Midnight
you should fear the dark
Capítulo 1 – Death Said
A Morte disse
Tom chorava alto, tentando desvencilhar-se dos braços do
pai.
A gritaria daquele lugar estava deixando-o confuso, sua
cabeça começava a rodar e doer, enquanto vozes ecoavam dizendo coisas sem
sentido.
A vermelhidão e o inchaço dos olhos estavam mascarados
pela luz quente e alaranjada que interrompia a escuridão daquela noite. A lua
brilhava cheia no céu sem, naquela ocasião, chamar nenhuma atenção.
Todos os moradores daquele bairro estavam com os olhos
fixos na grande casa em chamas, a sua frente.
- Eles vão achá-lo, querido, tenho certeza disso. – disse
sua mãe, chorando junto.
O menino gritou alto, fazendo força para sair do abraço do
pai.
Seu desespero chamava tanta atenção quanto a ambulância a
frente da casa que socorria duas das quatro pessoa que, anteriormente, estavam
ali dentro.
Um homem e uma mulher tinham leves quiemaduras e algumas
poucas escoriações pelo corpo, mas estavam concientes e bem, exceto pela
preocupação com uma terceira pessoa.
Thomas Fletcher, estudante de uma universidade londrina,
era uma das quatro pessoas que estavam ali dentro, e de todas, a mais segura.
Ele e os amigos haviam ido passar a passagem de ano na
fazenda de seu avô a dois dias, mas na casa dos pais de um desses amigos, as
férias haviam perdido completamente o sentido... Ou pelo menos estavam
perdendo.
Ele queria vê-lo bem, vê-lo a salvo, mas os bombeiros
pareciam ter entrado lá há séculos e nada de notícias.
Na lateral direita da casa ouviu-se um alto estrondo e
calou a todos os espectadores da tragédia, que antes gritavam, e em seguida
houve uma explosão naquele lado.
Era como se uma enorme baleia de chamas saltasse
subitamente do chão, dando uma investida na parede da casa e, assim,
destruindo-a.
Ouvia-se então apenas o som das labaredas queimando a
madeira.
Tom gritou novamente, quase sendo chegado pelas próprias
lágrimas. Ele, usando as últimas forças de seu corpo exausto, desvencilhou-se
de seu pai, correndo em direção a casa em chamas, que agora parecia um grande
titã de fogo, diante dos meros olhos mortais daqueles cidadões que não ousavam
desafiá-lo.
Ele chutou a porta, que facilmente caiu no chão, quebrada.
Sentiu-se, então, no próprio inferno. Só se via restos do
que já haviam sido móveis e a estrutura de madeira da casa, agora fraca e
degradada. O vermelho e amarelo pareciam difundir-se sem nenhuma distinçãos
diante dos olhos do rapaz.
Ele gritou pelo nome do amigo, desesperado, mas não ouve
resposta.
Correu então ao andar de cima, tomando cuidado na escada
despedaçada que já caia sozinha.
Correu pelo corredor suspenso do segundo andar, escapando
de estacas em chamas por pura sorte. Sentia-se como se houvesse alguém junto de
si, exatamente ao seu lado, afastando todo o perigo que ousasse ameaçar sua
vida.
Abriu a porta do quarto do amigo com um empurrão e parou
de súbito, completamente paralisado, debaixo do batente quiemado. Era como se
estivesse debaixo de um arco em chamas, vendo algo que seus olhos denunciavam,
mas sua mente não queria aceitar.
O corpo de um dos seus melhores amigos, da pessoa que
faltava do lado de fora da casa com ele, jazia no chão em meio ao fogo. As
roupas estavam rasgadas e a mão direita tinha uma marca enorme de quiemadura,
uma circunfência levemente deformada que fez Tom supor que o amigo tinha
tentado escapar e acabara ganhando a quiemadura ao tocar a maçaneta quente da
porta.
Seus olhos estavam fechados, mas seu rosto não expressava
nenhuma dor.
Tom deu um passo a frente, mas depois recuou, notando uma
enorme silhueta ao lado do rapaz. Era uma enorme sombra que parecia estar de
quatro, como um animal selvagem checando a vitalidade da sua presa.
O rapaz pegou um objeto qualquer em cima da cômoda e
atirou na sombra, chocando-se ao ver o objeto adentrar a escuridão do semblante
assustador, como se tivesse sido absorvido por ele.
O loiro chamou novamente pelo amigo, que não se mexeu. O
corpo parecia... Sem vida.
Corajosamente, deu um passo a frente, mas viu a sombra
levantar-se imponente e rugir alto, como um urso.
Não calculou-se nem uma fração de segundos entre o rugido
do animal, o grito do rapaz e uma segunda explosão, que jogo o corpo de Tom por
cima da cerca do corredor suspenso do segundo andar, fazendo-o cair direto no
primeiro, e ter sua visão apagada, primeiramente por um forte clarão vermelho,
e depois por uma densa escuridão.
-X-
- Tom? Você está bem? – perguntou um rapaz alto, de
cabelos castanhos e espetados, correndo atrás do loiro.
Ele não respondeu, apenas continuou andando. O amigo o
alcançou e pôs a mão em seu ombro, virando-o para si.
- Estou ótimo, Harry. – disse Tom, bufando.
O amigo fez careta ao ver os sete pontos no corte acima da
sobrancelha direita do rapaz e o pequeno curativo na bochecha esquerda. Sabia
que por baixo da camisa dele, seu tronco também estava enfaixado. Tom quebrara
duas costelas e por pouco não morrera três dias atrás.
- Não adianta você ficar assim agora, Tom. – Harry disse,
abaixando a cabeça.
Tom voltou a andar. O preto do terno, calça e sapatos
contrastava com o verde forte do chão, mas combinava perfeitamente com o
silêncio daquele cemitério.
- Eu simplesmente não consigo acreditar que isso tudo
aconteceu. – ele disse, parando de andar. – Sinto como se tudo isso fosse um
terrível pesadelo e eu não conseguisse acordar.
- Olha, sei que isso não é um lado positivo, mas ninguém
achou o corpo. Você sabe como ninguém que esse enterro foi meramente simbólico.
O loiro deixou uma lágrima descer pelo rosto, cabisbaixo.
- Eu já disse, Harry, eu vi o corpo dele! – disse em um
sussurro.
- Ah, você sabe o que o médico disse. Foi uma ilusão. Você
estava confuso, desesperado e alem disso machucado, viu algo que não estava
ali.
- EU VI ELE! – vociferou, levantando a cabeça para encarar
o amigo. – Harry, eu não sei como vocês todos estão encarando isso com tanta
facilidade, mas eu não consigo aceitar.
- É por isso que teima em ver algo que não realmente viu.
- Mais que merda, eu já disse, eu vi o corpo dele. – ele
gritou, chorando novamente. – Eu tenho certeza que vi. Vi o corpo, ali,
estirado no chão, completamente neutro, aparentemente sem vida, mas com uma
expressão calma. Harry, eu não me importo se o mundo inteiro achar que eu sou
louco, mas eu vi, é fato!
Harold Judd, um dos três amigos que haviam vindo com Tom
para a casa de seu avô, suspirou alto, tentando acreditar no amigo.
- O castiçal que você disse ter atirado nele também não
foi encontrado. Procuraram pela casa inteira e nada.
Tom bufou alto, puxando Harry pelo braço e fazendo-o
sentar-se no chão, entre duas grandes lápides de mármore.
- Harry, entenda uma coisa, eu não tenho certeza se era um
castiçal, eu nem ao menos prestei atenção! – ele explicou. – E eu não atirei o
suposto castiçal nele, atirei em um sombra.
- Mas você tinha dito que...
- Eu sei o que eu disse, mas o que você queria, que eu
fizesse os médicos me acharem louco?
Harry sentiu um aperto no peito. Aquela história toda
estava começando a assustá-lo.
- O que realmente aconteceu então?
- Eu cheguei lá e o vi deitado no chão, bem como contei, o
que não disse foi que havia uma sombra ao lado dele.
- Uma sombra?
- É, uma sombra enorme estava do lado dele, ela parecia
querer checar se ele estava morto ou não.
- Tom, você está me assustando, está realmente me
assustando.
- Eu juro! Eu não soube dizer o que era na hora, mas eu
posso jurar que era a sombra de um urso! Ele ficou me olhando quando eu
cheguei, parecia não querer que eu chegasse perto dele.
- Hum... E?
- E então eu atirei o tal castiçal nele e o negócio
simplesmente sumiu! Sabe, Harry, parecia que a sombra havia engolido
completamente o castiçal, como se tivesse absorvido ele. – Tom contava aquilo
com uma angustia que estava evidente em sua voz. – Eu fui dar um passo pra
frente, o animal rugiu e depois tudo apagou. Foi isso.
- Estranho, lá de fora nós ouvimos você gritar e ouvimos a
explosão também, mas em momento algum houve um rugido. – o rapaz calou-se por
um instante, pensativo. – Eu acredito em você, Tom, só queria entender por que
só você viu e ouviu essas coisas.
O loiro levantou os olhos para o céu, enquanto passava os
dedos no rosto, limpando-o das lágrimas.
'Cause all of the stars
Are fading away
Just try not to worry
You'll see them some day
- Eu também queria, Harry. Tenha certeza disso...
Capítulo 2 – Fate
Destino
Dalles suspirou irritada, sentada no último banco do
ônibus.
- Certo, por que mesmo estamos indo passar as férias em um
vilajero do interior e não na praia? – perguntou , sentada ao lado da
amiga.
- Porque a tia dos dois aqui tem uma mansão na cidade e,
alem disso, porque a viajem pra cá sai de graça, enquanto uma para a praia ia
nos deixar sem dinheiro para viver.
- Ah, sim! Obrigada por me lembrar!
riu.
- Calma, gente, da última vez que eu vim aqui não era tão
ruim assim.
- , a última vez que viemos aqui foi há, pelo menos,
dez anos. – disse seu irmão, vindo da frente do ônibus e sentando-se com as
meninas.
- Obrigada por acabar com as minhas esperanças de ter uma
férias legal, . – disse .
O rapaz riu.
- Sabia que eu adoro o seu senso de ironia?
- Você está sendo ironico agora?
- Não, eu só...
- EI! Tive uma idéia, dudes! – exclamou , sentando
cuidadosamente no chão do ônibus em movimento. – Vamos jogar Fate Cubes!
e rolaram os olhos, e pulou para o chão
também.
- Dude, é por isso que eu te amo!
A irmã do menino riu.
- Gente, fala sério, vocês dois são as únicas pessoas no
mundo que compraram essa bosta de Fate Cubes. – ela disse, mas sentou-se no
chão também.
- Ah, come on, vai dizer que você não acreditam em
destino? – perguntou, tendo o apoio de .
- Não acreditamos que dados possam mostrar o destino! –
responderam e juntas.
Os outros dois, que já tinham seus dados na mão, puxaram
elas para a rodinha que eles formavam no chão e lhe entregaram mais dois dados.
- Right, dude, no três!
- Um... – eles fecharam as mãos com o dado dentro. –
Dois... – começaram a balançar os dados nas mãos. – TRÊS. – finalmente os
soltaram.
O dado amarelo de parou bem a frente de , o
vermelho de rolou para frente de , enquanto o verde de e o
azul de sairam quicando por debaixo dos bancos do ônibus, indo parar em
algum lugar na frente.
- Mais que merda!
- O da deu coração! – disse .
riu para a amiga.
- Coração é amor, benhê. Será que você vai encontrar seu
principe encantado?
- , faz um favor?
- Diz.
- Cala a boca.
- O que deu o da ?
baixou os olhos.
- O dela é um coração também, quebrado. Partido ao meio,
na verdade.
levou a mão ao queixo, pensativo.
- Isso é amor perdido. Você está gostando de alguém?
- Não que eu saiba.
O rapaz fez joinha pra menina, rindo.
- Então vai gostar de alguém... Mas não vai ficar com ele.
- Que ótimo. – ela disse ironica.
- Eu queria saber o que deu o meu. – reclamou ,
abaixando-se ainda mais para olhar por debaixo dos bancos.
- Foram lá pra frente. – disse, agachando-se no
chão.
Os dois começaram a engatinhas pelo caminho do meio do
ônibus, procurando pelos dados por debaixo dos pés dos outros passageiros.
A maioria das pessoas ali estavam dormindo, o que
facilitou para que eles não precisassem ficar pedindo desculpas ou parecerem
(ainda mais) ridículos.
e riam dos dois lá atrás, nem notaram quando o
ônibus começou a balançar-se de um lado para o outro.
