexy da noite. Parece que teve mesmo uma apresentação particular... E essa veio acompanhada de uma comemoração bem intensa... se o autor da foto quiser se identificar, nós ficaríamos gratos de lhe presentear de alguma forma. Se bem que, levando em conta o conteúdo da foto, é bem mais seguro se manter no anonimato. Se preparem aspirantes a realeza: a Tsuname O’Donnel está prestes a varrer está praia... The Pretender Queen.”

Junto com as mensagens, vinham fotos. Na primeira tinham três: uma de dançando com , outra com Chase e uma dela em cima do palco. Na segunda, duas: uma dela rodando a jaqueta por cima da cabeça com uma mão e a outra segurando uma garrafa de Whisky e outra com as duas mãos no short, pronta pra tirar. Em ambas ela tinha os olhos fechados e um sorriso malicioso no rosto. Mas a foto que realmente a tirou do sério foi a terceira. Era ela e dormindo. Juntos. Numa mesma cama. O rapaz tinha a boca aberta e estava confortavelmente esparramado na cama completamente descoberto, o que mostrava a boxer preta que ele usava apenas. Já estava com o lençol na cintura e tinha uma expressão serena no rosto, enquanto seu braço estava jogado sobre o tronco do garoto. No canto da foto podia ser visto seu biquíni jogado ao chão.
, assim que terminou de ler, jogou o telefone de com violência na mesa.
- QUEM FOI O FILHO DA PUTA QUE PUBLICOU ISSO?! – gritou em fúria.
Sentia seu coração bater acelerado e uma onda de ódio percorrer seu corpo, a fazendo tremer.
Todos que estavam próximos olharam pra ela, assustados. encarou cada um de volta, mas de nada adiantou. Pelo contrário, agora os burburinhos estavam cada vez mais altos. Ela então empurrou a cadeira pra trás rudemente, derrubando-a. Em seguida marchou até a mesa de . Cada movimento seu era observado atentamente por todos. Assim que se aproximou pode ver o garoto a encarando de forma relutante.
- A gente precisa conversar. Agora – ordenou sentindo os olhares de todos na mesa sobre ela.
Em seguida caminhou em direção a praia. bufou bagunçando os cabelos. Sabia que a bomba ia sobrar pra ele. Só restando uma alternativa, ele se levantou e a seguiu.

’s P.O.V.

