Reviver-te
Autora: Fabiana Paravatti.
Beta-Reader: Annie Brissow.




Capítulo 1 -
20 de dezembro, Segunda-feira, Londres, 2010, 00h34min a.m

- Qual é o seu problema? – berrei, chamando sua atenção. Seus olhos brilhavam e eu podia sentir que seus olhos forçavam com medo de derramar as lágrimas, assim como os meus, que eu tentava evitar, mas estava começando a se tornar desnecessário. Os olhos dele dançavam em meu rosto, em meu corpo, naquela sala, como se ele estivesse dando adeus.
Aquele momento estava completamente congelado. Eu não conseguia nem respirar. Ele esteve por aqui todo esse tempo, mas agora ele quer simplesmente ir, meu coração parece estar sendo espremido entre as costelas assim como meu pulmão, como se faltassem batimentos cardíacos, como se faltasse ar. E eu podia ler naqueles olhos frios, tristes e arrependidos, que mesmo com tudo, com toda essa situação, nada mudaria, seria aquele o fim, daquele jeito estranho… Aquele momento único que irei gravar em minha mente. Arrasto meus olhos em cada centímetro tentando guardar aquele rosto angelical na minha mente, aquele corpo, aquela boca, aquele momento em que o mundo está congelado.
- Meu problema? - Ele grita de volta, tirando-me do transe. Pousei meus olhos nos dele, que diziam raiva, nervosismo. E simplesmente não conseguia colocar na minha cabeça aquela situação, mas era como um tiro, que atravessava meu peito, o jeito que sua boca tremia, eu me sentia arrependida. Minha mente gritava um não que fazia meu corpo tremer, como se eu pudesse ali mesmo me ajoelhar e pedi-lo para ficar, para me abraçar e parar de bobeira. Porque no fundo tudo aquilo era uma grande bobeira, uma grande frescura - O nosso problema você quer dizer!
- Nosso problema? O único problema que consigo ver é que eu ainda te amo, que eu ainda consigo sentir algo por você, mesmo depois de tudo isso! Mesmo depois dessa tua frieza, desse teu vazio. - Cuspi as palavras na cara dele e seus olhos me diziam que foi como um choque, não esperava essa resposta, como se eu estivesse aceitando essa ida dele, esse vazio que ele vai deixar dentro de mim. Os segundos se atropelavam, o tempo passava como uma correnteza, com toda a rapidez. E eu queria que o tempo parasse, eu queria que fosse mentira, que fosse piada que ele estava ali, me dando um adeus um tanto doloroso, porque era como ser empurrada na linha do trem, era como ser jogada no meio da rua em tempo de raxa, eu não iria conseguir fugir, eu não conseguiria me esconder nem tentar fazer com que tudo fique bem, porque não ficaria. A vontade era de chorar ali mesmo, mas era muito orgulho, era muito medo de ele me achar fraca demais, mesmo eu sabendo que era isso que me definia. De repente comecei a ficar arrependida, como se as nossas imagens de parques e de shoppings fossem a toa. Seus olhos me diziam isso. Seu rosto me mostrava isso. Não tinha como não me convencer que era por ele que estava fazendo isso, que era para ele se ver livre de mim, um jeito dele poder ir. Uma desculpa. Finalmente, ele deveria estar agradecendo mentalmente por eu ter aparecido com passagens à Espanha nas mãos.
- Acho que já entendi. - Ele se vira em direção à porta ameaçando sair, pude ver suas pernas duras, rígidas, e sua mão mole ao tentar abrir à força. Engulo a seco. As lágrimas estão querendo transbordar, mas luto contra elas, o máximo que posso.
- Você não entendeu, nunca entenderá que o que tenho dentro de mim não é passageiro. É real. E se você passar por essa porta, eu terei a certeza de que o seu sentimento é completamente seco. - No momento que as mãos dele giram a maçaneta, meu mundo parece cair, seguido de minhas lágrimas que contornam meu rosto. Ele sussurra algo como “me desculpe” e fecha a porta. Não tive coragem de dar um ultimo adeus, ou acenar, minhas mãos estavam anestesiadas demais. E do lado de dentro tudo tremia, minhas pernas cederam, e eu caí, pensando que o sentimento é inútil.
- . – Sussurrei por fim, ali. Sozinha, sem mais nenhum lugar para ir, sem mais palavras para descrever como meu mundo, havia morrido, ele era tudo o que eu tinha.

20 de dezembro, Terça-feira, Londres, 2011, 00h34min a.m

Estávamos paradas com o carro havia alguns meros minutos. Eu não sei elas, mas eu estou com um pouco de medo em entrar naquela balada, as luzes bobeiam a todo o lugar, a todo o momento. Havia muito tempo que não ia a alguma balada em Londres, e dificilmente na Espanha tinha vontade de ir, mas praticamente me arrastou, e logo que voltei da Espanha – dois meses – me fez combinar que iríamos a uma balada que na nossa época de escola todo mundo ia, lógico que a intenção era reencontrar alguém, mas obviamente ninguém estaria por lá. Mas eu aceitei a proposta no mesmo dia em que combinamos passarmos a véspera de natal juntas, como fazíamos quando éramos bem pequenas e nossos pais eram tipo, melhores amigos. Eu e a sempre fomos como uma só, eu tentava entender o que se passava na cabeça dela até entendê-la, e isso deu muito certo. Hoje é até fácil prevê-la, tipo agora, sei que está mais fascinada que eu ao ver aquele brilho da balada. falava algo atrás da gente, mas eu nem prestava muita atenção.
- É aqui? – Perguntou boquiaberta, não para menos lógico, aquela balada havia realmente crescido muito aqui no bairro, desde que fui à Espanha, realmente, estava inacreditável.
