Mundos Paralelos - O Colar
Autora: UnknownWriter
Beta-Reader: Annie Brissow.



Capítulo 01 -

A curiosidade falou mais alto e não soube disfarçar. Não poderiam culpá-la, pois quem não olharia para um homem como aquele? Não era uma aberração e sequer era leproso – ou contaminado por qualquer doença visível que fosse. A questão era mais simples que isso, embora para aquela vila fechada fosse motivo mais do que digno de atenção.
O sujeito não era da vila, havia vindo de fora. Fosse das terras do leste ou oeste, ele era um estrangeiro, e isso era notório até mesmo por suas roupas, diferentes das de todos os outros que havia ali. Os moradores não estavam enganados, pois se havia uma vila onde todos se conheciam, nem que de vista, essa vila era aquela; minúscula e afastada de tudo. Tão afastada que poucos podiam comprar roupas tão diferentes quanto as que aquele homem usava.
Sentado em uma pedra ao lado de uma barraca de frutas que tendiam a estragar em breve, ele atraia muitas pessoas – em especial jovens e crianças – com sua lábia capaz de contar a melhor de todas as estórias, ou histórias – vai saber. Um mito, um conto de fadas ou o que quer que fosse, saindo da boca daquele homem, se tornava não só mais interessante quanto mais importante do que a grande feira da vila, que ocorria mensalmente, a única oportunidade do mês todo de adquirir objetos ou alimentos que vinham de outras vilas ou reinos.
, assim como qualquer outro jovem em seus plenos dezessete anos – embora em sua cultura aquela idade fosse não só adulta quanto perfeita para um casório – estava demonstrando uma curiosidade considerável pela estória contada pelo homem desconhecido. Inevitavelmente foi abandonar suas compras e por consequente a ajuda à sua mãe para se aproximar e dedicar toda a sua atenção ao homem.
Alguma coisa sobre grandiosos guerreiros que davam suas vidas para deter terríveis dragões que soltavam fogo por todos os poros em suas densas escamas impenetráveis. Inegavelmente era uma estória interessante, tal como outra seria saindo de sua boca. Porém, para uma adulta, não havia mistério no conto, era visível que não passava de um mito. Seu foco, portanto, mudou para o rosto do homem, e não sua estória.
Ela não se sentia atraída pelo homem, não fisicamente. Ele era bonito, sim, mas era uma beleza diferente. Talvez, interior. Era como se sentir aliviado, ou tão bom olhar para ele quanto mergulhar em um lago fresco em um quente dia de verão. E essa sensação não mudou quando o homem parou na sua frente.
- Gostou?
Sua voz era igualmente refrescante, aveludada, confortável. Gentil. Respondê-la com naturalidade era uma coisa difícil, mas se esforçou para podê-lo.
- Sim, muito bonita. – sem muito sucesso, não conseguiu evitar suas feições surpresas e constrangidas por estar a segundos atrás o olhando tão fixadamente.
- Bonita? Talvez seja a primeira a classificá-la assim. – comentou o homem com curiosidade nos olhos. – Posso saber seu nome?
- Vorster.
Filha mais velha do casal Vorster. A garota dividia os bens familiares com um irmão mais novo. Não era enciumada, pelo contrário, adorava seu irmão e, inclusive, preferiria estar ali com ele do que com sua mãe, pois ele adorava estórias e adoraria, sem dúvida, aquela.
As características típicas da família Vorster estavam na garota. Cabelos castanhos, embora os da filha em especial fossem levemente mais claros e uma mistura do cabelo liso da mãe e encaracolado do pai, nascendo liso e descendo em belos cachos. Os olhos eram de um mel limpo e profundo. Seu rosto era magro, mas suas feições lembravam vagamente o formato de um coração. O corpo era magro, mas não esbelto. Seus dotes eram simples, mas havia ainda assim um toque de feminilidade.
Era uma garota bela e, mais do que isso, dona de uma personalidade única.
- ? É um belo nome, mas trás consigo grandes fazeres... – o homem sorriu, gentil – Vejo em tu um glorioso destino.
- E quem é o senhor, posso saber? Um cigano? Pois me diga quais fazeres.
Ele sequer lembrava um cigano. Suas roupas eram sim diferentes, mas não semelhantes de um cigano, que naturalmente vestiam-se com diversas roupas e também acessórios. Ele apresentava-se apenas como um homem de fora da vila. Até sua aparência dizia que ele era um homem comum. Cabelos pretos, curtos e uma barba rala, mas não mal feita. Mas se fosse ele um cigano – contava histórias e fazia previsões sobre o futuro – não era uma boa companhia para se ter. Diziam os antigos que ciganos eram bruxos, e sinônimos de coisas ruins.
