
HOMETOWN HEROES
por Julie Neves
Beta-Reader: Loma R
01.
Minha mãe estava me chamando pela terceira vez, eu sei que se não acordasse naquele momento, ela viria borrifar água
gelada no meu rosto, isso seria tudo o que eu precisava para o primeiro dia de aula.
- , se você...
- Já acordei! – Levantei num só pulo quando a vi com o borrifador que ela usa para colocar água nas plantas. E como se estivesse com
o dedo no gatilho, estava pronta para me molhar.
- Eu já arrumei a Ammy! – Ela falou rolando os olhos. Não culpo minha mãe, eu dou trabalho mesmo – Meu filho de dezessete anos dá mais
trabalho que minha filha de três – E saiu do meu quarto resmungando. Eu ri. Essa é a minha mãe, e é por isso que eu a amo.
Eu moro em Dover com minha mãe, meu padrasto e a filha deles. A história é simples: minha mãe namorava um babaca no último ano do
colégio e engravidou. Eu nasci e ele não assumiu. Muito clichê. Não sei o nome do me pai, nem procuro saber. A única coisa que sei é que
ele a abandonou para fazer direito em Cambridge. Mas enfim, Liam, meu padrasto, era o melhor amigo da minha mãe desde o colégio, se
apaixonaram, e se casaram há cinco anos... Blá, blá, blá. Aqui estamos nós.
- Bom dia – Falei, fingindo empolgação, às pessoas da casa que já estavam tomando o café da manhã. Peguei dois pães e me sentei.
- Acordou com água na cara de novo? – Liam perguntou já rindo.
- Hoje foi por pouco... – Eu gosto do meu padrasto. E da minha irmã também. Quando ela não me irrita, claro.
Não sei do que adianta minha mãe me acordar tão cedo. Eu sempre tenho que esperar a Ammy terminar o café da manhã dela mesmo. Então,
após longos e torturantes minutos de espera e sono, e de muito ouvir “Amélia, você está atrasada...” da minha mãe, partimos.
Meu colégio é dividido em duas partes. Meu lado, o do ensino médio, fica num prédio à parte, do outro lado da rua. Acredito que não
queiram juntar animais como nós com criancinhas, para assim, não corrompermos suas inocentes almas. Eu não faria isso. Nunca. Tenho almas
no meu próprio prédio para atormentar. Assim, deixei a Ammy lá e segui para onde eu realmente pertencia. Meu reino.
Os olhares de quem estava no estacionamento se direcionaram para meu carro assim que sua primeira metade passou pelos portões. É, eu
voltei. Eu posso não ter nenhuma afinidade com os estudos, mas eu amo vir ao colégio. Aqui eu posso ser e fazer o que eu quiser porque as
pessoas me permitem. Na minha habitual vaga - sim, eu tenho uma vaga - estacionei meu carro. Fato é que ninguém se atrevia a estacionar ali.
Há poucos metros, sentado no banco com a maior cara de ressaca, estava meu melhor amigo, .
- Bom dia, babaca! – Ele disse assim que cheguei perto o suficiente para poder escutar. é o
único que tem coragem de me enfrentar, mesmo que fosse de brincadeira, como naquele momento.
- Acordou do lado errado da cama? – Arqueei uma sobrancelha estranhando seu comportamento. Afinal, paciência tem limites.
- Por que você não apareceu no pub ontem?
- Fui na casa da Carly – Sorri malicioso quando me sentei ao seu lado. Carly é minha namorada, ou ela acha que é minha namorada. Ela
era boa demais pra se usar e jogar fora, namorar foi o único pretexto que eu pensei para poder fazer isso durar mais.
- Ah, garanhão! – gritou animadamente, eu apenas sorri afirmando. Ir até a casa dela tinha
sido melhor que ir ao pub, definitivamente.
- E aí, dudes? – Jeremy e Adam se aproximaram nos cumprimentando, meus fiéis escudeiros.
- Preparados para o último ano de tortura? – Jeremy perguntou sorrindo largamente, mas murchou quando eu só dei de ombros. Qual é? Ele
quer bom humor a essa hora de manhã?
Salvo pelo gongo. O sinal tocou antes que aqueles dois começassem a tentar me fazer sentir mal só por não dar a atenção que eles
merecem. Que atenção eles merecem mesmo? Pois é.
O primeiro horário seria de história. Tem maneira melhor que começar a semana, ou melhor, começar o ano, do que assistindo uma aula de
história? Não mesmo. Afinal, que matéria faz você dormir mais rapidamente e tranquilamente? Tratei logo de pegar meu livro no meu armário,
ele seria de muita utilidade para apoiar minha cabeça e dormir.
Ao entrar na sala não pude deixar de esbarrar com meu ombro no meu bom e velho companheiro , esse sim é bom de irritar. Ele olhou
para mim de rabo de olho e voltou a conversar com uma menina que parecia pedir informações para ele. Dei a ela aquela velha olhada dos pés
à cabeça, a garota corou bruscamente. Sorri e entrei de vez na sala. Sim, ela era linda. E era novata. Não demoraria e ela cairia aos meus
pés como todas naquele colégio.
Com , Adam e Jeremy em meu encalço, sentei na última mesa, no fundo da sala e fiquei observando
os três falando besteira e tentando chamar minha atenção com qualquer piada idiota, com exceção do .
Desviei meu olhar para a porta da sala, procurando algo que me interessasse mais do que aquele papo e a vi novamente. A menina que
conversava com o do lado de fora da sala agora entrava junto a ele, ambos passeavam com os olhos
à procura de algum lugar para se sentarem, não tirei os olhos daquela garota por nem um segundo, ela pareceu notar, mas se esforçava
fortemente para não retribuir o olhar.
Sorri de lado quando vi quão nervosa ela ficou ao perceber que o único local restante era na minha frente. Rapidamente ela se sentou, mas
antes que eu pudesse fazer alguma coisa, a professora entrou na sala já dando ordens para que nós abríssemos uma página qualquer do meu
travesseiro. Hora da soneca!
- Acorda, ! – me cutucava com violência no ombro. Quem
ele pensa que é pra me acordar desse jeito? Rolei os olhos bufando ao mesmo tempo. Olhei em volta, a sala já estava vazia. Digo, não havia
mais ninguém à não ser os pertences dos alunos. Como um flash a idéia apareceu na minha cabeça, e eu olhei mais uma vez em volta para
saber se estávamos mesmo sozinhos da sala – O que você está tramando?
- Você viu aquela garota que entrou com o nessa aula? – Olhei para sua bolsa branca com
grandes bolas pretas. Eu estava realmente tentado a abrí-la.
- A gostosa? Claro que eu vi! – Ele deu de ombros – Que alma masculina nesse colégio não viu? O que o
tem que atrai essas meninas?
- Elas têm pena dele, só pode – Falei numa voz tediosa, mostrando a ele que aquele assunto, naquele momento, era irrelevante. Numa
fração de segundos já estava abrindo sua bolsa à procura de sua carteira. Eu simplesmente tinha que saber o nome daquela garota.
Achei o que eu queria dentro de uma carteira lilás da Kipling, sua identidade era brasileira, identifiquei apenas pelas duas letras
BR que estavam no canto, eu não entendia nada daquela língua, mas pude ver seu nome. Devolvi tudo para onde estava e me virei para o meu
melhor amigo que me fitava curioso.
- .
- Que tipo de nome é esse? – Ele franziu o cenho. Eu sei, o nome é estranho mesmo, pelo menos para nós, ingleses.
- Brasileira – Falei com um sorriso malicioso no rosto, que foi retribuído. Eu sei da fama das brasileiras, apesar de
não ser nada parecida com as brasileiras que vemos na TV. Ela era menor que a maioria das garotas
da nossa classe, mas sua pele era igualmente branca, como uma inglesa geralmente é. Mas ela não era uma inglesa, ela é uma brasileira,
o país das praias, do carnaval e do futebol – Vamos sair logo daqui – Rapidamente segui para a quadra onde teríamos aula de educação física,
e já estávamos atrasados. Eu deveria honrar pelo menos a única matéria que eu consigo passar por mérito próprio e não colando de nerds que
sentam ao meu lado.
- Aí está a estrela – O treinador de futebol do colégio, que é também nosso professor exclamou sorridente assim que me viu entrar pela
porta da quadra interna. O primeiro dia de aula nunca tinha jogos, e sim uma dinâmica para que conhecêssemos os alunos novatos. Normalmente
eu diria que odiava essas dinâmicas, mas hoje em particular eu estava interessado em conhecer certa aluna.
- Treinador! – Dei um breve abraço nele e segui para a arquibancada onde já estavam os outros alunos,
fez o mesmo.
- Acho que estamos todos aqui – Ele falou passando os olhos pela prancheta que estava em sua mão – Eu tenho uma informação aqui que
temos dois alunos novatos, onde estão?
levantou-se delicadamente e desceu com cuidado os degraus da arquibancada. Ela era diferente,
não era uma típica brasileira com o corpo modelado por Deus, ela era normal, mas ao mesmo tempo linda, tinha uma beleza que menina nenhuma
conseguiria nem se passasse duas horas num espelho passando todos os tipos possíveis e imagináveis de maquiagem, ao contrário, aquela à
nossa frente, usava apenas um lápis de olhos, penso eu, ninguém possuía toda aquela intensidade nos olhos sem um toque de maquiagem. Outro
garoto a acompanhou.
- Muito bem, como é seu nome, menina?
- – Ela deu de ombros, seu olhar era de tédio. Estava mais interessada nas pinturas da parede
do que naquela conversa com o treinador.
- Mas que nome dife...
- Estranho, eu sei, já é a milésima vez que dizem isso. Eu sou brasileira, ok? – Rolou os olhos de forma debochada. Todos os alunos
ao meu redor olharam rapidamente para o treinador.
Quem estudava ali a um bom tempo sabia das regras de um relacionamento amigável com o treinador Williams. Era mais como um... O que
não se deve fazer. Regra número um: Nunca interrompa o técnico. Mas a garota não pareceu se importar muito com a expressão furiosa
lançada a ela.
- A senhorita está com algum problema? – Ele perguntou com a voz um pouco mais grossa do que era de costume. Quem era do time de
futebol, como eu, , Adam e Jeremy, sabia que aquele era o tom de voz que sucedia uma bela de uma
bronca, mas não acho que era o caso. O treinador é daqueles homens durões, mas que logo amolecem quando vêem uma mulher. Homens assim não
vão para frente. Acorda! Somos todos iguais perante a lei, estou certo?
- Além de largar a minha cidade no Brasil para vir morar nesse fim de mundo? Bom, tirando isso... Minha vida está perfeita – Ela riu.
Riu! Regra número dois: Nunca ria do treinador. Ria com ele.
- Talvez algumas horas na detenção a ajudem a mudar de opinião quanto à nossa digníssima cidade! – Ele escreveu naquele papel, que eu
tanto conhecia, o nome e sobrenome da garota, seguida pela infração cometida e duração do castigo.
Infelizmente, para ela, o castigo é bem ao lado do campo onde treinamos futebol. E eu não iria querer ser ela na saída do castigo
quando o treinador Williams for dar um de seus discursos tradicionais de como os professores mereciam respeito porque dedicavam suas
vidas a instruir alunos, blá, blá, blá. Eu já conhecia aquele discurso de trás para frente. Além de ter ouvido dele no meu primeiro dia
de aula do ensino médio – claro que, logo após a minha entrada no time, ele passou a me idolatrar, desde então aquela merda que chamavam
de time passou a ganhar. E eu não acredito em coincidências –, eu o ouvia toda vez que algum infeliz ia para a detenção por causa dele.
- Obrigada, treinador – Ela arrancou o papel da mão do treinador e voltou para seu lugar na arquibancada. Encarei-a quando passou por
mim, mas não fui retribuído.
- E você? – Ele chacoalhou a cabeça provavelmente tentando livrar a garota de seus pensamentos.
- Me chamo .
- Daqui da Inglaterra ou você também foi jogado nesse fim de mundo? – Perguntei alto fazendo todos rirem. Menos . E o tal do . E, é claro, o
.
- Sou da Inglaterra mesmo – Vi que ele rolou levemente, quase imperceptivelmente, os olhos na minha direção. O encarei divertidamente. Assim
como todas as garotas novas dali caiam aos meus pés... Garotos novos facilmente começavam a me odiar. E eu gostava daquilo! Já ouviram
falar em “falem bem, falem mal, mas falem de mim”? Se aplica perfeitamente à minha vida. Eu era assunto toda noite e dia.
- Muito bem, bem vindo à turma.
assentiu e voltou para a arquibancada, sentando lá no fundo, sem ninguém por perto, pelo menos
não alguém que merecesse que eu decorasse o nome. Nunca fui bom de nomes, mas também não me esforço para decorá-los.
- Alguns avisos... – Williams buscou algum outro papel que estava em baixo da lista que continha os nomes dos alunos – Os testes para
os times começarão hoje, os horários estão fixos no quadro de avisos que fica no corredor principal... Bom, os testes para o meu time se
iniciam na quarta, às quinze horas. Estes horários estão também no plano de aula que recebem junto à matrícula e... – Blá, blá, blá, nada
mais que me interessasse ali.
se inclinou mais para perto de mim e fez alguns comentários sobre as pessoas ao meu redor que
fez a mim e o resto dos garotos rir. A cada cinco minutos eu olhava no relógio esperando o fim da aula. Ainda iria demorar, parece que
aquele dia o treinador não teria tanto a nos falar que buscava assuntos de onde não viria. Dez minutos antes do marcado, ele nos dispensou.
Fui andando na direção do jardim de trás, já que teria alguns minutos de folga antes da próxima aula, tinha que passar o tempo de uma
maneira mais útil do que ficar ouvindo Jeremy e Adam criando piadas sobre os otários do colégio. Deitei-me na grama, fechei meus olhos e
não demorou mais do que dois minutos para que eu entrasse no completo limbo. A única coisa que me lembro é de acordar com umas cotoveladas
no meu abdômen, já estava pronto para socar o idiota que me tirou do sono quando vi o par de olhos azuis me olhando e sorrindo.
- Bom dia, idiota! – Ela me deu um beijo na bochecha e rastejou um pouco para trás, a fim de encostar-se na árvore.
- Obrigado por me acordar – Falei sorrindo de lado. Ok, depois da minha mãe, é a segunda pessoa com quem eu não consigo ficar
realmente irritado por motivos banais.
- De nada – deu de ombros.
chegou segundos depois e sentou-se ao lado da garota dando um beijo em sua bochecha. Sentei-me
também fazendo-a ficar entre nós dois.
- Como foram as férias de vocês? – Ela perguntou.
- Normal – Eu e murmuramos ao mesmo tempo, quase num movimento combinado ou ensaiado.
- Ah, mas esse babaca que você chama de melhor amigo fez questão de largar a mim com aqueles dois idiotas para ficar com a namorada –
foi tratando logo de reclamar, eu sei que aquilo estava entalado na garganta dele, e era
sempre quem recebia as reclamações. Mas de quem era a culpa se eu tenho uma namorada para me ocupar e ele tem dois marmanjos puxa-saco?
- Foda-se – Dei de ombros – Quando você chegou?
- Hoje de manhã... Por isso faltei as primeiras aulas – Ela tirou do bolso de seu short jeans escuro um chiclete e jogou na boca numa
fração de segundos – Você ainda está com a Carly? Cara, esse é o seu recorde, quanto tempo faz?
- Não sei – Rolei os olhos – A garota é um saco.
- E você está com ela porque é um babaca. Vocês se merecem, .
- Ela é boa – Sorri cinicamente, mas riu verdadeiramente. É por isso que ela é minha melhor amiga, não liga para as merdas que
eu faço, que são muitas, e muito menos julga.
- Olha ela ali – , que estava olhando para a fonte a uns dez metros de onde estávamos, falou.
Acompanhei seu olhar esperando ver Carly com os cabelos exageradamente pintados de vermelhos, sorrindo numa simpatia artificial. Mas ao
invés disso vi acompanhada de , ele apontava para os
lados mostrando, provavelmente, o colégio.
- Quem é essa? – perguntou.
- Uma aluna nova – Respondi, sem demonstrar muito interesse, mas eu mesmo me contradizia quando não tirava os olhos da brasileira.
- Ela chegou do Brasil e o está obcecado por ela –
riu baixo me irritando.
- Eu não estou obcecado por ela.
- Está sim – Dessa vez foi a menina que respondeu – E olhe com quem ela está andando... O .
- Cala a boca, – Cutuquei-a.
- Só estou falando, – Levantou as mãos para alegar inocência – O que eu quero dizer é que se
você quiser “alguma coisa” – Fez aspas com a mão – com essa menina, vai ser mais difícil com o no meio.
- Cara , me diga uma garota que eu nunca consegui – Arqueei uma das sobrancelhas, riu
parecendo concordar comigo.
- Você tem razão – Ela riu.
O sinal tocou e fomos para a sala de aula.
Como capitão, eu era o único integrante do time que precisaria ficar para o primeiro treino. O treinador Williams iria fazer a seleção
para os novos jogadores do time, já que havia ficado desfalcado com os alunos que se formaram no fim do ano passado. Percebi que o novo
aluno, estava entre os garotos que estavam disputando pelas
vagas no time. Algo me dizia que era nele que eu tinha que ficar de olho.
O treinador deu algumas ordens para testar as habilidades dos garotos. Eles claramente podiam ver a diferença do treinador na quadra
durante o horário de aula, e no campo, pelos olhares que lançavam quando recebiam alguma reclamação na base dos gritos. Eu apenas sorria
de maneira superior. Já havia passado por isso há três anos.
Em alguns momentos recebi um olhar que tomei por um desafio, este vindo do garoto novo... .
- O que você achou? – O treinador virou-se para mim, quebrando o contato visual que eu mantinha com o menino.
- Sobre o quê?
- Sobre esses garotos...
- Aqueles dois ali são bons – Apontei com o queixo para quem eu me referia.
- Eu gostei daquele garoto novo.
- Eu acho que podemos arrumar melhor – Dei de ombros. Não iria aceitar alguém do meu próprio time me desafiando. Todos ali deveriam
estar aos meus pés como os que já estavam nele.
- Vou colocar ele no time! – Puxou uma caneta do bolso de trás da calça e anotou o nome do garoto na prancheta que segurava. Eu e meu
poder de invisibilidade nas horas erradas.
- Treinador, não pode colocar esse...
- Minha decisão é final, – Ele disse firme. Sem nem olhar para mim. Dei as costas e saí
do campo. Se a minha opinião fora irrelevante até aquele momento, seria irrelevante durante o resto do treino. Eu não poderia simplesmente
lavar as minhas mãos e deixar meu time decair, se o treinador queria deixar qualquer um entrar no time, caberia a mim selecionar quem
sairia dele.
Fui andando na direção dos corredores que rodeavam o campo de futebol. Finalmente me lembrei da detenção da novata brasileira quando
a vi saindo da sala com um livro na mão, lendo distraída. Sorri comigo mesmo apressando o passo e parando bem em frente à garota. Alguns
milímetros antes de bater em mim, ela levantou o rosto com a expressão um pouco assustada. Sorri.
- Posso ajudar?
- Não vá naquela direção – Apontei com o polegar para trás, para o caminho de onde eu tinha vindo.
- E por que não? – Ela me contornou procurando algum problema pelo corredor, mas - óbvio - não havia nada.
- O treinador está lá, não vai querer topar com ele e seu discurso de primeira vítima do ano.
- Achei que você fosse o cachorrinho do treinador Williams! – Ela sorriu cinicamente.
- Achei que os brasileiros fossem calorosos – Devolvi o sorriso que ela me lançou.
- Bom, isso mostra que você não sabe de nada.
- Tanto quanto você – Passei o polegar por sua bochecha. Ela se arrepiou com meu toque – Eu mando nessa escola, docinho.
- É, conheço seu tipo – Com delicadeza ela puxou minha mão que estava no seu rosto – Por que quer me poupar?
- Você é bonita – Dei a ela o meu melhor sorriso, que eu sabia que derretia qualquer garota. Ela pareceu estremecer um pouco, mas não
derrubou sua aparência de impenetrável.
- Eu não sou como as bobinhas dessa cidade, – Arqueou uma sobrancelh. – Não caio nas suas.
- Você sabe meu nome – Sorri superiormente, então já haviam falado de mim para ela. , talvez?
- As pessoas dessa cidade têm outra coisa pra falar a não ser idiotas que conseguem se destacar no colégio?
- É muita gentileza sua, , mas... – Fui interrompido.
- , procurei você o dia todo – Carly saiu de algum canto desconhecido com o uniforme de líder
de torcida, que, particularmente, a deixava mais gostosa que o normal – O que você está conversando com essa aí, amor? – Perguntou ao se
pendurar em meu pescoço, e olhar para . Era a velha demonstração de posse.
Carly sabia que não era única na minha vida, mas o simples fato de poder dizer que era a minha oficial já era grande coisa para
ela.
- A capitã das líderes de torcida e o capitão time de futebol, é, eu estou mesmo no interior da Inglaterra – riu falsamente, sem nenhum divertimento. Eu estou começando a achar que ela realmente
tinha problemas. Qual? Não sei.
- Meu assunto aqui está terminado – Resolvi ignorar a brasileira e me virei completamente para minha namorada – Já terminou aí? –
Coloquei as duas mãos em sua cintura e o nariz em seu pescoço, que fez com que ela arrepiasse bruscamente.
bufou e voltou pelo caminho que saiu, quando a olhei pelos cantos dos meus olhos.
- Ainda não – Carly me respondeu mordendo seu lábio inferior.
- Então a gente se vê mais tarde – Dei uma mordida de leve na parte inferior de seu ouvido e me dirigi ao estacionamento do colégio.
Vi com um dos braços dentro da bolsa um pouco maior que de costume, provavelmente procurando
as chaves do carro, passei a poucos milímetros, quase encostando meu ombro esquerdo no ombro direito dela, fazendo-a cambalear pelo susto. Ri alto.
- Você é um babaca, .
- Não é preciso muito tempo para tirar essa conclusão sobre mim – Falei sem nem me virar, não que eu precisasse para saber a cara
enfurecida que estava fazendo.
– Au revoir.
Busquei em meu bolso as chaves do carro e entrei no Tucson que minha mãe havia comprado no meu último aniversário.
Era questão de poucos minutos até chegar em casa. Moramos perto do centro da cidade, uma vez que a família da minha mãe possui alguns
restaurantes que vínhamos herdando desde algumas gerações passadas, e eles necessitam de fiscalizações diárias, feitas pela minha mãe, por isso precisávamos morar perto.
Entrei em casa a procura de alguma alma viva. A esta hora, Ammy provavelmente estaria no balé, Liam no trabalho, então, só restaria a
minha mãe. Não havia ninguém na cozinha, onde diabos ela havia se metido? Alguns minutos depois e só o que consegui ver no andar de baixo
foram as duas empregadas e o jardineiro. No andar de cima então pude ouvir vozes, não muito altas, entretanto. Elas vinham do quarto da
minha mãe. Por uma brecha pude ver e ela conversando sentadas na cama.
As duas sempre foram amigas, a Sra. nunca foi muito presente, ela trabalha na prefeitura com o Sr. , o prefeito. A
minha mãe foi uma figura materna para a quando seus pais se ocuparam. Antes disso, nossas mães costumavam ser melhores amigas,
mas algo aconteceu que nem eu nem a nunca soubemos o que era. Em certo momento a Sra. chegou até a me proibir de ver minha
amiga. Bom, Sra. , nem minha mãe consegue me controlar! Deu pra perceber que nunca nos separamos, certo? Enfim, a questão é que
nunca apareceu para falar com a minha mãe enquanto eu estava fora.
- Você vai contar para ele? – Minha mãe perguntou. Por alguma razão, ao invés de bater na porta, como eu pretendia fazer, resolvi
escutar do que se tratava, dando um passo para o lado para sair da visão delas pela brecha da porta.
- Eu não acho que ele vá entender – respondeu. Ele quem? Ela estava chorando?
- , você é a única garota pela qual ele se importa nesse mundo, você precisa contar – Estavam falando de mim? Contar o quê? –
Você sabe como ele é, vai ficar muito irritado se souber por outra pessoa.
- Eu acho que ele pode esperar um pouco, certo? – Ouvi o barulho do edredom se mexendo, me alertando que alguém tinha se levantado.
Comecei a andar na direção do meu quarto, a última coisa que pude ouvir foi:
- Boa sorte, querida.
- Obrigada, Meredith.
Não me dei nem ao trabalho de fechar a porta do meu quarto, eu sabia o que viria a seguir. Apenas me sentei na cama com aquele
pensamento idiota de que estavam escondendo alguma coisa de mim, e isso me irritava profundamente. Não há muitas pessoas em quem eu
confiava, mas ver que duas delas escondiam algo de mim não é lá o pensamento mais reconfortante, pelo contrário, me tira completamente do sério.
- ? – Ouvi chamando ao aparecer na porta. Eu apenas olhei para ela sinalizando que tinha
percebido a sua presença.
Uma das minhas maiores características quando se trata dos meus amigos é que eu não sei fingir. Eu posso ser o maior canalha com a
escola toda, e fingir que presto pra levar uma garota para a cama, mas o patético é eu não conseguir ser tão talentoso assim quando se
trata das pessoas ao meu redor, as mais próximas, principalmente ela. Eu não conseguia fingir que não tinha ouvido aquela conversa.
- Eu vou tomar banho – Falei simplesmente já andando para o banheiro, ela assentiu lentamente, provavelmente já percebendo o que
estava acontecendo, era por este e outros motivos que ela era minha amiga, era esperta, estávamos sempre na mesma página. Eu odeio
ter que explicar as coisas.
Fiz questão de demorar mais que o normal naquele banho. Quando já estava completamente sem roupa, girei o registro de água e regulei
a temperatura, deixando-o quente, e sem demoras mergulhei de cabeça na água que já caía pelo chuveiro. Confesso que demorei um pouco para
me dar conta que estava de fato tomando banho, e simplesmente foda-se se a água do mundo que estava acabando, eu tinha problemas
maiores que me preocupar com ela.
No meu quarto, estava sentada na cama, com Ammy à sua frente. Minha irmã mostrava para ela o que tinha aprendido na aula de
balé, bom, assim eu as vi quando saí do banheiro com uma toalha presa na altura da minha cintura. Franzi o cenho quando olhei para a
expressão no rosto da minha amiga, ela tinha água nos olhos. Parei para pensar no que diabos tinha acontecido de tão grave e eu me
preocupei, o que não é muito frequente, diga-se de passagem. Rapidamente peguei no closet uma calça moletom cinza e nem me incomodei de
pegar uma camisa. Pelo amor de Deus, era só a ali.
- Julie? – Chamei a babá da minha irmã, não demorou nem cinco segundos e ela já estava na minha porta.
- Chamou? – Julie era uma garota que estudava no meu colégio também, minha mãe a contratou antes das férias e ela terminou ficando
com o trabalho. Ela era daquelas garotas sem vida social, era bonita, e muito, mas era sem graça demais para eu perder meu tempo,
resumindo, eu posso arrumar melhor. Vi que ela demorou um pouco o olhar na área do meu abdômen, o que me fez rir. Ela corou.
- Pode pegar a Ammy?
- Claro. Vem, Amms, vamos tomar banho, sua mãe falou que você só vai poder comer o pudim depois do banho! – Ammy correu para os
braços que a garota estendia e elas saíram segundos antes da porta ser fechada por mim. observava cada movimento meu.
- Você tá cada dia mais gostoso, – Ela falou simplesmente. Eu ri, relaxando completamente e me
sentei ao lado dela, que ria também.
- Você vai me dizer o que está acontecendo ou eu vou ter que adivinhar? – Eu perguntei sem nem esperar ela fechar o sorriso, o que, claro, ela fez assim que ouviu a pergunta que eu havia feito.
- O quê?
- A conversa que você estava tendo com a mãe agora, você vai me contar ou não? – Arqueei uma sobrancelha analisando a reação dela, seu braço que estava encostado no meu, estremeceu fortemente. Ela estava nervosa. A coisa deveria ser mesmo grave, era só eu , eu poderia ser motivo dos temores de muitas pessoas, mas não dela. Mas por alguma razão essa regra não se aplicava naquele momento, o que me deixava mais intrigado.
- Eu sabia que você tinha ouvido, estava escrito na sua testa... Quanto você ouviu?
- Eu ouvi que você tem algo para me contar. E por algum motivo decidiu contar para a minha mãe antes – Falei, irritado.
- Você vai entender o porquê de eu ter falado com ela antes, eu acho... – Ela mexeu os seus dedos das mãos, eu segurei uma delas, forçando-a a olhar para mim – Eu preciso que você não pire, ok?
- Não me dê motivos para pirar...
- Prometa , por favor.
02.
- Promet...
- Eu estou grávida – Ela falou rápido sem nem me esperar terminar de falar.
Fiquei alguns – incontáveis – minutos sem me mover. Não tem como, é impossível. Justo a ? Não tem nem cabimento, não tem lógica. , minha melhor amiga, a garota que insiste em tenta colocar juízo na minha cabeça, mesmo contra a minha vontade. Justo ela? Não, aconteceu algum engano, eu ouvi errado... É, só pode ser isso, quem está com problemas sou eu, e são problemas de audição.
- Fala alguma coisa, ! – Ela explodiu depois de muito tempo.
- O que você quer que eu diga? – Esbravejei soltando a mão dela.
- Você prometeu que iria manter a calma, – falou com a voz falha. É preciso muito pra fazer chorar, ela não é daquela garotas frágeis e sensíveis, mas eu estava prestes provocar este lado nela.
- De quem é? – Perguntei ignorando o que ela tinha dito. Eu estava com raiva, e muita. Eu precisava saber quem era o idiota que tinha acabado com a vida dela. Porque eu sei o que eu tinha feito na vida da minha mãe, que agora, aos trinta e quatro anos está feliz de verdade pela primeira vez. E eu definitivamente não iria aceitar que esperasse esse tempo todo para que a felicidade aparecesse.
- Eu não vou contar para você – Ela franziu as sobrancelhas como se fosse óbvio.
- Não vai? – Ri cinicamente.
- Eu não vou permitir que você vá socar o garoto, esse problema não é seu – Ela se levantou, me enfrentando pela primeira vez na discussão.
- Eu não ia...
- Ah, não? – Ela rolou os olhos, sorrindo da mesma maneira que eu tinha feito antes – Eu conheço você, .
- Ele não vai assumir, não é? – Aquele pensamento foi passando pela primeira vez em minha cabeça. Por que outro motivo ela esconderia o pai daquele bebê se não fosse isso? Se a situação fosse contrária, eu descobriria quem é o garoto mais cedo ou mais tarde. O sangue todo subiu para a minha cabeça, me deixando completamente irritado quando apenas encolheu os ombros.
- Não.
Toda a minha vontade era de voar no pescoço de alguém, meu corpo tremia e meu punho fechou, pedindo para ser atirado contra o nariz de alguém. Porém, meus instintos foram todos por água abaixo quando levou suas duas mãos ao rosto e começou a chorar desesperadamente.
Uma coisa é fazer chorar, outra é ver chorando. Realmente mexe comigo. Nenhum cara gosta de ver uma garota chorando. É completamente diferente levar uma garota para a cama e não ligar no dia seguinte, as mais espertas aprontam uma com você, as mais bobas choram, e ainda assim, não nos importamos com elas.
Sem saber o que fazer, eu comecei a olhar para os lados procurando uma caixa de lenços, mas nada. Vagarosamente, tirei as suas mãos do rosto e enxuguei suas lágrimas com meus dedos polegares, em seguida puxando-a para meus braços. Ela afundou o rosto no meu peito colocando para fora, durante alguns minutos, o que estava preso dentro de si.
- Pronto? – Perguntei assim que ela se afastou de mim. Ela assentiu enxugando o rosto.
- Desculpa – Ela disse.
- Por quê?
- Eu sei que sempre faço aquele discurso sobre responsabilidade para você e o e...
- Esquece isso, – A puxei para perto de mim novamente. Toda a raiva de antes já havia sumido – Deveria ser um de nós dois no seu lugar, por mais que eu não queira isso, nós merecemos mais que você.
- Ainda assim, sou eu que estou nessa... – Ela se soltou e deitou-se na minha cama. Colocou o braço ao lado num chamado mudo para que eu me deitasse com ela. Obedeci.
- Você tá grávida de quanto tempo?
- Dois meses – Ela deu de ombros – Eu descobri enquanto estava na Suíça.
- E os seus pais?
- Duvido muito que eles notem tão cedo – apoiou a cabeça no meu peito, e com o meu braço, eu a aconcheguei ali mesmo. Qualquer um que visse de fora provavelmente pensaria que somos um casal apaixonado, mas para os que já nos conhecem, é óbvio que a química sexual ali não existe – E quando eles notarem vão me colocar para fora, eu sei disso.
- Sua família de verdade mora aqui, .
- Eu não posso trazer um bebê pra morar aqui, .
- Pode sim – Eu disse simplesmente.
Ela olhou para mim e sorriu. Sorriu agradecida. Eu não sei se mereço toda essa gratidão. Não estou bem apoiando porque quero apoiar, apoio porque preciso dela, e preciso que vê-la sorrindo para poder sorrir também. E eu gosto de ser o único em sua vida que pode provocar isso, que pode mudar seus sentimentos. Talvez seja por isso que nunca me dei bem com nenhum dos namorados dela. Sempre fomos só nós dois, sempre nós dois contra todo mundo. Não tem espaço para outra pessoa. É, bem, agora terei que arranjar espaço para mais um entre nós dois. Em sete meses esse espaço teria que aparecer.
apagou em meus braços, mas ainda estávamos no meio da tarde, e a quantidade que eu havia dormido durante as aulas não me daria um privilégio de um cochilo de, nem mesmo, alguns minutos. Levantei-me sentindo tudo rodar ao meu redor. Fui até o closet, coloquei um jeans escuro, uma camisa básica, tênis e pus um moletom por cima. Peguei as chaves do meu carro na mesa onde estava meu notebook e saí do quarto.
Quando passei pela cozinha, vi de relance Ammy com Meredith comendo e se lambuzando de pudim de chocolate. Não pude evitar imaginar que em três anos poderia ser a sentada naquele mesmo balcão com o filho ou a filha dela e, mais uma vez, senti uma tontura. Antes de sair, ouvi minha mãe me chamar, mas já sabia do que se tratava, e não estava a fim de conversar sobre esse assunto.
A princípio, a idéia era ir ao Connaught Park com meu carro, mas andar parecia vir à melhor calhar. O parque não é distante, tranquilamente poderia ir a pé. O sol não estava mais tão forte, então não me incomodei em buscar meus óculos escuros no carro.
O parque estava ainda um pouco cheio, aquele era o horário que as babás e as mães donas de casa traziam as crianças para brincarem. Preferi me manter afastado de tudo aquilo, indo direto para o gramado mais distante, e me deitando lá.
Geralmente, eu vou naquele parque para pensar, ele é anormalmente grande, e com muitas árvores, chegando até ser um exagero, mas pelo menos traz um pouco de tranquilidade. Havia muito a se pensar. Minha melhor amiga grávida, minha namorada que eu já havia me cansado e o treinador que agora decidiu popularizar o futebol lá no colégio deixando qualquer otário entrar, ao que parece qualquer perna-de-pau que quisesse entrar, conseguiria, provavelmente até o , se tentasse. Aí sim, seria a desgraça completa do time.
Senti o sol sumir, e estranhei pela maneira brusca como isso aconteceu, abri os olhos dando de cara com uma das pessoas que eu menos queria ver.
- Problemas no paraíso? – arqueou uma sobrancelha, eu sentei para encará-la, mas nem me dei ao trabalho de responder – Deixe-me adivinhar... Acabou o seu gel de cabelo. Ah, não, você não parece do tipo que usa gel... Hm, o seu perfume super caro se popularizou, acertei? – Mantive minha expressão séria, apesar de querer mais do que tudo rir sarcasticamente daqueles comentários. Ela não sabia o quanto estava errada.
- O fato de você dar esses palpites mostra que você age como se soubesse de tudo, mas não sabe de nada – Me levantei a fim de ficar alguns, muitos centímetros mais alto que ela, ambos mantivemos o olhar um sobre o outro. Eu mostrava que não me importava com cada mísero comentário que ela fazia e fingia que acreditava. Ok, então.
- E você age como se todas quisessem você, mas não é verdade – Ela arqueou as sobrancelhas me desafiando.
- Nunca tive esse problema – Ri.
- Tem sempre uma primeira vez – Ela bufou, me fazendo rir mais ainda.
- ? – Ouvi uma voz atrás de mim, não me virei, quem quer que fosse apareceria na minha frente para dar força a amiguinha. As pessoas daquele colégio conhecem certas características minhas. É mais como um manual de sobrevivência, saber pelas minhas expressões quando não interromper meu caminho, quando não falar comigo, quando eu estou dando a uma pessoa o trato que ela merece.
apareceu ao lado da garota, me fazendo rir alto. Claro! O rei dos perdedores.
- Algum problema? – Perguntou ele.
- ... – Falei de forma debochada, o fazendo girar os olhos – Devo dizer que arrumou um ótimo amigo, .
- Eu soube disso assim que conheci você – Mantive o sorriso tranquilo no meu rosto.
Quando as pessoas parariam de tentar me fazer sentir mal pelas coisas que eu faço? Eu não tenho consciência, isso já é fato consumado, acabou.
Coloquei minhas duas mãos dentro do bolso único do meu moletom.
- Algo mais? – Perguntei. Mas antes que ela pudesse dar uma resposta que equivalesse à irritação que emanava dos seus olhos, ouvi o som de Mr. Brightside. Era meu celular. Sem me preocupar em pedir licença, como minha mãe sempre me ensinou, atendi o celular. Se ainda não notou, educação eu recebi, e muita, mas colocá-la em prática é algo que vai contra meus instintos, ainda mais quando se trata de pessoas como aquelas à minha frente.
- Que merda é essa? – Ouvi a voz de antes mesmo de eu ou ele dar um mero “alô”.
- Quê? – Perguntei já irritado. Não era meu melhor dia, ou melhor momento para ficar de embromação no telefone.
- me ligou. Ela me falou tudo. Porra. – Ele gritava do outro lado, me fazendo afastar o aparelho do meu ouvido. Era essa a reação que eu esperava do meu amigo. Na verdade, aquela era minha exata reação por dentro, que eu fiz questão de esconder dela.
Naquele exato momento, o rosto de olhando para mim com deboche não ajudava muito o meu controle de raiva. Mas que graça tinha socar esse otário sem ninguém para ver?
- Pára de gritar, porra. O que te contou? – olhou para mim mais atentamente, e eu arqueei uma sobrancelha, assim, ele desviou.
- Que está grávida, por quê? Tem mais? – Se era possível, ele aumentou mais ainda o tom de voz, o que me fez bufar de raiva. Custa colaborar comigo?
- Eu quero saber quem foi o idiota, seu imbecil – Medi as palavras para as duas pessoas à minha frente não suspeitasse do que estávamos falando. Cedo ou tarde todos descobririam, mas não seria pela minha boca. Principalmente porque eu vi certo interesse extra vindo do otário, que eu tiraria a limpo assim que desligasse o celular. Aquilo me acordou para uma coisa que estava na minha cara há anos, como eu nunca tinha percebido?
- Ah, isso... Não, ela não me falou nada. – Finalmente... Finalmente ele decidiu normalizar a sua voz.
- Foda-se, ela vai me contar uma hora de qualquer jeito – Ele concordou logo em seguida e desligamos.
Estava fora de casa por pelo menos duas horas, não tinha percebido até aquele exato momento enquanto as luzes do parque iluminavam o rosto de , deixando-a particularmente mais bonita. O que eu estava pensando? Fechei meus olhos com força a fim de espantar completamente aquele pensamento e me virei pro garoto.
- Há quanto tempo você gosta da ? – Perguntei sem rodeios. Vi seu rosto mudar de cor em uma fração de segundos. Ficou verde, roxo, branco, e muitas outras cores que eu não perderia tempo citando.
Bingo!
olhou para ele surpresa.
- Tá maluco? – perguntou me fazendo gargalhar alto.
- Encoste em apenas um mísero fio de cabelo dela e você entender o que realmente significa “quebrar a sua cara” – Me aproximei dele puxando-o pela gola da camisa, mas ao contrário do que eu esperava, ele não recuou.
- Você tem pessoas incríveis ao seu redor e a única coisa que você pensa é em você mesmo. Você é um idiota, – Ele disse num tom de piedade, que me irritou profundamente – Que foi, não vai me bater?
- Ele não consegue sem a gangue dele por perto, – riu falsamente. Virei-me para ela, mas a garota não apagou o sorriso do rosto, como o resto das pessoas costumava fazer.
- Apenas apanhar não faz uma pessoa aprender, – Pisquei para ela – Humilhação, sim.
- Então é disso que você precisa, aparentemente.
- Talvez, mas ninguém tem coragem – Me afastei de .
- Ainda – Ela disse por fim. Sorri para ela deixando um “Vou esperar para ver” implícito. Dei as costas e andei na direção da saída do parque.
Vi Dustin, um dos garotos do time, encostado na pilastra há poucos metros de onde eu tinha acabado de estacionar meu carro, fez uma enorme cara de poucos amigos assim que me viu. Chegou perto numa fração de segundos, me fazendo franzir o cenho.
- O que aconteceu? – Ele perguntou.
- O que aconteceu, pergunto eu! – Arqueei uma sobrancelha impacientemente.
- Como você deixou o Williams colocar o no time? – Abriu os braços, estava indignado e aumentando o tom de voz.
- O que você quer que eu faça? – Falei no mesmo tom de voz, que fez abaixar a guarda, se encolhendo – Quer que eu o puxe pelos cabelos mandando ele não colocar o no time e assim eu ser expulso?
- Você costuma conseguir o que quer dessa maneira – Ele disse baixo esperando que eu não escutasse, mas, para a sua infelicidade, eu escutei. Puxei-o pela camisa da maneira que fiz com no outro dia, mas ao contrário do outro otário, este se intimidou. A meu ver, eles estavam esquecendo quem mandava naquela merda afinal de contas.
- Eu posso encher a cabeça dele para colocar o na sua posição – Falei. Ele negou com a cabeça apreensivamente. Ele sabia que eu conseguiria – Você está esquecendo que eu sou , Grey, e os dias desse cara no meu time estão contados – Soltei o garoto e vi se formar em seu rosto um sorriso maldoso que os garotos estão acostumados a me lançar assim que eu anuncio um novo plano, na maioria deles relacionado ao time.
- O que você quer que a gente faça?
- Espere – Sorri e fui me juntar a que encarava as unhas tediosamente, me esperando do outro lado do carro.
Aquele tipo de situação é comum, e ela nem se dá mais ao trabalho de interferir, qualquer que fosse o problema, eles se resolveriam comigo. Ao menos que estivéssemos de quatro para um, como fazemos geralmente. Ela é a protetora dos fracos e oprimidos e já brigamos várias vezes por causa disso. Ela só não sabe que fazemos da mesma forma por suas costas. O que os olhos não vêem o coração não sente. Certo?
Vi nos esperando de longe, este também com cara de poucos amigos. Não era meu dia, parece que eu teria muitas moças de TPM para confortar. Rolei os olhos.
Para completar minha manhã perfeita, Carly apareceu na minha frente saltitando numa felicidade teatral, arrancando o sorriso de seu rosto quando viu meu braço direito passando pelos ombros de .
- Bom dia, Carly – Ela disse sorrindo docemente.
- Que seja – Rolou os olhos e se virou para mim.
riu baixo e se soltou de mim indo logo em seguida ao encontro de .
– , por que você não me ligou ontem? – Fez bico.
- Eu tinha coisas para fazer – Falei me esquivando dos braços dela que já vinham se pendurando em meu pescoço.
- Ah , não precisa ser grosso – Colocou as duas mãos em cada lado da cintura, numa pose inocente que nada me convenceu, lembrando-me dos dias que a tive na cama. O que ela estava tentando fazer, afinal? Garotas grudentas deveriam ficar trancadas até aprenderem a se relacionar como pessoas de verdade.
- Certo, o que você quer então, Carly? – Passei as duas mãos pelos meus cabelos, bagunçando-os mais que o normal. Respirei fundo, já impaciente.
- Eu quero ver você – Sorriu maliciosa ao se aproximar.
- Depois do treino – Finalmente deixei-a me dar um selinho. Aprofundei o beijo de uma forma que ela me deixaria em paz pelo menos pelo resto da manhã.
Dei as costas e comecei a andar na direção dos meus amigos. Senti os olhares das pessoas em mim e Carly, ri.
A poucos metros, falava sem parar, olhava incrédulo para ela, a expressão no rosto dele me fez rir.
- ... Vocês dois são grandes, eu posso usar roupas de você pra esconder por mais tempo – Ela terminou de falar gesticulando exageradamente com as mãos e depois olhou para esperando uma resposta.
- Você está bêbada? Por que você sabe que não pode beber, certo? – Ele arqueou uma sobrancelha me fazendo rir novamente e bufar.
- É por isso que eu gosto mais do , ele me entende – Ela virou os olhos. Olhei vitorioso para o meu amigo que agora possuía um misto de indignação e surpresa espalhada por todo rosto.
- Eu sabia! Eu sabia que você gostava mais desse babaca aí – Apontou para mim.
- Awn, eu estou brincando, bobão – Ela se pendurou no pescoço dele e logo após seguimos para a sala de aula.
Durante toda a manhã, setenta por cento do time veio tirar satisfações por eu ter permitido a entrada de no time. O cara não tem porte nem a moral que um cara deve ter para ser atleta no nosso colégio. Além disso, o diretor passou em nossa sala para anunciar a tradicional viagem que era realizada sempre no segundo fim de semana para algum hotel em uma cidade do condado. Este ano seria Sheerness. Eu sou obrigado a ir, como membro do time, ainda como capitão, tenho que representar, uma vez que outro colégio, de outra cidade do condado de Kent, também estaria lá, e é – também – uma tradição jogarmos uns contra os outros no que o nosso coordenador de esportes diz ser uma “competição saudável”, em minha opinião aquilo somente nos rendeu alguns rivais.
- Façam duplas – Treinador Williams ordenou enquanto ainda terminávamos de cumprir o último exercício que ele havia indicado. Alguns garotos vieram na minha direção, mas procurei com os olhos, o garoto já estava vindo até mim.
- Ele não é tão ruim – falou ao chutar a bola para mim. O treinador havia nos mandado treinar os chutes, era um aquecimento para os novatos pegarem o ritmo, bom, alguns deles não precisavam. Olhei de relance para , que treinava com um reserva.
- Durma com ele, então – Rosnei, fazendo o meu amigo abrir um pouco os olhos, surpreso.
- Ei, eu não estou dizendo que ele deva ficar no time, somos os melhores – Se saiu, levantando ambas as mãos, mas não me convenceu.
Eu não posso negar, o cara não é tão ruim. Mas por mais que eu queira o melhor para aquele time, que é uma das coisas à minha volta que eu ainda não havia estragado, eu não aceito um cara que não está inclinado a mim, assim como os outros. É como um pré-requisito para entrar no time, não obedecer a mim é intragável.
Quando eu achava que a minha semana não poderia piorar, o treinador coloca como titular, e, como se isso não já fosse o suficiente, iria partilhar comigo a posição de ataque, colocando o Dustin na defesa para preencher o espaço deixado por Carl, que se formou ano passado. Não preciso dizer que aquilo deixou o time completamente furioso. O que é dele está guardado, e agora não dependeria só de mim.
No fim do treino, corri para o vestiário a fim de conseguir fugir de mais jogadores irritados. Fazia algumas semanas desde que liberei minha tensão batendo em alguém. Com os acontecimentos recentes, a qualquer momento eu poderia explodir, fato consumado, mas a grande dúvida seria... Com quem.
Eu sentia um aperto dentro do peito, algo que eu nunca tinha sentido antes, se é que eu já havia sentido alguma coisa. Era algo... Altruísta? Um pouco hipócrita vindo de alguém como eu, e eu não estou disposto a adicionar “hipócrita” a minha lista de defeitos, que por acaso é extensa. Pela primeira vez, eu senti que não conseguiria me aliviar com um simples sexo e um fora no dia seguinte. Eu tenho a para isso. Minha vida é perfeita, sexo com todas e a que sempre estará ali por mim, para o que eu precisasse, meus problemas. Raramente me ocorre que ela também tem problemas. Ela estava com problemas naquele momento, e eu não tinha a quem recorrer, não poderia simplesmente falar dos meus problemas com o , é ilógico. Eu sei que os problemas não são exatamente meus. Talvez fosse um vazio de talvez perdê-la, de algum modo.
Já de banho tomado, cabelos molhados e devidamente bagunçados de um jeito que faz todas as garotas suspirarem, fui ao estacionamento. Antes de chegar ao meu carro, vi alguém que se tornava presença constante a todo lugar que eu iria. estava sentada acima do muro que delimitava o nosso colégio. Eu não poderia perder aquela oportunidade, claro. Cheguei por trás da garota e aproximei-me de seu ouvido direito, sussurrando:
- Quer uma carona, linda? – O susto foi tão grande que ela caiu de bunda na calçada da rua. Ri alto ao me inclinar para vê-la se levantando com uma cara furiosa.
- Imbecil – Passou as duas mãos, limpando os vestígios de poeira que ficaram em sua calça, e me encarou. Eu ainda ria.
- Quer carona, linda? – Repeti com um sorriso galanteador estampado em meu rosto. Ela pareceu ponderar minha proposta, o que me deixou surpreso.
- Meu tio está vindo me pegar – Rolou os olhos.
- Eu garanto que sou melhor que ele – Dei a volta saindo da escola ficando frente a frente com ela. Antes que ela pudesse emitir algum som, ouvi uma buzina surgida a poucos metros atrás de mim, olhei e vi um homem jovem chamando-a com uma das mãos. rolou os olhos e pegou seu material que também havia caído no chão.
- Tchau, – Falou mal-humorada ao passar por mim. O homem do carro me olhava atentamente.
Deveria ter mais ou menos a idade da minha mãe, me fazendo supor que, se ele fosse um velho morador de Dover, saberia da minha história, ou talvez tivesse estudado no colégio na mesma época e conhecido a minha mãe, pobre líder de torcida grávida. Era assim que as pessoas da cidade costumavam olhar para nós. Pobre Meredith , estragou sua vida para criar esse filho delinquente.
No começo, quando eu ainda era criança, todos me paparicavam, afinal, eu não tinha culpa, pobre criança, não tem culpa dos pais que tem. Eles pensavam que eu não entendia, mas eu nunca fui idiota, até quando pequeno, eu sempre entendia as pessoas, suas ações e reações. Com o tempo isso foi mudando. Os papéis se inverteram, agora eu sou o motivo da filha mais nova dos ter acabado sendo a única a seguir seus passos, enquanto o irmão mais velho estava no meio da ascensão de uma promissora carreira jornalística. Tudo uma grande merda para mim. O dia em me importar com o que essa socialite composta por donas de casas com suas vidas desgostadas, estarei bem longe dessa cidade.
- Ei, garoto – O homem me chamou e eu me aproximei, lançando-lhe o olhar superior e interrogativo que eu estava acostumando a lançar quando algum adulto chamava minha atenção – Qual é o seu nome? – Ele arqueou uma sobrancelha. O que eu havia dito? Todos me conheciam. Minha fama naquela cidade não dependia só dos campeonatos vencidos pelo time de Dover College, era algo natural. De certa forma, minha aparência chamava atenção. Segundo a minha mãe, eu pareço com meu pai, que assim como eu, foi capitão de um time, como na época o futebol ainda não existia no colégio, ele se dedicou ao hockey e o levou a grandes vitórias, e as pessoas da cidade viam naquilo a história se repetindo. Eu discordo. Odeio seguir os passos de alguém, eu traço o meu caminho, independente de qualquer pessoa.
- – Falei simplesmente. Ele pareceu analisar-me dos pés à cabeça, o que me deixou intrigado – Por quê?
- Por nada – Deu de ombros e ligou o motor do carro – Tenha um bom dia – Apenas acenei com a cabeça e dei as costas antes mesmo dele sair com o carro. Eu podia sentir os dois olhares saindo daquele carro direto em minhas costas. Não me incomodei e segui meu caminho.
03.
- Acabaram os hambúrgueres! – Fechei a porta do armário e encarei minha mãe que ajudava Ammy a comer alguns pedaços cortados de maçã – Que bom – Sentei em um dos bancos do balcão e sorri sarcasticamente. Não tem sentimento melhor do que estar com fome e a coisa mais comestível por perto são as maçãs babadas da sua irmã mais nova.
- Quantas vezes eu tenho que dizer para não andar pela casa só de boxers? – Minha mãe rolou os olhos. Resumi-me a bufar e deitar a cabeça nos braços esperando que por um milagre a comida caísse do céu bem na minha frente naquele momento. Sair de casa não era lá a melhor das opções depois de uma tarde inteira treinando e mais algumas horas no parque com e .
Liam entrou na cozinha e abriu a mesma porta do armário que eu tinha acabado de fechar e olhou para a minha mãe com o cenho franzido.
- Os hambúrgueres acabaram.
- Eu sei, eu vou repor a geladeira amanhã – Ela respondeu de forma tediosa, e eu me levantei para encará-la. Depois olhei para Liam e bufei pela vigésima vez desde que entrei naquela cozinha.
- Ei, ele também está de boxers! – Apontei para o meu padrasto que se sentou ao meu lado rindo. Rindo!
- Mamãe, eles estão me irritando – Ammy apontou um dos dedos para mim e Liam, fazendo todos rirem, inclusive eu.
- e Liam, coloquem uma calça e peçam comida – Meredith falou quando tirou minha irmã da cadeira e colocou o prato dela dentro da pia.
- O que você vai comer? – Liam a abraçou por trás e deu um beijo na sua bochecha. Rapidamente me levantei e me apressei para sair da cozinha para evitar ver a cena que viria a seguir. Nada melhor que ver um cara tocando na bunda da sua mãe no meio da cozinha.
- Pelo amor de Deus, vão para o quarto!
Ouvi o toque do meu celular no mesmo momento em que abri a porta do quarto, o tirei do bolso da minha calça que estava jogada no chão, perto da parede. Vi o nome Sue na tela, mas não me pareceu nada familiar.
- Sim?
- , como vai? – Ouvi a voz de uma garota, provavelmente da minha idade.
- Quem é? – Arqueei uma sobrancelha.
- É a Sue, querido – Fez uma voz de criança. Rolei os olhos. Já não bastava ter que aguentar as carências da minha namorada, tinha que aguentar as outras garotas também?
- Você vai ter que ser mais específica – Deitei na cama com a barriga para cima. Ouvi um muxoxo vindo da garota antes de voltar a falar.
- Líder de torcida ruiva.
- Ah, claro! – Passei as mãos no cabelo ao me lembrar que tinha ficado com essa garota no último fim de semana. Ela ainda não era líder de torcida na época, achei que se sentiria intimidada por eu ser namorado da chefe delas, após ela descobrir, claro, pois ter uma namorada não é algo de que eu me orgulho e saio contando para qualquer um. Mas aparentemente não havia intimidação nenhuma.
- Eu estava pensando aqui... Meus pais vão passar a noite na casa da minha avó e se você não tiver nada para fazer... – Apesar de uma noite com uma garota como ela não ser nada mal, ficar mais de uma vez é mal sim, cria laços de afeto que eu não quero alimentar.
- Sue, eu não acho que seja uma idéia muito boa – Falei simplesmente.
- Está com medo que a Carly descubra? Eu achava que você não tivesse dona...
- Eu não fico com uma garota duas vezes – Ri cinicamente, mesmo sabendo que ela não veria. Ela ficou em silêncio – Foda-se, me passa a bosta do endereço – Bufei quando ouvi um risinho vitorioso da garota. Eu precisava me aliviar de todo estresse e Carly estava chata e grudenta demais para suprir minhas necessidades.
Falei a minha mãe que iria sair, sem dar mais explicações, que também não foram pedidas. Apenas perguntou a hora que eu voltaria, bom... É uma ótima pergunta. Posso ser um tanto irresponsável pelas ruas, mas eu não sou de deixar minha mãe preocupada, um dos pré-requisitos para ter a liberdade de ir e vir que eu tenho.
Parei em frente a uma casa relativamente grande e, sem hesitar, desci do carro após estacionar em frente a ela. Ao seguir por um caminho de pedras com algumas flores bem cuidadas seguindo por sua extensão, finalmente fui atendido com um sorriso exageradamente açucarado.
- Você é rápido – Seu sorriso escorregou suavemente para o canto dos seus lábios, movimento que não passou despercebido pelo meu nível de testosterona que exponencialmente se elevava.
Silenciosamente colei sua testa a minha, juntei nossos lábios imediatamente e segurei na barra da fina blusa rosa bebê de seu pijama. Com uma de minhas pernas fechei a porta de entrada. Sue cortou o beijo e me fitou inexpressivamente.
- Rápido demais – Ela se desvencilhou das minhas mãos e andou na direção do sofá da primeira sala à vista, sentando-se lá fazendo um coque frouxo em seu cabelo. Bufei e fui me sentar ao seu lado.
A garota passou a me encarar novamente com o mesmo sorriso doce. Garotas têm uma irritante mania de achar que com um sorriso conseguem derreter meu “coração de pedra”, como a Carly o definiu alguns dias antes.
- O quê? – Perguntei após alguns segundos de silêncio.
- O que você quer fazer? – Como assim o que eu quero fazer? Está implícito quando está sozinho com uma garota de pijamas no meio da noite.
Aproximei-me, mas o único movimento que recebi em troca foi um selinho, e depois ela se afastou.
- Quer ficar abraçadinha e assistir um filme? – Coloquei minha voz em um tom já atrasado de sarcasmo.
- Carly parece estar deixando você literalmente na mão – Soltou uma risada debochada.
- Tem quem resolva este problema – Lancei a ela meu melhor sorriso e levantei – Se você também for seguir os passos dela posso arranjar uma em cinco minutos.
- Você atrai as garotas para si de uma forma incrível – Pôs-se de pé também e ficou de frente a mim. Com seus olhos à altura do meu queixo, ela elevou seus pés, apoiando-se nas pontas. E sinceramente pareceu que ela não ouviu nada do que falei – O que você está fazendo nesta cidade? – Selou seus lábios aos meus e jogou suas mãos em meu peito.
Pela segunda vez na noite, pus minhas mãos na barra de sua blusa, mas deixando levar para onde eu acreditava ser o quarto de seus pais. Ah, se eles soubessem.
Dei mais uma tragada no cigarro que já estava a pouco de se apagar. Tragava enquanto observava os pingos de chuva caírem pesados na grama da frente da casa. Por um segundo quase me esqueci de tudo, mas um abraço por trás e duas mãos em meu abdômen me trouxeram à realidade. Senti alguns beijos na altura do meu ombro direito.
- Você não vem para a cama comigo? Amanhã tem aula.
- Vou para casa – Apaguei o cigarro na quina do parapeito e me virei para buscar o resto das minhas roupas.
- O quê? – Sue pareceu um tanto decepcionada. É aí que entra a arte de não se importar. Sua decepção se transformou em tristeza quando o meu emocional não se abalou por sua fala mansa. Se eu não soubesse bem, poderia ter confundido sua voz com um gato – Estamos no meio da noite, !
- Não há nenhum motivo para eu ficar, Sue – Falei já vestindo minhas roupas. Ela não falou mais nada, apenas ficou me observando de forma pensativa.
Quando terminei tudo, me direcionei a porta do quarto sem dizer uma palavra. Ela me seguiu ao descer as escadas e chegar até a porta de entrada, mas, como eu já deveria imaginar, não me deixou sair sem dizer suas últimas palavras.
- Você deveria deixar a Carly – Falou simplesmente, embora aquela frase tivesse muito mais significado do que parecia. “Eu quero você.” “Você merece a mim, não a ela.” Blá, blá, blá.
- Concordo – Dei de ombros e abri a porta. Ela se pôs em minha frente, me deixando ainda mais impaciente para sair dali, e ainda mais sufocado.
- Então, você vai terminar com ela? – Uma chama de esperança nasceu nos olhos cor de mel da garota. Chama essa que eu teria que apagar antes que virasse um incêndio.
- Eu não vou ficar com você, se é isso que você está pensando – Sue mudou sua expressão e pude ver a raiva quando cruzou seus braços – Eu não troco seis por meia dúzia, lindinha – Dei-lhe um selinho e saí.
Às vezes ser o vilão de uma história é apenas necessário e não uma opção.
Sentei-me ao lado de e Jeremy no ponto mais alto da arquibancada da quadra coberta onde tínhamos as aulas de educação física em dias chuvosos, o mesmo acontecia com os treinos de futebol.
Estava relaxado naquela manhã, e de um bom humor que espantou até aos professores. Cheguei até a dar uma explicação a Carly pelo fato de não ter ligado para ela após o treino do dia anterior. Claro que ela ser um ano mais nova e não estudar comigo tornava o namoro mais suportável.
Jeremy contava algumas histórias da viagem que tínhamos feito no ano passado, a mesma que faríamos em uma semana. Poderia não ser um campeonato propriamente dito, mas o técnico nos faria treinar um pouco mais que o normal, uma vez que todo ano jogávamos contra o outro colégio que ia para lá. Casualmente, virei meu rosto para o lado direito, sem a intenção de olhar para um ponto específico, mas meus olhos congelaram em uma cena que eu nunca tinha visto antes e, com sorte, não tornaria a ver. Sem perceber, já estava descendo da arquibancada na direção daqueles dois. pareceu ver também, pois veio logo ao meu encalço.
- Vou indo... – se afastou rapidamente quando faltavam menos de três metros para eu chegar até ele e rapidamente foi na direção de , que me lançou um olhar vitorioso por cima do livro que lia, o qual eu não fiz questão de ler o título. Desviei meu olhar para que pareceu não entender nada até dar as costas e nos ver, enquanto dávamos nossos últimos passos para parar na sua frente.
- Vocês dois não tem mais o que fazer, não? – Ela rolou os olhos.
- Por que tá conversando com esse idiota? – perguntou antes que eu pudesse falar qualquer coisa.
- Vocês não decidem com quem eu posso falar – Cruzou os braços.
- Eu não quero você falando com ele – Falei simplesmente. Ela me fitou por alguns segundos, mas não se alterou. Quer saber a desvantagem de ser tão aberto com uma pessoa como eu sou com ela? De forma alguma ela se intimidava comigo, ela sabe exatamente o que se passa em minha cabeça, mesmo que eu mesmo não soubesse.
- Por quê? – Arqueou uma sobrancelha – Ele não vai fazer comigo o que vocês fazem com garotas por aí – Apontou para um grupo de líderes de torcida que passavam perto de nós.
- Você gosta dele? – perguntou com desdém.
- Eu só estava conversando com ele – Explicou como se fôssemos duas crianças de cinco anos tentando entender física quântica.
- Eu tenho que ficar cuidando de você? – Perguntei.
- Cuidar de mim? – Ela riu, o que me deixou irritado – Sou mais responsável que vocês dois juntos, eu sei cuidar de mim.
- Não é o que parece – Apontei para sua barriga, mas rapidamente puxou minha mão. Arrependi-me numa fração de segundos, mas ela já tinha dado as costas, não tendo como eu inverter a situação. Eu tinha plena noção da merda que tinha feito, mas que culpa tenho eu se não consigo controlar minha língua quando estou irritado.
deu cinco passou e girou os calcanhares voltando para onde eu estava, me deixando surpreso.
- Você não é melhor que ele, – Falou com os olhos levemente úmidos. Merda de sensibilidade na gravidez, nunca chora – Você não é melhor que ninguém.
- O que você acha que ele vai fazer quando descobrir que... – Falei suavemente, cauteloso para não piorar a situação – Ele vai dar as costas, como o idiota que fez isso com você!
- Era o que você faria, não é? – Pergunta retórica. Odeio. Fiquei em silêncio, na falta do que responder – Eu sabia – Assentiu e olhou para que estava calado ao meu lado, esperando que ele desse a ela a resposta que queria. Nada – Eu só estava conversando com ele – Deu de ombros e mais uma vez saiu.
- São os hormônios – falou pensativo olhando para a porta por onde tinha saído. Ri baixo – É a única explicação, certo?
- Eu falo com ela mais tarde – Balancei a cabeça a fim de esquecer o assunto, mas uma expressão e um olhar superior de ainda por cima de seu livro e que olhava para a porta pensativamente não me deixaram.
Ainda mais o fato de estar sentado com os dois.
Estava tudo errado.
O dia estava bom demais para ser verdade.
- Que parte de “morrer de câncer no pulmão” você não entendeu? – Meredith puxou da minha mão meu cigarro, jogou no chão e pisou.
- Não enche, mãe – Encostei-me na espreguiçadeira e fiquei observando o vento modelar pequenas ondas na água da piscina.
- Cadê a ? – Perguntou – Brigou com ela? É por isso que você está assim?
Ótimo! Tudo o que eu mais precisava era de empatia de mãe. Não me vi na necessidade de concordar ou discordar. Quem cala, consente. Mas ela não pareceu ver que eu não queria conversar, ainda menos com ela. Sentou-se na espreguiçadeira ao lado.
- Eu conheço você mais do que ninguém, – Rolei os olhos e os fechei – Ela está passando por, provavelmente, a coisa mais difícil que já aconteceu e irá acontecer na vida dela, você tem que dar um desconto – Não respondi. Quem sabe ela desistisse – Eu sei que você não quer falar sobre isso, mas você vai ter que me escutar. Em algum ponto da sua vida você vai ter que passar a escutar alguém, – Desta vez ela chamou minha atenção. Falou com severidade. Não estava acostumado a isso. Minha mãe é adepta ao método Mãe-amiga, condenado por noventa por cento da população da minha cidade, que só resta colocar no pára-choque dos seus carros: “Filhos são idiotas”. Abri meus olhos e vi seu dedo apontando para mim – Foram poucas as pessoas que ficaram ao meu lado quando eu engravidei de você, eu não quero que ela passe pela mesma coisa.
- Eu não vou deixar ela sozinha – Falei e voltei a encarar a piscina, mas minha mãe não se seu por vencida. Ela não poderia dar um tempo? Pelo menos naquele momento, por dez minutos, por cinco minutos. Alguém poderia me dar um tempo e me deixar em paz?
- Ligue para ela.
- Não.
- Ligue para ela.
- Eu não vou ligar para ela – Me levantei – Agora pode, por favor, me deixar em paz? – Falei um pouco mais alto que o comum.
- Ela me ligou – Voltou ao tom de voz normal – Ela quer que eu a leve no médico hoje à tarde. Venha.
- Não.
- Ela é a sua melhor amiga, . Significa muito mais para ela você estar lá do que eu.
- Ok, ok, ok – Respirei fundo – Eu vou, satisfeita?
- Se eu estou satisfeita? Você não está me fazendo um favor, garoto.
- Tá, tudo bem – Levantei as mãos e entrei em casa, mas não antes de escutar “Estamos saindo em dez minutos.”
Ao passar pela sala de estar, para minha surpresa, vi os cabelos da minha melhor amiga que estava de costas no sofá brincando com a minha irmã. Brincando? Não, para falar a verdade estavam conversando. Normal não é a melhor palavra para definir Ammy, que sempre foi muito madura e inteligente para a idade e eu agradeço por isso. Não sou o maior fã de crianças e, para a minha sorte, ela não é daquelas que saem correndo e gritando pela casa.
Sentei ao lado delas no sofá, sem falar nada. Senti o olhar de canto de olho em mim, mas mantive o silêncio. A única pessoa que não o manteve foi Ammy que não calou a boca nem para respirar enquanto falava sobre seu melhor amigo no colégio. Na verdade, pude ver um pouco de mim e naquela história.
- ! – Ammy me chamou.
- O quê?
- Você vai se casar com a ?
- O quê? – Eu e rimos juntos, mas a pequena manteve-se séria.
- Eu quero me casar com o Connor. E eu não gosto da sua namorada.
- Não se preocupe, eu não vou me casar com a Carly.
- Bom – Se levantou e saiu da sala sem mais nem menos. Pirralha estranha.
Naquele momento não fui capaz de falar nada, e nem . Não por não querer falar um com o outro, mas só por procurar o que falar. Eu não sou orgulhoso quando se trata dela. Eu queria ter ela na minha vida, e não eram as nossas idiotices que acabariam tudo.
- Me desculpe – Fui o primeiro a falar. Ela assentiu sorrindo fraco, mas olhando para a parede em sua frente. Voltei a ficar em silêncio, as cartas estavam na mesa, e era a sua vez de jogar.
- Você sabe que eu amo você, não sabe? – Falou simplesmente, mas não respondi. Pergunta retórica mais uma vez – Não tem nenhum garoto no mundo que faça você se sentir inseguro quanto a mim. Nem o – Me encarou.
- Eu não estou inseguro! – Me defendi. Que ameaça o poderia proporcionar? Francamente!
- Então por que não deixa ele ser meu amigo?
- Ele não quer ser só seu amigo.
- Você não sabe disso.
- Eu sei disso.
- Ele é meu amigo, . E você e o são meus melhores amigos. A esse ponto da minha vida, eu preciso de pessoas que estejam mais interessadas em mim e na minha amizade do que na minha popularidade – Ela sentou-se de lado, de frente para mim, e pegou as minhas mãos – Ele realmente parece ser alguém que eu possa confiar, e você sabe que eu julgo bem as pessoas, me dá esse voto de confiança?
- Eu não vou mudar de opinião, você sabe.
- Eu sei que não – Riu.
se aproximou e me deu um abraço que durou até minha mãe aparecer e nos chamar para sair. Não me incomodei em trocar de roupa. Calça jeans e uma blusa branca. Como se eu fosse encontrar alguém na obstetra da minha mãe, por favor!
O consultório seria um local calmo e pacífico, se não fosse as mulheres conversando sobre assuntos supérfluos. e Meredith também conversavam sobre assuntos que não me interessavam. Olhei em volta. Nada! Nem uma garota bonita. Belo consultório você foi arrumar, hein, mãe? Parabéns.
- – Como se Deus tivesse escutado minhas preces que clamavam por uma saída dali, uma mulher apareceu pela porta de vidro jateado e chamou minha amiga. A seguimos até outra porta com um “três” dourado e abaixo escrito “Dra. Roberts” na mesma tonalidade.
A médica veio nos cumprimentar e ficou conversando com a minha mãe sobre algumas besteiras que não prestei atenção. Minha atenção na verdade estava na garota ao meu lado que olhava apreensivamente para todos os cantos do consultório. Sorri para encorajá-la quando nossos olhares se cruzaram e segurei sua mão. Estava gelada!
- Bom... Ah! Mas que casal bonito – A Dra. Roberts de repente se virou para nós e falou com as duas mãos juntas na altura do peito.
- Ah, não... – Comecei a falar, mas minha querida mãe fez o favor de interromper.
- Esse é o , meu filho – Apontou para mim.
- ! Como você está enorme! Lembro-me de quando tirei você de dentro da sua mãe... – Sorriu docemente.
- Eca! – Murmurei esperando que ninguém escutasse, mas riu baixo, me fazendo suspeitar que tivesse ouvido.
- E está é a , amiga dele – Meredith voltou a falar.
- Olá – sorriu.
- Muito bem – A Dra. sentou-se em seu lado da mesa e olhou para a tela de seu notebook branco, provavelmente lendo os dados médicos de – O que a trouxe aqui, querida?
- Estou grávida – Falou sem rodeios, o que me surpreendeu um pouco, não era uma palavra que estávamos usando com frequência. Geralmente usávamos analogias.
- E eu não sou o pai, antes de pergunte – Falei quando vi que a mulher que já olhava para mim. Minha mãe riu.
- Ok! Então vamos dar uma olhada – Apontou para uma mini sala que era separada por uma divisória.
Quando fiz que ia me sentar para esperar que elas terminassem o que quer que fossem fazer do outro lado, segurou minha mão ainda mais forte e me puxou para que eu a acompanhasse. Eu nunca estive numa ultra-sonografia, nem quando minha mãe estava grávida, não tenho culpa por não saber o que aquela médica faria com a minha amiga.
Mas ao contrário das minhas especulações, ela apenas levantou a bata branca que a garota usava, mostrando uma barriga já perceptível para aqueles de sabiam de sua gravidez. sempre foi muito pequena, e bem frágil se você não a conhecesse, era de se esperar que sua barriga aparecesse assim tão cedo.
Era preciso um espelho naquele momento porque eu não sabia exatamente o que estava sentindo, muito menos se eu estava sentindo alguma coisa. Mas minha expressão não devia ser das melhores, pois minha mãe me repreendeu com o olhar. Assim percebi que não ouvia mais nada. Meu olhar estava paralisado na pequena tela preta que mostrava uns borrões acinzentados. tinha no rosto um sorriso que nem todos são capazes de ver, ela sorriu com os olhos. Ela estava feliz? Como ela poderia ficar feliz com isso?
Todo o caminho de volta para casa foi silencioso. Por minha parte, pelo menos. tinha em suas mãos uma foto da ultra-sonografia, e olhava para ela a cada cinco minutos. Minha mãe contava para ela como foram as duas vezes que engravidou e tudo o que eu pude pensar era se doeria muito se eu pulasse pela janela do carro naquele momento. Graças a Deus as duas não exigiram minha atenção em suas conversas, me deixando em paz no banco de trás do carro.
Eu não podia demonstrar ser contra a tudo aquilo. ter um filho não entrava na minha cabeça, e gravidez não cabem na mesma frase. Mas eu não podia dizer aquilo. Eu não poderia sequer pedir para ela parar com aquilo tudo, porque dezessete anos atrás se a minha mãe tivesse tomado essa decisão, eu não estaria aqui hoje.
- Vamos jantar – Minha mãe falou quando saímos do carro. Mas segui na direção contrária com a chave do meu carro já em mãos.
- Aonde você vai? – perguntou.
- me chamou na casa dele para resolver umas coisas do time, não demoro – Soltei a primeira desculpa que veio em mente e entrei no meu carro.
Digamos que era uma meia mentira, pois eu iria realmente à casa dos que fica a algumas ruas da minha, poderia ir até sem o carro se já não tivesse escurecendo. Tentei focalizar meus pensamentos em qualquer idiotice para fazer o caminho passar despercebido. Muita coisa em minha cabeça e muito tempo ocioso.
Sua mãe abriu a porta e entrei sem esperar por um convite, apenas acenei com a cabeça cumprimentando-a. Bati na porta alguns segundos antes de entrar no quarto.
estava com uma calça jeans e uma camisa roxa de gola V exagerada, que me fez soltar uma gargalhada mais alta que o normal, assustando-o. Ele estava extremamente gay.
- O que você está fazendo aí? – Ele perguntou quando se recuperou do susto.
- Você já contou aos seus pais?
- Contei o quê?
- Que decidiu se converter? – Apontei para sua camisa e me sentei na cadeira de costas para a mesa do computador. Ele bufou e tirou a camisa.
- Minha mãe me deu e ela quer que eu use isso pra um jantar hoje à noite com os sócios da empresa do meu pai – Falou pegando uma camisa xadrez que estava na sua cama.
- Uau, diversão em família?
- Nem me fale – Ele se movimentava pelo quarto se arrumando e eu fiquei só observando o teto – O que você tá fazendo aqui?
- Obrigado por me expulsar – me mandou o dedo do meio e eu ri fraco – Minha mãe me fez acompanhar para fazer ultra-sonografia.
- E você foi? – Ele arregalou os olhos parando tudo o que fazia para me encarar.
- Eu não poderia dizer que não – Dei de ombros – Não quero ficar em casa com feliz e a foto daquela coisa que ela carrega pra cima e pra baixo.
- Pode ficar aqui...
- Posso trazer uma garota? – Brinquei e ele me mandou o dedo novamente, tornando a fazer suas coisas.
Fiquei conversando idiotices com até a hora de seus pais saírem. Os dois únicos motivos para voltar para casa seriam comer e dormir. Eu poderia resolver o problema da fome adiando minha volta para casa para algumas horas. Liguei para Meredith para falar que tinha encontrado alguns garotos do time e que sairia com eles. Uma desculpa qualquer para que ela não me esperasse para jantar.
Àquela hora estavam abertos todos os locais que eu poderia cogitar para comer. Mas só em um local eu poderia ficar em paz, sem esperar encontrar muitas pessoas que fossem me atormentar. Minha família possui uma rede de restaurantes e apenas uma lanchonete, que não fica no centro de Dover. É o único assim distante, e por isso não é bem movimentado. Era famoso na época de colégio da minha mãe, dizia ela, e quando o dono morreu, seus filhos cogitaram fechar, mas após muito espernear, penso eu, ela conseguiu que o meu avô comprasse a lanchonete.
Como previsto, o local estava vazio. O movimento é maior durante a tarde, e só. Havia apenas uma garota de costas limpando uma mesa ao fundo. Fui diretamente me sentar no balcão e esperar pacientemente. O que não é de meu feitio. Eu deveria realmente fazer um exame, alguma coisa está errada comigo.
- O que você está fazendo aqui? – Ouvi uma voz em minhas costas, seu tom era rude. Precisei me virar para assimilar ao rosto.
Respirei fundo. Uma, duas, três vezes. Era só o que me faltava.
- O que você está fazendo aqui?
- Eu trabalho aqui – rolou os olhos.
- Eu sou o dono daqui – Sorri cinicamente e voltei a olhar para frente. Ela contornou o balcão e ficou de frente a mim.
- Você não é o dono do mundo, – Ela sorriu divertidamente como se eu tivesse contado uma piada – Meredith é a dona daqui.
- Meredith é a minha mãe.
- O nome dela não é Meredith – A confusão no rosto dela deixou-a ainda mais bonita. Sorri dando de ombros.
- é nome de solteira dela – Por que eu estava dando satisfações da minha vida para aquela garota mesmo? Eu não estava nem com saco para brigar com alguém. Um dia em paz nunca faz mal para uma pessoa.
Deitei meu rosto sobre os braços, em cima do balcão.
- Uau.
- O quê? – Perguntei sem me levantar.
- Estou sentindo certa simpatia saindo de você, tá doente? – Me levantei e ela riu. Mas não era o sorriso que ela costumava me lançar, ela apenas... Sorriu.
- Ainda tem alguma coisa comestível por aí? – Ela assentiu e colocou um copo com refrigerante e começou a preparar um sanduíche para mim. Fazia tudo silenciosamente.
- Você é muito melhor assim, sem se sentir melhor que todo mundo, sabia? – Ela falou suavemente quando colocou o sanduíche na minha frente.
- Não se acostume – Dei de ombros, já começando a comer.
- Sério, você está doente? – Ela cruzou os braços e me encarou de forma incrédula – Você deve ser um garoto bem ingrato. Sua vida é perfeita e tá aí desse jeito por qualquer merda provavelmente relacionada a futebol – rolou os olhos e falou com desdém.
- Você não sabe de nada, garota – Fiz questão de me mostrar tranquilo, mesmo que estivesse a ponto de descontar tudo em cima dela – Não tem nada relacionado àquele colégio que me faça abaixar a cabeça – Sorri cinicamente para a garota que, estranhamente, passou a me analisar de forma atenta.
- Está me dizendo que você realmente tem problemas? – Ela puxou um banco e sentou-se de frente a mim.
- O que você sabe sobre mim, ?
- Sei que você é um garoto rico que se acha dono de tudo – fez uma careta teatralmente dramática. Ri muito alto. Onde ela mora? Tudo bem que ela não estava na cidade há muito tempo, mas deveria ser tempo o suficiente para o amiguinho dela , colocá-la a par de tudo – Tá rindo do quê?
- É sério que ninguém contou para você?
- Contou o quê? – Ficou impaciente, o que me divertiu mais ainda.
- Você vai descobrir – Me levantei e dei-lhe um sorriso mais simpático que normalmente lanço às garotas. E saí, deixando-a com uma interrogação do tamanho de um trem tatuada em seu rosto.
04.
- Você não vai mesmo? – Perguntei colocando minha mochila nas costas e olhei para que estava com meu notebook em seu colo, entretida com algo que não pude ver o que era.
- Eu não vou ter pique para esta viagem, – Ela falou sem nem me olhar. Bufei, assim então ela me deu atenção – O que foi?
- Já vai começar a se privar das coisas antes mesmo de...? – Deixei o resto da pergunta no ar e apontei para sua barriga, incapaz de continuar a falar.
- Estou sofrendo as consequências da minha irresponsabilidade... – Verdade – E eu quero fazer isso direito, ok?
- Faça o que quiser – Dei de ombros e fui andando na direção da porta, sem querer falar mais nada sobre o assunto. O que coloca na cabeça, ninguém consegue tirar, nem mesmo eu. Mas antes que eu pudesse sair do quarto, ela se pôs na minha frente.
- Se cuida – Sorriu levemente e cruzou os braços ao redor do meu pescoço para me abraçar. Relaxei e a abracei de volta – Boa viagem! – Falou ao me deixar sair de casa.