- É sim... Ótimo lugar para dançar não acha? – O que soou como uma piada, e as três soltaram uma risada larga, já que era lógico que é um ótimo lugar, não apenas para dançar. Tinha quase certeza que era isso que se passa na cabeça de , que meu motivo de estar aqui é para ficar com alguém, dançar com alguém e levar para os fundos no banheirinho nojento de qualquer boate, e deixar um estranho tocar meu corpo. Por mais que nos conhecêssemos, e ambas sabiam que ambas nunca se prestariam a um papel desses, essas piadas eram muito presentes nas nossas conversas, e bom, agora em nossos pensamentos. Quando dei por mim, já havia estacionado em uma ótima vaga, por sinal, na frente da porta principal. Talvez seja melhor para ir embora enquanto ela estiver bêbada, mais prático para colocá-la no carro e tentar fazê-la parar de rir, já que fazia muito tempo que e não saiam, agora tirariam a barriga da miséria.
Descemos do carro ansiosas, e logo ao passarmos pela pequena fila, já que as maiorias das pessoas estão aglomeradas já dentro da balada, nos “perdemos” logo que entramos, lógico que não há problema nenhum em dançar com pessoas desconhecidas, naturalmente esse é um dos principais motivos por eu estar aqui: ver gente nova e me relacionar. É tanta gente que fica meio difícil de locomover-me, todo mundo se amassa, mas arranjei um jeito de entrar. Bebida na mão de todo mundo, um garçom meio sem jeito tenta passar pelas pessoas, com a tentativa inútil de não derrubar nenhum dos drinks que estão sobre a bandeja. Não demorou muito tempo para eu me deixar levar e começar a pular e me mexer, com uma tentativa banal de dançar no ritmo da musica, a melhor parte é sempre mexer a cabeça de um lado para o outro deixando o cabelo cegar-te. Toda vez que o garçom passava eu aproveitava a chance para virar mais um gole de bebida.
Senti uma mão pesar no meu ombro, me empurrando para trás e tomando liberdade para pegar as minhas duas mãos e me mover fazendo com que eu dance com aquela tal pessoa. Era um homem - muito bonito por sinal - elegante, com os cabelos cor de mel e uma barba mal feita propositalmente, deixando o sorriso dele muito bonito, adulto e sexy, o que me fez sorrir abobadamente assim que enxerguei seus olhos. Era difícil encontrar gente bonita naquele bairro, já que a maioria mudava constantemente. Acho que gente bonita atrai gente bonita, pois a maioria se concentra no centro, mas ali parecia uma mini-concentração de gente bonita, e esse homem em especial também é. Depois de muito tempo dançando com a mesma pessoa, resolvi ir ao banheiro ver se encontrava ou por ai.
- Ei, estou indo ao banheiro... – Seu rosto tomou outra feição, uma feição de tristeza, mas ele logo abriu um largo sorriso, que me fez sorrir também, e tirou do bolso um cartão com alguma coisa rabiscada.
- Meu nome é Joe. – Ele me disse ao trazer meu rosto mais perto do dele, para que eu possa o escutar melhor. Lógico que minha barriga deu uma remexida, afinal, não é todo dia que você dança com um homem muito bonito e que realmente gosta da tua presença. – Joe Kingston, me ligue a qualquer momento. – Deu uma piscadela, o que me deixou com um sorriso sem jeito nos lábios. Lógico que o motivo de tanta melação é a garrafa que ele mantém nas mãos.
- . – Sorri em sua direção, tentando fazer um olhar sexy, ou talvez um pouco atraente, o que foi inútil, lógico. – . – Me desvencilhei de seu embalo e corri direto para o banheiro.
A ideia inicial do banheiro era só dar uma olhada na maquiagem, ou tentar fazer alguma ligação. O que é completamente inútil, já que banheiro é um lugar completamente nojento, completamente sujo, principalmente na boate, sempre tem menina abusada, que usa calça como short, short como calcinha, ou vestido como blusa, vulgaridade é o que define aquelas menininhas tentando pegar qualquer cara que lhe oferecesse a mão. Meu celular começou a vibrar persistentemente no meu bolso, olhei o seu visor e só dizia: “Nova mensagem.”
“Onde vc está?”
sorri ao ver que e eu pensávamos a mesma coisa, talvez ir embora, mas no momento é nos encontrarmos, eu acho.
“Tô aqui no banheiro, .”
Saí do banheiro encarando o visor do celular, esperando que me respondesse logo. A ideia era contar que tinha dançado com um cara sério, talvez maduro. Mas senti um estrondo ao esbarrar com alguém, nossos celulares caíram, fiquei com um pingo de raiva e automaticamente antes que percebesse estava gritando:
- Ei! Olha por onde anda. – Sendo que eu estava encarando o visor do meu celular, logo me abaixei e peguei o celular que estava no chão, o guardando. Esperando algum xingamento ou até umas desculpas do homem com quem havia trombado. Ele apenas parecia parado, literalmente parado, quando soltou um:
- ! – Com um tom de voz animada, como se estivesse surpreso em me ver, em me reconhecer. Torci ao nariz ao pensar de quem era aquela voz que acelerou meu coração, não sei se foi de sustou ou de vontade de vê-lo, mas eu prefiro pensar que fosse apenas de susto, ou talvez tenham sido os dois ao mesmo tempo. Só sei que eu gelei, sabe aquele sentimento que você tem quando leva um susto, que queima e gela ao mesmo tempo? Então, é exatamente o que está se passando por mim neste exato momento.
