No Rules
"O que não é proibido, é permitido."
Por Carol C.L.
Beta: Táh



Prólogo
O dia estava nublado, percebera. Estava como o seu humor, nada bom. Havia se passado pouco mais de uma semana desde a morte de seu pai, e ninguém podia lhe assegurar nada ainda. A polícia não tinha sequer um suspeito em mente. Tudo o que se sabia é que morrera com um golpe na cabeça - as gravações das câmeras de segurança foram roubadas e a sala de controle violada. O corpo foi encontrado na manhã seguinte, estirado no tapete persa da sala do diretor do Leader High School.
Leader High School. Um colégio integral para filhinhos de papais ricos que estão sempre ocupados demais para cuidarem de adolescentes mimados, caprichosos e bagunceiros. Uma instituição que transforma crianças arrogantes e desleixadas em jovens responsáveis e aptos a darem seguimento aos negócios dos pais. Bem, essa era a definição que conhecia. Seu pai era dono e diretor do colégio que, de hoje em diante, ele assumiria o comando.
respirou fundo e esboçou um sorriso fraco e triste para o velho gordinho de cabelos grisalhos John, o mordomo, que o vira crescer, e amigo de seu pai. Despediu-se do empregado, que era mais como um segundo pai, e entrou no Jaguar XJ 2011 preto. Ainda se lembrava do caminho do colégio, apesar dos anos. Seu pai costumava levá-lo até lá de tempos em tempos para que se familiarizasse com o que um dia seria seu. Bem, agora era, mas não era nisso que ele pensava. O que ele pensava era que ele ainda não sabia como, mas ele descobriria, de alguma forma, quem matou seu pai.
– Calem a boca! – Katherine, a vice-diretora, gritou ao microfone sem paciência. Ela acabara de anunciar que o novo diretor iria ser apresentado no dia seguinte. A mulher que aparentava ter por volta de trinta anos tirou um cacho castanho da frente dos olhos delicadamente marcados de lápis preto e voltou a falar aos alunos, sentados informalmente nas poltronas enfileiradas do grande auditório, o qual parecia uma sala de cinema.
– Ai, que saco! – bufou ao lado de . – O diretor novo vai querer botar a gente na linha, quer ver? Foi tão bom ficar uma semana sem regras, atazanando essa chata...
nem sequer olhou para a amiga, continuou com o rosto virado para o palco. Com os pés no apoio de cabeça da poltrona da frente, ela abriu um sorriso zombeteiro, as mãos brincando com a gravata vermelho-escura do uniforme, também composto por calça de alfaiataria azul marinho para os garotos, saia plissada de mesma cor para as garotas – que deveria ir até os joelhos, mas elas só usam até o meio da coxa, deixando o cós da saia abaixo dos seios sob a blusa –, blusa de botões branca, terno azul-marinho com a coroa dourada, símbolo do colégio, estampada no lado esquerdo, e sapato preto para os garotos, sapatilha preta e meia três quartos branca para as garotas.
– Ele pode querer o quanto quiser. – disse. – Quero ver ele conseguir.
– Tem alguma observação ou pergunta a fazer, senhorita ? – Katherine rompeu seu discurso por causa da conversa das garotas. sabia que era pura implicância, pois havia muitas outras conversas paralelas e a vice-diretora não se incomodou em chamar a atenção de ninguém além dela.
– Na verdade, Kat,... – ela disse percebendo, sem nem mesmo tirar os olhos da mulher no palco, que o auditório inteiro parara para olhá-la – ...eu tenho sim.
– Quantos anos ele tem? – interrompeu, com seu usual tom de voz autoritário e a mão direita levantada para uma pergunta. sabia que quanto mais era amada por uns, mais era odiada por outros. era uma das que a odiava. – O novo diretor, quero dizer.
– Pra quê você quer saber, ? – Kat perguntou.
– Curiosidade. – deu de ombros de um modo que julgava ser sonso.
– A curiosidade matou o gato, sabia?
– Não se preocupe, Kat – disse. – Ela não é uma gata. – Seu sorrisinho era sarcástico. Ela odiava também. – É uma cachorra. – finalizou, olhando para algumas fileiras adiante.
Por um instante, parecia não saber o que dizer, surpresa ou com raiva demais. Porém, no outro, ela virou para ao responder:
– Estamos falando de mim, não de você.
– Já chega! – Kat berrou. – As duas para a direção! , de novo. – Ouviram-se vaias e cochichos pelo auditório, o de sempre. soltou um risinho ao jogar uma piscadela para , se levantando da poltrona. A amiga pôs uma mão na testa. – Qual é a graça, ?
– Seu último sermão em mim como diretora – respondeu, se dirigindo ao corredor entre as poltronas que levava à porta de saída.
– Graças a Deus! O novo diretor assumirá amanhã e vai cuidar de você, porque você... – respirou fundo, a pele estava vermelha de irritação – É indescritível. – Kat desceu as escadas do palco e se apressou para alcançar e , que se aproximavam da porta.
Ao passar por uma das últimas fileiras de poltronas, percebeu sorridente jogar uma piscadela para , que sorriu com malícia. Era uma das coisas que mais deixava irritada: era o capitão do time de futebol, podia escolher qualquer garota do colégio, por que justo ela? Por que todos os caras, por mais que não fossem apaixonados por ela, a queriam? Ela era só uma encrenqueira!
estava mais do que acostumada com a diretoria e, depois que o antigo diretor morreu e o colégio ficou com uma diretora provisória que não impunha respeito a ninguém, foram cinco visitas à direção em uma semana. Só nos dias que sucederam o acontecimento, não deu as caras. Parecia outra pessoa, não causou transtornos e sequer chamou atenção. As aulas haviam sido suspensas, a polícia estava investigando o colégio e interrogando os alunos.
era diferente, não vivia na diretoria. Mas gostava de implicar com por algum motivo que ninguém ligava. Todos apenas diziam que era inveja dela porque era mais bonita, mais popular, mais interessante, dançava melhor, cheirava melhor, comia melhor, fazia tudo melhor... A maioria amava o jeito que ela lidava com as coisas, sempre desafiando e provocando as outras pessoas, se metendo em confusões, quebrando regras. odiava. Odiava suas saias curtas, seu modo de mexer na gravata e provocar os garotos e até os professores, quando queria alguma coisa ou simplesmente por prazer. Mas todos sabiam: ela só queria se divertir. Ela odiava estudar num colégio interno, então, já que não pode ter acesso à diversão do mundo lá fora, ela encontra sempre uma nova maneira de se divertir aqui dentro.
adora regras. Ela ama quebrá-las. Sem regras, ela diz. No rules.

Capítulo 1 (’s POV)

Após algum tempo de estrada rodeada de árvores, finalmente podia avistar o alto e extenso muro azul marinho. Senti um tímido sentimento de nostalgia me atingir, mas logo ele foi esquecido ao ter que parar o carro em frente ao portão de ferro pintado de branco e ter que me identificar para um interfone. Enquanto informava quem eu era para o porteiro, percebi uma câmera de segurança no topo de cada lado do portão.
Os portões automáticos se abriram e eu segui com o carro. Ao passar pela cabine do porteiro, inconscientemente, reparei que era um homem de cerca de cinquenta anos, cabelos e bigode grisalhos, usava terno preto e gravata vermelho-escura. Ele fez um gesto de cumprimento com a cabeça e eu correspondi.
O colégio quase não havia mudado, até onde eu podia ver. A entrada era asfaltada, acompanhada por jardins floridos pelos lados. Adentrando mais um pouco, era possível ver que o jardim desaparecia e dava lugar ao estacionamento asfaltado, uma parte reservada para os funcionários do colégio e a outra maior para os familiares dos alunos para quando houvesse algum evento ou quando eles viessem buscar seus filhos nos fins de semana. Isso, pelo menos, era igual.
Estacionei e saí do Jaguar, observando a estrutura principal onde, até onde eu lembre, havia o auditório grande o bastante para comportar todos os alunos – só de ensino médio –, a rica biblioteca, e o funcionamento do colégio, como a secretaria, a diretoria, etc. O silêncio do lugar me fez perguntar se havia mais alguém ali ou eu estava sozinho conforme parecia. Subi a rampa que antecedia portas duplas de vidro, as quais se abriram imediatamente quando me aproximei. Ok, foi estranho. Isso não existia aqui há uns anos. Enfim, me deparei com um corredor largo e comprido, iluminado por luzes fluorescentes brancas, com armários azuis marinhos por toda sua extensão. Câmeras vigiavam do topo de cada canto das paredes. No meio do corredor, uma grande escada à esquerda levava ao auditório e à biblioteca, como informava uma placa na parede. À direita, havia uma saída de portas de vidro como as da entrada, em cima estava escrito “refeitório” – era possível ver através do vidro um grande salão com mesas e cadeiras, que tinha uma outra saída de vidro do outro lado para a parte a céu aberto do colégio. Ainda no corredor, agora no fim, havia uma porta dupla aberta, em cima dela estava escrito “secretaria” – o som de um telefone que tocava incessantemente vinha de lá, até que foi atendido por uma funcionária. À direita desta porta existia outra, mas essa não era dupla e estava fechada, onde indicava “diretoria”. Fui até ela.
Entrei na sala e encontrei duas cadeiras à frente de uma mesa de escritório portando um computador, um telefone, uma agenda, uma pilha de papéis e uma plaqueta escrito “Katherine Su Hom, Vice-diretora”. Atrás da mesa, estava uma cadeira de couro e um quadro de moldura escura, com o desenho de uma coroa amarelo-dourado, emblema do colégio. Na parede ao lado, uma grande janela com a cortina aberta, iluminava a sala de luz apagada. E na parede oposta à mesa havia uma porta, que imaginei ser a da sala do diretor, finalmente. Pus a mão na maçaneta, minha mente girando de imagens de como meu pai deve ter sido assassinado, como a polícia deve ter encontrado o corpo. Imaginei sua cabeça sangrando, o tapete manchado. Num impulso, com os olhos fechados, girei a maçaneta e abri a porta.
Nada. Não havia mais tapete. Havia um sofá de três lugares na parede da porta. Na oposta, havia uma cadeira de couro e uma mesa semelhante à da vice-diretora, com duas cadeiras à frente. À esquerda da mesa, havia uma porta, que imaginei ser a de um banheiro; e atrás, uma grande janela, com as cortinas abertas, tinha a vista para as outras instalações do colégio. Terei de visitar todas elas, pensei. Mal consigo ver o que há depois da estrutura onde está escrito “Ginásio Poliesportivo”. Talvez o colégio tenha mudado mais do que imaginei...
Ouvi vozes vindo da sala ao lado e rompi meus devaneios. Por um surto de curiosidade, afinal eu sou dono e diretor do colégio, fui verificar o que estava acontecendo.
– Vocês não têm jeito mesmo. – uma mulher bonita de cabelos castanhos falou, entrando na sala com as mãos agarrando um braço de cada uma das duas garotas para as quais se dirigia – A tudo bem, a diretoria faz parte do seu percurso diário. – Uma das garotas bufou, revirando os olhos. Essa deve ser a . – Mas você, , não quero te ver se metendo em confusões de novo, ouviu? Melhor parar de se meter com a . – a mulher soltou os braços que segurava das garotas e as olhou seriamente, enquanto se acomodava na sua cadeira de vice-diretora. Então essa é a Katherine. As garotas se sentaram nas cadeiras em frente à sua mesa – E, , dê um tempo, ok? Nem dá mais pra sentir saudade de você. – disse, esboçando um sorriso sarcástico, olhando para a garota.
– Eu sei que você me ama – disse indiferentemente, fitando as unhas das mãos. Não pude deixar de reparar quando ela cruzou as pernas, sua coxa em evidência por causa da saia curta. A outra, , soltou um gemido irritado. Esta não usava a saia tão curta como a outra. Não que eu quisesse ver, mas eu sou homem e não sou tão mais velho que elas, olhei inconscientemente. Katherine abriu a boca para dizer algo para , mas desistiu ao me ver parado na soleira da porta da sala do diretor, observando a cena. As garotas olharam na direção em que Katherine olhava. Ela se recompôs da surpresa num segundo e bateu a mão no interruptor da parede atrás de sua cadeira, acendendo a luz, fazendo com que pudéssemos enxergar melhor.
– Suponho que seja a vice-diretora. – falei, me desencostando da porta e me aproximando da mesa por entre as cadeiras onde estavam e . Estendi a minha mão direita para Katherine – Sou , o novo diretor.
Katherine afastou um pouco os lábios e olhou minha mão esperando seu cumprimento. Ela se levantou da cadeira e me cumprimentou.
– Sim, sou a vice-diretora. Meu nome é Katherine.
No momento em que disse, senti uma mão apertar de leve a minha bunda – como se estivesse checando. Soltei a mão de Katherine e olhei para o lado, num movimento brusco. . Ela sorriu indiscretamente maliciosa, voltando a mão para seu colo, juntando-a a outra.
– Mas pode chamá-la de Kat, eu deixo. – ela disse com a mesma indiferença de antes, quando falava com Katherine. Esta pigarreou e disse:
– Estas são senhorita e senhorita . – apontou para cada uma das garotas, apresentando-as. me jogou uma piscadela. Ela está me dando mole ou é impressão minha? – Meninas, estão dispensadas. E não me arranjem mais confusões, entenderam bem?
se levantou da cadeira, bateu continência a Katherine e saiu da sala sem olhar para trás. Enquanto se afastava, percebi o quão bonito era o formato de seu corpo realçado pela saia curta e pelo terno justo às curvas do tronco. em seguida, como se esperasse sair antes para que não se encontrassem lá fora, assentiu com a cabeça para a vice-diretora e saiu. Nem pensei em observá-la, pois o que estava por vir era o tipo de situação que eu odeio: agora que as garotas se foram, eu estava sem saber o que fazer, não tinha uma única palavra na ponta da língua. Pensei em perguntar o que as garotas tinham feito para irem parar na diretoria, mas Katherine quebrou o silêncio antes que eu o fizesse.
– Já conhece todo o colégio? – Katherine perguntou, quase informal.
– Erm... Não, a última vez que vim aqui foi há algum tempo. Receio que tenham ocorrido algumas mudanças.
– Eu posso mostrá-lo. – ofereceu simpaticamente.
– Tudo bem, claro. – respondi, esboçando um sorriso.

Katherine e eu andamos por todas as instalações do colégio, e eu pude ver o que não pude através da janela da sala do diretor. Vi que, além do ginásio poliesportivo, há um campo de futebol com arquibancadas, uma quadra de tênis, um mini campo de golfe e uma construção de paredes de vidro temperado onde se encontravam as piscinas. Por fim, no vasto território, um pouco afastado, estava o alojamento dos alunos. As várias salas – de aulas obrigatórias, música, informática, artes e recreação, além da enfermaria e banheiros – ficavam em uma estrutura que ligava o alojamento dos alunos ao prédio principal, fazendo o contorno em volta do espaço onde eram as instalações esportivas, formando um retângulo em torno de toda ela. Havia câmeras por todos os corredores, algo que despertou a minha atenção.
Quando meu pai me trazia aqui anos atrás, não havia câmeras nem construções a fins esportivos. Não havia campo de golfe, por exemplo. O espaço entre o alojamento e o prédio principal era só um enorme gramado entre as salas de aula. Um campo de futebol e piscinas que ficavam ao ar livre eram o que existia ali. Mas fiquei feliz ao perceber que a área atrás do alojamento, que era acidentada e por onde passava um riacho, ainda estava intacto. Sempre que vinha aqui para passar o dia, já que minha mãe fazia questão que eu estudasse em outro colégio para não ter certos benefícios escolares do meu pai, eu me escondia naquela parte do terreno. Era o meu refúgio, e ninguém pensava em me procurar lá. Mais tarde, quando meu pai perguntava, eu dizia que estivera passeando pelo colégio ou que acabara me distraindo na biblioteca. Ele engolia.
Passei o dia sabendo mais sobre o colégio, o funcionamento e a administração dele, conhecendo os funcionários e todo esse tipo de coisa que eu preferiria pular. Katherine disse que havia sido passado a ela que eu só viria amanhã, então foi isso que disse aos alunos. Menos mal. Não estou afim de fazer discurso para um bando de adolescentes mimados hoje mesmo. Amanhã também não estarei, mas posso chegar em casa e escrever algo para simplesmente ler a eles. Que seja.
Já era fim de tarde, quase noite. Eu já tinha visitado tudo que deveria visitar, conhecido todos que deveria conhecer. Só precisava passar na sala do diretor, quero dizer, minha sala, e buscar algumas coisas. Então, poderia ir para casa enfim. Katherine e as funcionárias da secretaria já haviam ido embora, os alunos estavam em suas últimas aulas do dia. Havia vários seguranças uniformizados andando próximo aos muros – não que tivesse para onde os alunos fugirem, árvores cercavam o lugar em mais de um quilômetro. Uma enfermeira estava pronta para emergências – Katherine me contara que três delas revezavam em passar noites de plantão. Assim, eu estava sozinho no prédio principal. As únicas pessoas presentes estavam na área das salas de aula, na área de esportes, os seguranças vigiando os muros, e o porteiro.
Abri a porta da minha sala, pensando se acenderia ou não a luz. Apesar do tempo ter sido nublado o dia todo e, por isso, o início do anoitecer estar mais obscuro, achei que conseguiria encontrar minhas chaves e alguns documentos que deixei sobre mesa sem precisar acender a luz.
– Luzes apagadas? Tudo bem, eu gosto. – Ouvi uma voz feminina no instante em que percebi uma silhueta próxima à janela, contra a pouca luz do início da noite.
– Desculpe, quem é você? – perguntei estendendo a mão para tocar o interruptor. A luz atingiu meus olhos com certa violência. Quando pude enxergar perfeitamente de novo, a garota estava virada para mim, de costas para a janela, vindo a minha direção.
– Nos conhecemos hoje mais cedo, diretor. – ela disse. Ah, sim, uma das encrenqueiras que estava com a vice-diretora.
– Eu lembro de você...
. – ela interrompeu estendendo a mão direita.
... – Cumprimentei-a.
–.... Eu sei. – completou antes que eu pudesse fazê-lo.
– Você não deveria estar em aula?
– Eu estou. – Soltou sua mão da minha – Só vim lhe dar as boas vindas – sorriu com a ingenuidade que faltava em seu tom de voz.
– Obrigado. – eu respondi, olhando-a quase desconfiado. Isso era normal? Ou eu estava paranoico? Ela apertou a minha bunda hoje mais cedo e agora veio me dar boas vindas... Isso é estranho, não é? Katherine disse que essa garota é encrenqueira. O que ela quer?
– De nada. – disse, ao dar suavemente um passo à frente. Agora eu podia sentir seu perfume doce – Sabe, diretor... – Eu queria saber por que não conseguia interrompê-la. Ela deveria voltar para a aula logo. Ela não deveria estar aqui – Eu estudo aqui há alguns anos e é difícil sobreviver a um colégio interno. Por isso, eu procuro sempre me divertir. – Ela fitou o chão – Às vezes, as pessoas não entendem isso. – Voltou a me olhar nos olhos. Tinha o olhar profundo, penetrante... Intimidador. Ela abriu um curto sorriso aproximando-se mais um pouco de mim. – Mas agora que você está aqui... – nossos corpos estavam realmente próximos, próximos demais para uma aluna e um diretor. Por que eu permitia? Ela se apoiou nas pontas dos pés para que nossos rostos ficassem quase da mesma altura. Não movi um músculo. A proximidade me permitia ver melhor os traços do seu rosto – ...espero que as coisas se tornem ainda mais divertidas. – terminou voltando a sua altura normal, desviou-se de mim e foi em direção à porta.
– Ei. – chamei, virando-me para olhá-la.
Ela parou na soleira da porta e disse, sem me deixar continuar:
– Não estrague tudo, diretor. – Ela sorriu sem dentes, cínica – Ou você pode se arrepender.
– Isso é uma ameaça? – Apertei os olhos para ela, meu coração pulsando aos poucos mais forte. Quem ela pensa que é? Eu poderia deixar passar, aliás, eu deixaria passar a sua atitude abusada de hoje mais cedo. E deixaria passar as suas “boas vindas” suspeitas. Mas uma ameaça eu não posso tolerar.
– De forma alguma, diretor. – Ela levantou as mãos como em sinal de paz. Depois as abaixou, dizendo: – Não é uma ameaça... É um convite.
Convite? Ela não me deixou tempo para perguntar. A porta já havia se fechado atrás dela e eu estava sozinho na sala do diretor do Leader High School.

Capítulo 2 (’s POV)

. Não posso negar que ele é bonito. Mas não é muito esperto. Se fosse alguém que tivesse capacidade de colocar ordem nesse colégio, não agiria como um bobo quando o provoquei. Fala sério, ele agiu como um adolescente, e nem foi das minhas melhores provocações, nem de longe. Quantos anos ele deve ter? Por volta de vinte cinco? É, algo por aí. Idade boa... Sinto que posso me divertir bastante com esse diretorzinho.
Depois de sair da sala do diretor e passar pelo refeitório vazio que dava acesso aos corredores das salas de aula, eu estava andando calmamente de volta à aula de Química Orgânica, entre devaneios e risinhos distraídos, quando uma mão envolveu um dos meus braços e me puxou com força. Fechei os olhos ao pensar que fosse cair, mas só o que senti foi as minhas costas baterem ao alguém me empurrar contra a porta, que se fechou atrás de mim.
– O que você estava fazendo lá pelas bandas da sala do diretor, hein, ? – uma voz irritantemente familiar perguntou. Abri os olhos.
– Primeiro, isso não é da sua conta. – comecei a falar após alguns segundos, ajustando minha visão à pouca luz. estava com as mãos apoiadas na porta, uma de cada lado da minha cabeça, que se encostava à mesma. Estávamos na sala de artes, onde havia mesas com potes de tintas e pincéis, além de vários quadros pendurados e apoiados nas paredes e no mural. Seu rosto estava a poucos centímetros do meu, algo desconfortável que ele adorava fazer comigo, e só Deus sabe o porquê. Eu podia sentir a fragrância de seu desodorante masculino, que dizia por si só como era, ou tentava parecer másculo. Todos aqueles músculos, visíveis mesmo por baixo do terno azul marinho, me impedindo de sair dali, poderia me impor algum respeito ou medo, mas não era alguém que me impusesse qualquer coisa. Ele me odeia e adora implicar comigo, apesar de ser o melhor amigo do meu namorado. Ele não tem mais o que fazer, não, é? Ele é irritante! Mas, obviamente, ele não sabe que eu acho isso dele. Afinal, ele poderia pensar que tem alguma importância pra mim. Continuei:
– Segundo, isso não é da sua conta. E terceiro...
– Seu namorado não vai gostar de saber que você já foi dar em cima do novo diretor. – me interrompeu.
Eu poderia dar-lhe um tapa na cara, mas aposto que ele ia gostar. Então, simplesmente sorri.
– Meu namorado se garante. – eu disse, superior. Aproximei-me do seu rosto mais do que já estávamos próximos, nossos narizes quase se tocando – Ao contrário de você, que precisa ficar fazendo fofoquinhas mentirosas sobre mim. – Afastei-me, substituindo o sorriso por uma expressão entediada – Posso ir agora, darling?
Era sempre assim: implicava comigo, eu dava uma resposta, ele ficava irritado enquanto eu ia embora. Um ciclo que já estava ficando chatinho.
– Eu tenho pena dele. Ele não merece você. – disse, tirando suas mãos da porta e se afastando para que eu pudesse sair.
– Ah, é? E quem merece? – perguntei, dando um passo em sua direção, para que houvesse espaço para eu abrir a porta – Você? – imprimi força à maçaneta para girá-la e saí da sala antes que ele soltasse alguma resposta engraçadinha pra cima de mim.
Eu adoro fazer isso... Deixar as coisas no ar.
Voltei para a minha querida turma de Química. estava distraído olhando para duas carteiras à frente da sua. Mas logo que entrei na sala, ele percebeu que eu o tinha visto e abaixou a cabeça, como se estivesse fazendo mentalmente uma conta do exercício que estava no quadro. Coitadinho! Meu melhor e único amigo está apaixonado pela minha melhor e única amiga. E ela nunca vai olhar desse modo para ele. Ela o odeia. E ele finge que a odeia de volta. E para melhorar, nós temos uma banda juntos. Bem, para mim, é ótimo, exceto pelas discussões dos dois... Por mim. Bobinhos, né? Eles não acreditam quando eu digo que tem pra todo mundo!
sorriu quando voltei para minha carteira ao lado da sua, atrás de e na frente de . Mordi meu lábio inferior enquanto me sentava. Isso o deixava louco. Não por causa do simples ato. Era porque ele sabia que eu sabia que isso lhe fazia pensar em dar uns amassos. E eu fazia nas bem horas em que não podíamos.
Apoiei meus cotovelos na mesa e meu rosto nas mãos, olhando para o professor corrigir algum exercício insignificante. Eu olhava, mas não via. O que eu via era uma cena surreal que evaporou no momento em que senti uma mão apertar a minha coxa na região perto da virilha. Era . O professor estava de costas para a turma e não viu. Quando tirou a sua mão, vi que havia deixado um pedaço de papel branco dobrado. Abri o papel, onde estava escrito de caneta preta:
Meu quarto, hoje?
Peguei uma caneta azul e coloquei sua ponta na boca para tirar a tampa. entrou na sala dando de cara com a cena – eu e a caneta na boca. Já ele, estava com os lábios avermelhados e claramente úmidos. Ou seja, ou esteve entre beijos calientes com alguma sirigaita que o deixou babado, o que eu não ligo, ou bebeu água super gelada no bebedouro, o que eu também não ligo. Mas não pude deixar de notar como ele estava sexy com aquela cara de puto ao entrar na sala me olhando, e passando as costas de uma das mãos na boca para enxugá-la. Ok, ninguém nunca vai saber desse pensamento. Ergui uma sobrancelha, como se estivesse fazendo pouco caso do olhar dele, quando passou por mim indo para sua carteira atrás da do . Destampei a caneta com a boca e escrevi:
Não posso. Tenho ensaio.
Enfiei a caneta na tampa que ainda estava na minha boca e recoloquei-a no estojo. Dobrei o papel e, enquanto o professor se virou para o quadro novamente, me inclinei para o lado, para a carteira de . Apoiei uma mão na mesa, a fim de me equilibrar, e com a outra enfiei o papel no cós da sua calça. Ele sorriu maliciosamente e percebi que revirou os olhos ¬– o que, para mim, é dor de cotovelo. Enfim, voltei à minha postura normal na minha carteira.
O ensaio não era desculpa. A banda e eu ensaiamos pelo menos uma vez por semana, só pra não perder a prática – afinal, temos mais o que fazer com aulas todos os dias de manhã, de tarde e início de noite. Então, nós poderíamos ensaiar outra noite ou eu poderia passar no quarto do hoje depois do ensaio, mas...
– Às vezes, eu me pergunto como eu sou seu amigo. – sussurrou ao meu ouvido. Aproveitando que o professor estava ajudando uma aluna em sua carteira, sentei de lado na minha cadeira, apoiando os braços na mesa de . Olhei diretamente em seus olhos e, com a voz manhosa, disse:
– Pensei que soubesse que você não é meu amigo, mas o meu melhor amigo.
Ele sorriu, já sabendo da ladainha.
– Você sabe do que eu estou falando – ele disse. – Você seduz e provoca todos os garotos do colégio, e ainda pode chamar de amigo quem você quiser... – Ai, para com isso! – interrompi. Odeio esse papo – É, eu chamo de amigo quem eu quiser e eu quero chamar você, ok? E se você quiser que eu te seduza mesmo eu te considerando um quase irmão, é só pedir. Isso vai economizar meu tempo e seu estresse, e vai deixar nossa amizade mais interessante.
– Não quero que você me seduza. – Ele riu – Não quero ter que me apaixonar por você também. É que eu estava olhando você e o mister popular.
– Ele apontou com a cabeça na direção de – e pensei... A questão é: porquê eu? Você namora o capitão do time de futebol e dois terços do colégio te ama. Você não precisa de mim.
, você está em crise existencial? – Ele balançou a cabeça em sinal de “não”. Eu ri – Ai, sua besta! Porque você me ama de verdade, e não dois terços do colégio. Dois terços do colégio só tem interesse em ser meu amigo para “ser popular”.– fiz aspas com as mãos – E eu estou pouco me lixando pra eles. Você é meu amigo porque faria algo por mim de coração, e também porque você não quer simplesmente me pegar e dizer que você é o cara, igual a uns idiotas por aí. E pare com esse papo, senão eu vou mesmo arranjar outro amigo e você não vai ter ninguém para te ajudar a ficar com a .
– Do que você está falando? – Ele arregalou os olhos, quase em desespero. – Eu até posso ser seu melhor amigo, mas eu nunca vou ficar com essa garota. Não sei de onde você tirou isso. – Ele juntou o seu material e empurrou tudo para dentro da mochila de uma vez. Então, percebi que o sinal tinha acabado de bater. Fiz com o meu material o mesmo que fizera com o seu. Nós levantamos de nossas carteiras, as pessoas já estavam saindo da sala.
– Ei, é o nosso segredo. – falei, abraçando .
– Que segredo? – perguntou, se fazendo de idiota.
– Eu te amo, besta. – Dei-lhe um beijo na bochecha antes de soltar o abraço.
– Eu também te amo, mas pare de me chamar de besta.
– “Besta” vem de “best”, . – eu disse, enquanto ele passava por mim com a mochila em um ombro, indo à direção da porta.
– Quer dizer que ele é o seu best? – disse enciumada, se levantando de sua carteira após guardar seu material na mochila.
– Aham. – respondi, deixando-a incrédula – Ele é meu best e você é minha best.
– Viu, ? Sua namoradinha está te trocando pelo . – Lá vem o com os seus comentários de sempre, querendo me jogar contra o .
riu e passou um braço em minha cintura, me carregando para fora da sala, antes que eu pudesse jogar uma doce resposta para . saiu logo atrás da gente e passou por nós no corredor, dizendo com um pouco de pressa:
– Se formos ensaiar, passe no meu quarto. – Assenti com a cabeça e ela alcançou Taylor, nosso baterista, que estava saindo da classe de História.
Em seguida, passou por nós também, quase arrancando um pedaço do meu braço e levando a minha mochila junto. Olhei para irritada por ele ser omisso todas as vezes que seu melhor amigo implica comigo na sua frente, ou quando eu estou prestes a fazer algo por conta própria e ele me impede.
– Relaxa, ele é um idiota. – disse.
– Então, porquê ele é o seu melhor amigo? – perguntei, brincando com a minha gravata vermelho-escura.
– Porque ele não é idiota comigo, ele é meu amigo.
– Você deveria me defender. Não que eu precise de você para isso, mas você, pelo menos, deveria me deixar responder quando ele...
– Shhh. – Pôs o dedo indicador na minha boca me calando. Ele havia nos parado no corredor, agora quase vazio, já que a maioria dos alunos foi rapidamente para o refeitório, onde seria servido o jantar.
– Nem vem me mandar calar a boca! – reclamei.
– Não estou te mandando calar a boca, sua boba. – disse, aproximando seu rosto do meu, enquanto os dedos de uma das suas mãos se agarravam a meus cabelos, sem força, sem pressão, quase como uma massagem. Sua outra mão puxava a minha cintura até colar em seu corpo – Eu vou dar um jeito no , ok? Ele não vai mais pegar no seu pé. – Eu assenti com a cabeça, fitando a sua boca. A irritação por ele ser omisso quanto ao havia passado. Eu não era apaixonada pelo , mas gostava dele e sabia que ele gostava de mim. Ele era legal comigo, e eu sabia que não era por causa da minha popularidade. Ele não precisava dela. – Eu só quero que você pare de me enrolar, pode ser? – Ele encostou sua testa à minha, de olhos fechados. Ele estava cansado desse assunto, e eu mais ainda.
– Eu não estou te enrolando. Você deveria saber que eu não sou garota disso.
– Então, por que você hesita?
Eu realmente não queria falar daquilo nem com o , nem com ninguém, nem naquela hora, nem nunca.
– É porque você é virgem? – perguntou, em tom de voz baixo – Eu não contei a ninguém, e nem vou contar.
Não, . Não é porque eu sou virgem. Eu não tenho medo, nem vergonha. É outra coisa...
Passei meus braços por cima de seus ombros, envolvendo seu pescoço.
– Eu não vou hesitar se você não me pressionar, ok? – Ele abriu aqueles lindos olhos, pelos quais metade das garotas do colégio eram apaixonadas. Nossas testas ainda estavam encostadas até que seus lábios tocaram suavemente os meus. Abrimos nossas bocas, permitindo que nossas línguas se tocassem num beijo lento. gostava da tortura dos beijos lentos e das mordidas provocantes. É, eu não estava apaixonada, aliás, eu nem sabia o que era paixão, mas quando estava sozinha com ele, sentia que isso me trazia a tranquilidade que me faltava quando não estava com ele, quando estava na agitação de arranjar confusões pelo colégio, provocar alunos e professores, me divertir insanamente. Nos dávamos bem. Ríamos e dávamos uns amassos. Não era um namoro cheio de sentimentalismo e clichês. Talvez fosse por isso que eu não estivesse tão empenhada a dar um passo adiante, justamente um passo para algo tão íntimo. Mas eu sabia bem que o motivo era outro. Eu só não queria lembrar.

e eu seguimos o trajeto até o prédio dos alunos. Na entrada de portas duplas de vidro como as do refeitório, havia um grupinho de alunos do qual cada um acenou a cabeça e abriu um sorriso simpático para nós. Se continuarmos assim, seremos rei e rainha do baile esse ano.
Correspondemos ao grupo com a mesma (falsa) simpatia e subimos as escadas da nossa ala do prédio, que era a mesma. As escadas não estavam cheias, porque muita gente foi para o refeitório por causa do jantar. Eu não estava com fome e tinha a esperança de que eu o convidasse para entrar no meu quarto (e em outra coisa também) essa noite. Câmeras nos vigiavam. Algumas com uma pequena luz vermelha e outras, a maioria, sem. As que não estavam com a luz acesa, estavam desligadas. Desde a morte do diretor, há mais de uma semana, a sala de monitoramento estava fechada pela polícia e muitas das câmeras estavam desligadas.
– A câmera do seu corredor está ligada? – perguntou, nossas mãos estavam dadas.
– Não. – respondi. Ele sorriu, colocando sua boca à minha orelha.
– Posso entrar pra te contar uma história de ninar?
– Se for pra me contar uma história de ninar, não quero, não. – eu disse, rindo. Ele afastou o rosto para me olhar – Hoje não, .
– Você está me enrolando de novo, – ele disse, com o cenho fechado.
– Não estou. – neguei com certa manha, abraçando seu pescoço – Eu juro. – Fitei-o maliciosa ao morder o lábio inferior.
– Você é uma safada. – Fingi incredulidade. Ele encostou sua boca na minha de leve, sussurrando: – Você provoca e depois pula fora.
– Aham. – assenti cínica, mexendo em sua gravata. Já estávamos no andar do meu quarto. Um casal se beijava no fim do corredor – Mas você adora quando nós estamos sozinhos e eu te provoco. Pode falar, eu deixo. – respirou fundo, se segurando pra não me jogar na parede e me agarrar como o outro casal fazia.
– Eu gostaria mais se você me provocasse e depois me mostrasse do que é capaz. – Eu sorri e dei-lhe um selinho.
– Boa noite, campeão. Até amanhã. – me despedi, deixando-o ligeiramente irritado. Bem feito! Isso é o que eu sinto quando fala merdas pra mim na frente dele e ele ri. E foi o que eu fiz: eu ri, enquanto ele subia as escadas para o seu quarto no andar de cima.
Passei direto pela porta do meu quarto, que possuía o número 132, e bati na porta do quarto ao lado, de número 133.

– O que você acha? – perguntei, deitada de barriga para cima na cama de , observando as figurinhas fluorescentes de estrela coladas no teto. Ela estava à minha direita, sentada em uma cadeira, mexendo no notebook sobre a sua mesa de estudos feita de madeira marrom claro, a qual há uma igual em cada quarto. A madeira era a mesma da cama onde eu estava, do guarda roupa à minha esquerda, da porta da entrada e da porta do banheiro à minha frente.
– Ele é seu namorado. Se você quer e confia nele, eu não vejo nada de errado. Só não esqueça a camisinha, pelo amor de Deus.
– Às vezes você fala igual a uma mãe. – disse rindo, mas por dentro eu não estava. Estava pensando se minha mãe estivesse comigo, o que ela diria.
– Eu sei, tenho que falar assim. Afinal, tenho que cuidar de você. Mas voltando ao assunto... – ela nem tirou os olhos da tela do computador – ..eu nem sei por que você está nesse “chove não molha”. Não faz o seu tipo. – Ela me olhou de rabo de olho, desconfiada – Há algo que você não tenha me contado?
Virei de bruços na cama, ajeitando o travesseiro de para apoiar a minha cabeça. Voltei meu rosto para ela.
– Não... Claro que não.

