Second Heartbeat
Autora: Abby | Beta: Michi

Empurramos a porta da sala de contabilidade para abri-la, e a batemos com tanta força para fechá-la que doeu nossos ouvidos escutar o barulho que fez. , ainda voraz e sem nenhuma intenção de partir os beijos, encostou-me na madeira escura, prensando-me enquanto lacrava a fechadura. Tive a impressão de ouvir um som curto e baixo, como um bip de um aparelho eletrônico. Fui obrigada a empurrar meu sócio, encerrando – temporariamente – as carícias por puro medo de sermos pegos. Eu tinha medo, na verdade, temia até a morte, que alguém nos visse juntos. Nossa carreira, ou pelo menos a minha, se arruinaria, teríamos notas sobre nosso envolvimento em tablóides, além da plena confiança de , e , que de certo perderíamos. não corria tanto o risco, já que era famoso e isso só seria um escândalo que aumentaria, ou não, sua popularidade, ainda que esta viesse a se tornar diferente da que tinha como integrante do McFly e um dos proprietários da Super Records. E sua amizade com os rapazes não mudaria tanto, uma vez que já se conheciam há quase quinze anos. Talvez eles só não achassem certo que tivéssemos um relacionamento, ainda mais eu sendo sócia – uma pessoa a quem eles deveriam ter toda fé para ajudá-los em seu trabalho – e enquadrada como amante. O que, claro, eu não gostava de ser. Não que eu quisesse tomar o lugar de , esposa de , longe disso! Só não queria me sentir sozinha todas as vezes que partia. Eu vivia uma certeza complexa desde que me deixara entregar aos encantos dele. Ser cúmplice e me sentir vítima era algo que perturbava minhas noites. Mas eu não reclamava; tinha, acima de tudo, medo de perdê-lo, então preferia não mexer em time que estava ganhando.
 Até porque eu nunca conseguia levar a fundo minhas promessas de que não cederia mais vezes. Era só ele entrar na sede da gravadora vestindo uma mistura casual de blazers e calças jeans, com seus cabelos cuidadosamente fixados a gel em um penteado desordenado, para esquecer o que tinha em mente. O sorriso sempre aberto, mostrando suas carreiras de dentes que recentemente passaram por um novo clareamento, deixando-os ainda mais brancos. Seus passos nunca eram apressados, mesmo que estivesse duas horas atrasado – ultimamente não estava ligando muito para horários, o que era estranho, pois sempre era pontual com relação ao trabalho. Parecia querer espalhar seu Paco Rabanne por todo o vestíbulo do edifício enquanto se demorava a chegar até o elevador. Eu nunca via essas cenas, já que estava iniciando meu dia dentro de meu escritório, apenas ouvia comentários das recepcionistas quando nos encontrávamos por acaso na sala de fotocópias ou sala de espera entre os escritórios dos sócios. E assumo que, depois que começamos a nos envolver, procurei uma vez ou outra conferir para saber se era mesmo todo esse ritual. E era. Só que eu não ficava satisfeita de ver quase todas as ninfetas – pra não ser tão rude – suspirando pelos cantos por um dos chefes sem poder fazer nada, sem poder ter uma chance de mostrar a elas que era a mim que pertencia, porque ele nunca fora propriamente meu. Sentia ódio de mim mesma por me submeter a uma situação tão desgostosa e não fazer nada para encerrá-la. Eu não queria encerrá-la. Talvez pudesse apenas fechar meus olhos diante dela para fingir que estava tudo bem, mas não acabar com tudo.
 No dia em que vi a cena se repetir pela terceira vez, pedi a que não a fizesse. Ele riu. Não porque zombava de mim, não porque achava a ideia absurda, e sim porque achava engraçado me ver com ciúmes. Obviamente eu não achava graça nenhuma, estava incomodada demais para achar um pingo de humor. Custava perceber que já me era difícil aguentar poucas horas ao seu lado, a sós? Passar tempo conversando com as secretárias, recepcionistas, etc., não facilitava nem um pouco. Despenquei a dizer-lhe isso, então ele percebeu que não estava apta a brincadeiras e me prometeu que não tornaria a acontecer, oferecendo-me seus joelhos para que eu sentasse. Assim fiz, e mais uma noite se varou dentro de meu flat.
 E, como naquela noite em que tivemos nossa pequena discussão, eu tremi da ponta dos pés até a raiz dos cabelos só de pensar que poderia ser ligando para o celular de , louca de preocupação para saber onde ele estava até tão tarde. Tivemos reunião com o empresário de uma banda nova cujos participantes insistiram em participar. Por serem inexperientes, questionavam sobre tudo, o que levava a nós três – eu, e o empresário – a sempre termos que explicar cláusulas de contrato, compromissos, agendas... Tomando toda a tarde e parte da nossa noite. Não tivemos tempo hábil para irmos até meu apartamento – que não era muito longe da gravadora, mas da casa de , sim –, então continuamos em nossos escritórios, sem nem mesmo nos falar pessoalmente até que todos saíssem do edifício, apenas trocando e-mails. Em um deles, caçoando do meu mau humor por conta da reunião sem fim, deixou alguns versos de uma canção antiga do Arctic Monkeys como Post Scriptum, fazendo-me rir por alguns minutos. “Now then Mardy Bum, I see your frown and it's like looking down the barrel of a gun, and it goes off and out come all these words.” Ri novamente ao me lembrar remotamente desse ocorrido, fazendo com que ele me olhasse, confuso pelo meu riso. Voltei a me concentrar no motivo pelo qual havia o empurrado, desfazendo todos os sinais de que havia rido.
– Seu celular – disse eu, esquivando-me de seus braços para não o deixar ver meu instantâneo nervosismo –, acho que tocou.
– Deve ser a bateria acabando – argumentou ele, imediatamente procurando seu aparelho no bolso do paletó. Sorriu um micro sorriso ao olhar o visor, então o mostrando para mim. – Já acabou, viu? Não precisa se preocupar com nenhuma interrupção.
 Estava confirmado que era mesmo seu celular. Entretanto, eu não estava satisfeita, tinha a sensação que não era algo tão simples assim. Minha intuição insistia em dizer que aquela não era a resposta, era óbvia demais para ser verídica. E nem mesmo parecia se importar em verificar a veracidade daquilo, vindo novamente para cima de mim, colando seus lábios aos meus, transbordando desejo por todas as suas extremidades. Deixei-me entregar novamente, dando total retorno a ele por cada beijo, aperto e mordida em meu pescoço. Perdi intencionalmente minha visão, fazendo assim meu tato se aguçar. Retirei o paletó já aberto de , jogando-o na direção da estante – que até aquele momento não tinha nenhuma serventia. Curvei meu rosto à medida que percebi que o dele se abaixava, curiosa para saber o que faria e irada por notar que estava se afastando. Mas logo minha ira se foi quando percebi seus braços entorno de minhas coxas, dando apoio para que eu as erguesse e as encaixasse ao lado de seu quadril. Ouvia sua respiração alta delatando o esforço que fazia para não me deixar cair até chegar, provavelmente, à mesa. Fazer uma dieta e mandá-lo para a academia, pensei, não conseguindo conter um riso abafado por seus lábios. Ele também riu, talvez pelo mesmo pensamento. E antes que eu pudesse cogitar a ideia de estarmos demorando até chegar àquele bendito móvel, senti-me sentar sobre uma superfície plana, ouvindo em seguida o barulho de objetos dos mais variados caindo. Por sorte, somente duas mesas, mais ao fundo da sala, tinham computadores, que estavam agora a salvo de nossas sedes lascivas.
 Desabotoei botão por botão da camisa azul marinho de com uma rapidez surpreendente até para mim. Corri meus dedos para seu cinto enquanto sentia minha saia de linho subir até a altura de minha cintura, deixando à mostra as meias finas e cinta-liga preta que havia comprado na véspera, esperando estreá-las em uma happy hour dentro de minha suíte. A suíte não aconteceu graças ao imprevisto, porém, ao abrir os olhos e ver as encarando com tamanha admiração, tive certeza que aquela seria uma hora muito alegre. Não medi esforços para deixar um sorriso em meu rosto, satisfeita por tê-lo agradado.
– Vem cá – ordenou ele, criando imensa confusão em mim. Já estávamos quase fundidos, eu iria pra “cá” onde? Então o vi se afastando, a camisa aberta balançando de um lado para o outro enquanto se posicionava a cinco passos da mesa. Continuei sentada, as pernas abertas sobre a mesa, as feições quase formando uma interrogação. Vendo minha hesitação, ele estendeu a mão, convidando-me a descer da mesa que se esforçara para me colocar. Tinha um sorriso terno em seu semblante, como o de uma pessoa que convida a outra para andarem pelo parque sem maiores pretensões. – Vem, !
– Pra quê? – perguntei com a voz falhada, não disfarçando a frustração por ter sido deixada ali como uma idiota. – , volta pra cá, por favor.
– Vem aqui, , deixa de ser pirracenta! – chamou-me mais uma vez, em tom de riso, ainda com a mão estendida. Suspirei com pesar, descendo da mesa com um pequeno pulo e abaixando a saia até sua altura normal. – Ei, pode parar por aí! – E eu, literalmente, parei com a mão ali, surpresa com sua censura. – Você não me vai esconder uma coisa linda como essa, né?
– A cinta-liga? – indaguei por impulso, tendo ciência que em seu rosto se salientavam os lábios, soerguendo-se as pontas deles. assentiu freneticamente.
– Quero que desfile pra mim. – Controlei ao máximo o ímpeto de rir. Rir de nervosismo, não de zombaria. Ele nunca pediu algo como tal, pegou-me de surpresa dessa vez. Se bem que eu deveria ter levantado a hipótese de que isso viria a acontecer, visando que comprei a lingerie exatamente pra exibí-la, não só dificultar mais uma transa.
– Nós não temos tempo pra isso, – argumentei, usando o motivo para estarmos naquela sala como desculpa para adiar a atração da noite. Ele apenas franziu o cenho, reprovando meu comentário. Submissa ao seu capricho, concordei sem dizer uma palavra, apenas dando mais um suspiro pesaroso enquanto me virava de costas, pedindo apenas com gestos que me ajudasse a retirar a saia. Logo ela começou a cair, frouxa sobre minhas pernas. Dei um passo para o lado, deixando a peça repousada sobre o chão. Virei-me de frente para ele, segurando o primeiro botão de minha blusa de seda em cor perolada, perguntando-o se deveria retirá-la. Ao vê-lo assentir, comecei a me desfazer daquela peça também. O olhar que tinha sobre mim deixava ainda mais claro o que já havia me dito por vezes: me desejava. Como talvez não desejasse outra mulher na vida. Eu não era como as groupies que conhecera e transara no passado, muito menos como sua esposa, que mais passava o tempo viajando, tinha certeza disso. Eu o conhecia completamente como homem, sabia segredos seus, era como sua cúmplice. Assim como ele me conhecia perfeitamente como mulher. Eu me sentia mais madura e autoconfiante ao seu lado, via segurança em sua presença. Ele me fazia um bem tão grande que eu nunca conhecera antes. Para meu azar, estava apaixonada por meu amante, e não poderia meter os pés pelas mãos de forma alguma para não perder tudo o que tinha, tanto no campo pessoal quanto profissional. Encontrava-me em uma área de grande risco e tinha total noção disso. O pior é que eu adorava essa sensação de perigo, apesar de medrosa como era.
– Nunca me desapontando – disse ele de forma complacente, dando-me um beijo singelo, tão cheio de ternura quanto suas palavras. Tinha meu rosto em suas mãos, em um toque inócuo e delicado, diferente dos que recebi minutos atrás. Sentia-me agora amada, mesmo que nenhuma palavra romântica tivesse sido dita até aquele instante. Lacei-o com os braços, apertando-o em um abraço caloroso e sem mais intenções, repousando em suas costas as minhas mãos abertas. Queria apenas tê-lo em meus braços, ter a sensação de saber que, pelo menos por aqueles momentos, ele era todo e exclusivamente meu. Então, fazendo-me o olhar com visível tristeza consequente, me afastou, escorregando os dedos levemente até as pontas das minhas mãos, deixando-os agora entrelaçados aos meus. – Queria ter te conhecido cinco anos atrás.
– Mas me conheceu há dois – depositei outro beijo curto em seus lábios, ambos sorrindo. Ainda sentíamos todo aquele tesão ardente de antes, era até palpável da parte de , mas aquele instante em que não agíamos somente pela carne imperava. Eram momentos como esse que me faziam não querer romper nosso relacionamento. Por mais errônea que fosse a forma com que nos envolvêssemos, havia sentimento. Um sentimento que se fundia ao gosto do risco, como Adão e Eva em busca do fruto proibido. E ele podia ser visto em cada pequeno detalhe das atitudes que tomávamos quando juntos. E cada pequeno detalhe me dava ainda mais certeza de que fazíamos amor, não só sexo. Éramos namorados, ainda que contra as leis.
– Ainda bem que isso me aconteceu – ouvi-o confessar, virando as costas de minha mão para si e deixando um beijo ali. Sorri sem jeito, sentindo minhas pernas formigarem. Que tola eu era, parecendo reviver os tempos de colegial. Soava tão imaturo assumir que tinha calafrios quando recebia os carinhos de . Eu era uma mulher feita, com meus vinte e oito anos, mas não estava imune às reações que uma nova paixão me trazia. Malditos sejam os hormônios, que nessas horas não deviam existir. Apenas os sexuais deviam, é claro. Aliás, estava contente de ver que os de tinham se acalmado. – Senão eu não iria saber nunca como se tira esse troço. – Completo engano meu. Ri de seu comentário, porém não vi toda a graça que deveria, pois estava mais preocupada em saber como agir com relação àquele bendito desfile particular que faria.
– Eu não sei desfilar, – resmunguei, tentando mais uma vez atrasar seu pedido.
– Sabe sim, que eu bem sei, senhorita – rebateu ele de forma passional, soltando minhas mãos e se encostando na mesa, de frente para mim. Cruzou os braços sobre o peitoral à mostra, que, agora retraído, tinha volume ainda mais avantajado. – Pensa que não vejo o jeito como você rebola quando anda?
– Provavelmente isso só acontece depois que falo contigo – argumentei, realizando uma confissão involuntária. O sorriso que se abriu por entre as bochechas dele tinha imensa satisfação por ouvir aquilo.
– Isso facilita bastante as coisas, já que é pra mim que você vai desfilar – concluiu ele, olhando somente para os meus olhos. Se fosse um qualquer, estaria nesse momento examinando meu corpo como um predador que ronda sua presa. Sorte a minha não ser qualquer um.
, por favor... – supliquei, tanto em palavras quanto em gestos, os olhos em total submissão, requerendo aos dele o bom senso para eu não passar pelo ridículo. Seus olhos o mostravam ainda firme na ideia, sem nem cogitar ponderar. Via ali um homem firme, o sério e seguro de si que, quando decidia por algo, não voltava atrás. Por nada, nem ninguém. Porém, em alguns segundos a mais, olhando-o com a mesma submissão, também firme na ideia de convencê-lo do contrário, pude vê-lo se desdobrar. Sua muralha de convicção estremecia, e via aos poucos os tijolos indo ao chão.
– Tá, tudo bem – consentiu, mesmo que contrariado, mantendo-se sério. Desdobrara-se por mim, havia ido contra seus costumes unicamente por mim. Sorri com este pensamento, acrescendo a curva de minha boca pelo alívio de não ter que realizar um fetiche seu sem amaciar a hipótese. Ele pareceu não satisfeito por me ver sorrir, criando em mim a enorme vontade de consolá-lo. Pus-me à sua frente, segurando sua cintura, fazendo suas pernas abrigarem as minhas, dando-me noção de sua ereção resistente até ao desestímulo que eu lhe causara. Beijei seus lábios de forma branda, afastando-os dos meus rapidamente enquanto voltava as mãos para sua calça aberta.