- . – Tentei me concentrar ao fazer uma voz irônica com um tom de piada e decepção ao vê-lo ali, tentando mostrar que o havia arrancado de meu coração. Não sei se com muito sucesso, já que o sorriso dele era maravilhoso e parecia sincero. Ele passava as mãos no cabelo, surpreso, com um sorriso torto nos lábios e mordendo no cantinho, aquilo me fez girar por breves segundos que pareciam horas. Enquanto encarava seus lábios ele encarava meus olhos, esperando resposta e soltando uma piscadela. Tentando obviamente me tirar um sorriso, mas apenas me corei com os pensamentos, pensando na possibilidade dele poder lê-los. - Não é sempre… Mas nos melhores momentos nos deparamos com as merdas. Não? – Cuspi no rosto dele as palavras que pareciam serem atropeladas por si mesmas enquanto dizia, enquanto meu estomago se remexia, involuntariamente, e até se recolhia. Recuei tentando não ver seus olhos. Porque obviamente o jeito que ele me olha - levantando as sobrancelhas - me tocava.
- O que quer dizer com isso? – Ele me olha indignado, secando seu sorriso, como se o colocasse para dentro, com feições de arrependimento, como se nada tivesse acontecido, ele franze a testa, como se estivesse surpreso com a minha reação. Afinal, o que ele espera? Que eu o abrace, e diga: “Nossa, que saudade!” obvio que não, apenar de tudo, o ódio ainda era bem nítido no meu olhar de repreensão.
- Entenda como quiser. Agora, se me der licença, estou de saída já, tenho um telefonema para fazer… - Respondi tentando me desvencilhar daquele momento constrangedor, naquela surpresa. Afinal, eu não o via há tanto que eu pensei tê-lo afogado nas lágrimas que jorrei naquele dia. Sem notar eu pude sentir meu estomago embrulhar, meu coração se espremer. É medo, é angustia. Só de olhar em seus olhos as memórias tomam conta da minha mente. Meu maior desejo nesse momento é saber controlar o que meu coração sente, é saber controlar o que eu penso, mas é inevitável, estou tentando ser seca, fazer o que me disse pouco antes de eu embarcar no avião: “Não demonstre que sente falta, , ele vai se sentir orgulhoso por você pensar desse jeito nele, você olhá-lo desse jeito. Engula seus sentimentos para você se sentir imune aos dele.”
- Telefonema? – Ele olha para o relógio, com um sorriso perfeitamente desenhado nos lábios. – Às 03:20? – Como se ele achasse que me seduziria novamente assim. Mordendo seus lábios, mantendo os seus olhos nos meus. Eu reluto em minha mente, dizendo a mim mesma que o esqueci e que o deixei de lado, mas nada vai conseguir mudar o calor que eu sinto ao lado dele, a vontade de gritar, de batê-lo, de mandá-lo embora, e a vontade de beijá-lo, de pedir para me salvar, de pedir para me guardar embaixo de teus braços. Balanço a cabeça negativamente, tentando afastar os pensamentos.
- É, telefonema para o Joe, um amigo meu, sabe? – Retiro o cartão do meu bolso e o balanço no ar, o provocando, novamente tentando me manter fria, apesar daquele sorriso de surpresa, empolgação, animação e felicidade estar perfeitamente desenhado em seus lábios. – Licença? – Insisti com frieza. Ele cedeu e saiu de minha frente, com um olhar de decepção, com um olhar de medo. Medo do que? Faz um ano que tudo escorreu-lhe pelos dedos, do que ele deveria sentir medo? Eu que sinto medo, eu que tenho esse direito, não é mesmo? Medo de pisar em um buraco fundo demais, me machucar até realmente cair no fim e não conseguir sair mais. Afinal, foi ele que quis isso, estava mais do que obvio que tudo o que aconteceu aquela noite foi pela vontade dele, como se fosse uma desculpa perfeita para poder se livrar de mim.
Empurro as pessoas com os ombros, cotoveladas, empurrões, chutes, eu só sei que preciso sair de lá, tomar um ar, não consigo nem respirar.
A saída parece cada vez mais longe, um arrependimento sobe em minha mente querendo me fazer voltar, me desculpar… Mas não, eu já consigo sentir o vento que vinha da porta, aquele vento gelado, aquele ar fresco para eu poder finalmente ir embora, e como sempre fugir de minhas ações, de meus pensamentos. Eu sei que aquilo é mais uma armadilha do destino, pois do mesmo jeito que me colocou e tirou da vida dele uma vez, pode me colocar novamente, como fez agora, infelizmente, para mexer com as minhas estruturas, mudar a minha mente, me fazer pensar que eu errei, que eu não errei e que eu estou confusa. Ele novamente voltaria para fazer uma guerra dentro de mim, uma guerra entre a razão e a emoção, entre meu coração e a minha mente. Mais empurrões e cheguei até o carro, encostando-me ao capô, respirando ar puro, esperando ou aparecerem. Nem vou tentar ligar, porque já sei que não vão escutar nem o celular, muito menos vibrar. Mas eu quero ir embora, deitar, dormir, esquecer que hoje foi só mais um detalhe, uma mera coincidência.
Olho para o relógio imenso na frente da boate freneticamente esperando que seja tempo o suficiente para que as duas decidam ir embora ou me encontrar, como tentar ligar... Agora indica 03hrs40min, o tempo não passa e eu continuo aqui, com frio, o vento gelado deixa minha bochecha corada e meu nariz super gelado, mas eu amo o frio, a sensação que ele me dá, de calma, de paz, pacificamente falando, lógico, ou hipoteticamente, porque neste exato momento o barulho estrondoso da balada ecoa aqui fora nitidamente.
Logo, de longe enxergo rindo histericamente com , olhar as duas neste momento rindo, se divertindo, me lembrando o quão a noite foi boa, apesar de alguns atrasos, me acalmou ao senti-las.
- Você viu quem eu vi ? – tapa a boca com as mãos, tentando se conter para não cair no chão de tanto rir. E por meros segundos meu coração se acelera um pouquinho de nervosismo, eu sei a quem ela se refere. Quem mais seria?
