Nossa História Autora: Alice Mesquita Beta-Reader: Gi Bussoni
Capítulo 1
Rotina.
Estava atrasado para o trabalho. O Sr. Clovis provavelmente descontaria de meu salário, novamente. Estendi a mão para que o motorista do ônibus parasse, mas de nada adiantou, ele me olhou com um sorriso sínico que dizia “você não está na parada, perdeu garoto.” Enquanto eu o respondia com um olhar sério e um gesto que conseguia, talvez, exprimir tudo que sentia naquele momento.
Sentei em minha cadeira e liguei o computador, enquanto todos no escritório já estavam na maior correria. Tinham dois projetos, um mais simples e outro que era crucial para o Sr. Clovis que eu terminasse hoje. Passei as mãos em meus cabelos, num ato de tentar dissipar toda aquela agonia que me consumia.
- Trinta minutos atrasado. – Falou o Sr. Clovis “surgindo” atrás de mim.
- O trânsito estava pior hoje...
- O trânsito, sua mãe, o cachorro da vizinha, o carro que lhe melou de lama! Já está pensando na próxima desculpa? – Perguntou sarcástico.
- Entregarei o projeto hoje. – Respondi sorrindo simpático, enquanto a resposta que repetia-se em minha mente era apenas “Sim, terei uma desculpa melhor quando comer sua mulher”. Mas eu precisava daquele trabalho, e como precisava.
Meus pais moravam numa cidade muito distante da capital. Uma cidade onde as pessoas não tinham grandes planos de vida além de casar e ter filhos, trabalhar na venda ou qualquer outro cargo público que só precisava de vagas quando algum dos velhos morria. Eu não queria aquilo para mim, não mesmo. Então decidi tentar a vida na capital, na metrópole. Mas mesmo tendo um diploma, já diria o velho faxineiro do prédio que moro: “Na cidade grande é assim, cão comendo cão, e quem não tem cão, caça com rato, ou mata o parceiro para sobreviver”. Sábias frases de um velho zelador.
Quinze minutos para as dez da noite. Levantei-me de minha cadeira, com os olhos cansados, sentindo um peso em minhas costas, um quadrado sendo tirado aos poucos de meus glúteos, e um aroma inebriante de cafeína que percorria não só minhas narinas, mas minhas papilas gustativas. Entrei na sala do Sr. Clovis sem me preocupar em bater na porta. Lá estava ele se agarrando com a secretária, traindo sua mulher pela milésima vez.
- Aqui está! – Falei jogando o rolo de papéis em cima de sua mesa.
- Espero que tenha ficado bom! – Falou num tom de autoridade que fazia a ingênua secretária lhe achar o cara mais importante do mundo. Fala sério, aquilo me enojava.
- Já falei, se não fosse bom, não estaria trabalhando aqui.
- Vá para casa rapaz, você está com sono, mal sabe o que está falando! – Falou rindo de minha cara.
- Amanhã dormirei até mais tarde, só venho trabalhar depois do almoço.
- Quem pensa que és? – Falou rindo de minha cara.
- Vou visitar minha mãe, a senhora dona Carminha, conhece? – Sim, era o nome da esposa dele. E não, ela não era minha mãe, até porque se fosse, ele não estaria vivo numa hora dessas.
- Entendo... Esteja aqui o mais rápido possível, no horário da tarde. – Falou finalmente e acenou para que eu saísse. O pai de Dona Carminha era o dono da empresa de Marketing. O Fato do casamento durar tanto não era amor por parte do Sr. Clóvis, mas sim puro interesse. O problema, ou solução, é que ele sabia encenar, fingir, muito bem.
Capítulo 2
A porta ao lado.
O sol entrava pela janela, invadindo as cortinas xadrez de tecido barato e fino, as quais só serviam de enfeite. O Barulho de carros e buzinas na rua me faziam enfiar cada vez mais minha cabeça entre o travesseiro e o colchão. Não iria trabalhar pela manhã. Não teria barulho que me fizesse acordar antes das onze.
Não lembro bem quando a campainha começou a tocar, mas lembro-me muito bem do quanto ela tocava, e o quão irritante aquele barulho frenético de uma pessoa louca a beira de um ataque cardíaco fazia em minha porta. Tirei o travesseiro de cima do rosto e o joguei ao chão. Levantei-me e enquanto andava até a porta, passei a mão em meus cabelos para arrumá-los um pouco.
- Pois não? – Falei abrindo a porta sonolento.
- Erm... – Olhou-me uma jovem assustada, bonita, mas assustada, enquanto seus olhos apontavam para abaixo de minha cintura.
- Hã? – Olhei para baixo. Minha samba-canção era verde com bananas amarelas. – Qual o problema?
- Você não sente vergonha em receber alguém assim? – Perguntou-me surpresa.
- Você não sente vergonha em acordar alguém assim?
- São dez horas! Pensei que estivesse morto!
- Iria me enterrar se tivesse? Não, então para que incomodar até os mortos? – Perguntei apoiando uma de minhas mãos na quina da porta.
- Vim informar-lhe que já faz mais de um mês que o senhor não pega seu jornal! – Falou jogando um rolo enorme de jornais velhos em cima de mim.
- Obrigado, não sabia que tinha serviço de catador de lixo dentro do prédio agora... Quando tiver mais, posso lhe chamar?
- Eu aqui vindo lhe fazer um favor e você me trata assim? Pois agora usarei seus jornais como banheiro para minha cadela!
- Aí eu lhe acusaria de ladra... por roubar meus jornais...
- Você não está os usando!
- O jornal é meu, eu os uso se quiser! – Respondi. Estava começando a me divertir com aquela situação, a garota parecia realmente impaciente.
- Quem você acha que é? Pensei que fosse uma pessoa ocupada, séria, moro a um mês aqui e nunca o tinha visto. Agora vejo que é um filhinho de papai que provavelmente passa a noite bebendo e cheio de mulheres, faça um favor ao mundo, não compre mais jornais! – Falou e virou-se, para ir embora.
- Não vá me dizer que está com inveja por eu poder dormir até tarde enquanto você se ocupa com seu trabalho de observar a vida dos vizinhos? – Falei a puxando pelo braço.
- Pode me soltar, por gentileza? – Perguntou fitando-me. Seu olhar penetrava meus olhos como cem agulhas escarlates. Seus lábios pediam para que eu a beijasse, mas sabia que minha pele não gostaria do vermelho que ficaria com o tapa que provavelmente receberia, e meus ouvidos, por mais estranho que aquilo parecesse, ainda queriam escutar aquela voz mais algumas vezes.
- Claro senhorita... – Falei com uma voz gentil. Então ela virou-se e caminhou para a porta ao lado da minha. Sim, aquilo foi extremamente estranho. Ela morava do meu lado. Eu realmente não esperava por aquilo. Bem, meu estômago sentia fome e eu precisava alimentar-me. Abri a geladeira e peguei tudo que se desse para comer frio. Sentei-me na frente da tevê, a liguei e estiquei as pernas, enquanto passava os canais, procurando algo que prestasse para ver. Até que desisti e peguei um livro, o qual eu estava a duas semanas tentando terminar de ler. Olhei para o lado e tinha o projeto de pouca importância, inacabado... um comercial para passar num horário barato, de um canal barato. Não perderia meu tempo em casa para adiantá-lo, é, faria no escritório.
No meio da tamanha monotonia televisiva e do livro nada empolgante, a imagem de minha vizinha não parava de vir em minha mente. Criatura engraçada – pensava. Levantei-me e abri a porta com cautela, evitando que fizesse algum barulho. Não havia nada em frente à sua porta, até que olhei para o fim do corredor e não vinha ninguém, menos mal, já que ainda estava de samba-canção, então abaixei-me um pouco, para olhar pela fechadura. Cadê ela que não aparece? – Pensava enquanto tentava me posicionar de forma mais confortável. Passos vindo no corredor, então saí correndo para dentro de casa e fechei a porta. O coração batia acelerado. Se o síndico me visse semi-nu no corredor de prédio, iria me acusar de atentado contra o pudor, vai saber. O barulho silenciou-se, então abri vagarosamente a porta, e meus olhos foram atraídos novamente pela fechadura. Fiquei lá tentando ver algo. Um sofá vermelho de três lugares, almofadas brancas com bolinhas vermelhas. Um sofá tão grande para uma só pessoa? Ou será que ela já era casada? Mas com aquela idade? Eu nunca me casaria tão cedo. Uma xícara preta, com o desenho de um gatinho, apenas uma. É, talvez ela morasse sozinha. Verdade, era uma desocupada, para ter tempo de pegar jornais alheios... Ou então era a empregada da casa, e aproveita que os patrões não estavam para ficar tomando cafezinho e fofocando. Falar em fofocando, onde estaria ela? No banheiro talvez... Bem que eu gostaria de conseguir ver essa cena, mas eu não estava na fechadura correta...