O motorista devia estar querendo brincar com eles. Só
porque a pista estava limpa, lisa, seca e desmovimentada ele achava que podia
sair fazendo esses zig zags?
Um desses balanços fez cambalear para o lado e bater
a cabeça na lateral de um dos bancos.
- AI, PORRA! – ele levou a mão a cabeça, enquanto
virava-se pra ver se o amigo estava bem. – VOCÊ TIROU CARTEIRA DE MOTORISTA POR
ONDE? CORREIO? INTERNET?
A menina a sua frente começou a rir.
- Calma, .
O rapaz bufou e voltou a procurar o dado.
Chegaram na frente do ônibus e nada. A porta que dava para
a cabine do motorista estava entreaberta.
- Eu não acredito que as duas bostinhas passaram por aqui
e cairam lá! – reclamou.
- Vamos lá ver. – a menina lhe olhou estranho. – Qual é?
Você acha que depois do galo que ele me deu, ele tem algum motivo pra reclamar
comigo?
- Se você diz que não... – ela riu e empurrou a porta de
leve, ainda abaixada.
O amigo engatinhou até a cabine do motorista e olhou para
a escada por onde se entrava e saia do ônibus.
- Achei, estão lá embaixo.
A menina retribuiu o sorriso, fazendo-o corar.
- E ele nem disse nada.
O rapaz concordou, virando a cabeça para o motorista.
Nos segundos que se seguiram ele apenas teve tempo de
empalicer e olhar para , assustado.
- SE SEGURA! – ele gritou, acordando dois ou três
passageiros.
apenas obedeceu e, no segundo seguinte, antes que o
próprio pudesse se erguer, o ônibus deu forte solavanco, jogando o corpo
do rapaz pela escada de entrada.
As duas meninas do fundo do ônibus gritaram, acordando
algum dos passageiros.
- ! – gritou, aterrorizada.
Ela levantou-se cambaleando para frente e viu o motorista
desacordado, com a cabeça pendendo para trás.
Olhou para o lado oposto e viu o amigo levanta-se do chão
com dificuldade, com um pequeno corte no rosto.
- Senhor, senhor acorda. – ela disse aflita, balançando-o.
O corpo do homem caiu em cima de um painel ao lado do
volante, com vários botões.
Ela olhou pra frente e viu que haviam saido da estada. Sua
mão tremia em desespero.
O veículo agora andava por uma estrada irregular de terra,
prestes a entrar no mato. Viu o ônibus cair em um grande buraco com uma das
rodas e novamente pular alto no ar.
Uma mulher ali gritou. O ônibus estava quase vazio e os
poucos que ainda dormiam, finalmente acordaram.
Os pneus dianteios voltaram ao chão com força e dentro do
ônibus tudo tremeu.
A porta atrás de abriu de supetão e a força da
pressão e do vento de fora puxou o corpo do rapaz com força para fora da
cabine.
- CUIDADO! – ela gritou.
Ele tentou correr escada acima, mas escorregou e caiu no
não, deixando o corpo ser sugado quase totalmente para fora do ônibus.
Com um velocidade que nunca julgara ter, segurou as bordas
de borracha da porta e, com um pouco mais de esforço, conseguiu lançar a mão
esquerda ao corrimão da escada, segurando-o firmemente.
desceu dois degraus com cuidado, esticando-se para
pegar a mão do amigo.
- Para o ônibus. – ele disse.
- , você vai...
- , vai parar o ônibus. – ele repitiu.
Ela levantou a cabeça e olhou pelo vidro dianteiro, vendo
uma enorme árvore na direção exata do ônibus.
Ela voltou ao volante e tentou virá-lo, mas não conseguiu.
Olhou para baixo e um dos braços do homem estava entrelaçado ao volante e a
perna direita ainda pressionava o acelerador.
Ela abaixou-se e tentou passar por debaixo das pernas
dele, tirando seu pé dali. O desespero começava a impedí-la de raciocinar.
, no fundo do ônibus, olhou para em desespero.
- Cadê meu irmão? Eu não to vendo ele. – disse aflita.
- Eu não sei... Eu...
Antes que ela pudesse responder o ônibus pulou novamente e
então pode ouvir um grito vindo da frente do ônibus. Um grito grave o
bastante para ser de .
Sem pensar duas vezes ela saiu correndo pelo ônibus com
no seu encalço.
- O que acon... – ela olhou e depois para a porta,
parando de falar para gritar assustada.
- A gente precisa parar essa coisa! – a menina gritou,
ainda tentando tirar o pé do homem do acelerador, mas não conseguindo
alcançá-lo.
- Eu...
- Ajuda ela. – disse . – Eu puxo o .
Segurou-se com uma mão na borda da porta que dividia a
cabine do resto do ônibus e então esticou-se para pegar a mão do rapaz.
A sensação de estar sendo sugado para fora era simplesmente
horrivel. sentia-se tonto e com uma certa vontade de vomitar. A sensação
dava a impressão de que seus orgãos internos estavam sendo puchados para
debaixo da cintura. O coração batia forte, doendo dentro do peito.
Ele fechou os olhos, até sentir a mão de conseguir
tocar a sua.
Sorriu amarelo para a amiga, que agora conseguia segurar
firmemente a sua mão. Nem assim deixou de segurar o corrimão da escada.
- Consegui! – gritou , finalmente sentindo a
velocidade do ônibus diminuir ao tirar o pé do motorista do acelerador.
olhou pelo vidro.
Ele não pararia a tempo. Mesmo diminuindo a velocidade ele
bateria na árvore e então, dificilmente iria sobrar um deles para contar
história.
- Aperta o freio! – gritou para .
- O que?
- Aperta o maldito freio.
A menina olhou para lá, sem saber mais qual era o freio.
Fechou os olhos e apertou com força o mais proximo de si.
- Eu não vou mais aguentar! – gritou.
O braço queimava em dor. Sentia que a qualquer momento
podia rasgar-se diante de seus olhos.
Os pneus do ônibus cantaram alto, parando de rodar, mas
ainda deslizando para frente.
pulou por cima do corpo do motorista, e do lado
oposto engatou o freio de mão.
- Abaixem-se!
Ela e esconderam a cabeça por entre os braços, de
olhos fechados.
lançou um olhar significativo a , e em seguida
a viu balançar a cabeça negativamente, com os olhos marejados.
Ele fechou os olhos e ela fez o mesmo.
Esperaram 1, 2, 3 segundos. A velocidade parava
gradativamente. 4, 5, 6 segundo e pôde sentir a força que o puxava
diminuir ligeiramente.
Com esforço, conseguiu colocar o pé direito novamente no
ônibus. Puxou com força o corrimão e deu um forte impulso com pé, sentindo seu
corpo finalmente voar para frente.
Ele trombou em e segurou a amiga, rolando pelo chão
com ela até e . Os quatro encolheram-se, esperando pela batida.
O ônibus andou alguns segundos a mais, fazendo-os
perguntarem a si mesmo quando ele iria parar.
Com uma baixa velocidade, o ônibus atingiu a árvore.
Eles sentiram a força fraca do impacto os empurrarem de
leve, mas sem fazê-los sair de onde estavam.
O ônibus havia, finalmente, parado.
Os quatro levantaram a cabeça e respiraram fundo.
- Essa foi por pouco... – disse .
- Muito pouco... – o irmão lhe assegurou.
Capítulo 3 – I think we’ve already lose it
Eu acho que já perdemos
enrolou-se no cobertor, se sentando com ,
e na traseira da ambulância.
Eles ainda estavam no meio do mato, a policia havia sido
chamada por um dos outros passageiros e havia chegado a pouco tempo. Eles
estavam averiguando o que tinha acontecido e enquanto isso os quatro estavam
apenas esperando. Um dos policiais estava pedindo algumas informações,
prometendo deixá-los em segurança.
O tempo havia esfriado subitamente e agora os três estavam
congelando.
- Então vocês têm algum parente aqui? – perguntou um dos
policiais.
- Já disse que sim. – repetiu, impaciente.
O policial a olhou feio e deixou que ela, e
entrassem na ambulância para se aquecerem.
- Então... – disse, olhando por cima dos óculos
escuros.
- Então... Ela disse que sim, porque sim...
- Ela é o que sua?
- A , minha irmã, a e a são amigas...
O homem anotou alguma coisa numa prancheta e olhou
novamente para o rapaz.
- Tem algum parente aqui?
- Meus tios... E meu primo, claro. – o outro respondeu.
- Sobrenome?
- Dalles.
O homem mordeu a caneta, pensativo.
- Não conheço ninguém de sobrenome Dalles.
revirou os olhos, impaciente.
- O senhor conhece a cidade inteira, por acaso?
- É apenas uma vila, garoto, se você tivesse um tio, de
sobrenome Dalles, dono de uma mansão, eu saberia. – o policial disse,
firmemente.
- Ah, sim! Mas isso é por causa do outro sobrenome... Meu
nome completo é Dalles Jones, o da minha irmã é Dalles Jones, mas o
sobrenome que dividimos com meus tios é Jones. Meu primo tem a minha idade,
chama Daniel, Daniel Jones. – o menino explicou.
- Você é sobrinho do Jones? – o policial perguntou, com
certo desdém na vóz, novamente olhando por cima dos óculos escuros.
bufou. Aquilo estava irritando-o.
- Sim, sou sim. Ele é irmão da minha mãe. Tenho minha
indentidade aqui, se quiser ver.
- Não preciso...
- Então pode nos levar a casa do meu tio?
- Infelizmente não, mas levaremos você aos seus tios.
franziu o cenho.
- E meus tios não estão na casa deles?
O homem suspirou e tirou os óculos, encarando como
se tivesse pena.
- Avise sua irmã que vamos agora e venha comigo na cabine
da frente, tem algumas coisas que você deve saber.
confirmou com a cabeça, seguindo o policial.
-X-
pôde sentir a ambulância parar em um certo ponto
da sua conversa com e . Elas ouviram a porta da cabine da frente
bater e olharam apreensivas para a porta de trás.
Ela abriu, deixando pouca claridade entrar. Já estava
anoitecendo.
estendeu a mão para elas, cabisbaixo, e as ajudou a
desder.
- Essa não é a casa do tio. – observou.
- Não... É a fazenda dos Fletcher, uma família rica da
região também.
Ele se virou, saindo de perto da ambulância e rumando para
dentro da enorme fazendo.
- Por que não estamos na casa do seu tio? –
perguntou.
- A familia daqui é amiga do meu tio e da minha tia. – ele
respondeu, vagamente, sem olhar pra elas. – Eles estão aqui.
suspirou alto.
- Bom, depois de quase morrer, eu só espero que tenha um
sofá bem confortável nessa joça... Mas muito confortável mesmo.
riu com .
apenas esticou os lábios, num risinho forçado. Ela
olhava de rabo de olho para , vendo o olhar vago do amigo.
Aqueles eram seus melhores amigos e ela os conhecia bem o
suficiente para saber quando havia algo de errado. E agora ela sentia que havia
algo de muito errado com .
Ela pôs a mão no ombro do amigo, chamando sua atenção.
- ? O que aconteceu? – perguntou com a voz suave.
Ele se virou para encará-la.
Por um momento pensou em uma desculpa esfarrapada, mas
acabou desistindo. Sabia que não conseguiria convencê-la de que não havia
problema algum, se havia alguém para quem ele simplesmente não conseguia
mentir, era .
- Eu... Bom... – ele bagunçou os cabelos, como sempre
fazia quando estava nervoso. – Faltou dizer porque meus tios estão aqui...
A voz dele soou rouca e quase inaudível.
- Por que não disse? – perguntou, parando de rir.
o encarou, perguntando o mesmo ao irmão com o olhar.
- Vai, desembucha. – insistiu , aflita. – Ta
começando a me deixar nervosa, .
Ele olhou fundo nos olhos castanhos da irmã. Era incrível
como so dois conseguiam se entender sem dizer nada, sem nenhuma palavra. Tinham
suas brigas e discusões, como todo irmão, mas desde pequenos os dois se davam
muito bem, eles tinham uma espécie de sintonia, de “estação”, a qual só eles
conseguiam entender. Consiguiam falar com os olhares simplesmente porque um
conhecia cada tipo de olhar do outro traduzido em palavras.
então balançou a cabeça afirmativamente, entendendo
pelos olhos igualmente castanhos do irmão que algo sério estava ou tinha
acontecido.
respirou fundo.
- O tio e a tia estão aqui porque a casa deles pegou fogo,
. – ele disse calmo, deixando algumas lágrimas se formarem em seus olhos
enquanto os da irmã se arregalavam. – O policial me contou enquanto vinhamos...