- ? – Comecei a gargalhar com elas, lógico que não estou vendo muita graça, mas a risada de é contagiante, não dá para não rir quando ela ri. Sempre foi assim, nunca ri das piadas idiotas que ela faz, mas sempre ri da risada dela! – Vi! Ele está um lixo, né? – Menti sentindo meu coração se apertar um pouco por não querer falar alto o que eu realmente estou sentindo. Que neste momento se resume em nervosismo, ansiedade, calor... Enfim, muitas coisas que não estou muito a fim de pensar sobre.

Elas logo aceitaram ir embora e ficou o caminho inteiro comentando das pessoas que encontraram, que por acaso eu não encontrei ninguém além do , me perguntaram quem era o gatinho que eu estava dançando. Mostrei o cartão dele e elas fizeram piadas do tipo: “Hm, vamos tratar a com respeito já que agora ela está na mira de um gatinho saradinho e nós estamos solitárias, né ?” toda vez que elas colocaram o nome do no meio, eu tentei me desvencilhar, olhar para outra coisa, prestar atenção em outra coisa. Não pude deixar de rir dos comentários absurdos que a fez sobre alguma coisa de bebida e que ela foi ao banheiro umas vinte vezes, e a comentou algo sobre estar cansada de fingir que o cara com quem ela dançava era legal, disse também que ele é dentista, mas os dentes dele tinham crateras amarelas. Eu juro que quase vomitei.

Cheguei em casa mais ou menos umas 04:30. Deitei-me, cansada, com o maxilar cansado de tanto rir também, mas infelizmente muitas coisas não saem da minha cabeça, o jeito com que mexeu comigo esta noite, eu mentiria para mim mesma se dissesse que ele não está maravilhoso, que ele me faz tremer um pouco, talvez de ansiedade apenas, o que mais seria? Depois de tanto tempo, hoje fazendo um ano, coincidentemente o encontrei na boate na qual eu estava completamente imune a qualquer pensamento que se referisse a ele, mas aquele sorriso, aquela maneira de fazer as feições do seu rosto parecer tão preocupadas, surpresas, me lembraram aquele momento em que gravei a imagem de seu rosto em minha memória escura, como se tivesse sido ontem que me joguei no chão e chorei litros. Eu sinto é vergonha por pensar tudo isso, por sentir fogos de artifícios dentro do meu estomago depois de tanto tempo, depois de tanta água que escorreu de meus olhos, me sinto envergonhada por ter corrido, corrido e não ter nem sequer me movido.
Os pensamentos não me deixam dormir, me dominam que até me faz sentir fraca.

Acordo com o celular tocando, tocando, tocando e a minha cabeça latejando. Uma luz intensa atravessou a cortina do meu quarto, tento alcançá-lo sem me levantar, mas com fracasso, resolvo me levantar. Olhei no visor e vi “”. Forcei minha vista, confusa… ? Eu conheço algum ? Quase certeza que não... E o mais incrível é ter o número na minha agenda telefônica do celular...
- Alô? – Perguntei com medo da resposta, com a voz meio rouca por ter acabado de acordar. - Mano! Onde você estava ontem à noite? Você some simplesmente… Isso não é certo. Temos ensaio em menos de duas horas. – Ouvi uma voz masculina com um tom de irritação me atendendo. Eu tenho certeza que a minha expressão nesse momento é de pura confusão. “Mano” “Ensaio” “Ontem à noite” “Sumir”, não consigo conectar essas palavras a mais ninguém que possivelmente me ligaria dizendo umas coisas dessas... Afinal, em Jornalismo não se ensaia nada... - Desculpa moço, mas você deve ter ligado para a pessoa errada. – Respondi soltando um riso um pouco envergonhado, talvez confuso.
- Opa! Quem é? – A voz se alterou para uma voz constrangida, e um riso de fundo. Tenho a breve impressão de que não é só ele que esta “na linha” como se e estivesse no viva-voz.
- É a aqui… - Como assim não sabe para quem está ligando?
- Desculpa … Você poderia passar o telefone para o ? – Merda! Troquei de celular com o ontem à noite. Como foi que eu não percebi? Vai ver eu fiquei tão chocada ao vê-lo que nem notei que quando nos esbarramos peguei do chão o celular dele. Obra de destino. Destino que está brincando comigo. Coloquei a mão no meu rosto, tentando passar para mim uma expressão de “que merda”, mas eu estou me sentindo meio ansiosa com tudo isso, com esse destino, ou essa coincidência, o que será que isso significa? O que poderia significar? Encontrá-lo e o destino nos manter conectados de um jeito bobo, infantil, de um jeito tão obvio que está no nosso rosto e nem notamos – Ei… ? – insistiu me fazendo parar de pensar um minuto.
- Ai me desculpa… , né? Eu acidentalmente troquei de celular com o , nos esbarramos, enfim… – Levantei-me da cama, a arrumando.
- Ah sim… Entendo. – Ele respondeu maliciosamente, o que me deixa nervosa, ansiosa, um pouco sem jeito. E minhas bochechas se queimam um pouco. Mudei a minha postura. Preciso me manter séria e civilizada, não posso deixar um rastro dos meus sentimentos em lugar nenhum, a não ser em algum lugar onde só eu possa enxergar.
- Ei! – Gritei tentando parecer ofendida com a brincadeira, eu o escutei pigarrear do outro da linha, notavelmente sorrindo ou envergonhado. Cheguei ao ponto onde eu queria manter a ordem nos pensamentos... Ou tentar manter a ordem dos fatos - meio inutilmente lógico - nem tudo eu consigo controlar com as minhas “aparências”
- Desculpe, mas eu acho que gostaria de ter o celular dele de volta. – Riu brincando, porque afinal aquilo era mais do que obvio, eu também quero o meu. - Se você pudesse trazer, eu agradeceria… Pelo , na verdade.