- Perdeu algo? – Perguntou-me uma voz familiar.
- Erm… - Falei virando lentamente, enquanto pensava numa boa desculpa. – Acho que o síndico errou e colocou minhas cartas aí na sua casa.
- Você acha ou o viu colocando? – Perguntou a garota, que estava com uma sacola de pão em mãos.
- Acho. Prazer, meu nome é . – Falei sorrindo amarelo.
- , prazer. Posso entrar na minha casa?
- Claro. – Falei levantando-me de minha pose nada agradável aos olhos. – Desculpe o incômodo.
- Tudo bem. – Falou olhando-me com desprezo, enquanto enfiava a chave na fechadura.
- Então... até amanhã, se você vier me trazer o jornal. – Falei sínico e entrei em casa, rindo baixo.
A pia estava cheia de pratos e a casa uma bagunça. Resolvi procurar a agenda telefônica e pedir que a faxineira viesse esse fim de semana. Estava realmente precisando de uma arrumação aquilo ali, e principalmente agora que eu tinha uma vizinha gata, quem sabe ela não acabava entrando em casa, no quarto, e acho melhor eu parar minha imaginação por aqui. Comecei a caça à agenda telefônica, até que a campainha começou a tocar freneticamente. Quem seria agora?
- Você não sabe ser delicada com a campainha não? – Falei ao vê-la em frente à minha porta. – Deixa eu te ensinar, não é nada de outro mundo, mas o som sai independente da força que você aperta, e outra, eu escuto bem, pelo menos se minha audição piorar, a culpa será sua.
- Me poupe! – Falou empurrando-me e entrando em minha casa.
- Senhorita... sem querer ser grosso, mas a sua porta é a do lado. – Falei a olhando com medo.
- Eu sei. – Falou erguendo uma chave quebrada.
- A chave... que... quebrou na fechadura? – Falei gargalhando enquanto fechava a porta.
- Isto não tem graça! Eu preciso escrever um artigo para hoje! – Falou mordendo o lábio inferior, num sinal de raiva.
- Olha minha cara de preocupação. – Falei fazendo cara de paisagem.
- Pode me emprestar a lista telefônica para eu ligar para um chaveiro?
- Se você a encontrar... – Falei apontando para toda a bagunça da casa.
- Como você consegue dormir nesse chiqueiro?
- Do mesmo modo que consigo conversar com você.
- Está me chamando de porca? – Perguntou incrédula.
- Não... estou apenas dizendo que são duas coisas que não exigem um mínimo de intelecto. – Falei rápido, arrependendo-me logo em seguida.
- Estúpido.
- Aceita uma xícara de água com uns pães quentinhos? – Perguntei gentil.
- Os pães seriam os meus? – Perguntou sem paciência.
- Exatamente. Seu pensamento rápido cada vez me surpreende mais! – Falei sorrindo enquanto ia até a cozinha pegar duas xícaras e uma garrafa d’água.
Ela olhava para minha sala com desdém, e não parecia perceber que eu a observava. Seu olhar um tanto quanto enojado com a bagunça que via era peculiar, suas mãos esticavam e contraiam, num “querer” e “não dever” arrumar tudo aquilo, e isso, com certeza, era o que mais me aguçava os pensamentos, saber o que ela estaria pensando. Não que eu me preocupe com pensamentos alheios, já tento livrar-me dos meus, quanto mais perder tempo com os dos próximos, mas bem, os dela me interessavam, ela não parecia ser uma criatura que aceitaria entrar num chiqueiro como o meu assim tão facilmente, deveria estar em estado de alerta, e aquilo me animava.
- Aqui está. – Falei esticando a xícara para que pegasse.
- Achei a lista telefônica, já liguei, ele disse que estaria aqui em minutos. – Falou sorrindo e pegando a xícara.
- Bem, sem querer ser intrometido, mas já sendo, você disse que chegou aqui a um mês, certo?
- Sim, por que?
- Nada, só acho muito interessante só estarmos nos falando agora...
- Você sabe ao menos o nome do porteiro que te abre a porta todos os dias? – Perguntou levantando uma sobrancelha.
- José? – Palpitei. Se era para arriscar, que fosse com o nome mais comum.
- É Marcos, senhor Marcos. – Falou me olhando de lado, mas não parecia surpresa ou decepcionada, como se já esperasse aquilo. O que, claro, me irritou o ego.
- Bem, eu tenho mais afazeres do que decorar nome de vizinhos com os quais não mantenho nem tampouco pretendo manter contato. – Falei abrindo a sacola de pão e rasgando um ao meio com os dentes, exalando, assim, toda a minha masculinidade – o que me pareceu bastante ridículo depois de ter recebido um olhar zombeteiro da criatura.
- Eu tenho tantos afazeres quanto você e mesmo assim sei ser uma pessoa sociável. – Falou sorrindo e andando como uma lady até a sacola de pão e pegando um.
- Falando nisso... o que você faz da vida?
- Como assim?
- Trabalha com o que?
- Sou escritora. Jornalista para ser mais exata. Trabalho para uma revista vendida para mulheres.
- Que trabalho fútil. – Falei a olhando com um quase nojo. Fingido, obviamente.
- Fútil!? COMO ASSIM FÚTIL? – Perguntou preparada para o ataque, pude até compará-la com uma cobra que se arma e fica encarando a presa com a lingüinha de fora, apesar de sua língua está bem presa dentro da boca com os dentes trincados.
- Fútil. A maioria dessas revistas para mulheres são fúteis.
- Falou bem, “a maioria”, a minha não é. Não meus artigos.
- Prove-me.
- Compre a revista, sente-se em sua poltrona e leia, aprecie, meu caro. – Falou pausadamente, andando pela sala e mostrando um sorriso debochado na face. – E você? Trabalha com o que?
- Trabalho numa agência de Publicidade e Propaganda.
- Legal.
- Não vai falar mal do meu trabalho? – Perguntei realmente surpreso.
- Não. Acho interessante, e não sou tão infantil a ponto de querer brincar de “descontar”.
- Então talvez você possa me ensinar a ser adulto. Quer brincar de ser adulto? – Perguntei com um olhar pervertido, esperando ansiosamente por sua reação.
- Claro. – Falou sorrindo dócil.
- Sério? – Perguntei mais feliz.
- Sim. Por que não? – Perguntou se aproximando.
- Verdade, por que não? – Falei a olhando por um momento. – Eu começo?
- Comece. – Falou fitando-me. Até que alguma parte pensante de meu cérebro avisou-me que aquilo estava fácil e bom demais para ser verdade. Se fosse alguma secretária do meu departamento eu não acharia tão estranho, na verdade, não acharia nada estranho, mas com se tratando de minha vizinha, e principalmente por ela ser aquela criatura tão estranha, eu não poderia acreditar que seria algo fácil assim.
- Vou pegar o baralho então, pode sentar aí. – Falei com a cara de tacho mais convincente do mundo, e então ficamos boa parte da tarde jogando baralho. Claro que eu pensei num strip poker, mas me contive.
Seria devaneio dizer que parecíamos nos conhecer de longas datas? Bem, talvez partindo da visão da criatura, sim. Porém, partindo da minha, não. Era como se algo forte, muito forte, me ligasse a ela. Não podendo negar de que fora atraído por sua beleza, digo que algo além do que os olhos humanos enxergam podia me puxar para ela. Era algo diferente, com o qual eu nunca tinha deparado. Um novo assustador. Um novo surpreendente. Um novo incrivelmente atraente.
Diante de – por incrível que pareça – tantas risadas, tantas fichas apostadas, e tantas jogadas, a tarde passou rapidamente. E não sentimentos falta de alguém que deveríamos sentir. O chaveiro. Entardeceu, anoiteceu e o chaveiro não apareceu.
- Eu estou completamente perdida. – Falou passando as mãos por entre os cabelos, parando com a palma sobre a testa e os cotovelos apoiados nos joelhos.
- Como? - Perguntei rindo. – Não se preocupe, as fichas apostadas aqui não têm valor real, não se preocupe, não vai precisar me pagar!
- Quem dera fosse esse o motivo de minha perdição. – Falou tristonha, como ainda não a tinha visto.