Capítulo 3

Apresentação do novo diretor. Que gracinha! O cara está mais pra veterano bobão de faculdade do que pra diretor punhos-de-ferro de colégio interno. Se ele acha que vai conseguir impor ordem aqui... Gente, coitado! Enfim. Estávamos enfurnados naquele grande auditório de sempre, abarrotado por todas as pessoas do corpo docente e discente daquele colégio de sempre. Eu já estava cansada do blá-blá-blá infernal entre os alunos que não paravam quietos em suas poltronas, se virando e se remexendo para fofocarem com seus amiguinhos, e do blá-blá-blá que não podíamos escutar entre os professores, o coordenador Sr. Simpson, a conselheira Sra. Abeloff, a vice-diretora tchutchuca – que tem uma paixão secreta por mim – Srta. Su Hom e o querido diretor de bunda interessante, .
– Bom dia, gata! – exclamou, apoderando-se da poltrona ao meu lado. Ninguém havia sentado lá porque, claro, imaginaram que aquele estofado azul marinho entediante estava esperando pela minha amiga, bem, a única que eu considero verdadeiramente. Nas poltronas seguintes do meu outro lado estavam e, depois dele, três garotas que me agraciavam com alguns favores enquanto eu as deixava andar comigo de vez em quando e dizer pelo colégio que eram minha amigas. Elas estavam mais para seguidoras, mas as deixo sonhar.
– Bom dia, tchutchuca. – respondi com um tom distraído, fitando, como desde que pisei neste auditório, o palco e, nele, o novo diretor. Eu estava com os pés no apoio de cabeça da poltrona da frente, como sempre faço, e minhas mãos brincando com a gravata para fora do terno azul marinho, uma mania que nunca me deixa.
– Fala sério! Aquele é o novo diretor? – disse boquiaberta, percebendo a única pessoa desconhecida no palco. Aliás, todos os alunos já tinham percebido quem era o novo diretor e, não que eu tenha ficado reparando, pois não tenho saco para observar os outros, mas eles também tiveram essa reação. Principalmente as garotas.
– Como um diretor pode ser tão jovem? Ele tem alguma formação ou licença para assumir o colégio? – perguntou ao vento, meio revoltado.
– Ele é lindo – babou ao meu lado e eu nem precisei olhá-la para perceber, eu soube pelo seu tom de voz.
– Eu o conheci ontem e nem achei tanto assim, sinto lhe informar – bufei num riso baixo, me recostando folgada na poltrona e fechando os olhos.
– Não é possível! Ele é muito gato, amiga!
– Não é nada! – reclamou. Abri um olho e olhei de soslaio para ele, que se avermelhou como um pimentão ao perceber meu olhar. Abri um rápido sorriso zombeteiro. Ele estava mesmo a fim da , e ela o ignorava. Ah, se eu não estivesse namorando e eu não considerasse tão meu amigo, eu, com certeza, iria querer ficar com ele. Olha que fofura ele apaixonado! ...Fofura? Eu pensei nessa palavra mesmo?
– Concordo com o . – falei, voltando a minha posição de olhos fechados, relaxada. Eu não estava sendo sincera. O diretor era gato, sim. É claro que eu estava mentindo e é claro que ele era bonito. Mas eu não ia admitir isso e ninguém precisava saber o que eu acho ou deixo de achar realmente. Depois do que eu disse ontem pra ele, obviamente, ele vai criar uma birra e, quem sabe, com sorte, uma implicância comigo... – Depois eu te apresento a ele, amiga. – ... E eu vou adorar.
– Já está íntima assim, é? – me cutucou.
– Não. – respondi. Em seguida, abaixei a voz, falando comigo mesma – Ainda não.
– Por favor. – Kat pediu ao microfone. É impressionante como ela se tornou tão educada com os alunos em geral agora que o diretor está aqui.
Após mais alguns cochichos de um lado e de outro, os alunos se aquietaram, voltando toda a atenção para o palco. Eu não fui uma exceção. Apesar de não tirar os pés do apoio de cabeça da poltrona da frente, eu ajeitei a minha postura e abri meus olhos, direcionados para a vice-diretora.
– Obrigada. – Kat agradeceu o silêncio de todos e continuou: – O Leader High School passou por uma tragédia e têm vivido momentos difíceis desde então. Mas como líderes, vamos superar o passado e dar as boas vindas ao presente e ao futuro. Por favor, deem as boas vindas ao novo diretor, .
Kat deu um passo para trás e levantou-se do conforto e segurança de sua cadeira no fundo do palco junto aos outros membros do colégio, indo em direção ao microfone enquanto a maioria dos alunos estava de pé aplaudindo. Bem, eu, e não nos levantamos, e vi que outras pessoas, principalmente garotos, não o fizeram também. estava batendo palmas animadamente. e eu nem nos movemos.
– Obrigado. – disse com a voz insegura, apesar de a postura indicar o contrário. Ele até parecia confiante, e entediado, ao respirar fundo – Primeiramente, bom dia. – Algumas garotas saidinhas do primeiro e segundo anos responderam “bom dia” entre gritinhos e risinhos cheios de flerte. sorriu, piscando algumas vezes, envergonhado – Bem, como disse a vice-diretora, Katherine, o Leader High School tem passado por momentos difíceis. Mas não é para falar disso que estamos aqui. – Ele pigarreou. Quase um nerd apresentando um trabalho para a turma, eu diria. Depois tirou um papel do bolso do paletó e o desdobrou para lê-lo. Não era pra ser só um discurso de apresentação tipo “oi, sou , o novo diretor, tchau”? Ninguém liga pro que ele vai falar! – Essa é uma instituição formadora de líderes. – ele continuou, após dar uma olhada no papel e voltar a guardá-lo. Ué, diretor, desistiu do discurso pronto? – Erm... Vocês sabem o que é um líder?
– É o capitão do time de futebol! – uma voz não-familiar aos meus ouvidos gritou, fazendo a platéia gargalhar. Olhei em volta e vi , sentado numa poltrona de uma das últimas fileiras como o de usual, levantar os braços e apontar para si mesmo, já que era ele o capitão do time de futebol. Todos sabem disso, , não precisava apontar para si mesmo todo metido desse jeito – pensei, rindo comigo mesma.
Voltei meu rosto para o palco. estava com o cenho fechado, segurando o microfone com firmeza. Hm, parece irritado. Por que será?
– É um exemplo a se considerar. – ele disse, tirando o microfone da base, transformando as feições de seu rosto em pura calma. Todos retornaram a olhá-lo. – Como o capitão do time de futebol, líder é o indivíduo que tem autoridade para comandar, guiar, dar ordens aos outros. – prosseguiu, dando alguns passos devagar pelo palco. Ora, ora, nem parece mais o nerd do início do discurso. – Mas, voltando a caminho do ponto que quero chegar, eu soube que este colégio têm tido problemas com a disciplina dos alunos. Imagino como deve ser difícil e, principalmente, chato ficar o tempo todo aqui, por ser um colégio interno. E, como jovens, vocês querem se divertir.
– Cara, ele me chamando de jovem até parece que é meu avô! – comentou em voz baixa, bem-humorada, ao meu lado.
– Fala sério! Ele nem é tão mais velho que a gente! Quem é ele pra dar lição de moral em alguém aqui? – , ainda meio revoltado, se manifestou, mesmo que só eu tenha dado ouvidos, apesar de não dizer nada. Mas eu concordei mentalmente, o que já é alguma coisa.
– Como eu disse, – ele continuou – estamos aqui para formar líderes. E, como tais, vocês devem aprender como um líder deve agir. Vocês têm que entender a influência que terão sobre as outras pessoas na sociedade. Vocês terão que dar ordens e ditar regras que deverão ser obedecidas pelos outros. – voltou ao centro do palco, devolvendo o microfone à base. Cruzou os braços confortavelmente e, tenho que confessar, estava muito sexy. Ainda bem que as pessoas não leem pensamentos. – Mas para que vocês aprendam a ditar regras, vocês, antes, terão que aprender como se faz... Em outras palavras, vocês devem seguir regras para aprender a ditá-las.
Ai, pra quê ele foi falar que a gente tem que seguir regras? Coitadinho! Ou não. Eu não estou com nem um pouquinho de pena.
O auditório se tornou uma barulheira só. Trezentos milhões de conversas paralelas possíveis. Pessoas protestando aos amiguinhos, ao vento, ao diretor que não estava entendendo nada. É, meu amigo, melhor se acostumar. Aqui é um playground, não sabia? Bem, agora já sabe. Se você diz alguma coisa, qualquer coisa, que a maioria não concorde, prepare-se para ser apedrejado. Ok, apedrejado não, mas as pessoas aqui adoram um barraco. Nos faz perder tempo com discussões. Tempo que nós estaríamos grudados a cadeiras nas salas de aula ouvindo um professor tagarelar algo que só os CDF prestam atenção. Então por que não arranjar um barraco, inventar uma confusão, fazer um circo que vai fazer com que percamos mais tempo de aula? Bem, é assim que eu penso e é de acordo com essa opinião que eu ajo. E é por isso que os alunos desse colégio me amam... Porque, na maioria das vezes, essas confusões, barracos e circos são causados por mim. Hoje foi uma ocasião rara. Eu nem disse nada e o auditório está essa zona toda... Graças ao diretorzinho! Obrigada, bumbum de anjo.
– Ele está se achando, não está?
– Ã? O quê? – perguntei, me virando para ao ouvir sua pergunta, fazendo com que eu cessasse meu riso baixo causado pelos meus pensamentos idiotas.
– Ele está se achando. – repetiu. – Ele disse, no primeiro dia dele aqui, no discurso de apresentação, que nós devemos seguir regras. – disse como se aquilo fosse realmente um absurdo. Eu ri com a expressão dele. Lembrou-me de quando minha mãe reclamava quando eu, ainda criança, andava de pés descalços, como se aquilo fosse um grande absurdo também.
– Ah, cala a boca, ! – exclamou, me dando um susto. Não sei por que, esses dois ou brigam ou se ignoram, eu deveria estar acostumada. – É o trabalho dele. – ela continuou. – Ele é o novo diretor, a primeira função dele aqui é fazer com que sigamos regras.
– Ei! Achei que você estivesse do meu lado da força! – fingi indignação, pelo menos para descontrair. Eu concordo que um diretor deve fazer com que os alunos sigam regras, afinal, se elas não existissem, não seria tão divertido quebrá-las. Mas a não precisava mandar o calar a boca daquele jeito. Se ela soubesse o que ele sente por ela... Eu nem sei, essa situação é meio imprevisível, até para mim.
– Não é isso, amiga!
– Eu não quero saber! – interrompi. – Não quero ver vocês brigando, ouviram? Que saco! – Tirei meus pés do apoio de cabeça da poltrona da frente e fiquei em pé. Ninguém prestou muita atenção, pois um nerd de cabelos ruivos cobrindo a testa e de óculos de aro branco bem gay havia defendido o que o diretor dissera e tinha sido pego por uns cinco caras fortões que começaram a empurrá-lo de um para o outro nos assentos da ala leste, xingando-o. Os professores e o diretor correram para socorrer o pobre coitado que estava servindo de peteca para aqueles grandalhões. Tudo bem que eu não sou santa e nem sempre sou boazinha, mas coitado do nerd. Estou com pena dele, o que é um sentimento bem estranho que me fez ter uma ideia. E eu não tenho nada a perder mesmo. Pelo contrário, tenho a ganhar... Uma visita à sala do diretor.
Saí de fininho, já que todos já estavam perambulando pelo auditório: alguns indo para a ala leste com a finalidade de assistir o conflito que tava rolando de perto e o restante indo para a ala oeste fugindo da confusão, já que outros nerds e valentões resolveram brigar também.
Desci apressadamente as escadas até o andar da biblioteca, onde tem um extintor de incêndio dentro de um compartimento de vidro na parede.
– Já vai colocar mais lenha na fogueira, né? – a mesma voz máscula de sempre, que eriçava meus pêlos da nuca, indagou, inconvenientemente curiosa.
Quase no fim do corredor vazio, próxima ao extintor, ainda se podia ouvir todo o barulho da confusão no andar de cima. Entendo. Foi por isso que não ouvi os passos de na escada.
– Mais lenha?! O que eu vou fazer é apagar a fogueira. – respondi, me virando para encará-lo, sem esconder a minha irritação por ele estar ali.
Ele abriu um sorrisinho malicioso, dando passos regulares em minha direção.
– Com esse seu fogo todo? – falou, por fim, parado a menos de um passo de distância de mim. Deus, eu devo ser muito irresistível! Não é pouco irresistível, não, é muito! Porque ele adora ficar tão perto... Fazendo com que, mais uma vez, fosse inevitável eu sentir esse seu perfume masculino marcante e observar ligeiramente, sem me deixar ser pega, o seu rosto e o seu corpo dando forma ao uniforme. Ele sabe que é bonito e sedutor. Ele deve saber. Mas acho que ele não sabe como é escroto. É, eu adoro ser a única garota de influência desse colégio que ele não tem nas mãos. E nunca vai ter. Eu nunca me envolveria com um cara do tipinho dele.
Voltando ao assunto, quem lhe deu liberdade para falar que eu tenho fogo? Ok, eu tenho mesmo, mas ele não tem nada com isso! E, como de costume, eu não vou lhe dar um tapa na cara porque ele certamente vai ficar excitado e, por mais que eu gostaria muito de vê-lo se contorcer, eu não vou chutar suas bolas, senão ele pode ficar ainda mais louco por mim. Então, eu apenas sorri.
– Você não tem mais o que fazer, né? Então, por favor, não me atrapalhe! – Fechei o cenho ao terminar a frase. Não estava com muita paciência.
Indo em direção ao extintor, novamente de costas para , eu pensava em algo para quebrar o vidro do compartimento – já que usando essas sapatilhas obrigatórias do uniforme, eu provavelmente machucaria o pé –, quando senti um único braço envolver a minha cintura com força e me pôr de lado. Era que, ainda com o braço me segurando firmemente, se inclinou e deu um perfeito chute – que deve ter aprendido numa das aulas extracurriculares – no vidro, o qual estilhaçou e voou ao chão.
voltou à postura ereta e soltou a minha cintura, permitindo que eu me movesse, mas não o fiz. Por um instante, fitando os cacos caídos de diferentes tamanhos, eu não sabia o que dizer ou o que fazer.
– De nada. Você me deve uma. – disse ele com um tom de voz frio e grosso, sem qualquer sentimento, como se aquilo não tivesse sido nada. Quero dizer, ele adora encher o meu saco, por que faria um favor para mim? Mesmo que fosse para me cobrar depois, não faz sentido. Ele poderia pedir um favor para qualquer outra pessoa, tipo as garotas do primeiro ano, que fariam com o maior prazer. Mas já que é assim, eu até agradeceria, relutantemente, mas deu as costas e subiu as escadas de volta ao auditório antes que eu o fizesse.
Peguei o extintor, que devia pesar uns cinco quilos. E subindo as escadas, eu ouvia cada vez mais perto a gritaria logo acima. E, então, voltei ao auditório que, devo confessar, estava lindo. Parecia um jardim de infância. E eu adoro crianças... Ô, se adoro! Um falatório insuportável. Um tal de pique-pega de um lado e um lambe-lambe do outro, que, na verdade, eram uns casais se pegando. As pessoas aqui não perdem tempo! Não vi , nem , nem , nem , mas vi um sapato voar, enquanto caminhava em direção à confusão inicial de nerds e valentões, que agora tinha o diretor e os professores metidos nela. Eu bem sei que essa guerra de cérebro versus músculos é antiga e não iria acabar tão facilmente. Acho que ninguém conhece esse colégio tanto quanto eu. Deve ser de tanto que eu apronto. Ai, quanto orgulho de mim mesma!
Parei a algumas fileiras de onde a confusão começava e, sem muito controle, afinal o extintor não era lá muito leve, direcionei a densa espuma branca ao foco do conflito. O auditório inteiro parou para olhar. O barulho cessou, exceto o do extintor, porém eu escutava alguns suspiros e cochichos. Quando a espuma acabou, todos que foram atingidos por ela limparam seus olhos e passaram a me fitar furiosamente. Principalmente o diretorzinho e a Kat.
– Cara, isso parece baunilha! – Um garoto moreno, alto e musculoso, não como o , mas um daqueles que parece tomar bomba, disse. Outro, negro e também musculoso, mas não tão alto, lhe deu um pedala na cabeça. Mordi meu lábio inferior para não rir, Kat e o diretor deviam estar querendo me matar.
– Não enxergo nada! Não enxergo nada! – Um nerd gritava incessantemente, desesperado.
Katherine sussurrou algo para , que assentiu com a mandíbula rígida. Ele andou até mim e, com nada mais que extrema seriedade, pronunciou as três palavras que eu mais ouvi em toda a minha vida. E não, não são ‘’eu te amo’’.
– Para a diretoria.

Fazia tempo que eu não vinha à sala do diretor para uma conversinha. Ok, pouco mais que uma semana nem é tanto tempo assim. Desde que o velhote morreu e a Kat assumiu a direção, todas as vezes que fui chamada, o sermão foi dado na sala da vice-diretora. E o papo que tive com o diretorzinho ontem não conta. Esparramada numa das duas cadeiras a frente da mesa do diretor, sobre a qual meus pés descansavam, eu brincava com a minha gravata vermelho escuro para fora do terno azul marinho. Titio estava demorando e eu estava ficando irritada.
Tudo bem que a diretoria é um lugar legal dentro dos meus conceitos e passatempos, mas tudo o que eu fiz dessa vez foi separar uma grande briga. Até quando eu faço uma boa ação, eu me ferro. Depois, reclamam que eu sou rebelde... A quem eu estou querendo enganar? Tudo bem que o gênero ‘’boa ação da semana’’ estava incluído, mas nada como ir parar na diretoria no primeiro dia de trabalho do novo diretor. Ainda mais quando ele tem uma bundinha de comercial de talquinhos para nenéns. E, além disso, eu não tenho nada melhor pra fazer e, estando aqui, estarei ajudando outros alunos a perderem aula por causa do alvoroço, que nem foi causado por mim, mas o diretor ainda terá que conversar com os outros alunos envolvidos. E, claro, estarei me divertindo. Afinal, duvido que tenha como eu não me divertir com esse diretor. Vamos ver...
saiu do banheiro, cuja a porta fica na parede à esquerda da mesa, ajeitando o nó da gravata cinza. Havia tirado toda a espuma que o tinha atingido. Não me olhou por mais do que alguns segundos e foi em direção à sua cadeira de couro, constatando no dever de quebrar o silêncio:
– Você já está aí...
Não, idiota. Estou no Alasca – pensei. Mas, ao invés disso, respondi de modo indiferente:
– É o que parece.
– Pode, por favor, tirar os pés da mesa? – Após sentar desconfortavelmente em sua cadeira, pediu de modo tão sereno que eu podia jurar ver um arco-íris a sua volta. Sério, diretor? Pretende fazer seus alunos seguirem regras sendo frouxo assim?
– Estou bem desse jeito, obrigada.
Por mais que seus olhos fossem atraídos pelas minhas pernas à mostra através da saia curta, desviou o olhar, cruzando os braços ao fazer uma pergunta.
– Você não se importa com o que os outros podem ver por causa da sua falta de postura?
– Por acaso, você quis dizer ‘’você não se importa que eu veja a sua calcinha?’’? – rebati simultaneamente, fazendo-o distanciar um pouco os lábios, incrédulo, e se avermelhar como um pimentão. Ah, diretor, te deixei sem fala? – Se não se importa, – voltei a falar, percebendo que ele estava sem reação – eu gostaria que você passasse seu sermão logo para que eu pudesse ir embora, porque estou perdendo aula.
A aula que se dane – pensei, rindo mentalmente.
O diretorzinho coçou os olhos, pensativo. Depois, se levantou de sua cadeira, vindo até a minha. Encostou-se à mesa, a minha frente, e disse:
– Não estamos fazendo isso certo. – Ele fitava o chão escolhendo as palavras. Hell! Do que ele está falando? – Eu não estou fazendo isso certo, do jeito que eu gostaria. Entende? – Dirigiu seu olhar a mim. Por uma fração de segundo, pensei ter congelado. – Que tal começarmos de novo? Sem ameaças, convites, provocações ou o que quer que tenha feito ontem quando nos conhecemos. Oi, sou , o novo diretor. – Ele estendeu sua mão direita. Não, ele não estava fazendo aquilo. Sim, ele estava.
Mordi meu lábio inferior por um momento de dúvida. Descruzei meus pés e os tirei de cima da mesa. Fiquei de pé, em frente ao diretor. Abri um curto sorriso. Eu não conseguiria evitar...
– Sabe diretor... – Segurei o meio de sua gravata macia, delicadamente. Ele não me impediria. – Isso não vai funcionar comigo, me desculpe. – A expressão de incredulidade de agora a pouco voltara a seu rosto. Aproximei-me dele, ficando a poucos centímetros de distância de seu corpo. Com o olhar fixo no seu, continuei: – Não podemos nos apresentar de novo. E... Não volto atrás no que digo. – Afastei-me, deslizando minhas mãos por sua gravata vagarosamente, com um sorriso transbordando malícia. Nada como uma provocação. Eu podia sentir os olhos do diretor percorrerem desde os meus olhos indecentes até meu sorriso malicioso. Ele havia esquecido o sermão, definitivamente. Ele só pensava em como conter uma aluna abusada. Como sair daquela situação onde uma garota, sem temer, mostrava total falta de pudor. Aposto que ele não esperava encontrar alguém assim nesse colégio. Eu sei pela sua expressão perplexa. Ele não sabe o que fazer.
Ainda a uma pequena distância de , um som vindo da porta indicava que alguém estava batendo.
– Entre. – Sua voz soou falhada. A porta se abriu, era Katherine. Ela me olhou com desdém e se voltou a , mudando seu olhar para puro doce.
, um dos alunos envolvidos na briga está passando mal, recebendo cuidados na enfermaria. Acho melhor informar aos pais.
Ele assentiu.
– Tudo bem. Pode contatá-los. Vou ver como o aluno está. Senhorita , – virou seu rosto para mim, mas seus olhos nervosos fugiam dos meus – terminamos nossa conversa outra hora.
– Claro, diretor. – respondi revirando os olhos e fui em direção à porta. Ao passar por Kat, esbocei um sorrisinho falso e saí.

Era noite, nossas aulas haviam acabado e os alunos estavam no refeitório para o jantar. O dia passou tedioso sem qualquer particularidade além do pequeno acontecimento da manhã. Não houve sequer bafafá. Os nerds e os caras fortões da confusão de hoje mais cedo fingiram que nada tinha acontecido, sejá lá o que o diretor tenha dito a eles, se é que disse alguma coisa. E, falando nele, não o vi mais hoje – não que eu me importe. Só seria legal ver com qual cara ele estaria por causa do nosso diálogo. Passei as aulas da tarde fazendo rascunhos ao tentar escrever músicas novas para a banda, mas não gostei de nada do que saiu. Só tinha uma coisa me incomodando, e não, por uma vez em não sei quanto tempo, não era . Era .
Durante o almoço, fui falar com ele, mas me esnobou sem motivo aparente. Nas aulas, nem me olhou. Agora, ele estava sentado com alguns rapazes do time de futebol numa mesa do outro lado do refeitório. Eu sei que nosso namoro não tem aquela história de sentimentalismo e clichê, e não ficamos grudados o tempo todo nem na maior parte dele, mas ele ficar longe assim o dia todo é bem estranho. Nenhum beijo, nenhum abraçozinho que seja. Tem alguma coisa de errado...
! – exclamou como se tivesse me chamado várias vezes e eu não tinha dado resposta.
– O quê, menino? – Virei minha cabeça bruscamente para olhá-lo. Ele estava sentado na cadeira ao meu lado, na mesa em que sempre ficamos. e Taylor estavam do outro lado, ela de frente para mim e ele de frente para . Os dois conversavam isolados, ignorando a presença de e a minha.
– Se você não comer o seu jantar, eu vou. – ele disse apontando para o meu prato. A fim de ser gentil, eu sorri.
– Vou comer. – falei, investindo uma garfada no bolo de carne.
– O que aconteceu? Você ficou meio aérea hoje.
– Estive pensativa, só isso. – respondi, fitando minha comida.
– Ok. – falou para Taylor, que se levantou e se afastou sem explicações. Talvez ele tenha dito onde ia, mas eu não estava escutando.
– Tá rolando alguma coisa entre você e o Taylor? – perguntei à , fugindo do assunto de . Ele não gosta muito de e eu não queria dar motivos a ele, reclamando do meu namorado.
– Não, nada a ver. – Ela riu – É que você e o não se largam. – continuou antes de tomar um gole do refrigerante.
– E o que isso tem a ver?
– Me sinto meio forever alone, ué. – Ela deu de ombros. – Então tenho conversado muito com o Taylor. Estou ajudando-o em Matemática.
– Legal você ajudá-lo em Matemática. Só não sei por que se sente forever alone comigo e com o . Caso não se lembre, somos seus amigos. Melhores amigos, até onde eu saiba. – Fitei e vi que ele estava desconfortável com essa conversa. Costumávamos ser, os três, ótimos amigos. Entretanto, há pouco tempo, e começaram com uma implicância que eu ainda não entendo de onde surgiu e nunca procurei saber. Achei que fosse passageiro, mas isso está durando muito.
não falou mais nada e continuou em silêncio. Silêncio que me fazia querer bater nos dois. Por que estão agindo desse jeito? – me imaginei dizendo. Não, melhor não falar nada. Eles não vão dar o braço a torcer.
– Quando vocês baixarem seus índices de glicose anal, eu volto a falar com vocês – falei no meu melhor tom de sarcasmo, pegando o meu copo de refrigerante e indo em direção à mesa de , deixando os dois sozinhos e mudos.
Na mesma mesa onde estava, também estavam Nick, Scott e, claro, o melhor amigo irritante, .
– Olá, garotos. – disse, simulando simpatia.
– Oi, . – Nick, o garoto loiro e fofo, disse. levantou uma sobrancelha ao me ver e voltou a comer, desprezando o fato de eu me juntar a eles. Não muito diferente de , que nem me olhou.
– A quê devemos sua honrosa presença? – Scott, o moreno com cara de fuinha, se pronunciou.
– Não estou afim de me estressar com a tensão sexual entre a e o hoje. – Scott e Nick riram. Sentei-me na cadeira vazia ao lado de . Bebi um gole do refrigerante e pousei o copo na mesa – . – chamei, o fitando.
– Me passa o ketchup? – , emburrado, pediu, e Nick o atendeu.
não respondeu, me deixando ligeiramente irritada. Ora, não sou garota de correr atrás de alguém!
– Não quer conversar, é? – Perguntei, pousando minha mão em sua perna, escorrendo-a para o interior de sua coxa até sua virilha. Encostei minha boca no lóbulo de sua orelha, ignorando o fato de os garotos estarem nos assistindo, e sussurrei – Não gosto muito de conversar mesmo. – Ele engoliu a última porção do seu jantar que faltava em seco e virou seu rosto para mim.
– Não é o que parece. – respondeu no mesmo tom que eu usara. Parecia chateado. Inclinei minha cabeça, pondo uma mão em sua nuca, e uni nossas testas. Não é a toa que aqueles olhos conquistavam tantas garotas... Eram hipnotizantes.
– Quer conversar?
– Conversar é exatamente o que eu não quero. – Ele soltou um breve e baixo riso, me fazendo sorrir. Eu sabia que o problema era aquilo de novo. E não é como se eu não quisesse. Ontem dormi pensando no que a disse: “Ele é seu namorado. Se você quer e confia nele, eu não vejo nada de errado.”. Eu não deveria temer. não é ele. é meu namorado.
– Que tal a gente conversar sobre isso mais tarde? – perguntei. levantou uma sobrancelha, desconfiado de que eu fosse enrolá-lo mais uma vez – No meu quarto ou no seu? – Ele sorriu.
– No seu. – falou, me dando um selinho. Em seguida, seus lábios traçaram uma linha de breves beijos até o lado de meu pescoço. Por fim, deu uma lenta mordida que, por pouco, não me fez gemer. Calma aí, campeão! Ainda não estamos no meu quarto!
– Viu, Scott? Eles vão “conversar” no quarto dela hoje. Que tal a gente “conversar” no seu quarto também? – Nick forçou uma voz gay.
– Claro! Por que não falou antes, meu amor? – Scott continuou a brincadeira abraçando Nick. Todos rimos, exceto .
– Parem. – pedi. – Nós só vamos estudar Física.
– É! Vamos estudar o movimento dos corpos. – piscou um olho para os rapazes. Dei-lhe um tapa de leve no braço.
– Uuuuh! – Nick e Scott exclamaram zombeteiramente, com perversidade.
– Estou falando de Física, palhaços! Vamos estudar Física! – corrigiu.
– É, deve ser! – Scott zombou.
– Tchau, garotos. – me despedi, levantando da cadeira. – Te vejo mais tarde, . Para... Estudarmos Física. – Eu ri, virando as costas e indo em direção à saída do refeitório.
Pouco tempo depois, após despistar uma amiga – quero dizer, seguidora – que queria um caderno emprestado, eu estava andando pelo corredor das salas de aula, no meio do caminho para o alojamento. Sentia uma sensação estranha na barriga. Ansiedade. Eu estava cedendo à vontade de . E por que não? Não vou ganhar nada passando a noite pensando na situação estranha de e . E também não quero mais o enchendo meu saco para transar e eu fugindo de algo que eu queria há muito tempo... E quero.
era meu namorado, não havia nada de errado. Eu tinha que esquecer o que aconteceu.
. – alguém gritou a uma distância de trás de mim e eu me virei imediatamente antes de processar de quem era aquela voz. Merda! Por que esse garoto não me deixa em paz?
vinha andando como se não tivesse pressa de chegar até mim. E por que diabos eu estava parada esperando?
– O que é? Tenho mais o que fazer. – bufei, cruzando os braços. Agora ele já estava próximo, de modo que pudéssemos falar como pessoas civilizadas que fingíamos ser.
– Você me deve um favor. – disse ele.
– Que favor, garoto? Não te devo nada.
– Deve, sim. O extintor de incêndio hoje de manhã, esqueceu? – A expressão debochada no rosto dele me fazia, mais do que o usual, querer dar um murro naquela cara de machão.
– Eu não te pedi para fazer aquilo, então, não te devo absolutamente nada. – Imitei o deboche de seu rosto e pude sentí-lo enfurecer por dentro.
– Claro que deve! – Seu tom de voz era agressivo.
– Claro que não!
se aproximou e, como eu não estava afim de aturar aquele cheiro viril dele, empurrei-o pelo peito antes que estivesse próximo demais para me enfraquecer. Mas, do mesmo assim, ele agarrou meu braço com uma mão, enérgico, o que me assustou por um momento porque, no seguinte, não era mais susto e, sim, surpresa quando uma pessoa interviu.
– Largue-a. – ordenou.

Capítulo 4

Meu coração disparou. Os olhos encontraram a expressão severa de voltada para que, após alguns segundos para digerir a situação em que estávamos, soltou meu braço, deixando-o com a sensação de mil formigas perambulando no interior dele. Observei engolir o orgulho e dar dois passos para trás lentamente.
Estávamos em frente à enfermaria. Por que o diretorzinho estava lá? Será que está pegando a enfermeira? Eca, a Gwen – enfermeira de plantão nas noites de quarta-feira – é tão velha pra ele! Ela deve ter uns cinquenta anos e tem bigode.
– Quero você na minha sala amanhã, antes da primeira aula. – impôs o diretor. Se a situação não parecesse tensa, essa frase soaria muito sugestiva. Hm, ele quer na sala dele amanhã... Orgias em local de trabalho é totalmente antiprofissional, diretorzinho.
assentiu em silêncio e desapareceu por uma das saídas do corredor para o espaço a céu aberto onde ficam as instalações esportivas.
Legal. O diretor me tirou da enrascada que estava – O que deu no para atacar meu braço daquele jeito? –. Agora... devo agradecer?
– Steven...
– O quê? – Virei-me para , confusa.
– Steven é um dos alunos envolvidos... na desventura de hoje de manhã. – Ele disse num tom de voz baixo e desgostoso, esquivando seu olhar a fim de evitar o meu. – Ele teve uma reação alérgica a partir de algum componente do agente extintor... que você expeliu.
Senti meus lábios se separarem de surpresa. Não era minha intenção, não imaginei que alguém pudesse ter uma reação alérgica por ser atingido pelo agente de um extintor.
– Ele... está bem? – perguntei interessada.
– Com febre alta. Os pais virão buscá-lo. Katherine os contatou.
– Espero que ele fique bem e...
– É, eu espero mesmo que ele fique bem. – me interrompeu. – Não quero ser responsabilizado pela atitude inconsequente de uma aluna imatura.
– O... O quê? – gaguejei sem acreditar no que ele tinha dito. Eu ouvi direito? Ele me chamou de imatura?
– Você deve ir para o seu quarto e pensar no efeito causado pelo que fez. – determinou. Em seguida, apartou-se em direção ao prédio principal, deixando-me sozinha com a minha culpa.

Eu estava sentada no parapeito da janela com a luz do quarto apagada, contemplando a vista do meu quarto: a grama verde, a parte acidentada por onde passa um riacho e, além, o bosque pelo qual algumas pessoas fazem contrabando de bebidas, entre outras coisas, para a Reunião e até fogem do colégio. A lua cintilante iluminava tudo, o céu estava estrelado, a noite estava linda. Eu estava com uma camisola lilás que ia até o meio da coxa, de alças finas e renda no decote. Apesar do vento frígido, eu não estava me importando em sentir frio. Minha mente estava longe de tudo que me prendia ao colégio, de tudo que me prendia à minha vida.
Bastou um breve som para me arrastar de volta à realidade. Alguém tinha batido na porta. Sem me preocupar em saber quem era, nem me movi.
– Pode entrar.
– Ei. – pronunciou de um jeito meigo logo após fechar a porta. Estava com um moletom cinza escrito em preto “i'm the guy your mom warned you about”, uma bermuda azul e chinelos. Pude sentir o cheiro de sabonete doce que ele emanava quando se aproximou. Acariciou minha bochecha com uma mão, carinhosamente. Depois, afundou a mesma nos meus cabelos devagar e intensamente, fazendo-me fechar os olhos por um instante. – O que foi?
– Por que fez essa pergunta? – Rebati, abrindo os olhos.
– Parece pensativa. Está com algum problema?
– Seu “amiguinho” – fiz aspas com as mãos – me irritou. O de sempre.
Aquilo não era bem verdade, mas também não era mentira. me irritou ao agir comigo daquele modo, no entanto, o que tomou meus pensamentos foi o diretor. E, claro, o coitado do Steven. Não falo com ele, porém, certamente, ele não merecia ter uma reação alérgica forte por culpa minha. Por outro lado, eu não deveria sentir culpa, pois o que fiz não foi de má intenção.
– Eu vou dar um jeito nele. – prometeu... outra vez.
– Hm. – manifestei pouco caso.
Ele simulou um suspiro cansado. Desceu a sua mão que estava nos meus cabelos até o meu quadril e pôs a outra mão do outro lado para me girar no parapeito da janela, pondo-me de frente para ele. Deslizou as mãos até meus joelhos e afastou-os delicadamente, permitindo que houvesse espaço para se posicionar entre minhas pernas. Não tentei resistir. Subiu as mãos até minhas coxas, agora praticamente despidas por causa da camisola quase no quadril, com toque muito leve. Meu corpo se arrepiou.
– Você não acredita em mim, não é?
Pousei minhas mãos nos ombros de , relutante ao responder:
– Não é que eu não acredite... É só que você já disse isso antes e continua sem fazer nada para impedir que não me deixe em paz. – direcionou o olhar para a paisagem por cima do meu ombro, pensando no que dizer. Continuei, brincando: – Talvez ele seja gay e esteja apaixonado por você. Talvez ele só esteja eliminando a concorrência. – riu. Eu não pude me conter e soltei uma risadinha também, imaginando gay e apaixonado pelo meu namorado. O que, na realidade, é improvável, porque do jeito que é ou parece ser másculo, ser gay é bem difícil. No entanto, eu consigo imaginá-lo com batom vermelho, sombra azul, saia e sapatos de salto alto.
Ainda sorrindo com meu devaneio tolo, percebi que tinha cessado seu riso e estava me fitando. Iluminado pela lua, seus olhos estavam incrivelmente brilhantes. Eu não sei se era por isso ou por causa do jeito que ele me olhava que a frequência das minhas batidas cardíacas aumentou. Ele viajava os olhos pelos detalhes do meu rosto e eu estava começando a sentir medo do que aquilo pudesse significar.
– Será que a paixão secreta de por você é recíproca? – brinquei novamente. Ele sorriu, primeiramente achando a minha pergunta engraçada, depois de um jeito malicioso.
Apertou as minhas coxas e sussurrou perto da minha boca:
– Duvido.
Logo seus lábios tocaram os meus tão sutilmente que eu mal percebi quando exatamente começamos a nos beijar. Nossas línguas se moviam do modo lento que gostava. Eu provava seu hálito fresco de quem acabara de escovar os dentes. Ele rompeu o beijo tão vagarosamente como iniciou. Quando abri os olhos, vi que ele me fitava de novo, do mesmo jeito de antes. Aquilo fez meu corpo se inquietar por dentro. A fim de fugir de seu olhar, disse:
– Onde está seu material de Física?
– Já vou te mostrar. – respondeu, safado. Soltei um riso baixo. – Está nervosa? – Dei de ombros. Ele prosseguiu, tirando uma mão da minha coxa e levando até meu rosto. – Relaxa. – Sorriu com um canto da boca e o olhar distraído e, ao mesmo tempo concentrado, voltou à sua expressão. Fazendo círculos na minha bochecha com o polegar, declamou: – Nosso namoro não costuma ser sentimental e... eu gosto assim. Mas eu acho que tenho que te dizer uma coisa. – Ai, meu Deus. Do que ele está falando? – As garotas com quem fiquei antes de você, pareciam querer me dominar com “eu te amo” e atitudes grudentas. E eu não gosto de melação o tempo todo, você sabe. Então... não espere que eu diga isso de novo, ok?
– Isso o quê? – perguntei, ficando assustada. – Você não vai me pedir em casamento, né?
– Não, não é casamento. – Ele riu. – É... – ele abriu a boca para responder, mas nesse instante ele tirou um celular vibrando do bolso e o atendeu.
Onde ele arranjou esse aparelho? Os alunos são proibidos de ter celulares no colégio. Todos são revistados quando voltam dos finais de semana que passam na casa dos pais, ou seja, nada de celulares pela entrada principal. E nem adianta contrabandear porque não tem sinal aqui mesmo. E se alguém contrabandeou para o , como ele conseguiu sinal?
– ...Tá, estou indo. – disse e desligou.
– Onde você conseguiu isso? – Apontei para o aparelho.
– Sabe o Chuck? Aquele que traz as coisas da Reunião? – Indiquei que “sim” com a cabeça. – Ele trouxe para mim.
– Eu não sabia que vocês se falavam. – insinuei, desconfiada.
– Ele mudou da aula de Italiano para a minha turma de Francês. Bem, tenho que ir. Parece que o Jace está com um problema. Não vou demorar, daqui a pouco eu volto. – Metralhou as palavras, deu-me um selinho e saiu.


Ok, então... Quarenta minutos se passaram e eu cansei de esperar. Eu tenho mais o que fazer, sabia? Não, na verdade, eu não tenho. Mas eu não sou garota de ficar parada olhando para a parede. Não que eu tenha passado esse tempo todo fazendo isso. Fiquei tentando escrever algo de bom. Leio e releio. “I wanna break the mold. I wanna break the stereotype. Fist in the air. I’m not going down without a fight.” Será que vai sair alguma música desse pedaço de papel com umas palavras rabiscadas, umas frases rasuradas?

– It’s my life and I’m not sitting on the sidelines watching it pass me by... I’m leaving you my legacy... I gotta make my mark...
Hm... Isso soa bem?
– I gotta make my mark...
– Tem que fazer a sua marca? – Alguém pronunciou. Num movimento brusco, virei meu rosto para a porta. Eu estava sentada na cadeira de frente para a mesa de estudos que há em cada quarto. Ele estava de pé recostado à porta fechada. Como não o vi chegar, abrir e fechar a porta? Eu estava tão absorta? – Você pode fazer sua marca em mim.
– Você demorou muito. – disse, pondo as folhas com os versos escritos em baixo de um caderno. – Não quero mais deixar minhas marcas em você. – Levantei-me e fui em sua direção. – O problema do Jace devia ser muito interessante ou muito complicado para me trocar por ele. – destilei um pouco de veneno.
– Ciumenta. – atraiu-me pela cintura até encostar nossos corpos. – Pode deixar que eu vou me redimir... – Mordeu meu lábio inferior e puxou-o devagar. – E você não vai se arrepender.
Conduziu-me até a cama e me empurrou sem muita delicadeza. Pelo visto, está querendo recompensar o tempo perdido com o amigo. Caí sentada no colchão macio. Ele arrancou seu moletom e lançou-o para qualquer lado, vindo até a mim. Praticamente não tive tempo de olhar sua barriguinha de capitão do time de futebol do colégio – que eu só havia tocado por baixo da camisa algumas vezes e visto nas aulas de natação –. Segurou meu rosto com uma mão e alisou minha coxa com a outra. Meu corpo se arrepiou. Uniu nossos lábios e, para a minha surpresa, o beijo era urgente e desesperado, eu diria. Sem a lentidão que costumava ser. A pressão me fez deitar o tronco e ele caiu sobre mim. Minhas mãos agarravam seus cabelos da nuca a fim de aliviar a excitação que as carícias de no interior das minhas coxas causavam.
Ele trilhou uma linha de beijos da minha boca ao meu pescoço onde começou a dar chupões mais fortes do que os usuais. Mordi meu lábio inferior para não dar-lhe o gostinho de ouvir sequer um pio de prazer vindo de mim logo tão cedo. Sua mão cansou de tocar minhas coxas e deslizou até a minha intimidade. Com um dedo, começou a me provocar mesmo por cima da calcinha branca. Minhas mãos passaram a unhar suas costas de leve enquanto ele descia sua boca até meu colo. Percebi que a minha calcinha estava úmida no mesmo momento em que retirou sua mão daquela área e segurou meu quadril com as duas mãos. Sua boca voltou à minha. Levantou minha camisola até minha barriga e começou a fazer um sutil movimento de vai e vem com o corpo. Senti a tentação da sua ereção perceptível mesmo por baixo da bermuda roçar em mim. Passei a unhá-lo mais forte.
Afastou-se e observou-me pela primeira vez sob seu controle. Bem, ele achava que eu estava sob seu controle.
– Vai ficar só olhando? – perguntei impaciente, com uma expressão pervertida.
– Ué, não é você quem gosta de provocar e depois pular fora?
– Exatamente. Eu provoco e pulo fora, você não.
Sorri de modo danado e ele esticou um canto da boca como se pensasse “você não perde por esperar”. Era coisa da minha cabeça ou ele estava mesmo pensando isso?
Distribuiu beijos dos meus joelhos à minha virilha, onde mordiscou, fazendo-me soltar gemidos quase inaudíveis. Fez o mesmo com o meu ventre, em seguida subindo pela barriga. Fechei meus punhos nos lençóis da cama. Suas mãos iam tirando minha camisola devagar pela lateral do meu corpo conforme sua boca o percorria. Quando descobriu meus seios, fitou-os por um instante antes de apalpá-los intensa e vagarosamente. Tocou meus mamilos com a ponta dos dedos deixando-os visivelmente excitados. Depois, os abocanhou. Senti-lhe chupar, lamber e mordiscá-los. Arqueei minhas costas perdida em tanto desejo.
Levantei um pouco o tronco para que pudesse tirar minha camisola por completo. Jogou-a para o alto e esta caiu no chão como o moletom anteriormente. Segurei seu rosto trazendo-o até o meu, resultando num beijo descoordenado. Nossas respirações estavam aceleradas e pesadas. Ansiosas demais. Escorregou as mãos até meus quadris, brincando com o elástico da minha calcinha até eu descolar nossas bocas permitindo a ele que se afastasse. Isso possibilitou que puxasse minha calcinha de uma só vez. Pensei em fechar os olhos para não ver sua reação. Era a primeira vez que consentia o que ao menos metade dos garotos do colégio almejava. Ao contrário de tudo que temia, ele não ficou observando cada detalhe da minha intimidade. Claro... Já deve ter comido muitas outras antes de mim.
Enfiou a mão num bolso da bermuda e tirou um preservativo. Senti-me aliviada por ele ter lembrado disso, pois eu estava “meio” longe da racionalidade. Deixou a camisinha perto de um dos meus pés na cama para que tivesse as mãos livres para tirar a bermuda e a cueca preta. Eu tinha pressa que ele viesse até mim logo, não estava muito confortável ficar de pernas abertas para o ar. Não pude deixar de passar os olhos pelo seu membro, especialmente quando abriu a embalagem do preservativo e colocou-o nele. Nunca me sentira tão exaltada. Ele me fitava caloroso ao passo que se aproximava de mim. Mordiscou meu queixo, pegando meus pulsos e pondo-os sobre minha cabeça no travesseiro. Eu não podia movê-los. Ele os segurava com força.
– Isso é maldade. – Minha voz saiu rouca. Ele abriu os lábios num breve sorriso radiante.
Seu quadril estava devidamente posicionado entre as minhas pernas e eu sentia a ponta de seu pênis tocar meu clitóris. Mordi meu lábio inferior e cerrei meus punhos. Cada centímetro do meu corpo comichava. Tudo parou quando me penetrou cheio de energia. Eu pensava estar entre a dor e a volúpia. Não pude evitar soltar o lábio inferior dos meus dentes e gemer. Ele também gemeu. Afundou a cabeça em meu pescoço em meio aos meus cabelos para abafar o som do seu prazer. Recolheu seu membro quase por completo e voltou a introduzi-lo com vigor, repetindo esse ato várias vezes. Conforme aumentava a velocidade de seus movimentos, eu aumentava a altura dos meus gemidos inconscientemente. Eu mal ouvia os gemidos de , mesmo sua boca estando perto do meu ouvido. Eu não podia mover meus braços, gemer era a única forma de extravasar meu tesão naquele momento.
Tudo que eu queria era que ele me penetrasse mais e mais rápido. Mas eu não ia me rebaixar e pedir por isso. Eu já estava muito submissa estando por baixo e presa pelos pulsos. Porém, para colaborar, parecia que ele queria o mesmo que eu, introduzindo-se com mais avidez a cada investida. Seus gemidos se intensificaram, ele levantava a cabeça e voltava a pô-la em meu pescoço, parecendo irritado. Ele devia estar perto do ápice. Eu tentava mexer meu quadril, segurando-me mais um pouco. Eu não queria acabar com aquilo, e ele também não.
Esforçando-me a aguentar, não demorou muito e gozei.
rendeu-se e gozou também, relaxando o tronco sobre o meu.
, você vai me esmagar. – grunhi.
– Desculpa. – disse, saindo de cima de mim e deitando-se ao meu lado na estreita e típica cama de solteiro.
Estávamos ofegantes e cansados. Nossas respirações emitiam ruídos anormalmente altos. Nossos corpos estavam cobertos por gotículas de suor. Eu me sentia frágil e indefesa. Buscando coragem para vencer a preguiça, pus-me em pé e vesti minha calcinha e minha camisola. Mais confortável assim. assistia ainda estirado na cama até que se levantou e pôs a cueca.
– Posso ficar?
Assenti com a cabeça, voltando a me deitar a seu lado. Meus pulsos estavam doloridos, havia me segurado com muita força. Eu os movia como que para soltá-los da tensão.
– Não queria te machucar. – escutei-o sussurrar enquanto me abraçava por trás, passando os braços pela minha cintura.
– Eu sei. – respondi quase que pra mim mesma. Sua respiração atingia a minha nuca e eu percebia que ia se acalmando aos poucos. Respirávamos quase no mesmo ritmo. beijou meu ombro. Meus olhos abriam e fechavam. O sono dava sinais de chegada. – ?
– Hm? – Soei manhosa.
– Lembra que eu ia te falar uma coisa antes de eu ir resolver um problema do Jace?
– Uhum. – A sonolência insistia em me tomar.
– Então... Erm... Eu não pretendo dizer isso de novo. Enfim... Eu gosto do nosso namoro do jeito que está.
A voz do estava sumindo, como se estivesse indo para longe. Tudo parecia tão lento e escuro...
– É... Eu também. – falei baixinho.
– Então, eu só queria dizer... Eu acho que é a primeira vez que...
– Uhum... – concordei sem nem ouvir o resto da frase. O sono era mais forte que eu. Adormeci.

Acordei com o primeiro sinal que tocava incessantemente por cinco minutos nos alto-falantes de todos os corredores. Sete horas da manhã. Dormi tão bem essa noite... Rolei na cama sem querer abrir os olhos e deixar a claridade vinda da janela me cegar, mas tive que fazê-lo. Afinal, não queria me atrasar de jeito algum para a aula de Filosofia – Puro sarcasmo. Quem precisa de Filosofia? –. Passei o olhar por todo o quarto, eu estava me esquecendo de alguma coisa. O que fiz noite passada?
. Onde ele estava?
Arrumei a cama, tomei banho, escovei os dentes, vesti o uniforme – a saia plissada cor azul marinho com o cós abaixo dos seios para deixá-la bem curta, a camisa de botões branca, a gravata vermelho-escura com um nó fajuto e o terno azul marinho com a coroa dourada estampada do lado esquerdo do peito. O dia estava um pouco frio, assim, ao invés da meia três quartos, coloquei uma meia-calça branca e a sapatilha preta. Passei o mínimo de maquiagem que uma garota de influência necessita. Nada exagerado como as putinhas do primeiro ano.
Peguei o livro de Filosofia e o de Geografia – as únicas aulas antes do almoço –, taquei na mochila e fui em direção à porta. Quando a abri, Katherine estava com a mão erguida prestes a bater.
– Quer alguma coisa, Kat?
Ela me empurrou para dentro do quarto e fechou a porta atrás dela.
– Você estava com alguém noite passada?
Meu corpo gelou. Por que ela estava perguntando isso?
– Na verdade, eu estava. Eu e o Jensen Ackles. Mas por que quer saber? Quer que eu te chame para participar do nosso sexo selvagem na próxima vez?
– Como sabe, o vigia dessa ala do prédio foi demitido...
É, eu sei... Ele foi pego comendo uma aluna. Também, gato do jeito que ele era, e com a quantidade de garotas que davam em cima dele, se ele não comesse nenhuma, ele seria gay. Aposto que Kat queria dar pra ele, mas uma aluna chegou antes.
– ...no entanto, isso não quer dizer que eu não tenha meus informantes. – continuou Kat, erguendo uma sobrancelha.
– Aonde você quer chegar?
– Uma das, quero dizer, um dos meus informantes disse que você estava acompanhada ontem à noite. E estava... gemendo. – Ela pareceu desconfortável ao pronunciar a última palavra. O que foi? Faz muito tempo que não geme, Kat?
– Olha, Kat – fingi um suspiro. – Eu vou te contar, mas não conte a ninguém, ok? – Ela estreitou os olhos com um, ou melhor, dois pés atrás. – Eu estou no período fértil do meu ciclo menstrual, ou seja, eu estou... com necessidades, entende? – Simulei estar extremamente constrangida. Se ela cair nessa, eu faço um gol e dedico a ela no treino de futebol hoje. – Ontem, eu estava me masturbando. – Olhei para o chão. – E, pelo visto, perdi o controle e gemi alto demais...
– Se masturbando? Sei...
– É sério. Olha – ajoelhei diante dela juntando minhas mãos num pedido –, não conte a ninguém, por favor!
– Tá, pode deixar. – ele disse entre dentes. – Agora vá para a aula.
Kat virou as costas e saiu do meu quarto rapidamente. Sentei no chão gargalhando antes de me recompor e sair também.