- Sim, sem problemas, mas vou querer o meu também, né?
- Lógico. Liga para o seu celular e pede para o aparecer no ensaio, daí vocês trocam quando vierem para cá.
- Ok, e o endereço? – Disse, pegando um pequeno pedaço de papel que, por sorte, achei em cima da mesa. me passa todo o necessário para chegar lá e logo desligamos. Rapidamente vou para o chuveiro, porque iria passar para me pegar como sempre, depois passaríamos na e a pegaríamos também, mas hoje vai ser diferente, vamos ter um pequeno desvio, espero que seja rápido, que seja curto e seco, completamente seco, só pegar, entregar, entrar no carro e ir para a faculdade estudar até mergulhar nos livros.

Sento-me na calçada esperando , eu quero muito que passar lá seja bem rápido, como se nem fosse demorar alguns minutos, não quero vê-lo novamente, quero apagá-lo da minha mente de uma vez por todas, ou só não olhá-lo novamente, pois foi assim que isso remexeu dentro de mim, como se fosse motivo para me lembrar, para sentir novamente. Ao invés de ligar a idéia de apenas mandar uma mensagem de texto pareceu bem mais apropriada para quem quer esquecer.
parece ter pegado algum atalho que provavelmente não deu muito certo. O vento é gelado, e bate em meu rosto arrastando meus cabelos para longe, deixando minhas bochechas coradas e meu nariz gelado. Cruzo meus braços os apoiando no peito, com a intenção completamente inútil de me aquecer.
- Ei! Demorei? – Sorriu , fazendo um sinal me indicando para o carro, sorri ou vê-la, e me levantei ansiosa. O que eu mais quero nesse momento é entrar no carro dela, ligar o aquecedo e me aquecer.
- Mais ou menos, . Me deixou morrendo de frio - Entrei no carro e já liguei o aquecedor e fechei as janelas. Finalmente... Quente. Agora sim tenho mente para pensar em como dizer para que precisava passar no estúdio do , meu ex-namorado, que demorei muito a esquecer - que ainda tenho duvidas se o esqueci - sem que ela me olhe de canto de olho e logo após role os olhos, abrindo um sorriso malicioso com alguns traços de: “Já esperava por isso , estava na cara”.
Sem querer falar nada, engulo a seco para tentar explicar o que exatamente aconteceu ontem à noite, porque exatamente preciso ir ao ensaio de sem parecer uma vontade minha.
- É... ... É... Poderia passar nesse endereço, por favor? – Engasguei um pouco com o meu próprio ar, mas estiquei meu braço com o papelzinho meio amassado já, com o endereço.
- Ué, mas que endereço é esse? – Ela me olhou desconfiada e eu gelei um pouco, mas a ideia é ser bem rápida, resumida, e dizer o que deveria ser dito de uma vez só. Então vou encher meu peito e dizer:
- É o estúdio de ensaio do . Ontem trocamos de os celulares ao esbarrarmos. – Cuspi rapidamente, expulsando o ar que suguei, relaxando meu peito. Solto um sorriso tentando a convencer de que estou relaxada, anestesiada, normal.
- Melhor eu nem comentar. – Gargalhou , me jogando um olhar que eu nem esperava como um “Ai, que fofos!”. Fofos? Como assim “fofos”, ? Não me jogue esse olhar como se eu tivesse esbarrado com dentro do banheirinho pequeno sujo e nojento e ele me beijou arrancando minha blusa que nem um animal, sem pensamentos desse tipo ou brincadeiras desse nível com ele, que me da falta de ar! Apesar de a minha cabeça estar repreendendo , eu apenas resolvo assistir ela balançando a cabeça negativamente. Fomos o caminho todo conversando sobre o passado, sobre o mundo pequeno que é esse. Todas as vezes que ela tentava tocar no assunto de meu passado com , eu arranjei um jeito de desvencilhar do assunto, a ideia é não sentir nada por , não mantê-lo em minhas conversar, cortá-lo de tudo, porque mesmo que tenha sido uma vez, foi como se seus olhos estivessem me pedindo para ficar, para abraçá-lo.
Rimos muito sobre tudo, o humor da logo de manhã é incrível. Me faz rir logo agora que estou com coisas lotadas na minha cabeça, que parece que vão escorrer pelos ouvidos. Ela parou na frente do tal estúdio. Que é uma casa, mais apropriadamente, uma casa bonitinha, mas de longe conseguíamos ouvir os risos de meninos. Nos entreolhamos... abriu um sorriso largo nos lábios, arqueando uma sobrancelha.
- Não pode ser tão ruim assim. – saiu do carro dando uma piscadela para mim e arrancando o celular da minha mão. Desci logo em seguida com um frio na barriga. Ansiosa... Para ir embora.
tocou a campaninha e as risadas cessaram. Um barulho de trancas da porta era engraçado, o que fazia sorrir um pouco mais, esperando que abrissem a porta. Eu já consigo imaginar o com o celular na mão dele, eu olho para ele esticando o braço com o celular e ele com o meu, acenamos e arrasto para dentro do carro, mas...
- Olá. – Um menino moreno alto atendeu a porta com um sorriso completamente contagiante e totalmente sexy nos lábios, com um olhar brilhante e o rosto bem avermelhado, provavelmente de tanto rir, e os olhos dele pousaram em que por sua vez pousou seus olhos nos músculos do menino e ela sorri para ele mordendo os lábios, como se nunca tivesse visto alguém tão bonito antes. Dou um largo sorriso por estar atrás e ele não conseguia me ver, dou um passo para o lado respirando fundo.