– Não se preocupa, eu vou te compensar – sussurrei contra sua boca, soprando um riso quase sem humor em seguida. Tornei a beijar-lhe, impelindo meu ventre contra seu membro rígido sob a boxer. Levei sua jeans ao chão com facilidade, os sapatos não eram problema quando olhei para seus pés.
– É bom mesmo – disse , dando tempo para que respirássemos (quando realmente começássemos, respirar seria praticamente esquecido). Pousou suas mãos em meu tronco, na altura das costelas, deleitando-se da liberdade que tinha para passear seus dedos. Desenhou espirais, que começavam no elástico da cinta, estendiam-se por minhas costas, alcançavam seu apogeu na barra do meu sutiã e caíam, sem nenhum temor, por minha barriga, recomeçando todo o processo, dando a entender que existiam dúvidas sobre qual peça íntima deveria se retirar primeiro. E eu estava ali, extasiada, com os olhos fechados e a testa encostada na de , deixando-me levar com aquele afago manso. Tinha a sensação de estar em uma clareira de um bosque, onde ao meio dela existia uma árvore de porte médio, com casco bem escuro e folhagem verde-musgo, que tinha flores brancas de miolos amarelados. Flores de baunilha. Sim, era esse o cheiro que eu sentia: de baunilha. Adocicado e fresco, tão bom de se cheirar... Vinha dos cabelos de , que, sem que eu percebesse, abaixara seu rosto para beijar meu colo. Beijos calmos, suaves, sem pressa. Enfiei-me novamente na imagem da clareira, que agora era regada por uma chuva fina, e essa, quando caía em mim, aquecia minha pele ao invés de esfriá-la.
 Retornei à realidade quando senti a primeira meia fina se afrouxar, escorregando pouquíssimos centímetros para baixo. A segunda imitou seus movimentos, afrouxando-se e escorregando-se por minha perna. “... saber nunca como se tira esse troço”, dissera ele. Balela! Parecia saber perfeitamente como desmontá-la a julgar a facilidade com que a separou das meias. Girei para o lado, encostando-me na borda fria daquela mesa, tomando impulso na mesma para me sentar ali novamente. Desfiz-me do salto alto antes que se voltasse para mim, facilitando assim a retirada completa de minhas meias sete oitavos. Ele segurou uma delas pela renda, abrindo espaço para que pudesse colocar suas mãos entre a peça e minha coxa, deslizando-as então para baixo, levando consigo o tecido finíssimo. O ato se repetiu em minha outra perna, e eu, apenas como expectadora daquela sensual cena, não demonstrava exatamente felicidade. Estava feliz, claro, quase enlouquecendo por tê-lo comigo, mas a excitação grande que fazia minha íntima latejar não me dava brechas para sorrir, ou sequer pensar em o fazer. Restava ainda a cinta, a calcinha, o sutiã, a boxer e a camisa – maldita seja, que continuava ali, aberta, balançando de um lado para o outro, querendo pular para longe do corpo de , mas não o fazendo para me contrariar! Apenas cinco peças, cinco pequenos passos até que eu conhecesse novamente a sensação de ser amada e desejada, em harmonia de sentimentos e sensações físicas.
 Andei o primeiro, tirando de cima de meu quadril a cinta, deixando-a ao meu lado na mesa não por zelo, e sim por pressa. Jogá-la longe custaria muito do meu tempo, já que, deixando-a ali ao lado, teria certeza que não bagunçaria mais a sala e poderia voltar imediatamente ao frenesi dos primeiros beijos dados em naquela noite. Ele, em sua veemência, segurou a curva traseira de meus joelhos, puxando meu corpo contra si, encaixando seu sexo no meu sem que me penetrasse. Encostava seu pênis coberto em mim, prensando-o contra o pano de minha lingerie, e depois o afastando, então o encostando de novo, torturando-me com toda aquela demora. A camisa continuava lá, dançando sobre seu peito, criando e alimentando a tentação que eu tinha de beijar aquela pele caucasiana, apertá-la, senti-la entre meus dedos, arranhá-la até vê-la vermelha. Subitamente, criei o pensamento – ainda que leviano – de que ela era o empecilho, ela que atravancava minha relação com . Então, sem mais delongas, derrotei minha oponente. Uma onda de alegria e êxtase me dominou assim que pude tocar aqueles ombros nus, tão cheios de vida e virilidade. Beijei um deles – não me lembro qual – com toda a vontade que tinha, e não me sentindo satisfeita, pus os dentes naquela superfície quente e curvilínea, querendo ser agressiva, mas me controlando para não o machucar. Estava tomada de tesão, entregara-me de corpo e alma àquela atitude em que precisávamos mais uma vez ser cúmplices. , tão envolvido quanto eu a todo o misto de sensações e emoções, apertou a lateral de meu corpo com imensurável força, o que não me causou nenhuma dor, apenas mais vontade de sentir-lhe assim, impetuoso, dentro de mim. Sorri em resposta ao que fizera, mostrando a ele que era exatamente o que eu queria, aquela raiva que era apenas encenação. E só me faltavam dois passos – a boxer e a calcinha –, já que um – o sutiã – poderia ser pulado.
 Arrastei minhas mãos férvidas à barra daquela roupa de baixo, sentindo que cada minuto, cada segundo que não era dominada por , era uma eternidade. Desfiz meu sorriso, começando a me tornar angustiada. De fato, eu me sentia atraída por completo por meu sócio, contudo, o que me incomodava naquele momento era a avidez com que eu agia cuja nunca tinha me visto mostrara ninguém. Era tão absurdo e tão confortante me notar ardente como não era. A proibição de não tê-lo, burlada há mais de um ano, criava em mim alguém que tinha os movimentos todos agindo a comando da luxúria, sempre em busca do prazer quando estávamos a sós. Necessitava sempre de choques de realidade para controlar toda a voracidade que eu punha à epiderme, e era ele quem dava freios aos meus desejos reprimidos, mas não fazia toda aquela fugacidade se dispersar, não mesmo. Apenas a transformava em sentimento, levando-me a admirá-lo por conseguir conter a – é tão constrangedor! – felina que eu me tornava. Entretanto, naquela noite, não parecia querer me controlar, incitava-me ao máximo para que eu ficasse como uma lunática, uma... ninfomaníaca. E travando uma luta contra minhas aspirações, eu tentava conter minha devassidão.
 Não sei exatamente por quê, não lembro exatamente em que momento, mas tinha a impressão de ouvir novamente aquele bip. Mas não poderia ser meu celular, ninguém me ligava naquele horário, nem mesmo minha mãe e, além do mais, o aparelho andava sempre no modo silencioso. Não era nada, só o medo ricocheteando nas paredes da minha cabeça de novo. Eu era uma burra, só o que podia ser! Toda essa insegurança para quê? Já estava quase nua! Se fosse pra ser pega, seria de qualquer jeito! Não deixaria (e todo seu saboroso pecado) desamparado, não mesmo. Forcei meus indicadores para baixo, puxando sua última peça a fim de libertar o que eu tanto queria e ela me escondia.
 Parecia estar esperando por esse passo meu, então , em resposta, libertou meus seios, que tinham os mamilos duros como agulhas, sensíveis ao extremo com qualquer simples toque. Senti-me em parte frustrada, pois pensava que ele iria logo terminar com aquela demora, no entanto, não me deixei abater. Ele distribuiu mais beijos sobre meu colo, descendo-os para a curva dos meus seios, roçando os lábios entorno de um dos meus mamilos enquanto apertava o outro entre os dedos, retirando de mim a sensação de choque eletro-térmico. Mergulhei naquele pequeno bel-prazer, não me dando conta que sua outra mão trabalhava em retirar a única peça que o separava de mim. Quando tomei ciência, fui inundada de satisfação silenciosa, e o ajudei logo a acabar com aquilo. Senti minha vagina sendo penetrada, mas não era seu membro, eram apenas dois dedos. Dois dedos que iam e vinham, que pareciam querer abrir passagem para a grande atração da noite, que foram subestimados por serem apenas duas extremidades finas e sem graça, e se mostravam tão ávidos, sedentos de carne quanto qualquer parte do corpo a quem pertenciam. Tentei retribuir a carícia, pondo minha mão sobre o pênis rígido de , envolvendo-o, traçando o caminho de ida e volta de seu comprimento. Comecei devagar, aumentando a frequência conforme o sentia acelerar os dedos no interior de meu sexo, roubando-lhe a respiração arfante e gemidos contidos entre os lábios que agora mordia. Vi seu rosto erguer-se, a boca abrir-se, então o abaixou e a fechou, olhando para os lados, atônito. Retirou de imediato os dedos de minha intimidade e minha mão de seu membro, andando até sua calça ali ao lado, buscando nela a carteira, e, dentro dela, o preservativo.
– Não sei se consigo pôr nesse estado – confessou, estendendo para mim a embalagem bordô entre os dedos que tremiam. Achei graça em sua atitude, mas controlei o ímpeto de rir. Vesti seu pênis após rasgar o papel metálico, deixando-o sobre a cinta ainda ao meu lado, na mesa. Seu corpo colou-se ao meu ligeiramente, encaixamo-nos um ao outro, e , impetuoso da forma que eu queria, deu a primeira investida, penetrando-me com todo o seu membro. A sensação de finalmente tê-lo em meu interior era dopante. Tive de me segurar em sua nuca, cravar as unhas ali para ter certeza de que não tombaria para trás, completamente tomada pelo deleite de seus movimentos precisos. Ele, ao meu oposto, tinha imagem sóbria, como se estivesse concentrado por nós dois na tarefa de explorar nossas intimidades. Meus lábios se entreabriram, deixando o ar passar pelo meio do sorriso que ali estava, produzindo sons perdidos na atmosfera daquela sala. Meu pescoço caíra para trás, deixando ainda mais gostosa a sensação de respirar enquanto recebia carícias múltiplas dadas pelos lábios de naquela região. Segurei seus cabelos, embolando-os entre meus dedos, puxando-os para trás, soltando-os somente para chocar seus lábios aos meus. Beijava-lhe com tanta força quanto a que ele me aplicava em suas investidas. Extinguindo todo e qualquer espaço entre nós, levei uma de minhas mãos às suas costas, trilhando a subida daquele lugar até seus ombros, onde desenhei uma curva até chegar a seu braço. Sua reação foi a de morder meu lábio inferior, prendendo-o entre os dentes enquanto eu não cessasse aqueles riscos feitos à unha. – Você não presta. – Resmungou ele, sorrindo de forma ordinária, fazendo-me concordar apenas com os olhos.
– Você muito menos – disse eu, então lhe mostrando a carreira de dentes, em um sorriso infantil e carregado de malícia. E após aquelas poucas palavras, nada mais fora dito. continuava os movimentos com a mesma frequência, ora penetrando com todo seu pênis, ora com somente parte dele, torturando-me com a benevolência que tinha. Voltou a me beijar, agora com beijos calmos, com toda a tensão sexual do início dissipada, restando apenas carinho. Estava tentando me controlar novamente enquanto me possuía em seus braços. E eu me deixava ser dominada, pois desfrutava de seu lado passional tanto quanto o carnal. Suas mãos agora apenas seguravam minha cintura, dosando a força com que impelia sua pélvis à minha. Seus agrados reduzidos reprimiam as minhas vontades gritantes de morder, arranhar, deixar marcas, e ao mesmo tempo estabeleciam as de beijar, acariciar. Assim sendo, repousei minha cabeça sobre o ombro que ferira, ainda que superficialmente, fechando os olhos e contendo meu lado ávido. O aroma de baunilha invadiu minhas narinas de novo, satisfazendo-me em aproveitar aquele ato agora, decerto, sentimental.
... – ergui meu rosto, vendo-o se esforçar para me olhar em meio ao prazer entorpecente. – Eu... te amo.
 Criei um sorriso que ia quase de orelha a orelha. Tinha vontade de perguntá-lo se seu amor era bastante para que assumíssemos o romance, se era suficiente para que passássemos mais anos como aquele, agora sob conhecimento de todos, mas me contive. Perguntas não deveriam ser feitas naquele momento. Palavras nem mesmo deviam ser ditas. Talvez mais tarde eu dissesse a ele que era completamente recíproco o seu sentimento, mas agora não lhe diria uma palavra. Apenas o beijei, sentindo que naquele instante alcançava meu ponto mais alto, meu clímax. Seu ápice não demorou a surgir também, fazendo-o relaxar seu corpo entre meus braços, seu rosto procurando refúgio em meu pescoço, onde beijos sem segundas intenções eram deixados. A exaustão nos vencia após termos saciado nossos anseios, porém, não podíamos ceder e ficar por ali, já era loucura demais ter usado o ambiente de trabalho para dispersar toda a saudade que sentíamos um do outro.
finalmente retirou seu pênis de minha cavidade, extraindo dele a camisinha, erguendo até uma altura que pudéssemos ver nitidamente a quantidade de esperma que havia ali, distorcendo sua feição em uma careta. Entendi a mensagem, descendo da mesa e procurando nas gavetas próximas um envelope. Quando encontrei, voltei até meu sócio, descartando provisoriamente o preservativo. Ele me agradeceu com um selar de lábios sem mais contatos.
– Viu a quantidade que tinha nisso? – indagou, apontando para o envelope. Assenti, não entendendo aonde queria chegar. – É tudo por culpa sua.
– Isso é bom ou ruim? – perguntei, confusa e com vontade de rir. Voltei para a mesa, colocando a embalagem da camisinha dentro do envelope também.
– Você decide – respondeu ele, vestindo sua boxer. Não me olhava, mas sorria para mim. – Mas saiba que nenhuma mulher conseguiu esse feito antes.
 Sorri, parada, apenas o olhando. Aquelas palavras não soaram só referentes à transa, ele estava assumindo que eu era única. Não da forma mais romântica, é claro, mas não me importava muito. Caminhei até ele, que agora suspendia minha calcinha pelas laterais, esticando-as com seus indicadores, e a tomei em mãos, vestindo-a em seguida. Logo surgiu meu sutiã em suas mãos, e me surpreendi por ver que ele sabia exatamente onde se encontrava cada peça, sendo que eu nem mesmo as tinha visto. Cobri meus seios, vendo-o se abaixar e pegar minha blusa. Estava me divertindo com aquela brincadeira de me vestir e não dizer uma palavra, apenas trocar olhares e sorrisos. Após repor minhas vestimentas, ajudei a o fazer, mas não tinha a mesma concentração que ele, seus lábios estavam perto demais, seu perfume de baunilha, dos cabelos, e folhas de cravo, da pele, fundiam-se de forma inebriante, levando-me a beijá-lo. Não havia luxúria ou sequer desejo no beijo que eu dava, era apenas uma afirmação corporal de que estava contente por nós. Lembrei-me da única coisa que eu precisava dizer:
– Eu também te amo, – murmurei de olhos fechados, os braços contornando sua nuca, as pontas dos pés sendo a única base pro meu corpo. Seus braços apertaram minha cintura à medida que sua boca pressionava a minha, em uma aceitação das palavras ditas. Apesar do tempo juntos, aquela era a primeira vez que deixávamos às claras que não era somente uma aventura que passávamos. Todos os quinze meses que tivemos serviram para amadurecer os sentimentos ainda confusos que sentíamos. Mas agora estava tudo transparente.