Eu sabia que estava descontando meu estresse na pessoa errada. não merece aquilo. Mas eu estava preso em um dilema. O único modo de me fazer relaxar seria colocando tudo para fora. é a única com quem eu consigo realmente me abrir, mas eu não posso chegar para ela e falar tudo o que eu penso sobre... Tudo. Já que grande parte se trata dela. Viu? Dilema.
Pela primeira vez em minha vida, me senti sozinho.
Estacionei meu carro e avistei ainda do estacionamento o tumulto de alunos que se espalhavam pelo pátio esperando por algum sinal do diretor. Com os olhos, procurei algum rosto conhecido. Vi , e sentados em um dos bancos. Ela mostrava aos outros dois algo em uma
revista que estava em suas mãos. Fiquei realmente tentado a ir lá e aplicar minha dose diária de discórdia. Podem pensar que é maldade, mas aquilo realmente me diverte.
Antes que eu pudesse até mesmo começar a andar, alguém colocou a mão em meu ombro, me fazendo virar para ver quem era. Era Jeremy.
- E aí? – Perguntei quando o vi sorrir amarelo para mim. O que esse idiota tinha feito dessa vez? Ninguém me dá uma folga, é impressionante.
- Er... O pessoal... Do time, eles querem saber se você decidiu alguma coisa... – Opa! Alguém tinha perdido no sorteio. Sempre que tem algum problema, o
time decide quem é o infeliz da vez. Claro que na maioria das vezes o porta-voz é , mas ele não parecia estar por nenhum
lugar por perto.
- Decidi alguma coisa sobre o quê? – Arqueei uma sobrancelha. Quando esses idiotas iriam aprender a falar igual a um ser humano?
- Quando ao – Falou com o tom de voz muito baixo, o que me fez rolar os olhos impacientemente. O
. Não estava pensando nele tanto quanto necessário, mas os inúteis do meu time, que não têm nada para fazer, provavelmente não o tiraram da cabeça.
- Diga para eles que estou aberto a sugestões – Dei a costas a tempo de ver o carro do meu melhor amigo estacionar a poucas vagas de distância de onde o meu estava.
- Sempre você, não é? – Falou a Sra. Sky, professora de inglês do segundo e do terceiro ano, e treinadora das líderes de torcida, segurando a porta do ônibus que eu já deveria estar dentro. Ignorei o comentário completamente desnecessário ao entrar.
Todos os alunos da minha sala já estavam acomodados. O time ocupava toda a parte de trás do ônibus. estava sentado com April, uma amiga de pela qual tem uma queda desde que a conheceu, mas nunca admitiu para ninguém, ele sempre soube o que eu acho sobre gostar de uma garota dessa maneira. Essas garotas que exigem de nós que mudemos por elas ou querem que movamos céu e terra para ficar com elas, tudo isso que uma garota exige de um garoto que cai na infelicidade de se apaixonar. Felizmente, eu nunca cairei nessa, se tiver de acontecer comigo espero que demore bastante, ainda tenho muito que viver. havia caído. Perceptível pelo sorriso otário que ele tinha ao ouvir uma história contada pela menina. Coitado. Se apaixonar no ensino médio é idiotice.
Havia dois lugares vagos no ônibus. Agora vejamos como o destino insiste em aplicar altas doses de ironia na minha vida. Se eu fizesse questão de sentar com alguém, esta pessoa provavelmente estaria com a cadeira ocupada ao seu lado, mas quando você faz questão de evitar certos tipos de pessoas estas são as que sempre estarão esperando para sentar ao seu lado. Carly acenava para mim com um sorriso de rasgar o rosto. E eu não vou nem comentar do outro local que estava vago. Mas uma ótima pergunta seria: O que diabos a minha namorada – do segundo ano, diga-se de passagem – estava fazendo no ônibus apenas para o terceiro ano? Da próxima vez vou providenciar uma namorada com menos poder de persuasão porque se continuar assim ela vai convencer os professores até a assistir as aulas comigo. Não mesmo.
- Achei que você nunca iria aparecer – Ele disse encostando a cabeça no meu ombro assim que me sentei ao seu lado. Toda a parte do meu corpo onde ela tocava de repente começou a formigar. Aqueles carinhos não são típicos dela. Eu não nunca fui carinhoso com ela, de forma alguma, e penso eu que ela quer retribuir essa falta de carinho como forma de castigo. Mas algo havia mudado.
- Você sabe que eu sempre me atraso.
- Verdade – Riu baixo e... Timidamente? – O que você vai fazer mais tarde? – Não, não, não. Vir me alugar justamente quando estamos viajando? Sacanagem comigo. Muita sacanagem. Ela tem muito tempo para isso quando estamos em casa, mas não quer nada, por que decide fazer no tempo que eu tenho longe da minha mãe e de todo mundo? Quando viajo são poucas as vezes que eu paro mais de dez minutos dentro do quarto de hotel, sem ser para dormir. Viagem para descansar não é exatamente a minha preferida.
- Vou sair com os meninos – Mesmo sem ter combinado nada com ninguém, seria certeza que algum deles iria arrumar algum lugar para irmos.
- Você vai arrumar confusão, sabe que o Williams vai vigiar o dormitório dos meninos – Disse em um tom preocupado.
- Não precisa se preocupar – Olhei para frente.
estava de joelhos, algumas poltronas à minha frente, no corredor oposto. Ela olhava para a poltrona de trás à sua, onde estavam sentados e .
- Mas você... – Carly começou a falar, direcionei meu olhar para minha namorada depois o voltei para a outra garota, ela olhava em minha direção também, variando entre meu rosto, o rosto da minha namorada e na mão dela, que acariciava meu braço.
Assim que percebeu que eu também a encarava ela virou-se rapidamente para os outros e corou. O que me fez rir. Eu posso ter qualquer garota daquele colégio e não é nenhuma exceção.
- ! – De repente, Carly exclamou e rapidamente me virei para encará-la.
- O quê?
- Você ouviu o que eu disse? – Se levantou do meu ombro e lançou um olhar enfurecido para o meu rosto. Se fosse possível, de lá sairiam lasers.
- Eu já disse que não precisa se preocupar – Reclamei impacientemente. Eu só precisava de um pretexto para fazer essa menina calar a boca e eu poder passar o resto da viagem com os fones do meu IPod ligado no volume máximo.
- Eu estou falando que nós nunca tivemos um encontro de verdade. E amanhã completaremos três meses de namoro, seria uma boa oportunidade – Três meses? Isso tudo? Como eu deixei as coisas chegarem a esse ponto?
- Nunca tivemos um encontro de verdade? Nós sempre saímos para pubs e...
- Não, não, não – Ela riu alto e colocou a mão na minha boca para que eu parasse de falar. Não preciso dizer que adorei, certo? Tratei logo de tirá-la de lá – Eu estou falando de sairmos pra jantar, e...
- Eu acho que do jeito que estamos indo está ótimo para mim – Segurei sua mão para que ela não tornasse a me fazer calar a boca e começássemos a brigar ali mesmo.
- Esse é o problema dos garotos, estão muito acostumados com coisas medianas
e não procuram melhorar. Estamos no último ano, ! – Sorriu meigamente para mim. Arqueei uma das sobrancelhas, onde é
que ela queria chegar com essa conversa toda? – Quando você terminar o colégio, não vamos mais poder nos ver regularmente por causa de faculdade. Ah, mas quando eu me formar, posso até ir para a mesma faculdade que você, e... Tá rindo do quê?
Naquele ponto eu não pude mais me conter. Ela estava mesmo achando que iríamos durar todo esse tempo? É por isso que garotas sempre saem magoadas quando terminam os namoros. Nós sempre sabemos onde que vai dar, evitando ilusões, sem precisar ficar avaliando cada pequeno detalhe e ação que o outro comete. Eu não pretendo sentenciar minha vida ao lado dela ou de qualquer outra garota.
- Não estou rindo de nada – Falei quando pude me conter. Vi que ela não se convenceu, mas aceitou.
- Então?
- Então o quê, caramba?
- Podemos ter um encontro? – Falou com uma pontada de esperança pulando de seus olhos.
- Veremos isso quando voltamos para Dover – Dei de ombros.
- Posso ir com você hoje à noite?
- Carly... – O que eu poderia falar para ela me deixar em paz? Só pode ser castigo, eu deveria aprender a chegar cedo nos lugares e não ser obrigado a passar por esse tipo de coisa – Depois resolvemos isso.
- ! – Aumentou o tom de voz.
- O quê? – Fui rude, teria que tomar as rédeas para encerrar o assunto. Vi que ela recuou um pouco e suspirou. Suspirou pela derrota.
- Por quê? – Perguntou baixo.
Bom, pra mim bastava. Carly arregalou os olhos exageradamente quando me levantei sem falar nada e me direcionei até o segundo lugar vago naquele ônibus. Não que ele fosse melhor, mas pelo menos eu poderia ter sossego e silêncio. Talvez. Se resolvêssemos fazer uma trégua poderíamos viajar uma hora e meia sem trocar insultos. Eu não queria brigar, e nem queria socializar como eu tinha feito com ela naquele dia na lanchonete da minha mãe.
Depois daquele dia, ela passou a me observar mais, mesmo que tentasse disfarçar, eu percebia. Mas quando topávamos pelos corredores do colégio ou na sala de aula, eu soltava minhas gracinhas que a deixavam extremamente irritada. Nada de conversas amigáveis, amém.
Coloquei os fones de ouvido, sentindo os olhares indagadores de . Apenas ignorei. Fechei os olhos ao som de The Who e adormeci um tempo depois.
Despertei com um grito animado vindo de uma garota que estava mais ao fundo do ônibus. Esfreguei aos olhos para me situar e tirei os fones de ouvido que já não tocavam mais nada. O IPod estava descarregado. Ótimo. Só Deus sabia quando iríamos sair daquele ônibus e nem a graça de me isolar com a música eu teria. Olhei para onde eu me sentava anteriormente. Carly observava as árvores que passavam perto de sua janela e estava abraçada às suas pernas, escorando seu queixo nos joelhos. Ela estava com raiva. Ótimo. Nem música, nem amasso com a namorada.
Olhei para o outro lado e vi um par de olhos questionadores e uma sobrancelha arqueada. Fora isso, eu ainda pude ver a diversão no olhar de .
- O que foi?
- Tá perdido? – Questionou com um sorriso pelo canto de seu lábio.
- Não enche – Olhei em volta procurando alguém que pudesse me salvar trocando de lugar comigo. Nada. Todos estavam sentados na parte de trás do ônibus. Ao meu redor só havia nerds e, bem, . Se levasse em conta que ela não parecia exatamente uma nerd.
- Foi expulso pela namoradinha? – Seu tom de voz ainda era divertido. Olhei para ela impacientemente.
- Não fui expulso, saí de lá – Eu sei que não devo explicações para ela, mas dar a impressão de que uma garota estava me rejeitando não é nada bom para a fama que eu mantenho no colégio.
- Que bom – Riu.
- Por quê? – Arqueei uma sobrancelha. Ê garota estranha.
- Significa que aí dentro de você existe um cérebro – fez uma careta de deboche, mas que eu achei particularmente, hm, bonita?
- Nem todos no time de futebol são como seu amiguinho aqui atrás – Apontei para as cadeiras que ficavam atrás das nossas.
- Já está de bom tamanho ele não ser como você – Cruzou os braços e fechou a cara numa expressão emburrada – Por que você faz isso? Eu não consigo entender pessoas como você.
- Achei que eu fosse um clichê previsível.
- Bom, você é, mas... – Parou de falar.
- Mas?
- Você é diferente – Deu de ombros.
- Sou diferente? – Ótimo, a garota é bipolar.
- É, ninguém aqui realmente te conhece. Você criou um disfarce porque não quer se apegar a ninguém – Falou ternamente.
Não me culpem por estranhar seus comentários. Ela não me conhece. As pessoas do colégio me tomaram como algum tipo de celebridade, isso eu não poderia questionar. Mas fãs têm uma mania de achar que conhecem seus ídolos, cada expressão facial. Assim eles se surpreendem mais facilmente. E se decepcionam mais facilmente. acha que me conhece, e irá se decepcionar. Mas que graça teria se eu dissesse isso para ela? Ela descobrirá por conta própria.
- Ok – Eu ri – Você realmente acha que me conhece ou andou pesquisando com as fontes erradas?
- Eu não andei realmente pesquisando – Ela estava pensativa e falava baixo – Bom, eu sou muito curiosa. E quando você falou aquilo lá na lanchonete, eu perguntei para o . Mas você não é bem a pessoa favorita dele, então ele não quis me falar muito mais do que eu já sei. Ainda, eu não conheço mais ninguém aqui, fora o , que sabe tanto quanto eu, ou menos...
- Pára – Me perdi na segunda palavra. Não consigo ouvir mais do que “sim”, “não” e “vamos para minha casa?” quando sai da boca de uma garota. Não estou acostumado a ouvir frases tão grandes que não sejam formuladas por – Você fala demais – Ela fez cara de indignada – Por que se importa?
- Como eu disse, sou curiosa. Fora, eu gosto de conhecer as pessoas... Não aquelas com a personalidade óbvia, como a da sua namorada lá trás – Virou-se e sentou-se com as pernas cruzadas em cima da poltrona para me encarar de frente. Provavelmente ela estava esperando por uma reação estilo filmes de garota onde, naturalmente, eu cairia aos seus pés e falaria “Ninguém consegue ver tão profundamente a minha alma como você” o que me leva a crer que ela estava querendo me impressionar. Mas por quê?
- Personalidade óbvia?
- Ela está obviamente apaixonada por você – Riu.
Apaixonada por mim? Não mesmo. Paixão, amor, são coisas que se constroem com o tempo, e quando são alimentadas. Eu não alimentei nenhuma das duas. Garotas deveriam se apaixonar por alguém que lhes dá carinho e conforto, certo? Não por alguém como eu, que só gosta da parte física dos relacionamentos. Ela sabe que não deveria se apaixonar por mim, não poderia ter feito isso, a não ser que resolvesse se fazer de cega, porque tudo está bem óbvio até para quem avaliasse nosso “relacionamento” de fora, como fez. Mas ela estava errada. Carly não estava apaixonada. É só... TPM.
- Sem chance – Ri cinicamente.
- Acha mesmo?
- Fila organizada, por favor – O treinador Williams sobrepôs seu tom de voz e eu direcionei minha atenção até onde ele estava. Eu não tinha percebido que o ônibus tinha parado.
Sem dizer nada, me levantei e entrei na primeira brecha que encontrei entre as pessoas que esperavam para sair do ônibus.
- Não me diga que é o que eu estou pensando – Vi em pé no cais do lago que tinha no hotel onde estávamos hospedados. Ele observava a água distraidamente, só se moveu quando ouviu minha voz atrás de si.
- O que você tá pensando? – Riu fraco, provavelmente ainda se recuperando de seus devaneios.
- Você está gostando daquela garota?
- Claro que não! – Respondeu rapidamente. Opa! Área restrita, ele estava na defensiva – Quer dizer, ela é bonita e tal, mas... – Calou-se.
- Bonita? – Arqueei uma sobrancelha.
- É sim. O que tem? Você não acha? Gay! – Rimos.
- Não, eu não tenho como contestar isso – Levantei minhas mãos alegando inocência – Mas você a chamou de bonita.
- E?
- Normalmente, você não chama uma garota de bonita se ela não passar de... Só mais uma.
- Er... – Ele corou. Eu nunca estava errado quanto às pessoas. Bom, quase nunca – Bom...
- Tudo bem, cara – Dei de ombros rindo. Ele tava numa pior e tanto eu como ele sabíamos disso, não ia piorar a situação – Eu só sinto pena de você.
- Anda, vamos pegar nossas coisas para sairmos com o resto dos caras – Ele me empurrou para fora do cais e seguimos pelo caminho de pedra que nos leva até onde ficaram os quartos dos meninos. Os das meninas ficavam a uma grande distância dos nossos. Tudo para poderem controlar melhor e tentar evitar o inevitável, se é que me entendem.
Não que toda essa burocracia de merda mudasse alguma coisa. Quer a prova disso? Quando abri a porta do meu quarto, encontrei Carly na minha cama com as pernas cruzadas, encostada na cabeceira e com o celular na mão, digitando uma mensagem. Quando entramos, ela olhou para nós de uma forma surpresa que deve ter ensaiado desde que planejou entrar ali. Por Deus, ela estava no meu quarto. Por que fingir surpresa?
- O que você tá fazendo aqui? – Não pude conter o tom rude. Achei que não teria que lidar com ela antes de encerrar o dia.
- Dei meu jeito – Sorriu sapeca.
passou por mim, pegou sua carteira ao lado da TV e sussurrou um “a gente se vê mais tarde” quando passou por mim e deixou o quarto. Quando estávamos sozinhos, Carly levantou-se da cama e eu me aproximei.
- O que você fez? – Falei já com meu rosto a poucos centímetros de distância do dela.
- Eu falei com o Adam, disse que eu queria fazer uma surpresa pra você, ele foi falar com o Williams, dizendo que você tinha perdido a chave do quarto. Ele sabe como o Adam e o Jeremy fazem tudo o que você manda e acreditou – Eu ri. Era simples, mas bem bolado. Carly pode não ser uma aluna nota A, mas ela tem o dom de tramar algo quando aquilo é o que ela realmente quer. E ela consegue tudo o que quer.
- Ok – Colei meus lábios nos dela e a empurrei até a cama até que ela caísse deitada e eu por cima dela, pendendo meu peso nos braços ao lado do seu rosto, para não machucá-la.
Rapidamente, ela começou a puxar a camisa xadrez já aberta que eu vestia para descer por meus ombros, sem partir o beijo, e levantei um braço de cada vez para facilitar. Depois puxou para cima a camisa branca que eu usava por baixo, terminei o que ela fazia puxando-a pela minha cabeça num movimento só. Fiz o mesmo com a regata branca que ela usava, restando um sutiã rosa à mostra. Ela afastou o rosto do meu e sorriu.
- ... – Aproximei a minha boca dela novamente. Conversar não, por favor. Por favor. Por favor – Faz tanto tempo... – Afastou-se de novo. Eu insistiria até que ela desistisse, mas cada vez que eu me aproximava o beijo durava menos – ...
- O quê? – Perguntei impacientemente, é bom que ela falasse logo o que quer que fosse falar para eu poder fazer o que queria. Em paz.
- Me perdoa? – Ela choramingou, mas ainda sorrindo. Um sorriso que se revelou triste, da água pro vinho.
- Pelo quê?
- Pelo que eu vou dizer.
- Hã? – Coisa boa é que não é.
- Eu te amo – Falou ao deixar cair uma lágrima.
Respirei fundo. Um. Dois. Três. Quatro...
- Você não poderia ter ficado quieta? – Levantei grosseiramente, pegando minhas roupas jogadas no chão.
- Mas... – Ela se sentou e abraçou a perna do mesmo modo que eu a vi fazer no ônibus e me fitou com um olhar magoado – Eu não estou pedindo pra você me amar de volta.
- E nem deveria – Dei de ombros.
Ela se levantou e colocou as duas mãos no meu rosto para dar um selinho. Não resisti.
- Eu aceito que você não pode retribuir, mas eu sou paciente, quem sabe um dia isso não mude, certo? – Errado. Mas eu não poderia estragar o que eu estava prestes a tirar dela, já que ela estava em falta comigo há algumas semanas, não perderia a oportunidade.
Aprofundei o beijo, joguei minhas roupas, que ainda estava na minha mão, na cama de e direcionei-as aos ombros da minha namorada, rapidamente descendo por seus braços, até a barriga e o botão de seu short jeans. Ela sorriu com sua boca colada à minha e pegou minha mão que estava quase conseguindo abrir o botão.
- Calma aí – Me olhou arrogantemente. Finalmente o olhar daquela Carly que chamou minha atenção durante as festas do colégio, a Carly por quem eu realmente me interessei, não aquela burra chorona apaixonada que estava mais frequente.
- Calma? – Busquei no meu interior a melhor habilidade de criar um olhar suplicante. Eu não queria mostrar que estava nas mãos dela, mas se ela não me desse o que eu queria àquela altura, ela me deixaria, de fato, na mão.
- Se você não me der o que eu quero, não darei o que você quer – Cruzou os braços por cima do busto exposto.
- Eu não vou me apaixonar por você – Ri. Perda de memória recente? Achei que tivéssemos tido essa conversa alguns minutos atrás. Ou foram segundos?
- Não, não sobre se apaixonar por mim, bobo. Sobre o encontro.
- Ainda isso? – Bufei e vesti de volta a camiseta branca, aparentemente eu não teria nada naquele momento.
- Você terá o que você quer quando me der o que eu quero – Carly também vestiu sua regata e eu andei rapidamente até a porta, mas, como já devem imaginar, eu tenho que ter a última palavra. Virei-me para ela já com a minha mão na maçaneta da porta aberta.
- Você sabe que eu posso conseguir o que eu quero através de outras pessoas, não sabe? – Sorri para ela, deixando-a visivelmente irritada.
- Eu também posso conseguir o que eu quero, é só terminar com você – Retrucou.
- Pode... Mas você não vai terminar comigo. Felizmente, eu tenho a vantagem de não estar apaixonado, docinho – Pisquei para ela. Ela correu na minha direção e empurrou o último centímetro que faltava para que eu saísse completamente do quarto e fechou a porta.
O movimento foi tão rápido e repentino que demorou alguns segundos para eu perceber que a garota tinha me expulsado do meu quarto.
Tirei o cartão de acesso do meu bolso traseiro e reabri a porta, mas ela havia trancado através da corrente e, pela brecha, pude ver sua sobrancelha arqueada.
- Esse é meu quarto, sua maluca.
- Você fica aí fora até pensar nas merdas que está fazendo ultimamente comigo. – Disse e sumiu do meu campo de visão, presumi que tivesse ido se sentar na cama. Ela estava falando sério e estava realmente achando que poderia me intimidar com essa birra de menina mimada de dez anos de idade.
- Você acha mesmo que pode me dominar? Francamente Carly, achei que fosse menos burra.
- É o que vamos ver.
Bufei. Foda-se. Pra quê eu iria querer o quarto mesmo? Eu poderia muito bem ir ao pub onde o já deveria estar e arrumar uma companhia que exigisse minha atenção durante toda a noite. Fechei a porta e fui andando até a saída do hotel, com cuidado para que nem o Williams, nem a Sky me vissem. Não foi muito difícil.
O pub ficava na rua ao lado, dois minutos e eu já estaria lá.
estava certa afinal de contas.
Vagarosamente, andei sem rumo. Não tinha exatamente um destino certo. Não devia ser muito mais que nove da manhã e Carly ainda estava trancada no meu quarto. Devo dizer que ela ultrapassou minhas expectativas. Mas que ela se foda e perca a viagem dentro daquele quarto. Eu poderia fazer o Adam sentir peso na consciência por ter deixado ela entrar e dormir no quarto dele. Eu precisava dormir. Nosso jogo seria às cinco da tarde e no estado que eu estava, sem dormir e ainda com certo nível de álcool no meu sangue, eu não seria de muita serventia. Perderíamos e a culpa seria de Carly. Que ela vivesse com isso. Eu tinha passado a minha noite satisfatoriamente na cama de uma garota, e ela?
Achei um gramado não muito longe do lago onde eu estava com na noite passada e me deitei lá.
O sol parecia ficar mais forte a cada segundo, em baixo de uma árvore achei um espaço onde ele estava em menos abundância, mas não o suficiente para não me incomodar. Bufei. A maioria dos garotos estava dormindo e eu nem sabia quais eram seus quartos, e a outra parte nem havia chegado ao hotel, parece que eu fui o único a ter a brilhante idéia de sair de fininho antes que a garota acordasse.
Olhei em volta e lá vinha ela.
estava com um livro na mão, e lia ele enquanto andava. Eu ficaria surpreso se ela não levasse uma topada. Ela vestia uma calça jeans e uma camiseta verde limão, um pouco mais longa que o normal. Se eu visse Carly vestida desse jeito iria achar que ela é uma idiota, mas não posso negar que tem um dom de fazer as coisas estranhas parecerem bonitas.
Já ouviram dizer que um olhar atrai o outro? Ela olhou para mim quando se aproximou.
- Nossa! – Ela exclamou, rindo – Você está um lixo.
- Obrigado.
- O que houve? – Se aproximou.
- Bom, eu ainda estou meio bêbado e fui expulso do meu quarto pela minha namorada – Dei de ombros. Ela riu escandalosamente e eu bufei. Eu não sou muito hábil de controlar minha língua quando estou bêbado.
- Uau. O que você fez dessa vez?
- Eu não fiz nada mais do que faço todo dia. Ela que não aguenta.
- Nem todos são privados de sentimentos, como você, – Sentou-se ao meu lado. Não que eu tivesse convidado ela a se sentar, claro.
- Você é – Ri.
- Não sou, eu sou curiosa.
- Curiosidade não é um sentimento.
- É sim, eu decidi que é.
- Maluca.
- Pense bem, só ficamos curiosos por algo que nos atrai. Atração pode ser um sentimento, certo?
- Errado – Ri. Aquela linha de pensamento já estava ficando cômica – De onde você tirou isso?
- Eu inventei – Deu de ombros rindo também.
- Eu deveria ter imaginado – Olhei para ela. estava agarrada ao seu livro, ela o apertava com força contra seu peito e olhava para o movimento das pessoas que passavam a alguns metros de nós. Finalmente um pensamento veio à tona. Será? – Espera – Olhou rapidamente para mim – Você disse que sente curiosidade pelo que te atrai... Eu te atraio? – Tentei fazer aquela frase parecer menos patética com que ela realmente é. Falhei, pois ela riu. Felizmente não era uma risada debochada, parecia mais diversão. Não era ideal, o ideal seria se não risse, mas não se pode ter tudo, e eu não poderia ir lá e vedar a boca da garota. Ou podia?
- Não seja pretensioso.
- Não me culpe, eu sou acostumado a esse tipo de assédio vindo das garotas – Ela virou o rosto para frente e eu não pude distinguir se seu rosto estava corado ou se era só efeito no sol nele.
- Mas eu devo dizer que a sua personalidade me atrai – Deu de ombros ainda sem me encarar.
- Como assim?
- Você é o tipo de pessoa que todos acham que conhecem, mas poucas pessoas sabem que esse não é você de verdade. Você parece esconder muitas coisas. É meio fascinante, eu nunca conheci alguém como você...
- Achei que eu fosse um clichê pre...
- Você pode parar de falar isso? – Rolou os olhos.
- Mas você falou mesmo.
- Quer que eu admita que eu estava errada? Pronto, eu admito, eu julguei você – Falou impaciente, mas ainda não me encarava.
- Por que você me julgou? – Eu ri, poderia ir com a aquela conversa por horas se fosse para ela ficar admitindo que estivesse errada e eu, certo. Como sempre.
- Era o terceiro dia de aula, certo? E a única coisa que eu sabia de você era que é o capitão do time, namora a chefe das líderes, vive para fazer idiotices dentro da sala de aula e algumas maldades com os garotos mais fracos.
- Bom, mas eu sou assim – Brinquei, e ela me olhou. Sem sorrir.
- É, você é mesmo. Eu só estou dizendo que você tem uma personalidade por trás disso, e eu não achei que tivesse. Achei que fosse um daqueles sem cérebro como 70% do seu time.
- Não tenho como argumentar contra isso – Me levantei ao ver vindo na minha direção com a cara enfurecida – Só não procura muito, pra não achar o que não deve.
- Como assim? – Perguntou rápido, antes que eu me afastasse o suficiente para não poder mais ouvir o que dizia.
- Tchau, – Respondi alto.
Eu adoro fazer isso, ter a última palavra, e deixar a pessoa mais perdida que cego em tiroteio.
estava de braços cruzados e com a cara fechada, esperando que eu me aproximasse. Eu poderia especular sobre o que tinha deixado ele desse jeito. Ele não é lá uma das pessoas tolerantes que conheço, é mais tolerante que eu, claro, eu sou o campeão nesse assunto, mas, como eu, ele perde a cabeça por pequenas coisas. Eu chutaria que algo tinha dado errado com a sua acompanhante da noite, ou, talvez, ele tenha tentado entrar no nosso digníssimo quarto e... Surpresa. Minha namorada descontrolada.
- Tira essa tromba, cara – Eu ri.
- O que diabos a sua namorada tá fazendo no nosso quarto? – Seu tom de voz era, como sua expressão, extremamente irritado. Mais uma vez, eu aceitei.
- Acho que ela só vai sair de lá quando eu a chamar para um “encontro” – Fiz aspas com as mãos. riu escandalosamente. Eu faria o mesmo se a situação fosse inversa, mas eu não tinha nada para rir, era desesperador – Cale a boca.
- Então chama ela pra um pub hoje à noite – Deu de ombros.
- Ela quer um encontro. Jantar. Restaurante. Encontro – Expliquei para que ele entendesse que a situação não era tão fácil assim.
- Então termina com ela, claramente ela não presta mais para o que você quer – Riu. Sou obrigado a concordar.
- Parece que não tem jeito mesmo.
- E eu que quero dormir? – Ele estava com os olhos vermelhos, ri. Assim como eu, não devia ter pregado os olhos durante a noite.
- Vem, eu vou falar com ela.
Eu tinha um plano em mente.
Ao chegar lá, abri a porta e ela ainda estava presa pela corrente.
- Abre essa merda, Carly – Gritei.
- Não – Ela gritou de volta sob o som da televisão.
- Deixe de ser idiota.
- O mesmo para você.
- Ok, se eu prometer um encontro a você quando voltarmos para Dover, você me deixa em paz durante o resto da viagem? – Tentei fazer o melhor tom convincente, é fácil fazer Carly acreditar em mim.
- Eu não vou fazer sexo com você até você me dar esse encontro, entendeu? – Ela apareceu perto de mim na brecha da porta e eu assenti – Então eu aceito – Destrancou a porta.
- Agora sai – Falei assim que entrei no quarto e segurei a porta para que ela saísse. Ela me fitou com o cenho franzido – O que? Você vai fazer greve de sexo e eu vou fazer greve de namoro, agora sai – Apontei para a parte de fora do quarto e ela saiu batendo o pé.
- Feliz três meses de namoro, estúpido – Falou antes de sumir e eu sorri cinicamente ao mesmo tempo, fechando a porta.
- Gay – falou rindo antes de se trancar no banheiro.
Não me dei ao luxo de tomar banho. Joguei-me na cama e dormi em dois segundos.
05.
Ouvi um baque na porta e levantei a cabeça involuntariamente. Mais três batidas. Mas que porra? , que estava na cama mais próxima da porta, não tinha acordado. Peguei o outro travesseiro da cama, o que eu não usava, e joguei em sua cabeça, mas, como era de se suspeitar, ele não moveu nem um músculo. As únicas opções que eu tinha em mente seriam tentar dormir mesmo com as batidas insistentes na porta, ou, obviamente, ir lá.
- ! ! – Ouvi Williams gritar do outro lado da porta. Porra. Porra. Porra. Que horas eram? O jogo. Pulei da cama e dei uma tapa na cabeça do meu amigo antes de ir até a porta.
- Williams! – Ouvi exclamar e, num só pulo, ele já tinha chegado ao meu lado, e encarávamos a cara furiosa do treinador.
- VOCÊS TÊM NOÇÃO DE QUE HORAS SÃO? – Esbravejou. Dei um pulo para trás, não esperava que a bronca fosse sair assim tão imediatamente. Geralmente o treinador respira umas cinco vezes antes de começar a gritar, assim evita levar o punho no rosto de alguns de nós, assim eu acredito. Ele respirou fundo. Antes tarde do que nunca, feliz seja a pessoa que criou esse dito popular – Já estão quase todos lá! O que as mocinhas andaram fazendo à noite e não puderam dar o prazer da ilustre presença do Capitão e do Goleiro do time, duas figuras totalmente dispensáveis – Seu tom de voz, ainda alto, se tornou também irônico.
- Nós... – Comecei a falar, rapidamente procurando em minha cabeça uma boa desculpa que não incluísse as palavras “namorada” e “idiota” na mesma frase.
- Calado! Vocês têm cinco minutos para estarem dentro do ônibus – Deu as costas e saiu na direção do hall.
trocou comigo um olhar apavorado que durou poucos segundos. Quando tornei à consciência, estava correndo pelo quarto a procura do uniforme, movido pelos meus instintos de sobrevivência que gritavam apavorados pelo olhar do treinador. Para nós, aquele jogo podia ser uma grande merda, mas para ele era algo bem maior. Ele costuma nos dizer, antes de cada jogo, que cada vitória nos ajuda a crescer como time, por mais miserável que ela seja. Eu discordo. Minha mentalidade é virada para coisas grandiosas. Estupidez é gastar tempo e energia com um time que não estava nem ao menos entre os melhores do condado, como nós estávamos no topo nos últimos três anos.
Enfiei as chuteiras na mochila, mas outras coisas das quais precisaria e saí do quarto, com ao meu encalço, na direção do hall, onde todos nos esperavam.
Williams nos mandou sentar ao fundo do ônibus, junto ao resto do time. Sentei com na penúltima fileira de poltronas para esperarmos pelas instruções do treinador.
Meu coração veio à boca quando vi a bola tocar a ponta dos dedos de e escapar de entrar pela trave por um triz. Se o time do Bohr School marcasse mais um ponto, empataríamos e, conforme o juiz gritou, só restava trinta segundos para que pudessem marcá-lo. gritou um palavrão para Dustin que errou o passe, facilitando a quase entrada de bola. Eu e éramos os únicos que estávamos no meio-campo, o resto se concentrava no contra-ataque do time adversário. Passei a mão pela minha testa para tirar o excesso de suor, eu estava cansado, nervoso e irritado. Nossa intenção era ganhar com uma diferença espantosa uma vez que somos os melhores do condado, não deveria ser uma vitória sofrida, muito menos um empate.
me olhou preocupadamente. Rolei os olhos e corri na direção de onde o resto do time lutava. Eu não iria assistir àquele show de horrores que o meu time cometia de olhos fechados, estavam nos levando para o buraco. Embora fosse um jogo sem importância, nossa reputação estaria dilacerada. A bola mais uma vez se aproximava da chance do jogo empatar. Quando o jogador do time adversário a possuía a poucos metros de fazer o gol. Acelerei até ficarmos lado a lado. Mais um pouco de velocidade e fui capaz de ficar a sua frente e dar um chute colocando a bola para fora. O juiz apitou. Fim do jogo.
Caí de joelhos nos chão. Minha respiração estava falha. Grande parte do time veio para cima de mim, e tive que me esquivar para não me machucar. Quando me levantei, grande parte do time já corria animadamente para o vestiário. Não pude evitar sorrir. Havíamos conseguido mais uma vez, por pouco, mas conseguimos.
Levantei assim que me vi livre, 3x1 não é lá o melhor dos resultados, mas é uma vitória, eu não queria estar vivo para ver a bronca que o treinador nos daria caso perdêssemos ou empatássemos aquele jogo, seria o fim. Mas até que não seria a pior das coisas, poderíamos sempre culpar a diferença no time. Elementos que não haviam no jogo passado. A presença de . Seria um assunto a ser levado em consideração na próxima vez que encontrasse o treinador sem um milhão de pessoas ao seu redor.
De longe, vi correr para abraçar , veio logo atrás e o parabenizou-o também. Parabenizar pelo quê? Eu realmente não sei. O cara é apenas um peso morto no time. Confesso que fez alguns movimentos que foram de alguma ajuda para nós, mas sua performance em geral não contribuiu muito. Nada que eu não aguentaria sozinho. Isso vale também para uma grande parte do time.
Meu caminho para o vestiário foi interrompido por um peso repentinamente pendurado em minhas costas que só pude identificar o que ou quem era quando recebi um beijo em minha nuca. Carly desceu e se pôs na minha frente com um largo sorriso. Seu cabelo ruivo estava preso em um alto rabo de cavalo, com alguns fios de sua longa franja colados nas laterais de seu rosto. Seu uniforme de líder de torcida dava ênfase em suas pernas que, modéstia parte, são umas das melhores, se fizessem uma comparação com as das outras meninas do colégio. Sim, modéstia parte porque eu sou o único que pode colocar as mãos nelas. E pobre do coitado que ousasse fazer.
Apesar de toda a baboseira de greve de namoro que eu tinha imposto no dia anterior, eu mesmo me contradisse quando pus as mãos em sua cintura e procurei seus lábios. Não fui impedido. Seu amor próprio não era suficiente para manter-se afastada de mim, mesmo que eu tivesse indiretamente dito que era o que ela deveria ter feito. Por fim, não posso negar o fato de que sou homem, e minha adrenalina estava viajando rapidamente pelas minhas veias, eu precisava colocar aquilo para fora de alguma forma, mesmo que fosse através de um beijo que foi, digamos, um pouco caloroso demais para ser desempenhado em público. E sabíamos que a maioria dos olhos estavam sobre nós. Mas não nos importamos.
Quando nos separamos, observei-a sorrir vitoriosa por baixo de seus lábios anormalmente avermelhados. Inconscientemente, desviei de seu olhar e observei a arquibancada que estava um completo caos devido às pessoas estarem buscando a saída. Por um segundo tive a impressão de ver um par de olhos conhecidos. Conhecidos, mas que há muito tempo não via. Passeei com meus olhos mais uma vez através do contorno da arquibancada, mas desta vez não tornei a encontrá-los. Ignorei. Deveria ter me enganado. Muitas pessoas me encaram em todo o lugar que vou, mas nunca foi um problema. Voltei a olhar para Carly que ainda sorria, mas com os braços cruzados.
- O que foi? – Não fiz questão de ser agradável.
- Sentindo minha falta? – Ela estava tentando ficar por cima de mim ou eu entendi errado?
- Na verdade, não – Sorri docemente, o singular sorriso que eu sei que ela ama. Foi com ele que eu havia conquistado-a e é com ele que sempre consigo o que quero – Mas você me deu uma puta vontade de continuar o que paramos ontem – Fui me aproximando.
Relutantemente, ela foi dando pequenos passos para trás. Ela também queria, mas ela é como eu, nunca daria o braço a torcer. Bom, eu posso sempre fazer existir uma primeira vez.
- Nem pense nisso.
- Como você sabe o que eu estou pensando?
- Tá escrito por todo o seu rosto: Eu quero fazer sexo – Abriu um sorriso que foi de orelha a orelha.
- Eu quero fazer sexo – Sorri da mesma forma. Parei a poucos centímetros de seu corpo – Eu estava pensando que deveria logo procurar minha companhia para a noite.
O sorriso desabou de seu rosto em uma fração de segundos e eu gargalhei. Carly deveria aprender de uma vez por todas que ninguém consegue passar por cima de mim, ninguém é superior a mim. Muitos podem pensar que é apenas mania de grandeza, mas é a pura verdade, ainda estou para conhecer alguém que pudesse me derrubar ou que me fizesse descer à média, me fazer ser um otário qualquer e apaixonado. Dei-lhe um selinho e desapareci por suas costas. Seu rosto estava petrificado em fúria. Não havia como eu ficar mais satisfeito.
Antes de empurrar a porta de vidro do bar do hotel, baguncei um pouco meu cabelo olhando para meu reflexo e dei de cara com a Sra. Sky pegando o copo de whisky que tinha acabado de pedir. Ri da cara de idiota que ele fez. Uma atitude bem burra, diga-se de passagem, pedir por uma bebida alcoólica no mesmo local onde estão seus supervisores. Mas eu relevo esse tipo de coisa, nem todos pensam do jeito que eu penso. Nem todos tinham vindo preparados do jeito que eu vim para não ter que recorrer a terceiros como meu amigo fizera.
- Mas você é muito idiota mesmo – Sentei-me ao seu lado, rindo muito alto. Ele me lançou um olhar de mau-humor, mas o desfez logo em seguida. Estávamos todos com um bom humor bom demais para ser desperdiçado por coisas banais – Relaxa cara, eu trouxe uma garrafa inteira, tá dentro do quarto.– sorriu largamente ao mesmo tempo em que eu pedia por uma água com gás.
- E você não fala nada hein? – Arqueou uma das sobrancelhas.
- Estou dizendo agora – Pude ver através da minha visão periférica que alguém havia sentado ao meu lado, mas não dei atenção. Ao contrário com meu amigo.
- Vou dar uma volta por aí – Falou levantando-se às pressas. Estranhei seu comportamento, então me vi obrigado a virar para ver a causa de tal reação. Só então pude entender.
Eu estava certo afinal, eu tinha realmente visto um par de olhos conhecidos no jogo mais cedo.
O mesmo cabelo de três anos atrás possuía o mesmo tom de loiro, porém seu cumprimento era maior do que eu estava acostumado. Mas as poucas sardas claras por cima de seu nariz e seus olhos acinzentados ainda sorriam para mim da mesma forma como fazia antes. Seu sorriso se alargou quando viu que eu havia reconhecido seu rosto.
- – Colleen disse ao se virar completamente de frente para mim.
- Co-Colleen? – Falei ainda um pouco atordoado. Não podem me culpar, eu sei que não sou de ficar dessa forma por uma garota. Mas qualquer um ficaria se estivesse em meu lugar.
Eu só namorei firme com duas garotas no total. Uma delas – obviamente – é a Carly. A outra é a Colleen, entretanto a esta eu fui fiel, mesmo que durante quatro meses de namoro aos meus catorze anos. Ela é filha de um dos ex-fornecedores do meu avô, antes da minha mãe assumir e cortar tais ligações. Em minha transição entre os treze e catorze anos, conheci Colleen, que, embora fosse dois anos mais velha que eu, foi a primeira garota que levei para a cama, e fui seu primeiro também. Com ela aprendi grande parte do que sei em questão de sexo, dando início à minha ativa vida sexual, assim que ela mudou-se para outra cidade, a qual nunca procurei saber qual era. Digamos que o que eu sentia por Colleen foi o que cheguei mais perto de me apaixonar, mas mesmo assim ainda estava longe. E era o que eu sentia por Colleen. No passado.
- O que você está fazendo aqui? – Eu estava surpreso e não havia necessidade de esconder isso. Não havia motivos para eu não estar surpreso.
- Eu soube que o colégio de vocês estaria aqui nesse fim de semana e pensei: Por que não passar e saudar meu velho amigo ? – Sorriu me analisando dos pés a cabeça. Não fiquei desconfortável. Pelo contrário, finalmente voltei ao meu normal. Eu adorava aqueles olhares em cima de mim. Eles eram ainda melhores vindos dela – Você realmente cresceu.
- Acredito que isso seja bom – Assim como ela, me virei para ficar frente a frente. Colleen levemente levantou as duas sobrancelhas, indagando – Eu soube que você gosta de garotos mais novos – Sorri galante.
- Não se engane, – Sorriu. – Você ainda é um bebê – Levou a mão que não segurava seu copo de vinho ao meu rosto e passou por ele com os dedos.
- Espero que seja um elogio – Falei incerto.
- Claro que é.
- Oi! – Pulei com o susto, alguém tinha falado perto do meu ouvido e, num piscar de olhos, Colleen recolheu a mão que me tocava.
- Carly – Rosnei quando ela veio ao meu lado e segurou a minha mão.
- Olá! – Ela virou-se para Colleen sorrindo, mesmo que não tentasse esconder que o mesmo fosse falso – Eu sou a Carly, namorada do – Fez questão de enfatizar a palavra.
- Prazer Carly, sou a Colleen – A outra sorriu da mesma forma. Senti-me realmente satisfeito.
Apesar de Carly ter estragado toda a conversa que eu estava tendo com a minha provável companhia da noite, eu não reclamaria se elas começassem a brigar ali mesmo. Não há como levantar mais o ego de um cara do que quando há duas garotas brigando por ele. Soltei a mão da minha namorada apenas para provocá-la, ela bufou de raiva e a outra sorriu vitoriosa.
- Bom, eu estava convidando o para uma festa na casa da praia de uma conhecida – Colleen puxou o guardanapo que estava em baixo de seu copo e anotou lá um endereço e deu em minha mão – Apareçam se estiverem cansados dessa diversão à moda ensino médio – Por seus olhos, vi que aquele convite continha algo mais. Ela não parava de me encarar. Em um só gole, tomou o restante de sua bebida e se retirou.
Fiquei perplexo durante alguns segundos. Só poderia ser um sonho mesmo. Esta viagem estava me saindo melhor que encomenda. Eu nunca pensaria que, ao entrar naquele ônibus, eu estava indo ao encontro da melhor transa que eu já tive em minha vida, pronto para recordar esse passado.
Coloquei um dinheiro no balcão pagando por minha bebida e a da garota. Mas havia me esquecido completamente de Carly até que me virei para sair. Ela bloqueava meu caminho com os braços cruzados e uma expressão amarrada.
- Suas traições seriam menos humilhantes se você tivesse ao menos a decência de esconder – Apesar de seu rosto demonstrar que estava no limite da raiva, como se esperasse o momento certo para levar a mão na minha cara, seu tom de voz era choroso. Eu quase tive pena. Nem me dei ao trabalho responder.
Não foi difícil achar e o resto dos garotos para entregar-lhes o endereço, deixaria com eles a tarefa de espalhar pelos alunos. Vi que meu amigo me lançou um olhar orgulhoso. Ele sabe de toda minha história com Colleen e sabe também como eu amo ficar com garotas mais velhas e mais experientes. Seria como matar dois coelhos com só uma cajadada. O grande problema seria como chegaríamos lá. A casa da tal amiga era à beira da praia, ou seja, bem longe.
Cheguei ao estacionamento do hotel e procurei por uma solução para o meu problema. Tudo bem, eu não estava esperando exatamente que a solução caísse do céu, mas eu via algumas pessoas chegando ao mesmo local que eu estava e também não sabiam o que fazer. Táxi estava completamente fora de cogitação. Um bando de táxi chegando ao mesmo local certamente levantaria suspeitas.
Olhei para o ônibus do colégio e tive uma idéia.
Naquele momento, o motorista deveria estar com o Williams e a Sky, no bar, deixando o espaço livre para pegarmos o ônibus. Mas a chave deveria estar no quarto dele, o que complicava um pouco.
- Parabéns, .
- Hã? – Olhei para trás ainda pensativo e se aproximava de mim, voltei a olhar para o ônibus, pensando na solução, e, consequentemente, ignorando-a.
- Parabéns pelo jogo – Repetiu, desta vez explicando. Apenas murmurei, sinalizando que tinha escutado. O que eu faria para pegar as chaves daquele ônibus? Não seria lá a coisa mais fácil a se fazer. Eu nem sabia ao mesmo qual era o quarto – Nossa, você tá mais lerdo que o normal.
- Dá pra calar a boca? – Bufei e me virei para onde ficava o prédio da recepção, e andei naquela direção. me seguiu.
- O que você tá armando?
- Quer me ajudar? – Parei e me virei para encará-la perto o suficiente para falar tão baixo que ninguém mais pudesse escutar nossa conversa. Ela ficou meio desconsertada com a aproximação repentina então apenas assentiu com o rosto levemente corado. Sorri fraco – Eu quero pegar o ônibus para irmos à festa.
- O QUÊ? – Arregalou os olhos e eu tapei sua boca. Ela rolou os olhos e entendi como um sinal para tirar minha mão – Você é maluco? – Sussurrou.
- Já fiz coisas piores – Dei de ombros.
- Isso é roubo.
- Caramba, você é muito medrosa – Ri. Ela abriu a boca indignada, pensando em algo para retrucar, eu continuei rindo para provocá-la.
- Fique você sabendo que eu já fiz muitas coisas.
- Sei – Ri.
- Qual é seu plano? – Cruzou os braços e perguntou a contragosto. As pessoas pensam que têm que me provar alguma coisa, geralmente é assim que eu consigo o que quero. Mas eu achava que fosse diferente.
- Eu quero entrar no quarto do motorista idiota e pegar a chave.
- Hum... – Parou para pensar por alguns segundos. Alguns minutos... Eu ainda esperava, mas, como já sabem, eu sou um pouco impaciente.
- Fala logo!
- Vem cá – Pegou em meu antebraço e me puxou para o caminho oposto à recepção.
me levou por um caminho arborizado, pouquíssimas pessoas passavam por lá, mas eu não podia questionar sua idéia já que era a única posta à mesa. Na verdade, eu nem sabia mesmo qual era sua idéia, mas por alguma razão, eu confiava nela. Não parecia que a cada curva daríamos de cara com o Williams e ela entregaria a mim e aos outros que também pretendiam ir à festa.
- Aqui – Apontou para uma janela.
- O que é isso? – Arqueei uma sobrancelha.
Não pude deixar de ironizar a situação. Normalmente, seria a em seu lugar, mas devido às circunstâncias um tanto especiais, ela não estava comigo. E creio que não mais estará. Eu não podia me permitir pensar naquilo. Dava-me um nó na garganta, um aperto no coração e um turbilhão de sentimentos que eu nunca havia sentido. Eu iria perdê-la e estava negando veemente.
Elas era parecidas, e , em questão de personalidade.
- Este é o quarto no Williams – Apontou para a janela atrás de mim – Quarto da Sky – Apontou para a janela atrás de si – Quarto do motorista desconhecido – Apontou de novo pra a primeira janela.
- Ah! – Corri para frente da janela e tateei pela sua extensão. Assim percebi que estava aberta. Procurei por um pedaço de madeira no chão e, com ele, consegui puxar a janela para o lado de fora.
Olhei para que sorriu me encorajando e pulei para dentro do quarto escuro. Ouvi a garota murmurar “cuidado” logo antes de andar mais um pouco, apalpando a parede, em busca do interruptor e acendi a luz.
- Ok, se eu fosse uma chave onde eu me esconderia? – Olhei em volta, enquanto dava risadas do meu comentário idiotamente sem criatividade.
O quarto do cara era bem menor que o meu, possuía apenas uma cama de solteiro, uma mesinha ao seu lado e uma grande mesa onde havia uma TV e vários pertences espalhados.
- Tenta perto da carteira – Tomei um susto com a voz de . Ela estava apoiada casualmente com seus braços sob a janela e seu queixo descansando sobre eles. Era uma visão um tanto engraçada, mas eu não poderia parar e admirar para assim ser apanhado dentro do quarto e levar uma generosa suspensão.
Fiz o que mandou. Procurei entre a bagunça das coisas em cima da mesa. Algumas roupas
jogadas em cima de uns frascos de xampu e condicionador. Relógios, perfumes, chapéu. Esse homem tinha alguma noção de que foi contratado só por um fim de semana e não um semestre inteiro? Além do mais, ele passa a maior parte do tempo de uniforme, para que todas aquelas roupas?
Embaixo de uma bermuda, achei sua carteira. A chave estava bem ao lado. Sorri abertamente e levantei na altura do rosto para mostrar a garota que tinha achado nosso tão almejado objeto.
Ouvi uma movimentação do lado de fora e meu coração veio à boca. Era a voz do treinador, eu conhecia muito bem. E não estava sozinho.
- Corre! – falou não muito alto e corri na direção da janela sem parar para apagar a luz.
Pulei para fora na mesma hora que ouvi a porta se abrir. Agachei-me ao lado da garota para que não nos vissem e esperamos um pouco para garantir que não fôssemos pegos. Bem idiota, eu sei, seria só eles olharem pela janela e teriam os culpados entregues de bandeja. Mas em um momento de tensão como aquele, não pensamos muito nas consequências.
- Ué, esqueci a luz acesa? – Foi só o que ouvi e me levantei com cuidado para que ninguém visse nossas cabeças pelas janelas.
Seguimos correndo pelo mesmo caminho que tínhamos feito para chegar ali. Não esperaria pelo cara dar por falta de suas chaves, quando isso acontecesse, eu estaria muito longe dali, se possível, na festa. Paramos já no estacionamento. Assim que vi que era seguro, parei de correr e olhei para a garota. Suas bochechas estavam vermelhas e um pouco suadas, ela sorriu para mim e estendeu a mão.
- Bom trabalho – Peguei sua mão – Até que formamos uma bela dupla – Riu fazendo uma careta ao mesmo tempo. Sua respiração era falha, aquilo para mim não é nada, estava acostumado a correr bastante durante os treinos.
- Então , tá afim de ir a uma festa? – Perguntei sem soltar sua mão. Não senti a necessidade de soltar.
Tudo parecia estar certo. Tudo o que sinto quando estou com , eu tornei a sentir naqueles minutos com , me diverti da mesma forma, sem precisar demonstrar que sou , capitão do time de futebol. Fui apenas e fim. Entretanto, tinha algo mais, algo que não consegui distinguir o que era, nem queria na verdade. Estava bom demais do jeito que estava. Eu no meu mundo e ela no dela.
- .
- O quê?
- Você me chamou de ontem sem nem perceber, agora estou dando a permissão para fazer isso – Deu de ombros.
- Ah, ok – Respirei fundo. Não iria dizer para ela “Ah, ok, me chame de ”.
estava de bom tamanho para mim, mostrava o grau de intimidade que as pessoas realmente tinham comigo. Eu não queria ter esse tipo de intimidade com ninguém. Muito menos com uma garota. Soltei sua mão – Bom, estou indo... Se quiser vir, estou no ônibus – Ela assentiu sem sorrir e eu dei as costas.
- Quem vai dirigir essa lata velha? – Uma garota de cabelos loiros e longos entrou no ônibus e logo se deparou com a cadeira do motorista vazia.
- Você não precisa se preocupar com isso, só sente e fiquei quietinha – Falei sentado no braço de uma das poltronas, observando os garotos do time subirem nas cadeiras e se perdurarem na aba da saída de incêndio. Ria quando um ou outro não se apoiava firme o bastante e caía no chão.
- Como eu vou entrar nessa geringonça se nem sei se vai me levar pra morte certa – A loira sei-lá-seu-nome se pôs na minha frente com os braços cruzados.
- Eu vou dirigir – Dustin apareceu ao meu lado, segurando as chaves do ônibus. A menina arregalou os olhos e me fitou piedosamente. Calma, eu tive todo o trabalho de roubar as chaves do ônibus e ainda teria que servir como motorista para aquele bando de bêbados? Ok.
- Você por acaso tem licença para dirigir ônibus? – Arqueou uma sobrancelha para o idiota.
- Estou surpreso que você saiba que é preciso de uma licença para dirigir ônibus – Ouvi atrás de mim, com a voz falha e respiração acelerada. Olhei para ele. Ao seu lado estava uma garota morena muito bonita. Ri da rapidez do meu amigo. Que orgulho!
- Cala a boca, – Rolou os olhos e foi se sentar ao lado de Carly que estava emburrada na primeira poltrona. Nada que eu tivesse que me preocupar antes da viagem acabar. Ficamos zoando que perdeu a paciência e voltou a beijar a garota que, em momento algum, tinha cessado os beijos em seu pescoço.
Não vou dizer que o percurso foi tranquilo, eu posso ser bem inconsequente, mas eu gosto de viver, assim, tenho medo de morrer. As ziguezagueadas do ônibus a cada curva só me deixava mais desconfortável, isso porque eu não queria nem pensar em quem dirigiria aquilo na volta. Talvez a loira chata expert em ônibus.
A casa da amiga de Colleen possuía, no andar de baixo, paredes feitas de vidro, ao contrário do primeiro andar, que dava apenas para ver janelas cujas luzes estavam acesas. E era bonita, era toda branca, poderia ter até um ar pacífico se não fosse todas as pessoas bebendo, se drogando e se amassando pelas quinas das paredes, sem o mínimo pudor. Uma festa de verdade, eu estava precisando de uma dessas há tempos.
Dentro, não havia sobrado muito das mobílias, elas haviam sido retiradas para evitar o mesmo triste fim que teve alguns – poucos – vasos que foram esquecidos. O grande espaço vazio era usado como uma pista de dança improvisada, onde as pessoas se mexiam ao som de alguma música eletrônica exageradamente remixada. Peguei uma cerveja no bar e sentei-me lá mesmo, esperando por alguém conhecido. Seria patético ficar atrás de alguém naquela festa, sendo que eventualmente as pessoas sempre me procuram.
Com sorte, eu nasci no século certo. Se fossem alguns – muitos – anos atrás, eu estaria rondando a festa implorando pela companhia de uma garota. Felizmente, os tempos mudaram, não é necessário nem mover um músculo, as garotas sempre chegam até mim, tudo bem, são garotas que não se dão ao valor, mas quem liga? Realmente importa como uma garota se vê quando estamos passando nossas mãos em seu corpo nu? Falta de amor próprio não precisa ser necessariamente um problema, pode ser um estímulo para que busquem ser felizes sem ficar correndo atrás de caras como, bem... Eu.
- Pensando em que, lindo? – Colleen encostou-se no balcão. De onde ela saiu é uma pergunta que eu nunca vou ser capaz de responder.
Ela trocara de roupa. Antes vestia uma calça jeans, camiseta básica e salto, mas fizera uma bela de uma troca por um vestido preto três palmos acima do joelho. Eu realmente havia dito que garotas de uniformes de líder de torcida são atraentes? Retiro completamente. Nada chega aos pés de uma mulher devidamente vestida para uma festa. Eu deveria realmente rever os conceitos do que me satisfaz de verdade. De repente me senti como se tivesse me acostumado com coisas medianas, achando que são boas o suficiente.
- Você, claro – Dei de ombros. Ela alargou o sorriso.
- Cerveja? – Olhou para a garrafa em minhas mãos que continha apenas dois dedos do líquido sobrando.
- Foi a primeira coisa que eu vi – Falei com descaso entregando a garrafa para sua mão estendida.
- Você precisa aprender a beber, bebê – Com um sorriso um tanto quanto maldoso ela puxou minha mão para sairmos pela porta dos fundos.
O jardim do fundo estava consideravelmente mais vazio. Fazia frio naquele dia e as pessoas buscavam ficar longe das brisas geladas. Havia espaço o suficiente para que todos ficassem dentro de casa. Apenas quem queria privacidade iria até os fundos, sentava-se em baixo de uma árvore qualquer e fazia tudo o que tivesse direito de fazer.
Eu não sabia bem o que a bebida tinha a ver com os fundos quase vazios da casa. Não havia geladeira nem caixas de bebida lá, como ela me arrumaria uma bebida ali era a grande pergunta. Comecei a ficar um pouco impaciente. Ela estava meio distraída, bebericando o resto da minha cerveja. Eu não posso dizer que Colleen é das mais espertas. Ela apenas sabe do que eu gosto, nada que uma garota não descubra depois da segunda ou terceira vez.
Ao nos afastarmos alguns metros, vi uma pequena casa nos limites do terreno, que não era muito atrativa. O tipo de casa usado como depósito ou o escritório de um pai cujos filhos incomodam, isso explicaria ser tão afastado. Dentro, Colleen acendeu uma luz e eu vi que, ao contrário do que eu pensava, aquela casinha era confortável e até bonita. Tinha uma cama de casal, banheiro, uma escrivaninha com um computador em cima, uma lareira e uma geladeira. Coisas vitais.
A garota foi até um armário e abriu mexendo em algo que acredito ser vidro, não dava para ver de onde eu estava.
- Posso perguntar o que você tá fazendo? – Falei depois de um tempo. Eu estava perdendo uma festa lá fora pra ficar ouvindo Colleen mexer em um monte de coisas sem nem se lembrar que eu estava presente.
- Fica quietinho aí – Falou ainda de costas.
- Até parece – Ri sem humor – Eu to perdendo uma festa lá fora, então, quando você decidir fazer algo interessante, chame.
- Nossa, como você está insuportável – Virou-se para mim, sorrindo – Senta aí – Colocou uma das mãos em um dos meus ombros e me empurrou para que eu sentasse na cama. Sua outra mão segurava um copo afunilado que continha um líquido azul claro e algumas azeitonas presas por um palito. Eu sabia exatamente o que era aquilo – Você não vai se arrepender – Falou ao pé do meu ouvido sorrindo pelo canto de seus lábios.
Como eu aguentaria ficar trancado com essa garota desse jeito? Mais cedo ela me dava sinais que queria o mesmo que eu, agora estava bancando uma de amiga de infância, sem resistir a dar umas provocadas, claro. Eu não mereço isso. Antes que ela pudesse se afastar de mim, segurei um de seus braços com força.
- Você não vai a lugar algum até me dar o que eu quero – Ela caiu sentada ao meu lado e se equilibrou para que não derrubasse o líquido na cama. Colleen sorriu e se aproximou do meu rosto. Ficou um tempo ali. Eu sentia sua respiração bater em meu queixo. O que é autocontrole?
- Martini? – Perguntou com seu nariz colado ao meu.
- Claro – Sorri e ela me deu o copo.
Entornei o copo todo em um gole. Ardeu tudo, tudo mesmo. Se enfiassem uma faca em meu cérebro, eu não sentiria, quase todos os meus sentidos foram anestesiados por alguns segundos. Quando voltei ao normal, abri os olhos e Colleen estava com a feição indignada.
- Que foi?
- Isso não é uma bebida qualquer, bebê – Rolou os olhos – Você tem que apreciar.
- Dá pra parar de me chamar de bebê? – Bufei. Odiava essas demonstrações bregas de carinho.
- Tem razão, o fato de você entornar um copo de Martini prova que você não é mais meu bebê – Riu.
- Tem muitas outras coisas novas que eu faço hoje – Puxei sua cintura, e consequentemente, ela subiu em meu colo e jogou seus braços em torno do meu pescoço.
- Ah, é? Mostre.
Levantei-me com ela em meu colo e suas pernas cruzadas em minha cintura. Não aguentei esperar chegar até a outra ponta da cama, colei meus lábios aos dela. Ela já esperava por tal ação. Toda a sensação de deja vu me tomou e também todos aqueles efeitos conhecidos do passado. Seu corpo, conforme eu passava minha mão, e levantava o vestido até a sua cabeça, eu via que estava completamente mudado. Ela era uma mulher. Não era a Carly, nem qualquer outra garota de algum pub. Tinha habilidades. Mas ainda assim, estava faltando alguma coisa.
Alguns minutos e nossas roupas já estavam jogadas pelo chão do quarto, junto a alguns objetos da mesa ao lado da cama que não saíram ilesos.
Peguei outra garrafa de cerveja e fui até a praia. Depois da segunda vez, Colleen quis conversar e relembrar o passado. Eu gosto de silêncio e tranquilidade após o sexo. Se ela quisesse saber como estava minha mãe ou como estava , ela que pegasse o telefone e fosse saber por conta própria. Nós nunca mais nos veríamos e não havia motivos para que conversássemos como velhos amigos. Nunca fomos amigos mesmo, sempre ficando, depois o namoro, depois ficamos de novo, então ela se foi. Fez falta no começo, mas depois de alguns meses era só mais uma. Eu descobri as virtudes de uma vida sexual ativa. Quando eu estava com a Colleen, achava que o mundo era aquilo e pronto, mas ainda têm muitas coisas que ainda não conheci, eu não deveria ficar preso a uma pessoa. Carly é a namorada perfeita por isso, eu não fico preso a ela. Já Colleen possui umas atitudes que não permitiriam o mesmo. Por que diabos eu iria querer namorar uma garota como ela?
Na praia, o movimento era maior, olhei para o lado direito, vi grande parte do time reunida, a maioria deles estava acompanhada e todos já bêbados. Alguns não conseguiam tirar a língua da boca das garotas, nem mesmo para respirar. Eu precisava de alguém para aquilo. Não iria fechar minha noite com uma garota. Do outro lado, outro casal se afastava. Mas estes andavam lado a lado e estavam próximos. A garota era um pouco mais baixa, usava um short jeans deixando à mostra suas pernas... E que pernas. Eu conhecia essas pernas...
- CARLY! – Gritei. Em um só pulo ela se afastou do outro cara e se virou para mim – Que porra você está fazendo?
- ?
- Surpresa? – Ri cinicamente.
- Amor, calma, eu só estava entediada, o também, aí...
- ? – O encarei para crer que aquilo era mesmo real. . No meu time. E agora com a minha namorada.
Não pude controlar meus instintos, no segundo seguinte eu já tinha socado a maçã do seu rosto e ele estava caído no chão, com a mão massageando o local dolorido.
- Tá maluco? – Ele pôs-se de pé veio para cima de mim.
Naquela hora, o resto do time montou uma posição de defesa ao meu redor. recuou ao perceber que os outros garotos não estavam ali meramente para assistir uma briga, se juntaram em prol da minha defesa. Sorri. Aquilo seria divertido. Fazia um tempo desde que nos juntamos contra uma pessoa. Seria ótimo cumprir meus desejos que foram criados desde que o treinador disse as tais malditas palavras “Vou colocar ele no time”.
Olhei para Adam, ele sabia exatamente o que eu quis dizer com o meu sorriso nada discreto. Ele segurou um dos braços de , ao mesmo tempo que ar, outro garoto do time, segurava o outro braço. Cruzei os meus e me aproximei.
- Covarde – falou tentando se soltar.
- Como quiser chamar. Eu me considero um instrutor – Ri.
- ... – Carly começou a falar, mas eu a interrompi. A hora dela ainda iria chegar.
- Cala a boca!
- Me desculpa... – Choramingou.
- Se você sair da minha frente eu posso pensar no seu caso – Bufei. Ela não respondeu nada. Apenas olhou de mim para , como se pedisse a ele desculpa com os olhos. Desculpa porra nenhuma, ele tem que saber qual é o lugar dele.
- Agora – Cheguei mais perto de , que me olhou desconfiado. Eu estava anormalmente calmo. Ele estava a muito pouco tempo naquele colégio, ainda não me conhecia – Peça desculpas – Ele começou a rir. Rir muito alto – Eu estou avisando, , estou sendo bonzinho com você.
- Você é um imbecil, isso sim – Falou entre as risadas.
- ! – gritou – Cara, vai com calma.
- Estou indo com muita calma – Dei de ombros. E ri – Última chance...
- Pode dar quantas chances quiser.
Fim da paciência! O sangue fervia pelas minhas veias, misturado com o álcool, eu já não conseguia mais controlar minhas ações. Muito menos a minha raiva. Meu punho se fechou automaticamente e fez minha vontade. Acertou em cheio no estômago no idiota, que se dobrou ao meio, mas seus braços ainda estavam em posse dos garotos.
- O que você disse mesmo?
- Vá. Se. Foder. – Disse com a voz falha. Meu punho foi mais uma vez ao mesmo local. Os garotos ao meu redor riam do estado deplorável que se encontrava.
- Eu que mando nessa merda, , não tem como você passar por cima de mim – Falei baixo apenas para que ele escutasse, mas desconfio que os outros dois que estavam ao seu lado também tenham escutado.
- Não manda, eles fazem você pensar que manda para sobreviverem naquele colégio. Mas nem todos vão se inclinar ao seu trono, .
- Você já está inclinado a mim – Apontei para sua posição, dobrada na altura do estômago. Levantei a mão para dar-lhe mais um soco, mas senti uma mão me segurando – Que porra...? – Me virei. Era .
Ela segurava meu punho com um olhar de reprovação. Não sei bem o que a fez pensar que aquele olhar me faria mudar de idéia. Quantas vezes eu teria que dizer essa merda: Ninguém vai conseguir me mudar. Umas conversinhas e a garota já acha que tem o direito de colocar seu dedo em minhas ações.
- Acho que já é o bastante, não? – Falou séria. Olhei para .
A maçã de seu rosto estava vermelha e inchava aos poucos. Talvez por hoje bastasse mesmo. Por hoje. Eu ainda teria muitas contas a pagar com .
- Podem soltar – Falei para Adam e Mitchel.
Ao mesmo tempo, soltaram os braços do idiota. Ele caiu no chão com as mãos em seu estômago e respirando fundo. Era isso. O que eu sentia tanta falta. Esse sentimento de poder, quando se coloca alguém no chão. Quando mostra a uma pessoa o lugar que ela deveria estar. é um perdedor, e sempre será. O fato de saber jogar futebol, ou de estar no time do colégio não mudaria sua natureza. Uma vez perdedor, para sempre perdedor. Sorri para ele e me agachei.
- Agora vá perguntar para o como é estudar no meu colégio.
Ao me levantar, vi se aproximando correndo. Parou ao lado do amigo e o ajudou, com pouca dificuldade, ele a se levantar. Eu não havia feito com ele nem metade do que estava acostumado a fazer com o outro.
- Saudades, ? – Forcei um sorriso verdadeiro.
- Você é tão previsível que dá nojo.
- Muito bom falar com você também – Ri e dei as costas.
- Hey, ! – Tinha acabado de dar meu primeiro passo ao ser chamado.
- Quê? – Virei-me e senti uma forte dor em minha boca. Com o choque, caí no chão.
Um dos garotos do time me ajudou a levantar e procurei quem tinha feito. . Ele possuía um sorriso vitorioso no rosto. Estava se achando o fodão, estava escrito em sua testa. Até respirar era difícil com todo o ódio saltando por cada poro do meu corpo. Quando parti para cima dele, me seguraram.
- A está certa, já chega – gritou e me empurrou – Se vocês brigarem o treinador vai ficar sabendo e estamos todos fodidos.
Bufei e dei as costas. Iria pra o mais longe que conseguisse daqueles idiotas. Eu poderia suportar qualquer coisa. O fato de que havia apanhado. De que vi a minha garota andando coladinha com aquele otário. Mas o meu melhor amigo me contrariando e tirando toda a minha moral na frente de todo o time é meio difícil de engolir. Ouvi alguém apressando o passo atrás de mim.
- O que você quer agora? – Perguntei quando se colocou ao meu lado.
- Por que você cria essa imagem patética de si próprio? – Ficou na minha frente com os braços cruzados e a mesma expressão séria de antes.
Eu ri. Ri muito alto. Estava mesmo precisando rir.
- O que você tem com isso?
- Eu estou falando sério. Porque alguém, que tem tudo como você, estragar a vida desse jeito, se tornando alguém odiado e temido por todos é bem patético.
- Você não sabe nada sobre mim.
- Não sei mesmo. Eu tentei ser legal, mas você afasta até quem quer ser gentil com você – Ela me olhava analisando todas minhas as reações, diante disso, tentei me manter neutro.
- Eu não pedi gentileza nenhuma – Falei com a voz dura.
- Pois é, talvez eu seja idiota porque achei que você precisasse de ajuda.
- Talvez você seja – Dei de ombros.
- !
Fodeu. Fechei meus olhos. Williams. Acabou.
06.
tinha o olhar petrificado na figura atrás de mim. Eu me recusava a virar. Eu me recusava a levar toda a culpa. Não, não estou falando em entregar a por ter roubado as chaves comigo. Estou falando em levar a culpa por cada idiota que colocou os pés naquele ônibus. A garota olhou para mim. Parecia ter os mesmos pensamentos que eu. Eu a entregaria para não pagar o pato sozinho?
Pensando bem, será que ela merecia? Eu estava com raiva por ter me reprimido na frente de todos, mas ela havia feito a mesma coisa. Será que chegou a hora de manchar o histórico escolar perfeito da Srta. com uma generosa suspensão? Eu certamente não me importo em levar uma, meus medos são outros...
- Por favor, – Ela fechou os olhos.
- ! – Williams gritou mais uma vez.
- Por favor, por favor, por favor, não se entregue e me leve junto – Seu olhar era desesperado – Se eu for suspensa não vou poder ficar na casa da minha tia, por favor.
- Eu não vou pagar por isso sozinho – Falei, fiquei surpreso pela minha voz sair com uma pontada de desespero. O Williams perderia a paciência e viria até nós, eu sabia muito bem.
- Não vai, eles não têm como provas que fomos nós dois.
- e , aqui, AGORA!
- Vamos – Eu disse me virando.
Ela hesitou em me seguir.
A cara do treinador estava vermelha, vermelha de raiva. Eu nunca tinha visto aquilo. A veia do pescoço dele estava pulsando de uma maneira sobre-humana. Engoli seco. Se ele tivesse que me expulsar do time, teria que expulsar todos os outros também.
Olhei em volta. Nada. Todos tinham desaparecido. Provavelmente se deram conta, antes de nós dois, de que problema tinha chegado e tiveram a chance de se esconder.
Respirei fundo. Agora ou nunca.
- Treinador – Falei.
- Esse tipo de coisa é a sua cara, . Pare com o cinismo – Falou alto.
- Minha culpa? – Tentei fazer minha melhor cara de inocente, espero que tenha funcionado, usei todos os dotes de ator que eu tenho e não tenho naquilo. Eu precisava sair ileso – Metade do colégio entrou naquele ônibus e a culpa é minha?
- Ninguém obrigou ninguém a entrar no ônibus, treinador – , para minha surpresa, me defendeu.
- Então o Sr. Problemático e a Srta. Mau-Humor armaram isso tudo juntos?
- NÃO – Ela arregalou os olhos.
- Como você pode ter tanta certeza que fui eu quem pegou o ônibus? – Arqueei a sobrancelha, desafiando-o. Ótimo, agora minha estadia no time dependia dos conhecimentos que adquiri nas minhas noites de insônia assistindo CSI.
- Tem sempre seu dedo por trás de qualquer coisa que não preste, – Ele cruzou os braços – A começar por essa sua boca sangrando, quem você andou provocando?
- Boa sorte tentando provar isso – Ignorei seus comentários, afinal, nada daquilo é mentira. Exceto a parte de ter provocado alguém. teve apenas o que mereceu.
Peguei a mão de , contornei o treinador e rumei na direção da casa.
Não sei bem se me safei. Na verdade sei sim, ele não deixaria barato de jeito nenhum. A cara que Williams fez, apesar de ter sido impagável, me provou que ele não deixaria barato. Ele me idolatra pelo que eu fiz com seu time, fato consumado, mas ele idolatra ainda mais seu orgulho. Desafiado por um aluno? Deve ser a pior coisa para um cara como ele. Talvez provocar o treinador não tenha sido a melhor das idéias, mas o que mais eu poderia fazer? Naquele momento, eu só queria sair daquela festa o mais rápido possível.
Segui para dentro da casa.
- Bebê! – Ouvi Colleen gritar e vir na minha direção visivelmente alterada e com um copo cheio de vodca. Ela sempre foi fraca para bebidas – Você já vai?
- Vou – Falei tentando me desvencilhar da garota que estava próxima demais.
- Ah, você já arrumou outra para a noite? – Olhou para a minha mão segurando a de . – Você acha mesmo que pode me usar e jogar fora, ? – Gritou jogando seu copo no chão. Soltei minha mão e coloquei-me na frente da , caso a louca bêbada resolvesse atacar.
- Já estou fazendo – Sorri.
- Eu fiz o que você é hoje, , não cuspa no prato que comeu – Colocou o dedo indicador em meu rosto.
Com uma tapa, afastei seu dedo e mim e me aproximei de seu ouvido.
- Quem come várias vezes do mesmo prato acaba enjoando, Colleen – Voltei para trás, peguei a mão de – A gente se vê daqui a mais três anos – Falei ao me afastar.
Eu não me sentia muito bem. Como a minha mãe sempre diz: “Não se deve sair de um lugar fechando as portas, deve-se manter todas abertas.” Eu não queria fechar as minhas portas com a Colleen, ela sempre foi muito mais que satisfatória em tudo que fazia, só lhe faltava o quesito inteligência. Mas se manter uma porta aberta significa ir contra tudo o que acredito, então é melhor que ela esteja fechada mesmo. Não queria pagar uma de garoto apaixonadinho pela namorada de infância que está na faculdade, só porque ela me satisfaz sexualmente. Talvez eu até encontrasse alguém melhor que ela.
Consegui sair da casa depois de muito empurrar as pessoas no meu caminho, conseguir até despistar a Sky que estava perto da porta.
- Oi? – Uma voz feminina me tirou dos devaneios. Olhei para ela.
- Oi – Respondi à .
Apertei meus olhos. Puta dor de cabeça. E não passava nenhum táxi pela rua. Sentei-me no meio fio. É, mais uma vez eu estava esperando que as soluções caíssem do céu. Claro, eu já não tenho problemas demais para agora ter que me preocupar por a porra da minha posição como capitão do time?
Maldita seja a hora que Colleen entrou naquele bar, mudou todas as direções.
- Obrigada – A garota disse ao se sentar do meu lado – Eu sei o que você pode perder se o Williams cismar de colocar você para fora do time.
- Tudo bem, eu não vou deixar você perder a casa por causa da minha posição no time – Dei de ombros. Aquilo era relevante o suficiente para estar sendo conversado? Eu sabia o que perderia, ela sabia o que perderia. Eu não queria conversar, caramba.
Cara, como a faz falta.
- O marido da minha tia falou que me acolheria somente com a condição de que eu não causasse problemas. Tem sido um grande desafio para mim, acredite – A menina começou a desabafar. Olhei para ela.
Seu olhar estava focado nas árvores do outro lado da rua. A coisa era séria. Não que eu me importe, claro. É apenas com curiosidade. O jeito como ela pronunciou aquela frase, é como se tivesse sido magoada por algo ou alguém, mas não acredito que o marido de sua tia fosse o causador de tais problemas, ele só os piora.
- Por que você mora com eles então? – Perguntei o óbvio. Naquela simples frase que ela disse, muito não se encaixava. Se ela insiste tanto em saber sobre a minha vida, eu não estaria fazendo nada de errado por querer saber sobre a vida dela também.
- Não, não – De repente, ela sorriu. Mas não um sorriso murcho estilo “Eu estou bem”, ela sorriu verdadeiramente. Divertidamente. Bipolar – Você não me fala nada. Como quer que eu fale da minha vida pra você? Obviamente você não confia em mim.
- Isso é diferente – Ok, eu não sabia muito bem qual era a diferença, eu estava na falta de argumentos.
- Como? – Franziu o cenho, ainda rindo.
- Você que começou a falar tudo isso para mim – Falei a primeira coisa que veio na cabeça.
- Você que me incitou a procurar saber sobre a sua vida – Retrucou.
- Verdade – Ri.
- Você ainda não vai me contar, não é? – Arqueou uma sobrancelha, murchando.
Não havia motivos para eu contar minha história para ela. Ela é a única naquele colégio que não me conhece realmente, não sabe de tudo, assim, não me julga. O que ela sabe sobre mim são as opiniões próprias, e está ótimo, sendo elas boas ou ruins, é como deveria ser. Julgar-me baseando em minhas origens, em como fui criado e quem são meus pais é uma hipocrisia absurda. Conheço muitas famílias consideradas “adequadas” que são muito mais desestruturadas que a minha. Minha mãe, apesar de ser bem nova, me criou muito bem, ou pelo menos ela tentou, não sou lá um exemplo de ser humano. Meu avô preencheu muito bem o quesito “pai” e teve o Liam também que sempre estava por perto. Tudo ótimo para mim. Mas não pra essa merda de socialite, esse grupinho nojento dessa cidade maquiada de moderna, mas não passa de uma tradicional de merda.
- Vamos voltar para o hotel? – Ignorei o que ela falou.
- Como você vai fazer isso, gênio?
- Tem um ponto de táxi não muito longe daqui – Dei de ombros ao me levantar, ela me imitou logo em seguida.
- Ou nós podemos esperar o treinador recolher as pessoas e voltar no ônibus como todo mundo – Apontou para as pessoas que saiam da casa, todos emburrados. Alguns até ainda estavam vestindo suas roupas, o que me fez rir.
- Eu estou morrendo de dor de cabeça, não estou afim de ouvir os gritos do Williams todo o caminho de volta. Eu estou indo, se você quiser tranquilidade, me siga – Dei as costas e olhei pela rua. Eu tinha que me lembrar para que lado ficava o ponto de táxi que eu vi quando estava no ônibus!
- Você é louco?
- O quê? – Olhei para a garota. Ela ria. Estranha.
- Você muda de atitude toda hora, não pode se acalmar com uma só personalidade por alguns minutos? – Saiu andando para o lado direito da rua. Eu fiquei parado. Não sabia para onde aquela maluca estava indo, me interessava mais saber qual lado ficava o táxi para que eu pudesse chegar logo naquela droga de hotel e dormir um pouco antes que Williams aparecesse e colocasse todos dentro do ônibus ainda de madrugada. É de se imaginar que ele não iria aguentar mais cinco minutos cuidando de nós, provavelmente só daria os minutos para juntarmos nossas coisas – Vai ficar aí parado, ?
- Pra onde você vai?
- O soco que o te deu afetou seu cérebro? – Fechei a cara e ela gargalhou. Ótimo, agora teria que ouvir piadinhas – Vou para o ponto de táxi, lerdo. Você não foi o único que planejou uma fuga alternativa da festa – Sorriu.
Não respondi. Apenas andei para perto dela.
- Por que você tá aqui ao invés de ter ficado com o ? – Perguntei após alguns minutos silenciosos de caminhada
- Ele está bem com o – Seu timbre de voz contradizia o que tinha dito, mostrava que estava preocupada com ele – Minha vez de perguntar... Por que batatas vocês estavam brigando?
- Carly...
- Carly? Sua namorada? – Ela arregalou os olhos e eu assenti – Eles estavam ficando?
- Eu não sei – Falei fazendo uma careta. Não queria nem pensar na possibilidade daqueles dois estarem me fazendo de idiota.
- Como não sabe? Você viu os dois juntos?
- Não exatamente...
- Então aquela confusão toda foi por causa de uma suspeita? – Ela bufou impacientemente.
- Eu não quero aquele palhaço perto do que me pertence – O tom de voz saiu um pouco pais alto que o intencional, mas eu não me importava, não havia ninguém além dela por perto mesmo. É bem difícil controlar raiva de vez em quando.