Eu nunca me senti tão humilhada e tão invadida na vida. Quem essas pessoas pensam que são pra tirarem fotos da minha intimidade?! Ainda por cima quando eu estava tão bêbada quanto nunca estive! PORRA! Quem eles pensam que são?! Uns merdas de uns paparazzi?! Isso é a vida real e não um vídeoclip da Lady Gaga!
Continuei caminhando até descer para a praia. A areia no meu pé sempre me deu uma sensação relaxante, acalmando-me um pouco. Só um pouco. Eu não queria parar. Não conseguia encarar aquelas pessoas! Elas me olhavam com aqueles sorrisos cínicos, como se tivessem descoberto meu ponto fraco, como se quisessem me transformar em cinzas. Caralho... Quando eu dizia que esse povo era invejoso não tinha idéia! Mas eu vou descobrir quem foi o filho da puta que publicou essa merda. Ou eu não me chamo O’Donnel.
Em nenhum momento da minha fuga eu olhei pra trás. Sabia que ele estava lá. Apesar de não gostar dele, eu tenho que admitir que sempre foi honesto e não ia me deixar sem explicações. O que eu não entendo é como eu tive coragem de transar com ele! Não me entenda mal... Ele é um puta de um gostoso sim, mas eu tinha o Joe na minha mão. Meu tipo perfeito: beija bem, gostoso e com os dias contados no meu país.
- Será que dá pra parar!? Daqui a pouco a gente chega em Londres! – gritou com a respiração cortada.
Eu parei sem virar pra trás. Só então pude ver como tinha me distanciado, já que tentava recuperar o fôlego enquanto sentia meu corpo quente.
- Pronto. A gente já está longe o suficiente daqueles idiotas. Agora pode me perguntar o que quiser – ele falou aborrecido.
- A gente transou?! Você abusou de mim? Porque eu não me lembro de quase nada... – falei direta, ainda de costas.
Ele com certeza não seria o primeiro. E em outra ocasião eu não ligaria... Mas era justamente o fato de ser tão importante pra mim se ele transou comigo ou não que me deixava ainda mais irritada.
- Como é?! Eu, abusar de você!? – perguntou incrédulo.
Apesar de não vê-lo diretamente, eu podia sentir seus olhos cravados em mim, causando-me uma onda de calafrios.
- Eu nunca faria nada que você não quisesse! Eu não sou do tipo que usa garotas bêbadas pra meu bel prazer! Isso seria uma canalhice sem tamanho! – ele falou cada vez mais nervoso – Isso é coisa do imbecil do Chase, não de mim! – resmungou ofendido.
Eu esperava impaciente a resposta concreta, mas no fundo sabia que se a gente tivesse transado não tinha sido nada forçado. Não me pergunte por que, mas eu sabia que ele nunca faria algo assim. Eu apenas queria uma confirmação.
- Você realmente não lembra de nada na noite anterior? – ele perguntou com mágoa.
Respirei fundo enquanto voltava a vasculhar minha memória.
- Quase nada. Acho que nunca bebi ou usei tanta coisa como ontem – confessei me abraçando.
Agora o vento estava mais frio e o sol já era encoberto por algumas nuvens cinza. O clima ameno estava mudando e parece que ia chover a qualquer momento.
- Isso eu pude perceber pessoalmente – ele comentou amargo – Mas não se preocupe. Eu só cuidei de você e não toquei um dedo sequer em você sem sua permissão. Eu já disse que não sou um crápula aproveitador de mulheres. Eu tenho princípios – respondeu - E de nada.
Certo alívio percorreu meu corpo enquanto eu escutava . Ele realmente tinha princípios. Virei-me e, ainda sem encará-lo diretamente, fiz algo que era inédito até pra mim.
- Hum... Obrigada – falei sem jeito – Eu sei que se fosse qualquer outro teria feito algo comigo sem minha permissão – conclui sentindo o sangue subir para minhas bochechas.
Ele permaneceu em silêncio, incomodando-me. Não sei quanto tempo durou, mas já estava me deixando nervosa.
- Nossa... Por essa eu não esperava... – o escutei falar divertido.
Fiz uma careta, ainda me abraçando e encarei o oceano. Apesar do céu nublado, aquela ainda era uma vista linda. O mar estava revolto e o céu acinzentado. Olhar toda aquela água me trazia paz. Era bom estar ali, só com ele. Mesmo não querendo aceitar, no fundo eu sei que ele é a melhor companhia que eu poderia ter agora. A mais real e sincera de todas.
- Porque você perde seu tempo comigo, ? – perguntei ainda encarando o horizonte – Eu só te maltrato, sou grossa e mal educada. Você devia manter uma distância segura de mim.
Eu o ouvi suspirar e senti ele se aproximar até parar ao meu lado.
- Você não devia pertencer a esse mundo...
- Você me disse algo como isso ontem – ele comentou.
- Então você devia escutar. A bêbada costuma ser a mais sincera – falei fazendo uma careta.
- Que bom – ele comentou soltando um riso baixo - Um dia você vai entender a minha escolha. Na realidade, a hora está mais perto do que eu imaginava... – respondeu com um sorriso misterioso.
Finalmente virei meus olhos em sua direção, curiosa com sua resposta. E a sua visão fez meu coração batucar como nunca tinha batucado antes. Como eu nunca tinha reparado nele, afinal?! O pouco sol que escapava das nuvens refletia em sua pele clara e nos seus cabelos, que eram jogados em seus olhos pela brisa. O perfil de seu rosto parecia esculpido minuciosamente, desde a curva do nariz até seu pescoço esguio. Um sorriso doce pairava no canto de seus lábios, que estavam vermelhos, assim como suas bochechas, devido a breve corrida. Seus olhos pareciam capturar e refletir toda a vida e a luz ao seu redor, me transmitindo uma paz inexplicável. Era como os raios de sol naquele tempo sombrio, afastando toda a escuridão. E pela primeira vez, eu não quis parar de olhá-lo ou me arrependi de ter feito. Eu precisava daquilo, antes de ser afogada pelos meus próprios medos.