Não sobrou nada. – ele fungou, enquanto a primeira lágima desceu pelo seu
rosto.
- Mas... Se eles estão aqui, ninguém saiu ferido.
Essas palavras surtiram um efeito drastico sobre seu
irmão. As lágrimas finalmente corriam livremente pelo seu rosto.
But my God woke up
On the wrong side of his bed
- O Danny... O Danny estava dentro da casa quando ela
explodiu pela última fez. – ele disse, e então viu a irmã começar a chorar. –
Depois disso, não acharam mais ele...
Ela ficou digerindo aquela informação por alguns segundos
e depois desabou a chorar, sendo rapidamente abraçada por .
Little by little
The wheels of your life
Have slowly fallen off
e também juntaram-se ao abraço.
Não conheciam o primo dos dois irmãos, mas para elas, doia
bastante somente vê-los naquele estados.
Capítulo 4 – Vision
Visão
- Oh, querida, vai ficar tudo bem. – disse a tia de
e , abraçando a sobrinha já
dentro da casa da fazenda.
O tio sentou-se no sofá, olhando
nos braços da esposa e
sentado no sofá da frente, chorando enquanto segurava firme na mão de .
Na grande sala havia também mais três garotos que nenhum
dos quatro amigos conheciam. Um loiro, um de cabelos castanhos bem claros, e um
outro de cabelos escuros. O do meio parecia ser da mesma idade que os quatro
ali, enquanto os outros dois eram, claramente, mais velhos.
E alem dessas pessoas, ainda havia o dono da casa e da
fazenda.
- Essa dor vai passar. – confortou o velho, enquanto o
relógio batia onze e meia da noite.
o olhou
com cara de poucos amigos.
- É, passa rapidinho, eu só preciso esquecer que meu primo
acabou de morrer. – disse grossa, com a voz embargada.
lançou
um olhar de reprovação a irmã, que apenas deu os ombros discretamente.
- De qualquer forma. – o velho tornou a dizer. – Vocês têm
de se acalmar.
Ele começou a andar pela sala.
- Nós vamos ficar aonde? –
perguntou ao seu tio. – Digo, por mim, claro que eu, a ,
a e a
poderíamos ficar em um hotel, mas daí o senhor terá que ligar para os meus
pais.
O Sr. Jones abriu a boca para dizer algo, mas foi
interrompido pelo velho dono da fazendo.
- Eu já disse aos seus tios que faço questão que todos
fiquem aqui, com o meu neto e seus amigos. – ele disse. – Portanto, enquanto
não conseguirem reerguer a mansão, poderão morar aqu.
virou o
rosto para olhar a tia.
- Vocês já avisaram ou anda vão avisar meus pais?
- Ainda não avisamos, querida. – ela disse. – Não
queríamos dar uma notícia dessas por telefone.
- Vocês poderiam ir até Londres. – disse .
Todos os olhares voltaram-se para o rapaz. – Digo... Bom, nós não vamos morrer
se ficarmos alguns dias sem vocês, né?
- Ele está certo. – manifestou-se o rapaz mais novo. –
Digo, se nós vamos ficar aqui, poderíamos ficar todos juntos, não é?
- O Dougie tem razão. – o loiro então disse. – Nós estamos
sozinhos aqui, mesmo. Poderíamos ficar todos juntos.
correu
os olhos para o loiro, e encontrou seu olhar. Eles ficaram se encarando por um
longo minuto.
- Ele tem razão. – ela disse, podemos ficar aqui.
O Sr. e a Sra. Jones olharam para o velho no meio da sala.
- Tem algum problema deixá-los aqui? – a mulher perguntou.
O velho homem sorriu.
- Mas é claro que não.
O Sr. Jones levantou-se e viu
sair do abraço da esposa para que ela fizesse o mesmo.
- Bom, vamos dormir então e amanha, se tudo der certo,
sairemos antes que acordem. – os dois disseram, deixando a sala.
O velho suspirou.
- Bom, eu também vou dormir. – olhou para os sete jovens
na sala. – Juizo, os sete...
Ele então também deixou a sala, fazendo com que o lugar
mergulhasse em um denso silêncio.
suspirou alto e levantou-se indo até Tom.
- Você é o Fletcher, né? Thomas Fletcher? – perguntou. –
Eu ouvi falar que você entrou lá e... Bom...
O rapaz forçou um sorriso.
- É, eu entendi... Prazer...
aceitou
a mão do loiro.
- Prazer...
Dalles... Ou Jones, se você
preferir.
O loiro riu.
- Estes são meus amigos de Londres.
Douglas
Poynter e Harold Judd.
- É. – disse o do meio. – Mas pode chamar só de Dougie...
- E Harry aqui.
sorriu
para os mais novos amigos.
- Bom, ,
minha irmã. – disse apontando para a menina e depois se voltando para as outras
duas. – e , minhas
melhores amigas... Bom, já são parte da família também...
As devidas apresentações foram feitas e logo os sete
jovens estavam entretidos em uma conversa animada, mas ainda com vestígios
evidentes de tristeza. Os sorrisos sempre desapareciam quando, de alguma forma,
algo que lembrasse Danny fosse mencionado.
- Ai, eu to com sono. – disse ,
levantando-se.
Tom olhou para a menina com um olhar de fascínio e sorriu.
- Amanha podemos sair. – ele disse sorridente, vendo
e abafarem risadas e
olhá-las confuso. – Digo, nós sete... Sabe, aqui tem um zoológico muito
legal... Lá tem o totem...
- O famoso Totem? –
perguntou. – É a atração da cidade, né?
- É sim... É o único Totem de toda Inglaterra, pelo que
sei... – Harry respondeu. – É enorme... E muito bonito também.
e
sorriram.
- Então está decidido. – elas disseram. – Vamos ao Totem.
- Bom, até amanha, então. –
disse, se virando para sair mais voltando no segundo seguinte.
- A propósito, onde vamos dormir? – perguntou.
Tom novamente sorriu bobo para a menina.
- O corredor da esquerda tem dois quartos grandes. Vocês,
meninas, podem dormir lá no segundo... O
dorme com a gente no primeiro.
Ela correspondeu o sorriso do rapaz.
- Está bem então... – disse.
Ela fez menção de sair dali mais uma vez, mas assustou-se
com o barulho alto do relógio, que bateu a primeira das doze badaladas da meia
noite.
Pôs a mão no peito, ofegante. De repente parecia que tudo
estava passando em câmera lenta diante dos seus olhos.
Ouviu a segunda badalada e contraiu seus olhos, tonta.
A terceira, e levou as mãos a cabeça, sentindo um zunido
agudo no ouvido.
Bateu a quarta vez, e ela abriu os olhos, vendo todos na
sala olharem curiosos para ela.
A quinta badalada foi ouvida e ela estreitou os olhos,
focalizando melhor a imagem a sua frente.
O relógio bateu a sexta vez e então ela viu um homem
parado no meio da sala.
Era um velho que aparentava ser um mendigo. Suas roupas
estavam rasgadas e a barba longa cinza de sujeira. As unhas estavam sujas e
compridas e haviam manchas pretas na sua pele levemente morena.
Ouviu-se a sétima badalada.
- Quem é o senhor? – ela tentou perguntar, mas não ouviu a
própria voz.
O velho homem estendeu a mão para ela e o relógio bateu a
oitava vez.
- Quem é o senhor? – ela tornou a dizer, novamente não
ouvindo som algum sair boca para fora.
A expressão no rosto do homem era severa... Até mesmo
raivosa.
A nona badalada soou alto.
Ela deu um passo a frente, aproximando-se do homem. Ele
desviou o olhar dela, correndo os olhos pelos outros jovens do lugar.
Olhou Harry, ,
...
O relógio bateu mais uma vez.
Olhou Dougie, .
A décima primeira badalada se fez audível.
Parou o olhar em Tom e depois de uma fração mais longa de
segundos encarando-o, voltou a olhar .
Levou o dedo indicador a própria garganta e fez um sinal
brusco e ameaçador.
Ela gritou assustada, junto a décima segunda badalada do
relógio e jogou-se para trás, caindo sentada na poltrona atrás de si.
- , você
tá bem? – perguntou, franzindo
a testa.
- Quem era aquele cara? E quem ele pensa que ele é? – ela
perguntou desnorteada.
Dougie franziu o cenho.
- Não tinha nenhum “cara” aqui!
- Mas eu vi! – ela disse, controlando a respiração. – Eles
estavam aqui, bem no meio da sala. Entre
e e em frente a .
- , sério,
não tinha ninguém aqui. – Harry disse.
Ela piscou várias vezes sem dizer nada. O homem não estava
mais lá.
Ela abraçou o próprio corpo, ainda com a sensação de estar
sendo observada.
- Ai, eu devo estar tendo pesadelos antes de dormir. – ela
disse, fazendo os outros rirem. – Boa noite.
Ela virou-se, olhando pelas janelas e vendo apenas a
escuridão da grande extensão de terras.
Balançou a cabeça e rumou para o quarto, sentindo que
precisava dormir.
Capítulo 5 – The Totem
O Totem
- , você
está bem? – perguntou, ficando
mais pra trás para ficar sozinha com o amigo.
O menino levantou a cabeça e sorriu forçado para ela.
Eles estavam passeando pela cidade há cerca de duas horas
e só nesse tempo haviam chegado no último dos pontos turísticos, o zoológico.
- Sabe, eu não gosto disso.
- Disso?
- Dessa historia de passear para fazer parecer que nada
aconteceu... Poxa, meu primo mor... O Danny desapareceu, pra mim parece tão
errado fingir que estamos felizes...
A menina sorriu doce para o amigo e pegou sua mão,
tentando confortá-lo.
- Pensa por outro lado. – disse ela. – O seu primo não ia
querer que você ficasse desse jeito. ,
o Danny não ia querer ver você se acabar assim...
O menino apenas levantou os olhos para ela, deixando-a
continuar.
- Considere isso somente uma chance de se recuperar disso
tudo. – ela piscou. – Eu sei que é isso que o Danny ia querer.
Ele abriu um fraco sorriso.
- Você está certa.
Ela sorriu ainda mais.
- Eu sempre estou, dude.
Ele riu alto e apertou a cintura da menina, fazendo-lhe
cosquinhas. Ela desvencilhou-se dele rindo e começou a correr, sendo seguida
pelo amigo.
- Você não é mais rápida do que eu, !
– ele gritou, alcançando a amiga.
- Então me dê cinco segundos de vantagem.
- Nunca!
Ele riu uma última vez, pulando em cima dela e
derrubando-a no chão. Os dois não se preocupavam com os olhares que atraiam.
Estavam felizes brincando daquele jeito e ninguém tinha nada a ver.
- Ô dois, será que dá pra virem logo? –
disse, indo com Dougie logo atrás de ,
Tom e Harry.
e
levantaram-se do chão e foram atrás da menina.
- Você está tão quieto. –
comentou olhando Tom de rabo de olho, enquanto Harry distraía-se com os
animais.
Ele olhou para ela e sorriu. Ela estremeceu.
- Apenas não tenho o que dizer...
suspirou alto.
- Quando vai voltar pra Londres? – perguntou tentando
iniciar algum diálogo.
- Sinceramente, não sei. Eu tenho... Medo.
- Medo?
- É... – ele disse e ficou calado por um tempo. – Medo de sentir
o peso dos últimos acontecimentos ao ver o quanto eles vão mudar minha rotina.
sorriu
fraco; sabia que ele estava falando de Danny.
- Vai ficar tudo bem. – ela disse, duvidando das próprias
palavras.
Carinhosamente, ela enlaçou sua mão a de Tom.
Ele não olhou pra ela, continuou encarando o caminho a sua
frente, mas ela ficou feliz ao vê-lo sorrir discretamente.
Sentiu-se ainda mais feliz ao olhar para frente assim como
ele e, então, sentir o menino apertar sua mão com carinho.
- Enfim! – exclamou Harry, passando a frente de
e Tom e olhando para frente. – O totem!
Todos ali, antes distraídos, olharem para frente,
contemplando a enorme estátua entalhada em madeira.
Era simplesmente gigantesco e também assustados. Devia ter
a altura de um prédio de quatro ou cinco andares, embora fosse mais fino.
Havia oito faces de animais entalhadas.
sentiu
Tom estremecer e viu que os olhos dos garotos estavam arregalados, fixados na
primeira e mais alta das faces.
- O que foi? – ela perguntou.