, posso te pedir uma coisa? – perguntou com a voz amena, e eu assenti, sem mais o que fazer. – Espera a voltar de Chicago daqui a três meses pra podermos contar sobre nós? – Meus olhos arderam de emoção ao ouvir o que pedira. pareceu preocupado pela expressão que fiz, provavelmente beirando a tristeza e a confusão, apesar de eu estar alegre, surpresa e altamente comovida. – Eu sei que você não gosta que a gente fique assim, escondido, porque eu também não gosto. – Suas mãos deslizavam por meu rosto, tentando me consolar de um desamparo que não existia e só ele não via. – Mas é só mais esse tempinho, juro. – Então beijou minha testa, fazendo-me sorrir. Quando viu que meu rosto não era mais triste como parecera, no lugar dos olhos transbordando existia um sorriso aberto, transformou seu rosto em uma interrogação.
– Não precisava justificar – falei, puxando minhas mãos de sua nuca para seu rosto. – Era só me dizer quando iríamos assumir, eu ia esperar até lá sem contestar.
– Sério? – Pareceu surpreso pela revelação. Assenti, fazendo-o sorrir também. Beijamo-nos por não sei mais quanto tempo, decidindo parar para irmos embora quando já beiravam as duas da manhã. Saímos do edifício, distantes um do outro por costume, tínhamos nos esquecido que não havia ninguém além dos seguranças, os quais tiveram a ordem de religar as câmeras de segurança. Mesmo que viessem a desconfiar sobre o que fazíamos sozinhos nos últimos andares, com as câmeras desligadas, não fariam nada. Comentariam entre si, fariam piadinhas, olhariam para nós dois com malícia – o que me deixava absurdamente desconfortável –, mas não tomariam providências maiores. Caso contrário, perderiam o emprego, logicamente.
 Caminhei até meu carro, acompanhada por , que dizia se controlar demais para não segurar minha mão ou abraçar minha cintura. Eu apenas ria, com as entranhas em chamas por conta disso. Controlei ao máximo a vontade de lhe dar um beijo de despedida, pois estávamos às vistas de qualquer um que passasse, e seria um grande problema se nos vissem assim. Já não bastavam os seguranças que nos observavam, mesmo que de modo indiscernível. Só a sensação e a certeza que estava sendo observada me deixavam morrendo de medo. Senti-me segura apenas quando entrei no meu carro e dei a partida, indo para longe dali. Quando chegasse em casa mandaria uma mensagem para saber se havia chegado bem até sua residência.

***

Amanheci com cólicas terríveis, pulsavam tão forte que mal consegui me levantar para ir ao banheiro da suíte. Fiz meu asseio mais que básico e voltei para cama, procurando meu celular debaixo do travesseiro. Quando o encontrei, liguei para a gravadora e avisei a minha assessora que não trabalharia por motivos de saúde, qualquer ligação ou visita que não fosse profissional deveria ser encaminhada até mim pelo meu celular. Passei a mesma ordem para Sue – minha diarista, que, pra minha sorte, estava fazendo a limpeza naquele dia –, pedindo também que fosse até a drogaria da rua ao lado comprar qualquer remédio que aliviasse minhas dores (e, se possível, chocolates também, não sou de ferro). Ela me informou que teria de fazer as compras quinzenais, pois eu mesma havia pedido – e me esquecido –, mas mandaria entregarem em casa. Concordei, dando-lhe duzentas libras e voltando para a cama em seguida. Poucos minutos depois, ouvi a porta da sala bater, indicando que estava afinal sozinha.
 Busquei por meu celular novamente, digitando “Não vou trabalhar hoje, te vejo amanhã” para . Não podia ligar para ele de jeito nenhum, porque ele provavelmente estaria com no aeroporto, esperando o embarque dela para Chicago. Senti ciúmes dele por me lembrar que estava com a esposa, que mais uma vez ia ostentar seu dinheiro gastando com grifes, comidas caras e futilidades, e não comigo, que realmente precisava dele. Tive inveja por saber que, mesmo decidido a se separar, continuava dando a ela a mesma atenção e obediência do início do casamento. Odiei a mim mesma por mais uma vez ter pensamentos possessivos, sentir ciúmes e ter inveja. Eu quem escolhera passar por aquilo, devia estar mais que acostumada com toda a situação, por mais incômoda que fosse. Ainda assim, no momento eu não odiava só a mim, mas também a ele. Odiava-o por me colocar em sua vida, por desencadear todas as emoções conturbadas que eu tinha. Por existir, por nunca me deixar resistir aos seu charme, por ter aqueles olhos e aquele sorriso sempre à mostra toda vez que o visor do meu celular se acendia, sendo que era culpa minha que isso acontecesse. Eu o odiava simplesmente por ser quem eu mais queria e menos tinha. E num instante que eu tanto o queria, ele não podia estar comigo. Lastimável.
 Contorci-me sobre a cama mais uma vez naquela manhã, fechando os olhos, que lacrimejavam, tamanha era a dor que eu sentia. Agarrei o travesseiro ao meu lado, pondo-o entre minhas pernas e mordendo a ponta do mesmo, controlando a vontade enorme de urrar. Senti as vibrações do meu celular sobre o edredom, xingando-o por existir. Queria permanecer incomunicável enquanto a porra da cólica menstrual não passasse. Todavia, eu havia pedido aos meus subordinados que me passassem ligações, então devia atendê-los. Respirei fundo, equilibrando meu humor nem um pouco a fim de conversas além do necessário. Era uma mensagem de , que respondera à que eu lhe enviara. Acalmei parte da minha fúria do mundo, uma parte bem pequena.
“Não quero te ver só amanhã”, dizia a mensagem. Sorri, ainda que meu rosto estivesse franzido, deixando minha expressão um pouco confusa para se entender vendo de longe. Fiz questão de esquecer toda a crise existencial de minutos atrás, digitando uma nova mensagem para . Fui interrompida no meio do texto por uma nova mensagem dele. Surpreendi-me ao ler “Posso entrar?” na tela de meu aparelho. O que ele fazia na porta do meu apartamento às dez da manhã? Não devia estar com ? Se não estava com ela, por que não estava na gravadora? Pelo que me lembrava, quinta-feira não era seu dia de folga. A confusão durou pouquíssimo tempo, logo depois a alegria por saber que ele estava ali tomou conta de mim. Tentei me levantar enquanto respondia “Sim, claro”, mas desisti de imediato quando senti mais uma pontada na região inferior de meu abdômen. De novo mordi o travesseiro, deixando sair um ruído agudo de minha boca de qualquer modo. O som da porta da sala batendo me fez soltar a fronha que sem querer eu tinha babado. Fiquei olhando agora para a porta de meu quarto, esperando a imagem de surgir ali. E assim se fez. Ele não vestia blazer naquela manhã, apenas uma camiseta cinza de manga comprida. Adentrou o cômodo segurando uma sacola plástica – a qual identifiquei sendo da farmácia – em uma mão e minha barra de chocolate – já aberta – na outra.
– Isso é meu! – ralhei, pulando para fora da cama e me esquecendo da dor.
– O que é seu, é meu – disse ele em tom de riso, erguendo a barra para que eu não pudesse pegar.
– O que é meu, é meu! – rebati, olhando-o com censura. Voltei pras tentativas inúteis de resgatar meu doce. – Me dá esse cacete, !
– Mas já? Não ganho nem um beijinho de bom dia? – perguntou com ironia, levando-me a franzir as sobrancelhas em desaprovação. – Tudo bem, toma. – Ofereceu a barra para mim, retirando-a de perto quando tentei pegá-la. – O que é meu primeiro.
– Dá esse chocolate logo – resmunguei, tomando a embalagem de suas mãos. Caminhei de volta para minha cama. – Não tô com vontade de brincar hoje, não tenta.
– Acordou com a macaca, é? – ele indagou novamente em tom de riso, seguindo-me até o móvel. Sentei-me próxima à cabeceira, recostando ali mesmo, e se sentou perto de meus pés descalços.
– Acordei com o Chico – respondi de má vontade, quebrando um pedaço da barra e o colocando todo dentro da boca. riu da piadinha infame. – Tô com uma cólica do capeta, não conseguia levantar de jeito nenhum.
– Foi só me ver comendo o chocolate pra dor passar, né? – questionou, fingindo desconfiar de mim. Fingi indiferença ao seu comentário, fazendo parte da brincadeira. – Acho que vou conversar com os caras e ver o que eles acham desse seu “problema de saúde” tão grave.
– Pode ir – dei de ombros, comendo outro pedaço do chocolate. – Vai na fé, amigo. Não dou a mínima!
– Ah, é assim? – disse ele, boquiaberto com a falsa ofensa. Assenti, não olhando para seu rosto, controlando-me para não rir do timbre agudo e afeminado com que falara. – Depois não reclama quando eu te trocar por eles! Pelo menos eles me dão atenção!
– Eu sei que você não vai fazer isso. – Finalmente o olhei, agora falando sério. Sua expressão também deixou de ser cômica, tornando-se amena, o sorriso acolhedor vestindo seus lábios.
– Pior é que você tá certa – concluiu ele, acariciando uma de minhas coxas. Depositou um beijo tão leve ali que eu não teria ciência se não o tivesse visto. Além de doída, minha barriga formigava naquele momento. Respirei fundo, desviando a atenção da reação que havia tido.
– E a ? – desconversei, vendo-o ajeitar sua posição, ficando mais sério e com as costas eretas.
– Está no voo agora – respondeu simplesmente, parecendo não muito à vontade com o assunto. – O embarque tava marcado pras oito e pouca.
– Hm – murmurei, deixando a barra que segurava sobre o criado-mudo. Engatinhei até onde ele estava, deitando minha cabeça sobre seu colo de modo que conseguisse ver seu rosto. Suas mãos procuraram meus cabelos na mesma hora. – E por que não foi pro escritório?
– Tá reclamando por eu estar aqui? – indagou, parando o cafuné que me fazia.
– Não, não é isso – tentei consertar, balançando a cabeça negativamente. – É que eu já tinha dito que não ia pra lá, você até agora não chegou... Vão acabar desconfiando de algo, não acha?
– Eu já tinha avisado que ia chegar depois do almoço por precaução, caso o voo da atrasasse – ele respondeu, voltando a passear os dedos por entre meus fios de cabelo. Fechei os olhos, apenas sentindo a gostosa sensação de ter seu afago. – Aproveitei pra perguntar se todo mundo já estava lá, aí a Cory me avisou que você não iria trabalhar hoje porque tava doente, então eu vim direto pra cá. – Não disse nada que concordasse ou discordasse, apenas fiquei sentindo o efeito placebo que seus carinhos tinham sobre mim. Ainda que me restasse mau humor, não era tão grande quanto antes. – E como você tá se sentindo?
– Já tive dias melhores – respondi, soprando um riso, continuando com os olhos fechados.
– Quer tomar o remédio? – Por mais estranho que fosse, o tom preocupado de era bom pros meus ouvidos. Queria ficar ali, ouvindo sua voz baixinha ecoando enquanto mergulhava no contentamento de não estar mais sozinha, de estar com ele. Era tão infantil ficar pensando bobagens por estar sozinha, eu já sabia que depois que sua esposa viajasse teríamos mais privacidade (não na casa dele, é claro, porque os meninos continuam morando na mesma rua e é arriscado demais ficar lá por esse motivo). E em apenas três meses toda a preocupação de ficarmos às escondidas acabaria. Três meses que completariam um ano e meio ao seu lado. Três semestres depois da premiére do filme sobre a vida de Fred Mercury, onde , desacompanhado de mais uma vez e carente como sempre, resolveu que não desistiria enquanto eu não me rendesse aos seus encantos.
 Lembro-me exatamente da questão que fizera para que eu o acompanhasse ao evento, mesmo que eu não fosse nada além de colega de trabalho – ainda. Fora um cavalheiro do início ao fim da estreia, prendendo sua atenção a todas as reações que eu fazia tanto para a mídia quanto para seus fãs, que faziam questão de inventar histórias e me ofender apenas por estar com ele. Evitara passar mais tempo fora do cinema, poupando-me das críticas totalmente ofensivas e gratuitas que eram distribuídas. Pouco tempo depois, e sua noiva, que eram os outros representantes do McFly presentes, apareceram onde estávamos, perto da entrada da sala. Iríamos sentar os quatro juntos, mas insistira para que os outros sentassem distante de nós, pois assim teriam privacidade. Mal sabia que era quem procurava ter privacidade. E fez bom uso dela quando a encontrou, sendo bastante objetivo em sua abordagem. Mas, mesmo que não fosse, teria tirado proveito da oportunidade pelo acúmulo de investidas que havia dirigido a mim desde que eu começara a trabalhar na Super Records. Ele estava decidido a me ganhar, e eu tinha me convencido de que deveria lhe dar uma chance para que acabasse logo com o desconserto que me causava no ambiente profissional. Só que eu não conhecia seu lado atencioso, que ia muito além da aparência de músico despreocupado de (pouco) mais que trinta anos de idade. Quando o conheci, descobri que era exatamente aquilo que queria pra mim: o zelo com que tratava quem gostava. E agora, bem, eu tinha o tratamento que queria – escondida, mas tinha.
– Não, vou ficar deitada mais um pouco pra ver se passa. – Sorri em agradecimento à sua apreensão. Não, não abriria mão do seu zelo de jeito nenhum.
– Então deita direitinho, querida – ordenou em tom paternal, dando um beijo em minha testa e me fazendo virar para a cabeceira da cama enquanto segurava meus braços. Reprovei sua atitude apenas com o olhar. Eu queria ficar deitada sobre suas pernas, sentindo as pontas de seus dedos percorrerem o comprimento de meus cabelos, mas ele não percebeu. Ou fingiu muito bem. Pelo sorriso que criou no rosto, pude ver que apenas fingiu. – Eu vou ficar aqui até o horário do almoço, não faz essa cara.
– É a única que eu tenho – resmunguei, olhando-o com indiferença. Ele continuou com seu bom humor, rindo do que eu respondi.
– Pirracenta – disse, retirando os sapatos. Limitei-me a erguer a sobrancelhas. – Você parece uma adolescente mimada agindo assim, sabia? – acrescentou, caminhando sobre os joelhos até chegar ao meu lado, sem fugir do meu olhar. Deitou-se ali, apoiando sua cabeça no cotovelo que deixou como base sobre o colchão.
– A culpa é sua – rebati, ainda mantendo a mesma pose ‘inabalável’. Cruzei os braços sobre a barriga, sentindo mais uma pontada, disfarçando a dor que sentia com a pressão que exercia sobre a região dolorida.
– Posso saber por quê? – questionou ele, pondo sua mão livre sobre meus braços, acariciando-os. Era difícil ser rude com , mesmo sendo de brincadeira.
– Porque me acostumou mal – respondi, percebendo em minha voz baixa que sua proximidade já estava fazendo meus miolos esquentarem.
– Te acostumei mal com o quê? – continuou, apoiando as mãos no colchão para que se pusesse sobre mim sem que seu peso forçasse meu abdômen. Tocou seus lábios nos meus de forma delicada, mantendo o contato visual. – Com isso? – Repetiu a ação, esboçando um sorriso vitorioso. – Hein?
– Um pouco mais que isso – sussurrei, carregando meu timbre com malícia, entrando em seu joguinho. Separei meus braços um do outro, pondo-os em sua cintura suspensa sobre a minha. Seus olhos fitavam os meus, deixando-se atrair pelos meus lábios em seguida, então retornando para cima. Eu tentava não olhar só para uma parte de seu rosto, o que não era tão fácil a se fazer pela forma que estava próximo. Ainda assim, consegui ver as linhas de riso de sua face, que entregavam o sorriso que ele tentava esconder entreabrindo os lábios.