- O ontem é história e o amanhã é um mistério, mas o hoje é uma dádiva, e por isso se chama presente. Não se apresse o tempo, as respostas virão.
- ! – berrou uma voz feminina, mas adulta.
Quem gritava era a senhora Vorster, louca para encontrar sua filha, afinal, estava com ela ali para ajudá-la nas compras. A garota viu-se obrigada a olhar para a mãe, que se aproximava muito irritada. Quando voltou para o homem, percebeu que ele não estava mais ali. Deveria ter ido embora ao ouvir a voz da mãe de , deixando no ar aquele intrigante mistério envolvendo sua frase.
- Ora, minha filha! Estamos na grande feira, tempo aqui é ouro e não podemos perdê-lo! Se tardarmos demais, tudo de valor será comprado antes!
Inegavelmente, a mãe estava certa. Embora ocorressem feiras semanalmente, estas vendiam apenas coisas que a própria vila e seus moradores produziam. Era uma vila fechada, mas uma vez por mês as portas se abriam para o mundo afora, permitindo a entrada de outros alimentos, roupas e objetos de locais distintos para que fossem vendidos na feira mensal. Ela, portanto, atraia todos os moradores da vila, criando um trafego imenso de pessoas loucas pelas novidades.
Enormes sacolas de retalho eram usadas pela senhora Vorster para carregar as compras. Poucos tinham esse luxo e muitos carregavam nas mãos. olhou pelos braços da mãe as duas sacolas já cheias, tentando ver o que havia ali dentro. Alguns alimentos e tecidos – para roupas ou futuras sacolas de tecido para outras feiras. Portanto, restava apenas a parte dos objetos.
Para a maioria, a grande feira tinha como principal atração os diferentes e únicos objetos trazidos de fora da vila. Era uma variedade considerável de mercadorias. Obviamente, absurdamente caros. Todos os objetos eram caríssimos e se poucos tinham sacolas de pano, uma quantidade ainda menor de moradores era capaz de comprar algo naquele setor da feira.
Olhar, porém, era de graça. Nem todos os muitos moradores amontoados ali iriam comprar alguma mercadoria, eles não passavam de grandes curiosos. Se a curiosidade atacava todos para um simples estrangeiro contador de estórias, certamente o mesmo acontecia se tratando dos objetos.
Lupas, óculos, invenções atuais e incríveis. Mas era uma garota atenta, qualquer detalhe não passava ileso aos seus olhos. E, portanto, viu a carruagem parando perto da barraca. Claro, todos notaram a carruagem, pois se havia alguém naquela vila que possuía um bem como uma carruagem, um meio de transporte senão os próprios pés, esse alguém era Rusbond Cross Marian. Um grande nome, um nome que indicava nobreza.
Certamente, era o mais rico do reino. Não só o mais rico quanto também o atual governante da vila. O empregado que guiava os cavalos abriu a porta da carruagem, mas quem desceu não foi o próprio, mas seu filho, . Tinha também dezessete anos, pois o conhecia. Todos o conheciam, mas ela o conhecia de uma forma diferente. Eles eram amigos, eram íntimos. Quiçá até se conheciam mais do que o esperado. E vê-lo ali, no meio de tantas pessoas, era realmente constrangedor.
Seus olhos azuis – tão azuis quanto o céu – pousaram nos de e ela não soube como reagir. Ela poderia só suspirar, e seria aceitável, pois qualquer garota do reino suspiraria por ele. trajava roupas como as de um príncipe guerreiro, e era inegável o fato de que aquelas roupas medievais destacam ainda mais seus músculos definidos e o cabelo dourado, jogado num penteado “despenteado” que adicionava um estilo próprio.
Num gesto simples, ele dispensou a ajuda de seu guiador para que passasse pela feira – pois além de guiar os cavalos, ele bem poderia ser também um guarda-costas. Embora a maioria ainda olhasse para , ele não se importava e seguia seu caminho até que finalmente alcançou e sua mãe, seu destino final.
- Senhora Vorster. – sua educação era exemplar, isso obviamente vinha de seu berço repleto de elegância.
- Apenas , . – corrigiu-o com simpatia.
Ele assentiu, não a ignorando, mas seu foco agora era a filha e não mais a mãe.
- Olá, .
- Oi, .
Aquele tratamento sem dúvida denunciava a amizade tão íntima que eles possuíam. Os dois se conheciam desde pequenos, pois há muito as famílias Vorster e Marian tinham ligação. E se dependesse daquele casal de jovens, a ligação tendia apenas a crescer.
- Mãe... – sorriu sem graça.
- Ah, claro! Acho que me esqueci de comprar algumas coisas, só espero que ainda haja tempo. – disse da forma mais convincente que pôde, e isso não era muito. – Com licença...
