Holy Fool
Por Amy H.
Beta: Táh


Rezar. Orar. Pedir, implorar. Qual era o sentido de tudo aquilo, se no fim você vai se ferrar de qualquer jeito? Levantar as mãos pro céus e pedir pela salvação. Bem, se era assim, ela estava perdida. Hey AC/DC, onde fica a Estrada para o Inferno mesmo? Por que entre pecados e virtudes, ela cometia o maior de todos: amar profundamente um traidor. Traidor de tudo, de todos. Um maldito traidor que no fim, conseguiria ir para o Paraíso. Levantem seus copos, coloquem os óculos escuros, por que aqui começa o Juízo Final. Entre vinganças e rock’n’roll, ela ficaria a beira da glória no momento em que finalmente conseguisse aproveitar um único momento de verdade. Ele havia destroçado seu coração em nome de um bem maior, e isso teria um troco. Um preço alto a se pagar, mas o preço justo para a dor que ela sofrera. O que vai acontecer depois, somente quem viver verá.

Capítulo Um – Cherrybomb
Os cabelos longos e os shorts curtos com meia-calça arrastão e All Stars detonados passavam uma clara mensagem: encrenqueira. Caminhando pelos corredores com seus fones de ouvidos e pose de rainha, não era nada do que as pessoas costumavam rotular. Encrenqueira, prostituta, vaca, mal-amada. era somente o reflexo de anos difíceis escondidos sobre quilos de máscara para cílios preta.
Sua história, na verdade, era muito simples, muito clichê. A garota que perdeu os pais aos 5 anos, foi adotada aos 8 e era incompreendida aos 17. Uma história que você consegue encontrar em qualquer lugar. Mas, naquela pequena, gelada e conservadora cidade, ela era uma rebelde. Uma rebelde sem drogas, com boatos sobre sexo e muito rock’n’roll.
E quando estava em seu quarto pulando ao som do Led Zeppelin, ela só conseguia rir. Como eram idiotas! Se a maior ambição de sua vida não fosse ser escritora, ela provavelmente seria uma excelente atriz. Por que era uma sonhadora. Uma ótima aluna, uma virgem de carteirinha, quase uma santa. Não fosse o fato de não acreditar em Deus.
Quando ela deixou de crer, de rezar todas as noites, ela não sabia ao certo. Talvez quando se deu conta de que estava sozinha no mundo, de que não tinha nada para se apoiar. Ela precisava de coisas concretas, estáveis, e algo que ela não podia tocar, que devia ‘sentir com o coração’ como as freiras do Lar Redenção geralmente diziam, não era de grande ajuda. A garota sempre pensara que tentar achar o sentido de tudo, ou a culpa de tudo, em algo que nem sequer era provado que existia, só a tornava mais fraca e infantil. E tudo que ela precisava naquela nova vida era força e uma cabeça no lugar.
estudava em uma grande escola pública que ficava alguns quarteirões longe da casa de seus pais adotivos, a qual ela nunca chamava de ‘minha casa’. Era sempre ‘casa deles’. Dentre todas aquelas pessoas que passavam diariamente pelas salas de aula, em somente duas ela confiava: e , um casal de gêmeos que freqüentaram o mesmo orfanato que ela e agora viviam com os Kallister, vizinhos dos guardiões da garota. Somente os dois conheciam a verdadeira personalidade de por trás da personagem que assombrava os clubes de mães conservadores daquele lugar.
E num dia qualquer de outono, ela os procurava pelos corredores, enquanto intimidava primeiranistas com seu olhar cruel de dona do mundo. Os fones de ouvido berravam músicas de Joan Jett, os passos rápidos indicavam que ela só queria sair dali, o mais rápido possível. , com seus cachos escondidos por um gorro negro, estava jogado em frente a um pobre salgueiro pichado nos jardins da escola, lendo um mangá qualquer. O garoto tinha grandes olhos e hipnotizantes e o sorriso mais bonito que já havia visto, o que certamente compensava a magreza escondida por roupas de segunda mão. Sua irmã estava sentada ao seu lado, olhando para o céu a procura de OVNIs, sua obsessão, balançando os longos cabelos recém pintados de vermelho, contrastando com a mistura de xadrez e flores que havia em suas roupas naquele dia. Isolados do resto do mundo por andarem com , ou por serem malucos o suficiente para que só ela os agüentasse.
- Hey, folks – a garota sorriu – o que estão aprontando?
- A 21ª Guerra Mundial explodiu em Cristamolic no número 7 de As Ruínas Perdidas de Fitting. O cara que escreve isso aqui é genial!
- Acho que uma nave Plasmatoniana está tentando se comunicar comigo, mas é muito tímida para sair de trás daquela nuvem. Eu li isso no Novo Guia do Dr.Floyd. E você?
- Tentando fugir de Esma e Rick – bufou – Eles estão aqui para uma ‘reunião de pais’.
- Você devia pegar mais leve com os caras, . Afinal, eles te sustentam. – cantarolou.
- Nunca pedi que o fizessem, você melhor do que ninguém sabe disso. Eu só queria que eles parassem de encher meu saco. Tentar me mudar. Tentar ser meus pais.
- Esse é o propósito da adoção.
- Preferia não ter sido adotada. Hey,McGivens! – ela gritou para um primeiranista de grandes óculos de aro de tartaruga, que se aproximou vagarosamente.
- S-sim?
- A patricinha loira, de vestido cor-de-rosa, quem é?
- Alicia Loren – ele sussurrou.
- Ótimo. Dispensado, continue com o bom trabalho – ela piscou,sorrindo.
- Outra vitima, pistoleira? – riu.
- Ela disse que dormi com o irmão dela. Quero saber quem é o irmão. Saber se vale a pena armar uma briga ou intensificar o boato.
-Você é terrível, sorriu – vamos pra sala do coral? Tenho certeza que existem Voluptilianos por lá. Eles são classificados numa escala 8.3 de amabilidade. E as aulas do Ernandez são divertidas, também.
- Só espero que ele não me venha com músicas de igreja, de novo. Perdemos uma semana com todo aquele papo de espiritualidade e amor no coração.
- É bem provável que esse tema se estenda por longas semanas, minha cara. Perto da fonte, você já viu quem é nosso novo colega?
Sem discrição alguma, levantou o pescoço para olhar. Sentado sob a mureta, estava um garoto de cabelos e olhos ,que lia alguma coisa serenamente : , filho do pastor da cidade.

XX

Fazia calor na apertada sala do coral. O ar-condicionado havia quebrado há meses, e o diretor não havia se movido sequer um centímetro de sua confortável cadeira de veludo para consertar. Mas apesar disso, não pode deixar de reparar que usava um blazer cinza por cima da camisa social azul clara. O garoto não negava as origens, ela pensou.
Jogada em uma cadeira no canto mais afastado do ‘cubículo’, a garota gostava de observar seus estranhos colegas de classe. e , sempre juntos, com aquela estranha ligação de gêmeos da qual todos falavam, gostavam de sentar no meio da sala, aparecer, pegar solos. As patricinhas de Beverly Hills, como ela gostava de chamar algumas meninas que ela mal sabia o nome, sentavam-se ao fundo, sempre fofocando e rindo histericamente. Gretchen e Cassandra, as hippies, sentavam-se no chão, amantes da natureza o suficiente para acharem que as cadeiras iriam acabar com as florestas da Amazônia. Emos e cowboys sentavam juntos perto da porta, num clube ligado por laços de sangue. Uma história estranha sobre pais fazendeiros que viviam felizes com seus dois filinhos caipiras até nascer a ovelha negra, o menino que se vestia de preto e gostava de rock que falava de corações partidos.Juntou um pequeno grupo de simpatizantes,mas ainda era obrigado a conviver com os irmãos.Damian era o seu nome. E na primeira fila, com seus sapatos bem engraxados e cabelos alinhados, fazia anotações. Alguma reza nova, ela pensava.
Ernandez, que apesar do sobrenome não tinha nada de espanhol, chegou de repente, com sua pasta surrada e os cabelos loiros despenteados pingando água. Atrasado, de novo.
-Bom dia, crianças – ele sorriu, e bufou: como se ele fosse muito mais velho – Tudo belezinha?
Resmungos de concordância aqui e ali, seguidos de mais fofocas entre grupinhos. Aquilo tudo era ridículo. Se não fosse pela música, a garota provavelmente não estaria ali. Música era sua válvula de escape, era um lugar seguro, era algo em que confiar. E a chegada de para acabar com tudo aquilo com suas exaltações a um Pai maior a deixava completamente irritada e com vontade de pular no pescoço do garoto. Com uma faca, ou algo do tipo.
-O Sr. se juntou ao nosso coral esta manhã, mas acho que não preciso apresentá-lo, certo? Seja bem-vindo . Acredito que seu talento vai contribuir muito nas seletivas deste ano.
-Obrigado, Sr. Ernandez. É uma honra me juntar a sua classe.
Ele tinha o tipo de voz sexy e rouca que só tinha ouvido em seus CDs de rock, mas elas nunca eram tão educadas como a voz de . Geralmente gritavam palavrões, o que fazia a garota se arrepiar totalmente. Mas ela não podia negar que aquela voz tinha um efeito parecido. Pena, ele iria estragar tudo quando começasse a entoar ‘One of Us’*.
-Vamos ao tema dessa semana? – Ernandez cantarolou – Cada um escolherá uma canção especial : aquela canção que te anima quando você está pra baixo, que te faz pular no seu quarto e rir sozinho por algum tempo. Vocês tem até sexta-feira para nos apresentar essa canção. Como tradição do nosso coral, tem direito a um mentor na sua primeira semana. , por favor, o chapéu.
No chapéu estavam os nomes de todos os membros do coral, para quando era necessário um sorteio ou ordem de apresentações. O mentor de o ajudaria durante aquela semana, explicando as regras básicas e como achar a música perfeita para determinada tarefa. Totalmente desnecessário, na opinião de , mas Ernandez achava que era um bom jeito de aproximar os alunos. Babaca.
- Quem será o sortudo? – o mestre brincou, girando o chapéu algumas vezes, estendendo-o para o garoto depois. – , por favor.
O papelzinho que ele retirou já estava gasto e um tanto amarelado do tempo que estava naquele chapéu. Com um movimento rápido, o abriu, leu o nome algumas vezes, e então olhou para Ernandez, um tanto chocado.
- E então, quem é?
- .
Se existia alguma força superior, esta provavelmente a odiava. Num movimento rápido,olhos e se encontraram,trocando faíscas invisíveis numa intensidade palpável. lhe mostrou a língua, fazendo com que seus colegas rissem modestamente. Ernandez esboçou um sorriso preocupado, como se temesse pelo aluno recém-chegado. Bom, não ia morde-lo. Nem matá-lo. A menos que ele pedisse. Ela simplesmente iria se divertir um pouquinho, se visse o lado positivo da situação.
a espiou,levantando as duas sobrancelhas, um gesto tão característico dele, uma língua de sinais entre os dois. Era como uma pergunta, um ‘E ai?’ silencioso. Ela deu de ombros, uma resposta clara: ‘Não me importo’. O garoto sorriu debochadamente, voltando a prestar atenção na explicação de Ernandez sobre tons graves e agudos. Recolocando os fones de ouvido, esperou até o último sinal tocar pra livrar-la da prisão chamada ensino médio.
E assim que o alarme espalhou-se pelos corredores, ela pegou sua mochila, piscando rapidamente para , e pôs se para fora daquela sala que havia se tornado tão chata. Passou pelo corredor como um tornado, ansiosa para chegar em casa e poder se desligar daquele mundo. Só não espera que a seguisse. Não esperava que ele segurasse seu braço de uma forma tão firme, mas não rude, que a obrigou a parar e olhar para trás, a obrigou a encarar novamente aqueles olhos .
- Hey, que pressa – ele sorriu – Então, vamos começar logo com isso? Estou meio empolgado com a minha primeira apresentação. Passo na sua casa as 16h pra você me, ahn...orientar.
- É, é tanto faz – ela enrugou a testa,confusa – Não se atrase. Não quero perder muito tempo da minha vida com louvores ao Senhor.
- Estarei lá na hora marcada. Tenha uma boa tarde, mademoiselle.
observou o garoto se afastando, passos ligeiros, o cabelo castanho não saia do lugar. Se ele continuasse com o cavalheirismo e os termos franceses, aquilo, definitivamente, não daria certo.