– Talvez assim, então... – cochichou antes que meus olhos se fechassem em resposta à sua boca tocando a minha, agora aberta, novamente, umedecendo-as com sua língua, que procurava a minha com ardor. Franzi o tecido de sua camiseta, apertando-o entre meus dedos. Desejava que seus braços enfraquecessem para que ele caísse, deitasse sobre meu corpo. Seria o máximo que chegaríamos naquele dia, já que eu estava impossibilitada por motivos de saúde. Reavivei o desejo infantil de toda mulher, pedindo para acordar no dia seguinte tendo um presentinho entre minhas pernas para nunca mais sofrer com menstruação. Logo quando tínhamos tempo de sobra, a bendita cartela de anticoncepcionais acabou. E agora, por conta disso, eu não podia fazer nada mais que me controlar, porque não queria cometer nenhuma sujeira, literalmente falando. O que era extremamente difícil, quase impossível! Eu deveria ganhar um prêmio por aquietar o diabinho que ficava na minha consciência o tempo todo dizendo que eu devia me entregar e ser possuída a qualquer momento. que era o culpado daquele capetinha existir, é claro.
– É, é assim – falei quando senti que poderia respirar com mais calma. – Mas tem alguns detalhes que não nos ocorre pôr em prática.
 Ele riu, deixando o corpo tombar ao meu lado; seu braço continuava a me cercar. Virei meu rosto para encará-lo, minha expressão era contrária à sua, que estava aberta, iluminada. Mais uma vez eu me deixava abalar pela preocupação e medo de nos descobrirem, a autoconfiança que tinha ao seu lado era nem mesmo um quarto do tamanho da insegurança que tinha por estarmos ali. Medrosa, medrosa, medrosa! Burra! Não, mil vezes mais burra que um burro qualquer! Isso sim que eu era!
– O que foi, meu bem? – ouvi perguntar, sustentando o sorriso típico de quem acabou de rir.
– E se estiverem precisando de você por lá? – revelei uma micro parte das minhas aflições. – São cinco pessoas no comando, sendo que duas não estão lá...
. – Repreendeu-me, extinguindo qualquer sinal de que tinha sorrido. – Fica tranquila, por favor. Eu já te disse o motivo por que não vou pra lá, todos estão sabendo dele. Além do mais, eles sabem se virar. Tenho certeza que o dá conta de me cobrir, os outros dois cabeçudos fazem o mesmo por você. – Senti seus dedos passearem por meu braço em uma espécie de carinho confortante. – Enquanto isso eu tomo conta de você, que precisa mais de mim que eles.
– Eu sei – dei-me por vencida, fugindo de seus olhos –, mas tenho uma sensação de que tudo vai desandar. – Fitava o teto, focalizando a lâmpada apagada ao centro. – É meio que uma intuição de que algo vai dar errado, sabe?
– Nada vai dar errado, boba – ele retrucou, apertando-me em um abraço que fez seu rosto se afundar em meus cabelos. – E, se der, eu tô aqui contigo pra te ajudar. Agora esquece tudo, por favor.
 Assenti, trancando-me em meu próprio silêncio. Sim, ele estava comigo, eu deveria esquecer tudo. Entretanto, aquela impressão de que ia dar merda continuava. Só que naquele momento eu não pensaria nela, talvez mais tarde, quando fosse trabalhar. Eu poderia até conversar sobre isso com Sue, já que ela tinha conhecimento de tudo que me acontecia – o que evitava maiores surpresas quando via que meu sócio estava comigo. Confiança era o que eu mais tinha nela, pois trabalhava comigo desde que me mudei para perto da gravadora, o que acabou construindo um laço mais estreito e firme que o profissional. Estava decidido: eu colocaria para fora todos os meus grilos quando Sue voltasse do supermercado. Precisava apenas despejar meu medo, não existia realmente uma situação complicada. Minha intuição era sem fundamento.

***

– Bom dia, – disse ao me encontrar no estacionamento da gravadora. Sorria tão preguiçosamente que era difícil esconder o sono.
– Bom dia – respondi, apertando o botão que ativava o alarme de meu carro. Retornei seu sorriso enquanto ajeitava a alça de minha bolsa sobre meu ombro. – Dormiu tarde ontem?
– Nem dormi – confessou, bocejando. Começamos o curto caminho até a entrada do edifício. – Heidi não parou de chorar a noite toda, tive que ficar acordado porque era meu dia no revezamento.
– É, papai, a vida não é fácil – zombei, rindo e o fazendo rir, não com o mesmo ânimo que eu por causa da sonolência. – Mas ela melhorou?
– Aham. – Passamos pela entrada do edifício sem nem parar para cumprimentar as recepcionistas, tamanha a distração que tínhamos. – Só que era seis da manhã quando finalmente pegou no sono – a voz de soou cansada e injuriada. Definitivamente estava cansado de ser pai, apesar de aquela ser a primeira tentativa. – Preferi não voltar pra cama, senão eu não tava aqui agora, com toda certeza.
– Você podia ter tirado o dia de folga, a gente entende como seu sono é sagrado – ri mais uma vez, entrando no elevador. O ascensorista já sabia em qual andar iríamos descer, não foi preciso dizer.
– Prefiro ficar com a segunda mesmo – ele deu de ombros. – Nunca consigo levantar cedo numa segunda de manhã, não iria querer perder minha folga da semana que vem nem que me pagassem!
– Mas você é o patrão, ninguém te paga por aqui – lembrei, vendo-o parar para refletir. Ri novamente, balançando a cabeça em negação.
– Tem razão – disse ele. – Ah, mas você entendeu! Tô com muito sono pra ficar pensando em tudo, releva.
– Estamos hoje em quatro cabeças e meia – conclui, continuando o tom de riso de antes. – Justo no dia em que mais precisamos das cinco juntas.
– Pode deixar, , não vou fazer cagadas tão grandes – prometeu ele. – Vou até providenciar uma máquina de café pra ficar lá na minha sala!
– Faz bem – disse eu, saindo do elevador e cumprimentando o ascensorista com um sorriso. fez o mesmo, ainda me acompanhando. – Bom dia, Cory! – guinchei, fazendo minha assessora desprender sua atenção dos papéis que segurava com um pequeno susto. Ri baixo.
– Segura a emoção, garota! – aconselhou de forma passional, rindo também. – Vou indo pra minha sala, , até mais.
– Até – falei a ele, já deixando minha bolsa sobre o balcão da ruivinha que me auxiliava.
– Quanto bom humor, Srta. – disse Cory, voltando a olhar seus papéis.
– É, nada como um dia após o outro. – Apoiei-me no balcão, ficando nas pontas dos pés para enxergar o que ela segurava, que deveria ser trabalhos e mais trabalhos acumulados para eu fazer. – Tudo isso é de ontem e hoje?
– Isso – ela assentiu, entregando-me uma pilha mediana de folhas. – E ainda tem mais, só que tá na sala do Sr. .
– Certo. – Tomei as várias páginas de contratos em mãos, em seguida pegando minha bolsa. – Peça a ele que vá até minha sala com o que me pertence, por favor. E com urgência.
– Claro, Srta. – ouvi-a dizer, já discando o ramal para a sala de enquanto eu me encaminhava a minha sala.
– Ah, a propósito – voltei alguns passos, pondo Cory em meu campo de visão novamente. – Não me chame mais de “Srta. ”, e sim de , tudo bem?
 Ela assentiu de novo, então me retirei. Deixei a porta de meu escritório aberta para que visse quando estivesse se aproximando, queria pelo menos fingir que estava brava por ele assumir minhas responsabilidades sem meu consentimento. Estava demasiadamente grata, é claro, ele estava se mostrando prestativo e atencioso, uma vez que sabia que havia trabalho acumulado para mim na parte administrativa – área que ele não costumava trabalhar. Mas nada melhor que uma pequena encenação para usar como pretexto pra matarmos tempo conversando sobre banalidades. Era nossa tática para manter os assuntos em pauta sem usar os emails internos, e funcionava muito bem pelo fato de ele ser o único que tratava da parte burocrática antes de eu surgir. Seus conhecimentos eram superficiais, antes de eu ser sócia, sempre tinha que contratar contadores, administradores e gestores de recursos humanos para lhe ajudar. E agora tudo se concentrava em mim e alguns poucos ajudantes, o que o fazia me procurar pra tirar dúvidas. Porém, em algumas semanas, as dúvidas nem sempre eram sobre a gravadora. Muitas delas eram algo do tipo “Algum lugar em especial que gostaria de almoçar hoje?” Irritava e muito a persistência com que continuava a me abordar, ameaçar acusá-lo de assédio moral não era o bastante para que se afastasse. Até que eu resolvi apostar numa psicologia inversa, e cá estamos nós, usando desculpas esfarrapadas para ficarmos mais tempo juntos.
 Sentei-me em minha cadeira, ajeitando o monte de folhas em um canto da mesa e minha bolsa em outro. Antes que o monitor do meu computador se acendesse, surgiu no percurso até minha sala. Dei a impressão de que não me importava, continuando a olhar para os objetos que tinha à minha volta. A porta foi encostada, e logo a cadeira em minha frente foi ocupada.
– Não precisa mais fingir que não me viu, disse em tom de ironia, colocando a perna direita sobre o joelho esquerdo. Usava jeans de cor grafite, por fora uma camisa branca de algodão e jaqueta de couro preto; os pés estavam calçados com sapatos pretos, incrivelmente bem engraxados. Se não soubesse que era ele quem separava suas roupas, acharia que há mais uma por trás de seu bom gosto – mas essa não se deitaria na mesma cama que ele, pois seria nojento incesto.
– Pra todos os efeitos, não gostei da sua atitude – expliquei sem mais cortesias a razão da pseudo-indiferença com que lhe tratava. – Obrigada por se preocupar, , mas não precisa cuidar do meu trabalho, mesmo que esteja atrasado. – Então lhe dei um sorriso condescendente. Ele assentiu, pondo outra pilha de papéis sobre os que já estavam na mesa.
– Já tá melhor? – indagou, mudando de assunto. Batia os dedos de forma ordenada sobre o apoio da cadeira, indicando que estava impaciente com algo. Esse pequeno ato involuntário sempre se repetia toda vez que estava ansioso.
– O bastante pra vir trabalhar – respondi, deixando de lado o clima formal. Aproximei minha cadeira à mesa, inclinando-me levemente sobre o móvel e pondo minhas mãos, com os dedos entrelaçados, ao meio dele. – Não aguentava mais ficar em casa como uma inválida enquanto você estava aqui aos olhos de qualquer uma.
– De que me adianta qualquer uma? – ele riu, inclinando-se da mesma forma que eu. Sei que devíamos estar o mais distante possível para que não acabássemos sendo pegos de surpresa, mas que mal faria um beijo de bom dia? – A que eu queria não estava aqui mesmo.
– Ah, é? – Desenlacei meus dedos, espalmando minhas mãos sobre a mesa. Ergui-me o suficiente para me colocar a centímetros do rosto de . – Me diz qual o nome dela.
– Se eu disser, serei obrigado a te matar – disse ele, enviesando um sorriso. – Só posso dizer que ela mora a três quarteirões daqui, em uma cobertura no nono andar.
– Minha vizinha, então? – fiz-me de inocente, ainda me sustentando sobre as mãos. – Que coisa horrível. , o músico queridinho de Londres, tendo dois affairs, sendo que é casado.
– Pois é, não sou tão forte quanto os meus instintos – mais uma vez ele riu, agora mirando meus lábios. Voltou a olhar meus olhos. – E aquela outra também não. Acredita que fizemos amor bem aqui, na Super Records? Foi nessa semana mesmo.
– Você é um menino muito mau, . – Balancei minha cabeça para os lados, ainda mantendo meu sorriso satírico. – Não merece ganhar mais nenhum beijo meu.
– Não seja por isso, eu roubo – rebateu, encerrando todo o teatrinho de ironias que fazíamos. Levantou-se quase que em um pulo, pressionando sua boca contra a minha como se realmente me roubasse um beijo. Continuei com as mãos sobre a mesa, em uma altura diferente da sua, levando-o a segurar meu rosto para ter certeza de que meus braços não cederiam enquanto ele não quisesse. Agradeci mentalmente por tê-lo feito, porque meus braços já começavam a ficar moles. Seus dedos caminharam lentamente para minha nuca, aumentando a intensidade com que me beijava. Estava delirando com a sensação de perigo misturada ao desejo, logo delirei de pavor quando ouvi o telefone tocar. Separei-me bruscamente de , respirando fundo e o olhando, assustada. Eu tinha titica na cabeça pra fazer aquilo? E se, ao invés de avisar pelo telefone, Cory desse apenas duas batidas fracas e abrisse a porta, como costumava fazer? Mais uma vez o telefone tocou. Vi se sentar novamente, como se aguardasse o fim da ligação para me dizer algo. Sorvi o máximo de ar que pude, sentando-me e atendendo ao telefone.
– Pois não? – disse eu, escondendo o nervosismo em uma voz meio falhada.
Srta. , digo, , há visita para a senhorita.
– Estou em reunião com agora, Cory – menti descaradamente. Meu estômago embrulhava ainda por conta do susto. Ouvi minha assessora informar a sabe Deus quem fosse aquela pessoa.
Disse ser de grande importância.
Franzi o cenho. Quem teria assunto de tanta importância a tratar comigo, que tratava apenas de assuntos internos? Ainda mais no início do expediente?
– Quem é?
Jeane Walsh, não é de nenhuma empresa relacionada à gravadora.
– Vou terminar uns detalhes pendentes, mande-a entrar daqui a cinco minutos – ordenei, desligando o telefone de imediato. ansiava uma resposta. – Parece que uma tal Jeane Walsh quer falar comigo um assunto de extrema importância, mas não faço a mínima de quem seja ou o que queira.
– Deve ser alguma fã que conseguiu burlar a segurança de novo – ele resmungou, revirando os olhos. – Vou ficar contigo até a garota entrar, deixo a porta aberta quando sair.
– Brigada – sibilei, já mais aliviada. Ele sorriu em resposta, dando-me um beijo breve. Espalhei algumas folhas pela mesa, virando umas para meu sócio, tentando passar a impressão de que estávamos analisando relatórios e contratos. fingiu, ou não, que lia uma das várias folhas, enquanto isso eu anotava coisas inúteis e cálculos inexistentes em um bloco. A porta se abriu, e lá surgiu uma garota bem vestida, de terninho e cabelos presos em um rabo de cavalo, segurando uma bolsa pequena na frente do corpo. Cory novamente fechou a porta, deixando-nos a sós. Larguei a caneta que usava sobre o bloco de notas. – Depois terminamos isso, .
– Certo, qualquer coisa me chame – respondeu, lançando-me olhar significativo. Levantou-se, carregando nas mãos a folha que lia.
– Não precisa sair, – disse Jeane, sorrindo meigamente. Abria a bolsa com calma. – É até melhor que fique, assim eu converso com os dois.
– Desculpe, realmente não posso – seu sorriso foi respondido da mesma forma –, tenho algumas coisas pra resolver. Talvez em uma outra oportunidade, sim?
– Não. – Apavorei-me ao ver que de dentro de sua bolsa saiu um revólver. Minha única reação foi a de entrar em estado de choque. – Você fica. Tenho que falar com os dois.
– Srta. Walsh, abaixe essa arma, por favor. – caminhou em sua direção. Queria gritar, afastá-lo dela, mas estava tão congelada que nem um fio de cabelo se mexia. – É melhor pra todo mundo.
– Senta – ela ordenou, apontando seu revólver a ele. Escondia a pequena arma da câmera de segurança encostando-a na barriga. – Vai logo, senta!
acatou, sentando-se novamente na cadeira à minha frente, virando-se para a garota. Eu continuava incapaz de me mover, reduzindo-me a piscar. Em consequência da adrenalina, meu coração batia em ritmo descompassado, doendo toda vez que se acelerava novamente. Estava em pânico, assustada com a atitude de Jeane, que à primeira instância parecia inofensiva.