Indo para a aula, vi na porta da classe de Francês conversando com o loiro ofuscante do Jace e o Chuck cheio de dreads no cabelo. O sinal de início das aulas tocou e e Jace entraram na sala, mas Chuck foi para a aula de Italiano. disse ontem que Chuck tinha mudado de Italiano para Francês. Ele estava mentindo. Por que ele mentiu? E por que foi embora do meu quarto antes de amanhecer?
– Morning, girl! – disse, me entregando um capuccino num copo de plástico escrito LHS.
– Bom dia. – respondi, ainda olhando o lugar onde os rapazes estavam, pensativa.
– De nada pelo capuccino. – Ela entrou na minha frente para que eu desse atenção a ela.
– Ah. Obrigada – respondi. – Não pude ir tomar café da manhã porque Katherine foi ao meu quarto hoje mais cedo e eu acabei me atrasando.
Acabei me atrasando rindo da desculpa esfarrapada que a bitch da Kat engoliu – pensei, recordando a cena.
– O que aconteceu pra ela ir até lá? – perguntou, preocupada.
– É uma longa história... Vou te contar.
– Quer dizer que eu não vou dormir na aula de Filosofia hoje?
Nós rimos enquanto eu passava meu braço pelo dela e a arrastava para dentro da sala.

Capítulo 5

Oh, shit! Mas esse sinal já está tocando? Parece que acabei de deitar pra dormir! Definitivamente, quanto mais se dorme, menos parece que se dormiu.
- ! Você está morta aí dentro, por acaso? – gritava, socando a porta – Anda, cachorra!
Saltei da cama e corri para abrir a porta. Ela me olhou de um jeito meio estranho, entrando no quarto.
– O que foi, amiga? – perguntei, com medo do que pudesse estar errado comigo.
– Esse roxo ainda não saiu do seu rosto, você vai ter que passar um corretivo. Além disso, você está toda descabelada! Se arrume logo porque estamos atrasadas. – disse, largando a mochila no chão. Eu me espreguicei calmamente e ela gritou, perdendo a paciência: – Qual parte do “estamos atrasadas” do verbo “muito atrasadas” você não entendeu?
– Ok, só vou tomar um banho e passar chapinha no cabelo. – A parte da chapinha era brincadeira, mas ela não precisava saber disso.
– HAHA, que engraçada. – ela forçou um riso sarcástico e de repente ficou séria de novo. – Nada disso! Tome um banho bem rapidinho porque temos prova agora. Está esperando que eu te leve até o chuveiro ou que eu tome banho por você? – Ela se virou e começou a arrumar minha cama.
– Ui, quanto bom humor! Sinto que essa segunda-feira vai ser muito interessante. – Fui assoviando para o banheiro.

Indo – na verdade, correndo – para a sala, ia recapitulando a matéria da prova em voz alta e eu ia recapitulando o que acontecera desde a chegada do novo diretor sem ouvir absolutamente nada do que ela falava comigo. Terça-feira passada, diretor veio ao colégio, apertei aquela bunda redondinha de neném dele e bati um papinho com o mesmo em sua sala. e sua sessão de implicância diária e , mais uma vez, me pressionando para brincarmos de mamãe e papai – que coisa fofa. Quarta-feira, apresentação do diretorzinho tchutchuco. Confusão no auditório, fazendo o estranho favor de quebrar o vidro do extintor, minha boa ação de acabar com a tortura dos nerds e me ferrar no processo porque o diretor alegou que meu ato de usar o extintor foi irresponsável. me dando gelo até que eu aceitasse transar com ele, sendo violento comigo quando eu disse que não lhe devia favor algum e, ah, sim, Steven na enfermaria. E não acabava por aí. foi ao meu quarto, tivemos um papo enquanto ele me olhava de um jeito incomum. Recebeu uma ligação de um celular – que, segundo ele, Chuck lhe trouxe e os dois haviam ficado “amiguinhos” após Chuck ter mudado da classe de Italiano para a de Francês – e saiu para “resolver um problema do Ian”. Mais de meia hora depois, voltou e, bem, fizemos aquilo. Quinta-feira, acordei e nada de na minha cama, o que foi esquisito. Kat apareceu no meu quarto dizendo que algum informante dela contou-lhe que eu gemera na noite anterior. Fingindo constrangimento, falei que eu tinha me masturbado e ela, imbecil, engoliu. Indo para a aula de Filosofia, vi Chuck entrando na classe de Italiano, deduzindo, assim, que havia mentido. Na hora do almoço, fui falar com ele, mas o safado passou por mim, deu-me um selinho e disse que tinha que resolver umas paradas, não aparecendo na minha frente pelo resto do dia. Vi o diretor conversar com os pais de Steven – que está de repouso em casa – e também vi entrar na sala da Senhora Abeloff, a conselheira – certamente a mando do diretor por causa da atitude agressiva comigo. À noite, no treino de futebol, acertei uma bolada na cabeça da , ela ficou puta e caímos na porrada. Foi uma cena interessante – para mim, claro –, fora a parte em que ela me acertou um soco. Pois é, uma parte da minha maçã esquerda do rosto ainda está meio roxa. Tive que passar corretivo pra não dar à o gostinho de saber que me deixou roxa. Sexta-feira, nada de diretor nem no colégio, o que foi inquietante ou, no mínimo, curioso. Quase no fim das aulas, quando eu dava uma daquelas minhas voltinhas pelo colégio enrolando para voltar pra sala após pedir pra ir ao banheiro, me puxou para dentro do banheiro masculino. Prensou-me contra a parede, fazendo-me sentir seu cheiro excitante. Eu não pensei isso do cheiro dele, pensei? Enfim... Ele perguntou se eu estava satisfeita porque que era culpa minha ele ter que ir à sala da Senhora Abeloff duas vezes por semana a partir de agora. Eu respondi que eu não estava satisfeita porque não me importava. Ele me encarou irritado por um tempo e eu o fitava pensando em algo pra dizer. Naquela merda de momento, não vinha uma frasezinha irônica sequer pra eu cuspir na cara daquele idiota. Arrostamo-nos em silêncio até que o sinal bateu e eu o empurrei para que eu pudesse sair do banheiro sem olhar para trás. Sábado e domingo passaram chatos como sempre. A maioria dos alunos foram para suas casas, inclusive , Taylor, e, certamente, , já que não o vi mais. Belo namorado esse que não se despede. Em compensação, eu tenho o melhor amigo de todos os tempos, que passou o fim de semana estudando comigo para a prova Física. . Bem, ele não é lá essas coisas em Física... Na verdade ele é tão ruim quanto eu, mas é sempre bom ter companhia, ainda mais de alguém que sempre me faz sorrir.
?
– Hm. – respondi, ainda distraída.
?
– O que foi, ? – perguntei, olhando para o lado, mas ela não estava lá. Olhei para trás e a vi em frente à porta da sala.
– Você passou direto, gata. – ela falou, segurando o riso. – Não escutou nadinha do que eu disse revisando a matéria, né?
Eu balancei a cabeça que não e fiz uma expressão de desculpas. Ela sorriu, desistindo de tentar cuidar de mim, momentaneamente.
Entramos na sala, os alunos já estavam sentados e o professor distribuindo as provas. Não havia carteiras vazias que estivessem uma do lado da outra, então não pude sentar perto da . Também não havia nenhuma carteira vazia perto do , mas havia uma atrás de um nerd cujo nome acredito ser Christian. Ele tinha cabelos castanhos extremamente lisos, de dar inveja a qualquer garota, e tremendos olhos azuis. Sentei atrás dele e, antes que o professor chegasse a distribuir as provas na nossa fileira, me debrucei sobre a mesa e sussurrei ao seu ouvido:
– Me ajuda, Chris?
– Na verdade, é Mike.
Ops! Errei.
– Tem certeza? – perguntei. Ele fez sinal de sim com a cabeça. – Ah, eu sei, Mike. Só estava brincando. – falei encostando minha boca à sua orelha. Seus pêlos da nuca arrepiaram. – Então... Me dá uma forcinha na prova?
– Tá.
– Obrigada. – disse, dando-lhe um beijinho na nuca e ele mais uma vez se arrepiou. É, eu estava feita nessa prova.

– Dez minutos. – o professor avisou o tempo que faltava para a prova acabar. Apressei-me. De doze questões, já havia pegado seis do Mike e já tinha feito quatro por mim mesma, com esse meu cérebro engenhoso. Ok, das quatro que eu fiz, duas não precisavam fazer conta e era só marcar, ou seja, chute. Havia menos de dez alunos na sala. já tinha acabado a prova e saído. estava suando e rabiscando milhões de contas na mesa. Coitadinho, estava sofrendo. Se ele olhasse pra mim, talvez eu pudesse passar alguma questão pra ele, mas o tapado insiste em tentar fazer e não vê que eu posso dar cola. Bem, eu não podia ficar me preocupando com ele. Se eu quisesse entregar essa prova sem questões em branco, eu teria que colar. Eu não conseguiria fazer duas questões complexas assim em dez minutos. Meu cérebro pode até ser perspicaz, mas não para cálculos.
Estiquei meu pescoço enquanto o professor tirava a dúvida de uma aluna. Murmurei no ouvido de Mike:
– Questões nove e dez, please!
Ele revirou a prova, procurando onde estavam os cálculos das duas questões. Colocou a prova para o seu lado direito e seu corpo ligeiramente para o esquerdo, permitindo-me uma razoável visão. Comecei a copiar. Quando acabei a nona questão, vi levantar e entregar a prova para o professor, que tirava dúvidas da . estava com uma cara chateada, pressupõe-se que não foi bem. Parti para a cópia da questão dez.
– Er-erm! – Alguém pigarreou. Olhei para o lado e vi o professor de cabelos grisalhos e porte de galã mexer nos óculos enquanto me observava reprovadoramente.
– Não é isso que você está pensando. – falei, sentando direito na cadeira.
– Que vergonha, Senhorita . E mais ainda você, Senhor Franklin. – Ele balançou a cabeça decepcionado. – Ainda bem que a Senhorita me avisou. Terei que levá-los à diretoria.
Lancei um rápido olhar furioso para , que tinha o corretivo que escondia roxo – marca que eu mesma fiz – de seu rosto borrado. Sorri com superioridade e levantei da carteira.
– Eu adoro a diretoria.

O professor Craig pediu ao aluno que passava no corredor chamar Katherine para que ela levasse Mike e eu para a sala do diretor. Kat-bitch chegou à sala e esperou na porta. Quando passei por ela, a mesma disse:
– Você não toma jeito, menina!
– Senti saudades de te visitar.
– Até parece!
Enquanto Kat nos conduzia à diretoria, eu tranquilizava Mike com um carinho nas costas. Ele respirava com dificuldade nervosamente e tudo que eu não precisava era de outro nerd passando mal por minha causa. Ao chegar à sala de Katherine, ela ordenou:
– Esperem aqui.
A vice-diretora abriu a porta da sala de e parou na soleira, fazendo com que pudéssemos ouvir o que ela dizia:
– Trouxe visitas, . Adivinha quem estava colando na prova de Física? – Ela virou-se para nós e esticando um braço para indicar que podíamos passar.
O diretor estava sentado em sua cadeira de couro debruçado sobre alguns papéis na mesa com as mãos apoiando a cabeça. Ele estava concentrado, dormindo ou só desesperado em ter que dar esporro em alunos que colaram? Quando Mike e eu entramos, levantou a cabeça e pudemos ver que ele estava usando retangulares óculos de grau. Hm, que maduro.
– Oi! – falei alegremente sentando-me na cadeira em frente à sua mesa. Mike sentou na cadeira ao meu lado desconfortavelmente. Ele esfregava uma mão na outra e aquilo estava me irritando. Voltei a olhar para o diretor, que estava pensativo, fitando-me.
Após alguns segundos de puro silêncio, se pronunciou:
– Querem me dizer o que aconteceu?
– Mike estava fazendo a prova e eu copiando as questões dele. – enunciei imediatamente, tomando a culpa toda para mim.
O diretorzinho me olhou estático. E então, dirigiu-se a Mike:
– Isso foi com o seu consentimento?
Mike afastou os lábios sem emitir qualquer som, sem saber o que dizer.
– Não. – respondi por ele. – Ele não percebeu.
O diretor não me puniria – eu pensava –, não severamente, não a mim. Além disso, Mike não suportaria ser punido, ele piraria. Sem contar que é sempre bom ganhar pontos com um nerd em época de provas. Ao defendê-lo e ao ocultar sua culpa por consentir minha cópia de suas questões, eu terei uma carta na manga caso precise de um favor desse CDF algum dia.
se acomodou no encosto de sua cadeira, entrelaçando os dedos de suas mãos.
– Ok. Então, Mike, você pode ir. E seja mais atento porque da próxima vez, ou o acusarei de estar passando cola.
Mike balançou a cabeça, assentindo. Louco para ir embora dali, levantou-se da cadeira e saiu da sala rapidamente.
– Enfim, sós. – eu disse, sorrindo sem dentes de modo sarcástico.
– O que devo fazer com você, Senhorita ? Alguma sugestão?
Pus-me de pé em fui até o outro lado da mesa, onde ficava a cadeira do diretor. Sentei na mesa de frente para ele, com as pernas cruzadas e uma expressão séria no rosto. Ele me olhava diretamente nos olhos, evitando com dificuldade fitar minhas pernas expostas pela saia curta.
– Você poderia me dizer quais exercícios você faz para ter esses glúteos tão... – Fiz um gesto como se minhas mãos estivessem apertando suas nádegas.
– O quê? – ergueu-se, pasmo.
– Brincadeirinha, diretor. – falei, pegando sua gravata azul com uma mão, mantendo-o perto de mim. Ele segurou minha mão com uma de suas mãos e puxou a minha de sua gravata brutamente com a sua outra. – Nada de brincadeiras, não é? – Ele me mantinha seus olhos nos meus, ainda segurando minha mão e sua gravata. Não disse nada. – É, nada de brincadeiras – deduzi. Soltei minha mão da sua e desci da mesa, ficando de pé em sua frente. – Com licença.
Virei de costas e fui em direção à porta sem me importar com o que o diretorzinho iria pensar da minha cara de pau em me retirar daquele jeito. Estava no meio do caminho quando ouvi:
– Senhorita .
Parei onde estava e virei-me lentamente.
– Sim?
– Receberá zero na prova que foi pega colando e, como punição, limpará as piscinas todos os dias após os treinos e aulas de natação. Agora sim, pode sair.
Abri a boca, mas não pude falar. Katherine bateu na porta e já foi entrando sem esperar permissão.
– A ligação que você estava esperando. – ela disse.
– Pode passar para a minha linha. Obrigado. – respondeu sentando-se em sua cadeira, esperando o telefone tocar. Katherine me olhou como se gritasse “anda, garota, saia daqui” e eu virei as costas e fui.
Eu estava chocada. O diretorzinho me puniu. Difícil de acreditar. Receber zero na prova não me surpreende, mas punição? Nem o antigo diretor me punia!
Passando pelo refeitório para voltar à área das salas de aulas, encontrei comendo um croissant, sentada numa cadeira de uma mesa no centro do lugar. Sentei-me a seu lado, ainda assimilando a atitude do diretor.
– É de quatro queijos? – perguntei, apontando para o salgado. Ela sinalizou com a cabeça indicando que sim. – Ah, que bom! Estava precisando de um desses. – Fiz menção de pegar o croissant da mão dela, mas ela girou o corpo, me impedindo.
– Vá comprar o seu!
– Poxa, eu não tomei café da manhã!
– É, eu também não... Por causa do seu atraso.
Levantei-me e fui comprar um croissant pra mim. De quatro queijos, meu favorito pra relaxar. Saí do refeitório comendo, deixando lá. Eu precisava pensar no que fazer com o diretorzinho aspirante à prepotente. E também com a piranha da que me entregou para o professor Craig. E falando no professor, tenho que pedir para que só desconsidere as questões que eu colei – ou melhor, as que ele viu que eu estava colando.
Assim que passei pelas portas de vidro, dei de cara com os compridos dreads do Chuck, ele estava observando o céu azul sem nuvens. Esse cara é realmente estranho. Será que ele fuma maconha?
– Chuck, meu querido! – Segurei seus ombros, virando seu corpo para mim. – Preciso de um favor.

– Vocês são muito moles, c’mon! – eu falava comigo mesma, assistindo ao treino feminino de natação. Na época em que eu treinava, eu era muito melhor que essas molengas aí. Mas quando comecei a namorar o , ele pediu para que eu saísse da natação porque o treinador estava me azarando. Eu não saí por que ele pediu e sim porque eu não queria aquele velho gordo e bigodudo me olhando de maiô nem mais um dia. Ele nem disfarçava mais.
Depois que todas as criaturas saíram da construção onde ficam as piscinas, eu tirei minhas sapatilhas e a minha meia calça branca opaca – que eu estava usando por causa do frio – para não molhar. É o terceiro dia que tenho que limpar as piscinas e já estou cheia desse castigo. Poxa, hoje é quarta-feira, tive aulas o dia todo, inclusive de Educação Física, já é noite, estou cansada... Que saco! Tudo culpa daquela vadia da . Mas ela não perde por esperar.
Já tinha limpado a primeira piscina, a menor, e fui limpar a segunda, de vinte e cinco metros. É claro que algum faxineiro vai limpar as piscinas direito depois – eu supunha mentalmente –, óbvio. Minha limpeza era pior do que a cara imunda das garotinhas do primeiro ano e não permitiriam piscinas sujas num colégio elitista.
Encaixei a mangueira no longo ferro e este no aspirador. Estava prestes a mergulhá-los na piscina quando senti um forte empurrão golpear minhas costas e, ainda sem entender o que estava acontecendo, soltei o ferro ligado ao aspirador e voei até cair na água.
Meu corpo submergiu até que meus pés quase pudessem tocar o fundo. Tomei impulso e nadei até a superfície. Coloquei minha cabeça para fora, de olhos fechados e respirando pela boca. Meu coração batia forte e acelerado. Assim que tirei o cabelo do rosto e abri os olhos, ardendo um pouco, dei de cara com de braços cruzados e um sorrisinho debochado. Ei! Aquele sorrisinho é meu!
– Filho da... – comecei a xingá-lo, sentindo meu sangue subir à cabeça.
– Shhhhhhhhh! – ele interrompeu. – Só estou retribuindo o favor de me fazer ter que frenquentar a sala da Senhora Abeloff.
Nadei até a beirada da piscina ouvindo aquele absurdo.
– Eu não te fiz nada! Quem fez foi você, que me agarrou, e o diretor que te castigou, seu estúpido! – falei enquanto saía da água e parava na sua frente.
– Não custava nada você ter retribuído o favor que me devia. – ele respondeu, se aproximando. Ele não resiste a mim, ele tem que ficar perto de alguma maneira, é incrível.
– Eu não te pedi nada. E se é favor, não te devo absolutamente nada.
Minha intenção era passar por ele para pegar minha meia, minhas sapatilhas e meu terno no banco de madeira que ficava ali perto, porém, não pude. Quando passei ao seu lado, ele segurou meu braço com força, fazendo-me virar o rosto para o lado. Eu fiquei totalmente estática. Encaramo-nos, face a face, e ele disse:
– Por que você não admite logo que essa birrinha toda pra cima de mim é pura atração?
Tombou sua cabeça para frente, por pouco não tocando as pontas dos nossos narizes. Continuou:
– Por que não confessa que é louca pra ficar comigo?
Sem realmente querer, meus olhos fitaram seus lábios e os meus, por sua vez, se afastaram... Certamente surpresos. Mas não foi isso que entendeu. Ele continuou tombando sua cabeça, tocando nossos narizes, prestes a tocar nossos lábios. Minha respiração estava falhada e eu me convencia que isso se devia à proximidade dos nossos corpos, nossos rostos.
Com a minha mão livre, empurrei o ombro de sua mão que segurava meu braço, fazendo-o se afastar o bastante para que, com o sobressalto que lhe causei, ele baixasse a guarda e eu me soltasse.
– A única atração que eu sinto por você é a do meu joelho pelas sua bolas. – cuspi as palavras, indo até o banco pegar as minhas coisas. – Mas eu tenho nojo demais de você para encostar meus lindos joelhos nos seus testículos sujos. – finalizei e saí da área aquática, me deparando com um frio sobrenatural já que, além da temperatura baixa dessa época do ano, especialmente à noite, eu estava encharcada. Tive uma ligeira vontade de chorar em pensar que eu teria que ir até o alojamento naquele frio, mas me segurei ao avistar vindo até onde eu estava.
– Por que está toda molhada? – ele perguntou. – Estava indo te encontrar, me contou sobre sua punição.
– Agora você se interessa? Não te vejo há dias! – retruquei brava. Não o via desde sexta-feira e já era quarta. Por onde ele andou?
– Minha mãe veio me buscar na sexta de manhã. – ele explicava, tirando o paletó e vestindo-o em mim sobre o meu, que eu já estava usando. – Meu pai foi hospitalizado. Agora vem, você tem que se esquentar. Vou te contando no caminho para o alojamento.

– Eu discordo! É muito mais fácil atacar pela direita! – interrompeu daquele jeitinho repugnante e autoritário dela. Acho que ela estava querendo outro roxo naquela fuça dela.
– Com licença, quem é a capitã do time? – perguntei, sem paciência. Odeio que me interrompam.
– E o que isso tem a ver? Não é porque você é a capitã que eu vou fazer tudo o que você disser e não vou dar minha opinião.
– Ah, sim, claro... Você pode dar a sua opinião, como não poderia? Mas só quando eu solicitar, ou seja, nunca!
– Calem a boca, vocês duas! – a treinadora gorducha de cabelos anelados que estava sempre pingando suor interveio.
Estávamos devidamente uniformizadas com blusa azul marinho com número e nome em vermelho escuro, meias e shorts brancos, e chuteiras. Era noite de quinta-feira, treino de futebol no campo que fica na área a céu aberto onde estão também o ginásio poliesportivo, o mini campo de golfe, a quadra de tênis e as piscinas fechadas por vidro temperado. Era mais de oito horas da noite. Todas as aulas obrigatórias haviam acabado, só restavam as extracurriculares como as de lutas no ginásio e as de futebol no campo. Eu já tinha limpado as piscinas após a natação, mais uma vez, e por isso cheguei atrasada no treino.
Enquanto as garotas estavam divididas em dois times no campo, , Nick e Scott estavam assistindo tudo na arquibancada, além de caras de outros anos como os pirralhos do primeiro. também estava lá, afastado de todos num canto qualquer.
Apesar de o time feminino não competir com os de outros colégios porque a treinadora acha que “ainda não temos testosterona o bastante”, eu sou a capitã desse bando de patricinhas. O problema é que a senhorita Bitch tem sempre que arranjar uma confusão. Geralmente, eu respondo com sarcasmo, mas percebe-se que não estou com tanto bom humor para isso hoje. Porém, nada de estresse: sempre se pode descontar no jogo.
, obedeça à capitã! Se ela não soubesse o que é melhor para a equipe, eu não a escolheria capitã! – ordenou a treinadora. Eu sorri lembrando da semana passada quando a piranha e eu brigamos. O roxo do meu rosto já havia sumido, mas o dela ainda estava lá.
bufou e se afastou do grupo que estava reunido para falar sobre as táticas de jogo. Aos poucos, as outras também o fizeram até que o time estivesse posicionado e o jogo começasse.
Eu odiava ter no meu time e a ser do adversário, junto com as minhas três seguidoras – só que para elas eu não ligava porque estas sempre acabavam fingindo uma falta ou qualquer outra coisa para me favorecer, ou melhor, favorecer o meu time.
O jogo corria normalmente e eu esperava uma oportunidade para acertar aquela sonsa. Cobrança de falta para o outro time, eu estava ao lado de . A bola veio em nossa direção. Todas pularam. Ainda no ar, dei-lhe uma cotovelada na costela. Ela se jogou no chão. Falsa!
A treinadora soprou o apito.
– O que aconteceu, ? – uma garota “paga-pau-de-todos” perguntou, fingindo preocupação.
– Essa piranha me deu uma cotovelada! – exclamou apontando pra mim, ajoelhada no chão com uma mão na barriga. Na barriga! Eu dei uma cotovelada na costela dela! Fiz-me de incrédula.
– Eu não fiz nada! Deixa de ser ridícula, garota!
– Ridícula é você! Acha que pode fazer tudo só porque todos nesse colégio lambem você! Pena que seu papai não lambe, não é? – Ela sorriu superior, se levantando.
– O que você disse? – gritei, indo até ela. Segurei-a pela gola da blusa. – Não toca no nome do meu pai, garota!
– Chega, ! – a treinadora interpôs sua autoridade. – É melhor você ir para o chuveiro e esfriar essa cabeça!
Abri a boca, pronta para argumentar.
– Nem mais nem menos! Você não vai ficar no jogo com essa cabeça quente! E você, , se acha que pode continuar jogando, fique. Se não ou acha que a cabeça está quente também, vá para o chuveiro com a e vocês que se resolvam lá!
Eca! – pensei. Que nojo “me resolver” com a no chuveiro! Em outro momento, eu diria isso em voz alta do meu modo mais irritantemente sarcástico, mas não agora.
Sem falar mais nada, lancei uma piscadela para só para indicar que estava tudo bem e fui para o vestiário.
Entrei no enorme e comprido lugar todo de azulejos brancos com um banco de madeira do meio das fileiras de armários azul marinho de um lado e de outro. Fechei a porta dupla cinza atrás de mim e fui em direção ao meu armário. Tirei meu uniforme. A chuteira verde claro, os meiões, o short e a camisa. Fiquei de calcinha e sutiã amarelos. Tirei uma mochila de dentro do meu armário e deixei lá o uniforme sujo. Cada garota deixa uma mochila em seu armário com suas coisas pessoais como shampoo, condicionador e a roupa que vai colocar quando sair do banho. E deixamos nossos uniformes lá, e as lavadeiras pegam após os treinos.
No final do que mais parecia um corredor, uma curva à direita e outro corredor. Agora, várias cabines dos dois lados com os chuveiros. Deixei a mochila no chão do lado de fora da cabine. Tirei a calcinha e o sutiã e larguei de qualquer jeito no mesmo lugar. Peguei meu shampoo, condicionador e sabonete líquido na minha mochila e entrei na cabine, fechando a porta de vidro.
Deixei o shampoo, condicionador e sabonete no suporte preso na parede e abri o chuveiro. Menos de dois minutos se passaram e eu me virei ao ouvir o som da porta de vidro da cabine se abrindo. Não tive tempo para assimilar a cena e dizer alguma coisa.
Dei de cara com o nu com uma camisinha na mão. Tudo bem que eu o tinha perdoado por não ter dado sinais de vida desde sexta passada, mas aparecer no meio do meu banho é um pouco precipitado, não é?
– E aí, gata? – ele disse, fechando a porta. Deixou o preservativo na pequena prateleira onde estavam o shampoo, o condicionador e o sabonete, vindo até mim tão rápido que eu mal abri a boca e ele já estava me beijando.
Encostou-me na parede, apertando meus seios. Eu segurava seu quadril controlando a força com a qual me espremia. Na primeira vez que ele descolou nossas bocas para respirar um pouco, eu me pronunciei:
– Você está louco?
Ele riu.
– Quer que eu pare?
Demorei um segundo e meio para responder. Sorri maliciosamente e balancei a cabeça indicando que não. Claro que não.
Desceu as mãos dos meus seios para a minha bunda. Palpava-a, me beijando veemente, porém, fazendo movimentos lentos com a língua. Eu agarrava seus cabelos da nuca. A água gelada nos dava choques conforme a temperatura entre nós aumentava. passou a chupar meu pescoço, acariciando a linha no meio das minhas costas com um dedo.
– Nem me recuperei dos chupões da semana passada. – falei ofegante, tentando manter a minha voz uniforme e sem gemer com todas aquelas sensações que ele estava me proporcionando. – Ficaram roxos.
Ainda dando chupões a cada milímetro do meu pescoço, senti arfar. Ele estava rindo.
– Você supera. – afirmou, se afastando para pegar a camisinha. Rasgou a embalagem e inseriu seu pênis no preservativo. Ver seu membro tão rígido aguçava a minha perversão. Colocou a embalagem na estante, dizendo: – Temos que jogar fora. Se deixarmos aqui, alguém vai descobrir.
– Correção: você tem que jogar fora. – eu disse, e ele se fez de incrédulo enquanto me pegava no colo e me imprensava contra a parede. Senti seu membro tocar de leve minha intimidade, só de provocação. Ele apertava minhas coxas e eu cravava minhas unhas em seus ombros. O próximo passo era inevitável. Introduziu-se com tamanha força que por reflexo soquei minha cabeça na parede. Ignoramos. Não doeu, o som da batida não foi maior que nossos gemidos e tinha fechado os olhos e nem viu. Além disso, as investidas seguintes me fizeram esquecer de tudo.
Entrelacei meus dedos em seus cabelos, puxando sua cabeça para trás. Desse modo, seu rosto ficava embaixo do foco do chuveiro. Trouxe sua cabeça de volta, assistindo-o respirar com dificuldade. Eu sorri malvada. Ele ficou puto e passou a me penetrar com mais vigor. Quase urrei e ele mordeu a própria boca controlando o gemido selvagem. Minhas costas roçavam na parede gelada, para cima e para baixo, conforme ele recolhia e enfiava o pênis. Eu tentava arqueá-las com o choque de temperaturas.
Para evitar que eu colocasse sua cabeça em baixo da água de novo, começou um beijo molhado e atrapalhado, pois meu tronco subia e descia com a pressão que ele exercia no meu corpo, assim, não conseguíamos sintonizar os movimentos de nossas línguas. Desistindo do beijo, ele mordeu e sugou meu lábio inferior e só soltou quando eu fiz um som de reclamação.
Meus gemidos aceleravam e aumentavam de volume conforme meu desejo de gozar. Segurava-me com todas as forças para retardar o fim da transa. E isso parecia deixar ainda mais gostosa a penetração. Minhas unhas descarregavam meu desespero nos ombros e nas costas de e eu tão pouco me importava se estava doendo ou machucando-o. Os gemidos dele ficavam cada vez mais grossos conforme sentia que estava chegando perto de ejacular. Sua exasperação o fazia querer me penetrar mais rápido. Ele se esforçava a aumentar a velocidade e aquilo me deixava completamente insana. Ao jogar minha cabeça para trás, soquei-a na parede outra vez e permiti-me gozar.
diminuiu consideravelmente o ritmo de seus movimentos e eu relaxei minhas mãos em seus ombros aproveitando o quanto ele ainda aguentava. Daquele jeito ainda era bom. Nossos gemidos abaixaram. Aproximei meu rosto do seu, agora sendo possível um beijo decente. Pouco tempo depois, ele ejaculou, resistindo a retirar seu pênis da minha vagina. Mas acabou soltando-me devagar, me pondo de pé no chão.
Minhas pernas estavam trêmulas. Eu dedilhava seus ombros enquanto ele fazia o mesmo com a minha lombar. Afastou-se e me virou de costas. Tive receio do que ele fosse fazer. Levou todo o meu cabelo para um lado do pescoço, deixando o outro livre para que ele pudesse beijar. Abraçou-me por trás. Sua respiração quente atingia a lateral descoberta do meu pescoço.
– É melhor eu ir. – sussurrou. – Ninguém pode me ver aqui.
– Eu sei.
deu um beijinho na parte de trás da minha cabeça e em seguida ouvi o som da porta de vidro da cabine. Quando me virei, vi que ele tinha pegado a embalagem do preservativo e estava do lado de fora se enxugando na minha toalha. Na minha toalha! Tudo bem, eu deixo só porque ele me deu prazer. Vestiu-se e foi embora. Fiquei algum tempo repetindo mentalmente tudo o que tinha acabado de acontecer.

Bom dia, sexta-feira tchutchuca! Nem sei por que acordei de bom humor, mas, afinal, é necessário ter um motivo pra estar de bom humor?
Levantei, me espreguicei, tomei banho, penteei o cabelo, pus o uniforme, passei a maquiagem leve de cada dia... Peguei meu material daquele dia, joguei na mochila e fui em direção à porta. Prestes a pôr a mão na maçaneta, percebi que havia um papel branco no chão – alguém jogara um bilhete por debaixo da porta.
Abaixei-me e peguei o papel escrito em letras de máquina com caneta esferográfica preta:
Senhorita , se eu fosse você, tomaria mais cuidado em esconder o próprio rabo. Você tem sido muito burra em pensar que pode enganar a todos. Você não pode. Eu sei que estava com no banheiro masculino semana passada e na piscina ontem, sendo que depois transou com o no vestiário feminino do campo de futebol. É melhor ficar mais esperta se não quer passar a vergonha de todos descobrirem a vadia que você é.
Meu coração gelou quando meu cérebro registrou a última palavra do bilhete. Eu estava chocada. A primeira coisa que pensei foi: quem escreveu essa merda? Essa pessoa está me vigiando? Só pode estar!
! Está acordada? Não quero me atrasar hoje! – gritava socando a porta pelo lado de fora.
– Estou indo!
Por um instante, eu não sabia o que fazer. Guardei o papel num bolso interno da mochila e saí do quarto.

Capítulo 6

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O melhor dia da semana. Não, o melhor dia do mês, definitivamente. Não é uma sexta-feira comum. É a última sexta-feira do mês. Uma semana depois de receber aquele bilhete dos infernos e não ter nenhuma pista de quem tenha escrito aquela baixaria, hoje acontece o único evento desse colégio que me faz bem. A única coisa que me faz esquecer, ao menos um pouco, que eu vivo nessa prisão, vulgo Leader High School. Hoje é dia da Reunião.
As aulas de uma sexta de Reunião até passam mais devagar. Todos ficam loucos. Sempre. Quando o último sinal bate, já de noite, todos correm para o alojamento e vão se aprontar para a usual “confraternização”.
– Uau, você está gata! – exclamou, olhando e eu da cabeça aos pés quando aparecemos na escada. Ele e Taylor esperavam sentados num degrau enquanto nós acabávamos de nos arrumar no meu quarto. Os dois usavam calças jeans e blusas da manga. com uma branca escrito “I hate her” em vermelho e Taylor com uma preta e um desenho abstrato laranja.
Eu estava vestindo macacão de cetim azul claro de alças finas com uma fita de pano grossa preta amarrada num laço como cinto, meia arrastão de trama fina e sapatilhas também pretas. O macacão era de uns anos atrás, o que o fazia ser bem justo e curto – uma das poucas roupas que eu possuía no colégio sem ser uniformes; essas roupas, eu usava na Reunião.
– Quem você está chamando de gata? – perguntei, parando e pondo as mãos na cintura numa pose. Taylor deu um risinho. estava usando uma blusa vermelha justa e de manga, e a saia azul marinho do uniforme com o cós logo abaixo dos seios como uma saia de cintura alta, deixando-a bem curta – exatamente como usávamos no dia-a-dia –, e também um cinto fino branco e sapatilhas pretas. É, eu a forcei a vestir-se assim. Ela não gosta de se fantasiar de pop star, mas eu nunca a deixo escapar.
– É claro que é você, né? – respondeu por , que não teve tempo sequer de abrir a boca.
Coitadinho – pensei. Ele ficou sem reação, com uma expressão vazia no rosto. Se era mesmo para mim o elogio e ele ficara envergonhado só por tê-lo interrompido, eu não sei. Mas o que pareceu a mim, pelo menos, é que ele soltou o comentário sem querer direcionado à minha amiga implicante, que nem percebeu que era para ela.
– Não importa. It’s time to party! – Levantei os braços alegremente ao enunciar, passando por e Taylor. Joguei uma piscadela para eles e desci as escadas na frente de todos.
Ao me aproximar das portas de vidro da saída do prédio do alojamento, parei e olhei para trás, esperando o pessoal para sairmos todos juntos. Vi Taylor descendo as escadas e perguntei:
– Onde estão a e o ?
Taylor tirou uma mecha de cabelos escuros e ondulados de cima dos olhos, olhando rapidamente para o teto. Ele estava tentando me enrolar, eu sabia. Mas a minha desconfiança deu lugar a uma observação – não que eu costumasse reparar, principalmente no Taylor, mas ele cortou o cabelo? Ou pintou ou hidratou?
– O que você fez no cabelo? – o interrompi, pronto para responder. Por que eu estava perguntando aquilo?
– O que? Meu cabelo? Ah... Você gostou? É o meu shampoo novo.
Eu não ligava para o cabelo dele. Nunca liguei. Nunca sequer tinha reparado na cor. Taylor era só o baterista, geralmente quieto e cheio de sorrisos tímidos. Por que eu estava analisando seu cabelo, seu lápis preto de leve nos olhos verdes e o rosto bonito escondido sob cabelo cobrindo toda a testa?
– Tá, eu sei. – Ouvi a voz de vindo da escada e me virei para ela. Ele e estavam descendo quase um do lado do outro, ela um pouco à frente.
– O que você sabe, ?
– Eu? Ah, ... – ele disse vindo até mim, deixando para trás –, eu sei que você está muito gata e vai arrasar no show hoje. – Passou um braço pelos meus ombros me carregando para fora do prédio. Sim, outro que estava me enrolando. Mas resolvi deixar pra lá, seja sobre o que for que ele e a estiveram falando.

Entramos no ginásio poliesportivo, lotado de gente num ambiente quente e abafado, em contraste com o ar frio lá fora. Todos os alunos de todas as turmas estavam lá, como em todas as Reuniões. Somente algumas partes do teto sobre as arquibancadas em volta da quadra estavam iluminadas e também as luzes sobre o palco montado na frente do gol e da cesta de basquete, fazendo com que o resto do lugar estivesse confortavelmente escuro. Havia mesas em alguns cantos e nelas, tigelas grandes com líquidos e copos de plásticos para nos servirmos. Dizíamos ser suco, mas não existia ali quem não soubesse que continham bebida alcoólica. O jantar das sextas de Reunião foi substituído por sanduíches, misto-quentes e hambúrgueres. Nas arquibancadas, estavam os professores, ou pelo menos a maioria deles, vigiando a todos na quadra – ou melhor, fingindo vigiar, já que eles estavam de saco cheio quase tanto quanto nós de aturar o mês inteiro de aulas. E, além disso, eles usam do nosso “suco” para fazer seu próprio “happy hour”, ou seja, não podem reclamar.
– Vou beber alguma coisa e já vou para o palco. – avisei.
– Vou contigo. – falou, me seguindo. e Taylor foram acabar os ajustes para o show.
Cumprimentei algumas pessoas no caminho e parei ao lado de uma mesa de bebidas. Peguei uma concha e mergulhei na tigela, depois enchi um copo de plástico.
– Estou morrendo de fome! – falava e gemia enquanto mastigava um hambúrguer.
– Você está sempre com fome, menino! – Brinquei. Em seguida, bebi o líquido do meu copo de uma só vez. Senti um gosto forte de álcool e um bem fraco de morango, e engoli. Minha garganta queimou e eu fechei os olhos com força.
– Vá com calma, mocinha. – advertiu, me abraçando por trás e dando um beijo no meu ombro. Virei de frente para ele e passei meus braços por seus ombros, dando-lhe um selinho.
– O Chuck trouxe bastante bebida esse mês, hein?
– Pelo visto, né? Não tenho falado com ele.
– Ah, não? Achei que estivessem amiguinhos. – comentei sarcasticamente.
– Ele voltou para a classe de Italiano. Não deve ter gostado da de Francês.
Cínico! Você acha mesmo que me engana, não é, ? – pensei. Mas ao invés de soltar alguma frase que pudesse parecer irritada, simplesmente sorri.
– Você está mais linda que o normal hoje. – disse, encostando sua testa à minha. Meus olhos ficaram extremamente perto daquelas íris lindas que seus olhos possuíam e pelas quais tantas garotas eram encantadas. O que ele fazia comigo através daqueles olhos?
Uma de suas mãos se enfiou nos meus cabelos, os dedos entre os fios num toque suave e gostoso. A outra mão, posicionada na minha cintura, mantinha meu corpo colado ao seu. A ligeira ira por ele estar mentindo para mim quanto ao Chuck se distanciava do meu coração conforme eu fechava os olhos. Sim, o safado era o terceiro a me enrolar hoje, todos em menos de meia hora. A diferença é que ele sempre me enrola com uma carícia nos meus cabelos e uma atitude aparentemente romântica.
– Quando estiver no palco, quero que se lembre do que eu te disse na primeira vez que dormimos juntos.
Assenti com a cabeça, tentando lembrar ou adivinhar do que ele estava falando. Mas antes que eu pudesse chegar a uma conclusão, seus lábios tocaram os meus delicadamente, no início, até que nossas línguas se encontraram e aprofundamos o beijo. Este se tornou intenso, mesmo que nossos movimentos fossem lentos como adora. Meu corpo formigava aos poucos.
Ouvi notas vindas da guitarra de e me toquei que eu tinha que ir logo para o palco. Nem havia notado que minhas mãos haviam largado o copo de plástico e estavam agarrando os cabelos da nuca de , e sua mão, que estava no meu cabelo, agora estava junto à outra apertando minha cintura de um jeito excitante. Desci minhas mãos para seu peito, tentando empurrá-lo, e separei nossas bocas. Ele me fitou com uma cara de desentendido.
– Tenho que ir para o palco.
Afastei-me de e fui até numa mesa de sanduíches ali do lado. Tirei outro hambúrguer de sua mão e o arrastei por um braço para o meio da multidão.
No caminho, encontrei Chuck rindo com um garoto negro que, assim como ele, tinha dreads no cabelo até o meio das costas. Virei-me para e pedi:
– Diga a que eu já estou indo.
– Se você está indo, por que você está parada e por que eu tenho que avisar a ela?
– Não, , não teve graça. – falei séria. – Vá logo, menino! – Dei-lhe um tapinha na bunda e ele foi rindo.
Pus uma mão num ombro de Chuck e o fiz virar para mim. Tomara que esse garoto não esteja chapado – pensei.
– Chuck! – Chamei-o, já que não parava de rir como o outro garoto de dreads. É, estava chapado. – Chuck! – Segurei seu rosto com as mãos, fazendo-o olhar para mim. Ele fechou os olhos e fez biquinho para um selinho. Dei-lhe um tapa na bochecha e voltei a segurar seu rosto, mas ele reiniciou os risos. – Me ouve, garoto!
– Não sou surdo. – disse ele sério e voltou a rir. Afastei minha mão para dar outro tapa, ele começou a gritar: – Não, não, não!
– Então escuta, Bob Marley! – Ele voltou a rir com a minha comparação. Dei-lhe outro tapa.
– Eu estou escutando, caramba! – reclamou.
– Você fez o que eu te pedi?
– Você me pediu alguma coisa?
– Argh, Chuck! – Irritada, afastei minha mão outra vez para um tapa.
– Ok, ok, já lembrei! Eu trouxe hoje à tarde com as coisas da Reunião e fiz o que pediu há pouco tempo, quando a maioria das pessoas já tinha vindo para cá e o alojamento estava vazio.
– Hm – assenti com um pé atrás. – Obrigada. Eu te devo uma.
Chuck fechou os olhos e fez um biquinho para um selinho de recompensa, dei-lhe mais um tapa e fui em direção ao palco.