Capítulo 2 – Losing my Religion

As paredes do grande banheiro eram recobertas por ladrinhos azuis anil, contrastando com a banheira e o vaso sanitário, ambos brancos como neve. A grande bancada que sustentava a pia era feita de um mármore caro, e lotada por perfumes de celebridades e maquiagens de marca, todos escolhidos caprichosamente por Esma. Mas era para o grande espelho brilhante que olhava. Observava a si mesma naquela peça tão cara, as bordas douradas que ostentavam a riqueza dos Dawson. Ela não combinava com aquilo.
A garota refletida ali, com os longos cabelos quase até a cintura, vestido uma regata preta que deixava parte do sutiã rendado aparecer e com shorts curtos completos com uma meia-calça arrastão rasgada e coturnos não era a filha dos sonhos de Esma e Rick. Não era a substituta ideal para a garotinha que eles haviam perdido num acidente de carro.
Ela não gostava de lembrar dessa história. Odiava pensar que não passava de uma intrusa naquela casa. Uma intrusa naquela vida, naquele mundo medíocre. Amaldiçoava a cadela que a havia dado a luz e depois a jogado na sarjeta. A imbecil deveria ter fechado as pernas e evitado todo o sofrimento desnecessário.
Enquanto apertava o lápis de olho negro sobre sua frágil linha d’água, pensou nas tantas vezes que desejara morrer, mas não tivera a coragem suficiente para ir as vias de fato. Além de tudo, era uma covarde. Uma falsa vadia covarde. Riu sozinha: Será que iria para o inferno? Essa era uma pergunta que deveria fazer ao quando ele chegasse.
Era por causa dele que estava ali, fazendo toda aquela avaliação da sua vida imprestável. Queria parecer o mais assustadora possível, queria por medo naqueles olhos , queria ouvir aquela voz tão sexy gaguejar. Aqueles dois itens tão desejáveis, tão sensuais, no corpo errado: o corpo de um coroinha de missas dominicais. Riu mais ainda ao imaginar como seria o corpo nu do garoto, por baixo das roupas tão sérias. Provavelmente algo que ela não gostaria de ver. Mas estava pronta para guerra ao deslizar um batom vermelho-sangue sobre os lábios carnudos.
Seu quarto era uma confusão proposital: a cama de casal de ferro negro com lençóis cor de creme que combinavam perfeitamente com as cortinas, mas não com o criado-mudo pintado de preto e com estrelas que brilham no escuro coladas descoordenadamente por sua extensão. Havia um grande sofá de couro próximo a única e gigantesca janela do quarto, e um tapete rústico estava corrompido por manchas de café e roupas espalhadas por todos os lados. As paredes eram de um azul claro desbotado pela fita adesiva de milhares de posters que cobriam todas as paredes e portas, desde o armário embutido até a de entrada principal.
A garota se jogou em sua cama, ouvindo Joy Division no último volume em seus fones de ouvido. Voltou a pensar em , um tanto intrigada. Ele seria o tipo de cara pelo qual ela se sentiria atraída se não fosse por toda a história de sua vida. O fato do garoto ser filho do pastor da cidade, que por acaso também era a pessoa para a qual Esma chorava as mágoas todo o sábado de manhã,a broxavam totalmente. Aquele era o tipo de caso onde ela primeira julgava, e depois conhecia.
O som estridente da campainha a fez pular da cama, saindo de seu transe temporário. Desligou o IPod, a fim de escutar a curta conversa entre Esma e . Ela foi extremamente simpática, falando sobre o tempo, a escola, a admiração que ela tinha por seu pai. Ele, como esperado, foi o mais educado possível. Um gentleman nojento.
Seus passos firmes faziam a escada de madeira rangir, a respiração longa era identificável pela paredes finas. Em um minuto, ele estava encostado a soleira da porta pintada de branco, os olhos percorrendo o quarto e voltando-se para a dona dele, sentada de pernas cruzadas na beirada da cama. Sorriu-lhe gentilmente, como se pedisse permissão pra entrar. Ela revirou os olhos, jogando a cabeça para trás, balançando os cabelos .
- Você já esta ai, não esta? Entre de uma vez.
- Você se importa se eu fechar a porta? – ele perguntou, erguendo somente uma das suas sobrancelhas.
- Pretende me estuprar na minha própria casa? Ah, é claro que não, esqueci que isso é pecado. Você deve se manter casto até o casamento. – ela riu, divertida.
Fechando a porta num gesto rápido, ele acompanhou a garota, rindo discretamente. Deu longos passos até sentar-se, sem cerimônia alguma no sofá próximo a cama dela. Os olhos faiscavam observando bater a ponta dos coturnos no braço do sofá mais perto dele. Ela sorriu em desafio, ele ignorou.
- Então, , o que vai me ensinar hoje?
- Não sei, depende – ela piscou – já escolheu sua música? Não, espere, me deixe adivinhar: é Say a Little Prayer for you*!
- É essa música que você atribui a mim, minha mentora? – ele riu – Você não deveria fazer, não sei, uma analise psicológica, um questionário ou alguma coisa do tipo antes?
- Você quer uma analise psicológica de você mesmo? Vá a um psicólogo. Mas o resumo é: você é um fanático religioso que provavelmente pede permissão para o pai até para respirar. Sua vida é feita de idas ao culto e palestras motivacionais. Você nunca viu uma garota nua, nunca teve uma namorada e acha que a Playboy e todos os rockeiros do mundo vieram diretamente do inferno. Você é um maricas.
riu mais alto do que nunca,deixando cada centímetro do corpo de arrepiado. Levantou-se num pulo e sentou-se juntamente a ela na cama, deixando o blazer cinza sobre o sofá. Deitou-se de um modo atravessado, abrindo quatro botões de sua camisa de mangas longas. Sorriu para ,como se a convidasse para o fazer o mesmo.
- Você já brincou de verdade ou conseqüência,?
- Você já?
- Vou interpretar isso como uma rodada. Eu escolho verdade – sussurrou, tirando um maço de cigarros do bolso – Meu nome é . Minha irmã mais nova me chama de . Eu tenho 17 anos, perdi minha virgindade aos 15 e tenho uma coleção de Playboys embaixo do meu colchão – ele continuou, acendendo um cigarro e levando-o a boca – Sou viciado nessa merda de nicotina, sou apreciador de um copo de whisky de vez em quando e venero todos os caras que estão nas suas paredes – soltou a fumaça lentamente pela boca, divertindo-se com a reação de . Ela estava petrificada – Eu fujo de casa a noite pra dar uma volta na moto que eu comprei com desvio de dinheiro dos livros que eu deveria ter comprado para estudar, e para beber em um pub qualquer da cidade vizinha. Eu odeio música gospel. Eu quero colocar fogo na igreja e fugir dessa cidade. E eu estou louco pra arrancar seu sutiã com os dentes. A não ser é claro, que você queira ser boazinha e tire sozinha.
piscou, uma, duas, três vezes, tentando absorver todas aquelas afirmações. aproveitava o resto de seu cigarro. A cabeça da garota estava a mil. Ele era realmente daquele jeito, ou estava só tirando uma com a cara dela? Se era tudo aquilo que ele dizia, por que o disfarce de bom moço? A visão do peitoral definido do garoto também não ajudava em nada sua concentração. Ela morria de vontade de tocar, de colocar seu corpo por cima dele e não sair dali nunca mais. Mas precisava afastar aquele tipo de pensamento da cabeça.
-Verdade ou conseqüência, ? – ele sorriu, piscando para ela enquanto jogava o toco do cigarro na lixeira ao lado do sofá.
- Por que tudo isso, então ? A pose de bom moço, o bom comportamento, todo o papo religioso?
- Por que preciso manter as aparências para ter o que quero. Se eu fosse como realmente sou na frente de todos, eu não teria metade do que tenho. Não teria o dinheiro, a posição social, todo o conforto e a proteção que o nome do meu pai me oferecem. A vida é um baile de mascaras , quem consegue esconder o que é até o final da noite, ganha o prêmio maior.
- E por que me contar tudo isso agora?
- Somos iguais, não somos? Somos duas faces de uma mesma moeda. Mas você não precisa se esconder. E eu preciso de alguém pra compartilhar da minha vida de irresponsável sem futuro. Sozinho não tem graça. Antes uma parceira de crime com um belo par de pernas do que nada.
- Ainda não faz sentido.
- E algo na vida faz, ? Mas você gosta de ficar sozinha, incompreendida?
- Eu tenho e .
- Eles não são como você, eles não te entendem.
- O que te garante que eu não estou fingindo também?
- O tempo dirá. Estou te propondo uma amizade decente a curto prazo, , e uma transa boa no futuro. Não seja tão desconfiada.
- Você sabe que não me convenceu – ela sorriu, finalmente se deitando também, jogando os cabelos pra trás.
-É claro que sei – ele sorriu, fechando os olhos – Mas eu vou conseguir. Eu consigo tudo o que quero.
- Posso saber como pretende fazer isso?
-Te espero às 23h na frente da igreja. Vamos nos divertir um pouco. E daí depois podemos escolher decentemente a minha música.
- Então tudo se trata da sua música?
- Não. É tudo sobre sexo, drogas e rock’n’roll, meu amor.
Ela revirou os olhos, indignada. Não confiava nele, não sabia onde aquilo tudo os levaria. Era tudo tão confuso. Mas ela gostava de jogos. E jogar com ele poderia ser muito mais divertido do que ela imaginava. Era nisso que pensava quando o empurrou de sua cama, mordendo o lábio inferior delicadamente. Arrancou um sorriso um tanto misterioso dele, um sorriso de contrariedade. Ela observou-o recolocar seu blazer e abotoar novamente os botões de sua camisa. Com uma piscadela rápida, ele deixou um último recado no ar:
-Leve um casaco. A noite é fria, e nossos corações mais ainda.