E se retirou para comprar coisas que mal haviam acabado de inventar. Pois se havia alguma coisa pela qual tudo fazia, essa coisa era por um possível relacionamento entre os dois. Era clara a preferência que a mulher possuía pelo garoto.
- Você está adorável hoje.
- Se adorável você quer dizer como sempre, obrigada. – respondeu sem muita crença no elogio.
- Você sempre está adorável, . – e sua incrível capacidade de atordoar qualquer garota agiu de novo.
E funcionou com parcial sucesso, pois embora fosse uma garota de personalidade forte, possuia ainda assim sua aura, que simplesmente o tornava único e, por consequência, irresistível.
- Certo, . – não levou a sério. – Mas me diga: o que veio fazer aqui justo no dia em que a vila toda estaria presente? Eu sei bem que não gosta de chamar muita atenção.
Embora fosse um garoto bonito e se vestisse como um, era verdade que atenção demais – o que em qualquer lugar que ele fosse ele a recebesse de sobra – o desagradavam, e sabia, pois em muitos momentos juntos isso havia acontecido.
- É verdade, mas o motivo compensa. Eu vim lhe convidar para uma festa íntima em minha casa.
- Festa íntima?
Isso obviamente era sinônimo de uma grandiosa e elegante festa para convidados de classe alta, até mesmo, possivelmente, de contatos de fora da vila. Embora a família Vorster tivesse alguma ligação, nem que financeira, para com a Marian, ela ainda não chegava nem aos pés comparando-se a riqueza.
- Não! – negou com as duas mãos – Seria um desastre.
- Por favor.
- Não. Eu nem mesmo tenho uma roupa digna para vestir! Está fora de cogitação.
- Eu já providenciei um belo vestido, ou se esqueceu que tudo o que é vendido aqui passa antes pelo meu pai?
Vantagem era governar a vila, pois além de dinheiro para comprar o que quisesse, todas as mercadorias que vinham de fora da vila antes passavam por Rusbond Cross Marian. Sendo assim, conseguir a melhor mercadoria dentre as melhores – e mais caras – não era difícil para um Marian.
- Não acredito. – negou-se a crer, pois sua personalidade forte impedia-a de aceitar presentes como aquele de pessoas ricas como .
- Agora não tem volta.
Era verdade que devolver uma mercadoria não era possível, e que ela sentia sim vontade de não ir a uma festa, mas sim de estar com ele em algum lugar especial. Mas junto do Senhor e da Senhora Marian e convidados, sua presença desengonçada e simplória não era viável.
- Não tenho nenhum acessório que combine, e todos os que eu podia comprar hoje certamente já foram vendidos. – arranjou uma desculpa.
Maldita hora em que a garota tinha dito o que havia dito. Se estava decidido, infelizmente não havia forma alguma de fazê-lo mudar de idéia. Ele assentiu e passou pela garota até alcançar uma barraca única na grande feira. Uma barraca que só os mais ricos podiam ter a chance de comprar algo, pois ali se vendiam jóias de um brilho inigualável. E estava claro o que ele faria.
- Espere! – eufórica, alcançou-o. – Eu não pedi que comprasse para mim uma jóia!
- Você não vai deixar de me acompanhar pela simples falta de um acessório. – sorriu, e seu sorriso era um tanto quanto maldoso. – Por favor, senhorita. Qual a jóia mais bela que tens para esta bela moça?
Por trás da barraca encontrava-se uma moça de pele bem morena. Seus cabelos, castanhos e bem enrolados, escondiam olhos felinos. Um sorriso divertido brotou em seus carnudos lábios rosados. Seus olhos pareciam decifrar com uma facilidade assustadora.
- Pescoço magro e de um tamanho comum. Prefere esconder o que possui... – comentou tranquilamente e incontestavelmente estava correta. – Acho que conheço a jóia perfeita para você, querida.
ficou aflita, pois jurava que aquela moça a conhecia mais do que era possível, e estranha era aquela sensação, como se o conhecimento fosse recíproco. , por sua vez, parecia se divertir com as circunstâncias. Um barulho de metal contra metal pôde ser ouvido atrás da barraca, onde a vendedora caçava a peça dita por ela ideal. E quando ela se levantou e o brilho esverdeado refletiu nos olhos cor de mel, soube que aquele colar havia nascido para ser dela.
Porque ele era perfeito para ela.
A corrente era composta por três outras correntes enroladas de forma não uniforme, lembravam raízes rústicas. A cor era dourada e, se não estivesse tão vidrada na peça, temeria saber se aquilo era feito de ouro. Mas o grande foco sem dúvida era o que a tão bela corrente segurava em sua ponta. Descia ali uma pedra de aproximadamente cinco centímetros, de um verde esmeralda tão brilhante que chegava a ofuscar qualquer outro brilho, pois nada no mundo podia ser mais brilhante do que aquela pedra.