- Oi. – Falei de fundo, levantando o braço com a tentativa de chamar a atenção do bonitão na porta, que agora pousou seus olhos sobre mim, sorri de volta com educação, um pouco nervosa e desapontada por não ser o de uma vez só, para eu ir embora, mas a possibilidade de ele estar com o meu celular e estar dormindo de ressaca poderia ser boa, mas infelizmente não é bem assim, já que ligaram para mim achando que era o . – Vim devolver o celular do e pegar o meu.
- Ah, é você a ? – Ele alarga o sorriso e vem em minha direção esticando o a mão para que eu cumprimentasse. – . – Aperto a mão dele o cumprimentando, rindo com o modo que ele aperta minha mão, colocando a minha entre as duas dele como se fosse algum padre ou coisa parecida. – , prazer. – Logo que me cumprimenta estica seu olhar para a de novo, soltando as minhas mãos. Rolo os olhos por achar bem infantil o jeito que ele a vê, tipo a desejando. Balanço a cabeça tentando afastar pensamentos bobos.
- Oi . – Respondi esperando que ele respondesse alguma coisa, mas ele apenas estende o braço para dentro da casa convidando a gente para entrar com uma péssima noticia para mim:
- Entrem meninas. ainda não chegou. – não pensou duas vezes em pisar para dentro da casa e eu a segui de cabeça baixa, querendo correr dali e viver a minha vida em paz. Sem ter que passar por essa situação constrangedora de ter trocado de celular com o meu ex-namorado, que provavelmente deve estar longe daqui neste exato momento.
provavelmente ainda vai demorar e iremos perder o primeiro tempo do curso. O que eu não quero, lógico - perder meu tempo aqui.
A casa é muito linda, grande e decorada adequadamente. Nada muito rico, nem muito pobre, aconchegante e bagunçada... Enfim, bem confortável. Eu e nos sentamos. Ela teve um bom papo com o tal de , e o , que falou comigo mais cedo, começou a conversar comigo agora, me apresentou o e explicou sobre o ensaio, que eles fazem música e têm uma banda se chamada “McFLY”. Me explicou o porquê do nome, me explicou que era por causa do Marty McFly do filme “De Volta para o Futuro” e tudo mais. E as horas pareciam não passar e não chega, eu estou com aquela ansiedade no peito, sabe? Aquele negócio que borbulha dentro de você, que nada faz passar, nem te distrai por muito tempo. Essa ansiedade de ir logo, de seguir com isso. Acabar. Como se tivesse algo dentro de mim incompleto. Mas comecei a gostar de ouvir o que me falava, que era muito interessante, em como era viver em quatro, entre amigos, me perguntou com quem eu vivia e eu disse obvio que era com a minha mãe, e ele riu de mim, apontou para o meu rosto e gritou: “que bebezinha” e o começou a rir de mim. Me senti constrangida, mas deixei para lá, eles eram tão bobos, mas tão legais ao mesmo tempo...
De repente a maçaneta da porta gira, e para mim aquilo é um “finalmente”.
- E ai galera! – entrou animado, gritando e batendo a porta, todo mundo olhou com uma cara de dúvida e ele sorri de lado e arqueia a sobrancelha, mexendo nos cabelos molhados por alguma razão e pousa brevemente seus olhos sobre os meus, como se estivesse surpreso em já me ver ali. O sorriso dele fica maior, o que o faz ficar mais bonito do que nunca, e meu coração parece que vai pular pela boca, mas tento manter uma pose séria e intelectual, mesmo eu sentindo que ele está derretendo as minhas pernas, já que não consigo movê-las, fecho os olhos e os apertando brevemente com raiva - ou talvez decepcionada - mesmo eu já tendo essa idéia - de que isso meio que iria acontecer. – E ai! Vamos ensaiar? – Ele esfregou uma mão na outra, esperando alguém se manifestar, mas eu só consegui foi é ficar boquiaberta.
- Pra agora. – pulou do sofá indo para cima de . Parei, olhando incrédula, como se ele fosse capaz de esquecer que estou aqui por um motivo obvio. Meu celular. Abri a boca para me manifestar, mas me atropelou:
- Podemos assistir vocês ensaiando? – A encarei chocada, até ela havia esquecido? Como assim, estou me sentindo completamente tensa, com as feições do meu rosto completamente paralisadas. Retomei-me rapidamente para que ninguém notasse meu fracasso, mas eu não posso, eu não quero me atrever a ter uma nostalgia, que é o que provavelmente vai acontecer ao vê-lo cantar, ao vê-lo se embalar na música. Vou começar a ter pensamentos que eu não tive até agora, vou até ser capaz de aceitar que ele nunca foi, e nunca irá, do meu coração. E nesse momento é como se meus sentimentos estivesse nervosos, todos em conflitos, alguns pedindo para eu relaxar, outros pedindo para eu ser dura, convicta de mim mesma, e outros mandavam ser covarde e não tentar disfarçar, mas no momento eu preciso é: Respirar. – O que acha, ? – Ela me olhou repreendendo-me com os próprios olhos, como se dissesse: “Pare de ser boba!” Sorri amarelo. Já que não consigo pensar em nenhuma desculpa realmente plausível.
- Ah, ... Tem o curso, né? – Respondi cerrando os lábios, cruzando os dedos para que seja motivos o suficiente para não fazer nada disso. Estou com medo de que aquela conversa com tenha a mexido, isso seria terrível.
- Quem liga pro curso? Não seja careta . – Piscou para mim. Assenti com a cabeça, me rendendo, o já me olhava estranhamente triste, e os olhares de pareciam me evitar, pareciam tristes pela noite passada, o que faz meu estomago se contrair um pouco me deixando nervosa, ansiosa talvez, com medo quem sabe, mas não são sinais de nada, tenho que colocar isso na minha cabeça.