Capitulo 3 – Have a Drink on Me

As ruas eram assustadoramente escuras. Não havia sequer uma alma se arriscando a andar por ali, somente gatos de rua e corujas com seus grandes olhos dourados observavam caminhar desajeitadamente pela Storage Street. Os saltos da bota preta de cano alto faziam barulho ao bater em pedras soltas pelo caminho. As mangas da blusa branca estampada com caveiras balançavam levemente por causa do vento noturno. O filho-da-puta tinha razão quanto ao frio, o que não a fez mudar de idéia e levar um casaco.
A igreja era uma construção em estilo medieval. À noite, as paredes feitas de pedra e a alta torre pareciam o cenário ideal para um filme de terror. A pequena cerca de ferro ao seu redor também não ajudava a melhorar o ambiente. Parada na calçada, a garota conseguia enxergar a casa grande, branca e iluminada dos . Parecia que o meio religioso não sofria tanto de falta de verbas como parecia.
já estava ficando nervosa, batendo o pé nervosamente no pedaço de grade a sua frente. O frio parecia invadir sua alma, e ela estava louca para sair dali de vez. Lugares como aquele a lembravam de sua infância como órfã, abandonada pelas ruas e temendo o mundo inteiro. Algo muito divertido de se lembrar num momento tão perturbador como aquele. O medo voltava para ela como um amigo conhecido, pedindo abrigo em suas entranhas. Ela devia lembrar-se de bater a porta na cara dele. Uma mão gelada em sua cintura, cheiro forte de cigarro impregnando o ar. Era agora, ela estava morta; não fosse pelo riso baixo em seu ouvido, o toque que começava a apertá-la, reconfortante, e um segundo cheiro no ar: um maldito perfume amadeirado que havia ficado grudado em seus lençóis na tarde daquele mesmo dia.
- Buuu – sussurrou em seu ouvido, jogando uma grande jaqueta de couro sobre os ombros tensos da garota – eu lhe disse para trazer o casaco, não disse?
- E você sabia que eu não o faria por que...?
- Pressentimento. Nunca falha – ele sorriu irônico, a puxando pelo cinto preto que prendia sua skinny exageradamente colada – Vamos. Temos uma longa noite pela frente.
- Posso saber aonde você vai me levar? – ela se deixou levar, emburrada, porém ardendo de curiosidade.
- Vamos tomar uma cerveja no Incantatem – assobiou, a largando em frente a um banco branco de praça, a alguns metros da igreja, antes de sumir em meio a um pequeno grupo de árvores.
-Você sabe que isso fica há uns 15 quilômetros daqui,não sabe? Como pretende chegar lá, caminhando?
- Achei que havia comentado com você que tinha uma moto – ele voltou, trazendo consigo uma Harley-Davidson vermelha e um tanto gasta.
- Que tipo de livros você ia comprar com o dinheiro que usou pra comprar a moto? Eles eram feitos de ouro, ou eram Bíblias do século XV escritas em aramaico, ou algo do tipo?
-Eu falei só em livros? Acho que esqueci de falar do dizimo.De qualquer jeito, ela não era totalmente nova quando comprei. Mas é linda, não?
- Divina. – ela bufou.
- Vamos logo, garota. A noite está chamando por nós, você não pode ouvir? – ele riu, jogando um capacete preto pra ela.
- Estou ouvindo o chamado da morte desde que te conheci, isso sim. Você realmente acha que vou subir nesse troço com você pilotando? – esquivou-se,dando dois passos para trás.
massageou as têmporas por um instante, olhando para a garota em seguida. Desencostou-se da moto, e deu alguns passos para a frente, as mãos nos bolsos da calça jeans surrada. Pela primeira vez na noite reparou que ele não vestia as roupas ‘religiosas’ a que ela estava acostumada. Ele usava uma jaqueta preta semelhante a que dera a garota por cima de uma camiseta branca e justa que destacava o abdômen definido que ele escondia com suas camisas de manga comprida. Nos pés um par de All Stars preto, e no rosto um sorriso sacana que deixava arrepiada. Não foi preciso mais do que três passos para que ficassem frente a frente, nariz com nariz, respirações misturadas.
- Diga que não quer uma cerveja gelada, música decente e pessoas agradáveis. Diga que não quer ver o mundo fora dessa cidade de merda. Diga que não quer sentir o vento no rosto, sentir a liberdade, a adrenalina. Diga que não quer seu corpo junto do meu.
Ela mordeu o lábio inferior, abaixando a cabeça para não encarar aqueles malditos olhos que conseguiriam fazê-la pular de um precipício. Odiava o modo como ele a fazia sentir-se. Rejeitava o desejo que começava a crescer em seu intimo. As palavras dele a atingiam como lâminas afiadas, por que eram verdades audaciosas prontas para deixá-la em dúvida. Ele riu baixinho, puxando-a energicamente pela mão. Arrumou-lhe o capacete sobre os cabelos ,predendo-os dentro da jaqueta. Em silêncio, acomodou-se sobre a moto, esperando que a garota fizesse o mesmo.
E ela fez, abraçando-o levemente pela cintura. virou o pescoço rapidamente para olhá-la, e, com uma piscadela rápida, deu partida, deixando o coração de naquele ponto da estrada. O vento batia no rosto de ,a velocidade a fazia ter borboletas no estomago. Ela estava grudada ao corpo de de um jeito que seria considerado pornográfico por qualquer senhora recatada de idade, mas ela não ligava. Aquilo era maravilhosamente excitante. Era uma experiência nova, e o maldito tinha razão: ela queria muito aquilo. Quebrar regras de verdade uma vez na vida.
A viagem de quinze minutos foi como um relâmpago, um salto de bungee jump. Quando se deu conta, estavam parados na frente do pub Incantatem,ela rindo como uma boba, estática. tirou as mãos da garota de sua cintura, e num movimento rápido de troca de pernas, ficou sentado de frente para ela, com um sorriso debochado diante dos olhos brilhantes de . Pousou as mãos geladas no pescoço da garota, fazendo com que ela quase pulasse de susto. Rindo, abriu o fecho do capacete, ajudando-a a livrar-se dele.
- Vou te contar um segredo – ele fez um sinal para que ela se aproximasse – nós morremos. Prepare-se para entrar no Inferno, meu amor.
- Preciso usar esse casaco, lá? – ela rebateu.
- Você não precisa usar nada lá.
- Pena que você não vai junto, não é? Você deve ter uma vaga comprada no Paraíso.
- Eu posso passar um tempinho aqui embaixo com você – ele piscou – posso comprar isso também.
- Não tem graça se você estiver usando roupas.
- Podemos dar um jeito nisso também. Agora, se você preferir. Aqui.
- Como todo mundo vendo? – ela sorriu, maliciosa.
- Você não acha excitante? – se aproximou, passando o longo dedo indicador pelo rosto de , descendo lentamente por seu pescoço.
- Eu acho – ela soprou no rosto dele, vagarosamente – que você tem que me pagar uma cerveja.
E levantou, rindo, rebolando em direção as piscantes luzes do Incantatem.

O Incantatem era um pequeno pub onde bandas de rock gostavam de se apresentar. Era intimista, com suas paredes de concreto iluminadas por candelabros que jogavam luzes amarelas por todos os lados. Sofás vermelhos nos reservados e mesas de madeira polida davam um ar aconchegante ao lugar. O bar era longo, o balcão de vidro negro, os bancos altos de madeira e milhares de copos e bebidas variadas ao fundo. O lugar cheirava a tabaco, whisky e perfume barato. sorriu. Era um bom lugar, afinal.
surgiu atrás dela, um cigarro pendurado na boca, a carteira aberta nas mãos. Algumas notas foram puxadas rapidamente de lá, sem que ela conseguisse ver o seu valor. Ele a puxou novamente, ela começou a se irritar. Estava se sentindo um saco de batatas. Tentou dar o tapa mais forte que conseguia em seu ombro quando ele os parou em frente ao bar.
- Hey, violência gratuita?
- Pare de me carregar por ai, não sou uma criança.
- Tem certeza? – perguntou, fingindo preocupação.
- Cale a boca.
- Duas doses de tequila, por favor – ele gesticulou para um garçom que passara ali rapidamente – e, se você não é uma criança, posso te deixar um momento sozinha aqui enquanto converso com alguns amigos – ele acendeu o cigarro –não suma, e não beba minha tequila.
obervou-o costurar um caminho entre a pequena multidão ali dentro, e para num pequeno grupo nada simpático. Se ela tinha alguma dúvida de que aquele garoto realmente não prestava, agora ela tinha certeza. O que tinha que decidir agora era o que iria vencer: o medo de fazer papel de idiota na frente dele, o medo dele ou a maldita atração que ela definitivamente estava sentindo.
Sem pensar muito, virou o pequeno copo de tequila garganta a baixo, arrependendo-se imediatamente. Aquilo queimou sua garganta, a fazendo tossir descompassadamente, enchendo seus olhos de água. Um garçom parou, olhando para ela espantadamente, mas logo seguindo seu caminho. Recuperada do acesso de tosse, a garota sentou-se num dos bancos de madeira, encostando a cabeça no vidro frio. O que diabos estava fazendo? A quem estava tentando enganar? A resposta era clara: ao cara sexy de olhos pecadores que até pouco tempo atrás ela achava que era um idiota.
- ?
A voz não era de . Era mais doce, suave. Era como uma cantiga de ninar no meio da confusão. Ela levantou a cabeça, tirando os cabelos bagunçados da frente do rosto. A voz era do garçom que voltara e a observava mais atentamente. Trazia um pequeno copo consigo. Mas ela não conseguia reconhecê-lo. Parecia tão familiar. A resposta parecia na ponta da língua. Mas faltava o clique final.
- Desculpe, eu te conheço?
Ele era bonito. Tinha um sorriso bonito. Uma risada gostosa de ouvir. Os cabelos loiros bagunçados elegantemente para trás faziam uma estranha combinação com os olhos castanhos. Haviam músculos definidos por baixo da camiseta preta padrão, músculos não como os tentadores de , mas suficientes para se notar. Ele definitivamente era um bom quadro para ficar admirando.
- Achei que tantas manhãs dividindo uma sala de coral abafada te fizessem pelo menos olhar para as pessoas. Acho que me enganei.
Foi então que veio o clique.
- Damian?
- Na mosca.
Cabelos limpos e penteados, falta do lápis preto que borrava-lhe os olhos e roupas decentes : bingo! É claro que ela não o havia reconhecido de primeira.
- O que faz aqui?
- Trabalho aqui. E você?
Ela mordeu o lábio inferior, apontando discretamente com a cabeça para o lugar onde ria alto com os amigos. Damian soltou um ‘ih’ baixinho, um tanto desgostoso.
- Veio com o falso-padre , é? Boa sorte.
- Por quê?
- Ele tem fama de encrenqueiro. Adora aprontar. – ele deu de ombros.
- Isso soa familiar pra mim.
- Bom, mas nós dois sabemos que você não é assim.
Ela piscou uma, duas, três vezes, estática. A surpresa pegou-lhe como um bom soco no rosto.
- Como assim?
- Digamos que, não somos tão diferentes assim – ele sorriu, entregando-lhe o copo – tome,vai ajudar a passar a ardência. Eu tenho que ir. Foi bom ver você, .
Damian partiu rapidamente, bloco na mão para atender uma mesa. Ela olhou atentamente para o pequeno copo, cheio de um liquido branco. Levando-o rapidamente ao nariz, balançou a cabeça, divertida : quem em sã consciência lhe daria leite num pub? Mas fechou o rosto novamente. Damian era uma nova incógnita em sua vida. Talvez fosse ser um mistério tão grande quanto . Garotos idiotas, no fim, eles conseguiriam tirar seu sono de qualquer maneira.
Bebericava seu leite distraidamente quando voltou, puxando-a pela cintura para mais perto dele. Ela revirou os olhos: precisaria bater nele de novo? O primeiro tapa não tinha surtido muito efeito. Deveria pedir para lhe ensinar como socar alguém. ... Ele com certeza ficaria ensandecido com toda aquela história. Ela passaria na casa dele antes de ir para a escola na manhã seguinte.
- O que você está bebendo? – inquietou-se, tirando o copo da mão da garota – Isso é leite?
- É. Algum problema?
-Eu te trago num pub em outra cidade... E você toma leite? Francamente . É broxante.
- Depende do modo como você interpreta – ela riu alto – e não podemos nos embebedar. Temos aula amanhã, e eu definitivamente não quero ficar de ressaca.
- Você é muito negativa, garota, você tem que se soltar – ele provocou, massageando os ombros dela.
A garota fechou os olhos por um minuto, aproveitando o toque. Mas não podia se deixar levar... Não naquela noite.
- Chega, – ela brigou – Está na hora de irmos embora.
- Mas acabamos de chegar! E nem tomamos uma cerveja ainda! – ele reclamou, indignado.
- Sexta-feira – ela sussurrou – voltamos na sexta-feira. Passamos a madrugada toda aqui, se você quiser. Mas agora perdi o clima. Vamos embora.
- A madrugada toda? Bom, eu tenho planos melhores do que passar toda a madrugada aqui.
- Se você está tentando me conquistar, não está funcionando. Você esta indo muito, muito mal, se quer saber.
- Não estou tentando te conquistar. Estou te acostumando à idéia de que uma hora você vai acabar transando comigo.
- Grosso – ela ralhou, começando a caminhar em direção a saída do pub.
- Não me cobre romance, . Eu nunca te prometi isso. Aliás, nunca te prometi nada.
- Nem eu. Mas educação é uma coisa que eu gosto.
- Sinceramente, não parece.
- Vamos embora logo, por favor? – ela quase gritou, já do lado de fora, em frente a moto.
- Vamos. Aposto que com quinze minutos sentada muito próxima ao meu quadril você amolece. Vamos, você vai na frente.
- Eu não sei dirigir esse troço.
- Eu falei em dirigir? Só mandei você sentar na frente.
Contrariada, resmungando a maioria dos palavrões que conhecia,ela sentou, esperando pelo choque do corpo dele novamente. a abraçou fortemente pela cintura, apoiando seu rosto na curva do pescoço dela. Passou os lábios rapidamente pela extensão de pele em sua frente, antes de grudar a boca ao ouvido da garota.
- Você deveria confiar mais em mim.
- Você não me deu motivos para isso ainda – ela respondeu, totalmente arrepiada.
- Motivos são desnecessários. As ações que eles trazem é que são importantes.
E mordendo o lóbulo da orelha da garota, ele deu partida novamente, adentrando a noite como se pertencesse a ela.