Todos olharam para Tom, preocupados e depois Harry e
Dougie fizeram um som estranho com a boca, em compreensão.
- O urso. – disse Harry.
, ,
e
continuaram confusos.
- O urso do totem. – Dougie disse.
Os outros quatro olharam para cima e viram o que tanto
assombrava Tom, embora não entendessem o por quê.
O topo do totem era configurado na forma de uma cabeça de
urso. Ele tinha os pelos marrom escuros e os olhos profundamente negros. Sua
boca estava aberta exibindo dentes afiados e mortais e sua figura mudava logo
abaixo dos ombros, onde o totem tinha a sua segunda face animal.
A face abaixo do urso era uma águia. Uma águia de olhos
claros e grandes, o bico fechado e a cabeça erguida lhe davam um ar de
imponência juntamente com as grandes asas abertas.
Ela estava inteira acima da cabeça de um lobo branco.
Tão branco como a neve, de olhos fechados e expressão
sabia, mas com as orelhas apontadas para o alto, firme e rijas, como se
estivesse atento a qualquer coisa.
- Que horror. –
sussurrou a Dougie, que ainda olhava para o totem.
Ele concordou com a cabeça, descendo os olhos para o
quarto animal.
Este era um gato com pose imperial.
Ele tinha os olhos fechados e a cabeça erguida acima de um
comprido e fino pescoço. Sua causa ela longa e estava enrolada no próprio
corpo. O animal definitivamente tinha um porte majestoso.
Logo abaixo dele estava seu parceiro de estimação, um
cachorro. Um cachorro que se parecia muito com o lobo, mas ao contrario desse,
tinha um ar violento. Os olhos eram negros e poderiam iludir quem os encarasse
profundamente, dando a essa pessoa uma forte sensação de estar sendo observada,
se não, vigiada.
A madeira estava esculpida com tal perfeição que, vendo-o
de baixo, as pessoas poderiam ter a impressão de que ele realmente tinha uma
farta camada de pretos marrons.
- Isso é... Assustador. – Dougie concordou com .
A frente dos dois,
tinha sua mão ainda presa a de Tom. Com ele, ela sentia-se mais protegida, como
se nada pudesse lhe acontecer.
- É muito bem feito. –
comentou. e Harry
concordaram, e ele começou a rir quando a menina apoiou o queixo em seu ombro.
– Folgada. – sussurrou.
- Aquilo, debaixo do cachorro, o que é? – ela perguntou.
- Parece um... Sei lá, um tatu.
- É um tatu, sim. – Harry concordou.
Este animal, abaixo do cachorro, era o menor de todos.
Estava quase todo escondido em sua carapaça. Tinha uma expressão engraçada, com
as orelhinhas apontadas para cima e os olhinhos curiosos observando sua
esquerda.
Abaixo dele havia um sapo. Com os olhos esbugalhados e tão
feio quanto um sapo de verdade, ele parecia montado em cima último animal.
Este era uma tartaruga. Uma grande tartaruga de casco
verde escuro. Suas patas, bem como sua cauda e cabeça estavam folgadamente
esparramadas no chão, para fora do casco.
O totem por inteiro era, simplesmente, intimidador.
- A tartaruga é bonitinha. –
disse, suspirando algo. – Vamos ver o resto?
e Harry
concordaram com ela, seguindo para a próxima atração do zoológico.
e
Dougie os seguiram, olhando para
e Tom, preocupados.
- Vamos? – Tom disse, puxando de leve a mão da menina.
corou,
sentindo-se envergonhada. Ela soltou de leve a mão do loiro e sorriu para ela.
- Vamos sim... – consentiu.
Ela deu uma última olhada no totem. Por que aqueles
animais pareciam tão reais? E por que ela sentia-se tão apreensivas em relação
a ele?
Ela olhou para Tom e abriu seu melhor sorriso.
- Vamos logo, vai. – suspirou.
Ela sentia que ficar triste não adiantaria nada. Sabia que
se afundar daquele jeito não ajudaria Danny e não tinha nada que ela pudesse
fazer pelo primo.
Respirou fundo e correu atrás de ,
gritando feliz e pulando nas costas da amiga.
As duas riram e uma começou a correr atrás da outra,
trocando “elogios” enquanto Harry e
balançavam a cabeça negativamente, rindo também.
Pronto, a verdadeira
havia voltado. E ela nem sabia que precisava ser ela mesma para enfrentar o que
viria pela frente...
Capítulo 6 – Seems to be romance
Parece ser romance
- Então, tá tudo bem aí? – Tom perguntou aproximando-se de
.
Ela, que estava sentada na sua cama, no quarto aonde
estava dormindo, levantou a cabeça para ver o menino parado a porta.
Ela estava sozinha naquele quarto há algumas horas. Dougie
havia chamado para
mostrar-lhe alguma coisa no pasto – pelo que
havia entendido. E Harry, e
haviam ido ver uma cachoeira que parecia haver ali perto da fazenda.
só não
sabia que Tom havia ficado em casa.
- Tudo certo. – respondeu, esforçando-se para sorrir.
- É difícil pra você superar isso, né?
- E pelo jeito pra você também. – ela sorriu triste.
Tom sentou-se na cama, ao lado da menina.
- Eu gosto de todos igualmente, mas o Danny foi o primeiro
que conheci.
- Em relação ao Harry e ao Dougie?
- É…
A menina olhou para o teto, suspirando.
- Eu nem sei por que fiquei tão chocada, sabe? Fazia anos
que eu não via o Danny! Tudo bem que ele é meu primo e talz, mas não deveria
doer tanto assim, quero dizer, faz uns seis anos que eu não via ele.
- Esse negócio de “dor da perda” a gente nunca consegue
entender. – Tom brincou. – Seu irmão não parece tão triste assim… Nem ele, nem
suas amigas.
riu.
- Ele está. Só que o
é estranho mesmo, ele meio que procura esconder de si mesmo a dorzinha chata. –
suspirou. – Mas sabe, o que
mais me incomoda, não é o fato de ter perdido meu primo, e é isso que me deixa
preocupada.
Tom franziu o cenho.
- Como?
- Sabe, eu não to realmente sentindo falta do Danny e é
isso que me machuca, eu me sinto culpada por isso.
Tom achou aquilo estranho, mas apenas limpou a garganta,
olhando ternamente para a menina. O sentimento dela parecia parecido com o
dele, exceto por…
- Bom, é como você disse, fazia seis anos que não via ele
e…
- Não é isso. – ela interrompeu, com a voz cheia de
aflição. – É que…
- É que?
suspirou. A maneira como aquilo havia se tornado comum nas últimas horas estava
irritando até a ela mesma.
- Isso vai soar estranho, mas é que pra mim, parece que
ele ainda tá aqui… Não muito longe de mim.
Bingo! Foi o que martelou na cabeça de Tom. Era exatamente
a sensação que ele tinha em relação àquela situação desde que ela começara.
Ele, em momento algum, nem depois de ver o corpo de Danny
estirado no chão, aparentemente sem vida, sentira a real perda do amigo.
- Você…
- Eu sei, é horrível, não é?
- Não, não... Não foi isso que eu quis dizer. – ele disse.
– Acontece que eu me sinto da mesma forma.
abriu
um meio sorriso e, tanto afobada quanto ansiosa, ajeitou-se na cama, virando-se
melhor para Tom.
- Você acha que ele... – ela estancou a fala de imediato.
Sua mão havia tocado a do rapaz quase que por instinto, provocando um choque
por toda a sua espinha.
- Que...?
Ela continuou calada. Não conseguia falar.
Havia uma sensação estranha na sua boca. Os lábios
formigavam e ela os mordia, inquieta. Isso pareceu ter um efeito forte sobre
Tom, que fixou o olhar nos lábios dela, não conseguindo mais desviá-lo.
não
moveu sequer um músculo. Sentia que qualquer momento seria decisivo. Ela sabia
o que viria pela frente, mas não tinha certeza de que queria. Quase não
conseguia pensar a respeito.
Tom gemeu alguma coisa, como se refizesse a pergunta.
Os olhos dele estavam fixados na boca dela, mas os olhos
dela estavam completamente presos aos dele. Eles brilhavam pra ela.
perdeu
o controle sobre seu corpo e seus pensamentos.
Ela abriu a boca para responder e isso foi o suficiente
para que Tom, lentamente, quebrasse a distância que havia entre eles.
Primeiramente, os lábios dele apenas tocaram os dela com
suavidade, deixando Tom sentir calor da boca da menina.
soltou
a sua mão da do rapaz, mas diferente do que ele imaginava, ela a passou pelo
pescoço dele, deixando-o prosseguir.
O rapaz então começou um movimento lento e delicado com os
lábios, que foi imediatamente correspondido por .
A língua dele não demorou a encontrar a dela,
intensificando o beijo.
A mão direita de Tom segurava o rosto de
com cuidado, como se temesse pela fragilidade da menina. A outra lhe percorria
as costas, enquanto as da menina se encontravam e se enlaçavam atrás do pescoço
do rapaz.
Tom deixou a boca dela por um rápido momento, para lhe dar
um beijo no pescoço, depois voltando a beijar-lhe a boca.
, sem
perceber, deixava o corpo pender para trás, deitando-se na cama.
Ela só foi notar que já estava deitada com o corpo do
rapaz em cima do seu, quando a mão dele lhe apertou de leve a cintura.
Ela escorregou as mãos para a frente de Tom e empurrou-o
de leve.
- Eu... Eu... – ela ofegou, desviando dele e se
levantando. – Eu... Tom desculpa, eu não tive intenção... Eu...
Ela suspirou alto e virou-se, saindo rapidamente do quarto
com o rosto completamente corado.
O loiro ficou com o olhar perdido na porta, sem nenhuma
reação.
As suas mãos subiram, tremendo, até os próprios lábios e
então um sorriso se fez em seus lábios.
Capítulo 7 – Playing with kisses
Brincando com beijos
- Eu cansei. –
reclamou, descendo do cavalo.
- Ah, larga de ser mole. – disse Dougie.
Ela passou a mão na testa suada.
- Você não me disse que vínhamos andar de cavalo, eu vim
despreparada.
Ele riu, descendo do cavalo dele.
- E por acaso precisa-se estar preparado para andar de
cavalo.
- Eu preciso. – ela disse sentando-se no mato, ofegante.
O menino deitou no chão, ao lado dela, com a cabeça em
cima das mãos.
- Fala sério, não é possível que você esteja tão cansada. –
o rapaz disse. – Foi o cavalo que correu, não você.
- Poynter, não seja grosseiro. Eu estava em cima do cavalo
enquanto ele pulava como um louco porque você estapeou a bunda dele. – ela fez
drama. – Eu podia ter morrido, sabia?
Ela deitou-se no chão, enquanto ele ria.
respirou fundo, olhando para o céu, já sem rir.
- Quando vocês vão voltar? – ele perguntou, sério.
- Bom, a intenção era passar as férias inteiras aqui, mas
depois de... Bom, de tudo o que aconteceu, eu já não sei mais.
Dougie ficou calado, observando o céu.
- Sei que pra você isso deve ser bem difícil, por isso
saiba que eu estou aqui, pro que der e vier. –
disse, virando-se para o rapaz.
Ele se virou para ela e tremeu ao sentir a respiração da
menina no seu rosto. O hálito de hortelã dela era delicioso e o fazia querer
chegar mais perto.
Dougie já havia esquecido o que ia dizer.
Os olhos dele não se moviam. Nada mais tinha som, apenas a
respiração da menina.
Ela sentiu-se tonta por um momento, e fechou os olhos.
Dougie avançou alguns centímetros em direção a boca dela.
sentiu a respiração do rapaz forte em seu rosto e sorriu travessa.
- Você não vai me beijar tão fácil assim. – ele disse,
abrindo os olhos e se levantando.
Dougie, por alguns segundos, ficou apenas olhando-a atordoado,
e depois levantou, rindo, e se pôs a correr atrás dela.
- Você não vai me escapar, !
- É o que você pensa, Poynter!
Ela riu e atravessou o campo correndo dele, até avistar o
armazém da fazenda.
Era uma enorme estrutura de madeira, aparentemente velha,
aonde o avô de Tom estocava o que era produzido na fazenda, para depois vender.
- Se eu te pegar. – Dougie gritou, quase a alcançando. –
Você vai ter que me beijar.
Ela riu alto. Estava gostando daquela brincadeira, só não
imaginava as conseqüências dela.
- Você não vai me alcançar, eu não preciso me preocupar.
Ela acelerou o passo em direção ao armazém, mas quando
estava a metros da porta, tropeçou nos próprios pés e cambaleou para frente.