- Como quiser – Debochou. Eu rolei os olhos, não queria ter aquela conversa pela milésima vez na minha vida – Vem cá – Ela parou de andar e colocou uma das mãos no bolso de trás.
- Para onde?
- Vem limpar essa boca, já tá me dando nos nervos – Mostrou um lenço branco que tirou do bolso e eu me aproximei. Não faria mal nenhum tirar aquele sangue coagulado que já estava incomodando até demais.
Reclamei algumas vezes quando ela colocava mais força e a garota ria. Acho que ela gosta de me irritar. Eu odeio quando as pessoas se divertem às minhas custas. Mas ela passava o pano com mais leveza toda vez que eu reclamava, pelo menos funcionava.
- Garotos não aguentam dor, depois nós é que somos o sexo frágil – Riu fraco, enquanto não tirava os olhos da minha boca.
- Tente jogar futebol com um monte de caras que pesam setenta quilos, no mínimo, cada um.
ficou em silêncio após aquele comentário. Tudo o que me restou a fazer foi observar. O modo como os seus lábios estavam pressionados uns contra os outros num ato, provavelmente, inconsciente, enquanto ela se concentrava em limpar meu sangue, chamou muito a minha atenção, não vou mentir. não é o tipo de garota que eu costumo ficar. Eu gosto de fáceis. Fáceis vêm, fáceis vão. é o tipo que precisa ser conquistada, mas nada disso interfere na atração que eu sinto, apesar dela ser um tanto irritante e intrometida, isso faz dela ainda mais diferente de todas as outras.
- Prontinho – Jogou o lenço no chão e voltou a me encarar – Por que tá me olhando assim?
Não senti a obrigação de responder. Deixei o meu senso, ou a falta dele, me guiar. ainda esperava a resposta pela sua pergunta anterior. Uma forte brisa passou por nós, empurrando um pouco do cabelo da garota para frente dos seus olhos, antes que ela pudesse tirá-los, cuidei disso, passando-os para trás da orelha. Vi suas bochechas tomarem um leve tom rosado ao sentir que minha mão desceu ao seu pescoço, e eu me aproximava.
Encostei minha testa na dela e fui me aproximando cada vez mais. Quando nossos narizes já estavam juntos, a garota resolveu tomar uma atitude e colou seus lábios aos meus. Senti todo meu corpo responder, pedindo para aprofundar aquilo. pode não parecer a mais experiente, mas tem o melhor gosto. Não sei bem explicar o porquê, na verdade não faz nenhum sentido para mim, que sempre avaliou a qualidade de um beijo baseando no prazer que tiro dele. Ao invés disso, senti meu estômago contrair, totalmente inédito.
A garota espalmou suas mãos em meu peito e abriu sua boca, dando passagem para que a minha língua massageasse a sua, e, de repente, perdi a consciência sobre tudo à minha volta, até do local onde eu estava.
Mas como tudo o que é bom, dura pouco, meu celular tocou, me fazendo o favor de nos interromper.
Rosnei ao me afastar da garota e pus uma das minhas mãos em um dos bolsos traseiros para pegar meu celular. estava rindo, provavelmente do quão desajeitado eu estava parecendo.
- Quem é? – Atendi sem olhar o nome na tela.
- Wow, to vendo que interrompi alguma coisa – riu alto do outro lado.
- , são duas da manhã, o que você está fazendo acordada? – Respirei fundo tentando não descontar em , embora ela estivesse merecendo.
- Desculpa amor, estou sem sono. Mas enfim, minha mãe está preparando um brunch para amanhã de manhã, acha que chega a tempo?
- Do jeito que as coisas estão por aqui, provavelmente sim – Dei de ombros. Estava preparado para viajar durante a madrugada, e chegar lá, até, no máximo, seis da manhã, uma vez que a viagem não dura muito mais que uma hora.
- Ótimo! Vou arrumar uma mesa decente para nós três – parecia animada, o que me fez sorrir um pouco – Agora me diz, quem é a garota?
- Boa noite, – Ri e desliguei o telefone sem esperar que ela falasse mais uma coisa. sabe ser bem insistente, é só se esforçar um pouco.
Ao meu lado, estava com o rosto fortemente corado, e observava as árvores atrás de mim. Aparentemente, não continuaríamos de onde paramos. Então, voltei a andar, e ela ficou ao meu lado.
Raramente fico assim ao lado de uma garota. Ah, corrigindo, nunca fiquei assim ao lado de uma garota. Sempre sei a coisa certa a se falar, no momento certo. Mas não sabia exatamente o que estava acontecendo naquele momento. Eu tinha beijado . Meio surreal, certo? Tudo bem que desde que a conheci imagino como deve ser ficar com ela, mas na minha imaginação, eu não parava com um beijo, ia bem, bem, bem mais além.
- Olha, , eu...
- – Dei de ombros, achei que já estava na hora de parar de se tratar por sobrenomes. Meio que irrita depois deu um tempo.
- Ok, – Ela sorriu brevemente. No entanto, pareceu estar satisfeita – Me desculpe, ok?
- Desculpar o quê, exatamente? – Franzi o cenho.
- Eu sou meio impulsiva – Fez uma careta e eu ri. Eu acho que estava me acostumando a ter ela por perto. É estranho começar a conhecer uma pessoa dessa maneira. Quem nós achamos que conhecemos acabam nos surpreendendo, o caso é: surpresas podem ser boas ou ruins. Por isso que acho melhor não dar-lhes essa oportunidade.
- Não aceito as desculpas. E nem vou pedir desculpas também. Eu beijei você porque quis – Fui direto ao ponto. Tenho plena noção das coisas que faço, e apesar de fazer muitas merdas, não me arrependo porque tudo o que faço, faço porque acredito, de maneira nenhuma me verão fazendo algo que não quero. É, é bem a minha cara mesmo me arrepender de ter beijado uma garota. Ainda mais essa garota sendo , quem chamou a minha atenção desde o primeiro momento em que a vi. Mas só digo uma coisa: Não pararia naquele beijo.
- Acontece que você deveria se arrepender. Você tem uma namorada, garoto. Tá esquecido? – Ela colocou o dedo indicador a centímetros de distância do meu rosto. Sorri ironicamente. É claro, sempre tem que ter alguém para julgar minhas atitudes. Mal sabem essas pessoas que suas reclamações são mera inutilidades.
- Você estuda no mesmo colégio que eu? – Minha voz saiu rude, exatamente como eu pretendia para fazê-la acordar para vida de uma vez por todas. Toda essa relutância das garotas em me aceitar pelo que eu sou me deixa com uma raiva cega. Tudo seria muito mais fácil se não esperasse tanto de mim.
- Cara, como você é pretensioso – Rolou os olhos.
- Tá querendo dizer o quê?
- Qual é o problema em ficar com uma garota só?
- Por que eu ficaria com uma se posso ter todas? – Ri muito alto e vi bufar ainda mais pesadamente pela raiva que transbordava de seus olhos.
- Então você prefere fazer uma garota sofrer para não se sentir preso a elas? – Não soava muito como uma pergunta. Uau, aquele foi um palpite de principiante ou ela realmente é uma boa observadora. Ironia.
- Quase isso.
- Você é pior do que eu imaginava – Antes que eu pudesse responder, ela abraçou seus próprios braços e finalmente me dei conta que ela não usava nenhum tipo de agasalho, somente uma fina camiseta básica.
- Cadê seu casaco? – Arqueei uma sobrancelha sem me esforçar para ser educado ou fingir preocupação. Apenas curiosidade.
- Esqueci no ônibus. – Respondeu, seca. Tirei meu casaco e coloquei em suas mãos, quando ela fez menção de devolver, eu apenas falei alto:
- Por Deus, pega logo essa bosta, eu não quero você espirrando em mim dentro do táxi – Aumentei a velocidade dos meus passos quando vi o ponto de táxi a poucos metros de onde estávamos. Mas não fui acompanhado. tinha ficado para trás e me olhava de forma incrédula – Vamos, amiguinha, eu pago o táxi – Ri antes de voltar a andar.
- Você é um cavalheiro e tanto.
- Acooooorda – Fui chacoalhado, mas mantive meus olhos fechados. Sentia que tinha dormido apenas dez minutos. Estava acabado. Todas as energias que restavam no meu corpo se moveram para limpar todo o álcool do nosso sangue, e senti que não havia recuperado nem ao menos trinta por cento dela.
Puxei todo o cobertor até a minha cabeça numa vã esperança de que talvez pudesse abafar todo o barulho ou até impedir que tocassem em mim. Por alguns segundos achei que fosse voltar a dormir, mas meus sonhos foram interrompidos por uma tapa na cabeça através do cobertor.
- , você tem cinco minutos pra colocar uma roupa, se não... – Tirei a coberta do rosto e encarei mal-humorado uma de braços cruzados e autoritária.
- Por que eu faria isso?
- Porque eu não quero ficar naquela merda de brunch sozinha.
- Sua mãe vai adorar me ver por lá – Bufei ao esticar meus braços nunca tentativa inútil de que a preguiça desaparecesse.
- Vaaaaaamos, – Forçou a voz manhosa e tentou puxar meus braços para que eu me levantasse. Depois de duas tentativas, desistiu – Nós arrumamos um banheiro bem espaçoso para nos trancarmos. Eu, você e o .
- ? Tô fora.
- Vocês brigaram de novo? Tem alguma coisa a ver com a sua boca estar parecendo uma bola de basquete? – Tocou minha boca, automaticamente tirei sua mão dali, aquela merda incomodara a noite inteira. que me aguardasse, e tinha tido apenas a amostra grátis na praia.
- Não quero ver esse idiota na minha frente por pelo menos um dia.
- O que diabos aconteceu nessa viagem? – arqueou uma sobrancelha. Pensei seriamente em responder “Nada de mais”, mas ela sacaria a mentira na mesma hora e eu só me passaria como o idiota mentiroso. Mas eu não queria falar de absolutamente nada, minha viagem foi uma merda. As pessoas gostam de compartilhar histórias boas, as ruins guardamos para nós mesmos.
- Se eu resumir você promete não perguntar mais nada?
- Não.
- Eu encontrei a Colleen, ela nos chamou para uma festa, eu e roubamos a chave do ônibus, Williams pegou todo mundo e o defendeu o numa briga comigo. Agora caladinha.
- Caladinha uma merda. Colleen? ? ROUBARAM O ÔNIBUS? Você enlouqueceu de vez, seu idiota.
- É por causa disso que eu não queria falar nada – Levantei-me e entrei no closet procurando qualquer coisa “vestível” para essa merda de brunch.
- O que o Williams disse? – indagou desta vez preocupada.
- Não sei, ele não falou... Ainda – Voltei a sentar ao seu lado para calçar o tênis e ainda me olhava inquietamente – Eu to fodido.
- Está mesmo, ainda bem que sabe.
- Vamos logo pra essa merda, quanto antes isso acabar, melhor para meu metabolismo alcoólico.
Estava tudo do modo que eu mais desprezo. Pessoas vestidas praticamente da mesma forma, maldita socialite clichê. O coitado que ousar nadar contra esta correnteza é seriamente julgado por cada infeliz membro desta medíocre alta sociedade de Dover. Este coitado sou eu.
Para quem não está familiarizado com este inútil evento, o brunch é uma pequena reunião, situada entre o café-da-manhã e o almoço, na qual pessoas discutem sobre os assuntos do momento, se atualizando. Em outras palavras: Fofoca.
- Pronto, já estou aqui, posso ir embora? – Tentei dar as costas, mas me virou de volta.
- Não! Você disse que ficaria aqui comigo – Começou a me puxar pela mão até a mesa que estava reservada para nós e algumas outras pessoas. Ela ainda estava vazia.
- Quando você falou comigo eu estava meio bêbado, sabe? Então não conta.
- Não ligo – Deu de ombros ao se sentar. Então me vi obrigado a fazer o mesmo.
Aquele lugar agrupava grande número de pessoas que eu não queria ver numa manhã de domingo pós-viagem. Adultos puxando meu saco para ficar com uma boa imagem em relação à minha família. Claro que a imagem daqueles imbecis ficaria bem melhor arquivada em minha memória se eles fizessem o grande favor de se manterem em seus devidos lugares. Longe de mim.
- ! – Tomei um susto quando exclamou repentinamente e bufei muito alto quando vi o idiota sentando-se ao lado desocupado de minha melhor amiga.
- Hey, – Ele falou baixo. Pareceu incomodado com meu olhar.
- Se eu soubesse que teria moças bonitas por aqui, teria me vestido melhor – Forcei uma expressão divertida para disfarçar toda raiva que sentia. Ele abriu a boca para responder, e pelo que vi em seu rosto, não seria coisa boa, mas uma figura recém saída de trás do perdedor o interrompeu.
- Não precisa se arrumar, , não tem jeito de eu querer você mesmo. Não perca tempo – apoiou-se à mesa ao lado de e sorriu abertamente, sorriso este que pareceria simpático se não fosse o comentário que o acompanhou.
- O que você tá fazendo aqui, ? – Rolei os olhos. Ela não deveria estar por ali mesmo, aquele lugar estava restrito a convidados e família.
- Eu convidei ela – puxou a cadeira ao seu lado para que a outra pudesse se sentar, o que ela fez no momento seguinte e ambos me olharam desafiadoramente.
- Claro...
- Isso vai ser muito agradável – cruzou os braços e me lançou o olhar de censura que eu tanto conheço. Claramente me pedindo para que eu não fizesse nada que pudesse piorar a tensão da mesa.
Quando nos encontramos em eventos sociais, eu e sempre fingimos que não nos conhecemos, por isso toda a minha surpresa por estar fazendo amizade com esse idiota, ela sempre está comigo, não dando a oportunidade para que eles se encontrassem. Claramente, eu havia perdido algo. Por alguma ironia do destino, resolveram nos colocar juntos, quem sabe seja para atiçar uma briga para que esses eventos monótonos dêem uma coisa interessante para se falar.
Sussurrei para que iria ao banheiro, mas o que eu realmente pretendia era sair daquele show de horrores. Rumei direto à porta de fundos do salão de festa da casa dos para chegar ao jardim. Como o local estava vazio, sentei-me nos degraus da porta e fiquei lá, só observando o vento empurrar todas as folhas das árvores, derrubando a maioria delas em consequência do outono.
- ! – apareceu ao meu lado e sentou-se. Sem ser convidado, convenhamos. Ele deveria prever quando não é bem-vindo em um local. Mas, por via das dúvidas, resolvi mandar-lhe outro sinal ao ignorá-lo – Você ainda tá irritado por ontem? – Perguntou um pouco rude. Ri sarcasticamente. Que garoto esperto!
- Por que não vai atrás do seu namorado? Me deixa em paz, .
- Caramba, você acha que eu tava defendendo o ? – Ele riu muito alto e eu me levantei. Não sou obrigado a aguentar certos tipos de coisas, e sei muito bem que ele não calaria a boca – Que se foda o , , se alguém fosse bater com a língua nos dentes pro Williams estava todo mundo fodido, só iria sobrar os reservas pra jogar no time e adeus campeonato regional.
- E você acha que eu não sei disso? – Esbravejei. Eu não sou nenhum tipo de idiota, eu sei muito bem das consequências daquele sábado com cara de sexta-feira treze.
- Hm, você é meio descontrolado quando tá brigando com alguém, e não sabe como parar – falou de forma cautelosa. Não por que achou que o modo como ele fala fosse mudar alguma coisa, ele ainda é um idiota.
- Não cabe a você me parar!
- Se eu não parar você, ninguém pára!
- Tá bom, que seja – Suspirei derrotadamente e voltei a me sentar. sorriu fracamente.
- Er, o Williams quer uma reunião com o time amanhã antes da aula – Mudou sua expressão bruscamente, ficou preocupado.
- Estamos fodidos.
- Estamos mesmo.
E ficamos em silêncio.
Eu planejava meu próprio enterro. Sem esse time, não teria nenhum sentido ir até aquele colégio. Todas aquelas matérias são desnecessárias para um cara que quer jogar futebol na faculdade. Por outro lado, desconfio que Williams tenha mais amor ao próprio time que raiva de mim, assim não vai me expulsar ou suspender dele. Mas mantenho o que eu disse, se ele me expulsar daquela merda, vai tudo pro buraco. E, com muito prazer, eu vou estar lá a cada jogo para olhar ele se afundar.
- Então, a mãe da já viu você? – começou a rir, provavelmente lembrando-se da última vez em que me encontrei com a Sra. . Eu não vou muito à casa da família da minha melhor amiga justamente pelos ataques histéricos da mãe dela quando nos vê juntos. Eu nunca fui tão ignorante em relação a um assunto como eu estou com a briga da minha mãe e da mãe de . O que tinha acontecido de tão grave que nós tínhamos que parar de nos ver? E porque a minha mãe não é a favor da nossa separação também? Perguntas que nunca serão respondidas.
- Não. E espero que não veja, o que eu duvido muito – Ri fraco.
- Do jeito que essa mulher é histérica, vai pirar quando descobrir que a está grávida.
- COMO É? – Um grito conhecido às minhas costas fez meu coração gelar e eu e no virarmos instantaneamente. Carly nos olhava com a boca extremamente aberta acompanhada de um meio sorriso.
- Puta merda – falou com a voz falha.
Ceguei completamente naquela hora, levantei-me e peguei-a pelo braço, e trouxe para perto do meu corpo, mas ela ainda sorria. Poucas pessoas que passavam perto o suficiente para perceber a movimentação estranha nos olharam, então arrastei a garota pelo braço até o jardim, e veio em meu encalço.
- Você não vai falar uma palavra sobre isso para ninguém – Falei entre dentes.
- Ué, como não? Eu mal posso esperar para contar para as garotas, e... – Apertei um pouco mais o seu braço – Ai, .
- Cala a boca, sua vadia.
- Não fala assim comigo.
- Ué, como não? – Tentei imitar sua voz, eu sei que ela odeia quando eu faço isso. Dito e feito, ela me olhou furiosa.
- Agora você faz o que eu digo, ou eu conto pro colégio que sua amiga nerdzinha está grávida – Voltou a sorrir. Lancei a ela o meu melhor olhar ameaçador para ela perceber a idiotice que estava fazendo. Como uma vadiazinha líder de torcida pode achar que ganha de mim em alguma coisa? Porra, eu sou – Ah, algum de vocês dois é o pai? Porque eu não vejo namorado nenhum por aí. Mãe solteira adolescente numa cidade como a nossa não é muito bem aceita, como sabem.
- Fique na sua, Carly – se meteu.
- Caladinho você também – Empurrou com sua mão livre e depois tentou soltar a minha que apertava mais forte gradativamente – Me solte. Agora.
Hesitei um pouco, mas a soltei. No seu braço, ficaram tatuados os meus dedos em vermelho, que ela ficou massageando enquanto me encarava e parecia pensar em algo. Depois falou:
- Eu sei que não posso transformar você em um docinho de namorado, mas se eu souber que você anda ficando com outras, você já sabe. Ah, e nada mais de greve de namoro. Seu fim de semana foi bom enquanto durou – Sorriu abertamente ao iniciar sua caminhada até a porta.
Troquei um olhar rápido com e segui Carly que me esperava na porta com a mão me estendida em um sorriso forçadamente carinhoso. Eu não podia extrapolar a minha raiva naquele momento. Eu teria que ser controlado pela primeira vez na minha vida até que se sentisse confiante pra contar para todo mundo sobre a situação. E quando isso tudo acabar, Carly conhecerá o verdadeiro sentido de estar no fundo do poço em sua vida social.
Ao invés de me levar à mesa, Carly me arrastou através do salão, onde daria até a sala de estar. De longe, olhou para minha mão, entrelaçada com a de Carly e me olhou indagando, aquilo era estranho até para mim. Segurar a mão de uma garota sem eu estar arrastando ela para um lugar mais privado. também fez a mesma observação, a diferença é que ela me pareceu desanimada. Se eu vi certo, não sei bem. Só não espero que esteja alimentando algum tipo de sentimentos por mim, porque isso seria uma estupidez. Carly tinha caído nessa e olha a merda em que ela me enfiou.
- Tá indo para onde? – Puxei minha mão e parei de andar. Estava me sentindo um cachorro sendo puxado pela coleira. Existe um limite de coisas a serem aguentadas. Eu teria que decidir qual é o preço para manter um segredo que nem é meu.
- Eu quero ficar sozinha com você – Aproximou-se de mim.
- Mas eu não quero ficar sozinho com você, vadia – Esbravejei, e ela se pôs na minha frente quando tentei voltar.
- Eu não sou uma vadia – Colocou a mão na cintura. Puta que pariu. Ela sabe que eu enlouqueço quando ela faz esse tipo de coisa. Fica mexendo no próprio corpo até que eu abaixe a guarda. Mas a situação estava diferente. Eu não daria o que ela quer – Eu tenho um namorado – Se aproximou – Eu só durmo com ele – Colocou as mãos em meu pescoço – E não estou grávida.
- Você quer mesmo que eu acredite que você não está ficando com o ? – Arqueei uma das sobrancelhas e ela afastou seu rosto alguns centímetros do meu e olhou para baixo.
- Quero sim! Porque infelizmente é verdade.
- O que você quer dizer com infelizmente? – Empurrei-a para longe de mim.
- Eu adoraria estar esfregando isso na sua cara, como eu vejo todas as outras líderes fazendo comigo – Uma lágrima desceu por sua bochecha – E o pior de tudo é que eu não consigo me vingar de você. Eu te amo.
- Sabe por quê? Porque você precisa de mim – Aproximei-me novamente – Eu não preciso de você. Eu sou , Carly. Eu sou auto-suficiente – Sorri abertamente.
- Por favor, não termine comigo quando isso acabar... – Ela voltou a se pendurar em meu pescoço, sua voz estava falha pelo desespero. Estava arrependida. Bom, não há nada que eu ou ela pudesse fazer. A merda estava feita.
- Você deveria ter pensado nisso... – Dei de ombros aproximando minha boca da dela – Eu admiro o que você está fazendo, Carly, eu faria o mesmo – Sorriu um pouco e abriu sua boca levemente, esperando pela minha – Mas você está fazendo comigo – Sussurrei e me separei dela – Aproveite o seu brunch porque eu vou para casa.
- Se é assim que você quer... – Deu de ombros, um pouco atordoada e eu sorri ironicamente – Você vai me dar carona amanhã para o colégio – Bufei inconscientemente. Não queria demonstrar que ela estava me afetando – Te amo, chuchu – Soltou um beijo no ar e entrou.
- Puta que pariu – Bati a porta da casa de com brutalidade, sem me importar com o que a estúpida da mãe dela fosse falar.
07.
- Obrigada pela carona, amor – Carly saiu do carro já falado em uma voz fina que me lembrou uma criança com dor de barriga.
- Não se preocupe, se eu pudesse, teria jogado o carro no lago com você dentro – Sorri docemente quando vi sua felicidade desaparecer – Mas eu não faria essa atrocidade com o meu carro.
- Babaca – Ela pegou minha mão e eu a puxei de volta, encarando-a.
- Tá fazendo o quê?
- Não posso pegar a mão do meu namorado? – Franziu o cenho.
- Você sabe o que eu penso sobre esse tipo demonstração de afeto dentro do colégio...
- Agora a situação é diferente, querido – Voltou a pegar a minha mão e eu bufei. Tinha que visualizar que era uma garota na minha frente, e eu não poderia nem levantar a mão para ela, existem leis que, nitidamente, me proíbem – Agora vamos logo que o Williams está esperando.
Todos os alunos estavam na arquibancada da quadra coberta. Sentei-me em qualquer lugar vago com a minha namorada sempre agarrada em meu braço, como um chiclete. Williams estava com os braços cruzados, esperando que todos caíssem em silêncio, o que, obviamente, não estava dando nenhum sinal de resultados.
O que era muito estranho em toda essa história é que o Williams estava sozinho, na verdade, apenas acompanhado da Sra. Sky, que acontece de ser também a treinadora das líderes de torcida. Nem sinal do diretor ou qualquer outra pessoa que realmente importasse.
- Todos calados! – Ele gritou e instantaneamente o local caiu em silêncio – Antes de começar, avisem aos seus amigos que não vieram, achando que iriam se safar, que tenho a lista de quem estava naquela festa – Sorriu e levantou o papel que estava em suas mãos – Inclusive e , que, Deus sabe como, voltaram sozinhos ao hotel – Sorri para Williams e procurei pelas pessoas. Ela estava bem na minha frente, entre e , e mexia desconfortavelmente nos cabelos – Bom, eu quero saber quem estava dirigindo e de quem foi a brilhante idéia de pegar o ônibus – Silêncio – Ok, eu vou ser mais claro, caso eu não descubra quem foram essas pessoas, o caso irá para o diretor.
- Que, assim como você, não poderá fazer nada. – Sorri desafiando o técnico.
- Vocês roubaram um ônibus, seus delinquentes – Esbravejou.
- É, e olha a quantidade de alunos aqui, acha mesmo que o diretor vai expulsar ou suspender todos nós?
- Fora que o time de futebol estava todo lá, vai querer mesmo perder seus jogadores? – completou meu pensamento.
- O mesmo para as líderes, Sra. Sky! – Carly falou.
- Meus queridos, eu sou professora de inglês, assim como o treinador é professor de educação física, garanto que vocês não querem ser reprovados nessas matérias... – A Sra. Sky arqueou uma de suas finas sobrancelhas para nós. Está aí um ponto contra nós. As regras do colégio dizem que só podemos concorrer aos campeonatos de nossos times se nossas notas estiverem com uma média aceitável.
- Você não pode colocar notas erradas nas pessoas... – gritou em um tom indignado.
- Podemos mudar nosso modo de avaliação para favorecer quem quisermos – Williams deu de ombros – Espero uma confissão até quinta-feira – Deu as costas e saiu da quadra, seguido pela outra professora.
- Quem é ? – Carly esbravejou assim que o local caiu em um caos incontrolável.
- O quê? – Bufei impacientemente.
- O Williams falou que vocês saíram juntos da festa – Ela cruzou os braços. Deus, ela estava no mesmo lugar que eu? Ela ouviu tudo o que aquela mal-comida da treinadora dela falou. Ela estava mais preocupada em saber quantos chifres levou no dia da festa.
- Sinceramente, Carly, eu transei com outra garota e você está preocupada em com quem eu saí da festa? – Diminui o tom de voz, não queria irritar Carly, mas a força do hábito fala mais alto, então, se eu fosse falar o que penso, pelo menos que ficasse entre nós dois.
- Eu sei que foi você que pegou essa chave, só não sei com quem... – Ignorou tudo o que eu falei e passou a cochichar perto do meu ouvido.
- Eu fiz sozinho.
- Você fez com essa garota, essa ?
- Claro que não – Apressei-me a falar – Eu falei com essa garota uma ou duas vezes – Menti.
- Quem é ela, ? – Arqueou uma sobrancelha e voltou ao seu tom de voz normal.
- Cuida do que é assunto seu, Carly...
- Caramba, eu sou ! – se virou com os braços cruzados e um tom de voz impaciente.
- Você? – Carly riu muito alto, o que foi muito estranho para a personalidade ciumenta que, a meu ver, é bem mais familiar – Que bom! Você não é o tipo dele.
- O quê? – Desta vez quem riu fui eu.
- Você costuma ficar com garotas tipo, bem, eu – Deu de ombros.
- E que tipo você é, será que eu posso saber? – Cruzei meus braços.
- Hm, bonita?
- Boa sorte com essa aí – gargalhou e se retirou para perto dos dois idiotas que a esperavam no fim da arquibancada e me encaravam com mau-humor.
- Você é maluca? – Arqueei uma sobrancelha para enfatizar minha irritação.
- Nem vem dizer que você acha aquela Maria-sem-graça bonita.
- Pelo menos ela tem algum amor próprio – Sorri cinicamente.
- Olha como você fala, hein? – Vi seu rosto tomar um tom de vermelho e abri meu sorriso.
- Tchau – Dei as costas à garota e saí à procura de .
A sorte é que não eram muitas as pessoas que sabiam como aquela chave do ônibus tinha saído do quarto do motorista, bom, ninguém que quisesse me prejudicar. e nunca me entregariam, e nem sem assumir sua parcela da culpa. O maior medo dos garotos do time é que eu saísse dele, empurrando todas as nossas vitórias água a baixo. Meu maior temor estava com a Carly, só não sei como diabos essa idiota sabia da história.
Um plano B seria de boa ajuda, poderia resolver nosso problema. Não seria nada mau jogar a culpa no e tirá-lo do time, aproveitando duas oportunidades de uma só vez. Porém, está mais do que óbvio que não deixaria cair sobre seu digníssimo amigo a culpa de algo que ela fez e nos entregaria na hora, sem pensar nas consequências, é o que eu faria por ou . E, mais uma vez, teria que ser deixado para depois.
Encontrei já entrando na sala de aula, assim, apressei meus passos para alcançá-lo, mas quando cheguei à porta, ele estava já ocupando um lugar entre e April. Bufei e me sentei ao lado de Jeremy e Adam, que estavam um pouco mais ao fundo. Ambos estranharam, mas ao mesmo tempo vi que ficaram satisfeitos. Deveriam estar achando que ocupam algum cargo de importância em relação a mim pelo infeliz fato de tê-los escolhido como companhia uma vez na vida.
Eu tinha que dar espaço à , e a mim também. Se tem uma coisa que eu não sei é como ser imparcial, se estar perto dela significa não ficar insinuando-a a acabar logo com essa merda de segredo para me ver livre logo deste problema, seria um grande desafio para mim.
- Hey, ! – Adam sorriu abertamente quando me sentei. Apenas acenei com a cabeça.
- Mitchel falou com você? – Jeremy perguntou. Neguei – Ele arrumou um jeito de tirar o do time.
- Vocês não acham que temos problemas maiores que o , não? – Arqueei uma sobrancelha. Felizmente inteligência não é pré-requisito para jogar futebol.
- Já sei! – Adam deu um pulo – Podemos jogar a culpa nele, quase ninguém sabe mesmo que foi você – Deu de ombros.
- Você é idiota? – Bufei, paciência tem mesmo seus limites, e os meus estavam totalmente esgotados – Vocês sabem que estava lá comigo.
- Ah, é verdade – Ele comentou pensativamente – Temos que achar outra solução então...
- Você acha? – Rolei os olhos.
entrou na sala rindo ao lado de . Tentei controlar meus instintos que queriam que eu fosse até ela e saísse daquele mar de imbecilidade, mas vejamos que companhia a qual a rodeava não era lá muito motivadora. A fonte de alguns dos meus maiores problemas chama-se , muitas brigas com poderiam ser evitadas e, principalmente, eu poderia ter puxado para o nosso lado desde o primeiro dia de aula, evitando que ela ganhasse o status de perdedora que ele tem a oferecer. Nada disse estaria acontecendo se não fossem as dadas circunstâncias.
Como impulsividade é meu nome do meio, me levantei e fui até eles.
- O que você quer? – forçou o tom rude que, sinceramente, não combinada nada com a sua cara de idiota. Eu ri.
- Que falta de educação, – Usei seu primeiro nome propositalmente para irritá-lo – Pode sossegar que não é com você que eu quero falar.
- Claro, me sinto muito aliviado agora – Ele rolou os olhos e eu bufei. A tensão poderia ser cortada com uma faca.
- Diz logo o que você quer, – se meteu entre nós dois.
- Quero falar com você, eu já disse! – enrijeceu o corpo – Sem ele por perto.
- Eu não saio daqui – Cruzou os braços como uma menina birrenta de nove anos de idade.
- Tudo bem, – sorriu para ele, me deixando enojado com todo o drama. Sorri vitoriosamente quando ele se levantou com a cara emburrada.
Sentei-me na cadeira que desocupara, de frente para a garota que me olhava curiosamente.
- Foi uma ceninha bem interessante com a sua namorada agora a pouco – Ela sorriu e relaxou.
- Eu não quero falar sobre ela – Dei de ombros. Eu não sabia nem o que tinha me feito chegar até ela naquele momento. Só sabia que queria falar com ela e pronto.
- Vocês dois parecem tão apaixonados – Desta vez ela assumiu um tom cínico.
- É, é, é, ela é um achado – Rolei os olhos para finalizar o assunto – Eu quero saber o que você pretende fazer.
- Em relação a quê? – Arqueou uma das sobrancelhas.
- Você estava na mesma reunião que eu? – Fui mais rude que o intencional. Não reajo bem a raciocínios lerdos.
- Você está querendo contar a verdade? – arregalou os olhos.
- Claro que não – Apressei-me para retrucar – Mas muitas pessoas sabem que fui eu, se me entregarem, não vai demorar muito para o Williams descobrir que você estava comigo – O que é verdade, desde quando ele nos viu na festa, suspeitou que estávamos fazendo algo juntos.
- Você acha que podem nos expulsar? – Ela pareceu temerosa, com seus dois olhos levemente arregalados.
Eu não tinha pensado nessa possibilidade, estava bastante preocupado com as maiores consequências, como ser expulso ou suspenso da equipe. Eu não poderia aceitar nenhuma falha, não poderia faltar um jogo nem sob ameaça de morte. Nesses jogos há olheiros, e cada oportunidade de me tirar daquela cidade deve ser bem aproveitada, o que significa passar por cima de tudo para que este problema com o Williams seja resolvido, ou eu teria que intervir à minha maneira tradicional e nada convencional.
- É uma possibilidade – Fui sincero – Se ele passar o caso para o diretor, sim, temos grandes chances – Não sou pai dela, irmão e muito menos namorado pra ficar de frescura e ficar poupando-a da realidade. Não sei como é lá no Brasil, mas ela vai ver que aqui em Dover o buraco é muito mais em baixo do que parece ser.
- Isso é tudo culpa sua! – Ela esbravejou de repente.
- Minha culpa? – Forcei um sorriso irônico enquanto todo o meu sangue borbulhava – Eu não me lembro de ter puxado você à força, e também não lembro quem teve a brilhante idéia de roubar as chaves – Desci alguns oitavos o som da minha voz, pois já estávamos começando a chamar atenção de quem passava. Digamos que era uma visão um pouco fora do comum, eu não costumo me misturar com pessoas como ela. Pelo menos não publicamente.
- E você não se deu o trabalho de agradecer – Cruzou os braços. Eu ri, ri muito alto.
- , eu sou , eu não agradeço por nada – Sorri para a garota que me fitava incredulamente. Quem quer que seja que tenha falado que o crime não compensa, com certeza não me conheceu.
Novamente, apressei-me para que ninguém me acompanhasse. Senti os olhares de em mim durante toda a aula, negar que eu estava incomodado parecia funcionar perfeitamente para mim. Durante as duas semanas passadas, tive uma dose de drama que é o suficiente para o ano inteiro. Aparentemente, tudo estava vindo à tona, tudo de uma vez, e eu não sei como lidar com esse tipo de coisas, então, eu nego que minha vida está diferente. Não é covardia, não mesmo, é apenas inteligência. Só mais alguns meses e eu estaria fora dali. E nunca mais veria ninguém que não quisesse manter contato.
Cheguei à lanchonete sem nenhuma fome, não tive mesmo a intenção de comer, só queria ficar por lá. As pessoas sempre estrategicamente posicionadas em suas mesas que variam de acordo com sua posição social, o local é muito barulhento, bom para quem não quer ficar sozinho com seus pensamentos.
Na mesa dos fundos, onde eu geralmente me sento com o resto do time e mais algumas pessoas, Carly acenava rapidamente e graciosamente, chamando a atenção de algumas almas masculinas. Mas as bolas de cada um ali foram devidamente murchas quando me viram andando até a garota. Sempre o respeito que eu adoro.
- Como foi sua aula? – Ela perguntou quando me sentei.
- É sério que você está me perguntando como foi a minha aula? – Olhei-a sugestivamente.
- Estou tentando conversar com você.
- Nós nunca conversamos, Carly – Rebati rapidamente.
- Quero que as coisas sejam diferentes dessa vez – Ela deu de ombros ao passar os dois braços no meu pescoço.
- Mas eu não quero.
- Awn, que pena que não é você que está no comando, não é? – Ela sorriu e me deu um selinho.
Bufei e a empurrei, pois já estava quase se sentando no meu colo.
- Olha quem chegou – Ela rolou os olhos para alguém que estava atrás de mim.
Virei o rosto para ver quem era e me deparei com sorrindo falsamente para Carly.
- É sempre bom ver você também, Carly – Alargou seu sorriso e fechou-o imediatamente quando direcionou o olhar para mim.
- Esta mesa está ocupada, – Carly se debruçou sob os dois lugares vagos ao seu lado e ficou comendo uns pedaços de chocolate dentro de um saco.
- Se continuar a comer isso aí, ninguém vai aguentar te levantar nas apresentações das líderes – Forcei uma expressão simpática.
Carly arregalou os olhos, colocou a mão na boca e se levantou em um só pulo.
- Vou no banheiro – Correu para fora da lanchonete me fazendo rir muito alto.
- Ok, o show foi ótimo, agora você pode me explicar que palhaçada é essa? – sentou-se no local que a outra tinha acabado de deixar livre.
- Que palhaçada?
- Desde quando você não desgruda da Carly?
- Tá com ciúmes? – Ri alto, roubando um sorriso de canto de boca dela.
- Morrendo – Rolou os olhos.
- Talvez agora eu esteja gostando mesmo dela.
- Pára de falar merda, , você despreza essa garota! – Apontou para a porta por onde Carly tinha saído.
- As coisas mudam.
- Mudam mesmo... Você agora decidiu me ignorar? O que diabos aconteceu? – Cruzou os braços e me olhou com raiva, o que me deixou um pouco intrigado, me obrigando a desviar de seu olhar.
- Ignorar você? Tá maluca? – Fingi-me de desentendido.
- Não, não estou, – Puxou a gola da minha camisa para me obrigar a encará-la.
Puxei seus pulsos para que soltasse. Ela me olhou magoada, e eu me odiei por dentro. Mas o que mais eu poderia fazer? Estava fazendo as coisas erradas pelos motivos certos. Espero que seja verdade quando dizem que os fins justificam os meios.
- Você está fazendo de novo – falou baixo, tive que me aproximar um pouco para conseguir escutar.
- Fazendo o quê?
- Tá me afastando de você, isso sempre acontece quando você tem algum problema que acha que eu não posso ajudar – Ela se levantou, mas em nenhum momento cortou seu olhar com o meu. Meu coração desacelerou, fazendo com que a circulação do sangue no meu corpo ficasse fria. Estava sufocado, sufocado por não conseguir fazer o que queria, ao invés disso, estava machucando alguém que não merecia – Eu tenho algo para falar para você, mas acho que você está ocupado demais, agora eu não sei se quero mais...
- ... – Fechei os olhos e passei as duas mãos pelo cabelo.
- Cuidado, – Ela me interrompeu – Um dia eu posso não estar mais aqui para você.
Muito improvável. Vi-me obrigado a acrescentar, mas não precisava ser pronunciado em voz alta. sorriu fraco e deu as costas.
Soltei todo o ar do meu pulmão, nem tinha percebido que estava prendendo a respiração. Deitei minha cabeça sobre os braços esperando que aquela merda de intervalo acabasse. Nunca desejei tanto estar dentro de uma sala de aula. Parece que existe mesmo uma primeira vez para tudo. Isso é mesmo um alerta que minha vida estava uma merda, e eu tinha que fazer alguma coisa.
não é um conformista.
Passei meus dedos pelos seus longos cabelos até chegar a sua nuca e a puxei para perto ao mesmo tempo em que nos empurrava para a parede de trás. Ela colocou as duas mãos em meus ombros empurrando para trás o blazer do uniforme e voltou-as para os botões da minha camisa, enquanto minha boca estava ocupada em seu pescoço.
Quando só me restou a calça, e a garota só com seu sutiã e a saia do uniforme, peguei-a pela cintura e me dirigi até uma mesa que estava encostada nos fundos. Eu sentia meu corpo responder conforme ela acelerava seus beijos e me desesperava por algo mais.
Passeava as minhas mãos por todo corpo da menina, e ela não parecia se importar. Eu nunca tinha visto essa garota, ou poderia ter visto e não me lembrava, mas isso não vem ao caso. Bastou só um olhar diferente, algumas palavras e uma escapada do treino que – felizmente – estava acontecendo sem o técnico. Carly bastante ocupada com a sua própria equipe, e tudo estava ao meu favor.
Coloquei minhas mãos dentro de sua saia, na parte interna de suas coxas. Assim, rapidamente, ela levou seus dedos até o botão da minha calça e passou a abrí-lo. Mas algo a impediu de continuar.
- Desculpem, eu... Deveria bater ao entrar no... Armário de limpeza? – olhou para a placa na porta – É. Caso alguém esteja fazendo sexo dentro dele. Nota mental – Ela tentou sorrir, mas eu vi seu rosto molhado.
- Idiota – A garota bufou e puxou meu pescoço novamente.
- Não, não, eu tenho que ir, er... – Olhei para o rosto dela, ainda pensando no rosto molhado de , e então me lembrei de onde a conhecia. Era a garota idiota que estava nos irritando no ônibus naquele dia. Amiga de Carly. Só então percebi a merda que tinha feito.
- Laurie – Ela completou.
- Ninguém precisa saber sobre isso, certo? – Falei vestindo minha roupa de volta, enquanto ela fazia o mesmo, com uma cara decepcionada.
- Não se você me prometer terminar o que começou – Ela sorriu se aproximando com sua camisa ainda desabotoada, me fazendo ficar com o raciocínio um tanto lerdo.
- Vamos ver – Sorri e fui até a porta.
- !
- Quê?
- Talvez você devesse esperar um pouco – Ela sorriu maliciosamente olhando para minhas calças.
- Ah. Porra! – Bufei.
- Quer uma ajuda aí? – Ela se posicionou na minha frente e me olhou inofensivamente.
- Eu acho que tudo o que você pode fazer, só vai piorar – Laurie riu alto e me olhou por um tempo como se esperasse para dizer algo. Depois ela sorriu e falou: - Você pode ir agora.
- Tchau – Abri a porta e saí sem um destino certo.
Procurei um caminho que não me levasse ao encontro do campo, onde o time treinava, junto com as líderes de torcida, já tinha perdido tempo demais dentro daquele armário.
Alcancei-a no estacionamento do colégio, encostada em um carro aleatório com os braços cruzados e os olhos fechados.
- ? – Falei ao me aproximar.
- O que você está fazendo aqui? – Ela bufou quando abriu os olhos e deu de cara comigo.
- O que houve? – Ignorei sua pergunta.
- Ah, foda-se. Apesar de ter sido acidental eu ter visto o seu showzinho – Fez uma careta de nojo, e eu sorri cinicamente. Sério, ninguém é tão inocente assim – Eu estava procurando você. É com você mesmo que eu quero falar.
- O quê?
- Eu sei que o seu primeiro instinto vai ser bater em mim, ou tentativa de homicídio. Mas eu vou falar mesmo assim – Ela respirou fundo, desencostou do carro e ficou de frente para mim. – Eu contei para o sobre o que a gente fez...
- Você fez o quê? – Esbravejei. Claro! ! Ela tinha que colocar a minha dependência de vida nas mãos de uma das pessoas que mais quer me ver longe dali.
- Pode ficar calmo, não é isso que eu quero contar – Sua voz foi morrendo. Preocupei-me, o que poderia ser pior?
- Fala logo!
- Williams meio que ouviu a nossa conversa... – Escondeu as mãos no rosto.
- WILLIAMS O QUÊ? Você tá maluca, ? Eu mandei você fica calada na sua, o que tem de difícil nisso? – Dessa vez quem precisava se encostar no carro era eu. É por isso que não se deve confiar em ninguém, se quer algo bem feito, só pode contar com si mesmo. Eu tinha confiado o meu pescoço naquela garota e ela colocou tudo à perder.
- Me desculpa – Ela choramingou.
- É muito fácil fazer as merdas e pedir desculpas, não é? – Sorri sarcasticamente, mesmo sentindo que o resultado da minha expressão facial não sairia bem como desejado – Já estou ficando cansado de burrice ao meu redor.
- Deixa de ser grosso, seu idiota – Deu uma tapa no meu ombro, que não doeu. Nenhuma surpresa – Ele estava ouvido escondido, e...
- Agora eu vou ter que consertar essa merda.
- Você não vai ser expulso, relaxe – Ela se aproximou da mureta do colégio e sentou-se no chão, com suas costas apoiadas nela – Você é um legado, , e dá grande status para o time. Eu sou uma mera estudante que não faz falta nenhuma.
- Eu não estou preocupado em ser expulso – Falei, rudemente – Eu não posso ser expulso desse time, é a minha chance de sair dessa merda de cidade.
- É, bom saber que estamos juntos nessa – Ela me olhou com desprezo e... Tristeza. Um misto de sensações extremamente diferentes, em minha opinião – Pelo menos você ainda vai ter a sua casa...
- Vai morar com o , ele colocou você nessa – Sugeri com um sorriso singelo – O que o Williams falou?
- Ele quer falar com nós dois. Amanhã, antes da aula – Ela se levantou e ajeitou a bolsa no ombro – Eu preciso ir para casa.
Peguei as chaves do meu carro e apontei para depois para o carro, mudamente avisando que a daria carona. Ela não recusou.
Não trocamos nenhuma palavra no caminho. Não tinha nada a ser dito, afinal. Eu via que ela estava ser torturando de culpa por dentro então eu não teria trabalho nenhum em fazê-la sentir isso. Sinal que ela sabia a gravidade do problema em que tinha nos metido. Pela milésima vez eu me perguntei porque merda eu fui me meter a pegar aquelas chaves com uma pessoa que eu mal conheço. E o que eu conheço de é que ela não gosta de mim. E eu não gosto nem um pouco dela. Ou talvez um pouco. Merda, ela é só uma garota que eu beijei por aí, mais uma de muitas que existem por aí, não tem motivo para tanto alarde.
A casa de não era tão longe se fosse considerar que estávamos de carro. Dois minutos por umas ruas onde quase não passam carros e tranquilamente chegamos ao destino.
Havíamos chegado a uma casa branca e grande, com um grande jardim de entrada. Olhei para ao meu lado que parecia relutar em sair do carro. Lembrei do que ela havia me falado antes. Sobre o tio dela. Para aguentar esse tipo de coisa tem que ter muito autocontrole. Se fosse eu? Já teria vazado dali muito tempo atrás. Não sirvo para seguir as regras de ninguém.
- Obrigada – Falou quando fechou a porta.
Pelo controle do meu lado, abaixei o vidro da janela da porta que ela tinha batido. Ela voltou o olhar para dentro do carro, questionando.
- Eu vou dar um jeito nisso – Falei a primeira coisa que veio em minha cabeça, sem saber bem o porquê daquela sensação de precisar confortá-la. Ela que tinha me metido nisso. Se tinha alguém que deveria ser consolado, essa alguém sou eu.
- Por favor – Ela sorriu fraco e deu as costas.
Com uma puta dor de cabeça, passei por Ammy e a babá, e fui direto para o meu quarto, com um desejo imenso de que, quando eu caísse na cama, pudesse só acordar no outro ano, quando aquela merda de colégio já tivesse acabado, Carly tivesse esquecido que eu existo, já tivesse esse filho e ... Ah, eu não sei, mas seria ótimo olhar para essa garota de vez em quando e sentir tranquilidade, não que estou fazendo alguma coisa errada.
Mas minha cama já estava ocupada por que lia um livro não tão atentamente quanto parecia, pois quando abri a porta, seu olhar apreensivo se virou para mim numa fração de segundos.
- Por favor, , eu não posso resolver nada agora – Joguei a mochila no chão, ao lado da cama e entrei no banheiro, batendo a porta.
- Julie me deixou entrar – Ela aumentou o tom de voz que ainda pude ouvir abafada através da porta.
- Isso não faz dela a minha pessoa preferida.
- Quem deveria estar com raiva de você sou eu! – Ouvi um soco na porta e não pude evitar imaginar, rindo brevemente, massageando a mão após o breve acesso de raiva.
- , eu falei que não quero falar nada agora – Falei enquanto lavava o rosto.
- Ok, mas eu vou falar – Abri a porta e olhei rapidamente a garota de braços cruzados. Passei direto até o closet, sendo seguido – Mas saiba que o que eu vou falar é um comunicado, eu não estou pedido permissão para fazer nada... Porque eu sei que você vai ficar puto se souber por outra pessoa...
- , fala logo – Todo aquele falatório quase estava fazendo eu me esquecer do que eu estava com raiva, afinal de contas.
- Eu vou à casa do amanhã... – Ela disse rápido.
- O QUÊ? – Voltei para o quarto.
- Nós vamos estudar – Completou.
- , sinto lhe dizer que quando um cara fala que vai estudar com uma garota, ele não quer nada menos do que sexo... – Cruzei os braços diante de tanta inocência, ou ela tinha fechado os olhos para não acreditar que o seu precioso seria um cara como todos os outros.
- Eu sei o que estudar significa, , muito obrigada, eu tenho dezessete anos assim como você – Ela gargalhou e voltou para a minha cama, com o livro em mãos.
- Eu não quero você com esse idiota, – Cheguei perto dela, com os braços cruzados e uma expressão que poderia me considerar seu pai.
- Mas eu vou, mesmo assim – Ela deu de ombros sem tirar os olhos do livro.
Bufei de raiva, de toda a minha impotência diante dessa garota. Eu estou acostumado a controlar tudo em minha volta, mas os acontecimentos recentes vieram para me provar o contrário. As coisas estavam fugindo do meu controle.
Desci meu olhar para sua barriga, só então me lembrei do motivo pelo qual eu tinha me afastado. Mas ela estava ali. Eu não iria colocar pra fora pra que ela corresse pra aquele presídio que ela chama de casa. Ou pior, a casa do .
- ... – Sentei-me do seu lado.
- Você não vai me convencer, – Ela prendeu o riso.
- Não, é outra coisa.– Puxei o livro e coloquei naquela mesa inútil ao lado da cama.
- O que foi?
- Você não acha que está ficando meio difícil de esconder? – Apontei com o olhar para sua barriga já um pouco evidente.
- Eu sei, eu já tentei um milhão de vezes contar aos meus pais, mas nunca consigo...
- , eles vão te apoiar, ou não, e cada dia que passa é pior.
- Desde quando você se preocupa com a minha gravidez? – Ela sorriu e cruzou os braços no meu pescoço.
- Eu me preocupo é com você, meu fardo – Busquei a primeira desculpa, embora ela não fosse mentira.
O caminho até a sala do treinador me trouxe a mesma sensação como se fosse o meu caminho para forca. Encontrei sentada no chão ao lado da porta com os braços apoiados nos joelhos. Levantou-se quando percebeu que eu tinha chegado perto e me fitou com o rosto um pouco cansado, e umas olheiras não tão fundas. Se eu não soubesse quem estava na minha frente, poderia dizer que alguém tinha passado a noite inteira em uma festa. Meu espelho conhece essa expressão como ninguém.
- Parece que você está tendo um bom dia – Tentei brincar, mas não recebi nem um esboço de sorriso.
- Só se for pra você... – Ela se levantou e se virou para encarar a porta onde estava escrito em letras pretas “R. Williams”.
- Calma, , não precisa sofrer adiantado, e...
- É, mas eu prefiro – Cruzou os braços e voltou a me encarar – Eu preciso me preparar pra colocar tudo a perder, .
- Que merda, você não vai perder tudo – Aumentei meu tom de voz alguns oitavos.
- E como você sabe disso, fodão? – Não consegui evitar gargalhar, mas ela ainda me encarava duramente.
- Eu só sei – Dei de ombros.
- Porque vocês estão aqui fora? – Williams abriu a porta e nos fitou com um olhar mal-humorado.
- Só pegando um ar – Sorri e entrei em sua sala.
me repreendeu com um olhar quando se sentou na única cadeira livre à frente da mesa do treinador. Qual é? Williams soube o que queria fazer com a gente desde o momento em que pisou naquela festa, nada que eu fizer pode melhorar ou piorar.
- Eu fiquei muito surpreso em saber que vocês dois estavam envolvidos nesse caso – Williams cruzou seus braços, apoiados em sua mesa, e olhou para mim, precisamente – Justo você, , que nunca sai da linha?
- Eu sou uma caixa de surpresas mesmo – Sorri abertamente, mas ele não pareceu se alterar – Vamos ser sinceros, Williams, você precisa de mim no time, e essa garota só estava no lugar errado, na hora errada – Apontei para , e vi pelo canto do meu olho que ela me encarou questionando.
- É, vamos ser sinceros, você me dá um grande dinheiro – Ele relaxou em sua cadeira, fazendo o que a sua mola cedesse para trás, reclinando-a – Faz com que invistam um grande dinheiro no departamento de esportes do colégio, o que é excelente – Forçou um sorriso – Mas você desafia minha autoridade nesse colégio, eu não tinha ameaças como você desde... – Ele parou de falar.
- Desde o quê? – Perguntei, mesmo sabendo o que viria a seguir, e era o que eu não queria ouvir.
- Seu pai. Cada dia que eu penso no imbecil do Lerner escolhendo a faculdade de direito ao invés de... – Parou – Eu vou mostrar a você que eu estou falando sério.
- O quê?
- Eu não vou fazer nada com a garotinha aí, já que você parece tão preocupado – Olhei e ela deu um quase sorriso, mas ainda parecia aflita – Você, , está suspenso até o fim do campeonato regional.
- TÁ MALUCO?
- Nunca estive tão são – Ele sorriu e me entregou um papel – Eu não aceito delinquentes em minha equipe. Mas se tiver que fazer algo ideal, ao menos que me favoreçam...
- Você não tá falando sério – Ri alto. Não podia ser. Até o fim do campeonato? Eu perderia todos os jogos, e depois disso, seria praticamente impossível achar olheiros de faculdade e tudo pelo que eu lutei iria direto pro lixo.
- Pode apostar que eu estou sério, – Foi até a porta. Filho da puta – Eu aconselho você a achar alguma outra ocupação.
- Esse time vai afundar – Gargalhei quando cheguei perto, saindo da sala batendo a porta com tudo.
Quando cheguei ao fim do corredor, ouvir a voz de me chamando, mas não atendi. Fui direto para o carro. Se nada mais naquela merda de colégio vale a pena, pra que assistir uma aula inútil? Posso arrumar coisas muito melhores para fazer, se é que me entendem.
08.
Mais uma vez aquele caminho. Não queria segui-lo novamente. Não queria novamente uma decepção. Mas não pude evitar colocar meus pés naquela primeira pedra que jazia no lago, eu simplesmente não possuía o controle sobre eles. Era impossível ficar na margem, apenas observando. O outro lado não era visível, nem havia plantas ao redor de toda aquela água. Era apenas eu, o lago e as pedras. E um desejo inconsciente de chegar à outra margem.
Pulei para a segunda pedra. Terceira. Quarta. Ao chegar à quinta pedra, a água começou a subir velozmente. Desesperei-me. Estava me afogando.
Uma onda passou cobrindo minha cabeça e eu já não podia mais alcançar as pedras com meus pés. Tentei me concentrar em não deixar as fortes ondas encherem meus pulmões de água, mas era uma missão quase impossível.
Depois tudo sumiu.
Alguém me puxou pelos ombros.
Era ele. Tinha que ser ele.
Eu queria que fosse meu pai.
Mas ele já não estava mais comigo, eu estava em meu quarto.
Empurrei o cobertor com um grunhido de frustração. Já eram 7h30. Sempre que tenho sonhos como esses, perco a hora.
Não me restaria tempo para um banho. Não que eu fosse tomar mesmo, com o outono, as manhãs chegam cada vez mais frias. Abreviei todo o processo de me arrumar e ir bonitinha para o colégio, a prender meus cabelos em um rabo de cavalo arrumado para disfarçar que eles precisavam ser lavados. Pus o uniforme de qualquer jeito e desci as escadas.
Encontrei apenas a minha tia na cozinha, lavando a louça do café-da-manhã. Ótimo. Eu tinha perdido a carona com meu tio.
- O Chuck já levou o Ewan para o colégio – Marisa falou quando percebeu minha presença através de sua visão periférica.
- Percebi – Resmunguei, abrindo a boca o mínimo possível.
- Se você tivesse a boa vontade de aprender a dirigir, poderia ir com meu carro – Ela enxugou as mãos, jogou a toalha ao lado dos pratos já limpos e aproximou-se de mim com uma expressão nada satisfeita.
- Eu não quero aprender a dirigir, eu tenho dezessete anos, vou voltar para o meu país e aprender na idade certa – Rolei os olhos.
Já tinha cansado de toda discussão sobre esse assunto. Eles não conseguem colocar na cabeça que eu não vou ficar nesse país para sempre, muito menos nessa cidade. Provavelmente não terminaria nem o colégio. Eu só preciso de um lugar para onde voltar e, é claro, dos meus dezoito anos completos, aí sim, eu seria dona do meu nariz.
Eu poderia aguentar meu primo, que é, basicamente, a única pessoa que parece gostar da minha presença nessa casa, ou minha tia, uma escrava do próprio casamento. Mas é o Chuck que dificulta minha estadia nessa cidade. Não consigo tolerar morar sob sua tirania fora de época, seu machismo até dizer “basta.” Bom, não que a minha casa fosse melhor. Na verdade, tenho poucas esperanças de voltar para minha cidade natal. Acho que sonhar nunca matou ninguém, ou matou?
- , é bom você parar com essa rebeldia, nós acolhemos você com tanto carinho, e... – Enquanto ela falava, peguei meu celular e enviei uma mensagem para , com sorte, ele ainda estaria em casa, e poderia me dar uma carona. Só depois de alguns segundos percebi que tinha me desligado de todo o falatório da Marisa.
Como a casa dos é no fim da rua, não demorou mais que cinco minutos para que eu ouvisse a buzina do carro de .
Despedi-me da minha tia, pedindo desculpas e falando que terminaríamos a conversa mais tarde, se é que terminaríamos mesmo aquela conversa. Mas eu não prometi nada. Se ela me prendesse ali por mais alguns minutos, poderia perder a carona do meu amigo e, consequentemente, a primeira aula, e eu não poderia me dar esse luxo.
Se não fosse no meu pé, para não dormir nas aulas e blá blá blá, ou até mesmo matá-las, muito provavelmente eu já estaria ferrada. Um ponto positivo de ter me mudado para Dover é a qualidade das minhas amizades que aumentou em uma grande proporção. Nunca tive um amigo como , alguém que consegue se manter fora de problemas e, principalmente, me incentivasse a me manter fora também. Também nunca me aproximei de uma pessoa como , que me ensinou a diversão sem o álcool. Só queria ter conhecido eles antes de tudo começar a dar errado.
- Bom dia – Cumprimente-o com um beijo na bochecha.
- Bom dia, pirralha. Perdeu a hora outra vez? – Ele deu partida no carro segundos depois.
- É – E apenas assenti. Nunca tinha contado para ninguém sobre o meu sonho. Ele sempre mexe comigo, e, além do mais, não acho que entenderia seu significado, assim como eu mesmo não o compreendo, sendo ele o fruto do meu subconsciente – Acho que estou trabalhando até tarde demais – Soltei a primeira desculpa que veio em mente.
- Não sei por que você trabalha, , sério – deu de ombros sem tirar os olhos da rua.
- Acho melhor sair tarde do trabalho que conviver com meu tio mais do que posso evitar – Fui sincera, falando com uma pontada de raiva. É impossível falar de Chuck e não sentir um turbilhão de sentimentos negativos.
- Eu já o conheci, ele não é tão mau quanto você fala, .
- Você não sabe como é de verdade, . O que ele faz... – Falei baixo.
- Hã? – arregalou os olhos e me olhou assustado. Aí eu caí em mim do que tinha falado – Você quer dizer que ele...?
- Não, não, não é nada disso. Credo! – Enojei-me só de pensar na possibilidade. Eu nunca chegaria a esse ponto. Também não estou tão desesperada assim para ter um local onde morar. Ele tornou a olhar a rua com alívio – É melhor mudarmos de assunto – assentiu fraco – Então, ontem você falou que tinha algo para falar comigo...
- É, mas você estava muito chateada com todo o assunto “ + Ônibus” – Falou com uma pontada de irritação na voz, que eu ignorei. Entramos no estacionamento à procura de uma vaga, que achamos em questão de segundos. Carro não é um dos privilégios para muitos alunos, então havia muito espaço desocupado.
- Eu estava bem preocupada. Er... Ainda estou – E toda preocupação voltou. Eu não tinha visto desde a conversa com o treinador Williams. Depois do que ele tinha feito para me ajudar, eu lhe devia no mínimo, um “obrigada.”
- Tá perdendo tempo – Ele me olhou, sério, e saiu do carro, seguido por mim.
- Você não sabe disso, e eu muito menos. Nós não o conhecemos – Falei o que vinha se repetindo na minha cabeça como um velho mantra. E eu já estava ficando acostumada com ele.
- , eu conheço ele desde que nós dois tínhamos quatro anos de idade, acredite, eu conheço – Ele bufou irritado. É sempre assim quando, de alguma forma, o foco de nossas conversas se torna o . Acho que cultiva uma raiva por que é mais do que a implicância escolar e a velha rixa infantil – Eu não quero brigar com você, , mas esteja avisada, não gosta de ninguém a não ser ele mesmo.
- Por que você tem tanta raiva dele?
- Não é óbvio? – Ele arqueou uma sobrancelha.
- ?
- É – Deu de ombros e sentou-se em cima de uma mesa qualquer do pátio, com os pés sobre o banco – Era sobre ela que eu queria falar.
- O quê? – Sorri empolgada. Sei o quanto gosta dessa garota que definiu como intocável, e eu gosto de ver o quando ele sorri quando fala dela.
- Bom, eu chamei ela pra sair... – Eu aumentei o sorriso e me senti animada por ele finalmente estar conseguindo o que queria, desde que o conheci, ele não pára de falar nessa garota, chega a dar nos nervos, mas eu meio que entendo. Mas não estava tão feliz quanto eu esperava. Ela tinha dito não? – Nós vamos estudar química juntos – Falou com um suspiro, me fazendo pensar que tinha alguma coisa errada. Embora essa coisa errada já começasse pelo encontro em si. Estudar química não é lá minha definição de encontro perfeito. Parece que arrumou sua “alma nerd gêmea.” Prendi o riso.
- E qual é o problema?
- Ela me pediu um tempo – Ele bufou, mexendo nas suas mãos.
- Para...?
- – Rosnou entre os dentes.
- Ah – Assenti, sem saber exatamente o que dizer – Eu acho que você vai ter que confiar nela.
- Tá, tanto faz. Eu não confio é nele.
- , ela pediu um tempo, não recusou o convite. Ela quer sair com você! Só precisa de tempo pra convencer ele... – Dei uma tapa atrás da cabeça dele, esperando que com a chacoalhada no cérebro ele caísse em si – Provavelmente – Sussurrei, felizmente, ele não me ouviu.
- E se ele convencer ela? – me olhou com cinismo.
- Então ela é exatamente como ele – Arqueei uma sobrancelha. Ele se calou por alguns segundos, mas não porque tinha se conformado, mas sim porque não tinha mais o que falar. Penso eu.
- É o jeito, né? – Falou com o olhar duro à frente.
Procurei o lugar para onde ele se direcionava.
Com a distância de cinco mesas entre nós, sentado da mesma maneira que eu e , estava e aquela ruiva pequena que se autodenomina namorada dele estava em pé, de costas para nós e de frente para ele. Ela estava com as mãos no ombro do garoto, e a cabeça na curva de seu pescoço. Sua cabeça balançava levemente, me levando a pensar que ela depositava pequenos beijos no local. Rolei meus olhos diante de tanto exibicionismo público, pelo amor de Deus, aposto que ele conhece cada pedaço daquele colégio que pode levar uma menina – eu mesma já presenciei um desses lugares.
Entretanto, pendia sua cabeça um pouco para o lado, tentando se desvencilhar dos braços de Carly para enxergar o celular que estava em suas mãos, lendo com dificuldade o que deveria ser uma mensagem. E ele parecia preocupado. De vez em quando ele digitava algo, provavelmente respondendo as mensagens.
Pensei em me aproximar. Eu tinha que me aproximar. Bem, não enquanto a Barbie Malibu Ruiva estivesse por perto.
Argh, mas quão idiota eu devo parecer aos olhos desse garoto? Francamente, até eu me irritaria com todas as minhas aparições repentinas e as interrupções, todas sem explicação. Ah, mas fazer o quê? O que deve ser feito, deve ser feito, certo? A sorte é que nem em uma remota chance eu me apaixonaria por ele, e está mais do que óbvio que o próprio nunca se apaixonará por ninguém. Sendo assim, fico livre para fazer o que deve ser feito sem envolvimentos pessoais ou grandes danos.
Fiquei alerta quando o garoto passou a repelir a namorada. Ele leu algo no celular que o deixou nervoso. Um milhão de libras eu pagaria para ler aquilo. Ler um dos infinitos segredos que nunca vai contar ao mundo.
Ele tentou sair da mesa, mas Carly o segurou, dando um sermão em voz baixa. O que quer que ela estivesse falando, estava irritando ele mais ainda. Mesmo assim, ele saiu do pátio e do meu campo de visão em segundos, deixando pra trás uma namorada com cara de tacho.
- Ele não dá nem conta da baita garota que tem em mãos – A voz de me trouxe de volta à realidade.
- Eu não chamaria ela de baita garota, mas tudo bem – Pus em minha voz meu melhor tom de desprezo que fez rir.
- Você já olhou para as pernas dessa garota? – Ainda rindo, ele me olhou incrédulo.
- Não, e prefiro continuar sem olhar, muito obrigada – Falei um pouco ofendida com o comentário machista. E daí que ela tem pernas bonitas? Por acaso em algum momento da vida pernas bonitas passaram a substituir cérebros e eu não fiquei sabendo? Porque eu ficaria muito feliz em trocar minhas manhãs no colégio por umas voltas no parque e algumas horas na academia.
Ele levantou as mãos, alegando inocência e silenciou-se, mas não pude me conter.
- Essa garota é uma fútil alienada – Rolei os olhos, fazendo rir mais uma vez. Acho que amanheci abraçada com um palhaço e não tinha percebido. Argh, deve ser a minha amiguinha especial chamada TPM, vindo me visitar – Ela é, tipo, na forma feminina.
- Com menos confiança e amor-próprio.
- Não, esses aí ela guarda para não irritar o amorzinho lindo dela – Fiz biquinho e uma voz de bebê quando pronunciei as últimas palavras.
, que se aproximava, gargalhou e sentou-se ao meu lado.
- Bom dia, pessoas bonitas... E bom dia pra você também, .
- Há-há – riu – Alguém acordou de bom humor – Ele deu uma tapa na cabeça do outro, recebendo um dedo do meio em troca, mas acompanhado de um sorriso também.
- Por que eu não estaria bem? – Ele deu um sorriso radiante que me deixou intrigada – finalmente está fora do meu caminho e, consequentemente, estou livre de problemas.
- Argh, nós não temos outro assunto a não ser ? – Sabia que eu ia perder a discussão se fosse contra eles dois. Bufei alto e consegui o que queria. apagou o sorriso e deu de ombros.
- Parece que somos zetes – comentou com um sorriso idiota que me fez rir.
- E parece que a diva do nosso clube quer discursar – falou olhando para o lado.
Carly se aproximava com passos pesados. Pensei comigo o que diabos aquele filhote de palito de fósforo queria. Minha pergunta foi respondida segundos depois.
- Foi você? – Ela cruzou os braços quando parou à minha frente. Arqueei uma sobrancelha.
- Depende do que você está falando, eu posso ser sim a culpada de algo – Brinquei, deixando-a mais irritada ainda. O que eu amei!
- Você estava mandando mensagens para ele?
- Acho que você está preocupada demais em controlar a vida dele e menos em fazê-lo realmente gostar de você. Desse jeito você vai ser sempre uma corna, Carly – Sorri cinicamente.
- Ele nunca me trairia com você. Por favor. Que piada! – Ela forçou uma gargalhada alta.
- Eu não teria tanta certeza – E todo o que eu queria dizer era: “Já aconteceu, querida.” Apesar de não ter passado de um beijo. Mas eu não seria tão presunçosa.
- Você não é boa o suficiente para , – Arrumou a bolsa no ombro e me olhou com desprezo – Ele pode olhar para você como se quisesse algo, é o que ele faz com todas – Surpreendi-me com o comentário, é exatamente o que se passa na minha cabeça todas as vezes que ele coloca os olhos em mim. E vinha se repetindo desde o dia da festa – Mas no final das contas, ele sempre volta para mim. Para a minha cama. Sou eu quem ele quer – E deu as costas.
Segurei-me para não perder as merdas das rédeas. Não sou uma pessoa descontrolada! Pelo menos não mais. Mas a idéia de ter alguém contando vantagem por algo que eu nem ao menos quero é, no mínimo, irritante.
- Ela ta certa, , esses dois vivem numa bolha que ninguém penetra – falou.
Percebi que estava calado, e nem ao menos prestava atenção a mim. Eu esperava no mínimo um olhar de desaprovação dele. Mas ao invés disso ele estava olhando para onde a garota tinha saído!
- Que seja – Falei com um suspiro, mostrando mesmo que eu nem queria saber de toda essa história – Por que eu iria querer penetrar nessa bolha? – Adicionei o desgosto na minha voz, mas ao mesmo tempo querendo arrancar um punhado daquele cabelo vermelho obviamente falso.
- Só estou falando... – Disse com a voz entediada – Esse namoro deles pode só ter começado alguns meses atrás, mas todo mundo sabe que eles ficam há muito tempo.
- Quem diria? : A fofoqueira – Ri alto.
- Engraçadinha – Ele cerrou os olhos na minha direção, mas também rindo, e me empurrou de leve. Mas o comentário que seguiu fez minha tentativa quase genial de mudar de assunto ser fracassada – O parece gostar dessa garota – Dei uma cotovelada em para que ele voltasse à Terra.
- Eu?! É claro que não! – falou rápido e rolou os olhos.
- Ela só está usando você pra fazer ficar irritado – concluiu o raciocínio.
- Eu sei, e eu fico feliz em ajudar – Ele sorriu, mas esse sorriso não me enganou nem um pouco.
- Ah, cansei de falar sobre esses inúteis, ok? Que tal um assunto de verdade, pra variar? – Levantei-me – Vamos para a aula antes que eu comece a achar que o é a Gossip Girl.
Tentei me prender aos detalhes da revolução francesa que a professora tanto esquematizava no quadro, mas de alguma maneira, nada daquilo parecia fazer sentido em minha cabeça.
Rabisquei mais algumas coisas em meu caderno, minhas iniciais, meu nome completo, desenhos de estrelas, corações e até cachorrinhos deformados ocupavam as bordas da folha branca. Tudo isso fazia se concretizar todo o meu tédio.
À minha frente, fazia anotações e mais anotações de cada palavra que a professora dizia. Ri comigo mesma. Do lado dele, lutava contra suas pálpebras pesadas. Não muito diferente de como eu estava.
Aulas de história nunca foram meu forte. Sempre a vi como uma matéria inútil. Qual é a necessidade de se estudar o passado para entender o futuro? Você não precisa saber como e quando seus pais conceberam você para descobrir qual será seu futuro, certo? Certíssimo! Tiramos por mim: meus pais tiveram um casamento lindo, minha infância foi, no mínimo, super feliz e ainda assim sei que meu futuro será uma merda. E eu nem vou começar a falar do meu irmão, que ninguém faz a mínima idéia do seu paradeiro. Passado e futuro são eventos independentes. Teoria confirmada.
Eu sabia que, algumas fileiras atrás, estava sentado com o tal do melhor amigo dele, Poynter. Eles tinham entrado segundos antes de começar a aula.
De repente, levantou-se, falou algo no ouvido da professora, que o deixou sair com um olhar de desaprovação. virou-se para mim e me fitou, repreendendo o que ele sabia que se passava na minha cabeça. Ignorei. Que se dane. Eu não tinha nada a perder mesmo.
Falei para a professora que estava com cólicas. Ela, como uma boa e compreensiva mulher, me liberou para sair da sala. Mas nem sinal de no corredor. Nem no pátio. Nem no gramado. Em canto nenhum. E muito provavelmente não estaria no banheiro masculino, sei bem que garotos não ficam lá muito mais do que o necessário.
Senti-me completamente derrotada. Talvez tivesse razão, talvez não valesse tanto esforço. Eu queria desistir. Eu realmente queria, mas não podia. Pelos motivos que eu não gosto de pensar, nem falar. Apesar de já desconfiar de coisas do tipo, nunca confirmei as suspeitas dele. Eu não tinha porque preocupar ele mesmo, não tem nada que ele ou eu possamos fazer. Tenho que apenas deixar o vento levar e arcar com as consequências, sendo elas boas ou ruins. Porque eu sei que ambas virão.
Entrei no banheiro feminino para lavar meu rosto, precisava espantar todo aquele sono e cansaço. Parecia que eu tinha passado a noite inteira em claro.
O banheiro não estava vazio. estava abaixada na frente da pia, lavando o rosto, passando um pouco mais de água na boca, e parecia um pouco abatida.
- Você está bem? – Perguntei mais por instinto quando ocupei o lugar ao lado dela. Eu nunca tinha falado com , mas pelo que tinha observado, ela é exatamente o contrário de abatida.
- Estou sim – Ela sorriu fraco e puxou duas folhas de papel para enxugar o rosto e outras duas para as mãos.
Eu levava um pouco de água ao rosto. Mas quando eu estava me enxugando, um pensamento me veio a cabeça. Com um impulso de coragem, perguntei:
- Você é , certo? – Não era bem o que eu queria falar, mas já é um bom começo. Ela, que já tinha dado as costas, virou para me olhar. Sorriu simpática e assentiu – Eu sou...
- , eu sei – Interrompeu-me e apoiou-se de lado na bancada da pia. Fiquei surpresa com a maneira como ela agiu, me olhando de maneira despreocupada, como se não se importasse com nada que eu fosse dizer, mas ainda assim demonstrando simpatia. Daria tudo para ser como ela. Não me permito nem pensar o que seria de mim se as pessoas desse colégio descobrissem o porquê real de ter me mudado para essa cidade. Peguei-me pela primeira vez admitindo ter inveja de alguém. Os ingleses devem mesmo ter algum efeito sobre mim.
- Eu sou amiga do .
- Não é só por isso que eu conheço você – Ela riu de algo que eu até poderia imaginar o que seria. Mas resolvi ignorar.
- Certo. Na verdade eu estou procurando pelo seu amigo.
- – Não parecia ser uma pergunta, mas mesmo assim respondi.
- É, eu preciso muito falar com ele – Juntei minhas mãos, mostrando que ajuda dela era mesmo necessária – E, sinceramente, eu preciso de um lugar certo, porque da última vez que eu perdi ele de vista, acabei vendo umas coisas que eu não sei se vou ser capaz de esquecer...
- Sei bem como é – Ela riu alto e colocou uma das mãos no bolso da frente do moletom GAP, alguns números maior, que constantemente vinha usando por cima do uniforme. Não sei bem se isso é permitido, mas quem pegaria no pé da filha do prefeito? Quem é o maluco?
Tirou de lá um celular preto, abriu o teclado qwerty e rapidamente digitou uma mensagem. Alguns segundos depois e ele bipou umas três vezes. Ele respondeu. virou o celular para que eu pudesse ler.
“No jardim. E sim, eu estou sozinho. .”
- Onde fica esse jardim? – Franzi o cenho. Depois de toda essa caça a , eu realmente passei a achar que conhecia o colégio inteiro. Aparentemente não.
- Você sobe de escada até o último andar, segue até o fim do corredor, para a esquerda. Perto da sala de música, vai ver uma porta sem nenhum nome gravado nela. Lá dentro vai ter outra escada. Suba e voilá – Foi gesticulando conforme dava as instruções. Depois sorriu – Ah, e boa sorte, você vai precisar. está de TPM desde ontem.
- Eu bem sei – Rolei os olhos rindo também – Williams falou umas coisas que irritou ele bastante – Depois que eu falei é que me toquei que ele podia não ter comentado com ela sobre a conversa com o treinador e me arrependi. Sei que os dois são melhores amigos e tal, mas não sei que tipo de relacionamento os dois têm. Eu não conheço . O que me deixa ainda mais frustrada.
Quando assentiu, fiquei mais aliviada. É claro que ele contou para ela! Que idiotice pensar o contrário.
- Então, obrigada – Andei até a porta do banheiro mais tranquila. Pelo menos eu não encontraria uma garota aleatória pendurada no pescoço do mais uma vez. Já foi demais para a minha sanidade.
- Er, ... – chamou de repente. Parecia um pouco insegura. Eu que já estava passando pela porta do banheiro, voltei.
- Pode me chamar de .
- Ok, – Sorriu fraco – Pode dizer ao que eu vou à casa dele, hoje à tarde? – Contive meu sorriso. Queria muito ver a cara do quando eu contasse pra ele.
- Ele vai adorar saber – Regulei um pouco o meu entusiasmo.
- É – Ela manteve o sorriso amarelo de antes e saiu do banheiro sem dar mais uma palavra. E parecendo bem nervosa.
Estranhei, mas só por alguns segundos. Meu nervosismo voltou quando me lembrei do que estava procurando antes de entrar no banheiro.
Segui as instruções de , que foram bem claras, com exceção da localização da Sala de Música. Para um colégio de ricos, ter uma porta escrito “SAL D SICA” é uma vergonha grotesca.
Tirando isso, cheguei ao tal jardim.
Daquela altura dava pra ver toda extensão do colégio e ainda uma pequena parcela de Dover, que, em minha opinião, é linda. Reconheci o Pencester Gardens, um dos parques que o me levou pra conhecer, e o melhor de todos na minha opinião. Essa não é uma cidade pequena, talvez bem maior que algumas cidades que eu visitava com meus pais quando viajava nas férias. Mas todo aquele ar de cidade de interior me deixa relaxada. Pude sentir tudo isso do topo do prédio de Dover College. As plantações e fazendas contrastam com os grandes parques e um comércio bem vasto. Tudo isso faz os visitantes ou novos moradores – como eu – ficarem abismados.
Mais a frente, me olhava de forma mal-humorada. Tentei não devolver da mesma maneira toda aquela recepção. Tinha que mentalizar. Ele me ajudou, eu vim aqui para não agradecer, não vim? Eu pensava.
- Me deixa em paz, – Ele levou até a boca um cigarro que eu não tinha percebido que estava entre seus dedos. Fiz uma cara de nojo que fez ele rir com desprezo. Eu odeio ficar perto de alguém fumando.
- Não sabia que você fuma – Sentei-me em um banco que tinha por lá, e fiquei olhando para fora do jardim e abracei minhas pernas.
- Só quando eu tenho vontade – Ele deu de ombros e jogou o cigarro no chão, apagando com o sapato – Tá fazendo o quê aqui?
- Eu falei com e ela me...
- Claro que você falou com – Ele riu alto e de forma sarcástica.
- Enfim... – Rolei os olhos – Eu vim aqui para agradecer.
- Agradecer? – Ele arqueou uma sobrancelha. Se eu soubesse que lidaria com tanta arrogância nem tinha me dado ao trabalho de sair daquela sala de aula. Estava muito bem rabiscando no meu caderno, obrigada. Eu sei, deveria saber. O que mais esperar de se não for arrogância? Mas eu tinha uma vaga esperança que, depois do dia anterior, ele pudesse considerar me colocar na sua lista de “pessoas que trata bem”, seria bom ter uma conversa agradável pra variar.
- É, por ter me ajudado...
- Esse assunto de novo? – Ele arqueou uma sobrancelha, me interrompendo novamente.
- Você pode me deixar terminar de falar? – Falei um pouco grossa. Estranhamente, ele riu.
- Claro que pode.
- Ok, eu sei que o futebol é muito importante pra você.
- Aquela merda não me faz falta alguma – Senti um tom de ressentimento na voz que denunciaram completamente o contrário do que ele dizia.
- ! – Respirei fundo, já muito irritada com todas as interrupções. Duvido que ele ficasse calmo desse jeito se fosse eu interrompendo quando ele quisesse falar.
- Tá, fala.
- Eu quero ajudar você a voltar ao time – Ele me olhou, prestando mais atenção no que eu estava falando – Eu tenho uma ideia – Sorri vitoriosa. Os olhos dele me analisavam. Talvez tentando sacar a pegadinha. Garotos como ele tendem a não confiar nem na própria sombra.
- Que ideia?
- Ideia pra quê? – Olhei pra trás.
O sol refletido naquele cabelo vermelho quase me cegou. Que timing perfeito, hein Carly? Se você for irritante como essa garota, procure aprender como aparecer nos momentos certos. Porque ela sabe exatamente as horas erradas para se atrapalhar alguma coisa.
Apesar da voz dela ter saído bem calma. Seu rosto estava vermelho de ódio.
- Eu sabia que era com você que ele estava trocando mensagens mais cedo! – Ela tentou rir sarcasticamente, mas a tentativa foi falha. Garota inútil!
- Não era com ela, Carly, dá pra deixar de ser idiota? – riu alto.