*One of Us,Um de Nós, em tradução literal, famosa música gospel de Joan Osborne
*I Say a Little Prayer For You,Eu faço uma pequena prece para você,em tradução literal,é uma música conhecida pelo filme O Casamento do Meu Melhor Amigo,que é o meu filme favorito e ok,calei.
* Cherrybomb, é a famosa bomba de cereja, eternizada nos vocais do The Runaways
*Losing my religion,ou seja, Perdendo Minha Religião, é uma música incrível do R.E.M
*Have a Drink On Me é o que todo bêbado falido gostaria de ouvir : Bebidas Por Minha Conta, da banda já citada na introdução, AC/DC

Capítulo 4 – Ripped her heart out right before her eyes

As luzes de natal presas ao teto piscavam, coloridas, alucinantes. Eram três e meia da madrugada. As luzes lá fora estavam apagadas, fazia frio até mesmo com a janela fechada. Ou talvez fosse outra coisa. Como a falta do calor do corpo dele. O silêncio reinava absoluto. A não ser pela respiração descompassada dela. Pesadelos são como pimentas escondidas naquele doce maravilhoso que você esperou eras para experimentar. São inesperados, confusos e apavorantes. Pesadelos são como . Ou era como um pesadelo. Um mistério que entra pela porta do seu quarto e o impregna com cheiro de cigarro e o maldito perfume amadeirado.
A garota batucava os dedos na cabeceira da cama, esperando ouvir um som que a reconfortasse. O Ipod estava longe demais e ela não queria levantar dali. Sair debaixo das cobertas macias e seguras poderia enlouquecê-la. Em toda sua conturbada vida, nunca precisou de tratamento psicológico. Estava pensando seriamente em pedir uma consulta para Esma.
Algumas horas atrás e ele a deixava na esquina de sua casa. Os olhos brilhavam de satisfação ao ver o rosto emburrado da garota. Como se aquilo o divertisse. Como se ela fosse seu palhacinho particular, seu bobo da corte. E talvez realmente fosse. Por que no momento em que segurou sua mão e depositou um beijo leve como uma nuvem sobre seus dedos, um par de olhos brilhou de surpresa e uma risada alta saiu dos lábios terrivelmente atraentes dele. Ele havia desenvolvido um apreço por confundi-la, irritá-la. Um apreço maligno por deixá-la arrepiada. Tudo isso na velocidade da luz.
Por que era rápido. Era uma bala de revolver, um relâmpago, um piscar de olhos. não ficaria surpresa se ele lhe dissesse que era viciado em cafeína ou energético. Pelo contrário,ela deveria aprender a não se surpreender com nada que viesse dele. Nem mesmo com aquele sorriso malicioso e os olhos queimando ao sussurrar para ela :
- Amanhã é sua vez. Você sabe onde eu moro. Chegue cedo e terá satisfação garantida. Chegue tarde e eu vou te amarrar no pé da minha cama por toda a madrugada – e deu partida novamente na moto, a deixando ali abraçada na jaqueta que ele não quis de volta.Jaqueta aquela que ela continuava usando quando dormiu. O cheiro dele nunca esteve tão forte em suas narinas. O que a trazia de volta para seu pesadelo.
Naquele mundo distinto de sonhos, ela usava um longo vestido branco, cabelos ao vento, um crucifixo pendurado em uma linda corrente dourada balançava alegremente em seu pescoço.Estava parada olhando para o alto no ponto mais extremo de um precipício cuja queda era diretamente no mar. Era uma dia nublado, cinza, carregado. Era um dia como ela. era um dia de chuva, instável, inquieto, pronto para desabar. Mas naquele momento ela parecia um dia de sol. Calma, tranqüila, radiante. Os poucos pássaros que se atreviam a cortar os céus atraiam sua atenção, assim como a grama muito verde e um imenso salgueiro muito próximo dela. E então ele chegou. Estonteante mesmo em seus trajes de filho prodígio do pastor, mas ainda assim carregando um cigarro aceso preso aos lábios. Lábios que sorriam para ela a cada novo passo largo em sua direção, as mãos nos bolsos da calça caqui, o cabelo bagunçado como naquela noite.
E ela deixou envolver-se. Quando ele estava próximo o suficiente, deixou que passasse os braços pela sua cintura, que colocasse aqueles malditos olhos em contato com os que pareciam tão delicados, tão infantis naquele momento. Deixou que acariciasse seu rosto enquanto dava uma tragada em seu cigarro. Era tudo tão natural para ela. Os pássaros negros que antes dançavam silenciosamente por aquele céu tão sem cor agora os observavam, empoleirados no salgueiro. Jogando o toco do cigarro fora, passou os dedos pelas pálpebras da garota, num pedido silencioso para que ela as fechasse. Naquele pesadelo ela confiava nele, que ironia, até mesmo de olhos fechados. E assim ela o fez. Sentiu a palma da mão dele sob seu coração. Sorriu. E então veio a dor.
Como num show de ilusionismo ou um efeito especial de Hollywood, a mão de atravessou o peito de . Ela sentia o aperto firme dela fechando-se em volta do seu pequeno coração. Abriu os olhos, desesperada. Ele sorria tranquilamente para ela, na mesma proporção que puxava seu coração para fora. Lentamente, até que ele fosse visível para os dois. O vestido alvo era agora tingido pelo vermelho do sangue que escorria do buraco aberto em sua pele. E ela chorava lágrimas silenciosas. E ele continuava parado, sorrindo, analisando o tesouro que possuía em suas mãos.
Numa mudança do vento, os poucos pássaros que estavam no salgueiro haviam se multiplicado, e agora os rodeavam. Um circulo negro em volta de e , um circulo que se movia rapidamente, como um tornado. E a garota se percebeu indo para trás, caindo no infinito sem fim em direção ao mar. E ele continuava lá, parado, magnífico, com o coração dela em uma das mãos. Mas não por muito tempo. Logo ele também caia, na mesma altura que ela, os dois deitados sobre o ar. Os pássaros negros ainda os cercavam, batendo suas asas. Então ele lhe estendeu a mão livre, suja de sangue, um toque de piedade em seus olhos. Mesmo sem seu coração, ela a aceitou. Assim os dois fecharam os olhos, esperando a morte certa, o fim, juntos.
Antes de cair no mar, ela despertou. O coração ainda batia em seu lugar, disparado. As mãos suavam, a respiração era falha. Agora, analisando novamente todo o seu sonho, ela compreendeu. Só havia uma explicação plausível. destroçaria seu coração. Continuar perto dele era a destruição certa, o fim previsto. seria seu pecado e sua perdição. Assim como ela seria o pecado e a perdição dele. Um levava ao outro, nenhum poderia escapar. Olhando mais uma vez no despertador no criado-mudo, ela suspirou. Ainda teria tempo o suficiente para pensar em como se livrar daquele destino cruel antes que o sol voltasse a iluminar aquele lugar.

*Ripped her heart out right before her eyes, é um trecho de A little piece of heaven,do Avenged Sevenfold : Arrancou seu coração bem em frente de seus olhos,no sentido da música.

Capítulo 5 – You know I’m no good

Era uma casa engraçada, com musgo cobrindo toda a fachada. As janelas eram grandes e desproporcionais, assim como a enorme porta de madeira com maçanetas de ferro. Havia um grande ipê de flores douradas que fazia sombra ao pequeno jardim cheio de flores e estatuas de animais em miniaturas. Um caminho de tijolos amarelos levava a entrada. gostava daquela casa, era simples, mas aconchegante como um abraço.
Os Kallister não eram nem de longe tão ricos quanto os Dawson. Caleb, o pai, era professor de matemática na mesma escola que e os gêmeos freqüentavam e Linda, a mãe, braço direito de um importante empresário da região. O que na teoria, era um cargo um pouco mais alto do que secretária. Mas apesar disso tudo, os gêmeos sempre foram invejados pela garota: eles não substituíam ninguém. Eram amados por serem eles mesmos. E como eram amados.
abriu a porta antes mesmo que ela batesse. Usava jeans e um moletom cinza com capuz, e sorrindo maroto, confessou:
-Vi você chegando pela janela. Meu pai vai nos levar pra escola daqui a pouco, se você quiser um carona.
- Não seria nada mau.
A sala era pintada com um tom caramelo- escuro, mas haviam sofás brancos como a neve e um tapete vermelho felpudo embaixo de uma pequena mesa de centro de madeira. Havia fotos da família por todos os lados, e um pequeno lustre dourado no teto, uma herança de família, segundo . Uma grande estante repleta de livros, exceto pelo espaço que uma TV simples ocupava, completava o lugar.
poderia passar horas ali, ouvindo as histórias de Caleb e tomando o chocolate quente de Linda. Quando criança chorava em seu quarto, desejando ter sido adotada por eles também. Agora conformara-se com os Dawson. Não eram tão ruins, afinal.
Largou a mochila em qualquer lugar do chão, acomodando-se no sofá maior para que pudesse se deitar em seu colo. Os olhos verdes do garoto a observavam distraidamente enquanto ela passava as mãos por seus cachos . Às vezes ele ainda parecia o menininho que ofereceu um urso de pelúcia a ela em seu primeiro dia no orfanato. Ela chorava tanto por ter que ir parar naquele lugar. Por mais terrível que fosse o relacionamento com os pais biológicos, viciados em cocaína e álcool que batiam na garota quando estavam chapados demais, pelo menos antes ela tinha um lar. Quando chegou ao orfanato, viu seu mundo desabar mais ainda. E ele fora gentil com ela. Um menininho de cinco anos lhe dera mais carinho do que os pais lhe deram a vida toda. sempre o amou mais, apesar do carinho gigante por . era seu porto seguro, seu irmão, seu ursinho de pelúcia.
- Então, pequena – ele começou enquanto fechava os olhos para aproveitar o carinho – como foi com o ontem?
- Não durma – ela sussurrou – você vai querer ouvir essa história.
E então contou-lhe. Sobre a outra face de , sobre o bar, sobre as cantadas disfarçadas, sobre Damian e o pesadelo. Desabafou, expôs todos seus pensamentos conflituosos, suas dúvidas dolorosas. Sentia-se leve como uma pluma. somente ouvia, os olhos fixos em algum lugar na estante, os lábios contraídos. Ao fim do longo discurso de , ele sentou-se, mãos juntas,cabeça baixa. Virou-se lentamente para a garota, olhando-a nos olhos, afastando uma mecha de seu cabelo castanho para longe.
- , eu não quero que você encontre esse cara de novo. Eu troco com você, faço o aconselhamento. Mas eu não quero mais vê-la com ele.
- Por quê?
- Por que – ele suspirou – Eu me preocupo com você. Você não acha que já machucou seu coração muitas vezes para destroçá-lo mais uma vez?
- Isso não vai acontecer. Não vou me apaixonar com ele. Também não pretendo dormir com ele. Eu só quero entende-lo. Saber por que ele me escolheu.
- Você nunca se olhou no espelho, ? Ele te escolheu por que você é excepcionalmente bonita. Ele se revelou pra você por que quer te levar pra cama.
- Não é só isso. Tem mais nisso tudo, , eu tenho certeza que tem. Eu só quero saber o que é.
- É a curiosidade que ainda vai destruir o ser humano. Quanto mais você cava um buraco, mais presa nele fica.
-Isso não vai acontecer. Eu sei me cuidar.
Ele poderia ter dado uma boa resposta, se nesse momento Caleb e não tivessem chegado, sorrisos no rosto, braços dados. Caleb se passaria tranquilamente por pai dos dois se ela não soubesse que eram adotados. Ele tinha o mesmo tom de cabelos de , e o mesmo ar sonhador de , por trás dos grandes óculos de aro negro. Era o típico professor de ensino médio, com seu suéter caramelo e calças caqui, um sorriso que mostrava todos os dentes e uma expressão paternal. Um abraço apertado concedido em quando a avistou reforçavam a sensação de que ela pertencia a aquele lugar. Pertencia a aquelas pessoas.
Alguns minutos a mais e estavam rindo a bordo do pequeno Gol da família. a frente junto com o pai, procurando estações de rádio, e atrás, a primeira trançando o cabelo muito liso de como uma mãe atenciosa. Ali era um lugar onde ela podia rir e ser ela mesmo mais do que qualquer outro no mundo. Pelo menos por alguns preciosos minutos.