- Perfeito. – disse , com um sorriso vitorioso ao ver o rosto de , que denunciava o fato de que ela também havia gostado.
- Eu nunca errei. – vangloriou-se a vendedora.
As mãos da garota foram até o colar, talvez por instinto de querê-lo.
- Cem moedas de ouro.
Isso era realmente muito dinheiro. Havia gente naquela vila que nem em toda sua vida trabalhando adquiriria uma quantidade como aquela de dinheiro, que para não passava de um dinheiro gasto por gastar.
Ele estralou os dedos e seu empregado que, embora distante, entendeu o chamado e se aproximou deles. Em sua mão havia um saco de couro pesado que continha cem moedas de ouro, se não mais do que isso. o pegou e entregou para a mulher, que passou para ele o colar.
- Obrigado. – agradeceu e virou-se para a garota. – Acho que é seu.
Ela segurou o colar com suas duas mãos, que embora parecessem frágeis comparadas à jóia, ainda assim eram capazes de segurá-la com perfeição. E a pedra brilhou. Podia ser parte do seu fascínio pela jóia, mas podia jurar que aquela enorme pedra verde havia brilhado. Mas não tinha notado esse brilho extra.
- Então te espero amanhã à noite, na minha casa. – piscou com um olho só. – Mando Jorges entregar o vestido na sua casa ainda hoje.
- Está bem. – respondeu sem saber nem mesmo como negar, estando naquela situação.
- Até mais, .
E despediu-se dela com um beijo nas costas de uma das mãos dela. Elegante e cavalheiro como de praxe, mas ela estava focada demais no colar para notar ou elogiá-lo. Então ele se retirou e só percebeu de fato a sua ausência quando pôde ouvir a carruagem se retirar com seus cavalos relinchando.
Como se acordasse de um transe, deu por si e lembrou-se que em suas mãos havia um único colar que valia cem moedas de ouro, quantia o suficiente para alimentar muitos por muito tempo. O pior é que havia aceitado isso de . Não sabia por que e nem o motivo de ter ficado fascinada por ele, mas sabia que tinha de devolvê-lo.
Decidida, virou-se de volta para a barraca e a vendedora morena. E surpreendeu-se ao ver que a vendedora havia ido embora. Não sabia para onde ou porque, mas ela não estava mais ali.
Não lhe restou alternativa se não ficar com o colar, ao menos por enquanto. Estão voltou para perto de sua mãe, pensando em alguma estratégia para não dar à festa intima dos Marian a sua presença.

Capítulo 02 -

As compras haviam totalizado quatro sacolas de pano cheias. Duas sua mãe carregava, e outras duas é quem trazia consigo. A grande feira não ficava tão longe da residência dos Vorster, e caminhar naquela adorável tarde não era um grande esforço, isso se não tivesse acabado de ser abordada por e ganhado dele não só um colar de cem moedas de ouro como também um vestido desconhecido que poderia, conhecendo-o bem, ultrapassar este absurdo valor com facilidade.
O pior mesmo era e sua curiosidade, pois não havia um segundo em que ela não perguntasse sobre o que sua filha e seu possível genro haviam conversado em particular – pois, infelizmente, se esconder para ouvir não havia sido possível daquela vez. Ao menos podia esconder a existência do colar e da festa, ao menos até o vestido chegar em sua casa.
- ! – chamou a senhora Rich, uma velha conhecida.
- Senhora Rich, que surpresa vê-la aqui. Minha filha, pode seguir teu rumo, vou jogar um pouco de prosa fora.
- Não fale de mim e de ! – despediu-se, não sem antes alertar a mãe.
Embora jurasse com gestos que nada falaria sobre os dois, ela sabia que a mãe não perderia a oportunidade de mencionar algo a respeito, por menor que fosse a menção.
No percurso, cumprimentava muitas pessoas. Soava até mesmo cansativo, pois era inegável que conhecia praticamente todos e, portanto, tinha de cumprimentar a todos. Se ela todos conhecia, todos conheciam-na, era recíproco e, portanto, sabiam sobre seu relacionamento com , e isso era também constrangedor.
Mas havia alguém, ou algo, que ela não soube cumprimentar. Um cachorro, um simples cachorro de rua. Era de porte médio e seu pêlo era da cor preta. Visivelmente era mal cuidado e passava fome.
“Quero comer”.