- E você pode calar sua boquinha, tá achando que eu não sei que você quase dormiu com a minha melhor amiga? – Ela chegou perto dele, pronta para dar uma tapa no rosto dele, mas desviou.
- Que melhor amiga, sua maluca? – Ele continuou rindo. Do que ele estava rindo afinal? Da vaca irritada?
- Laurie!
- Se você ainda a considera como sua melhor amiga então acho que ele não fez nada de mau... – Resolvi me meter na confusão. Deus, essa briga estava tosca demais. Mais tosca que ela, só o motivo da briga.
- Não se meta – Ela lançou um dedo na minha direção, sem me olhar – Acho que você não se lembra do que combinamos, amorzinho – Falou com um pouco de sarcasmo.
- Me lembro perfeitamente – Eu comecei a boiar naquela conversa. Ele tirou o celular do bolso, mexeu em alguns botões e colocou bem na frente do rosto da menina, para que ela visse.
- O que é isso? – Ela deu uma tapa na mão dele, que afastou do seu rosto.
- Isso significa que eu não tenho que aguentar mais você. Ela contou para os pais dela. O resto não importa – Ele deu de ombros e sorriu de novo.
Carly ficou ainda mais vermelha do que antes. Abriu a boca algumas vezes, mas a fechou sem ter o que falar. Eu não estava entendendo nada, mas estava amando a cara de idiota dela. A menininha mimada sendo contrariada pela primeira vez. Uma honra presenciar esse momento.
- Eu posso transformar a vida dela no inferno – Finalmente falou.
- Você realmente acha que pode comigo? – Ele riu alto – Eu sou . E você não é nada.
- Eu posso tentar, amiguinho – Ela cruzou os braços, tentando parecer tão tranquila quanto ele. Mas novamente, falhou.
- Carly, na boa, vá se foder – Tive que prender o riso quando eu vi a cara de surpresa, misturada com indignação que a outra fez.
Mas não prestou atenção.
Ele andou um pouco para perto de mim, o que eu estranhei.
E chegou mais perto.
No final das contas, fez uma coisa completamente inesperada.
Rapidamente, ele colocou as mãos na minha cintura e juntou os lábios nos meus.
Pela segunda vez, fui pega de surpresa. Mas dessa vez tinha algo diferente. Apesar de saber que era errado, que eu não podia beijar o , ainda assim parecia certo. Eu sabia que ele só queria irritar a namorada. Ou ex-namorada? Dane-se. Eu não queria saber. Deixa os arrependimentos para depois.
Coloquei as mãos em volta do pescoço dele e permiti que ele fosse mais a diante. Eu também adoraria irritar aquela garota. Que tal fazer isso bem feito? E ainda deixar as coisas a meu favor, beijar está longe de ser uma das piores coisas do mundo.
Sentir a língua dele com a minha me deixou relaxada. Fez eu me esquecer de tudo em minha volta, até do porquê de estar naquela cidade. Como ele faz isso? Não é a toa que todas as meninas naquele colégio caem aos pés dele, mesmo ele enxotando cada uma.
E eu me lembrei de algo. Eu era só mais uma pra lista dele.
Devagar e relutante, separei-me dele e abaixei minha cabeça, tentando fazer as batidas do meu coração voltarem ao normal.
- Espero que vocês engasguem com as suas línguas – Carly falou quando correu para fora do jardim.
Olhei para , ele me encarava. Depois olhou para porta onde a outra saiu e começou a rir. Riu alto. Não pude evitar sorrir também.
Incrível como as coisas tomam um rumo completamente diferente quando eu estou com ele.
Eu nunca teria imaginado acabar nos braços de pela segunda vez quando saí daquele banheiro.
- Quer sair daqui? – Ele tirou as mãos da minha cintura.
- Ainda temos aula, .
- E daí? – Ele me olhou com uma expressão que nunca tinha me lançado antes. Quase parecia humano! Com um olhar sem nenhuma maldade. Só não digo inocente porque... Bem, ainda estamos falando de , certo?
Ele sorriu abertamente para mim. E antes que eu pudesse me recuperar do efeito que aquele gesto teve sobre mim, já tinha falado:
- Ok, vamos sair daqui – Sorri.
E deixei tudo para ser resolvido depois.
09.
- Isso é brincadeira, certo? – se jogou no sofá quando eu voltei para a sala.
- O quê? – Sentei-me ao lado dela, que ria igual a uma criança, olhando em volta. Era até engraçado.
- Você tem dezessete anos e tem um apartamento só para você.
- Bom, eu tenho quase dezoito anos, e não tem muita utilidade já que a minha mãe não me deixa morar aqui mesmo. Então, tecnicamente, eu não tenho um apartamento – Dei de ombros ao tomar um gole da cerveja que tinha comprado no caminho.
- Então pra quê ela comprou? – se sentou direito e pegou o refrigerante que eu tinha trazido pra ela. Garota que não bebem são esquisitas e certinhas demais. Mas eu não ia começar essa discussão de novo para ela jogar na minha cara que ela não é qualquer uma. Blá, blá, blá. Clichê.
- Meu avô comprou quando estava se divorciando.
- E eles decidiram não se divorciar mais? – Ela parecia confusa.
Infelizmente, aquele papo chegou num ponto proibido. E o pior de tudo é que fui eu quem deu essa maldita abertura.
- Eles não chegaram a se divorciar, – Continuei – ele sofreu um acidente de carro antes.
- Ele morreu? – ficou tensa, me segurei por tudo para não rir e falei.
- Ele está bem do seu lado.
- HÃ? – Ela pulou pra perto de mim.
- Você é besta demais – Comecei a rir muito alto e ela virou incrédula, mas ainda assustada. Bom, isso não a impediu de me dar um tapa, com muita força, diga-se de passagem, no meu braço - AI!
- Você mereceu, imbecil.
- Não precisava bater em mim, psicopata.
- Também não precisa chorar, né? – Vi que ela deu uma risada. Arqueei uma sobrancelha.
- Cala a boca.
Por mais incrível que pareça – ou não – ela riu mais ainda. Não sei como, mas passei a conhecer essa garota o suficiente para saber que ela só calaria a boca de um jeito.
E quem sou eu para negar?
Com uma mão em seu pescoço, a puxei para encurtar a distância entre nossos rostos, que já era pouca. parou de rir quando viu o que eu tava fazendo. Senti a sua respiração em meu rosto. Com uma expressão de dor, ela colocou uma das mãos na minha boca e me afastou.
- , pára.
- Por quê?
- Porque não é certo.
- O que não é certo? Eu não estou mais com a Carly, se isso incomoda muito – Sinceramente, não tenho paciência pra meninas cheias de não-me-toque. Para que eu estava insistindo mesmo?
- Não é a Carly, é outra pessoa – Falou baixo.
- Não tem outra pessoa.
- Na verdade, tem – Do que ela tava com tanto medo de me contar? Não é como se eu fosse bater nela – Eu tenho um namorado no Brasil.
- Posso saber por que você não me contou isso antes? – Bater eu não ia mesmo não, mas não disse que seria educado. Que ótimo! Eu estava sendo feito de idiota por uma garotazinha de merda que, claramente, não vale meu esforço.
- Você nunca perguntou...
- Eu tenho mesmo que perguntar? – Aumentei a merda do tom de voz, acho que não estava sendo muito claro com ela sobre com quem ela estava lidando.
- Não precisa gritar, minha audição é perfeita, muito obrigada – se levantou bruscamente, com raiva! Raiva de mim! É foda! Como se eu me importasse com os sentimentos dela. Além do mais, quem tem que estar morrendo de ódio sou eu. Cada minuto que se passa eu tenho mais certeza que inteligência é um privilégio só meu.
- Eu estou pouco me fodendo para o estado do seu sentido auditivo.
- Por que você está com tanta raiva? – Ela cruzou os braços – Eu não sou sua namorada, não devo nada a você. Eu nem ao menos sou sua amiga!
- Ah é? Então vá – Fingindo simpatia, apontei para a porta – A porta da rua é a serventia da casa. Da minha casa.
- , eu não faço idéia de como chegar em casa, eu nem sei se ainda estamos em Dover – Ela se desesperou. E foi engraçado que ela tenha pensado que eu me importaria.
- Bom, você não é minha amiga, nem minha namorada, então, não posso ajudar – Fiz minha melhor cara de pau.
- Ok, ok, desculpe, eu não quis dizer que...
- Agora você está pedindo desculpas? – Ri muito alto. Pois é, o controle da situação, de uma maneira ou de outra, sempre volta para as minhas mãos.
- Sim, estou mesmo, e não vejo nenhum problema com isso – Voltou a se sentar.
- Sinceramente, eu vejo muitos. Não gosto de garotas sem opinião.
- Admitir estar errada é falta de opinião? Uau – Ela rolou os olhos – Ok, minha opinião é que eu não quero morrer de frio lá fora – Fez uma cara simpática que não me enganou nada. Bom, talvez só um pouco. Merda – Sua expressão de raiva está se suavizando – Ela sorriu abertamente. Merda. Merda. Merda – Você não resiste ao meu sorriso.
- Fica quieta, .
- E você está me chamando de , eu acho que sou sua amiga, então.
- Eu só posso roubar um ônibus com uma amiga, certo? – Relaxei. Até parece que um pequeno detalhe como uma garota namorando poderia impedir . Ela riu – Assim que existir uma matéria sobre roubar propriedade particular, eu posso começar a gostar do colégio.
- Tenho certeza que vai – Ela colocou a mão na boca para abafar o sorriso – E, er, me desculpa por não ter falado do meu namorado antes, é que...
- Eu não quero falar disso, .
- Não gosto quando me chamam de – Rolou os olhos.
- Eu não quero falar disso, – Levantei e peguei a garrafa vazia em cima da mesa e fui para a cozinha. Claro que ela me seguiu.
- Nossa, muito melhor – Ironizou enquanto encostava no batente da porta – Você não quer falar, mas vai escutar. Meu namorado vem pra cá nesse fim de semana, e... É. Eu só achei que você deveria saber – Joguei a garrafa no lixo e passei por ela para voltar para a sala.
ainda esperava por uma resposta. Mas o que diabos eu iria dizer? Parabéns? Eu certamente não estou nem aí pro namorado veadinho dela.
- Eu vou levar você para casa – Peguei as chaves do carro.
- Eu não quero ir para casa, , nem você – Ela as puxou da minha mão. Que merda ela pensava que tava fazendo?
- Você não sabe o que eu...
- Ai, caramba, fica quieto, , por favor – Riu e me puxou para fora do apartamento. Deixei-me levar, não estava com muita paciência pra argumentar contra uma garota teimosa – Vamos pra algum outro lugar.
- Eu não gosto das praias daqui, são tão geladas... – comentou tirando os sapatos e colocando-os nas mãos e entrando na areia logo em seguida.
- Estamos no outono, , o que você esperava? – Deixei escapar uma gargalhada alta. Não é possível que no Brasil fosse, realmente, sempre quente.
Deixei o blazer do uniforme no carro e arregacei as mangas da camisa até a altura dos meus antebraços.
- Pare de rir – Ela riu também e se sentou há poucos metros do mar. Acompanhei.
Fazia muito tempo desde que tinha estado na praia pela última vez. Tinha até esquecido do que é ter aquele vento gelado levando todo o estresse pra longe de mim.
O celular de tocou e ela deu um pulo, parecendo estar imersa em pensamentos, assim como eu.
- Hey, . Desculpa, esqueci de avisar que iria sair... Obrigada – De repente ela deu um pulo de entusiasmo que jogou um monte de areia na minha calça. Reprimi um “obrigado” irônico – Ah! Eu quase me esqueci de avisar: pediu para avisar a você que vai estar na sua casa depois do colégio. Esteja cheiroso! – O QUÊ? Parece que alguém tinha esquecido de comentar este pequeno detalhe comigo – Ok, tchau – Levantei-me, quando ela colocou o celular de volta no bolso, já decidido a fazer alguma coisa a respeito. Não tinha muita certeza do quê, mas tudo bem – Vai aonde?
- Só vou... Pegar uma coisa no carro – Eu preciso aprender a mentir: nota mental.
- Você se irritou por causa de e , não foi? – Ela rolou os olhos e deitou-se na areia, sem se importar em sujar o cabelo. A maioria das meninas que eu conheço mal consegue tocar numa planta sem ter uma síncope.
- Claro que não me irritei. faz o que quiser da vida dela – Coloquei as duas mãos no bolso da calça. se apoiou nos cotovelos e me encarou por alguns segundos, quase rindo.
- Você não mente muito bem, sabe?
- Foda-se – Voltei a andar na direção do carro.
- Sempre! – Deitou-se de novo.
”Garota idiota”, pensei.
Fui me afastando rapidamente. Quando me vi longe o suficiente para que ela não pudesse me ouvir, saquei o celular do bolso traseiro.
Eu estava bonzinho demais, iria fazer as coisas do meu jeito, pra variar.
Depois de deletar as 5 ligações perdidas, 13 mensagens de texto e 8 mensagens de voz de Carly, liguei para .
- Que bom que você está vivo – Ele atendeu rindo. Tive que aproximar mais o celular do ouvido para escutar mesmo com todo o barulho do caos que fica o colégio durante a hora da saída.
- Pode dizer que está com saudades, – Ri.
- Se fode.
- Só espero que não afete na nossa amizade, porque você sabe que eu não sinto o mesmo – Fiquei sério de propósito.
- Fala logo o que você quer.
- Tá vendo o por aí?
- Ele tá há alguns metros de mim, com o , por quê?
– ? Ele tinha mesmo chamado o de ? Que merda, mais um casal indesejado se formando.
- E a ?
- Ainda não saiu, estou esperado ela e a April. Agora dá pra explicar? – Tive uma overdose de açúcar quando falou o nome da outra. Rolei os olhos.
- Certo. Acabei de saber que vai até a casa do hoje à tarde.
- Tá falando sério?
- Com certas coisas não se brinca, .
- Ah, ok – Riu – O que a gente vai fazer?
- A gente não vai fazer nada – Parei pra pensar por alguns segundos – Ok, só se certifique que ele não chegue em casa, pelo menos até ir embora. E que eles não saibam que fomos nós.
- Ok, James Bond, você quer que eu o mate?
- Seria ideal, mas não. Não quero ser relacionado a pessoas dentro de um presídio.
Olhei para . Ela me encarava, emburrada.
- Sua preocupação comigo é linda.
A menina abriu mais os olhos, me questionando com o olhar.
- Só resolva tudo. Tchau.
Voltei para a areia rapidamente e me sentei ao lado de . Puxei um maço de cigarro do meu bolso, quando abri, a menina pegou da minha mão e jogou para trás.
- Você não vai fumar perto de mim.
- Eu vou sim – Estiquei-me pra pegar, mas ela foi mais rápida e empurrou pra ainda mais longe. Eu devo merecer mesmo esse tipo de coisa.
- Se quer morrer, morra sozinho e não me leve junto. Ainda mais fedendo a cigarro!
- Que merda, você ‘tá parecendo a minha mãe – Bufei.
- Que bom – Ela riu.
- Estranha.
- Grosso.
- Essa pose de menina boazinha não vai te levar a lugar nenhum – Tentei me aproximar dela. Já estava perto o bastante pra fazer o que eu queria fazer, mas sabia muito bem que com aquela ali querer nem sempre é poder.
Ela demorou um pouco a desviar o rosto e falou com a voz baixa, mas tentando ser provocativa. Tentando.
- Vejo que ser “mau” tá funcionando muito bem pra você – Rolou os olhos, falando com ironia.
- O que quer dizer com isso?
- Vai me dizer que está indo tudo muito bem na sua vida? – Arqueou as duas sobrancelhas, fingindo surpresa.
O seu olhar questionador, me julgando, me fez pensar: Eu realmente devia respostas àquela menina?
- Todo mundo tem seus momentos.
- Ah, claro.
- Tá, chega – Respirei fundo. É meio difícil não perder a cabeça com por perto.
- Você é muito chato – Ela riu alto e cruzou as pernas.
- Então... Er... – Lembrei-me do que ela tinha falado mais cedo. Droga. Mas como eu ia falar aquilo? Eu odeio ter que depender dos outros, por isso não sou o maior especialista em pedir alguma coisa.
- Você não tá tendo um derrame, tá? – Fingiu me analisar.
- Há-há-há.
- Vai me dizer?
- Você disse hoje mais cedo que me ajudaria a voltar para o time...
- Disse sim.
- Por que você se importa com isso?
- Acredite ou não, eu sou uma boa pessoa, e eu meio que devo isso a você – Deu de ombros.
- Você não me deve nada.
- Você é mesmo idiota o suficiente para recusar a minha ajuda? – Depois dessa, ela deveria ter ganhado o prêmio de comediante do ano.
- Eu só custo a acreditar que alguém como você possa fazer algo que eu não possa fazer.
- Se seu ego continuar inflando desse jeito, vai acabar tendo que se mudar para uma cidade maior. Aqui não vai caber – Ela gargalhou.
- Engraçadinha.
- Quer saber o que eu acho?
- Na verdade, não, mas eu sei que você vai falar mesmo assim.
- Vou mesmo – engatinhou até a minha frente e se sentou – Os garotos do time têm medo de você.
- E isso é bom – Arqueei uma sobrancelha.
- Não, não é. Você tem que fazer eles quererem você no time.
- Quem disse que eles não querem?
- Eu não vi ninguém lamentando.
- Que seja.
- E agora, você quer minha opinião? – Respirei fundo. Ê, garota irritante.
- Qual é a sua opinião?
- Minha opinião é que você precisa de mim – Pendeu a cabeça para o lado e me encarou sugestivamente. Fiz questão de olhar para ela de forma cética – Modéstia à parte, eu sou uma ótima conciliadora, as pessoas tendem a fazer o que eu peço. E aí? – Estendeu-me a mão.
Pensei por alguns segundos. Talvez não me fizesse nenhum mal. Apesar de que eu consigo tudo o que quero sozinho, não sou fã de ficar devendo favores. Ainda mais favores para uma garota. Ah, mas que se dane.
- Ok – Peguei sua mão.
- Ok? – sorriu abertamente.
- Você tem alguma idéia?
- Claro que tenho! – Pra minha infelicidade, ela soltou minha mão e abraçou o joelho. Um pedaço da saia escorreu um pouco por suas coxas. Por um momento eu tinha hesitado em soltá-la, mas certamente não me arrependi – Contra que colégio é o próximo jogo?
Depois de um tempo na praia, conversando – infelizmente, só isso –, deixei em casa e fui direto para a minha, mesmo sabendo que os problemas me aguardavam lá.
tinha me evitado o dia inteiro no colégio, desde que me enviara aquela mensagem de texto. Eu não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo com ela. Primeiro ela me escreve que contara tudo para os pais, depois me ignora. E eu só penso que tenha sido algo que eu fiz. Pela primeira vez, procurei algo na minha mente e nada. Eu não tinha feito nada errado. Claro que não fez, , ela foi contar para a bruxa da mãe dela, que está grávida. Pense!
O máximo de palavras que trocamos foi quando ela veio me perguntar onde eu estava para vir falar comigo. ! Desde quando elas se conhecem?
Mas que se dane. Se ela resolvesse continuar me ignorando teria que tomar medidas mais extremas.
Entrei em casa com o celular preparado para ligar para o segundo número na discagem rápida. Mas nem precisei apertar no botão “send.”
Quando entrei no meu quarto, estava deitada na minha cama, lendo uma revista qualquer.
- Hey! – Ela falou quando me viu, mas não riu.
- Oi – Joguei minhas coisas no canto da parede, atrás da porta e fui para a cama, sentando-me na outra ponta – Tá fazendo o quê aqui?
- Eu acho que eu moro aqui por enquanto... – Colocou a revista de lado e me encarou com receio.
Não pude evitar o ataque de fúria que tive depois.
- ELES EXPULSARAM VOCÊ?
- Você está mesmo surpreso?
- Eles não podem expulsar você, você é responsabilidade deles e...
- , se acalma, tá tudo bem...
- Claro que não tá tudo bem, !
- Tá sim! Eu vou ligar para os meus avôs, talvez eles me ajudem – chegou perto de mim, sentou ao meu lado, e colocou uma mão em cada uma das minhas bochechas, me olhando nos olhos.
- Não vai ligar merda nenhuma, seus avôs moram em Ipswich. Você vai ficar aqui comigo!
- Eu não posso.
- Pode e vai – Tirei as mãos dela dali. Ela só tava conseguindo me irritar ainda mais.
- Ai caramba – Ela apoiou os cotovelos nas pernas e falou com a voz abafada pelas mãos no rosto – Tá tudo dando errado. Todas as coisas estão acontecendo comigo! – Quando abri a boca para falar qualquer merda para confortá-la, ela me interrompeu – Minha vida era perfeita antes de engravidar. Eu poderia ter meus pais, eles não são perfeitos, mas não meus pais. Eu poderia estar namorando agora, mas nããão! – Ela parou pra respirar por dois segundos. E quando voltou a falar, sua voz estava embargada pelo choro – E o pior é que a vida daquele filho da puta não mudou em nada. Ele é o pai e nem se importa.
- Fala uma coisa de cada vez, – Tentei pagar de amigo compreensivo, mas só de mencionar no pai daquela criança, me dá um embrulho no estômago e meu sangue ferve.
- Talvez eles acabem me aceitando de volta, alguma hora...
Eu estava sem ter o que falar. Estava com raiva dos pais dela, triste por ela e... Feliz, pode ser errado, mas eu estava feliz e aliviado por ela não ter mais que lhe dar com o fardo que é aquela família. Mas eu certamente não iria demonstrar.
deitou a cabeça no meu colo.
Suspirou uma vez.
Alisei seu cabelo.
Suspirou outra vez.
Suspirou mais cinco vezes.
- Você está fazendo isso de propósito? – Seria cômico se não fosse trágico. Às vezes, quando está muito carente, fica soltando indiretas como essas para que eu tenha um surto de garoto bom.
- Fazendo o quê?
- Suspirando! Ou você quer me contar algo ou está com algum problema de respiração...
- Palhaço – Levantou-se com o humor um pouco melhor – Mas, na verdade, eu quero perguntar uma coisa.
- Eu sabia!
- Cala a boca e escuta, – Colocou o cabelo atrás das orelhas e deixou uma das mãos pousada na nuca. Completamente desconfortável – Você sabe se tem alguma possibilidade de alguém do colégio saber que eu estou grávida?
- Er... – Sim, tinha sim! Carly sabia! Qual é o meu problema? Qual é a dificuldade em falar a verdade pra minha melhor amiga? – Por que você quer saber disso?
- Eu não quero falar sobre isso – se levantou e parou de frente para o espelho do banheiro. Eu estava perdendo alguma coisa? Teoricamente, o único problema era os pais dela saberem. Quem se importa com o que as pessoas do colégio pensam?
Eu sabia que bastaria um olhar preocupado e ela abriria a boca.
- Prometa que não vai falar “Eu avisei” – Engrossou o tom de voz pra falar a última frase.
- Claro que eu não vou falar isso.
- Ah, fala sério, essa é a sua terceira frase preferida.
- Terceira?
- É. As duas primeiras são “Eu sou ” e “Eu consigo tudo o que eu quero” – Tentou, e falhou, diga-se de passagem, imitar minha voz.
- Isso não... Ah, é verdade – riu, pelo menos isso – Ok, eu prometo.
- me deu um bolo hoje. Eu esperei por uma hora e meia, na casa dele! – Eu estava meio em dúvida, que emoção eu deveria fingir? O velho ódio? Compaixão? Que tal indiferença? Por outro lado, sabia muito bem o que sentir: Raiva. Eu tinha que me aproveitar.
- Bom, é possível que ele já saiba.
- Como? – Veio se sentar ao meu lado novamente, com o olhar apreensivo.
- Carly sabe.
- Mas eu acho que ela não espalharia. Por sua causa.
- Eu terminei com ela hoje de manhã.
- Ai, Deus – Escondeu, mais uma vez, o rosto nas mãos.
E eu não tinha mais o que falar. Eu não sou muito bom com conselhos. Eu sou o melhor amigo dela, estou aqui para consolá-la e protegê-la, mas certamente não sei como ajudá-la a se sentir melhor. Geralmente isso é trabalho para as amigas mulheres dela.
- Você pode beber? – Perguntei, pensativo. Só um jeito de curar esse clima ruim.
- Claro que não.
- Então você bebe coca-cola – Levantei-me, puxando-a pela mão – Nossas vidas são uma merda.
Sentei-me onde disse à que estaria, no gramado, ao lado da quadra onde seria o treinamento do time de futebol.
Eu não estava muito concentrado no que estava fazendo, fiquei praticamente no piloto-automático, apenas observava seguindo até a saída do colégio. Ele fora ignorado durante o dia inteiro. Patético. Um cara deve saber a hora de tirar o time de campo.
- Vamos? – parou ao meu lado.
Não respondi, estava distraído demais para isso.
Ela ficou passando a mão na frente do meu rosto até que eu pegasse-a, fazendo com que ela parasse de me irritar.
- Eu já vi e ouvi você – Falei.
- E eu ainda não leio pensamentos.
- Vamos para onde?
- Apresentar nossas idéias para o resto do time – Sorriu de orelha a orelha.
- Mal posso esperar – Ironizei.
- Idiota. Consegue se lembrar de tudo o que falei? – Ficou de cócoras na minha frente. Neguei com a cabeça – Seja gentil. Nada de rolar os olhos. Nada de bufar, ou qualquer uma dessas rebeldias desnecessárias – Enquanto ela falava, eu abanava a cabeça pra mostrar que estava ouvindo, mas meu olhar ainda estava em – Tá me ouvindo?
Eles estavam conversando! explicava enquanto o encarava impaciente. Felizmente, ela não parecia muito disposta a acreditar na história, seja ela qual fosse. Se, por alguma razão, ele descobrisse que eu ou tínhamos algum envolvimento nisso, e acreditasse, estávamos fodidos.
- Foi você, não foi? – Olhei para . Seu olhar estava no mesmo lugar que o meu anteriormente.
- Porra, você tá me irritando. E muito.
- Bom saber que ajudar você, irrita – Ela levantou-se e deu as costas. Merda.
Tive que me apressar pra alcançá-la, que já estava a meio caminho do estacionamento. Eu não podia perder aquela chance, por mais que fosse difícil admitir, eu precisava de . Ela parecia a única disposta a me ajudar, enquanto os outros estavam mais ocupados envolvidos com as próprias vidas.
Segurei o braço dela, delicadamente, quando cheguei perto, mas ela se esquivou, continuando a andar.
- ...
Nada. Fui ignorado. Eu tava me sentindo o próprio .
Corri e parei na frente dela, bloqueando todas as vezes que ela tentou me desviar.
- O que você quer, ? – Foi rude, com mais raiva do que eu estava acostumado.
- Olha, eu estou meio estressado.
- E eu com isso?
- Posso terminar?
- Não vai adiantar muito, mas ok.
- Então eu vou tentar algo diferente – Encarei-a desafiadoramente, vi que ficou curiosa – Eu não falo isso com muita frequência: Desculpa.
- Uau, eu sou sua primeira? – Rolou os olhos.
- Você também está sendo sarcástica! – Apontei.
- Ah, me desculpe, eu não fui nada mais que agradável com você, enquanto só levo patadas, e...
- Vou tentar controlar meus instintos – Sorri fraco e estendi minha mão, assim como ela tinha feito no outro dia.
- Se continuar se comportando desse jeito, acabou, você vai ter que se virar sozinho.
- Sim, senhora – me olhou com desconfiança por alguns segundos. Minha mão ainda estava idiotamente estendida – Vai , eu sou um canalha, mas eu não costumo quebrar minhas promessas.
- Só mais uma coisa – Abaixei a mão e respirei fundo. Auto-controle, apareça – Foi você ou não que fez o perder o “encontro” com ?
- Eu estava com você ontem, lembra? – E ela me dizendo que não sei mentir.
- É verdade.
- Agora você confia em mim?
- Claro que não. Mas eu ainda quero te ajudar, essa cidade está tediosa demais para o meu gosto – Ela estendeu a mão, e riu. Instantaneamente ri junto, e peguei- a, nos levando para a quadra, onde já deveríamos estar, sem ter merda de discussão nenhuma.
Por que diabos as coisas não poderiam ser simples?
Eu queria lamentar por ter caído de pára-quedas na minha vida, fazendo uma bagunça, uma bagunça ruim. Mas eu não conseguia.
Eu queria ela por perto, por mais que me irritasse profundamente.
Ah, mas eu nunca admitiria isso em voz alta.
- Cavalheiros... – acenou com uma das mãos, chamando a atenção dos garotos que se aqueciam no lado direito do campo. Sem Williams em nenhum lugar por perto.
- ? – voltou à posição normal – O que você está fazendo com ele?
- Relaxe, , eu não corrompi a inocência da garota – Dei de ombros e fiz questão de sorrir falsamente.
- O que foi que eu falei? – beliscou meu braço e sussurrou – Seja. Gentil.
- Você é bem forte pra ser desse tamanho – Alisei meu braço que ainda formigava por causa dos dedos da menina.
- Obrigada – Riu.
- Cadê o Williams? – Perguntei para que tinha chegado perto, também estranhando eu estar com .
- Ele não vem hoje – Adam, que estava bem atrás, respondeu com um sorriso singelo.
- Algum problema? – perguntou.
- Não, nenhum – Dei de ombros e olhei pra , que riu, me encorajando. Eu não precisava de coragem, aquelas pessoas vivem para fazer o que mando, não tinha como dar errado, mas era bom saber que tinha alguém do meu lado – Eu estava conversando com a aqui, e ela me fez lembrar de uma coisa que não fazemos faz muito tempo.
- Na verdade, estamos treinando, e como você não faz mais parte desse time, poderia fazer o favor de não atrapalhar? – cruzou os braços e olhou para o resto das pessoas. “Seja gentil, seja gentil.” A voz de ecoava na minha cabeça. Ninguém se movimentou. Ele ainda não tinha notado, mesmo fora do time, eu ainda era o capitão deles, eu sempre seria.
- Nós ainda não demos os nossos cumprimentos aos nossos amigos do Dover Grammar pelo jogo que será na semana que vem – Resolvi ignorar o imbecil e falei encarando cada um deles que pareciam estar começando a entender do que eu estava falando. Quase todos deram acenos com a cabeça de empolgação.
- Do que você está falando? – olhou para mim completamente confuso.
- Ele está falando de trotes – passou um braço pelo meu pescoço, sorrindo abertamente – Eu sabia que o velho tava aí dentro, você estava meio fora ultimamente.
- Estou de volta – Sorri.
- O que vocês vão fazer, roubar os uniformes dele? – O outro cruzou os braços, mais perdido que cego em tiroteio. Rolei os olhos, impaciente pela lerdeza – Ah, espera, claro que não, não roubaria uma coisa tão banal como essa. Que tal roubar o ônibus do colégio?
- HEY! – levantou as mãos. Eu ri alto. Não pelo comentário dele, era tudo verdade mesmo, não gosto de coisas simples ou mal feitas. Roubar uniformes? Onde ele achava que estava, High School Musical? Eu ri pelo buraco que ele se enfiava cada vez que tentava passar por cima de mim – Eu estava lá também, lembra?
- Eu sei, desculpa, .
- É melhor que se desculpe mesmo – Dei de ombros e recebi um olhar de fúria em troca – Tá dentro?
- Nem que me paguem!
- Nós somos um time, , vamos todos juntos – Quase vomitei por falar o primeiro nome daquele animal.
- Vaaaamos, – colocou as mãos nos ombros dele e fez uma cara fofa de apelação. Fofa? Ainda bem que não falei isso em voz alta.
- Só porque você está pedind. – Ele disse pra ela e se virou pra mim – Tô dentro.
O resto do time vibrou. Eu estava sentindo falta dessa sensação de liderança, tinha me esquecido porque tinha concorrido ao cargo de capitão do time, afinal de contas. Eu, mais do que ninguém, tenho presença superior, eu sei dominar a situação. Talvez eu devesse seguir a carreira política. Não, não, para isso eu teria que ser agradável com todos, o que eu odeio. Não tenho que fingir que sou simpático. Não sou e foda-se.
Fui andando para o estacionamento após o fim das aulas da sexta-feira, estava com o humor razoável. Tinha seguido o conselho de , e estava sendo no mínimo deleitável com os garotos do time. Todos eles vinham com uma ideia mais idiota que a outra, e eu, ao invés de sutilmente mandar tomar naquela região, vinha com um “talvez.” É, pode me chamar de Jesus.
Mas não pense que é fácil, mudar de atitude desse jeito. Eu não mudo nem de opinião, quando mais meus modos? Bom, eu ainda queria voltar pra esse time, e pra isso era exigida muita paciência, coisa que eu não tenho, mas estou desenvolvendo, infelizmente. Eu gosto do jeito que sou, e o Williams estava conseguindo destruir isso.
Vi uma garota sentada no capô do meu carro, com um vestido curto, uma bota e longos cabelos loiros. Não pude ver o rosto, pois estava de costas para mim, só sei que o que eu podia ver, estava me agradando. Eu ainda nem tinha aproveitado minha liberdade, e que maneira melhor que uma sexta?
Apertei o alarme do carro pra chamar a atenção da menina. Dito e feito. Ela virou-se para trás rapidamente com um sorriso esperançoso.
Mas eu definitivamente não gostei do que vi.
- CARLY?
- Oi, – Apagou o sorriso rapidamente e me olhou com indiferença. Indiferença fingida, venhamos e convenhamos.
- O que diabos fizeram no seu cabelo? – Ele estava bem maior do que uns dias atrás e estava loiro, muito loiro. E o que era aquilo verde nos olhos dela, lentes de contato? Estava irreconhecível para um que não tivesse acostumado com seu rosto. Mas até que perdeu aquele ar de subordinada que ela tinha antes. Parecia mais independente.
- Não gostou? – Passou a mão pelos cabelos e parou para avaliar as pontas – Eu tive que ir à Londres durante o resto dessa semana e passei nesse salão incrível e pensei: Por que não mudar?
- Aí você tropeçou e caiu de olhos num balde de tinta verde? – Arqueei uma sobrancelha. Ela tinha feito aquilo por mim?
- Ah, você notou isso também? – Ela sorriu e aproximou-se de mim. Não me afastei.
- O que você quer, Carly?
- Eu só vim dizer não vou espalhar sobre a – Passou a mão no meu braço. E eu não senti nada. Aquela vontade de colocá-la no carro toda vez que me tocava sugestivamente em público, que eu sentia no começo do namoro, sumiu. Mas ainda assim toda aquela mudança tinha me agradado.
- Eu sabia que você não iria – Dei de ombros.
- A gente se vê, – Ficou de ponta de pés e, com dificuldade, depositou um beijo na minha bochecha, saindo logo em seguida.
Virei-me pra olhá-la se afastar, mas quase trombei com .
- Veio reclamar do quê? – Virei os olhos e abri a porta do meu carro, desistindo de observar a garota, pronto pra sair dali.
- Não vim reclamar de nada – Ele bufou, mas depois recompôs a expressão – Aquela era a Carly? – Apontou com o polegar para onde ela tinha se retirado.
- Era. Você pode pegar se quiser, aquela lá não me serve pra mais nada.
- Muito generoso da sua parte – Sarcasmo. Essa linguagem eu entendo – Mas eu não vim falar disso – Ele tirou do bolso um papel e deu em minhas mãos – Eu acho que tenho uma idéia de trote que talvez você vá gostar.
Peguei o papel e avaliei atentamente. Era um mapa do Dover Grammar.
- Onde você arrumou isso?
- Internet – Deu de ombros. Fechei a porta do carro e fiquei frente a frente com ele, realmente disposto a ouvir o que ele tinha dizer, sem nenhum sarcasmo ou faíscas – Quer saber da minha ideia ou vai dar uma de auto-suficiente? – Arqueou uma sobrancelha.
- Sou todo ouvidos.
- Tá livre hoje à noite?
10.
- Vocês têm certeza de que isso vai dar certo?
- , ninguém obrigou você a vir, então quieta – Bufei. Tinha ouvido-a resmungar durante todo caminho até o Dover Grammar. Não sabia nem porque ela tinha ido no meu carro, ela só se enfiou lá e pronto.
- Desculpe se eu sou a única que está pensando direito aqui – Cruzou os braços e se encostou no meu carro.
- Você que deu a idéia de fazer o trote! – falou já impaciente, e um pouco alto demais para alguém que estava num grupo de pessoas escondidas na entrada de um colégio, no meio da madrugada.
- Eu não estou falando com você – Ela riu falsamente, devolveu.
- Ei, vocês dois aí, dá pra calarem a boca? – , que estava na frente do portão, reclamou abrindo o mapa em mãos. Fui até onde ele estava, ignorando os outros dois que estavam ao meu redor.
- Eu não quero ser presa. Se me pegarem aqui, eu vou voltar direto para o Brasil, e... – A menina se meteu entre nós dois e começou a resmungar baixo.
- Aí você vai ter o que queria, vai se livrar daquele povo, agora calada – tentou tapar a boca da garota, sem olhar, mas quase acertou um olho, deixando-a furiosa. Apesar do comentário me deixar meio confuso, tive que rir, geralmente irritá-la é minha função.
- Ninguém obrigou você a vir – Repeti.
- Eu achei que seria divertido, mas está sendo o oposto.
- Você poderia estar em casa dormindo – Provoquei.
- Teoricamente, estou dormindo na casa de uma amiga.
- Você não tem amigas.
- Você é um ótimo observador, sabia? – Bufei. Por mais que eu adore o sarcasmo, ele não é tão agradável quando direcionado a mim – A minha tia não sabe disso – Ela finalmente relaxou e riu – Estou na casa de Melanie, ela mora com os pais em River, está no clube de matemática e está me ajudando a pegar o ritmo do colégio britânico, que tal?
- Você não devia ter dito o bairro que ela mora, poderia ter dito que ela é uma aluna de intercâmbio, ninguém se importa com eles, só são curiosos quanto ao país de que eles vieram – Dei de ombros. E ela tinha me dito que eu não sei mentir...
- Agora eu estou me sentindo idiota, ela vai descobrir onde eu estou – Voltou a ficar preocupada. Bom trabalho, .
- Relaxa, , você está comigo, o que poderia acontecer? – Passei o braço por seus ombros. Senti-a hesitar um pouco, mas relaxou e sorriu fraco. Dando um abraço de lado na minha cintura.
A área que ela tocou formigou por alguns segundos. Idiotice, eu sei. De tanto que já fui tocado, porque aquela garota em especial estava causando esses efeitos?
- Vocês estão me dando ânsia de vômito – quase cuspiu e se apressou para pular o muro.
- Isso se chama falta de sexo, você deveria experimentar, acalma bastante os nervos – Fiz o resto dos garotos rirem quando nos aproximamos de onde ele estava escalando.
- Acalma, é? – Arqueou uma sobrancelha quando chegou ao topo – Então você não está fazendo direito.
- Vá pra merda – Irritei-me. Só porque estava acima de mim naquele momento, estava pensando que podia comigo. E olhe que eu até estava fazendo um pouco de esforço para ser agradável, visto que ele estava liderando todo o processo. Talvez a esse custo, buscando a aprovação do resto do time.
Afastei-me bruscamente de . Sinceramente, não estava gostando nem um pouco do que meu corpo demonstrava só por estar sendo tocado por ela. Por uns segundos ela cambaleou, mas eu segui em frente, não deixaria ela pensando que me preocuparia em qualquer sentido.
Subi no muro, seguindo . Não esperei para ver se ela me seguiria, ou como ela faria isso. Estava mais interessado em apressar tudo e sair logo dali. Sem ver a polícia, de preferência. Não ia deixar transparecer, mas estava morrendo de medo de que, mais uma vez, sobrasse para mim.
Do outro lado, se encontrava o colégio escuro, iluminado apenas pelos postes públicos instalados em seu interior. Felizmente, alguns dos garotos trouxeram lanterna, quebrando toda a minha teoria de serem idiotas. Nem eu tinha pensado nisso!
- Muito obrigada por ter me ajudado – passou por mim e correu na direção de Mitchel, que também já tinha pulado. Ela puxou das mãos dele uma garrafa de vodca. O garoto protestou, mas já estava desequilibrado demais para se lembrar segundos depois.
Para minha surpresa, ela começou a beber o líquido.
- Você? Bebendo? – Ri alto – Essa imagem eu nunca mais vou esquecer.
- Eu posso saber beber melhor que você, – Passou a andar de costas para me encarar e rolou os olhos – Você não sabe de 10 por cento do que se passa na minha vida, riquinho.
- É, deve ser uma dureza mesmo – Fiz questão de ser sarcástico. Ela parou de andar, mas eu não.
Aproximei-me e deixei nossos rostos a poucos centímetros de distância.
Ela aproximou mais ainda, deixou nossas bocas quase se tocando. Eu observava a dela apreensivamente, mas não podia dar um passo em falso, sei muito bem o que poderia colocar a perder se brincasse com a sua personalidade inconstante. Cada coisa em seu tempo.
- Você precisa aprender a beber no estilo Brasil, gringo – Sussurrou. Sorri de lado.
se afastou e levou a garrafa mais uma vez à boca, dando um pequeno gole e sorrindo sapeca em seguida. Senti os pêlos da minha nuca se arrepiarem quando a vi correr e pular nas costas de , que já estava perto das portas do colégio. Eu tinha que fazer essa garota ser minha. Tinha que sentir o gosto dela muito mais além do que aqueles beijos de jardim de infância que consegui arrancar. É, apesar de diferente, ela não poderia ser muito mais difícil que todas as outras que consegui, tenho uma vida inteira de prática para, inocentemente, levar uma garota para cama. Mas falando em diferenças, eu não posso negar estar fascinado pelas surpresas de que aquela menina é feita, disposto a descobrir uma por uma.
Como eu disse, cada coisa em seu tempo.
Com o mapa em mãos, nos guiou até o vestiário, com Adam e Jeremy bem atrás, carregando dois baldes.
Eu tenho que ser sincero, o plano não era dos piores, ainda mais porque eu não tinha nada em mente. Para quê pensar, se tem pessoas que podem fazer isso por mim? Eu não teria que me esforçar muito, só estar lá, lançando uns olhares de aprovação e orgulho, e sendo gentil, como falou, já era suficiente.
O uniforme vermelho da Dover Grammar estava idiotamente guardado no escritório destrancado do técnico deles. Coisa de gente burra mesmo. Apesar da imbecilidade e da mania de grandeza, Williams sabe prezar quando se trata dos assuntos de suma importância do time.
Daí, mostraríamos que cores deve ter um time vencedor: azul marinho. Não que isso fosse torná-los vencedores, muito pelo contrário, eles não têm o elemento “X”: .
Os garotos começaram a se dividir para pintar as camisas. Até tinha ido pela empolgação, parecia um bando de crianças abrindo o presente de natal.
- Tá ouvindo isso? – , que não tinha falado comigo desde que tínhamos entrado no vestiário, me puxou para perto da porta.
- Você está bêbada.
- Não estou, não!
- Tá sim.
- Eu ouvi alguma coisa – Olhou para o corredor, de olhos arregalados.
- Não tem ninguém, – Prendi o riso. Ela semicerrou os olhos na minha direção e saiu do vestiário. Eu fui atrás, não ia deixar uma bêbada colocar tudo a perder.
Ela, mais uma vez, ia colocando a garrafa na boca, mas eu, com fui treinado minha vida quase inteira que joguei futebol, fui mais rápido e a puxei.
- Agora é a minha vez, Brasil.
- Me dá isso.
- Não – Levantei meu braço alto o suficiente para que ela não alcançasse. ficou pulando tentando pegar, mas o seu equilíbrio e o álcool não trabalharam muito bem juntos.
- Tá, que seja, fique aí bebendo enquanto eu procuro de onde vem esse barulho – Com a cara emburrada, deu as costas para mim e começou a andar devagar e atentamente pelo corredor vazio. Ri alto – Dá pra fazer silêncio?
- , não tem barulho nenhum.
- Hey surdinho, se você está com medo, pode ficar aí com os meninos – Apaguei o sorriso do rosto instantaneamente. Tem até graça! Eu, com medo?
Ela voltou a olhar para mim.
- Você esqueceu quem eu sou? – Arqueei uma sobrancelha.
- Sei, sei. – Fez uma careta de nojo – Então, você vem ou não?
- Vou – Falei, contrariado. Ela sorriu, vitoriosa, e voltou a andar.
O corredor entrava numa escuridão, e a lanterna tinha ficado atrás com o resto dos garotos. A certo ponto, eu só pude ver sua silhueta se mexendo atenta a todas as portas e janelas das salas de aula que passavam.
- Posso saber o que você está procurando?
- E se tiver algum segurança por aqui? – Ela continuou a enfiar a cabeça pelas janelas. Rolei os olhos e dei um gole de vodca, sentindo aquela merda queimar minha garganta. Eu odeio vodca, mas estava precisando.
- Provavelmente, tem.
- VOCÊ SABIA E AINDA INSISTIU NESSA IDEIA? – Ela gritou. Meu coração deu um salto quando ela se descontrolou. Corri pra tapar sua boca, mas já era tarde demais, minha mão ali não ia fazer o segurança ficar momentaneamente surdo.
- Por que diabos você está gritando? – Esbravejei, controlando minha voz.
- Desculpa – Encolheu os ombros, sorrindo fraco – Por que você não me disse que aqui tem segurança?
- Porque... – Pense rápido, , pense rápido! – Porque...
- Desaprendeu a falar? – Arqueou uma sobrancelha.
- Nem bêbada você deixa de ser engraçadinha – Semicerrei os olhos, depois sorri. Ela rolou os olhos e sorriu de volta.
- Vai me dizer ou não?
Ah, foda-se.
- Porque se eu tivesse contado, você não viria, satisfeita? – Daí quem tomou a frente fui eu. Não queria mesmo ver a reação dela.
- Estou meio dividida entre satisfação e aquela estranha sensação de vitória – Ela deu um riso baixo e ficou andando a poucos passos atrás de mim.
- Vitória?
- É, vitória. Não foi você que ficou reclamando quando eu vim para cá? – Ela continuou com o tom divertido na voz. Eu rolei os olhos. Tinha mesmo que explicar? Por que essa menina ouve as coisas e pede uma explicação para cada vírgula?
Tomei outro gole da vodca. Sentir aquele veneno quase corroer minha garganta não pode ser pior que estar fazendo papel de idiota.
Também não fiz nenhuma questão de responder.
- Você deve ser aquele tipo de pessoa que está acostumada a conseguir o que quer através da psicologia inversa...
- Bom saber que tenho uma psicóloga a meu serviço – Caprichei na ironia.
- Há-há.
Preparei-me para responder, mas uma batida de porta alguns metros atrás de nós, chamou minha atenção.
Tínhamos passado pela entrada principal do colégio há poucos minutos, entrando na ala leste, assim, estávamos bem distantes do vestiário, onde estava o resto do time.
Virei para trás no mesmo tempo que , a tempo de ver uma luz estreita invadindo o corredor, vinda do lugar da porta. A iluminação vinha de uma lanterna, mas felizmente, não conseguíamos ver quem a segurava, assim, quem quer que fosse, também não poderia nos ver.
Não tive tempo nem de sentir alguma coisa, medo, susto, nada. Meu instinto de auto-preservação gritou pelo meu cérebro me mandando fazer alguma coisa.
Antes que esse tal ser resolvesse virar o corredor e dar de cara com nós dois, puxei pelo cotovelo, que reprimiu um grito fraco de susto, abri a primeira porta que vi pela frente e entrei depressa.
O lugar em que estávamos parecia uma sala de aula, não dava para ver muito bem devido à escuridão, consegui apenas distinguir silhuetas de cadeiras e mesas. Empurrei na parede, entre a janela e a porta, e me encostei a ela, a fim de não deixar que estivéssemos à mostra entre as persianas da janela, para qualquer um que passasse pelo corredor.
Diminuí o espaço entre nós quando vi a luz da lanterna invadir a sala através das persianas. Tentei ignorar a tensão que se acumulava entre nos dois. À medida que ela apertava meus ombros, quando a luz dava mais uma vasculhada na sala, se aproximando de nós, eu pensava que ele poderia demorar o quanto quisesse. Não me incomodaria em ficar naquela posição por mais alguns minutos.
E foi muita idiotice pensar dessa maneira.
Mas quem quer que fosse, partiu segundos depois.
Soltei minha respiração.
encostou a testa no meu peito e suspirou aliviada. Inconscientemente, acariciei seus cabelos, sentindo um aroma doce sair deles. A garota enrijeceu, assim, me toquei do que estava fazendo e me afastei.
Senti meu estômago embolar de nervosismo e fui para a janela fingindo que verificava o corredor, mas na verdade nem prestei atenção no que fazia. Tudo para não ter que encará-la.
O que estava errado comigo? Ficar inconfortável desse jeito é um absurdo pra mim.
Ninguém me intimida.
Ninguém nunca me intimidará.
E, muito menos, ninguém pode me influenciar do jeito que estava fazendo. Afinal, o que ela queria com esse interesse repentino na minha vida? Com essa história de “eu tenho namorado” e depois “eu quero te ajudar.” Ela ainda vai me deixar louco!
Fechei as cortinas.
- Não tem mais ninguém lá fora – Falei.
- Hum... – Ela murmurou e continuou apoiada na parede, com o olhar caído no chão – É melhor nós irmos.
- Ele ainda deve estar por aí, vamos esperar um pouco – Dei de ombros, atravessei a sala e me sentei no lado oposto, de frente para .
- Ah.
tomou um impulso com um dos pés para desencostar e começou a andar vagarosamente na minha direção. Estranhei, mas não falei nada. Qualquer besteira eu sabia que poderia espantar essa garota.
Talvez seja esse o maior atrativo dela. Essa constante sensação de não saber o que acontecerá em seguida, me irrita e me incita a me aproximar dela e entender o que se passa na cabeça de alguém tão diferente de mim. É isso. Apenas curiosidade. Mesmo que essa curiosidade possa custar caro.
Ela se sentou ao meu lado.
- Oi – Falou e sorriu fraco.
- Eu nem sei como sair daqui, ficou com o mapa – Falei pensativo. Das vezes que estive nesse colégio não fui muito além da quadra externa. Por mais que eu me esforçasse, não conseguiria arrumar uma solução para sair dali, principalmente com meu cérebro cansado e regado a álcool.
Quando olhei para , ela tentava segurar a risada.
- O que foi? – Passei logo a mão no rosto, procurando alguma coisa errada.
Ela negou com a cabeça e começou a rir ainda mais.
- Maluca – E ela riu mais ainda. E riu alto! Tapei a boca dela imediatamente. Ser pego por invasão de privacidade não estava nos meus planos para a noite, definitivamente. Sexta à noite e eu poderia estar num pub, mas não, eu estava preso num colégio estranho com uma menina que não calava a boca – Sério , você nem bebeu tanto assim – Bufei.
- Desculpa – Tirei minha mão. Ela ficou respirando fundo até se acalmar.
- Pronto? – Arqueei uma sobrancelha.
- Não me olha desse jeito – Ela começou a rir de novo. Puta que pariu!
- Olhar como?! – Sorri. E eu aqui que achava que já conhecesse todos os efeitos de uma garota bêbada. Mas poderia mesmo ser considerada uma garota? Estava mais pra um caso a ser estudado.
- Assim, me julgando.
- Não estou, não – Rebati rapidamente.
- Eu sei que falei que sabia beber, mas é que já faz um tempo – Parou de rir aos poucos, enquanto falava – Eu costumava beber da sexta ao domingo – Deu uma breve risada sem humor. Enquanto eu só ouvia e não sabia exatamente se acreditava nisso, ou se era apenas o álcool falando coisas sem nexo. ? não pode ser esse tipo de garota que ela estava descrevendo, eu as reconheço de longe! – Minha mãe ficava de cabelo em pé.
- Espera, você tá falando sério? – Eu ainda não conseguia acreditar! Mas ela parecia tão convicta do que estava falando.
- Ainda tem muita coisa que você não sabe sobre mim, .
- Digo o mesmo.
- Qual é?! – se exaltou de repente – Você é praticamente uma celebridade nessa cidade, o que tem para não saber?
- Então você andou perguntando sobre mim por aí – Encarei-a. corou e desviou o olhar. Naquele momento, passou a ser mais uma pessoa, como todas as outras daquela cidade, que acham que me conhecem por algo que eu não sou e nunca vou ser. Essas histórias por aí não influenciam em nada em meu caráter, sempre me esforcei muito para deixar isso bem claro. Mas as pessoas estão bem mais concentradas em ter uma boa fofoca para notarem – Eu queria que você não tivesse feito isso.
- Eu disse que sou curiosa – Falou baixo. Depois levantou o olhar e sorriu fraco para mim. Não retribuí – Acredite, nada que eu souber sobre a sua vida vai mudar o que eu sinto...
- Como assim o que você sente? – Perguntei um pouco alto demais. Talvez pelo impacto daquela palavra vinda do nada. arregalou os olhos e ficou extremamente vermelha. Claramente ela desejou não ter falado aquilo, estava escrito na sua testa, e desfaria se pudesse. Mas já estava feito. E eu ouvi. Eu tinha que ouvir de novo.
- O que eu penso sobre você... – Corrigiu imediatamente.
- Não, você não falou isso – Desencostei da parede e me ajoelhei de frente para a garota. Vi a expressão dela mudar de desespero para surpresa. Ela tentava desviar do meu olhar, mas quando fixou seus olhos nos meus, me encarou com fúria.
- EU DISSE QUE FALEI ERRADO, OK? – Tentou controlar o tom de voz para não gritar, mas falhou.
Ela se levantou e eu acompanhei.
me encarava confusa. Eu estava confuso.
Eu não podia me importar com o que ela tivesse falado. Não podia mesmo. Ela afirmou com todas as letras que não foi o que quis dizer.
Então, poderia ser aquilo. Eu poderia dar as costas e me afastar daquela menina definitivamente. Não sei se sou capaz de suportar mais uma garotinha apaixonada, como Carly. Já tive o suficiente de experiências como essas.
Mas não. Eu não me afastaria.
O desejo de ver onde isso vai dar me atraia muito mais. Viver perigosamente. Eu não deveria ter medo. tem mostrado o oposto de todas as conclusões que eu precipitadamente tirei. Eu estaria errado mais uma vez.
- Eu aconselho você a não se apaixonar por mim, – Falei baixo quando tapei o caminho dela entre a porta.
- Eu sou incapaz de gostar de alguém como você, , pode ter certeza – Cruzou os braços acima do peito. Porém, não parecia muito convicta do que falava, e sim que tivesse se forçando a dizer aquelas palavras.
- Bom, concordamos em algo – Respondi.
Sem pensar, coloquei as mãos na cintura dela e puxei.
Esperei pelo empurrão, mas ele não veio.
Ao invés disso, jogou os braços ao redor do meu pescoço e colou a boca na minha, exatamente como tinha feito dias atrás.
Não, não exatamente. Era diferente. Ela estava me beijando. Ela também queria aquilo. Eu não estava forçando nada. Das outras vezes, me pareceu que cada passo que eu dava para frente, dava dois para trás.
Mas já que estávamos ali...
Apertei sua cintura no momento em que abri a boca para deixar sua língua passar. Puxei-a para mais perto de mim, colando nossos corpos enquanto eu a levava até a parede mais próxima e a encostava ali. Ela relaxou seus braços e deixou que uma de suas mãos caísse em meu peito, enquanto puxava com as pontas das unhas os cabelos da minha nuca. Coloquei minhas mãos dentro das trezentas camisas e casacos que ela estava vestida e acariciei suas costas. Toda aquela troca de desejos, a boca dela comprimindo a minha, parecia ser tudo o que eu ansiava nas garotas com que estive. Mas nenhuma delas me dava o que eu queria, apenas doses satisfatórias, enquanto eu queria muito mais que isso!
levou as mãos para as barras do meu casaco, segurando firme ali. Eu sabia muito bem o que estava se passando na cabeça dela. Era a dúvida. Tentava se decidir se ia em frente enquanto me puxava pra mais perto, quase se fundindo comigo. Eu poderia dar um incentivo. Na verdade, eu precisava dar esse incentivo, já estava avançado demais para voltar atrás. Eu estava nas mãos dessa garota, e só esperava que ela não percebesse isso. Desci minha boca para seu pescoço. Ela jogou a cabeça para trás e empurrou meu casaco de vez para trás e puxando minha camisa para cima logo em seguida. Quando me vi vestindo apenas minha calça, parou para me observar, descendo os olhos desde o meu peito, até as minhas pernas. Mordeu seu lábio inferior, formando um sorriso maldoso.
Quando ela voltou a me encarar, pude ver toda a luxúria dos meus olhos, refletida nos olhos dela. Com a excitação correndo por minhas veias, puxei o casaco listrado que ela vestia, trazendo junto com ele uma das blusas que estavam por baixo, deixando-a com uma regata branca e fina. Distribuí beijos no caminho de sua boca até seu colo, um pouco acima de seus seios. puxava meus cabelos com força, e sua outra mão cravava as unhas nas minhas costas. Eu certamente sentiria as consequências no dia seguinte.
- ... – Ela murmurou muito baixo. Resmunguei em resposta – Eu não sou... Eu... ! – Exclamou de repente. Deixei minhas mãos na parede, ao lado de sua cabeça, e me vi obrigado a encará-la. Com raiva. Ela encolheu os ombros e o olhar ficou vacilando entre meus olhos e a minha boca.
- O que houve? – Bufei.
- Eu não consigo fazer isso, eu não sou uma vadia traidora – Levou a mão que ainda estava na minha nuca até sua testa e enxugou um pouco de suor que começava a se formar.
- Tudo bem, eu posso ser por nós dois. – Coloquei uma mecha do cabelo dela que quase cobria seus olhos, para trás da orelha, deixando meu polegar depositado na sua bochecha. Ela sorriu fraco e se aproximou de mim, hesitante.
Deixou sua boca colada com a minha por um tempo. Fiquei só sentindo seu gosto por segundos, como eu nunca tinha feito antes, experimentando só as sensações que aquele toque poderia trazer. Como uma droga.
Ela se afastou.
- Me leva pra casa? – Pediu passando por baixo dos meus braços pra pegar sua roupa caída no chão. Bufei e assenti. Talvez não fosse meu dia mesmo, mas eu ainda teria muitos pela frente. Paciência é uma virtude que eu estou adquirindo aos poucos.
Vesti minha camisa e joguei o casaco no meu ombro, partindo para dar uma olhada no corredor. Tudo escuro.
Olhei para , ela já estava atrás de mim e passou pela porta rapidamente, sem arriscar nenhum olhar na minha direção.
Respirei fundo. Ainda assim, eu não tinha me arrependido de nada.
O que diabos tinha sido aquilo? E por qual insano motivo eu queria fazer de novo?
Cheguei à casa apagada dos tios de , exceto por uma luz azul, provavelmente de uma TV que perdeu o sinal. A garota estava adormecida ao meu lado, com a cabeça encostada na janela do carro, e um singelo sorriso no rosto. Voltei a olhar para a casa branca do meu lado direito. Um homem passou pela janela e desligou a TV, deixando, então, a casa escura por completo. Era mais de três da manhã, o que ele estava fazendo acordado?
Lembrei-me de quando me falou sobre seu tio, como ela não gostava de estar naquela casa. Quando voltei a observá-la, a tempo de vê-la passando as mãos pelo rosto, tirando alguns cabelos que caíam por ali, e então suspirou. Sei que não sou a pessoa preferida dessa garota, mas talvez uma noite não seja capaz de matá-la. Liguei o carro e segui em frente.
Em questão de alguns minutos, já tinha colocado o carro dentro da garagem. Passei a mão pelo braço de , para acordá-la. Não foi fácil. A menina dormia como uma pedra, como se tivesse numa cama king size rodeada de travesseiros. Sorri.
- ? – Chamei um pouco mais alto. Pelo menos funcionou. Ela acordou e apertou os olhos por causa da luz acesa da garagem.
- Para onde você me trouxe? – Arregalou os olhos, observando em volta.
- Minha casa – Ri e saí do carro.
- Er, não sei se você sabe, mas eu não moro na sua casa – Arqueou uma sobrancelha, se esticando até a janela do lado do motorista pra me encarar.
- Você tem certeza? – Ironizei. Um obrigado seria ótimo. Eu livrei a cara dela de uma bronca que levaria por causa do tio acordado, uma vez que ela falou para ele que tava na tal casa da nerd imaginária, estudando – Eu fui até a sua casa, e tinha alguém acordado...
- Eu sei lidar com meu tio – Cruzou os braços, emburrada.
- , eu não vou abusar de você... – Rolei os olhos. Eu já estava cansado demais pra ter uma discussão daquelas há poucos metros de uma cama quente – O perigo maior é que você abuse de mim, e eu sei me defender muito bem, então... – Dei as costas, esperando que ela fosse me seguir.
Entrei na cozinha, deixando as chaves do carro em cima do balcão e fui seguindo até a escada. Quando eu estava na metade, ouvi a porta da cozinha bater e esperei, com um sorriso vitorioso, que aparecesse à minha vista. Ao me ver, ela deu um sorriso cínico e se apressou para me acompanhar.
- Eu não vou dormir com você – Cruzou os braços quando tomando a frente, indo para não sei lá onde, já que não fazia a mínima idéia de onde fica o quarto.
- Por mais que eu fique lisonjeado, eu não pretendia mesmo – Chegamos ao topo da escada, e ela parou de andar, olhando para os dois lados do corredor. Indiquei a primeira porta à direita e ela entrou. Era o meu quarto. Perceptível pela bagunça. se virou para mim com um olhar de raiva e ameaçou sair de lá, mas eu bloqueei a saída – Eu só vou pegar uma roupa e vou pro quarto de .
- mora com você? – Sua expressão mudou bruscamente para confusão. É só uma questão de tempo para que ela descubra mesmo. Na verdade, é só uma questão de tempo para que todos descubram. Mas, não tenho motivos para que seja eu quem irá contar, esse fardo já não é meu, e descobriria entre as outras pessoas, não tem pra quê tratamentos especiais.
- Mora... – Falei simplesmente e fui pegar uma boxer e uma camisa no closet. Achei uma roupa de no meio de algumas minhas que talvez pudesse servir em , elas não eram muito diferentes de corpo. Pelo menos não quando o estômago de não está parecendo uma melancia.
Quando voltei, estava observando umas fotos acima da mesa onde estava meu notebook. Minha mãe tinha colocado-as ali, apenas umas fotos de quando eu era pequeno, umas fotos em família, , , o time. Nada em especial. Mas tomou a atenção dela. Perguntei-me o porquê, mas o relógio ao lado da cama apitou de forma baixa, mostrando que tinha acabado de dar quatro horas, me fazendo desistir de iniciar qualquer tipo de conversa.
- Toma.– Entreguei nas mãos dela, que pegou ainda desconfiada. Ela não conseguia me encarar por mais de um segundo desde que saímos do Dover Grammar – Eu levo você pela manhã, cedo.
- Ok. Obrigada – Sorriu fraco – Boa noite – Disse ao entrar no banheiro do meu quarto.
Da porta que dava para o corredor, fiquei encarando a do banheiro, fechada. Bufei. O sono estava me deixando patético. Desde quando eu trago uma garota para a minha casa e cedo a minha cama para ela? Pra nada! Bom, nada da parte dela, por mim eu tinha acabado com toda essa frescura naquela sala de aula mesmo. Quando eu vou aprender a arrumar garotas que possam realmente se submeter ao que eu quero? Sério, eu não posso lidar com o fato de que outras pessoas têm necessidades, preciso de garotas sem personalidade. Mas isso se resolve em dois segundos.
Bati a porta e fui até o quarto ao lado, onde estava.
11.
Puxei a coberta até acima do meu rosto para tentar voltar ao meu sono mesmo com as sacudidas que estava dando em mim. Fora a cortina aberta, o sol na minha cara e as resmungadas. É, talvez fosse quase impossível voltar a dormir. Mas eu tinha que tentar, certo? Errado. Eu tinha que admirar a persistência dessa menina, com certeza ela não tinha aprendido isso comigo, talvez fosse algo hereditário...
- O que você quer, ? – Bufei sem me dar ao trabalho de tirar as cobertas para encará-la, a claridade era demais para as minhas retinas.
- “O que você quer, ?” – Ela tentou imitar minha voz. E falhou, acima de tudo. Desde quando minha voz soa daquele jeito? – Eu tenho todo o direito de acordar uma pessoa quando a mesma está dormindo na minha cama. Principalmente quando ela não estava aqui quando eu fui me deitar ontem à noite. Na verdade, você não estava nem em casa. Noite agitada, amiguinho? – Percebi sua voz mudar para sarcasmo quando falou a última frase.
Droga. Só então me lembrei da noite passada. E que estava no quarto de . E do que estava na minha cama, onde eu deveria estar na verdade. Perguntei-me se já tinha visto que eu não tinha dormido com ela meramente. Tirei as cobertas do meu rosto e encarei a menina. Ela me olhava com um sorriso divertido. Bom, talvez ela já tivesse visto. Não dava para dizer muito.
- Desde quando você trás garotas para casa, e vocês dormem em quartos diferentes? – Ela quase riu. Arqueei uma sobrancelha. Não estava achando nada engraçado.
- Já parou pra pensar que eu talvez tenha me perguntado isso a noite inteira? – Levantei-me com rispidez, queria mesmo demonstrar que eu não estava gostando. Ainda mais porque o relógio na parede apontava pra nove horas da manhã, ou seja, tudo bem eu ter me atrasado para levar para casa, mas que tal se eu tivesse me atrasado para um pouquinho mais tarde. Que tal... Doze horas da manhã, no mínimo?
- Ok, vou fazer uma pergunta menos polêmica – Ela me seguiu até o banheiro – O que porra você está pensando? Você e , sério? – Dei as costas para ela e fui lavar meu rosto, mas ainda podia ver a incredulidade e a acusação do rosto dela pelo espelho – Vocês estão ficando ou o quê?
- Quem é você pra julgar? – Quase gritei. Não ia controlar meu tom de voz diante do que estava ouvindo – Você e , sério? – Falei no mesmo tom que ela tinha usado. Acho que fui longe demais. O rosto dela, por uma fração de segundo, mudou para surpresa. Mas depois ela se recompôs e rolou os olhos. Seria bom que ela me ignorasse mesmo, ou essa discussão iria durar até outro dia – Eu não estou ficando com ela – Falei por fim.
- Ok, então qual é a outra explicação racional para ela ter dormido na sua cama?
- Ela não ter pra onde ir ontem à noite é racional o suficiente pra você? – Adiantei-me para sair do banheiro. Ela ficou no meio do caminho com os braços cruzados.
- Você está um encanto essa manhã! Mais amoroso do que nunca – Ela riu alto e andou até a cama, sentando-se lá. Dei um sorriso cínico e fui até a porta, mas, ainda sem abri-la, com a mão na maçaneta, me virei para de novo.
- Minha mãe já acordou?
- Tarde demais, ela já achou sua namoradinha – Falou enquanto prendia os cabelos num coque apertado, deixando só a franja solta.
Gelei. Claro que ela já tinha colocado o nariz lá no meu quarto. Desejei, mais do que nunca, que eu tivesse acordado cedo de verdade e levado para casa antes que qualquer um percebesse. Só eu sei o quanto a minha família é receptiva. Na verdade, receptiva demais para meu gosto. Eles tratavam bem até Carly! E minha mãe odeia Carly! Ela nunca me disse isso, mas eu sei que sim. Não consigo nem imaginar o tipo de coisas que minha mãe faria com uma garota que ela realmente gostasse. Eu conheço minha mãe. Sei o quanto ela gosta de garotas como . Apesar de ter sido uma líder de torcida como essas idiotas do meu colégio, ela era uma alternativa. É, uma líder de torcida com os cabelos ruivos e azuis, uma tatuagem no antebraço e grávida. Não poderia muito dizer que a minha mãe era uma estereotipada. Por isso, cada oportunidade que tem, ela trata de criticar meu estilo de vida ou as garotas com quem eu saio. Ok, não estou pensando em como minha namorada. Já tive experiências ruins demais nesse ramo, quem sabe em alguns anos eu volte a pensar sobre namorar novamente com uma garota.
- Ela não é minha namorada, pela milésima vez – Vi-me obrigado a responder.
- Ainda – riu alto – Eu conheço você, , você está de olho nessa menina desde que a viu pela primeira vez. E vocês não desgrudam desde a viagem...
- Tá com ciúmes? – Ri.
- Um pouquinho, sim – Deu de ombros e forçou um suspiro. Muito engraçadinha.
- Enfim, não importa, eu não estou ficando com , e ela tem namorado. Vai me deixar em paz, enfim? – Preparei-me para abrir a porta, mesmo que eu não quisesse, não tinha muita certeza se queria ver os danos causados lá fora.
- Ela tem namorado? E daí? Ela está usando um cinto de castidade, por acaso? Desde quando isso impediu você?
- Tchau pra você – Ok, nada lá fora poderia ser pior que essa conversa.
Fui logo procurar a menina no meu quarto, mas, como era de se imaginar, estava vazio, os lençóis da cama revirados. Mas que porra, é bem a minha cara mesmo fazer merda e se arrepender no outro dia. Chutei o pé da cama, inconsciente... Bem, outra coisa pra me arrepender! Quando eu olhei para trás massageando meu pé, Amy estava lá, rindo da minha cara.
- Tá rindo do quê?
- Mamãe está chamando você – Ela disse ainda rindo.
- E você vai ficar aí, rindo da minha desgraça? – Ri também quando Amy gargalhou. Depois ela negou com a cabeça. Olhei para o corredor atrás dela, passou para descer as escadas e eu olhei para Amélia de novo, que arrumava a barra do vestido. Agachei-me perto dela com um sorriso persuasivo e coloquei minhas mãos nos ombros dela. – Amy? – Ela me encarou, curiosa – Quem está lá em baixo?
- Mamãe, papai e a sua namorada... – Deu de ombros.
- Minha namorada? – Bufei. Quem tinha colocado isso na cabeça dela? Amy tem a melhor memória do que todo mundo junto na minha casa. Inclusive os empregados. Ela não me deixaria em paz com essa história de namorada nunca.
- É, mamãe falou que ela dormiu aqui porque é sua namorada – Ela sorriu – Ela é bonita.
- Eu sei – Sorri. Merda. Limpei a garganta e cocei a nuca – Quer dizer... Argh, vamos descer.
Coloquei a menina no colo e saí do quarto. Pensei em dar meia volta e voltar para o meu quarto, dormir o resto do dia e que se virasse no meio daqueles malucos.
Na cozinha, só de ver a cena da minha mãe conversando com e como se as três fossem melhores amigas me deixou enjoado. Essa facilidade que ela tem pra se dar bem com todo mundo não existe. Ninguém é tão simpático assim. Ainda bem que esse gene da alegria constante não veio para mim. Quero ver o que eu teria que aguentar se tivesse que aturar todo mundo com um sorriso patético na cara.
- Papi! – Amy me denunciou e ficou esperneando até que eu a soltasse pra ela correr pros braços de Liam.
Toda a população daquela cozinha passou a olhar para a minha cara. Dei um sorriso amarelo e me apressei para enfiar a cabeça dentro da geladeira procurando qualquer coisa que não fosse os olhos de alguém.
- Bom dia para você também, – Minha mãe me deu uma tapa na cabeça quando passou por trás de mim.
- Isso, bate em mim. Vai ajudar a melhorar meu humor – Dei sorriso cínico quando a encarei – Na verdade, faça o que quiser, estou apanhando desde que acordei mesmo...
- Isso é porque você deveria estar dormindo no sofá, não na minha cama – apoiou o queixo no braço quando falou comigo. Olhei para , ao lado dela. A menina estava com a cabeça enfiada num copo de leite.
Era de se imaginar que ela não tivesse a coragem de olhar na minha cara. Ninguém nunca tinha. A verdade é que ela é exatamente como eu, ela só se importa com si mesma e foda-se o resto, isso ficou bem claro ontem. Ela traiu o namorado dela. Comigo. Espero que ela tenha isso em mente quando for jogar suas moralidades na minha cara.
- Eu não sabia que você conhecia a – Minha mãe passou por mim novamente para entregar um prato com qualquer coisa para . Parei de encarar a garota e olhei para Meredith. Tinha me esquecido que as duas se conheciam. trabalha para ela!
- É, a gente se conhece do colégio – respondeu com um sorriso doce. Esse tipo de coisa até combinava com ela. Se qualquer outra garota com que eu estou acostumado sorrisse dessa maneira sairia, no mínimo, uma careta um tanto assustadora. Mas isso é muito menos do que eu posso dizer de , ela parecia ainda mais... Mas que bosta, por que eu tenho que ficar pensando nesse tipo de coisas?
- Você deveria ter dito que ela viria, .
- É, – Pela voz de , vi que ela prendia o riso, mas duvido que mais alguém tenha notado – Quer dizer, se você tivesse avisado, teria um lugar para você dormir...
- Que merda, eu dormi na sua cama. Quando você vai superar? – Apoiei-me no lado oposto da bancada em que ela estava sentada.
- Ah, por favor, você me chutou a noite toda, isso não pode ser bom para meu filho – Ela rolou os olhos. Eu estava pronto para dar uma resposta, mas me cortou.
- Filho? – Ela murmurou, assustada.
- Merda – Falei sem querer. Minha mãe me deu uma tapa no braço. Que se foda que tipo de palavra sai da minha boca, essa é a última das minhas preocupações.
- não contou para você? – deu de ombros – Eu meio que estou... Grávida – Falou meio sem jeito, mas ainda assim sorrindo. Era só o que faltava, agora ela estava achando essa história de gravidez bonita.
- Eu não acho que ele saiba, ele me contaria – estranhou. Desde quando ela tinha que saber de tudo? Certas coisas um homem tem que guardar pra si mesmo, não precisa de uma menina com o nariz enfiado nele. Isso se ele soubesse de fato. É só uma situação hipotética.
- Claro que ele sabe – Meti-me na conversa das duas. Com esse papo idiota, não duvido nada que voltasse a achar que é o cara perfeito.
- Não, ele não sabe, eu tenho certeza.
- O que ele é, seu amigo gay?
- Você tem certeza do que tá falando, ? – colocou a mão na frente do meu rosto e encarou . Puta merda, será que alguém poderia parar de me ignorar ali?
Sem notar nenhuma tensão, minha mãe saiu da cozinha com Liam e Amy, se despedindo e ainda falando aonde iriam. Ninguém deu muita atenção.
Passei as mãos no cabelo e respirei fundo. Aquilo ia dar em merda. Nenhum benefício eu teria de uma amizade entre essas duas.
- Tenho, claro que tenho.
- Eu vou levar você para casa – Dei a volta no balcão e peguei pelo braço. Ela me olhou de forma estranha, mas veio junto comigo.
olhou para mim, bufou resmungando algumas palavras que eu entendi como “Eu falo com você mais tarde.” Tudo bem, com eu me entendo direito.
Não dei oportunidade para que falasse comigo, fui puxando a menina subindo pelas escadas, para que ela pegasse as coisas delas no meu quarto rapidamente. Fiquei esperando na porta. Ela andou a até sua bolsa, mas quando estava bem perto, parou e girou os calcanhares. Com uma das sobrancelhas arqueada, ela me encarou beirando a diversão.
- Você não é tão difícil assim de desvendar, – Ela riu – Sério, eu esperava que você fosse mais misterioso andando por aí como se fosse auto-suficiente e o último biscoito do pacote, mas na verdade é tão previsível que a gente até duvida, e... – Todo esse discurso tinha ficado cansativo depois da primeira frase. tinha a síndrome do presidente ganhando as eleições, é óbvio, ao invés de ficar caladinha na dela, esperando o momento para falar, não conseguia fechar a boca. Ela devia saber que estava na minha casa, nesse lugar em específico eu tenho mais liberdade do que estou acostumado.
- Seja objetiva, eu não estou aqui pra ouvir besteira – Cortei, dando um sorriso irônico.
- Eu não sei como você conseguiu enganar a menina que se diz sua melhor amiga – Cruzou os braços, dessa vez um pouco mal humorada.
Eu sabia do que estava falando, e ela queria que eu admitisse que tinha sido eu quem impediu que e se encontrassem no outro dia. E eu não ia admitir isso. Nunca. Eu não preciso assumir meus erros pra saber que eles existem. É, mas nesse caso eu não acho que cometi algum erro, não me arrependi de forma alguma do que fiz, ou de ter pedido para fazer. Pode ser que ninguém acredite, mas eu fiz aquilo por . Ela não precisa de ninguém pra deixar a vida dela mais difícil. Ou qualquer coisa parecida que sirva como desculpa.
Entrei no quarto e fechei a porta.
- Por que fechou a porta, ? Tá com medo que alguém ouça?
- Medo? Talvez a palavra certa seja tédio – Falei com o tom de voz um pouco mais baixo do que estou acostumado. Queria manter aquela conversa apenas entre nós dois, mas sem que ela percebesse isso.
- Você olhou nos meus olhos e disse que não tinha nada a ver com isso – se aproximou de mim e baixou a voz também.
- Porra, dá pra esquecer esse assunto? – Rolei os olhos.
- Não, eu não posso. Aparentemente você gosta de mexer com a felicidade das pessoas que eu gosto. E, se você não parar de fazer merda, vai afastar as pessoas que você gosta – Amaciou o tom de voz. Eu deveria pensar que ela estava se preocupando comigo? Eu certamente não sou burro a ponto de ser manipulado dessa forma. Não é de meu feitio deixar de fazer o que quero por alguém. Não por ela. não significa nada. Apesar de o meu corpo dizer o contrário. Ela é só é mais uma, é aquele clássico que nós vemos nos filmes. Eu sou um cara! É normal eu querer uma garota que se faça de difícil, não é? Espero que sim. Nunca assisti mais de trinta minutos de comédias românticas para saber como elas terminam.
- Cuide do que interessa a você e deixe que o venha resolver os problemas dele comigo.
- Eu não vou mentir, , apesar dos seus esforços, eu até gosto de você, mas desse jeito fica bem difícil, não é? – Suspirou e voltou para pegar a bolsa dela. Depois me encarou, esperando uma resposta.
- Eu não pedi para você gostar de mim, , você simplesmente entrou na minha vida e deixou tudo de cabeça para baixo! – Sem querer, perdi o controle. Toda aquela raiva veio do nada, mas estava bem fora de hora. Eu sabia que ia explodir alguma hora com aquela menina.
- Ainda assim, mesmo bagunçando a sua vida, eu estou aqui, na sua casa. Você me trouxe aqui, . Você não me quer longe, só que não é seguro o suficiente para admitir – Encarei a textura da parede atrás da cama e respirei fundo. Eu não tinha resposta para aquilo, eu também tinha percebido meus esforços quase involuntários para mantê-la por perto. Acho que sou a única pessoa que me acha imprevisível, não? Em nenhum planeta eu me imaginaria tendo uma conversa como essa, não sem ter resposta pra um comentário tão simples. Simples, mas real.
- O que você quer de mim, ? – Com um tom de voz mais suave, quase sussurrei. Cocei a nuca, depois olhei para ela. Ela abriu a boca, mas não falou nada, fechando-a em seguida – Fala logo o que você quer, porque aí nós podemos seguir, um para cada lado, sem mexer com a vida um do outro – Talvez eu estivesse sendo um pouco hostil demais, mas a merda que eu ia me fazer de idiota, trabalhei minha reputação anos demais para simplesmente admitir para uma garota que ela mexe comigo. Eu fiz um pacto comigo mesmo, eu não deveria me apaixonar por uma menina no colégio e jogar toda minha vida fora. Era por isso que eu namorava Carly, e qualquer garota que parecia ter um potencial melhor, ficava para trás.
Eu não consigo deixar para trás.
- Talvez fosse melhor, se eu não fosse a única pessoa com qual você parece estar sendo, no mínimo, um pouco sincero – Ela respondeu, com a voz falha.
- O que merda isso quer dizer?
- Você acha que todo mundo é dispensável e nem percebe quando alguém é realmente importante...
- Não acha que está se dando muito crédito? – Interrompi.
- Certo, faça o que quiser, só não venha arrastar sua asinha para perto de mim, eu não vou esperar você descobrir que nem sempre está certo – Passou por mim, tentando me empurrar, mas não conseguiu, bloqueei a passagem de propósito.
- Você acha que me entende, mas não faz nem ideia – Cruzei meus braços. me olhou, estranhando.
- O filho dela é seu?
- NÃO!
- Então, por que você não deixa a menina viver a vida dela?
- Você acha mesmo que eu vou deixar se enfiar na minha vida desse jeito?
- A vida dela, . Você não tem nada com isso – Falou devagar, como se eu fosse retardado demais para entender.
- O que você sabe? Anda por aí com essa cara de Cinderela, boa demais para se dar ao trabalho de admitir que sua vida está miserável, morando com gente que não gosta de você, e ainda achando que o é sua fada madrinha. Cadê seus pais? Por que você não dá o fora daqui? – Olhei para ela, desafiadoramente.