Nessa fração de segundos, ela sentiu uma mão pegar forte
seu braço e impedi-la de cair.
Sentiu-se sendo puxada para o lado e rodopiou, vendo que
era Dougie quem havia lhe agarrado.
Por fim,
acabou por bater as costas na parede externa do armazém.
Ela soltou um gritinho de dor e fechou os olhos, ouvindo o
corpo de Dougie prensar o seu contra a parede.
- Ta tudo bem aí? – ele perguntou.
Ela abriu os olhos e sorriu para lê.
- Melhor do que se eu tivesse caído. – ela viu uma luz
metros acima da sua cabeça se acender. – Eles não deveriam ter acendido isso há
algum tempo?
- Como assim?
- Já faz um tempão que escureceu, essas luzes já deveriam
estar acesas a algumas horas.
Sem se soltar dela, Dougie consultou o relógio de pulso.
- Meu Deus, já são quase meia noite... Eu mal reparei que
já tinha escurecido, quanto mais que já era tão tarde.
Ela riu. – Você é lerdo demais, Poynter.
Ele olhou no fundo dos olhos dela, ficando novamente
sério.
- Eu posso até ser lerdo, mas você ainda me deve um beijo.
Ela sorriu, em provocação. Já podia senti novamente a respiração
dele misturar-se com a sua.
- Eu não vou te dar beijo nenhum. – ela sussurrou, não o
deixando reparar que ela mesma estava aproximando seu rosto do dele.
- Então eu vou ser obrigado a te roubar um beijo. – ele
disse.
Ela sorriu e não demorou a sentir os lábios do rapaz
investirem contra os seus.
Direcionou suas mão para a nuca dele, sem perder tempo.
Dougie segurou-a pela cintura, como se tivesse medo que a menina pudesse fugir
de perto dele.
Ele se sentia como se tivesse uma jóia preciosa nas mãos e
não pudesse perde-la.
A língua dela pediu passagem na boca dele, surpreendendo o
rapaz. não pensou duas vezes
antes de aprofundar o beijo.
Dougie estava descendo suas mãos para as coxas dela,
quando ouviram a madeira dali estalar alto.
Eles se separaram, ambos com os lábios levemente inchados.
- O que foi... –
perguntava ofegante, quando o som estrondoso ecoou alto pelo lugar.
Vinha de dentro do armazém.
Assustados, ele ficaram sem saber o que fazer por um
rápido momento, mas não mais que no segundo seguinte ao estrondo, um grito
horrorizado ecoou alto.
sabia
que aquele grito era de .
Ele já tinha o coração na boca, quando pegou a mão de
Dougie e correu para dentro do Armazém.
Capítulo 8 – Midnight
Meia-noite
- Pelo que o Tom disse, aqui o tio dele guarda o que
sobra das safras. – Harry explicou, adentrando o armazém da fazenda ao lado de
e
.
- Taí algo que eu não sabia que ainda tínhamos na
Inglaterra! – riu. – Digo,
eu sempre cresci na cidade e nunca tinha visto uma fazenda de produção agrícola
assim.
- Eu acho que me lembro vagamente desse lugar. –
disse, olhando bem ao seu
redor.
- Bom, se você costumava vir aqui todas as férias
quando pequeno, é de se supor que já tenha visto aqui. – disse Harry.
O amigo concordou.
- Eu, na verdade, não sei como nunca encontrei o Tom
aqui antes, já que ele morava aqui.
- Pelo que o próprio Tom nos contou, ele não
costumava sair muito da fazenda, já que aqui já tinha tudo que ele usava para
se divertir.
- Menino esperto. –
disse. – Eu, tendo um lugar
desses a minha disposição, também não ia sair daqui não.
- Pequena, você mal sai da frente do seu computador,
quem dera sair de uma fazenda dessas. –
comentou, abraçando a amiga
pela cintura e a fazendo rir.
Logo a frente havia duas escadas laterais que subia
para um segundo andar aberto de madeira.
No telhado, que cobria tanto o segundo quanto o
primeiro andar, haviam cordas penduradas a um lustre grande, mas velho e
quebrado.
- Isso não conta – a menina protestou.
Ela pôs o primeiro pé na escada e foi subir, mas um
rangido alto a fez mudar de idéia.
- Pode ir,
! – Harry disse, subindo pela
escada do outro lado. – Elas rangem o tempo todo, não podemos dar muita atenção
à isso.
- Eu tenho medo. – ela admitiu, rindo de si mesma.
- Devia vir aqui em cima. –
disse já no segundo andar. –
É incrível aqui em cima e... Nossa, quanta coisa!
- ,
vem aqui, você vai subir comigo.
Ela olhou para o alto e viu a cabeça do amigo surgir
por cima de uma cerca de madeira que impedia alguém do segundo andar, de cair.
- Mas eu já to aqui em cima. – ele disse.
- Eu quero que você suba com a sua amiga medrosa, dá
pra ser ou ta difícil? – ela pediu.
- Ta.
Ele riu dela e desceu, segurando a mão da menina
enquanto ela subia.
- Isso é realmente frescura. – Harry riu.
- Judd, calado! –
o olhou, ameaçadora.
Ela, ao chegar no segundo piso, pôde ver um canto
cheio de coisas entulhadas. Objetos velhos e quebrados.
Do outro havia grandes latões de metal, em bom
estado. Ela deduziu que, se não estivessem vazios, seria aonde o avô de Tom
estocava o leite que não conseguia vender.
Bem no centro, havia uma enorme janela. Devia ter
uns três metros por dois. Ela passaria por ali facilmente. Havia ali uma
cortina, também, rasgada e marrom de sujeira, que balançava com o vento.
- Esse lugar pode ser assustador, sabiam? –
comentou.
- Para de frescura. – Harry riu dela. – Olha, você
já viu algum daqueles radinhos antigos de manivela?
- Não, por que?
Harry foi até a pilha de entulhos.
- Vem aqui, vou te mostrar uma que achei outro dia
aqui.
Ela sorriu e foi atrás do rapaz.
olhou para os dois, que discutiam como seria o funcionamento a manivela do
radinho.
Ele, contudo, não estava muito interessado nisso.
Foi até uma estante, ao lado da enorme janela, onde
havia toda uma coleção de bolas de boliche.
De cores diferentes, umas brilhantes, outra com
brasões e insígnias. Tentou pegar uma dela.
Eram muito mais pesadas que bolas de boliche comuns.
Pesada demais, constatou, deixando-a no chão.
Ele puxou a cortina para a esquerda e olhou o céu
azul marinho pela janela. A noite estava limpa e levemente fria, lembrando-o de
Londres. O menino fechou os olhos, sentindo uma brisa fresca entrar pela
janela.
Sorriu para si mesmo quando ouviu
xingar Harry atrás de si.
Respirou fundo aquele ar puro que não encontrava na
cidade e puxou a cortina para o lado.
Ela esvoaçou para fora da janela e depois foi de
acalmando, voltando ao lugar.
se virou para olhar Harry e ,
mas por um momento pensou ter sentido uma sensação estranha vinda do estômago.
Virou-se para a janela novamente.
A cortina havia voltado ao normal, exceto pelo canto
dela, que havia parado firme para fora da janela, em um formato estranho. Era
como se houve alguém ou alguma coisa na base da janela e ele pudesse ver
através disso. A cortina acompanhava as curvas de alguma coisa invisível que
ele não conseguiu discernir.
O rapaz caiu para trás, sentado, empurrando, sem
querer, a bola de boliche.
- ?
Você ta bem? – perguntou
atrás de si.
- E-eu... Eu to... Eu... – ele se virou para ela. –
O que é aquilo na janela?
Ele sentiu ela observar algum ponto atrás dele.
- Depende, alem da cortina?
Confuso, o rapaz se virou e constatou que não havia
nada na janela. A cortina estava normal.
Mas que diabos...
- AH! – Harry gritou.
Os dois olharam para o amigo, que corria atrás da
boa de boliche. Só então reparam que a mesma estava quase caindo da escada.
Eles correram para ajudar o amigo.
- Parem! – Harry gritou, observando a bola, que
balançava para lá e para cá a ponto de cair. – Se algo acontecer com as bolas
de boliche do avô do Tom, nós estamos mortos.
Os outros dois observaram a bola.
Ela balançou mais para lá e caiu um degrau abaixo,
parando ali.
soltou a respiração, aliviada.
- Isso é estranho. – disse
.
- Por que? – Harry perguntou, virando-se com um
sorriso.
- Porque ela não deveria ter parado aí, ou deveria?
Não devia ter caído até lá em baixo?
- Sei lá, isso não realmente... AH!
O menino acabara de dar um passo à frente e a
madeira do chão rompeu-se. Ele caiu até a cintura.
- Meu, achei que ia morrer agora.
rolou os olhos.
- Ai Harry, como você é idiota.
Ela foi ajuda-lo a se levantar, enquanto
ia pegar a bola na escada.
O menino esticou os dedos para pegá-la, mas a o
degrau da escada subitamente quebrou-se, fazendo-a cair no de baixo.
A bola, no entanto, acabou rolando para o lado e
batendo com violência no suporte que madeira que sustentava o segundo andar,
antes de chegar no chão do térreo.
A madeira cheia de bolor do suporte quebrou-se
diante dos olhos de , que
virou-se para e Harry.
- Não se movam! – ele gritou. O coração começava a
acelerar, o sangue corria mais rápido pelo corpo.
Começava a sentir a mesma coisa que sentira dias
atrás, no dia do acidente com o ônibus.
Tarde demais! Pensou.
Harry havia saído do buraco e sentara-se pesadamente
no chão, olhando confuso.
- Oi?
Antes que dissessem mais alguma coisa, um rangido
alto e contínuo ecoou pelo armazém. Parecia o som de madeira entortando-se
lentamente.
- O suporte quebrou. – o menino explicou.
levou as mãos a boca,
ficando estática. – Isso daqui pode cair a qualquer momento.
O chão entortou-se levemente diante dos seus olhos;
tombava para o lado que eles estava.
- Droga, porque é sempre pro meu lado? – ele
reclamou, pulando para frente, ao lado de
e Harry.
Ele virou o rodapé desprender-se da parede, e essa
escorregar lentamente pela parede direita.
- Isso ainda pode cair? –
perguntou, aflita.
olhou para ela, preocupado.
- Isso vai cair.
- Pela outra escada! – Harry gritou, levantando-se e
correndo para a esquerda. e
o seguiram.
O fato de o piso ter descido de nível havia
comprometido a escada, “esmagando-a” embaixo dele.
- Vamos ter que pular. –
constatou.
- A
vai primeiro. – Harry disse. – Vai estar segura lá em baixo.
- O que? – ela quase gritou. – Eu não vou descer.
olhou para os lados e viu um puff velho jogado ali. Pegou-o e jogou no térreo.
- Pronto, não se machuca mais!
- Não,
, eu não vou... – Harry não a
esperou terminar de falar, empurrou-a. – AH!
O grito da menina soou por todo o local, mas ela
acabou por cair certeira em cima do puff.
- Agora vai você. –
disse ao amigo.
- Não, você vai...
- O que... AH, MEU DEUS! – eles ouviram
gritar.
A menina vinha acompanhada de Dougie.
- Harry?
? O que está acontecendo?
- Caso você ainda não tenha notado, isso daqui ta
desmoronando. – gritou.
A madeira rugiu alta e ameaçadora. O chão despencou
alguns centímetros em seco. As paredes ao lado começavam a se quebrar.
- Vai você!
- Não, mais que droga, Harry, desce logo.
,
lá em baixo, aproximou-se de Dougie e
.
- Parem de frescura e pulem os dois. – Dougie
gritou.
e
Harry se entreolharam. Ambos deram um passo a frente e a madeira cedeu.
ainda teve tempo de pular e agarrar-se à uma das cordas do teto, mas o amigo
acabou não conseguindo segurar sua mão e caiu, batendo em seco contra o chão e
desmaiando.
- Harry! – Dougie gritou.
Ele tentou correr até o amigo, mas o teto acabou
despencando com junto,
bloqueando o caminho.
O rapaz, antes agarrado a corda, pulou dela antes
que o telhado chegasse ao chão, conseguindo cair em cima do puff.
Ele levantou-se e olhou ao redor com dificuldade. O
telhado havia se despedaçado, levantou uma poeira densa que impedia
de ver alguma coisa.
,
Dougie e já estavam fora
de perigo, fora dali, e isso de alguma forma servia de consolo.
Seus olhos passaram a procurar Harry.