(’s POV)

Eu poderia estar em casa – eu martelava em minha mente – assistindo um filme de cueca na sala, bebendo uma cerveja. Eu poderia estar numa boate. Se eu tivesse ânimo como um cara normal da minha idade, essa seria uma boa ideia. É sexta-feira. Anos atrás, eu estaria no bar do Bane, acabando com a minha vida insignificante. É engraçado como hoje eu vejo a merda que eu fazia.
Esparramado na minha confortável cadeira de couro, eu me distraía em pensamentos sem utilidade para não ter que olhar nem mais um segundo para aquela mesa cheia de papéis e aquele computador maldito cheio de documentos. Tanta coisa irrelevante. Ainda não acredito que em pouco menos de um mês nesse colégio, eu já não esteja aguentando mais. Às vezes me pergunto o que eu estou fazendo aqui. Eu poderia contratar alguém para assumir o comando desse lugar, mas acho que meu pai me mataria do além. Ou eu mesmo me mataria... Eu devo isso a ele. Não é questão de escolha.
– Diretor! – Rompi meus devaneios ao perceber alguém batendo na porta. Não era Katherine. Ela já teria entrado. Além disso, ela disse que ia ter uma “reunião” com os professores e que ia ser divertido. Chamou-me para ir com ela, mas eu disse que não estava interessado.
Essa mulher... é fogo! Não que ela seja feia. Ela é bonita. Embora isso não signifique que ela vá receber algo de mim com charminhos, sacudindo os cabelos castanhos compridos e jogando piscadelas com os olhos marcados de lápis preto. Eu simplesmente não gosto de mulheres oferecidas. É muita oferta para pouca procura.
– Diretor! – A voz do outro lado da porta chamou novamente.
– Entre! – pedi. Era aquela aluna... Qual é o nome dela mesmo? Aquela que estava com a Senhorita no primeiro dia que vim ao colégio. ? ... . Isso! . – Senhorita ? O que faz aqui tão tarde?
A garota fechou a porta com força, com pressa ou irritada. Veio até a minha mesa com o andar pesado. É, com certeza estava irritada. Não pude evitar notar que sua saia era, definitivamente, mais comprida que a da . Aliás, a saia daquela menina nem pode ser chamada de “menos comprida”. Aquilo lá é um cinto!
– Diretor, você tem que dar um basta nessa vadia! – exigiu com as mãos apoiadas na minha mesa e o corpo tombado para frente, com a intenção de parecer intimidadora. Às vezes eu tenho vontade de rir... As criancinhas arrogantes desse colégio acham que eu sou coleguinha delas! Tudo bem que quando eu cheguei aqui eu estava igual a um imbecil do primário, principalmente perto da , mas eu não sou um diretor. Eu estou aprendendo. Parece que não tem essa de aprender com esses pirralhos. Tenho que fazer alguma coisa para eles verem que têm que respeitar seus superiores.
– Primeiro, senhorita... – falei, levantando-me – ...acalme-se! E mais respeito, por favor. Sente-se e me diga o que aconteceu.
A garota se sentou em uma das cadeiras à frente da minha mesa e, fitando a parede atrás de mim de modo inquieto, começou a narrar o que tinha acontecido.

contou-me que jogaram uma bombinha por debaixo da porta de seu quarto e, além do barulho que lhe deu um grande susto, a brincadeira de mau gosto deixou seu quarto cheio de uma fumaça fedorenta. Ela afirmou que a responsável por isso era a senhorita e provavelmente estava certa. fez um discurso convincente e eu fui obrigado a concordar. Se eu não tomar as rédeas desse lugar agora, nunca as tomarei. E como fazer isso? Começando pela aluna mais encrenqueira da história dos colégios internos.
Eu estava sendo conduzido por até o ginásio poliesportivo e, conforme nos aproximávamos do local, era possível ouvir cada vez mais alto uma música.
(coloque a música indicada no início do capítulo para tocar)
Adentramos a instalação abarrotada de alunos. O ar estava quente e pesado, era até meio difícil respirar. Eu não conseguia reparar em muita coisa, estava consideravelmente escuro e as luzes coloridas do que parecia um palco era tudo o que eu conseguia absorver. Aquilo era um show. Um show no colégio!
Remember when I dove into the crowd
And I got a bloody knee under my skin…
…a mark from wiping out
It brings back the memories

– O show já começou – constatou, quase gritando no meu ouvido. – Você só vai conseguir falar com ela quando o show acabar. A menos que você o interrompa.
Every bone's been broken
And my heart is still wide open

– O quê? O que você está falando? – Eu tentava entender e assimilar o que estava dizendo e o que estava acontecendo. Ela se referia a . Era quem estava cantando? – O que é isso tudo? – questionei.
I can't stop don't care if I lose
Baby you are the weapon I choose
These wounds are self inflicted

– Você não sabe? – Ela riu. – Isso é a Reunião.
I'm going down in flames for you
Baby you are the weapon I choose
These wounds are self inflicted
One more thing I'm addicted too

Então é a “reunião” a qual Katherine tinha mencionado? – eu me perguntava sem acreditar que ela estivesse no meio de tamanha confusão.
With each scar there's a map that tells a story
...what a souvenir of
Young love's like jumping out an airplane
...riding a tidal wave on
An ocean of emotion
My heart rips me wide open

Os jovens estavam concentrados na frente do palco. Era tanta gente que eu não podia duvidar que estivessem lá todos os alunos. Eles pulavam juntos por causa da música como um só coração pulsando. Não pensei duas vezes nem olhei em volta. Misturei-me na multidão. Eu precisava ver de mais perto.
I can't stop don't care if I lose
Baby you are the weapon I choose
These wounds are self inflicted

Entre empurrões e pessoas derramando bebidas em mim, ninguém me reconheceu. Todos estavam entretidos demais, pulando e cantando. Dificilmente, consegui me aproximar do palco e ver . Ela tinha um microfone na mão e andava de um lado a outro cantando. Outra garota estava a sua direita tocando guitarra e cantando como vocal de apoio, à sua esquerda estava um garoto tocando baixo, e ao fundo estava mais um garoto tocando bateria. No bumbo da bateria estava escrito T.G.I.F. Por que diabos está escrito Thanks God It’s Friday no instrumento? Senti-me idiota ao lembrar que hoje é sexta-feira e certamente essas tais “reuniões” são sexta-feira, justificando o nome da banda.
I'm going down in flames for you
Baby you are the weapon I choose
These wounds are self inflicted
One more thing I'm addicted too

Voltei a olhar para . Ela parou no meio do palco, na mesma direção da platéia em que eu estava. Ela vestia um macacão curto e apertado. Antes de vê-la assim, eu pensava que não seria possível essa garota vestir roupa mais indecente que a saia do uniforme. Enganei-me redondamente. No fundo, eu tento não ter pensamentos assim aqui no colégio, em relação às alunas. Mas eu devo ser no máximo uns oito anos mais velho que elas e isso não é muito. Além disso, eu sou homem e é inevitável vir à minha mente como essa garota é... Bem, ninguém manda ela usar essas roupas.
And I cover up these scars
But I can't stop seeing stars
Whenever you're around
Whenever you're around, around

Por um instante, com ela ali na minha frente cantando a parte mais lenta da música, encarando o público com o olhar brilhante e parecendo tão serena, uma voz totalmente inconsciente sussurrou, dentro de mim, estar encantada. Ela parecia outra pessoa. Sem a agitação e o cheiro de quem está aprontando o tempo todo. Apesar de sua roupa mostrar mais do que devia para um show escolar e de seus movimentos serem delicadamente provocantes, ela não parecia insinuar algo ou ter o intuito de ser sexy como ela geralmente age. Ela estava livre, livre da imagem que ela construiu diante das outras pessoas. Ela fechava os olhos e sentia a música e, quando os abria, não era como se estivesse vendo quem estava ali em baixo, era como se ela tivesse vendo outra coisa, algo que a fizesse se sentir bem. Eu a assistia hipnotizado, sem ter a noção de onde eu estava e o que eu estava fazendo. Naquele momento, ela tinha toda a minha atenção. Eu não sei por quê. Talvez eu só estivesse impressionado em ver como ela se transforma quando está no palco. Com certeza era isso. Quando a música voltou ao refrão agitado, eu voltei à realidade e notei que eu não tinha o que fazer ali.
I can't stop don't care if I lose
Baby you are the weapon I choose
These wounds are self inflicted

Virei as costas e fui na direção em que tinha vindo. Voltei com a mesma dificuldade, com empurrões e mais bebida molhando meu terno.
I'm going down in flames for you
Baby you are the weapon I choose
These wounds are self inflicted
One more thing I'm addicted too

– Pra que você foi até lá se não foi para parar o show? – cobrou-me raivosa assim que me aproximei de onde a tinha deixado anteriormente.
– Não iria adiantar de nada parar o show. Estou com a cabeça cheia e não tomaria as medidas certas desse jeito. – respondi, sem parar de andar em direção à saída. Sem realmente querer, olhei as arquibancadas em volta da quadra onde tudo acontecia e vi Katherine junto aos professores, o coordenador Sr. Simpson, a conselheira Sra. Abeloff, todos rindo com copos nas mãos. Copos.
– Você não vai fazer nada com aquela garota? Onde eu vou dormir? Meu quarto está com um fedor insuportável! – não parava de falar enquanto eu pensava nos membros do corpo docente bebendo e rindo daquele jeito.
Olhei em volta e, apesar da pouquíssima luz, vi que havia mesas com bebidas em alguns cantos da quadra. Aproximei-me de uma das mesas. Pareciam ponches. Peguei uma concha e pus daquela bebida em um copo de plástico. Só de levar o copo até minha boca, já senti o cheiro de álcool. Não era preciso beber, mas o fiz mesmo assim só para confirmar. A bebida queimou a minha garganta, o teor de álcool era maior do que eu esperava.
– Diretor! Não está na hora de beber, não é? – reclamou da minha falta de atenção a ela.
– Essas reuniões... têm sempre bebidas alcoólicas? – perguntei, ainda sem olhá-la.
– Sim – ela respondeu cansada –, em todas as Reuniões.
– E isso é toda semana? Os professores, a Katherine, eles sabem das bebidas alcoólicas? – indaguei, examinando o que mais tinha naquela mesa. Sanduíches e bebidas. Poderia ter drogas. Alguém deve vender drogas aqui.
– Não, todo mês, na última sexta-feira. E sim, todos sabem disso. Sério, ninguém te contou sobre a Reunião? – estava incrédula.
– Não. – neguei, seco.
– Ok, não me importa. Agora me diz: onde eu vou dormir? – Ela pôs as mãos na cintura, numa postura insolente.
– Não pode dormir no quarto de uma amiga?
– Não. – ela disse, orgulhosa. Se ela é chata assim o tempo todo, deve ser por isso que não tem amigas.
– Então durma na enfermaria. – respondi com desdém, jogando o copo de plástico no chão junto a vários outros e indo em direção à saída, deixando para trás.

(’s POV)

– Bom dia pra você também. – murmurei para , que me acordava com chupões em minha barriga.
Manhã de segunda-feira. foi para casa no sábado e voltou no domingo, e veio ficar comigo. Um pouco de conversa e risos, o resto foi sexo mesmo. Agora ele passeava com a boca pelo meu corpo de calcinha e sutiã. Abri os olhos lentamente, a luz vinda da janela com a cortina aberta fazia com que eu não enxergasse nada. Recuperando a visão aos poucos, vi que ele já estava coma calça de alfaiataria do colégio, a blusa branca e a gravata vermelho escuro. Quando sua boca alcançou meu pescoço, perguntei:
– Que horas são?
Ele não respondeu. Continuava dando chupões e beijos enquanto suas mãos apertavam minhas coxas e seios. E, por mais que eu estivesse excitada, tinha alguma coisa que me dizia que eu devia me apressar. Agarrei os cabelos de e os puxei para afastar seu rosto. Quando abri a boca para falar com ele, bateu na porta gritando:
! Está acordada? Temos que ir logo porque vai ter preleção no auditório hoje.
Empurrei de cima de mim sem a menor delicadeza e fui até a porta. Abri somente um pouco para o caso de alguém passar no corredor e eu poder me esconder atrás da porta para que não me veja de roupas íntimas.
– O está aqui. – sussurrei. – Eu ainda preciso me arrumar. Vá na frente e guarde um lugar pra mim, tá? – pedi.
– Tá bom. – ela assentiu sem saber se ria da minha cara ou se me matava. – Você é uma safada mesmo... – zombou.
– Ei! – reclamei. – Ah, mais uma coisinha! Pegue um cappuccino, please? – Pisquei os olhos continuamente, num gesto fofo.
– Ok, ok... Safada e folgada.
– Obrigada, te amo. – falei e fechei a porta. Olhei para a cama e estava deitado confortavelmente, com um sorriso pervertido estampado naquela boca convidativa. – Nem pense em transar agora. Vou tomar banho.
– Hmmm... Vou junto! – disse, se levantando.
– Eu disse “nem pense em transar agora”, o que envolve “nada de banho juntos agora”. – Ele fez um biquinho a partir da minha fala e eu continuei: – Nem pense em chantagens também.
– Te pego lá fora, você vai ver. – ele ameaçou e nós rimos.

– A pessoa que vocês mais amam no mundo chegou! – anunciei, apoderando-me da poltrona entre e . Sentei-me e acomodei meus pés no apoio de cabeça da poltrona da frente. – Mio cappuccino, per favore. – estendendo minha mão, pedi meu cappuccino em italiano a .
– Ecco il, signorina. – Ela respondeu “aqui está, senhorita”, entregando o comprido copo de plástico escrito LHS.
– Isso é bullying, sabia? – se manifestou, com os olhos fixos no palco, no qual no fundo estavam o corpo docente, o coordenador, a conselheira e a vice-diretora sentados em cadeiras, conversando animadamente.
– Por quê? – perguntei.
– Porque eu não sou do curso de Italiano, sou do curso de Francês, e vocês estão me excluindo. – respondeu, sem me olhar.
– Ah, que gracinha! Tá com ciúmes de quem? De mim ou da ?
Ele se avermelhou como um pimentão. Sei que chega a ser maldade, mas não consigo evitar zoar o . Quando eu vejo, já falei. Pelo menos a não percebe. Bem, não sei se isso é bom porque talvez, se ela percebesse, poderia se interessar por ele e o amor dele não ser mais não correspondido.
Deixei meu copo de cappuccino no porta copos e abracei , dando vários beijos em sua bochecha, enquanto ele gargalhava.
– Eu sei que é de mim, nem precisa falar. – brinquei, ainda agarrada ao pescoço do meu melhor amigo.
– Bom dia. – Uma voz firme saiu das caixas de som. Larguei e olhei para o palco. Mal acreditei. Ok, na verdade, não foi difícil de acreditar, mas com certeza meu primeiro pensamento em quem seria o dono daquela voz não foi o diretorzinho. Parecia diferente. Diferente daquele que vimos há quase um mês durante o discurso de apresentação o qual começara com a voz insegura e foi ganhando confiança durante a apresentação. Hoje o diretor parecia estável e sólido logo no tom de voz do seu “bom dia”. – Desde que cheguei ao Leader High School, eu tenho observado muito e agora eu entendo porque os alunos são tão desleixados.
– É o que? Ele disse mesmo que nós somos desleixados? – perguntou, incrédulo. Não pude respondê-lo, pois minha boca estava aberta descrente do que o diretor tinha acabado de dizer. Ele estava querendo outra confusão como aquela dos nerds ou o quê? E não só e eu ficamos pasmos, mas sim o resto do auditório, que cochichava em todo lugar.
– Acalmem-se! – O diretor ordenou, sem paciência. – Continuando... Eu pensava que vocês não obedecem regras porque moram num colégio interno, e eu entendo que seja extremamente desgastante. Mas agora eu vejo que vocês têm essa ineficiência porque as pessoas que deveriam seguir regras para que vocês as seguissem também, não o fazem. Em outras palavras, os professores, o coordenador Leonard Simpson, a conselheira Tamara Abeloff e até mesmo a vice-diretora senhorita Katherine Su Hom são irresponsáveis a ponto de serem cúmplices de todos vocês no uso de bebidas alcoólicas no que vocês chamam de “Reunião”. – Ele fez aspas com as mãos.
Enquanto falava sem parar, os alunos assistiam surpresos, contudo, mais ainda, os professores, o coordenador, a conselheira e a Katherine. Eles estavam num nível além de surpresos, incrédulos e, principalmente, constrangidos. Eles estavam loucos, parecendo querer enfiar a cabeça na terra ou soprar um saco de papel para se acalmar.
– Eu pensei muito. – continuou sem tirar os olhos dos alunos nas poltronas à sua frente – Não posso correr o risco de errar. Cheguei à conclusão de que, até que vocês amadureçam, todos vocês, do corpo docente e discente, a Reunião está suspensa! Nada de festinhas na última sexta-feira do mês!
O auditório todo fazia barulho, todos revoltados, até os funcionários no fundo do palco logo atrás de e seu microfone. Porém, o diretor não se abalou nem se importou e continuou com a voz ainda mais rigorosa e severa:
– Além disso, está proibida a violação do uniforme! Nada de amarrar a blusa, usar outro nó na gravata que não seja o tradicional, usar outro sapato que não seja o do uniforme e, o mais importante, para as garotas, nada de subir a saia do uniforme! – disse a última parte com bastante ênfase. – A barra da saia deve estar nos joelhos! Nos joelhos, garotas!
– Cara, ele está acabando com a felicidade dos garotos do colégio! – reclamou.
, você sabe como vestir a saia sem deixá-la curta? – perguntou, zombeteira.
– Não, amiga, eu acho que não sei – respondi, quase sem mexer os lábios. Eu mal conseguia pensar, era muita informação. Quando o diretor ficou tão puto com o nosso modo de vida no colégio? Ele expondo tantas novas ideias... O que foi que eu perdi? Quando foi que ele resolveu virar um diretor de verdade?
– Logicamente, há outras regras que vocês receberão por escrito em forma de manual em sala de aula. – explicou . – Quem infringir alguma regra uma vez receberá a pena de prestação de serviços dentro do colégio, como limpar instalações, lavar uniformes, etc. Quem infringir qualquer regra pela segunda vez receberá a pena de prestação de serviços em alguma instituição de minha escolha. Quem infringir qualquer regra pela terceira vez terá os pais chamados ao colégio e, dependendo da regra infringida, será convidado a se retirar do colégio.
– Está vendo? É melhor você parar de fazer merda. – advertiu.
– Desculpa, gata. Sei que você se preocupa comigo e você é uma ótima amiga por isso, mas não vai ser tão fácil assim para o diretor me fazer parar de aprontar. – falei, olhando fixamente o diretor no palco.
– Fácil? Eu acho que pelo o que ele está impondo, não está tão fácil assim para ele te fazer parar de aprontar.
– A não ser que a queira lavar os uniformes do time masculino de futebol ou fazer faxina nos banheiros... – hipotetizou e não conseguiu evitar um risinho. Nos olhos de , ele ficara feliz com isso.
– Eca, ! Vocês dois podem deixar, eu não vou lavar nem fazer faxina nem nada. Relaxem, essas penas não vão colar comigo.
E não vão mesmo – eu pensava. Esse discurso todo soa a mim mais como um desafio do que como uma ameaça. Ah, diretorzinho, não é de hoje que você me deve uma. Mesmo que o professor Craig tenha considerado as questões que eu não colei – ou melhor, as que ele não viu que eu colei –, esse diretor meia boca ordenou que ele me desse zero na prova e que eu limpasse aquelas porras de piscinas todos os dias depois dos treinos de natação durante uma semana. É, bumbum-de-neném, você não vai me vencer tão fácil. Chega ser até um pouquinho excitante.
– Mais uma coisa. – ele voltou a falar no microfone. – Assim como os professores e funcionários chamam vocês de Senhor e Senhorita, vocês têm a obrigação de chamá-los de Senhor, Senhora ou Senhorita, não importando se forem as serventes do refeitório ou até mesmo os seguranças e vigias. E, claro, a mim. Se eu ouvir alguém me chamando de “você” ou chamando qualquer outro funcionário dessa maneira, contará como violação a uma regra e a pena será aplicada como a quebra de qualquer outra regra.
– Eu chamo os professores de senhor e senhora... – comentou.
– O lance não é esse, amiga. O lance é que ninguém chama o diretor de senhor. Coitadinho, já que ninguém o respeita, ele tem que ameaçar. – falei.
– Tenho pena dele. – foi quem disse desta vez.
– Vocês estão dispensados. Em ordem, podem ir para suas salas de aula. – falou e os alunos aos poucos levantavam de suas poltronas e iam em direção à saída. Além de vários outros, , eu e não nos movemos, afinal era muita gente querendo sair do auditório naquele momento.
O que eu vou fazer agora? Tenho que pensar em algo rápido. As coisas não podem ficar assim. Seria muita bondade dar um pouco de paz ao diretorzinho-bunda-de-propaganda-de-talco. Ok, ok, vou ser boazinha uma vez nada vida... Um dia. Talvez alguns dias para ele achar que tudo vai ser como ele quer e para eu pensar e providenciar coisas interessantes para as próximas ocasiões.
– O Chuck estava muito chapado na Reunião. – disse , rindo.
– É, estava mesmo... Mas por que você comentou isso agora? – indaguei.
– Ah, é que ele está ali e eu lembrei. – apontou para Chuck algumas fileiras à frente de nós. Vê-lo despertou uma área do meu cérebro que me levou a uma ideia.
– Já volto. – avisei, levantando-me.
– Acho bom voltar logo mesmo porque eu não trouxe esse cappuccino à toa! – falou com uma pontadinha de irritação.
Voltei e peguei o cappuccino para deixar e meu estômago satisfeitos. Bebendo-o, fui em direção ao Chuck, que estava sozinho, sem o garoto negro que vi na Reunião e que também tinha dreads no cabelo. Sentei em uma poltrona ao lado da que Chuck estava esparramado, fitando o apoio de cabeça da poltrona da frente. Bebi mais um pouco do meu cappuccino e pus o copo no porta copos. Mesmo com a minha movimentação, ele continuava absorto.
– Chuck? – chamei-o lentamente e ele voltou seu rosto para mim na mesma velocidade. – Você está bem? Está chapado?
– Não – ele riu –, só estou com sono. Muito sono.
– Ah, que bom que é só isso. Não gosto de te ver chapado... Como na Reunião.
– Você falou comigo na Reunião? – Ele pareceu ligeiramente surpreso. Pensando bem, é melhor mesmo que ele não lembre os tapas que eu lhe dei. Senão, poderia não querer me ajudar. Com certeza não me ajudaria.
– Pois é, falei. – Abri um sorrisinho amigável. – Um dos motivos para você não ficar chapado, viu? Seria bom você se lembrar das coisas que acontecem. Mas não vamos falar disso agora... Eu preciso de um favor.
– Outro?
– Não se preocupe, dessa vez você não vai precisar jogar bombinha por debaixo da porta de ninguém. – Soltei uma ligeira risadinha. – Eu só preciso que traga algumas coisas para mim.
– Não sei, não, ... Você viu o que o diretor acabou de falar...
Olhei para o palco onde o diretor e os professores, a Kat, a Sra. Abeloff e o Sr. Simpson conversavam. Estavam longe de nos ouvir. Voltei a olhar Chuck.
– Não se preocupe. Não vai acontecer nada com você. Qualquer coisa que aconteça, eu assumo a culpa. Nunca vou mencionar seu nome. Pode ficar tranquilo. – Acariciei de leve seu ombro com uma mão.
– Tá bom, tá bom... O que você precisa?

Capítulo 7

– Por que o senhor acha que fui eu? – perguntei com calma na mesma medida que tinha sarcasmo na expressão do rosto, porém, meu tom de voz era sério e até, quem sabe, convincente. O diretor se mantinha sentado em sua cadeira de couro marrom escuro, debruçado em sua mesa de madeira polida cheia de papeis, um notebook e um celular touch screen, de modo como se quisesse me intimidar. Talvez fosse essa a intenção. Não obteve sucesso, diretorzinho.
Eu estava acomodada em uma das duas cadeiras de madeira de mesma cor da mesa e com os assentos de pano azul marinho. As paredes revestidas de madeira, mesmo que não fossem muito escuras, contribuíam para um ambiente conservador e inflexível, ideia reforçada pelas cortinas pesadas azuis-escuras como os assentos das cadeiras. Eu não sabia por que eu estava reparando tanto, conhecia aquela sala de cor e poderia continuar descrevendo-a mentalmente se não tivesse que voltar a direcionar meu cérebro à resposta do diretor a qualquer momento.
Aquela situação estava tediosa. Minha postura estava totalmente relaxada: a bunda na ponta do assento, o pescoço na parte extrema de cima do encosto e as pernas cobertas de meia calça branca estavam cruzadas mostrando que minha saia não estava nos joelhos como o diretor ordenara a todas as garotas alguns dias atrás. Como não sou boba nem nada, apesar de não usar a saia no comprimento exigido, também não coloquei a saia no comprimento que eu costumava usar, no meio da coxa ou até mais curto. Minha saia estava um pouco abaixo do que de costume, mas não nos joelhos. Ah, isso não. Fiquei satisfeita ao perceber que o “senhor diretor ” havia reparado a minha infração à regra das saias. Era visível sua ligeira irritação, algo adorável!
– Quem mais seria responsável por implantar uma bombinha no quarto da senhorita ? – O diretor parecia oscilar entre a pontada de raiva e o equilíbrio aparentemente inabalável. – Se bem me lembro – ele continuou –, no meu primeiro dia no Leader High School, a senhorita e a estavam sendo repreendidas na sala da vice-diretora e, pelo que sei, as duas não se dão bem. Por isso eu repito: quem mais poderia ter pregado essa peça quando não vejo outra pessoa que implicasse com a senhorita ?
Hm... Diretor, quando é que você – oh, me desculpe, quero dizer, o senhor – ficou tão espertinho? Não, melhor perguntar: quando é que o senhor aprendeu a argumentar? Está tão sagaz. Será que ele tem comprado algumas “ervas” com o Chuck para se soltar desse jeito? É, pelo jeito o senhor glúteos decidiu parar de brincar de diretor. Desculpe, diretorzinho, mas isso não vai funcionar, não no meu turno.
– Então, o senhor deduziu que – eu soava ofendida – por eu não gostar da , eu sou a responsável por tudo de ruim que lhe acontece? – Eu falava fitando e alisando minha gravata vermelho escuro. – Eu poderia acusá-lo de implicância, discriminação ou até mesmo bullying, não acha?
Olhei de baixo para cima de modo cínico e provocante. Qual será sua resposta? Mostre-me o que você tem, .
Após alguns instantes me olhando fixamente, ele falou levantando-se lentamente: – Senhorita – ele suspirou –, por que apronta tanto? – perguntou com um ar de cansaço que ainda poderia ser interpretado como de desistência, pousando suas mãos sobre a mesa enquanto seu olhar, agora na mesma altura do meu, penetrava-me furtivamente. Aquilo não podia ser só um teatrinho, podia?
Levantei-me da cadeira e, exatamente como o diretozinho, tombei meu tronco e pus minhas mãos sobre a mesa, entre uma pilha de digitadas folhas mal arrumadas e um celular. Que descuido, deixar um aparelho cheio de dados pessoais tão acessível a mãos tão inquietas de uma pessoa curiosa! É pedir para pegá-lo, não é, popô de neném?
– Porque eu gosto, diretor. – respondi. – Eu gosto de agitar essa vidinha chata de colégio interno. Eu lhe disse no seu primeiro dia aqui. Eu só estou me divertindo nessa prisão que é o internato. – Expliquei, afastando-me da mesa, acertando minha postura e cruzando os braços na espera que o diretor dissesse algo que realmente me surpreendesse.
Ele abaixou a cabeça balançando-a em negação. Eu me perguntava se aquele era outro sinal de cansaço, desistência ou decepção. O que ele poderia esperar de mim? Alguma resposta sentimental? Tipo: oh, diretor – caindo em lágrimas –, eu apronto porque eu quero chamar atenção, porque eu quero as pessoas ao meu redor, eu só não quero ficar sozinha e blá, blá, blá. Será que era isso que ele me imaginou dizer?
– Sabe, senhorita? – Ele ergueu a cabeça com um olhar tão compreensivo que me causava náuseas. – Eu não sou seu inimigo. – Ele começou a dar meia volta na mesa vagarosamente para vir até mim. – Eu não quero ser só o diretor do colégio para você, quero dizer, para a senhorita. – Descruzei meus braços para respirar fundo numa tentativa inconsciente de diminuir a frequência dos meus batimentos cardíacos, que aceleravam conforme o diretor se aproximava. O que ele quis dizer com “não quero ser só o diretor do colégio para você”? – Eu quero ser um amigo. – explicou, parando em minha frente por volta de dez centímetros de distância. – Quero que venha me contar algo, pedir ajuda ou o que for que eu possa fazer para a senhorita. Eu não sou um monstro.
É, a minha teoria de que o diretorzinho esperava que eu começasse um papo sentimental estava certa. E como eu não comecei, ele o fez. Que gracinha! Só rindo! Ele quer ser meu amiguinho. Alguém conta pra ele que as pessoas não se abrem umas com as outras do nada? Confiança não nasce de um dia para o outro, meu querido.
Sua respiração quente e forte me desconcentrava.
– O senhor quer que eu desabafe? – indaguei para confirmar se eu tinha entendido direito.
– Se sentir vontade... – Ele assentiu docemente. – Eu posso estar errado, posso estar errando drasticamente, mas o meu palpite é que a senhorita esconde algo, de todos e até de si mesma, e isso está lhe atrapalhando a desenvolver e mostrar sua verdadeira personalidade.
Meus olhos estavam grudados nos dele. Aquilo era inacreditável. Ele estava dizendo que eu era falsa?
– Não quero que se ofenda. Só estou tentando ajudá-la. Se não quiser conversar comigo, converse com a conselheira senhora Abeloff ou com alguma amiga. Apenas coloque para fora.
Que-Merda-É-Essa?! Ele estava me zoando? Estava me testando, tentando descobrir qual era meu ponto fraco para que pudesse me atingir?
Senti meu rosto começar a queimar. Meu coração batendo ainda mais forte pulsava meu sangue que subia à minha cabeça. Espero que eu não esteja ficando vermelha. Não de raiva, sim de louca ansiedade por provar para esse diretorzinho que ele não sabe de merda alguma. Minha vez de falar:
– Diretor, o senhor é psicólogo? – perguntei, fechando os olhos e inspirando todo o ar que consegui – Não, né? – respondi antes que ele o fizesse. Abri os olhos e continuei tentando transparecer tranquilidade. – Psiquiatra ou médico? Já deu conselho para alguém? Desculpe, mas o senhor não é tão mais velho que eu e duvido que seja experiente o suficiente. Com todo o respeito, o senhor não é ninguém para opinar sobre minhas atitudes ou personalidade. Não tem o direito de me chamar de falsa, alegando que minha “personalidade verdadeira” – fiz aspas com as mãos – é outra.
– Não foi isso que eu quis dizer. Eu só estava tentando ajudá-la a se libertar dessa prisão na qual senhorita se sente...
Enquanto ele tentava se desculpar e amenizar o que tinha dito anteriormente, em meio a frases revoltadas e desrespeitosas, uma pequena lâmpada acendeu em minha mente. Fingindo prestar atenção, perplexa, ao que o diretorzinho meia-boca dizia, tateei a mesa discretamente até minha mão tocar o celular que lá estava.
– Diretor – interrompi –, eu aprecio a vossa... – fiz um irônico sinal de reverência, curvando meu tronco para frente, esticando um braço e o outro, ao invés de colocar no peito, coloquei nas costas – ...tentativa e iniciativa. – Quando voltava para a postura normal, enfiei o celular entre o grosso elástico da calcinha por baixo da apertada meia calça e meu corpo, torcendo para que o aparelho não caísse assim que eu andasse. – Mas eu não preciso da sua ajuda. Nem um pouco.
Virei as costas e fui em direção a porta controlando minha respiração aos poucos. Meu corpo formigava e eu não sabia o que estava sentindo. O diretor só podia estar louco. Ao pôr a mão na maçaneta, ele se pronunciou:
– Eu ainda não lhe liberei.
Ele realmente acha que eu lhe tenho algum respeito para levar em conta suas ordens? Com os olhos na minha mão na maçaneta, rebati:
– Eu sei, mas não temos nada mais a falar.
Abri a porta e saí.

Só podia ser brincadeira! Mais do que antes, a única justificativa que vejo para o diretor agir dessa maneira é ele ter se tornado amiguinho do Chuck – como tentara se tornar meu – e ter adquirido alguma droga. Só pode ser isso. O que mais seria? O que mais pode ter acontecido para ele fazer uma revolução de diretor boboca e inexperiente para espertinho, ditador de regras e que acha que pode analisar e aconselhar alguém? Ele não é nem dez anos mais velho, deveria estar na faculdade e há menos de uma semana não sabia o que fazer com esse colégio de mais de duzentos adolescentes loucos e atacados para fazer alguma coisa que fizesse esse internato parecer menos perda de tempo. Até uma semana atrás, ele parecia ter acabado de sair das fraudas direto para a direção de um dos colégios mais influentes da Europa Ocidental.
Quando foi que ele se tocou que não podia ficar sentado em sua cadeira de couro fingindo ser diretor? Quando foi que ele decidiu fazer alguma coisa? E quando ele soube o que fazer? Porque até ele expor as novas regras, ele parecia um peixe fora d’água, totalmente perdido. Será que foi ele mesmo que fez aquelas regras? Será que ele esteve observando o que havia de “errado” no colégio justamente para “consertar”? Não. Alguém abriu seus olhos. Mas quem? Katherine? Não, ela não faria isso, já que é uma das que se acabava nas Reuniões. Ela não diria nada ao diretor que arriscasse o fim das noites de diversão.
Assim como a Kat, não pode ter sido nenhum dos professores, já que todos frequentavam as Reuniões. Exceto... Angie Montessori, professora de Literatura. Será? Bem, ela nunca vai às Reuniões. Nem poderia, afinal ela deve ter uns setenta anos, o som a deixaria surda e ela não enxergaria nada dentro do ginásio. Eu não acredito que seja ela. Ela é tão pequenininha, gordinha, com cabelos branquinhos e sorriso amável. E é sempre tão legal com os alunos – menos quando fazem bagunça, aí ela tira pontos sem percebermos, então todos preferem ficar quietos na aula dela. E enquanto estamos quietos, ela é uma velhinha muito fofa.
Definitivamente, algum aluno disse algo ao diretor para que ele resolvesse tomar atitudes perante a ordem do colégio. Entre duzentos e quarenta alunos de oito turmas e quatro anos, qual será que cutucou o diretorzinho? Bem, melhor começar por quem não vai ou não gosta das Reuniões. Ou alguém que simplesmente me odeie, já que é a minha banda que toca lá. Hm, difícil. Muitas pessoas me odeiam, mesmo que finjam me adorar.
Pode parecer pura implicância, não é por querer, meu cérebro simplesmente insiste em pensar em duas pessoas. Uma, eu posso descartar de cara. Ela adora as Reuniões quase tanto quanto eu. Já a outra...
– Cara, eu fico puto quando você fica igual zumbi pensando em sei lá o que ao invés de comer! – exclamou, despertando-me para a realidade. – Sério! O almoço é Cornish Pasty! – disse como se Cornish Pasty fosse o prato mais delicioso do mundo e merecesse um tratamento divino.
– Realmente, é um almoço delirante! Uma grande pasta recheada de carne e batatas. – disse com sarcasmo.
– Eu gosto, ok? – mal-humorado se virou para a seu lado. Será que o amor dele acabou?
– Você é um carnívoro, ! – Brinquei, fazendo os dois olharem para mim do outro lado da mesa e rirem.
Rindo também, avistei Chuck e seus dreads caindo sobre seu almoço a algumas mesas de distância. Eu tinha comido dois terços da minha comida e, para falar a verdade, eu não estava com fome, pois havia tido um bom café da manhã, e ver o Chuck comendo carne com cabelo me fez não querer comer mais nada de vez.
– Pode ficar, . – eu disse, empurrando meu prato para ele. Eu bebi um avantajado gole do meu suco e fui até a mesa de Chuck.
Sentei-me na mesa, literalmente, e cruzei as pernas esperando que Chuck tirasse a cabeça de dentro do prato e me notasse ali. Ele levava uma garfada atrás da outra até a boca, sem nem acabar de mastigar a porção anterior. É, ele estava mesmo com fome.
– Oi. – me pronunciei para que ele me desse um pouco de atenção.
– Ah, oi. – ele respondeu de boca cheia.
– Posso dizer o porquê de eu vir falar com você ou tenho que esperar você comer para que possa se concentrar? – indaguei, fitando as unhas das mãos sem pressa.
– Pode dizer. É que eu estou com muita fome.
– É, percebi. Pelo menos é melhor você faminto do que chapado. – comentei com um tom inofensivo, não era um desacato. – Enfim... Vim aqui perguntar quando você vai me entregar o que pedi.
– Ah, é! – Ele pareceu se lembrar. – Vou pegar esse fim de semana.
– Ótimo! – Bati palmas. – Obrigada, Chuck. – agradeci dando-lhe um beijo na bochecha.
Voltando para a minha mesa pensando de qual maneira eu ia separar a discussão de e – sim, foi só eu sair e eles começaram a se atracar, e não do lado sexy da palavra –, uma mão puxou o meu braço, fazendo meu corpo girar cento e oitenta graus.
– Você está louco? – reclamei mesmo antes de ter visto quem era.
– Estou – respondeu. – Por você.
– Pode estar louco o quanto quiser, mas se me puxar do nada com essa força de novo vai levar um soco na cara. – falei, sorrindo sem dentes.
– Que namorada mais doce eu tenho.
– Você tem namorada? Cadê? – Ele riu, envolvendo minha cintura.
– Você consegue ser mais boba que eu. – ele disse, se aproximando para um beijo.
– Ei, no meio do refeitório cheio, não. – repreendi.
– O que é isso aqui? – perguntou com a mão sobre um volume duro no meu quadril. Ops, ele achou o celular do diretorzinho. Droga. Você me obriga a jogar seu jogo, . Você anda mentindo para mim, agora é minha vez de mentir para você.
– Ah, é o celular da Sally.
– Por que ele está com você? Eu nem sabia que a Sally tem celular.
– E por que você deveria saber? – cortei sua onda de sabichão e continuei: – Ele está comigo porque ela me emprestou para ver algumas coisas.
– Que coisas? Não podia usar seu notebook? – Não, por quê? Algum problema? – Soltei-me de e coloquei as mãos na cintura como se estivesse cobrando-o e, aparentemente, eu estava.
– Não, nenhum problema. – respondeu, puxando meu corpo para si novamente, só que de modo brusco. Aproximou seu rosto do meu, colando nossos narizes. Apesar de a nossa posição parecer romântica, o tom de voz de era quase, eu diria, bruto. – Eu só queria saber o que minha namorada queria ver no celular da Sally que não podia ver no seu notebook.
está cada vez mais estranho. Quando começamos a namorar, ele era tão legal e divertido... Vivíamos rindo juntos. No início do quarto ano, ele começou a falar em transar e falava somente disso. Aí, então, descobri que ele estava mentindo – sobre Chuck ter mudado para sua classe –. E não há motivos para essa falsidade. Depois, ele simplesmente sumiu por dias e quando voltou simplesmente disse que seu pai tinha sido hospitalizado. Fora isso, ele só quer fazer sexo. Bem, o problema não é esse. O problema é que ele tem sido bipolar. Há momentos em que parece que não se importa comigo, não liga para mim nem dá satisfações – e eu não peço, porque eu não sou do tipo que corre atrás de homem nem sou uma namorada chata –; há outros momentos em que ele é fofo e romântico, me elogia e é carinhoso e divertido.
Levei meu rosto à lateral de sua cabeça, encostei meus lábios no lóbulo da sua orelha e sussurrei:
– Pornografia. – Afastei meu rosto e olhei-o de frente. – Era isso que eu queria ver no celular da Sally. Você sabe muito bem que o acesso a sites nos notebooks aqui dentro do colégio é controlado. – lembrei-o da restrição da internet e virei as costas, voltando para minha mesa.
Aproximando-me a ponto de ouvir o arranca rabo de e , sem que eles me vissem, mudei de ideia e decidi sair do refeitório. Já que estava com o celular do diretorzinho, é melhor fuxicar do que tentar mediar a discussão dos meus dois queridos amigos.
Chegando perto das portas duplas de vidro, elas se abriram automaticamente e saí. Para onde ir? Já sei.
Indo para a área acidentada atrás do alojamento, passando pelas instalações esportivas do colégio para cortar o caminho que gastaria passando pelos corredores em volta da parte a céu aberto, me deparei com uma cena inesperada e até inusitada – limpando flocos de gelo do campo de futebol.
Sem pensar no que eu estava fazendo, ou melhor, no que eu estava prestes a fazer, fui até ele. Parei em sua frente, fitando-o de cima em baixo. Eu deveria rir na sua cara por ter me jogado na piscina aquele dia, ou deveria espalhar alguns flocos que estavam a meu alcance, algo que me desse vingança ou um pobre sentimento de revanche. Mas nada fiz. Apenas esperei que ele percebesse minha presença, e ele logo o fez.
levantou a cabeça e me olhou mal humorado, cuspindo:
– O que é? Veio me zoar?
– Não... – respondi num tom de voz baixo e inofensivo. – Fiquei surpresa por vê-lo aqui e pensei em perguntar o que fez para que fosse castigado.
– Você anda pensando demais, não acha? – Ele baixou a cabeça, voltando a puxar alguns flocos que estavam por perto para a lateral do campo mais próxima.
Naquele instante, falei mentalmente para mim mesma como eu fui idiota de ir ali falar com ele. Perguntei-me o porquê de eu ter ido ali falar com ele. Total perda de tempo. Comecei a caminhar para que eu continuasse a ir até meu destino, no entanto, se pronunciou, fazendo-me parar e voltar a olhá-lo:
– Sabe por que estou aqui? – Balancei a cabeça indicando um “não”. – Só por eu estar sem gravata. E sabe por que eu estou sem gravata? – Ele largou a grande e aparentemente pesada pá e começou a andar até mim. – Porque eu emprestei para o seu – apontou com o dedo indicador – namoradinho.
Não faz sentido. tem tantas gravatas, por que precisaria de uma do emprestada?
– Assim – continuou –, eu infringi a regra de não violar o uniforme.
– Por que você está falando como se a culpa fosse minha? – perguntei, me sentindo estranha. Um vento frio de Dezembro passou por nós e eu abracei meu próprio corpo, pensando em como a neve estava demorando a chegar esse ano. – Esquece. – bufou e se voltou para a pá e a puxar os flocos de gelo da grama.
Faça-me um favor, – eu dizia para mim mesma, indo na direção do alojamento –, não chegue perto de mim. Idiota! Não dá para ser legal com ele. Não dá para falar com ele. Eu deveria mesmo ter rido da cara dele, espalhado os flocos que ele já havia recolhido, deveria ter zombado dele e pisoteado o orgulho ridículo dele. Vingança é podre, mas e daí? Foi sacanagem dele ter me jogado na água enquanto eu limpava a piscina, e eu deveria ter sacaneado ele também. Eu realmente não sei o que deu em mim para ter ido até ele perguntar por que tinha sido castigado. Merda de curiosidade! E aquela voz arrogante dizendo aquelas coisas como se fossem culpa minha.
Cheguei ao espaço atrás do alojamento, que era acidentado e tinha um riacho que tinha uma cor estranha nessa época do ano em que ele congelava. Não estava branquinho, estava um azul meio acinzentado. Na margem que eu estava o gramado ainda era verde, mas um verde desbotado. Havia uma única árvore, seu tronco também estava acinzentado e não tinha uma folha sequer. Do outro lado da margem, havia uma multidão de árvores, peladas e pobres de cor como a do lado que eu estava. Eram tantas árvores que não era possível ver o fim do bosque nem o fim do muro do colégio que as acompanhava. Sim, o bosque pertence ao colégio.
Limpei uma parte dos flocos de gelo que estavam no chão e sentei, encostando minhas costas na árvore. Peguei o celular na lateral da minha calcinha e sabia que ali eu passaria o resto do tempo que tinha de almoço.