A expressão dela ficou dura. deu uns passos para trás. Por um segundo ela pareceu magoada, mas eu sei bem que ela não iria deixar transparecer. Tentou recompor a expressão, mas segundos depois falhou. Não falou nada. Claramente, eu tinha tocado no ponto fraco. Eu não tenho nem idéia dos motivos para ela ter saído do Brasil, na verdade, eu acredito que tenham sido grandes, senão ela não estaria se obrigando a viver com os tios. Mas mesmo assim, eu não daria para trás, eu tenho tanto direito de me meter na vida dela, quanto ela tem de se meter na minha.
- Agora você é que não sabe do que está falando...
- Você não me conhece, e eu não conheço você. Acho que estamos quites.
- Não, nós não estamos – Ela voltou, jogou a bolsa na cama e se sentou ao lado. Quando voltou os olhos para mim, vi que estavam vermelhos. Gelei – Você realmente quer saber? Quer saber algo que eu nunca contei para ninguém daqui?
- Eu...
- Algo que não contei nem ao ou o , porque os dois vivem vidinhas perfeitas com as famílias perfeitamente estruturadas e não me entenderiam – Não falei nada. Foda-se. Eu queria saber mesmo. Ela já sabia praticamente tudo sobre mim, nada mais justo. Sentei-me ao lado dela. fixou os olhos em um dos pôsteres da parede e ponderou por uns segundos. Não fiz nada a não ser esperar. Tudo o que eu falasse poderia piorar – Eu estive aqui desde metade do verão, graças a minha mãe. Ela me mandou para a Inglaterra para poder transar em paz com os seus namorados – Ela rolou os olhos.
- É isso?
- Não se você me deixar terminar.
- Ok, desculpa.
- Então, ela fez isso quando eu deixei de ser o talão de cheques dela – colocou o cabelo atrás da orelha e rolou os olhos, obviamente ressentida. Respirei fundo, mesmo com um monte de perguntas perambulando pela minha cabeça, fiquei calado – Ela não podia mais receber nenhum dinheiro vindo do meu pai porque tudo o que ele tinha, foi apreendido depois que ele começou a ser investigado por fraude. Eu deveria ter ido morar com meu irmão, já que minha mãe fez tanta questão de se desfazer de nós dois... Bom, mas eu não tenho muita certeza de onde ele está. E eu não o culpo! Ele tem vinte e um anos, não precisa de uma irmã mais nova pendurada nas costas... – Com as costas da mão, ela limpou uma lágrima – Ele simplesmente pegou a mochila e foi viajar, fazer o que ele ama – E se calou.
- Tá falando sério?
- Eu não vou nem responder isso – Ela deu um sorriso irônico. Bufei. É isso que acontece quando tentamos ser agradáveis com alguém, recebemos patadas em troca. Bem melhor ser a pessoa quem dá as patadas, eu garanto – Ok, desculpa – Como se tivesse lido meus pensamentos, ela deu um sorriso murcho – Eu acho que você já sabe minha história. Ainda quer brincar de “quem tem a pior vida”?
- Na verdade, eu não sei o que dizer a você.
- Não estou pedindo pra falar nada. Só guarde isso pra você, ok?
- Ok.
- Eu vou pra casa.
- Eu levo você.
- Não sou idiota, , eu sei pegar um ônibus – Pegou a bolsa pela milésima vez e se levantou.
Eu não estava acostumado com aquilo, o tipo calado não combinava muito comigo, mas a verdade é que eu não sabia muito bem o que falar. Eu não podia simplesmente oferecer meu ombro sem abrir mão do que eu quero que ela pense de mim. Apesar de tudo, eu até me sentia um pouco mal de ter feito aquele comentário sobre os pais dela. Ok, eu não sabia de nada, mas ainda assim, foi idiotice.
Ela foi no espelho do banheiro e limpou os olhos
- ? – De repente, meu cérebro surtou, sem dar espaço para qualquer vestígio de razão.
- Hã?
Cheguei atrás dela e puxei seu braço, fazendo ela virar de frente para mim. Pus a outra mão no seu pescoço e colei seus lábios nos meus. Sem aprofundar nada. Só pensei que seria o que ela estava precisando naquele momento. Era a única coisa que eu poderia fazer que pudesse distrair sua mente, mesmo que quando nos separássemos trouxesse outros tipos de problemas.
Quando me afastei, ela manteve os olhos fechados por alguns segundos.
- Acho que isso tá se tornando bem frequente, não é? – Falou ao abrir os olhos.
- Não vou pedir desculpas.
- Eu sei, você já deixou isso bem claro – Ela rolou os olhos e sorriu. Sorri fraco em resposta – Eu tenho que... Fazer uma coisa – Ela travou antes de terminar a frase. Mais uma das esquisitices dela que eu fiz questão de ignorar. Franzi o cenho, mas não comentei nada – E eu estou atrasada.
- Vai na festa hoje à noite?
- Talvez...
Meu celular bipou na mesa ao lado da cama. Dei uns passos para trás e olhei no visor. Uma mensagem de texto.
“Você precisa vir aqui. Rápido. .”
Ele deveria estar no treino, o que era bem estranho, Williams não costuma dar folgas nos treinos de sábado, para não terminar muito tarde. Olhei para de novo.
- Eu levo você – Apontei para o celular, mostrando que tinha coisas a fazer. Ela apenas assentiu e depois abriu um sorriso divertido – O que foi agora?
- Não vai trocar de roupa? Eu sei que boxers e camiseta está bem na moda entre as pessoas que querem morrer de frio, mas eu não sou muito fã de modas, então...
- Agora você quer dar uma de engraçadinha?
- Alguém tem que ter bom humor nesse quarto – Encostou-se na parede com os braços cruzados e um sorriso sapeca tentando se fazer discreto em sua boca.
- Depois da bronca que você me deu, eu não tenho muita moral para falar de bom humor, não acha? – Arqueei uma sobrancelha.
- Você é muito rancoroso – Riu alto – Agora se apressa, eu precisava estar em casa há duas horas... – Olhei para mim e vi que ainda vestia as boxers e a camisa de ontem à noite, nem tinha me lembrado de me trocar antes de descer. Não que importasse muito, minha mãe já tinha cansado de lutar para que eu me vestisse propriamente em casa, e , bem, ela me ver vestido desse jeito só me traria vantagens. A menina começou a me empurrar para o lado do closet – Eu vou esperar no carro.
- Nem pensar – Eu, que já estava no meio o quarto, parei bruscamente – Não deixar você sozinha com a minha família solta por aí nem mais um segundo.
- Ai, que drama – Ela rolou os olhos impacientemente – Mas será que dá você não demorar? Porque você sabe que não vai casar nem nada, não sabe?
- Foda-se.
Cada rua que eu passava, mudava uma estação de rádio, fui obrigado a ouvir todo tipo de coisa entre Taylor Swift e Blink 182. A garota parecia se divertir diante das minhas reações sobre cada música, mas ao mesmo tempo concordava. Durante os últimos minutos, ficou apenas olhando os meus CDs e murmurando uma música de Jason Mraz desconhecida por mim que estava tocando.
Cada oportunidade que eu tinha, virava o rosto para observá-la, eu me perguntava o tempo todo como tudo poderia estar tão bem, eu tinha ficado com essa mesma menina e sido dispensado na noite passada. Ela brigou comigo, desabafou e falou um milhão de coisas que tinha me irritado, mas ainda assim, eu estava ali. não merecia o que eu estava fazendo, será que ela percebia isso? Por que eu estava me dando ao trabalho, então? Por que eu estava tratando ela tão bem? Se fosse com qualquer outra, pode ter certeza que não eu não direcionaria nem o meu olhar, muito menos a palavra. Muito menos eu daria a minha cama para protegê-la dos tios no meio da madrugada.
Deixei a garota em casa eu fui direto para o colégio. Tentando não colocar muitas expectativas nos motivos de em ter me trazido ao colégio. Talvez, se não fosse importante, não me chamaria. Ou talvez fosse algo idiota e ele não pensou que eu pudesse estar fazendo coisas importantes – como estar sentado na cama, pensando na vida – e quisesse gastar meu tempo. São muitas hipóteses e eu não iria adivinhar se alguma delas é verdade só encarando o painel do meu carro.
Como o estacionamento estava praticamente vazio, nem fiz questão de deixar meu carro alinhado, ocupando quase duas vagas inteiras. Passei direto do prédio do colégio silencioso, supondo que estariam todos no gramado, treinando. Nada fora do comum. pareceu surpreso quando me viu e se afastou de para falar comigo.
- Nossa, você está mesmo vivo...
- Na verdade, quase vivo. Mas porque eu não estaria? – Arqueei uma sobrancelha.
- Talvez porque o rei decidiu sumir do nada ontem à noite – falou impaciente. Rolei os olhos.
- Não precisa se preocupar comigo, mãe, eu sei cuidar de mim mesmo – Retruquei no mesmo tom.
- Como você saiu de lá afinal?
- Nem queira saber – Dei de ombros, não querendo entrar nesse assunto – Me mandou vir aqui só para me checar?
- Na verdade não – Ele passou a escolher as palavras cuidadosamente, me deixando intrigado – Eu acho que o Williams está fazendo algo que interesse a você – Virou a cabeça e apontou com o queixo para o fim do campo, onde pude ver Williams conversando com outro cara, que não pude ver o rosto, pois ele estava de costas. Não que fosse importante. A roupa daquele cara me interessou muito mais. E toda aquela animação dos dois enquanto apertavam as mãos. Merda. Eu sabia o que eles estavam fazendo. Não sabia o que esse bosta desse treinador seria capaz de ir tão longe.
Cruzei o campo como um raio, movido pela raiva e indignação. No segundo em que cheguei aos dois, já estavam se despedindo. Aquele imbecil não iria a lugar algum com a minha camisa.
- – Williams colocou um sorriso demente e forçado no rosto quando virou de lado e deu de cara comigo.
- Williams – Falei de volta, mas encarando o outro cara, esperando o inconveniente se apresentar.
- Fico feliz que esteja aqui, assim pode me ver apresentando o novo jogador para o time – Ele colocou a mão no meu ombro. Dei um passo para trás, me livrando do toque dele. O outro sorriu satisfeito – Esse é o Benjamin, nosso novo centroavante – Que porra era aquela? Nem fodendo que eu deixaria um cara jogar na minha posição, e ainda com a minha camisa, todo o meu suor estava naquele número que tinha sido meu por anos, e será meu até eu pisar fora daquele colégio para sempre.
- Não acha que passou da conta de centroavantes por um time? – Arqueei uma sobrancelha.
- Na verdade não, quando eu sou obrigado a suspender um dos meus jogadores, tenho que preencher como eu posso, não acha? – Ele cruzou os braços e soltou uma risada alta e sem graça – A propósito, é o novo capitão. Claramente, você não tem as qualificações para ser um.
Senti a raiva crescer loucamente dentro de mim. O que ele estava pensando, destruindo meu futuro daquele jeito? Certamente queria que eu acabasse como ele: Um treinador fracassado de alunos do ensino médio. Eu tenho muito mais futuro que isso. Eu posso ir infinitamente longe. Não nasci para coisas pequenas.
- O que tá rolando? – colocou a mão no meu ombro, olhando mal humorado para o tal de Benjamin.
- Bem, eu vou estar aqui na segunda, para o treino, não quero causar nenhum problema – Benjamin falou com um sotaque ridículo e deu alguns passos para trás e se afastou do grupo. Williams sorriu para ele e depois fechou a expressão ao olhar para mim.
Afastou-se sem dizer nada.
Chacoalhei o ombro, fazendo parar de me tocar.
- Acho que devo meus parabéns a você, – Virei-me de frente para ele. estava bem atrás, com uma expressão um tanto solidária. Ele que fosse a merda com a solidariedade dele, eu não precisava disso. Eu não precisava ter recebido aquela notícia na frente de todo mundo.
- Parabéns?
- É, novo capitão – Forcei um sorriso.
- NOVO CAPITÃO? EU? Você fumou uma antes de vir pra cá?
- Não se faça de desentendido – Quase cuspi as palavras.
- Por que eu me faria? – Ele respondeu com raiva – Eu não quero seu cargo idiota para eu me tornar... Você.
- Claro que quer. Quem não quer ser o capitão do time,?
- “Capitão do time” – Repetiu minhas palavras no mesmo tom – Grande bosta. Eu não preciso de um título pra me auto-afirmar, se quer saber.
- Vocês dois são retardados? – esbravejou, me empurrando para trás quando me viu partir pra cima de .
- Sai de perto de mim – O empurrei para o lado, mas ele voltou no mesmo instante.
- Williams está brincando com a sua cabeça, , e você está caindo como um idiota no jogo dele – Empurrou-me para trás e saiu do espaço entre eu e , que me olhava furioso – Sejamos francos, , não são muitas as pessoas que gostam de você por aqui, se quiser brigar e afastar mais uma delas... A escolha é sua – Deu de ombros.
Olhei para , que tinha relaxado a expressão. Mas a minha raiva não tinha passado. De onde saiu toda aquela merda que ele tinha dito? Não fazia nem ideia de que ele julgava as coisas que eu fazia, muito pelo contrário, eu pensava que ele, entre as outras pessoas, era quem entenderia.
Não falei nada, e cruzei o campo de volta até o estacionamento.
O tal Benjamin rodeava meu carro e olhava em volta. O que aquele palhaço queria agora?
- Perdeu alguma coisa? Roubou minha posição, agora tá querendo meu carro também?
- Na verdade... Você está me bloqueando – Apontou para o KIA Soul prateado com um adesivo da locadora, ao lado do meu, que não podia sair por causa da traseira do meu carro, invadindo o espaço da sua vaga.
- Deixe-me dizer uma coisa para você – Cheguei perto do garoto, quase imprensando ele entre mim e seu carro – Aqui nesse colégio, – Apontei para o prédio ao nosso lado – quem manda sou eu. É melhor você ficar na sua e não se meter no meu caminho – Quando eu achei que ele fosse recuar, ele gargalhou alto!
- Não foi o que eu ouvi falar – Ele me empurrou para longe dele. Bati as costas no meu carro. O que me deixou com ainda mais ódio, mas ainda atordoado. Não esperava que ele reagisse daquela maneira. Só queria que colocasse o rabo entre as pernas e pisasse fora – Você não é mais o capitão do time, você nem está no time, pelo que me disseram. Seus dias de High School Musical acabam.
- Eu estou avisando... – Ele tirou a camisa, arrancou meu sobrenome das costas dela e jogou o pedaço de pano nos meus pés.
- Eu não respondo bem a ameaças, se quer saber – Pendurou a camisa no ombro e sorriu – Eu sou muito bom no que faço, , e eu vou dar de tudo para ficar com o seu lugar quando você sair da sua licença maternidade – Riu alto da própria piada.
Dei dois passos a frente e acertei meu punho em um lugar qualquer do rosto dele. Como ele não estava esperando, caiu no chão com uma das mãos no olho direito. As dobras da minha mão latejavam, mas tinha valido a pena só por ver aquele perdedor deitado aos meus pés.
- Não foi por falta de aviso, cara – Dei de ombros e peguei a camisa que tinha caído no chão – Isso fica comigo.
- AI MEU DEUS! – Ouvi aquela voz conhecida vindo de algum lugar fora da minha vista. Poucos segundos depois, estava jogada em cima do cara, olhando para o olho dele já um pouco vermelho – Por que você fez isso, ? Não quer você precise de um motivo pra sair distribuindo socos, mas...
- Qual é? Vai bancar a enfermeira dos fracos e oprimidos agora?
- Não, só do namorado dela – Benjamin respondeu com um sorriso vitorioso. Congelei. É claro. O sotaque estranho. E tinha dito que ele viria nesse fim de semana. Só não tinha dito que era para ficar...
- O que você está fazendo aqui no colégio, Benjamin? – Ela o ajudou a levantar – Minha tia falou que você tinha vindo para cá quando me atrasei hoje de manhã – Ela arriscou um olhar rápido para o meu lado. Não retribuí. Meu raciocínio estava demente demais para corresponder a qualquer interação social.
- Eu queria fazer uma surpresa. Minha mãe aceitou que eu fizesse um intercâmbio até o fim do ano letivo aqui em Dover – Ele sorriu satisfeito. Eu poderia vomitar ali mesmo só de ver o jeito como ele olhava para ela. É por isso que eu não me atrevo a me apaixonar. Não é normal alguém largar tudo e cruzar o oceano para vir atrás de alguém só porque gosta dela, isso está além da minha capacidade de entendimento.
Ele puxou e deu-lhe um selinho. parecia tão surpresa com a notícia quanto eu. E surpresa pelo beijo também. Ela virou os olhos para mim, para ele, depois para mim de novo. Eu apenas arqueei a sobrancelha e dei de ombros. Eu não poderia simplesmente ir lá e separar os dois. Ele não estava fazendo nada errado. O errado ali era eu! Ela não é minha garota, ela é a garota dele. Eu que estava olhando para algo que não é meu.
Entrei no carro, joguei a camisa no banco do motorista e segui para fora do estacionamento, cantando pneu para sair dali o mais rápido que pude.
12.
Deixei o pacote de batatas ao meu lado, na mesa ao centro da sala de estar, e passei a ajustar as configurações de um jogo aleatório no meu Xbox. Não prestei muita atenção no que fazia, só selecionava opções aleatórias para chegar ao jogo o mais rápido possível. Não sei para quê tanta burocracia só para um jogo, será que ninguém consegue simplificar as coisas hoje em dia? Argh.
Impaciente, coloquei o controle de lado e levei a lata de refrigerante à boca. Alguém pigarreou atrás de mim. Ao olhar para trás, vi a babá da minha irmã.
- O quê? – Mesmo sabendo que aquela garota não tinha culpa pelo meu mau humor, não pude evitar ser desagradável.
- Desculpa incomodar – Ela ficou desconfortável. Pegou as pontas do cabelo e começou a enrolá-las no dedo – Meredith ligou, ela disse que não vai demorar muito...
- E? – Rolei os olhos, voltando a olhar para a TV.
- Amy está dormindo – Ela falou um pouco baixo – Só quis avisar, sua mãe gosta quando eu a deixo a par de como estão as coisas...
- Caso não esteja vendo, eu não sou minha mãe – Sorri sarcasticamente.
Dei play no jogo e ignorei a presença da menina atrás de mim até que a ouvi bufar. Argh. Qual era o problema? Ela não podia me deixar em paz? Eu estava na minha própria casa! No colégio ela nunca se dava ao trabalho de me incomodar. Pausei o jogo e me virei novamente para encará-la. A situação já estaria ficando cômica, se eu não tivesse tão intolerante nesse dia. Eu nunca tinha trocado mais do que cinco palavras com ela, já que minha presença obviamente a intimidava, então resolvi ignorá-la completamente, talvez tenha sido esse tipo de conversa comigo que ela evitava, mas só que eu não posso poupá-la de ser desagradável.
- Tem alguma coisa a falar?
- Não – Assustou-se quando viu que eu tinha ouvido – Desculpe – Saiu rapidamente.
Ri comigo mesmo e tomei outro gole de refrigerante.
Ah, que se dane. Eu tenho direito a me divertir um pouco.
Levantei-me e fui até a cozinha, onde a tal babá – cujo nome me ocorria em momentos aleatórios, mas eu não conseguia lembrar naquele momento – tinha acabado de se sentar e estava abrindo a tampa do laptop. Ela viu que entrei na cozinha, mas tentou me ignorar. Ri comigo, sem disfarçar, e fui pegar a garrafa de água na geladeira.
Apoiei-me no balcão, do lado oposto à garota.
- Julia, certo? – Mudei meu tom de voz para algo mais gentil, enquanto derramava a água em um copo.
- Julie – Corrigiu, corando.
- Julie – Sorri ao repetir. Abri a boca para voltar a falar, mas minha mãe e Liam entrando pela porta dos fundos, me atrapalharam.
Ela falou um milhão de coisas aleatórias e levianas, que eu não dei atenção. Continuei atento ao meu copo d'água até que eles saíram da cozinha.
Julie fechou o notebook e depositou dentro da bolsa, com pressa. Ri mais uma vez. Se não fosse encenação, até eu estranharia meu bom humor sem motivo.
- Então... – Olhei-me no meu reflexo pelo vidro do fogão. Passei as mãos no cabelo e encarei a garota, que esperava o que eu tinha para falar, com a bolsa em um ombro – Vai à festa hoje?
- Não.
- Não? – Espantei-me, mas não deixei transparecer – O que você e seus amigos fazem para se divertir, então? – Fingi interesse, cruzando meus braços sobre o peito.
- Sem querer ser rude, mas já sendo, se eu tivesse amigos não passaria meu tempo livre cuidando da sua irmãzinha – Deu de ombros. Pensei por alguns segundos e me aproximei. Eu acho que poderia levar aquela pequena brincadeira um pouco mais longe...
- Então façamos o seguinte, que tal você se arrumar e eu te pego às dez? – Coloquei uma mecha do cabelo preto dela atrás da orelha e sorri daquele jeito que faz todas as meninas caírem aos meus pés. Ela estremeceu e ficou vermelha. Apesar de se vestir de forma bem estranha e com roupas demais, Julie até que poderia ser bonita. Eu não tenho certeza. Só espero que ela me entenda quando eu digo “se arrumar” e se vista como uma garota normal, com uma roupa adequada para uma festa. Todo aquele pano só dificulta as coisas para mim.
- Você quer me levar à festa? – Arqueou as sobrancelhas, surpresa.
- Quero.
- Por quê?
- Não quer ir comigo?
- Não, não, não é isso – Ela quase gritou. Prendi o riso. Cada garota com sua reação quando as chamo para sair, uma mais estranha que a outra. Uma mais engraçada que a outra – Er... Ok, eu acho, vejo você às dez – Deu as costas e pôs uma das mãos na maçaneta da porta.
- Julie...
- Quê? – Virou-se.
- Eu não sei onde você mora.
- Ah.
Ela pegou um guardanapo e anotou seu endereço, entregando-o em minha mão com um sorriso mais do que satisfeito.
A música dava para ser ouvida desde uma rua antes. Jeremy adora fazer estardalhaço quando dá uma festa, apesar de sua rua ser uma das mais tradicionais de Dover, morando uma quantidade incontável de casais idosos que se incomodariam com aquele barulho todo, ele não faz questão de diminuir o volume, sempre dando em confusão.
Estacionei meu carro duas casas antes, além de estar lotado na frente da festa, a probabilidade do meu carro acabar com vários marmanjos quase embriagados encostados, e observando as garotas com suas pseudo-saias, era bem menor se ele estivesse longe. Não que eu reprove esse tipo de atitude, eu garanto que a visão dessas garotas com seus pedaços de pano desmerecidamente chamados de roupa fica ainda melhor se for regada a álcool.
Julie saiu do carro antes de mim. Observou a casa de Jeremy um pouco atordoada. O primeiro andar estava todo apagado, enquanto o térreo estava aquele tumulto, um entra-e-sai de pessoas que ainda estavam procurando se acomodar na festa, caras buscando suas companhias da noite e garotas mostrando o que elas têm de melhor para oferecer.
Estendi minha mão para a garota ao meu lado. Ela aceitou com um sorriso tímido. Ao contrário do que ela pensava, eu não queria transparecer confiança ou dar uma de acompanhante atencioso. Todas as pessoas ao meu redor me observavam, umas garotas olhavam para Julie e rolavam os olhos, outras tentavam não demonstrar a insatisfação e todos, sem depender de gênero, olhavam para nós com atenção. Sorri, satisfeito, mesmo que a menina estivesse tão desconfortável quanto alguém pode estar.
Certamente, Julie não tinha me decepcionado em questão de aparência. Com uma saia no meio da coxa, uma blusa com as mangas até os cotovelos e um sobretudo por cima. As coisas seriam um tanto, digamos, práticas, mais tarde. Arrumou seu cabelo um pouco cacheado acima dos ombros e me fitou pela décima vez desde que eu a tinha apanhado em casa, não duvido nada que tenha sido para checar se era eu mesmo ali. Tão patética quanto as outras. Rolei os olhos discretamente.
- ! – Soltei a mão da menina e cochichei no seu ouvido para que trouxesse bebidas para nós. Ela assentiu rapidamente e sumiu no meio das pessoas. Procurei no meio da multidão quem tinha me chamado e avistei logo o grupo com alguns garotos do time. Adam, Mitchel e . Incrivelmente, ou não, a presença do terceiro tinha parado de me incomodar. Fiquei um pouco grato por ele ter evitado uma confusão de cabeça quente e desnecessária com mais cedo.
- E aí? – Dei dois tapas de leve nas costas de Adam a acenei com a cabeça para os outros dois. Eles retribuíram.
- De onde você tirou aquela ali? – Mitchel apontou com o queixo para Julie, longe o suficiente para não nos ouvir.
- Por aí – Dei de ombros.
- Não é aquela garota que tira as fotos pro jornal do colégio? – apertou os olhos, analisando a menina.
- É? – Adam franziu o cenho.
- Tem um jornal no colégio? – Perguntei um pouco confuso. Desde quando tinham começado a imprimir um papel com matérias redigidas por alunos de ensino médio. Por favor, né?
- Você não estuda lá desde pequeno? – arqueou uma sobrancelha.
Eu sorri e dei de ombros.
Pela porta da frente, vi e April entrando de mãos dadas. Rolei os olhos. Eu sabia que esse seria o próximo passo, depois de passar quase vinte e cinco horas por dia juntos é compreensível que eles comecem a se grudar em festas também, digo, como namorados. Eu nunca tinha visto com uma só garota por tanto tempo. E duvido muito que ele tenha ficado com mais alguma desde a viagem. Patético.
Aproximei-me dos dois. percebeu, cochichou algo no ouvido da garota e sumiu entre as pessoas. Bufei. Que seja. Como se eu estivesse procurando por ele. April olhou para mim e sorriu.
- Hey, .
- Hey – Sorri forçando simpatia. Essa é uma das poucas meninas que eu já tinha ficado e que eu ainda posso considerar como amiga. Bom, mesmo que tenha sido dois anos atrás – Cadê a ?
- ? – Franziu as sobrancelhas – Como eu vou saber? Ela mora com você e não comigo...
- É, mas ela falou para mim que passaria o dia com você – Agora quem tinha ficado confuso era eu. Desde quando mente para onde vai?
- Disse? Ah, sim! – Ela deu uma tapa de leve na testa e sorriu largamente. Depois negou com a cabeça, como se reprovasse a si mesma, e falou – É, nós tínhamos combinado de ir almoçar naquela coisinha que eu nem sei se pode ser considerada shopping... Enfim! Houve um imprevisto na minha casa e eu não pude ir – Apertei os olhos.
- Você não é uma boa atriz – Ela murchou o sorriso quase imediatamente.
- Desculpe, é tudo o que você vai tirar de mim. Ela me falou que vem a festa, espere e pergunte para a própria – Deu de ombros – Com licença – Passou por mim e quase correu pela direção que tinha ido.
Eu seria muito hipócrita se reclamasse das pessoas que mentem pra mim, mesmo sendo elas as pessoas pra quem eu mais minto? Isso é muito confuso.
Eu precisava de álcool, e onde estava aquela porra daquela babá?
Vasculhei no meio das pessoas e vi a menina se desvencilhando para chegar até mim. Quando ficou a uns dois metros de distância, uma garota veio por trás e esbarrou no seu ombro, derrubando um dos copos descartáveis no chão. Julie olhou atordoada do copo para a outra garota. Esfreguei a testa quando vi quem era. Respirei fundo, para evitar que a enxaqueca, consequência de uma noite mal dormida, me atingisse.
- Desculpe, amor – Carly colocou a mão no peito olhando para ela com pena. Então ela olhou para mim – Ah, eu aprecio seu caráter, . Primeiro , agora essa sem-nome aí? Só me faz pensar que fui o ápice da sua vida amorosa, antes de você começar a decair.
- Sério? – Olhei para ela de forma entediada – É isso que você anda espalhando por aí, só pra não admitir que levou um fora?
- Eu não levei um fora – Rolou os olhos – Na verdade, você nunca terminou comigo propriamente, nós só paramos de nos falar... Foi mútuo – Falou mais alto que o necessário, certamente para garantir que as pessoas ao nosso redor escutassem. Escutei uma risada alta e sarcástica atrás de mim. Meu sangue começou a circular com lentidão. Que porra era aquilo? Eu não precisava me virar para saber que era . Carly encarou a garota e bufou. Julie ainda permanecia de cabeça baixa, passando a mão na saia vez ou outra para limpar o líquido.
- Você é bem criativa, Carly – falou.
- Ah, que bom, você está aqui também – Ela respondeu com uma falsa euforia. Eu devo dizer que essa personalidade agressiva dela me deixa com muito mais desejo do que aquelas frescuras que ela fazia para me agradar. Um sorriso satisfeito inconscientemente brotou no meu rosto. Adoro esses momentos entre garotas que começam a se alfinetar por... Mim – Eu deveria chamar a Colleen, o que acha, ? – Franzi o cenho. Não estava entendendo o que queria dizer com aquilo – Assim nós quatro poderíamos nos juntar e trocar histórias sobre o seu pênis – Sorriu largamente – Ela deve ter muito que nos ensinar. Não foi ela a única garota que partiu o coração de ? Ela é uma lenda. É uma vaca, mas uma lenda que eu tive o desprazer de conhecer – Eu já estava bufando de ódio àquela altura. Com quem ela andou conversando, por Deus? A última coisa de que eu preciso é de uma vadiazinha espalhando coisas da qual ela não fazia idéia.
Olhei para trás. me observava, como se me analisasse. Quando voltei a encarar Carly, ela sorriu vitoriosa.
- Vão se foder – Olhei para – As duas.
Benjamin chegou por trás de e perguntou algo em português para ela, mas não obteve resposta. Ela me olhava, quase magoada. Peguei Julie pelo antebraço e arrastei-a comigo até o mais longe possível daquele grupo de malucas.
Soltei a menina quando cheguei bem perto da escada e sentei nos últimos degraus. Julie parou na minha frente e me estendeu o copo de bebida sobrevivente ao ataque de Carly. Levei-o a boca sem nem parar para analisar o que era, só joguei todo o líquido pela minha garganta de uma só vez.
- Eu não sei se é porque eu nunca estive numa festa e ainda estou me acostumando com o tumulto, mas... – Julie olhou em volta depois para mim – Eu não sei você, mas eu não estou me divertindo.
- Essa festa que está uma bosta.
- Ou você que está ficando muito crítico – apareceu completamente do nada. Com uma expressão impaciente. Bufei. Colocou um sorriso forçado no rosto e olhou para Julie – – Estendeu a mão.
- Julie – Ela pegou.
- Se importa se eu conversar com o principezinho aqui? – Apontou para mim. Senti que Julie me encarou, mas eu não conseguia tirar os olhos de . Eu estava indignado, mas ao mesmo tempo aliviado, por ela estar por perto. Quer dizer que ela tinha largado o namoradinho por aí para vir falar comigo? Não sei o que isso significa no país dela, mas de onde eu venho, isso se chama desinteresse.
Julie se afastou.
- Por que não vai animar o seu namorado e me deixa me divertir?
- Claro, porque você está sendo a animação da festa, não é? Faz uma hora que ela começou e você já está mal-humorado.
- Eu sou mal-humorado, caso não tenha percebido.
- Ok, desculpe. Você está certo – Rolou os olhos – Não vim aqui para falar disso.
- Veio para falar o quê, então? – Bufei e me levantei. Não ia mesmo ter uma conversa com ela me olhando de cima daquele jeito. Ela pôs o cabelo atrás da orelha.
- Não quero que você pense que eu sou... – Parou de falar. Como se escolhesse suas palavras cuidadosamente – Eu não sabia que ele estava vindo para ficar, ok? Achei que ele fosse ficar uma semana, no máximo duas, mas... – Calou-se.
- Você não quer que ele fique – Afirmei. Escondi o sorriso que queria se formar. Eu nem queria que ele se formasse, era imprudente e sem sentido. Ela não respondeu. Tomei aquilo como um sim. Dei um passo para me afastar, mas ela voltou a falar.
- Ele é meu namorado desde que eu tenho catorze anos e ele me ama. Er, eu o amo também... Não quero fazer nada que possa magoá-lo.
- Eu não vou falar nada pra ninguém, se é isso que lhe incomoda – Rolei os olhos. Ela apertou a boca, como se quisesse falar algo. Algo que eu não queria ouvir, espero – Agora dá para me liberar? Estou meio atrasado para sair do seu caminho.
- Não seja dramático.
- Eu não sou seu amigo, . Definitivamente, não temos nenhum envolvimento. Então, essa conversa que estamos tendo agora é completamente sem sentido – Dei as costas sem esperar por resposta.
Senti Julie dar pequenos beijos em meu pescoço enquanto eu dava mais um gole de cerveja e evitava olhar em volta. Apenas me penetrei numa bolha chamada “garota e bebida alcoólica”, tentando ignorar que pouco mais de uma hora atrás eu quase explodi uma coisa que em hipótese alguma cogitei que tinha: meu coração. E depois de algumas garrafas de cerveja consegui até passar a ignorar algo com o potencial de estragar minha noite: entrando com na festa. De mãos dadas.
Julie levantou o rosto e passou a me encarar com intensidade. Três copos de coca-cola com vodca e a garota já se tornara “qualquer uma”, alguém que eu poderia largar no outro dia, minha diversão da noite. Ela definitivamente não iria impregnar minha cabeça, eu já estou farto disso.
A garota direcionou seus lábios até meu ouvido e sussurrou:
- Eu vou ao banheiro.
Eu sabia exatamente o que aquilo queria dizer.
Quando sorri, a incentivando a ir em frente, ela se levantou e seguiu para o banheiro que não ficava muito longe da minha vista. Observei-a arrumar a roupa após bater na porta do banheiro e ver que estava ocupado.
Bufei.
Quando a pessoa que estava lá dentro finalmente abriu a porta, Julie olhou rapidamente para mim, rindo nervosa e entrou no banheiro.
Levantei-me imediatamente. Acidentalmente pousei meus olhos no bar do outro lado da sala, que tinha sido modificada para que as pessoas pudessem dançar ali. Entre um casal agarrado e duas amigas dançando no auge do álcool em suas veias, me encarava. Seu namorado falava, gesticulava e colocava uma das mãos em sua bochecha, e ela me encarava.
Dei as costas e segui para onde eu originalmente queria ir. A porta estava fechada, mas não trancada, então não bati.
Julie me esperava sentada no balcão, seus cabelos estavam mais volumosos do que vi antes de entrar no banheiro, e os dois primeiros botões de sua blusa estavam abertos. Bom. Menos trabalho.
Coloquei logo uma das minhas mãos em seu pescoço, e a outra no primeiro botão abotoado da sua camisa. Enquanto massageava a língua dela com a minha, ela puxou a minha camisa para cima e deixou que eu deslizasse a dela por seus ombros.
Enquanto eu beijava seu colo, ela brincava com o botão da minha calça e murmurava algo que eu me esforçada para não entender. Qual é a porra da necessidade que essas garotas tem de querer conversar no momento mais crítico?
- Vai com calma.
Rolei os olhos. Quando voltei a olhar para cima, para encontrar sua boca, ela colocou as mãos no meio caminho e me olhou de forma apelativa.
- Por favor.
- Por quê? – Bufei, tentando desviar da mão dela. Não consegui.
- Você sabe...
- Eu sei o quê?
- Eu não... – E se calou de repente.
- Você não o quê? Dá pra falar de alguma vez?
- Porra, você é burro assim normalmente ou é a testosterona que domina seu cérebro? – Cruzou os braços – Eu vou ter que falar?
- Fala logo, merda.
- Eu sou virgem, .
Aquela palavra foi como um balde de água fria.
- VOCÊ É O QUÊ?
- Pois é, por mais incrível que pareça, existem garotas da nossa idade que esperam – Ela rolou os olhos e colocou os braços em volta do meu pescoço.
Tirei-os de lá quase imediatamente.
- O que foi? – Ela me olhou.
- Você acha mesmo que eu vou continuar com isso?
- Não vai? – Arqueou uma sobrancelha – Você é , fica com qualquer coisa que respire e seja cientificamente comprovado do sexo feminino.
- E amanhã você vai para a minha casa, cuidar da minha irmã e ser obrigada a encarar o cara que tirou sua virgindade e finge que você não existe.
- É isso que você ia fazer?
- Não seja tão ingênua. É óbvio.
- Você é um canalha.
- To sabendo – Apanhei minha camisa no chão e saí sem olhar para trás.
Com o fim da festa chegando, resolvi apelar para algo mais forte, apesar de odiar vodca, queria agilizar o processo da cerveja. Não vi Julie depois do episódio no banheiro e agradeci a todos os deuses por isso. Eu estava louco para sair dali, mas se eu fosse embora tão cedo, as pessoas saberiam que tem alguma coisa errada, e depois de sair do time, eu não poderia me dar ao trabalho de parecer um nerdzinho que não aguenta uma festa até o fim. Pelo menos elas não saberiam que eu pareço um nerdzinho que não consegue terminar o que começou com uma garota como Julie.
Nem no inferno eu tiraria a virgindade de uma garota, pelo menos não em sã consciência. Eu não poderia continuar pensando que estava marcando a vida daquela menina de um jeito irreparável. E eu sei que ela se arrependeria no outro dia. Então, melhor evitar sofrimento da parte dela, e estresse da minha. Eu definitivamente não preciso de mais uma garota atrás de mim.
E falando em garotas atrás de mim...
- Se divertindo? – Carly sentou-se ao meu lado direito, no sofá. Do outro lado estava , com uma garota que eu nunca tinha visto, em seu colo. Carly torceu o nariz para a cena, mas tentou disfarçar. Arqueei uma sobrancelha. O que ela ainda fazia correndo atrás de mim?
- Não graças a você.
- Vi sua garota sair bem chateada da festa.
Instintivamente, pensei em . Mas eu sabia que não era dela que Carly estava falando. Ainda assim não pude deixar de me perguntar o quando estava me odiando pelo que eu tinha dito a ela mais cedo.
- Ela não é meu problema.
- Esse é o meu – Ela sorriu vitoriosa. Como os velhos tempos, eu sempre terminando uma festa ao lado de Carly.
Ela estendeu a mão com dois comprimidos redondos e pequenos.
- O que é isso? – Arqueei uma sobrancelha a encarando.
- Vamos, , eu sei que você terminou comigo, mas somos parceiros de festa desde que nos conhecemos – Ela forçou um sorriso inocente que não combina nada com seu rosto, principalmente depois de tingir os cabelos de loiro. Ela parecia muito mais outra pessoa. Muito mais Colleen – Você acha mesmo que eu iria experimentar isso sem você?
- Onde você arrumou isso?
- Você não é o único que tem contatos, , eu sou permitida a assumir o controle de vez em quando.
- Me dá isso – Não respondi. Joguei um dos comprimidos na minha garganta e tomei o último gole de vodca que restava no copo.
- Nossa, vai com calma com toda essa animação, , assim eu não consigo acompanhar você.
Carly me analisou antes de enfiar o comprimido dela na boca.
Bufei e me levantei.
- Onde você está indo?
- Eu não vou ficar sentado nesse sofá com duas pessoas praticamente transando ao meu lado – Ela olhou rapidamente para quase engolindo a língua da menina.
- Vamos dançar – Carly pegou minha mão e me puxou para o meio da multidão antes que eu pudesse protestar.
13.
- Então, o que é que as pessoas fazem por aqui? ? ? Alô! – Algo interrompeu minha visão. Depois de novo. De novo. E... Então eu percebi que era a mão de Benjamin passando na frente do meu rosto.
- Oi! O quê? – Droga, quando tempo eu o deixei falando sozinho?
- Você tá meio distraída hoje, tá tudo bem?
- Poxa, claro, por que não estaria? – Tentei deixar meu tom de voz macio, Ben não tinha nenhuma culpa se eu não estava tendo um dia bom. Ele não tinha culpa nenhuma se tinha outro metido na minha cabeça.
- Isso é porque eu planejei toda essa coisa de intercâmbio sem falar com você?
- Ben...
- Eu falei com todas as suas amigas lá e elas disseram que seria uma boa idéia, que você estava mal por se mudar para cá sozinha – Ele parecia genuinamente preocupado. E eu genuinamente culpada. O garoto cruzou o oceano para ficar comigo! Qual é o meu problema? Eu sempre soube que ele é louco por mim, e até um tempo atrás eu poderia colocar minha mão no fogo ao afirmar que eu também era, mas se eu fizesse isso nesse momento, me queimaria.
Comecei a namorar Benjamin muito cedo, ele aguentou minhas bebedeiras e rebeldias para irritar minha mãe, acho que por isso criei laços com ele. Eu não poderia jogar isso fora por causa de um caprichozinho. Ele vir para Dover poderia ser bom, certo? Eu poderia finalmente me sentir em casa.
Onde estava , afinal? Eu e essa mania terrível de ficar procurando aquele garoto no meio das pessoas. Mas não posso negar que ele se destaca, não sei explicar o porquê, não sei se é uma coisa minha ou se todos o vêem do mesmo jeito, mas é. É quase impossível olhar em volta e terminar não pousando os olhos nele. Que seja. Eu o tinha visto dançando com Carly. E rindo. Rindo muito. Eles tinham voltado? Que merda os garotos viam nela? , , o resto do colégio e até uns funcionários davam suas olhadas. Ela tinha o quê? Um metro e dois milímetros? Como ela tinha conseguido ser a líder das líderes de torcida? “Provavelmente pela flexibilidade dela,” diz a voz pervertida de na minha mente.
Girei meus olhos pelo espaço onde as pessoas estavam dançando, onde eu tinha visto e Carly pela última vez. Nada deles...
- Quem é aquela garota? – Ben perguntou depois que percebeu que tinha sido ignorado. Mas não foi proposital, juro!
Acompanhei o olhar dele até a escada interditada por umas cadeiras na horizontal que aquele garoto do time, dono da casa, tinha colocado.
estava descendo as escadas e pulou as cadeiras com facilidade, deixando Carly para trás arrumando os cabelos e com uma tromba na cara quando viu que ele não ia voltar para ajudá-la a passar pelo obstáculo.
Eles só poderiam ter ido fazer uma coisa no andar de cima. E eu tenho certeza que não era jogar baralho.
Como tinha me dito, eles vivem numa bolha, ninguém pode quebrar isso. Idiotice, na minha opinião.
- Ela é a chefe das líderes de torcida.
- É bem interessante, não acha? – Ele gargalhou. Mas eu não entendi nada e acho que deixei isso transparecer, pois ele parou de rir – A líder de torcida e o cara do time – Apontou com o queixo para , que pegava uma cerveja e Carly no pé dele. Como sempre – Essas coisas que nós vemos em filmes, não têm no Brasil. Parece que estamos numa dessas séries adolescentes – Benjamin riu e passou a mão no meu rosto.
- Eu acho que sim – Dei de ombros.
- Você o conheceu, certo? – Virei meu rosto um pouco para olhar . Ele levou a cerveja até a boca, se aproximou de e uma garota que estava ficando e falou alguma coisa com eles. Quando voltaram a se beijar, virou-se para mim, de repente. Desviei o olhar rapidamente. Mas eu sabia que ele não.
- Conheci sim – Sorri amarelo.
- Ele é tão acéfalo quanto vemos os caras nos filmes?
- O quê?
- Digo, aqueles caras que enfiam a cabeça dos mais fracos no vaso sanitário e roubam o almoço – Ben riu mais ainda.
- Não viaja, Benjamin – Rolei os olhos.
- Hey, relaxa, eu só estou brincando. O cara é um idiota, você viu o que ele fez mais cedo no colégio – Levantou a mão como se alegasse inocência, mas eu sabia muito bem que ele tinha culpa no cartório.
- Na verdade, eu não sei nada que houve no colégio naquela hora – Arqueei uma sobrancelha. Eu sei que não é flor que se cheire, mas eu já tinha passado dessa fase de julgar as pessoas, certo? Eu tinha julgado dos pés à cabeça quando o vi pela primeira vez, quando começou a falar coisas sobre ele e aqui estou eu, pernas bambas quando ele passa por mim. Pernas bambas por um cara que eu sei que é incapaz de sentir qualquer coisa por qualquer pessoa.
- Bom, quando me matriculei por telefone, fiquei sabendo do time de futebol e o diretor falou dos treinos aos sábados e falou para eu dar uma passada. Não sei porquê, mas o cara me aceitou no time na hora – Deu de ombros – E ele ficou bem empolgado quando eu falei de você.
- Você falou de mim?
- É, falei que você é minha namorada.
- Tá, que seja – Eu odeio aquele técnico, definitivamente. Ele não consegue deixar as coisas para trás. Cara, foi uma noite. A gente o fez de palhaço. Ok! Será que dá pra ele superar? – E onde entra nessa história?
- Quem é ?
- .
- Parece que eu fiquei com a posição dele no time.
- VOCÊ FICOU COM A POSIÇÃO DELE?
- Será que dá pra falar baixo? Já foi humilhante o suficiente quando ele me socou num estacionamento vazio.
- Benjamin, você nunca fez parte de um time no colégio. Seu futebol se resume a jogar no quintal da sua casa com seu irmão – Acusei incrédula.
- Eu quis testar algo diferente – Ele deu de ombros depois olhou em volta – Eu acho que vou me mandar, você vem comigo?
- Não, vai me levar em casa, ele mora na mesma rua que eu.
- Ok – Ele se aproximou do meu rosto e juntou nossos lábios. Ao sinal de que aquilo iria se aprofundar, me afastei.
- Boa noite.
- Boa noite, – Ele saiu sorrindo.
É impressão minha ou a doçura que tanto me encantava nele estava começando a me irritar? Não, não. Acho que eu estava só cansada. Eu não poderia mudar tanto em poucos meses fora do meu país.
Olhei novamente para onde estava. Carly se agarrou no braço dele e só soltou quando ele falou alguma coisa pra ela, que ficou desnorteada, observando-o sair para o lado do jardim da casa. E ele não parecia estar bem.
Eu tinha que procurar por . Mas onde aquele nerd tinha se metido? Era só chegar perto dele e “adeus mundo”, não existe mais ninguém, muito menos concentração. Certamente nunca peça nada a antes de ter certeza que a mente dele está totalmente livre de .
Mas felizmente eles estavam perto.
- ! – Aproximei-me dos dois que estavam conversando e sorrindo na cozinha quase vazia.
- Oi, ! – Ele me olhou como se tivesse saindo de um transe.
- Sem querer incomodar seu conto de fadas – Rolei os olhos teatralmente e rindo – Se Benjamin perguntar, eu fui para casa com você – Dei as costas.
- Espera! Onde você vai?
- Eu... – E me calei. Eu não sabia.
- Você não vai atrás do mais uma vez, vai?
- Qual é o problema com isso? – perguntou, mas ela não parecia chateada. Ela só perguntou.
- Desculpa, , eu sei que ele é seu melhor amigo e blá, blá, blá. Mas ele que vá satisfazer aquele parasita dele, que se alimenta de sexo, longe dela – E apontou para mim.
Longe de mim. Aham. Ok.
Rolei os olhos.
- , você gosta do perto da tanto quanto ele gosta de você perto de mim – Ela riu docemente – Acho que já passou da hora de vocês deixarem essa infantilidade e agirem como adultos. Ou quase adultos. Tanto faz.
- Eu não poderia concordar mais – Falei. certamente tirou as palavras da minha boca.
- Então você tá com ele? – Ele olhou para mim.
- Eu tenho namorado, – Eu tinha mesmo? Eu poderia mesmo chamá-lo de meu namorado depois de ter ficado com outra pessoa? Por mais idiota que pareça, a culpa estava me corroendo por dentro.
- Eu estou de olho em você, – Ele disse e eu dei as costas.
- Ele tava precisando mesmo de uma namorada – Murmurei bem baixo para que nenhum dos dois ouvisse e sai da cozinha.
Minhas costas doíam, meus braços doíam. Parecia que eu tinha dormido em cima de um monte de pedras pontudas. Entretanto, eu estava em algo macio. E um pouco apertada. Abri os olhos. A claridade invadiu.
Quando eu virei, meu nariz bateu no dele.
.
Ai, que droga.
Droga, droga, droga.
Merda.
Ajoelhei-me no banco traseiro do carro com cuidado para não acordá-lo. Ah, quem eu queria enganar? Ele não acordaria nem se eu começasse a furar seu rosto com ponta de cigarro.
Tá, sem exageros.
Eu estava entre ele e o banco.
Pulei para o chão e depois para o banco da frente, o direito, onde – como eu ainda não tinha me acostumado – fica a direção. Apertei o casaco, que tinha me dado na noite anterior, no meu corpo quando o frio apertou. O céu estava nublado desde que saímos da festa e os pingos descendo sobre o pára-brisa mostravam que não muito tempo antes de acordar, estava chovendo.
No painel do carro marcava nove horas da manhã, peguei meu celular no banco ao lado, nenhuma mensagem, nenhuma ligação perdida. Já no celular de , que estava ao lado do meu, mesmo com a tela quase apagada, tinha o número sete em vermelho. Sete ligações perdidas. Não pude evitar comparar o fato de não ter voltado para casa não preocupar ninguém. No Brasil, eu tinha meu irmão que fazia o papel de pai.
Respirei fundo e olhei para trás.
fez uma careta de dor, ainda dormindo e depois deitou-se com a barriga para cima. Sua cabeça estava atrás do banco do passageiro então eu podia vê-lo perfeitamente. Não tem nada mais sincero do que ver uma pessoa dormindo. Dormindo ele não podia forçar aquela expressão de insatisfação ou aquele tom de voz que insinua que qualquer conversa é uma perda de tempo.
[Flashback]
- Você está um caco – Sentei-me ao lado de no sofá do terraço no jardim.
- Você está linda – Quase dei um pulo quando ele falou. Eu certamente não estava esperando por aquelas palavras.
- O quê?
- Eu disse que você está linda. Agora está surda? – Ele rolou os olhos e jogou a garrafa de cerveja vazia no gramado.
- Eu tinha ouvido, só que meus ouvidos automaticamente repelem palavras de simpatia vindas de você, sabe como é, falta de costume – Dei um sorrisinho que passou despercebido, já que ele estava obviamente incapaz de fazer o movimento complexo que é virar o pescoço.
- Isso é porque eu não gosto de falar o que as pessoas querem ouvir.
- Eu sei, você é fodão demais para isso – Rolei os olhos – E posso saber qual é a do surto de gentileza?
- Eu estou bêbado e eu tenho tendência a ser sincero quando... Enfim – Com os olhos vermelhos ele me encarou por um segundo e voltou a olhar para frente.
- Você não está sendo gentil? Está só falando a verdade?
- Yep.
- Então se eu perguntar qualquer coisa você vai ser sincero? – Arqueei as sobrancelhas. Ele olhou para mim e sorriu brevemente.
- Estou bêbado, , e não sem o meu cérebro.
- É, mas você provavelmente não vai se lembrar amanhã mesmo – Dei de ombros. Ele concordou – Por que você com raiva de mim desde que me viu no colégio hoje cedo?
não respondeu imediatamente.
- Não estou com raiva de você.
- Não? – Franzi o cenho. Se aquilo não era raiva então eu não sei realmente de nada sobre aquele garoto – Como não?
- Não estando, ué.
Eu sabia que ele não era capaz de me dar uma resposta melhor que aquela, mas, por alguma razão, estava aliviada. Sabia que o que ele tinha me dito antes não era verdade, de alguma forma, mesmo ele tendo o talento de me irritar, e eu de irritá-lo, algumas horas depois e qualquer sinal de raiva se esvaia. Nunca tive algo assim com qualquer outra pessoa. Digamos que eu sou bem ressentida, não sei perdoar facilmente, e consigo fazer as pessoas saírem da minha vida da mesma maneira que entraram.
- Hora de me mandar.
- Onde você pensa que vai? – Segurei o braço dele quando levantou.
- Ao zoológico. Onde você acha que eu vou?
- Você não vai entrar num carro, se matar e depois jogar a culpa em mim – Cruzei meus braços – Você está bêbado. Suas palavras!
- Eu não vou culpar você. Eu vou estar morto – Ele destacou a última palavra quase soletrando. Prendi o riso.
- Você tá bêbado demais até para implicar comigo – E o puxei comigo.
Felizmente ele se deixou levar.
[/Flashback]
- Caralho, eu fui atropelado? – Tomei um susto quando pôs um braço na frente dos olhos.
E permaneceu assim, apenas resmungando. Achei que ele ainda não tinha ciência da minha presença no carro.
- Antes tivesse sido – Falei.
- O quê... – Ele tirou o braço do rosto, se apoiou no outro e olhou diretamente para mim com uma interrogação na cara. Uma onda de alívio me consumiu. Pela expressão dele, ele não se lembrava, o que é melhor para mim. Ninguém quer ser vulnerável na frente de alguém que não se importa – O que foi que eu fiz? – De confusão, o rosto dele mudou para assustado.
- Pode relaxar – Ri. O olhar dele caiu sobre o casaco que eu estava vestindo, depois olhou para si mesmo, acho que para constar de que eu o usava, de fato, só pelo frio – Não sei se você sabe, mas você fica mais agradável bêbado. Idiota, mas agradável.
- Tem certeza? – Ele arqueou uma sobrancelha.
- Por que eu estaria mentindo?
- Eu desisti de entender as coisas que você fala muito tempo atrás – E ele voltou a se deitar, com os olhos no teto do carro – Por que você tá aqui?
- Se eu te deixasse sozinho, você pegaria o carro, e pode apostar que a chave estava devidamente guardada – Tirei a chave do meu bolso de trás, balancei e joguei no banco ao lado.
Ele não respondeu. Estranhamente ficou encarando o teto do mesmo jeito.
Calei-me também enquanto observava os olhos passearem pelo forro bege do teto. Fiquei tentada a sair do carro ali mesmo, eu sou bem independente, eu consigo arrumar o caminho de casa de onde eu estava, tinha observado o caminho que Benjamin tinha feito até ali com o GPS, poderia andar um pouco até o ponto de ônibus, tenho uma memória boa, não seria problema. Seria bem mais agradável pegar um ônibus no frio do que ficar naquele silêncio hostil. Imbecilidade a minha em pensar que o modo como ele disse que não tinha raiva de mim poderia influenciar no caráter dele enquanto sóbrio. Aquele ali é um muito diferente e só sincero quando quer ser desagradável.
Estiquei-me para pegar o celular.
- Dá pra você sair daí? Você me encarando desse banco está me dando nos nervos – Ele falou finalmente me encarando.
- Você quer que eu pare de encarar ou mude de banco? – Bufei.
- O que você tá fazendo aí na frente afinal? Dormiu aí?
- Não. Eu acordei um tempo atrás e vim pra cá – Joguei o celular de volta no outro banco e fui para a parte traseira do carro, sentando-me no chão, onde estava a cabeça dele. acompanhou cada movimento meu.
- Você dormiu aqui? – Fez uma careta para o espaço entre ele e o encosto.
- Eu não disse que dormi bem – Ri e me arrumei no chão, apertando o casaco ainda mais no meu corpo. Fiz o possível para que o cheiro dele não me afetasse muito, o que é realmente um desafio.
- Agora você sabe por quê eu tenho carro grande – Deu um leve sorriso que eu interpretei como o humor melhorando.
- Para garotas sentarem no chão? – Prendi o riso e ele afirmou com a cabeça com um sorriso no canto dos lábios, voltando a olhar para cima – Achei que fosse para caber você e o seu ego.
- Para isso também.
- Por que batatas você está olhando para o teto?
- Primeiro, minha cabeça está um inferno de dor. Segundo, eu estou tentando me lembrar.
- Lembrar o quê?
- O que eu fiz ontem – Deu de ombros.
- O que você lembra? – Senti meu corpo esquentar por dentro.
- A última coisa que lembro é de ter estado com Carly – Ele olhou para mim, atordoado – Eu não fiquei com ela, fiquei?
- Provavelmente.
- Merda – Ele levou as mãos até o rosto e se virou para mim, deixando o rosto dele bem perto do meu. Será que ele tem alguma noção dessas coisas que ele faz e que têm efeito nas pessoas? Ele não pode simplesmente colocar um rosto como o dele perto do meu e esperar que eu aja naturalmente, porra – Eu me lembro de você – Continuou pensativo – e – Bufou – Ela contou para ele?
- Não – Respondi quase imediatamente – Deixa eles se resolverem sozinhos, – Mudei minha expressão para a coisa mais próxima que achei da autoridade. Eu tinha que fazer aquele garoto colocar o mínimo de bom senso na cabeça e me ouvir.
- Eu...
- Eu estou falando sério – Coloquei a mão perto da boca dele, sem tocar – Você não gosta dele, ok, já entendi. Mas pela primeira vez na vida, pare de manipular todo mundo.
- Eu sei o que é melhor para ela – Falou nada convicto. Sorri incrédula.
- Não, não sabe. Você não suporta ter que dividir com ele, é simples assim – Dei de ombros. É simples, muito mais simples do que tudo que ele coloca na cabeça para que os motivos de fazer o que faz pareçam menos idiotas – Deixa a garota decidir a vida dela sozinha, , porque se ela acabar infeliz, ela não vai ter nenhum motivos para colocar o dedo na sua cara e dizer “Isso é culpa sua”. E você não faz idéia do que é carregar a infelicidade de alguém nas costas.
- Eu acho que faço idéia sim. Você acha que isso tudo é porque eu tenho o simples prazer de infernizar a vida dela? – Retrucou com rispidez. Nesse momento, ele já tinha se sentado e me encarava com intensidade.
- Como assim?
- Eu passei a minha vida inteira rodeado de pessoas dizendo para a minha mãe o quanto ela tinha perdido por ter ficado grávida. E ela sempre respondendo que fez isso porque que me amava. Grande merda – Eu podia ver a angústia e a raiva saltando dos olhos dele. Raiva de si mesmo?
- Por acaso sua mãe é infeliz?
- Ela não é agora, , mas vivi com ela durante quase dezoito anos, eu sei do que eu estou falando – Suavizou a voz.
- Você não pode pensar assim, não é saudável, muito menos justo – Deslizei para o banco ao lado dele, mas com medo de chegar muito perto e ser completamente repelida.
estava completamente desarmado na minha frente, assim como eu estive desarmada no outro dia. Mas eu não sou ele, eu me abro facilmente com qualquer um que eu sei que possa me entender, ele não. Duvido muito que ele já tenha falado alguma dessas coisas para alguém. Eu poderia me sentir especial ou eu poderia ser só a primeira pessoa que teve coragem o suficiente de enfrentar e conseguir arrancar dele algo mais do que hostilidade e ironia.
Ele passou as mãos no cabelo e se encostou melhor no banco, mais perto de mim. Eram atos completamente inconscientes dele, mas eu até gostei da proximidade. Toda a insegurança, o medo de ser expelida já não existia mais, era até confortável.
Mesmo com o álcool se esvaindo pelos poros dele, o cheiro era bom, aquele cheiro de sabonete. Como uma pessoa consegue cheirar bem depois de uma festa? É impossível. Pior ainda, como uma pessoa consegue acordar de ressaca e ainda parece como se tivesse saído de um filme? Ainda assim, eu fechei os olhos e deixei minhas narinas curtindo.
- Eu sempre tive ódio dele, mas agora eu entendo – Ele falou de repente.
- Ele? – Abri os olhos para tentar entender.
- É, ele.
- Seu pai?
assentiu.
- Você entende?
- Não perdôo, não aceito. Só entendo – Deu de ombros – Ele escolheu seguir em frente, minha mãe deveria ter escolhido isso também.
- Mas ela escolheu você – Falei. Deveria ser simples. Os pais deveriam sempre defender os filhos, não importam o que custe, mas isso eu já não sei, não tenho experiência própria para falar algo – Eu sei que ela não concorda com nada do que você tá falando, eu não abriria mão de conhecer você, se pudesse e então eu tenho certeza que nem ela – Sorri.
Ele me olhou com o cenho franzido.
- Essas coisas que eu estou falando para você, você não pode contar para ninguém – O tom de voz dele voltou ao normal, com autoridade.
- Eu sei, como eu sei que você não vai contar para ninguém o que eu te falei – Dei de ombros – Ou eu te mato. Sério.
- Eu acredito em você – Sorriu.
Sorrir para mim é covardia, . O calor me consumiu por dentro e eu já não precisava mais daquele casaco.
Instintivamente desencostei a cabeça sem tirar meus olhos dos deles. E, antes que eu pudesse perceber, minhas mãos já estavam uma em cada uma de suas bochechas e minha boca colada com a sua. Não estávamos nos beijando. Ainda. Eu estava daquele jeito que ficamos quando queremos apenas sentir a presença da pessoa. Ao afastar nosso rosto poucos milímetros, ele começou a passar o nariz no meu e depois eu mesma juntei nossas bocas. Dessa vez pra valer.
Impossível deixar de sentir as mesmas coisas da primeira vez que ficamos, mesmo que naquela primeira noite tenha sido quase impessoal, e completamente do nada. Naquela época eu estava beijando o garoto que eu supostamente tinha repulsa. Apesar de achá-lo interessante e complexo demais para ser aquilo que Benjamin definiu como acéfalo, foi então que eu concluí, no momento em que ele inesperadamente me defendeu na frente do Williams, como sentir repulsa de uma pessoa tão fascinante?
Passei uma perna por cada lado do corpo dele e desci minhas mãos até seus ombros. Ele colocou a mão na minha coxa e ficou alisando-a gentilmente enquanto a outra estava posicionada na minha cintura. Eu sentia meu corpo se aproximando cada vez mais do dele, que reagia à medida que os beijos ficavam mais urgentes. E seus carinhos deixaram de ser suaves. Meu corpo formigava em todo lugar que ele tocava e trazia sensações novas, é como se fosse uma aventura.
Aos poucos tudo foi perdendo velocidade.
Ele mordeu meu lábio inferior. E separou seus lábios do meu, deixando nosso rosto colado só pela testa. Ele de olhos fechados e eu apenas admirando seu rosto. Como parecia pacífico como quando ele estava dormindo. Quando dei por mim, estava sorrindo.
Ele abriu os olhos que provavelmente é o que mais chama atenção das garotas. Chamou a minha. Passou o polegar pela minha bochecha algumas vezes e depois parou.
Joguei meu corpo ao lado do dele e fiquei sentada, relaxada, com a cabeça no ombro dele, que estava um pouco tenso.
- Você tá bem?
- Por que não estaria? – Ele respondeu rápido.
- Argh! – Exclamei frustrada. Ele virou-se para mim rapidamente, curioso e ainda tentando agir com indiferença. Como sempre.
- O que foi?
- Nada, estabelecer qualquer tipo de ligação com você é como andar em círculos – Rolei os olhos e me afastei dele.
me olhou com impaciência e depois bufou.
- Isso é estranho, ok?
- O que é estranho, ?
- Você e eu. É estranho. Eu não faço a mínima idéia do que pensar quando eu estou com você – Falou isso enquanto passava para o banco da frente, evitando me encarar. Um sorriso escapou da minha boca, mas eu escondi.
- E você acha que eu sei? – Dei de ombros – Você acha que eu quero estar olhando em volta, desejando estar com outra pessoa enquanto meu namorado diz o quanto sente minha falta?
- Quê? – Ele virou-se para trás com o olhar perplexo.
- Ah, claro, como se você não soubesse disso – Rolei os olhos.
- Sei o quê? – Ele continuou com o mesmo olhar.
- Eu nunca traí meu namorado, , nunca. Três anos. Nós nos conhecemos há alguns meses. Isso não é normal.
- Mas é meio compreensível.
- Por quê?
- Você já olhou para ele? – Arqueou uma sobrancelha.
- Você é um merda, sabia? – Tentei prender o riso, mas foi inevitável.
Ele deu de ombros sorrindo também, pegou a chave do carro, colocou na ignição e girou.
- Vem para frente porque eu não vou bancar o chofer.
- Sim, senhor.
Pulei para o banco da frente e coloquei o cinto de segurança imediatamente.
- Já ouviu falar em pedir por favor? – Perguntei quando ele girava o volante para fazer a volta na rua quase deserta.
- É uma perda de tempo, as pessoas acabam fazendo o que eu falo mais cedo ou mais tarde – Disse com a mesma naturalidade de quem fala “comprei um pirulito.”
- Você existe mesmo? – Um sorriso quase incrédulo e divertido escapou de mim.
Ele não respondeu. Ficamos conversando sobre qualquer coisa no caminho até minha casa. É como se ele fosse uma pessoa completamente diferente. Quer dizer, sempre com as ironias e respostas ignorantes para perguntas óbvias, mas ficava tolerável. Eu sei, eu estava sendo irracional, burra e ingênua. Eu não podia deixar transparecer qualquer fraqueza, qualquer indício de que ele tem algum efeito sobre mim, assim quando ele se cansasse de brincar comigo, os danos seriam mínimos.
Mas em nenhum – nenhum! – momento eu pensei em Benjamin, o que faz de mim uma pessoa terrível. Mesmo sabendo que o que quer que eu poderia ter com não passaria de amassos dentro do carro ou em um local vazio, secreto e sem futuro. Eu não iria querer ter algo público com ele e depois ser apontada como a “atual vítima” de , não mesmo. Venhamos e convenhamos, corrigir um garoto problemático é o sonho de toda garota, mas é sonho, não é? Na teoria isso seria fantástico, mas na prática é impossível e doloroso. O que me trás de volta para Benjamin, um namoro normal, poucas emoções, nada daquelas sensações ou não saber como é o dia de amanhã. Não é bem um romance de tirar o fôlego, é apenas estável. : instável e fantástico. Basicamente, eu teria que escolher entre o que me faz feliz e o que não me faz sofrer. Meg Cabot definitivamente não me preparou para isso!
Como eu posso imaginar terminar o namoro com um garoto que cruzou o oceano pra me encontrar? É horrível só pensar. Eu não consigo fazer isso, não mesmo.
parou o carro na frente da casa dos meus tios.
Estiquei-me para pegar minhas sandálias no chão do banco traseiro do carro. Ele não falou nada enquanto eu calçava. Eu tinha me calado durante os últimos minutos, perdida nos meus pensamentos e, por alguma razão, ele ainda estava respeitando aquilo.
Quando eu fiz menção de tirar o casaco, ele falou:
- Não precisa.
- , são três metros até a porta, eu aguento um friozinho.
- Mas se eu não vou usar, para quê se dar ao trabalho de tirar? – Deu de ombros passando as mãos pelo diâmetro do volante, e os olhos na rua.
- Ok, então agora ele é meu – Sorri e abri a porta do carro. Aí ele finalmente me encarou. Dei a volta no carro, para o lado onde estava a casa e me aproximei da janela dele.
- A gente se vê – Ele assentiu e sorriu fraco, quase frio.
Afastei-me e observei o carro dele chegar à esquina e virar.
Lutei para o salto alto não entrar na areia até chegar ao caminho de concreto e seguir para a porta da casa com as mãos no bolso do casaco. Havia uma coisa ali. Um papel. Tirei as mãos do bolso e abrir o papel dobrado no meio pelo menos umas quatro vezes. Parecia uma letra de música, mas só tinha duas estrofes e toda rabiscada, mas antes que eu pudesse começar a ler, a porta da frente da casa se abriu.
- Você passou a noite fora?
- Não enche, Chuck.
- Você tá na minha casa, menina.
- Eu to fazendo o que você mandou, ok? – Tentei empurrá-lo para que eu pudesse entrar na casa, o vento estava cortante do lado de fora. Mas o cara parece uma geladeira, só os ombros poderiam ocupar o espaço todo da porta – Eu não tenho que andar pisando em ovos, eu estou fazendo o que você mandou, mas estou fazendo do meu jeito.
- Você estava com ele? – Saiu da frente da porta e me deixou entrar.
- Estava – Passei direto para a escada, mas ele veio atrás de mim.
- É melhor você estar fazendo tudo direito ou eu mando você de volta pra sua mãe. Você tem que ter um dever aqui, não estou te dando casa e comida para nada.
- Minha mãe está pagando você – Joguei as coisas na minha cama, o papel de volta no casaco e olhei para trás, com nojo – E claro que eu tenho que fazer o que você mandou, você não quer chegar na cara do próprio filho e falar “Oi, eu sou seu pai, fugi da responsabilidade durante dezoito anos, será que você pode me amar agora?”
- Você fica calada e não dá opinião em nada. Só faz o que eu mandar.
- Você pediu para descobrir coisas sobre ele, então aí vai informação: – Dei de ombros – Ele odeia você.
- É melhor você mudar o comportamento, daqui a pouco não vão ter mais parentes para sua mãe levar para você morar e vai acabar num colégio militar. E eu não faria nenhuma questão de ajudar.
- Vai pro inferno, Chuck – Ele deu as costas sem falar nada e eu bati a porta, passando a chave quando ele saiu.
Joguei-me na cama, tirei as sandálias e me deitei com a barriga para cima. Eu tinha me esquecido desse pequeno detalhe. iria me odiar se descobrisse. Onde eu estava com a merda da cabeça quando concordei com isso? Eu poderia muito bem ter arrumado minhas coisas e esperar o próximo lugar para qual minha mãe iria mandar quando ele sugeriu isso. Agora eu vou aprender a pensar com a cabeça e não com as emoções.
[Flashback]
- Você dormiu na casa dele? – arregalou os olhos.
- Fala mais alto, meu namorado está no banheiro, não surdo – Rolei os olhos e abracei os joelhos, sentada no sofá da sala de estar da casa de com ao meu lado.
- Você enlouqueceu, ? – Ele corrigiu o tom de voz.
- O que eu iria fazer? Ele me levou lá por causa dos meus tios, e por mais que eu deteste admitir, ele tava certo – Rolei os olhos.
- E por quanto tempo você pretende fazer ele de idiota? – falou um tanto agressivo. Que bom, eu tinha contado para eles e agora estavam me julgando. Apesar de estar calado, eu sabia que ele também estava.
- Por mais que eu deteste o cara, tá na cara que isso vai dar em merda – falou baixo.
- Não se ele não descobrir.
- Claro, porque não conhece quase ninguém – Ironizou – E não vai demorar muito pra qualquer um descobrir e chegar aos ouvidos dele.
- Eu não posso contar para ele, caramba, meu tio me expulsaria de casa, e pior ainda, ele me odiaria.
- Por que você se importa se vai ou não odiar você? Achei que isso fosse só porque seu tio mandou – me fuzilou. Aham. Aquilo foi o que eu tinha dito para ele. não era o único que ficava defendendo , fazia a mesma coisa comigo. Eu só queria que os dois soubessem o quanto são parecidos.
- Eu não vou ter essa discussão com você de novo. – Rolei os olhos.
- Isso é um problema diferente – se sentou ao meu lado – Ok, vocês se dão bem, já notamos isso, mesmo que fique se fazendo de cego – fechou a cara e eu ri, apertando sua bochecha – O que nós dois estamos querendo dizer é que se fosse um de nós dois, seria melhor saber por você do que por outra pessoa. Você não precisa falar nada, nada sobre o que seu tio está pedindo, só o básico, tipo “meu tio é o seu pai”, ou qualquer coisa assim.
- Ele é bem fácil de odiar, mas é estranho quando o conhecemos, não é? – Sorri fraco para , que passou a mão no topo da minha cabeça, assanhando meus cabelos e se levantou para a cozinha.
- Vocês dois são muito idiotas – forçou o desprezo na voz e eu pulei no pescoço dele rindo quando ele fingia que recusava o abraço.
[/Flashback]
Rolei os olhos e tirei o papel do casaco, entre um rabisco e outro, eu consegui entender.
One by one (Um por um)
Dreams are gone (Os sonhos se vão)
Do I have to stay? (Eu tenho que ficar?)
Hate the sound of one more pound (Odeio o som de mais uma libra)
As it rolls away (Enquanto ela vai embora)
Why did I need your proof (Porque precisei que você provasse)
When I knew the truth? (Quando eu sabia a verdade?)
And I don't know why (Eu não sei por quê)
I just let slip by (Eu deixei passar despercebido)
Me all the time (O tempo todo)
I just wish you'd tried (Eu só queria que você tivesse tentado)
14.
Que merda, onde eu tinha colocado aquela droga de papel? A única explicação seria eu ter colocado no lixo sem querer. Já procurei em todo canto, mesa, bolso da calça, até em algumas roupas sujas dentro do banheiro. Nada. Não conseguia me lembrar que roupa eu estava usando quando escrevi aquilo uns dois dias atrás. Puta que pariu, quando eu finalmente escrevo uma coisa que faz sentido...
Ah, que se foda. Não é como se eu fosse usar algum dia numa música ou... Que seja.
Juntei as porcarias que eu tinha tirado das gavetas da mesa do computador e joguei tudo no lugar sem me preocupar com o mínimo de organização.
- Você acabou de acordar? – entrou no quarto e arqueou uma sobrancelha para minha cama desforrada.
- Há uns quarenta minutos, por quê? – Passei por ela para pegar as roupas no chão do banheiro e jogá-las dentro do cesto.
- Você sabe que são três da tarde?
- Não fazia idéia – Voltei para o quarto – E não me importo.
Ela entrou no quarto e se jogou na cama.
- ligou.
- Eu sei, eu vi as três ligações perdidas no meu celular – Bufei e tirei a camisa para entrar no banheiro. Depois de deixar em casa mais cedo, dormi o dia inteiro sem direito a um banho, e eu não tenho muita certeza do que é esse liquido grudento no meu braço esquerdo.
- Então você deve saber que ele está vindo para cá.
- Vai perder tempo.
- Eu tenho uma dúvida, de quem você está com raiva, eu ou ele? – A voz dela se abafou quando eu fechei a porta.
- Dos dois.
- Por causa de ontem à noite?
Abri a porta novamente vestindo só as boxers. Eu estava dando respostas curtas para não explodir. estava com a cara fechada, o cabelo amarrado num coque desajeitado e uma camisa tão apertada que eu podia ver sua barriga. Houve um tempo que eu diria que eu nunca conseguia me irritar com aquela garota, mas as coisas mudam. Pessoas mudam.
- Desde quando você faz as coisas pelas minhas costas? – Cruzei os braços.
- Eu fiz as coisas pelas suas costas? – Franziu o cenho – O quê? Gostar de alguém?
- Você me falou que ia para a casa de April e...
- Eu sei que você acha que isso não é verdade, mas eu não devo satisfações da minha vida a você, – se levantou com os braços cruzados em cima do peito e uma expressão entre raiva e decepção. E, honestamente, eu não tenho a mínima idéia de como eu estava parecendo, eu não estava esperando que ela perdesse a paciência tão rápido – E eu vou continuar mentindo até que você cresça.
- Você e ele. Não faz nenhum sentido, .
- Faz sentido para mim, obrigada por perguntar.
- Gente como nós não anda com gente como ele – Meu tom de voz se elevou quase inconscientemente, como sempre acontece quando quero impor minha opinião. A impotência crescia dentro de mim como se fosse sua temperatura elevando. Eu podia sentir.
- Ele é uma pessoa como todo mundo. Por mais que eu tente, não consigo saber o que vocês dois têm que não podem se entender – Ela descruzou os braços e deixou-os cair ao lado do corpo como se tivesse desistindo. Desistindo de quê é que eu não sabia.
- Ele não é uma pessoa que mereça você – Tentei ser suave, tentei ser gentil. Se tem uma coisa que me ensinou, sem ser me deixar completamente desorientado, é conseguir o que quero dessa maneira. E parecia estar funcionando com que pelo menos mudou o rosto para algo mais neutro. Mas não sua voz.
- Por quê? Eu seria como ele se você não fosse meu amigo.
- Isso não é verdade.
- Claro que é. Eu não tenho nem metade do corpo dessas garotas do nosso colégio que se julgam importantes demais, não sou líder de torcida, sou desastrada, tiro notas boas, o que faz de mim uma nerd, e, para completar, estou grávida. Quer que eu continue ou são motivos suficientes?
- Pare.
- Você chama atenção para si mesmo quando não percebe, mas isso não faz de você melhor que outras pessoas – Deu as costas. Mas quando ela chegou na porta, só fez olhar para mim com os olhos lacrimejando. E eu, plantado como um idiota, incapaz de demonstrar qualquer expressão. O que mais me incomodava é que ela poderia estar certa. Algumas pessoas, ou muitas, já estavam sabendo daquela gravidez, mas quem iria fazer alarde? Ela está dentro do círculo de proteção de . Quem ousaria fazê-la passar por qualquer tipo de humilhação? – A propósito, não olhe pra mim como se eu estivesse cometendo um crime quando eu sei muito bem que você passou a noite com – Abri a boca para interrompê-la. Aquilo era um absurdo. Mas o que eu iria dizer? – Eu não sei o que você tem com ela, porque você acha que não pode sentir nada por alguém que é uma fraqueza, mas tenha em mente que ela é amiga de – desamarrou o cabelo e depois fez um rabo de cavalo alto.
Apoiei-me na parede ao lado da porta de banheiro e fiquei com a cabeça baixa. Tinha alguma coisa entalada na minha garganta, só não sabia o quê. Algumas pessoas diriam angústia, aquela sensação que algo está muito errado, e que eu tinha que fazer alguma coisa. Afinal, sempre tem o controle. Não é?
Nem eu sabia mais disso.
Quando finalmente abriu a boca, sua voz não estava mais áspera. Com uma mão na barriga, ela apenas falou:
- É um menino, se você se importa.
E saiu.
Minutos depois e eu estava na porta de casa esperando aparecer. O garoto tinha ligado uma quarta vez e decidi atender após me lembrar que era eu quem devia estar indo atrás dele. Apesar de ser muito orgulhoso para pedir desculpas, eu poderia pelo menos me redimir e mostrar que estava tudo bem. Sendo assim, quando ligou falando que estava chegando na minha casa e exigiu que eu não estivesse vestido como um cara tipicamente de ressaca.
O carro de parou na frente e entrei no banco do passageiro.
- Qual é a do sequestro?
- Cadê a gordinha?
- Quem? – Arqueei uma sobrancelha.
- .
- Ah. Sei lá – Em outras palavras: “Quem se importa?”
- Ok.
- Aonde você vai?
- Os pais do vão passar o dia fora da cidade e ele me ligou nos chamando.
- Nos chamando? – O encarei quase incrédulo. Aquilo era muito estranho.
- Acredite ou não, você fez o caminho para o coração do rapaz – declamou a frase como se estivesse fazendo a leitura interpretativa de um clássico de Jane Austen; Ri.
- Se você diz.
Ao chegar lá, seguiu na frente enquanto eu fiquei encostado no carro, falando ao telefone com a minha mãe, que insistia em me dar um sermão pela briga com . Não que ela tivesse alguma coisa a ver com isso, certo? Minha vida certamente era muito mais fácil quando minha melhor amiga morava a algumas ruas de mim e eu poderia muito bem brigar e fazer o que eu quisesse sem que minha mãe se metesse.
Quando voltei o celular para o bolso, a porta da casa de estava aberta, mas já tinha entrado. E onde eu achei que estaria , estava .
Arqueei a sobrancelha e tentei por tudo esconder o fato de que fiquei surpreso.
- Eu não acabei de deixar você em casa? – Cruzei os braços antes e fiquei parado perto da porta.
Ela estava encostada no batente com os braços também cruzados. E um sorriso. Tentei não olhar para a boca dela... Muito. Foco nos olhos, . Nos olhos.
- Deixou... Seis horas atrás – rolou os olhos ainda rindo.
- Seis horas? – Olhei para o relógio. Eram quatro da tarde. Só agora tinha percebido que tinha perdido o dia inteiro por causa daquela merda que Carly tinha me dado na noite passada.
- Sua mãe não te ensinou a ver as horas em relógio de ponteiro?
- Não sei. A sua ensinou a não se aproveitar de garotos bêbados? – Descruzei os braços e as coloquei no bolso único do meu moletom. Ela desencostou do batente com a boca levemente aberta. Sorri para provocar ainda mais.
- Eu não me aproveitei de você – Falou na defensiva.
- Então por quê você está corando?
- É raiva – Falou entre dentes e eu ri alto, passando por ela para entrar na casa.
Dei uma passada rápida com os olhos na sala de estar vazia da casa de . Ao lado da escada, estava a porta da cozinha aberta e eu podia perceber movimentações por lá. Voltei-me para , que estava com a cara fechada e encostada na porta já fechada. Ela vestia uma camisa regata colada no corpo, uma calça de moletom e um casaco listrado por cima. Ela definitivamente sabe como parecer gostosa vestida como se fosse passar a noite na casa da avó. começou a mexer no cabelo, nervosa, quando percebeu que eu estava a avaliando.
- O que você tá fazendo aqui? – Perguntei.
- Acho que o eu estar aqui não é mais estranho do que você estar aqui – Eu não podia negar. Uma semana atrás eu pagaria para nem passar na frente da casa desse cara.
Dei de ombros. Não quis me dar ao trabalho de responder uma questão que provavelmente resultaria numa discussão estilo beco sem saída.
Ouvi vozes da cozinha.
- Quem está aí?
- e o seu clone.
- Meu clone?
- É, – Ela riu. Rolei os olhos.
- Você não deveria estar com o Benjamin-tenho-tendências-femininas?
Vi que ela reprimiu um sorriso e bufou.
- Você ficava vinte e quatro horas por dia com Carly?