Viu o menino caído no chão, não tinha nenhum
ferimento visível.
O mais estranho foi ver o que havia ao lado dele. Um
espaço sem nenhuma poeira, como se fosse uma região de vácuo, aonde a poeira
contornava, mas não entrava.
Aquele espaço tinha o mesmo formato que a cortina
assumira a poucos minutos atrás.
- Harry! – ele chamou. – Harry, acorda!
O menino nem se moveu.
Hesitante,
se viu obrigado a
aproximar-se.
O espaço continuou ali quando ele se abaixou para
pegar Harry, mas quando tocou no amigo, a poeira recuou dos dois lados do
espaço. Ele parecia tomar outra forma, parecia... Abrir as asas?
não teve tempo de pensar, algum tipo de força invisível jogou-o para longe.
Ele sentiu uma forte ardência possuir se corpo com
ferocidade quando suas costas bateram fortemente contra os destroços do telhado.
A dor não demorou a espalhar-se pelo seu corpo e
chegar na cabeça, apagando completamente a consciência do rapaz de uma só vez.
Capítulo 9 – Over
Além
Ao abrir os olhos, naquela manhã, sentiu-os queimarem e
arderem forte com a luz do sol, que entrava pela janela.
tentou
levantar-se, mas uma dor aguda nas costas o fez desistir. Ele, então, parou
para examinar melhor o lugar onde estava.
Era, definitivamente, um dos quartos da fazenda dos
Fletcher, mas sabia que não era o lugar aonde dormira na última noite.
virou o
pescoço, tentando enxergar alguma coisa atrás de si, pela janela grande acima
da cabeceira da cama.
- AH! – Alguém gritou e antes que ele pudesse sequer virar o
rosto para a porta do quarto, sentiu algo pesar sobre seu corpo.
Ele resmungou de dor, fechando os olhos.
Ninguém havia se jogado em cima dele, como ele imaginara no
primeiro momento, mas
quase o esmagava em um abraço.
- Desculpa, desculpa! – Ela disse, afastando-se no momento
seguinte.
abriu a
boca para dizer alguma coisa, mas a menina não deixou.
- Meu Deus! ,
que bom que você acordou, estávamos todos enlouquecendo! Isto é, os outros
ainda devem estar.
- ...
- Preciso avisar que você acordou...
- ...
- Mas eu não queria te deixar aqui sozinho de novo e...
- !
- Oi?
Ele riu, olhando a cara de preocupação da menina.
- Eu estou vivo, ta?
Ela respirou fundo, com as mão no peito e depois sorriu.
- Ta, é sério, desculpa. –
pôde ver tristeza nos olhos
da amiga. – É que foi desesperador ver você todo machucado, inconsciente e tal.
A expressão do menino também se enrijeceu.
- O que aconteceu, afinal de contas? – Ele perguntou.
- Depois que o teto caiu, deixando eu, a
e o Dougie do lado de fora,
tudo desmoronou... Não sobrou armazém para contar história, sabe? –
explicou.
- E depois? Como vocês nos acharam?
- Essa é a questão. – A menina respondeu, abaixando os olhos
marejados. – Depois, até a poeira baixar, já estavam todos lá. A
, o Tom, o avô dele e os
empregados da fazendo em
peso. Eu e a
, você pode imaginar, não
parávamos de chorar e nesse desespero ligamos para tudo que sabíamos, polícia,
ambulância e até corpo de bombeiros.
O menino assentiu, fazendo sinal para que ela prosseguisse.
- Então, estávamos realmente desesperados e sem saber o que
fazer. Eu mal conseguia contar o que havia acontecido. Tinha sido tudo tão
rápido.
- Imagino... Eu mesmo mal sei o que aconteceu comigo.
- Esta aí outra coisa estranha. Depois que os bombeiros te
acharam, você foi diretamente levado ao hospital, onde foi submetido a vários
exames. A conclusão lá foi que você havia batido forte a coluna, quebrando uma
costela e tinha duas hemorragias internas, uma pouco acima da cintura, do lado
direito e outra na musculatura do ombro. Enfim, depois dos devidos cuidados,
nada grave segundo os médicos. Eles apenas disseram que o que causou a
hemorragia do ombro poderia ter te matado se fosse alguns centímetros para a
direita, no pescoço, sabe? Mas disseram que, no fim das contas, você ficaria
bem.
- E por que isso é estranho? – Ele perguntou.
- Porque os médicos alegaram que a força que foi usada para
quebrar sua costela e causar essas hemorragias tinha sido a força do teto ao
cair em cima de você, mas o teto não caiu em cima de você,
. Nós haviamos aceitado bem a
perícia dos médicos sobre o seu estado, mas segundo os bombeiros, você foi
achado desmaiado em cima, ou melhor, recostado nos destroços... Segundo eles
não havia nada em cima de você, o teto não havia caído.
- Estranho... Mas então, o que foi decidido a partir disso.
- Eles concluíram primeiro que alguém havia te empurrado
contra aos destroços, mas acabaram por determinar que uma pessoa só não teria a
força necessária para causar o impacto que te deixou nesse estado.
soltou
uma risada divertida.
- É, e mesmo que uma pessoa tivesse, eles iam dizer o que?
Que o Harry tinha me empurrado? – O menino riu. – Fala sério!
A menina não disse nada, apenas abaixou a cabeça, fazendo o
amigo olhá-la, preocupado.
- O Harry estava desacordado, não estava?
- Não estava,
. – Ela disse, chorosa.
O menino arregalou os olhos.
- Não estava... Desacordado, só?
A menina balançou a cabeça negativamente.
- Não estava... lá! – Ela respondeu. – O Harry não foi
achado, ... Reviraram tudo,
tiraram tábua por tábua... Ele não estava lá.
encarou a
menina, estático.
Uma imagem perturbadora surgiu diante de seus olhos.
Ele podia ver a poeira levantar do chão do armazém, bem ali,
na sua frente. Podia ver quando a poeira não preencheu um espaço em vazio, ao
lado de Harry. Pôde ver, ainda, aquele vácuo lançando-o para longe, quando ele
tentava tocar Harry.
- Aquela coisa...
- Oi?
olhou
.
- , será que
eu consigo andar?
- Por que quer andar? – Ela perguntou espantada. – Os
médicos disseram que você pode andar curtas distâncias... Ir no banheiro e
coisas do tipo, mas tem que fazer repouso.
O rapaz crispou a boca, pensativo.
- Aonde você queria ir? – Ela perguntou, enxugando as
lágrimas com as costas das mãos.
- Na biblioteca municipal.
- Mas ein? Ficou louco? – Ela quase riu do amigo. – Você não
conseguiria andar tanto.
- Droga...
- Eu posso ir lá pegar alguma coisa para você ler, se é isso
que você queria. Mas continuo sem entender.
Ele sorriu para ela, parecendo subitamente mais animado.
- Você faria isso?
- Claro, ué.
- Ótimo. – Ele comemorou. – Então eu vou falar o tipo de
livro que quero ler... E depois que você me trouxer tudo, eu te explico
exatamente o que tenho em mente, beleza?
A menina apenas sorriu, consentindo.
Capítulo 10 – Legendary
Lendário
- Certo, qual é, exatamente, o propósito de toda essa
bagunça? – perguntou,
sentando-se no sofá, tentando evitar o olhar de Tom.
e
estavam sentado no chão, no centro da sala, aonde havia uma grande montanha de
livros. Os dois procuravam um daqueles livros com ansiedade.
- Lembra quando a gente vinha aqui e a tia lia histórias pra
gente, ? – o irmão lhe
perguntou.
- Lembro... – ela disse, ainda confusa.
veio da
cozinha, com um copo de café na mão, e sentou-se no colo de Dougie, observando
os dois amigos.
- Vocês estão procurando um livro infantil? – ela
perguntou, franzindo o cenho.
- Não exatamente infantil...
- Um livro de contos e lendas... Tipo, coisa pra assustar
criança mesmo. –
completou. Ela só sabia qual livro procurava porque
havia lhe contado e, em todo caso, o importante era que a menina concordava e
havia se impressionado com uma história um tanto quanto interessante que o
amigo lhe contara, horas atrás.
- Você, por acaso, querem sair por aí assustando
criancinhas? – Dougie perguntou.
soltou
uma risada, sem tirar os olhos do livro, enquanto
rolava os olhos.
- Claro que não, Douglas! – ela exclamou. – São livros de
lendas dessa cidade.
Tom finalmente tirou os olhos de ,
vendo que ela não iria lhe retribuir qualquer olhar, e sentou-se no chão, entre
e .
- Pra que vocês querem ler sobre as lendas daqui? – ele
perguntou.
- Se nós acharmos a lenda que queremos, vocês vão
descobrir.
O loiro pôs a mão no queixo, pensativo.
- Eu acho, agora que vocês falaram disso, que nunca li
nenhuma lenda daqui... Digo, não nenhuma natural daqui. – ele disse.
soltou
um risinho, quando imagens dela, no carpete da sala da tia dela, junto a
e Danny, lhe surgiram a cabeça. Os três eram muitos pequenos naquela época.
- Eu lembro de várias lendas que a tia nos contava, e
mesmo assim não consigo pensar em um motivo pra você querer ler alguma delas de
novo.
levantou a cabeça, sorrindo com um tom de mistério para a irmã.
- Essa é a questão, a lenda que eu estou procurando é uma
que ninguém nunca quis nos contar, é por isso que é tão importante.
crispou
a boca, olhando para os amigos com olhar de dúvida.
- Gente, são lendas, entendem? Coisas que não são reais...
Que interesse vocês podem ter nisso?
abaixou
a cabeça. A imagem de Harry caindo desacordado no chão esquentou seu corpo por
dentro. Sua mão tremeu de leve enquanto o ar pareceu faltar aos seus pulmões e
o coração acelerou de leve.
Lembrar da horrível cena que presenciara era,
definitivamente, horrível.
- Hey! !
– ele ouviu a voz de Dougie chamá-lo.
- Há! – o rapaz exclamou, saindo dos devaneios. – Então...
Eu sei que parecem somente lendas, mas descobrir se são só isso ou não é o que
eu pretendo fazer.
- Mas ein? – Tom não entendeu.
abriu a
boca para responder, mas antes disso
exclamou feliz alguma coisa, enquanto puxava um livro do monte, fazendo os de
cima escorregarem para baixo.
- Achei! – ela disse, e entregou o livro a .
A medida que o menino abriu o livro, todos se sentaram no
chão, em volta dele, curiosos.
- Meia Noite... – o menino começou a ler o livro.
- O quem tem meia noite?
- É o título da lenda. –
respondeu.
olhou
irritado para os amigos, pedindo silêncio. Os outros obedeceram prontamente.
- A lenda que conta a história desse vilarejo chama-se
Meia Noite. – ele leu. – Segundo as mais antigas histórias contadas pelo povo
do vilarejo, a primeira pessoa a morar aqui foi um velho. Um velho rabugento e
irritado que se mudou para cá, na época região deserta da Inglaterra, para
praticar magia negra.
- Credo. –
disse.
- Esse livro é tão...
- Infantil? – Dougie sugeriu a Tom, que concordou.
- Não interessa a linguagem que ele usa, e sim a história.
– disse . – Vai, continua Lu,
eu to curiosa.
O menino riu, balançando a cabeça.
- Certo... Vamos lá. – ele voltou ao livro. – Especula-se
que, na tentativa de estudar o clima da região, oito estudantes mudaram-se para
cá e começaram a fazer várias pesquisas sobre a forma como o meio ambiente
estava se modificando naquela região.
“Eles acharam um antigo totem soterrado e começaram a
pesquisa-lo.”
“O velho homem, que ali praticava suas magias negras,
mandou que os estudantes saíssem dali. Aqueles jovens, obviamente não
obedeceram, e acabaram por despertar a fúria do velho homem.”
“O homem rabugento acabou por amaldiçoar cada um daqueles
adolescentes, condenando-os à morte. Dois deles, que eram namorados, acabaram
enfrentando o homem, ameaçando mandarem retirar o toem para conservação e
estudo.”
“Não feliz com tais ameaças, o homem prometeu destruir o
totem antes que isso acontecessem e, depois de passar muita raiva, acabou
condenando os dois namorados a verem a morte um do outro.”
“Esse adolescentes, acabaram por descobrir um poder
indígena mitológico, conservado pelo totem, que poderia salvá-los, mas seis
meses depois de voltarem para a sua cidade natal, todos morreram
misteriosamente.”
Ao terminar de ler as ultimas linhas do texto,
fechou o livro e ficou em silêncio como o resto dos amigos.