Ouvi um sinal e percebi que era hora de ir para a classe. Eu não me importaria de matar a aula de Leonel Fabray, mas caso eu o fizesse, alguém iria notar e daria com a língua nos dentes. Com certeza. Entre uma possibilidade e outra, melhor não arriscar, afinal o professorzinho de Matemática pode dar um trabalhinho valendo nota e, querendo ou não, nota extra em cálculo é muito bom.
Andando pelo corredor vazio eu rezava para não ter começado a aula, porque todos só poderiam estar dentro das salas já que eu não avistava ninguém. Bati na porta e nada, entrei e... nada também, quero dizer, ninguém. Não havia ninguém. Fui a outras salas e ninguém também. Onde estavam todos?
Corri até o prédio principal na expectativa de achar alguém e encontrei Katherine em sua sala, pegando o celular dela na sua bolsa.
– Onde estão todos, Kat?
– Estão no ginásio. Parece que alguém pegou o celular do , erm, do diretor, e ele mandou que todos fossem pra lá. Só vim pegar o meu celular caso ele queira que eu ligue para o número dele. – Ela explicou, e em seguida cruzou os braços, me olhando desconfiada. – Você não tem nada a ver com isso... Tem, ?
– Nem sabia que o diretorzinho tinha celular. – Dei de ombros inocentemente.
– Aham... Ok então. – Kat assentiu. – Vamos para o ginásio.
Assim que adentramos o recinto, vi todos os alunos sentados nas arquibancadas e o diretor, juntamente ao corpo docente, as funcionárias do refeitório, a enfermeira do dia e as lavadeiras e faxineiras no meio da quadra. Katherine me empurrou para uma arquibancada e foi até o diretor. Logo localizei , e Taylor e me juntei a eles. Foi só eu sentar e o diretor começou a falar sem microfone, sem nada. Sua voz pura com extrema seriedade retumbou no local e os alunos que cochichavam pararam para dar-lhe atenção.
– O que os trouxe aqui é bem simples. – ele começou com um tremendo ar prepotente. – Alguém pegou meu celular, e todos vocês, alunos, professores e funcionários, ficarão aqui até que o responsável devolva.
Todos começaram a falar ao mesmo tempo, gesticulando. Até os funcionários que acompanhavam o diretor no meio da quadra e que antes estavam com as mãos atrás do corpo de modo respeitoso, agora estavam discutindo entre si, mexendo os braços de modo agitado.
– O diretor perde o celular e a culpa é nossa, que ridículo! – protestou. – Ele está louco!
- Você não tem nada a ver com isso, certo? – perguntou, me dando uma leve cotovelada, desconfiada como Katherine em sua sala anteriormente.
– O qu}e? Quanto ao diretor estar louco? Não sei. O disse hoje que está louco por mim... Talvez o diretor também esteja. – Falei, sorrindo com sarcasmo. – Você sabe como eu sou irresistível. – Joguei-lhe uma piscadela.
– Não tem graça. Você entendeu a minha pergunta. – disse, séria.
– Por que está tão séria? Estamos perdendo aula! – exclamei alegremente.
– Não quero ficar aqui! Temos aula com o professor Josh hoje, esqueceu?
– Ah, é... Ele é um gato! – Me abanei.
– Então, não pode se entregar logo de uma vez? – Ela sussurrou.
– Você quer que eu seja castigada? – Devolvi com uma pergunta, bem baixinho também.
– Claro que não, mas você arranja confusão... O que eu posso fazer?
Olhei em volta e... Tchanan!
– Tive uma ideia!
– Silêncio! – O diretorzinho gritou. – Você devem ficar em silêncio até que o engraçadinho apareça com meu celular – informou.
À minha esquerda, estavam sentados e depois e Taylor, já à minha direita... A uns dois metros, estava sentado um miudinho descendente de japonês com um moicano cheio de gel – Paul Shigeoki, gênio dos computadores e o primeiro a conseguir um sinal de celular aqui no colégio. Não duvido que as outras pessoas que hoje têm sinal devam isso a ele. O lance é que eu sei que o número do celular dele não aparece quando ele liga para alguém ou manda mensagem. Eu sei disso porque uma vez ele me deixou pregar uma peça num professor que o tinha ofendido em outra ocasião. Ele tinha o celular e eu tinha a falta de papas na língua para ofender o tal professorzinho.
Agora a outra parte do plano: a garota ruiva, magérrima com algumas sardas no rosto e peitos enormes que está sentada atrás de mim – a irlandesa Jessie Butler, sonha em ser atriz e adora criar uma cena. Às vezes ela chega a brigar com alguém só para praticar sua atuação. As pessoas nem ligam mais quando ela começa a discutir do nada, já sabem que é um ensaio. Aposto que se eu lhe fizer a proposta que tenho em mente, ela vai aceitar.

Alguns longos minutos se passaram e o diretor estava ficando cada vez mais apreensivo e enraivecido. Sua paciência se esgotava vagarosamente. Já deviam ter se passado por volta de trinta minutos. Os funcionários que inicialmente estavam em pé no meio da quadra, se sentaram nas arquibancadas com os alunos. O diretorzinho, diferentemente, andava de um lado para o outro entre o círculo central, marca da quadra oficial de futsal e handebol. O silêncio até parecia inabalável. Não era.
– O que você pretende? – perguntou quando me arrastei de volta ao meu lugar. Eu acabara de falar com Paul e antes falei com Jessie. Felizmente, e bota feliz nisso, os dois toparam. Jessie não negaria um desafio de atuação e Michael não me negaria um favor tão simples como esse depois de eu ter insultado tão bem o tal professor.
– Você já vai ver. – anunciei.
Paul já estava devidamente posicionado ao meu lado. Em seguida, Jessie se levantou e, aos poucos, cada aluno voltou seu rosto para ela, sem emitir qualquer som. Seus lábios tremiam, os olhos estavam arregalados e o nariz estava avermelhado. Mesmo sabendo que ela ama atuar, se eu não soubesse o que estava acontecendo, eu acreditaria que ela estava com algum problema, um muito sério.
Alguns alunos, certamente, deviam suspeitar que aquele pré-choro era uma grande mentira, mas a maioria estava acreditando. Era possível ver na expressão dos alunos e dos funcionários a surpresa, curiosidade, ansiedade e até preocupação.
Jessie começou a descer de nível em nível a arquibancada, os braços trêmulos e a cabeça baixa. Seu rosto estava melancólico e parecia saído de um filme de drama. Até eu estava surpresa. Ela estava levando tudo muito a sério mesmo. Quando ela colocou os pés na quadra após o último nível da arquibancada, o diretor reparou a garota indo em direção a ele. Ele parou de andar de um lado para o outro e esperou, perdido e confuso.
Quando a senhorita cabelo laranja chegou ao diretor, caiu ao choro deixando todos pasmos. Mesmo que todos já tivessem visto pelo menos uma cena dela, essa era diferente de tudo. Acho que ela nunca tinha encenado na frente de tanta gente e acho que ninguém tinha a visto desabar no choro como agora, nem em suas cenas de drama.
A partir de agora, o que eu podia fazer era esperar que Jessie executasse bem o resto de sua parte e esperar também seu sinal. O combinado era que ela dissesse ao diretor que pensava estar grávida e que precisava urgentemente ligar para sua mãe, assim, ele o levaria até sua sala ou até a secretaria. Para que eles chegassem até lá, teriam que passar perto do vaso retangular com flores que fica em frente às portas de vidro do refeitório. Um pouco antes de passarem por lá, ela deve dar um toque, ligar e deixar chamar duas vezes, para o celular do Paul – que está programado para vibrar –. Após isso, eu vou enviar uma mensagem, que já escrevi, para o celular do bundasexy.com e esta deve chegar assim que eles passarem pelo querido vaso de pobres flores.
É claro que eu não sabia que isso iria acontecer, mas, por coincidência, quando mexi no celular do diretorzinho, mudei seu toque para “normal” ao invés de “silencioso”. A verdade é que quando eu desse um jeito de devolver o celular, eu iria pedir o aparelho do Paul emprestado para mandar uma mensagem ao diretor. O circo que o senhor montou e a entrada da Jessie nessa história, o primeiro foi por acaso e o segundo foi uma bela ideia que me surgiu. Parabéns para mim!

(’s POV)

Eu não acredito que isso está acontecendo. Primeiro, meu celular some – com todas aquelas imagens e mensagens... Deus queira que não tenha caído em más mãos – e agora tenho uma aluna possivelmente grávida nas mãos. Se isso for verdade e vir a público, as décadas de credibilidade e boa fama do Leader High School irão desaparecer da noite para o dia e, pior, iremos perder rios de alunos. Se isso acontece e se meu pai pudesse, ele me mataria, literalmente.
Minha cabeça fervia tentando achar uma solução prática para toda essa situação enquanto eu segurava o braço da garota ruiva levando-a para a secretaria. Ela não parava de tremer e choramingar bem baixo enquanto as lágrimas escorriam. Ela parecia desesperada e eu sou uma péssima pessoa para lidar com desespero. Certo momento, enquanto nos aproximávamos do prédio principal, ela se remexeu e eu perguntei se ela estava bem. Ela assentiu respirando fundo e continuamos caminhando.
As portas de vidro automáticas se abriram, permitindo com que a garota e eu passássemos do lado a céu aberto do colégio para o refeitório. Foi aí, então, que ouvimos um som leve, curto e repetitivo. O som ia aumentando de volume pouco a pouco e nós paramos de andar, estranhando aquilo. Olhei para trás e vi uma pequena luz em meio a algumas flores num vaso branco retangular com flores morrendo. Larguei o braço da garota e fui verificar o que era o brilho e era de lá que vinha o som. Meu coração acelerou quando estendi a mão. Senti um vento frio percorrer meu interior. Toquei algo retangular de espessura fina e gelado. Puxei-o da terra onde estavam as flores. Era um aparelho celular cinza grafite que estava tocando e tinha a tela acesa informando que eu tinha uma nova mensagem não lida. Aquele era meu celular.
Desbloqueei a tela touch screen e cliquei em “mostrar” a nova mensagem.
Só queria dizer que apesar de ter me sentido ofendida hoje mais cedo, pensei melhor e percebi que o senhor aparentou querer ajudar e eu aprecio isso. Apenas não se meta no meu comportamento, para isso que existe a conselheira senhora Abeloff. Com carinho, sua estudante favorita EVER. ps: mantenha suas nádegas longe do meu alcance, elas me fazem pensar em comerciais de talco para bebês.
Foi inevitável eu soltar uma risadinha, mesmo que sem som. O que essa menina tem na cabeça? Quando sinto que estou perto de entendê-la, ela bagunça todos os meus pensamentos. “Sua estudante favorita EVER” De onde ela tirou isso? Eu preferiria dez vezes – se fosse possível – não tê-la como estudante do meu colégio para ter paz como diretor. Por outro lado, não posso negar, não a mim mesmo, que ela torna meu dia-a-dia irritantemente divertido. E bota irritante nisso!
“Mantenha suas nádegas longe do meu alcance, elas me fazem pensar em comerciais de talco para bebês.” Essa garota é louca...

Capítulo 8

(coloque o vídeo para carregar e dê play quando for solicitado)

A época mais chata do ano – eu pensava olhando a paisagem através da janela do quarto de . A neve timidamente caindo como quem não quer nada, as árvores carregadas de gelo branquinho, o riacho atrás do alojamento tão congelado que seria possível patinar sobre ele se fosse permitido... Mesmo estando dentro de um ambiente fechado e com aquecedor, além de estar com uma blusa de manga comprida, eu esfregava minhas mãos em meus braços como se sentisse o frio lá fora e, psicologicamente, eu sentia. Talvez não fosse o frio que eu imaginava ao ver aquela chuva branca, o que fazia com que eu quisesse me enrolar num edredom, mas sim a solidão que eu sabia que me esperava. Assim como os três anos anteriores, quando cheguei ao LHS, o Natal seria vazio e triste. Era sempre uma dor imensa ver todos arrumando suas malas e indo para seus lares quando os parentes vinham buscá-los para as festividades de fim de ano. As únicas coisas boas eram ficar sem aulas e não ter que usar uniforme, o que felizmente não foi mudado esse ano. Uma semana, entre os dias vinte e quatro e trinta e um de dezembro, sete dias cheios de nada além de frio e neve para me fazer odiar ainda mais a época mais chata do ano.
Sinceramente, eu não sei o que as pessoas veem no Natal. Comemorar o nascimento de Jesus é legal, mas toda a decoração de Papai Noel, bonecos de neve, pinheiros com pisca-pisca e presentes não têm a ver com o motivo real da data. É tudo um pretexto para consumir, afinal vivemos num mundo capitalista. Às vezes eu penso que é bom eu não participar dessa falsidade que é o Natal, é ótimo eu ficar fora disso. Entretanto, apesar de as musiquinhas e jingles natalinos me irritarem um pouco por transbordarem clichê, quando eu vejo uma verdinha árvore lotada de luzes, coloridas bolinhas e caixinhas de papelão barato embaladas por um papel para presente, eu penso na minha infância, nas lembranças que vão enfraquecendo durante o tempo. Penso no tempo em que minha mãe estava por perto para me acordar na manhã do dia vinte e cinco com um chocolate quente, exclamando que o bom velhinho tinha deixado um embrulho embaixo da nossa árvore e que devia ser o que eu havia pedido na minha cartinha. Hoje, ao mesmo tempo em que eu penso que essa historinha toda pra boi dormir é idiota e inútil, penso também na saudade que tenho da minha inocência e da proteção que eu tinha naquele lar.
– Você sabe que eu odeio ter que te deixar, não sabe? – Pude ouvir a voz de mesmo com a mente tão longe.
Eu até gostaria de responder, mas não sabia se tinha forças para abrir a boca. Não que eu estivesse me sentindo fraca, eu só não queria sair daquela posição – sentada na cadeira perto da escrivaninha onde fica o notebook, olhando a janela, profundamente absorta.
? – chamou da direção da cama. – Fala comigo, senão eu vou pirar!
Fechei os olhos com força tentando acordar daquele pesadelo dentro da minha cabeça, criar vontade de me mover. Mexi o pescoço, olhei para .
– Não precisa pirar, gata. Vou ficar bem. – tranquilizei-a. – Eu sempre fico bem. – Esbocei um sorriso que não a convenceu.
– Se fosse permitido, eu te levaria comigo. E se eu realmente não tivesse que ir, eu ficaria aqui, mas você sabe como meus pais são chatos e querem que eu vá para casa sempre que dá. – explicou, colocando algumas peças de roupa que estavam dobradas sobre a cama na mala vermelha de tamanho médio.
– Eu sei. – respondi, me levantando da cadeira. Fui até . – Obrigada. – agradeci, abraçando-a depois de ela fechar a mala. – Tenha um ótimo Natal.
– Ei! Calma aí! – ela reclamou, me empurrando. Arregalei os olhos, surpresa. – O ponteiro grande ainda não chegou ao doze, e o horário marcado para os pais virem buscar os filhos é cinco horas. – disse, olhando o relógio de pulseira verde-água no braço esquerdo. Eu sorri.
– Desculpa.
– Ok, agora senta nessa cama e me conte tudo! – Puxou-me por um braço e sentou-me na cama, fazendo o mesmo em seguida de frente para mim.
– Tudo o quê?
– Tudo que você viu no celular do diretor!
– Ah, não vi nada demais. – bufei, fitando o teto. Quando voltei meus olhos para , ela me olhava com uma sobrancelha erguida de desconfiança. – Ok, ok... – Ela bateu palmas como uma foca. – Na agenda, poucos contatos. Uns trinta, talvez. Só não esperava ver a Katherine lá, mas do jeito que ela é oferecida com o diretorzinho, né? Enfim... Algumas mensagens de texto com datas meio antigas, de dois ou mais meses atrás. Mensagens estranhas, sabe? As mais velhas falando sobre encontros num bar e as mais recentes sobre “ter saído daquela vida”.
– Hm, será que o diretor era alcoólatra? – supôs, pondo uma mão no queixo.
– Eu também pensei nisso, mas ainda tem mais. – anunciei –: as fotos. Não deu tempo de eu ver todas, no entanto, as que eu vi... – tombou o tronco para frente, interessada. – Ele e uns caras, alguns com dreads no cabelo, outros de cabeça raspada, um ou outro com lápis preto nos olhos, e os que tinham cabelo normal, pareciam não lavá-los nem penteá-los há tempos. Uns bem vestidos, outros nem tanto. A maioria com vinte e poucos anos ou trinta, no máximo.
mantinha as pálpebras bem abertas, como se aquilo a ajudasse a prestar mais atenção e assimilar tudo melhor.
– Nenhuma garota? – perguntou.
– Poucas. Mais homens. Havia garotas com dreads no cabelo também, muitas com maquiagem bem forte ou sem nada. Porém, uma me chamou atenção.
– Conta, conta, conta! – pediu curiosa.
– Era bonita... Ela tinha o comprido cabelo descolorido, íris claras e uma camada grossa de lápis preto em volta dos olhos em contraste com a pele. Havia uma foto em que ela estava no colo do diretorzinho. Ele com um copo na mão e ela com um cigarro na boca. Ela estava com um vestido coladinho e curtíssimo bege e botas de cano longo pretas. Ele tinha a mão livre na coxa dela e ela agarrava os cabelos dele. Os dois rindo.
tinha a boca aberta.
– Será que ele era mesmo alcoólatra?
– Como eu vou saber? – Levantei as mãos em dúvida.
– Acho que você vai ficar sem saber mesmo, porque eu não quero mais saber de você metida em confusão. Entendeu? – Ameaçou-me, apontando o dedo indicador, levantando-se da cama.
– Pode deixar. – Levantei também. – Vou tentar esconder minhas confusões de você a partir de agora.
Ela balançou a cabeça em desaprovação e eu soltei uma risadinha. Olhou no relógio em seu pulso. Cinco horas. Puxou-me para um abraço de despedida.
– Feliz Natal, amiga. Até semana que vem.
Até semana que vem – a frase ecoava na minha cabeça enquanto eu passeava pelo colégio praticamente deserto. Os seguranças ainda estavam perto dos muros, a enfermeira ainda estava na enfermaria e o porteiro ainda estava na portaria. Fora isso, nem vinte alunos deviam se encontrar por lá. se despedira de mim logo após . Ele pareceu ter vontade de chorar, como nos anos anteriores. Sempre sentimental e com pena de me deixar aqui durante o feriado. Abracei-o com intensidade e afirmei que eu estava super bem. , para me surpreender, veio falar comigo antes de ir também. Não demorou cinco minutos. Deu-me um beijo demorado e um abraço rápido, disse que me traria um presente e que esperava que não pegasse no meu pé durante o tempo que ele estaria longe de mim. E se foi.
Caminhando pelos corredores, brincando com meu cachecol branco que estava metade por fora do meu casaco azul claro acolchoado, observei as portas com guirlandas verde escuro enfeitadas de bolas vermelhas e douradas; as entradas das instalações esportivas com pisca-piscas com lâmpadas amarelas em volta; o campo de futebol, a quadra de tênis e o mini campo de golfe cobertos de branco e com vários grandes bonecos de neve adornados com cachecóis e chapéus... Eu nunca vira o colégio tão diferente do usual, tão arrumado para alguma data. O antigo diretor não ligava para isso e pensei que o diretor júnior também não fosse ligar, até porque ninguém sequer mencionou o Halloween – o que dá pra entender, afinal foi logo após a morte do velho diretor, o colégio estava em luto e com a Katherine comandando provisoriamente as coisas. Então, se não ligavam antes para festividades e, tecnicamente, ainda estávamos de luto... Por que teríamos comemoração no Natal deste ano?
!
Meu rosto, que estava virado para uma das saídas do corredor para a parte a céu aberto do colégio, girou para frente e dei de cara com a Kat.
– Olá, Kat. – saudei num tom de voz indiferente.
– Eu estava indo te chamar. – ela disse, segurando meu pulso. – O diretor está chamando no auditório os alunos que vão ficar aqui durante o feriado.
Af, o que o bunda-fofa quer agora? Ele deve esfregar nas nossas caras alguma filosofia podre para não entrarmos em depressão por ficarmos trancafiados no colégio durante as festividades de fim de ano, assim como ficamos nos outros meses. É assim todo ano, por que seria diferente com o diretorzinho que acabou de sair das fraldas e só liga pra regras antiquadas? Gostaria de saber o motivo de ele ficar enchendo o saco de todo mundo sobre isso se, pelo que eu vi nas fotos do celular dele, nem ele seguia regras.
Entrei no auditório sozinha. Kat dissera que tinha que resolver uma coisa na secretaria, então não me acompanhou. O diretor estava no palco parecendo esperar somente a minha presença, pois logo que passei pela porta, ele disse:
– Podemos começar?
Começar com o quê? – perguntei a mim mesma enquanto me sentava numa poltrona em uma das últimas fileiras do lugar. Sentar ali fez-me lembrar do , que sempre senta no fundão, enquanto eu costumo me sentar mais para o meio. Contando as poucas cabeças das pessoas espalhadas pelo lugar, encontrei vinte e uma – mais do que nos anos anteriores. De todos os duzentos e quarenta alunos, vinte e dois – contando comigo – vão passar o Natal aprisionados como passarinhos numa jaula. Pobrezinhos de nós! Ok, meu humor negro está começando a se manifestar. Melhor eu prestar atenção no papo doce do diretorzinho.
– Bem, vocês sabem que todos os anos, o Leader High School entra em recesso entre vinte e quatro e trinta e um de Dezembro...
Diga-nos algo que não sabemos, bumbum de anjo – falei mentalmente. O diretorzinho continuava com um ar descontraído e suas mãos nos bolsos do pesado suéter de lã:
– Mas, diferente dos outros anos em que não houveram cerimônias referentes aos determinados feriados para os alunos que ficavam no colégio, este ano será providenciada uma comemoração de Natal. – Sua expressão facial se tornara quase animadora. – Para vocês. – finalizou.
O silêncio tomou o auditório e me dei conta de que o diretor esperava nossa reação... Aprovação, desaprovação, rebeldia? Acho que o que ele esperava era só um pouco de ânimo. Algum conforto, quem sabe. Gratidão, talvez. O antigo diretor nunca teve o mínimo de consideração pelos alunos para proporcionar uma acolhedora noite de Natal. O que ganhávamos era um econômico jantar. Econômico é a palavra de ironia para o todo o poder financeiro que o colégio tem. Os alunos não mereciam um jantar melhor pela mensalidade que nossos pais pagam?
A greve sonora não chegou a um minuto pois, finalmente, alguém resolveu abrir a boca. Uma grande mão feminina se levantou numa fileira perto do palco. Assustei-me por um instante ao ouvir a voz. Não era uma garota.
– Senhor diretor? – se virou para o garoto com óculos de nerd, cabelo loiro com moicano descolado e corpo de atleta; uma criatura no mínimo diferente. – O senhor quer dizer que teremos uma ceia de Natal?
– Isso mesmo. – o diretorzinho afirmou. – E todos vocês estão intimados a comparecer. Lá lhes darei uma notícia que também envolve a todos.
Meu querido bumbum de anjo, o que estás tramando? Agora que está metido a espertinho, que joguinho é esse? Desde o início, pensei que eu fosse me divertir com esse diretor. Por outro lado, não pensei em qualquer momento que ele pudesse deixar a vidinha nesse colégio cada vez mais interessante.
Ninguém disse nada. Nós, os alunos, não estávamos muito esperançosos nem ansiosos para “cear” com o mais novo ditador de regras do pedaço. Sem mais nada a anunciar, o diretorzinho nos liberou após dizer que as salas de informática, multimídia – onde há TV a cabo, DVD, etc. –, biblioteca e o espaço aquático – onde ficam as piscinas aquecidas – estavam à nossa disposição caso quiséssemos passar o tempo, e que quem quisesse ajudar a arrumar o refeitório para a ceia de Natal, era só aparecer por lá. Não creio que alguém queira ajudar – exceto uma garota ruiva, da qual não lembro o nome, que tem o rosto com o formato de um coração e adora decorar coisas e lugares, e aquele garoto estranho com óculos de nerd, cabelo moicano e corpo de atleta que não tem aulas comigo.
Os vinte e poucos alunos ergueram-se preguiçosamente das poltronas onde estavam sentados, ao mesmo tempo em que eu continuava esparramada pensando como estava feliz por estar vestindo uma calça jeans depois de tanto tempo usando a saia do uniforme quase todos os dias. Minha calça skinny azul escuro ficava tão bem com o casaco azul claro e minhas botas pretas... Ficar naquele devaneio enquanto as pessoas saíam do auditório me fazia não querer me mover. Porém – porque sempre há um “porém” –, alguém tinha que encher meu saco. Eu juro que não estava enrolando pra sair dali para ficar sozinha com o diretor. Mas confesso que seria uma situação... agradável? Pelo menos para mim.
Percebi o calor de ter uma pessoa tão perto quando ele se sentou na poltrona ao meu lado. Aquele perfume era inconfundível. E não era do diretor.
– O que você quer? – pronunciei curta e grossa, sem olhá-lo, antes que ele dissesse qualquer coisa.
– Quero conversar com você. – falou com rigidez na voz.
– Não tenho nada pra conversar com você. – respondi, me levantando e passando minhas pernas nas de , que estava sentado numa poltrona no meu caminho para a saída. Quando consegui tirar minhas pernas das dele, ele ficou de pé rapidamente, segurando meu braço. Virei meu olhar para bruscamente. – Você está louco? – reclamei, tentando controlar a altura da minha voz. A garota com o rosto de coração estava conversando cheia de gestos com o diretor, enquanto andavam vagarosamente pelo caminho entre as poltronas em direção à porta, e eu não estava afim de confusão, por incrível que pareça.
– Converse comigo. – a frase soou como uma ordem, e a força que sua mão impunha em meu braço reforçava a ideia de que eu não tinha o direito de negar. Os olhos dele pareciam queimar, lançando chamas nos meus através da intensidade transmitida. Eu até poderia dizer que suas íris tremulavam e, pela primeira vez, eu as achei lindas. Não como as de , mas também lindas.
– Já disse que não! – Alterei minha voz sem, na verdade, querer. Quando dei por mim, já tinha me estressado, meu sangue fervia, só não tinha força suficiente para puxar meu braço de volta.
– Algum problema, senhor ? – Um firme e atento diretor apareceu acompanhado da baixinha ruivinha de cabelos cacheados e bochechas coradas no rosto de coração.
respirou fundo, sem desgrudar o olhar do meu, demorando-se ao afrouxar e deslizar sua mão levemente por meu braço de modo que quem visse a cena a partir de agora pensaria ser uma carícia. Fitei sua mão grande se afastar de mim, pensando no provável motivo de esse garoto ser tão estranho comigo. Às vezes finge que não me vê pelos corredores, às vezes faz questão de me achar só para me irritar, às vezes se aproxima de modo desconfortável como se fosse me beijar, às vezes me segura com força quase me atacando. Eu não sei realmente se devo ficar com medo, porque, sempre que acontece algo envolvendo nós dois, eu não quero parar pra pensar. É como se ele quisesse algo de mim e eu devesse saber o que é.
Sem olhar para o diretor, ele murmurou um “não” e saiu do auditório. O diretorzinho perguntou se eu estava bem e eu assenti, relutante, mais uma vez no dia, em me mover. Assim que e a ruivinha saíram dali, voltando a conversar alegremente sobre a cerimônia de Natal, eu me joguei na poltrona onde estivera. Que problema ele tem comigo? – ouvi minha própria voz dentro da minha cabeça. Afundei-me na poltrona fechando os olhos, tentando acalmar a adrenalina na qual aquela situação tinha me deixado. Quando deitei minha cabeça no encosto, senti fracamente o cheiro daquele idiota. Como pode ter deixado o cheiro se ficou sentado aqui por tão pouco tempo?

Passei meu tempo livre na sala de informática, lendo notícias, vendo vídeos, ouvindo música, entre outros passatempos insignificantes. Um perfeito nerd de aparelhos nos dentes e cabelos escuros cobrindo os olhos e um garoto negro com a cabeça raspada também passaram o fim da tarde nos computadores, me servindo de companhia – mesmo que silenciosa. Quando me cansei, percebendo que não havia mais nada que eu quisesse fazer por ali, fui para meu quarto no alojamento. Coloquei música alta no meu notebook, já que meus vizinhos – e um hippie que só ouvia CDs com sons da natureza – não estavam lá, e fui aproveitar um bom banho cantando loucamente. Depois, fui me arrumar para o Natal do diretor.
Eu não colocava fé nessa produção do bundinha-lustrada. Não mesmo. Mas tínhamos que ir, já que, como ele disse, estávamos “intimados” a comparecer. E eu não tinha nada melhor para fazer, afinal o evento poderia ser um tanto quanto divertido. Coloquei uma meia calça preta opaca bem grossa e quentinha, botas pretas de cano alto, um vestido curto e colado de manga comprida e gola preto e um sobretudo vermelho que batia nos meus joelhos. Eu me lembrava da existência dessa minha meia calça e das botas no meu guarda-roupa, no entanto, fiquei abismada ao encontrar o vestido que não via há tempos e o sobretudo, que era da minha mãe – uma das únicas coisas que tenho que eram dela. Maquiei-me, um traço fino de lápis, uma camada de rímel, blush e gloss. Cabelos soltos. Estava pronta.
Não imaginei que fosse me sentir tão... Qual seria a palavra? É apenas... um pouco ruim, anormal, diferente, estranho... sair – mesmo que ainda dentro do colégio – sem a ou o ou, até, o . Não costumo fazer praticamente qualquer coisa sem algum deles.
Fui calmamente até a entrada do refeitório, enfeitada com pisca-piscas e um Papai Noel pendurado como se estivesse escalando. Não esperava encontrar lá alguém além do diretor, os alunos “abandonados”, Katherine, algumas funcionárias do refeitório e da enfermaria. Eu me enganei.
(coloque a música indicada no início do capítulo para tocar)
Parei em frente às portas duplas de vidro até que elas se abriram automaticamente e eu adentrei o recinto. Havia muito mais gente que supus. Além dos que eu imaginara, estavam também alguns professores com alguns de seus respectivos familiares. Como exemplo, a jovem senhora Jane Wesley estava de mãos dadas ao marido e os dois filhos que deviam ter por volta de oito ou dez anos de idade. Assim como a conselheira Abeloff, que estava com seu marido careca que vestia um suéter branco escrito em vermelho “eu amo o Natal”. Até as funcionárias do refeitório e a enfermeira de plantão estavam acompanhadas, se não com pares românticos, tinham por perto um filho, pai ou mãe idoso ou algo assim. Deviam estar ali por volta de cinquenta pessoas.
Do teto estavam penduradas cordas douradas e pratas com bolas vermelhas brilhantes amarradas na ponta, um pouco acima das cabeças das pessoas. Havia um grande pinheiro, rico em galhos e folhas verde escuro, adornado com pisca-pisca de luz amarela cuja frequência de luzes era rápida e viciante de se olhar. Além do pisca-pisca, a árvore estava recheada de bolas vermelhas e douradas, falsos pinheiros marrons, flores e laços de mesma cor das bolas, e no topo uma reluzente estrela cheia de purpurina amarela. As mesas estavam cobertas por toalhas brancas com desenhos de pequeninos Papais Noéis – se é que existe um plural para Papai Noel.
Tudo estava muito lindo. As pessoas sorrindo e interagindo alegremente, nem parecia falsidade. O lugar todo enfeitado, com muita comida por todos os lados e até presentes sob a árvore. Apesar de as músicas natalinas me irritarem um pouquinho, aquele lugar parecia um puro sonho de criança, uma cena de filme cheia de ternura ou algo do gênero. Por um instante, eu me esqueci completamente que eu estava ali sozinha, sem amigos, sem família, e Natal não é isso. Por um momento, me esqueci que aquilo tudo era mentira. Só decoração, bom cardápio e muito fingimento em estar feliz para agradar ao chefe, o bom diretor.
– Senhorita . – uma voz, que tenho a sensação de já ter escutado antes, me chamou.
– Sim? – virei meu rosto, respondendo. Era o garoto com corpo de atleta, loiro de moicano e óculos de nerd. Olhando-o de perto, não julgando somente o corpo e também o rosto, ele é um gato. Gato não é um bom adjetivo, mas não consigo pensar em nada melhor agora.
– Quer que eu guarde seu sobretudo? – perguntou gentilmente, estendendo uma mão.
– Claro. – Tirei meu sobretudo, afinal lá dentro estava bem quente em contraste com o ambiente lá fora, e entreguei-o ao garoto. Em troca, ele me ofereceu com a outra mão um cachecol com listras vermelhas, brancas e verdes. – Obrigada. – eu disse, aceitando o adorno. O garoto se afastou e eu voltei a olhar a “festa”, então entendi: todos estavam usando um cachecol como aquele ou então uma cartola preta com um laço de fita com as mesmas cores: vermelho, branco e verde.
Distraída, rindo comigo mesma da “lembrancinha” oferecida às pessoas, percebi que o anfitrião vinha em minha direção. Lindo. Não acredito que essa palavra veio à minha mente numa fração de segundo. Entretanto, tenho que admitir, pelo menos a mim mesma, que ele estava mais bonito que o usual. Vestindo uma calça jeans e tênis igualmente escuros e uma blusa de um pano grosso cinza com botões do tórax até o pescoço. Porém, um detalhe: os botões estavam abertos, mostrando um bom pedaço de pele. E só não mostrava mais, porque ele usava, com um nó frouxo, um cachecol como o que o garoto de múltiplas personalidades me entregara. Todavia, não era somente a vestimenta, que não se assemelhava aos ternos e gravatas do dia-a-dia, a responsável por fazer com que o diretor parecesse mais jovial e atraente, e sim a alegria em seus olhos e o meio sorriso tímido em seus lábios.
Talvez nem todos estivessem fingindo estar felizes, afinal.
– Feliz Natal, senhorita ! – desejou o diretor, radiante.
Primeiramente, fiquei sem ação. Mas logo me recompus, em pensamentos e compostura. Esbocei um simpático e não-intencionado sorriso e respondi:
– Feliz Natal, diretor.
Ele olhou o cachecol em minhas mãos e uma ideia totalmente louca me ocorreu. A ideia era de que diretorzinho fosse tirar o cachecol de minhas mãos e cuidadosamente colocá-lo em meu pescoço, arrumando-o com delicadeza. A imagem da situação passou rapidamente como a lembrança de uma cena já vista antes. Assim que acabou, me dei conta de que toda essa história de cerimônia de Natal – da qual eu não estava familiarizada há tanto tempo – estava mexendo insanamente com a minha cabeça.
Em vez do delírio que me atingiu, o que aconteceu foi:
– Vai ficar aí parada, olhando o vento passar, ou vai se juntar a nós? – Expressou-se ele, de modo convidativo.
Pela primeira vez na vida, desde que me lembro, me senti inibida. E quem me deixou inibida foi o bunda-tchutchuca. Agora, mais do que nunca, acredito que as coisas estão realmente bizarras. Isso mesmo, nada está normal. Não é possível!
Soltei uma curta e tímida risada. Queria saber como me portar, mas não sabia. Eu não tinha um anticorpo para simpatia natalina – para a cativante simpatia natalina do diretor.
– Eu... já vou. – gaguejei e me senti extremamente idiota por isso. Agora posso imaginar como os nerds se sentem ao falar comigo.
– Espero mesmo. – disse o diretorzinho com um longínquo ar de desapontamento, embora estivesse sorrindo. E depois se afastou, voltando a confraternizar com as outras pessoas.
A alguns metros, avistei uma garota sentada numa cadeira e com os cotovelos apoiados na mesa, com tédio. Ela estava só e eu também. Que tal ser solidária e ir fazer um pouco de companhia a ela?
Aproximei-me e perguntei se eu podia sentar ao lado dela. A menina era de pele bem morena, cabelos compridos de fios negros lisos e sedosos, usava uma pequenina pedra brilhante colada no meio da testa, sua blusa de manga comprida era coloridamente vibrante que variava entre rosa, azul e amarelo em forma de desenhos abstratos. Ela me olhou receosa com olhos grandes contornados de lápis preto, porém assentiu. Sentei-me e puxei assunto, e algum tempo depois a garota ruiva de cabelos curtos na altura do pescoço com rosto em formato de coração apareceu sentando-se ao lado da morena.
Ficamos praticamente o tempo todo ali, as três conversando. Em alguns momentos, a ruiva – que descobri se chamar Cassy e ter feito aulas de economia comigo, no quarto ano – ia pedir para alguém nos servir. A outra, que era indiana – se chamava Nayia e era do terceiro ano –, inicialmente, falava pouco e baixo, mas como a Cassy falava muito e de um jeito constantemente animado, Nayia foi se soltando. E eu também. Antes, eu estava inibida por estar em uma situação diferente do meu costume e sem , ou . Fiquei aliviada em encontrar duas pessoas legais para não deixarem eu me sentir um peixe fora d’água.

Já havíamos desejado Feliz Natal e trocado abraços uns com os outros – ou quase, porque eu não cheguei a cumprimentar o diretorzinho nem o nesse momento –, e o bumbum de neném fez um discursinho sobre a importância de tal festividade e que, apesar de estar feliz por ter festejado a data com tantas pessoas especiais, estava triste por seu pai não estar ali, mas que em alma e espírito ele estava. Aquilo me deu um calafrio – pensar que o “fantasma” do antigo diretor pudesse estar lá. Porém, para minha felicidade, a imagem medonha logo sumiu da minha mente por causa da conversa com Cassy e Nayia. Pouco tempo depois, a maioria dos convidados já havia ido embora e eu estava enlouquecendo ao segurar minha vontade de fazer xixi. Não aguentava mais ficar ali rindo com as meninas, falando sobre coisas aleatórias, apertada daquele jeito para evacuar um líquido o que era desnecessário ao meu corpo. Então, pedi licença e saí do refeitório em direção ao banheiro.
Os corredores estavam totalmente desertos, com a maioria das luzes apagadas, e eu estranhei – não que fosse de se estranhar, afinal não havia muitas pessoas no colégio, mas estranhei porque não era uma cena vista todos os dias. Eu andava lentamente, sem pressa, fitando o chão, sem qualquer preocupação por hora, até que a imagem do antigo diretor, morto por assassinato, me veio à cabeça. Estremeci. Minha imaginação fértil me fez pensar que o velho gordo de cabelos e bigode grisalhos estava parado no fim do corredor com olheiras roxas e palidez de cadáver, esperando somente que eu olhasse para trás. Meu coração acelerou de tal maneira que eu senti minhas pernas fraquejarem. Parei de andar, tendo a sensação de que meu corpo todo estava tremendo na frequência em que meu coração batia. Apoiei uma mão na parede gelada a fim de me manter em pé. O ar parecia fugir de mim. Tentando convencer-me de que não havia motivos para ter medo, pois não existiam fantasmas, inspirei profundamente o ar que encontrei e, pronta para gritar caso necessário, virei cento e oitenta graus para olhar por trás das minhas costas, para o fim do corredor.
Nada.
Ninguém.
Pensei ter visto um vulto. Só pensei.
Expirei o ar de dentro dos meus pulmões, acalmando aos poucos meus batimentos cardíacos. Voltei a virar para frente, para o banheiro, e a andar devagar. Ainda tinha a sensação de alguém atrás de mim, vigiando-me, perseguindo-me. O falecido diretor. Resolvi andar mais rápido e, com uma corridinha, cheguei ao banheiro.
Vazio e com a luz apagada. O que tinham feito com a luz do colégio? Procurei o interruptor na parede assim que passei pela porta e o achei, acendendo a luz. Então, enfim, fui até uma cabine fazer meu esperado xixi. Fiz, me limpei e saí da cabine. Aproximei-me do lavatório, lavei as mãos, sequei-as no secador, dei uma ajeitadinha no cabelo e no cachecol, lembrando, inevitavelmente, do diretorzinho todo convidativo para cima de mim no início da noite. “Vai ficar aí parada, olhando o vento passar, ou vai se juntar a nós?” Radiante e cativante. Alegre em desejar “feliz Natal”. Simpático. O que diabos tinha dado nele?
Abri um leve sorriso recordando a cena, recordando como fiquei inibida e não sabia como agir. Estava um pouco arrependida de ter sido tola e ter baixado a guarda na frente do nádegas-hot. Olhei meu rosto no espelho e tive vontade de enfiar minha cabeça na terra. O sorriso estampado em meu rosto não era leve ou zombeteiro como eu imaginava, e sim admirado e bobo. Por que eu estava com aquela expressão? O Natal realmente tinha deixado as coisas muito loucas.
Sacudi minha cabeça em negação aos meus pensamentos anormais, dei mais uma olhada no espelho para checar se estava mesmo “tudo” certo quanto a minha aparência e fui até a porta do banheiro para sair. Pus uma mão na maçaneta e, antes que eu a girasse, toquei o interruptor com a outra mão, apagando a luz. Abri a porta com os olhos direcionados aos meus pés, percebendo, mesmo com a luz apagada e com a pouca iluminação que vinha do corredor, que a ponta de uma das minhas botas estava suja de branco – provavelmente a neve artificial espalhada em algumas partes do chão dentro do refeitório. Quando ergui minha cabeça, dei de cara com algo que me fez soltar um grito impulsivo.
Uma coisa negra naquele ambiente escuro. Um corpo parado contra a meia luz provinda do corredor. Alto. Robusto. Forte. Um homem. Um homem que exalava um cheiro marcante, imponente como sua postura. Um cheiro registrado na minha memória e no meu organismo. Um cheiro contra o qual eu já tinha anticorpos – diferente da simpatia natalina do diretorzinho, contra a qual eu não tinha defesas.
Durante o tempo do meu grito momentâneo, aquela criatura segurou meus pulsos com suas duas mãos atrás de minhas costas. Empurrou-me de volta para dentro do banheiro, ordenando:
– Pare de gritar!
Foi a confirmação desnecessária da minha teoria sobre quem era aquela pessoa.
– O que você acha que está fazendo?! – perguntei, imensamente irritada.
soltou meus pulsos e foi até a porta, fechando-a de modo bruto e causando um indiscreto barulho. Em seguida, acendeu a luz.
– Me diga! Pra quê gritar? – disse enraivecido, andando em minha direção. Nesse instante, o crescente medo de quando ele me abordou no auditório anteriormente começava a aparecer de novo dentro de mim, fazendo-me dar dois passos para trás. – Exagerada! – ele acusou.
– Exagerada é a sua avó! – rebati. – Não havia ninguém por perto quando entrei no banheiro e você apareceu nesse escuro, é claro que levei um susto!
– Ah, me perdoe. – falou com sarcasmo. – Você não é exagerada... É medrosa. – Sua boca se esticou num sorriso maléfico. E ele continuava andando para mim. Conforme ele se aproximava, eu dava mais passos para trás.
Até que me encostei à parede. Assim, não demorou para que chegasse a mim. Com o corpo próximo – seguindo o costume –, ele pôs suas mãos na parede, uma em cada lado da minha cabeça. O aroma de seu perfume penetrava cada vez mais meus pulmões, entorpecendo-me. Eu ainda não entendia sua necessidade de ficar tão perto. Não poderíamos conversar a uma distância segura?
– Por que você não me deixa em paz? – perguntei, cansada das atitudes daquele garoto. Cansada de como ele agia comigo.
– Você me irrita, sabia? – indagou calmamente após respirar fundo. Reparei no ligeiro hálito de álcool que vinha de sua boca.
– Você é louco, sabia? Eu não fiz nada, nada para te irritar!
Ele se afastou, virando de costas para mim, em direção à porta, fazendo-me pensar que fosse sair e me deixar ali com uma enorme interrogação em mente. Mas não. Ele só se afastou e parou antes de chegar à porta. Pôs as mãos na cabeça, como se estivesse sentindo dor.
? Você está bem?
Ele soltou um grunhido. Não consegui entender. Fui até ele sem antes parar para pensar sobre o que eu estava fazendo ou o que eu estava prestes a fazer. Pousei uma mão em seu ombro, incentivando-o a virar de frente para mim.
?
Ele atendeu meu incentivo e virou. Abriu os olhos, que estavam fechados, e me olhou. Estes estavam avermelhados, como se estivessem ardendo ou como se ele estivesse chorando.
– Minha cabeça dói. Meus olhos... – disse, apertando os olhos com as mãos.
– Você tem que ir à enfermaria. – aconselhei.
Então, do nada, afastou as mãos dos olhos e os abriu. Estavam normais. Não estavam mais avermelhados. E a cabeça, pelo visto, também não estava mais doendo. Ele não acreditou e se olhou no espelho, verificando se os olhos tinham mesmo voltado ao normal. Depois disso, fitou-me perplexo. Eu estava igualmente surpresa.
Ficamos nos encarando por tempo indeterminado sem dizer qualquer coisa. Ele não entendia, e muito menos eu, o que havia acabado de acontecer. O silêncio e a cena desconfortável só se romperam quando eu decidi falar.
– É melhor eu voltar para o refeitório. – eu disse, e tentei passar por para ir até a porta. Não posso dizer que ele me surpreendeu quando segurou meu pulso. O que me surpreendeu foi ele não ter segurado com tanta força como fez no auditório quando insistiu “conversar” comigo. Agora, se eu quisesse, poderia facilmente me soltar. Mas decidi ouvir o que ele queria que eu ouvisse. – O que é? – indaguei impaciente.
– O que eu queria te dizer no auditório – ele começou a explicar com a cabeça voltada para o chão, lutando contra a vergonha – era um simples “me desculpe por ter te tratado mal e ter dito o motivo do meu castigo como se a culpa fosse sua, quando eu estava retirando os flocos de gelo do campo aquele dia”. Era só isso. – terminou, soltando meu pulso.
– Interessante seu modo de pedir desculpas àquela hora, me forçando a “conversar” com você. – Fiz aspas com as mãos mesmo que ele não visse, estando, pois, com a cabeça baixa.
– Você não falaria comigo. – disse, erguendo o olhar até o meu. Não retruquei. Ele continuou: – Mas, já que chiou, me desculpe por isso também.
Assenti com a cabeça e percebi que seu olhar caiu até minha boca. Alguém abriu a porta do banheiro e nós dois viramos bruscamente para ver quem era.
– Oh! Má hora? Desculpe! – disse Nayia, desesperada.
– Não! Ótima hora! – respondi.
me olhou mais uma vez e saiu do banheiro sem nem mais um “a”.
– Pensei que tivesse namorado. – Nayia falou, vindo até mim, assim que a porta se fechou.
– Eu tenho. só queria pedir desculpas por uma coisa que aconteceu noutro dia.
– Ele veio pedir desculpas dentro do banheiro feminino? – ela perguntou com uma cara quase horrorizada, eu diria.
– É que... – tentei argumentar.
– Não explique. – ela interrompeu – Como já dizia um antigo provérbio: nunca se explique; seus amigos não precisam e seus inimigos não acreditarão. – disse ela, em sábias palavras com um sorriso. – Vamos voltar para o refeitório, Cassy conseguiu doces para nós!