- Não doeu agradecer uma vez, não? – perguntou com um ar de riso.
- Não vou dizer que foi de meu total agrado – resmunguei – Mas foi necessário.
Nós voltamos a ficar silenciosos, apenas nos olhando.
- É tão ruim assim deixar que os outros se aproximem de você? – perguntou, quebrando o silêncio pela segunda vez.
Encarei-o surpresa. Eu não esperava pela pergunta.
- Co-como?
- Por que você impede os outros de ajudarem? Seus olhos estão sempre tão escuros, como se carregassem uma dor incrível, mas você se recusa a receber ajuda. Eu só queria entender o porquê disso. Você só afasta os outros das maneiras mais diversas, se fechando nessa fachada pobre e vazia que você construiu – ele confessou bagunçando o cabelo com a mão, assim como fazia quando estava nervoso.
- Você não entenderia – falei me sentando na areia úmida.
- Tente. Eu posso ser mais inteligente do que pareço – pediu com um sorriso amigável – E eu acho que já provei que também posso ser de confiança.
- Tente entender, . Tem certos demônios que só eu posso domar. E certas dores que só eu posso sustentar. Não seria justo com os outros. Até porque elas são minhas e é meu dever carregá-las – tentei explicar sentindo a velha bola na garganta.
Mais uma ventania fria veio, fazendo meu corpo tremer.
- Toma – falou tirando seu casaco e estendendo na minha direção.
- Não precisa. Eu já lhe dei trabalho demais pra uma vida – disse envergonhada.
- Para de doce e pega logo o casaco – falou meio contrariado, rindo – Como você é cabeça dura... – reclamou ainda rindo.
- Faz parte do meu charme – comentei dando os ombros, aceitando o casaco.
Quando o vesti pude sentir o perfume de que tanto me acalmava e que era levado pelo vento na direção contrária da minha. Involuntariamente, respirei fundo e fechei os olhos, aproveitando a fragrância, deixando que ela entrasse em cada poro do meu corpo.
- Desculpe se ele estiver fedorento, mas eu tenho quase certeza que era um dos poucos que ainda estava limpo – falou envergonhado.
- Não... Dá pra aguentar – comentei sentindo as bochechas esquentarem por ele ter notado meus movimentos.
- Sabe , se você fosse mais você às vezes, acho que parte dessa dor ia aliviar – ele comentou me olhando – É só deixar as pessoas se aproximarem mais um pouco. Não ia te matar.
- E o risco de sofrer mais ainda também ia aumentar – completei – Eu já estou muito bem com minha bagagem pra querer aumentá-la – comentei fazendo uma careta.
apenas me encarou sacudindo a cabeça negativamente.
- Como eu queria poder te ajudar de algum modo. Se você soubesse... – ele comentou com uma expressão de dor.
Respirei fundo e dei um sorriso triste.
- Você já está ajudando. Por mais incrível que pareça, você é a única pessoa que consegue arrancar essas informações de mim – confessei.
- Me sinto mais feliz então – ele falou sorrindo.
Acho que esse foi o sorriso mais sincero que eu já recebi na vida. Ele sorria com os olhos, que brilhavam intensamente. Era puro como um sorriso de uma criança. Era lindo.
- Sabe... Eu nunca imaginei que um dia eu ia conversar civilizadamente com você – ele comentou rindo.
- Digo o mesmo. Mas a vida às vezes nos surpreende – conclui rindo com ele.
- Você devia se mostrar assim aos outros. Você é tão mais bonita sendo apenas a verdadeira disse olhando dentro de meus olhos, como se quisesse enxergar através deles.
- Eu prefiro guardar ela pra quem realmente vale a pena – suspirei com um sorriso tímido – Ela é muito sensível e acredita muito fácil nas pessoas. E qualquer dor pra ela é mil vezes mais intensa.
- Ela também tende a ser bem dramática... – ele falou rindo e me empurrando de leve com o ombro.
- Idiota... – resmunguei rindo e empurrando de volta.
- Mas é bom saber que eu tenho a honra de conhecê-la. Avise a ela que ela já tem um amigo pra vida toda.
- Pode deixar – respondi sentindo o coração esquentar – É melhor a de fachada ir indo. Ela ainda tem que comer e avisar ao cabeça de vento do irmão dela que ela ta viva – falei olhando o relógio.
se levantou e estendeu a mão, ajudando-me a levantar. Assim que fiquei em pé em frente a ele, senti uma vontade incontrolável de abraçá-lo. Olhei pra baixo envergonhada por sentir tudo isso, alisando meu braço esquerdo. Como se lesse minha mente, abriu os braços em minha direção.
- Anda, acho que a gente merece selar nossa nova amizade com um abraço – ele falou com um sorriso infantil.
Ainda envergonhada, eu me aproximei. Assim que senti seus braços em volta da minha cintura, passei os meus ao redor de seu pescoço e me prendi ali. Apesar de não ser muito mais alto que eu, ainda me deixava na ponta dos pés. Enterrei meu rosto no pescoço dele e respirei fundo o seu perfume, seu cheiro. As mais diversas sensações nasceram no meu coração. Mas a maior de todas me deixou perturbada. Era uma sensação que, a partir daquele momento, eu já tinha selado o meu destino. E que era inevitável tentar mudar o curso das coisas.