- Não. Mas eu não fingia que gostava dela. Eu realmente não gostava dela.
- Eu não finjo que gosto dele – Ela rolou os olhos, agora genuinamente ofendida.
- Eu nunca disse isso – Provoquei.
se desencostou da porta e ficou na minha frente, nas pontas dos pés, com o rosto a poucos centímetros do meu.
Tentei mostrar tranquilidade apesar de não fazer ideia do que ela estava fazendo. Certo. Eu sei que eu queria mais do que quer que tenha sido aquilo no dia anterior. Mas eu não poderia demonstrar nenhuma fraqueza. Eu nem ao menos poderia deixá-la pensando que eu me importo.
Com o rosto completamente neutro, ela colocou uma mão em cada lado do meu pescoço e disse:
- Eu ter ficado com você, não muda o fato de que ele realmente gosta de mim, e você só quer mexer com a minha cabeça – E se desvencilhou de mim.
Eu já estava preparado para dar uma resposta à altura. Uma merda que eu estava mexendo com a cabeça dela, quando ela tinha se enfiado na minha vida, sem mais nem menos, esperando que eu fosse dar uma de hospedeiro para aceitar a menininha nova na cidade. Como se fosse problema meu.
Mas quando eu abri a boca, deu um passo para trás e eu tive que segurar o seu braço quando ela quase caiu pelo susto.
estava encostado no batente da porta da cozinha, sorrindo.
- Há quanto tempo você está aí? – Ela perguntou.
- Eu não vou dizer – gargalhou.
Soltei o braço dela, rindo também. Mais por causa da sua expressão irritada e surpresa do que pela situação em si. Eu realmente não me importo por descobrir sobre nós dois, ele é meu melhor amigo, não é como se eu fosse contar esse tipo de coisa para .
- Relaxa, , é só o – Dei de ombros e ela virou para mim com o rosto vermelho e o cenho franzido.
- É só o – Tentou imitar minha voz. Fechei a cara. Só eu sei o quanto esse tipo de coisa me irrita.
- Foda-se.
veio para o corredor com umas garrafas de cerveja nas mãos, ao mesmo tempo em que a porta da frente se abriu e entrou cantarolando. Mas calou a boca quando viu o grupo um tanto quando nada convencional reunido ali. Ele olhou diretamente para mim e depois se virou para .
- O que é que tá havendo aqui?
- Basicamente, a gente tá ouvindo a conversa de e desde que esses caras chegaram – Apontou para mim e para .
arqueou a sobrancelha olhando para , mas ela parecia estar tão (ou mais) indignada quanto eu para poder notar.
Que merda era aquela agora? Olhei diretamente para , que me lançou um olhar como se dissesse “não pude evitar.” Claro que podia, porra!
estendeu duas das garrafas de cervejas, uma para mim e outra para . Peguei e entornei pelo menos um terço do líquido.
- Quem sabe assim vocês dois não comecem a se suportar? – Ele riu enquanto fazia a mesma coisa que eu.
Claro. Como se fosse possível estabelecer qualquer relacionamento, no mínimo, suportável com aquele. Antes era só uma questão de ele ficar se metendo no meu caminho e opinando onde não era chamado desde que me entendo de gente. sempre estava por lá. Agora eu só não consigo olhar para a cara dele e não imaginar enfiando a língua na boca da minha melhor amiga. Agora tinha se tornado pessoal. E ele sabia disso.
Fiz o possível para não pensar no que tinha falado, sobre eu e e o fato de ela ser amiga dele. Tá. Não é como se eu quisesse ter alguma coisa a mais com ela. Então poderiam parar de comparar porque não faz o mínimo sentido. Eu posso ter o que eu quero, e deve ficar no lugar a que pertence. A única explicação para todo esse interesse repentino na minha melhor amiga é ele querer me irritar ou me desafiar.
Para a tranquilidade daquele resto de dia, resolvi sentar completamente oposto a e fingir que ele não estava lá. Mas é um pouco difícil ignorar o pivô da minha dor de cabeça quando ele está agindo como se estivesse nas nuvens.
Enfim, mas uma vez, é duro admitir que não é tão imbecil como julguei a princípio. Até os outros caras do time, que apareceram um pouco depois, perceberam minha relutante e espontânea aprovação em relação ao cara. Mas que se foda, acho que tenho coisas melhores – ou maiores – com o que me preocupar.
- Trouxe cerveja! – Adam exclamou ao abrir a porta da casa quando eu estava passando para a cozinha.
- Ah, ótimo, agora eu não preciso andar mais meio metro até a geladeira – mPeguei a garrafa da mão dele, que tinha sido recentemente aberta.
- Fico feliz em ajudar – Ele sorriu. Rolei os olhos. Paga pau de merda.
Passei pela porta que dá para o jardim, onde estava no meio de uma tentativa frustrada de fazer carne na churrasqueira. Bom, por mim tudo bem, se fosse eu no comando, estariam comendo o equivalente a pedras cheirando bem.
- Que tal um joguinho, ? – Senti uma mão subindo vagarosamente por minhas costas. Era uma líder de torcida com quem fiquei um tempo atrás.
Olhei em volta. As pessoas chegavam aos poucos, não demoraria muito e aquilo poderia facilmente virar uma festa.
- Não seja egoísta, garota – Sorri – Têm outras aqui que nunca “jogaram” comigo.
- Eu não disse que vou jogar com você – Ela deu um sorriso superior – Eu e algumas meninas fizemos uma pequena aposta.
- Pena que eu não estou interessado, não é? – Desviei dela, sem nenhum interesse em adicionar figurinha repetida ao meu álbum. Definitivamente.
- Pode esperar várias garotas no seu pé – Ela correu para se pôr na minha frente novamente e me olhou dos pés à cabeça com um sorriso pretensioso no canto dos lábios – Apostamos quem seria a primeira a fazer sentir remorso.
- Ah, que ótimo, o clube das rejeitadas – Voltei a andar na direção da churrasqueira.
A maioria das pessoas estava lá. já estava com a namorada pendurada em seu pescoço perto da piscina, então só me restava ficar perto dos idiotas que, quando não se tem nada melhor para fazer, até que podem ser remotamente divertidos. Ainda assim, sentei-me ao lado de , que, milagrosamente, tinha saído de perto de .
Ela sorriu sutilmente, mas não tirou da boca o copo de coca-cola. Entendi que não queria conversar.
- Oi, meninos – A garota que estava falando comigo me seguiu e sentou-se no colo de um cara que se formou no ano passado, mas que não lembro o nome – Oi, amor.
- Oi, Sue – Ele deu um selinho nela. Eu me lembrava daquele cara do time de hockey do ano passado, que é quase tão respeitável quanto o de futebol. Quase. Exceto pelos caras, que acham que têm alguma moral.
Sue olhou para mim, depois para algumas garotas que chegavam perto e procuravam lugares para se sentar. Meu corpo enrijeceu. Isso definitivamente não poderia ser bom.
- Merda – Murmurei sem querer. me encarou, provavelmente se perguntando se eu tinha falado com ela.
Olhando em volta, percebi que já tinha ficado com todas aquelas garotas, e só de algumas lembrava o nome, como de Laurie, amiga de Carly.
- Vamos jogar “eu nunca” – Uma menina falou.
- Isso parece um jogo de quem pretende beijar na boca pela primeira vez – Mitchel gargalhou e levou a garrafa de cerveja até a boca.
- Então isso significa que você vai jogar, certo? – O garoto, aparentemente namorado de Sue, falou em tom de sarcasmo.
- Você não deveria estar, sei lá, talvez... Crescendo? – Falei esbanjando simpatia, se é que me entendem. Mas não com a intenção de defender Mitchel, e sim porque não conseguia engolir aquele cara.
- Não seja rude com o Oliver, , só porque as pessoas ainda se lembram dele enquanto você vai ser esquecido logo, logo – Ela passou os braços em volta do pescoço dele. Arqueei uma sobrancelha. De onde tinha saído aquele comentário? Quem se lembraria de uns manés do time de hockey que praticamente precisavam vender a bunda para bancar os jogos? – Ah, espera. As pessoas já estão se esquecendo de você.
- Ei, Sue, se você gosta de garotas, vá em frente, eu até acho bem legal de se assistir. Suspeitei nas vezes que ficamos. – Dei de ombros. Eu sei exatamente como irritar uma pessoa com minha habilidade de demonstrar a falta de irritação. Às vezes.
Levantei-me. Ficar ao lado de definitivamente me deixava mudado, talvez mais calmo, enquanto ela ficava apenas calada e me observando curiosamente.
Fui para perto do casal feliz.
- Deixe-me adivinhar, você ainda não a levou para cama, certo? – Fiz uma cara de inocente. Sue me olhou, irritada. Score! – Foi o que eu pensei. Esse é o motivo por ainda estarem juntos – Levantei os ombros como quem diz “não tenho nada a ver com isso” – Isso me deixa bem à sua frente.
- Ah, eu duvido muito – Ele sorriu. Fiquei imaginando o que ele queria dizer com aquilo.
- Talvez eu deva começar – Laurie se meteu no meio e tirou a garrafa quase vazia da minha mão, substituindo por uma cheia. Levantou a dela e falou: - Eu nunca transei com – Ela olhou em volta e observou as garotas com quem já transei tomarem um gole de cerveja – Nenhuma vez. Graças à pequena Miss Sunshine ali – Apontou para .
- Desculpe atrapalhar seu ambicioso sonho – Ela respondeu com um olhar de tédio maior que o normal.
- Tudo bem, eu não sou como você, posso ter outras chances – Laurie sorriu, forçando euforia e olhou para Sue.
rolou os olhos. Tudo o que eu queria era mostrar para aquela líderzinha sem futuro o quanto ela estava errada. Mas sei o quanto me odiaria por qualquer demonstração pública do que tinha acontecido entre nós. Ou estava acontecendo. Puta merda, que nó aquela menina tinha feito na minha cabeça. Ao contrário das idéias na minha cabeça, apenas voltei e me sentei com ela. Quer dizer, ao lado dela.
- Minha vez – Sue pegou a cerveja de Oliver – Eu nunca fiquei com mais do que duas vezes – Ninguém bebeu – Só porque ele é fisicamente impossibilitado de se importar com alguém.
- Bingo – Levantei a garrafa como se estivesse brindando e tomei – Eu tenho uma também: Eu nunca fiz sexo na cama dos meus pais – Ela ficou vermelha quase instantaneamente. Alguns caras riram alto e beberam, mas ela ficou imóvel – Vamos, Sue, não temos o dia inteiro – Relutante, ela deu um gole rápido sob alguns olhares curiosos (fofoqueiros) de umas garotas.
Naquele momento, cambaleou para perto de , até então calado, e se segurou nele. soltou o garfo de churrasco para sustentar o amigo visivelmente embriagado. Ignorei o que vi, não é como se eu me importasse. O que mais quero é ver queimando a imagem de bom moço na frente de todos. Inclusive , que lamentei não estar ali, pela primeira vez.
As garotas continuaram falando coisas que poderiam ser importantes para elas, mas na verdade não faziam a menor diferença para mim. Está demorando para elas se tocarem que eu estou pouco me fodendo para qualquer uma delas.
- Eu tenho uma – falou de repente. Encarei-o curioso em saber o que ele tinha falado em relação a mim. Mas ele olhava na direção de , que estava com os olhos levemente arregalados – Eu não estou mentindo para a última pessoa que beijei – Ele ainda olhava para ela.
Algumas pessoas riram e uma murmurou “o nome do jogo é eu nunca”, mas mesmo assim algumas beberam.
O que ele queria? Que eu tomasse pra provar para que eu não presto? Ela não já tinha tomado essa decisão por conta própria?
Por mais estranho que possa parecer, não consegui pensar em uma só mentira que ela já não tenha descoberto.
- Por que não está bebendo, ?
Olhei para ela imediatamente.
Ok, não estava entendendo mais nada.
- Por que não cuida da sua vida, ? – Ela respondeu tão rude que, se eu não tivesse prestando atenção na conversa, pensaria que estava falando comigo.
- Vamos lá, – tentou empurrá-lo para longe das pessoas, mas ele resistiu. A irritação e a frustração tomaram conta de mim. O que porra estava acontecendo? O que aquele perdedor sabia e eu estava por fora?
Ele ficou parado, encarando . Era quase como se o álcool tivesse evaporado do seu sangue, deixando só a raiva.
- Vamos, , entregue sua garrafa a , ela está louca para beber – Ele cruzou os braços e elevou o tom de voz. Não me movi.
Surpreendi-me quando ela se levantou bruscamente e pegou a garrafa da minha mão, tomando o resto logo em seguida. Jogou a garrafa no pé dele e falou:
- Não me culpe por gostar de passar o tempo com a pessoa que impede você de ficar com sua namorada grávida. Não é problema meu – E saiu.
Enterrei o rosto em minhas mãos. Todo mundo ali sabia que estava saindo com .
Ele me olhou, atordoado. O que ele queria que eu dissesse? “É, porra, ela está grávida. Agora pode correr e deixá-la sozinha como o imbecil do pai da criança fez.” É isso o que ele queria ouvir? Minha benção para dar o fora?
As pessoas cochichavam.
- É, é, está grávida, muito revelador – Carly falou. Não sei como ou quando apareceu, mas parecia irritada, como quase todos ali. Por acaso, tinha alguma coisa na cerveja? – Precisamos de uma saideira para o jogo, que tal?
saiu.
- Vá em frente, não é como se eu já não tivesse feito com alguma outra tudo o que fiz com você – Dei de ombros.
- Eu nunca perdi minha virgindade para – Levantou a garrafa – Ah, espera, perdi sim – E tomou. Foi a única.
Todos me encararam.
Puta que pariu.
- Ela está mentindo.
- Tenho certeza que os caras que tentaram antes discordam.
Eu estava realmente sem palavras.
- E quer outra? – Ela chegou bem perto de mim quando me levantei – Eu nunca fiz sexo com nenhum outro cara a não ser – Falou em alto e bom som, para até as outras pessoas, que não estavam por perto, ouvirem.
- Será que dá para você parar de falar essas merdas sem sentido? – Esbravejei.
- E aí, ? Eu ganhei a aposta das garotas? – Cruzou os braços e tentou colocar um sorriso no rosto por cima do toda a mágoa.
- Chegou muito longe.
- Eu acho que não – Laurie falou.
E saí dali.
Onde é que estava o quando eu precisava dele? Porra, é exatamente por isso que eu não saio sem meu carro, a carona sempre some nos momentos mais críticos.
Quando desisti de procurar, decidir que não poderia me matar se eu fosse a pé.
Eu iria, se não tivesse encontrado nos degraus da frente da casa.
Sentei-me ao lado dela.
Ela se surpreendeu, mas relaxou quando viu que era eu e sorriu fraco.
- Desculpe por ter falado sobre a .
- sabe cuidar dela mesma – Dei de ombros. Aquilo realmente não era o que eu queria discutir naquele momento.
- Uau, você finalmente se tocou, hein? – Riu.
- Você vai me contar, ? – Arqueei uma sobrancelha.
- Contar o quê? – Murchou.
- Sobre o que você está mentindo.
- O que te faz pensar que você foi a última pessoa que beijei? – Ela falou em tom de pretensão e colou os joelhou no corpo. Fiz minha melhor cara de óbvio – Ok – Rolou os olhos – Eu não posso falar.
- Falar o quê, porra? – Comecei a me irritar. Eu já sabia que ela estava escondendo alguma coisa, o que custava dizer? Ficar na ignorância me deixa louco.
- Se eu pudesse, já tinha falado, acredite – Suspirou.
- Então você vai continuar mentindo? – Bufei completamente aborrecido.
- Eu não posso falar porque é o motivo pelo qual eu não posso nem pensar em ficar com você, – Ela falou em tom baixo, mas quase desesperado – E não tem nada a ver com o fato de que eu tenho um namorado.
- Nada que eu ouça de você pode ser pior do que ouvir que tirei a virgindade de Carly, pode ter certeza – Brinquei. De algum jeito, além de ser obviamente ruim, foi bom ouvir o desespero dela ao dizer que algo a impedia de ficar comigo. Ela riu também.
- Isso explica muito.
Olhei para os lados. Todo mundo estava concentrado na pseudo-festa nos fundos do jardim, e a rua de não é lá das mais movimentadas, olhei para , mais uma vez, espremida num casaco sob um vento que gritava que o inverno estava chegando.
Passei o braço sobre os seus ombros e passei a mão pelo seu braço a fim de esquentar. Ela sorriu agradecia e se aconchegou em mim.
Ficamos nessa posição por um bom tempo, até um carro prateado parar na frente da casa, invadindo parte da calçada e o motorista saiu rapidamente. estava de olhos fechados, então não notou quando Benjamin avançou para perto de nós.
- Muito bem, .
- Ben? – Ela abriu os olhos rapidamente e pulou para longe de mim.
- É muito bom saber que, enquanto eu organizo minhas coisas da viagem, minha namorada anda se agarrando com outros caras – Ela cruzou os braços. Claramente ele queria que eu ouvisse, pois falava em inglês, quando poderia ter uma discussão bem particular na própria língua e ninguém sequer desconfiaria do que queria falar.
- Um pouco de respeito seria ótimo, Benjamin – Ela ficou em pé e tentou conter a voz. Fiquei em pé também. Qualquer coisa, se aquele cara viesse para cima de mim, estaria preparado. Eu definitivamente não iria apanhar daquilo. Minha reputação já foi afetada demais por um dia.
- Engraçado você falando de respeito – Ele riu – Você tá ficando com esse aí?
Silêncio.
- Ótimo – Jogou os braços ao lado do corpo – E eu nem saberia se não fosse aquela garota me ligando – Apontou para trás de nós dois. Carly encostada na parede, sorrindo.
Não consegui saber se ficava com raiva ou agradecido. Na dúvida, decidi ignorar. Apenas murmurei:
- Vadia.
- Quanto tempo mais você ia me fazer de palhaço?
- Só mais um pouco – Respondi por . Recebi um olhar fuzilante dela, mas não me preocupei. Por que ela estava se preocupando com o cara que estava tratando ela como lixo? Eu falava assim com as garotas que ficavam comigo, mas ninguém fala assim com ela. Pelo menos, não deveriam.
- Cala a boca, – Sussurrou – Eu não planejei começar a gostar de outra pessoa, me desculpe. Não me culpe por não querer machucar você.
Espera, o quê?
- Bom trabalho – Ele ironizou.
- O que você quer que eu diga mais? – Ela disse, derrotada.
- Mais nada, eu não quero nem ouvir sua voz – Deu de ombros – Eu espero que ele faça com você o mesmo que fez comigo. Ou pior – E deu as costas.
Foi embora na mesma rapidez que tinha chegado.
Carly também já tinha entrado na casa.
apenas se encostou na pilastra de madeira no degrau mais acima e suspirou. Estava escrito na cara dela que, apesar de insistir em jogar na minha cara quão perfeito seu namorado é, eu sabia que ela não queria levar adiante. Afinal, quem iria querer? Mas, claramente, esse não era o jeito como ela queria terminar o namoro.
- Você tá bem? – Perguntei relutante.
- O que você acha? – Apesar da pergunta soar rude, sua voz saiu suave.
- Eu não faço a mínima idéia – Cheguei perto dela, mas não fazia a mínima idéia do que fazer. Com , bastava apenas colocá-la em meus braços e ficaria tudo bem. Mas é minha amiga. Eu não faço a mínima idéia de como agir com uma garota que eu não faço a mínima idéia do que é para mim. Definitivamente, não amiga – Quando eu termino qualquer tipo de relacionamento, geralmente é um alívio para mim, eu realmente não sei o que é isso.
- Eu não queria que ele ficasse com raiva de mim...
Apenas dei de ombros e peguei em sua mão, puxando-a.
Ah, que se foda.
Ela passou as mãos a minha volta e deitou a cabeça no meu peito.
- Ele iria me levar para casa – Afastou o rosto e me olhou – Preciso de uma carona.
- Somos dois – Sorri. provavelmente tinha se esquecido de mim e saído com April – Eu vou a pé – Dei de ombros.
- O príncipe vai mesmo sujar os sapatos? – Ela colocou as mãos nos meus ombros, rindo.
- Infelizmente – Fiz uma careta.
- Quer companhia?
- Depende de quem seja – Fingi olhar para a porta e avaliar as pessoas dentro. Recebi uma tapa no ombro em resposta.
- Idiota – Ela desceu os degraus e estendeu o braço.
Peguei sua mão e saí na direção da casa dos seus tios, o que deixaria meu trajeto ainda mais longo.
Mas, novamente, que se foda.
15.
- O que tá acontecendo, ?
- O que está acontecendo em relação a quê? – Mexi-me desconfortável na cadeira em frente à mesa cheia de folhetos, cada um de uma cor diferente, indicando um problema adolescente diferente.
- Alguns professores estão preocupados com você, ultimamente – Srta. Mackenzie parou de escrever e me encarou. Eu definitivamente não acredito que estava perdendo aula de música por causa disso. Quer dizer, há uma razão para eu ter me inscrito para essa aula! Significa que eu quero assisti-la, ao contrário das matérias obrigatórias como matemática ou língua inglesa. Bom, a Srta. Mackenzie é até legal e tal, tem uns vinte e poucos anos, recém-formada, um milhão de vezes melhor do que aquela velha que trabalhou quarenta anos como conselheira estudantil da Dover College e finalmente resolveu se aposentar. A mulher provavelmente trabalhou aqui na mesma época que o meu avô estudava!
- Bom, eles têm sorte, minha mãe se preocupa a vida inteira, então é só dizer para eles segurarem a onda por uns dezessete ou dezoito anos, talvez menos – Cruzei os dedos de uma mão com os da outra e tentei ficar sério, apesar da ironia.
- Eu estou falando sério.
- Eu também.
- Então faremos o seguinte, quanto mais rápido você falar o problema, mais rápido vai sair daqui.
- Tá, que seja – Bufei. É como ser sequestrado por uma psicóloga – O que você quer saber?
- Desde que você saiu do time, suas notas baixaram – Ela mexeu num papel, e, com a luz atravessando ele, vi que era meu histórico escolar. Coisa que nunca tive que me preocupar até ultimamente. Desde pequeno participo de atividades extracurriculares como futebol, e para garantir minha estadia, minhas notas sempre foram suficientemente altas, apesar de não estudar muito em casa, só o fato de estar acordado na aula (às vezes isso é um desafio) me pareceu o bastante. Mas ultimamente eu não estava com muito ânimo para deixar minha mente concentrada nas palavras de um professor.
- Confere.
- O treinador Williams disse que você saiu do time porque queria se concentrar em outras coisas – Ela cruzou as mãos em cima da mesa. É claro que ele tinha dito isso. Claro que não admitiria que me expulsou do time porque fez burrada no dia da viagem – Que coisas são essas?
- Balé.
- Pare de tentar ser engraçadinho.
- Não está dando certo?
- Eu estou tentando fazer meu trabalho aqui e você não está colaborando em nada.
- Acontece que o seu trabalho envolve se meter na minha vida – Olhei para os lados já me sentindo nervoso e claustrofóbico.
- , apesar de trabalhar nesse colégio há apenas três anos, conheço bem sua história. E eu realmente gosto de você. Não quero que se perca – Ela tentou sorrir. Sempre odiei esses sorrisos de piedade.
- Que eu me perca? – Falei com desdém. Me perder das expectativas que os adultos dessa cidade colocam em seus filhos para que sejam tão equilibrados quantos eles? Para ter uma vida de babaca?
Por que na visão dos nossos pais, e dos pais dos nossos pais, a única coisa que sabemos fazer é comer, dormir e transar. Todo dia a mesma coisa, se repetindo, talvez um dia seja melhor ou pior que o outro, comer mais, dormir menos, pegar uma garota nova, mas sempre sem nenhuma finalidade ou benefício maior. Tudo que eles querem é que casemos. Ter dinheiro e filhos para dar continuidade à família. Coisas que, caso eu alcance daqui a uns dez ou quinze anos, ou até mais, vou me lembrar que não dou a mínima.
- Filhos de mães adolescentes tendem a ser tão problemáticos quanto os de mães solteiras. E você é os dois.
- E você acha que eu sou problemático – Arqueei uma sobrancelha.
- Eu acho que você está indo bem... Na medida do possível. É um aluno acima da média, geralmente está presente nas aulas, tem uma boa quantidade de atividades extracurriculares.
- Mas...
- Mas você age como se fosse invencível, o mundo lá fora não é igual às pessoas no colégio, , nem sempre terão pessoas abrindo portas para você. Seu desempenho no colégio está caindo, e não faz nada desde que saiu do time – O jeito como ela me olhava parecia verdadeiramente preocupada – Pare de se preocupar demais, comece a pensar apenas no básico, tudo o que um garoto da sua idade pensa. Procure outras coisas que goste de fazer além do futebol.
- Olha, sem querer ser rude nem nada – Como se eu conseguisse dar uma cortada numa pessoa sem ser rude. Na verdade eu provavelmente não sei nem elogiar e não ser rude. É como se fosse da minha natureza – Mas você não sabe nada do que está falando.
Ela me ignorou.
- Comece a pensar apenas na faculdade que quer se inscrever, ou que filme você vai assistir no cinema com a sua namorada. Ou até mesmo arrume uma namorada nova – Ela sorriu – Porque, cá entre nós, eu sei que você não vai contar isso para ela, mas eu já estou cansada de ouvir os murmúrios de Carly em relação a você – Não pude evitar gargalhar. Eu não consigo nem imaginar o que Srta. Mackenzie ouve das meninas desse colégio. Principalmente em relação a mim. Tá aí uma profissão que definitivamente não quero seguir.
- Posso ir agora?
- Pode – Apontou para a porta e eu saí imediatamente, podendo finalmente respirar direito, com as paredes bem afastadas de mim.
A claustrofobia ataca quando têm muita pressão sobre mim. Quando têm muitas expectativas também.
Pelo meu relógio, faltavam apenas dez minutos para o fim da aula, então não valia a pena me deslocar até a sala, que é no último andar, só para o sinal tocar quando eu tivesse sentado na minha cadeira segundos antes, simplesmente não faz sentido. Já que eu estava com uma autorização para estar fora da aula, poderia fazer bom proveito, mesmo que fosse matar uma das poucas aulas que eu gosto.
Depois de pegar alguma coisa para comer, sentei-me abaixo de uma árvore, onde sempre fico nos intervalos e horas vagas, onde eu tenho visão para a lanchonete e para o pátio, os lugares mais movimentados. Mais alguns minutos e tudo aquilo estaria cheio por causa do intervalo.
Dito e feito. As pessoas começaram a sair aos poucos. Coloquei o copo de suco na minha cara a fim de ignorar qualquer um que exigisse um sorrisinho. Minha cabeça estava explodindo, e o gelo naquele copo certamente não estava ajudando.
Quando tentei arremessá-lo na lixeira mais próxima, interromperam o caminho.
- Nossa, eu sei que você não simpatiza muito comigo, mas precisa mesmo jogar lixo em mim? – se abaixou rindo e pegou o copo no chão para colocar na lixeira.
- Foi mal – Dei de ombros. O que eu deveria ter feito mesmo era culpá-la, afinal, ela se meteu no caminho, não tinha nada que estar falando merda. Mas, surpreendentemente, fiquei na minha. Pareceu o certo a fazer.
Ela sorriu e se sentou ao meu lado.
Isso tinha se tornado meio comum.
tinha voltado a falar comigo, mas estava meio distante, passava maior parte do seu tempo com . E se eu desse o mínimo de opinião sobre isso, era outra seção de brigas. Eu realmente não estava afim de arrumar uma confusão por dia com a minha melhor amiga, a casa viraria um campo minado se eu fosse dizer tudo o que penso sobre esse relacionamento idiota.
Enquanto isso, estava sempre por perto. Na verdade, eu não tinha ficado com ela desde a semana passada, no carro. E devo confessar, é praticamente um desafio ficar perto dela e me controlar. Eu não posso ser tão dependente assim de uma garota, caramba. Eu não posso ser tão vulnerável. Eu costumava conseguir me controlar, ser dono de todas as minhas reações. É apenas uma menina, o que tem de mais? O que faz dela diferente de todas as outras? No começo meu subconsciente me dizia que era apenas aquela velha e clichê atração pelo que é proibido, mas e agora? Ela estava ali, na minha frente, eu poderia tê-la naquele momento, ela não era mais proibida, não existia mais namorado nenhum, ela poderia ser minha da velha e sem graça maneira, por que a atração não tinha sumido?
- Então, o que fazer agora? – Ela falou ao abrir a embalagem de uma barra de cereal.
Franzi o cenho, mostrando de que não tinha entendido, então ela continuou.
- Em relação ao time. Você ainda quer voltar, certo?
Hesitei. Eu não tinha nem parado para avaliar. Tudo bem, eu tinha ficado puto com a confusão de Benjamin uma semana atrás, mas aquilo era pura indignação pela sacanagem do Williams, não muito a ver com o fato de eu não estar no time. Na verdade, as coisas estavam tão agitadas ultimamente que futebol só cruzava a minha cabeça em momentos aleatórios, e muito rapidamente. Algo que não chegava a me incomodar. Não mais.
- É impressão minha, ou você está pensando em desistir? – Ela estava genuinamente espantada.
- Talvez seja melhor esperar até o fim do campeonato – Dei de ombros.
- Até o fim do campeonato? – Riu – , tá falando sério?
- Por que não estaria?
- Bom, até um tempo atrás, você matava crianças e chutava filhotinhos na rua porque não estava mais no time.
- É só futebol – Passei os olhos rapidamente pelos caras do time se reuniam perto da fonte e olhei para , que sorria.
- Eu sei.
Mexi-me, desconfortável.
Aquilo foi... Sincero demais para ser dito em voz alta. As pessoas subestimam demais o valor que dou a estar no time. Tudo bem, eu faço parecer que é a minha vida, algumas vezes eu até tentei me convencer disso. Mas na verdade é só um pretexto, e até então eu não tinha notado isso.
Até os meus doze anos, futebol era só o que a gente jogava para se divertir na praia no meio do verão, quando se reúne com uns primos e outras pessoas num churrasco só. Naquela época eu não pensava em me esforçar para virar capitão do time do colégio e fazer uma carreira disso. Mas eu realmente amava jogar hóquei, daria minha vida por aquilo. Até que um dia o treinador do time do colégio fez um comentário infeliz com um dos outros professores que eu provavelmente não deveria ter ouvido. “Vou colocá-lo na mesma posição que o pai ocupava. Ele é bom, está no sangue.” Naturalmente, desisti de qualquer coisa relacionada àquele esporte. Surtei com a minha mãe porque nunca tinha me falado aquilo e desisti de hóquei, apesar de tudo. Por mais que eu gostasse de jogar, não iria me esforçar para no final ficar igual a ele.
Olhei para o outro lado a fim de encerrar o assunto.
entendeu o recado.
- Então, preciso que alguém me explique por que diabos vamos ficar uma semana sem aula – Ela encostou-se na árvore e me encarou com um olhar indagador.
- Parece que o sistema educacional da Inglaterra acha que merecemos uma semana de férias a cada semestre.
- Agradeço por pensarem assim.
- Poderiam pensar além... Um mês, talvez? – Arqueei uma sobrancelha.
- Claro, isso vai ajudar muito seu desenvolvimento acadêmico, – Falou ironicamente, mas com um sorriso singelo no canto da boca que eu desviei os olhos dele algumas vezes unindo toda minha força interna.
- Se eu desse a mínima para meu desenvolvimento acadêmico não teria acabado de matar uma das minhas aulas preferidas – Dei de ombros.
- Você precisa de um psiquiatra.
Quando eu ia responder, senti que meu rosto ficou molhado na parte da bochecha. Quando coloquei a mão na área, senti minha testa também ficar molhada. Olhei para cima e vi que estava começando a chover. também notou e se levantou imediatamente, colocando um caderno em cima da cabeça.
Comecei a andar na direção das outras pessoas que corriam para dentro do colégio, procurando suas salas de aula mais cedo do que o previsto. A chuva caia cada vez mais forte e nenhum indício de que pararia tão cedo. Pela minha visão periférica, vi dar de ombros e caminhar na direção oposta.
- Aonde você vai? – Virei-me para ela, já sentindo meu cabelo colar na testa.
- Você não é o único que não dá a mínima para desenvolvimento acadêmico – Ela sorriu e apressou o passo.
Olhei para o lado oposto, onde as pessoas ainda se amontoavam para entrar logo e fugir da chuva, principalmente as garotas. Rolei os olhos e me virei para . “Que se dane”, falei para mim mesmo.
A chuva começava a deixar uma densa camada de névoa, dificultando a visão de mais de dois metros adiante, assim, ninguém viu quando corremos para o lado oposto ao prédio das salas de aula e entramos em outro aleatório, ainda nos territórios do colégio. não percebera que eu a segui até que eu segurei a porta na hora que ela iria fechá-la. Ela sorriu, surpresa, mas não falou nada.
Se ela estivesse buscando por um lugar quente, não poderia ter entrado no lugar mais errado para isso. A pista de hóquei estava tão gelada quanto lá fora. Fria e desagradável. Com um ar angustiante. Aquilo tudo me trazia raiva e sentimentos que eu não sentia desde a última vez que tinha estado naquele lugar, quase seis anos atrás. Girei meus calcanhares para sair dali o mais rápido possível.
- Vai sair? – se virou quando ouviu a porta se abrir.
- Não vou ficar aqui.
- Por que não?
- Está... Muito frio aqui – Dei de ombros, tentando parecer neutro. Não era nenhuma mentira afinal, minhas roupas estavam quase completamente molhadas e ela não estava muito diferente, com os braços um de cada lado do corpo tentando se esquentar.
apertou os olhos, desconfiada.
- Prefere assistir aula a aguentar um friozinho, ?
- Também prefiro a morte a ficar aqui – Bufei.
Ela se aproximou e fechou a porta. Ironicamente, alguém tinha esquecido a chave do lado de dentro. “Ótimo dia para um funcionário irresponsável deixar a porta aberta e ainda mais com a chave dentro”, me vi obrigado a comentar em minha mente. trancou a porta e colocou no bolso frontal da saia. Eu sabia que ela estava pensando que eu nunca colocaria a mão ali para tirar as chaves, mas a verdade é que se realmente fosse necessário, eu nem hesitaria. Apenas arqueei as sobrancelhas demonstrando minha insatisfação.
- me falou que você costumava jogar aqui.
Ela jogou suas coisas no chão ao lado da entrada da pista e avançou pela porta de mais ou menos um metro de altura, sem tirar os sapatos.
- fala um monte de coisas que ele não sabe – Rolei os olhos e entrei na pista, tomando cuidado para não escorregar enquanto me aproximava dela – Eu ia jogar aqui, cheguei a entrar no time, mas não vim nem para o primeiro treino.
- Por quê?
- Desisti.
- Por quê?
- Você é bem curiosa, sabia disso? – Sorri tentando disfarçar minha insatisfação com a conversa.
- E você tem um jeitinho bem particular de mudar de assunto – Ela gargalhou quase silenciosamente e recomeçou a andar, mais exatamente a minha volta.
- Você não consegue ficar parada nem por cinco minutos? – riu alto quando voltou para minha frente.
- Meus pais me levaram no psicólogo quando eu tinha cinco anos. Achavam que eu era hiperativa – Deu de ombros. Balancei a cabeça negativamente, rindo – Ainda acho que alguma coisa deu errado, não me sinto como uma pessoa normal.
- E qual é a graça de ser normal?
- Se eu fosse um pouco mais perto do que minha mãe julga ser normal eu não estaria aqui – Desviou meu olhar e deu um passo para frente – Aqui na Inglaterra, quero dizer.
Ela deu mais um passo e, de repente, escorregou. A menina gritou quando segurei seu braço no momento em que ela já estava indo na direção do chão.
Em questão de segundos e ela se recompôs e já estava rindo igual a uma maluca. Algumas vezes ela tentou falar, mas não conseguia. Na verdade ela nem conseguia respirar. E eu fiquei lá, parado, ainda segurando seu braço e com um sorriso idiota na cara que eu só percebi depois. Patético, , simplesmente patético.
- Você deveria... – Ela parou para respirar um pouco – Você deveria ter me deixado cair. Ia ser uma baita lição de vida – E riu mais um pouco.
- Vou tentar me lembrar disso da próxima vez – Foi o máximo que conseguiu sair de mim enquanto meu interior questionava que tipo de garota faz esse tipo de comentário.
- Mas obrigada mesmo assim – Ela olhou sugestivamente para minha mão no seu braço.
Afrouxei-a um pouco, mas não tirei a mão de lá, não sei por quê. Na verdade, tem alguns momentos que, quando eu estou com essa menina, eu não sei o que se passa comigo, começo a fazer coisas que meu subconsciente vive gritando e normalmente eu consigo reprimir. É como se eu perdesse o controle sobre minhas ações e tudo entrasse em piloto automático.
sorriu fraco enquanto eu ia levantando minha mão ate chegar à área da sua bochecha. Naquela hora eu já estava perto o suficiente para ver sua pele se arrepiar. Sorri quase involuntariamente, mas ela não pôde ver, pois estava de olhos fechados.
Rapidamente anulei aquele espaço entre nós.
Com minha boca colada a dela, desci minhas mãos até sua cintura enquanto a empurrava até a mureta dois metros à minha frente. Não foi nem um pouco fácil manter minha boca em sintonia com a sua e ao mesmo tempo lutar para que a total falta de coordenação motora dela não a fizesse escorregar dos meus braços e cair no chão.
Quando não tinha mais para onde empurrá-la, deixei apenas meu instinto me guiar. A única coisa da qual eu estava ciente naquele momento era que meu coração estava batendo, chegando até a doer, e aquilo transmitia para o meu cérebro como um alerta. Eu estava indo longe demais. Estava chegando a um território desconhecido, onde eu já não poderia controlar mais nada. Sentir a mão de com as unhas encravadas no meu ombro, e a outra, como em um paradoxo, levemente posada na minha bochecha, era como assistir tudo pelo que lutei na minha vida sendo derramado no ralo.
Mesmo que ela estivesse de meia-calça, coloquei minha mão na sua coxa, subindo e apertando. Ela reagia sumindo com qualquer vestígio de delicadeza e o beijo estava ficando cada vez mais rápido. Aquilo ia doer depois, mas nada que não fosse valer a pena está ali, daquele jeito. Com ela. Ninguém iria me ouvir falando isso, porque nem sob tortura eu admitiria. Um cara como eu não pode se deixar levar.
Assumir o controle sempre. Nunca deixar uma garota interferir nas minhas ações, e, se interferir, todo o cuidado para que ela não descubra isso é sempre pouco. Assisti cada um dos meus amigos se apaixonar por uma garotinha que juravam ser diferentes das outras, e no final foram feitos de idiota. Enquanto eu ouço garotas falando o quanto os homens não são manipuladores e trapaceiros, não posso evitar pensar que não somos assim tão diferentes.
Bom, mesmo que meu subconsciente trave uma batalha com meu cérebro falando que não é dessas. Desde o momento que a conheci, ouvi-a falar qualquer tipo de comentário que passe na sua cabeça, doa a quem doer. Enquanto meu primeiro instinto, para proteger a mim mesmo, é a mentira. Se fosse acontecer alguma merda naquilo (o que quer que seja) que existe entre nós dois, seria minha culpa, sem sombra de dúvidas.
Levei minha mão livre até seus cabelos e tirei o elástico que os prendia em um rabo de cavalo quase simetricamente perfeito, não gosto tocar nos cabelos de uma menina e sentir como se estivesse tocando um cara. Depois desci até os primeiros botões do uniforme dela e fui abrindo um por um, agradecendo pelo fato dela ignorar as regras do colégio quando se trata de fardamento e quase nunca usar a gravata que é imposta também para as meninas. Quando a blusa estava completamente aberta, senti que tinha começado a desacelerar. Só então em comecei a me esforçar para que ela não parasse aquilo, mas pareceu ser inevitável.
Ela separou a boca da minha e se encostou à mureta, repousando a cabeça na parte transparente dele, a proteção para que ninguém seja atingido enquanto assiste ao jogo.
- Rápido demais – Ela abriu os olhos e sorriu fraco com os lábios completamente vermelhos, assim como os meus deveriam estar. Rolei os olhos e ignorei.
Voltei a aproximar meu rosto do dela. Mas, dessa vez, o beijo foi mais... Civilizado que o outro, sem segundas intenções. não é como qualquer outra que eu já tenha ficado. Eu não poderia jogar um charme barato para tê-la aos meus pés. E mesmo que jogasse, eu não iria conseguir.
Coloquei uma mão no muro transparente, ao lado do seu rosto e me afastei. Tirei os cabelos quase secos da frente do seu rosto e ela sorriu agradecida enquanto fechava os botões da camisa, escondendo a regata fina que estava usando por dentro. Era a segunda vez que eu tinha chegado a esse ponto com ela e não dava em nada, e por mais impaciente que eu me sentisse, não tinha nenhuma vontade de desistir.
- Quer assaltar a sala do treinador de hóquei?
- Como é? – Ela arregalou os olhos e me encarou de um jeito como se esperasse que eu dissesse que estava brincando, e eu apenas levantei os ombros.
- Eles sempre guardam comida lá.
- Você acabou de comer, – Ela riu, incrédula – Quando você estiver gordo o suficiente para poder se declarar obeso, vai vir tirar satisfações comigo e eu não vou me responsabilizar. Tenho dito – pegou o elástico de cabelo jogado no chão e começou a arrumá-los.
- Não faça isso – Coloquei minha mão na dela – Você fica... Melhor... Com os cabelos soltos – Dei de ombros e tentei agir o mais naturalmente que pude.
- Isso foi uma tentativa de elogio? – Ela sorriu abertamente.
- Pense do jeito que quiser – Rolei os olhos.
- Você sempre faz isso, como se fosse inconscientemente agradável e tivesse vergonha disso – “Não, eu nem sempre faço isso, eu faço isso com você. Quando estou com qualquer outra pessoa, consigo controlar minha boca e não agir como um idiota”, pensei.
- Eu não tenho vergonha de nada – Desviei o olhar para a arquibancada posicionada atrás dela e ouvi-a suspirar.
- Nós vamos pegar comida ou não?
- Vai bancar a psicóloga se eu fizer? – Arqueei uma sobrancelha – Porque eu já tive minha cota de análise por hoje estourada.
- Posso tentar – Riu.
Comecei a andar na direção da saída da pista, mas antes que eu desse mais de três passos, soltou um “psiu” e eu me virei de volta para ela.
- O quê?
- Será que dá para você me ajudar? – Ela estendeu a mão direita, enquanto a esquerda estava segurando firme na mureta.
- O que aconteceu com deixar com você cair por causa da lição de vida? – Ri quando peguei sua mão.
- Aquilo foi... Eu sendo... Bem, eu – Deu de ombro, rindo – É meu novo estilo de vida.
- Novo estilo de vida?
- É, prometi fazer o oposto do que qualquer garota normal faria. Se todos se vestem de um jeito, eu me visto diferente – Olhou para o próprio corpo. Sem a gravata, a meia-calça preta ao invés de branca e uma bota bege quase infantil no lugar do sapato – Se vou a um funeral, não uso preto, uso vermelho. Se uma garota se joga nos braços de um menino porque ele a segurou quando estava caindo, eu ajo naturalmente – Ela apertou um pouco mais minha mão, mas provavelmente não notou, pois continuou falando – Minha vida não é nem um pouco normal, decidi deixar tudo interessante a meu favor.
- Você é uma pessoa estranha. Digo, muito estranha.
- Ué, você mesmo falou que ser normal não tem graça.
- Verdade – Ri.
Ao sair da pista, se agachou para pegar suas coisas e eu segui o caminho até onde eu me lembrava ser o escritório do treinador. Mas parei antes, na prateleira cheia de placas de times de hóquei dos anos passados. Fui até um ano específico, o ano que eu tinha nascido. Ignorei a foto e passei os olhos pela lista dos nomes dos jogadores. Right winger: Charles “Chuck” Lerner (C). Mesma posição, e ainda era o capitão do time, como eu tinha certeza que seria se tivesse persistido. Eu definitivamente não seria responsável pela história se repetindo.
- O que é isso? – perguntou ao chegar ao meu lado.
- Nada – Voltei a andar, mas ela não me acompanhou.
Quando me virei para trás, ela observava a foto da placa que eu estava lendo segundos antes. Seus olhos estavam discretamente arregalados.
- Você já tinha visto isso? – Perguntou.
- Não.
- Você sabe qual deles é seu pai? – Quando ela olhou para mim, estava estranhamente atordoada. Fiquei um pouco surpreso, tentei entender no que aquilo a afetava e não pensei em nenhum motivo.
- Não procurei.
- Por que não?
- Já é irritante o suficiente saber que ele existe por aí, não preciso saber qual é o rosto dele pra completar – Bufei e coloquei as mãos no bolso.
- Ah – Ela suspirou e voltou a olhar para a foto – Foi por causa disso que você desistiu de jogar aqui, não foi?
- Foi.
- Por que você deixa ele te afetar desse jeito? – Ela saiu de perto da prateleira e me acompanhou quando voltei a andar na direção do escritório, já sem nenhuma fome.
- Não deixo. É por isso que eu evito qualquer coisa relacionada a ele – Abri a porta ao meu lado esquerdo e entrou na minha frente.
- Não deixe ele privar você desse jeito – se sentou na mesa do treinador e eu, por um momento, me esqueci o porquê de estar ali e me sentei ao lado dela – Seja feliz. Ele se arrepende, então faça com que ele sinta foi esquecido.
- E como você sabe disso?
- De quê?
- Que ele está arrependido – Olhei para ela.
- Eu sei – Deu de ombros e olhou para frente.
Ela encostou a cabeça no meu ombro, do jeito que faz toda vez que não tem mais nada para falar. Coloquei minha mão na sua cintura para que ela ficasse mais confortável. Ela suspirou pesadamente, antes de falar:
- Eu gosto de você. Você sabe disso, não sabe?
- Por que você está falando isso? – Enrijeci.
- Não precisa falar nada, , eu só quero que você saiba disso.
- Por que todo esse sentimentalismo de repente? – Sorri quando virei para encará-la. Ela sorriu fraco.
- Duas coisas: Primeiro, eu não sou mais uma na sua lista, , então é bom você sossegar aí porque eu não sou garota de dividir homem, ouviu? – Ela colocou o dedo na minha cara e só tirou de lá quando eu gargalhei – Qual é a graça? Eu estou falando sério! – Bufou.
- Tá, desculpa.
- Você entendeu o que eu falei, ou não? – me olhou com a expressão dura, mas pela linha da sua boca, pude ver o sorriso sendo reprimido.
- Ouvi sim, senhora.
- Ok. Segundo, meus tios não podem saber disso, de jeito nenhum.
- E posso saber o motivo?
- Não. Só não podem e ponto.
- Eu posso fazer uma lista de exigências também? – Fiquei em pé, no chão, de frente para ela.
- Você vai pedir para eu entrar para as líderes de torcida, então não – Ela jogou os braços ao redor do meu pescoço quando me aproximei dela.
- Com a sua coordenação motora? – Gargalhei – Só se eu estivesse planejando matar aquelas meninas.
- Muito engraçado – Rolou os olhos.
Quando ela abriu a boca para falar mais alguma coisa, eu a impedi, invadindo a boca dela sem nem pedir permissão. Depois de alguns minutos, quando ela estava com as mãos no meu cabelo, desci minha boca para seu pescoço e coloquei minha mão em sua cintura, e fui descendo até o cós da saia, depois mais um pouco até o bolso, coloquei a mão lá e depois a tirei bruscamente com a chave em mãos.
- Você não é tão espertinha quanto pensa que é – Falei quando me separei de . Ela me olhou atordoada e sem entender. Até que olhou para o molho de chaves balançando na minha mão.
- Você trapaceou – Mostrou o dedo do meio.
- Ei, olha a educação – Ri alto quando fui para fora da sala.
Ela me seguiu quase imediatamente.
Do lado de fora, a chuva ainda caia, mesmo que estivesse pelo menos metade da intensidade de antes. Deixei as chaves onde estavam antes de entrarmos na pista e me virei para .
- Precisa de carona?
- As aulas ainda não acabaram – Apontou para o prédio silencioso, sem nenhum aluno à vista.
- E daí?
- Ah, me esqueci de com quem estou falando – Riu e olhou no relógio de pulso – Vejamos, tenho que trabalhar daqui à uma hora e meia, então não posso ir para casa, acho que vou ficar por aqui mesmo.
- Eu não estava perguntando se você queria carona para casa – Olhei de novo para o prédio, preocupado que alguém nos visse ali e nos mandasse para dentro da sala de aula.
- Então, ok.
- O que você está fazendo em casa tão cedo? – Meredith jogou uma pilha de papéis no balcão da cozinha, e correu para a geladeira.
- O professor de Língua Inglesa ficou doente e não foi à aula, nos liberaram mais cedo – Dei de ombros.
- Você se esquece que eu tive a sua idade poucos anos atrás, – Ela bebeu o copo de água quase todo em um só gole – Pelo amor de Deus, não mate aula, mas se vai matar, não vai para dentro de casa para tentar me enganar com essa cara-de-pau, ok, amorzinho?
- Sim, mamãe – Sorri falsamente. Ela odeia quando eu a chamo de “mamãe”, pois sabe que, vindo de mim, aquela palavra só poderia conter ironia, mas a verdade é que eu só gosto de ver a cara dela quando eu falo isso, tanto quanto ela gosta de ver minha cara quando me chama de “amorzinho.” Ela ia responder quando olhou para o lado e viu escorada no balcão, perto da saída para a garagem.
- Ah, era exatamente com você que eu queria falar – Meredith deixou um envelope branco e grande no balcão, pegou o resto dos papéis e um copo de café – John não vai poder trabalhar amanhã, ele me pediu para trocar com você, ele trabalha hoje e você fica com a tarde livre, amanhã você trabalha.
- Sem problemas – deu de ombros.
Mesmo ouvindo a conversa das duas, eu não tirava os olhos do envelope branco, com o nome “” nele.
- Ótimo – Ela sorriu e se virou para mim, desviei o olhar imediatamente, antes que ela pudesse adivinhar o que eu queria fazer – Não me espere para o almoço, juízo os dois – Apontou para mim e – E o que tiverem que fazer, faça no seu quarto, , fique longe dos outros.
- MÃE! – Protestei – O que você acha que a gente vai fazer aqui? – Perguntei, indignado.
- Você pensou que a casa estaria vazia, não pensou? – Se a minha própria mãe estava pensando isso de mim, eu não quero nem saber o que se passa na cabeça das outras pessoas – Ele está vermelho, acho que é a primeira vez que isso acontece – Ela se virou para . Eu mal estava conseguindo conter a raiva que eu sentia naquele momento.
- Eu vou chamar um assistente social – Bufei.
- Tchau, crianças – Meredith riu e saiu pela porta da garagem.
gargalhou no momento que a porta se fechou.
- Para de rir.
- Não dá – Ela abaixou a cabeça no balcão e riu mais ainda.
Rolei os olhos.
- Eu não mereço isso.
- Ela é incrível – respirou fundo tentando se recompor.
- Incrivelmente inconveniente – Puxei o envelope para perto de mim assim que ouvi a garagem se fechar depois do carro da minha mãe sair.
- Ou incrivelmente certa. Você não estava planejando abusar de mim ou outra coisa do tipo, não é? – Ela se levantou e foi se sentar no banco ao meu lado.
- Claro que não – Falei distraidamente, ainda tentando entender o que era aquilo.
- Sorte a minha que eu ando com spray de pimenta na bolsa – Deu de ombros.
Foi aí que eu entendi. Era um documento, pedia assinatura da minha mãe, de Liam e dos pais de . Eles estavam pedindo a guarda legal dela. Por que ninguém tinha comentado isso comigo? Tudo bem que eu e mal estávamos nos falando, mas seria bem melhor ouvir por um “Bom dia, quer café? Ah, a propósito, vou virar sua irmã, não tem problema, não é?” do que descobrir o fato quase concreto.
Coloquei o papel de volta dentro do envelope e joguei no balcão de qualquer jeito. Saí da cozinha com tudo.
- EI! – gritou, vindo atrás de mim. Eu tinha me esquecido dela.
- Desculpa – Voltei a andar quando ela me alcançou e comecei a subir as escadas, para o meu quarto.
- O que era aquilo? – Ela me seguiu até o quarto.
- Minha mãe e meu padrasto vão adotar – Sorri cinicamente ao me sentar na cama.
- O quê? – Ela abriu os olhos levemente, surpresa – Mas cadê os pais dela?
- Eles a expulsaram de casa, pouco tempo atrás.
- O pai dela não é o prefeito?
- Exato – Sentou-se ao meu lado.
- Ela não contou para você?
- Não. Mas foda-se ela e o que ela quer fazer. A partir desse exato momento, não é mais problema meu.
- Você não tá falando sério.
- É claro que eu estou – Olhei para ela tentando não descontar minha raiva na única pessoa que parecia estar do meu lado.
Eu não deveria estar tão puto quando eu estava naquela hora. Aquilo era exatamente o que eu queria, queria ali, que largasse aquela família tradicional demais para o bem dela e viesse morar comigo. Mas isso foi antes, quando eu sabia que era só minha melhor amiga, não uma menina que mora na minha casa, alguém que parece que mal conheço e que anda namorando um cara que eu odeio.
sorriu de uma forma confortadora e pôs uma das mãos no meu pescoço, acariciando.
16.
- Pára! Pára!
- Não!
- ! – gargalhou tentando puxar uma das minhas mãos, mas, obviamente, eu era mais forte que ela.
- Peça desculpas.
- Ei, eu só tava falando a verdade – Ela deu um sorriso inocente. Apertei a cintura dela um pouco mais e ela riu ainda mais alto, com cócegas – AI! Tá bom. Desculpa! Desculpa!
- E... – Segurei suas mãos, uma de cada lado do seu rosto.
- E é claro que você beija bem – Rolou os olhos, sorrindo.
- Boa menina.
- Você é muito idiota! – Fez mais esforço para soltar as mãos.
- Por que você está tão surpresa? – Ri alto.
- Odeio você.
- Odeia nada.
- Ei, ninguém se importa se você beija mal – Gargalhou mais alto ainda.
- Tá querendo ficar aí em baixo para sempre? – Abaixei-me um pouco, ficando com a minha barriga colada na dela – Se lembre de que eu não estou jogando mais, e eu não como coisas muito saudáveis.
- Isso só me diz que você beija mal e ainda é gordo.
- Você vai usar tudo que eu falar contra mim, não vai?
- Vou sim, então é melhor ficar caladinho – Ela relaxou sorrindo, já parecendo nem se importar se estava, ou não, embaixo de mim.
- Por mim, tudo bem.
Aproximei nossos rostos sem esperar uma resposta. já estava com a boca entreaberta quando comecei a beijá-la. Beijei como todas as vezes que eu sentia vontade de beijá-la, como se fosse a última coisa a se fazer, como se fosse a última vez. De um jeito que me deixava atordoado.
- ... – Ela mordeu de leve meu lábio inferior e se separou o mínimo necessário para poder falar.
- Quê?
- Será que dá para você me soltar? Eu sinto como se você estivesse se aproveitando de mim – Sorriu pelo canto da boca quando eu olhei surpreso para minhas mãos que ainda prendia as dela. Afrouxei as minhas para que ela pudesse se movimentar como quisesse.
- Ah. Foi mal – Desculpei-me de verdade. Eu realmente não estava prestando atenção em nada à minha volta. Nem mesmo que não tinha fechado a porta do quarto, sem me preocupar que alguém poderia chegar em casa e me ver... daquele jeito.
- Você até que fica bonitinho quando está com vergonha – colocou uma mão na minha bochecha.
- Pode aproveitar, não vai acontecer novamente.
- Eu duvido muito, mas ok.
Colei minha boca com a dela novamente, dessa vez começando pelo canto, apenas deslizando por toda sua extensão antes de pedir passagem para recomeçar o que paramos. Com as mãos agora livres, coloquei uma em sua cintura, me controlando para realmente deixá-la só ali. Eu queria ir em frente, mas alguma coisa dentro de mim me deixava congelado, talvez um medo irracional de estragar tudo. Mesmo que eu nunca tivesse tido esse medo antes, mesmo que fosse idiotice pensar dessa maneira, uma vez que testar os limites de uma garota sempre foi um dos meus hobbies favoritos, algo dentro de mim estava praticamente gritando que eu iria me arrepender se eu estragasse as coisas.
- O que vocês estão fazendo? – Dei um pulo para fora da cama quando ouvi a voz da minha irmã na porta.
Ela olhava desconfiada de mim para , na cama.
- Oi, Ammy – Falei ao mesmo tempo em que pensava em uma desculpa plausível e dentro do nível de entendimento da minha irmã de três anos que me pegou na minha cama, em cima de uma garota – Nós estávamos só... brincando.
Ouvi prender o riso e olhei para ela, reprovando. Tudo bem que eu tinha falado merda, mas será que dava para pelo menos colaborar?
- Ei, Ammy – Ela se levantou da cama, arrumando a própria saia que estava pelo menos um palmo acima do normal. Infelizmente para mim, ela estava usando um short por baixo – Você gosta de desenhar?
- Sim...
- Então vem cá – pegou o próprio caderno, jogado no chão, junto às suas outras coisas, e se sentou se encostando na minha cama. Ammy se sentou ao lado dela – E assim, , é como se enrola uma criança.
- Não quero que me enrole! – Minha irmã protestou.
Olhei para , vitorioso.
- Acho que eu devo avisar que ela entende praticamente tudo o que falamos – Dei de ombros ao me sentar perto delas – Ninguém por aqui tem o costume de falar com ela como se fosse uma criança, e este adulto anão nasceu precocemente – Dei de ombros e puxei um cacho do cabelo de Ammy, que me olhou com raiva.
- Eu já falei que não sou anão!
- Beleza, foi mal.
riu alto e abriu o caderno.
Surpreendi-me quando vi vários desenhos, extremamente detalhados. Eu ia protestar o fato de que ela nunca me contara que sabia desenhar, mas quando avaliei uma segunda vez o que eu iria dizer só consegui pensar em duas possíveis respostas que poderia me dar: “você nunca perguntou” e “por que contaria?” Nenhuma delas soava muito bem, então fiquei na minha.
Ammy sorriu quando colocou sua mão sobre a dela, com um lápis em mãos e passaram a desenhar algo que, a princípio, tinha a forma do perfil da cabeça de um cachorro.
Minha irmã vibrou, tentando não mexer a mão direita mais do que conduzia. No papel, o formato lentamente tomava as proporções e detalhes de um cachorro. Eu sabia que era fazendo aquilo, então apenas sorri e falei:
- Você tem talento, ratinha.
- Eu sei – Aumentou o sorriso quando ouviu o apelido que eu mesmo lhe dei, e que há muito tempo não usava.
- Parece que amor próprio excessivo é uma característica que vocês dois herdaram – gargalhou e soltou a mão quando o desenho ficou pronto – Prontinho, Ammy, agora você pode se considerar uma desenhista profissional.
- Eu não sei o que é “profissoal” – Ela olhou para mim, como ela sempre faz quando minha mãe ou Liam não estão por perto. Eu sou meio que a terceira pessoa na lista de pessoas que ela confia o serviço “tira-dúvidas.”
- Profissional – Repeti a palavra lentamente.
- Profissoal – Ela falou mais uma vez, convicta de que estava certa.
Rolei os olhos.
- Deixa para lá – Olhei para , que sorria.
- Posso mostrar para mamãe? – Ammy abraçou o caderno.
- Eu tenho uma ideia melhor – arrancou a folha do próprio caderno – Agora você pode levar para onde quiser – Entregou-a.
- Eba! – Levantou-se com um pulo, mas com cuidado para não amassar o papel.
- Ammy, cadê...? – Julie apareceu com uma toalha da Disney nas mãos. Quando seus olhos bateram em , fechou a cara.
Para completar a reunião no meu quarto, entrou também.
Bufei.
- O nível de hormônio feminino está um pouco elevado por aqui hoje – Falei, sem economizar na ironia.
- Isso não é uma surpresa, já que, até onde eu sei, este quarto pertence a – Julie cruzou os braços – Mas não precisa se preocupar, não pretendo ficar aqui mais que o necessário – Pegou a mão de Ammy que estava completamente alheia ao que se passava ali, apenas admirava o desenho em mãos.
- Rá, ela fala comigo! – Sorri, fingindo surpresa, mas tirei qualquer emoção do meu rosto segundos depois, com o intuito apenas de irritar. Ela bufou e saiu do meu quarto.
- Isso não foi nem um pouco constrangedor – falou baixo ao meu lado. Mesmo sem encará-la, em minha cabeça, eu poderia vê-la prendendo a risada.
- Pare de atormentar a menina, – encostou-se no batente da porta, com minhas coisas que deixei na sala de aula no momento em que decidi matar as aulas do resto do dia. Como de costume, sempre pegava-as. Em sua outra mão, em cima dos seus próprios livros, estava o envelope que minha mãe deixara na cozinha.
- O que é isso na sua mão, ? – Perguntei sem rodeios. Iniciar uma conversa meticulosamente armada para o assunto “acidentalmente” acabar sendo o envelope em suas mãos seria sem sentido.
- O quê? Suas coisas?
- Na outra.
- Ah – Olhou para a outra mão e passou alguns segundos para voltar a falar – Nada importante.
- Entendi – Falei de um modo que ela entendesse que eu realmente não tinha entendido porra nenhuma.
- Você leu, não foi? – Colocou minhas coisas no chão e cruzou os braços por cima dos seus livros. Ela me olhou irritada.
- Você acha? – Sorri, cínico. Minha mãe deveria estar com a cabeça eu outro lugar (talvez outro mundo) quando deixou aquele envelope no balcão, livre para quem quisesse ver.
encarou o teto depois voltou a olhar para mim, sem fazer nenhuma menção de que queria estender a conversa.
- Quer saber de uma coisa? – Controlei qualquer instinto de raiva. Respirei fundo – Faça o que quiser. Eu estou pouco me fodendo.
- ... – Ela começou a falar, mas eu me levantei completamente transtornado, sem paciência para discutir com naquele momento – Não precisa arrumar uma confusão por causa disto – Ela levantou o papel na altura do rosto e arremessou-o na minha mesa, em cima do meu notebook, com precisão.
- E por que não?
- Eu não vou levar isso até o fim, foi ideia da sua mãe. Foi por isso que eu não contei para você. Não é importante – Bufou.
- Eu vou fazer... alguma coisa... lá fora – se levantou, desconfortável. observou-a, e depois me encarou daquele jeito que me diz que finalmente juntou todas as peças do quebra-cabeça.
- Não é necessário – Sorriu. Lancei-lhe um olhar, prometendo deixar a situação um tanto violenta caso ela se atrevesse a dar qualquer tipo de opinião sobre o fato de estar ali. é boa demais em decifrar o que se passa na minha cabeça, a ponto de delatar exatamente o que eu quero tanto esconder – Não me olhe assim, , eu sei que ela é sua nova .
Semicerrei os olhos.
- Eu sou? – Observei sorrir rapidamente, depois tentar disfarçar.
“Ótimo”, pensei, “simplesmente perfeito.”
- ... – Tentei fazê-la parar.
- O que foi? Ela deve saber que é a única pessoa, além de mim, que entra aqui e consegue manter as roupas no corpo – Falou, olhando diretamente para .
- Será que podemos voltar para o assunto original? – Olhei para o teto, impossibilitado de olhar para a cara dela, enquanto fingia que o que eu estava falando não valia nada. Fazia-me parecer patético e idiota.
- Ok, ok, ok – Deu de ombros – O que eu estava falando é que você está fazendo uma tempestade em um copo d’água. Eu não posso chegar para os meus pais e simplesmente falar: “Oi, mamãe e papai, quanto tempo! Gostaram da minha barriga? Ah, será que vocês podem assinar um documento que transfere minha guarda para uma pessoa que vocês odeiam? Obrigada!” – Quando ela terminou de falar, já não tinha mais nenhum vestígio de alegria em seu rosto.
- É claro que pode! – Protestei enquanto tentava me imaginar na mesma situação.
cruzou os braços, desconfortavelmente e falou:
- Só porque você os chama de “mamãe” e “papai” não quer dizer que eles realmente sejam seus pais – Olhou diretamente para mim, que era o único que sabia do que estava falando.
Assenti, concordando.
- Eles não hesitaram quando disseram que não queriam se responsabilizar – Falei – Eles colocaram você para fora de casa, ! Seria hipocrisia não assinar – Não consegui controlar a indignação na minha voz.
me encarou um pouco, depois olhou para e de volta para mim. Ela parecia estar organizando os pensamentos. Eu sabia exatamente o que ela queria, mas nunca teve coragem de enfrentar seus pais, essa vez certamente não seria diferente.
Depois de um minuto de tensão, ela suspirou pesado.
- Não é tão fácil assim, ok? – Colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha, pegou o papel e saiu do quarto sem nem olhar para trás, ou fechar a porta.
Mas eu já tinha aprendido minha lição. Fui até ela, fechei-a e olhei para , que encarava a parede com o cenho franzido, parecendo uma autista.
- O que foi?
- Posso te perguntar uma coisa? – Prendeu o riso.
- Pode.
- Você, por acaso, tem algum transtorno bipolar?
- Como assim?
- Você não estava com raiva dela agorinha? Como acabou defendendo o papel que criou toda a confusão, em primeiro lugar? – Ela continuou a me encarar com um olhar indagador enquanto eu andava até minha cama e me deitava lá.
- Minha relação com é... – Fingi pensar – Entranha.
- Já percebi isso – Falou em tom óbvio e deitou-se ao meu lado – Eu não entendo essa mistura de sentimentos – Fiz uma careta ao som da última palavra. Sempre achei que ela quer dizer mais que sua definição do dicionário – Quer dizer, você não conseguiu ficar com raiva dela e eu não troco uma palavra com desde a festa na casa do .
- Isso é porque é um idiota.
- Pára com isso, – Bufou.
- Parar com o quê? – Revoltei-me – Você viu o que ele fez com você na festa! – Foi então quando me lembrei do quê ele falara naquele dia. Claramente ele deixou muito puta por causa de algo que eu não fazia a mínima ideia do que era. Toda essa ignorância em relação a ela, enquanto ele parecia saber tanto, me deixava sentindo algo entranho. Algo entre raiva e ansiedade. Mas procurei não demonstrar tal... sentimento. Argh.
- Foi só uma briga.
- Não, não foi – Bufei – Pensando bem, talvez ele nem seja o idiota nessa história.
- O que merda você quis dizer com isso? – Ela se apoiou no cotovelo e me olhou com o cenho franzido e a boca fechada com força, numa raiva contida. Ela sabia que eu estava certo.
- Obviamente, não é ele escondendo coisas de mim.
- Eu achei que você não se importasse – finalmente se sentou e cruzou os braços, indignada. Rolei os olhos e fiquei na mesma posição.
- Eu nunca disse que não me importo!
- Ah, e como eu iria adivinhar?
- Porra, você é idiota? – Contive minha voz – Se alguém me fala que você está escondendo alguma coisa de mim, e, a propósito, você confirma, é óbvio que eu quero saber o que é!
- Bom, , algumas coisas não são da sua conta. Você vai ter que aceitar isso e pronto – Ela levantou-se na cama ao mesmo tempo que eu e me encarou completamente furiosa. Dei um sorriso amargo e desviei seu olhar – Qual é a graça?
- Nada, é só irônico. Depois de tantos anos, eu finalmente fiquei com uma garota e não sou o canalha mentiroso da história.
Meu comentário pareceu atingi-la como uma faca.
Eu não iria admitir, mas o que eu estava sentindo naquele momento era muito mais do que só raiva, muito mais do que indignação. Era mais uma decepção, pois, pela primeira vez, eu realmente estava com uma garota e não pensava se queria que terminasse, se tinha um prazo de validade. Na verdade, pensar no que ela representa para mim gera, no mínimo, uma dor de cabeça. O que quer que fosse para mim, a atração mútua e a constante vontade de estar perto, tudo isso nasceu sem autorização. Por mim, ela ainda seria a menina nova, amiga do , alguém que nunca chamaria minha atenção. Mas eu queria que a mesma célula involuntária do meu corpo que fez ela entrar na minha cabeça, decidisse se ela iria ficar, ou se simplesmente sumiria quando eu me cansasse. Eu só não queria ser aquele a decidir. Que fosse até onde tivesse de ir.
estava conseguindo alcançar meu limite.
- Você não faz ideia do que está falando.
- Eu saberia se você me explicasse – Falei como se ela fosse uma menina de dois anos – Esse não é o motivo de toda discussão?
- Talvez, se você confiasse em mim, não estaríamos tendo problema nenhum – Ela falou calmamente, talvez tentando amenizar a situação.
- Mas eu não confio – Cruzei os braços, apesar de uma frieza nas pernas, aquela que sentimos quando finalmente falamos o que estava entalado no fundo da garganta, que de repente sai sem permissão. Tentei agir como se aquilo fosse o que eu realmente queria dizer, mesmo que eu estivesse, um pouco, talvez, bem lá no fundo, arrependido.
- Claro que não – balançou a cabeça negativamente – Quer brincar de ser honesto, ? Então vamos lá – Ela se apressou e se sentou propriamente na cama, ficando frente a frente comigo.
Ainda em pé, fiquei parado do outro lado da cama, de frente para ela, com uma sobrancelha arqueada.
- O que você quer fazer?
- Você fica aí, me olhando como se fosse o certo em tudo, o Sr. Honesto – Cruzou as mãos no colo, como se fosse iniciar um discurso, ou talvez estivesse só tentando me irritar – Se você vai me chamar de mentirosa, que tal colocar em discussão as suas mentiras. Talvez devêssemos começar pelo fato de que você me prometeu que não tinha nada a ver com o desaparecimento de quando ele ia estudar com . Naquele mesmo dia você me disse que nunca quebra uma promessa.
- Isso é completamente diferente!
- Como?!
- Porque naquela época eu não gostava de você!
Ela ficou tão surpresa quanto eu com aquela resposta.
A porra da minha boca grande. E eu aqui achando que essa história de pensar antes de falar era conversa fiada.
- Você o quê?! – deixou a boca levemente aberta.
- Nada.
Ela soltou uma risada, incrédula.
Eu não iria dizer de novo! É claro que não! Eu tinha falado sem querer, ela não tinha entendido? No momento em que eu dizer isso, quer dizer, quando eu realmente quiser falar isso, vai ser o momento em que eu aceitar que gostar de uma menina é normal, que está tudo bem com isso. A verdade mesmo é que é muito mais fácil lidar com o ódio de uma menina do que com seu amor. Ok, amor pode ser um exagero, mas só o fato de ter uma menina mexendo com a minha cabeça já me deixa com um arrepio na espinha.
- Falando em mentiras... – Ela arqueou uma sobrancelha, com um sorriso cínico no canto da boca, quase escondido.
- Acho que fugimos um pouco do assunto – Arqueei uma sobrancelha e me encostei na mesa.
Respirei fundo e passei a observá-la. Realmente observar. Querendo ou não, eu tinha dito que gostava dela e não tinha mentido. Ok, eu não tinha gostado nada de ter admitido, foi apenas o fruto do meu subconsciente gritando para sair. O estranho era que eu sempre soube reprimi-lo muito bem.
- Na verdade, eu acho chegamos ao centro do nosso problema – amansou o tom de voz.
- Como assim? – Relaxei do mesmo jeito.
Ela ia voltar a falar, mas fechou a boca logo em seguida, como se ponderasse se falasse, o que quer que tinha que falar, ou não.
- Por que você acha que eu nunca tinha falado com você sobre o seu “problema” – Fez aspas com as mãos – com o ?
- Não sei, “porque discutir comigo é inútil”?
- Não – Rolou os olhos – Porque você tem as suas coisas para resolver. Quero dizer, eu acho que é algo que você e ele deveriam resolver – Ela respirou fundo e se aproximou de mim, ficando frente a frente, mas não perto o suficiente para que pudéssemos nos tocar – Aquilo que falou no dia da festa é algo que eu quero resolver sozinha.
- Faça o que quer que ache ser certo – Respondi um pouco mais mal-humorado do que pretendia.
levantou a cabeça levemente, como se me avisasse que tinha “entendido o recado.”
Eu estava puto. Se esse fora seu objetivo, tinha tido cem por cento de sucesso.
- Preciso ir para casa – Falou, simplesmente.
- Não precisa, não. Você só quer fugir de mim – Bufei.
- É, é tudo sobre você, ! – Rolou os olhos.
- Por que merda você está com tanta raiva? – Esbravejei.
- Estou com raiva de mim, por me fazer entrar nessa coisa conturbada chamada “eu e você”, achando que valeria o risco – Falou no mesmo tom.
- Você está com raiva é porque eu não falei o que queria ouvir – À medida que estava perdendo o controle, apertava a quina da mesa com uma força que aumentava exponencialmente, mas eu não percebia – Pare de agir como se fosse diferente ou melhor que qualquer um!
A janela atrás da menina me pareceu bem mais atrativa que a expressão da menina que tinha voltado à hostilidade.
- Não, , na verdade você falou exatamente o que uma garota quer ouvir de você, ou de qualquer outro cara – Por minha visão periférica, a vi cruzar os braços e me encarar pesadamente – Você gosta de um garoto, e ele fala que gosta de você, é um pouco mais comum do que você imagina. Mas é genérico! Que tal tentar dizer algo que só você diria. Aí saberei que fala a verdade!
- E por que eu tenho que provar algo? – Olhei para ela rapidamente, forçando um desprezo que eu não sentia.
- Porque, enquanto você não provar para uma menina e para si mesmo que não está apenas brincando às custas dos sentimentos de alguém, nunca vai crescer – Ela pegou suas coisas, sem me encarar, ao passo que eu soltei a mesa atrás de mim e, pela dor nas dobras dos meus dedos, percebi que precisava me acalmar.
- E você quer que eu prove isso para você? – Quase ri de tanta incredulidade.
- Só quero adiantar algo que você vai aprender um dia com a vida, por bem ou por mal, como aconteceu comigo – me encarou séria, mas a máscara que ela colocou no rosto era praticamente uma peneira, eu poderia ver os vestígios de mágoa no rosto.
Não gostei do rumo que a conversa tinha tomado, e ainda menos do jeito que ela me olhava, como se estivesse desistindo de algo.
Fiquei calado, não consegui pensar em nada relevante para se dizer.
Ela percebeu que eu não me pronunciaria, então continuou.
- Com você, qualquer coisa, por mais simples que seja, se torna complicado.
- Mas você já sabia disso – Dei de ombros.
- Sabia – Assentiu levemente – Eu não quero fazer parte do seu projeto de se conhecer, – Falou, simplesmente, com um sorriso meio triste – As outras meninas podem não se importar, ou não conhecem você o suficiente para perceberem, mas... – Parou e mexeu no cabelo, pensativa – Eu não menti quando falei que gosto de você, mas tudo tem limite.
Ela passou por mim, na direção da porta do meu quarto e colocou a mão na maçaneta. Mas eu, em um surto que não pude explicar, me estiquei para puxar sua mão, impedindo-a de sair. Quando olhei para ela, senti um calafrio nervoso idiota que martelava minha espinha, consequência do que eu internamente queria. Eu queria que ela mudasse de ideia, que não quisesse exigir de mim algo que eu dificilmente daria.
Quando achei que ela fosse se soltar de mim, e sair do quarto de vez, ela apenas colocou a mão livre em uma das minhas bochechas e deu um beijo na outra.
Deslizou para minha boca.
Pela firmeza com que ela segurava minha mão, vi que não queria seguir adiante. E nem queria parar.
Eu não sabia se ficar ali, tocando-a, estava melhorando ou piorando a situação. Na verdade, eu estava pouco me importando. Estava ocupado demais me sentindo um idiota por não conseguir esboçar o mínimo de reação. Pela merda de um medo que só naquele momento eu percebi existir. Eu estava com medo do que aquela menina estava fazendo comigo. Passei a minha vida toda muito bem dentro da minha zona de conforto, aí ela aparece e tudo – tudo mesmo! – sai dos trilhos. Eu tinha um plano para praticamente o resto da minha vida, agora eu realmente não sabia nem o que seria o dia de amanhã, e ainda assim parecia estar bem mais certo que todos os anos em que coloquei minha cabeça no travesseiro a cada noite, pensando que minha vida estava praticamente feita: bolsa na faculdade, futebol, sair daquela cidade. Pronto.
Prendi a respiração quando ela se afastou e deu um sorriso sem mostrar os dentes.
Dessa vez eu deixei que abrisse a porta.
Quando colocou o pé para fora, ela se virou, como se tivesse esquecido algo.
- A gente se fala...
Olhei para ela transparecendo meu pensamento: “Até parece.” Ela entendeu exatamente o que eu quis dizer e encolheu os ombros como se pedisse desculpas.
Inconscientemente, prendi minha respiração enquanto ela descia as escadas, em passos rápidos, como se não quisesse ser percebida.
Ouvir o baque da porta da entrada, foi como um balde de água fria.
- O que porra você está fazendo, ? – Perguntei em voz alta.
Eu estava gostando dela.
Olhei mais uma vez para a escada vazia e fechei a porta com força.
Eu estava gostando dela.
Porra, estava mesmo difícil admitir aquilo para mim mesmo? Negar seria como tentar derrubar a teoria da gravidade. Mas o que eu faria em relação a isso? Acabar? Seria uma saída bem estratégica, ela tinha acabado de me dar essa brecha. Levar em frente é que seria o desafio maior. Não me culpo por não querer algo que pode me quebrar no meio.
Na verdade, querer e não querer. Mas que merda.
Bati na porta do quarto de hóspedes no mesmo tempo em que bocejava. Nem acreditei quando acordei e vi cinco horas da tarde no relógio. Depois que tinha saído, eu não tive saco para fazer mais nada, nem desci para almoçar, apesar de ter ouvido batidas insistentes na porta que eu não tinha certeza de quem era. Ignorei tudo e todos, e praticamente desmaiei na cama.
A permissão para entrar no quarto veio segundos depois.
estava com a cabeça enfiada dentro do guarda-roupa e, pelo canto do olho, vi uma figura masculina esparramada na cama. Virei-me bruscamente achando que encontraria , mas era só . Relaxei.
- Achei que você tivesse esquecido onde eu moro – Falei ao me jogar na poltrona ao lado da cama.
- E esqueci. Procurei no Google Maps – Deu de ombros, quase dormindo.
puxou um monte de roupas e as jogou no chão, com um grunhido de frustração.
- O que ela está fazendo? – Perguntei para .
- Ela está se achando gorda e nenhuma roupa cabe nela – Ele disse quase rindo. Ri também. poderia passar longe do conceito de fútil, mas ainda prezava pela aparência.
- Cala a boca, – Ele se encolheu quando ela arremessou uma calça jeans nele – Eu desisto – Se jogou na cama, ao lado de , que se ajeitou para que ela colocasse a cabeça no seu peito – Vou usar roupas de vocês dois até voltar a ser pequena e magra.
- Ou você pode comprar roupas novas – Falei, meio receoso. A calça jeans ainda estava por perto dela. Assim como os hormônios.
- Vocês vão comigo? – Ela me olhou, esperançosa, ao passo que me fuzilava.
Sorri amarelo, só para ganhar tempo para arrumar uma desculpa.
- Acho que April seria uma companhia bem mais útil – Arrisquei.
- April vai passar a semana na casa dos avôs – quase choramingou. Olhei para ele por meio segundo pensando na dificuldade de me acostumar com essa versão apaixonada do meu melhor amigo, que costumava ser tão parecido comigo.
- Você quer fazer compras, por acaso? – Perguntei, frustrado. Custava colaborar, cacete?
gargalhou junto com ele.
- Mais alguma ideia, gênio? – Ela perguntou.
Eu tinha uma ideia sim, mas não queria dizer em voz alta.
Mas mesmo que minha intuição gritasse que não, eu falei.
- E quanto à ?
- ? – franziu o cenho por alguns segundos, depois relaxou, quando se lembrou de quem era – Ah! A brasileira?
- Onde ela está, afinal de contas? – Ela parou para observar ao meu redor.
- Por que ele saberia onde a está? – me observou, confuso.
- Mas você é muito desligado mesmo, hein? – riu – Ainda não percebeu que nosso pequeno está crescendo e finalmente está gostando de uma menina?
Ótimo, parece que eu sou realmente o último a saber o que se passa dentro da minha cabeça.
- Não exagera, ! – Protestei, já impaciente.
- Vocês estão ficando, ou alguma coisa do tipo? – perguntou.
- Não – “Não mais” eu deveria ter dito – Nós ficamos. Algumas vezes.
- Você trouxe ela aqui hoje! – A garota pulou na cama, rindo – Vamos, , somos seus dois melhores amigos. Pode falar que gosta dela. Ninguém vai saber.
- Acho que nunca presenciei algo tão inédito – gargalhou.
Fiquei calado. Irritado.
- Por que ela não está aqui? – me encarou, desafiadora.
- Porque ela está na casa dela – Retruquei.
- Você queria que ela estivesse aqui?