A essa hora, o resto dos convidados já se tinha ido – o que inclui os professores, Kat, algumas funcionárias do refeitório e da limpeza, a enfermeira de plantão, e já não sobravam nem os alunos. Somente Cassy, eu e o diretorzinho ainda estávamos lá. O senhor Sexy Ass dispensou todo mundo, dando a desculpa de que a limpeza do lugar ficaria para amanhã e que deveriam descansar por hoje. Mas Cassy não quis obedecer. Estava juntando copos, pratos e talheres descartáveis para jogar no lixo e colocando os não-descartáveis na lavadeira de louças. Eu, cara-de-pau que sou, estava sentada com os cotovelos na mesa e o rosto apoiado nas mãos, olhando o diretor andando atrás de Cassy tentando fazê-la parar de trabalhar e ir para o alojamento. Uma cena no mínimo cômica com a qual eu me divertia.
– Desculpe-me, diretor, mas o senhor é um chato! Como vai deixar tudo sujo assim? – disse ela revoltada, parando na frente do senhorzinho .
– Tudo sujo? A senhorita já varreu todo o chão do refeitório, já recolheu toda a louça descartável e já colocou para lavar toda a louça não-descartável! Estou pensando em contratá-la para a equipe de limpeza. – brincou o diretor ironicamente.
– Não, obrigada. – Sorriu Cassy com um pouco de sarcasmo. – Eu simplesmente tenho mania de limpeza, ué! Mas já estou indo embora para o senhor poder ficar com essa sujeira.
Eu e o diretor rimos, e pareceu que Cassy – com todo aquele doce – queria rir também. Ela virou-se para a saída do refeitório. Ao passar por mim, jogou-me uma piscadela com um sorriso e eu correspondi do mesmo modo.
– É cada louco que me aparece! – o diretor disse consigo mesmo com as mãos na cintura e os olhos distraídos direcionados à parede. Soltei uma risadinha com aquela fala, fazendo com que o homem de nádegas apertáveis me olhasse, levantando uma sobrancelha. – E a senhorita? O que faz aí ainda? – Ele parecia simpático novamente como no início da festa de Natal. Mandei a meu cérebro que não me fizesse esquecer as palavras e gaguejar, e desejando que eu não ficasse inibida outra vez.
– Estou com preguiça de ir para o alojamento. – respondi, quase num sussurro. Apesar de a minha resposta ter parecido cú doce de pessoa tímida, era pura verdade. Ele riu por um segundo e veio até a mesa onde eu estava, sentando-se em uma cadeira de frente para a que eu me encontrava.
– O Natal foi divertido? – ele perguntou, pondo os cotovelos e as mãos sobre a mesa. Sua expressão era clara, tranquila. Ou satisfeita, quem sabe?
– Foi o melhor desde que comecei a estudar aqui. – admiti, fitando suas grandes mãos com as unhas curtas e limpas. Por que eu estava reparando nisso?
– Que bom... – Ele suspirou. Depois ficou sério, as sobrancelhas ligeiramente franzidas. – Bem... Há duas semanas, tivemos aquela conversa em minha sala sobre a senhorita e por causa das provas durante toda a última semana não a chamei para conversarmos sobre o incidente do celular. – disse ele, enrolando em ir direto ao ponto e enfatizando a palavra “incidente”.
– Não foi um incidente. – observei. Ele sorriu, lembrando-se da minha falta de seriedade. E eu me lembrei de Jessie atuando muito bem no ginásio aquele dia. Ela me disse que, após receber a mensagem, o diretor perguntou se ela estava mesmo grávida e ela desmentiu, dizendo que estava testando sua atuação de drama. Ela me contou também que ele disse que ia castigá-la, porém, no dia seguinte, chamou-a em sua sala dizendo que havia um contrato assinado pelo antigo diretor, em nome do colégio inteiro, e pelos pais dela assegurando que ela não podia ser castigada por atuar em qualquer ocasião; e que o diretor tinha ficado furioso afirmando que se ela resolvesse atuar numa situação séria novamente, seria expulsa.
– Eu sei. Mas... – Ele hesitou. – Há algo que queria conversar com a senhorita... Não sei se deveria falar sobre isso agora...
– Então não fale. – Balancei os ombros de um jeito descontraído. – Veja, diretor... O senhor pode até pensar que eu mereço um castigo, e eu não estou dizendo que não mereço, mas eu só lhe escrevi uma mensagem. Por que remoer esse assunto?
Quanto a “só ter-lhe escrito uma mensagem”, obviamente era mentira. A intenção era que ele não ficasse preocupado em eu ter visto as mensagens e as fotos. Afinal, ele poderia ficar furioso – já que vem tentando ser um diretor que imponha respeito e eu tendo visto seu passado negro, esse possível respeito desceria pelo ralo – e, sendo assim, a chance de eu me safar de um castigo cairia em noventa por cento, com sorte.
Ele moveu a cabeça em um sim, concordando. Em seguida, moveu-a em um não, discordando. Decida-se, criatura!
– Tudo bem. – ele aceitou. – Podemos deixar essa história de celular de lado. Por enquanto.
Diretorzinho, diretorzinho, o que o senhor está aprontando? Deixar essa história de lado? Por que tão bonzinho?
“Por enquanto”? Por quê? Por que não “para sempre”?
– Que tal uma trégua? – ele propôs. – Porque parece que estamos em guerra. Estou te dando um voto de confiança. Não vou fazer nada quanto a história do celular. Porém – disse ele, tombando o tronco mais um pouco do que já estava tombado sobre a mesa, dando-me a rápida sensação de um calor percorrer meu interior –, se a senhorita não fizer por merecer, não haverá mais votos de confiança e não hesitarei em castigá-la.
Se alguém chegasse ali naquele momento, pensaria que estávamos prestes a nos beijar, devido a meu rosto apoiado nas mãos e os cotovelos na mesa, e o diretor com o peso do tronco sobre os cotovelos também na mesa. Ou seja, estávamos um tombado na direção do outro. Me dar conta do jeito que estávamos fisicamente ali me fez pensar que meus lábios, minha barriga e minhas mãos estavam formigando.
– Isso é uma ameaça, diretor? – indaguei, sem fazer questão de mudar minha posição, por mais que agora fosse desconfortável. Tentava controlar minha respiração, mas sentia que meu coração pulsava cada vez mais forte.
– De forma alguma, senhorita. – respondeu, levantando-se da cadeira e erguendo as mãos de modo indefeso. – Não é uma ameaça... – Ele se afastou da mesa, passando ao lado de onde eu estava para ir até as portas automáticas da saída. – Eu não ameaçaria minha estudante favorita.
Estudante favorita? “Estudante favorita ever”, lembrei. A mensagem que deixei em seu celular. “Com carinho, sua estudante favorita ever.”
Virei-me na cadeira para olhá-lo. Ele estava parado em frente às portas duplas de vidro, que haviam se aberto, com um meio sorriso... Como eu definiria aquele sorriso? Sem mostrar dentes brancos, apenas um canto da boca esticado de modo... Superior? Sagaz? Malicioso? Naquele instante, eu não sabia onde estava o diretor bobalhão e inexperiente. Por um segundo, tive medo de estar com a cara retardada que vi no espelho do banheiro, já que eu estava admirada e confusa com a atitude do diretorzinho, boba e achando graça da referência irônica que fez à minha mensagem.
Por mais que eu respirasse fundo, meus batimentos cardíacos custavam a se normalizar.
– Boa noite, senhorita .
Esbocei um sorriso sem pensar em como ele se pareceria. Era para ser somente simpático de um jeito educado. O diretor não me deixou tempo para desejar-lhe boa noite também. Mesmo se tivesse deixado, não creio que eu desejaria. Minha mente não estava trabalhando direito. Direito... Diretor. O que diabos tinha acontecido? Acho que devo manter uma certa distância do Natal.
Eu ainda estava com meu “simpático” sorrisinho nos lábios quando percebi que as portas já tinham se fechado e o diretorzinho já tinha ido. E, exatamente como nos Natais dos últimos anos, eu estava sozinha.

Capítulo 9

Dia vinte e seis de dezembro. Manhã bonita. Apesar de a grossa camada de neve do lado de fora do alojamento parecer intacta, o Sol brilhava de um jeito diferente – não pálido e fraco, mas sim amarelinho e imponente. Eu podia até mesmo sentir um pouco de calor. Olhando a paisagem pela janela, eu pensava como o Natal fora, no mínimo, peculiar. Abanei-me sentindo a fervura de razão psicológica fluir pelo meu corpo. Comecei a andar pelo quarto. Por que estava tão inquieta?
Bom dia, alunos. – a voz da Katherine soava pelos alto-falantes nos corredores, sendo possível escutar de dentro dos quartos – O diretor vos espera no refeitório em cinco minutos.
Ouvi o aviso de Kat, perguntando a mim mesma o que o diretorzinho queria desta vez. Mal havia passado toda a cerimônia fofa de Natal montada pelo twitter.com/Hot_Ass e ele já tinha algo novo. Estava muito cedo para Réveillon, então o que ele planejava para agitar nossa semana tediosa de feriados?
Vesti o casaco azul marinho acolchoado do colégio que tinha uma coroa dourada estampada do lado esquerdo do peito – a verdade é que eu estava com preguiça de fuçar meu guarda-roupa e procurar outro casaco que não fosse o azul claro ou o sobretudo vermelho. Com uma das duas únicas calças jeans que eu tinha – já que o uniforme tinha sua própria calça, então eu não precisava ter outras calças jeans –, botas e luvas pretas, coloquei um gorro de lã vermelho e me senti pronta para encontrar a criatura que me deixou abobada no dia anterior. Abobada é uma palavra muito forte, eu só fiquei ligeiramente inibida. Só isso. Não estava acostumada com simpatia natalina, o que eu poderia fazer?
Eu segurava com firmeza as pontas das mangas do casaco enquanto andava até o refeitório. A gola alta me incomodava e a apreensão que eu sentia também. Onde estava o meu botão para ligar o “foda-se”? E por que eu estava apreensiva? Certo, não havia motivos para ansiedade. Tudo bem que o diretor tenha estado meio diferente, mas não há nada com que eu não possa lidar. Até porque estou nessa vida de esperteza há muito mais tempo e tenho uma carta na manga. Sim, na manga. Melhor eu soltar as mangas do casaco, pareço uma nerd introvertida indo em direção a uma platéia medonha.
Entrei no refeitório, que já estava devidamente limpo e organizado. A única decoração de Natal que restara era a árvore, até as bolas penduradas no teto haviam sido retiradas. Uns quinze alunos estavam sentados uns próximos aos outros conversando de modo animado. Exceto , que vestia uma blusa de manga comprida preta que ressaltava seus músculos. Enfim... Ele se mantinha um pouco afastado sem seus companheiros de futebol para entretê-lo. Mesmo assim, ele ria de modo contido da conversa dos outros. Até o diretor, em pé, usando um casaco verde escuro e All Stars – para a minha surpresa –, ria de algum comentário engraçado do garoto negro ao seu lado. Quando me viu, transformou a risada num sorriso escancarado, o que me fez ter vontade de sorrir também. Porém, antes que eu o fizesse, ele disse:
– Aproximem-se. Nós não mordemos.
Os que estavam sentados começaram a rir incessantemente. Percebi que eu não era a única a ter acabado de chegar – consequentemente, o sorriso do diretor antes de mandar nos aproximar não era só para mim. O que eu tinha pensado? Assim como eu, os recém-chegados não entenderam a graça do “nós não mordemos”. Logo puxei uma cadeira para perto da ruivinha Cassy e da indiana Nayia. Em seguida, todos já estavam sentados e o diretorzinho pigarreou para por fim falar o porquê de ter nos chamado.
– Vocês sabem ser muito divertidos. – Suspirou e continuou: – Pedi a Katherine que chamasse vocês aqui porque, não sei se lembram, mas quando lhes disse que haveria uma cerimônia de Natal, eu disse também que lá lhes daria uma notícia que envolvia todos. Essa notícia é que hoje, após o almoço, vocês, a vice-diretora e eu iremos fazer uma viagem. Passaremos a semana num hotel-castelo. Lá vocês terão aulas de História, Geografia e Artes, o que inclui também Filosofia, Sociologia e Religião.
O diretor mal deu uma pausa para respirar e a maioria dos alunos começou a metralhar perguntas e comentários.
– Onde é esse castelo?
– Não é preciso autorização dos responsáveis?
– Não sei.
– Ai, que saco! Não quero ter aulas.
– Eu também não.
– Se for longe, não quero ir!
– O que é hotel-castelo?
– É um hotel ou é um castelo?
– Pessoas devem ter morrido lá!
– Hotel-castelo me lembra filmes toscos de terror.
– Me lembra o Ghost Hunting.
– Pode crer.
– O que é Ghost Hunting?
– Não gosto de coisas antigas.
– Também tenho medo.
– Vamos de avião?
– Eu gostei da ideia.
– Pelo menos, não vamos ficar dentro do colégio.
– Concordo.
– Não sei, não.
O diretor ficou com os olhos arregalados e até desesperado com tanta gente falando ao mesmo tempo sem dar a ele a oportunidade de explicar as coisas. Nayia, bem do meu lado, estava tão assustada quanto ele. Cassy era uma das que disparava perguntas. A cena me fez querer rir.
– Calem a boca! – ordenou enraivecido. Tentei conter o riso, entretanto, mesmo assim, ele percebeu que eu estava achando graça – Ou melhor, silêncio. – corrigiu-se – Vocês são muito apressados! – Mordi meu lábio ainda segurando uma risada inadequada. Bumbum-fofo bufou – Desculpem, mas vocês não têm escolha. Não é preciso autorização. Através de um contrato assinado pelos responsáveis de vocês, eu tenho liberdade para levá-los a qualquer excursão durante a semana de feriados de fim de ano. – respirou fundo, pronto para uma chuva de reclamações que não aconteceu. Sendo assim, prosseguiu: – O hotel-castelo para onde vamos fica na fronteira da Inglaterra com a Escócia. Não há relatos de fantasmas ou qualquer atividade paranormal no lugar, então não há por que ter receio. E sim, vocês irão ter aulas, querendo ou não. Não há motivo para rejeição. O castelo é repleto de histórias de guerras e batalhas, e obras de arte. Deem uma chance, pois tenho certeza que será ótima experiência. Além de que vocês ganharão créditos comigo – disse, jogando uma piscadela para Cassy, que estava emburrada. Bem, ela estava mesmo é com medo dos supostos fantasmas.
Será que a piscadela tinha um duplo sentido, uma segunda intenção? Diretor, seu safado! Isso é assédio a uma aluna! O ato “gentil” do diretorzinho me fez sentir uma pontadinha bem pequenininha de ciúmes, o que me deixou irritada comigo mesma, afinal eu não podia ser idiota em pensar que o Nádegas-de-neném só era simpático comigo – mesmo que eu soubesse que, no fundo, eu era a aluna favorita dele. Se não eu, quem mais seria tão intrigante e interessante a ponto de chacoalhar a vidinha desse colégio?
– Quando vamos voltar? – alguém perguntou.
– Haverá outros visitantes lá?
– Se tem histórias de guerra é porque tem histórias de fantasmas também.
– Tenho medo de fantasmas. Não quero ir.
– Tudo bem, eu durmo com você.
– Ih, saia pra lá, seu tarado!
– Chega! – o diretorzinho exclamou, dando um basta no que poderia e iria ser o reinício de uma algazarra – Vamos voltar no dia primeiro de janeiro, após o Réveillon. Não haverá outros visitantes, devido ao número de quartos. Não há histórias de fantasmas. E todos dormirão sozinhos, um em cada quarto. Entenderam? – Ele não deixou tempo para responder e logo foi atropelando com ordens: – Agora, vão arrumar uma mala, o suficiente para uma semana. Depois do almoço, esperem o ônibus no jardim de entrada do colégio.
– Ônibus? – uma garota com mechas californianas no cabelo perguntou horrorizada.
– Sim, ônibus. – afirmou o diretor pondo as mãos da cintura de um jeito cômico e algumas pessoas riram, inclusive eu.
Quando eu pensei que tinha me livrado da loucura que havia sido o Natal, o dono do bumbum tchutchuco me vem com essa de excursão. Sei... Ele sabe que não aguentaria uma semana inteira trancafiado aqui fazendo praticamente nada com tantos alunos fora e tantos funcionários de férias. Até que uma viagem é uma boa saída. Nem lembro a sensação de sair do colégio, há anos isso não acontece comigo. Só espero que essa semana e o Réveillon não sejam estranhos como o Natal. Como é possível? Como é possível o , diferente de quase todas as outras vezes, se despedir de mim ou o diretor leve e sorridente como um gay em dia de parada ou o cheio de bizarrices mais do que nunca? No mesmo fim de semana! Eu realmente espero que os próximos dias não me reservem situações anormais, porque minha cota já foi estourada pelo próximo mês, ao menos.

As malas já haviam sido guardadas quando o almoço foi servido. Este passou com Cassy falando quase sem parar sobre como e por que ela sempre teve medo de fantasmas e Nayia esteve super absorta com as histórias. Eu comia simplesmente, ouvindo tudo e assimilando nada. Eu sentia um grande receio de como a tal viagem seria. Era uma ocasião com a qual eu não estava acostumada – aliás, este era mais uma com a qual eu não estava acostumada.
Nayia, Cassy e algumas outras pessoas foram logo pro ônibus, que estava estacionado na entrada do colégio onde fica o estacionamento. Entretanto, a maioria ficou enrolando. Como a garota que tinha o cabelo com mechas californianas. Ela andava de um lado para o outro perto da saída do refeitório e aquelas portas automáticas abrindo e fechando estavam me irritando.
– Minha filha, decida logo se você vai ou se você fica. – falei de modo hostil ao passar por ela para sair do lugar.
Fui calmamente à enfermaria tentar conseguir algum remédio que me desse sono. Eu não suportaria uma viagem tão longa sem algum remedinho para me ajudar. Assim, parei na soleira da porta, que estava entreaberta. Vi que um garoto não muito alto, magro, com os cabelos castanhos lisos caindo sobre o rosto claro com barba falava com a enfermeira daquele dia, a jovem senhorita Sunny Plec.
– Ah, qual é? A outra enfermeira sempre me dá, por que você não pode?
– Se ela não segue as normas estabelecidas, não é problema meu. Eu não posso te dar calmantes sem autorização. Sendo que os que você pediu são muito fortes. – respondeu a enfermeira. Eu não podia vê-la, estava fora do alcance da minha visão por causa da porta semi fechada.
– Fala sério! – O garoto tombou o corpo para frente, ameaçando se aproximar da moça – Eu sofro de ansiedade – mentiu, obviamente –, como vou ficar a viagem inteira sem um calmante? Alivia dessa vez pra mim, vai! Nunca mais te peço isso.
A enfermeira demorou alguns segundos para ceder:
– Olha, eu não vou te dar o que pediu. É forte demais. Vou te dar três comprimidos de enjôo. Eles têm, como efeito colateral, o sono. Você toma um agora e outro na viagem de volta. O terceiro é só de reserva.
No espaço em que eu via o garoto, pude ver a enfermeira se aproximar dele com um vidrinho de plástico azul. Ela abriu a tampa branca e jogou três comprimidos na mão dele, restando ainda três no potinho. Sem tempo para formular um plano em mente, empurrei a porta como se tivesse andado muito rápido para chegar ali. Eu não estava afim de ser insistente como o garoto só para conseguir uns comprimidinhos de nada.
– Ai. – suspirei bufando, sibilando cansaço.
– O que aconteceu? – a enfermeira de curtos cabelos loiros, parecendo mais nova do que realmente era, perguntou.
– Ah, enfermeira... – falei entrando de vez na enfermaria, me sentando em uma das cinco camas com lençóis brancos que havia ali, a que estava mais perto da estante de remédios. De soslaio, avistei o potinho azul quase transparente que já estava de volta ao seu lugar. – Eu almocei e fiquei muito enjoada e tonta. Não sei o porquê. Acho que minha pressão caiu. – Pus uma mão na cabeça e fechei os olhos como se estivesse sentindo tontura.
– É melhor a senhorita se deitar. Vou buscar um copo com água.
Abri um olho e vi que a enfermeira entrara na sala do outro lado da enfermaria. Nunca fui lá, então não sei o que há lá dentro. O garoto magrelo já tinha ido embora sem dizer nada, nem um agradecimento. Aproveitando a deixa, peguei o tal vidrinho onde estavam os comprimidos que davam sono e o coloquei no bolso do meu casaco que estava vazio – já que o outro estava com as minhas luvas. Eu não queria nada forte mesmo. Aquele remédio serviria.
Assim que a moça voltou, eu bebi a água que me oferecera. Respirei fundo algumas vezes e disse que já me sentia melhor, que havia sido só um mal estar e que eu tinha que me apressar senão o ônibus da “excursão” iria sem mim. Sem deixá-la argumentar, saltei da cama e saí rapidamente da enfermaria.
Enquanto me aproximava do ônibus, reparava que a garota de mechas californianas estava enrolando o cabelo num dedo e mordendo o lábio inferior nervosamente ao mesmo tempo em que o diretor falava algo com ela, parecendo tentar convencê-la a entrar no veículo. Àquela distância eu não conseguia ouvir e, antes que eu estivesse perto o bastante, os dois entraram. Quanto pavor de ônibus, viu?
Logo adentrei o veículo também. O motorista ranzinza nem me olhou. Virei o rosto para as poltronas. É, eu era a última a entrar, pelo visto. Todos já estavam confortáveis e conversando agitadamente com suas duplas – como Cassy e Nayia. Procurei com os olhos algum lugar vago. Encontrei dois: um ao lado do diretor, no primeiro par de poltronas do meu lado esquerdo bem perto do motorista mal humorado, e o outro era ao lado de no último par de poltronas do meu lado direito bem em frente ao frigobar. Eu teria que escolher entre o imprevisível diretor – que há pouco tempo estava cismado em implantar regras e mais regras de um jeito chaaaaaaaaatíssimo e agora está todo serelepe e divertido, cheio de sorrisinhos, festinha e excursão – e o bipolar – que às vezes é normal e indiferente, às vezes louco e perturbado, e às vezes implicante e até agressivo. Tenho que confessar que eu ficaria tensa viajando ao lado de qualquer um dos dois. Porém, o diretor é aparentemente muito mais inofensivo e agradável que o , considerando o meu último momento a sós com os dois e como me senti com cada.
Ok, decidido. Hoje é seu dia de sorte, diretorzinho.
– Pronto, achei a câmera. – disse Katherine para o diretor, aparecendo atrás de mim no início do corredor do ônibus após a escada – Vá se sentar, . – Ela me deu um empurrãozinho que não foi tão de leve assim e eu acabei dando dois passos para frente. É, não era um dia de sorte para o diretor. E era um dia de azar para mim.
Quando olhei, a bitch da Kat já estava sentada do lado do Bunda de Anjo, exibindo “sua câmera profissional”, que na verdade era do colégio e não dela. Fazer o quê? Não se tratava de sentar ao lado do diretor – ok, talvez um pouco; seria interessante –, e sim de não sentar ao lado do . Ele não costumava ser uma pessoa ruim, mas de uns tempos pra cá ele fica cada vez mais estranho e ultimamente eu não passo dois dias sem me perguntar pelo menos uma vez o porquê de suas mudanças.
Fui andando até como se eu tivesse tempo de sobra – e não que eu não tivesse, só que seria útil ao motorista que todos estivessem posicionados logo. Dane-se o motorista! Está sendo pago, não precisava estar com a cara tão amarrada. Passei pelas poltronas de Nayia e Cassy; a ruivinha tagarelava como sempre e a indiana desviou a atenção da outra por dois segundos para esboçar um sorriso pra mim. Ah, como eu gostaria de jogar Cassy para a poltrona que fazia par com a do . Eu não ficaria como uma pilha de nervos a viagem inteira e Nayia poderia descansar sua mente da falação de Cassy. Life is unfair, girl. Get over it.
Sentei na poltrona ao lado de vagarosamente como se não quisesse ser percebida e, na realidade, eu não queria mesmo. Aquela situação não seria fácil para nenhum de nós dois. Ele estava com a cabeça tombada no encosto, olhando através da janela a paisagem de inverno, todo distraído ou fingindo estar, com fones de ouvido ligado a um celular que ele deve ter conseguido como o – virando amiguinho do Chuck. De qual forma? Eu não sei.
– Todos estão aí? – perguntou o diretor em pé lá na frente. Ele começou a contar os alunos com o dedo indicador após alguém murmurar um prolongado sim. – Vocês podem ficar à vontade, mas tentem não sair de suas poltronas e se manter com cinto de segurança. Boa viagem.
Remexi-me na poltrona de modo desconfortável, então me lembrei dos comprimidos que furtei da enfermaria. Levantei-me e fui pegar água no frigobar logo atrás de mim e de . Ouvi o motor do ônibus ligar. Peguei o potinho com o remédio no bolso do meu casaco e pus um comprimido pequeno, redondo e branco na minha mão. Guardei o potinho no bolso e pus o comprimido na boca. Em seguida, peguei um copo de plástico lacrado contendo água. Abri o lacre e bebi a água toda. Larguei o copo em um lixinho ali do lado e voltei para o meu lugar. Prestes a me sentar, o ônibus tomou uma arrancada que, mesmo não sendo forte, me fez cair na poltrona sem a menor delicadeza. me olhou de rabo de olho com uma sobrancelha levantada, que fazia sua expressão engraçada. Dei de ombros como um sinal de desculpas e ele virou-se de novo para a janela. É, esse era um dos dias em que ele estava indiferente.
O som vindo dos fones dele parecia estar mais alto agora que eu tinha parado de me mexer. Era um pop rock agradável e eu até gostaria que ele me emprestasse um fone. Kat, toda pimpona pra cima do diretorzinho lá na frente, decidiu colocar música para todos ouvirem sem se importar se iríamos gostar do gênero. Mesmo de onde eu estava, podia ouví-la afirmando que eram músicas de artistas britânicos que não eram muito conhecidos, porém, eram bons e iriam acalmar a todos. Assim, ela ligou o som do ônibus. Eu diria que eram músicas de filme de drama. Eu as ouviria num enterro. Se eu estivesse de TPM, eu começaria a chorar instantaneamente.
Não sei bem se era culpa das músicas da Katherine ou se era do remédio para enjôo que eu tomei. O fato era que loooongos minutos depois meus olhos começaram manifestar a vontade de se fecharem e eu sentia uma moleza no meu corpo como se tivesse acabado de acordar e não quisesse levantar da cama. Pra quê resistir? Vesti minhas luvas nas mãos e o capuz do casaco na cabeça, fazendo a claridade vinda das poucas janelas com cortinas ainda abertas praticamente desaparecer. Fechei os olhos e a escuridão me tomou.

Eu conheço esse cheiro. Tão másculo, tão viril... Tão familiar. O que ele quer? – uma voz perguntou em minha mente, a minha voz. Você sabe – a mesma voz afirmou, só que esta parecia vir de outra pessoa. Eu não conseguia ver nada. Eu não sei – eu disse a mim mesma. Solte-me, quero sair! – a outra ordenou. Um balanço no chão fez com que uma de mim sumisse.
Sem querer e sem perceber o que estava fazendo e onde eu estava, soltei um intenso suspiro e abri os olhos. O ônibus havia parado. Vi as fileiras de poltronas e as luzes se acendendo. As pessoas começaram a falar e a se mexer pouco a pouco. Virei para o lado para ver e, então, me dei conta de que eu estava deitada no ombro dele e ele estava com a cabeça apoiada na minha. Foi só eu me mexer e ele acordou também. Meu coração acelerou. Eu sabia que quando nos olhássemos seria um momento bem embaraçoso. Eu nem percebi e, pelo jeito, ele também não. Levantei meu olhar e ele me fitava ligeiramente assustado e confuso. Era inevitável não nos olharmos com um pouco de constrangimento. Um pouco é bondade. Muito constrangimento. Os olhos dele eram muito bonitos. Sempre admirei os de e, apesar de conhecer há mais tempo e ele sempre chegar muito perto de mim para implicar comigo, eu nunca cheguei a realmente reparar nos dele. E já mencionando proximidade, estávamos próximos demais. Até mais que usa para me irritar. Como se estivéssemos em transe ou inibidos demais por causa daquela situação, não conseguíamos nos mover nem desgrudar os olhares e cair fora dali.
– Vamos! Todos saindo do ônibus. – o diretor mandava. Logo que meu cérebro assimilou sua voz e o que ela dizia, virei minha cabeça para o outro lado e levantei da poltrona num pulo. Já no corredor do ônibus, olhei para . Ele ainda estava em sua poltrona, olhando desentendido para onde eu estava sentada há instantes. Voltei meu rosto para frente e quando passei pelo diretorzinho que estava na ponta do corredor, ele esboçou um daqueles sorrisos cute que ele tem distribuído ultimamente. Abaixei os olhos, pois não conseguia retribuir a simpatia. Não àquela hora. Não depois de acordar no ombro de .
Desci as escadas do veículo e Kat estava à frente do grupo de alunos. Assim que apareceu se misturando em meio às pessoas rapidamente, o diretor fez o mesmo, logo indo se juntar à Katherine. Já era noite. Uma noite escura e gelada. Olhei em volta e observei caminho por onde o ônibus passara enquanto ouvia Kat comentar “seis horas de viagem, ótimo tempo, não acha?”. A única luz que se destacava no breu vinha do farol do veículo.
Mesmo com a obscuridade, eu podia ver – muito mal, mas ainda sim podia –, a partir de onde o ônibus estava estacionado, uma trilha com uma camada mais fina de neve que a do restante do lugar. Imaginei que ali, numa época que não fosse o inverno, teria terra marrom clara e em volta uma grama verdinha. De um lado desse caminho, havia um aglomerado de árvores, provavelmente um bosque. Já do outro lado, havia um lago, totalmente congelado. Fora isso, a escuridão não me deixava enxergar mais. A não ser, claro, o castelo logo à minha frente. Entretanto, eu não conseguia ver seu tamanho, tom de cor ou qualquer outra coisa. Nossa sorte era que não estava nevando, porque estávamos na entrada enquanto o diretor e a Katherine subiram uma larga escada de pedra maciça para bater nas portas duplas de madeira pesada com um daqueles adornos dourados em forma de cabeça de dragão ou leão – ou seja lá o que for – pregado em cada uma delas.
Um jovem e bonito homem, exceto pela marca em um lado de seu rosto que ia do olho até a boca e que parecia uma cicatriz de queimadura, abriu as portas e finalmente pudemos enxergar um pouco melhor as coisas devido à luz que vinha do interior do lugar. Ele atendeu o diretor e a vice, e nos mandou entrar. Ele devia ter uns trinta anos. Era alto e forte, usava sobretudo marrom escuro e botas pretas.
Todos os alunos subiram as escadas e limparam os pés num enorme tapete de cor escura na estreita varanda antes de entrar no castelo.

Os quatro dias seguintes passaram mais tediosos do que imaginei. Acordávamos cedo – não tão cedo quanto acordaríamos em horário de aulas no Leader High School, mas ainda assim cedo –, tomávamos café da manhã, todos juntos na imensa mesa retangular de madeira na sala de jantar sobre um tapete com cara de velho e caro – como aquelas obras de arte horríveis que valem uma fortuna –, podíamos passear pelo castelo ou fazer o que quiséssemos até o almoço e após o mesmo tínhamos aulas de História, Artes, Geografia, etc e etc como o diretor Bumbum-de-filme-pornô disse. Fim das aulas do dia significava descanso mental até o jantar. Fim do jantar era sinônimo de “todos para seus quartos para dormir”.
Eu aproveitava meu tempo livre entre o café da manhã e o almoço e entre o fim das aulas e o jantar perambulando pelo castelo feito de pedra que oscilava do bege ao marrom e ao cinza por fora e revestido de paredes pintadas de cores fechadas e luxuosas por dentro. Nos cômodos, o chão era de tábua corrida que parecia não ser tão antiga quanto deveria. Cheio de quadros com molduras espessas com muitos detalhes, tapetes, vasos e exemplos de Arte pra todo lado... Apesar do caráter antigo, todo o interior era claramente restaurado. A construção era grande, porém não era enorme. Nós ganhamos um mapa assim que chegamos para não precisarmos andar dependendo de um guia. Cada dia eu me acomodava numa parte do castelo para simplesmente olhar a paisagem e escrever. Tenho uma característica muito boa: minha imaginação é fértil e mesmo com a paisagem toda branca, coberta de neve, eu podia construir a imagem do ambiente em outra estação. A grama verdinha, o bosque repleto de folhas de um verde vivo nas árvores, o extenso lago, algumas aves, o céu azul e o sol brilhando de modo fortalecedor. Eu me inspirava e refletia sobre as coisas do cotidiano justamente por estar fora dele.
Os dias passaram assim, exceto o último antes da véspera de ano novo. O que houve foi que durante uma das aulas de História, contaram-nos sobre os tais fantasmas que o diretorzinho disse que não existiam. A guia disse que não nos disseram sobre eles logo no primeiro dia para não nos assustar, entretanto, já que já haviam passado três dias tranquilamente e estávamos familiarizados com o lugar, poderiam nos contar sobre eles. Perguntaram-nos se escutamos algum barulho por ali durante esses dias e algumas pessoas disseram que sim. Cassy não escutara nada, mas foi só falar a palavra “fantasmas” que ela pirou. Nayia tratou de “confortá-la” prometendo que ia ficar com ela o tempo todo. Eu me lembrei do velho diretor e, mesmo que eu afirmasse a mim mesma que eu não tinha medo de fantasmas, nesse dia resolvi não ficar dando sopa pra alma penada pelo castelo e, ao invés de ficar passeando para olhar a paisagem e escrever, fui à biblioteca procurar algo para ler. Será que foi uma boa escolha?
Lá, encontrei – que assim como o diretorzinho, eu não tive muito contato nem troquei palavra alguma desde o dia em que chegamos, exceto por alguns “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite” e uns sorrisinhos de lado com o bunda-fofa; nada que eu faria com o e ele comigo, principalmente depois da situação no ônibus. A criatura implicante estava sentada numa das cadeiras da grande mesa redonda marrom escura no centro de uma sala perfeitamente quadrada com prateleiras de madeira abarrotadas de livros até o teto. Por alguns incontáveis segundos, eu não sabia se deveria ficar ou sair da biblioteca. Ficar me colocaria numa saia justa que, na verdade, eu já estava. Sair do nada mal tendo acabado de chegar seria motivo para, numa possibilidade existente, no futuro, pegar no meu pé sobre como eu “fugi”. Confortável ou não, melhor – ou “menos ruim” – ficar.
Andei até uma das paredes coberta de livros, lendo nome por nome nas laterais deles. Alguns sobre guerras históricas, o que não é interessante já que aprendemos tudo sobre o lugar, e a maioria eram romances fantásticos e sobrenaturais. Coisas que eu não acredito. Fadas, bruxas, vampiros, lobisomens... Fantasmas. Ok, esse último, em momentos de adrenalina, me traz dúvidas sobre sua inexistência. Olhei de soslaio para , que parecia entretido num livro preto com as palavras na capa escritas em dourado, que de onde eu estava de pé não era possível ler. Agora que já olhei, olhei, olhei, posso ir embora, não posso? não poderá falar que fugi de ficar numa sala sozinha com ele – eu pensava. O pior é que não é só o caso do ônibus que me faz não querer passar perto de , mas também todas bizarrices nas quais acabo por me encontrar quando estou com ele. Como no banheiro feminino durante o Natal. E ele “só queria pedir desculpas”. Desculpas pelo quê mesmo? Ah, sim. A gravata. Tanto drama por causa de uma gravata. Se bem que o diretorzinho estava bem rígido com as suas regrinhas idiotas. Será que quando voltarmos da “excursão” ele vai voltar a ser um ditador irritante?
No entanto, o caso agora é . Seria um momento oportuno para saber melhor sobre essa história do meu “namoradinho” – como ele disse naquele dia – ter pegado a gravata dele. Se eu ficar pensando muito, não vou fazer coisa alguma. Certo. Peguei um livro roxo escrito em prata desbotado “A Princesa Assassina” e sentei na cadeira mais perto. Abri o romance e comecei a folhear as páginas como quem não quer nada. Olhei algumas vezes para , que estava a noventa graus de mim, totalmente absorto como se eu não existisse, como se eu não estivesse ali. Ele estava me evitando? Porque eu nunca o vi lendo. Nem sequer estudando, muito menos lendo. Vi que seu livro preto se chamava Dezesseis. Folheei mais algumas páginas do que estava em minhas mãos e cansei. Joguei-o de qualquer jeito na mesa. Se era para eu perguntar, melhor fazer logo.
. – chamei em tom baixo, devido ao silêncio agonizante ali. Ele levantou o olhar e com ele uma sobrancelha, porém não de modo engraçado como no ônibus quando viemos para o castelo e sim com o que eu chamaria de desdém – Posso te interromper um pouco? – perguntei educada. Educada demais. De onde eu tirei tanta educação?
– Já interrompeu, né? – ele respondeu curto e grosso, virando a parte interna do livro para a mesa para não perder a página em que estava.
– Isso que dá ser educada. – resmunguei comigo mesma – Pois então – voltei a falar com ele –, eu só quero pedir que me explique o que houve naquele dia em que você disse que o era o culpado por você ter sido castigado.
Primeiramente, ele continuou com a cara de nada que ele estava. Depois, percebi que sua expressão vazia era confusa, não indiferente.
– Do que você está falando?
– Você não lembra? Na festa de Natal você até veio me pedir desculpas por ter me tratado mal e ter aparentemente me culpado do seu castigo...
Ele abaixou os olhos um pouco e voltou a me olhar.
– Não estou conseguindo lembrar.
Cínico! – exclamei em minha mente. Não é possível! Ele pediu desculpas há menos de uma semana e aquele dia do castigo nem faz tanto tempo assim. A não ser que... Aqueles olhos vermelhos dele, e agora ele não lembra o que me disse. E na viagem ele estava com um celular. Será possível? Eu deveria perguntar?
, você tem andado com o Chuck? – O quê? – ele se fez de desentendido. Resolvi ser mais direta.
– Você tem se drogado?
Os lábios dele se abriram numa incredulidade ligeira que logo desapareceu.
– Você tá louca? Do que você tá falando? – ele rebateu enraivecido, revolto.
Arregalei os olhos sem saber ao certo o que estava acontecendo. Se ele estava mentindo, gozando com a minha cara, ou se ele estava realmente falando sério, que ele não se lembrava de nada. Eu não sabia. Mas se ele estava fingindo, estava o fazendo muito bem, porque qualquer um acreditaria. Eu não conseguia acreditar, eu estava lá quando ele me disse aquelas coisas e eu lembro muito bem.
Repassando tudo relacionado a esse assunto na minha cabeça, quando dei por mim, eu já tinha levantado atordoada da cadeira na biblioteca, deixando lá sozinho com cara de perdido, sem entender. No momento em que percebi, eu estava num dos corredores afastados da parte principal do castelo. Era uma passagem para o calabouço e a capela. Eu não sabia direito como eu tinha ido parar ali. Eu me lembrava de ter ido, só não lembrava o motivo. Como se eu tivesse sido impulsionada. Pensando e pensando sobre mais um acontecimento estranho com , me distraí. Era como se eu tivesse dormido, fosse sonâmbula e, sonhando, tivesse ido até ali.
Olhei em volta, estava escuro e frio. Um vento extremamente gelado piorava tudo. Abracei meu próprio corpo, um casaco não era suficiente para me esquentar, por mais grosso e pesado que fosse. O corredor era aberto da altura da minha cintura até o teto. A única coisa que me ajudava a olhar o chão e tudo em volta era a luz da lua que brilhava forte no céu em meio a nuvens melancólicas. De um lado, o lago congelado e no horizonte depois dele, montanhas e árvores. Do outro, o bosque tenebroso. À minha frente, um arco com uma entrada sombria para o caminho para a capela e o calabouço. Atrás de mim, um arco idêntico, só que este com portas de madeira, de onde eu viera – do interior do castelo.
Menina – um sussurro passou por mim. Voltei-me para a entrada sem portas em direção à capela e o calabouço. A luz da Lua não chegava até lá. A partir dos arcos no alto da entrada, era tudo breu, não se podia ver nada. No entanto, apesar da profunda negritude, algo parecia me chamar. Como se eu estivesse vendo alguma forma estranha em meio ao preto. Como se de alguma forma eu soubesse que havia algo lá. Algum guia? Algum aluno? Segurei as mangas do casaco. Por que diabos eu estava sem luvas? E com os braços envoltos ao corpo, engoli em seco e fui até a entrada. Estendi uma mão no caso de haver alguma porta que eu não estava enxergando. Só ar. Senti uma pontada forte na lateral da minha cabeça. Pus uma mão no local, fechando os olhos com força. A pontada se transformava em dor e se espalhava por toda a cabeça. Coloquei a mão que estava junto a meu corpo do outro lado cabeça e, com as duas mãos, eu pressionava como se eu pudesse segurar a dor. Isso é culpa sua, sabia? – o sussurro acusou. Por um momento, pensei conhecer aquela voz rouca. Pensei conhecer aquela frase.
A dor e a confusão em minha mente me fizeram dar um passo à frente. Meu pé ficou metade para fora do que imaginei ser um degrau, já que de qualquer modo eu não podia ver onde estava pisando.
O que você vai fazer agora? Eu não sei – respondi mentalmente à suposta voz que me perseguia. A dor parecia ficar mais intensa, ela e a parte do meu pé para fora do degrau me deixavam sem equilíbrio. E como num empurrão, meu corpo tombou para frente. O meu próximo pensamento fui eu rolando pela escada de pedra, parando num hall que dava, de um lado, no calabouço e, de outro, na capela. Eu quase podia sentir o chão gelado e as pancadas me machucando. Meu coração parecia se debater.
Mas nada aconteceu. A dor desapareceu. Quando abri os olhos, eu não estava no hall e muito menos caindo. Já não estava nem sob o arco que marcava o início da escada. Havia algo atrás de mim. Alguém me segurava.
– O que você estava fazendo?

Capítulo 10

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“Você”? – estranhei, primeiramente; o termo não combinava com a voz.
Dois braços afrouxaram a força e deslizaram devagar da minha cintura. O perfume suave era o oposto do de , entretanto, me dava igual sensação de adrenalina, mesmo que eu tentasse reprimí-la. E eu não conseguia evitar meus pensamentos quanto a isso, como o usual. Talvez esse sentimento de agitação se devesse ao fato de que eu estava prestes a cair. Porém, quem me segurou não ajudou para que eu me acalmasse. Meu corpo inteiro vibrava como se estivesse emanando energia. Assim que me soltou, após fazer a pergunta, eu respirei fundo, tentando diminuir a frequência da minha pulsação, e virei devagar para ele. A luz da Lua cobria seu rosto como um véu iluminado, o que deixava seus traços em destaque. Ele era bonito, eu sabia. Mas ali, era diferente. Ele brilhava, ele estava lindo. Quase parecia divino. E com aquela expressão de preocupado, meio assustado, e com sua atenção direcionada a mim com tanto zelo, parecia um anjo. Quase desejei que ele fosse meu anjo da guarda.
– Você está bem?
Meus olhos estavam arregalados e eu paralisada, em transe. Meu corpo não vibrava mais, mas parecia estar dormente, formigando. Mexi os ombros e a cabeça desnorteada, embaraçada.
– Acho que sim. – respondi baixo, trêmula.
– Você deve estar congelando. – o diretorzinho disse, tirando um de seus casacos e pondo-o em mim. Agora eu me dava conta, eu estava mesmo congelando – Vamos entrar, está na hora do jantar. – Ele pôs uma de suas mãos em minhas costas, conduzindo-me de volta para dentro do castelo. Antes que passássemos pelas portas de madeira, olhei para trás desacreditando no que havia ocorrido, no que poderia ter ocorrido.
Eu queria organizar meus pensamentos, mas não conseguia. Era informação demais. Ou de menos. Eu não sabia o que pensar nem o que dizer a mim mesma. Se estava delirando ou se estava de verdade ouvindo algo. As coisas definitivamente estavam anormais. , ... eu. Eu sentia que precisava sair do que quer que eu estivesse presa. Sentia que precisava fugir porque... Como se não bastassem os garotos, eu estava ficando... paranóica de novo.