– Vamos acalmar os ânimos – pediu, amaciando a voz.
– Mas quem aqui tá nervoso? – Jeane perguntou, irônica. – Estou completamente relaxada, não queira me ver irritada.
– O que você quer, então? – ele continuou tentando dialogar. Eu desfazia aos poucos o pavor que tinha, mas não conseguia controlar o estresse que a situação me causava.
– Que acabe a palhaçada – ela respondeu secamente, olhando diretamente para mim. – Eu já sei de vocês dois, não precisam mais disfarçar. Nem todo mundo é burro.
– Mas... Como? – Foi tudo o que consegui dizer, assumindo nosso caso pela inconformidade que demonstrava. estava tão pasmo que nem mesmo tentou reverter o que eu disse. Éramos sempre tão discretos, nem mesmo os outros rapazes desconfiavam, então como uma pessoa que nunca vimos na vida teria o feito? E o pior, confirmado sua desconfiança?
– Ajuda de um ou dois profissionais... E o prédio do lado foi muito útil – ela explicou, sorrindo com sarcasmo. – Equipamentos de filmagem e fotografia também ajudam bastante. E claro, tenho que agradecer a vocês pelo descuido.
 Absolutamente chocada com as informações, não tive reações maiores. Estava apavorada com a insanidade que aquela garota tinha chegado. Não eram necessárias mais perguntas para saber que era uma lunática, fanática ao extremo, obcecada por ; a arma em sua mão era a maior prova que se tinha. E estávamos à sua mercê, já que qualquer movimento suspeito poderia desencadear uma reação tão absurda quanto já tivera ao nos descobrir. E eu não me atreveria – nem permitiria que se atrevesse – a desafiá-la de forma alguma.
– Por que você fez isso, Jeane? – continuava com a voz baixa, como um psicanalista examinando seu paciente. Eu odiava quando falavam dessa forma, mas até eu usaria esse tom de voz odioso com a problemática à nossa frente.
– Por quê? – De novo uma risada sarcástica. O rosto dela ligeiramente se fechou, criando calafrios em minha espinha. – Porque você, , não devia se meter com qualquer uma. Principalmente com a vagabunda fútil da . – Corri meus olhos para ele, vendo seu maxilar retesado. Inconscientemente, eu concordei com Jeane, e me incomodei por ver que ele não pensava da mesma forma. E, decerto, nunca pensaria. Acima dos defeitos, ela ainda era sua esposa, a mulher com que passou pouco mais de cinco anos de sua vida. Mais uma vez eu senti inveja dela, mas a pressão que passava não me fez mais pensar em coisas do tipo. – Eu entrei em depressão profunda por culpa sua, você sabia? – Senti pena ao ouvir tal declaração. Contudo, quando vi suas feições sádicas, repensei sobre minha dó. – Passei meses tomando anti-depressivos pra superar sua traição.
– Traição?! – indaguei, ultrajada com a afirmação subliminar de Jeane. Doente, completamente doente!
– Fica calma, – sussurrou , olhando-me de soslaio enquanto se levantava. Concordei, respirando fundo. Jeane apenas me censurou com o olhar, ignorando-me.
– Até que eu me acostumei com aquela lá, não tinha mais o que fazer mesmo – resmungou, revirando os olhos. – Assumo que quis matar a piranha, mas eu seria presa e te perderia de qualquer forma, sem contar que ela vive viajando e gastando o seu dinheiro. Aliás, por que você se submete a isso, amor? – tentou responder, então ela continuou: – Não, não precisa falar. A razão pra você suportar tudo isso tá aqui, não é, ? – Seus olhos cresceram sobre mim de forma assustadora. Tive medo do que poderia vir daquela desequilibrada emocional. – Nascida no Brasil, em uma família tão influente lá como em Portugal, onde morou até os quatorze anos. Depois se mudou pra Londres, onde vive até agora. Até agora...
 Perdi a capacidade de respirar quando ouvi o pequeno estalo da trava de seu revólver o liberando. Suei frio em cada parte de meu corpo, sentia ainda mais dor com o sangue que corria em minhas veias. Aquela dor era medo; medo de morrer, de perder , de deixá-lo desprotegido com aquela louca. Mas, no fundo, eu sabia que não agiria com bravura, não faria nenhum ato de coragem pra nos tirar daquela enrascada. Se dependesse de minha coragem, éramos capazes de morrer. Tudo por culpa minha.
– Não faça nenhuma loucura, Srta. Walsh – ouvi dizer enquanto eu abaixava meu rosto, derrotada pela tonelada de culpa que caía sobre mim. Levantei-o imediatamente, vendo meu sócio exatamente entre eu e a garota. – Vamos conversar e resolver isso, tudo tem uma solução.
– No momento a solução mais cabível é acabar com essazinha aí. – Tentei buscar meu celular na bolsa para chamar ajuda, mas minha bolsa estava no campo de visão da maluca, assim como o telefone fixo. – E não adianta ficar protegendo sua querida sócia administrativa, , uma hora ou outra eu vou pegá-la sozinha.
– E vai ser presa, vai me perder de qualquer jeito – ele argumentou. Cheguei para o lado, tentando ver o rosto de Jeane. Depositei todas as minhas esperanças em , confiava cegamente que conseguiria convencê-la a resolver nosso impasse, se é que poderia ser chamado assim, em paz. – A gente pode conversar e arrumar um jeito amigável pra dar fim a isso.
– Vocês vão me denunciar por eu ter vindo aqui, se eu fizer isso – ela negou furtivamente, a expressão agora não tão firme. Estava acuada, não tinha pensado na possibilidade de “perdê-lo”.
– Não, nós não vamos – ele garantiu. – Agora guarda essa arma e vamos conversar, Srta. Walsh, por favor.
– Jeane – disse ela em um fio de voz, parecendo suplicar. – Me chama de Jeane, .
– Venha se sentar, Jeane – a convidou, estendendo a mão. A garota continuou no mesmo lugar, olhando para sua mão, pensando com seus botões (tenho certeza que literalmente falando) se deveria ou não aceitar. A espera por uma resposta era angustiante, o estresse que eu sentia triplicava em cada fração de segundo. – Confia em mim.
 Enfim ela consentiu, guardando o revólver em sua pequena bolsa e dando a mão a , com os movimentos minuciosos, indicando que ainda estava em estado de alerta. Foi encaminhada até a poltrona ao lado da que esteve sentado minutos atrás, sentando-se lá sem tirar os olhos de meu sócio. Ele tinha todo o controle da situação, e eu me acalmava por saber desse fato.
– Me explica o motivo de você ter feito essa merda, . Me explica – disse Jeane, revoltando-me. Meu medo começava a se tornar um instinto de querer me proteger da ameaça que ela me causava, e agora que não havia mais a arma, eu poderia fazer o que quisesse. No entanto, se o fizesse, poria tudo a perder com a rapidez de um piscar de olhos. Que ingênua eu era por pensar dessa forma, que imaturidade a minha por imaginar que poderia revidar fogo com fogo, sendo que, por ser pega de surpresa, Jeane poderia disparar seu revólver enquanto o tomava em mãos, acertando qualquer um de nós três. Havia bem mais que só a pequeníssima oportunidade de me livrar envolvida naquela circunstância.
– Algumas coisas não se explicam, simplesmente acontecem – disse , lançando-me um olhar breve. Tive vontade de sorrir, mas a vontade foi tão breve quanto o olhar que recebi.
– Não me venha com essa desculpa ensaiada pra , por favor – Jeane reclamou desdenhosa. – Eu não me engano tão fácil quanto ela.
– Não estou te enganando – ele rebateu, incomodado com o que a garota disse. – Estou falando a verdade, aconteceu, ponto. Não há nem uma, nem meia explicação.
– Tá querendo me dizer que, do nada, você começou a pular a cerca? – A maneira como ela se referia a era como de uma mulher realmente traída. Ela se sentia realmente traída mesmo sem estar envolvida com ele. Ele era apenas seu ídolo! É tão insano!
– Basicamente – pelo tom de voz de , notei que estava envergonhado por assumir. – Olha, Jeane, vamos ao que interessa. O que você quer?
– Você – ela respondeu de imediato, com total convicção. Apontou para mim com a cabeça sem tirar os olhos de cima de meu sócio. – Longe dela, é claro. Não quero mais saber dos dois de risinhos. E faço qualquer coisa pra isso.
 O olhar de desprezo que me lançava, a mágoa e ira fundidas em suas palavras... Sem dúvidas, Jeane Walsh era pirada. Apesar de toda a ameaça que me causava, eu não conseguia não sentir pena. Decerto era uma garota solitária e sofria com isso, atendo-se a qualquer sonho por ser desiludida da vida. E agora estava descontando suas mágoas em nós, que não tínhamos nada a ver com sua vida.
– Tecnicamente, não podemos nos separar desse jeito – falei em tom sereno, mas sem dar brecha para que ela retrucasse. – Somos sócios, trabalhamos juntos.
– Pois desfaça a sociedade, querida. – Seu sorriso de simpatia cínica me deixava ainda mais revoltada. Já não conseguia mais compreender o misto de emoções que sentia. Ter raiva, pena e medo era confuso, e controlá-los era praticamente impossível.
– Mas precisamos dela aqui, Jeane. Ela é essencial pra administração da gravadora – explicou , tentando contorná-la, provavelmente, com chantagem emocional. – Você não quer que a Super Records afunde, não é? – Que, aliás, estava funcionando somente pela forma como ele agia. Tinha se inclinado em direção à garota, posto suas mãos sobre as dela, olhando em seus olhos enquanto dizia palavra por palavra com uma maciez vinda de não sei onde. Em sucesso de sua atitude, a garota cedeu, negando à sua pergunta. – Então vamos fazer o trato de que ela fica, pelo menos pra trabalhar?
– Você me promete que não vai mais falar com ela? – a paranóica perguntou com a voz doce, enojando-me. Olhei rapidamente para , que retornou meu olhar, tão tocado quanto eu. Seu olhar era pesaroso, e logo eu entendi o que queria me dizer. Senti uma pontada de dor em meu ventre, talvez como a dor das cólicas menstruais, mas triplicada e acrescida do dobro. Se minhas pernas não tivessem se cruzado ligeiramente, juraria que tinha me tornado paraplégica, tamanho impacto que aquela afirmação corporal havia me causado. Tentei disfarçar a nova emoção que surgia, mas essa era ainda mais avassaladora, acabando com o pouco de equilíbrio que eu tinha. Um bolo se formava em minha garganta. Eu explodiria a qualquer momento.
– Prometo – respondeu, encerrando nosso contato visual. Levantei de supetão, engolindo a vontade de chorar por conta dos nervos quase expostos, encarando Jeane com frieza.
– Pronto, já conseguiu o que queira – grunhi, controlando-me agora para não deixar a raiva tomar conta de mim (subentende-se por “não baixar o cacete naquela puta mimada”). – Quer mais alguma coisa? – Ergui meu braço, vendo-a se encolher. Mas, ao contrário da minha vontade gritante de espancá-la, apenas apontei para a saída. – Se não, porta da rua, por favor.
... – murmurou em censura ao que eu tinha feito.
– Não diga mais uma palavra, . – Jeane finalmente pareceu se lembrar do pequeno utensílio dentro de sua bolsa. Eu também me lembrei só naquele instante, mas, se ela quisesse atirar, que atirasse. Minha cabeça estava tão quente que eu já nem ligava mais para o risco que corria. – E sim, , eu quero mais uma coisa.
– Diga logo – grasnei, não vibrando um fio de cabelo ao vê-la remexer em sua bolsa.
– Vou ser boazinha. Já que foi tão querida e educada – mas vibrei até a ponta de meus dedos quando ouvi mais uma ironia saindo de sua boca. Seria questão de segundos até que eu me agarrasse ao pescoço daquela débil mental –, não vou fazer nada contigo. Porém, só se os dois cumprirem um de três pedidos.
– E quais são? – perguntou , tão ansioso quanto eu pela resposta.
– O primeiro é quinhentas mil libras. Em dinheiro vivo. – Não consegui controlar meu espanto, arregalando os olhos imediatamente, deixando-os fixados em Jeane. – Em três dias, contando com hoje, ou seja, segunda-feira, quero o dinheiro em minhas mãos.
– Prossiga – foi apenas o que disse, parecendo não se abalar. Era incrível o autocontrole que tinha, enquanto eu mal conseguia disfarçar que estava ficando louca com toda essa história.
– O segundo... – a garota sorriu, falhamente sedutora, diga-se de passagem, para meu sócio. Vi a sobrancelha esquerda dele se erguer, tentando imaginar por que diabos aquela idiota o olhava daquela forma. – Gosta de Estocolmo, ? É pra lá que iremos! – Jeane pareceu se empolgar com a ideia, e tive vontade de gargalhar em sua cara. Coitada, achando mesmo que vai viajar com ! – Se você quiser, claro. Passaremos o Natal e o Réveillon lá! Dizem que o inverno da Suécia é ainda mais rigoroso, mas existem as saunas pra isso, né? – Definitivamente, eu estava morrendo de vontade de rir. Até deixei escapar um meio-riso sem querer, levando-me a tapar a boca ligeiramente para que Jeane não ouvisse. Pelo andar da carruagem, o próximo pedido seria um autógrafo na barra da calcinha, na certa.
– E o terceiro? – indaguei, escondendo ao máximo meu tom de riso. Ela se virou para mim, sorrindo.
– Creio que esse seja o mais fácil de se cumprir – respondeu. Adivinhei, era a calcinha! – Você, , terá que ser como um fantasma. Nunca mais deve aparecer em nenhum evento que o McFly vá, incluindo os pessoais. – Minha vontade de rir se esvaiu em um segundo, senti como se tivesse recebido outra pancada. Perdi a força das pernas, voltando a me sentar em seguida. – E não adianta tentar me enganar, assim como eu descobri sobre vocês dois, posso descobrir se continuam juntos. – O bolo da minha garganta se refez, meu peito parecia não suportar os pulmões, que buscavam todo o ar que podiam. – Então, o que decidem?
 Olhei para em busca de uma resposta, e provavelmente minhas feições eram as piores possíveis, pois só a sugestão de nos separarmos me abalava. Não queria nem imaginar deixá-lo depois de saber que finalmente acabariam os encontros escondidos. Ele, ainda que de modo mais discreto, mostrava-se tão tocado quanto eu. Era de se imaginar que não seria fácil para nenhum dos dois, uma vez que já estávamos há tanto tempo juntos, agora decididos a assumir o que tínhamos. E por um simples motivo tudo estava prestes a acabar. Tão simples era esse motivo que chegava a ser banal. Era somente uma fã. Mas uma fã que não media esforços para conseguir o que queria – e que deveria estar trancada em um quarto branco muito bem acolchoado. E ela estava conseguindo o que queria de nós. Apoiei meus braços sobre a mesa, afundando meu rosto entre as mãos, indicando que eu não aguentaria por muito tempo a pressão que caía sobre meus ombros.
– Pode nos dar um tempo pra pensar? – ouvir dizer, mas não o olhei, como das outras vezes. Estava me declarando derrotada, jogava o problema para cima dele me omitindo daquela forma. – Nós não vamos fugir mesmo, temos que trabalhar, pagar contas...
– Segunda. – Jeane o interrompeu secamente. – Volto aqui no mesmo horário, e quero meu pedido atendido. – O som da cadeira se arrastando sobre o piso de tábuas corridas foi o que me tirou dos pensamentos pessimistas que tinha sobre mim mesma. Ela estava se preparando para ir embora. – E não precisam se preocupar em chamar a polícia. Se prometerem me atender, prometo não dar mais dor de cabeça. Prometem? – assentiu, então a garota me olhou, esperando minha confirmação. Mantive-me quieta, séria, imóvel. – Promete, ?