CAPÍTULO ONZE

“Lose your clouths and show your scars
(“Perca suas roupas e mostre suas cicatrizes)
That's who you are”
(Isso é quem você é”)

- Nossa... Que fim de semana foi esse?! – Scott comentou assim que chegaram em casa.
Seus amigos já tinham seguido pra o outro continente. Já ele ia na manhã seguinte.
- Eu falei que você não ia se arrepender, Bombom. Eu sou esperta, conheço as coisas... – se gabou.
Os dois deixaram as coisas na porta da cozinha e seguiram pro quarto de Scott. Assim que passaram pela porta do quarto de , um latido fino foi ouvido.
- Meu xuxuzinho! – avançou em direção ao filhote, que abanava o rabo e pulava em sua perna, hiperativo.
- E ai, pulguento? – Scott falou esfregando a mão na cabeça dele, enquanto o cachorro latia feliz pela atenção que recebia.
- Ele não é pulguento, seu besta. – reclamou, pegando-o no braço, enquanto mostrava a língua pra o irmão. – Ele é o tesourinho da mamãe! – falou encarando o cachorro com um sorriso bobo.
- Sabe que ele parece com o pai?! – Scott comentou rindo enquanto se jogava na cama. – Babão, besta e sempre balança o rabo quando te vê...
- Para Scott... – pediu com um sorriso mínimo, tentando segurar a gargalhada que se formara em sua garganta.
- Ui! Está defendendo o namoradinho novo, é?! – caçoou a menina.
sentiu a bochecha e o pescoço esquentarem.
- Não é nada disso! Você gosta de inventar coisa, né?! – reclamou nervosa, sem encará-lo. – Eu só não acho justo com o coitadinho do meu xuxuzinho aqui... – completou abraçada ao cãozinho.
Scott encarou a irmã na porta do seu quarto, toda sem graça e sorriu. Finalmente.
- Vem cá, pimpolha. Senta aqui do meu ladinho. – falou batendo com a mão na cama. sorriu, soltando o cachorro no chão e sentando no lugar indicado.
- Isso foi muito gay, Scott. – comentou rindo.
- Cala a boca... – reclamou também rindo. - Como você está? Falou com o ? - perguntou a abraçando pelos ombros.
- Uhum. Foi tudo esclarecido. Ele só cuidou de mim e eu acabei dormindo por lá mesmo... Acho que não consegui identificar meu quarto. – comentou fazendo uma careta.
- Hum... Ele não se aproveitou de você, né? – perguntou desconfiado, olhando-a de rabo de olho.
- Não! Claro que não! Ele não faria uma coisa dessas... – defendeu.
Scott riu baixo.
- é um cara legal...
- É sim. Mais do que eu esperava. – comentou encarando as mãos, enquanto mexia no anel que usava, nervosamente.
- Sabe... Ele daria um ótimo namorado pra você! Ele parece se importar com você. De verdade. – falou como quem não quer nada.
fez uma careta.
- Eu não namoro. Você sabe disso. – falou. - Acho essas babaquices de amor eterno e namoros românticos uma besteira e uma mentira. –comentou com um sorriso amargo.
Scott suspirou.
- Eu sei... Só presta atenção no que está na sua frente, para você não se arrepender mais tarde. E não se afaste dele. Eu confio nele e sei que ele vai cuidar de você quando eu não puder. – falou se levantando e dando um beijo estalado na testa dela.
- Nha... Eu já disse que não preciso dessas coisas. Eu já tenho você pra cuidar de mim! – respondeu com um sorriso infantil.
Scott riu enquanto rolava os olhos. -
Vou tomar banho. Se quiser, fica aí deitada me esperando. – falou enquanto se encaminhava pro banheiro.
riu alto e se jogou com tudo na cama, quicando baixo. Enquanto escutava Scott cantar desafinado no chuveiro, pensou no que ele disse. Será que ela e ?! Não! Ela simplesmente não acreditava nisso. Mas apesar de não acreditar em sentimentos assim, sabia que alguma coisa maior a ligava a . Ela só tinha medo de descobrir o que era.