– Bom dia, . – Nayia falou, sentando-se ao meu lado numa das salas do castelo. Eu estava enrolada num cobertor em um sofá perto de uma enorme janela, cuja parte de madeira estava aberta e a de vidro fechada, fazendo com que fosse possível ver parte do ambiente externo do castelo.
– Bom dia. – respondi, cabisbaixa.
– O que foi? – ela perguntou, apreensiva.
– Nayia, você não me esperou! – Cassy apareceu de um corredor, andando rápido com passos pesados até nós – Ah! Oi, . Bom dia! – Ela sorriu fofa e elétrica ao mesmo tempo.
– Bom dia. – Esbocei um sorriso.
– Nay, vá à biblioteca comigo? – Cassy falou manhosa.
– E por que você não pode ir sozinha? – ela rebateu ,com uma voz preguiçosa.
– Porque eu tenho medo, e pedi pra você ir lá comigo anteontem! – Cassy fez um bico infantil e Nayia revirou os olhos como eu nunca a imaginei fazendo. Soltei um risinho acanhado – Viu? Até a riu de você.
– Você riu de mim, né? – Nayia virou para mim com sarcasmo. Concordei à mesma medida, já que eu estava rindo de Cassy e seu medo infundado de fantasmas. Infundado? – Vou lá com ela. Até daqui a pouco, . – Nayia se despediu e eu assenti com a cabeça enquanto Cassy dava um tchauzinho para mim, arrastando a outra corredor adentro.
Voltei a olhar, através da janela, a paisagem branca lá fora e a maioria dos alunos fazendo guerrinha de bolas de neve. Creio que só não estavam lá Nayia, Cassy, eu e . E, claro, a criatura que, um pouco depois de as meninas terem me deixado para ir à biblioteca, se sentou no sofá meio de lado assim como eu, pondo um braço no encosto de um jeito bem informal. Eu tinha certeza de quem era, porém, não tirei os olhos da janela. Não sabia como olhá-lo.
– Imagino que não queira falar sobre ontem. – o diretor disse, receoso.
– É. – Vi de soslaio que ele também olhava para a janela, não para mim.
– Certo. Não vou tocar no assunto. Mas... – hesitou.
Virei meu rosto vagarosamente para ele, com a minha cabeça afundada no encosto de costas onde ele mantinha seu braço apoiado. Só havia um lugar vago entre nós dois. Ele me olhou de volta. Senti uma onda de calor debaixo do cobertor.
– Hoje – ele continuou – é trinta e um de dezembro. É o último dia do ano. Quer mesmo ficar aí assistindo o tempo passar?
– Desculpe, diretor. Sinto-me indisposta.
– Sei... – Ele piscou algumas vezes, fitando o chão, e tornou a me olhar – Não sei o motivo de estar triste, desanimada ou talvez com outro sentimento... No entanto, o melhor remédio para esquecer o que te aflige é se distrair. Não acha?
Minha boca se estendeu num canto, formando um meio sorriso, e soltei o som de uma risadinha.
– Você parece um velhote super experiente falando assim, sabia?
Ele sorriu.
– Não sou velho nem muito experiente, mas aprendi algumas coisas em minha vida. Todos nós aprendemos. Ficar aí sentada não vai te ajudar em nada.
O pior é que ele tinha razão. Ficar assistindo o tempo passar não iria me dar respostas para tantas perguntas que vagavam pela minha mente, e muito menos me fariam esquecer o que me perturbava. Pelo contrário, ficar à toa, admirando o nada, só me faria pensar mais sobre o que eu não quero pensar, e isso me deixaria louca.
– Por acaso o diretor tem alguma sugestão atraente? – Perguntando, tombei ligeiramente meu tronco para frente, com uma expressão malandra no rosto.
O rosto do diretorzinho se avermelhou de um jeito que eu já tinha visto antes – de um jeito que eu já tinha feito se avermelhar –, mas que não via há um tempo, desde que ele resolvera tomar uma postura mais severa diante dos alunos. Senti uma leve – levíssima – vontade de apertá-lo ao parecer uma criancinha envergonhada. Bom saber que ele ainda tinha um lado bobão... E encantador.
– Não, diretor. Não quero participar de uma guerra de bolas de neve. – falei assim que ele me guiou para o ar livre onde os alunos estavam brincando – O senhor não disse na noite de Natal que estávamos em trégua? Não pode querer que eu entre numa guerra agora. – reclamei, com as mãos na cintura.
– Ah, vamos lá. – ele disse, descendo os degraus da curta escada que ligava a varanda em que estávamos ao campo coberto por uma camada grossa de neve. Fiquei no mesmo lugar, observando-o – É só uma brincadeira de descontração, e é o último dia do ano... Ou você tem algo melhor a fazer? Porque eu não tenho.
Vendo-o se afastar e caminhar sobre o gelo, eu me perguntava o porquê de ele estar sendo tão legal ou, no mínimo, solidário em querer me arrastar para uma brincadeira idiota, em querer me distrair para eu não continuar tristonha durante todo o dia. Durante todo o “último dia do ano” – como dizia o discurso dele. Ele nem sequer parecia um diretor, parecia um de nós, alunos. Tão leve e enturmado. Mais do que eu jamais fora nesses anos todos que estive no Leader High School, mesmo com a maioria das pessoas me adorando e idolatrando minhas atitudes.
– Diretor... – Estremeci enquanto ele se abaixava e pegava uma quantidade de neve e moldava-a nas mãos até formar uma bola – Não, diretor – pedi. Com a bola que fizera em uma mão, ele fez menção de jogá-la – Diretor... E a trégua? Ei, eu sou uma aluna tão legal. E o lance de eu ser sua aluna favorita? Onde está a consideração? – Eu disparava palavras e ele ria. De repente, quase me pegando despreparada, ele não se conteve em ameaçar e jogou a bola em mim. O reflexo de quem pratica esportes regularmente fez com que eu pusesse meus braços em frente ao rosto e ao peito.
Senti meu coração palpitar com força. Porém, ao mesmo tempo em que estava irritadiça e com uma grandiosa vontade de revidar, também queria rir. Orgulhosa, tentando segurar uma risada, meus lábios formaram um bico infantil.
– Ah, é? Então é assim... – Meu bico se transformou num meio sorriso maléfico conforme eu descia a escada até a neve – O senhor que pediu, lembre-se disso. – Ele deu alguns passos para trás.
Abaixei-me e peguei um punhado de gelo. Formei uma bola quase sem tirar os olhos do diretor. Segurei-a em uma mão; entretanto, antes que eu pudesse jogar, ele falou:
– Espere. – pediu – Gente, atenção! – Levantou os braços, fazendo com que todos o olhassem. Anunciou: – Gente, nosso alvo é a !
Os alunos começaram a gritar e rir como se estivesse comemorando. Num impulso, não segurei mais e taquei minha bola de neve no diretorzinho, que por pouco não virou a cabeça. Se ele não tivesse o feito, a bola teria acertado em cheio sua cara, mas como o fez, acertou seu gorro de lã. Comecei a gargalhar.
– Na cabeça foi sacanagem. – ele disse, agachando para pegar neve.
– O senhor que começou. – retruquei, fazendo o mesmo.
– Uhul, guerra! – alguém exclamou do outro lado do campo.

Passaram-se a guerra de bolas de neve e o almoço. Depois, tivemos uma explicação de como seria o Réveillon, o que me surpreendeu. Achei que fosse ser uma festa normal – ou nem tão normal assim, como o Natal. Uma jovem guia explicou que haveria um baile equivalente aos do século XIV – tempo em que o castelo fora construído – e que seriam abertos os guarda-roupas. Teríamos que ter muito cuidado com as vestimentas porque eram réplicas perfeitas – ou quase – da família original que morara ali. Qualquer dano seria motivo para a cobrança de multa. Em seguida, um homem levou os rapazes a um quarto e a moça levou as garotas até outro, onde escolheríamos as roupas e nos ensinariam como vestí-las.
O quarto era grande, com uma cama de casal que parecia pequena em meio a um cômodo daquele tamanho. O papel de parede – que já nos contaram noutro dia que fora feito à mão – era de um amarelo claro e delicado com detalhes brancos. As almofadas na cama eram bordadas de uma linha dourada e as louças que estavam sobre o criado-mudo pareciam cristais. O quarto inteiro cintilava como um sonho. Havia diversos vestidos longos e pesados semelhante aos de princesas, xales, cardigãs, sapatos, chapéus, etc. De vários tamanhos. Uma coisa mais linda que a outra. Certamente, esses bailes devem ser feitos com todas as excursões – pensei. Eu não precisei escolher um look. Um completo traje me escolhera assim que me virei para o imenso closet. Meus olhos brilharam e pude me imaginar perfeitamente vestida nele sem forçar aquele pensamento.
– Você gostou dele? – a moça indagou-me.
– Sim, é lindo. – respondi sem olhá-la.
– O vestido do qual este é uma réplica foi usado por uma jovem, que no futuro viria a se tornar marquesa, no baile em que ela conheceu o rapaz que veio a se tornar seu marido. – a guia contava – Dizem os livros que eles foram muito felizes. – Olhei-a por um instante e ela me fitou de cima a baixo – Acho que ele te serve. – disse – Pegue-o antes que alguém o faça.
E foi o que fiz. Enquanto as meninas fofocavam e ficavam indecisas sobre qual vestido ou qual sapato ou qual falsa jóia escolher, peguei o espesso cabide em que o traje e o plástico que o envolvia estavam presos, os sapatos que estavam perto dele e a pequena caixa com tampa transparente onde estavam um colar, um par de brincos e um bracelete. E saí daquele quarto, indo em direção ao meu.

Eu não queria me mexer. Estava tão gostoso ficar ali, na cama, colchão e travesseiros macios, envolta por cobertores grossos e quentinhos. Com a sensação de estar protegida do mundo e até de mim mesma. Que horas deveriam ser? Sem abrir os olhos, tateei a mesa de cabeceira procurando o abajur. Senti a forma do botão que acende a luz e apertei-a. Abri um olho e vi o relógio. Demorei alguns segundos para endireitar minha visão e meu raciocínio e enxergar com certeza que horas eram.
Eu não tinha dormido bem na última noite. Sendo sincera, eu estava com medo de pesadelos e não conseguia parar de pensar no que havia acontecido e no que eu tinha “escutado”. Assim, estive com muito sono durante o dia, eu precisava dormir um pouco. Quando trouxe o vestido para meu quarto e após experimentá-lo, resolvi tirar uma soneca.
Saltei da cama. Eu estava atrasada. Muito atrasada.

Com uma tremenda dificuldade, consegui colocar o vestido. Mesmo com a ajuda do espelho, nem sei como o vesti. Por mais frio que estivesse, nunca me coloquei sob tanto pano. E com tamanho esforço, até senti calor. Ele era justo e retilíneo ao corpo na parte de cima, com várias amarras, como um corpete, e bastante volumoso na parte de baixo. Variava de azul anil ao turquesa. As mangas eram curtas e de volume abundante. Usando presilhas, tentei fazer um penteado como os que vi em alguns quadros pelo castelo. Passei maquiagem, ressaltando os olhos e um pouco a boca, mas nada escandaloso. Por fim, pus as longas luvas de cor pérola, o bracelete, os brincos e o colar de pedras azul celeste.
Nos quarenta e cinco minutos do segundo tempo de jogo, lembrei que a festa poderia ser um saco e, já que dormi muito e em fora de hora, eu poderia desejar ter sono e não tê-lo. Então, peguei os dois comprimidos que restaram dos que furtei da enfermaria e enfiei-os numa das luvas.
Agora sim. Hora de ir.
(coloque a música indicada no início do capítulo para tocar)
Saí do quarto e ouvi uma música baixa. Segui-a conforme ia aumentando o som que chegava aos meus ouvidos, o que me levou até a comprida e larga escada do salão de baile. O ambiente era proporcional à escada. Havia vários lustres de cristal no teto alto, e um maior no meio roubando a cena dos outros, além de algumas mesas com quitutes e bebida. Os alunos, os guias e outros funcionários estavam devidamente vestidos e muito elegantes. Alguns dos estudantes arriscavam passos de dança desengonçados, outros espalhados pelo salão.
O lugar tinha um ar de contos de fadas e a música, por mais que não fosse uma originalmente medieval, dava um ar de romantismo e cortesia de época. Ou pelo menos era com romantismo e cortesia que eu imaginava ser os bailes. Na pior das hipóteses, era daquele jeito que era na minha mente quando eu lembrava-me das histórias que eu ouvia quando era criança.
Dei-me conta que eu ainda estava parada no topo da escada quando vi o garoto com corpo de atleta, moicano loiro e óculos de nerd puxar Nayia da possessão de Cassy, que, por sua vez, foi até e começou a falar sem parar até que ele tivesse sua paciência esgotada e a levasse para dançar também.
Com uma mão no corrimão e a outra segurando o vestido, comecei a descer os degraus. Já tinha passado da metade quando percebi que o diretorzinho largara Katherine, que falava com ele sobre algum assunto que – pela expressão facial dele – era bem tedioso, e estava indo em direção à ponta da escada. Quando acabei de descer, faltando só um degrau, ele me esperava com um esboço de sorriso. Em mente, eu questionava por que ele estava ali já que, mesmo que o papo da Kat estivesse chato, não havia motivos para isso. Quero dizer, se é que ele estar me esperando no fim da escada significava ou podia significar alguma coisa.
– A senhorita não está atrasada? – perguntou. “Senhorita”, ele disse. O modo diferente e formal de falar lembrou-me da noite em que eu estava prestes a cair e ele disse “você”. Já estava tão acostumada com o “senhorita” dele que o “você” se tornara meio estranho.
– Tive um imprevisto. – respondi – Por quê? Esteve me esperando? – Entoei sarcasmo e ele não pôde conter um sorriso tímido. Será que deixei o diretorzinho inibido?
– Você se garante mesmo, hein? – Ele ergueu-se, superior – Todos os alunos estavam presentes e a mais encrenqueira estava muito atrasada, o que mais eu poderia pensar senão que você estava em alguma confusão?
Hm, desta vez ele disse “você”. Está confuso, bumbum de anjo? Respire fundo, oxigene seu cérebro, meu perfume não é tóxico.
– Pode confessar, diretor – rebati –, o senhor estava louco para salvar a princesa de apuros novamente. – Pus uma mão na testa como se dissesse “oh, e agora quem poderá me defender?”. Ele soltou uma curta risada inevitável.
– Atenção! – um dos guias pediu de perto de uma mesa do outro lado do salão. A música havia parado para que ele pudesse falar – Como o nome já diz, baile é uma festa onde se baila, onde se dança. Alguns de nossos guias são especializados em danças medievais, principalmente nas da época em que o castelo fora habitado, justamente para ensinar nossos hóspedes a tradição cultuada aqui. Sendo assim, se puderem encontrar um par, encaminhem-se para o centro do salão para uma dança.
A música voltou a tocar, porém eu não quis olhar para o diretor e ver que ele estava olhando para outro lugar em busca de um par. Continuei com meus olhos para o guia que tinha acabado de falar. Eu queria dançar... Na verdade, não sei bem o que queria. Mas eu não iria convidá-lo e muito menos fazer uma cara chorona e pidona para ele.
– Por acaso a senhorita me acompanharia nesta dança? – invitou-me, estendendo a mão para que eu pousasse a minha sobre ele, como o fiz.
O senhor Soft Ass conduziu-me para o meio do salão entre outras pessoas. E, igual aos outros, começamos a imitar os passos do rapaz e da moça no centro da roda mal feita que os casais formavam em volta dos professores.
– Nenhum toque minimamente íntimo! – a moça orientou.
Minha mão esquerda segurava a saia do vestido, minha mão direita estava atada à esquerda do diretorzinho enquanto sua mão direita estava em sua lombar.
– Que dança mais animada. – ele zombou, e eu assenti com um riso.
No próximo passo, os cavalheiros rodaram as damas com a mão em que tinham contato com elas e, após o giro, a mão esquerda feminina deveria estar sobre o ombro de seu par, a mão direita continuava atada à esquerda dele e a direita masculina, no meio das costas da dama.
– Está começando a ficar mais interessante, não concorda? – comentei.
– Preparem-se para trocar de par. – o rapaz guiava.
E foi só um giro para eu parar em outros braços, literalmente. Desajeitada, meu giro devia ter saído torto. Minhas mãos pararam em um peitoral másculo como o cheiro que era exalado através daquelas roupas. Aquelas mãos seguravam minha cintura e eu sentia o teor de epinefrina aumentar no meu corpo conforme meus batimentos cardíacos. Demorei a levantar meu olhar, respirando fundo antes. Entretanto, eu não precisava olhar para saber quem era.
– Vocês aí, mais longe. – a guia falou.
Afastei meu corpo do de e fitei-o. Ele parecia confuso, porém, não desentendido como antes, e sim como se tivesse informação demais na cabeça. Eu sabia, porque me sentia do mesmo modo.
Na mesma posição em que estava com o diretor, agora estava com . Sua mão em minhas costas e a minha em seu ombro. Nosso contato visual não era direto. Eu o via pela minha visão periférica, pois meus olhos estavam em algum lugar além dele. E os olhos dele estavam em algum lugar além de mim também.
– Preciso conversar com você. – disse baixo, no entanto, audível.
– Pode falar. – respondi somente.
– Aqui não. – ele sussurrou.
Voltei meus olhos para os seus. Nada de vermelhidão nem sinais de alienação. Ele desviou o olhar.
– Não vou te meter em nenhuma situação estranha dessa vez. – ele disse, parecendo ler meus pensamentos.
– Então agora você se lembra das coisas, é?
– Como eu disse, preciso conversar com você. – repetiu, olhando-me nos olhos finalmente, com o rosto tombado para o meu.
Suspirei, sentindo meu coração acelerar.
– Encontre-me na biblioteca. – propus. Em seguida, soltei-me de e me direcionei a uma das saídas laterais do salão.
A necessidade no olhar de e a sinceridade em sua expressão facial me preocupavam um pouco. Não deveria. Eu deveria sentir alívio por ele querer me esclarecer algumas coisas. Mas parecia sério, mais sério do que eu esperava. Talvez. O que eu deveria esperar, afinal? Eu sentia que estava andando no escuro na maior parte do tempo, porque eu não fazia ideia do que estava acontecendo.
Outro ponto era que eu não estava muito bem emocionalmente no momento por causa do que se passara na noite anterior. Como eu poderia manter o equilíbrio sobre o que era ou não real? Como eu poderia manter minha mente no eixo caso me dissesse algo impossível? No fundo, eu sabia que só podia ser algo assim, surreal. O que mais poderia vir do além de alguma bizarrice? Que outra explicação ele teria para sua amnésia passageira senão uma ridícula que me fizesse chorar de rir?
Parei de refletir ou me torturar – dependendo da interpretação – quando dei de cara com as portas duplas de madeira da biblioteca entreabertas. Entrei no cômodo e deixei as portas como estavam. As luzes do lustre estavam fracas, permitindo sombras por todo o lugar. Andei até a janela do outro lado. Admirei o que era um jardim coberto de neve, tentando pensar em qualquer coisa para reprimir a minha curiosidade sobre o que estava ansioso para falar. Observei o vestido, que era realmente lindo. Perguntei-me se a dona do original alguma vez fitara-o como eu fitava o que estava vestindo.
Escutei o som das duas portas se fechando e virei para trás. Vendo se aproximar, uma voz em minha mente tagarelava como ele estava bonito vestido daquele jeito. Parecia um verdadeiro gentleman da época, a roupa lhe caíra perfeitamente bem. Ele estava elegante e charmoso. Seu rosto sério chegava a ser sexy. E eu sentia uma enorme vergonha em pensar aquilo, mesmo que ninguém fosse saber.
Ele vinha em minha direção, porém, de repente, ele virou para o lado, pondo uma mão na cabeça. Sua seriedade parecia ter sido transformada em transtorno, o que me deu uma onda de medo. Eu estava ali, sozinha com ele, longe de toda a festa onde todas as pessoas do castelo estavam. E se ele enlouquecesse como no banheiro durante o Natal? Eu deveria correr?
, fale alguma coisa. – pedi. Ele andava sem parar, perto de mim, em volta. Sem dizer nada.
– Eu não sei o que está acontecendo, . – disse, me olhando como um gato que foge de um banho d’água. Vulnerável como o dos últimos tempos nunca estaria na minha frente.
– Então me diz, me diz o que você sabe. – falei, indo até ele – Pare – segurei seu rosto em minhas mãos, fazendo-o olhar diretamente para mim – e se concentre no que precisa me dizer.
– Ontem, aqui, na biblioteca... Eu estava me sentindo estranho...
– E... – incentivei-o a continuar.
– E mal humorado. Como se... Como se eu estivesse com raiva de você. Como se eu tivesse que sentir raiva de você.
Dei-me conta de que ainda segurava seu rosto com as mãos e que estávamos perto demais... Como ele gostava de fazer para me irritar, não eu. Prestes a afastar minhas mãos, ele segurou meus pulsos com as suas, impedindo-me de soltá-lo. Não com força, mas simplesmente para me manter ali, perto dele, olhando para ele. Como se eu fosse o que o impedisse de endoidar de novo.
– Mas eu não lembrava nada. – ele continuou – Eu não lembrava a última vez que eu tinha te visto nem de qualquer coisa que você estava falando.
Talvez ele queria manter seus olhos nos meus para que eu não duvidasse que ele estava falando a verdade – eu pensava.
– E você lembra agora? – indaguei.
Ele desviou o olhar, fitou o meu cabelo, o brinco e o meu pescoço.
... Você lembra por que o era o culpado por você ter sido castigado? E o porquê de você ter ficado com raiva de mim?
– Minha memória está meio turva... Só lembro que ele precisava da minha gravata pra alguma coisa porque você ficou com a dele para sei lá o quê. Lembro que pensei “a namoradinha do fica com a gravata dele e eu tinha que emprestar a minha”.
– Por que você tinha que emprestar a sua?
– Você não entende, não é? – falou, amargo – O é o capitão do time de futebol. Qualquer favorzinho, mesmo que mínimo, que alguém negue a ele, se ele quiser, ele vai foder a pessoa de um jeito ou de outro, em algum momento.
Aquela fala fez meu queixo relaxar e a minha boca se abrir um pouco. Não sabia se acreditava ou não. O não era santo, assim como eu também não era. Eu sabia que ele tinha influência e certo poder no colégio, assim como eu também tinha. Mas daí a ficar cheio de pequenas vinganças só para provar que era fodão era um grande salto. Porém, por outro lado, ele tem mudado um bocado ultimamente. Antes ele era mais tranquilo e divertido, me fazia rir e era carinhoso. De uns tempos pra cá, quando começou com um papinho, que chegava a ser machista, sobre sexo, ele começou agir cada vez mais... estranho – porque não me vem à mente uma palavra melhor que expresse o que ele tem se tornado.
segurou meus pulsos com mais firmeza, de modo que eu não conseguia mais mexê-los e muito menos tirar minhas mãos de seu rosto. Uma nova onda de medo percorreu meu corpo.
– Não, não entendo. – respondi – Se o é tão horrível pra você, por que você ainda é o melhor amigo dele?
Ele riu áspero.
– Você sabe que ele não é assim... Que ele não era assim. Quando alguma coisa muda, os amigos verdadeiros não vão embora simplesmente, eles não viram as costas tão fácil. Eles procuram saber o que está acontecendo para tentar reverter a situação. Não acha?
Ao ouvir aquilo, lembrei de e . Igual ao , eles eram diferentes. Mais amigos e descontraídos. Atualmente, eles parecem se odiar. Não, na verdade, não parece ódio. Parece mágoa. Mais por parte da do que do . É visível o quanto ele gosta dela. Será que ela não vê? Será que eles não têm vontade de “reverter a situação”? Será que o que se passou com eles, que não me contaram, foi tão grave que não há como reverter?
E o . Nunca imaginei ouvi-lo falar algo assim... Tão leal e puro. Uma filosofia do tipo que eu admiro. Nunca sonhei nem tocou meu consciente que ele poderia pensar e dizer isso. Talvez, numa possibilidade remota, há um tempo. Mas hoje em dia? Não mesmo. É, o pode não ser só o cara implicante e extremamente incomodativo. Quem sabe? Ele pode ser mais do que as atitudes que tem comigo.
– É, você está certo... – concordei, fitando-o sem piscar as pálpebras – É quase inacreditável vê-lo falar isso, sabia? – comentei sem pensar.
Ele mirava-me de volta de um jeito compenetrado. Como se estivesse em outro mundo e este mundo fosse... – fugi do pensamento, entretanto, não consegui fugir daquele rosto. Vagarosamente, soltou meus pulsos e pôs suas mãos em meu rosto, segurando-o como eu fiz com o seu. Involuntariamente, porém, mesmo que em parte fosse da minha vontade, deixei minhas mãos escorrerem de seu rosto e pararem em seus ombros. Eu sabia o que ele ia fazer, só não conseguia me mexer. Parecia que eu não encontrava vontade. Mas não podia ser isso. Com certeza não era isso. Era mais como se eu duvidasse o que ele estava prestes a fazer... Como se eu estivesse pagando para ver. Por quê? Eu não queria.
...
Meu cérebro não ordenava que me corpo se afastasse de uma vez por todas. A luz baixa criava a ilusão de que aquilo seria um segredo obscuro que ninguém iria descobrir. A fantasia de que, na verdade, depois que aquele instante passasse, nada teria sido concreto. Que mal haveria naquilo?
aproximou seu rosto do meu aos poucos e eu continuava parada, inerte, estagnada. Aquele perfume invadiu o meu sistema e me tomou por inteira. Onde estavam meus anticorpos? Senti meus olhos vacilarem e a ponta dos nossos narizes se tocarem.
Então, como se tivesse acordado de um sono muito pesado, de um pesadelo, de um delírio que me aprisionava, minhas mãos pousadas sobre os ombros de desceram até seu peito rapidamente e eu o empurrei de modo brusco, e até rude.
Todavia, ele não me olhou surpreso como se a minha ação fosse imprevista. Com o maxilar tenso, ele estava rígido ou somente tentando parecer inatingível. Mas em seu olhar, ele estava desapontado, como se ele também estivesse preso num encanto antes e agora estava raciocinando por si só “por que eu fizera aquilo?”. Foi isso que me pareceu.
Ele não desviou o olhar, não estava arrependido nem envergonhado. E eu também não desviei meu olhar, horrorizado por quase ter cedido. Onde minha cabeça estava? era lindo e atraente, porém, daí a deixá-lo me beijar, traindo meu namorado, seria um gigantesco salto. Havia milhões de palavras e frases prontas na minha cabeça. Eu queria xingá-lo e bater nele, gritar que ele era um maluco que só me trazia situações loucas de um jeito muito ruim, e que deveria ficar longe de mim, o mais longe possível. O problema era que minha boca não se mexia, e eu sentia que nada que eu dissesse cairia bem e me daria alguma coisa positiva.
Soltei um grunhido raivoso, bravo, irritado, entre outros adjetivos sinônimos destes que eu não conseguia lembrar. E saí da biblioteca com passos fortes.
Eu não estava pensando. É claro que eu não estava pensando. Era óbvio. Meu cérebro não estava funcionando. Não me referindo ao que aconteceu com o há pouco, mas sim recentemente... É provável que desde o Natal. Onde estava meu senso? Minha noção? Eu só estava me dando conta das coisas quando estavam chegando ao ápice. O que era errado. Muito errado. Eu estava desatinada, alienada. Sim, alienada. Cega, sem enxergar as coisas antes que se agravassem.
Não conseguia sequer me focar em um pensamento, em uma lembrança. De repente tudo estava embaçado, e depois voltava ao normal. Sentia-me conturbada, cheia, e ao mesmo tempo vazia. Como se tivesse muito sobre o que pensar e não pudesse pensar em nada.
Voltei ao salão de festas. Uma agitação inconfortável percorria meu interior, eu queria correr até cair morta no chão. Porém, claro, não podia fazer isso. O chato – e ponha chato nisso – é que a “aulinha de dança” ainda estava em seguimento. Os alunos, o diretorzinho tchutchuco e a Kat-bitch estavam presos àquela roda formada de casais numa dança tediosa. Sim, tédio. Eu queria estar dormindo... Para sempre. Quem me dera! Porque eu não vejo um motivo para estar acordada agora. Nada, nada mesmo me prende aqui, a essa festa de Réveillon que não parece em nada com um Réveillon. Eu até poderia sair de fininho, ir para o meu quarto e me afundar naquela cama. Fora que eu ficaria rolando no colchão a noite inteirinha sem conseguir pegar no sono, tentando pensar em tudo, sem me focar em nada. Eu permaneceria durante toda a noite me atormentando, me torturando com perguntas, arrependimentos, revivendo cenas e refazendo imaginariamente os acontecimentos.
Como eu queria ter ou por perto. Nunca os quis tanto. Queria um colo, uma companhia aconchegante. E se eles questionassem alguma coisa, eu faria com que eles ficassem quietos, exceto para me distraírem. Com eles, eu saberia exatamente como lidar e não teria problemas. Já com as pessoas que tenho por perto, que posso ter por perto, eu não sei o que posso dizer e como posso me portar na realidade com eles. Além de estar como se não pudesse enxergar, sinto como se também não tivesse onde pisar.
! – alguém gritou e eu virei num pulo assustado. Era Cassy vindo até mim – Você sumiu. Onde estava?
– Érm... – gaguejei, numa tentativa de fugir da resposta.
– Não importa... – Ela sacudiu os ombros e continuou – Você gosta de álcool?
– O quê?
– Bebida alcoólica, menina! – ela disse como se fosse óbvio, então olhei para suas mãos e ela segurava duas taças finas e ligeiramente compridas com um líquido em tom bege – Tenho certeza que Nayia não vai querer, porque ela é careta, e eu queria alguém para me acompanhar – explicou.
Neste instante, lembrei dos comprimidos de enjôo que enfiara em uma de minhas luvas mais cedo. Será que se os tomasse junto com aquela bebida eu teria um piripaque? Só com um comprimido, dormi seis horas ininterruptas na viagem. O que ocorreria se eu tomasse os dois comprimidos? Provavelmente, não acordaria tão cedo. Será? Será que eu deveria arriscá-los tomar com álcool?
– Opa! Isso é álcool? – a garota que tinha, se é que já o perdeu, pavor de ônibus se intrometeu de repente, tomando uma das taças da mão de Cassy. Já esta ficou com os olhos arregalados sem saber o que fazer enquanto a outra já tomava o líquido da taça.
– Tudo bem, Cassy. – falei, assim a garota intrometida se afastou – Pode tomar este. Eu não queria mesmo.
Na realidade, eu até queria. Entretanto, não era uma boa ideia tomá-los com os comprimidos, e só aquela bebidinha não iria me fazer dormir, de qualquer jeito. Por conseguinte, encontrei um rapaz segurando uma bandeja e peguei uma taça semelhante às que Cassy tinha. Era um líquido transparente e avermelhado. Talvez fosse algo de morango. Seria ótimo.
Segurando a taça em uma mão, olhei a longa luva do outro braço, procurando alguma saliência que pudesse se dever aos dois comprimidos. Quando encontrei, deixei a taça numa mesa próxima para ter as duas mãos livres. Assim, tirei a luva cor de pérola em que estavam os remedinhos e a sacudi sobre a mesa, esperando que eles caíssem. Após isso, a questão era: tomar os dois ou tomar um? Tome os dois, pra que economizar? – por um lado, minha mente cutucava. Você pode deixar um para a viagem de volta ao colégio – por outro, ela oscilava. Certamente, seria útil eu deixar um para a viagem de volta.
Pus minha luva de volta, enfiando nela o comprimido que eu não iria tomar. E coloquei o outro na boca, em seguida, tomando o líquido avermelhado. Senti um suave gosto de álcool em meio ao de cereja, mas quando percebi, já tinha engolido.
– Isso aqui tem álcool? – perguntei a um servente que passou perto de mim.
– Ah, tem, sim. Não se preocupe, é muito pouco. – disse sorrindo e se foi.
Só espero que eu não tenha um piripaque – pensei, rindo comigo mesma.

O que era para ser uma aulinha de dança acabou, começou a tocar uma música mais agitada com umas batidas mais moderninhas, e as pessoas dançavam improvisando passos ridículos, creio que só para fazer palhaçada mesmo. Eu estava sentada numa das cadeiras que encontrei em uma mesa qualquer num canto, observando as pessoas. Já havia passado um tempo e quanto mais as pessoas mexiam, mais minha visão parecia confusa. Em alguns momentos, sentia minha cabeça pesada e eu ria daquela situação. Não que fosse engraçada. Só que eu pensava: o que mais pode acontecer?
A uns dez passos de mim, Kat chamava o diretor para dançar. Totalmente sem querer, minha voz mental gritava: largue-o, sua safada! E logo, lá estava eu rindo novamente por ter pensado aquilo. Não havia espaço para a vergonha de mim mesmo. Poucos segundos depois, já estava falando baixo sozinha como eu estava com vontade de dançar. Mas o meu corpo tinha preguiça demais para levantar da cadeira e se mover. Aliás, com quem eu dançaria? Além disso, fechar os olhos era extremamente relaxante...
– Posso saber de que a senhorita tanto ri?
Abri os olhos, dando de encontro com o rosto quase tão fofo quanto as nádegas do diretorzinho. Ele sentara numa cadeira praticamente de frente para a que eu estava. Com os braços na mesa e sem a postura ereta e formal de costume. Não parecia o diretor de um dos colégios mais importantes da Inglaterra. Parecia um homem de vinte e poucos anos cansado de estar sob aquela roupa de imitação – que, cá entre nós, minha mente e eu, é uma imitação bem furreca – do século XIV.
– Da Kat tentando te levar para dançar. – me forcei a dizer – A propósito, onde ela está?
– Um homem do hotel a chamou para dançar, alegando que ele era cavalheiro o bastante. E ela, claro, se encantou com a fala do cara.
– Hmmm, o cara disse que você não era cavalheiro o bastante. – zombei, rindo destemidamente.
– Pois é, dá pra acreditar nisso? – disse com sarcasmo.
– O pior é que dá. – brinquei e ele fez uma expressão muito séria, mas quando comecei a rir, ele riu junto.
– Pelo menos eu me livrei da Katherine um pouco. – Ele revirou os olhos, o que imediatamente me fez pensar se e como ele revira os olhos na cama.
– Ela não te larga, não é?
– Às vezes, ela sabe ser insistente e chata. Só não comente isso com alguém, ok? – recomendou.
– Sim, senhor. – consenti, batendo continência com uma mão.
– Está gostando da viagem? E do baile? – indagou, recostando-se à cadeira de madeira talhada em alguns desenhos e almofadada de um pano que lembrava veludo.
– O castelo é maravilhoso e o baile é interessante...
– Porém... – disse, lendo meus pensamentos.
– Porém, gostaria de vir em outra época do ano, porque a neve nos impede de ver muita coisa. – respondi, visivelmente o enrolando.
– E o baile? Não está se divertindo?
– Não estou conseguindo te enganar, não é, diretor? – Falei como se pusesse as cartas na mesa de uma vez, posicionando meu tronco para frente de modo menos formal diante do senhorzinho . Ele balançou a cabeça em um “não” com um meio sorriso de confissão nos lábios.
– O que está havendo, ? – perguntou, deixando seu tronco tombar para frente também, como se desse modo eu me sentisse mais íntima dele e mais segura, e pudesse, enfim, contar o que estava havendo.
Encarávamos-nos, olho no olho. Como se ele me intimidasse a falar e eu demonstrasse que não estava intimidada. Não era isso. Ele só estava estreitando o espaço entre nós, o suposto espaço de formalidades entre aluna e diretor, para que eu fosse sincera com ele e contasse o que havia de errado comigo. Meus olhos queriam se fechar, como se estivessem inchados e fosse difícil mantê-los abertos. Permiti-os que relaxassem um pouco, fazendo com que meu olhar caísse para seus lábios. Aquele perfume entrava no meu corpo como quem não quer nada, sem pressa, o oposto do de , que penetrava sem pedir permissão, me invadia. O salão, que eu via atrás do diretor através da minha visão periférica, brilhava tanto com todos aqueles lustres, fazia eu me sentir iluminada, num sonho, um desejo. Diferente da biblioteca com o , escura, que fazia me sentir sombria, numa atmosfera ameaçadora e sugestiva.
– Eu não... – sussurrei, sendo interrompida quando a música parou e um homem começou a falar.
– Quero a atenção de vocês um minuto.
Sem pestanejar, diretorzinho virou seu rosto para as escadas, onde o homem que falava estava, e eu olhei para as minhas mãos em meu colo. Meu pescoço e meus ombros estavam tensos. Sentia-me cansada e mole, perguntando-me por que comparei o diretor com .
– Estamos perto da meia-noite. – disse o homem – Os funcionários do hotel vos convidam que se juntem a nós na câmara de observação para que façamos a contagem regressiva e vejamos os fogos de artifício.
– Você não vem? – Levantei meus olhos e vi que o diretor já estava de pé.
– Hm, estou com preguiça... – falei com manha.
– Nada disso. – o diretorzinho disse pegando uma de minhas mãos do meu colo – Não sei se você está sabendo, mas é Réveillon e eu não vou deixá-la ficar aí só porque está com uma inexplicável preguiça.

Após subirmos uma estreita escada de pedra numa parte do castelo que não tinham nos levado anteriormente, chegamos a uma sala com chão de dois tipos de madeira de cores diferentes e que formavam um desenho abstrato bonito. O teto ia ficando mais alto das pontas ao meio, onde tinha um lustre de circunferência pequena, porém, comprido. Ele iluminava muito pouco, o suficiente para sabermos onde pisar. A cor do teto era um azul escuro e tinha muitas pequeninas estrelas amarelas e brancas pintadas nele, fazendo-o parecer o céu. Olhar para ele me dava a sensação de estar tonta. Duas paredes opostas do lugar eram completamente de vidro. As pessoas no recinto se concentraram nessas paredes para ver os fogos de artifício.
Apesar do ar mais frio dali, eu sentia o sangue dentro de mim quente. Um calor interno que poderia me fazer suar. Será que a minha pressão tinha caído? Eu permanecia ao lado do diretor, ele comentava algo que eu não conseguia assimilar. Sentia um receio de que minhas pernas ficassem bambas numa intensidade que eu precisasse me apoiar em alguém, e minha mente estava preparada para ordenar a meu corpo que me apoiasse no bumbum de anjo caso necessário.
– Contagem regressiva! – alguém anunciou.
Todos começaram a contar em coro.
– 10, 9...
Eu tentava me lembrar do último Réveillon, mas, no momento, nada vinha à minha cabeça. Nem há quantos dias estávamos ali nem o que comera mais cedo. E mencionando comida – eu pensava –, estava com fome. E um pouco de frio...
– 6, 5...
E um pouco de calor...
– 3, 2, 1... Feliz ano novo!
Fogos de artifício iluminaram o céu e os rostos das pessoas. Olhei para um lado e vi um garoto e uma garota, que não me preocupei em reconhecer, vendo as explosões coloridas maravilhados. Virei o rosto para o outro lado e vi o diretor distraído, absorto em um pensamento comprometedor. Engolido numa lembrança de outro Réveillon, quem sabe?
– Diretor. – chamei-o e ele me olhou. Lembrei de tê-lo visto sob o luar, não lembro quando, só lembro que o fitei como o fitava agora. Os traços do rosto em destaque por causa da pouca luz, deixando-o tão lindo... O que diabos eu estava pensando?
– Feliz ano novo, senhorita . – desejou, roubando a minha fala, já que era “feliz ano novo” o que eu queria dizer quando o chamei.
– Feliz ano novo, diretor.
Ele esboçou um sorriso e voltou o olhar para os fogos. Fiquei com uma vontade imensurável de perguntar sobre o que ele pensava... Sobre as fotos e mensagens em seu celular. Por que eu lembrara isso justo agora?
– Lembranças? – me ouvi indagar.
– Está tão na cara? – ele rebateu com um meio sorriso.
– Desculpe, sou curiosa. – disse sem querer novamente.
– Sei... – suspirou desconfiado. – Só estava pensando no jeito como as coisas mudaram no último ano. – Voltou-se para mim.
– Entendo. – sussurrei, percebendo que meu coração batia extremamente forte e que minhas mãos suavam.
Ele me olhava diretamente nos olhos, vivo e enérgico, diferente de mim, sonolenta e, se fosse uma máquina, diria que estava com a bateria fraca.
– Sabe... Venho tentado acreditar que você somente me mandou uma mensagem. Senão, você já teria mencionado algo que teria visto no meu celular... Não é?
Hm, ele está jogando verde – pensei. Havia algo que eu não deveria ter visto lá? – eu perguntaria num momento em que estivesse normal, o negócio da vez é que eu não estava. E para piorar, senti minhas pernas fraquejarem. Já estava adiando demais a procura por um lugar para sentar. Minha cabeça pesava, meus ombros estavam tensos, o pescoço estava mole, minhas pernas bambas, as mãos suavam e o coração parecia se debater no peito. Faltava-me ar, como se ele estivesse denso demais para que eu conseguisse inalar. Precisava sair dali e ir para algum lugar onde pudesse respirar melhor, oxigenar meu corpo e melhorar meu estado. Por que estava me sentindo assim?
– Diretor? – Segurei seu antebraço – Me tire daqui.

Ar. Eu precisava de ar. Respirei fundo. Sim, eu tinha ar. Minha cabeça latejava, mas, pelo menos, conseguia respirar bem. Meu corpo estava dormente, sentia que tinha hibernado por séculos. Onde eu estava? Que preguiça de abrir os olhos! Mexi os pés e os braços com morosidade, hesitando até mesmo em me espreguiçar na cama. Ah, sim, era uma cama. Dei-me conta de que não lembrava o que tinha acontecido na noite anterior. Como fora parar no meu quarto?
Estiquei os braços para cima, como se alongasse, tentando lembrar o que se passara. Vestido, baile, dança, diretor, , biblioteca, Cassy, bebidas, remédio de enjôo, bebida vermelha, diretor, câmara de observação, contagem regressiva fogos de artifício... Sim... Virei de lado na cama. Estava me sentindo mal e pedi que o diretor me tirasse da câmara de observação – eu lembrava em meio a um monte de borrões –, como assim ele o fez... Minhas pernas vacilaram e... E...? Abri os olhos sentindo minha respiração falhar assim como minha memória. O que vinha depois?
O teto era diferente do meu quarto ou era só a visão aturdida de quem acabou de acordar? Argh, minha cabeça palpitava. Calma, – disse a mim mesma mentalmente. Inspirei o ar pelo nariz e expirei pela boca, fechando os olhos. O máximo que podia ter acontecido era... Abri-os de novo, virando o rosto para o lado. Com um pulo que eu nem sei como dei, saí da cama, sentindo meu coração disparar como eu me não lembrava de ter sentido antes em minha vida.
O diretorzinho bundinha de propaganda de talco, estava deitado, dormindo, sonhando calmamente na cama, onde há poucos segundos eu também estava deitada, dormindo, sonhando calmamente, sem saber de merda alguma que tinha acontecido. Aliás, o que aconteceu? – eu gritava em minha mente. Não! O que esse cara, que acha que é um diretor de colégio, que foi um bebum ou algo do tipo, pegador de prostitutas e frequentador de algum bar qualquer da vida, fez comigo?
Aquele pensamento, aquela simples pergunta que não era tão simples assim, só a ideia do que poderia ter acontecido comigo enquanto eu estava desacordada ou fora de mim fez com que meu sangue fervesse. Sentia como se ele estivesse borbulhando e todo ele fosse em direção à minha cabeça, que parecia querer explodir a qualquer momento. Meu corpo tremia e as mãos apertavam a saia do vestido. Tentando extravasar a tempestade dentro de mim, sem pensar – até porque eu não conseguia raciocinar, nem um pouco –, deixei escapar um grito.
Um único som que fez aquele homem acordar e saltar da cama.