- Então vamos! – gritou, implorando para todos que subissem logo, porque graças ao estrago que fez nos horários só dariam para cantar duas musicas. perguntou por que não dava para cantar mais nenhuma, e respondeu que é por causa dos vizinhos que deixam as coisas em horários apropriados. Comentei que era algo completamente bobo e concordou, mas assim que ele se referiu à palavra a mim resolvi ficar quieta, evitar com que os nossos olhares cruzem ou algo do gênero.
O lugar era bonito, estiloso e bem aquecido. Havia uma bateria, três microfones, uma guitarra e um baixo. Eles começaram a decidir entre si que músicas cantariam e deu a opção de cantarem “Hypnotised”, deu de “I’ll Be Ok” e de “Broccoli”, disse que qualquer uma está boa, mas que precisam ensaiar.
fala algo sobre , mas eu não estou prestando muita atenção, eu estou meio paralisada, com uma nostalgia – inútil lógico. Pensando nos momentos em que estava com , que olhar o pôr-do-sol era romântico, não clichê e que eu amava o jeito que ele me envolvia com os braços e me deixava sem lugar para ir, mas eu não queria ir a lugar nenhum, apenas me aconchegar em seu peito. Como eu amava o jeito que ele colocava meu cabelo atrás da orelha e alisava minha bochecha no frio tentando aquecê-la e me dava um beijo no nariz na hora que íamos dormir quando passávamos alguns dias um na casa do outro! Como eu amava o jeito que ele sorria para mim olhando nos meus olhos, sorrindo de lado! As piadas que ele contava e até aquela risada contagiante.
E tudo aconteceu naquela noite, e ainda o escuto gritando “Nosso problema, você quer dizer!”. Tantos telefonemas, e mesmo assim eu viajei. Fui para a Espanha, discutíamos porque ele disse que nunca poderia esperar alguém, que ele não poderia perder tempo da vida dele. Eu juro que aquilo me machucou, foi como um tiro no meu peito. Ele sempre fora tudo o que tinha. E agora, por conta do acaso, eu o reencontrei. Ele está mais lindo do que nunca e seus olhos me dizem algo como “Me desculpe!”, como se estivéssemos um dia após aquela nossa discussão. Mas no dia após eu havia prometido não cometer os mesmos erros, e que o amor dele era seco o suficiente para eu esquecê-lo. Tentei me convencer durante meses lá na Espanha que ele era só uma vírgula. Minha mãe nunca gostou do , o julgava, dizia ser um vagabundo porque ama cantar. Mas a gente planejava fugir, planejava morar em uma pequena casa - ele montando uma banda e tocando em bares - e seriamos humildes. Eu trabalharia em qualquer lugar com jornalismo e teríamos uma vida pacifica - e nossa. Eu me lembro exatamente como era quando eu estava ali. Com ele.
Lembro exatamente como que ele me fazia me sentir. Eu sentia que era como caminhar nas nuvens, como sentir uma chuva de verão, como se seu toque fosse de algodão macio e seus olhos me levavam a um oceano, onde só nós dois conhecíamos, como se houvesse uma praia deserta, ou um mundo paralelo. Quebrava todas as regras do que eu tinha planejado.
Era um amor que fazia meu coração palpitar, que deixava minhas pernas bambas, me deixava corada apenas por ele me sussurrar: “Você é a pessoa mais linda que eu já conheci. A pessoa mais pura.” e me deixar sem voz. Um amor que demorou a se manifestar, como se ele estivesse dentro de mim preso em uma caixinha, pronto para abrir. E que agora luto para não senti-lo novamente, luto para que isso não me envenene novamente, mas em alguns momentos parece inevitável não ceder a tudo isso.
- Então , avisei a o que aconteceu. A deixamos lá sozinha. – Finalmente consigo me concentrar na por alguns minutos. Mas logo ela já está me jorrando palavras em cima de mim, como se estivesse com uma torneira aberta depois de girá-la totalmente. Sei que o assunto é e a última vez que fomos a um acampamento juntas quando éramos apenas crianças. bate palma animadamente porque eles terminaram de cantar e eu sorrio batendo palmas junto. Foi realmente uma ótima trilha sonora para os meus pensamentos nesse momento.
- E ai, o que vocês acharam das músicas? – disse ao passar os olhos por mim, o que obviamente me deixa super sem jeito, ainda mais agora, que acabei de rever um dos melhores sentimentos que já tive. Eu não consigo me concentrar em olhar para ele, eu estou com raiva, com os sentimentos a flor da pele. Aquele reencontro mexeu com as minhas estruturas, confundido meus princípios, fez-me sentir apaixonada sem motivos, sem razão para me sentir desse jeito. Meio irônico dizer isso, mas é exatamente assim que os fatos apontam. Apesar de ele me tratar como se tudo estivesse exatamente no lugar, do jeitinho que deveria ser. Depois de um tempo notei que eu não respondo, que estou nadando em meus pensamentos, mas ouvi a voz de dizer que amou, se empolgando.
- Nós vamos tocar no bar perto da faculdade, sabe? – comentou espontaneamente, o que fez dar um pulo. Eu sei o que ela está pensando obviamente a mesma coisa que eu:
- Faculdade? Qual faculdade? – Perguntei interessando-me no assunto. Já que a faculdade mais perto que tem por ali é a que eu e cursamos.
- A faculdade de Jornalismo aqui do lado, aquele bar que fica bem na frente. – Respondeu, sorrindo animado, como se fosse um convite indiretamente para podermos vê-los cantar.
Do canto do olho vejo cochichar alguma coisa no ouvido do e do que logo sorriem um para o outro e assentem com a cabeça, arqueio a sobrancelha, deixando transparecer um ar de confusão, ou talvez de estar desconfortável. Bom, eu estou desconfortável, odeio esse tipo de coisa - quando as pessoas cochicham no ouvido das outras a as outras começam a rir espontaneamente com um olhar de malícia.