– Prometo. – Respondi, buscando forças para não desabar por ter rompido meu silêncio. Enfim ela partiu, encostando delicadamente a porta antes de sair. E, pela primeira vez em todos os últimos quinze meses, não me senti bem por estar a sós com . Encontrava-me perturbada demais com o acontecido, precisava organizar meus pensamentos, precisava ficar sozinha para isso. Por mais que me sentisse segura ao seu lado, necessitava de um afastamento. Estar vulnerável da forma que eu estava acabava com a minha sanidade, e diálogo não era uma especialidade minha quando confusa. Na realidade, eu não tinha nenhuma nesse estado.
– O que a gente faz agora? – perguntei para mim, ainda chocada com o último pedido de Jeane. se levantou, vindo em minha direção.
– Vamos arrumar uma saída – disse ao tempo que se agachava, tendo o rosto à altura do meu. Deu-me um beijo calmo e demorado, e pelos segundos que permaneci de olhos fechados, acabei deixando uma pequena lágrima cair, deixando pela minha bochecha esquerda um fino fio úmido. Senti-me frágil demais em minha vulnerabilidade, odiava me ver assim. E odiava que me vissem assim, seja qual fosse a pessoa.
... – sibilei, cessando o beijo. Demorei para abrir os olhos, e quando fiz, demorei a encarar meu sócio. Respirei fundo, sentindo os dedos dele secarem meu rosto. – Me deixa sozinha, por favor.
– Tem certeza? – ele indagou, repetindo os mesmos movimentos dos dedos sobre minha maçã do rosto, agora para acariciá-la. Assenti, deixando de olhá-lo, apertando meus lábios, transformando-os em uma linha funda e reta. , atendendo ao meu pedido, levantou-se, encerrando nosso contato. Beijou o topo de minha cabeça, alisando o lugar em seguida. – Se precisar, me chama.
 Mais uma vez eu assenti, continuando a encarar o nada à frente de meus pés. Ouvia o barulho que os sapatos de faziam ao se distanciarem; meu coração se apertava por saber que aquela poderia ser a última vez que ele deixaria a minha sala. Tive vontade de chamar seu nome, correr em sua direção, abraçá-lo com força e me esquecer das ameaças que sofri por tê-lo amado em segredo. Porém, nem mesmo me movi. Fiquei estática, os lábios ainda apertados, as mãos ainda sobre o jeans escuro que eu vestia. Nem mesmo levantei os olhos para confirmar que estava sendo observada. Quando finalmente tive força psicológica para o fazer, a porta já tinha sido fechada. Estava trancada em meu próprio mundo naquele momento, o silêncio, ora inquietante, ora tranquilizante, era meu único companheiro. Eu não reclamava, no entanto, tinha pedido por aquilo. No fim das contas, era tudo minha culpa.

***

 Novamente eu estava estirada sobre minha cama, encarando o teto como se ele a clareza dele pudesse me dar alguma solução. Eu sabia, claro, que não, mas a ilusão era mais confortável. Qualquer coisa que me afastasse da realidade me confortaria. Poderia apelar para o cigarro, mas só de pensar em ter de ir comprar, ficava cansada. Bebidas seriam uma ótima solução, caso eu quisesse trabalhar de ressaca. Drogas... Não, fora de cogitação. Até mesmo as medicinais. Virei-me de bruços ao terminar mais uma série de possibilidades inúteis de distração, afundando o rosto no travesseiro. Sentia-me tão vazia que nem mesmo sono eu tinha. Havia me isolado do resto do planeta de tal forma que parecia apenas um átomo perdido por aí. Não atendia telefonemas, mal levantava da cama, evitava ver televisão, ouvir rádio e, principalmente, abrir a caixa de emails da gravadora. Era uma intuição minha de que tinha pelo menos um email de lá, então preferia boicotá-lo, por mais que a curiosidade fosse grande – enorme, exorbitante.
 Talvez fosse um exagero meu, só mais um drama, quem ligava? Errado, existia gente preocupada com o meu “sumiço”. Uma delas era , que eu desconfiava que soubesse de meu caso com , e se minha desconfiança fosse verdade, ele provavelmente estaria notando o rompimento – forçado – de nosso relacionamento pelo jeito como estávamos agindo. Eu nunca conferi se ele tinha conhecimento de algo, e agora, depois de tanto tempo, teria que conferir, confirmar e pedir que se esquecesse. Eu seria um fantasma na vida do McFly, como disse Jeane, tudo que tinha feito seria apenas memória.
 Virei-me de barriga para cima novamente. Era duas da tarde de domingo e eu tentava dormir até o fim de meus dias, mas sempre acabava repetindo as ações de sábado: pensar, rolar pela cama; refletir, perder totalmente o sono; levantar, voltar a pensar; andar pelo apartamento, correr de volta para a cama; discar inconscientemente o número de ... e notar que ultimamente me resumira a ele. O mais incômodo de tudo é que deixei de fazer coisas que gostava, como andar pela Oxford Street sem compromisso ou ir a pubs com amigas e ex colegas de faculdade, só para arrumar tempo para ficarmos juntos. Certo, os nossos instantes eram incríveis e inesquecíveis, todavia, eu sentia falta de uma relação estável, de poder apresentar alguém para meus familiares e amigos e dizer “É ele quem me faz feliz e é com ele que quero ficar.” Sentia falta de poder planejar meu futuro ao lado de alguém, sem ter medo do que pensariam ou falariam. Eu não tinha nada disso com , sempre ficava em segundo plano, nem mesmo reclamar podia. O fato é que, finalmente, cansei de ser a “outra”. Cansei de sempre me meter em enrascadas para zelar por sua reputação. Só era uma pena ter levado tanto tempo para me tocar disso, afinal, ele me prometera deixar . Mas o que era uma promessa, a essa altura do campeonato? Apenas um punhado de palavras e a fé cega de quem, no caso, eu, espera o cumprimento dela. Em sumo, eu havia entrado nesse jogo que era me envolver com , só não sabia que era um jogo de azar. E, diz o ditado, a banca sempre ganha. Burra fui eu em tentar reverter tão sábias palavras!
 Tateei o colchão às cegas, tentando encontrar meu celular para olhar as horas pela não sei qual vez. Contudo, ao acender o visor do aparelho, não olhei somente os números, mas o papel de parede dele também. Era a última foto que tiramos no verão, quando ocorreu um churrasco na casa de praia de para comemorar seu noivado – ele ainda mantinha o espírito caseiro e rústico, o que adorávamos, pois era um churrasqueiro de mão cheia! estava em Londres no dia porque chegara de Madrid sem avisar – recebendo ela uma surpresa ao chegar em casa e ver que estava sozinha –, logo estava “sozinho”. Passamos o final de semana inteiro na casa, e na hora de irmos, fomos os últimos a sair de Sheffield, porque tinha perdido a carteira na praia. Era uma completa mentira, inventada de última instância, para ficarmos com algum tempinho de privacidade. Mas nem eu sabia que era mentira, então fui, inocentemente, procurar a carteira perdida. Fui pega de surpresa pelo mentiroso, caindo de mau jeito sobre os seixos e torcendo o tornozelo. Extra preocupado como é, fez questão de me carregar nas costas – não do jeito divertido, em que a pessoa consegue se apoiar, e sim com o traseiro pro alto e os cabelos para baixo – até que chegássemos ao sofá da sala. Mesmo eu estando debilitada e querendo matá-lo, deixei-me levar por sua desenvoltura, cedendo às suas carícias. Acabamos transando ali mesmo, e não uma única vez. Após a última – que, se não me engano, foi a terceira seguida –, meu celular tocou, mas não pude atender porque o roubou de mim, ignorando a chamada e começando a mexer nas funções do aparelho, ainda me mantendo presa entre seus joelhos. Quando descobriu como ligar a câmera acoplada, aproximou seu rosto do meu, encostando nossos narizes, murmurando um “sorria” enquanto realizava a ação, prestes a tirar a foto. Desviei meu nariz do seu, sorrindo contra seus lábios e fechando os olhos, assim ele ficaria com o perfil na frente do meu, escondendo meu rosto cansado e, com toda certeza, borrado de maquiagem. E dessa forma foi capturada a imagem, nossa primeira fotografia em um momento íntimo.
 Um como muitos outros que tivemos, e que desde já sentia falta. Eu precisava a qualquer custo me abster de seu corpo. Mutuamente precisava saciar o desejo de tê-lo. Era duro aguentar todo esse misto de vontades, ideias e sentimentos sozinha, porém, os únicos que poderiam me ajudar ou estavam longe – no caso de Sue –, ou eram culpados pelo meu estado. Mas, pensando melhor, um deles também precisava de mim. Por mais que eu quisesse me esconder, devia encontrar para resolvermos o problema de Jeane Walsh – eu já tinha decidido o que faria, apenas ia comunicá-lo; não lhe cabia desacatar minha opção. Ele estaria em casa, decerto, pois nunca saía quando estava sozinho se não fosse de extrema importância. Só me faltava a boa vontade para ir até lá.
 Olhei novamente o visor de meu celular, onde marcava duas e treze. Procurei ver a última chamada não atendida, e essa tinha sido há mais de trinta minutos, feita por um número privado. Não fazia a mínima de quem podia ser, mas não me ocupei mais com isso. Levantei-me da cama vagarosamente, soltando os cabelos e retirando minhas roupas pelo curto caminho até o banheiro. Bloqueava todas as imagens de e eu, e assumo que era muito difícil, porque, literalmente, tudo me lembrava ele. Deus, como seria difícil conviver com sem poder ter o que já fora meu! Agora eu entendia perfeitamente os motivos que levam uma pessoa a cometer loucuras por amor. Doía demais, psicológica e fisicamente, ver-me longe de quem eu queria tão bem. E ou eu fazia isso, ou corria um risco enorme. Parecia egoísta não querer dar a vida por ele, entretanto, se o fizesse, descobririam o motivo, o que poderia arruinar seu futuro. Fora sair de seu círculo social, nada o protegeria. E eu pensando que Jeane era maluca... Maluca coisa nenhuma, era psicótica e calculista! Estava completamente claro que tinha pensado até nos últimos detalhes, a parte de Estocolmo era apenas uma piada de mau gosto, nós que não tínhamos percebido.
 Saí do chuveiro em poucos minutos, vesti-me com jeans velho, camiseta comprida e branca e um par de sapatilhas qualquer. Que se danasse se estivesse frio, pretendia passar grande parte do tempo dentro de meu carro, não demoraria tanto assim somente para dar um recado. Peguei algumas coisas úteis e desci para o estacionamento. A primeira coisa que fiz foi ligar o rádio, e me arrependi quando ouvi This Love tocar. Apesar de magoar ouvir pela voz de outros o que eu sentia, preferia continuar a me autopunir, como a terrível mania masoquista de quando se tem um corte na ponta do dedo e se cutuca apenas para saber que ainda dói. Bati meus dedos três vezes sobre o volante de forma ordenada, tendo ciência do costume similar ao de só depois de executá-lo. Só para piorar minha situação, ainda tinha adquirido suas manias.
 Algum tempo depois, cheguei ao condomínio que morava. Estranhamente, o portão se abriu sem que eu me indentificasse ao porteiro, então, sem questionar, entrei, procurando avistar a majestosa casa de meu sócio, o que não foi difícil, uma vez que, de todas as construções, a sua era a única de cor azul-céu – a cor preferida de , segundo ele. A porta de entrada estava aberta, e logo surgiu a imagem adorável de , que trajava uma bermuda branca com detalhes em verde e azul, o tronco era coberto apenas por uma toalha franzida e jogada sobre o ombro direito. Ele já sabia que eu estava ali, óbvio. E eu pensando que chegaria de surpresa... Mas como ele soube que eu iria acabar parada em frente à sua casa? Era tão previsível assim?
– Fiquei te esperando, já que você não me deixou saber se podia ir até o seu apartamento – ouvi dizer quando bati a porta do carro. Olhei em qualquer outra direção que não fosse a sua, envergonhada demais para assumir que fizera aquilo por necessidade, não por pirraça.
– Desculpe – falei baixo, porém em uma altura suficiente para que ele entendesse perfeitamente. – Realmente não foi minha intenção te ignorar, em particular.
– Sei que não – disse ele, soltando um riso sem humor. – Vem, entra. – Então se pôs ao lado da porta, dando-me passagem. Aceitei seu convite sem pensar duas vezes, ativando o alarme do carro e caminhando até sua casa cor de fundo de piscina, como dissera outrora. Ao adentrar o vestíbulo, deparei-me com uma nova decoração, bem mais minimalista e irritantemente baseada na cor branca. Se a intenção era passar tranquilidade, em mim tinha efeito contrário. Ou eu estava apenas usando um pretexto para justificar meu nervosismo. Todavia, uma hora ou outra eu teria que dar um fim a ele. Que fosse o mais cedo possível. – Pode se sentar, fica à vontade. – Ele sorriu de forma educada, sentando-se em uma das poltronas de fronte ao sofá maior. Consenti, acomodando-me no móvel menor, ao lado. Respirei fundo, fechando os olhos ao tempo que sorvia o ar, abrindo-os quando expirei.
, vou ser direta. – Pus minhas mãos, unidas, sobre o vão entre minhas pernas, pressionando as pontas de meus dedos contra o jeans. Decidi finalmente fitar seus olhos, tentando ser firme em meu olhar. – A partir de amanhã, quero que finja que eu não existo. E que esqueça tudo que já aconteceu entre nós dois. Aliás, não deverá existir nunca mais um “nós”.
– Você tá mesmo terminando tudo por um motivo bobo como esse? – ele indagou, sorrindo como se duvidasse das minhas palavras.
– Motivo bobo? – rebati, surpresa com a calma com que tratava o assunto. Às vezes queria que um pouco mais de hostilidade corresse em suas veias. – Uma garota louca conseguiu nos render as oito da manhã, armada, e nos fez uma chantagem. Tem certeza que você acha bobagem? – Em resposta, ele apenas deu de ombros. – Seu senso comum anda perturbado.
– Não é questão de senso comum, , é só encarar os fatos. Ela é apenas uma adolescente, basta procurar os pais dela e fica tudo resolvido. Não precisamos de todo esse drama. – Uma de suas mãos procurou tocar as minhas, mas eu as esquivei, fazendo-o me olhar com confusão.
– O problema é que eu não quero mais – confessei, tendo certeza de que minha expressão era tristonha. Minha voz me denunciava. – Não é só o fato de termos sido descobertos, é que eu finalmente percebi o quanto minha vida mudou desde que comecei a me envolver contigo. – Abaixei meu rosto, certa de que não conseguiria prosseguir olhando em seus olhos. – E não foi uma mudança boa. – Ergui meus olhos para o teto, insistindo em não chorar após um extenso silêncio constrangedor. Eu não era tão fraca assim... Era? – Eu deixei de viver minha vida em função de um relacionamento que eu nem sabia se tinha futuro, tinha sempre que me resumir em ser um passatempo...
– Não diga uma coisa dessas, – resmungou ele em tom de censura, interrompendo meu discurso.
– Eu preciso dizer, , porque é tudo verdade – retruquei, percebendo a fraqueza em meu timbre. Não podia vacilar, não iria vacilar. – E é exatamente por ser verdade que eu quero que acabe.
– Nós vamos ficar juntos – seus dedos tocaram meu queixo, fazendo-o se erguer –, você sabe que eu cumpro minhas promessas.
– Olha o tempo que eu esperei pra que você me desse apenas uma promessa – despejei, deixando que minha voz soasse em acusação. – E depois, como seria? Mais um ano e meio pra assumirmos o... Isso que temos? Que, aliás, nem sei exatamente o que é!