não havia visto pela manhã inteira. Onde diabos aquele garoto se enfiava durante o intervalo ? Provavelmente estava trancado no banheiro, comendo alguma vadia, foi seu primeiro pensamento. Até que se lembrou do papo de manter as aparências. Ah, ele não era o bad boy fodão durante o dia, que pena! Mas ela tinha certeza que o encontraria naquele último período. Afinal, era mais uma aula do coral. Mais quarenta e cinco minutos sobre rimas e do,ré,mi,fá. Que agora afinal, não seria tão chata. Tripudiar é amor, provocar é sexo. Essas eram suas palavras de ordem.
e já estavam em seus lugares de sempre, discutindo sobre a divisão de ‘Valerie’. E na fileira da frente, lá estava ele : paletó preto, camisa azul marinho, calça social e caderno em mãos. versão padre. Ela sorriu quando ele nem ao menos levantou a cabeça para olhá-la : ah,aquilo seria divertido. Ela trocou o lugar de sempre no canto mais afastado da sala pela cadeira ao lado de , e exatamente atrás de . Cutucou com a ponta do All Star, e sorriu, fingindo inocência quando ele olhou para trás:
-Me desculpe, . Foi sem querer. Espero que Deus me perdoe por isso.
- Deus sempre perdoa quem se arrepende verdadeiramente – ele respondeu, a boca tremendo, os olhos desconfiados.
- Bom, então com certeza eu não vou pro Inferno – ela sussurrou, ironicamente.
deu de ombros, voltando a seu caderno. observava a cena, braços cruzados, lábios imóveis numa linha fina.
-,, o que você está fazendo?
- Nada! Não está um dia lindo? – a garota sorriu, piscando.
Ele revirou os olhos, voltando a discutir com a irmã. fingia que escutava um breve discurso de Ernandez, enquanto estava com a mente longe, bolando um jeito de realmente provocá-lo. Por que se tudo aquilo era um jogo, estava na vez dela andar algumas casas. A idéia veio como um fogo de artifício quando seus olhos pousaram em Damian, a pose de emo novamente, entrando na sala, atrasado.
- Sr.Ernandez, será que eu poderia sugerir um tema para a semana que vem? – ela ergueu a mão, piscando os longos cílios varias vezes.
- Ahn, é claro ! – o mestre respondeu, visivelmente chocado.
- E se cada um escolhesse uma música que retratasse sua verdadeira personalidade? Muitos de nós se escondem atrás de mascaras e estereótipos, não é? Nos poderíamos mostrar quem somos de verdade, na frente de todo mundo. Mostrar que temos orgulho disso! poderia cantar Like a Prayer*! Aposto que seria o sonho da vida dele realizado.
não se moveu um centímetro de sua cadeira, apesar de conseguir notar a tensão em seus ombros. Ernandez sorria constrangido para a garota, e reprimia um risinho baixo. Para completar, ela novamente cutucou com a ponta do All Star. Xeque mate!
- Acho que seria incrível, . Realmente, uma boa sugestão. Faremos isso.
Mas o assunto não se estendeu. Ela recolocou seus fones de ouvido e passou o resto do período observando escrever furiosamente no caderninho. Ela tinha pena do pobre objeto. Com aquela intensidade, ele ia acabar rasgando-o em dois. Sem duplos sentidos, ela pediu a sua mente suja. Quando o sinal tocou novamente, ela mandou um beijo para os gêmeos e voou da sala, sabendo que ele a seguiria. Ele com certeza a seguiria.
E ele o fez. Ela já estava fora dos limites da escola, caminhando por uma calçada mal-tratada, quando ele pôs-se a caminhar ao seu lado. Ombro com ombro. Foram precisos alguns metros pra ela tomar a coragem necessária para olhar para ele, e mais alguns para que ele abrisse a boca.
- O que exatamente foi aquilo, ?
- Ah, um pouquinho de diversão matutina, não foi engraçado?
- Não aos meus olhos. O que você planejava?
- Só você pode ser grosso e mal-educado comigo? Isso não é justo.
- Eu nunca disse que nossa amizade seria justa, . E você adora que eu seja grosso com você. Te deixa arrepiada – ele riu, malicioso.
- Não, eu acho nojento, se você quiser saber. E por que todo esse ressentimento? Eu te pus em risco? Eu te expus?
- Você sabe que sim, . Mostrar a verdadeira personalidade. Lindo. Tocante. Uma bala disparada com o intuito de me atingir. Amigos não fazem isso com amigos.
- Eu não disse que era sua amiga.
- É uma questão de tempo. E sabe o que vem depois de amigos? – ele os parou em frente a uma casa que parecia saída diretamente de um filme de terror, e sussurrou – Amigos com benefícios.
- Aham. Nos seus sonhos pervertidos, talvez.
- Com certeza nos seus também. – ele sorriu, uma carga imensa de segundas intenções em seus olhos – eu te perdôo pela ofensa no coral hoje, , se você chegar cedo. Vou abrir uma garrafa de vodka em sua homenagem.
E tão repentino como chegou, ele se foi, a deixando plantada naquele cenário nada agradável.

Era um tanto cômico o modo como ela se olhava no espelho. Como passava mais rímel nos longos cílios e o batom vermelho que era sua marca registrada nos lábios cheios. O decote era considerável, o comprimento não muito longo. Esma provavelmente se surpreenderia ao vê-la vestida daquele jeito. Um vestido negro com bolinhas vermelhas que nunca havia usado. Meia-calça escura e o insubstituível All Star preto o acompanhavam. sabia por que estava vestida daquele jeito : para provocá-lo, impressioná-lo. Era tudo por causa daquele idiota.
Mas ela não podia esconder o medo. As mãos que tentavam parar de tremer. A cada vez que lembrava de seu pesadelo, suas pernas balançavam, seu estômago revirava. Aquele certamente era um jogo perigoso. Mas ela havia se proposto a jogar. Só deveria tomar cuidado para não apostar o próprio coração. Somente se ele desse o mesmo em troca. Era estranha aquela situação, tudo acontecera tão rápido. Rápido demais para ser considerado seguro. Ela descia as escadas de madeira passo a passo, tentando evitar os gemidos desgostosos daquela parte tão antiga da casa. Mas era o mesmo que tentar fazer um bebê não chorar com uma canção de ninar das freiras do Lar Redenção : impossível ainda era uma palavra muito otimista. E essa era uma situação que ela já havia visto milhares de vezes. As irmãs conseguiam ser mais assustadoras do que o bicho-papão.
Rick estava sentado na grande poltrona vermelha que ficava logo ao lado do fim da escada, os óculos finos presos na ponta do nariz anguloso, os cabelos negros estrategicamente penteados, a gravata frouxa em cima do colete cinza escuro. Analisava as palavras-cruzadas do jornal matinal com um interesse excessivo, como se ali pudesse achar a cura do câncer ou algo do tipo. Mas sem muito sucesso, metade dos quadrados perfeitamente alinhados continuava em branco. Rick era brilhante como advogado, mas um fracasso em palavras-cruzadas. Ele sempre acabava se estressando com a dica e passando para a seguinte.
- Ali, a palavra é ‘trouxa’ – indicou um conjunto de seis quadrados no canto superior da página já amassada – Uma pessoa não dotada de magia é ‘trouxa’. HP é Harry Potter.
- Eu achei que eles programassem esse maldito jogo para a terceira idade. Vou ligar pro jornal e pedir pra que eles não sejam tão joviais nas questões.
- Como se você fosse muito velho – ela o beliscou, sentando-se no apoio de braço da poltrona.
- Vou ter que arrumar suspensórios e uma bengala daqui a pouco, meu bem – ele riu, aquela risada baixa e tímida que só Rick sabia rir. tinha que admitir que gostava dele; Rick fazia o máximo possível para ser um bom pai, para compreende-la. Ele não se grudava ao passado. Diferentemente de Esma
- Hey, você está bonita. Acho que nunca te vi usando um vestido na vida – ele observou, intrigado.
- Claro que viu. No casamento de Tia Celeste, aquele troço azul que Esma me obrigou a usar.
- Ah claro, como fui esquecer? Você manchou o vestido com um batom vermelho que ela adorava – disse, fingindo descontentamento – qual é a ocasião agora? Algum casamento que eu não fui convidado?
- Ocasião nenhuma. Eu só achei-o no meu armário. É bonitinho. Resolvi usar. Tenho que sair mesmo.
- Aonde vai?
- Na casa do pastor – ela bufou – pode me dar uma carona?
- Esma comentou que você é a conselheira de . Devo me preocupar? Tenho que usar a máscara de pai ciúmento?
- Sinceramente, Rick, ele é o filho do pastor – por fora, ela revirava os olhos. Por dentro, concordava : ‘ Sim, Rick. Você precisa. Você devia me proibir de ver esse garoto, ou algo do tipo’.
- Algo me dizia mesmo que ele não fazia o seu tipo – ele olhou para a filha, um carinho absurdo transparecendo nos olhos cor de avelã – Vamos lá garota. Esse pode ser carta fora do baralho, mas existem outros gaviões pela rua.
Ele levantou-se, oferecendo o braço direito para , como num filme dos anos 20 ou um gentleman qualquer do século vinte e um. Revirando os olhos, ela aceitou, grata por não ter que andar vestida daquele jeito pela cidade. Em seu intimo sentia uma certa timidez que nunca antes havia se revelado. Escondendo novamente a criança assustada que era dentro do bolso, eles caminharam até o Audi da família, tão vermelho quanto as bochechas da garota ao pensar no que pensaria quando a visse daquele jeito.