- E mais uma semana tediosa começa... – reclamou enquanto elas sentavam embaixo do carvalho.
Faltavam alguns minutos pra aula começar e as quatro resolveram esperar lá, já que o dia estava mais ensolarado do que o normal.
- Já, já acaba o ano, . E ai nós estamos livres pra fazer o que quisermos! – comemorou.
- Só se for vocês! Até parece que meu pai vai me deixar fazer o que eu quero. Ela já deixou bem claro que quer que eu me forme em relações internacionais para cuidar das empresas. – reclamou com uma careta. – Eu lá quero isso?! Eu quero mesmo é mexer com moda e fotografia... Eu gosto tanto. Sei que tenho jeito pra coisa! – completou com um sorriso empolgado.
- A gente também sabe... Mas qual de nós é doida de ir contra o carrasco do seu pai?! – perguntou encarando as amigas.
- Eu só sei que quero sair daqui. Já tenho tudo esquematizado com Scott desde que éramos pequenos. Nós vamos pra um lugar bem longe, onde nós dois possamos viver livres e fazendo o que bem entendermos. – contou, enquanto sorria ao relembrar todas as conversas a respeito desse assunto.
- Nesse caso eu vou com vocês. Deus me livre de continuar aqui... – reclamou fazendo uma careta.
- Eu vou é pra Hollywood. Vou ser uma atriz famosa e viver sendo seguida por paparazzi! – falou com uma expressão sonhadora.
As amigas riram do seu comentário.
- Vocês vão me abandonar aqui mesmo?! Eu vou ficar só, atolada nesse buraco que a gente vive?! – perguntou dramática.
- Eu nunca ia deixar você só, linda.
As quatro, que como sempre estavam alheias a todos ao seu redor, olharam assustadas pra cima, onde três pessoas faziam sombra sobre elas. - ! – vibrou ao reconhecer o dono da voz.
O garoto abriu um sorriso doce, enquanto se jogava nos seus braços.
- Eu sabia que você não ia me decepcionar! – falou o encarando com os olhos brilhantes, enquanto ele beijava sua testa, já com os braços envolta de sua cintura. – Viu, suas desalmadas?! Eu não preciso de vocês! Podem ir que eu vou ficar muito bem. – disse mostrando a língua a elas.
- Vai nessa... Um amor pode ser passageiro, mas as amigas são pra sempre! – comentou rindo.
- Um, dois, três... Está faltando um. Cadê o ? – perguntou ao notar e ao lado de .
- Não sei... Deve está por ai cantando alguma garota. – comentou dando os ombros.
- Hum... – resmungou sentindo um desconforto.
Ela não tinha gostado da resposta. Queria ver . Estava meio deprimida por causa da volta de Scott a faculdade e só um sorriso de ia espantar os pensamentos que a perturbavam. Um sorriso como amigo claro... Ou algo assim. E pra variar toda essa confusão interna refletia em seu corpo. Sentiu o café preto que tinha tomado há alguns minutos se remexer em seu estômago, como se tivesse criando vida própria.
- E o que vocês dois estão fazendo parados aí? Admirando a paisagem? – perguntou enrugando o cenho.
- A paisagem realmente é um espetáculo, mas nós não viemos para isso. – falou lançando um olhar divertido a , que sorriu.
- Eu vou dar uma festa esse fim de semana, para comemorar alguma coisa que eu ainda não sei o que é, e vocês estão mais que convidadas. – chamou sorrindo animado. – Música de primeira, muita bebida e gente bonita. Não tem como recusar.
- Conheço essas suas festas, . Acho que a gente vai agraciar vocês com nossas presenças. – falou o olhando de cima a baixo. – Espero que valha a pena.
- Você não vai se arrepender... – respondeu com um sorriso sacana.
continuava alheia a conversa. Era melhor não ter aparecido, afinal ela ainda não sabia como tratá-lo depois dos últimos acontecimentos. Eles eram amigos, certo?! Então porque ela ficou estranha ao escutar sobre ele e outras garotas? Aquilo era confuso demais pra sua cabeça já cheia de problemas... Seu estômago já começava a doer e ela sentiu o gosto amargo do café em sua boca.
- Eu vou indo. Vejo vocês na sala. – se despediu, rapidamente, com a mão sobre a barriga.
não esperou as amigas responderem e seguiu a passos apressados em direção ao banheiro mais próximo. Aquele horário era sempre o mais vazio, já que todos vinham direto de casa e o que tivessem que fazer, preferiam fazer logo lá. O que ela não notou, foi um par de olhos que acompanhou cada movimento seu. A menina jogou as coisas no piso de mármore, da última cabine do banheiro, já sentindo a costumeira queimação na garganta. Sem tempo de fechar a porta, apenas ajoelhou-se segurando os cabelos com uma mão e tentando se apoiar no acento do vaso com a outra. Segundos depois, o gosto amargo invadiu sua boca, enquanto seu café da manhã era despejado no vaso. O processo se repetiu mais duas vezes, até ela sentir uma dor aguda no fundo do estômago e não conseguir regurgitar mais nada a não ser sulco gástrico. respirou fundo, sentindo uma lágrima solitária deslizar por sua face... Era o que ela mais odiava em vomitar.
- É melhor eu ir. Se as meninas chegarem antes de mim na sala vão desconfiar... – concluiu se levantando e dando descarga. Logo ela estava entrando na sala de latim e, pra sua sorte, apenas os nerds de sempre estavam lá.
As aulas passaram rápidas e logo o sinal tocou, informando a hora do almoço. Os alunos corriam apressados pelo corredor, famintos e barulhentos. Mas uma pessoa se sentia o oposto: caminhava lentamente pelo corredor, sentido o estômago dolorido e com os pensamentos embaralhados. Para ela, a ideia de ter alguém, de depender de alguém que não tivesse um laço sanguíneo, era impossível. Assim como amar alguém a ponto de depender de cada movimento, de ter sua vida atada a dela. Era inconcebível e uma tremenda mentira. Ainda assim, as palavras de Scott teimavam em perturbá-la, deixando-a ainda mais silênciosa, presa em suas reflexões. Apesar de curto, o caminho até o refeitório acabou sendo mais longo que o de costume. Algumas pessoas passavam e a olhava com curiosidade, afinal, não era normal a rainha andar sem nenhuma seguidora. E apesar de estar sempre tão atenta a tudo ao seu redor, ela simplesmente deixou passar, como se ela estivesse só naquele local. De certa formam era daquela forma que ela se sentia. Ela sempre sentiu. Assim que achou a mesa em que ela e suas amigas sempre sentavam, a garota se acomodou, pegando apenas uma garrafa de água no caminho.
- Para você, fofolete. – falou empurrando um copo com um líquido levemente esverdeado. Junto com ele vinha uma margarida com um bilhetinho verde preso a ela.
- O que é isso? – perguntou erguendo as sobrancelhas enquanto se sentava.
- Deixaram aqui. E o bilhete tem seu nome. – respondeu. – Anda... Abre logo esse cartão! – pediu curiosa.
segurou a flor na altura os olhos com um meio sorriso. Sempre amou margaridas. A maioria das pessoas gosta das flores mais raras ou as mais caras, mas ela achava incrível a simplicidade e o encanto daquela flor. As pétalas finas e sedosas e o caule esguio. Ela demonstrava o que a sua avó sempre lhe dizia: que o menos, é mais. E que as maiores belezas, às vezes estão escondidas nas mais singelas coisas.
No bilhete, as seguintes palavras estavam escritas:

“Nas coisas mais inesperadas, é que encontramos as mais belas.
Assim é você. Assim é essa flor. Sua flor.
Espero que goste do suco... Ouvi dizer que é o seu favorito.”

Ao ler o bilhete caprichosamente escrito, um sorriso foi surgindo. Tímido. Acanhado. Mas fora o mais real que ela tinha dado em muito tempo. Sentiu um calor bom no peito, contagiando cada canto de seu corpo.
- Abacaxi com hortelã. – comprovou dando um pequeno gole. -
Que coisa mais romântica! – disse encantada ao ler o cartão. e leram por cima do ombro dela, enquanto encarava a flor em seus dedos.
- Esse foi o presente mais bonito que você já recebeu! – concluiu com um sorriso.
- Quem será que mandou?! Não sabia que essa escola guardava uma alma tão sensível... – comentou ao sentar no seu lugar. – Quem me dera receber algo assim! – suspirou sorrindo.
- Eu realmente não sei. – comentou olhando ao redor.
Nada parecia diferente. Nenhum olhar ansioso ou um sorriso nervoso em sua direção. Não fora os que já eram de costume.
- Eu tenho até receio em saber... Vai que é de um desses góticos estranhos que parecem não tomar banho. Ia estragar todo o encanto... – comentou bebendo mais um gole de suco.
O liquido parecia atuar como um remédio, aliviando a dor.
- Será que foi o Chase?! – indagou, observando o garoto que parecia se divertir com seus amigos numa mesa próxima.
fez uma careta.
- Não... Aquele ali é imune a gentilezas. Ele nem deve saber o que é isso. Na realidade a única coisa que ele sabe fazer é contar vantagem. Só assim pra manter um ego daquele tamanho... – falou com um sorriso debochado.
- Olha quem fala... – comentou com um sorriso, mas fingiu não escutar. Não estava pra piadinhas.
- Então eu realmente não sei... Seus admiradores são muitos, mas não consigo imaginar quem poderia ser romântico para preparar isso. – continuou.
apenas concordou com a cabeça, voltando a encarar a flor. Ela podia não saber quem mandara o agrado, mas seu coração tinha um pequeno desejo de quem poderia tê-lo feito. Do outro lado do salão, os mesmos olhos que a acompanharam mais cedo observavam a garota discretamente, mas agora um sorriso de satisfação os acompanhava.
permaneceu todo o almoço quieta, apenas observando o presente que ganhara. Suas amigas também não estavam muito falantes, perpetuando o agradável silêncio que ela iniciara. Mas esse silêncio foi quebrado por quatro jovens barulhentos que se aproximaram um pouco antes do sinal tocar.
- Oi, meninas! – falou, cumprimentando cada um a com um beijo no rosto e dando um selinho em .
riu ao observar as bochechas da amiga avermelhar. Era bom ver ela feliz. Mesmo que fosse por algo que ela não acreditasse que fosse durar.
- Vim confirmar sua presença na minha humilde festa, O’Donnel. – falou puxando uma cadeira e sentando ao lado de .
fez o mesmo, sentando entre e . Já permaneceu em pé, atrás de , enquanto ela mexia carinhosamente em suas mãos.
- Eu já fui há algumas festas suas e de humildes elas não têm nada, ... – respondeu com um sorriso, enquanto alisava as pétalas da flor em suas mãos –... mas se você faz tanta questão que eu vá, não vou lhe negar o prazer da minha companhia. – respondeu finalmente, rindo.
Uma risada baixa foi escutada por seus ouvidos, fazendo o cabelo de sua nuca arrepiar.
- Sempre modesta...
Um pequeno sorriso brotou em seus lábios enquanto ela ainda encarava a flor.
- Oi, . – cumprimentou o garoto.
Assim que o olhou nos olhos, sentiu cócegas em seu estômago. puxou uma cadeira e a virou, sentando com uma perna de cada lado e os braços apoiados no encosto.
- Bela flor. – comentou apoiando o queixo nos braços enquanto olhava a menina.
- Não é?! É minha favorita. – disse com um sorriso satisfeito. – Só não sei quem mandou. Você tem um palpite? – perguntou franzindo o cenho.
- Talvez... – ele respondeu a encarando com um meio sorriso.
permaneceu encarando , o nervosismo começando a incomodá-la. Em sua mente, ela não parava de se questionar se tinha sido ele. Já estava tomando fôlego para fazer sua pergunta, quando o sinal tocou. Junto com o sinal, um apito nos celulares foi ouvido.
- Nova mensagem do sitezinho de merda... – comentou sem paciência, enquanto pegava seu celular pra ler.
Assim que abriu a mensagem, se levantou e se pôs por trás dela.

“Será que o amor está no ar? Depois do conturbado fim de semana, nossa rainha parece que já está mesmo em outra. E dessa vez foi mais que rápida... Em menos de uma semana, foi vista na companhia de três gatos diferentes, e parece que quem ganhou o prêmio foi o nosso baixista loiro e apetitoso. Hoje o fim do almoço foi recheado de olhares e sorrisos. Mas a pergunta de um milhão de dólares de hoje é: será que o agrado que a vossa majestade recebeu foi do nosso baixista? Porque convenhamos... Ele não é muito sensível para esse tipo de presente. Então fica aí mais uma perguntinha: Quem será o admirador secreto? Será ele seu próximo brinquedo? Façam suas apostas... The Pretender Queen.”

bufou e jogou o celular no bolso. Uma pontinha de desapontamento lhe perturbou. Se o The Pretender não afirmava que era , então com certeza não era ele. Se tinha uma coisa que ela sabia, era que eles não iam publicar aquelas informações, arriscando sua reputação, sem ter algo de concreto naquilo.
- Incrível como essas pessoas pensam que me conhecem... Não acredite em tudo o que eles falam! – comentou fazendo pouco caso. – Até porque no fundo, você já sabe quem mandou. – sussurrou no ouvido dela.
arrepiou-se e sentiu sua boca seca quando o hálito quente dele tocou sua pele. Ela fechou os olhos, tentando se controlar. A situação já estava ficando ridícula e tinha que parar. Assim que o conseguiu, se virou pra tirar satisfações, mas ele já estava longe.
- Merda... – resmungou se levantando e seguindo sem paciência para sua próxima aula.

Durante toda semana, seus dias praticamente se repetiram. Sua aparecia já estava se tornando abatida e ela andava mais pálida que de costume. Não dormia bem à noite e passava o dia desatenta as coisas ao seu redor. Tudo isso somado, só resultava em uma coisa: suas crises nervosas sempre acompanhadas de náuseas e vômitos. A única coisa que ainda a deixava em pé, eram os lanches que ganhava de seu admirador. Todo almoço uma margarida e um bilhetinho verde eram deixados acompanhados de uma delícia diferente. Na sexta, ela tinha recebido uma taça de vitamina de banana com achocolatado, mel e castanhas. A última vez que tinha tomado uma daquelas, era quando sua avó era viva e preparava para ela, quando ela dormia em sua casa. Junto com a bebida, veio o seguinte bilhete:

“Um lanche forte e doce, assim como você.
Hoje será um dia cheio de surpresas e você tem de estar bem disposta.
Afinal... It’s party night!”

- Eu acho que ele vai se revelar hoje! – falou baixinho, com uma excitação estranha lhe correndo pelas veias.
- O quê? – perguntou distraída.
Elas tinham almoçado o resto da semana com os meninos. Para surpresa dela, eles eram companhias realmente agradáveis e divertidas... E para variar, o fato não passou em branco, sendo até manchete do The Pretender, que além de acusar o admirador de ser algum dos trabalhadores da cozinha, já que ele mandava um prato diferente a cada dia, uma nova corte real havia se formado, com direito até a bobo da corte. Só o Chase não apreciou a piadinha...
Todos eles tentaram ignorar o fato e continuaram a agir como se nada daquilo importasse. Apesar de serem agradáveis, já não sabia mais o que fazer quando estava por perto. Ela evitava qualquer conversa que pudesse surgir, mas os comentários do garoto eram cada vez mais misteriosos e desconcertantes... E esse almoço não foi diferente.