– Você sabe, sim – repreendeu-me ele, deixando de ser terno. Sua relutância não me ajudava em nada a acabar com aquilo.
– Não, não sei – rebati, segurando sua mão, fazendo-a soltar meu rosto. Tinha de ser fria o bastante para continuar. – Porque nunca passei por toda essa situação antes, e assumo que preferia não ter passado.
– Então diz como você se sentia quando estávamos juntos. – Porém ele me contornou, amolecendo-me mais uma vez. Minha mão deixou de segurar a sua para ser segurada pela mesma. – Mas seja honesta comigo.
– Não faça as coisas ainda mais difíceis pra mim – pedi, mordendo o lábio inferior em seguida. Eu sabia o que ele queria agindo daquela forma, sempre que tentava, conseguia me convencer. Só que eu não podia me deixar levar dessa vez. Havia bem mais que só a vontade de Jeane como razão da minha decisão, e eu precisava respeitá-la para me respeitar.
– Não tô fazendo nada ser difícil – ele riu baixo, convencido, vindo em minha direção. – Só tô mostrando pra você que o que disse é só insegurança, e uma insegurança boba. – Então parou no meio do caminho, mantendo-se sentando apenas na ponta da poltrona. – Até dois dias atrás não havia sequer um pensamento parecido com esse, ele só surgiu porque você se viu pressionada. – Meu cabelo, ainda úmido, foi retirado da frente do rosto, e pude sentir o cheiro de banho fresco que exalava de sua pele. – E eu já te disse que estaria ao seu lado, que te ajudaria com qualquer coisa.
– Então me ajuda a acabar com isso – disse em um fio de voz, fechando os olhos, descrente das minhas próprias palavras.
– Nesse caso, não posso cumprir o que prometi – foi o que ouvi antes de sentir meus lábios serem pressionados pelos seus. Impensadamente, envolvi seu pescoço com rapidez, desmanchando todas as minhas atuais ideias e decisões. Eu não me sentia fraca ou burra por fazer isso, estava satisfeita por tê-lo mais uma vez. Uma satisfação nostálgica, pois eu sabia que não duraria muito até que a promessa de que eu encerraria nosso caso se fortalecesse. Contudo, eu preferia não pensar no que viria a acontecer mais tarde.
 Abri uma fenda por entre meus lábios, e por ali minha língua e a de se encontraram. O peso de seu corpo caindo sobre o meu me fez deitar sobre o estofado, levando-o a deitar-se sobre mim. Nossas pernas ficaram sobrepostas, e eu fiz questão de envolver uma das dele com a minha. Sua mão esquerda segurava meu rosto ao tempo que a direita tocava minha cintura, enquanto as minhas continuavam envolvendo sua nuca. Havia saudades de ambas as partes naquele beijo. O que era absurdo para outros, já que fazia apenas dois dias desde nosso último encontro. Para nós, entretanto, dois dias era como uma eternidade.
 Prendi minha atenção em como os cabelos dele, tão molhados que pingavam, roçavam em minha bochecha; na maneira que sua respiração batia em minha pele; no modo que seus lábios aqueciam pequenas regiões do meu pescoço. Era quase insensata a forma que eu adorava os pequenos detalhes de suas atitudes. Mais que claramente, eu era viciada em cada toque, cada ação que ele realizava. Completa ironia do destino ele ser casado. E o pior: famoso. Minha redenção e perdição se encontravam no mesmo lugar. E no momento eu queria me perder, mesmo que por poucos minutos. De fato, eu não tinha amor próprio, adorava me contrariar fazendo o que não devia. E já que estava fazendo, por que não aproveitar?
 Emaranhei seus cabelos em meus dedos, a outra mão massageava e apertava suas costas. Mordi meu próprio lábio ao sentir que realmente o machucara em algumas partes, principalmente na altura do lombar, onde comecei, provavelmente com mais força, o caminho de minhas unhas. Jurei mentalmente que nunca mais faria o mesmo, selando a jura com um beijo sobre o ombro de , que em seguida riu e levantou seu rosto para me olhar.
– Não precisa tentar se desculpar por isso – disse em tom de riso, olhando diretamente em meus olhos, fazendo-me sentir culpada pela ferida e envergonhada pela falha tentativa de compensação. Por que ele sempre tinha que descobrir as minhas mensagens subliminares?
– Eu abri um rombo nas suas costas, – contestei, desfazendo-me das reações negativas que haviam me surgido. Ele riu, e só então me dei conta do exagero com que tinha tratado, rindo também. – Não ri, isso é sério!
 Estúpido pedir pra uma pessoa parar de rir, sendo que você está rindo também, eu sei.
– Não se preocupa, tenho uma ótima enfermeira – disse , mantendo seu rosto ainda alegre. Parei de rir imediatamente, desviando meu olhar e repuxando somente um dos cantos dos meus lábios. Sempre ela. – E não é quem você tá pensando.
– Quem é, então? – indaguei, não conseguindo conter os ciúmes. Estava me sentindo dona de algo que não era, e, se dependesse de mim, também não seria, meu. Tão contraditório.
– Uma velha amiga minha – ele respondeu simplesmente, como se não fosse nada demais admitir que estava vendo outra mulher enquanto “me esperava”. Puxei seus cabelos, que ainda estavam entre meus dedos, com força, fazendo-o notar minha insatisfação. Ao invés de um grunhido de dor, ele apenas riu. – Não se preocupa, , é o .
– Quem? – perguntei de imediato, deixando minha mão cair e meus globos oculares quase saltarem para fora. Se eu tinha alguma dúvida sobre saber sobre o nosso caso, ela foi sanada nesse instante.
. – respondeu tão rápido quanto eu perguntei, olhando-me de modo a parecer que prendia o riso. Continuei apenas o encarando fixamente, esquecendo-me até de piscar.
– Por que você fez isso?! – questionei, sentindo minhas sobrancelhas forçarem meus olhos, até então arregalados, a se fecharem, indicando que minhas feições se transformavam instintivamente. então suavizou seus traços, deixando-os inexpressíveis.
– Pelo mesmo motivo que você contou pra Sue – disse ele de forma fria, olhando-me vagamente. Em outra ocasião, eu seguraria seu rosto e pediria que nunca mais repetisse essa ação, pois sempre me sentia desalentada. Nessa, porém, estava me sentindo ultrajada por não ter sido consultada.
– Mas nós conversamos antes de eu contar a ela! – argumentei, vendo-o se levantar. Ajeitei-me sobre o sofá, ficando sentada enquanto atava meus cabelos em um nó. – Além do mais, foi pra evitar problemas que eu contei.
– E você acha que ficar com machucados sem cicatriz nas costas, sendo que eu tenho que os esconder debaixo da roupa, não é um problema? – Daniel contra-argumentou. E, de certo modo, ele tinha razão.
– Isso é superficial, ! – Mas eu não daria o braço a torcer.
– Contar pra sua empregada que é superficial, ! – ele continuou a contra-argumentar. Seus dedos levaram seus cabelos para frente, então foram até o outro braço e tamborilaram por ali exatamente três vezes seguidas, como eu havia feito mais cedo. – E quer saber do mais? Aposto que ela é quem contou pra tal Jeane sobre nós dois! Tirando o , ela era a única que sabia.
– Você tem noção do que tá falando? – indaguei, estupefata com as afirmações dele. Sue era de total confiança, não faria a besteira de contar a ninguém. Ou faria? Eu preferia acreditar que não.
– É claro que eu tô. – respondeu em tom de obviedade, quase rindo com deboche ao me responder. – É uma das coisas mais sensatas que eu já disse. Tudo tem ligação, , só você que não quer ver.
– Não, isso é um absurdo – contestei, levantando-me, pronta para ir embora. – E olha aonde chegamos. Estamos brigando por uma bobagem quando deveríamos nem estar mais juntos, muito menos nos falando! – Olhei para o assoalho, respirando fundo e então voltando a olhar meu sócio. Precisava me acalmar. Por mais que uma briga diminuísse a minha culpa por um lado, por outro ela dobraria. Eu sabia perfeitamente que me julgaria imbecil por arrumar um motivo tão banal como pretexto para convencer a . – Por favor, , chega. Eu não quero me sentir ainda mais culpada por ter acabado com isso.
– Então não acaba – disse ele, e pude jurar que seu tom era de súplica. Senti meus músculos fadigarem com a possibilidade de tê-lo magoado a ponto de ele implorar. Logo ele, tão poderoso, mostrando-se dependente daquela forma. Saber que eu tinha o poder de fazê-lo rastejar por mim não era gratificante como com os outros homens que me envolvi. Eu já havia dito para mim mesma, ele era diferente. E por ser tão diferente, tudo era mais complicado. Que merda de situação delicada eu fui me enfiar!
 Abri minha boca, tentando fazer passar qualquer som por ela. Meus lábios tremeram, minha visão se tornou desfocada, minha convicção foi para o lixo. Eu estava magoando aquele que eu dizia amar. Isso me tornava um monstro, a vilã da história. O inferno que eu tinha sofrido naquele final de semana estava todo sendo jogado para cima de , e tudo por minhas próprias mãos. Que merda de pessoa eu era!
– Desculpa – foi tudo o que eu disse, tapando parte de meu rosto imediatamente para evitar uma cena ainda mais dramática. Eu já era sensível e meu psicológico andava mais abalado que o normal, nunca que eu suportaria mais momentos de tensão. Então dei as costas, caminhando para fora daquele ambiente, tentando achar algum modo de não me sentir tonta pela quantidade de pensamentos que implodiam minha cabeça. Admito que até sair do condomínio foi difícil, tamanha a confusão que minhas sinapses estavam. A única palavra que eu conseguia compreender com clareza era .

***

 Terminar um relacionamento nunca é fácil. Quando se é um relacionamento proibido, é pior ainda. Você não pode se lamentar com ninguém, tem que fingir que nada aconteceu, é obrigada a ficar calada quando o que mais quer fazer é extravasar a angústia que te perturba. Isso deixa qualquer um com os nervos quase expostos, e comigo não era diferente. Todas as palavras ditas no dia anterior, todas as que ficaram presas em minha garganta... Era enlouquecedor não conseguir nem mesmo dormir em razão do remorso, da culpa, do arrependimento. Eu sabia que aquela saída era a mais sensata, mas ainda assim sentia como se tudo que um dia construí estivesse aos pedaços, totalmente dilacerados. Eu me sentia destruída. E ainda assim devia andar de cabeça erguida, exibindo para os outros uma normalidade que não me existia no momento, guardando cada palavra de desabafo apenas para os meus pensamentos.
 Por mais que eu quisesse me esconder por mais tempo, tinha que voltar à rotina. Tinha que voltar a vê-lo na maioria dos meus dias e mentir para mim mesma, dizer que aguentaria ficar sem ele. Pessoas dependiam de mim, não era naquela hora – nem em hora nenhuma – que eu daria as costas e as ignoraria por estar – serei pejorativa – na fossa. Eu era adulta, tinha que me portar como tal, e não ficar de birra com o mundo porque não me sentia bem. Infelizmente eu não tinha mais meus dezesseis anos, não poderia fazer aquilo de forma alguma. Sem meios para escapar de meus compromissos, finalmente tranquei meu apartamento, tendo certeza de que aquele dia seria tão fatídico quanto os últimos se mostravam.
 A começar pelo bendito engarrafamento que encontrei no caminho para a gravadora. Meu plano de chegar cedo ao trabalho já estava riscado da minha lista. Se eu não estivesse de tão mau humor, aceitaria tentar retornar até a garagem e ir andando os poucos quarteirões até o edifício da Super Records. Se eu estivesse com meu temperamento comum, até riria da situação: eu, que moro no mesmo bairro onde trabalho, presa num congestionamento enquanto começo o expediente. Seria cômico, se não fosse trágico, literalmente. Quanto mais aquela porra de engarrafamento demorasse, menos chances de evitar ver eu teria e mais perto da “conversa amigável” com a psicótica eu estaria. E, talvez só para me incomodar, nem um sinal de que o trânsito fluiria normalmente surgia. Maldito mês de dezembro, maldita época de Natal! Seria tão mais fácil se as pessoas fossem a pé comprar presentes ao invés de saírem todos de carro, com medo do frio? Qual é, existem aquecedores na maioria das lojas!
 Pluguei meu Pen Drive no aparelho de som, uma vez que a rádio só tocava músicas dos “Good Times” e eu não estava nem um pouco a fim de velharia melosa. Tocava uma música qualquer que eu não identificava de uma cantora qualquer que eu não identificava, porém sabia que gostava. Comecei a ignorar o barulho infernal de buzinas – de pessoas estúpidas que ainda acham que um som irritante descongestiona uma avenida – e prestar atenção àquela canção. “I never love nobody fully; always one foot on the ground” era o primeiro verso, que me prendeu toda a concentração. Continuei a ouvir cada palavra, oração e sentença, absorvendo toda e qualquer informação que a letra me dava. Parecia carma, pois ultimamente as músicas que ouvia sempre retratavam como eu me sentia. Ou eram apenas mais indícios da hipocondria a qual eu me deixava levar e corroer, chegando a ponto de crescer e me sufocar em muitos momentos. Eu me sentia oca, vazia, carregada apenas de vácuo, e justamente por culpa da única vez em que me entreguei a alguém. Não devia tê-lo deixado se aproximar, não devia tê-lo beijado. Devia ter somente continuado a me proteger de chegar a essa situação. Sempre fora tão independente, conseguia me virar sozinha em todos os casos... Mas agora me via perdida quando sozinha, embalada pela carência e pela nostalgia. Nem mesmo amigos para recorrer eu tinha, já que me isolei em um mundo que restava apenas e eu. Fizera tal burrice para não o incomodar, e o que tive em retorno? Fidelidade e lealdade são as piores virtudes quando não se tem mais nada a perder.
 Já era quase nove horas da manhã e eu continuava relativamente longe do trabalho, porém já em movimento. Há essa hora ... Droga, de novo sendo traída por meus próprios pensamentos! Agarrei meus dedos ao volante com mais força, inspirando e expirando diversas vezes, forçando-me a esquecer o que havia acabado de lembrar enquanto cantarolava forçadamente uma canção dos Strokes. Não houve nenhum êxito de minha parte ao tentar apagar da minha memória o sorriso encantador, que me criava a vontade de acompanhá-lo e sorrir também; os olhos expressivos, que me desnudavam e procuravam enxergar meu interior quando encontravam os meus; a beleza que pertencia ao seu corpo e sua alma. Pedir aos céus para esquecê-lo já era um motivo para eu me lembrar. Seu perfume amadeirado e levemente adocicado, suas mãos calejadas e ainda assim suaves, seus toques apelativos e carinhosos da mesma forma... Eu precisava mais que nunca me curar da ridícula obsessão que tinha por seus pequenos detalhes.
 Senti uma de minhas bochechas perder parte do calor que tinha; meus lábios secos foram umedecidos pela lágrima fina que escorrera sem que eu notasse. Dor era a certeza que me surgia em mente. Doía ainda mais que um dia eu imaginei. Palpitações e faltas de ar incessantes moviam meu corpo para frente e para trás com rapidez, como espasmos musculares. Eu não poderia abrir a boca, pois tinha certeza que soluços sairiam dela, e com isso me restava apenas definhar naquela sensação terrível de abandono. Mesmo que eu tivesse sido a covarde que deu as costas no primeiro obstáculo. Eu que não batalhei; eu fui a errada. Apenas eu. Porém, nem essas palavras de acusação conseguiam me socorrer da loucura em que eu me encontrava. Notei, infelizmente, que não estava preparada para tirar de minha vida. Talvez por saber inconscientemente disso e me ver obrigada a agir dessa forma, sem nenhuma escapatória, meu desespero tivesse aumentado gradativamente durante cada dia. E recorrer ao silêncio já não ajudava mais.