A porta era cinza como o asfalto sob a luz do luar. Era entalhada com desenhos de lírios e rosas, era pesada e provavelmente cara. Assim como o tapete vermelho sob a porta e o pequeno lustre que depositava pontos de luz nas paredes imaculadamente brancas. observava tudo aquilo um tanto indignada : desviava dinheiro do dizimo para comprar uma motocicleta, e parece que isso vinha de berço. Acenou uma ultima vez em despedida para Rick, que agora voltava para a rua principal a deixando ali a mercê de momentos incertos. Suspirou, antes de tocar a campainha de uma vez por todas.
Uma loira que parecia ter saído direto de um dos filmes da Disney atendeu a porta. Ela devia ser uns 3,4 anos mais nova que . Tinha grandes olhos cinzas como um dia de tempestade, muito diferente dos perigosos de . Os cabelos acabavam em cachos perfeitos assim como a maquiagem leve que usava. Os traços do rosto eram um tanto comuns, mas também sofisticados e elegantes. Vestia um conjunto de moletom cor-de-rosa e em seu colo se encontrava um enorme e felpudo gato branco com cara de poucos amigos. A garota analisou de cima a baixo, antes de sorrir com todos os dentes perfeitamente brancos e alinhados. O dizimo devia realmente ser bem gordo para que ela tivesse um tratamento dentário tão bom.
- Você deve ser . disse que você viria. Eu sou Angelina, a irmã dele.
- Como Angelina Jolie?
- Na verdade é uma variação do nome da nossa mãe, mas é, em partes como Angelina Jolie. Todos me acham parecida com ela – ela riu histérica, os olhos brilhando como duas pedras preciosas.
- Ahn, claro, claro – concordou, desgostosa – E seu irmão?
- Ele pediu para que você subisse. está no quarto dele.
- Seus pais não vão se importar? Sabe, eu sou uma garota, e eu vou pro quarto do seu irmão e vocês são evangélicos e ...
- Não se preocupe, eles não estão em casa. Vocês podem fazer quanto barulho quiserem – ela piscou, acariciando o gato que parecia querer dar o bote diretamente no pescoço de , ou algo assim. Angelina puxou pela mão para dentro da grande casa dos . Essa mania era de família, pelo visto.
A sala de estar era enorme e fria. A decoração em tons de gelo e pérola não ajudavam em nada a melhorar a sensação térmica. Haviam três lustres de cristal, um ao lado do outro, acima de três sofás cor de creme e pufes brancos. Não se via uma TV em lugar algum. Ao invés disso, quadros impressionistas e uma grande imagem da Santa Ceia recobriam as paredes. O carpete macio era cinza e no canto direito erguia-se a magnífica escada prateada. Hey, os religiosos não deviam abdicar do luxo e da riqueza? Porra, se aquilo era abdicar, o que era ostentar,hein?
- É só subir – ela indicou – é a primeira porta a esquerda.
balançou a cabeça, num agradecimento silencioso. Subiu as escadas como um pássaro ansioso pela liberdade. Angelina era sinistra. Toda aquela casa era sinistra. O corredor do andar de cima era cheio de portas cor de caramelo, num contraste interessante com as paredes cinzas. Parou em frente à porta que imaginava ser a de , hesitante. Deveria bater, ou simplesmente entrar? Bom, se o propósito era provocá-lo, a resposta era um tanto óbvia.
A maçaneta girou facilmente, silenciosa e macia. A primeira visão que teve ao entrar no quarto bem arrumado de a deixou um tanto extasiada. A figura sem camisa exibia os ombros largos e costas musculosas. O corpo semi-encostado nas portas de vidro de uma pequena sacada respirava tranquilamente enquanto tragava outro cigarro. Ele era realmente viciado naquela porcaria. E realmente estava distraído demais para notar a garota que mordia o lábio inferior numa mania nervosa antes de se aproximar silenciosamente.
- Você vai acabar morrendo de câncer no pulmão, sabia? – ela sussurrou ao pé do ouvido de , perigosamente perto para sua segurança.
- Pessoas educadas batem na porta antes de entrar – ele respondeu, sem se virar para ela.
- Eu nunca disse que era educada.
Aquela frase tão típica de arrancou um riso seco dos lábios tão sensuais do garoto. Virando-se lentamente, ele apoiou a cabeça na soleira da vidraça, os olhos atingindo os como flechas, para depois fazer uma breve inspeção no corpo bem modelado de . Ela não poderia imaginar que tipo de pensamentos sujos se passavam pela cabeça dele naquele momento.
- Como adivinhou que eu precisava de um tapete novo para o meu quarto? – ele provocou-a, puxando a barra do vestido preto levemente. não respondeu, ignorou-o por um momento enquanto passeava pelo quarto amplo e claro. Como o dela, também era pintado de azul, mas era extremamente mais limpo e bem organizado. As paredes eram nuas, a cama estava arrumada com um cobertor vermelho-sangue e havia um criado mudo marrom-escuro onde um abajur de mesma cor estava depositado. O armário embutido tinha portas brancas e longas. Uma escrivaninha cheia de papéis etiquetados em ordem alfabética e um notebook prata completavam a mobília. O resto sofria de um vazio, assim como a alma dele,talvez. Havia uma porta caramelo que provavelmente daria no banheiro e luz por toda a parte. O sol reinava naquele ambiente.
- Você tem realmente uma coleção de Playboys embaixo do colchão?
- Na verdade, elas não estão debaixo do meu colchão. Disse aquilo para parecer mais...dramático,talvez. Eu tenho um compartimento secreto no meu armário. – deu de ombros.
- Seus pais nunca acharam?
- Eles nunca procuraram. Não tem por que desconfiarem de mim.
- Como você sai toda noite sem que eles notem? – continuou indagando, enquanto sentava-se sobre a cama dele sem constrangimento nenhum. - Meus pais passam mais tempo na paróquia do que aqui. Eles não tem muito tempo para notar essas coisas.
- E Angelina, sabe?
- Ela é minha pequena cúmplice. Contanto que eu não conte os podres dela, ela não conta os meus – aproximava-se vagarosamente, sentando junto a ela na cama – e se você continuar assim, tão sexy, logo, logo teremos alguns probleminhas por aqui.
- É bom segurar seu amiguinho dentro das calças, .
- Não tenho pressa, . Nós temos bastante tempo livre. Mas você tem que parar com isso.
- Parar com o que, exatamente?
- Parar de morder esse seu pobre lábio inferior. Isso dá água na boca, sabia? – passou o indicador pelos lábios cheios dela, a fazendo paralisar de tensão num momento – parar de inclinar o colo para frente para ressaltar o quão presos e tristes seus seios parecem. Você devia deixá-los livres. Eu não me importaria – o dedo descia para a barra do decote, deslizando numa caricia atrevida,enquanto ela tentava não suspirar longamente – e por último, devia descruzar as pernas. Suas coxas já são bem visíveis e tentadoras sem que você puxe o vestido mais para cima – ele finalizou, passando agora a mão toda por toda a extensão da perna direita da garota.
- Pare. – ela sibilou, entredentes – pare de jogar esse seu charme barato de banca de revista pra cima de mim. Você sabe por que estou aqui.
- Por que somos amigos desfrutando uma tarde agradável juntos? – ele jogou as mãos para o alto, tão inocente quanto um político que jura que não roubou enquanto coloca mais uns dólares na cueca. Incrível.
- Temos trabalho a fazer. Você já escolheu sua música? – disse ela, se afastando o máximo possível dele.
- Achei que você tinha que me ajudar a fazer isso.
- Já te dei sugestões.
- Nenhuma que me faça morrer de emoção e gritar em voz alta o refrão.
- Deve ser triste viver numa mentira, – ela cutucou, a agressividade explicita na voz.
- Você deve saber disso melhor do que eu – ele devolveu, o olhar firme, as palavras afiadas com uma faca.
- Por que?
- Vou provar que sou seu amigo . Vou ser sincero com você – aquilo soou mais como uma ameaça do que qualquer outra coisa – Em termos de mascaras,será que sou eu que uso a maior? Sou eu que tenho fama de encrenqueiro, mas passo as noites lendo livros em casa? Sou eu que sou chamado de vadio, puto e adjetivos lindos como esse, mas provavelmente ainda sou virgem? Sou eu que estou substituindo uma perda?
- Como... Você não tinha o direito – a voz dela falhara.
- Você mentiu pra mim, – ele sorriu irônico – Não foi difícil descobrir. Nem um pouco. Sua mãe gosta de desabafar com meu pai. Seus amigos falam alto demais. Meus conhecidos problemáticos nem sequer sabiam o seu nome. Eu sei juntar 1 + 1, . Acho que sou eu que deveria estar chateado.
- Seu filho-da-puta, idiota! Você não tinha o direito de revirar a minha vida – ela falava alto demais. Demais – Pra que? Era isso, você pretendia me levar pra cama e me humilhar depois? Se você descobriu que não sou nada do que você imaginava, por que ainda estamos nisso?
- Por que você me intriga – os olhos dele ardiam para ela. Sua expressão era séria como ela nunca havia visto – por que você é extremamente gostosa. Por que te entender passou a ser meu jogo favorito. É divertido.
- Então é bom arrumar outro jogo – ela levantou-se, tomando o rumo da porta – É bom me deixar em paz. Pare de investigar minha vida. Não abra a merda da boca pra ninguém.
- Tarde demais, já elegi você – ele se levantou, a seguindo a cada vez que ela dava um passo para trás – nossa relação continua a ser igual. Mas agora eu também tenho um segredinho seu. Isso não vai ser mais divertido? – era possível tocar a ironia em suas palavras.
- Vá pro Inferno.
- Já estou nele – mais uns passos à frente – vá para casa. Desconte sua raiva. Daqui dois dias nos vemos de novo. Vamos conversar com calma, meu amor. Você vai sentir minha falta.
Aquilo já era demais. Ela saiu batendo a porta, voando escada a baixo novamente. Tudo, tudo dera errado. Ela queria matá-lo, cortar seu pescoço fora. Ela queria arrancar a sensação do toque dele de sua pele. Ela queria simplesmente odiar , e não se sentir pervertidamente mais atraída por ele.

. *You know I’m no good é a minha pequena homenagem a Amy Winehouse, já que esse capitulo foi escrito no fim de semana da morte dela. E acredito que combina com esse capítulo: Você sabe que eu não sou boa.
*Like a prayer é uma das clássicas da Madonna : Como uma oração.