Foi quase como se pudesse ouvir os pensamentos do animal em sua cabeça. Seus olhos pousaram nas duas sacolas que carregava e eram justamente as duas sacolas que continham os alimentos comprados na grande feira. Mesmo sendo os Vorstes uma família bem economicamente, a comida ainda assim era bem contada. Dá-la para um animal de rua seria desperdício.
“Eu quero comer”.
Que seu pai ficasse furioso com ela, mas não iria simplesmente ignorar o que seu instinto mandava-lhe fazer. Ela parou sua caminhada e chamou o cachorro com um gesto típico com a mão, já com a outra caçava dentro do saco algo que pudesse dar a ele para comer. Retirou um pedaço aleatório de carne e segurou-o na mão, agora estendida. O animal se aproximou e farejou o alimento, abocanhando-o de uma única vez.
sorriu, feliz com a expressão animalesca do cachorro que, de certa forma, simbolizava também felicidade. Embora muitos tivessem nojo de tocar nele, a garota não o teve e inclusive o acariciou. poderia ser muitas coisas, mas acima disso era gentil e humilde. O animal não podia falar, não podia agradecer, mas sentia que era o que ele estava fazendo naquele momento ao abanar o rabo de forma eufórica. Não demoraria para que a fome chegasse, mas por enquanto, ao menos, ele viveria feliz.

***

A casa dos Vorster não era uma casa enorme ou repleta de luxos, mas ainda assim era uma casa bem melhor que a maioria encontrada naquela vila. Localizava-se perto do centro e obviamente também das feiras. Possuía um belo jardim, obra da senhora Vorster. Era feita de uma madeira resistente, matéria-prima abundante da vila. Era pequena, mas suficientemente aconchegante.
passou pela porta da frente, que não estava trancada. Isso significava que seu pai e seu irmão mais novo já haviam retornado da pequena tarde dos homens e acomodavam-se em algum cômodo.
- chegou! – bradou uma voz infantil.
De trás de uma poltrona velha saiu um garoto pequeno e magro, de bochechas bem avermelhadas, sinônimo de que, apesar de magro, era deveras saudável. Tinha sete anos e já eram notáveis características puxadas do pai e da mãe, tal como os cabelos escuros e bem encaracolados.
- Bom dia, . – correspondeu ao chamado do irmão, enquanto colocava sobre uma mesa de madeira rústica as duas sacolas que carregava das compras. – Papai, onde está?
- Ele está lá fora. – gesticulou, encenando como se carregasse um pesado machado. – Cortando lenha para o jantar, quer comemorar a grande feira.
Um rangido saiu das portas do fundo quando um homem forte entrou por ela. Senhor Vorster era um homem muito inteligente, mas que cumpria muito bem seu papel na família. Em seus braços estavam alguns tocos de madeira que ele mesmo havia acabado de cortar no terreno atrás da casa. Sua pele era levemente mais morena que a dos outros três da família, graças ao seu trabalho mais físico, o que o expunha constantemente ao sol. Seus cabelos eram mais enrolados até mesmo que os de .
- Como foram as compras? – questionou sem perder tempo, tratando de jogar os tocos de madeira na lareira.
- Boas, mas movimentadas.
- E sua mãe?
- Estou aqui! – e entrou pela porta, segurando mais duas sacolas. – Minha filha, parece que tem um presente para você aqui fora.
Um presente não, um vestido. quis se matar por ainda não ter pensado em algo para dizer quando o tal presente chegasse. A garota correu para fora da casa e, de fato, Jorges, o empregado especial da família Marian, estava ali, a carruagem estacionada na frente da casa. Em seus braços, embalado em um tecido que muito reluzia, estava o que teria de usar na festa.
Era lindo e de longe se podia ver que havia custado no mínimo duas vezes a quantidade de moedas que aquele colar que também recebera de . Mas cada moeda gasta parecia ter valido a pena. Era de um verde musgo, cumprido. O tecido era seda e uma fita verde levemente mais escura pendia um pouco acima da cintura e, não só a fita quanto o tecido em si, chegava aos tornozelos. E ainda havia mais: em toda a sua extensão, pequenas pedras transparentes eram grudadas e não se assustaria em descobrir que eram diamantes de verdade. Nos ombros, ombreiras cheias davam um toque elegante dos típicos vestidos da época.
Mas o mais surpreendente era que o colar simplesmente combinava perfeitamente com o vestido. Até mesmo a cor, ou o formato, pois as pedras do vestido possuíam a mesma forma que a do acessório. Era como se tivessem sidos feitos para usados em conjunto.
- O que raios é isso? – o pai não pareceu muito contente com aquilo, pois embora tivesse se encantado pelo vestido, tal como todos os outros, ainda tinha seu orgulho.
- Senhor Vorster, este é um presente de Cross Marian para sua filha, a senhorita Vorster.