- E qual seria, mademoiselle? – Perguntei a olhando. Deprimente aquela cena.
- O chaveiro. Ele não chegou. Acabei de lembrar-me! – Falou ainda mais aflita.
- Vou ligar para ele. Só isso, ou posso ajudar em mais alguma coisa?
- Meu trabalho. Como vou terminar? A revista irá para a edição amanhã, ela será publicada essa semana, eu preciso entregar esse artigo amanhã pela manhã, às sete horas. Tudo o que eu pesquisei está no meu computador, que está atrás daquela porta maldita sem chave! – Falou alterando o tom da voz.
- Erm... – Falei sem saber o que dizer, como lhe dar apoio moral. – Pensaremos numa solução, não saia daí! – Falei e fui em busca da lista e do número do tal chaveiro.
- Para onde mais eu iria? – Perguntou como se a resposta fosse óbvia.
Liguei para o chaveiro, e é incrível como as pessoas arrumam outros compromissos e esquecem dos primeiros. Ele se desculpou, mas é claro que minha vontade era arrombar a porta da casa dele, não fosse minha total covardia. Não, eu não era uma pessoa violenta. Na verdade, na hora de uma briga, a melhor solução que eu sempre conseguia achar era... correr.
Quando lhe falei que talvez, com certeza, para ser mais sincero, ela teria que procurar um lugar para dormir ou dormir na minha casa, pois o chaveiro estava resolvendo problemas pessoais com sua namorada, ela não acreditou. Ficou em choque por alguns minutos, os necessários para que eu colocasse meu lap top em sua frente e preparasse uma boa quantidade de café quente para nós.
- O que é isso? – Perguntou-me parecendo ainda confusa.
- Bem, você tem um trabalho para amanhã. São oito horas da noite. Temos, no mínimo, dez horas para escrever seu artigo. Claro, eu deixei uma hora como tempo que você chega daqui para seu trabalho.
- Não é tão simples como você pensa... é um assunto complicado, preciso pesquisar bastante...
- Bem, você começa colocando suas idéias no papel, enquanto me diz o que eu devo pesquisar. Eu sou o rei na internet, vou te achar o que você precisar! Até papel higiênico eu já comprei pela internet! – Falei rindo, tentando animá-la.
- Obrigada. – Falou sorrindo, um sorriso puro de agradecimento.
- Não se preocupe.
Capítulo 3
Um dia no parque.
Acordei cedo – o que era algo bem raro em dias de folga. Arrumei-me depressa e tomei uma xícara de café. Não sabia se deveria tocar sua campainha, se eu pareceria muito ansioso por nosso primeiro passei juntos, e a sós. Devido a minha preocupação de não parecer tão ansioso quanto estava, sentei-me na poltrona e liguei a tevê. Nada daquilo me prendia a atenção. Vinte minutos passaram, sim, não foi a eternidade, mas pareceu. Não agüentando mais a agonia interminável provinda da espera, levantei-me num salto e em outro a porta de meu apartamento já estava fechada e meu dedo indicador segurava insistentemente a campainha da porta ao lado – como geralmente ela fazia com a minha.
- Calma! – Falou abrindo a porta. Usava um vestido leve, de estampa suave e agradável aos olhos. Seus cabelos estavam soltos, e com um brilho intenso, não um que me doesse a vista, mas intenso, na medida perfeita. Mas logo tive que recobrar os sentidos.
- É para você sentir o gosto de ficar do outro lado da porta. Viu como é irritante alguém segurando sua campainha?
- Irritante é você. – Falou rindo.
- Só com quem eu gosto. – Retruquei. – Enfim, para onde vamos hoje?
- Para o parque! – Falou sorridente.
- Para o PARQUE? – Perguntei incrédulo. Adeus meus planos de tentativas bem sucedidas no escurinho do cinema.
- Sim! Faremos um piquenique no parque! – Falou e foi buscar a cesta dentro de casa.
- Legal. – Falei por fim, ainda um pouco incrédulo.
Pegamos um táxi e fomos até o parque. O sol estava bom, não tão quente e não tão sumido. O vento ajudava a manter a temperatura estável. Andávamos pelo parque como um casal, observando vários outro casais e crianças brincando com outras. Era uma cena relaxante, acabei por admitir a mim mesmo que aquilo era até mais confortável que um cinema. Queria acreditar que não era devido a meus últimos meses de trabalho intensivo. Sim, a única maneira de convencer meu chefe a não me demitir, depois de ter faltado o trabalho no dia seguinte – aquele o qual eu passei a tarde jogando cartas com a Letícia -, foi passar a me empenhar como um funcionário bastante assíduo. Creio que o Sr. Clóvis saiu ganhando, já que trocamos um dia por três meses.
Sentamos em um local arejado, embaixo de uma das tantas árvores ali existentes, forramos a tal toalhinha xadrez e arrumamos as comidas por ali mesmo.
- Então, como está sendo agir como um funcionário sério? – Perguntou rindo.
- Vai bem, obrigado. – Falei a olhando de lado.
- Desculpe. – Falou ainda rindo.
- Pelo o que?
- Você só precisou fazer isso porque passou a tarde comigo, esqueceu de ir trabalhar...
- Já falei, não tem problema, foi bem divertido! – Falei sorrindo. – E veja o lado positivo, conseguimos terminar sua reportagem a tempo! E ficou muito boa! Até comprei a revista!
- Eu sei. – Disse rindo. – Obrigada, mesmo. – olhou-me docilmente e pude sentir o calor de sua mão sobre a minha. Inicialmente achei que estava sonhando, mas a sensação era bastante real para ser uma ilusão.
- Tudo bem... – Falei sem jeito. Nem parecia eu mesmo.
- Então, come essa maçã, está ótima! – Falou cortando todo o clima de romance ali existente e enfiando uma imensa maçã em minha boca. O que eu podia fazer além de obedecê-la? Nada.
- Está realmente gostosa... – Falei com a boca cheia.
- Você é tão educado... – Falou com um olhar reprovador.
- Sou sim – Continuei, e agora exagerando na falta de educação, admito – Você não quer um pouco? – Perguntei mostrando o bolo dentro de minha boca.
- Eca! Que nojo! Claro que não! – Fazia movimentos engraçados com as mãos, se afastando de mim. Então nós dois começamos a rir. Bem, na hora da risada eu fechei a boca, obviamente.
Ficamos boa parte do tempo ali, sentados, conversando, sentindo a brisa quente raspar as células de nossa pele. O aroma da barraquinha de pipoca ali perto nos fazia querer comprá-las, mas a preguiça nos mantinha sentados – quase deitados – naquele pano xadrez. Por fim deitamos e ficamos nos encarando. Podia ver em seus olhos a curiosidade que tinha sobre mim, e esperava que ela não conseguisse ver o mesmo nos meus.
- E então? – Perguntou.
- E então o que?
- Você trabalha a quanto tempo naquela agência?
- Faz três anos apenas... E você?
- Faz quatro anos. – Disse sorrindo.
- Quantos anos...
- Não se pergunta a idade de uma mulher. – Disse parecendo adivinhar meus pensamentos.
- Desculpe! – Disse rindo. – Eu tenho vinte e três.
- Sério? – Disse apoiando-se em um dos cotovelos.
- Sim, por que?
- Que criança... – Falou um pouco pensativa.
- Por que? – Perguntei no lugar de pedir insistentemente que me revelasse sua idade.
- Tudo bem, eu digo. Tenho vinte e cinco anos.
- Que velha! – Disse sem pensar muito.
- Velha não, você que é criança! – Disse rindo. – Mas... você começou a trabalhar com quantos anos? – Perguntou um pouco confusa.
- Vinte, não parece óbvio?
- Nossa! Eu comecei aos dezenove. Quer dizer, trabalhei vendendo revista antes disso, mas aí não conta, foi na loja de minha tia.
- Então você ainda cursa a faculdade?
- Não, já terminei. Você deve estar perto de terminar a sua, certo?
- Já terminei.
- Como?
- Entrei aos dezesseis anos. Eu sei... Agora você se impressionou com minha inteligência. – Falei boçal. Adorava ver a expressão de “nojinho” em sua face.
- Não acredito que você só tenha vinte e três! Sua cara é de mais velho!
- Obrigado... Adoro esse tipo de elogio – Disse irônico.
- Desculpe, mas é verdade. – Disse rindo.
- Obrigado novamente. – Falei sério e depois não consegui segurar a risada. É, eu estava rindo, e não era uma risada sarcástica nem irônica, aquilo fora um grande feito.