- Isso... –
começou.
respirou fundo, pondo a mão no peito.
- Gente, nós estávamos em oito. – ela disse, com um tom de
nervosismo na voz.
Tom franziu o cenho, parecendo incerto.
- Vocês realmente acham que...
- Sim. – todos os outros responderam ao mesmo tempo.
Ele balançou a cabeça, conformado.
- Então... Er... O que vamos fazer? – Dougie perguntou.
levantou-se com um ar decidido.
- Procurar o homem que escreveu esse livro.
- Mas são onze horas ainda... –
reclamou.
- Sinceramente... –
começou. – Eu acho que se isso for o que nós estamos pensando que é, não temos
tempo a perder.
Dougie também se levantou.
- Eu também acho. – ele disse.
suspirou alto.
- Está bem, vamos procurar esse cara... Mas eu quero
voltar antes do almoço.
riu,
irônica.
- Espero viver para almoçar...
Os outros riram e se dirigiram para a porta.
- Ei! –
chamou. – Obrigado mesmo por me esquecerem aqui! Será que vocês se esqueceram
que andar não tem sido a coisa mais fácil pra mim?
riu, e
voltou para ajudar o amigo.
- É tão legal te ver debilitado, indefeso. – ela riu.
rolou
os olhos, andando até os outros com a ajuda dela.
- Amiga da onça!
Eles tentavam se mostrar displicentes e calmos, mas aquela
história havia definitivamente mexido com cada um deles. Havia um tremor
estranho no interior daqueles jovens...
Capítulo 11 – Powerful
Poderoso
- Acho que é essa a casa. –
disse.
Eles estavam todos diante de uma pequena casa de madeira.
Não havia garagem ou qualquer outro espaço na frente dela. Apenas uma cerca
azul clara, que vinha metros antes de uma varanda onde tinha uma cadeira de
balanço e a porta de entrada.
- O endereço que estava na contra-capa do livro é esse. –
disse , e bateu palmas.
Eles ficaram em silêncio até um senhor de cerca de 70 anos
de idade abrir a porta.
- Pois não? – ele disse.
- Senhor... Alley?
- Eu mesmo, - ele disse simpático. – O que querem?
deu um
passo a frente, esgueirando o pescoço por cima da cerca.
- Senhor, nós queríamos a oportunidade de conversar com o
senhor sobre um dos livros que você escreveu. – o velho continuou parado,
observando-os. – Er... A lenda Meia Noite.
Mais do que instantaneamente um sorriso surgiu no rosto
daquele homem, que assentiu e os convidou para entrar.
Ele os guiou até uma sala pequena e os deixou esperando no
sofá, voltando algum tempo depois com uma bandeja cheia de biscoitos e chá.
- Pois então... – disse ele. – O que exatamente querem
saber sobre Meia Noite.
Os seis se entreolharam e
suspirou alto, voltando o olhar para o homem.
- A lenda... Aquilo aconteceu mesmo?
- Se você perguntar isso para a cidade inteira,
provavelmente oitenta por cento dela dirá que sim... Essa é a história quase
oficial da origem desse vilarejo.
- Então havia um velho, e ele praticava magia negra?
- Havia tanto quanto havia o totem que vocês já devem ter
visto. – velho garantiu.
- E... Bem, -
disse, hesitante. – Nós queríamos saber como a lenda terminou.
- Nunca terminou... – o homem disse. – Segundo essa lenda,
o velho feiticeiro amaldiçoou todo e qualquer estudante que, como aqueles,
viessem “fuçar”, por assim dizer, nas terras dele. O totem, que segundo outras
lendas, de outras partes do mundo, parece ter poderes de proteção presenteou os
dois últimos jovens, os dois que namoravam, com poderes especiais que os
ajudariam a combater a maldição do homem. Contudo, eles não conseguiram e
morreram junto aos amigos. Desde então se costuma dizer que o espírito desse
homem vaga pela cidade, procurando pelos jovens que têm o destino de enfrentar
novamente a maldição... – o homem fez uma pausa, e encarou sua xícara de chá. –
Acredita-se que a lenda só irá parar e esse espírito negro só dormirá, quando
finalmente esses jovens sobreviverem à maldição.
- E alguém já conseguiu parar a lenda? – Tom perguntou.
Nos lábios daquele
homem, surgiu um sorriso travesso e, ao mesmo tempo, indecifrável.
- Isso quem deve me responder, são vocês.
- Nós? –
perguntou, confusa. – Mas nós só queremos saber se a lenda continua.
concordou com a amiga, atraindo o olhar do velho.
- Você, menina, era a prima de Daniel Jones? – ele perguntou,
e ela assentiu. – O menino do armazém, também era seu primo?
Ela negou.
- Não, o Harry era só amigo mesmo.
- Certo... E foi com vocês que aconteceu o acidente de
ônibus?
Ela, Julia,
e assentiram com a cabeça.
- Nesse caso, - o homem continuou. – quem deve me
responder isso, como eu já disse, são vocês.
- Eu... Eu diria que isso está acontecendo de novo sim...-
afirmou, meio insegura. –
Quero dizer... Primeiro o Danny, depois o Harry... Não pode ser coincidência.
- Eu também diria isso. – o homem riu, levantando-se. –
Ficam para o almoço?
- Ah, não, obrigada. –
agradeceu.
- Já é meio dia? –
perguntou, voltando a sentiu o estômago implorar por comida.
- Não, mas... – o homem virou-se para um relógio, na
parede. – Bom, agora é sim.
- Então vamos embora. –
disse se levantando.
O olhar da menina seguiu para o relógio, aonde o ponteiro
andava lentamente para a direita, marcando o meio dia.
A tontura que ela sentira dias atrás voltou.
O ponteiro de segundos pareceu diminuir a velocidade com a
qual andava pelo relógio.
A casa de madeira do homem começou a rodar diante dos seus
olhos. Ela olhou para os amigos e viu, lentamente, os olharem de cada um dele
ficarem confusos. Olhou para o homem. Este lhe olhava como se estivesse vendo
um acontecimento inédito e fascinante.
Ela fechou os olhos e os forçou, abrindo-os em seguida. Tudo havia
parado. Instantaneamente, parado diante dos seus olhos.
O velho que mais um mendigo lhe lembrava estava novamente
ali. Havia ódio em seus olhos, um ódio que queimava quase podendo atingir quem
o olhava. Logo abaixo do nariz pontudo, os lábios sorriam. Sorriam com malicia
e satisfação.
novamente sentiu um frio na espinha. O medo possuir-lhe o corpo quase
dolorosamente.
O olhar do homem era quase acusador.
A menina deu um passo para trás, mas o velho permaneceu
calado.
Ela correu os olhos para o relógio. Um instinto peculiar
implorava para que o ponteiro dos segundos chegasse novamente no número 12.
O homem apagou, dos seus lábios, o sorriso, e levantou o
braço, apontando para Dougie. A menina sentiu os olhos encherem-se de lágrimas,
sem ao menos saber o porque. O dedo do velho percorreu a sala, apontando agora
para ... Ou ,
daquela direção não
conseguia discernir para qual dos dois ele estava apontando.
Ela levou as mãos a cabeça, sentindo um zunido chato e
agudo no ouvido. Aquilo tinha que parar. Aquele zunido parecia querer perfurar
seus tímpanos.
Ela cedeu os joelhos, mas sentiu o corpo descer lentamente
até o chão.
O ponteiro dos segundos atingiu novamente o número doze, e
o dos minutos moveu-se para a direita.
O zunido parou, o silêncio também. As vozes dos amigos
voltaram a preencher o ambiente.
Seu corpo, que caia lentamente, continuou o trajeto até o
chão na velocidade normal, fazendo-a cair de joelhos.
- , você
está bem? – Tom perguntou de imediato, abaixando-se do lado dela.
O velho largou a bandeja de qualquer jeito na mesinha de
centro e foi até a menina.
- Saiam... Saiam! – exclamou ele, pegando nas mãos de
e levantando-a. – Você o viu, não viu? Você viu o feiticeiro?
Aquelas palavras caíram como uma luva nas dúvidas da
menina. Ela arregalou os olhos, compreendendo a sua visão.
- Vi! – ela disse exasperada – Eu vi ele.
- Como é que é? –
perguntou, indo até a irmã.
- Ela tem um dos dois poderes cedidos pelo totem. – o
homem disse. – O poder de enxergar o espírito do velho feiticeiro sempre que
ele vem ameaçar alguém.
- Isso é bom? –
questionou, levantando-se e andando até a amiga.
- De certa forma ótimo. – disse o homem, e olhou nos olhos
da . – Você tem o poder de
prever quem o velho irá matar. Você consegue ver quem será o próximo.
Um frio estranho percorreu a sala.
Os olhos de
correram discretamente para Dougie, sem deixar o menino perceber, e depois
lacrimejaram ao olhar para sua direita e ver o irmão, olhando-a preocupado. Os
pensamentos mais horríveis que ela poderia pensar lhe invadiram a cabeça. Ela
sentiu vontade de chorar, mas resistiu, esperando que ninguém lhe perguntasse quem
ela achava que seria o próximo.
- Só por curiosidade... – Dougie começou. – Qual é o outro
poder?
O homem olhou para todos eles, parecendo querer adivinhar
qual deles era o que tinha o segundo dos dons do Totem.
- O de enxergar as criaturas do Totem. – disse o homem. –
Aquelas que estão tentando proteger vocês... O segundo poder é o de enxergá-las
com clareza e perfeição.
Mais do que imediatamente, todos os olharem voltaram-se
para Tom, que tremia com os olhos arregalados.
Capítulo 12 – Next
Próximo
- Certo, vamos recapitular. – disse Dougie.
Todos os olhares, antes perdidos em algum canto da sala da fazenda do Sr. Fletcher, agora se voltavam curiosos para Dougie.
Inclusive os de e Tom, que mais do que nunca, encontravam-se confusos.
- Nós, ao chegarmos aqui, caímos sob o poder de uma maldição antiga feita bem nesse povoado.
- Até aí, está tudo certo. – disse .
- E agora nós estamos todos destinados a morrer da forma mais terrível, dolorosa e inusitada.
a desmunhecou a mão, apontando-a para o rapaz.
- Exato! – ela disse, em um tom de ironia.
- Então... – ele continuou. – O que nós vamos fazer?
- Não tem muito que fazer... Eu acho. – disse Tom, crispando a boca. – A não ser, é claro, tomarmos cuidado redobrado.
- Nos afastarmos do que é perigoso pode ser uma boa idéia. – sugeriu.
Um silêncio caiu-se sobre a sala durante alguns segundos, sendo depois interrompido pelo som do sofá, aonde estava sentado, parecendo desconfortável.
- Isso não vai adiantar. – ele contrapôs. – Quero dizer, nem o Danny nem o Harry estavam em situações de risco quando... Er... O Harry estava conosco, no armazém do seu avô, Tom.
- Bom, aquele lugar estava velho e talvez oferecesse risco, não acha?
- Sinceramente? Não. Se o armazém oferecesse algum risco, digo de desabar como aconteceu, então seu avô não guardaria mais tanta coisa lá dentro.
- Tem razão... – Tom ponderou. – E o Danny, de fato, estava no quarto dele, lá não havia risco algum de incêndio.
sorriu para o amigo.
- É aí que eu queria chegar. – ele disse.
balançou a cabeça, atônita.
- Eu não entendi direito no que isso ajuda.
Tom e se entreolharam e soltaram um riso desanimado.
- Na verdade, não ajuda. – os dois disseram em uníssono.
- Então...?
- Bom. – começou. – Isso serve pra nos mostrar que não dá pra evitar essas tragédia simplesmente ficando em lugares seguros. Se trata de magia, entende? Uma maldição, coisas sobrenaturais!
Por isso, eu acho que mesmo se nos trancássemos em um quarto, completamente vazio, de paredes de aço, nós seriamos abatidos por algum “acidente” quando chegasse a hora.
- É bem por aí. – Tom concordou. – Por não ser algo explicável ou lógico, e sim se tratar de algum tipo de força mágica ou sei lá o que, não adianta adotarmos nenhuma medida convencional de segurança.
abriu a boca, em compreensão, e desmunhecou novamente a mão, daquele seu jeito peculiarmente engraçado, apontando dessa vez para Tom.
- Faz sentindo. – ela disse.
- Mas então, como a gente pode tentar fugir disso? – perguntou.
- Tem como, não tem? – Dougie perguntou.
- Eu não sei. – Tom entortou a boca.
olhou para , que balançou a cabeça negativamente.