O emprego se aproximou para a entrega da peça. pegou-o cuidadosamente, receosa com sua perfeição, imaginando que qualquer ação em falso fosse mais do que o suficiente para danificá-lo.
- E junto, convida-a para a festa íntima que ocorrerá na casa dos Marian na noite de amanhã, com a permissão, certamente, do senhor.
- Amanhã teremos um jantar em família. – grunhiu o pai sem ceder.
- , querido, o jantar será hoje! – repreendeu o marido com um sorriso simpático para o empregado. – Agradeço, Jorges, pelo convite. Diga aos Marian que estará lá.
- Mas se papai quer que eu fique... – aproveitou a filha a possível deixa.
- , não faça essa desfeita!
Sem escolhas, a jovem assentiu em ir de encontro com o seu fim, afinal, agora realmente tinha o que vestir. ainda parecia desconfortável em receber aquele presente tão caro e nisso o havia puxado. , ao contrário, estava animada pela filha e gritava sem parar algo sobre e serem namorados. Típico, vindo de uma criança.
Agora, restava para a garota encarar os olhares que certamente receberia.

***

esperava impacientemente, andando de um lado para o outro dentro de sua casa. Para completar o figurino, ela calçava um sapato salto alto naquela noite, que havia agrupado ao presente. Aguardava a chegada da carruagem que, como mais um mimo do Marian mais novo, passaria em sua casa para buscá-la.
- Você está linda, filha.
- Parece até que vai se casar! – riu .
- Eu respeito os Marian, mas se aquele garoto ousar fazer algo com você, Rusbond que me perdoe, mas vou voltar a praticar a caça!
- Pai, não se preocupe. – acalmou-o com um sorriso seguro, embora estivesse verdadeiramente insegura a respeito da mesma questão.
Mas ela era uma garota responsável, sabia dos limites muito bem. Na verdade, ela e nem mesmo eram namorados, embora negar que ela desejava aquilo seria o mesmo que negar que necessitava respirar para sobreviver.
Do lado de fora, uma carruagem chegou. Jorges. A filha despediu-se dos pais e do irmão com beijos e abraços amorosos e saiu de sua casa. Inocentemente, mal sabia ela que deveria ter dado mais do que abraços e beijos. O veículo, entretanto, já lhe aguardava de portas abertas.
- Obrigada, Jorges. – agradeceu com educação ao aceitar a mão do empregado estendida para que pudesse subir com mais delicadeza.
Usufruir de um luxo como aquele era realmente uma coisa que poucos podiam fazer. Naquela vila, apenas os próprios Marian possuíam, sendo, portanto, uma exclusividade deles e de alguns poucos íntimos e confiáveis amigos da família. Como dito, não era a única que podia aceitar favores como aquele, pois na carruagem já estavam duas outras pessoas. Um casal.
- , !
Ela se surpreendeu ao encontrar os dois jovens também bem vestidos. Rydinity era uma garota de, tal como , dezessete anos. Sua pele era mais branca e era mais baixa, seu cabelo era de um preto quase azul e descia extremamente liso até os ombros. Os olhos eram igualmente escuros e levemente mais puxados e pequenos, pois seus ancestrais vieram de um lugar bem distante da vila. Já Duffter era um ano mais velho e um grande amigo de – tal como era de . Seu cabelo era bem arrumado, também liso e preto. Olhos levemente esverdeados e profundos demonstravam que naquele garoto havia uma personalidade confiante e confiável, tal como tranquila.
- Achou que íamos perder esta festa íntima? – perguntou risonha. – E tinha razão, este vestido ficou realmente maravilhoso em você! É claro que não tanto quanto eu fiquei neste que me deu.
Ela se exibiu, contente e satisfeita com seu figurino que também era um presente, mas não demonstrava desconforto com o fato. Ela e eram igualmente ricos, não como os Marian, mas mais que os Vorsters e, inclusive, estavam na lista de convidados especiais – interesse financeiro entre as famílias.
- Qualquer coisa em você ficaria ótimo. – sugeriu de forma cavalheira.
Notável que o relacionamento entre os dois ficava, hora ou outra, um tanto quanto interativo demais. Embora ambos se vestissem elegantemente, nem de longe estavam vestidos de forma mais agradável visualmente do que . Ela estava simplesmente deslumbrante. Mas, sem querer receber atenção demais, concordou.
- Realmente, , você está muito bem.
- Que nada, você também está ótima. Parecendo uma princesa! Quantas mil moedas ele não pagou por isso? Espera... É diamante?