Passamos mais um tempo conversando, e tentando desvendar os mistérios mais simples um do outro. A tarde passou rápido, e assim que a noite começou a dar seus primeiros sinais de vida nós recolhemos as coisas. Arrisquei convidar-lhe para correr um pouco, imitando outros tantos que já corriam, mas ao nos vermos com uma cesta em mãos, o convite teve de ser adiado. Pelo menos mais um desculpa para outro dia no parque. Como o clima estava bom, com um vento refrescante, decidimos ir caminhando até não agüentarmos mais e só então pegar um táxi.
- Hoje o dia foi divertido. – Disse olhando-me sorridente.
- Foi sim. Pena que amanhã a realidade volta, e teremos mais e mais trabalhos. – Falei olhando para ela.
- Nós podemos repetir isso mais vezes... – Disse sem conseguir me encarar, apenas olhando para o céu.
- Podemos. Eu gostaria bastante. – Disse e então senti sua mão procurar a minha. Segurei firme. Sentimentos estranhos em envolviam, sentimentos com os quais eu nunca tivera contato antes. Não sabia como agir. Queria beijá-la, mas tinha medo de que um beijo pudesse estragar tudo.
- Letícia? – Perguntei ávido.
- Oi? – Perguntou virando-se para mim. Eu não pude me conter. Puxei-a para mim e a beijei. Ela retribuiu, apesar de manter o corpo preso como estátua no chão. Apenas seus lábios se moviam, mas se me era suficiente.
- Desculpe. – Disse separando-nos.
- Erm... Precisamos voltar para casa. – Disse ruborizando.
- Verdade.
Pegamos um táxi e o clima lá dentro estava um pouco estranho, mas conseguimos chegar em casa ainda conversando. Cada um entrou em seu apartamento, e admito, cruzei os dedos para que a chave dela quebrasse novamente, mas não aconteceu.
Capítulo 4
Um novo dia, um novo começo.
A cesta de café da manhã e as flores foram entregues em minha porta exatamente no horário combinado, fiquei satisfeito com a eficiência do serviço. Coloquei um casaco para caso alguém passasse no corredor não me ver sem camisa e chequei minha bermuda para ver se não estava rasgada. A campainha da porta ao lado estava bastante convidativa. Coloquei o dedo nela e comecei a apertar freneticamente, como ela fazia.
- Você sabe que horas são? – Perguntou ainda com cara de sono.
- Bom dia! – Disse que comecei a beijá-la. Seu sono era tanto que não pôde perceber uma grande cesta e um grande buquê sendo escondidos por mim.
- Que alegria toda é essa? – Perguntou suspeitando de algo.
- Eu não sei como fazer isso. Eu nunca fiz isso... – Falei e então pude perceber seu olhar notando o que “escondia” atrás de mim.
- ? - Perguntou confusa.
- Queria oficializar nossas saídas... Quer namorar comigo? – Perguntei já esperando um não.
- Como?
- Não, tudo bem, não tem problema, a gente ainda pode comer juntos hoje e...
- Shiiiiiu... – Disse colocando seu dedo indicador sobre meus lábios. – Eu aceito.
- Eu já espe... Como? Você aceita?
- Aceito. – Disse rindo.
- Eu sabia! – Falei rindo e voltei a lhe beijar. Entramos em sua casa e tomamos café da manhã juntos. Foi um bom dia, apesar de termos apenas duas horas juntos pela manhã, já que depois teríamos de ir para o trabalho.
Capítulo 5
Galã na Festa de Gala.
Fim de ano, saldo positivo na empresa, chefes e funcionários orgulhosos. Uma festa na empresa. Funcionários e elite juntos. Adorava tais eventos, não só pelos comes e bebes, mas por ser a ocasião perfeita para observar o comportamento das pessoas – um de meus melhores e principais hobbies. Sorrisos falsos, fofocas, gente boçal e estúpida achando que está abalando, dinheiro sendo gasto na mesa de pôquer, belas criaturas em busca de um milionário – independente da idade -, novos ricos, pessoas inteligentes que fecham um círculo para debaterem entre si, e pessoas inteligentes que conversam com todos, como eu.
Era sábado à tarde, estava no salão, se arrumando para acompanhar-me na festa. Eu, por vez, centrava-me em passar meu paletó. Passava desenho animado na tevê, eu realmente queria perder meu tempo assistindo, mas o dever – ou se preferir, festa – me chamava.
Poderia eu descrever toda a minha monótona tarde de preparo para uma festa de gala, mas prefiro poupar-me de tal martírio, pulando, assim, direto para a festa.
As luzes não só iluminavam, como também decoravam o ambiente. Tudo parecia perfeito visto de fora, mal poderia esperar para ver por dentro.
Entramos no salão e alguns poucos convidados já haviam chegado. Apresentei Letícia ao Sr. Clóvis e a alguns poucos colegas, tudo para fazer a social, alguns poucos porque eu realmente gostava de manter algum tipo de diálogo com eles. Finalmente sentamos à mesa.
- As pessoas aqui parecem ser mais socializáveis do que você descreveu. – Comentou .
- Acho que no fim das contas o anti-social sou eu. – Falei a olhando.
- Acho que sim. Quer dizer, não acho, tenho certeza. – Disse rindo.
- Você está linda.
- Você também, e bastante elegante. – Falou sorrindo.
- Quer dançar? – Perguntei sorrindo com o canto da boca.
- Mas... Ninguém está dançando! Iríamos chamar muita atenção!
- Atenção já estamos chamando. Afinal, exalamos beleza. – Falei num tom convencido.
- Boçal. – Disse rindo. Então me levantei e busquei sua mão.
Assim que começamos a dançar as pessoas nos olharam curiosas, porém, vendo que não passávamos de um casal feliz dançando, juntaram-se a nós. A melodia enchia-nos de uma alegria incalculável. Estávamos extasiados. Olhei para Letícia e ela me olhava nos olhos, sorrindo. Juntei minha testa com a sua, ficamos assim por um bom tempo. Juntos, sentindo a respiração um do outro.
- Obrigado por vir. – Falei e em seguida nos beijamos. Lembro-me apenas que depois fomos nos sentar. Maldita hora que fomos nos sentar.
- meu amor! – Gritou Angelina, secretária de outro departamento. Já havíamos ficada durante um happy hour.
- Oi! – Falei fazendo a social. – Tudo bem? – Perguntei levantando-me e dando dois beijinhos em suas bochechas.
- Tudo ótimo querido! Você nunca mais me procurou... Sinto falta de sua...
- Esta é minha namorada, . – Falei com os olhos arregalados, desejando pôr um fim na conversa. O tiro saiu pela culatra.
- NA-MO-RA-DA? – Perguntou incrédula.
- Sim. – Falei preocupado com todo aquele espanto.
- Por que? – Perguntou com um tom enciumado.
- , de namorada? – Disse rindo – Soa como piada! E aquele papo de que não queria nada sério, apenas casual? – Falou ainda rindo. Meu estômago embrulhou e senti uma das mãos da esmagarem meu fígado e a outra arrancar minhas costelas e fazer uso delas para esquartejar meu coração. Enquanto, claro, podia-se ver uma larva fervente de satisfação no olhar de Angelina, que de anja não tinha nada, nem ao menos a cara. Já a , bem, não conseguia adivinhar o que se passava em sua mente. Sua expressão não mudara, e isso era o que me dava mais medo.
- Eu mudei – Foi tudo o que consegui dizer.
- Por que você não usa seus sapatos finos e faz um bom uso deles para levar sua língua até alguém que esteja interessado? Ah! Não se decepcione se acabar saindo da festa mais cedo, é que o público não parece se contentar com pouco. – Disse e logo depois bebeu um gole de champagne, ainda com a mesma expressão.
- Você está bem? – Perguntei com medo, enquanto Angelina saia rápido dali por não conseguir retrucar ao mesmo nível.
- Por que não estaria? – Disse e enfim sorriu – Se você não tivesse mudado, não estaríamos namorando, correto?
- Corretíssima! – Falei sorrindo – Você me dá medo... hehe.
- ? – E eu pude sentir-me deitado numa pista gelada de concreto com um caminhão passando por cima de mim e esmagando todos os meus ossos em tamanhos incontáveis. Mais cinco mulheres estavam diante de nossa mesa. Sim, eu já ficara com as cinco, e para todas, assim que me procuraram novamente, falei que não passara de uma saída casual.
- Vamos sair daqui! – Falei num ímpeto, sabendo que mais um segundo com elas e eu estava perdido.
- Mais saídas casuais? – Perguntou friamente.
- Sim... – Falei abaixando a face.