- Não – “Sim”, meu subconsciente me corrigiu.
- Você está pensando em quando vai vê-la de novo?
- Não – O que adiantaria vê-la novamente se não tinha nada a ser dito? Ok, tinha muita coisa a ser dita, mas eu só pensava no que diabos ela estava escondendo de mim. Eu sou eu. . Conheço-me bem o suficiente para saber que aquilo ainda ia me atormentar o bastante. Eu poderia ter esquecido por alguns dias, desde a festa na casa de , mas depois da briga de antes, tudo o que eu conseguia pensar só de lembrar o rosto dela, com aquela expressão de desistência, era que aquilo que ela estava escondendo era algo que a mantinha mais perto de mim, não sei dizer por quê.
- Inacreditável! – riu alto com aquela expressão de idiota alegre que me trouxe de volta à realidade.
- Eu, definitivamente, vou chamá-la para ir ao shopping comigo – pegou o celular na mesa e veio na minha direção – Qual é o número dela?
- Não vou dizer – Coloquei minha mão no bolso, só para garantir que ela não pulasse em cima de mim para me roubar.
- Se você não me disser, eu vou arrumar com o de qualquer jeito – Arqueou a sobrancelha – Você só vai me fazer perder um pouco de tempo.
- Duvido muito – Falei, me lembrando de quando falou que ela e não se falaram a semana inteira.
- Eu consigo com o – esfregou as mãos uma na outra, como se estivesse salvando o dia.
- Você também?!
- Foi mal, cara, eu tenho que ver isso de perto.
- Idiota.
- Me dá o celular, – cruzou os braços.
- Não dou.
- Por favor.
- Não dou, caramba!
- Se você não está gostando dela, então qual é a preocupação? – Ela usou aquele velho tom de voz de “eu pago para ver.”
- Tá! Eu dou! Que saco – Entreguei meu celular a ela.
- Como o nome dela está na agenda? – Ela começou a mexer no teclado, toda sorridente – Amorzinho? Docinho? Linda?
- Tenta “coração”! – gargalhou junto com .
- Vocês dois são patéticos – Rolei os olhos.
- Achei! – A menina vibrou e transferiu o número de para o próprio celular via Bluetooth.
- Eu vou beber água – se levantou e saiu do quarto.
Aproveitei aquela oportunidade e me levante rapidamente para segurar o celular de antes que ela pudesse apertar o botão “send.” Ela me olhou, confusa.
- Eu... – Mordi a parte inferior do meu lábio quase involuntariamente – Eu... Gosto. Eu gosto dela – Falei rapidamente.
- Eu sei – sorriu fraco. O que me surpreendeu um pouco, pois esperava mais uma sessão de incredulidade – Ela sabe disso?
- Acho que sim – Cocei a nuca – Quer dizer, ela sabe sim. Mas nós meio que brigamos e foi por isso que ela foi para casa.
- Foi sério?
- Acho que você não vai nos ver se falando por um tempo – Dei de ombros, começando a soar um pouco conformado com aquilo.
- Por que você sugeriu que eu saísse com ela então? – Franziu o cenho.
- Porque você vai gostar dela – Falei simplesmente. O que era a pura verdade.
- Você gosta dela de verdade, não é? – sorriu abertamente.
- Não força a barra, gordinha – Soltei sua mão, liberando seu celular.
- Ótimo! Levanta minha auto-estima – Deu uma tapa de leve no meu ombro, mas depois jogou seus braços ao redor do meu pescoço – Eu senti falta de ser sua amiga desse jeito, ok? Sem todo o drama.
- Eu sei – Respondi, quando ela se afastou. Ela sorriu e eu não precisei falar mais nada.
- Agora vai lá para baixo que quer contar uma coisa para você – Deu-me um empurrão de leve na direção da porta.
- Ele não está grávido também, está?
- Acho que não – Mostrou a língua.
Desci rapidamente até a cozinha. estava apoiado na pia da cozinha, colocando o copo de água vazio lá. Quando ele se virou, deu de cara comigo.
Ele me lançou aquela velha expressão de cumplicidade e perguntou:
- Você soube do Williams?
17.
- Eu sei que já perguntei isso algumas vezes, mas de quem foi essa idéia?
- Pára de reclamar, , a gente se acostuma...
- Sério. Uma festa na praia no fim do outono? Alguém anda assistindo filmes demais sobre tortura medieval – Fechei meu casaco, a fim de não deixar nenhuma brisa me atingir.
- Olha – apontou para onde um grupo de pessoas já estava amontoado; O som do carro acima do volume permitido em um horário de dia na semana chamava atenção de qualquer um que passasse a algumas ruas dali – Tem uma fogueira, você pode parar de chorar agora.
- Eu deveria ter ficado em casa.
- Pra quê? Ela não vai aparecer por lá, mesmo.
- Ela quem? – Coloquei as mãos nos bolsos do casaco.
Nós dois andávamos rápido para esquentar um pouco. Aquela noite, em particular, estava mais fria que todas as outras, e o fato de estarmos na beira da praia fazia questão de atrapalhar.
- Eu não sou idiota. Você passou o dia inteiro encarando a tela do telefone – Ele falou com uma voz distraída, mas rindo – Encarou a porta da casa o dia todo, esperando voltar com nova amiga dela. Boa mesmo foi sua tromba quando ela apareceu sozinha! Já entendi o esquema todo, cara.
- Tem certeza de que você não é um idiota? – Torci o nariz.
- Ou você sai de casa, ou você vai começar a parecer patético.
- Não tem nada a ver com – Declarei, tentando em vão fazê-lo acreditar em mim – Eu não quero sair de casa. Se eu quiser assistir idiotas, eu ligo a TV numa comédia americana sem propósito.
- Larga essa fossa, cara.
- Você é um pé no saco. Vou pensar duas vezes antes abrir a porta para você na minha casa, de novo.
- Você vai me agradecer depois – Ele deu dois tapas de leve nas minhas costas e empurrou um pouco para que eu apressasse o passo.
- Duvido muito, mamãe.
Ele gargalhou.
Com o aproximar, consegui passar a distinguir os rostos no meio das pessoas ao redor de uma fogueira mal feita, claramente improvisada. Ninguém estava prevendo um frio como aquele, o que diminuía meu conceito sobre o nível de idiotice daquele que teve a brilhante ideia de usar aquele dia para uma festa.
Se é que poderia ser considerada uma festa. O público estava evidentemente mais resumido, o que era bom e ruim ao mesmo tempo. Primeiro porque teria que aguentar menos pessoas em horário extra-escolar, segundo porque quanto mais pessoas, melhor para se esconder no meio delas; Parte daquele grupo de, no máximo, trinta tinha nos notado já há alguns metros, mesmo que eu e tivéssemos parado de conversar.
Dando uma rápida escaneada no local, notei os caras do time, alguns outros caras que estavam sempre por perto, mas não muitas garotas. Era só o que faltava, ter que sair de casa para passar o tempo com um monte de marmanjos.
Olhei pra trás, meu carro não estava longe.
- Tem certeza que quer ficar por aqui? – Perguntei a ; ele riu levemente e balançou a cabeça negativamente – Eu to falando sério – Parei de andar, ele também. parecia estar se divertindo às minhas custas, o que normalmente me deixaria irritado, mas naquelas circunstâncias eu já nem me importava – Vamos lá, você liga pra sua namorada, faz um sexo por telefone e apaga esse fogo aí dentro.
- Então, eu coloco no viva-voz ou você vai querer que eu grave para ouvir sozinho?
- Muito engraçado – Rolei os olhos e gargalhei, já não podendo evitar.
- Ou você pode arrumar uma aqui mesmo e parar de encher meu saco – Ele me pegou pelos ombros e me virou de frente para as pessoas que estavam agitadas para pegar uma garrafa de cerveja quente da caixa que um garoto tinha acabado de trazer do seu carro.
Dei mais uma olhada em volta, dessa vez me focando só nos rostos das garotas.
- Eu tenho quase certeza que já dormi com todo mundo aqui.
- Então, eu acho que chegou a hora de mudar de colégio. Você sabe, já que não tem mais nenhuma para corromper por aqui...
Cocei minha nuca e andei em direção à caixa de cerveja perto da fogueira, afundada na areia, peguei uma e me sentei em uma tora de tronco, onde outras pessoas conversavam. Não demorou muito para que mudassem o rumo da conversa de modo que me incluíssem.
Mesmo com o frio, mesmo que aquela cerveja estivesse me esquentando por dentro, não vi a necessidade de tomar mais de uma. Se eu quisesse uma fuga rápida, estar alcoolizado só dificultaria as coisas e eu não estava afim de esperar que tivesse condições de dirigir.
Não sei como, mas infelizmente, como praticamente todas as festas, o assunto sempre acaba sendo o time, jogos, etc. Não é exatamente de se espantar que eu tenha me cansado dessa atmosfera.
- Então, você vai voltar?
- Voltar para onde? – Questionei, quando olhei mais para frente, onde uma garota, cujo rosto era aleatório para mim, estava sentada. Aparentemente era ela quem tinha feito a pergunta, pois me observava como se esperasse a resposta.
- Para o time – Arqueei uma sobrancelha – Depois do escândalo com o Williams essa semana, todos estão dizendo que você vai voltar ao time.
- Claro que ele vai! – Jeremy exclamou ao meu lado – Sem o , nosso time está uma merda.
- Isso vai ser um problema, já que o Williams deu minha posição a outro cara – Falei, despreocupado. Não, eu de fato não iria fingir toda a animação que parecia rondar por ali.
- Você não está sabendo, não é? – riu – Benjamin está sumido há um tempo. O diretor falou que ele cancelou a matrícula. Acho que ele voltou para o Brasil.
- Provavelmente – Sussurrei para mim mesmo. Perguntei-me se sabia daquilo, e se sabia, porque não tinha comentado nada.
- Então, quem foi a garota? – Carly surgiu do meio das pessoas. Achei que ela tivesse falado comigo, mas ela passava seu olhar por toda extensão, e quando passava por mim, era como se eu não estivesse ali.
- Nós não sabemos – Foi quem respondeu – Sabemos que é uma aluna no colégio.
- Por que são sempre os professores de educação física? – Ri – Muito original.
- Garanto que ele não vai aparecer na nossa frente por bom tempo – Um reserva do time gargalhou e bateu a palma da mão na do amigo ao lado.
Com isso, as pessoas começaram a se dispersar.
- Ei, você pode vir aqui um minuto? – me chamou com a mão. Vi que ele tinha acabado de desligar o celular, mas não me importei com este detalhe e apenas obedeci, levantando-me sem questionar.
fez um sinal para que nos acompanhasse, então fiquei um pouco intrigado. O que diabos ele estava querendo comigo e juntos?
Tentei ultrapassar a última tora de tronco de árvore para sair do meio do grupo de pessoas. Uma mão segurando a minha de leve me desviou um pouco do trajeto.
Era uma garota que eu não conhecia. Ela vestia uma saia comprida por baixo de um casaco longo, o que era surpreendentemente impressionante dado o frio que nem eu mesmo estava aguentando, e a garota parecia tão casualmente confortável em seus trajes.
- Olá – Ela sorriu.
- Oi – Respondi um pouco confuso, buscando em minha memória se já tinha visto aquele rosto alguma vez. Nada.
- Sou Dawn, prima do Adam – Ela mordeu os lábios levemente, chamando a minha atenção para aquela área. Atrás dela vi Adam, rir e sair de perto.
- Ok...? – A esperei dizer onde queria chegar, mas qualquer ser humano em posse de um cérebro poderia concluir o que ela queria sem que nenhuma palavra a mais fosse proferida.
- Estou passando a semana na cidade, só estou procurando conhecer o que ela tem de melhor a oferecer. Se é que você me entende – Dawn sorriu de um modo oposto ao inocente, então a reconheci como a garota que iniciou a discussão sobre o Williams no começo da festa.
Sorri de volta, mas instintivamente pensando em outra pessoa.
Não muito distante, mas também não perto o suficiente para nos escutarem, e me aguardavam.
- Espera um pouco e saímos daqui, ok? – Lancei-lhe um olhar significativo e me afastei quando ela respondeu com um sorriso satisfeito.
Os caras já estavam se afastando quando eu me juntei a eles. Ambos subiam na direção do estacionamento, aparentemente também não fazia ideia de onde estávamos indo, pois ele, assim como eu, apenas seguia os passos de . As vezes que questionei o porquê de estarem me afastando da minha possível salvação da noite, fui ignorado.
mandou esperarmos perto do meu carro e pegou o celular que tocava novamente.
- Você está tentando montar um culto religioso, ou... sei lá, algo assim? – riu.
Encostei-me no meu carro e descansei a cabeça nele.
- Eu acho que ele só quer testar nossa paciência – Falei.
- Por que testar? Nós todos sabemos que você não tem uma – falou ao desligar o celular e o devolvê-lo para o bolso – Só vou deixar bem claro que eu não tenho nada a ver com isso – Levantou às mãos na altura da cabeça e olhou para uma distância um pouco atrás de nós.
- O que...? – Eu mesmo me interrompi quando olhei para trás – Não me diga que você armou isso, ! – Voltei a encará-lo já consumido de raiva.
Não demorou muito para chegar até nós, com um caderno preto em mãos que eu não iria nem perguntar o porquê daquele objeto ser trazido a uma festa. Quando menos palavras trocadas, melhor.
- Eu pedi a ele, – O recém-chegado suspirou já impaciente.
- Isso só piora a situação.
- O que você quer, ? – falou pela primeira vez, parecendo estar tão satisfeito quanto eu.
- Falar. Decentemente – Ele falou a última frase dirigindo seu olhar para mim.
- não está por perto, você não precisa bancar o bonzinho – Ri amargamente.
- Eu não estou querendo ser amiguinho de vocês dois. Não sou ... Ou – colocou o caderno que estava em suas mãos em cima do capô do meu carro. Eu poderia até afirmar que ele estava se esforçando para me irritar, mas ao algo me dizia que isso só prejudicaria o que quer que ele tivesse de falar comigo. Meu sexto sentido estava surpreendentemente aguçado naquele momento.
- Já comecei a me arrepender de ter ajudado você – balançou a cabeça negativamente, mas mostrou que não tinha se chateado com o comentário quando riu alto.
- Eu quero a ajuda de vocês dois – O outro falou tão sério que eu tive que rir. Aquela frase tinha soado cômica em todos os sentidos.
- Por que nós dois? – perguntou apontando para ele mesmo e depois para mim.
- Porque esse assunto interessa apenas a nós – Ele suspirou e olhou pensativo para longe – Vocês dois são a única chance que eu tenho. Eu não chegaria a esse ponto se não fosse em último caso, acredite.
- Direto ao ponto, – Falei.
- Quem é o pai do filho de ?
- Não faço a mínima ideia – Declarei rápido, nem ao menos esperar que ele finalizasse sua pergunta.
- Não? – Ele olhou para .
- Não – confirmou.
- Por que você quer saber isso? – Encarei-o duramente, sem demonstrar a curiosidade me martelando. Ok, talvez fosse óbvio, se minha namorada estivesse grávida eu realmente iria querer saber quem foi o responsável, mesmo que a probabilidade daquilo acontecer comigo caminhasse perto do zero. Como eu disse, meu sexto sentido estava elevado, estava esperando muito mais daquela conversa que uma pergunta simples, respondida por um não.
- Eu acho que é da minha conta.
- Se você diz...
- Eu quero propor uma trégua – Ele disse de repente, que surpreendeu até atrás dele, que passava o dedo distraidamente pela pintura de um carro qualquer.
- Uma trégua? Entre você e eu?
- É, mesmo sabendo que não vai dar muito certo...
- E o que você ganha com isso? – perguntou.
- Eu quero descobrir quem é esse cara, e eu tenho certeza que vocês dois também – parecia um tanto ansioso para que déssemos uma resposta concreta. Ri alto, quase impulsivamente – O quê?
- Nada – Passei a mão na nuca – Eu acho que faria a mesma coisa que você. Não sei se aguentaria a namorada grávida de outro cara.
- Eu não estou fugindo! – Protestou.
- Mas eu estou – disse de repente – Não vou me meter na vida de de novo. Ela quase nos descobriu da última vez – Ele saiu de perto de mim e foi encostar-se no mesmo carro que , deixando bem claro que estava fora da discussão.
Olhei para ele brevemente, mas eu sabia muito bem que não adiantaria de nada discutir. Eu estava seriamente tentado a me juntar com , mas a pulga da desconfiança estava atrás da minha orelha, e estava incomodando bastante. Entretanto, honestamente, eu poderia dizer que o receio na verdade era apenas sobre o quanto aquilo era estranho e desconhecido.
- Espera, como assim você não está fugindo?
- Eu estou assumindo as responsabilidades, ok?
- Como assim? – Perguntei um pouco mais alto.
- Ainda não falei isso para ela, mas eu quero assumir.
- Você tá no seu estado mental normal? – Eu não poderia deixar de ficar incrédulo – Você não tem que fazer isso? Nós já vamos ajudá-la, você não precisa piorar ou atrapalhar.
- Atrapalhar?! – Ele esbravejou – Como eu poderia atrapalhar?!
- Enchendo-a de esperanças, e depois pulando fora! – Coloquei o dedo indicador no peito dele.
- Você tem a minha palavra que isso não vai acontecer – Ele empurrou minha mão para longe.
- E como você pretende criar uma criança que nem é sua? – Juntei as sobrancelhas. Como aquilo seria possível?
- Tenho dinheiro guardado... – Ele colocou as mãos nos bolsos frontais da calça – Posso trabalhar para o meu pai. Eu dou um jeito.
- , você tem certeza que quer fazer isso? – colocou a mão no ombro ele, mas o outro apenas se esquivou do toque.
- Você que sabe – Falei, então, sem mais nenhum argumento – Só fique sabendo que se você machucar um fio de cabelo daquela menina, vai se ver comigo.
- Digo o mesmo em relação à .
Sua resposta me pegou completamente desprevenido.
Dei um sorriso oblíquo e alisei meus cabelos, procurando o que fazer com as mãos. Senti um inexplicável calor por dentro que chegou a me distrair, me fez perder a linha do raciocínio.
- Eu ainda quero ajuda – voltou a falar – Eu quero descobrir quem é o filho da puta – Ele estendeu a mão direita para mim.
- Ok – Apertei sua mão, torcendo para não me arrepender depois. A possibilidade de se extrair vantagens ao juntar eu e aquele cara são quase nulas.
Os outros dois caras estavam quase boquiabertos. Não que eu pudesse culpá-los! Mas àquela altura da minha vida eu já não estava duvidando de nada.
- Hey, ! – Uma voz feminina se sobressaiu do silêncio do estacionamento. Era , e... – ? – arregalou os olhos levemente quando viu que eu era a pessoa na frente do seu namorado.
Afastei-me dele. É bem inoportuna a sorte que eu tenho de ser pego no flagra. Embora naquele caso eu poderia dar uma desculpa que, no máximo, me deixaria constrangido ou completamente contrariado em relação aos meus princípios.
- Vocês não estão brigando, estão? – se colocou entre nós dois como se quisesse apartar uma briga. Ela colocou uma mão no meu peito e outra no peito dele. Em uma fração de segundo ela deixou de me tocar, talvez porque ela tivesse levado o mesmo choque que eu levei quando senti sua mão em mim. Felizmente, consegui disfarçar.
- Não estamos – explicou-se imediatamente.
- O que vocês estão fazendo, então? – perguntou, ainda me encarando com ambas as sobrancelhas franzidas.
- Eles só estavam conversando, meninas – tentou rir descontraidamente – Eu estava de olho neles.
parecia ter acreditado no que falou, mas ela se virou para mim, talvez esperando que eu abrisse a boca para dar mais uma desculpa esfarrapada, ou que eu pelo menos desse a parecer que estava respirando, uma vez que minhas reações eram inexistentes.
- Só estamos tentando nos entender, – Prendi meus polegares no cós da calça e dei de ombros casualmente.
Ela assentiu e pareceu engolir a história. Digo engolir porque a palavra “acreditar” pode parecer um pouco forçado dadas as surreais circunstâncias.
Para minha salvação, ou o oposto dela, Dawn apareceu completamente alheia a tensão e sorriu para mim, como se não tivesse mais ninguém ali.
- Está pronto?
Tentei não ser rude com a garota, então apenas a ignorei.
Olhei para , naquele momento ela não estava fazendo questão de lançar um olhar avaliador à recém-chegada. Minha situação com ela já não estava das melhores, e eu realmente não estava contando com ela estar nesta festa; O tempo que eu tinha encarado o teto pensando no que diria quando encontrasse com ela era algo que eu não admitiria nem sob tortura. Mas idiota mesmo é que eu tinha todo um discurso ensaiado religiosamente e ainda assim eu não tinha o que falar. Quando eu tinha me tornado tão patético?
Torci para não parecer tão atordoado quando me senti por dentro.
percebeu meu pedido silencioso e inconsciente por ajuda, e puxou o braço da outra garota.
- Vamos descer.
olhou para ela, e sorriu como se nada de anormal tivesse acontecido.
- Eu fico meia hora, como prometido, ok?
Ela se deixou levar e o resto dos caras a seguiram.
Demorei alguns segundos para perceber que ainda tinha uma pessoa ali.
- Então? – Dawn me tirou do lapso ao colocar suas mãos em meu peito e ficar desenhando círculos com suas unhas grandes demais para a saúde da minha pele. Suas intenções ficaram mais do que claras, que não eram nem um pouco ingênuas, e nem exigiam nem o mínimo de comprometimento da minha parte. O que eu poderia pedir de melhor?
- Não – Respondi, tirando as mãos dela de mim. Deslizei meu olhar discretamente para que brincava com no caminho ao grupo de pessoas.
- Mas eu achei... – Ela voltou a passar as mãos em mim, acariciando meu braço.
- Mudei de ideia – Esquivei-me, sem me importar com o seu gemido de frustração.
- Ah, você magicamente mudou de ideia? – Sua voz deu a entender que eu tinha feito algum tipo de brincadeira sem graça.
- Você tem algum problema com isso? – Passei por ela, sem esperar ser seguido, e não fui mesmo.
- Achei que você fizesse jus a sua fama – A menina rebateu com um desprezo que me fez rir, embora eu soubesse que estava agindo de uma maneira que nunca faria.
- Pelo menos todo mundo por aí sabe o meu nome – Sorri comigo mesmo.
Pelo menos eu ainda tinha alguma coisa que pudesse me orgulhar, minha influência estava abalada, mas ela ainda estava ali, talvez eu pudesse trazer minha vida de volta, agora que Williams estava fora e eu poderia voltar para o time, jogar futebol, toda aquela vida cheia de merda que eu costumava idolatrar. Com isso, eu definitivamente pararia de considerar o que ela pensa de mim toda vez que eu decidisse agir errado. Eu estava desesperado por aquela sensação de tranquilidade, mas eu tinha certeza que ela já não estava no mesmo lugar que eu procurava antes.
A vida de uma pessoa tem que estar num ponto muito crítico para que ela nem mais saiba qual é seu porto seguro. Não dá pra ficar em pé quando nem existe chão, metaforicamente impossível.
Ou saiba, só que está fora de sua zona de conforto. De um jeito ou de outro, eu teria que dar duro para parar de me sentir uma bagunça total.
Precisei correr poder alcançar quem eu queria.
- Posso falar com ela? – Virei-me para , ofegante.
- Não sei – Ele olhou para , tão surpreso quanto ela estava, porém ela pareceu se recuperar logo e lhe lançou um olhar permitindo que ele se afastasse – Ok.
- O que foi, ? – Ela perguntou assim que saiu, ela pareceu nem se preocupar se ele poderia ou não escutar, uma vez que ele não tinha dado mais que três passos para se afastar.
- Eu... – Hesitei um pouco, uma parte por causa da sua hostilidade, e outra porque minha respiração não tinha exatamente voltado ao normal – Eu preciso que você me diga só uma coisa.
- O quê? – Senti sua resistência vacilar, o que me animou um pouco.
- Eu preciso saber o porquê – Lutei para que minha voz não transparecesse aquele nervosismo sem precedentes.
- O porquê de quê, ?
- Você sempre soube como eu sou, desde que me viu pela primeira vez, por que entrou nessa e agora tá pulando fora como se tivesse sido ingênua o suficiente para pensar que tudo seria perfeito? – Mantive meu tom de voz baixo e pedi mentalmente para que ela fizesse o mesmo, não estávamos muito longe das outras pessoas. Ela abriu a boca para responder, mas eu acrescentei antes que ela pudesse me responder: – E, por favor, não me diga que você é ingênua, porque eu sei que você sabe mais do que me fala.
- Como assim? – Ela pareceu atordoada de repente. Foi uma surpresa para mim, eu queria colocá-la na parede, queria que ela me desse explicações e que ela me olhasse daquele mesmo jeito de sempre, como se tivesse se divertindo às minhas custas. Eu definitivamente não esperava que ela agisse como se eu tivesse jogado sal na sua ferida. Honestamente, fiquei sem o que responder, eu não sabia como ser mais direto – O que você quer dizer com “eu sei mais do que falo”?
- Eu quero dizer que você sabe como eu sou. Exatamente como eu sou – Desviei meus olhos dos dela e os fixei nas pedras cobertas de plantas que eu sinceramente não dava a mínima se iriam ou não me julgar. Eu já não poderia dizer a mesma coisa de – Todas essas outras garotas que eu já fiquei se revoltam porque “descobrem” que eu não sou o que elas estavam esperando, e você está agindo exatamente como elas.
- Não tem nada de errado em desejar que alguém... – começou a falar, e mesmo que parecesse que ela fosse falar a maior merda do mundo, pelo menos ela não estava mais tensa.
- Pára! – Esbravejei – Pare de agir como se eu fosse idiota para acreditar nisso.
- Ok – Ela arrumou o casaco em seu corpo – Eu vou falar a verdade então. Eu não quero fazer parte de uma história que você só sabe dar valor a algo quando começa a escorregar das suas mãos. Como agora – movimentou o peito como se tivesse tirado uma corda que estava impedindo o ar de entrar nos seus pulmões. Alívio – Você está certo. Eu não sou como essas outras garotas, .
- Então, porque você se colocou nessa? – Voltei à minha pergunta original. Perguntei-me se soei tão amargo quanto me sentia.
- Porque... – Ela me encarou como se estivesse prestes a admitir algo, mas aquela expressão durou menos de um segundo – Eu não sei.
- Essa é nova... – Sorri – Você não saber de alguma coisa.
- Eu sei, é estranho.
- Então...
- Então, eu acho que vou para casa – Ela me interrompeu. Algo bom, pois eu nem sabia o que iria ou queria falar.
- E quanto à coisa da meia hora na festa?
- Ela não vai notar se eu fugir de fininho – deu de ombros levemente.
- Posso levar você
- Não – Ela olhou de lado – Tem alguém aqui precisando mais da sua companhia – Acompanhei a direção do seu olhar. Dawn ainda continuava no lugar que eu a deixei, tão previsível que me irritava até ver a expectativa no seu rosto – Não perca a sua chance só porque quer pegar um carro e me levar em casa. Vamos encarar os fatos, se você me levar mesmo, nós provavelmente vamos acabar brigando. De novo – Ela riu.
- Você não é tão especial assim – Arqueei uma sobrancelha.
Ela alargou um pouco o sorriso.
- É mesmo? – Cruzou os braços – Aí eu discordo.
se virou para ir embora. A urgência dentro de mim cresceu, mas claro que eu era idiota demais para falar alguma coisa que não fosse piorar a situação.
- Que seja, vai embora mesmo, você tá ficando muito boa em dar as costas – Resmunguei com desdém.
- Ok, agora a culpa é minha? – Ela se voltou para mim já com os braços cruzados, mas não conseguiu me intimidar, se essa era sua intenção. Só conseguiu me deixar mais irritado.
- Claro que é!
- Ah, por favor, me dê uma explicação racional – Ela riu com escárnio.
- Porque, pela primeira vez, eu estou correndo atrás de alguém! – Cheguei mais perto dela para não ter que aumentar o tom de voz. Minhas pernas estavam meio dormentes, daquele jeito que elas ficam quando de repente falamos algo por impulso. Pelo menos eu não tinha me arrependido.
- Eu deveria me sentir especial? – A expressão dela não se alterou.
- Claro que sim!
- Bom, a queda é bem dolorosa quando se cai do céu, não é? – Ela deu um passo hesitante para trás, como se ela tivesse prestes a sair correndo dali.
Eu estava prestes a sacudir aquela menina para descontar minha frustração, mas me repreendi e soltei um riso curto.
- Como assim?
- Rejeição, – Observei-a engolir seco. Vi-me obrigado a olhar em volta e agradeci mentalmente por não ter ninguém por perto, nem prestando atenção em nós dois. Já era constrangedor o suficiente eu ter que ter aquela conversa com ela, não preciso de ninguém para testemunhar – É estranho estar do outro lado, não é?
- Tá – Reprimi o ressentimento que eu estava sentindo naquele momento e apenas dei de ombros. Se ela poderia agir como se não estivesse acontecendo nada demais, eu também poderia. Fiz isso minha vida inteira – Faça o que você quiser, eu, sinceramente, desisto de você.
Adiantei-me até meu carro, não quis saber se tinha vindo comigo e que provavelmente iria querer uma carona de volta. Eu já tinha ficado tempo demais, e já tinha tido muito mais do que esperava para uma noite que supostamente deveria me distrair. Da próxima vez que algo dentro de mim disser que é melhor ficar em casa, eu deveria escutar. Ou melhor, da próxima vez que eu ver uma garota, deveria dar atenção àquele alerta gritando que nenhum bem pode sair daquilo.
Olhando para a outra garota encostada no meu carro, me esperando, vi que eu poderia ter minha vida de volta. Eu iria voltar para o time, poderia ter garota que eu quisesse se eu ignorar esse pequeno buraco negro na minha existência. Ignorar é bom. Reprimir é muito bom.
- Estou pronto agora – Falei para Dawn e estava folheando um caderno em suas mãos, distraidamente.
- Sua primeira opção da noite desistiu? – Ela perguntou sem tirar os olhos do caderno. Reconheci como sendo o caderno de , que tinha esquecido em cima do meu carro. Puxei das mãos dela e joguei dentro da janela traseira que estava aberta, como todas as outras. Nada de mais acontece naquela cidade, ninguém fazia questão de trancar os carros ou fechar as janelas.
- Não existe primeira, nem segunda opção. Existe eu, saindo daqui, e você, entrando no carro se quiser ir comigo – Puxei a porta do motorista sem me incomodar se ela estava encostada nela ou não.
- Essa eu vou passar – Ela arqueou as duas sobrancelhas, mas não parecia com raiva – Eu queria uma companhia para os dias em que vou estar na cidade. Não é muito agradável estar saindo com um cara que está no meio de um caso mal resolvido.
- Não existe nada de mal resolvido – Bufei.
- Você deve ser muito burro pra não perceber que aquela garota é louca por você. Eu entendi isso só de observar vocês conversando por alguns minutos – Dawn se apoiou na janela do meu carro e riu – Ou talvez você já saiba disso, só não quer acreditar – Ela pôs uma mão na minha bochecha, mas eu a afastei – Acorda, bonitinho, ninguém vai esperar você a vida inteira.
Eu estava prestes a dar uma resposta, que estava saindo um tanto quanto atrasada, pois eu estava realmente sem o que falar, como dar explicações para algo que realmente parecia ser a explicação da tudo. Uma conclusão que um observador aleatório e completamente exterior tirou que eu não tinha percebido.
Alguém atrás de Dawn me salvou de responder.
- ! – Apertei meus olhos um pouco tentando reconhecer, mas não parecia ninguém que eu visse diariamente, pelo menos não no colégio – Não tá me reconhecendo? – Quando ele parou abaixo de um poste de luz eu finalmente pude ver seu rosto e reconhecê-lo, apesar de seu cabelo estar completamente diferente.
- Bourne? – Saí do carro quando ele chegou perto – O que você tá fazendo por aqui? – Coloquei a mão no ombro dele, cumprimentando-o.
Sorri, mas não tão animado quanto eu me sentia. Era realmente bom ver alguém cuja existência não me irritava, para variar.
- Belo comitê de boas vindas – Ele gargalhou.
James tinha sido um dos meus melhores amigos até uns anos atrás quando ele se mudou para Londres com sua família, não tínhamos mantido muito contato, mas eu sabia que ele tinha largado o colégio e estava com uma banda. Ele sempre falava sobre isso comigo e com , mas nenhum de nós pareceu levar a sério. Aparentemente, as oportunidades apareceram lá onde ele foi morar. Não sei de muito, pois, apesar de gostar do cara, era sua família que me incomodava muito. Ou sua irmã, para ser mais preciso.
- Eu estou de férias, vim para a cidade por um tempo, afinal de contas, meus avôs ainda moram aqui – Ele continuou a falar e apontou para mais dois caras conversando a certa distância, que eu achava também serem da sua banda.
- E o que foi que aconteceu com a sua cabeça? – Arqueei a sobrancelha para o cabelo pintado de loiro e a franja preta.
- Vem com o preço da fama – James passou a mão na cabeça e deu de ombros.
- Tô vendo – Olhei novamente para os caras da sua banda e de volta para ele – Você veio sozinho?
- Sem a minha família, sim – Ele felizmente tinha entendido o que eu quis dizer – Colleen largou a faculdade, está morando em Paris agora.
- Ah – Murmurei, sabendo que ninguém iria me escutar. Aparentemente, muito tinha mudado desde que eu a tinha visto pela última vez, mas não me interessava. Não mesmo.
Olhei para trás quando me lembrei que Dawn ainda estava por perto e apontei para James.
- Dawn, você quer uma companhia, tá aí. Aproveite – Entrei no carro ouvindo a risada de James atrás de mim.
- Como assim, você já vai? – Ele perguntou entre uma risada e outra.
- Ele vai deixar de ser idiota – Dawn riu e depois se virou para James, com a mesma cara de flerte que ela tinha me lançado mais cedo.
- Não se esqueça de me enviar o endereço desse lugar por e-mail – Ele riu e estendeu seu braço para que a garota pegasse antes deles saírem de perto.
Balancei a cabeça negativamente, rindo.
Meu sorriso sumiu no momento em que me concentrei em não deixar a coragem ir embora à medida que eu saia com o carro.
Talvez Dawn tivesse um pouco de razão: eu deveria fazer alguma coisa.
18.
(n/a: carregar: Aqualung – Brighter Than Sunshine)
Ficar parado no meio daquela chuva torrencial não estava exatamente nos meus planos, mas foi exatamente por ela que eu decidi esperar mais. Tudo bem que eu estava no terraço da casa, mas o vento empurrando a chuva para dentro da área coberta, somado ao meu tempo de espera, igualava a um quase ensopado.
Devido a todo barulho que a água estava fazendo, suspeitei que ninguém tivesse me ouvido. Eu esperava que ninguém tivesse me ouvido, porque depois de ficar parado alguns (muitos) minutos no carro me decidindo se faria aquilo ou não, voltar para casa com as mãos vazias – metaforicamente falando – seria uma frustração.
Empurrei meu dedo na campainha mais uma vez, repetindo mentalmente que aquela seria minha última tentativa. A espera só me fazia tender a desistência.
A porta se abriu com um solavanco, e a pessoa que abrira não era nada do que eu esperava.
- Oi? – Ele me encarou confuso e com uma pontada de irritação. Talvez eu tivesse atrapalhado algo, mas eu não poderia afirmar o quê.
- está por aí? – Olhei por trás do garoto de, sei lá, uns dez anos.
- Meu pai falou “nada de garotos” – Ele deu de ombros, não se abalando por meu gemido de frustração. O que era aquilo, um quartel?
- E você obedece ao seu pai? – Desafiei, esperando alguma reação do garoto que fosse ao meu favor, mas ele acenou positivamente à minha pergunta – Interessante – Levei minha mão ao bolso traseiro, onde estava minha carteira, e retirei dela o equivalente a dez libras e empurrei para o garoto, cujos olhos já brilhavam, sem a irritação por tê-lo tirado de, possivelmente, uma partida de vídeo game. Pelo menos aquilo era só o que eu fazia naquela idade, quando estava dentro de casa.
- Ela está lá em cima, no quarto dela – Ele puxou o dinheiro da minha mão, com um sorriso nos lábios e nem me esperou entrar na casa, já disparando escada acima, deixando a TV ligada no andar de baixo.
Esperei ver alguém na sala, ou que alguma pessoa ao menos viesse averiguar o fato de uma criança ter aberto e deixado entrar um cara estranho pelo preço banal de dez libras. Pela cara que ele tinha feito, eu poderia ter dado cinco e ainda teria a entrada garantida. Pena que eu não tinha nenhum dinheiro trocado.
Segui para o andar de cima, um pouco receoso. Pudera, eu me sentia como se caminhasse dentro da cova do leão, e eu não estava me referindo ao fato de estar puta da vida comigo, mas sim pela fama que ela fazia valer dos seus tios. Sinceramente, eu estava esperando o Tropeço, o mordomo da Família Addams, abrir a porta, teias de aranha no teto e gárgulas na entrada. Mas aquela casa parecia... Como eu posso dizer? Habitável. Ok, eu não estava me sentindo nem um pouco em casa, mesmo que eu não tivesse o costume de me sentir a vontade nas casas dos outros, aquela tinha uma maneira bem peculiar de querer que eu dê as costas e volte pela mesma porta que entrei.
Ao subir as escadas, dei de cara com um corredor largo, onde quase todas as portas estavam abertas, mas só duas delas possuíam as luzes acesas, facilitando minha vida, já que meu anfitrião muito bem pago tinha furado comigo. Eu deveria me lembrar de pagar mais caro da próxima vez.
Próxima vez? Eu deveria me lembrar é de evitar entrar naquela casa novamente, isso sim.
Felizmente, achei no primeiro quarto iluminado, mas ela não me viu. A garota estava quase de costas para a porta, sentada em um divã encostado na janela aberta. Com o caderno eu seu colo, ela parecia estar desenhando, e completamente focada no que fazia.
Hesitei; O que eu estava fazendo ali mesmo?
Eu deveria dar meia volta e fingir que nunca tinha estado ali, mesmo. Eu não tinha dado meu nome para o garoto, nem nada, e se alguém perguntasse, eu tinha saído da festa e ido direto para casa. Nenhum furo naquela mentira.
Sério, eu estava mesmo me deixando levar por o que uma garota aleatória, que eu tinha conhecido há meia hora, falara? O que ela sabia, afinal? “Você deve ser muito burro pra não perceber que aquela garota é louca por você.” Como se isso pudesse ser verdade em algum distante universo alternativo? Como ela poderia gostar de mim daquela maneira? Tá, ela já tinha me dito que gostava de mim, mas talvez meu cérebro não suficientemente desenvolvido tivesse associado aquilo com “eu adoro dar uns pegas em você por aí,” então eu não tinha refletido sobre aquilo até o momento que ela saiu da minha casa, me deixando sem ter o que falar. Só então eu tinha visto que a coisa tinha ficado muito mais complicada do que eu tinha imaginado, muito fora do meu controle. Muito emocional. Naquele momento, eu tinha muito que falar.
Dei alguns passos na direção da porta já pensando em uma abordagem inteligente o suficiente para não que meu nome não se tornasse sinônimo de stalker. levantou os braços e arrumou o cabelo, com isso eu vi que ela vestia o casaco que eu tinha deixado com ela no outro dia e sorri quase instantaneamente, me contendo logo em seguida.
- Ewan, eu já falei para você parar de observar as pessoas desse jeito, é muito sinistro – Surpreendi-me quando bradou de repente.
- Eu não estou fazendo nada! – O garoto protestou do outro quarto que tinha a luz acesa.
Ela então se virou rapidamente, com o olhar assustado.
- É sinistro quando eu faço isso? – Perguntei encostando-me no batente, vendo a expressão dela vagarosamente se transformar em confusão.
- ? Como...? – Ela se virou para o lado da parede que dava para o quarto do garoto, depois olhou para mim – Como você entrou?
- Cada pessoa tem seu preço – Sorri sem humor, lançando um olhar rápido ao mesmo ponto que ela fitou segundos antes.
- Foi o que eu ouvi falar – Ela deu de ombros e pôs os pés no chão, sem abandonar o olhar questionador – O que você tá fazendo aqui?
Ela mexeu nervosamente nas mangas do moletom, colocando os pulsos para dentro sem nenhuma dificuldade, levando em conta a diferença do tamanho de nós dois. Ela estar vestindo o meu moletom fez uma faísca de esperança chamuscar em mim. Se ela estava vestindo, era porque talvez não estivesse com tanta raiva quanto insistia em demonstrar.
- Até um tempo atrás, eu tinha um moletom igual a esse – Ignorei sua pergunta, apenas arqueei uma sobrancelha para seus trajes e esperei que tentasse esconder, mas ela não o fez. Apenas me encarou como se me desafiasse a continuar falando. E como eu adoro um desafio... – Dei para uma garota – Continuei, esperando que a casualidade pudesse esconder pelo menos um pouco da minha ansiedade – Uma louca, neurótica, teimosa...
- Eu tenho certeza que ela também é capaz de te dar uma surra.
- Claro que não – Relaxei mais um pouco o meu ombro no batente da porta. Ir de acordo com meus instintos parecia estar funcionando. A princípio, eu achara que ela fosse jogar um abajur em mim, então, tudo estava sob controle – Ela não consegue me machucar, ela não machuca nem uma mosca.
- Pode ser que ela tenha se cansado de ser idiota – Retrucou.
- Ou talvez ela só minta muito bem – Com isso, ela pareceu se calar. Ponto para mim.
Aquela poderia ser minha chance para me aproximar, mas se eu o fizesse, poderia estragar tudo. Por que eu estava tão hesitante? Sempre fui capaz de dar a volta por cima sem nenhum receio ou dificuldade. Conquistar a confiança de uma garota costumava ser uma das poucas coisas que eu conseguia fazer sem ter medo de errar. Algo tinha mudado em mim.
- Ela não é tão boa mentirosa quanto gostaria de ser – finalmente me respondeu.
Ela tinha andado e se sentado na sua cama. Embora ela tivesse olhado para o meu rosto durante todo o tempo que estávamos conversando, só naquele momento eu senti que ela me encarava de verdade, nos olhos.
- Você é como se fosse um cachorro – Ela comentou com uma pontada discreta de admiração – Não importa o quanto a gente xingue, ou bata... Sempre volta com o rabinho abanando.
- Patético – Conclui, finalmente parando para avaliar o que eu estava me fazendo passar.
- Impressionante, na verdade.
- Não me elogie, você é patética também.
- Nossa, obrigada.
- Você é patética, insuportável, irritante, intrometida...
- Se vamos começar a falar as verdades... – Ela me cortou, me olhando incrédula, mas não a deixei terminar de falar, aumentando o volume da minha voz para impor alguma autoridade ali. Se eu deixasse alguma brecha ela iria arrumar uma saída, de novo.
- Você já falou tudo o que tinha falar sobre mim, agora é a minha vez – Fechei a porta e sentei-me ao seu lado, para poder olhar diretamente para seu rosto descrente – Sabe o que é engraçado? Você é tão problemática quanto eu – Deixei escapar uma risada de rancor.
- É? – Vi seus olhos se estreitarem – Adoraria ouvir uma explicação para essa sua teoria estúpida.
- Que tal você sempre dar as costas quando as coisas parecem dar errado? – Lembrei a ela. Ok, tudo bem que não eu estou numa boa posição para fazer esse tipo de crítica, mas quem iria julgar? Eu poderia ter um milhão de defeitos, mas pelo menos eu sou capaz de encarar meus problemas nos olhos.
- Eu não faço isso.
- Ah, não?
- Não! – protestou mais uma vez, dando três tapas no meu braço, talvez esperando que fosse doer.
- Eu gosto de você, ! – Coloquei para fora. Ela deixou a mão no meu braço ao me ouvir. Fiquei esperando outra reação que não fosse surpresa. A garota mordeu o lábio inferior e me encarou em dúvida. Uma dúvida completamente válida, se quer saber, tão válida quanto meu nervosismo e a ansiedade por receber uma resposta – Eu não consigo pensar direito quando estou perto de você, e... – Calei-me por não querer me sentir mais inútil e diminuído quanto estava parecendo.
- Continue – Ela pediu ao subir a mão para meu pescoço, depositando o polegar na minha bochecha.
- Eu... – Tentei continuar, mas tudo o que eu conseguia raciocinar era o quanto eu estava me julgando um idiota por estar sentindo aquilo por uma garota de novo.
É, de novo. Por mais que eu mentisse para mim mesmo, eu tinha que admitir de uma vez por todas, antes que me corroesse por dentro. O interessante é que você nem se lembra o que sentiu, até que sente de novo.
Eu insistia em dizer que nunca tinha me apaixonado por Colleen, e talvez nunca tivesse mesmo. Essa dúvida irá me perseguir até o dia em que eu finalmente descobrir o que é se apaixonar de verdade, não que eu estivesse me esforçando para saber, estou muito bem conformado com a ignorância. Na falta de algo mais concreto, eu me agarrei à sensação de se sentir tão abobalhadamente dominado por uma garota, que certamente era a mesma que eu estava sentindo por . Como e por quê eu tinha deixado as coisas chegarem naquele ponto, eu honestamente não sei, mas o pensamento de que essa história poderia acabar tão mal quanto da outra vez era assombroso.
Há três anos, eu tinha me deixado envolver de um jeito que permitiu que ela me derrubasse ao chegar para mim e dizer “eu estou me mudando, a gente se vê,” como eu poderia querer me sentir assim novamente? As mulheres insistem em dizer que os homens não prestam, então eu tenho uma resposta para vocês: temos um bom motivo para isso!
- Você pode dizer – Ela deixou a voz suavizar, talvez tentando me passar um pouco de confiança – Eu não vou contar para ninguém. Admitir que você precisa de alguém não faz de você um fraco.
- Eu não preciso de você.
- Todo mundo precisa de alguém.
- Eu não! – Repliquei – Você não tá me entendendo? Eu não dependo de ninguém. Nunca dependi. Eu não posso ter mudado tanto em tão pouco tempo, é ridículo! Principalmente por você.
- Por mim?!
- É! Você! – Levantei-me, tentando fugir do seu toque, amigável demais para a conversa que estávamos tendo – Você é tão problemática quanto eu! Eu deveria ficar longe de você, se eu fosse inteligente – Comecei a andar de um lado para o outro, como se eu estivesse tendo um ataque de esquizofrenia – Você e seu draminha de merda, que não pode nem me dizer o que diabos está escondendo!
- Ai, meu Deus, você ainda quer discutir isso?
- Se eu ainda quero discutir isso? – Eu me via ficando cada vez mais transtornado, mas não me importava nem um pouco. De alguma maneira, ficar daquele jeito era permitido perto dela. Eu falando o que penso, ela respondendo da mesma maneira, nenhum dos dois dando a mínima se iria “ferir os sentimentos” do outro. Aquilo funcionava entre nós, por mais idiota e imaturo que possa parecer – Nós nunca discutimos isso, . Como eu disse, você é muito boa em dar as costas.
- Não ouse me julgar, .
- Você está doente? – Tentei adivinhar.
- O quê? Não!
- Você está voltando para o Brasil?
- Não!
- Então o que é, caramba?!
- Não posso dizer! – me olhou, atordoada, desesperada, qualquer coisa, mas eu não estava disposto a me deixar levar por um olhar, nem nada que pudesse incentivar o meu lado que ela enfraquecia – Eu não teria nem conhecido você se soubesse... Bem, agora eu meio que não consigo ficar longe de você, então... – Ela voltou a brincar com as mangas do casaco, parecia que toda vez que ela ficava nervosa, tinha que ocupar as mãos de alguma forma aleatória – E eu lutei contra isso tanto quanto você, acredite. Não é drama! Não é charminho! Eu odeio as coisas do jeito como estão, mas o que eu posso fazer? Porque eu quero ficar com você, por mais exaustivo que isso seja. Você é o melhor amigo que eu tenho aqui.
Parei de andar imediatamente e olhei para , que tinha passado a abraçar seus joelhos e me lançava um olhar de expectativa e um tanto temeroso.
Dei dois passos para trás, para me encostar na porta. Ter um lugar para me apoiar veio a muito bem calhar naquele momento.
- Eu vou... Eu preciso... Ir – Apontei para a porta atrás de mim, ignorando minha gagueira sem sentido. Mas idiota que aquilo eu não poderia parecer, eu tenho certeza. Impossível.
19.
- Bom dia – Dei de cara com minha mãe sentada na mesa de jantar, que nunca era usada a não ser em ocasiões especiais, ou quando alguém precisava de espaço para trabalhar, o que parecia ser o caso.
- Bom dia – Ela respondeu distraída. Quando me virei para entrar na cozinha, ela continuou – Boa tarde, na verdade – Olhei para ela, recebendo um olhar impaciente em troca. Ela nunca foi de reclamar das horas que chego em casa, era muito estranho parecer brava naquele momento.
- O que eu fiz? – Vasculhei em minha cabeça qualquer merda que eu poderia ter feito, mas nada vinha em mente.
- Eu falo com você em cinco minutos – Ela abaixou os olhos para os papéis espalhados à sua frente.
Desisti de comer. A curiosidade ocupou todo o espaço da fome.
Como ela estava sentada à ponta da mesa, ocupei o lugar a sua esquerda.
- O que você está fazendo? – Observei-a fazendo anotações em um projeto do que aparentava ser uma casa, ou, conhecendo-a bem, poderia ser um restaurante.
- Contratei um arquiteto para ajudar na reforma de um dos restaurantes – Ela
apagou partes e fez algumas alterações. Eu genuinamente não entendia um traço do
que estava escrito ali, mas minha mãe sabia exatamente o que estava fazendo – Se eu quisesse algo deste tipo, Ammy faria de graça.
Meredith sempre teve essa paixão inexplicável por arquitetura, desde que me entendo por gente.
- E por que você não faz? – Dei de ombros.
- Não sei. Pior não pode ficar – Ele encarou o projeto e jogou numa pasta amarela, junto com os outros papéis da mesa.
- Você é boa nisso, não custa tentar – Falei, meio sem jeito, elogios nunca foram meu forte.
A conversa que eu tive com no outro dia me veio à cabeça. Eu ainda nem conseguia acreditar na minha burrice ao deixar aquela droga de papel dentro do bolso do moletom. Ninguém nunca tinha visto as coisas que escrevi, e eu pretendia deixar desse jeito. Já não era mais possível.
- Obrigada – Ela sorriu, brevemente – Mas não me venha puxar saco.
- O que eu fiz?!
- Eu recebi uma ligação bem interessante – Ela juntou as mãos em cima da mesa e me lançou aquele raro olhar materno. Era meio difícil olhar para Meredith como minha mãe se ela mesma fazia questão de não agir como tal. Naquele momento, eu sabia que coisa boa não viria –, de uma mulher chamada Srta. Mackenzie.
- Ah, não... – Gemi, descansando minha cabeça nas mãos, já preparado pra escutar muito.
- Você saiu do time? Como e quando isso aconteceu, ? – Ela me encarou, confusa, mas eu podia perceber quão irritada ela estava. Minha mãe gostava que escondessem coisas dela tanto quanto eu, éramos bem parecidos nesse aspecto.
- Não é nada de mais, mãe – Rolei os olhos.
- É claro que é! – Ela bateu as duas mãos na mesa – , eu precisei receber uma ligação de uma estranha para descobrir que meu filho desistiu do que antes parecia ser a coisa mais importante para ele. Será que você pode me explicar isso?
- Eu não contei porque eu sabia que você ia exagerar, como tá fazendo agora!
- Com razão!
- Eu cansei daquilo, qual é o crime que eu cometi?!
Ela suspirou, frustrada.
- Depois do que aconteceu ano passado, você anda por aí como se fosse dono do próprio umbigo – Meredith me encarou com mais severidade e eu tive que desviar. Nem conseguia acreditar que estávamos falando daquilo novamente – Meu pai era o único que conseguia controlar você, mas você ainda é meu filho, de mais ninguém.
- Não estou entendendo qual é a relevância desse assunto – Retruquei, secamente.
- Ok, tudo bem. Saia do futebol. Saia da escola também. Para quê fazer faculdade se você pode passar o resto da vida trabalhando para mim? – Ela perguntou, sugestivamente. Minha mãe sabia, mais do que ninguém, que eu sedia à base das provocações, mas naquele momento eu estava muito concentrado a não dar o braço a torcer.
- Ou eu posso engravidar uma garota – Deixei escapar, em defesa. Eu realmente não queria ter feito esse tipo de insinuação, principalmente para ela. Desejei que as palavras voltassem com a mesma rapidez que saíram.
Desde que eu deixara de ser criança, parecia que as pessoas estiveram esperando aquilo de mim, e eu não podia excluir minha mãe daquela lista. Não tinha chance de aquilo acontecer comigo, me dei muito bem aprendendo com os erros dos meus pais. Na verdade, eu me sentia mais responsável em evitar aquilo do que qualquer outro cara que eu conhecia, por conhecer a realidade de perto. Ainda que nem eu ou minha mãe tivesse o que reclamar do modo como vivemos, graças ao meu avô, mas quem vai garantir que existe sempre alguém para reparar os seus erros?
- Então é melhor se preparar – Ela levantou-se, escondendo que o meu comentário tinha, sim, a afetado; Sob meu olhar curioso, Meredith andou até a cozinha e pegou um molho de chaves no balcão, onde todos nós costumávamos deixar após estacionar o carro na garagem. Era mais fácil, pois se tivesse algum carro bloqueando o outro, não era preciso ir até o andar de cima para buscar as chaves, elas estavam bem ali – Porque você vai para a faculdade, ou o que quer que você planeje para sua vida, com ou sem um filho nas costas. De um jeito ou de outro, eu não vou permitir que você jogue sua vida fora – Continuou.
- Como você fez? – Arqueei as sobrancelhas.
- Eu não sou você, ! – Ela voltou para o mesmo cômodo que eu, transformando seu tom de sermão em algo mais próximo da compreensão. Como se ela achasse mesmo que estava tudo bem dar uma de amiga àquele ponto da conversa. Eu apenas ri amargamente, encarando a mesa de vidro, abaixo das minhas mãos – Desde que eu era criança, isso foi o que eu sempre quis. Eu queria me casar e ter dois filhos. Talvez as coisas não tenham acontecido da maneira como eu planejei, mas eu não mudaria nem uma vírgula – Ela pousou as mãos na cadeira à minha frente, e então pude ver que o que ela segurava eram as chaves do meu carro – Eu sei que constituir uma família é a última das suas preocupações – Minha mãe falou em tom de conclusão – Portanto, se você agir como um inconsequente, eu vou começar a agir como a mãe de um. Está de castigo, sabe o que isso significa?
- Como é? – Levantei bruscamente, metendo o quadril na quina da mesa. Gemi de dor, mas ela não foi o suficiente para apagar minha indignação. Só então entendi o porquê de ela ter pego as chaves do meu carro – Você não pode fazer isso!
- Posso, sim.
- Eu vou ter que ir a pé para o colégio?!
- Você pode pensar no caminho – Ela relaxou a expressão pela primeira vez. Eu realmente achei que ela fosse voltar atrás, mas estava apenas se divertindo às minhas custas – Não se preocupe, vai ter que seu carro de volta assim que começar a dar um jeito na sua vida.
- Não estou nem um pouco preocupado – Dei um sorriso irônico e segui para sair dali.
Como diabos eu deveria descobrir o que fazer da minha vida beirando os dezoito anos? Tá, eu sei que quase o mundo inteiro faz isso, mas talvez este deva ser o motivo pelo qual existem tantos idiotas desequilibrados como o Williams, por aí. Eu tinha acabado de me acostumar com a ideia de desistir do futebol, como eu poderia, de repente, criar um novo objetivo?
- A propósito, – Meredith chamou minha atenção quando eu estava prestes a subir as escadas. Apenas me virei de lado, mostrando que estava ouvindo – minha mãe vai chegar hoje, e eu vou fazer um jantar para ela, com os amigos mais próximos.
- Mais alguma boa notícia? – Ironizei.
- Apenas esteja aqui.
Assenti e me retirei, já me preparando psicologicamente. Com minha avó na cidade, nada pode ser considerado tranquilo.
- Bom dia.
- Até parece – Respondi ao supervisor que sempre estava ali nas portas do colégio, sem importar a hora que eu chegasse, às vezes eu tinha a impressão de que ele nunca ia para casa.
Andei pelos corredores vazios. Claro que eles estavam vazios! Aparentemente, pessoas preferem dormir até mais tarde a chegar cedo. Sem controvérsias. Bons tempos em que eu era uma dessas pessoas, e não precisava depender de ninguém para chegar aos lugares. Eu já estava sofrendo uma abstinência.
O dia estava mais frio que o comum, o inverno já fazia questão de mostrar que viria por aí.
Saí procurando por rostos conhecidos, até que passei pela lanchonete e vi alguém através da porta de vidro. Algo bom tinha que acontecer naquela manhã.
Andei calmamente pelas mesas vazias, até chegar à mais escondida, no canto. Um alívio percorreu meu corpo quando me sentei ao lado de , um pouco bruscamente, talvez meio descontrolado. Minhas emoções andavam numa montanha russa.
- O que houve? – Ouvi sua risada quando depositei meu rosto nas mãos. Se ela ficou surpresa em me ver, não tive como saber, mas sua voz denunciou um pouco de nervosismo. Um nervosismo bom, torci. Tive que levantar para ver o rosto dela.
Eu tava agindo como se o sexo com ela tivesse sido minha primeira vez.
Perguntei-me se tinha sido a primeira vez para ela. A ideia não me parecia tão má. Queria que aquela noite fosse tão... Notável? Enfim, que fosse boa para ela como fora para mim.
O que diabos eu tava pensando?
Eu deveria estar concentrado no fato de que não tinha visto ela desde que saí da casa dos seus tios. não frequenta exatamente os mesmos lugares que eu, ou anda com as mesmas pessoas, o que dificulta a situação. Bastante. E qual é a experiência que tenho em ligar para uma garota? Ter elas correndo atrás de mim me deixou acomodado, talvez. O que é bom, na maioria das vezes.
- Não tem nada errado, por quê? – Desconversei.
- Eu estudo aqui há três meses, chego a esse horário todos os dias e nunca te vi chegar mais do que cinco minutos antes do início da aula – Ela deixou de lado o caderno onde desenhava, puxando o canto da boca como se me desafiasse a discordar.
- Você não está errada – Rendi-me, finalmente me virando, enfrentando o olhar divertido dela – Meu padrasto tem uma reunião em Londres e teve que acordar cedo, as opções eram: vir cedo, ou não vir. Como já deve ter adivinhado, não fui eu quem fiz a escolha.
- Posso apostar – Riu – O que houve com seu carro?
- Ele está indisponível no momento – Admitir que minha mãe tinha confiscado as chaves? Não mesmo.
- Você poderia inovar – Sugeriu, apontando o lápis, que ainda estava na sua mão, na minha direção – Poderia criar um meio de transporte, sabe, com vários assentos dentro, um motorista levando a lugares. Pode chamar de ônibus!
- Esse bom humor é em todas as manhãs ou apenas essa, em especial?
- É aleatório, na verdade.
- É? – De alguma maneira, a distância entre nós tinha quase sumido.
- Eu sou uma pessoa iluminada, – Ela sussurrou com seus lábios esbarrando nos meus.
- Como o que eu vi aqui – Coloquei uma das mãos no local onde eu sabia estar sua tatuagem. O desenho de um sol.
Ela ficou meio sem jeito quando viu que me lembrei da tatuagem. Na verdade, aquela era uma das coisas das que eu mais me lembrava. Não a principal, claro. Mas vocês me entenderam.
Permiti que ela me puxasse para si, extinguindo o desconforto.
Sua língua acariciando a minha, me fazia querer repetir tudo ali mesmo, não importava onde ou quando... Eu só queria. Puxei para que ela sentasse no meu colo, de lado, nada que parecesse vulgar aos olhos de qualquer funcionário obcecado por normas daquele colégio. Mas ela não continuou a me beijar, como eu queria, ela deixou as duas mãos em cada lado da minha nuca, segurando meus cabelos e sorriu. Ela parecia aliviada.
- O que foi?
- Nada, é besteira minha. Só... Obrigada.
- Por quê? Por sexo?!
- Claro que não, ! – Rolou os olhos, tapando minha boca e rindo – Por não me tratar como qualquer uma... Você sabe, a tensão-pós-sexo, alguns caras somem, se vêem que não vale a pena.
Senti-me intrigado pelas mil e uma teorias que ela tinha criado.
- Eu não estava tentando levar você para a cama, – Esclareci. Do jeito que ela estava falando, parecia que eu a tinha levado para a cama, quando me lembro muito bem de que ela tinha tomado a iniciativa, por mais que eu não me orgulhe de admitir.
- Que seja – A vi reprimir um sorriso. É, por mais que ela desse uma de sabe-tudo sempre que estava comigo, às vezes ela não conseguia disfarçar a menininha dentro dela – Você sabe que eu quebraria esse rostinho lindo se suas intenções fossem contrárias – Sorriu, ironicamente.
- Que seja – Repeti, me juntando a ela novamente.
Quando comecei a me empolgar, ouvi um baque na porta da lanchonete.
- Se ela subir mais um pouco em você, as pessoas vão achar que tá rolando um sexo público! – Uma batida na mesa, fez sair de cima de mim, pulando para o meu lado, arrumando os cabelos.
- Oi, Bourne – Cumprimentei o babaca sorridente na minha frente – Acordando cedo para atazanar o colégio?
- Não precisei, nem dormi – Ele alargou o sorriso, me fazendo entender o que ele queria dizer – Obrigado por ter me dado aquela companhia, a propósito!
- Aproveite – Gargalhei.
James se virou para a menina ao meu lado, curioso.
- James Bourne – Estendeu a mão, para que ela pegasse.
- – A garota retribuiu o cumprimento.
- Nome legal.
- Brasil – Expliquei.
- Brasil! Legal – Ele olhou para mim rapidamente, depois levou os olhos curiosos para a garota. Provavelmente pensava a mesma coisa que percebi na primeira vez que tinha visto , ela não era nada como uma brasileira, nada de peitos ou bundas em abundância, como vemos na TV em fevereiro. Ela era só o suficiente para me enlouquecer – O que tá fazendo com esse otário, Brasil?
- Eu não faço a mínima idéia – sorriu brevemente – De onde vocês se conhecem?
- Nos conhecemos desde criança, e ele ainda costumava pegar minha irm...
- ENFIM! – Interrompi, subindo a voz alguns oitavos. Por que merda ele estava tocando naquele assunto? – James mora em Londres agora.
- Ah – me ficou, desconfiada. Eu sabia que não ia escapar daquela explicação tão fácil.
Olhei para trás, buscando fugir do olhar curioso de , e do zombeteiro de Bourne. me encarava, da porta, ele estava fazendo um sinal discreto, me chamando. Eu sabia exatamente o que ele queria falar comigo.
- ! – James gritou da mesa. Virei-me para ele, mal-humorado. O cara sempre era simpático com todo mundo, e, além do mais, também era amigo dele antes de se mudar, mas boa noção perspectiva não era uma das características do meu amigo. Só isso explicaria o fato de ele estar chamando o cara para se juntar a nós.
Felizmente, tinha alguma coisa na cabeça dele. Apenas acenou e saiu.
- Eu preciso ir – Declarei, mais para do que para o outro cara. Iria acatar o chamado de , mesmo que a companhia dele fosse a última coisa que eu queria, eu tinha que ir.
- Ok – concordou, juntando as próprias coisas também.
- Eu vejo você depois – Falei para a garota, depois me virei para o outro – E você, vá para casa. Você fica mais imbecil do que estou acostumado quando está com sono.
- Ok, amor – Bourne respondeu.
- E aí? – perguntou assim que me aproximei.
- Toma – Coloquei nas mãos dele o caderno que eu vinha escondendo no meio das minhas coisas desde que saí de casa. Se alguém me visse com aquilo eu não teria ninguém, a não ser eu mesmo, para culpar, mesmo que o cara na minha frente fosse o mais interessado. Bom, eu estava bem interessado também, mas mesmo assim não tive coragem de abrir para ler, me contentei em entregar para o e esperar que ele tivesse a cara de pau de ler e me dar alguma informação útil.
- O que é isso?
- Eu achei isso no meio das coisas dela – Balancei o caderno mais uma vez, para que ele pegasse logo aquilo, eu não precisava ficar com ele mais que o necessário. Se já era suspeito eu estar falando com em pleno corredore do colégio, que dirá se me virem entregando a ele o diário da minha melhor amiga? – Eu não estava fuçando, nem nada. Ela estava com uma coisa minha e quando eu fui buscar, ele estava junto – Esclareci logo.
- Isso é o diário dela? – Ele puxou das minhas mãos, meio assustado, mas vi que estava tão receoso em ler quanto eu. Isso já não era meu problema, minha parte eu já tinha feito – Você leu?
- Claro que não, é por isso que eu estou entregando para você.
- Você quer que eu leia? – Aquilo soou mais como uma afirmação indignada do que como uma pergunta.
- Sim – Ignorei a sua descrença.
- Ok – encarou o caderno lilás em suas mãos, por alguns segundos, depois colocou na mochila, olhando em volta. Eu comecei a me afastar. Já tinha feito o que queria, mesmo – Valeu.
- Tanto faz – Falei sem parar de andar – Só me devolve isso quando terminar de ler, quando ela der por falta, não é de você que ela vai desconfiar.
Segui para a sala, apressando o passo, sem esperar por resposta dele. Joguei a bolsa no meu lugar da sala de aula, e me deitei por cima dela, agradecendo por ainda faltar alguns – bons – minutos para o início do martírio.
- Você ainda tá por aqui?
- Eu sei que isso tudo é ciúmes, mas você tem que entender que você não é o único amigo que eu tenho nessa cidade – James olhou por cima dos meus ombros, procurando alguém.
- Tem mulher nessa história, não tem?
- Um pouco – Ele gargalhou – Sempre tem.
Ri, também.
- Namorada? – Bourne perguntou. Não entendi sua pergunta, até perceber para onde ele estava olhando. .
- O quê? ? – Olhei para a garota, rindo junto a . Pensei por alguns segundos em como eu responderia àquela pergunta. Eu poderia ter parado para pensar durante cinco horas e ainda não saberia o que falar – Não, ela é só... .
- Saquei – Ele rolou os olhos, escondendo um sorriso sacana.
- O que foi?
- E aí?! – pulou atrás de nós dois. Agradeci até a décima geração do por ter criado uma criatura tão apta de escolher o momento certo de atrapalhar. Sem sarcasmo.
- ! – A distração parecia ter funcionado. James virou-se para o outro.
- Nós temos que apresentar esse cara de volta à cidade – falou, empolgado. Talvez porque ultimamente eu não estivesse sendo o melhor amigo que ele tinha antes, sempre arrumando um lugar para ir, sem hora para voltar.
- Hoje à noite? – James sugeriu, arqueando uma sobrancelha – A não ser que as mocinhas tenham algum problema por amanhã ter aula.
- Eu não tenho – riu – Mas vai rolar um jantar na casa dessa minha garota – Ele colocou a mão no meu ombro.
- Na minha casa? – O que diabos ele estava planejando na minha casa e eu não estava sabendo?
- A sua avó – Ele soltou, sugestivamente.
Merda! Eu tinha me esquecido completamente.
- Espera, como é que você sabe disso?
- Sua mãe. Minha mãe – Ele respondeu, com voz de tédio. Como se ele já tivesse respondido aquilo para mim um milhão de vezes. Talvez tenha até respondido. Não conseguia colocar em números a quantidade de vezes que apareceu repentinamente na minha casa por causa da amizade entre nossas mães. Podendo ser um café-da-manhã sem sentido, ou para tomar chá. Programas que me faziam preferir ficar o dia olhando para o teto, deitado na minha cama.
- Por que eu não fui convidado? – James riu, deixando transparecer que não estava mesmo chateado para não ser convidado para um dos jantares chatos e perturbadores da minha avó.
- Você poderia ir, pelo menos minha avó se esqueceria de mim por uns instantes – Até que seria uma boa idéia.
- O que você tem, Bourne, que atrai as avós dessa maneira? – gargalhou, levando um soco no ombro. Mas não deixava de ser verdade, James sempre teve mesmo essa coisa inexplicável que os pais e avôs adoram. Eu sempre tirei proveito disso, era fazer uma merda e depois dizer “eu estava com o James”, um passe livre, na certa!
- Eu vou se ela for – Ele apontou para trás de mim.
apareceu, completamente alheia ao assunto. tinha ido embora, o que era estranho. sempre pegava carona com ele, após a aula.
- Falando de mim? – Ela sorriu ao se juntar a nós, ao meu lado.
- Eu estava perguntando ao se nós vamos te ver hoje à noite – James disparou, tão sutil quanto uma arma apontada e carregada.
- Me ver onde?
- Na casa dele, na “festa” de boas vindas da -Alfa – respondeu, sarcasticamente, eu espero.
- Provavelmente não, não fui convidada – me fitou de lado, deixando transparecer o tom de brincadeira. Ela poderia ter um milhão de defeitos que me deixavam louco de raiva, mas, felizmente, implicar por coisas sem importância como isso, não era um deles.
- Não seja por isso, eu a convido – Bourne puxou a mão dela, dando um beijo nas suas costas.
- Ela não é idiota, Bourne, não cai no seu cavalheirismo barato – Resmunguei. Um pouco (só um pouco) incomodado.
- Ela caiu no seu – Ele retrucou – E lá vem minha carona – Apontou para um carro fora do colégio, com uma garota acenando para ele. Dawn.
James correu até ela e entrou no carro. A garota balançou a cabeça, em um aceno rápido para mim. Retribuí da mesma maneira, vendo-a olhar rapidamente para , sorrir e sair com o carro. Tão sutil quanto o cara que eu arrumei para ela.
- Olha a minha ali. – começou a andar para o lado oposto ao que James tinha ido – Minha garota, não carona. Vocês entenderam – Ele explicou, rapidamente, antes de se afastar pra onde April estava – Eu te espero no carro, – Gritou.
Quando ele finalmente saiu, me virei para , que ria da palhaçada dos outros dois que eu tinha a infelicidade de chamar de amigos.
- E então? – Perguntei, influenciando-a a dar uma resposta ao convite que James tinha feito, esperando que ela não me fizesse repetir.
- Então, o quê? – Como se eu adivinhasse... Eu deveria tentar ganhar na loteria, só para testar meus limites.
- Você vai?
- Só se você quiser que eu vá – Ela sorriu, colocando as mãos geladas no meu pescoço.
- Vai ser um saco – Segurei na sua cintura, instintivamente.
- Eu estou fugindo de coisas que sejam um saco – desceu as mãos, e as colocou dentro dos bolsos frontais do blazer do uniforme do colégio, procurando se esquentar.
- Vai ser um saco menor... Se você for.
- Então, eu vou pensar no seu caso – Ela sorriu me puxando pelo bolso.
Quando ela ia encostando os lábios nos meus, ela se afastou um pouco e bufou. Ao sentir sua respiração se afastar, abri os olhos que eu nem tinha percebido que tinha fechado e olhei para onde ela encarava, com a cara fechada.
- Beijar você não é tão bom com um monte de gente olhando – Ela virou os olhos para Laurie e umas meninas ao seu redor, que estavam rindo.
- Eu discordo – Voltei a olhar para ela – O beijo é feito para ser visto. Outras coisas nós podemos esconder – Puxei o rosto dela, não muito rápido para esperar o consentimento.
Ela sorriu e subiu as mãos de volta para o meu pescoço, depois para o meu cabelo. Enquanto eu deixei as minhas em seu quadril numa maneira de me controlar em público. Trouxe-a mais para perto de mim, para deixar muito claro para todos ao redor o que eu tive certeza algumas noites antes. Que ela era minha.
- Vamos, ! – buzinou o carro, gritando, chamando a atenção de quase todo mundo. Não que a atenção já não estivesse em mim.
- Você vem? – Perguntei a , ao me afastar dela.
- Não, vou ter que ficar por aqui – Ela passou a mão pelo meu cabelo, arrumando – O professor de teatro pediu minha ajuda na criação do cenário, então, acho que vou ficar por aqui.
buzinou mais.
- Ok.
- A gente se vê mais tarde?
- Minha casa não vai sair do lugar.
Ela riu e se afastou, deixando que eu seguisse para o carro de , antes que ele me deixasse ali mesmo para ir para casa a pé.
- , desce!
- Não, obrigado.
- , por favor! – Minha mãe abriu a porta do meu quarto com Ammy no seu braço, desamassando o vestido – Liam acabou de ligar, ele vai chegar aqui com a mamãe em cinco minutos.
- E em cinco minutos, eu desço – Ela me olhou, com raiva. Aparentemente, não tinha tempo nem de brigar comigo.
- Toma – Ela colocou Ammy em cima da minha cama, mais precisamente, em cima de mim e saiu.
- Eu me arrumei sozinha – Ammy já começou a falar, ficando em pé na minha cama, para não amassar o vestido. Reconheci logo a tática da minha mãe de me fazer tirar do quarto. Ela sabe muito bem que eu não aguento cuidar da Ammy quando estou de mau-humor.
- Eu também.
- Seu cabelo está desarrumado.
- Meu cabelo está sempre desarrumado.
- Eu nunca vou entender porque essa menina te ama – invadiu o quarto, já arrumada – Fora o fator “obrigação pelo DNA.”
- De um jeito ou de outro, as pessoas terminam me amando – Dei um sorriso cínico, pegando o controle do meu lado e mudando o canal.
- Tem lugar aí para mim? – Ela pulou na cama, deixando minha irmã entre nós dois.
- Tem – Ammy se arrumou melhor e se sentou.
- E você está convidando pessoas para a minha cama? – Olhei, indignado, para minha irmã, que me fitou genuinamente achando que eu estava com raiva dela. Sorri para provar o contrário.
- Ele tá brincando, Ammy – riu e puxou a menina para sentar no colo dela – Nervoso?
- Por que estaria?
- Porque sua mãe vê a Ivy todo mês, quando vai a Londres, e está essa pilha de nervos. Você não a vê há, o quê, um ano?
- , me deixa em paz – Esbravejei, deixando o controle escapar por alguns segundos – Eu só quero acabar logo com isso.
- Se você vai jogar seu mau-humor em cima de mim, eu vou me retirar – Ela se levantou – A propósito, de nada. Não que eu faça alguma coisa esperando seu agradecimento em troca – me lançou um olhar duro, achando que eu sabia do que ela estava falando.
- Você venceu, me diga o que você fez para eu ser grato em paz – Esquivei-me de Ammy, que passava os dedos no desenho da minha camisa, distraidamente.
aparentava estar perplexa com o quanto eu estava rabugento. Até eu estava assustado comigo mesmo. Há alguns traços da minha personalidade que eu não consigo controlar, como o que eu falo e faço quando estou nervoso. É, eu estava nervoso mesmo. Pelo menos, para mim mesmo eu poderia admitir aquilo, mas não em voz alta. Eu tinha visto Ivy poucas vezes desde o que aconteceu no ano passado, com meu avô. E todas essas vezes, tinham sido breves, quando fui com minha mãe a Londres. Aquela seria a primeira vez que ela viria para ficar por um tempo, minha mãe estava nervosa quanto a isso há meses, e eu apenas não me permitia pensar naquilo.
- , ué – Ela me lançou um olhar superior, provavelmente esperando que eu me redimisse, mas minha relação com ela sempre foi como irmão e irmã. Daquele tipo que a gente só pede desculpas se os pais mandarem, e o outro lado ainda é obrigado a dar o perdão, sem nenhuma sinceridade, mas, com ou sem as desculpas forçadas ou o perdão falso, cinco minutos depois é como se nada tivesse acontecido – Você acha mesmo que eu fui buscar a menina em casa só porque queria me divertir junto com ela e meu namorado, que mal se falam?
- Eu não pedi para você fazer nada.
- Mas eu fiz. Caso você não tenha percebido, ainda sou sua melhor amiga.
Ouvi murmúrios no andar de baixo.
Eu estava esperando a campainha tocar e minha mãe gritar para que eu descesse, mas só então me lembrei que Liam tinha ido buscar minha avó em Londres. Sabia que eu tinha que ir lá agora.
Pelo menos serviu para alguma coisa: encerrar minha conversa com .
Peguei Ammy no braço e segui para a porta, sem olhar para a outra, e, embora sentisse que ela estava em meu encalço, também fingi que não estava presente. Não queria lidar com ela, mesmo. Ia deixar para o tempo fazer com que ela esquecesse aquilo, e não olhar para mim como quem espera um “obrigado” ou “desculpa.” Na verdade, desse jeito era a só como ela me olhava desde que tinha soltado a bomba de que estava com o . Como se eu tivesse alguma culpa por não concordar com essa palhaçada, que estava indo mais longe do que eu havia previsto, a princípio.
- E cadê os meus netos? – Ouvi a voz de Ivy antes mesmo de virar a curva da escada para entrar em seu campo de visão.
Ela estava com a mesma aparência que eu me lembrava. Uma versão mais velha, formal e fria da minha mãe. Eu não fazia ideia de quanto ela tinha se tornado assim, tão intragável. Quando eu era criança, ela apenas me dava comida e me colocava para brincar quando minha mãe me deixava na casa dos meus avôs. Os diálogos entre nós dois eram quase nulos. De uma hora pra outra ela tinha se tornado aquela pessoa que decidira opinar em tudo na minha vida.
- Não vão abraçar a avó de vocês? – Ela perguntou, em uma falsa simpatia, quando percebi que já tinha ficado parado no pé da escada tempo demais.
Soltei Ammy para que ela fosse ao encontro da minha avó.
- – Ela me chamou. Vi, pelo canto dos olhos, minha mãe fazer um movimento com a cabeça, me dizendo para ir logo. Obedeci, vendo que eu não teria nenhuma opção, mesmo. Ivy colocou os braços ao meu redor e eu retribuí o mínimo possível, para que eu não tivesse que ouvir palavras como “desrespeitoso”, depois – Você engordou desde a última vez que o vi – Ela me afastou o suficiente para encarar meu corpo inteiro. Dei uma olhada rápida para minha mãe – Como está o futebol?
- Está ótimo.
- Você deveria trabalhar um pouco mais, obviamente seu treinador anda muito desleixado.
- Vou dizer a ele que você mandou lembranças – Soltei o comentário sarcástico quando já me afastava dela, recebendo uma beliscada da minha mãe quando passei por perto. Claro, o comportamento perfeitamente controlado tinha sido a primeira instrução que recebi quando ela invadiu meu quarto mais cedo.
- E você, quem é? – Ela finalmente se virou para .
- Mãe, essa é a , amiga do .
- Ah, sim – Ela fez uma rápida expressão de entendimento – O que há com a geração atual que não consegue se manter longe dos doces? – Ela sussurrou, mais para si mesma, do que para qualquer um presente. Ela riu consigo mesma, mas quando baixou os olhos para ver o corpo de , ela me olhou, como se entendesse tudo.
Eu estava pronto para desmentir, dizer que eu não tinha engravidado minha melhor amiga, mas achei melhor deixar que ela pensasse o que quisesse de mim. Eu, sinceramente, não estava dando a mínima.
Minha mãe puxou minha avó para mostrar algo que tinha preparado para o jantar.
E eu fui para a sala, onde tinham aberto mais espaço para que as pessoas ficassem conversando. Suspirei esperando por uma longa noite.
Posicionei o cigarro contra o vento, apenas inalando o cheiro de menta que saia dele, deixando a fina fumaça se dissipar ao bater no meu rosto.
- Você está atrasada.
- Você não me falou a hora que eu deveria chegar, então eu vim quando quis – subiu os degraus do terraço da frente da minha casa. Eu tinha esperado até que todos tivessem chegado para que eu fosse para fora, sem correr o risco de algum dos amigos da minha mãe irem me delatar lá dentro – Você não vai viver mais só porque seu cigarro tem um cheiro bom, sabe? – Ela falou em tom de brincadeira, se aproximando da cadeira onde eu estava sentado.
- Você fala como se isso fosse uma coisa ruim.
- Qual é a do mau-humor?
- Sinta-se a vontade para entrar, quando você conhecê-la, venha aqui me dizer se me matar com nicotina é ou não uma boa ideia.
- Não pode ser tão ruim assim.
- Não?! – Depositei meus braços na cadeira e soltei uma gargalhada breve. puxou o cigarro e jogou no gramado, para ser apagado pela chuva. Olhei incrédulo para ela, depois para o cigarro molhado, sem nenhuma chance de ser recuperado. Era o último que eu tinha – Por que você fez isso?!
- Porque eu queria – respondeu, cruzando os braços.
Bufei, relaxando na cadeira.
A menina continuou ali, na mesma posição.
Dei uma olhada para e suspirei para deixar uma sensação ruim fugir do meu peito. Eu estive descontando minha raiva em todos, o dia inteiro, mas só naquele momento eu parei para me sentir mal por isso. Ela tinha vindo até a minha casa para fazer a minha noite não ser tão insuportável, afinal de contas.