Bombardeava a melhor amiga de perguntas e mais perguntas, graças a sua curiosidade típica. riu, embora ainda um pouco constrangida. Responderia de bom grado, se não lembrasse com isso do colar que havia guardado em uma bolsa que carregava consigo. Abriu-a e tirou a joia de dentro dela. A pedra pareceu reluzir dentro da carruagem levemente escura.
- Ele comprou também... – disse de antemão, antes que viesse outro interrogatório.
- Parece que algo vai se oficializar hoje. – brincou com seu típico humor.
- Quem dera! – exclamou com notório desgosto. – Você precisa falar com um certo Marian, ! Ele está demorando demais, estamos na época medieval ainda, por acaso? Aliás, este colar é incrível, , e isso é uma esmeralda caríssima!
As conversas dentro da carruagem se prolongaram em dois distintos tópicos: se e seriam finalmente um casal naquela noite e sobre o lindo colar, que parecia deixar o vestido magnífico no chão perante ele. No ritmo rápido em que os cavalos estavam, não tardou muito para que a carruagem fosse estacionada ao lado de uma mediana escada de pedras. Jorges abriu a porta para que os três pudessem descer.
Chamar o lar dos Marian de casa soava até mesmo como um insulto. Aquilo mais parecia um enorme castelo. A fachada da casa surgiu após a escada de pedras, uma grande porta de madeira, com metros e mais metros de altura. Sua estrutura era toda de pedras, a única da vila. Mas o detalhe mais belo daquele castelo era o imenso e brilhante rio que descia, passando no fundo do terreno, que também pertencia àquela família.
Muitos já haviam visto aquela casa, era quase como um ponto turístico – e o único – da vila. Entretanto, poucos eram aqueles que entravam naquele lugar. Apenas em situações como aquela, uma festa, é que uma quantidade maior de pessoas tinha acesso ao interior, embora ainda fosse notável que apenas os de classes mais altas tinham este privilégio.
Jorges guiou os três castelo à dentro e em seguida pelos extensos corredores. , e já estiveram lá antes, de fato, mas se perder ali não era um acontecimento incomum. A decoração era estonteante, e olhar demais para ela dava a sensação de que tudo que conhecia e tinha não era nada comparado ao que os Marian tinham. Depois de muitos passos e um ecoar de sapatos pelos corredores, eles finalmente chegaram ao último cômodo daquela região da moradia. Se tratava de um extenso salão, provavelmente construído no último mês exclusivamente para aquela situação. Se a decoração dos corredores era admirável, aquele salão era atordoante e quiçá divino.
Imenso, sem dúvidas. Havia uma mesa tão grande quanto o salão, repleta de cadeiras cuidadosamente contadas para que nenhum convidado ficasse de pé, mas também para que nenhuma ficasse vazia. Na mesa, vários candelabros encontravam-se acessos, assim como no teto do salão havia um imenso e gracioso iluminando todo o local. O ambiente estava bem decorado com rosas e esculturas, com garçons e mordomos, inclusive empregados comuns correndo de um lado para o outro para satisfazer desejos da burguesia.
Na entrada, a família Marian cumprimentava a todos os convidados. Assim que os três alcançaram os patriotas da festa, o primeiro a estender a mão fora o senhor Marian. Ele era um sujeito alto, esbelto, de cabelos louros levemente grisalhos, dando-lhe um ar galanteador – era muito semelhante nesse quesito. Suas expressões eram um tanto sérias, típico de um governante. Na sua direita estava a senhora Marian, uma bela mulher de cabelos dourados e de um rosto fino e elegante, e bem desenhado. Seu nome era Elizabeth, mulher de Rusbond. Depois dela, um homem mais novo, entre vinte anos. No seu rosto, via-se um legitimo piadista, de humor característico. De cabelo loiro fosco, seu nome era Kour Marian, filho mais velho do casal.
Por fim e, quiçá, o mais importante para eles, estava , trajando um traje reluzente e elegante, o cabelo levemente mais arrumado que de o costume, para a ocasião. Os olhos estavam levemente arregalados, não surpreso em vê-la ali, mas sim encantado com sua beleza estonteante. Os outros da família também estavam encantados, mas, diferente dele, sabiam manter o fôlego perto de .
- Você está linda. – comentou discreto. – Eu tenho que receber os convidados, encontro você daqui a pouco.
Ela assentiu e seguiu pelo salão junto dos dois amigos que comentavam sobre algo que ela não fazia questão de saber.
- Ei, ! – mas fazia questão de envolvê-la na conversa. – Olha aquela mulher, que elegância! Dá até vergonha por eu ter me elegido por algum momento a mais elegante!
Ela gesticulou com a cabeça de forma discreta na direção da mulher que se encontrava do outro lado do salão. Mesmo que não gesticulasse, a encontraria, pois seus imensos cabelos de um vermelho vivo chamavam muita atenção pela sua peculiaridade e brilho quase com vida.