- Vamos. – Falou levantando-se – Quer dizer, eu vou.
- Vamos. – Disse e saí a seguindo. Como não pensei que mulheres vingativas apresentam índice de alta periculosidade? Não deveríamos estar lá, não com tanta gente imunda e mal amada. caminhava na frente, então parou um táxi e entrou, entrei em seguida, segurando a porta quase fechada por ela. Não demorou muito para que ela dissesse o endereço para o taxista, mandasse ele me deixar e num salto saiu do veículo, deixando-me com cara de tacho lá dentro. Mandei o taxista ir devagar, acompanhando seus passos irritados e apressados pela calçada.
- Aonde você pretende chegar? – Falei da janela do táxi. Ela não olhou, muito menos respondeu. – Você sabe que horas são? Vai demorar a passar outro táxi!
- Eu sei onde fica a parada de ônibus, agradecida pela preocupação. – Falou irônica e continuou. Um passo falso. Um pé virando. Um grito de raiva e dor para o céu nublado e ela resolveu tirar o salto alto, prevenindo, assim, uma torcida de tornozelo.
- Seu pé está bem?
- ...
- Deixe de ser teimosa! Eu não tenho culpa!
- ...
Estávamos em frente da parada de ônibus. Em frente da desértica parada de ônibus. Pedi para o taxista parar e fiquei com a janela aberta, a vendo em pé com os braços cruzados, tentando não tremer de frio.
- Vamos lá! Deixe de birra!
- Pode ir, eu vou sozinha.
- Moramos no mesmo prédio, no mesmo andar, venha logo! Se não eu mesmo irei lhe colocar aqui dentro!
- Eu lhe denuncio por seqüestro!
- Você não...
- Você duvida? – Com o olhar que lançou-me era impossível duvidar. Acabei ficando dentro do veículo e observando meu dinheiro ir embora no taxímetro. Uma péssima terapia ver aquilo aumentar de número, ainda mais empolgante depois que começou a chover forte. Chuva, números, sentindo minha carteira esvaziar. Faltava algo... Sim! Faltava!
- Entre agora aqui! – Gritei percebendo – lembrando – que ela estava na chuva. O pequeno teto da parada não protegia de muita coisa, principalmente diante de uma chuva de vento.
- Já falei que não vou! – Gritou apertando forte os braços, ainda cruzados.
- Pode ir colega. – Falei para o taxista. Abri minha carteira e o paguei, saindo do táxi em seguida.
- Senhor! – Chamou-me o taxista – Sinto que o mínimo que posso fazer é avisar que os ônibus só passam até a meia noite por aqui. Como a vizinhança é rica, não quer tal meio de transporte incomodando sua madrugada.
- ... erm... obrigado. – Falei vendo minha salvação – lê-se: o táxi – sumindo de minha visão. – VOCÊ OUVIU, NÉ? – Falei a olhando sério. Pela primeira vez seu olhar parecia um tanto quanto arrependido. Com medo.
- Sim. – Disse parecendo pensar.
- Estamos largados no meio da chuva, e é tudo culpa sua... – Falei colocando meu paletó sobre seus ombros.
- Culpa sua que deixou o táxi ir embora!
- E quem foi que me obrigou a fazer isso?
- Eu não sabia que não tinha ônibus... – Falou olhando-me de lado. – Desculpa...
- Pelo menos terei uma boa desculpa para faltar no trabalho.
- Olha, acho que não vai demorar para a chuva passar... – Falou tentando animar-me. Pelo menos seu peso na consciência parecia estar dando sinais de vida.
- Seu cabelo está horrível. – Falei a olhando e soltando uma pequena risada.
- Ai! É culpa do laquê que sai com água! – Falou colocando as mãos nos cabelos, tentando ajeitar. – Devo estar horrível!
- Está engraçada...
- Me ajuda a tirar essas atacas!
- Tudo bem, tudo bem... – Falei e então nós dois começamos a ajeitar seu cabelo, ou pelo menos tentar.
A chuva começava a passar, porém, o vento ainda batia forte contra nós. Estávamos encharcados, o teto da parada realmente não servira para nada. Bem, para quase nada. A chuva e ventos fortes fizeram-nos ficar abraçados, tremendo juntos de frio, naquela madrugada mórbida, onde todos os táxis que passavam estavam cheios.
Assim que a chuva passou, chamei a criatura e comecei a andar, aproximadamente dois a três minutos depois, percebi que ela estava à alguns metros atrás de mim e pude, assim, notar que andava mancando, provavelmente a virada que seu pé dera lhe afetara.
- Venha.
- O que você está fazendo? – Perguntou ao ver-me agachado no chão com os braços esticados para trás.
- Seu pé está machucado, vou te levar nas costas.
- Claro que não! Não precisa!
- Vai teimar de novo? – Falei com um tom de voz cansado – Lembre-se que estamos aqui por sua causa...
- Mas...
- Anda e sobe logo! – Ordenei.
- Ain... Não precisa ser malvado.
A carreguei até chegarmos ao metrô, sentamos e depois a carreguei do metrô para casa. Passei todo o tempo fazendo cara de quem estava carregando uma pena, mas a verdade é que eu queria jogá-la no chão e mandar que ela me carregasse dali em diante. Ossos, cartilagem, músculo e o resto todo pesa muito! Chegamos ao elevador e ela não parava de me olhar, estava começando a ficar incomodado.
- Que foi? – Perguntei por fim.
- Nada.
- Então para de me olhar.
- Paro não! – Falou mostrando a língua.
- Se você colocar essa língua para fora mais uma vez, eu pego! – Falei ameaçando-a.
- Pega? DU-VI-DO. – Falou me provocando, e em seguida colocou novamente a língua para fora. Não preciso dizer que fui de imediato e puxei sua língua com minha boca, iniciando um beijo, um ótimo beijo.
Comecei a passar as mãos por suas costas, ela subia minha camisa úmida e apertava-me o corpo. A porta do elevador abriu em nosso andar, ela pulou em meus braços, envolvendo-me com suas pernas e fomos nos beijando até a porta do meu apartamento, cuja chave parecia querer brincar de emperrar justo naquele momento. Consegui abrir a porta. Entramos ainda nos beijando, a coloquei contra a parede – admito que naquele momento foi mais porque eu precisava de um apoio, meus braços estavam bem cansados, mas funcionou melhor do que eu pensava. Ela abria os botões de minha camisa enquanto eu tentava entender como se tirava aquele vestido complicado.
Abri os olhos e ela estava ao meu lado, na cama, me olhando dormir. Sorri e virei para cima dela, enquanto ela ria. Comecei a beijá-la, até que o despertador tocou.
- Droga! – Falou.
- O que foi? – Perguntei sendo expulso de cima dela.
- Tenho que ir trabalhar!
- Eu não preciso ir hoje...
- Mas eu sim! – Falou rindo enquanto enrolava-se no lençol e se levantava.
- Quero meu lençol... – Falei manhoso.
- Depois te dou!
- Eu quero agora, vai ter que ficar sem!
- Te ilude! – Disse ainda rindo. – Aonde estão minhas roupas?
- No chão do banheiro, provavelmente... foi lá que tiramos ontem.
- Pensei que tivesse sido na sala...
- Seu vestido é muito complicado, eu demorei mais para tirar.
- Na verdade não...
- Não?
- Quem teve que tirar fui eu!
- Agora vai rir de mim pelo resto da vida! – Falei e cobri o rosto com o travesseiro.
- Oonw... Que fofinho... Juro que pularia agora em cima de você, mas tenho que trabalhar! – Disse e correu para o banheiro. – Elas ESTÃO MOLHADAS AINDA!
- Estão úmidas, não exagere...
- Mesmo assim... – Apareceu fazendo bico, com as roupas em mão.
- Pode abrir meu guarda-roupa...
- Posso pegar aquela sua samba-canção fashion? – Perguntou sapeca.
- Aha! Sabia que você tinha gostado dela!
- Claro, impossível não se apaixonar por aquelas bananas amarelas reluzentes no verde-limão.
- Eu sei, eu sei. Eu tenho bom gosto.
- Tem mesmo. Afinal, está comigo. – Disse e foi se vestir (lê-se: colocar uma roupa minha).
- Beijos! – Disse beijando-me rápido e correndo para a porta ao lado, sua casa.
Capítulo 6
Uma mudança de casa leva a uma mudança de vida.
Não lembro bem a data, nem a quanto tempo estávamos juntos, mas já fazia um bom tempo. Estávamos vendo tevê à noite, deitados no sofá, quando sentou em cima de mim e de frente para mim e me falou que não seria mais minha vizinha.