Uma idéia lhe ocorreu na cabeça.
- Talvez... – ela disse. – Se enfrentarmos fogo com fogo.
Todos ali, sem exceção, franziram o cenho para a menina.
- Pensem, se com as maneiras convencionais não podemos nos proteger, talvez nós possamos usando algum tipo de magia, ou força.
- Amiga, como você sugere que façamos magia? – rolou os olhos.
- Com eles dois. – disse, olhando para e depois para Tom e .
- Mas ein?
- Vocês dois têm dois poderes cedidos pelo Totem, certo? Pois então, se o Totem deu esses poderem à vocês, e aos dois últimos jovens a morrer da primeira vez que a maldição aconteceu, significa que em alguma coisa eles ajudam.
- E no que? – Tom perguntou. – Encaremos o fato de que não adianta nada ver esses animais, certo? Se ainda fosse um poder da cura, ou algumas coisa tipo Clark Kent... Mas ver animais invisíveis? Fala sério.
riu gostosamente. Pela primeira vez desde que trocara um beijo com o rapaz, olhou-o nos olhos, de maneira divertida.
- Tom, pelo menos você vê animais, eu tenho sempre que ver um velho nojento que parece mais um leproso em decomposição?
O menino concordou, vendo por esse lado.
- Gente. – riu. – Pensem, se a pode ver o velho, pode prever quem vai ser o próximo a ser atacado, e se ela pode ver quem vai ser o próximo a ser atacado...?
Silêncio.
- Se ela pode ver quem será a próxima vítima?
Dougie levantou a mão, timidamente.
- Então, seria uma forma de se defender dos ataques de maneira não-convencional? – ele arriscou.
O amigo sorriu.
- Temos um gênio aqui, gente!
Todos riram.
- Gente! Gente! – chamou.
Ela fez uma expressão séria.
- Nesse caso, a gente tem que começar sabendo quem vai ser o próximo, não acham? – ela perguntou, hesitante.
Todos os olhares voltaram-se para .
Ela sentiu o pulso acelerar. Um aperto no peito e uma falta de ar lhe deram vontade de chorar.
Ela não queria dizer nada. De certa fora, mesmo não sendo sua culpa, ela sabia que estava sentenciando um dos seus melhores amigos, dizendo qualquer nome que fosse. Não se sentia bem com isso.
Tom pegou sua mão e a segurou forte, tentando transmitir segurança à menina.
Dougie olhou para , que sorriu maliciosamente, apontando os dois com a cabeça, mas acabou por dar uma cotovelada no rapaz, e fez o mesmo na menina.
- Então, . – incentivou. – Pode falar, entendo que deva ser difícil, mas lembre-se que não importa quem for o próximo, contar vai apenas ajudar essa pessoa.
concordou e suspirou. Seus olhos correram a sala.
- O homem apontava... Pra você, Dougie. – ela disse, com a voz já embargada.
O menino arrumou a franja e sorriu forçadamente para , não querendo faze-la sentir-se culpada. Sentiu o corpo sendo abraçado e sorriu para , dando um beijo no topo da testa da menina.
Após um longo momento de silêncio, com abraçando Dougie forte, e de mãos dadas com Tom, e se entreolharam.
Eles levantaram subitamente, ainda com certe dificuldades, compartilhando de uma idéia repentina.
- Vamos tira-lo daqui. – os dois disseram ao mesmo tempo.
Os outros lhes olharam perdidos.
- Como?
- Temos que tirar o Dougie daqui. – disse, sorrindo para o amigo ao lado. – Eu tive uma idéia. Você pensou o mesmo que eu?
- Acho que sim. – sorriu e depois olhou para Dougie. – Nós sabemos onde você estará mais seguro. Mas temos que ser rápidos, não dá pra saber quando a maldição vai despertar novamente.
Dougie olhou para os dois e balançou a cabeça, concordando.
Tom sorriu discretamente, ao ver no rosto de e uma expressão extremamente otimista.
Capítulo 13 – Break
Quebre
Um suspiro alto quebrou o silêncio que antes assombrava o zoológico.
Na ala dos primatas, um dos menores macacos acordou assustado e olhou ao redor, procurando o causador do barulho, mas com o lugar mergulhado em breu, apenas conseguiu ver um pedaço de pão voar através da grade.
O pequeno macaco não se incomodou em pegar a comida, apenas voltou a dormir.
- Não entendo bem porque estamos em um zoológico. – disse uma voz rouca, tentando fazer o mínimo de barulho possível. – A intenção é me salvar mesmo?
O outro rapaz, logo atrás desse primeiro, esfregou as mãos e soltou uma baforada, numa tentativa vã de amenizar o frio que sentia.
O vento soprava friamente cortante.
- Claro que é. – o outro respondeu. – Se não fosse, poderíamos ter te deixado na cozinha, com vários jogos de talheres em cima da mesa, não acha?
- Faz sentido.
O de cabelos mais escuros rolou os olhos, rindo.
Um novo momento de silêncio predominou no lugar.
- Mas, ô , por que nós estamos tentando salvar a minha vida no zoológico? E por que só ficamos aqui eu e você?
- Estamos no zoológico porque o que tem de mais perigoso aqui, são os animais, e eu realmente duvido que a maldição possa controlar seres vivos. Quanto a ficarmos só nos dois, não sei... A tem que ficar com o Tom, já que os dois têm aquelas habilidades e trabalham melhor juntos. A , bom, ela gosta de você, não queria correr o risco de te ver morrer. E quanto a , como eu disse, não sei, a é meio neurótica e quis que eu e ela não ficássemos no mesmo lugar.
- Aaaah. Entendi, eu acho.
Dougie se virou para trás e viu mancando.
- Ainda dói? – ele perguntou, apontando para a perna do amigo.
- Ah, um pouco. Mais se eu ando.
O loiro levantou as sobrancelhas.
- Por que não se senta, então?
deu os ombros, se responder nada.
Dougie sentou-se em um banco e depois puxou o amigo para junto de si.
- Eu não me importo de andar, sério.
- E eu não me importo de sentar, sério.
- Está bem, então... Me diga, Dougie, você e a , está rolando alguma coisa.
O menino corou mais do que instantaneamente.
- Mais ou menos. – disse ele. – A gente ficou ontem à tarde, pouco antes de... Bom, sabe, o acidente do armazém.
olhou para o céu, pensativo.
- É tanta coisa, acontecendo em tão pouco tempo, que nem parece que foi ontem que eu participei do acidente mais estranho da minha vida. Mal dá pra acreditar que hoje a gente é super amigos, e há poucos dias, nem nos conhecíamos.
Dougie riu.
- É como dizem: “The hardest moments are the ones that most get people close”.
- Frase bonita. É de alguma música? Porque eu realmente nunca ouvi ninguém dizer isso.
- Na verdade, nem eu.
riu, balançando a cabeça negativamente.
Ele suspirou alto e abaixou a cabeça, pensativo.
Dougie olhou para os lados, tentando ver algo alem da escuridão. Não conseguiu, mas sentiu uma brisa gelada lavar-lhe o rosto. Estremeceu de leve, atraindo a atenção do amigo.
- Que horas são? – perguntou, levantando a cabeça.
- Meia noite. Faz exatamente 24 que o Harry sumiu, e 12 que descobrimos tudo sobre a lenda. – ele riu desgostoso. – Você tinha razão, é muita coisa pra pouco tempo.
O rapaz riu, mas parou ao notar o amigo tremendo, arrepiado.
- O que foi? – perguntou a Dougie.
- Nada, bateu um vento frio aqui, eu fiquei com frio.
O outro mordeu o lábio.
- Essa cidade é temperamental, uma hora ta calor, outra ta frio. Ontem à tarde tava super quente, mas quando anoiteceu, e eu tava no armazém, também estava fr... – ele estancou a fala. Seus olhos arregalaram-se.
Ele puxou a cortina para a esquerda e olhou o céu azul marinho pela janela. A noite estava limpa e levemente fria, lembrando-o de Londres. O menino fechou os olhos, sentindo uma brisa fresca entrar pela janela.
- O que foi? – Dougie perguntou.
levantou, com certa dificuldade, apressado,
- Oh, droga! – ele exclamou, olhando para os lados.
Dougie assustou-se com o comportamento do moreno.
- O que foi?
- A brisa fresca, fria... – Ele disse. – Na noite que a mansão dos meus tios pegou fogo, como estava o tempo?
- Bom, teve chuva o dia inteiro, mas estava quente, só foi esfriar a noite e... Espera! Você não acha que...
- A brisa fria, eu também senti minutos antes do armazém do avô do Tom desabar.
Os dois arregalaram, olhando em volta.
Um rangido estranho soou alto por todo o zoológico, acordando alguns dos animais que ali dormiam.
Dougie e se entreolharam.
- Vamos sair daqui.
- Certo.
Eles se levantaram e correram para outra ala do zoológico.
- O que você acha que poderia acontecer aqui? – Dougie perguntou, ajudando a correr, enquanto olhava ao redor.
Um vento forte passou pelos dois, deslizando até o portão de ferro do lugar, que em segundos fechou-se com um estampido alto.
- Isso não é bom! ISSO NÃO É BOM!
- Pára de gritar, Dougie.
- EU TO DESESPERADO!
- VOCÊ ESTÁ ME DEIXANDO DESESPERADO! AGORA CALA A BOCA!
Um novo rangido metálico soou continuamente pelo lugar. Os dois olharam para os lados. As extremamente altas cercas de metal que faziam o contorno do zoológico, naquele ponto, estavam sofrendo ataque de alguma coisa.
Nas suas respectivas bases, elas começaram a se amassar, ficando cada vez mais finas e bambas.
- Calei. – Dougie disse com a voz falha.
O silêncio voltou ao lugar, quando as grades tinham suas bases apenas um fio de metal.
Era um corredor delas até a saída.
- Você acha que...
- Sim!
Novamente os dois saíram correndo por toda aquela extensão, querendo alcançar a saída.
Dos dois lados dos amigos, com um barulho agudo, as grades começaram a cair para dentro da área do zoológico. As duas primeiras esmagaram violentamente uma a outra, mostrando serem fortes, mas também pesadas.
Dougie e continuaram correndo.
As segundas grades despencaram também e por apenas um metro não esmagou os dois tão violentamente quando esmagara uma a outra.
As duas terceiras caíram, e as duas quartas logo em seguida, à centímetros dos calcanhares de Dougie.
Eles chegaram ao portão grande e olharam para os lados.
Atrás, havia apenas metal retorcido e afiado. Na frente, um enorme portão. E dos dois lados, as duas últimas grades metálicas balançavam de leve para lá e para cá, ameaçando despencar em cima dos dois.
- A gente vai morrer! A GENTE VAI MORRER! – Dougie choramingou.
- CACETE, CALA A BOCA, POYNTER! – gritou.
Ele olhou desesperado para o portão.
- Não tem como sair! NÃO TEM! – o loiro tornou a gritar.
- Por que eu sempre me meto nessas situações? POR-QUE?
- NÓS VAMOS MORRER!
Como se uma luz se acendesse acima de sua cabeça, olhou para as duas grades. As palavras de Dougie penetraram sua consciência em câmera lenta.
- JÁ SEI! – ele gritou.
O outro lhe olhou, desesperado.
- Ein?
- Você tem que correr em direção à grade!
- MAS EIN? VOCÊ QUER REALMENTE ME MATAR?
Lucas pegou o amigo pelos ombros e o chacoalhou, gritando estressado algo como “se acalme, sua bicha!”.
- Quando o topo do portão começa a despencar, eu não sei por que, mas a base levanta-se até uns dois metros de altura no ar, quando o topo atinge o chão. Desse modo você pode correr por debaixo dele quando o topo estiver longe do chão, e quando ele cair aqui, dá pra sair pela abertura da base, do outro lado.
- Mas isso é suicídio!
Um baque seco fez fechar os olhos com força.
- Você não tem outra opção, de qualquer forma.
A grade a sua direita emitiu um rugido agudo, enquanto pendia violentamente para cima dos dois.
- Mas e você?
continuou de olhos fechados.
- Não se preocupa com isso, corre!
- Mas...
- VAI!
Antes que Dougie dissesse mais alguma coisa, o empurrou em direção à grade, que finalmente veio abaixo.
Bem como o amigo tinha dito, Dougie conseguiu passar por debaixo do topo antes que esse chegasse no chão, abaixou quando viu o meio da grade sobre sua cabeça, e por fim, jogou-se para fora do zoológico quando viu a base da grade se levantar até um metro acima da sua cabeça, como um enorme tubarão de