- É a faculdade que cursamos, né ? – Ela comenta espontânea, segurando meu braço, trocando um sorriso cúmplice e animada. Eu sorri de volta, não tem como não fazer a minha melhor amiga feliz.
- Que tal vocês aparecem por lá? – apareceu animado quando terminou de desligar a caixa de som, finalmente parou de rir e disse o que tanto cochichava. Bom, eu acho. Vejo cutucando com um sorriso no rosto, não sei se é para fazer cena ou porque estava feliz com a ideia do de nos convidar. Posso sentir a empolgação de de longe, mas a minha apreensão também é visível, afinal, namorei por dois anos com , e tê-lo tão perto de mim era meio desconfortável depois do motivo completamente desanimador como acabamos, mas está coberta de certeza que para mim é passado e que ele tinha ficado lá na boca do Espanhol que eu fiquei para tentar esquecê-lo. Lógico que a convenci a pensar nisso - a pensar que tudo está bem enterrado, ou cremado, eu até me convenci disso. Posso sentir o olhar de pesando nos meus ombros, esperando que eu decida dessa vez.
- Por que não? – Respondi a fazendo sorrir. E com meu estomago borbulhando, um pouco nervosa e com muito calor por estar com medo. O que de tão ruim pode acontecer? Eu acabar sentindo que as minhas pernas não vão me obedecer mais e ir em direção do e bato nele pedindo pra ele sumir, desaparecer, pra ele parar de mexer comigo. – Quando é? – Abri um sorriso falso tentando mostrar confiança, certeza que estou confiante do que estou fazendo
- Sexta-feira. – respondeu sorrindo, e muito. Suspirei aliviada, porque ainda é segunda. Depois de trocarmos de celular começamos a conversar, discutindo algo sobre filmes ou qualquer coisa. , e nos fizeram nos sentir tão em casa que quando notamos estavam todos na sala de televisão tirando e colocando filmes de diversas nacionalidades e de diversas categorias, na maioria das vezes os criticando e rindo da cara dos atores que interpretavam super mal. pergunta mil vezes aonde foi que eles tinham tanto filme de merda assim e eu concordo, lógico. Foi um momento pacifico, onde não nos preocupávamos muito sobre com quem estávamos conversando. Afinal, é como se nos conhecemos há décadas, sabe? Os meninos foram super confortáveis, super atenciosos, nos faziam rir por qualquer bobeira. O tempo passou mais rápido que imaginamos, e quando notamos já era fim de tarde e estávamos do lado de fora nos despedindo. selou um beijo na bochecha de cada um deles, animada ao sair de lá. Eu fiz o mesmo com receio de tocar em , se só a presença dele já tinha feito um estrago na noite anterior, não evitaria me arrepiar, então para ele apenas acenei com um sorriso grudado nos lábios, para parecer pelo menos simpática. O sorriso que estava grudado nos lábios dele era sigilosamente engraçado e bonito, como se sorrisse de lado apenas. O que me fez suspirar um pouco.
Logo depois de toda essa situação estava indo me deixar em casa. Ela ficou o caminho inteiro comentando o quão foi legal eu trocar de celular com o , se não ela nunca teria feito amigos novos. Também reclamou de Bruno, que era um imprestável, e argumenta que agora tinha como fazer ciúmes, e que vai adorar conhecê-los. Eu não tenho muito que comentar, cansada, com a cabeça pesada, e o tempo para mim pode ter parar aqui, para que eu pudesse voltar e ficar um tempo sem fazer nada, só pensando nas coisas que me aconteceram se atropelando, como os sentimentos me atropelam em alta velocidade, que apenas em vê-lo novamente me mudou inteira. Eu apenas falo: “Sim!” “Claro, !” “Concordo com você completamente, um idiota.” “Você sabe... te avisei que ele é idiota.” e dou algumas risadas nos momentos que ela ria de alguma coisa também. Eu não quero prestar atenção, eu quero chegar em casa e revisar as minhas coisas. Será a melhor coisa a fazer: mandar meu currículo para vários jornais, para ver se eu arranjava algum estágio. Parar de pensar, parar de lembrar e de me afogar em lembranças que não o trariam de volta. Não quero exagerar uma surpresa para um sentimento muito forte, quase inacabável, já que se passou um ano que terminamos. Seria irônico dizer que não sinto nada, mas também seria irônico aceitar isso como fiz em meus pensamentos mais cedo.

Algumas vezes penso em como eu faço para entender, para traduzir tudo isso. Como eu faço para desenhar a verdade. Como eu faço para poder crer em mim mesma. Afinal, isso é o que move minha desanimação. Com tantos problemas é só isso que consigo carregar na minha mente, como se absorvesse meu dia. Eu não posso sentir isso de novo apenas com a presença dele, apenas por ele estar aqui. Eu não posso. Eu não posso. E tinha razão quando dizia: “Se fosse besteira vocês dois, você não passaria Espanha inteira se auto-policiando para tentar se controlar, . Uma dia você vai ter que voltar e viver a tua história com ele.” Mas eu neguei - e continuo a me negar a passar por isso -, pois eu me lembro daquela noite, eu lembro exatamente de quando eu disse que se ele passasse por aquela porta eu teria certeza que o sentimento dele por mim era completamente seco, e mesmo assim ele girou a maçaneta e pisou para fora. E agora estou aqui, olhando o teto do meu quarto, tentando dormir e tentando descobrir como vou fazer para cair no sono e dormir magicamente uma boa noite de sono, enquanto ele está lá, sorrindo, rindo, brincando, tocando e vivendo sem mim em sua mente.
Por que é tudo tão ridículo assim?

CONTINUA!


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AnnieB.