- Como? – Perguntei assustado.
- Isso mesmo que você ouviu.
- Você acha que esse apartamento cabe mesmo nós dois? – Perguntei sem querer dizer que talvez fosse invasão de espaço, se não isso levaria a uma DR.
- Bem, eu passo a maior parte do tempo aqui, quase todas as minhas roupas estão aqui, eu só não tenho a chave, sempre tenho que tocar a campainha...
- Mas aqui é tão desorganizado...
- Não acredito que você não me quer morando aqui! – Falou assustada.
- Claro que não é isso! Eu quero! – Falei também assustado.
- Bem, mas não é sobre isso que eu ia falar...
- Não? Estou começando a ficar confuso.
- Bem... Minha mãe – Disse e encostou sua cabeça em meu ombro, deixando a boca próxima a meu ouvido – está doente. Não sei a gravidade da doença, mas mesmo sendo sério ela nunca diz que é. Meu pai que me ligou dizendo para eu ir visitá-la. Se meu pai ligou é porque a coisa está séria. Pedi licença no trabalho, minha chefe compreendeu e aceitou, estou indo amanhã passar um ou dois meses na casa de meus pais. Quero cuidar dela, tudo bem?
- Erm... por que você não me falou isso antes?
- Fiquei com medo de sua reação...
- Putz! Estou surpreso!
- Desculpe...
- Tudo bem, ela é sua mãe. Mas... Na próxima vez, fale primeiro a mim, você sabe que pode contar comigo pra tudo, sempre. Não sabe?
- Sei...
- Que sei “murcho”.
- SEI! – Falou sorrindo e então a abracei.
- Nos falaremos todos os dias, se você deixar. – Disse em seu ouvido.
- Eu deixo.
No dia seguinte fui trabalhar, ela me ligou quando estava indo para a rodoviária, perguntou se eu poderia ir vê-la, mas eu estava muito ocupado. De noite liguei para ela, e assim o fiz todos os dias em que ela estava lá.
- Também te amo.
- Estou tão preocupada com você aí sozinho...
- Por que?
- Sua casa deve estar uma bagunça! – Disse rindo.
- Está mesmo! Mas quando você estiver voltando, vou arrumá-la para lhe receber!
- Sei...
- Acredite.
- Eu acredito.
- Te amo. Muito.
- Também. Sabe que eu nunca pensei que fosse me apaixonar por você?
- Mas EM?
- É sério! – Disse rindo. – Você me tratou mal da primeira vez que nos vimos, lembra?
- Verdade... por isso te trato bem agora, para recompensar.
- SÓ por isso?
- Deixa de querer elogios... – Falei sem graça.
- Ai! Mas elogios são tão bons! – Disse rindo. – Espera...
- ...
- ...
- ...
- , preciso ir. Meu pai está me chamando para ver um filme com ele.
- Mentira, né? – Perguntei sem acreditar.
- Sério. Ele já está velho, é melhor eu cuidar dele também.
- Tudo bem, me largue aqui.
- Dramático! Já faz três horas e meia que estamos nos falando!
- Todo dia a gente se fala por quatro horas...
- Então fico te devendo meia hora?
- Run...
- Oonw...
- Vai lá! Bom filme! E se alimente direito. Amanhã te ligo no mesmo horário.
- Tudo bem. Beijos, te amo. MUITO.
- Também te amo, beijos.
Todo dia, por mais tempo que ficássemos conversando, assim que desligávamos, eu ficava com uma vontade de “quero mais”. Mais de sua risada, mais de seus conselhos, mais de seus elogios, mais de sua preocupação, até mais de suas broncas. Eu queria sempre mais. Mais dela. Mais dela para mim.
Capítulo 7
Dois Anos e Seis Meses de Namoro.
- Pra cá! Pra cá! – Gritava e gesticulava, pedindo para que me passassem a bola.
- Vai para a esquerda! Vou te mandar e você vai de bicuda! – Gritou Cristopher.
- Beleza!
Saí correndo para a esquerda, tentado ser mais rápido do que os jogadores adversários que tinham escutado nossa estratégia. Antes que eu pudesse pensar em olhar para trás, vi a bola passando em minha frente. Driblei um, dois, picuda! Vai... vai... vai... GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!!
E eu lembro como se fosse hoje, um bando de macho se abraçando e se pegando no braço porque ganhamos a pelada. Adorava ir naquele clube de futebol. Lá empresários e empregados mais simples se misturavam, se uniam em busca da vitória no campo! E bem, era a única atividade física que eu realmente fazia, pelo menos me deixava em forma.
- Cara, você precisava ver a cara do goleiro no segundo gol que fizemos! – Disse Marco.
- E eu não vi? Estava vendo de camarote, do meio do campo! – Respondi rindo.
- Quatro a dois foi melhor do que esperávamos! Valeu pelo último gol ! – Disse Luís batendo em minhas costas, enquanto eu caminhava em direção ao chuveirão.
A água fria batia em minha pele e aliviava o calor que estava sentindo. Era uma sensação muito boa. E as únicas vezes que tomava banho frio.
- ! Acho que é seu celular que está tocando! – Gritou alguém.
- Já pego! Não precisa atender! – Falei e continuei meu banho. Ficamos um bom tempo conversando no vestiário, e imitando as jogadas que fizemos. Nossos amigos do time adversário tinham que nos agüentar enchendo o saco deles porque perderam. Mas sempre era assim, quem perdia tinha que agüentar, e ainda pagar uma rodada de bebida para o grupo vencedor.
- Já podemos ir para o bar? – Perguntou Marco, rindo.
- JÁ! – Gritou o grupo de testosterona em uníssono.
- Gente, dessa vez eu passo. – Disse Cristopher.
- Como assim, cara? Você fez dois gols!
- Minha mulher está me esperando em casa...
- Só são dois dias no mês que a gente joga! Não acredito que ela não entende!
- Entende, mas hoje fazemos sete anos de casados... – Disse sem graça.
- Hum... – Um coro de homens falando.
- E sete anos também é só uma vez. Preciso comprar flores ainda! – Eu estava estático. Havia esquecido nosso aniversário de namoro. Havia lhe prometido estar no restaurante para almoçarmos juntos.
- Eu também preciso ir, gente! Até mais! – Falei e peguei minha mochila. Peguei o celular e havia vinte e cinco ligações. Talvez mais vezes do que ela conseguia apertar minha campainha.
Cheguei em casa e entrei, ela não estava. Já tinha dado uma chave da casa para ela, estávamos morando juntos. Toquei a campainha da porta ao lado mas ela também não atendeu. Escrevi um cartãozinho pedindo desculpas e deixei em cima da cama. Eram dez horas da noite quando escutei uma chave na fechadura da porta ao lado. Esperei e o barulho se desfez. Abri minha porta e pude ver que a luz estava acesa. Peguei o cartão, coloquei por debaixo da porta e toquei a campainha. Esperei, esperei, toquei mais algumas vezes a campainha. Não parava de vir barulho de dentro da casa, assinalando que ela estava mesmo lá dentro, mas ela se recusava a abrir a porta. Por fim, desisti e entrei em casa para dormir.
A campainha não parava de tocar. Levantei e abri a porta. Só fazia meia hora que tinha ido deitar.
- VOCÊ SABE QUANTO TEMPO FIQUEI TE ESPERANDO? – Perguntou furiosa.
- Eu estava na pelada... foi mal...
- A GENTE FALOU DISSO A SEMANA INTEIRA!
- Eu sei, mas não tenho culpa!
- ENTÃO DE QUEM É A CULPA? AINDA TIVE QUE AGUENTAR UMA VADIA ME PERGUNTANDO POR VOCÊ! COMO ELA SABE QUE EU E VOCÊ EXISTIMOS? SABE QUE EU POR POUCO TIVE QUE OUVIR COMO VOCÊ A TRATAVA NA DROGA DA CAMA?
- A CULPA É MINHA SE VOCÊ NÃO SABE MANDAR ALGUÉM CALAR A BOCA?
- ENTÃO É SÓ ISSO QUE VOCÊ TEM A FALAR?
- QUER SABER, VOCÊ SEMPRE FICA COM ESSE CIÚME BESTA!
- QUANDO MEU EX VOLTOU A ME PROCURAR, CIÚME NÃO PARECIA SER ALGO BESTA PARA VOCÊ!
- EU ERA IMATURO!
- ENTÃO EU SOU IMATURA, É ISSO?