Capítulo 11

Chuck, meu querido Chuck, o que eu faria sem você? O que eu faria sem seus truques para trazer coisinhas para dentro do colégio? O que daria uma graça a mais nas minhas bagunças por aí? Lembro-me de mais de duas semanas atrás você me dizer que iria pegar naquele fim de semana o que lhe pedi. Ah, sim, como pude me esquecer? Acho que foi a simpatia natalina do diretorzinho ou talvez a bizarrice do ou até mesmo as crises temperamentais do ... Mas agora eu lembro. Justo agora que preciso voltar à ativa, já que o bunda mole do despertou meu lado encrenqueiro, que havia adormecido. Pra quê? Ah, ele vai ver. Ele vai ter o que merece.
Hun! Nos últimos tempos, com aquela carinha de bonzinho, se fingindo de inocente, legal, fofo, divertido... Quase me enganou. Quase! Até certo ponto, eu fui feita de idiota. Admito. Porque me esqueci do diretorzinho das fotos do celular, do baladeiro, bebum ou seja lá o que ele era. Esqueci-me até mesmo do diretor que tentou implantar milhões de regras com aquele livrinho distribuído aos alunos, impondo castigos, etc. Porém, isso não vai me impedir. Não vai me impedir de continuar zoneando essa rotina maçante, essa vidinha chata de internato. Até porque esse bundinha de propaganda de talco merece que eu infernize o trabalho dele. Ele não virou santo só porque virou diretor, não é? Quem me garante que ele não continua frequentando o tal “Bar do Bane”, não é? É esse tipo de cara que devo obedecer, respeitar? Claro que não, ou é? Ok, não quero saber sua opinião. Aliás, minha opinião é a sua opinião, eu estou falando comigo mesma na minha cabeça... A não ser que eu tenha dupla personalidade, but I guess not.
Argh! Que raiva! Como pude cair nessa de diretor solidário e fofo? O cara tem idade pra ser universitário e acha que pode governar um dos colégios mais importantes da Europa. Como o deixaram assumir o Leader High School? Não importa, eu vou colocá-lo no lugar dele... De volta à vagabundagem, sem essa de senhor Responsabilidade porque eu du-vi-do que ele era assim. Quero vê-lo perder a linha na frente de todo mundo, quero vê-lo perder a pose de tranquilo e bom moço.
Eu sei a verdade sobre você, diretorzinho. E vou atormentar seus dias até que você mesmo demonstre quem realmente é para o resto do colégio.
– E aí? Conseguiu tirar os guardas do muro da entrada? – perguntei ao Chuck assim que ele entrou no escuro refeitório onde eu o esperava.
– Consegui. – respondeu – Joguei uma bombinha no lado oposto ao do estacionamento. Você não ouviu? Fez um baita estouro, você tinha que ver! Temos que ser rápidos, antes que eles voltem.
Pegamos as latinhas e fomos correndo ao estacionamento. Lá tinha câmeras que funcionavam. Eu sabia, mas não ligava. Queria mesmo que o diretor visse quem fez aquilo. E o Chuck? Ele nunca se importava com nada e ninguém. Também sabíamos que o diretorzinho iria nos dar um baita castigo, algo como pintar todas as paredes que sujarmos. Iria ser um saco de trabalhoso, ok. No entanto, o castigo vale a pena porque não precisávamos expressar nosso tédio e cansaço, poderíamos expressar indiferença e superioridade. O que valia era tirar o diretorzinho do pedestal que ele estava formando.
– Ei, os guardas já devem estar voltando. Vamos! Já está bom! – murmurava Chuck.
– Para onde vamos agora?
– Tenho uma ideia. – disse com uma cara de pentelho, jogando para trás os dreads sobre o rosto.

– Tem alguma coisa acontecendo. – uma voz sussurrou perto de mim no lugar escuro. Aquele cheiro forte era extremamente comum ao meu olfato.
.
– Do que você está falando? – me ouvi indagar.
– Tenho que ficar longe de você. – sua voz tremia.
Eu não enxergava nada, porém sabia que ele estava do meu lado direito, falando com a boca próxima à minha orelha.
Sentia calor, o ar parecia denso e abafado. Tudo o que eu via era breu.
– O quê? Eu é que tenho que ficar longe de você, que só me mete em situações estranhas. – Senti meu coração acelerar de raiva.
– Eu realmente tenho que ficar longe de você. Ainda não percebeu?
Não, não percebi – pensei. Do que ele estava falando?
– De novo, menina? – outra voz, desta vez falando próxima à minha orelha esquerda, falava. Uma voz mais velha e áspera. Uma voz que eu me recusava, inconscientemente, a reconhecer.
– Quem é você? – tentei virar meu rosto, mas percebi que não conseguia.
Estava presa.
E sentia dor, só não conseguia entender onde.
– Hm... Já se esqueceu, é? Eu posso te lembrar...
Uma gota de suor escorreu da minha testa até a lateral do meu pescoço quando senti o ar que saía da boca daquele homem me tocar.
– Afaste-se! – uma terceira voz se manifestou de repente.
Meu coração parou por um instante.
Ouvi um estalo e a escuridão desapareceu, como se tivessem acendido a luz. Não. Era mais do que isso. O que antes era puro breu, agora era brilhante. Não haviam paredes, não que eu pudesse distinguir como paredes. Era simplesmente tudo branco, tão branco que doía meus olhos. Não conseguia mantê-los abertos, então piscava sem parar tentando me acostumar com tanta claridade. Claridade que parecia divina.
Enquanto ainda não conseguia enxergar direito, senti algo ou alguém mexer nos meus pulsos, depois nos meus tornozelos e no meu pescoço. Ouvi o barulho de correntes. Tentei abrir os olhos. Finalmente, podia ver. O diretorzinho estava na minha frente, vestido de terno e gravata como o usual. Com o rosto sereno. Distraí-me nele. Até que... Senti meu corpo desequilibrar e cair.
Eu caí... nos braços do diretor, que me pegou num abraço firme. Nossos corpos pareciam se encaixar perfeitamente. Senti paz, segurança. Tinha a sensação de estar protegida e que nada poderia me pegar, me fazer mal. Uma energia forte e boa tomava meu corpo. Era difícil me conter, conter aquele sentimento bom e enorme percorrendo meu interior. Meus olhos se fechavam devagar. Como se eu pudesse, até que enfim, ceder-me ao sono sem medo.
– Me diz que não é culpa sua. – disse ele num pedido.
O sentimento bom se foi. Meus olhos se abriram abruptamente.
Ele afrouxou seus braços em volta da minha cintura e olhou nos meus olhos. Num lado secreto do meu cérebro, até para mim, desejei que ele me beijasse e dissesse que era tudo um delírio ruim, que tudo iria ficar bem. Eu não disse nada e seu rosto se franziu chateado.
– É culpa sua, não é?
Não – minha boca se mexia, mas a voz não saía.
Ele assentiu com a cabeça como se estivesse entendendo tudo. Ele achava que estava entendendo tudo. Mas não. Não era verdade.
Tirou seus braços de volta do meu corpo de uma vez por todas e se afastou. Surpreso, confuso, perdido, atordoado.
– Não. – supliquei baixinho.
Ele dava passos para trás e aos poucos sumia em meio à luz forte por todo o lugar. E então se foi. Desapareceu. Como se tivesse evaporado...
Olhei para minhas mãos. Estavam ensanguentadas. Voltei meu rosto para meu corpo, vi o vestido vermelho, de alças, curto e de babados que eu estava usando... naquela noite. Suspirei, percebendo que eu estava sozinha. Olhei para um lado, para o outro...
Virei para trás.
Dei de cara com o velho diretor a um metro de mim, com a cabeça sangrando, carne viva à mostra como tripas. Com uma cara ameaçadora, a boca aberta, os dentes aparecendo como presas e as sobrancelhas juntas, bravo, vindo em minha direção.
Num arfar como o de alguém que passou tempo demais sob a água, abri os olhos e vi o teto do meu quarto. Meus batimentos cardíacos estavam disparados. Mas eu estava acordada. Sim... acordada.

– Nossa, tive um sonho tão engraçado essa noite. – disse , soltando uma risadinha enquanto andávamos em direção à sala da nossa primeira aula.
– É mesmo? Eu não lembro com o que sonhei – falei com a mente meio longe, tendo a sensação de estar esquecendo alguma coisa. O que seria? Falando em sonhos... Lembrava-me de ter acordado assustada, mas não lembrava por quê.
– Você acordou e passou a mão na cabeça? – ela perguntou e eu virei para olhá-la. Paramos por um momento e fiz uma cara de desentendida – Dizem que quando se passa a mão na cabeça logo após acordar, se esquece sobre o que sonhou.
– Fala sério! – bufei e começamos a rir.
Quando entramos na classe de História, nos deparamos com um monte de ninguém. Sim, sala vazia.
– Estranho. – comentou.
Será que o motivo de não haver ninguém na sala é o que eu estou pensando? – a questão se formulou na minha cabeça. Peguei o braço da minha amiga e a puxei para o corredor. Salas vizinhas vazias e corredores pouquíssimo movimentados. Fomos para a parte externa. Dia ensolarado, menos neve no chão. Um aglomerado de alunos estava no campo de futebol, cochichando e apontando para as arquibancadas. É, era o que eu pensava. Todos estavam fora de sala por causa da minha baguncinha. Minha e do Chuck. E se o diretor ainda não viera atrás de mim a fim de dar um sermão, era porque ele ainda não tinha chegado, já que sua primeira visão do colégio neste dia seria o estacionamento vandalizado.
– O que você fez agora, ?
– Que amiga boa você é, hein? Já sai me acusando assim, sem sequer saber o que aconteceu!
fez cara de entediada, ela já conhecia minha lenga-lenga de injustiçada.
– Vou ver seu estrago desta vez.
– Shhhhh. – eu soei, pondo o dedo indicador na boca – Não quero que todos saibam que fui eu.
Sua expressão era como se dissesse “are you kidding me, right?” e eu soltei uma gargalhada. Se não eu, quem mais seria? Bando de covardes os alunos desse colégio! Não têm coragem de bater de frente com o diretor, pobre diretor. Mas eu tenho. Tenho coragem e ousadia de sobra para dedicar ao popô de anjo.
Fomos até o bololô de pessoas e encontramos lá ao lado de Taylor, os dois olhando a arquibancada em silêncio.
– Foi você, não foi? – ele sussurrou para mim quando nos aproximamos.
– Bom dia pra você também, querido amigo! – exclamei, e ele quase não conteve uma risada.
– Você não sossega, não é? – disse ele, balançando a cabeça em incredulidade de um jeito cômico.
– O que posso fazer? Sou hiperativa. – justifiquei, levantando as mãos, indefesa.
– Por que você não fica um tempo se dedicando ao seu namorado ou à banda ao invés de chamar a atenção de todo o colégio e do diretor? – se manifestou, parecendo irritada – Não pode dar paz ao coitado que só está querendo fazer o trabalho dele?
Desde quando ela virou defensora do nádegas lustradas?
– Só está fazendo o trabalho dele? Isso é brincadeira, né? Ele merece tudo que eu apronto com ele. – respondi.
– Ah, é? Posso saber por quê?
– Não... Não aqui, não agora.
– Sei. – disse e se afastou, de volta à sala. Taylor a seguiu.
– O que deu nela?
– Ela deve estar afim do diretor. – chutou , com uma pontada de ciúme.

(’s POV)

Estava chegando ao Leader High School para mais uma semana de trabalho surpreendente. Sério, eu não podia imaginar o que iria acontecer, mas sabia que iria ter algo para me desafiar. Alguém, obviamente. Quem seria? – era uma pergunta retórica, claro. O que ela aprontaria dessa vez? Deus! Por que as coisas não podem ser mais fáceis? Por que eu não posso fingir ser um cara sério, fazendo o trabalho que tenho que fazer e pronto? Por que ela tinha que aparecer no meu caminho e dificultar tudo?
Passei pelos portões automáticos e fiz um sinal com a cabeça para o porteiro de cabelo e bigode grisalhos em sua cabine. Vi os jardins sem flores, ainda com neve. O estacionamento já estava com muitas das vagas de funcionários ocupadas, os professores já haviam chegado. Estacionei meu Jaguar, mas não saí do carro. Fiquei lá por alguns minutos, torcendo para não ter problemas com aquela garota. Por favor, Deus, que eu não tenha problemas com ela...
Olhando para baixo, distraído, saí do carro. Lembrando o que acontecera na noite de Réveillon, desejando que ela tivesse esquecido o que ocorrera para ficarmos todos em paz. Entretanto, foi só eu levantar o olhar para eu sentir minha fraca esperança ser amassada, jogada e pisoteada. A parte externa do prédio principal que dava para o estacionamento estava completamente pichada de vermelho. Um boneco mal feito, com a cabeça grande, chifres e uma bunda enorme; uma seta apontando para ele e escrito “diretor-bunda-tchutchuca”. Um livro com o título “Regras Idiotas do Diretorzinho” e um xis em cima do livro. E as palavras “No Rules” por todos os lados em meio a rabiscos sem sentido.
– O que diabos... – perguntei ao vento –... é isso?

– É pra eu acreditar? – eu falava comigo mesmo, olhando as arquibancadas do campo de futebol. Praticamente a mesma coisa: “Regras Idiotas do Diretorzinho”, um monte de “No Rules” e dois círculos desenhados um do lado do outro com a legenda “bumbum de anjo”.
– Eu entendo. É difícil até para eu acreditar, mesmo a conhecendo há anos. – dizia Katherine ao meu lado.
– Essa garota... – suspirei de cansaço antecipado, já sabendo que teria que tomar uma atitude drástica.
– Tem certeza que foi ela? Você ainda não viu os vídeos das câmeras de segurança do estacionamento.
– Vou ver, porém, não é preciso. Quem mais seria? – retruquei – Se não ela, quem? – Katherine não respondeu. Fechei os olhos e cocei a cabeça. – O que eu devo fazer?

(’s POV)

– Oiiii. – saudei alegremente quando entrei na sala do diretor assim que fui chamada no meio da aula de Economia. Droga, uma das aulas que eu mais gosto! Ok, mentirinha... Aula super chata. Sorte a minha!
Ele estava encostado em sua mesa, de frente para a porta, com os braços cruzados, o cenho fechado – tão fechado que parecia impenetrável. Eu conseguiria mudar sua expressão? Ah, não fique bravo, diretorzinho... Nhac, nhac! Que vontade de morder suas nádegas tchutchucas! Ok, parei. Por que ele parecia diferente hoje? Sexy talvez? Hm, bravinho... Ele estaria afim de um sexo selvagem? Ok, ok, ok... Querido cérebro, já pode parar de criar esses pensamentos estranhos!
Fui até uma das cadeiras em frente à sua mesa e me sentei do modo mais folgado possível. Coloquei meus pés sobre a mesa bem ao lado do corpo do diretor, com os tornozelos cruzados. Ele não respondeu meu “oi” nem sequer soltou uma palavra ou um som. Olhava-me diretamente nos olhos, sem pestanejar – exceto quando pus meus pés na mesa, ele fitou minhas pernas por alguns instantes. Virou o rosto para o chão, depois passou os olhos pelo resto da sala. Estava muito, muito tenso e eu muito, muito relaxada. Não relaxada, sim despreocupada. Apesar de ansiosa pela cena seguinte. Sabia que iria ser castigada, o que não me deixava triste nem brava nem indignada. Meu objetivo era descobrir até onde eu conseguiria chegar com o diretorzinho.
O silêncio começou a me incomodar. Aliás, onde estava o Chuck? Eu iria me ferrar sozinha? Não viram os vídeos da segurança?
– Mandou me chamar para ficar calado? – perguntei, cedendo à minha impaciência.
– O que você quer? – indagou ele, voltando seu rosto para mim. Sua voz estava ligeiramente trêmula. Eu sabia o porquê. Ele estava tentando duro segurar sua raiva.
– Como assim? – Não tinha entendido a questão em sua pergunta.
– Pra quê tanto? Pra quê chegar a esse ponto? Pra quê tentar me humilhar?
– Humilhar? – repeti.
– Não se faça de burra. Você não é. – Sua voz começava a se alterar.
Ele forçou seus lábios um contra o outro e de repente, com uma mão, puxou meus pés para fora da mesa num movimento abrupto. Ficou de pé, voltando a cruzar os braços.
– Diretor-bunda-tchutchuca, bumbum de anjo, diretorzinho...? O que você pretende com isso? – Ele tentava se controlar, mantendo os braços junto ao corpo e se esforçando para manter sua voz num mesmo nível – Tornar-me uma piada perante o colégio? – ele continuava – Você quer outro diretor? Um que seja muito mais severo que eu? Um que não queira contato com os alunos? Um que imponha regras de verdade? Em que mundo você vive, garota? Você acha que pode fazer o que quiser? O superior aqui sou eu. E tenho muitas possibilidades sobre o que fazer com você.
Ele, de pé, me olhava de cima para baixo, o que me incomodava muito mais que o silêncio há pouco tempo. Seu nervosismo o impedia de parar de falar, de fazer uma pausa entre uma pergunta e outra. Não foi tão difícil tirá-lo do sério – eu pensava. O problema é que eu sempre odiei que falassem comigo como se fossem um deus e eu uma mera mundana. Se ele pensou que eu fosse ficar caladinha enquanto só ele falava todas as merdas que vinham em sua mente, estava muito errado.
Pus-me de pé e bem perto do diretor. Talvez assim ele enxergasse que deveria se sentir intimidado.
– Isso é uma ameaça, diretorzinho? – enfatizei o “inho” e ele estreitou os olhos. – Foi você quem começou. – Coloquei minhas mãos na cintura, numa postura mais imponente – Só porque você é diretor do colégio onde eu estudo não é motivo para me levar para o seu quarto. O que achou? Que eu fosse ser sua vadia como aquela do “Bar do Baine”?
Sim, naquele exato momento, eu acabei tocando na ferida. Acabei tocando numa peça rara e cara, daquelas que não devem ser tocadas por serem sensíveis demais e quebrarem com facilidade. E quebrou. A obra de arte quebrou causando uma explosão. Foi a gota d’água da discussão para ele.
Ele segurou meus braços com força, lembrando-me o modo como perde controle às vezes. Nossos rostos muito perto um do outro, mais do que eu jamais imaginara que realmente pudessem ficar. Nenhum de nós piscava nem respirava realmente. O ar entrava e saía de um jeito tímido de nossas narinas. Não sentia meu coração bater, mas sabia que estava disparado. E tinha certeza que o dele também.
– Você não sabe nada da minha vida! – ele praticamente sussurrava, o que me assustava mais do que se ele gritasse – E você sabe que eu não te levei para o meu quarto por maldade. E não. Aquilo não foi uma ameaça. Foi uma constatação. Eu mando aqui. E já passou da hora de você aprender isso.
Eu não era capaz de distinguir o que estava sentindo. Meu corpo inteiro queimava e tremia como se eu estivesse sendo queimada viva. Meu sangue subia e me fazia sentir uma pressão quase insuportável na cabeça. Meus olhos ardiam, sabia que logo eles iriam se encher de lágrimas.
O diretor percebeu. Piscou as pálpebras várias vezes seguidas e me soltou.
– Você vai pintar toda a parede e as arquibancadas que pichou... – começou a dizer, parecendo inabalável.
– Mas... – me ouvi numa tentativa de argumentar que Chuck tinha sua parcela de culpa.
– Vai também... – ele me interrompeu, continuando sua fala sem se importar com o que eu tinha a dizer – ...limpar todas as salas de aula todos os dias no fim do último turno, e ser responsável pelo recolhimento, transporte até a lavanderia e a devolução do uniforme de todas as garotas do colégio... Até segunda ordem.
Medo. Era o que eu sentia quando me forcei a mexer o corpo e dar o fora dali. Não medo, talvez só estivesse espantada. O modo como ele me segurara, como ele perdera a centralidade, o controle, como ele sussurrara ao invés de gritar, sem piscar, sem hesitar, sem gaguejar, sem perder as palavras. Tudo, tudo aquilo me deixou desnorteada. Aliás, ele não perdera o controle. Ele o estava assumindo. Se ele tivesse gritado, como quando ele aumentara seu tom de voz, seria melhor... Ele estaria extravasando sua raiva, irritação. Mas não. Ele falou baixo, o que quer dizer que ele vai encontrar outro modo de me fazer sentir seja lá o que for.
Eu estava surpresa, os ossos ainda tremiam conforme eu andava para longe dali. Sentia que poderia desabar a qualquer momento. As lágrimas estavam nos meus olhos, mas não saíam, não transbordavam. Não sabia o motivo, simplesmente sabia, de algum modo, que não seria “somente” castigo o que o diretor tinha para mim. “Eu mando aqui. E já passou da hora de você aprender isso.” – ele disse. “E tenho muitas possibilidades sobre o que fazer com você.”
Ele saiu do sério mais cedo, muito mais cedo do que eu esperava. Será que foi para tanto? ...Uma pichação boba, citando apelidos que nem são tão ofensivos assim? Não, não era só isso. Era o celular. O que ele passou no dia em que eu peguei o celular... Ele se sentiu obrigado a reunir todos os alunos e professores para descobrir o responsável, e no final das contas o aparelho estava comigo e eu ainda mandei uma mensagem para ele. Certamente, ele sentiu que fora feito de palhaço e, pensando bem, ele fora mesmo. Ele fora feito de palhaço por mim e pela Jessie. Porém, enquanto ele achava que eu não tinha visto nada demais, estava tudo bem. Ele foi ficando cismado quando desconfiou que eu estivesse escondendo as informações que adquiri. Ele tentou esquecer esse assunto, propondo aquela “trégua” no Natal. Porém, na noite de Réveillon, durante o show de fogos de artifício, eu deixei escapar...
– Lembranças? – me ouvi indagar.
Eu não deveria ter dito aquilo. Foi nesse momento que ele se sentiu inseguro, indefeso. Como eu saberia que ele estava absorto em lembranças se não tivesse visto foto ou mensagem alguma? Ele não tinha certeza, mas cogitou a hipótese...
– Sabe... Venho tentado acreditar que você somente me mandou uma mensagem. Senão, você já teria mencionado algo que teria visto no meu celular... Não é? – ele disse. Eis a fala a partir da qual ele voltou a considerar que eu talvez tivesse visto algo que não deveria.
No entanto, sua desconfiança foi interrompida temporariamente quando passei mal e pedi que ele me tirasse da câmara. E é aí que está outro fator: a “situação” em que nos encontramos ao acordar.
Meu corpo tremia e as mãos apertavam a saia do vestido. Tentando extravasar a tempestade dentro de mim, sem pensar, deixei escapar um grito. Um único som que fez aquele homem acordar e saltar da cama.
– O que...? O que foi? – perguntava ele de pé, totalmente perdido, sem entender o que estava acontecendo. Ele pôs as mãos na cabeça e fechou os olhos, porque não via nada por ter levantado bruscamente.
– O que você fez comigo? – perguntei alterada, fora de mim, com milhões de pedras nas mãos e não somente quatro.
– Do que você está falando? Eu não fiz nada! – ele respondeu esfregando os olhos, tentando fazer sua visão se adaptar à claridade vinda da janela com cortinas abertas.
– Ah, sim! Claro! – exclamei gesticulando com os braços, com vontade de pular no pescoço do diretor e fazê-lo me contar a verdade – E você me trouxe pro seu quarto só porque queria ver como fico linda e irresistível dormindo, não é? – cuspi com sarcasmo.
Ele andou até mim com passos fortes e rápidos.
– O que você está insinuando?
– Não se faça de desentendido. – falei sem papas na língua.
– Você pediu pra eu te tirar da câmara porque estava passando mal!
– Ah, e isso é justificativa para me trazer pro seu quarto? – retruquei.
– Pra onde eu iria te levar? Todos estavam na câmara e ninguém iria nos ouvir com o barulho de tantos fogos! – explicou ele, praticamente gritando.
– Não podia me levar para o meu quarto? – falei mais alto.
– Com qual chave eu iria abrir a porta? Posso saber? – Ele aumentou seu tom de voz também.
– Argh! – grunhi alto, apertando a cabeça com as mãos.
Minha cabeça rodava e parecia ser uma grande bolha latejando. Doía tanto que pensei que fosse desmaiar.
– Eu não fiz nada com você. – disse o diretor, agora com o tom de voz normal, até baixo comparado à altura que estávamos discutindo. Perguntei-me se alguém nos ouviu. Com sorte, todos estariam cansados demais para acordar com a nossa gritaria.
– Quem me garante? – perguntei, com os olhos entreabertos, tateando o ar a fim de encontrar a cama. Encontrei-a e me sentei.
– Olhe para si. – ele respondeu mais calmo, consequentemente, me acalmando também – Você está vestida... A cama está feita...
Olhei para meu corpo e em seguida olhei para a cama. Ele tinha razão. Apesar de a colcha não estar tão perfeitamente esticada, nada parecia tão suspeito.
– Você desmaiou assim que descemos as escadas da câmara. – ele continuava – Carreguei você e esse seu vestido cheio e pesado até aqui. Não pensei. Não raciocinei direito na hora. Estava meio tonto, se é que me entende, e cansado. Só te trouxe e te coloquei na cama. Fiquei sentado por um tempo e resolvi deitar para descansar um pouco. Acabei pegando no sono.
Ele parece convincente – eu pensava. Mas muitas vezes pareço convincente e estou mentindo... Por algum motivo que eu ainda não entendia qual, eu não conseguia acreditar. Não sei se acreditar era o problema. Simplesmente não descia na minha garganta. Embora pudesse ser implicância ou teimosia minha, eu não queria e não estava disposta a admitir – mesmo que só para mim mesma – que estava errada, que tudo que eu pensei antes de soltar o grito estava errado.
– Sei... – falei como resposta à explicação do diretorzinho.
– O que você achou? Que eu fosse algum tipo de canalha que abusaria de você enquanto dormia? – perguntava ele enquanto se sentava do meu lado.
Se ele não é um tipo de canalha, o que ele é? Ou o que ele era? O que ele era pra frequentar um bar, parecer um viciado e pegar mulheres que se vestem como prostitutas?
Virei meu rosto para o dele e estreitei meu olhar ao seu.
– Sinceramente... Não sei o que achar, diretor. – eu disse e levantei da cama, indo em direção à porta. E saí.

E foi esse o terceiro fator para ele ter saído do sério hoje. O primeiro foi ele ter sentido que foi feito de idiota no dia em que peguei o celular, arriscando sua “integridade moral” – se é que ele tem alguma – perante todos de nosso convívio; o segundo foi ele ter se sentido inseguro, ameaçado quando eu perguntei na noite de Réveillon se ele estava absorto em lembranças; o terceiro foi a nossa discussão no dia seguinte, minha acusação sobre ele e, principalmente, quando eu disse que não sabia o que achar. Ele não é tão burro, vai... Ele deve ter ligado pontos o bastante para criar uma bela desconfiança.
A pichação foi o quarto fator, o estopim. Eu represento uma ameaça para ele. Sim... Ele está cansado da tensão que eu o causo. Ele não sabe o que eu sei, o quanto sei e do que sou capaz de fazer. Ele acha que se não me puser no meu lugar agora, posso, de verdade, expor seus segredos, seu passado. É por isso que ele perdeu toda sua paciência hoje. Ele está na defensiva e não sabe de onde ou como o próximo ataque virá. Caramba... Isso está mais interessante do que eu jamais poderia sonhar.

Uma semana se passou. Uma semana longa, chata e cansativa. Limpando salas de aula todos os dias como uma faxineira. Tive que pintar a parede que dá para o estacionamento e as arquibancadas. Também fiz o trabalho da lavanderia. Não mencionei Chuck nem reclamei por ele não ter recebido castigo. Aliás, pedi a ele que trouxesse mais uma coisinha para mim no fim de semana, e ele o fez. Hm, delícia-lícia.
disse – mesmo após eu ter contado sobre eu aparecer acordando no quarto do diretor durante a excursão – que eu não deveria reclamar por estar cansada, porque eu merecia os castigos. Ela realmente acha que devo parar de aprontar. concorda, só não sei se é porque ele gosta da ou porque ele não quer me ver encrencada. Os dois acham que eu vou acabar me metendo em um problema com o qual não conseguirei lidar. Ah, como eles me amam... Que lindos!
Outro que me ama é o ... Nossa, esse me ama demais! Até agora, após o recesso de festividades, se ficamos juntos duas vezes é muito, e foi bem rapidinho – tipo só uns beijos e amassos –. Sempre que nos esbarramos por aí, ele diz que tem que resolver alguns “lances”. Lance de fulano, lance de ciclano, lance de beltrano. Ele se acha o quê? Pai dos fracos e oprimidos?
Ah... eu estava morta. Ok, ainda não. Só estava super cansada. Eu já tinha feito “meu serviço”, e Chuck e eu já tínhamos deixado o que pedi para ele trazer em um lugar que ninguém fosse encontrar até que usássemos para minha nova atividade de quebra de rotina. Como o diretorzinho reagiria desta vez? Enfim... lá estava eu, estirada em minha cama, ainda de uniforme, morrendo de preguiça de ir tomar banho, quando alguém bateu na porta. Pela batida eu já deveria saber quem era, mas estranhamente pensei que fosse o Chuck. Levantei relutante e fui cambaleando ver no que eu tinha me metido.
– E aí, gata? – disse , já entrando e me pegando pela cintura. Passou pela porta e a empurrou, a qual acabou se fechando sozinha.
Ele me levantou e me pôs contra a parede. Com o corpo entre minhas pernas, colocou sua boca contra a minha, iniciando um beijo intenso da parte dele e desanimado da minha. Sua língua penetrava minha boca e se movimentava mesmo que eu não correspondesse à altura. Minhas mãos puxavam seu cabelo tentando fazer com que ele afastasse o rosto, porém, ele achava que isso era excitação e apertava minhas coxas mais e mais.
Seus beijos foram descendo para o meu pescoço e se transformando em chupões. É claro que eu estava ficando excitada, ainda mais sentindo certo volume vindo do meio das pernas do e roçando em mim, afinal não sou nenhum robô. Mas afim de transar eu não estava.
, para... – pedi, arfando.
Senti sua mão tocando minha intimidade sobre a calcinha e mordi o lábio inferior. Mesmo ficando afim, aquilo parecia estranho... Quer dizer que ele pode aparecer quando quiser que eu vou dar pra ele? Nada disso! Cadê meu antigo namorado? Aquele que me fazia rir, era zombador e divertido?
, para! – ordenei, empurrando seus ombros. Ele parou e afastou seu rosto para me olhar.
– Que foi, amor? Achei que estivesse com saudades assim como eu.
Desci minhas mãos para seu peito e o empurrei mais um pouco. Ele me soltou devagar até que eu pusesse meus pés no chão.
– Estou cansada, ... E não só fisicamente falando. A gente não conversa mais, não rimos juntos... Só pegação.
– Tenho andado ocupado, gata. – disse, acariciando meu rosto com uma mão, fitando os traços do meu rosto – E quando te vejo, sinto falta de sentir você...
– Hm... sei... – revirei os olhos, fazendo pouco caso daquela ladainha.
– O que eu tenho que fazer pra você acreditar em mim? Olha, que tal a gente melhorar isso? – Ele segurou minhas mãos e me levou até a cama. Sentou-se, encostado na cabeceira, e me puxou para o meio de suas pernas, fazendo-me deitar em seu peito. Afagando meus cabelos de um jeito que me relaxava, voltou a falar: – Me diz... Conte-me como foi a viagem...
– Não sei o que contar. – respondi, fechando os olhos devido ao carinho em minha nuca. Não sabia mesmo... Não sabia o que podia dizer e o que seria melhor que eu não contasse a ele. E nem estava afim de fazer uma avaliação de cada acontecimento àquela hora.
– Ah... tem implicado com você ultimamente?
– Não. Não exatamente. A gente mal tem se visto, até de longe. – menti. Bem, era uma mentira em partes...
No Natal e no Réveillon nós nos falamos, entretanto, depois de mais um momento estranho – aquele na biblioteca em que, não sei como, quase nos beijamos –, voltou a ficar doido. Quando voltamos, assim que chegamos ao colégio, eu disse a ele que o que havia acontecido na biblioteca na noite anterior era um engano, disse que não sabia o que era, o que tinha dado em mim, em nós, mas que era pra fingirmos que não havia acontecido porque não era nada, não significava nada... O que eu não disse era que senti uma coisa estranha, como se me empurrasse, me forçasse e, como ele tinha dito, eu não sabia o que estava acontecendo. Mesmo que eu tivesse mencionado essa parte, de nada adiantaria. estava louco de novo... Como na primeira vez que conversamos na biblioteca do castelo. Ele me respondeu cheio de patadas e foras, alegando que não se lembrava de nada, nem que tínhamos conversado na noite anterior, e que não fazia a menor ideia do que eu estava falando.
Seja qual for o bicho que mordera naquela primeira conversa na biblioteca, mordera ele novamente quando nos falamos assim que voltamos de viagem.
Contei ao sobre meu Natal, a viagem ao castelo e o Réveillon, omitindo todas as partes que envolviam e o diretorzinho, claro. Por sua vez, ele me contou sobre seu feriado em família, como foi chato, cheio de crianças e como ele ficou preocupado desejando que não pegasse no meu pé. Havia algo em sua fala que ficou agarrado na área de “pendências” do meu cérebro, eu só não sabia direito o quê.

Muito depois de e eu não termos mais nada para contar nem carícias a fazer, a madrugada chegou e eu e Chuck tínhamos um trabalho a ser feito.
Iria ser fatigante, porém, valeria a pena.
– Você tem certeza? – perguntou o garoto de dreads no cabelo. Com certeza, ele estava se divertindo aprontando comigo – Isso é bem pior que pichar paredes. – alertou ele.
– Tenho, sim. Eu sempre tenho. – respondi, erguendo uma sobrancelha.
Arrastar sacos de cimento pelo colégio no escuro, apenas com uma lanterna na boca, era desgastante... até triste. Valeria mesmo a pena? Valeria a pena esse trabalho todo só por causa do pobre diretorzinho? Ele vale tudo isso? Meu cansaço, meu esforço, minha criatividade? Bem, pensando bem... O que ele faria?
“O superior aqui sou eu. E tenho muitas possibilidades sobre o que fazer com você... Eu mando aqui. E já passou da hora de você aprender isso.”
O que você vai fazer, diretorzinho? O que fará agora?
Eu mal podia esperar para ver. Só de pensar, meu corpo formigava. Ansiosa, excitada... louca para ver o rostinho de bom moço do diretor se perder, evaporar, sumir por minha causa.
Chuck e eu passamos um bom tempo perambulando pelo colégio em várias viagens do lugar do ginásio poliesportivo onde guardam materiais de limpeza para os banheiros de uso coletivo. Por fim, após jogar cimento em cada privada e cada pia, meus braços pareciam terem sido esmagados, eu sentia que eles fossem despencar do meu corpo a qualquer momento. Embora estivesse acostumada a fazer exercícios, nunca carregara tanto peso junto, num intervalo de tempo quase nulo.
– Prometo que dessa vez vou assumir minha culpa. – disse Chuck enquanto voltávamos para o alojamento.
– Não estou preocupada com isso. – falei somente, tentando imaginar a possível reação do diretor.

Não consegui pregar os olhos. Dormia por meia ou uma hora e acordava sem sono, com a mente girando em pensamentos... Foi assim a noite toda. Um turbilhão de ideias me mantinham acesa, não me deixando relaxar. Eu fechava os olhos e a imagem do diretor durante nossa discussão na semana passada me tomava. Sério, rígido, inflexível, irritado, contra-atacando para se defender... Tão sexy. Segurando-me firme e sussurrando raivoso, tão provocante que não me dava mais medo e sim me atraía. Tão diferente do diretor bobinho de sempre, meio enrolado sem saber direito o que fazer. Tão distante do diretor leve e descontraído, simpático. O que ele tinha? O que tinha nele para me entreter? Para fazer com que eu tivesse vontade de continuar. Mesmo que eu quisesse parar, não conseguiria. Era simplesmente tão divertido... Sentir certo poder sobre ele ao mesmo tempo em que ele tentava assumir poder sobre mim. Era tão prazeroso que chegava a ser viciante. Não, não poderia parar.
Era como um jogo e estávamos finalmente ficando no mesmo nível. Ele tinha o poder, mas não sabia usar. Eu não tinha poder, não pelas regras, mas tinha ousadia e esperteza. Eu tinha motivos. Quem era ele? Tantas faces e nenhuma conclusão. Minhas dúvidas e curiosidade eram como um combustível a me fazer prosseguir. Não, eu definitivamente não iria parar.

. – chamou titia Kat ao bater na porta do meu quarto, interrompendo minha rotina matinal. Lá estava eu escovando meus dentinhos lindos, quando cuspi a espuma e gritei:
– Pera aí!
Lavei a boca, dei mais uma ajeitadinha no cabelo, mandei um beijo para meu reflexo no espelho e saí do banheiro.
– Sim? – falei quando abri a porta.
– O diretor quer te ver – ela disse.
Eu estava vestida como se fosse para a aula num dia normal, apesar de ter imaginado que as atividades fossem ser suspensas já que todos os banheiros de uso coletivo estavam... digamos que com um probleminha... e só os banheiros dos quartos estavam funcionando. Não havia como ter aula sem os alunos poderem fazer suas necessidades quando surgisse vontade, não é?
– O que será que ele quer comigo agora? – perguntei à Katherine enquanto andávamos até o prédio principal.
– Você exagerou – ela falou baixo num tom de voz contido, até diria que preocupado – E se eu estou te dizendo que foi um exagero, no seu caso, é porque foi realmente um exagero.
Senti um aperto no coração. Não me lembrava de ter escutado Kat falar daquele jeito. Será que foi para tanto? Espere! Onde está sua coragem, ? Onde está sua coragem, ousadia, esperteza? Você não se safa? Você não sempre se safa? Então, pronto! – eu dizia a mim mesma mentalmente.
Katherine abriu a porta da sala do diretor e com a outra mão acenou para eu entrar. Foi eu colocar os pés na sala para minha respiração falhar. Não entendi o porquê. Talvez porque da última vez que estivera ali, saí tremendo de adrenalina. Ou talvez porque Kat dissera, vindo para cá, de um jeito preocupante, que exagerei desta vez. Estarei eu metida num problema com o qual não conseguirei lidar como e tinham receio?
O diretorzinho estava sentado com a coluna ereta em sua cadeira, com os braços na mesa e as mãos juntas. Fitando seus dedos entrelaçados, parecia calmo, tranquilo. Mas poderia ser que ele somente estivesse contido. Porque eu estava. Andei vagarosamente até uma das cadeiras em frente à sua mesa e me sentei, do mesmo modo que ele, com a coluna ereta. Pus minhas mãos no colo ao invés de juntá-las, porque sabia que se o fizesse, começaria a brincar com meus dedos, denunciando minha pressa.
– A senhorita sabe porque está aqui, – se pronunciou, erguendo seu rosto para olhar diretamente para mim – não sabe?
“Senhorita”, ele disse. O termo despertou em mim uma observação que eu não tinha reparado antes... Ele estava dizendo “você” e não “senhorita” nas últimas vezes... Hmmm... Ergui uma sobrancelha, inconscientemente, com o pensamento.
– Sei. – respondi soltando um suspiro, apoiando minhas costas no encosto da cadeira para deixar minha postura informal, o que combinava muito mais comigo.
– Que bom... Não está se fazendo de desentendida. Isso poupa meu tempo. – falou ele, desviando seu olhar para os lados e para o alto, evitando meu olhar irônico.
Outch, essa doeu. Mentira, não doeu. Pelo contrário, foi engraçadinho... Soltei uma risadinha baixa só para cutucar um pouco.
– Então por que o senhor não vai direto ao assunto? – perguntei, levando uma mão até o cabelo e começando a brincar com as pontas.
Ele assentiu com a cabeça e, com os olhos fixos nos meus, continuou:
– A senhorita não está aqui para ouvir um sermão... nem receber um novo e mais pesado castigo. Percebi que castigos não adiantam para você. Nem que eu te mande trabalhar no lugar mais baixo do país.
O que ele queria dizer com aquilo? Eu sabia, eu já tinha imaginado que ele não ia ficar só nos castigos... Semana passada, quando ele sussurrou comigo, eu sabia que castigos não bastariam. Ele iria arranjar um novo jeito de me punir. Um jeito melhor. Tão rápido? Já arranjou, bunda fofa?
– Então... a solução que eu encontrei foi... – Ele respirou fundo, olhando a tela do notebook por um instante e voltando a olhar para mim. Seus olhos estavam vazios, seu rosto inteiro estava. Ele me olhava, porém não me via. Era por isso que falava de um modo tão seguro. Ele fingia que eu não estava ali – A solução que eu encontrei foi contatar seu responsável. No caso, seu pai.
Se a minha respiração já estava falha, agora ela era inexistente.
Ele foi atrás do meu pai. Meu pai.
– Deixei um recado com sua secretária pessoal. Ele ainda não respondeu. Mas quero que a senhorita fique sob aviso. – ele dizia e tudo entrava por um ouvido meu e saía pelo outro – Quando ele me responder, vou pedir que ele venha ao colégio e nós iremos conversar sobre meu pedido para que a matrícula da senhorita seja cancelada.
Cancelada? O que isso quer dizer? – uma voz em minha mente gritou. Não entendia bem o que estava sentindo. Meu corpo parecia estar dormente. Não sentia meus membros, meus braços, minhas pernas, meu pescoço. Meus olhos ardiam e minhas mãos em meu colo agarravam a saia com uma intensidade que me fazia ter a sensação de a estar rasgando. Eu escutara direito? Aquilo significava o que eu achava que significava?
Não podia ser!
Eu estava sendo expulsa?


CONTINUA...

Nota da autora: Nem acredito que acabei o capítulo! Ai, que delícia! Tenho a sensação de realização. Gostei da maior parte do que escrevi. Enfim... Eu sei, eu sei que vocês (ou a maioria) estavam esperando ansiosamente, loucamente, freneticamente que a garota e o diretor se pegassem. Acreditem, eu também quero que eles se peguem logo. Mas há aquela frase que eu adoro e diz assim “se fácil vem, fácil vai”. O que isso quer dizer, tia Carol? Quer dizer que a garota e o diretor não podem se pegar simplesmente, do nada. E, quando eles se pegarem, não vai ser só uma pegação e fim. E não vai demorar para rolar algo físico entre eles. Há um BIG spoiler aí, valorizem! Aliás, vejo poucas pessoas comentando, viu? Na próxima n/a, vou dar mais atenção às tchutchucas que sempre comentam, prometo! E você que não comenta, COMENTE! Isso fará uma autora muito, muito feliz, a incentiva a escrever e, consequentemente, a atualizar mais rápido. Me esforcei para fazer uma boa att, então se as gurias não comentarem, vou ficar dois meses sem escrever uma palavra sequer e ainda vou matar um personagem. Combinado? Espero que tenham gostado do capítulo e da nova capa. Olhem que coisa mais linda a capa que a diva da Giuliana fez, mandem um beijo para ela! Ah... Beta querida, o que achou do diretorzinho cheio de atitude? Bem, agora vou me despedindo, preciso estudar para as três provas que tenho amanhã. Enlouqueçam à vontade nos comments, me amando ou me odiando kkk Beijos. (@MorangoMcflyers / @carollecca)

N/B: YAY, O diretorzinho começou a arregaçar as manguinhas, ADOREI! Mas ainda acho que ele deveria acessar mais o dark side dele, esses old times em que aparentemente ele vivia no bar e pegava geral. Afinal, parece que esse é o grande abismo entre a principal e o diretor: ela, enquanto finge ser doidona, na verdade é bem mais puritana do que deixa transparecer (afinal, ela ficar “putinha” com a vida de bar que ele costumava levar é sinal de puritanismo – além de ciúmes), e ele, mesmo tentando virar um cara profissional e sério, tem muita experiência no quesito vida boêmia, hahahaha. E eu acho essa diferença super legal, afinal, ela vive se achando “a madura” enquanto na verdade, perto dele, ela não passa de uma criança birrenta. Eu devo me sentir culpada por ter ficado feliz quando ele falou que ela tá expulsa? HAHAHAHA Fala sério, se eu fosse diretora dessa menina já a tinha expulsado há séculos. Who gets the last laugh now, bitch? Mesmo assim, tô louca pra descobrir mais sobre os dias de boêmio do diretorzinho, e vê-los esfregados na cara da menina. OK, PAREI. Isso que dá cursar Estudos Literários, acostumei tanto a ter que analisar texto que agora não consigo parar de analisar fics. Atualiza looogo, Carol! ;DDD