Até mesmo seu andar era chamativo, pois mais parecia desfilar, tamanha sua elegância. Por um momento, se sentiu estúpida e horrível comparando-se àquela mulher tão linda, de pele tão macia e de aroma tão espetacular.
- Quem é ela? – perguntou fascinada.
- Deve ter vindo de fora da vila, mas desde que não chegue perto do meu , pouco me importa.
- se mostrando possessiva, ? Cuidado. – aconselhou , chegando perto deles com um sorriso contido.
- Às vezes levo até uns tapas... – riu .
- É, parece que os dois precisam conversar a sós sobre isso. – concluiu o loiro. – Vamos lá fora , dar privacidade para os dois.
Havia uma segunda intenção por trás daquilo e qualquer um seria capaz de compreender que na verdade quem queria espaço era ele com .
- É, isso! e eu temos que discutir nossa relação!
Encurralada pela melhor amiga – que mandou inclusive uma piscadela nada sutil – não pôde recusar o convite do anfitrião. Ele a guiou entre as pessoas até que alcançaram portas de vidro que os levariam para a parte traseira da casa, por onde passava o rio e um agradável jardim se encontrava. Diversos tipos de flores em grandes vasos estavam ali, junto de árvores e uma grande escultura cortava em um arbusto, no formato de um cavalo, no centro. Um pouco mais a frente, havia alguns bancos, todos vazios. Era realmente um local com o clima perfeito para que ocorresse o primeiro beijo deles e a oficialização do suposto relacionamento dos dois.
Não sabia como reagir em situações como aquelas, por isso, se sentou na extremidade do banco e entrelaçou dos dedos finos da mão. sentou-se ao lado dela e fez questão de segurar com as suas mãos as mãos dela.
- Sabe, , faz algum tempo que eu estava querendo lhe dizer uma coisa...
- Sim? – questionou, desviando os olhos um tanto nervosa.
- Ou melhor, fazer.
Ela estreitou os olhos com a rápida correção do garoto. Embora nunca tivessem avançado demais, ainda assim era óbvio que os dois queriam a mesma coisa, ficar juntos. A única resposta de foi o silêncio, pois qualquer um ficaria nervoso naquelas circunstâncias. Até ele mesmo estava, mas desta vez não deixaria aquela oportunidade única escapar. Aproximou, portanto, seu rosto do dela, lentamente.
- ! – gritou a voz grossa de Kour, que surgiu no jardim. Assim que viu ali, um sorriso de deboche apareceu. – Estou atrapalhando algo?
- Está. – interrompeu fechando a cara.
- Desculpem-me pelo transtorno, mas uma convidada especial minha chegou, e faço questão que ela conheça toda a família.
- Outra nova namorada? – indagou cômica , em menção aos famosos casos não duráveis de romances do galanteador Kour.
- Certamente.
- Ótimo. – resmungou , conforme se levantava. – Eu já volto.
Juntos, os irmãos Marian recuaram para dentro do salão. O coração da garota ainda estava eufórico, pois naquela noite eles estavam indo realmente à frente, quase haviam se beijado! E, no meio de tantos devaneios e possibilidades que passavam em sua aflita mente, ela pôde ouvir distante dali uma bela música, uma junção de agradáveis de sons. Concluiu que ela vinha do salão, da festa, mas quando a voz soou, percebeu que na verdade ela vinha de trás. Como seria possível a música surgir do rio? virou-se para verificar a veracidade dos fatos e concluir que estava com algum sério distúrbio de audição.
Mas na viu nada. A voz apenas ressoava, como se viesse da sua própria mente.

Ah! O ardor de um firme coração nascido;
Surge em ti, com um par de olhos desarmados;
Salva o pranto de um mundo enclausurado;

Tu, que no peito me abraças escondido;
Mergulha no abismo com um beijo esquecido;
Num incêndio de mares derramados;

Ah! Pois me dê a chance desta tirania;
O maior medo é ter de nadar em águas tão frias.

A letra, embora nada objetiva, passava para uma tristeza profunda, mas a voz sem dúvida nenhuma era o foco dela. Era linda demais, era única, uma voz absolutamente angelical. Era como se anjos cantassem em uma voz, que transmitia emoções intensas. Era tão bonita, tão bela, que a vontade de dormir e relaxar era simplesmente instantânea, como um instinto, uma necessidade. Uma ordem. E não foi capaz de lutar contra aquele desejo animal de dormir. Era como se estivesse sendo induzida a dormir por um mimo de sua mãe – e a sensação era tão agradável quanto essa.
E dormiu.
Simplesmente dormiu.

Continua!


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AnnieB.