- É! E DÁ PRA PARAR DE QUEBRAR A DROGA DA MINHA CAMPAINHA??
- PODE DEIXAR! NÃO PRETENDO MAIS TOCÁ-LA! – disse e entrou em seu apartamento, batendo a porta. Fiz o mesmo e fui dormir. Estava cansado de tantas brigas por besteiras.
Capítulo 8
Mais Uma Mudança Gerando Outra Mudança Ainda Maior.
Estava vendo tevê enquanto ela escovava os dentes. Tínhamos combinado de ir no cinema, mas como estava chovendo, decidimos ficar abraçados no sofá mesmo.
- Amor... preciso te contar uma novidade! – Disse sorrindo.
- Diga! – falei enquanto olhava para a tevê.
- Hey... olha pra mim!
- Estou olhando... – Disse virando meu rosto para ela.
- Fui promovida! – Disse sorrindo.
- Que bom! – Falei me levantando e indo a beijar.
- Só tem uma coisa, mas não vai ser problema, na verdade, vai ser solução! – Disse se complicando nas palavras.
- Fala logo! – Disse rindo.
- Então, o emprego é em outra cidade. Fica cerca de três... mil quilômetros daqui...
- TRÊS MIL QUILÔMETROS? – Perguntei a soltando.
- Mas, ! Eu sem querer vi uma proposta de emprego naquela firma que você queria a séculos! E é na mesma cidade! Tanto que mais por isso eu me esforcei nos projetos e consegui a promoção! Não sabia bem quando você pretendia me contar que iria...
- Eu não vou.
- Mas...
- Eu não vou. Quem mandou você olhar minhas coisas?
- Eu estava arrumando a casa...
- Você bisbilhota minhas coisas, se irrita fácil, quebra minha campainha, me agonia o cérebro tocando quinhentas vezes e eu to tentando a meses fazer nossa relação dar certo! Parece que só você aqui não percebe que tem algo de errado!
- Você está tentando? – Disse com os olhos cheios de lágrimas. – Você está deixando acontecer! É como se você só estivesse esperando o momento de eu cansar de seu desleixo e terminar com você! É como se você não quisesse se sentir o culpado por terminar! – Disse enquanto tentava parar de chorar. – Eu percebo , eu percebo que você não me olha como me olhava antes, não me elogia nem mima mais, que você não conta mais nada de sua vida para mim, só o básico, e quando eu pergunto! Eu percebo tudo! Eu só não sou forte o suficiente para acreditar que isso é verdade!
- Talvez se você tentasse mudar! Mas não, SEMPRE a culpa é minha! Sabe, às vezes eu te olhava dormindo e achava que você seria a mãe de meus filhos, mas ultimamente, eu te olho dormindo e me pergunto: Como foi mesmo que começamos a namorar? Por que começamos? Eu não me lembro mais o porquê.
- Sabe que dia é hoje? – Falou entro soluços de choro. – Nós fazemos três anos de namoro hoje. E tudo o que você me diz é que não sabe porque estamos namorando a tanto tempo. Eu... eu sou uma estúpida! Eu sei! Qualquer mulher agora lhe daria um tapa na cara e nunca mais iria querer lhe ver! Mas eu não consigo, eu não consigo dizer que acabou! – Falou se encostando na parede e cobrindo o rosto, já vermelho de tanto chorar, com as mãos.
- Desculpe, não sabia que era hoje.
- ...
- Eu não quero ir para essa cidade. Eu gosto da minha vida aqui.
- Mas poderíamos ser felizes lá também! – Disse ainda tentando conter o choro.
- Eu não sou mais feliz com você aqui! Quanto mais lá! Eu não vou aceitar essa promoção por sua causa!
- Você quer se livrar de mim... – Disse olhando para o chão. Em seguida caminhou até o quarto e encostou a porta.
Sentei em frente a tevê. Enquanto as imagens passavam em minha frente a raiva só tomava conta de mim. Estava cansado daquela situação mas também não conseguia terminar. Eu não sentia mais a mesma coisa por ela, e o que era pior, eu não sabia como recuperar. Ela passou silenciosa carregando duas malas. Abriu a porta, me olhou, um olhar que parecia ser o último, e então fechou a porta. Eu não sabia se corria atrás dela, se ficava ali, talvez eu estivesse tão perdido quanto ela naquele momento. Aumentei o volume da tevê e fiquei vendo as imagens passarem, enquanto tentava esquecer de tudo aquilo. Enquanto tentava não me arrepender, já me arrependendo de ter sido tão cruel com ela.
Capítulo 9
Uma Chance. Uma Carta. Um Avião.
Acordei cedo – na verdade consegui dormir umas duas horas de sono. Arrumei-me para o trabalho e ao abrir a porta havia uma carta. dizia que iria viajar de noite, que se eu não quisesse que ela fosse era só ir de tarde me encontrar com ela no parque do nosso primeiro encontro. Nós poderíamos conversar e talvez ela pudesse ficar aqui comigo. Caso eu não fosse, seria minha resposta definitiva, e nós nunca mais nos veríamos.
O que mais me dava raiva era ver a sua insistência em algo que para mim não parecia ter futuro. Era seu amor por mim mesmo eu tendo a tratado mal no dia anterior. Era ter certeza que naquele momento, o que eu mais odiava era a mim mesmo.
Sentei no sofá e não consegui sair daquela posição durante horas. Lia e relia aquele pequeno bilhete. Relembrava de nossos momentos juntos, a maioria bons, e não entendia como havíamos chegado naquele ponto. Talvez a rotina, talvez o cansaço, eu não sabia como tinha acontecido, o que tinha acontecido, só sabia que o que mais eu temia havia acontecido: Em nossas mentes provavelmente não ficariam os bons momentos, mas sim a amargura de um relacionamento terminado da pior e mais covarde forma possível. O término de um relacionamento que a partir daquele momento, eu podia entender que não tinha me esforçado para fazer dar certo. Tinha me acomodado, não me importando mais com datas, elogios, presentes... Tinha deixado o trabalho e afazeres me consumirem, e o pior, tinha me permitido ficar com raiva dela se vinha me fazer carinho enquanto estava ocupado. Me sentia com o espaço invadido, incomodado. Que homem não daria a vida para ter alguém que lhe fizesse carinho sem que precisasse pedir? Eu era o único estúpido dali. Não me interessando mais por ela, deixei de me interessar por sua vida, e, em poucos meses, já éramos estranhos um ao outro, sem saber de nada do cotidiano, sem assunto para conversar. Ela tentava, e eu ligava a tevê. Ela me abraçava, eu ia dormir.
Tirei a camisa e deitei na cama. Fiquei olhando para o teto, enquanto relembrava de tudo e lágrimas insistiam em cair por minha face. O telefone tocou diversas vezes, e atendi o mais rápido possível todas as vezes, acreditando que era ela, mas eram só pessoas perguntando porquê eu havia faltado o trabalho.
Não percebi o tempo passar, mas acabei dormindo. Acordei suado, o ar-condicionado estava desligado. Levantei-me e vi que já estava de noite. Olhei para a cama e o bilhete ainda estava lá. O parque! Eu não havia ido! Eu nunca mais a veria. Aquela sensação era pra ser de conforto, paz, calma, era tudo o que eu esperava. Que chegasse ao fim. Mas foi exatamente ao contrário. Eu me sentia inquieto, não sabia o que fazer, não conseguia parar de pensar no que faria sem ela. Nada mais parecia ter muito sentido. Para quê trabalhar tanto se eu não teria a quem presentear? Para quê tantos móveis se eu não usava quase nenhum? Só o sofá, a cama e a tevê. Comecei a andar de um lado para o outro da casa, sem saber o que fazer. Talvez desse tempo de encontrá-la no aeroporto! Sim! Talvez!
Coloquei uma camisa e fechei seus botões enquanto corria para o metrô. O meio de transporte tido como mais rápido, para mim, naquele momento, parecia uma tartaruga, parecia que se eu fosse correndo chegaria mais rápido. Enfim, chegamos na estação e fui correndo até o aeroporto. Procurei nas cadeiras, e enquanto corria pude avistar um casaco vermelho quase entrando na sala de embarque. Tinha que alcançá-la antes disso. Corri rápido e gritei seu nome várias vezes, mas de nada adiantou. Ela entrou. Caí ajoelhado ao chão, sem saber o que fazer.
- , você está bem? – Perguntou uma voz conhecida.
- Cristopher? – Perguntei o olhando.
- Eu. – Disse rindo.
- O que você tá fazendo aqui?
- Vou viajar a negócios...