- É impressão minha ou você está mais animada hoje? – perguntou, enquanto os outros conversavam empolgados sobre a festa.
Esse, aliás, era outro assunto que não saia da boca da população daquela escola. Realmente as festas de eram muito famosas e tendiam a ser inesquecíveis.
- Parece que o meu admirador secreto vai se revelar hoje. – comentou com um brilho nos olhos, sem conseguir esconder a animação.
- Boa sorte! – desejou, encarando-a.
- Não preciso. Eu já tenho quase certeza de quem é! – respondeu sentindo o volume do barulho ao seu redor sumir.
Mais uma vez era apenas ela e ele. Outra coisa que se tornou comum, foi à busca da garota pelos seus olhos preferidos. Eles já tinham se tornado seu novo vício, seu calmante para todos os problemas que a assombravam.
- Espero que você não se decepcione, então. – falou apoiando o queixo nas mãos, enquanto se aproximava dela.
- Eu também. – ela concordou sustentando o olhar com um meio sorriso.
Os dois permaneceram assim por algum tempo, até o sinal quebrar seu silêncio. o olhou mais uma vez e suspirou. Ela realmente esperava não se decepcionar.
Todos se levantaram indo para mais uma aula entediante.
- Hoje de tarde eu vou aparecer lá na sua casa, tudo bem? – perguntou assim que o grupo alcançou o corredor.
o encarou nervosa. Era uma confirmação?!
- Para ver o cachorro... Desde a semana passada que eu não vejo o pulguento. A gente tem que ver esses horários... Queria levar ele lá pra casa por uns dias.
- Ah, isso... Certo. Até mais tarde, então! – falou rápido, um pouco desapontada.
Saiu para sua aula antes que ele fizesse qualquer outro comentário. Assim que se distanciou, escutou lhe chamando.
- Me espera! Eu tenho aula com você agora. – pediu segurando ombro da amiga. – Para que essa presa?! Você nunca gostou de química... – estranhou.
- Só não quero chegar atrasada, tá bom, mamãe?! – reclamou franzindo o cenho.
rolou os olhos e a seguiu em silêncio. naquele humor era terrível e ela não estava afim de estragar seu dia com mais uma de suas brigas infantis.

Mais uma vez o tempo parecia ter sido posto em slow motion. Parecia que fazia eternidades que não pisava em casa. A garota correu para seu quarto assim que chegou, gritando no caminho que não queria almoçar. Chegando lá, jogou suas coisas no chão e, em seguida, deitou em sua cama. Um frio percorreu sua barriga, ao pensar que seria sua primeira tarde só com depois dos presentes misteriosos e da conversa na praia. Ela tinha medo, não sabia como agir ou qual rumo às coisas tomariam. Ela sempre acabava sendo incrivelmente previsível ao lado dele, mas ele, ele definitivamente a surpreendia a cada palavra pronunciada. A menina sentou na cama e bufou contrariada. Ela era ridícula! Quando, nesse mundo, O’Donnell ia ficar suspirando com medo de um garoto que ela nunca tinha sequer beijado? Isso era ridículo!
- Eu sou O’Donnel e nada pode me afetar. Nunca. – falou alto encarando a vidraça de seu quarto. – Eu não vou quebrar a promessa, vovó! – completou decidida, enquanto suas memórias a levavam pro dia mais aterrorizante de sua curta vida.

Flashback on

cochilava um sono leve na poltrona do quarto de sua avó, quando escutou os aparelhos apitarem. Ela estava em um quarto de sua casa, montado especialmente para sua avó, que já se encontrava em estado terminal de leucemia.
- Vó! O que está acontecendo? – perguntou num pulo, correndo em direção à cama. Ao encarar sua avó pálida e cheia de agulhas, sentiu como se todas elas estivessem em sua própria carne. A dor que a visão lhe causava, já tinha virado sua companhia constante e, a imagem, seu pesadelo de todas as noites. Era todo o seu amor que estava ali com ela. E se ela se fosse, ele iria junto... Para sempre.
- Querida, se aproxime bem pertinho para a vó poder ver seus olhinhos. – a senhora pediu com a voz falha e um sorriso doce.
sentou na ponta da cama e segurou a mão dela com delicadeza. As lágrimas já rolavam soltas em sua face e seu coração estava esmagado em seu peito. O sufocamento e o frio a envolveram, fazendo com que seu corpo tivesse pequenos espasmos. Ao olhar o brilho sem vida dos olhos da avó, ela sabia que tinha chegado o pior momento, que seu temido pesadelo ia chegar ao ápice e o inferno ia começar agora.
- Pare de chorar... Você é minha guerreira... – falou com um sorriso doce, enquanto limpava as lágrimas da neta, deixando-se molhar por suas próprias.
sentiu o descontrole tomar conta de seu corpo, enquanto era transformado em soluços e mais lágrimas.
- Vovó... Por fa-favor! Não me deixe assim... – a garota sussurrou, sentindo-se sangrar por dentro. – O que eu vou fazer? – perguntou sentindo a respiração falhar.
A avó a encarou com um olhar machucado. Doía-lhe tanto abandonar sua garotinha assim quando ela mais precisava.
- A vó ama e vai estar com você sempre. Tudo o que você precisará fazer, será fechar os olhos e se permitir sentir. E você vai saber que eu estou ao seu lado, lhe protegendo. – falou passando as costas da mão no rosto molhado de . – Eu só quero que você me prometa que não vai deixar nada lhe abater. Você é mais forte que tudo isso, rouxinol. Você é minha guerreira e vai lutar contra tudo que lhe fizer sofrer.
chorava copiosamente. Sentia que seu coração já batia com dificuldade, infectando cada milímetro de seu corpo com aquela dor agonizante. - Eu... Amo você... Rouxinol... Fique perto... De... De seu irmão... E... Diga que... Eu o amo... – falou com dificuldade, enquanto os barulhos dos aparelhos ficavam mais espaçados.
- Não! Não! FICA, VÓ! FICA... VÓ, NÃO VAI AGORA! NÃO ME ABANDONA! – gritou vendo os olhos dela se moveram mais lentamente, assim como o movimento de seu tórax, enquanto a segurava pelos ombros, molhando os lençóis de 1000 fios com suas lágrimas.
- Se permita... Ao amo verdadeiro, rouxinol... – falou com os olhos nublados. – E eu vou... Estar... Bem aqui... Sempre! – terminou colocando a mão sobre o peito esquerdo da garota. Ela encarou a avó, pelo que sabia ser a última vez, enquanto tentava não se afundar na dor. No momento seguinte, tudo o que era ouvido no quarto era o bip continuo dos aparelhos e os soluços de uma garota que teve as esperanças e os sonhos levados.