Capítulo 6 – A little less conversation

Ela simplesmente não podia acreditar que estava sendo obrigada a ouvir aquilo. Um balde, por favor? O chão não era digno de seu vômito. Era o ataque das patricinhas zumbis. A sala do coral nunca esteve tão insuportável como naquele dia. Alicia Loren e suas duas comparsas, todas com cabelos perfeitamente loiros e ondulados e grandes olhos verdes e perigosos, sentadas num banquinho, disfarçadas de viúvas negras em seus vestidos pretos e rendados, com seus lencinhos imaculadamente brancos e lágrimas falsas cantando Turning Tables*. E Ernandez realmente parecia prestes a desabar de emoção também. Ok, duas opções para isso: ou uma pessoa muito sensata havia chutado o professor, ou ele estava louco pra sair do armário de vez, já que motivos para achar que ele gostava de jogar no outro time não faltavam. Visto as sobrancelhas descoloridas e os conhecimentos exagerados sobre as capas da Vogue. Só assim para uma pessoa ter a capacidade de agüentar aquele circo de horrores.
ia enlouquecer. Algum Joker* do ensino médio estava tentando roubar a sua sanidade, sem deixar pistas e com muito sucesso. Na verdade, ele deixara pistas. Uma pista alta, forte e que tinha um perfume viciante. Sem falar na personalidade terrivelmente absurda. A sanidade de já havia sido roubada há muito tempo, e parecia que ele não fazia questão de recuperá-la. Talvez fosse esse afinal, o motivo pelo qual ele adorava mexer com a imaginação da garota.
Há dois dias ela evitava qualquer contato físico, mental e sobrenatural com o garoto. Vamos entender sobrenatural por sonhos pornôs e pesadelos com pássaros negros. Apesar de que, sendo totalmente honesta, ela não conseguira evitar o primeiro item. E isso era totalmente desprezível, em sua humilde opinião. Não era o tipo de sonho agradável para ser ter com o cara que você supostamente deveria detestar.
Não que o falso religioso não estivesse a sua espreita, pronto para atacá-la sem dó nem piedade a qualquer momento. Ah, ele estava mais que pronto para isso. Mas estava lidando muito bem com seu papel de guarda-costas pessoal nos últimos dois dias. Ou papel de ‘camisinha’, como ela gostava de se referir a ele, para desgosto do garoto. Ele somente balançava a cabeça e ria brevemente, como se a garota não tivesse salvação. Sua função básica era não deixar que nada relacionado à vazasse até chegar a ela.
Papel este que aceitou de muito bom grado após uma sessão de descarrego de ódio de ao telefone. Parece que havia achado seu primeiro inimigo. Qual mocinho não tinha seu antagonista? Mas nesse caso ele não era o cara legal. Ele era o vilão safado, filho-da-puta e gostoso o qual adoraria nocautear. Infelizmente, até nos sentidos sexuais. Tratou logo de afastar a idéia da cabeça, correndo os olhos pela apresentação vexaminosa das colegas para distrair-se. Não funcionou.
O que realmente a preocupava era a promessa dos dois dias. Ele havia pegado leve até o momento. Mas admitir que ela ansiava pela hora que ele realmente a obrigasse a falar com ele era difícil. Ela sabia que no final, ele conseguiria de qualquer jeito. Por que a garota chegara a um novo estado em sua relação fictícia com . Ela chegara ao patamar da obsessão cega e mortal.
O que explicava por que ela queria explodir aquela sala de aula. Ou matar Alicia e seus longos cílios que piscavam insistentemente para . Sintoma número 2: ciúme. Isso não era nada bom. Mas o que a reconfortava era que o tipo falsa santa não afetaria a libido do garoto. A não ser que ele estivesse muito desesperado por sexo e suas mãos não estivessem mais dando conta do recado. No fim, ela sabia que o tipo vaca descontrolada o divertia e o instigava mais. E bom, ela era a vaca descontrolada ali.
A dor intestinal a qual elas chamavam de canção terminou, arrancando aplausos educados de e desesperados de Ernandez. Patético. Pelo menos não parecia à única enjoada ali. Damian estava verde. Literalmente. O clima não parecia muito legal entre ele e seu irmão caipira cujo nome não fazia idéia, mas que cheirava a estrume de vaca e barro úmido, o que reforçava a distância que ela mantinha do clã fazendeiro da escola.Parece que ela e não eram os únicos com segredinhos ali a julgar pelos sussurros baixos e rápidos que os dois emitiam.
O alarme tocando era como música para seus pobres ouvidos ainda machucados pela voz estridente de Alicia. Ultimamente andava pensando por que resolvera se inscrever no coral em todas as aulas vagas de ultimo período. Deveria ter entrado no clube de xadrez. Xadrez era menos estresse e mais nerds por metro quadrado. Devia ser divertido... E broxante. De braços dados com , escapuliu pelo corredor, temendo olhar para trás e encontrar os malditos olhinhos piscando ironicamente pra ela. Ele adorava fazer isso. Chegar a sua casa a salvo não fora uma coisa difícil. Fora relativamente simples, na verdade. a deixara sã e salva em frente a porta de madeira cor de chocolate, depositando um beijo rápido em sua testa antes de dizer um adeus. Ela sorrira e realmente se sentira segura por um instante. Até lembrar-se que nenhum lugar era seguro. Ela provavelmente se esconderia embaixo da cama pelo resto do dia. Ela era uma Cinderella da pá virada, que só se sentiria livre a meia-noite. Na última badalada do sino que ficava na igreja dele. Passou correndo por um Rick distraído nas escadas carregando montes de papéis e livros jurídicos, que gritou um ‘oi’ desajeitado, antes que a garota batesse a porta de seu quarto. Com os fones de ouvido no máximo, recusou educadamente o almoço que Esma veio lhe oferecer: um ‘eu não estou pra NINGUÉM. Deixem-me mofar em paz‘. Realmente, uma lady.
Uma hora.Uma e meia. Duas horas da tarde. Será que ele realmente resolvera deixá-la em paz? O maldito havia desistido dela? Seu cérebro estava entrando em pânico, um conflito interno a preenchia de uma maneira assustadora: querê-lo ou mandá-lo a merda? O que era certo e errado naquela história toda? tamborilava os dedos na cabeceira da cama nervosamente. Sua mente sempre tão decidida e relaxada, agora trabalhava a mil por hora, num turbilhão de novas inquietações por minuto. Tantas dúvidas que a rondavam naquele instante, como se fosse uma criança que acabara de descobrir o mundo e queria saber o ‘porque’ e o ‘como’ de todos os fenômenos que ocorriam a sua volta, e queria sanar todas as questões que lhe rondavam. Matá-lo e acabar com todo aquele sofrimento era uma opção plausível. Se fosse uma assassina. Bom, todo dia é dia para aprender uma coisa nova, era o que a falecida tia-avó de Rick costumava dizer.
Duas e meia da tarde. Passos pesados na escada e Esma tagarelando alegremente, como sempre fazia quando algo a deixava realmente empolgada. Duas e meia? Rick já estava no trabalho àquela hora. Oh-oh. Parece que temos visitas. Adivinha quem vem para o jantar? * Era óbvio. Parece que ao menos uma qualidade verdadeira o filho do pastor possuía: era um homem de palavra. Uma, duas, três batidas firmes na porta. Será que se fazer de morta adiantaria? Talvez ele arrombasse a porta, ela pensava. Ia ser no mínimo divertido ver que explicação o bom moço daria para os Dawson quando questionado sobre por que havia danificado uma propriedade privada.
- Eu sei que você está ai – a maldita voz de rock pornô a alertou calmamente, como se falasse do tempo lá fora ou alguma coisa tão banal quanto essa – Vamos, antes que eu chame Esma pra abrir a porta.
- Voltamos à pré-escola. Você deveria chamar a sua mãe, não a minha. – ela bufou, um tanto divertida em sua cama, sabendo que estava protegida pela grossa porta de madeira.
- Se você fizer questão. Posso chamar a cidade inteira se você não abrir a porcaria da porta agora, .
O tom que ele usava agora era ameaçador, como se fosse um psicopata pronto para atacá-la. Mas a garota ainda era teimosa o suficiente para fingir que não se importava. Ela restaurou o silêncio, voltando ao velho jogo de provocação. era uma provocadora nata.
- Eu não estou brincando. Abra por bem, ou eu posso forjar uma história muito boa sobre como tive que arrombar a porta por que você estava ameaçando se matar. Sou um ótimo ator. – era quase como um sussurro, como uma confissão intima que disfarçava a impaciência dele.
Ela se arrastou da cama, se postando atrás da porta de maneira lenta. Conseguia ouvir a respiração tranqüila dele. O cafajeste não estava brincando. Ele era frio como uma pedra de gelo quando se tratava de conseguir o que queria. Além do fato de que a garota conhecia o poder de interpretação de . Afinal, ele convencera a cidade inteira de que era um bom menino, um religioso respeitável e um filho de ouro. Ah sim, aquele maldito merecia o Oscar. Destrancou a porta, girando a maçaneta lentamente.
Realmente não esperava o que acontecera a seguir.
Num minuto ela estava prensada pelo corpo dele sobre a porta já fechada novamente. a segurava firmemente pelos cabelos com uma das mãos, os olhos em chamas. sentia seu hálito fresco acariciar-lhe a pele, enquanto engolia em seco todos os sentimentos que lhe afligiam naquele momento. Medo, surpresa, humilhação e uma tensão sexual que ela odiava admitir que adorava. Se perguntassem, ela não saberia dizer qual corpo era de quem naquela confusão. Confusão esta que ela achava realmente interessante. Para não dizer extremamente excitante e deliciosa. A outra mão do garoto apertava sua cintura por baixo da regata preta que ela usava. Num roçar de narizes feito para parecer inocente, mas que só conseguia enviar cargas elétricas para os corpos de ambos, ele soprou :
- Não aja mais como uma menina má, . Eu tenho sido tão bom com você, tão atencioso, tão paciente. Retribua a minha generosidade, por favor. – havia alguma coisa na voz dele que a fazia querer ceder naquele exato momento. Como se sua voz prometesse que nada no mundo seria tão bom como experimentar aqueles lábios que a soltavam lenta e deliciosamente. Mas o orgulho insano de a obrigava a lutar um pouquinho mais. Só um pouquinho mais.
- Acho que você precisa de um dicionário – ela conseguiu resmungar, um tanto embriagada, mas sem conseguir passar o falso nojo que gostaria de demonstrar naquele momento – Generosidade pelo que eu sabia era outra coisa.
- Você não consegue calar a boca por um minuto – ele respondeu, direcionando a boca contra a pele do pescoço macio da garota, como se soubesse que aquele era um golpe realmente baixo – e aproveitar o momento?
- Que momento? – a lucidez já a havia abandonado. ’Bingo!’, ela pensou, e mandou o cérebro contrariado para o inferno, enquanto entrelaçava as pernas desnudas pelo short em volta da cintura dele. Há momentos na vida em que se deve simplesmente libertar as vontades presas na parte mais profunda de nossas almas. Para , era agora ou nunca.
- Eu realmente adoro quando você se faz de desentendida.
puxou seus cabelos com um pouco mais de força, obrigando-a a olhá-lo nos olhos, apertando-a mais contra a porta dura e fria. Era como se seus olhos se devorassem mentalmente, refletindo as chamas da alma de cada um. Seus dedos desenhavam círculos sobre a pele lisa da barriga dela, despertando pensamentos em que nem ela mesma sabia que era capaz de pensar. O modo como ela mordia o lábio inferior, como se para mostrar-lhe que era a coisa mais macia do mundo, o atiçava ainda mais, mas também era um apreciador de provocações. Num riso baixo, beijou-lhe o pescoço avidamente, deixando marcas na pele branca de . Ela resmungou alguma coisa sobre ele ser um idiota, mas fechou os olhos para aproveitar melhor a situação. Cada novo arrepio em sua espinha era como um novo fogo de artifício explodindo no céu. Como se o falso recatado soubesse seus gostos secretos e seus pontos sensíveis mesmo sem nunca tê-la tocado daquele jeito antes. Ou ele tinha uma intuição muito boa, ou experiências suficientes com garotas tolas como ela para saber o que as agradaria. Apesar de acreditar mais na segunda opção, ela a ignorava, deixando sua mente viajar pelo turbilhão de sensações que ele lhe causava. Foi à deixa perfeita para que ele finalmente chocasse os lábios nos dela com uma violência que ainda a deixaria louca.
Foi à vez de agarrar os cabelos do garoto de um jeito selvagem, enquanto dava passagem para que ele deslizasse a língua gelada dele por sua boca morna, num conflito de temperaturas que só deixava tudo ainda mais interessante. O beijo soava mais como uma luta pra ver quem conseguiria tirar o ar do outro primeiro, quem ficaria com os lábios mais vermelhos, quem se renderia de vez a tudo aquilo. Era pior do que tudo que ela havia imaginado na vida: era uma passagem sem volta para um vicio eterno. Era o próprio pecado ali, levantando sua blusa delicadamente enquanto quase a matava com os lábios macios. tinha consciência de tudo, e de nada. A cada vez que ele puxava mais os longos cabelos dela, era como se quisesse engoli-la. Como se fosse o primeiro passo para fundir seus corpos num só, prendê-la junto a ele até que o dia do Juízo Final chegasse e eles fossem punidos por todas os prazeres proibidos que ele planejava para os dois dali para a frente.
Chegava a ser doloroso o momento em que eles precisavam se separar para buscar ar. Ela escondera o rosto no pescoço dele, passando com delicadeza seus dentes sobre o pescoço do garoto, que massageava energicamente a coxa direita da garota com uma maestria que qualquer um invejaria. Inspirando o perfume amadeirado no qual ela já havia viciado no colarinho dele uma última vez, ela voltou a procurar os olhos que ela tanto apreciava. Olhos que carregavam uma carga de malícia, mas ao mesmo tempo um certo deslumbramento que seria imperceptível se naqueles poucos dias ela já não tivesse decorado cada variação daquelas pupilas. passava os lábios nos dela como se quisesse gravar o gosto exato que eles tinham, sem pressa nenhuma. A mão que prendia seus cabelos agora afrouxava o puxão, transformando-o numa carícia quase gentil e arrebatadora, enquanto a outra mão trilhava o caminho da coxa da garota até a barra de sua regata preta, levantando-a quase imperceptivelmente, grudando seus olhares novamente como se a desafiasse a impedi-lo de continuar. Ela não o faria. Não enquanto podia sugar-lhe o lábio inferior e depositar um selinho demorado em seus lábios, só para finalizar a carícia com a língua molhada os desenhando para finalmente mordê-los como fazia com os próprios numa mania imutável. Aquela altura do campeonato os dedos dele já tentavam se infiltrar por dentro do sutiã vermelho que ela usava. Foi o momento ideal para que ela o beijasse novamente.
Era alucinante, quase assustador o modo como um queria o outro. Desesperadamente, urgentemente. O mundo poderia explodir, eles não ligavam, se estivessem ali, juntos sem que houvesse amanhã. Num beijo tão intenso e devastador como o primeiro, ela lutava para desabotoar os primeiros botões da camisa azul clara que ele usava, para finalmente poder espalmar as mãos pelo peitoral definido que, se anjos realmente existissem como ele pregava, só poderia ter sido esculpido por querubins. Aproveitou para passar as longas unhas pintadas de preto por ali, deixando marcas vermelhas que seriam um problema se ele não usasse camisas tão fechadas. Como um castigo para a garota, ele quebrou o beijo por um momento, e, num sorriso maligno que poderia significar qualquer coisa, abaixou juntamente a alça da regata e do sutiã que cobriam a parte direita de seu ombro, para poder depositar beijos terrivelmente sensacionais por toda a extensão de pele nua de , próximo demais de seu seio ainda coberto. Um suspiro longo escapou dos lábios da garota, quase como uma súplica.
Súplica esta que ele teria atendido, não fossem três calmas batidas na porta.