- Você está indo para aquela sala de embarque? – Perguntei levantando-me.
- Sim, estou. Por que?
- Por favor! Entregue uma carta para uma mulher de casaco vermelho lá dentro!
- Seria sua namorada?
- Sim! Por favor! – supliquei.
- Calma garoto... claro que entrego. – Falou rindo.
- Serei rápido!
- Seja mesmo, já estou atrasado, vamos ficar perto da porta, não posso perder esse vôo.
Comecei a escrever a carta. Os avisos de que eram as últimas chamadas para o vôo não paravam de vir, até que Cristopher bateu em meu ombro de disse que precisava entrar. Tentei em vão terminar logo a carta, mas ele já estava dentro da sala de embarque. Tudo estava perdido. Tudo.
[N/a: Que tal colocar a música pra carregar? *O* Eu aviso a hora de dar play \o/ http://www.youtube.com/watch?v=BgA8t7rQ3K0&feature=related]
Capítulo 10
“O que mais dói não é estar sem ela, é saber que ela aprendeu a viver sem mim.”
Estava na festa de uma amiga da empresa. Depois que se foi, aceitei a promoção para trabalhar na mesma cidade que ela, na esperança de que pudesse a encontrar no meio da rua. Ainda fui em vários hotéis, busquei a lista telefônica, mas a tempos não tinha mais o telefone das pessoas na lista. Fora tudo em vão. Fiz um trabalho para um músico, e ao lhe entregar, sem querer foi junto com a carta que escrevera para , a qual havia transformado em música. Ele adorou a letra e me pediu para deixá-lo gravar. Eu ganharia os direitos autorais pela letra e melodia. Acabou que a música ficou sendo tocada na rádio, e ainda estava em seu período de fama. Já fazia um ano e oito meses que estava sem ela. Um ano e três meses carregando o maior arrependimento de minha vida. E a todo momento que escutava ou tocava essa música, só me lembrava o quanto eu era estúpido. Tentava sorrir e fazer os outros sorrirem mesmo que por dentro eu estivesse ferido, estivesse gritando e amaldiçoando minha vida.
- Vamos cortar logo esse bolo! – Gritou Jorge, um dos colegas de trabalho.
- Calma! Só falta minha amiga chegar! Ela disse que o trânsito está difícil, por isso está atrasada!
- Que demora!
- Nós podemos esperar... – Falei sorrindo.
- ! Prepara o violão pra tocar aquela sua música linda!
- Ham?
- Isso mesmo! Achou que iria escapar? Mostrei a letra para minha amiga, ela A-DO-ROU! Ficou tão emocionada que até chorou!
- Legal... – Disse tentando sorrir. – Eu também chorei.
- Ao escrevê-la?
- Depois, relendo para colocar a melodia.
- Que fofo! Você pode nos contar essa história depois? Por favor?
- Eu já te contei...
- Mas é tão linda! Acho que todos gostariam de saber!
- Prefiro não, você entende, não entende?
- Ah! Que chato! – Disse rindo. – Tudo bem, eu te entendo.
Sorri e peguei o violão, enquanto tocava a música, sem cantar. Apenas ouvindo as notas e tentando não lembrar tanto dela. Um dia ela escutará essa música, talvez, ela não observe o compositor, talvez, ela não se lembre mais de mim, ou ainda, se lembre através do rancor. O que mais dói não é estar sem ela, é saber que ela aprendeu a viver sem mim. O que mais me conforta é saber, que em algum lugar, onde ela estiver, ao ouvir essa música, talvez ela lembre de nós dois, talvez nos aproximemos no simples ato de ouvir a mesma melodia. Uma escolha, uma maldita escolha feita por um maldito orgulho e uma vida se transformou numa maldita vida. Por mais que eu me sentisse perdido, não podia acreditar que tinha acabado. Por mais que eu me sentisse perdido, sentia que aquela história ainda estava lá. Que a nossa história ainda era viva.
[N/a: Hora de dar play *O*]
The picture, it was perfect (A foto, ela era tão perfeita)
It was easy, it was working (estava sendo fácil, estava funcionando)
it was a honeymoon all the time (foi uma lua de mel todo o tempo)
but the sun don't always shine (mas o sol não brilha sempre)
all the problems, started growing (todos os problemas, começaram a crescer)
its the flirting its the clothing (eram os flertes, as roupas)
takin up the bathroom floor (levadas ao chão do banheiro)
but we don't do it like that no more (mas nós não fazemos mais isso desse modo)
You want to move on, (Você quer continuar,)
we're righting the wrong (estávamos consertando o errado)
Its never been easy, (isso nunca foi fácil)
We're not giving up, it's gonna be tough, (Nós não estamos desistindo, isto vai ser difícil,)
but baby believe me, yeah (mas meu bem acredite em mim, sim)
We're not breaking, we're just making it though (Nós não estamos acabando, apenas estamos seguindo em frente)
The story of me and you (a história entre eu e você)
When I think of what you first said (Quando eu penso no que você disse primeiro)
I'm playing it back in my head (Fico repassando isso em minha cabeça)
We're talking on the phone past 4 (Conversávamos no telefone por 4 horas)
You always kept me wanting more (Você sempre me deixava querendo mais)
So I'm writing in a letter (Então estou escrevendo numa carta)
Cause it can't get any less better (Porque isso não pode ficar ainda pior)
The fairy tale starts to fade (O conto de fadas começa a enfraquecer)
but the story won't end today (mas esta história não acabará hoje)
You want to move on, (Você quer continuar,)
we're righting the wrong (estávamos consertando o errado)
Its never been easy, (isso nunca foi fácil)
We're not giving up, it's gonna be tough, (Nós não estamos desistindo, isto vai ser difícil)
but baby believe me, yeah (mas meu bem acredite em mim, sim)
We're not breaking, we're just making it though (Nós não estamos acabando, apenas estamos seguindo em frente)
The story of me and you (a história entre eu e você)
We can pick it up (Nós podemos mudar isso,)
Back where we left off (voltar de onde paramos)
Even if we get it lost (mesmo estando perdidos)
Our story still counts on (nossa história ainda acontece)
The story of me and you... (A história entre eu e você...)
- ? – Perguntou-me uma voz delicada, uma voz – e a única voz – que fazia meu coração acelerar. Um sorriso tomou conta de minha face, enquanto – por mais brega que pareça – lágrimas insistiram em embaçar-me a visão. Era ela. Sim, era ela. – Soube que você veio me procurar, acabou ficando por aqui, e fez uma música... é verdade? – Perguntou enquanto me olhava, com os olhos marejados, segurando um papel em mãos. – Sua música? Quero dizer, foi você quem fez?
- Não. – falei levantando-me e caminhando em sua direção, e antes que nossos lábios selassem um beijo, sussurrei em seus lábios – Essa é a história entre “eu e você”. Essa é a nossa música.
FIM
N/a: E aeeeew moçadaa *O* Quem leu? Quem Gostou? Quem vaai comentaaar? \o/\o/\o/ - Parei.
Cá estou eu de volta com mais uma short fic. Muahahahaha! Vocês não se livrarão de mim nem tão cedo!
Bem, essa fic é pequena, mas não quis enviá-la toda de vez, vai saber '-'
Ganhei um livro escrito por mim hoje *--* Dá pra acreditar? Minhas amigas/amigos são tããão legaais neh '-'
*babando*
Enfim, acho melhor ir parando por aqui e aguardar ansiosamente que alguém comente, sim? *--*
PS: Se você lê Três Garotos para Uma Garota e está se perguntando se eu sou louca em começar uma fic sem terminar outra (se por um acaso do destino TGPG não entrar nas atts antes ou junto com essa), saibam que eu já terminei *--* Já faz uma beleza de tempo, só to aguardando minha beta diva que anda meio ocupada ‘-‘
Enfim amoras, beijos beijos. Alice Mesquita.
Outras Fics da Autora:
Dear Bobbie [http://www.fanficaddiction.com.br/fics/d/dearbobbie.html]
Três Garotos para Uma Garota [http://www.fanficaddiction.com.br/fics/t/tresgarotosparaumagarota.html]
N/b: Awn. Posso dizer que chorei? Sei como é brigas constantes e afirmo que não é nada legal. Eu amei a fanfic e a música é muito perfeita, eu até baixei, estou viciada! E gostei da ideia de ganhar um livro escrito por você mesmo, nossa. Tomara que isso vire moda, dude. Comentem, elogie e não critique, brincadeira, opinião é que nem nariz, né?! Faz muita diferença comentários e pãns. E, não se esqueça, qualquer erro é só me avisar!