E ela ia conseguir, eu tinha absoluta certeza disso. Ela sempre conseguia melhorar o que quisesse. É uma das coisas que me fizeram gostar dela.
Ela consegue me fazer melhor, o que qualquer um poderia afirmar ser impossível.
- Você está linda.
Ela se sobressaltou.
- A única vez que você me disse algo assim, você estava bêbado.
Eu não me lembrava daquilo. Mas não duvidei, nem retruquei. Eu tendo a falar as coisas que vêm a minha cabeça quando estou bêbado, mesmo.
- Obrigada – Ela falou, por fim, sorrindo.
- Vai ficar em pé, aí?
- Na verdade, estou pensando em um jeito de fazer você entrar – Ela me estendeu sua mão, esperando que eu pegasse para acompanhá-la até dentro de casa.
Bom, ela acertou a parte de pegar sua mão, porque eu peguei. Mas ao invés de me deixar levar, eu a puxei até mim.
- Você não vai querer entrar aí, eu estou falando sério – Fiz com que ela se sentasse em meu colo.
- Eu não me assusto tão fácil quanto você, – tentou brincar, passando os dedos entre os meus cabelos, carinhosamente.
- Quer apostar? – Arqueei uma sobrancelha.
- Claro – Ela se levantou de vez, me puxando com ela. Dessa vez, me deixei levar.
Eu estava louco de vontade de ver a cara da minha avó quando visse que eu não estava namorando exatamente o tipo de pessoa que ela aprova.
É, a palavra “namorando” realmente veio a minha cabeça, por mais que eu quisesse acreditar no contrário.
O trato que eu tinha feito comigo mesmo de não namorar outra garota depois que terminei com Carly poderia ter sido cumprido se eu não tivesse sido traído pela minha própria mente.
Puxei a mão de e fui conduzindo-a por dentro da casa, procurando algum sinal da minha avó, ou de alguém que pudesse dizer onde ela estava. Achei-a perto da lareira, conversando com alguém que eu identifiquei logo como sendo James. Quando Ivy levou um copo a boca, aproveitou e deu uma olhada ao redor, vendo que eu estava me aproximando, ela deu um sorriso.
- As pessoas estão perguntando por você, querido – Ela pôs a taça, que estava cheia até a metade, em cima da lareira – Eu estava aqui conversando com o James, tentando adivinhar onde você estava.
- Eu saí – Respondi, sem disposição para explicar que eu estava fugindo desse jantar idiota. Por mais que eu quisesse dar essa resposta, me segurei – Eu quero que você conheça alguém.
- E como se você tivesse adivinhado, você apareceu – James falou, formal. Semicerrei os olhos para a atuação barata dele. Ele perdia mais tempo posando de filho exemplar do que tentando ser um. A situação se tornou tão crítica que aos olhos da minha avó, ele ter largado a escola em prol de correr atrás dos seus sonhos foi uma benção. Se eu fizesse o mesmo, seria amarrado ao pé da mesa por, no mínimo, setenta anos; Ele prendeu o riso – Com licença – E saiu.
Talvez chamar o James não tenha sido lá a melhor das ideias.
Ela focou os olhos verdes na garota encolhida ao meu lado.
- Essa é a – Continuei. Ela voltou os olhos para mim, questionando a importância daquela apresentação, uma vez que eu nunca tinha me dado ao trabalho de apresentar nem mesmo um amigo para ela – Ela é minha... – Travei.
Eu queria dizer. Eu ia dizer. Mas, de alguma forma, a palavra se perdeu dentro de mim.
- Amiga – percebeu minha confusão, e completou. Estendeu a mão para que minha avó pegasse, sem se mostrar intimidada. Na verdade, foram raras as vezes que a vi intimidada por alguém, como pelo tio dela, no outro dia.
Ivy pegou a mão da garota, ainda intrigada.
Eu enchi o peito, numa coragem de origem desconhecida, e falei:
- Namorada, na verdade.
se virou para mim, de repente.
Já minha avó, viu suas suspeitas se confirmarem.
- Eu achei que você namorasse a filha dos Bourne – Ela voltou a avaliar dos pés à cabeça, dessa vez sem tentar esconder o descontentamento.
Minha expressão caiu.
- Colleen é o nome dela, não é?
- Colleen e eu terminamos há anos – Expliquei, entre dentes.
- Eu sei – Ela assentiu, delicadamente – Eu só achei que a essa altura você já teria deixado a rebeldia de lado e visto qual é o tipo certo de garota para namorar.
Ela deu mais uma olhada em e saiu.
É, tinha sido bem pior do que eu previra.
Virei-me para . Eu vi que ela ia falar alguma coisa, mas fechou a boca logo em seguida. Puxei a taça que Ivy deixou na lareira e entornei todo o líquido que ali restava. Era um martini, com uma dose de vodca muito maior que o normal, para minha felicidade.
- Você falou sério? – finalmente parecia ter escolhido as palavras certas – Ou você estava só querendo irritá-la?
- Sobre você ser minha namorada?
- É.
- Sim.
- Sim, você falou sério? Ou sim, você só estava querendo irritá-la? – Ela me encarou, incerta. Soltei uma risada.
- Para os dois.
- Que droga, ! – Ela soltou um murmúrio de frustração diante das minhas respostas vagas. Eu ri ainda mais e a puxei para mim, beijando-a de uma maneira que a fizesse entender que eu tinha falado sério.
Do jeito que ela tinha me deixado depois da noite na casa do seu tio, eu só poderia expressar daquela maneira. Esse tipo de beijo seria o mais perto que ela chegaria de saber que eu tinha me tornado um idiota por ela. Que eu não conseguia pensar direito quando ela estava por perto. Que o quanto o perfume dela me impregna é o quanto ela me mantém em suas mãos. Como eu poderia falar isso em voz alta? Como eu admitiria para alguém algo que eu tinha lutado tanto contra?
- Ok. Fico feliz por ter decidido isso sozinho, eu já estava cansada de ser o cara da relação – Ela riu, quando se afastou. Eu a encarei, fingindo que seu comentário tinha me afetado – Eu acho que isso vai tornar os beijos públicos mais suportáveis.
- Eu não sei, você já falou que eu beijo mal – Dei de ombros.
- Você está melhorando. Eu sou uma boa professora – Rimos – Mas eu acho que poder dizer que você é meu já vale a tortura de ter um milhão de pares de olhos me encarando o tempo todo.
- Você não precisava ser minha namorada para isso.
Ela apertou um pouco as mãos que seguravam minha camisa e sorriu. De uma forma diferente, que não pude decifrar. Como se ela estivesse refletindo o que eu tinha dito. Mas eu não conseguia saber se era de uma forma boa ou ruim.
De repente, ela balançou a cabeça, como se afastasse os pensamentos.
- Então, quer ver se tem mais algum parente meu para atormentar por aí? – Sugeri, tentando forçar um contato visual menos artificial. Ela parecia distraída.
- Claro – Sorriu. desceu a mão para pegar na minha – Posso perguntar uma coisa?
- Pode.
- Por que o nome dessa Colleen me soa tão familiar, relacionado a você?
Respirei fundo.
É claro que minha avó tinha que semear o problema para deixar que eu mesmo o colhesse depois.
Pessoas falam de Colleen. O tempo todo. Principalmente do tempo em que nós namoramos, que me seguia igual a um fantasma.
- Agora não – Resmunguei, já sabendo que o assunto não demoraria a voltar à tona.
- Tudo bem.
20.
- Eles não podem fazer isso!
- Tanto podem, como já fizeram, seu idiota!
- Não me chame de idiota – Adam avançou para cima de Jeremy, mas eu me pus no meio.
- Será que alguém vai me dizer o que aconteceu? – Perguntei, mas parecia que ninguém estava me ouvindo.
- Pode vir! – Jeremy tentou se desvencilhar de mim, o que não era muito difícil, já que eu estava sozinho ali para apartar os dois superdesenvolvidos.
- O que houve, porra? – Insisti, mas os dois mais uma vez me ignoraram e ficaram apenas se encarando, com hostilidade.
Bufei.
- O que esses dois estão fazendo? – se aproximou rapidamente e puxou Adam para longe.
Tentei não parecer tão agradecido quanto eu estava. Eu não daria conta de separar aqueles dois se eles quisessem realmente brigar, mas felizmente eles eram covardes o suficiente para não conseguir nem levantar o punho para o outro. O máximo que eles conseguiriam manter a mão erguida seria para proteger o próprio rosto, e não para contribuir com a briga propriamente.
O colégio estava praticamente vazio, eu tinha ficado para o treino. Ou tinha ficado para dizer que não ficaria para o treino. Eu não tinha pensado muito bem no que iria fazer, achei que, pela força do momento, eu improvisaria. No meio do caminho encontrei esses dois idiotas brigando, e estranhei. Brigas dentro do time, por mais estranho que isso possa soar, não era comum.
- É isso que eu quero saber – Empurrei Jeremy para o lado oposto e me pus de frente para ele – O que vocês fizeram?
- O que nós fizemos? – Ele me olhou com escárnio. Eu me sobressaí um pouco, surpreso. Dentro de tantos anos eu nunca tinha visto nenhum dos caras do time agirem com hostilidade. Não comigo – Tente se perguntar o que você fez.
- Como é? – Empurrei-o na parede.
soltou Adam e veio para o meu lado, os dois pareciam ter esquecido o porquê de um estar sendo segurado pelo outro, e já estavam preparados para apartar outra briga.
- Se você não tivesse sido expulso do time nós não teríamos armado para o Williams ser expulso!
- Espera, o quê? – Soltei ele, quando vi que não teria mais perigo nenhum. Embora eu ainda estivesse me sentindo furioso por dentro, imaginei que se eu fosse tratá-lo com a raiva que eu estava sentindo, Jeremy iria terminar me escondendo alguma coisa. Fiquei inexplicavelmente racional quando ele mencionou o Williams – O Williams nunca ficou com aquela garota?
- Claro que ficou – Ele rolou os olhos – Ela é amiga da minha irmã, mas eu não estou falando disso.
- Jeremy já sabia há algum tempo, mas quando ele nos contou, achamos que seria um bom jeito de tirar o Williams e colocar você de volta no time – Adam explicou.
- Você sabia disso? – Virei-me para . Ele apenas deu de ombros e balançou a cabeça negativamente.
- Não contamos para o , porque sabíamos que ele iria dar uma lição de moral – Jeremy voltou a falar, ainda mal-humorado. Não mais do que eu, garanto.
- ? – Sugeri.
- Ele sabia, mas não quis ajudar.
- O que diabos vocês estavam pensando?! – Passei a mão sobre meu rosto, espantando a vontade de socar um daqueles dois – Por que não me contaram isso?
- Bom, você anda muito ocupado, ultimamente – Jeremy deu um sorriso sacana e hostil – Primeiro você decide que não quer mais colocar esse aí para fora do time, – Ele deu uma olhada rápida para – depois começa a pegar a amiguinha dele. Quem é o próximo? ? É melhor você colocar uma lista no quadro de avisos, , está ficando um pouco difícil de acompanhar.
- Que tal você arrumar a porra de uma vida para você – Empurrei-o novamente na parede, mas ele me empurrou de volta, encheu o peito, como se criasse coragem, e se aproximou.
- E agora, por causa do brilhante capitão que escolhemos, estamos todos sem futebol – Ele sorriu, como se julgasse que eu tivesse enfiado eles nessa confusão o divertisse.
- Ei, volta um pouco essa sua lógica maluca – interrompeu – Estamos sem futebol? Como é?
- O diretor suspendeu o time até encontrar outro treinador – Adam explicou quando vimos que Jeremy não iria dar nenhuma satisfação.
Aquela situação era completamente nova para mim. Mas, quer saber? O que na minha vida naquele momento não era completamente inusitado? Eu sabia que era um risco que eu tinha que correr, eu já não queria nada com aquele time, e, mesmo que eles ainda não soubessem disso, podiam ao menos perceber que eu estava dando as costas. Pelo menos eu sabia que aqueles idiotas eram completamente manipuláveis.
- Qual é o problema? Ficamos de folga por algumas semanas. Eles vão arrumar outro – não falou muito certo de si, estava mais incentivando alguém a concordar com ele.
- Com o tamanho dessa cidade, é, não acho que a fila de pretendentes ao cargo vai estar virando a esquina – Falei, processando como aqueles dois babacas tinham estragado tudo para todo mundo do time. Quer dizer, os babacas do time inteiro tinham estragado. Como alguém poderia ser tão burro? – Teremos sorte se eles chamarem o Wright, o professor gordo de educação física do primeiro ano.
- Exato – Jeremy confirmou. Ele ainda me olhava como se esperasse que eu desse alguma solução.
- Vocês se enfiaram nesse buraco, agora se virem – Lancei um olhar entediado.
- Como você pode não se importar, cara? – Adam me olhou incrédulo. Ele tinha segurado o temperamento o tempo todo em relação a mim. Aparentemente, aqueles dois tinham discutido bastante e chegaram ao consenso de que seria muito mais sensato me culpar. , o babaca que sempre tinha a solução. Será que eu sempre tinha sido esse idiota disposto a estar resolvendo esses problemas? Eu! Logo eu, que sempre achei que os meus problemas eram os únicos que mereciam meu tempo e minha energia. Ser egoísta foi uma decisão que tomei muito tempo atrás.
- Porque eu não... – Comecei a falar, mas eu mesmo me interrompi. Aquela era a brecha que eu estava procurando para anunciar que não voltaria. E eu estava me acovardando. Merda!
- Talvez a gente acabe com o Wright mesmo – percebeu que eu tinha me silenciado e se meteu. Passei as mãos pela minha testa, com força – Não é tão ruim assim. As regionais são só no semestre que vem. Vamos só aceitar as férias forçadas – Ele colocou uma mão no ombro de Jeremy, o encarando o cara, sugestivamente – E vamos ficar sem aprontar nada, só para variar. Escapamos do trote com o Dover Grammar, acho que já abusamos o bastante da nossa sorte.
- Que seja – O outro me encarou, com as sobrancelhas arqueadas – Eu já sei onde foi o erro. Até você, , se tornou mais capitão que o .
Jeremy se virou e saiu andando pelo corredor vazio.
- O mundo gira mesmo – Adam falou, rindo com deboche e saiu com os passos apressados para alcançar o outro.
- Eu sempre achei que você fosse o primeiro a agir, bom, como esses lunáticos agiram agora, caso acontecesse algo do tipo – falou, calmamente.
- Você também, é? – Bufei. Tirando o blazer do colégio, não me importando se estava um frio de rachar.
- Não, não, isso foi muito legal de assistir – Ele deu uma gargalhada breve – Se você desse um soco nele, pode apostar que eu iria pegar meu celular para gravar.
Ri alto.
Vire-me para trás, procurando a entrada para o campo onde nós treinávamos. Alguns dos caras do time estavam reunidos, discutindo. estava com eles, gesticulando violentamente. Ou outros estavam tão felizes quanto Adam e Jeremy, e eu não estava muito no clima para lidar com o resto do time como estava fazendo. Eu tinha lidado com essas crises por anos, não fazia nenhum mal deixar nas costas do meu melhor amigo só uma vez.
- Quer uma carona? – rodou as chaves do carro nos dedos e apontou para o lado oposto, para o estacionamento.
Dei mais uma olhada para o grupo lá trás e assenti.
- , eu levei seu carro para lavar, e eles entregaram essas coisas que estavam dentro – Meu padrasto colocou alguns objetos em cima da mesa.
Eu assenti apoiado ao balcão, comendo.
Andei até os objetos ao ver um caderno preto, estranho.
Na parte de dentro, no canto superior, estava escrito o nome do seu dono numa letra fina e um pouco assimétrica: .
Vasculhei minha mente procurando por algo que justificasse aquele caderno estar no meu carro e só então me lembrei da noite na praia. tinha esquecido o caderno em cima do meu carro.
Fechei-o imediatamente, peguei o resto das coisas, que eu já nem lembrava que existiam, pelo tanto tempo que estavam esquecidas no meu carro, e segui para o meu quarto.
Ao me ver sozinho, peguei o caderno novamente. Dentro dele tinha uns desenhos estranhos algumas anotações fora de contexto, coisas até de colégio e:
I think yesterday (Eu penso que ontem)
And all the times I spent being lonely (E todo tempo que eu passei sozinho)
I watched the young be young (Eu assisti os jovens sendo jovens)
While all the singers sung (Enquanto todos os cantores cantavam)
About the way I felt (Sobre o jeito que me sentia)
The days are here again (Os dias estão aqui de novo)
When all the lights go down, (Quando todas as luzes se apagam,)
What do they show me? (O que eles me mostram?)
The rules are all the same (As regras são todas as mesmas)
It's just a different game (É apenas um jogo diferente)
To tell you how I feel (Para te dizer como me sinto)
Although it seems so rare (Mesmo que pareça tão raro)
I was always there (Eu sempre estive lá)
Fechei o caderno antes de terminar de ler o resto.
Eu sabia que o gostava daquilo, sempre soube. Eu não queria me sentir nostálgico, mas era exatamente esse o sentimento que tomou conta de mim.
Nós dois costumávamos dizer que montaríamos uma banda juntos, muitos anos atrás. Muito tempo se passou, e muitas coisas aconteceram. O que me surpreendia é que ele ainda se interessava por aquilo, como eu. E, também, talvez ainda tivéssemos o mesmo sonho. Agora separados.
Pensei no que tinha me dito, sobre e sobre o filho dela. Por quê? Como ele conseguia fazer aquilo? Por que ele iria fazer isso por ela? E com ele mesmo? Eram coisas que eu nunca entenderia. Eles namoravam há tão pouco tempo, mas nem sabia desde quando ele gostava dela.
Aquela música era para ?
Tinha que ser para ela, não poderia ser para a outra.
Segui para fora do quarto e bati no quarto ao lado, sem esperar muito para que a abrisse. Ela não estranhou minha visita, tampouco pareceu feliz, apenas me cumprimentou, calmamente.
- Posso falar com você? – Falei, dando-lhe um sorriso pequeno, querendo mostrar que minhas intenções eram boas.
- ...
- Não vou brigar com você.
- Ok – Ela relaxou e soltou a porta para que eu pudesse entrar.
Não perdi tempo e entreguei-lhe o caderno preto, esperando que ele fosse explicar-lhe o motivo da conversa. Não me sentia completamente confortável, mas pelo menos aquela era a primeira vez em que senti que realmente estava fazendo algo certo.
folheou o caderno sem fazer nenhuma pergunta, seus olhos, que passeavam pela página, a princípio não demonstraram nenhuma emoção, mas depois foram adquirindo um brilho. Foi então quando ela os levantou para mim, com as sobrancelhas franzidas.
- O que você está fazendo com isso?
- Ele esqueceu no meu carro no outro dia.
- Claro, o dia que vocês dois estavam de segredinhos – Ela relaxou um pouco, engolindo a acusação que estava prestes a me fazer – O que tá acontecendo? Vocês voltaram a ser amiguinhos?
- Não. Nunca – Rolei os olhos – Mas eu vim falar dele.
- O que?
- Eu desisto – Falei rapidamente, mas pelo menos ela pôde me entender.
- Desiste de quê?
- De você e dele. Eu... – Olhei para o caderno nas mãos dela e apontei – Você tem certeza de que ele gosta de você, de verdade? Mesmo?
Ela soltou uma breve risada, como se estivesse realmente achando aquela pergunta engraçada, e ao mesmo tempo não tivesse acreditando. Mas pelo menos ela não soava sarcástica.
- , ninguém nunca vai ter certeza disso – Deu de ombros – Eu realmente acho que ele goste de mim. Se eu começar a pensar sobre isso, vou enlouquecer.
- Então por que você está com ele?
- Por que eu quero pensar que é verdade, sabe? – Ela se sentou na cama – Eu realmente acho que ele poderia me fazer bem, . A última vez que eu gostei de um cara, fechei meus olhos para a possibilidade de ele não gostar de mim do mesmo jeito... – suspirou pesadamente e continuou – E aí eu me entreguei para ele, e foi incrível... Por alguns minutos. Agora eu estou tentando digerir o fato de que vou ser mãe aos dezessete anos – Passou a mão na barriga – Pela primeira vez, eu estou conciliando pensamento e coração, e finalmente as coisas estão dando certo pra mim.
- Eu não vou mais atrapalhar.
- O que mudou? – Ela sorriu.
- Nada.
- Você mudou – Os olhos dela de repente assumiram um brilho – E a sua mudança tem nome, sobrenome e até uma nacionalidade diferente.
- Não é nada disso!
- Há! – Ela apontou o dedo para mim – Levou três anos até Carly conseguir que você fosse namorado dela, conseguiu em questão de poucos meses!
- Você não está ajudando – Lancei-lhe um olhar duro, nunca gostei que as pessoas viessem explicar o que se passava dentro de mim, quando nem eu tinha certeza.
- Ok – Ela assentiu e se levantou abraçada ao caderno de – Só não estraga essa garota, ok? Ela é a primeira namorada legal que você tem.
- Não está nos meus planos – Senti um calor subir pelo meu corpo. Aquilo era tão desconhecido, se eu não estava planejando nada que eu estava acostumado com as outras garotas, então até onde aquilo ia? Esse pensamento, diferente do que eu pensava, me trouxe certa curiosidade, e não preocupação.
- Não pense – Ouvi a voz de , já um pouco distante. Ela tinha se virado para colocar o caderno dentro da gaveta da mesa que ficava encostada na parede oposta a mim – Se você quer estar com ela, esteja, e só. Mas só se você achar que vale a pena.
- Isso não é para mim.
- Eu sei – Ela colocou uma mão no topo da minha cabeça – Estou orgulhosa por você tentar.
- Como foi lá?
- Na falta de uma definição pior: foi um inferno – arrancou umas folhas da grama do próprio jardim.
- Pelo menos podemos ter uma folga daqueles babacas por um tempo – Soltei um sorriso rancoroso, e me deitei, relaxando a cabeça na grama.
- Eu vou ter uma folga, você quer dizer.
- Como assim?
- Você não vai voltar, vai? – Ele puxou a garrafa de cerveja, que estava apoiada na árvore por não conseguir se sustentar sozinha, e depois me lançou um olhar curioso. Não... O olhar era diferente. Ele apenas esperava eu confirmar.
- Não – Falei, simplesmente.
- Eu sabia – Ele apenas assentiu – Eu não quero voltar também – Levou a garrafa mais uma vez até a boca.
Levantei-me tão subitamente que me senti levemente tonto.
- Não?!
- Eu realmente não sei como você aguentava isso de capitão. É um inferno – Falou com acusação na voz – Eu só me juntei ao time por falta de coisa melhor. Nós dois sabemos que eu não esbanjo talentos.
- Não adianta você começar a falar assim, eu não vou te dar um abraço – Ri. Senti-me aliviado. Se se sentia do mesmo jeito que eu, cansado daquilo, não poderia ser um problema meu, poderia? Eu não era o único que tinha mudado tanto.
Ele apenas jogou a garrafa já vazia no meu braço.
- Minha mãe vai surtar.
- A minha surtou, então se prepare pra algo bem mais catastrófico – Puxei a minha cerveja antes que começasse a tomá-la também, uma vez que as suas tinham todas acabado, e eu ainda tinha a minha última quase cheia.
- Será que tem alguma coisa que nós possamos fazer que exija o mínimo daquele colégio? – bufou.
Eu pensei em falar o que eu tinha em mente, pensei em dizer a ele meus planos, os planos que eu tinha com , e estavam há muito tempo escondidos dentro de um caderno similar ao que entreguei a mais cedo. A diferença é apenas o nome na contracapa. O meu nome.
tinha razão, eu queria aquilo, mas só de pensar em transformar toda a minha vida, rotina e imagem, a confiança caía bastante. Que eu tinha mudado, eu sabia, e já poderia até aceitar aquilo, mas querer seguir a carreira de música e começar a contar isso para as pessoas é um passo bem diferente. É como chegar no colégio com uma melancia no pescoço. Eu normalmente gostaria da atenção, mas era diferente, eu teria que aprender a lidar com aquilo antes.
Por fim, decidi ficar calado e apenas assenti.
Meu celular vibrou no meu bolso. Era uma mensagem.
“Onde você está? ”
“Indo para casa. ”
Respondi quase imediatamente.
- Vou indo nessa – Falei para .
- Ah, essas garotas da atualidade, não se incomodam nem em fazer uma ligação. É só digitar as quatro letras e enviar a mensagem – Ele riu se levantando comigo.
- Que quatro letras?
- S-E-X-O – Continuou rindo, quando o celular tocou mais uma vez, anunciando outra mensagem – Ela tá com pressa, hein?
- Cala a boca. É do Bourne.
“Preciso falar com você. Urgente.”
Ignorei e coloquei meu celular de volta no bolso da calça. O cara deveria estar no mínimo bêbado. Do contrário, o que diabos ele teria para conversar comigo? Não conseguia imaginar nada, então, me deixei esquecer no caminho para casa.
- Sem pressa, não é como se eu estivesse com frio – falou ao me avistar enquanto me aproximava dela, já na rua da minha casa.
- Foi você quem escolheu não entrar – Dei de ombros, me livrando da culpa. Eu tinha acabado de sair da casa do quando ela me ligou avisando que chegara. E, mesmo que ele não morasse tão longe de mim, eu não iria começar a correr mesmo.
- Tão cavalheiro.
- É natural.
- Vem – Ela puxou minha mão quando começou a andar, para minha surpresa, se afastando da casa.
- Aonde você tá indo?
- Qualquer lugar.
- Já tá escuro, – Apontei com a cabeça para as luzes da rua acesas.
- Você tá com medo, por acaso?
- Não – Quase ri, ela estava honestamente parecendo que suspeitava do que perguntou.
- Então, vamos – Ela parou de me puxar, parecendo realmente concentrada em me convencer a sair de casa – Não podemos ficar na sua casa porque, por mais que eu adore ter uma garota de três anos nos assistindo, não acho que seja adequado – Ela me lançou um sorriso pelo canto da boca – E minha casa... Bem, você sabe.
- O colégio tem alojamento, você sabe disso, não é?
- E ter que chegar às 10 da noite todo dia? Não, obrigada – Falando isso ela se virou – Vem, já tá escurecendo.
- Ir aonde? – Protestei, mas mesmo assim fui atrás – Eu não posso dormir fora de casa, não hoje.
- A gente não precisa dormir – Ela me olhou de um jeito que me fez até duvidar se ela já sabia do motivo.
Ela puxou minha mão, como se fizesse aquilo o tempo todo e saiu quase me arrastando até a próxima esquina.
- Eu não vou subir aí, – Parei abruptamente quando vi o que ela pretendia fazer.
- Para de frescura, – Ela rolou os olhos e pediu parada para o ônibus que se aproximava – O cara do trabalho deixou a chave da lanchonete comigo – Ela sorriu.
- E você vai invadir?
- Não se você estiver comigo! Você é o filho da chefe, esqueceu?
- Você é uma má influência – Levei minha mão livre até sua cintura, dentro da sua camisa, passando meus dedos por seus pêlos levemente eriçados, talvez pelo frio, talvez por mim. Eu gostava de pensar que a segunda opção era a certa.
- É, nós nos damos muito bem – Ela tirou minha mão da sua cintura e me lançou um olhar tão esnobe quanto forçado que me fez rir. Ela pulou no ônibus parado e me lançou um olhar antes de subir – Você vai vir ou não?
- Nem acredito que eu fiz o príncipe do Dover College andar de ônibus.
- Não se preocupe, é uma experiência que eu não quero repetir – Joguei-me em um dos sofás espalhados pela lanchonete, observando ligar apenas uma luz, deixando o ambiente semiilumidado.
- Se eu pedir mais uma vez, você faria, tenho certeza – Ela voltou-se para mim, sentando nas minhas pernas, e os braços apoiados nos meus ombros.
- Você anda confiante demais.
- É culpa sua – Riu – Você fica me fazendo me sentir como se eu pudesse fazer qualquer coisa.
- Você pode – Tirei um pouco do cabelo dela que caía por seu rosto e percebi que ela sorria.
- Espera – se desvencilhou de mim e correu para trás do balcão da lanchonete. Observei ela procurar algo no armário da cozinha – Uns campistas dementes deixaram isso aqui umas semanas atrás e nunca vieram procurar.
puxou uma bolsa que parecia estar pesada e arrastou até a mesa mais próxima. Do meio de um monte de objetos inúteis, ela puxou um cobertor e dois colchões muito finos.
- Conveniente – Comentei.
- Vem – Ela se sentou nos dois colchões jogados no canto da parede, e o cobertor forrado por cima. Aquilo não parecia nem um pouco confortável, mas isso realmente importa?
- Você não é tão inocente quanto as pessoas comentam por aí – Falei ao me sentar ao seu lado, trazendo-a para mim.
- E você não é tão cachorro quanto você pensa que é – Ela começou a passar o dedo indicador pelo meu corpo, deixando um minha pele ardendo levemente por onde seu toque passava. Ela já estava me deixando maluco em questão de segundos!
- Você está mexendo com forças que você não conhece, – Passei minha boca pela extensão do seu pescoço, sentindo um cheiro suave.
- Estou tentando conhecer – Ela ficou de joelhos, posicionando as pernas uma de cada lado meu – Você é um dos difíceis.
- Um dos difíceis? – Aquela frase tinha me incomodado de um jeito que eu tive que repeti-la em voz alta para ter certeza que eu tinha realmente escutando – Quantos você tentou... Conhecer antes de mim?
- Isso importa? – Ela se sentou no meu colo, tirando as mãos de mim, colocando nas próprias pernas. Ocupei-me tanto em observar seus gestos que quase deixei passar o olhar impaciente dela.
- O que foi? Estou matando alguém por querer saber?
- Não, não está! – gesticulou ferozmente ao colocar o dedo no meu rosto – Mas você vai armar uma confusão por causa disso, eu sei.
- Eu estou fazendo uma pergunta simples – Segurei a sua mão longe do meu rosto.
- Você quer saber se foi minha primeira vez.
- Eu não fiz essa pergunta, exatamente.
- Mas vamos pular para onde essa conversa vai levar... – Suspirou, irritada – Não, não foi.
Soltei a mão dela e assenti.
- Foi tão difícil assim responder?
- Inacreditável – Ela segurou meu rosto com as duas mãos – Isso não importa! Que saco!
- Você está certa.
Sua mão relaxou um pouco. Percebi que seu toque estava apertado, talvez até me machucando quando ela puxou a parte de baixo do meu queixo e me deu um beijo rápido.
Ela olhava para mim como se procurasse por alguma coisa lá dentro.
- Quem foi sua primeira? – Ela perguntou, para minha surpresa.
- Achei que isso não importasse.
- Importa. Um pouco – Ela levantou os ombros levemente e riu com a mesma intensidade.
- Ex-namorada. Colleen.
- Colleen? A garota de quem todos falam? – pareceu surpresa.
- Todos? – Arqueei uma sobrancelha.
- É. Eu não estava perguntando, a informação parece chegar involuntariamente até mim – Ri da careta que ela fez – Como a sua avó no outro dia.
- É. Bem agradável – Dessa vez quem fez careta fui eu – Agora é a sua vez de me dizer.
- Eu acho que você sabe.
- Benjamin?
- É.
- Eu tenho pena de você – Tentei reprimir o incômodo dentro de mim. não precisava saber que aquele palhaço me causava qualquer tipo de sensação de ameaça.
- Engraçadinho.
- Acho que estragamos o clima – Esperei que ela saísse de cima do meu colo, mas ela não o fez.
- Você queria estar com ela agora?
- Colleen? Não!
- Nem eu – Deu de ombros – Por mais desagradável que a minha companhia está sendo agora, eu to bem com ela – Ela riu de si mesma ao tentar forçar uma expressão de desprezo – Então, esse clima ainda tem conserto.
- Então, conserte.
Subi minha mão sobre suas coxas e não precisei esperar muito para vê-la sorrindo.
Senti uma mão sacudindo meu braço de leve, mas resolvi ignorar. Preferi acreditar que, quem quer que fosse, iria desistir. Mas a mão foi ficando gradativamente mais insistente, até que eu abri meus olhos para ver a menina quase dormindo, tentando me acordar.
- Seu celular está tocando – Ela murmurou.
- Deixa tocar.
- É a sua mãe, – Ela jogou o aparelho em cima da minha barriga e se levantou puxando o cobertor com ela.
- Droga! – Levantei-me bruscamente. O visor do celular indicava sete horas da manhã, o que, para mim, era sinônimo de “Você tá fodido, .” O único dia que minha mãe tinha exigido que eu passasse uma noite inteira sob o teto da minha casa e lá estava eu. Atendi a ligação rapidamente – Oi, mãe.
- Você foi sequestrado? – Notei aquele tom de voz irônico e contido.
- Não que eu saiba.
- Então espero que você tenha uma boa explicação por não ter vindo para casa ontem à noite.
- Estou indo.
- Esteja aqui em cinco minutos ou eu vou pensar seriamente em amarrar você ao pé da cama – Seu tom se suavizou ao fazer a piada.
- Você não tá com raiva? – Arqueei uma sobrancelha.
me jogou minhas roupas e foi para o banheiro da lanchonete.
- Não é comigo que você deve se preocupar, amor – Quem parecia preocupada era ela.
- Como assim?
- Venha para casa... E traga com você – Minha mãe desligou antes que eu pudesse ter a chance de argumentar mais alguma vez. Ela tinha me deixado muito intrigado.
- Então? – voltou do banheiro, com o cabelo arrumado, nem parecendo que tinha passado a noite sobre uns colchões de acampamento que não eram lá das melhores qualidades.
Eu me sentia péssimo só por me sentir inferior a ela. Eu sabia que ela não era o tipo de garota que ficava com caras como eu, não podia deixar de imaginar o porquê de ela ter deixado o namorado certinho e babaquinha por causa de mim.
- Tenho que ir para casa – Limpei a garganta tentando disfarçar por ter ficado muito tempo apenas olhando para ela. deve ter percebido. Ela confirmou minha suspeita ao cobrir o sorriso com uma mão, fingindo que estava limpando a boa. Isso eu fingi que não vi.
- E por que você ainda está sentado aí no chão?
Puxei minha camisa e meu casaco que ela tinha jogado ao meu lado e saí à procura dos sapatos. Não demorei mais do que dois minutos uma vez que, durante a noite, eu tinha me rendido ao frio e vestido pelo menos metade das minhas roupas.
- Você vai vir comigo? – Virei-me para , que voltava de trás do balcão, onde ela guardava as coisas que tínhamos usado para dormir. Em questão de minutos, era como se a lanchonete tivesse ficado vazia a noite inteira.
- Sua mãe vai matar você? Porque eu não quero testemunhar – Ela apontou para a porta com as chaves em mãos, me pedindo implicitamente para que saíssemos dali logo.
- Não acho que ela vá – Olhei meu reflexo no vidro da janela. Eu realmente estava parecendo que tinha acabado de sair de baixo de um rolo compressor, mas pelos menos eu me sentia bem – Ela me pediu para que você viesse comigo.
- Pediu? – Ela tirou as chaves da fechadura justamente quando a porta se abria e me encarou confusa.
- Eu sei tanto quanto você – Levantei as mãos – Ela estava estranha no telefone.
- Ah.
Acompanhei-a para fora e esperei que ela trancasse a porta, já livre de qualquer obrigação e da pressa. Ela não falou isso em voz alta, mas era bem evidente que nenhum dos seus colegas de trabalho iam ficar felizes ao vê-la abusando do local, fora de expediente, com o filho da chefe.
- E aí? Você vem? – Questionei, sem nem tentar esconder que eu queria que ela viesse. Eu meio que me rendi a isso.
- Claro – Ela respondeu, depois de avaliar minha expressão por alguns segundos.
Não respondi nada, apenas estendi minha mão para que ela pegasse e seguimos.
No caminho de volta, eu não pude deixar de me lembrar de quando eu e os caras do time ficávamos zoando os casais que andavam de mãos dadas para cima e para baixo, só para, então, perceber que eu tinha me tornado um desses. Eu achava aquilo tão patético que eu até me importaria de ser visto naquele momento, de mãos dadas com uma garota e subindo em um ônibus... Por ela, se eu ainda achasse que o quão babaca eu aparentava importava a alguém além de mim.
Não demoramos muito a chegar em casa. Eu teria até me preocupado, se minha mãe tivesse falado sério quanto àqueles cinco minutos, não estava em uma boa posição para irritar minha mãe desde que falei aquelas coisas para ela. Eu tinha me arrependido, minha vida inteira eu tentava fazê-la não se sentir mal em relação a mim. Dava certo, até então, em um momento de raiva, eu soltar toda minha frustração. Sei que eu não tenho o bom senso de pedir desculpas, eu não sou acostumado com isso, então eu tento compensar por isso, como pelo menos chegar em casa na hora que ela pede.
Enquanto eu procurava as chaves no bolso da minha calça, me surpreendi quando pôs a mão na minha bochecha e me beijou.
Foi completamente do nada, mas eu não iria perder tempo questionando, e beijei-a de volta. Ela perdeu a urgência da noite passada, mas não era algo inteiramente ruim, apenas não tinha segundas intenções.
- O que foi isso? – Perguntei, baixo, quando ela se afastou poucos centímetros. Mesmo sabendo que não tinha ninguém em volta, era como se eu quisesse que só ela me escutasse.
- Feliz aniversário, – Ela me deu um selinho e desceu das pontas dos pés, se afastando de verdade.
Então ela sabia, mesmo quando tentei esconder de todos que já não soubessem. Depois de desviar do olhar dela por alguns segundos, voltei a encará-la, sem saber o que fazer, ou o que falar. Sem querer dizer que eu odiava meu aniversário. Na verdade, que eu odiava meu aniversário naquele ano.
- Obrigado – Falei, enfim.
- Vamos entrar – Ela colocou a mão no bolso traseiro da minha calça e puxou o molho de chaves para me entregar.
- Sim, senhora.
- Mãe? – Chamei.
Meu celular vibrou no meu bolso, com uma mensagem.
“Não diga que eu não tentei avisar você. James”
Franzi o cenho. Eu tinha me esquecido completamente dele.
- Onde você esteve? – Minha avó surgiu da cozinha, carregando uma bandeja de chá – Sua mãe não tem nenhuma autoridade com você.
- O que você tá fazendo aqui? – Arqueei uma sobrancelha para ela, alternando meu olhar entre seu rosto e a bandeja.
- É o aniversário de dezoito anos do meu neto – Ela empinou o nariz e tornou a andar – Claro que eu esperava dizer isso em uma idade tão nova, mas o que posso fazer?
- Muito atenciosa – Resmunguei e comecei segui-la. O que quer que fosse que ela iria fazer com aquilo, não era sozinha.
Senti a um passo atrás de mim, se esforçando para não aparecer mais do que era possível.
- Feliz aniversário, a propósito – Ela abriu a porta que dava para o jardim. Eu apenas resmunguei uma resposta, para que ela continuasse falando – Vamos ter aquela conversinha que combinamos no ano passado, em breve – Minha avó olhou-me rapidamente, sem perder a expressão fria. O tópico número na lista de “Porque eu odiava meu aniversário de dezoito anos.” A conversa.
Ultrapassei-a, a fim de fugir de mais interações ou conversas. É claro que ela não tinha vindo à cidade porque queria visitar a família, ela escolheu vir justamente por causa do meu aniversário, porque esse tinha sido o combinado no ano passado, entre eu, ela e minha mãe. Ela não teria nenhum interesse em sair do seu apartamento em Londres se não fosse por esse trato.
Mas por pior que fosse ter que ouvir as indiretas da minha avó, não poderia ser pior do que me esperava na mesa do jardim.
“Não diga que eu não tentei avisar você.” A voz de James soou na minha cabeça, falando essas exatas palavras.
- – Minha mãe me olhou, tentando dar alguma espécie de aviso que eu nem quis tentar entender.
- Você não deveria deixar suas visitas esperando – A outra pessoa na mesa me lançou um sorriso aberto.
- Eu não deixaria, se elas me avisassem antes de aparecer.
- Olhe como fala, garoto – Minha avó pôs a bandeja na mesa e olhou de mim para minha mãe, de uma forma revoltada, de um jeito que eu quis deixá-la, desde que ela tinha chegado no outro dia, mas aquela não era exatamente a situação que eu tinha imaginado – Colleen veio de Paris para vê-lo, merece consideração.
- Feliz aniversário, querido – Ela se levantou. Não estava muito diferente desde a última vez que eu a tinha visto, alguns meses atrás. A garota me deu um abraço tão repentino que fez toda minha pele se comprimir. Eu me odiava por não possuir nenhuma reação – Eu acho que não posso mais chamá-lo de bebê.
- Nunca pôde.
- Isso nunca me impediu – Ela sorriu mais ainda, presumindo que eu tinha feito algum tipo de piada. Só então ela direcionou seus olhos para , mas não alterou sua expressão – Amiga sua?
- Namorada.
- Colleen – Ela puxou para um abraço, fazendo a outra se soltar de mim. Em algum ponto desde que tinha entrado no jardim, até aquele momento, eu tinha segurado a mão dela, e não tinha percebido quando.
- – A outra respondeu, um pouco confusa.
- Ela é mais bonita que a outra – Colleen me olhou, rindo.
- Eu gosto de sempre subir o nível – Arqueei uma sobrancelha, esperando que ela tivesse entendido o recado.
- É bom ver você novamente, – Ela voltou a se sentar, como se eu nunca tivesse falado nada.
21.
- Se sentindo melhor? – pulou no meu colo, de repente, me pegando completamente de surpresa. Um garoto do colégio, que conversava comigo no momento, se retirou sem falar mais nada.
- Como eu poderia não estar, desde que você começou a me regular, vinte minutos atrás? – Retruquei sarcasticamente, empurrando longe o copo de refrigerante depositado no balcão do bar, ao meu lado.
- Como eu poderia tirar você daqui se você insiste em continuar bebendo? – Ela entrelaçou suas mãos atrás do meu pescoço, devolvendo a provocação no mesmo tom de voz – Você nunca me ouve, porque faria isso enquanto está bêbado?
- Diga isso para ele – Apontei com o queixo para se aproximando.
- Escolhe um – levantou dois copos, se dirigindo a mim.
- O da direita – Apontei, rindo do modo como ele não fazia nem questão de esconder que mal sabia diferenciar seu pé esquerdo do direito – O que é isso?
- Vodca – Ele me entregou de uma forma afobada, derramando um pouco na minha calça.
- E o que tem no outro?
- Vodca – Ele gargalhou, levando o copo a boca.
- Você não tem algo menos destrutivo? – , entregando a própria luta, deu um gole, após esperar que eu mesmo bebesse. Estávamos no meio de um bar às três e meia da manhã, e era meu aniversário, com o péssimo dia que eu tinha tido, de que outra maneira eu poderia me divertir enquanto tantas coisas estavam rodando pela minha cabeça?
- Linda, a vodca cria caráter – pulou no balcão, sentando-se bem para trás, quase na ponta. Internamente, eu torcia para que ele fosse um pouco para trás e caísse. Meu cérebro acelerado só pensava na diversão que eu tiraria daquilo. No estado que meu amigo se encontrava, aposto que ele nem se importaria de me dar esse prazer como presente.
- Na prisão, provavelmente – Retruquei, rindo, mas tomando a bebida.
- Você viu aquilo? – Ele apontou descaradamente para um casal se beijando há pouco mais de dois metros de nós.
- Aquele é o ? – se levantou e ficou parada ao meu lado, entre mim e – E quem é aquela menina com ele?
- Te dou uma chance para adivinhar – balançou a cabeça negativamente. Sim, em resposta à pergunta dele, eu já tinha visto aquilo, mas quem iria se espantar?
- É A CARLY? – se sobressaltou por alguns segundos. – O que tem de errado com as pessoas dessa cidade?
- O que nós fizemos?! – Eu e falamos ao mesmo tempo, espantados com o comentário dela.
- É normal as garotas pularem de cara em cara nos times do colégio? – Ela me olhou como se esperasse que eu fosse ter um colapso. Eu poderia até ter, mas, surpreendentemente, eu não estava dando a mínima para o fato de que , um cara que recentemente saiu do patamar de “inimigo” para “amigo”, estava naquele momento com a língua enfiada na boca da minha ex-namorada.
- Você não estava namorando Benjamin antes do ? – perguntou.
- Cala a boca, – Ela deu uma cotovelada na perna dele, ao seu lado, me fazendo rir.
- Ok, desculpa – Ele se afastou um pouco, tendo que se segurar firme na beirada do balcão – De qualquer forma, Benjamin não conta, ele ficou no time por, o quê? Cinco minutos?
- Obrigada – Ela balançou a cabeça negativamente, rindo levemente.
- Ou talvez não conte porque ele é patético – Rolei os olhos.
- Ciúmes é que é uma coisa patética, – se esticou para dar um pequeno tapa no meu ombro – Agora, eu vou atrás da minha namorada, ela é a motorista hoje – Sem esperar que ninguém respondesse, ele saiu.
- Ele é como câncer – Falei. fez uma careta, me encarando – Eu estou falando sério.
- Isso é maldade.
- Não estou dizendo que seja um tumor no cérebro, mas um câncer de pele, pelo menos – Dei de ombros, dando mais um gole no copo em minhas mãos – É só que ele é bem difícil de se livrar.
- Eu nunca sei quando você tá falando sério – Ela balançou a cabeça, tentando afastar o sorriso que se formava – Achei que tínhamos concordado em esquecer... Você sabe... isso – Sua mudança brusca de expressão demonstrava que aquilo tinha sido uma mudança, ainda mais brusca, de assunto.
- Esquecer o quê?
- Essa coisa Colleen “barra” Benjamin – pronunciou o nome “Colleen” como se ele, de alguma forma, queimasse seus lábios.
- Eu sei! – Suspirei, cansado e irritado, me perguntando por que diabos ela tinha que falar naquilo. Ironicamente, nunca sabia os momentos certos para discutir assuntos como aquele. Ou sabia e fazia para me irritar – Me desculpe se eu não gosto do seu príncipe encantado.
- Dá pra você parar com isso? – Ela quase rosnou, e eu, mentalmente, agradeci pelo alto som da música.
- Quer saber? Foda-se. Esse cara não está nem aqui para me incomodar mesmo – Sacudi a cabeça, suprimindo a minha expressão de desprezo. A última coisa que eu queria era brigar com ela. Bom, não vou mentir ao dizer que me tornei aquele tipo de cara que se cala para evitar confrontos, mas não queria estragar meu humor, que mesmo que não estivesse bom, ao menos estava neutro.
- Quem te disse isso?!
- Ele está?!
- Ele... – se interrompeu quando focou o olhar em algum ponto atrás de mim – Bom, já que você quer tanto discutir, que tal me dizer o que ela está fazendo aqui?
Ela.
Eu não precisaria me virar para saber quem era, mas mesmo assim, fiz.
Colleen saiu do corredor que dava para os banheiros, apalpando os cabelos, tentando modelá-los, então percorreu toda a extensão do bar com seus olhos quando os parou em mim e sorriu. Ninguém poderia ver que ela estava sorrindo, mas para mim, a diversão estava óbvia dentro do seu olhar. Ela estava sorrindo por dentro.
- Eu não sei – Respondi à , mas minha voz saiu quase tão baixa quanto um sussurro, subitamente me fazendo duvidar que ela tenha escutado – Eu não a chamei – Falei mais alto direcionando meus olhos para minha namorada. . Forcei-me a manter isso em mente enquanto observava a outra se movendo entre a grande massa de pessoas cambaleantes e dançantes até mim.
- Boa noite – Colleen se aproximou, fingindo estar mais interessada no ambiente ao seu redor que, obviamente, em mim e – Belo lugar.
- Sugestão do seu irmão – Falei simplesmente. Sem que eu mesmo percebesse, minhas mãos deslizaram à procura dos ombros de . Pelo relaxar de seus músculos, pude perceber que ela aprovou minha ação. E quem tomaria uma atitude para sumir com a minha tensão?
- Bom gosto de família – Colleen se sentou no banco mais próximo de mim – Claro que eu estaria aqui mais cedo se alguém tivesse me avisado.
- Pessoas normais tomariam isso como um sinal de que não foram convidadas.
- Você deveria saber que esse tipo de coisa não impede pessoas como eu e você – Ao terminar de falar, ela deu uma olhada rápida para , que, para mim, significou um milhão de coisas. Uma delas era quase óbvia: não pertencia ao meu lado.
- Talvez, mas nunca aconteceu comigo, então... – Deixei o resto do comentário no ar.
- Ainda – Ela completou – Então, dezoito anos, hein? Por que não paga uma bebida para nós duas?
- Ele pode me pagar uma bebida – finalmente se manifestou, me deixando um pouco (quase remotamente) aliviado.
- Ela fala? – Colleen estampou em seu rosto uma expressão de surpresa tão forçada quanto a sua simpatia diante da minha mãe e minha avó mais cedo – Eu já estava me perguntando se você era muda ou alguma coisa do tipo.
- Colleen... – Falei em tom de advertência.
- Acho que está havendo algum tipo de mal-entendido – Ela apontou com os olhos para alguém que se sentava há apenas cinco bancos de nós – Eu vim com meu namorado.
Houve algum tempo – que eu não consegui distinguir quanto – em que ficamos calados, apenas digerindo a informação. O cara que estava quieto, encarando a própria bebida, não fazia nenhuma menção de olhar na nossa direção, o que me deixou meio intrigado. Ou ele não fazia ideia de quem era a própria namorada, ou era, de fato, muito demente. Eu sempre imaginei que esse segundo tipo era com que um dia a Colleen acabaria, ela sempre gostou mais das pessoas que ela conseguia controlar.
Quando voltei à atenção para as duas garotas ao meu redor, vi que elas me encaravam. Torci para não estar demonstrando nenhum tipo de emoção, a última coisa que eu queria era que alguma das duas – mesmo por motivos que variavam entre uma e outra – pensassem que eu me importasse com o que tinha sido revelado.
Eu estava com raiva. Raiva por Colleen simplesmente pensar que poderia jogar aquilo na minha cara e achar que iria atingir. E raiva de mim por eu quase ter deixado ela ganhar!
- Podemos tomar as bebidas agora? – Ela puxou, com as pontas dos dedos, o pequeno cardápio de bebidas que ficava jogado ali, embora quase nunca fosse usado, uma vez que não era muito comum o bar receber uma clientela, digamos, inédita.
- Eu acho que vou passar – segurou meu braço que se apoiava em seu ombro e me encarou – Eu acho que o está me procurando, então... – Os cantos dos seus lábios se levantaram. Uma tentativa claramente falha de um sorriso. Cara, eu ia pagar por aquilo mais tarde.
Ela ia se afastar sem pronunciar mais nenhuma palavra. O máximo que pude fazer por ela naquele momento foi puxá-la de frente para mim, dando um beijo que eu poderia arriscar dizer ter sido carinhoso. Não tive tanta experiência assim para arriscar com certeza. Sem língua, pelo menos. Eu sabia exatamente onde ficava a linha entre irritá-la e agradá-la.
- O que você quer, Colleen? – Depois da saída de , eu precisei juntar todas as minhas forças para falar de novo.
- O que você quer dizer com o que eu quero? – Ela segurou a recém-posta bebida sobre o balcão, rodando o copo com apenas dois dedos, mas tão focada no que fazia que poderia até parecer que toda sua vida dependesse de aquela ação sair sem nenhuma falha. Talvez isso fosse até verdade, talvez ela não quisesse se dar ao luxo de cometer um erro, o que me levava à primeira pergunta. Mas eu certamente não estava pensando no copo.
- Você sabe exatamente o que eu quero dizer.
- Quanto tempo faz que não nos vemos? Dois? Três meses? – Colleen se virou para mim, deixando sua bebida de lado. Seus olhos brilharam ao olhar os meus de uma maneira mais profunda da qual eu estava acostumado. Eu não poderia deixá-la entrar na minha cabeça dessa maneira – A garotinha dá o fora e você finalmente vira homem. Estar longe de mim certamente causa efeitos em você.
- Ah, por favor! – Minha mão se fechou ao redor do copo de Vodca já vazio de uma maneira que eu sabia que deveria ter me preocupado com o fato de ser de vidro. Mas minhas preocupações eram outras – Por que tudo na minha vida tem que ter a ver com você? Sua autoconfiança está te deixando cega, Colleen.
- Será mesmo? – Ela deixou escapar uma risada breve, o tipo de coisa que ela sempre fez pra tentar fazer uma pessoa se sentir diminuída. Mas eu não – Nós construímos nossas vidas ao redor um do outro, . Eu conheço você desde que eu tinha três anos. Não se pode fugir de algo assim.
- Bom, acho que você está um pouco presa a como a situação era há três anos atrás – Passei uma das mãos no meu cabelo, deslizando até o meu pescoço. Meu olhar estava grudado no chão, em nenhum ponto especifico, mas apenas focado no que se passava dentro da minha cabeça. Eu ia conseguir fazer aquilo. Eu não iria ser uma daquelas pessoas que viviam com a angústia de não ter enfrentado quem deveria. Eu nunca fui, e nunca iria ser assim – Tudo mudou no momento em que você pulou fora daqui.
- Tudo me pareceu o mesmo quando nos vimos alguns meses atrás.
- Aquela última vez que nos vimos foi como voltar a um velho parque de diversões que costumava ir na infância. Muita nostalgia. Saudade. Vontade de dar mais uma volta em cada brinquedo... – Aproximei-me dela, sem muito pensar.
- Aí está o que eu conheço – Colleen sorriu sem mostrar os dentes, passando, de forma suave, o dedo indicador por toda extensão do meu peito, deixando uma certa dormência em cada centímetro que tocava.
- Mas, naquele dia, eu acabei percebendo uma coisa – Seu rosto que, de certa forma, estava iluminado, se fechou e ela se afastou de mim rapidamente, espetando que eu continuasse – Eu não senti sua falta tanto quando eu pensava.
- Você está bêbado – Ela rolou os olhos, recuperando a compostura.
- Estou – Não pude evitar a risada – Mas eu sou um pouco mais experiente que isso, teriam que me dar algo muito mais poderoso que cerveja e vodca para me fazer falar algo que eu não quero.
- O mundo não o transformou nesse grande homem que você gosta de pensar que é, .
- Tem razão, foi você.
- Você ainda é o mesmo menininho que caía nas minhas histórias.
- Não fique com raiva de mim, Colleen – Arqueei ums sobrancelha – Você conseguiu o que queria. Você saiu daqui. Pegou a primeira oportunidade que apareceu e foi embora. Paris, não é? – Cruzei os braços, não só para me impor, mas também para que ela não visse quão trêmulo eu estava – Mas foda-se, você não pode ter tudo – Olhei em volta, finalmente percebendo que eu não tinha prestado atenção em para que lado tinha ido – Pelo menos não a mim – Falei antes de voltar meus olhos para ela.
Colleen tinha voltado para a mesma postura superior de antes. Era como se eu não tivesse nem aberto a boca, que dirá dito alguma coisa. Segurei qualquer reação minha para não demonstrar o quando a indiferença dela tinha me afetado. Ela me deixava louco!
Mas ela não ia falar nada. Eu sabia disso. Ela é igual a mim. Eu tinha criado esse nível de indiferença, Colleen não iria usar uma cópia da minha própria personalidade insuportável contra mim.
Com isso, saí sem falar mais nada.
Vesti meu casaco assim que fechei as portas do bar. A temperatura tinha caído consideravelmente durante as horas que estive dentro. Entretanto, aquilo não parecia impedir as pessoas de ficarem ali por fora, conversando e, em sua maioria, fumando, uma vez que era proibido fazer isso no interior. Pensei em fazer o mesmo quando uma voz confirmou que a sensação de que alguém me observara era real.
- Muita gentileza sua aparecer.
- O que você tá fazendo aqui fora? – Olhei em volta, esperando encontrar alguém por perto, mas acabei de certificando de que ela realmente estava sozinha.
- De alguma forma, ficar aqui fora, no frio, e no meio dessas pessoas que parecem fazer questão de jogar a fumaça de cigarro em cima de mim, se tornou mais agradável que ficar lá dentro – Ela olhou para frente, mal-humorada – E, além do mais, eu não tenho carona para voltar, então...
- Por que você não pegou um táxi? – Arqueei uma sobrancelha.
- Você tá vendo algum aqui por perto?
- Você tem telefone para chamar um?
- Ok! – Ela cruzou os braços, e me encarou com uma expressão de derrota – Eu esqueci minha carteira. Não vou conseguir arrumar um táxi se eu não pagar a conta aqui no bar.
- Pagar? Eu achei que tivesse falado para você colocar no meu nome que eu iria fazer isso – Sentei-me ao lado dela.
- E eu não disse que iria deixar – levantou a bolsa que estava em suas mãos e colocou ao seu lado, entortando o nariz numa careta que eu achei, no mínimo... fofa – E agora eu me sinto uma idiota, porque nem fugir daqui com um pouco de dignidade eu consigo.
- Nisso, eu concordo – Não conseguir contar a breve gargalhada.
- Vá rindo, seu palhaço – Ela riu também.
- Me dá isso, vou pagar – Estendi a minha mão para que ela me entregasse o cartão do bar, onde os consumos eram registrados para se pagar na saída. Assim, que fez o que eu pedi, levei os dois cartões ao caixa próximo a nós e voltei para onde a garota estava – Vamos.
- Aonde?
- Embora.
- Você não chamou o táxi – Mesmo com o ar de relutância, ela me seguiu.
E mesmo hesitando, ela pegou minha mão.
- Porque eu não preciso de um táxi, minha casa não é longe – Apontei na direção que iríamos seguir, esperando que ela se situasse que não estávamos lá muito distantes de onde eu morava.
- É, mas a minha não – Ela parou da andar, apontando para a direção oposta, para onde deveríamos ir se estivéssemos indo para a casa dela.
- Por que você tá indo para casa? – Arqueei ambas as sobrancelhas, assumindo um ar provocativo e sugestivo.
olhou para trás por alguns segundos antes de voltar a me encarar. Ela estava com raiva de mim, óbvio, eu tinha percebido desde as alfinetadas assim que saí do bar. Se ela estava esperando um pedido de desculpas, que desistisse da ideia. Não ia rolar. Nunca. O máximo que eu poderia fazer por ela eu já estava fazendo, eu poderia apenas demonstrar.
- Você vem comigo ou vai pra casa? – Reforcei minha pergunta assim que eu percebi que ela não iria falar nada – Tenho certeza que seu tio está bem interessado em fazer com você as mesmas coisas que eu – Sorri discretamente.
- Eu suspeito que você não esteja falando de um jogo de cartas – Ela finalmente pareceu relaxar.
Ao apertar um pouco mais minha mão, talvez inconscientemente, ela voltou a andar.
- Bom, depende do tipo de jogo.
- Seja bonzinho e eu deixo você ganhar.
Acordei com uma dormência em meu braço direito e o sol enfraquecido pela nuvens, mas ainda assim incômodo. E frio. Muito frio. , que, por acaso, era a causa de eu não sentir nada no meu braço, vestia meu casaco e, mesmo inconsciente, segurava as cobertas que eu tinha arrumado na noite passada como se a vida dela depende esse daquilo. Pelo menos eu não estava bêbado o suficiente para me esquecer de ligar o aquecedor.
Como se já não bastasse estar com uma puta dor de cabeça pela ressaca, eu ainda tinha dormido nas cadeiras dos terraço da parte de trás da casa. Elas poderiam até ser acolchoadas, mas, definitivamente, não eram minha cama. E estava me sentindo como se tivesse dormido em cima de um bando de pedras.
Empurrei um pouco para que pudesse puxar meu celular do bolso do casaco de que ela vestia e depois a arrumei no encosto da cadeira de um modo que ela não precisasse do meu apoio.
Oito da manhã. Alguém já deveria estar acordado. Torci para que esse alguém fosse Liam e eu não precisasse responder nenhuma pergunta. Embora, eu sabia, isso era praticamente impossível, uma vez que ele dormia tanto quanto – ou até mais que – eu.
Joguei o celular na mesa em frente às cadeiras.
Suspirei ao voltar a minha atenção para a garota adormecida em minha frente. Segunda vez. Segunda vez que eu trazia para a minha casa, e ela passava a noite completamente vestida.
Sobressaltei-me quando ouvi a porta de vidro deslizar. Só então reparei na minha mãe, que não parecia nada feliz, apesar de ser uma daquelas raras pessoas que acordam com um ótimo humor.
- Você pelo menos dormiu em casa? Ou acabou de chegar?
- O que é pior, chegar em casa agora ou dormir no terraço?
- Esqueça, você costumava fazer coisas piores do que chegar tarde em casa... Ou dormir no terraço – Ela olhou rapidamente para , e sorriu fraco.
Suspirei pesadamente esperando o discurso sobre mudança, crescer e responsabilidade. Eu estava ficando um pouco cansado dessas palavras sendo empurradas para cima de mim toda vez que alguém tinha a oportunidade. Minha mãe, Mackenzie, que, por acaso, tinha aumentado a frequência de sessões na sua sala desde que minha mãe tinha permitido, e até , que, desde quando ela finalmente me colocou na parede ao me perguntar o verdadeiro motivo da ausência do meu carro, não calava mais a boca, ela pode ser bem – ou mais – irritante quando descobre que está certa. O remédio era sempre rolar os olhos e balançar a cabeça.
Mas o bendito discurso não veio.
- Suba, tome banho, pelo amor de Deus, coloque algum perfume, e apareça na cozinha como se você tivesse acordado cedo para fazer alguma caridade em pleno domingo – Quando eu fiz uma careta em sinal de que não tinha entendido nada, ela segurou meu rosto com as duas mãos e me olhou com súplica – Eu preciso que você, agora, seja o anjinho que só foi por cinco minutos, quando eu segurei você pela primeira vez, antes de você começar a chorar e me enlouquecer pelos próximos 18 anos que vieram.
- Eu não sei como não me traumatizo com as coisas que você fala – Pus as mãos no seu ombro, sorrindo, tentando relaxá-la, mas pareceu que não funcionou muito bem – Qual é a ocasião especial?
- Sua avó quer conversar com nós dois.
- Ah.
Claro que ela queria.
Como se fosse do seu feitio pegar o telefone para avisar que estava indo destruir a paz de uma casa.
- Por favor, se apresse – Meredith sussurrou antes de dar um rápido beijo na
minha bochecha e sair.
E eu fui tomar o maldito banho.
Se eu dissesse que procurei ser rápido, como minha mãe me pediu, estaria mentindo. Mas também não é como se ela estivesse esperando que eu fosse ansiosamente ao seu encontro. Dez minutos no banho, mais dez fingindo escolher a roupa (encarando a porta do closet, na realidade), e eu já tinha que ser obrigado a parar com a enrolação.
A cozinha estava tomada por um silêncio que, levando em consideração as circunstâncias, não seria de se espantar. E quando eu digo circunstâncias, quero dizer, pessoas que ali estavam presentes.
Na mesa, Ivy tinha a atenção tão voltada para a xícara de café que poderia nem ter me notado, eu continuaria a pensar assim se eu não a conhecesse desde pequeno. Minha avó poderia aparentar estar mais focada em contorcer o nariz a cada gole que dava do que nas pessoas ali presentes, mas meu conhecimento nunca foi limitado a apenas os que os olhos veem. Ela manteria o nariz dentro da xícara ou do jornal até que tivesse algo que ela julgasse relevante para falar. E seus olhos continuariam no mesmo lugar, como se ninguém no mundo fosse digno o suficiente da sua consideração.
Minha mãe e Liam estavam posicionados atrás do balcão, e ela me encarava quase ordenando que eu desse mais um passo para dentro da cozinha e chamasse a atenção para mim.
- Alguém vai abrir a boca ou eu tenho que fazer tudo por aqui? – Ivy, como eu tinha previsto, se pronunciou como se falasse sozinha. Seus olhos ainda estavam no jornal, embora eu tivesse dúvidas de que ela realmente tivesse foco o suficiente para conectar uma frase à outra.
- Eu não tenho o dia todo – Falei simplesmente, olhando para trás. De onde eu estava, eu conseguia ver grande parte da sala de estar, mas nada além da porta de acesso ao terraço. Eu deveria ter ido checar antes de ter aparecido na cozinha, mas era tarde demais pra pensar nisso.
- Ah, claro – Ela finalmente abaixou o jornal – A garotinha. Fico surpresa que minha filha tenha demorado tanto tempo para achá-los – Ivy abaixou os pequenos óculos até a ponte de seu nariz para poder dar uma boa olhada entre mim e minha mãe. Não duvido que ela tenha parado em Liam também, só para deixar claro que ele também tinha uma parcela maluca e sem razão na culpa da desordem que ela julgava ser essa família – Dormindo na casa do namorado. Quanta classe.
- Por favor... - Resmunguei.
- Mamãe – Meredith se pronunciou pela primeira vez, deixando o copo de suco que segurava ao lado da pia, no balcão – Pare com isso, é uma boa menina. Ao contrário de quem você trouxe aqui ontem.
Não pude deixar de ficar surpreso. Aquela foi a primeira vez que minha mãe expressou alguma opinião sobre Colleen. Ok, eu sempre tive certeza de que ela não gostava de nenhuma das minhas duas namoradas, mas ficar calada para não expressar opiniões negativas fazia parte da sua tática de mãe liberal e amiga.
- pode ser uma boa menina, mas ela ainda não é a certa – Minha avó juntou as mãos em sua frente e olhou diretamente nos meus olhos – Quando você for velho o suficiente, vai admitir que estou certa – Meredith estava prestes a interromper, mas eu sabia muito bem que Ivy não é uma pessoa que se deixa ser contrariada – Você deve entender, , que vem de uma família de dinheiro. Seu avô não construiu todo isso que temos para que você desperdice em uma garota grávida claramente interessada em seu dinheiro.
- Do que, diabos, você está falando? – Vi-me completamente transtornado. Avancei até a mesa em que ela estava e pus minhas duas mãos apoiada no vidro, toda a raiva acumulada me mim fazia meu corpo pesar ainda mais sobre meus braços - Você não sabe nada.
- Se sua mãe tivesse me escutado, eu não estaria...
- ...Aqui, dando sermão em mim, porque eu não existiria. Estou certo?
- Não seja dramático, menino.
- Mãe! – Meredith interrompeu, colocando uma das mãos nas minhas costas, alisando, silenciosamente me pedindo para ter calma – Não estamos aqui para falar disso.
- Não, não estamos, querida – Ela finalmente fechou o jornal e o colocou na sua frente – Nós três fizemos um trato há um ano, e, ao contrário do que vocês pensam de mim, não sou uma bruxa desonesta.
- Não, não, nunca achei que a senhora era desonesta.
- Sempre tentando ser esperto – Ela elevou ambas as sobrancelhas discretamente, e, se direcionando à minha mãe, ela questionou sem alterar seu tom – Já contou para ele?
- Não.
- O que houve? – Perguntei.
- Algo mudou há uma semana. Eu não contei para você porque não achei que seria necessário preocupá-lo – Senti sua mão estremecer levemente contra minhas costas, fazendo um calafrio percorrer meu corpo com o epicentro localizado no seu toque. Eu estava preocupado com o que viria. – Os médicos informaram que houve uma complicação. Houve algumas complicações na respiração, eles tiveram que entubá-lo.
- E daí?
- O médico disse que os órgãos estão falhando...
- Então, sem esperanças? – Perguntei friamente, com a intenção de dispensar quaisquer palavras de consolo que queriam sair da sua boca.
- Não exatamente, .
- Exatamente isso, – Ivy interrompeu – As esperanças estão perto de zero. Já eram, um ano atrás. E só piorou. Está na hora de terminar isso.
- Ninguém está dizendo que é impossível – Percebi que Meredith tentava se impor, mas ela mesma percebia que não conseguia convencer – Nem os médicos.
- Eles dizem ser improvável.
- Assim como você quer que seja – Resmunguei.
- Não espero que um garoto como você entenda – Ela colocou um dedo no meu rosto, pela primeira vez, perdendo a paciência, exatamente do jeito que eu queria. Pelo menos, eu poderia imaginar que ela era de fato uma pessoa enquanto demonstrasse algum tipo de emoção, mesmo que desprezo em relação a mim – Eu estive com aquele homem desde que eu tinha treze anos, isso é muito mais responsabilidade do que você conhece ou sua mãe conhecia aos dezoito anos. Não haja como se eu não me importasse.
- Vocês estavam no meio de um divórcio!
- Seu avô que queria o divórcio, não eu, sabia disso?! – Contrariado e hesitante, acenei negativamente com a cabeça – Eu pedi para ele dizer que foi uma decisão mútua. Mas eu acho que você ainda ache que ele é um santo, já que essa “liberdade” que ele tanto quis ao se livrar de mim aproximou duas pessoas. Você e ele.
- Bom trabalho jogando a culpa em cima de mim.
- Nós estamos perdendo o foco – Minha mãe apoiou a testa em uma das mãos.
- Não, não estamos, esse é o assunto que ela quis tocar. Desde o começo. É por isso que ela vem infernizando minha vida com o dobro do empenho durante esse ano! – Bate a mão na mesa e me levantei.
- E você sabe que estou falando a verdade, ou então teria colocado o pé naquele hospital pelo menos uma vez depois do acidente – Tão subitamente como perdeu a compostura, ela a recuperou, me deixando com um nível de frustração que não pude descrever. Tudo o que eu poderia pensar era em tudo o que eu faria para não ter que olhar para ela.
- Isso não tem nada a ver com você!
- Ah, querido, não vamos apelar para psicologia barata. Não vou acreditar se disse que você não quer vê-lo. Eu lhe dei um ano para se acostumar com a ideia de tê-lo morto, você não aproveitou.
- E eu tenho certeza que nenhum de nós vai – Meredith falou baixo, quase como se não quisesse ser ouvida. Quando percebeu que tinha tomado nossa atenção, ela acrescentou – Mãe, você já tomou sua decisão, eu sei disso. Nada que eu, ou possa dizer vai fazê-la mudar de ideia.
Só então me ocorreu que minha avó não estava tentando convencer.
- Você já assinou os papéis, não assinou?
Ela demorou alguns segundos para responder, parecia não muito feliz de ter que dar aquela resposta. Quase arrependida. Não. Não arrependida. Mas pelo menos consciente do que tinha feito.
- Foi marcado para a próxima sexta-feira. Aproveite a última chance que estou lhe dando.
Ela se levantou e pegou sua bolsa.
- Então esse teatrinho foi só para infernizar nossas vidas mais um pouco?
- Você deveria ser grato por eu ter levado sua opinião em consideração, ao menos.
Ela deu alguns passos calmos até parar na porta e se virar para mim.
- Sua convidada acordou.
E saiu.
A expressão no rosto de quando eu fui até a porta da cozinha, denunciou que minha mentira tinha sido descoberta.
Eu esperei por ela me xingar, ao menos, mas a garota só se virou e voltou pelo caminho que iria dar até o terraço. Demorou um tempo para que eu assimilasse que a garota que sempre tinha alguma coisa a dizer, simplesmente tinha dado as costas. Só então, corri atrás dela.
- Olha... – Comecei a falar, sem nenhuma ideia de como iria continuar aquela frase. Minha mão subiu até meu pescoço inconscientemente, como se aquilo, de alguma forma, fosse estimular uma desculpa qualquer.
- Tudo bem, , eu acho que já brigamos demais sem eu que exigisse que você me conte tudo – se abaixou para procurar seus sapatos em baixo das cadeiras do terraço – Além do mais, não sou hipócrita.
- Eu só achei que era mais fácil mudar a história para não ter que dar muitas explicações – Dei de ombros. Era a verdade. Todo mundo, em algum ponto da vida, perde alguém, mas não é todo mundo que tem alguém aguentando por um fio.
- Eu sei – Ela puxou as botas e começou a calçá-las – Eu sei exatamente o que é isso.
- Para ser sincero, eu não achei que você fosse ficar tempo o suficiente, ou perto o suficiente para ter que dizer a verdade – Sentei-me na cadeira em sua frente.
- Ninguém achou, aparentemente – Ela rolou os olhos – Olha, sem problemas, você me conta o que quiser.
- Você soa como minha mãe, quando ela está desistindo – Ergui uma das sobrancelhas, enquanto me lançava um sorriso debochado – Tudo o que eu contei para você é que verdade, eu só mudei uma coisa. Ele não morreu, só está entrando nessa rua...
- E o que vai aconteceu agora?
- O que eu tinha dito para você antes vai se tornar verdade.
- Sinto muito.
- Eu também – Sorri brevemente.
se levantou e puxou para seu ombro a bolsa que estava encostada na parede mais próxima.
- A gente se fala amanhã? – Ela perguntou quando chegou à minha frente.
- Claro – Dei de ombros. Tentei agir normalmente, mas a verdade é que eu sentia em meus ossos que tudo tinha mudado. tinha acabado de desenterrar meu pior segredo.
Foi quando ela me surpreendeu, pousando a mão em uma das minhas bochechas e pressionando seus lábios na outra, com mais carinho do que ela já tinha feito desde que a conheci. Meu corpo, de alguma maneira, se sentiu agradecido.
Não demorou mais do que dois segundos, quando ela se soltou de mim e começou a se afastar.
- Ei, .
- O quê?
- Será que dá pra você não contar pra ninguém? – Ela pareceu confusa – Essa situação com o meu avô, ninguém além da minha família sabe. Nem .
- Ah, sim. Não se preocupe.
Continua...
n/a:
Olá, amores!
Vocês não sabem o alivio que me dá estar escrevendo essa N/A! Foi um sufoco
para eu poder terminar de escrever. Mas eu terminei a tempo de dar ele de presente
de natal pra vocês hahaha.
A única desculpa que eu posso dar a vocês é que a faculdade está me deixando
louca. Pra quem não sabe, eu faço Jornalismo, que é um curso lindo, mas eu tenho
que fazer trabalhos o tempo todo, e não são trabalhos simples, tenho que fazer
entrevistas, gravar, preparar matéria. E isso tudo porque eu nem estagio ainda! Esse
semestre foi o mais ativo, fiz minha primeira entrevista, com o jogador preferido
do meu time de coração s2, e quem me segue no twitter deve saber que tenho
uma obsessãozinha por futebol, então devem imaginar como foi maravilhoso (e
constrangedor ficar tremendo na frente dele) :P
Mas enfim, espero que vocês tenham gostado do capítulo, apesar de ser bem
conturbado, foi bom pra dar uma abalada nessa relação do casal principal que está
feliz demais pro meu gosto, hahaha.
Agora eu tenho que ir, amanhã (08/12) vou viajar e só volto no dia 3 de janeiro,
então desejo a vocês um Feliz Natal e um Ano Novo maravilhoso, que tudo o que
vocês desejem se realize, que tudo dê certo, e acima de tudo, muito amor e felicidade.
Saibam que o fato de vocês lerem e me darem uma força com essa fic é uma alegria
imensa que quando eu comecei a escrevê-la eu não sabia que teria, conheci pessoas
maravilhosas, e me aproximei de outras. Foi, de fato, uma das melhores coisas que já
me aconteceram.
Até 2012.
Xxx,
Julie Neves
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Respostas dos comentários:
Mariana
Você parou na minha parte preferida, devo confessar. HAHAHA
Awn, que fofa! Vou logo dizendo que não sei se seus instintos estão certos, eu
tenho dois finais na minha cabeça, só quando chegar na hora é que eu vou saber qual
devo colocar.
Carol
Espero que você não tenha tido um ataque :( HAHAHAHAHA
Awn, que bom, foi um tiro no escuro, mas que ÓTIMO que você tenha gostado,
prometo aproveitar bem a presença dela. Os personagens secundários vão aparecer
mais no próximo capítulo, tem tanta coisa na minha cabeça para escrever esse
próximo que ele vai sair rápido, pelo menos eu vou tentar!
Obrigada pela inspiração hahaha, eu estava no meio de um buraco, e tudo o que
saia era ruim, então preferi parar por um tempinho.
Quézia
Nossa, obrigada! Sinto muito mesmo ter demorado tanto, só acho melhor
demorar mais e entregar alguma coisa aceitável do que escrever algo de qualquer
jeito, né? Acredite, fiquei com aperto no coração todo o tempo que deveria estar
escrevendo, que tentei e não consegui. :/ Mas comentários como o seu me motivam
bastante! <3
Anna
Gente, eu quebro a minha cabeça para não deixar os clichês tomarem conta HAHAHA, por ser uma de colegial, a tendência é essa, mas fico feliz quando alguém me diz que estou no caminho certo, já que eu às vezes acho que exagero no drama. :3 Obrigada!
Laus
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKK confesso que seria uma coisa muito boa! Minha história só tem espaço para uma bitch, e é a Carly. <3
Letícia
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK Se ela morrer agora, qual é a graça? Ela tem que fazer o circo pegar fogo, antes. :P
Mel Jones
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK sua imaginação é mais fértil que a minha, Jesus! :O
Né? É tipo quando você tá lendo um livro que tá gostando, corre com a leitura pra chegar logo no final, mas quando ele realmente chega, sente falta do livro. Paradoxo da vida. Hahaha
Esse tipo de coisa você só vai descobrir quando começar a mostrar pra todo mundo, eu sempre aconselho a arriscar, se não gostarem, paciência, as críticas, se forem feitas com jeitinho, ajudam bastante a progredir. Mas se gostarem do que você escreve, acredite, é a coisa mais deliciosa do mundo. *-*
Conhecer seu ídolo dá uma sensação de dever cumprido, apesar de que a saudade aumenta depois, mas, nossa, o sentimento é muito bom, especialmente se eles te tratam com carinho. Eu foi no show de São Paulo (o primeiro), já que esses viadinhos se recusaram a voltar pra Recife. p,p
Você gostou do James também? <3 Tem gente achando que tá com cheiro de mau-caráter HAHAHAHA Não sei muito bem quem me inspirou para escrever sobre a avó dele, só acho a família dele fofa demais, e todo mundo sabe que toda família tem seus frutos podres. kkk A Ammy <3 essa sim é inspirada em alguém que existe, a filha de uns conhecidos meus é assim como ela, ela é meu xodózinho, ela é espertinha assim e tão fofa que eu não consigo parar de dar presentes. Se tem alguém que goste mais de criança do que eu, eu fui clonada. :D hahaha
Eu não consigo imaginar a Carly como ninguém, eu sonhei com ela uma vez e a imagem que veio na minha cabeça, de uma menina loira e pequenininha. Aquelas meninas bem tipo chaveirinhos, mas cheia de frescuras. Desde então eu gosto dela. <3
E não deve se desculpar pelo tamanho, quanto maior o comentário, mais lindo <3
PS: Esqueci de responder na att passada, quando você perguntou se os dois eram primos. Eles não são hahaha, o pai dele é casado com a tia dela, então o parentesco não é de sangue. :P
Bia F
Awn, esse é um dos meus filmes preferidos. <3
HAHAHAHAHA. Como eu disse acima, os personagens secundários vão aparecer mais no próximo capítulo, espero que goste. <3 Não sei como a amiga dele se tornou tão popular, mas isso tá aumentando a quantidade de vezes que ela aparece hahaha.
Jess Colors
Colleen é a bitch-mor. :P
Falta de inspiração e falta de tempo são meus nomes alternativos. A faculdade me mata, não tenho tempo para nada, ainda mais porque faço um curso prático, então são trabalhos TODA hora. São uma delícia de se fazer, mas tomam grande parte do meu tempo. :/
Mari
HAHAHAHAHAHAHAHA, nunca estaremos sozinhas enquanto existirem livros e fics para serem lidos, ok?
Andy
Own, obrigada <3 só espero que eu não derrube tudo isso na cabeça dele de uma vez, afinal, ninguém aguenta tanto estresse em um espaço de tempo tão pequeno! Mas fico muito feliz que os acontecimentos estejam deixando a fic no caminho certo, isso realmente me preocupa.
Muito obrigada pela força!
Nina
Poxa, Nina! Se você tivesse falado comigo pelo twitter eu teria te mandado o site em que eu estou postando a fic para as pessoas que liam pelo FFATT. Se bem que agora ela está certinha aqui no FFADD, mas sempre que eu termino de escrever algum capítulo, eu hospedo ele sem estar revisado em outro site, para não terem que esperar mais, então eu vou mandando para quem me pede. p,p
Pode me perturbar no twitter sim HAHAHAHAHA, é sempre bom ter alguém que me manda um reply com um “cala a boca e vá escrever” kkkk
Anna (outra ou a mesma hahahaha)
HAHAHAHAHAHAHA Ai ai ai. A banda ainda é um plano distante. Não dá pra se formar uma banda com os membros planejando matarem uns aos outros!
Awn, desculpa por isso :( Por isso eu juntei o nome com o sobrenome, para as probabilidades de que isso acontecessem fossem ainda menores hahaha. Isso não acontece comigo, quando tem uma Juliana em um filme, geralmente ela é uma stripper, então. HAHAHAHA
Carol
A relação com o segundo guy vai ser explicada, mas não agora. Quem sabe no próximo capítulo? Hahaha. Ninguém mais do que eu quer eles amiguinhos. *.*
E pode me bater, ok? Sei que demorei, e demorei um milênio. Mereço cadeira elétrica. :(
Mas não desista de mim, hahaha.
Obrigada <3