Flashback off

A fim de tirar as lembranças da mente, correu para o banheiro, onde tomou um demorado banho quente. Em seguida, escolheu um vestido frouxo com meia clara, sapatilhas e um cardigã bem grosso. Ela não queria se produzir toda para ele, mas também não podia aparecer usando qualquer coisa... Vai que ele espalha por aí que, em casa, ela é uma maluca que só usa as roupas do irmão? Quando terminou tudo ainda faltava mais de uma hora para a chegada de , então a garota resolveu que um cochilo ia ajudar a passar o tempo. Cinco minutos depois, dormia a sono solto, deitada de qualquer jeito em sua cama.

’s P.O.V.

Eu estava confortavelmente deitada em um campo de margaridas, com um biquíni Missoni da última coleção e uma taça de champanhe, quando fui bruscamente retirada de lá... Nem sonhar em paz eu posso mais...
- Sua visita chegou, menina . – Ester avisou, enquanto recolhia algumas coisas que eu havia deixado jogadas pelo chão. Ao escutá-la, dei um pulo da cama assustada e corri para o banheiro. Merda. Agora, além das roupas amassadas, eu estava com uma cara inchada de sono. Perfeito.
- Não demore! – Ester gritou ao deixar o quarto.
Encarei-me mais uns segundos no espelho, enquanto tentava desamassar a roupa com a mão. Depois apliquei um pouco de base e blush. Pronto. Mais que isso só se eu realmente me importasse em me arrumar pra ele. O que não é verdade... Eu acho.
Desci as escadas correndo e, assim que cheguei ao jardim, um sorrisinho se formou em meu rosto. estava sentado na grama, com o cachorrinho correndo ao redor dele - com um dos brinquedinhos que tínhamos comprado -, enquanto balançava o rabo eufórico. ria divertido, fazendo seus olhos brilharem, enquanto provocava o cachorro tentando tomar o brinquedo.
Me aproximei devagar, mais uma vez me sentindo inquieta e sem muita noção de como agir. Ao notar minha presença, se levantou rapidamente, retirando a grama que tinha sujado sua calça.
- Oi... – falou rápido, com os olhos faiscando ao sol e um sorriso travesso.
Meu estômago deu voltas, como nunca tinha feito, e um sorriso tímido brotou no meu rosto sem meu consentimento. Acho que foi ai que eu percebi que eu já estava tão envolvida, que realmente não tinha mais volta.

Continua…

No Próximo Capítulo...

"Eu sabia que tinha feito a escolha certa. Mesmo todos me dizendo que eu era um louco, um lunático sonhador, dentro de mim eu sabia que aquilo era o certo. Ao encarar na minha frente, não aquela garota afetada que se acha superior a todos e a tudo, mas a verdadeira , a menina doce e machucada pela vida, com traumas tão profundos quanto seus olhos escurecidos, eu sabia que tinha chegado a minha hora. A nossa hora."


--

N/A: Eeeee segue mais um! Espero que vocês gostem, já que eu realmente gosto desse flashback! ^^ Infelizmente Lomah não poderá mais betar minha fic, então o encargo está agora nas mãos de Tayná. Logo vamos dar nossas boas vindas a ela. Ela merece por ter a paciência de cuidar do horror de coisas que eu escrevo...¬¬‘
Como foram de carnaval?! Super curti o meu... Bob Sinclar foi o ponto alto com certeza, apesar de ser a única época do ano que eu escuto axé sem reclamar. Infelizmente também estourei meu joelho (que no momento está quase do tamanho de uma bola de futebol...) e vou ter que dar uma sossegada essas próximas semanas. Ainda bem que eu tenho minhas milhares de séries pra me distrair!! =D
Xoxo
Deeh

N/B: Hey, gente!
Agradeço pelas boas vindas e te agradeço. É um prazer poder betar Untouchable...
Sabe, acho justo uma att dupla, tripla, quádrupla... O que acham, leitoras? ><
COMENTEM MUITO! Xx

Quer puxar minha orelha por ter deixado algo passar? Clique aqui.