 Fechei os olhos por instinto ao senti-los arder, prendendo entre minhas pálpebras as outras gotas salobras, aguardando o momento certo para abri-los novamente. Minha visão limitada só me deixou ver pontos brancos que surgiam sobre a superfície do meu carro, indicando que a temperatura do lado de fora era totalmente oposta. Com a velocidade que os carros andavam eu não sairia tão cedo daquele bendito trecho. Torci então para que, pelo menos, parasse de nevar. Não queria ficar presa no trânsito por causa de engarrafamento morto, sendo que faltava cerca de apenas três quilômetros até o meu trabalho. Por precaução, para não preocupar Cory e os outros, busquei meu celular dentro da bolsa e disquei o número da gravadora.
– Alô, Cory?
Só um instante, – a ruiva me respondeu imediatamente, deixando a ligação muda, para a minha desconfiança.
Alô? – Todos os meus pensamentos e movimentos, por mais insignificantes que fossem, pararam. Traída agora por minha assistente. Ela não tinha culpa, no entanto, não estava ciente de todo o acontecido. – ?
 Frieza. Eu deveria agir com frieza. Esquecer o sentimentalismo e minha forma irracional de ser.
– Bom dia, – disse simplesmente, como se não me importasse por estar falando com ele. Sorte minha não estarmos cara a cara, pois meus olhos inseguros, que corriam de um lado para o outro, entregariam minhas reais intenções.
Bom dia – repetiu ele, deixando seu tom de voz tranquilo. – Vai tirar o dia de folga?
– Só faço isso quando é realmente necessário, você sabe. – Abaixei o rádio e mudei a faixa, reconhecendo as notas de Winter Song. – Estou presa no trânsito e começou a nevar – ouvi o som alto das persianas balançando, dando a entender que fora checar –, queria só justificar meu atraso.
 Se eu soubesse que todas as músicas que selecionei meses atrás fossem me incomodar tanto, não as ouviria nunca. Incrivelmente, mantive meu autocontrole e nem sequer deixei que meus olhos inundassem.
Jeane já esteve aqui agora a pouco – meu sócio rompeu o silêncio, falando subitamente sobre o assunto.
– Me desculpe por não estar aí. – Mordi meu lábio inferior, vendo mais uma falha que nosso relacionamento tinha: ausência. Não ter o outro presente em seus momentos de perda e de glória era o mesmo que nem ter alguém.
Você não teve culpa. – Sua voz soava acolhedora, e eu me apeguei àquele detalhe para fazer valer um sorriso fraco.
– Mas e o que houve? – perguntei após um certo tempo olhando para o volante. Pus minha mão livre sobre os lábios, quase não acreditando que eles estavam mesmo erguidos e curvados.
Eu contei a ela que nós – um suspiro alto pôde ser ouvido – terminamos. E também que ela não foi o motivo.
– Como assim? – Franzi o cenho por instinto, pondo toda minha atenção do outro lado da linha.
“This is my winter song. December never felt so wrong, ‘cause you’re not where you belong; inside my arms” – ele cantarolou junto a música, que eu jurava estar baixa. Diminuí ainda mais o volume do aparelho de som.
– Não vamos voltar a esse assunto, por favor. – Não quero voltar a chorar como uma criancinha, quase completei. murmurou um som positivo em resposta. – Conte o que aconteceu.
Eu movi algum dinheiro que tinha para tentar cobrir a oferta dela...
– Você o quê? – interrompi sua explicação, deixando minha voz sair alta, tamanha incredulidade sobre o que ele me contava.
Minha atitude não está mais em questão, já que o assunto foi encerrado – respondeu-me com palavras duras. Seu ressentimento finalmente se mostrou, fazendo-me ficar calada de imediato. – Voltando, mas, mesmo que eu tivesse três milhões em espécie, nada me garantiria que ela ficaria longe. Principalmente de você. Eu finalmente consegui enxergar com clareza a situação que estávamos. – Mais um suspiro, e seguido dele um pigarro. Ele estava perdendo toda sua segurança enquanto se dirigia a mim. Mordi meu lábio inferior, abaixando os olhos para o chão do carro. – Assumo que eu não quis aceitar o fim, mas quando parei pra pensar nos riscos, eu...
– Você...? – sibilei, sentindo meus lábios tremerem mesmo depois de fechados. Céus, aquilo estava acabando comigo!
Eu prefiro não ter você comigo que não te ter de jeito nenhum, . – O som que se fez audível parecia de respiração pesada. não podia reagir daquele modo, eu não aguentaria.
– Preciso desligar – desviei o assunto rapidamente por medo de ser traída novamente por meu corpo.
Não vai perguntar o porque da ligação ter sido repassada?
– Não quero mais motivos para me julgar a pior pessoa do mundo – respondi em um murmúrio, balançando minha mão livre sobre as pernas, controlando-me para não desabar mais uma vez. – Adeus, .
Até. – Ouvi meu sócio dizer, mesmo já tendo tirado o celular de perto do rosto. Eu sabia exatamente como ele estava naquele momento, porém não queria admitir para mim mesma, entrando em uma espécie de negação para tentar manter-me forte. Nós nos completávamos, não era? Nada mais justo que eu ser – ou parecer – forte enquanto ele se encontrava frágil. Ainda que eu estivesse em pedaços e não conseguisse sustentar minha indiferença quanto ao assunto. Mesmo que meus pensamentos estivessem confusos e turbulentos. Eu devia a ele a segurança que sempre tive ao seu lado. E não me importava se eu não tinha suficiente, por eu criaria. Mantendo firme este pensamento, engoli a vontade de voltar a chorar. Já estava ficando cansada de fazer isso. Ajeitei o espelho retrovisor em minha direção para que pudesse checar minha maquiagem, que estava um pouco desfeita, mas nenhum estrago tão grande que eu não pudesse ajeitar. Minha imagem tinha que estar impecável, em primeiro lugar. Não importaria para os outros se meu exterior e interior estavam em total desacordo, eles nem mesmo saberiam o motivo para tal contraste. Exceto Tom, é claro. Contudo, ele não se atreveria a interferir em algo que nem mesmo os principais envolvidos conseguiam lidar.
 Quarenta minutos e um retoque de maquiagem foi o tempo para que o engarrafamento finalmente se liquidasse. Já havia parado de nevar vinte minutos antes, o que facilitou a todos a saída da avenida. A causa de todo o congestionamento era uma batida de dois carros, e como os danos não foram tão graves, apenas esperaram até que o boletim de ocorrência fosse feito – enquanto isso o resto dos motoristas ficaram lá, quase mofando, esperando a passagem ser liberada. Se minha cabeça não estivesse tão presa em outro lugar – melhor dizendo, em outra pessoa –, eu estaria tão nervosa quanto os outros. Mas nervosismo por nervosismo, por que eu ficaria de tal forma enquanto dirigia? Estava atrasadíssima para trabalhar, esquentar a cabeça por uma santa ignorância que mudou de pista sem ligar a seta era supérfluo demais.
 Cheguei ao estacionamento da gravadora em um quarto do tempo em que fiquei presa. Cumprimentei poucas pessoas com palavras corridas, querendo o quanto antes me fechar dentro do meu escritório e enterrar minha concentração em números e dados. O silêncio do elevador me levou a sussurrar uma canção sem relevância, que foi encerrada assim que cheguei ao meu destino. Caminhei até a mesa de Cory, largando minha bolsa sobre seu balcão, como fazia todas as manhãs.
– Bom dia, Cory, desculpe o atraso – falei rapidamente, arfando por conta dos passos acelerados que havia dado.
– Imagina, , a senhorita não precisa se desculpar! – disse a ruiva, sorrindo com condescendência.
– Questão de etiqueta – justifiquei, sorrindo da mesma forma. Desviei meu olhar para a prateleira ao lado, vendo uma pequena pilha de folhas. – Já chegou algum relatório?
– Tem esses aqui... – A moça se virou, alcançando o que eu tinha em foco.
– Ótimo, dê-me todos. – Estendi a mão, esperando as páginas e mais páginas serem repousadas ali.
– Está animada para o trabalho, hein? – Cory observou assim que cumpriu minha ordem. Assenti, abraçando a pilha e pegando minha bolsa.
– O que seria de mim sem ele? – perguntei retoricamente, findando a curta conversa. Dei as costas, indo rumo a minha sala. Refiz para meu subconsciente aquela pergunta. “O que seria de mim sem o trabalho?” Uma pessoa mais feliz, talvez. Com menos riscos, menos aventuras, menos paixão. Menos amor. Sem minha posição de sócia da Super Records, teria mais tempo para aproveitar enquanto não me tornava uma velha amarga por nunca ter me envolvido tão intensamente com alguém. Conheceria e os outros rapazes apenas como “os caras daquela banda”, pois, assumo, nunca fui tão devota ao McFly. Viveria uma vida normal, sem grandes acontecimentos. Seria eu feliz dessa forma? Esse emprego realmente havia dado uma reviravolta na minha vida?
 Destranquei a porta do meu escritório e, impensadamente, olhei para trás, procurando bisbilhotar a sala de . Uma silhueta larga se encontrava em frente à janela, como se observasse a vista de Londres por entre as frestas da persiana. Sua mão se ergueu até o rosto, então se abaixou, mantendo-se de fronte ao peito. Alguns segundos depois, a silhueta se virou de lado, parecendo perceber que era observada, e pude ver que era um copo de uma bebida escura – conhaque ou uísque, não soube identificar – em sua mão. Nossos olhos abatidos se encontraram; minhas pernas pareciam ser agora sustentadas por cartilagem, e não mais ossos, a julgar a moleza com que se portavam. Controlei-me para que meus lábios não fossem mordidos, pois assim demonstraria fraqueza, porém não pude dominar minha respiração, que tornara a ser arfante. A força com que o ar entrava em meus pulmões era tanta que meu peito não suportava, dando-me a noção de que eu me deixava abater, mesmo que continuasse a lutar. Dei fim àquela tortura, abrindo a porta e adentrando meu escritório. Empurrei a maçaneta com as costas, evitando mais um contato visual, ainda que mínimo, com .
 A imagem do copo nas mãos de meu sócio não conseguia ser apagada. Ele nunca bebia pela manhã, nem mesmo se fosse uma cerveja entre amigos, que dirá alto tão forte. Entretanto, eu sabia a razão para tal ação incomum, e isso apenas acordou meu sentimento de culpa. Eu adoeci a pessoa forte que era, porém ele teria de se cuidar sozinho, já que nem com sua esposa poderia contar. Enquanto isso, meu psicológico se jogava do alto de um precipício, torcendo para que o fim estivesse perto a cada centímetro que descia, e eu fingia sorrisos para omitir a realidade. Uma realidade tão dura que me agoniava: eu havia o perdido. E nada que eu fizesse seria suficiente para tê-lo de volta. Não era o emprego que havia virado minha vida de cabeça para baixo, e sim quem havia me empregado. E agora eu sofria mais uma mudança repentina. Só que essa não tinha a mesma euforia, a mesma felicidade. Porque, depois de tudo que passei, minha definição de felicidade envolvia única e exclusivamente a pessoa que não existia mais no meu caminho.

FIM


Traduções/Observações:

  • Em primeiro meu coração bate para que eu viva; em segundo para eu te ver sorrir. Não me deixe, não se queixe. Estamos bem, apenas me beije.
  • E agora, sua mimada, eu vejo sua cara emburrada, e é como olhar para o cano de uma arma. E então ela dispara, e de lá saem todas estas palavras...
  • Eu nunca amei ninguém completamente; sempre tive um pé no chão.
  • Essa é minha canção de inverno. Dezembro nunca pareceu tão ruim, pois você não está onde pertence; nos meus braços.

  • Nota da autora: Tô meio triste por ter cagado o final da fic, mas eu sempre faço isso mesmo ;; Enfim...
    Então, sugars, essa n/a será um pouco impessoal. Quero falar sobre a fic, explicar algumas coisas e fazer observações sobre outras.
    1: O título da fic é propositalmente o mesmo de uma música do Avenged Sevenfold. A canção não tem nada a ver com a história, só o título que se encaixa nos alertas e eu preferi assim. Foi também uma forma de eu homenagear o Jimmy (vulgo The Rev, falecido baterista da banda), mesmo em uma fic que só tem McFly.
    2: todas as partes foram baseadas em alguma música, mas eu odeio colocar letras no meio do texto, então deixei disponível uma página com a 'trilha sonora' da fic. Se quiser baixar, clique aqui.
    3: já tivemos várias histórias pelo mundo de pessoas fanáticas ao extremo, então não venham falar que eu viajei demais escrevendo - até porque eu já sei disso, obrigada DNSJFNLAKSD
    4: Danny Jones (personagem original) foi um paradoxal paradoxo dos paradigmas nessa fic, sério. (Q?) Na maioria das vezes vejo homens galinhas, cretinos e babacas na pele do meu macho MEU MACHO, OUVIRAM? É nóis u_u, e mesmo ele sendo um adúltero em SHB, foi atencioso e um verdadeiro gentleman com a sócia. Como foi dito na primeira parte, essa relação é complexa, logo se deve fazer uma balança com prós e contras. Eu prefiro acreditar que ele foi um fofin, cuti cuti da tia Abby hihihi <3
    Mas, então, agora queria agradecer por cada comentário, tweet, recado no orkut/msn/facebook/k7a4. Todas as meninas que acompanharam a fic fora do site sabem como foi um parto MUITO complicado pra essa história finalizar. Foram exatamente três meses e vinte dias, de 26/10/09 a 06/02/10, pra escrever uma One-shot. Tá, teve a preguicinha divina e linda e o colégio não divino e nem um pouco lindo, assumo, mas mesmo assim não foi nem um pouco fácil. Escrever uma fanfic restrita não é só colocar duas pessoas peladas, e sim ter plena consciência de que você SABE o que está fazendo e confia no seu taco. Eu não confiei muito no meu, muitas coisas aqui foram escritas baseadas no meu instinto e sonhos que tive acordada (não as partes eróticas, ok? não penso em sexo o dia inteiro, visse? u_______u), portanto não me responsabilizo por falhas. Sei que teve gente que não gostou da fic por essa razão, mas o que eu posso fazer? Não posso e nem sou obrigada a agradar a todos, cabe a cada um ficar na sua e tudo fica resolvido :D
    Queria também dar um agradecimento especial pra Pammy, que aceitou ser beta de todas as fics que mandei pra cá pro FFAdd. Muitíssimo obrigada!
    Obrigada também, é claro, a quem ainda continua se arriscando a ler o que eu escrevo. Parabéns, você é uma pessoa incrível por conseguir essa façanha! G_G NXCKZFNLNDKFNDK q E, hm, acho que é só SÓ? Olha o tamanho dessa n/a, aimelkoo D:
    Tá, vou admitir, eu tô enrolando pra não dizer tchau. Vou ficar aqui o resto da minha vida escrevendo essa n/a, vocês vão ver e
    -N Chega, tchau, fui. PARTIU, VIADO! /o/ n Eu vou, mas eu volto. Me aguardem, MWAHAHAHA q
    xxo Abby
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    Nota da beta: Uii fiquei até com calor!hahahah... Abby deveria confiar mais nela, né gente? O fim da fic foi perfeito! E sou fã de carteirinha de todas as fics dela \o/ Está sendo um prazer betar toodas as muitas fics que você me mandou, hahahha!
    Beeijos, Pamy ;*

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  • Fear of Sleep (Finalizada)
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  • Light a Candle, it's Xmas! (Finalizada)
  • Won't You Let me Know? (Finalizada)