*A little less conversation é uma música incrível e viciante do rei do rock, Elvis Presley, e o retrato desse capítulo: Um pouco menos de conversa
*Turning Tables é uma canção linda da Adele
*Joker é um dos maiores inimigos do Batman,o bom e velho Coringa
*Adivinha quem vem para o jantar? é um filme estadunidense cômico-dramático de 1967 dirigido por Stanley Kramer e vencedor do Oscar de melhor roteiro original

Capítulo 7 – Between the burning light and the dusty shade

- Está tudo bem ai, queridos? – a voz de Esma atravessava a fina porta de madeira, doce, suave e irritantemente prestativa – Precisam de alguma coisa, uma água, alguns biscoitos?
precisou beliscar a barriga exposta de para que ela saísse do estado de choque em que se encontrava. Ela realmente não sabia com o que estava mais surpresa: com Esma os interrompendo ou com o fato de que sim, ela e estavam praticamente se devorando ali naquela porta. No quarto dela. estava se amassando com o filho do pastor no quarto dela. Céus, aquilo parecia errado, ou pervertido, em todos os sentidos. Uma cena tragicômica de um filme sem graça alguma.
- Tudo certo, Esma. Estamos, ahn... – ela olhou feio para o garoto, que recomeçara os carinhos em sua cintura, o sorriso largo e malicioso lhe estampava os lábios quando ele deu a entender que queria se livrar das peças de pano que cobriam os seios da garota. Ela o repreendeu num resmungo baixo – estamos estudando algumas partituras. Não precisamos de nada.
- Se precisarem de alguma coisa, qualquer coisa, me chamem! –uma última tentativa de ser a mamãe prestativa que ela nunca era antes que os saltos altos voltassem a castigar o chão de madeira, levando Esma para longe.
- Tudo bem, tudo bem – ela suspirou alto. Os olhos ainda pareciam querer engoli-la quando os os encaravam. Os lábios dele voltaram a roçar lentamente nos vermelhos e inchados dela, numa tentativa baixa de restaurar o torpor anterior. A mão esquerda voltou a acariciar o pescoço da garota, descendo lentamente até a barra da alça abaixada de sua regata. Foi nesse instante que uma pequena lâmpada se acendeu no cérebro da garota, a fazendo fincar os pés na realidade. A mão direita levantou no ar num ato reflexo bem planejado, acertando a face de com um tapa certeiro e dolorido. Ao menos o barulho do encostar da palma da mão da garota na face perfeita do filho do pastor fez tudo aquilo parecer mais dramático ainda.
- Mas que vadia...! - exclamou, a largando sem qualquer dó ou piedade no chão gelado de madeira, massageando a bochecha dolorida enquanto se afastava. permaneceu ali, decidida a canalizar apenas o ódio e não o calor, enquanto ele andava pelo quarto, nervoso, tentando talvez se acalmar. A garota massageava as têmporas lentamente, mas o desejo se recusava a sair de seu corpo tão facilmente. Queria pular em cima do garoto novamente, sentir os lábios tão macios e decididos que se encaixavam perfeitamente nos seus mais uma vez. Mas não iria se repetir. Erros são feitos para serem cometidos apenas uma vez. Depois você precisa aprender a lição e tentar não se foder completamente. Mas que disse que ela conseguia dar essa ordem ao seu maldito cérebro? Ela somente conseguia observar o objeto de desejo de seu corpo admirando a marca vermelha no espelho do pequeno banheiro da garota. Uma pontinha de arrependimento surgiu na boca de seu estômago.
- Você ainda está ai, é? Desista, depois desse tapa você está de castigo. Nós não vamos transar hoje – saiu do banheiro, abotoando a camisa azul clara sobre o abdômen musculoso, parecendo mais arrogante do que nunca. O arrependimento passou instantaneamente. tinha que se lembrar constantemente que não valia o chão que pisava. Ela não precisava se importar com ele, pelo simples fato de que ele não se importava com ninguém. era o centro de seu próprio mundo.
- Nem nunca, se depender de mim – ela respondeu, arisca, se levantando para arrumar a regata preta bagunçada em seu corpo minutos atrás por certas mãos que deixaram rastros de fogo em seu corpo. Se iria bater de frente com o Senhor Oi-eu-sou-irresistível, queria pelo menos estar digna para o campo de batalha.
- Não era o que parecia há cinco minutos atrás. – se encostara na imensa janela do quarto, puxando um cigarro do bolso e fingindo que a garota era uma criança de cinco anos de idade. Como se ele tivesse uma mente muito mais adulta.
- Aquilo foi um deslize. Um maldito deslize que nunca mais vai acontecer – rosnou, o sangue fervendo nas veias, um ódio misturado com resto de tesão que ainda permanecia impregnado em todo o seu ser. riu seco, aquela risada irônica tão dele quanto o olhar provocante e o corpo sedutor. Não foram necessários mais do que três passos largos para que ele a puxasse sem cerimônias, e a encurralasse contra o vidro frio da janela. Os olhos nunca pareceram tão perigosos, a mão direita voltara a brincar com o cabelo de . Ele soltou a fumaça lentamente, direto contra os lábios entreabertos da garota, um gesto silencioso, uma mensagem sublime. Ele conseguia inebriá-la como a nicotina fazia naquele momento. E ela somente engolia em seco, o medo tomando conta de cada célula de seu corpo. Demonstrar isso seria bobagem, mas era meio que impossível não o fazer com o garoto tão perto assim.
- Acho que você ainda não entendeu, Amy. – ele sussurrou, intimidador, dando uma última tragada no cigarro antes de jogá-lo pela janela – Eu não dou a mínima pro que você acha, pro que você quer, ou pro que você sente. Eu sou egocêntrico demais pra isso. - uma risada baixa e maníaca escapava dos seus lábios enquanto ele passava o dedo indicador pelo rosto da garota- Nós vamos transar quando eu quiser. Não me importa se você está pronta pra perder sua preciosa virgindade ou não. Não me importa se for no seu quarto, no meu ou no pátio da escola. Quando eu quiser você de verdade, eu vou ter. E você vai adorar, por que no fim, você é só uma masoquista filha-da-puta, Amy. E eu adoro isso em você.
Puxando seus lábios para um último beijo rápido e possessivo, que,apesar do gosto do cigarro misturado ao agora já conhecido sabor de chiclete de hortelã, só conseguia fazer aumentar a vontade de de ter junto a si novamente, ele sorriu uma última vez ao quebrar o contanto dos corpos, indo em direção a porta do quarto.
- Por que não agora? Por que não aqui? – ela o provocou, afinal, querendo bater a cabeça na parede a cada vez que se dava conta do quão facilmente ela se rendia aos encantos do filho do pastor – Você não é homem o suficiente para isso? Aposto que esse seu discurso é feito de promessas vazias que nunca vão se cumprir.
- Por que, , eu não preciso de você agora. Não estou morrendo por uma transa. Eu tenho dinheiro, posso pagar uma prostituta qualquer da cidade vizinha. Por que você não está pronta do jeito que eu quero. Por que você foi uma menina muito, muito má e eu não vou te dar esse prazer de transar comigo tão facilmente. E por último – ele piscou, marotamente, antes de passar os olhos pelo quarto pintado de azul – por que este lugar cheira a talco, fraldas e ursos de pelúcia.
E a porta se fechou no instante exato em que jogou um tênis contra ela, esperando acertar o maldito sedutor de olhos .

A sexta-feira começara com um típico friozinho outonal, as folhas caindo sobre calçadas, fazendo barulho quando pisadas. O dia favorito da semana de estudantes entediados não seria tão bom assim para . Não depois que ela acordara com a lembrança da promessa que fizera a : “Sexta-feira ,voltamos na sexta-feira.” Se alguma vez se arrependera de alguma coisa em sua patética vida, fora daquelas poucas palavras. Principalmente depois do dia anterior e o jeito como ele falara com ela. Como se fosse seu dono, e ela seu brinquedinho sexual favorito. E o beijo. O maldito beijo no qual ela havia pensado a noite toda. E que lhe causava arrepios pelo corpo todo.
Ela colocava seu casaco de moletom vermelho-sangue quando Esma abriu a porta do quarto, sorridente. Esma era uma mulher pequena, de olhos grandes brilhantes e muito verdes. O cabelo ruivo caia em cachos fofos ao redor das bochechas salientes. Os lábios pintados de coral mostravam um sorriso que seria considerado maternal por muitos, mas não para . Para ela era só um sorriso vazio. A mulher usava um vestido azul marinho que combinava com um casaco curto da mesma cor, e saltos altos e negros nos pés. A rainha do lar, pronta para oferecer uma torta de amoras aos primeiros vizinhos que chegassem, e sorrir ao mostrar sua casa impecavelmente limpa, com certeza.
- , querida – sua voz baixa e gutural a chamou – está esperando por você lá embaixo.
- Diga a ele que já vou – a garota respondeu seca, desviando o olhar para a calça skinny que usava. As coisas com a mãe adotiva sempre foram complicadas, desde que a garota chegara ali. A relação das duas era muito diferente do que Esma esperava ter com sua nova menininha. Se por Rick tinha uma afeição gigantesca que a fazia não ser um projeto de vadia toda vez que ele lhe dirigia a palavra, com a sua digníssima esposa as coisas não funcionavam assim. Ela nunca hesitaria antes de ser grossa com a matriarca. O sorriso de Esma fraquejou quando ela concordou levemente com a cabeça, antes de deixar a passagem livre para .
esperava junto a porta de entrada da casa, um casaco xadrez azul de gola alta escondia parte de seu corpo. Era exatamente o tipo de roupa que gostava de usar. Mostrou a língua para a garota quando esta o beliscou, antes de abraçá-lo fortemente. conseguia levá-la para um mundo onde as coisas eram mais fáceis, onde nada a machucaria e onde não existissem igrejas ou pastores com filhos demoníacos.
- E ? – ela fungou, quando se deu conta da falta da ruiva que sempre o acompanhava.
- Ficou em casa. Disse que pegou uma gripe saturniana, ou algo do tipo.
- Se vocês não fossem gêmeos, ninguém diria que são irmãos.
- Todo mundo me diz isso – ele suspirou, dando de ombros por um momento – É lindo,não? Às vezes acho que precisamos dar um choque de realidade na minha querida irmã. Mas, mudando de assunto por um momento, e , voltou a te incomodar?
- Não – a mentira escapou-lhe pelos lábios mascarados com batom vermelho, querendo desviar o assunto que a atormentava nas últimas horas – Vamos? Quantos antes chegarmos ao colégio, antes saímos.

Ernandez parecia mil vezes mais agitado do que o normal enquanto ajustava os suspensórios vermelhos por cima da camisa azul clara de mangas curtas que usava. Jogava os cabelos loiros demais para trás enquanto esperava seus alunos lentos como lesmas se acomodarem nas cadeiras frias e duras da pequena sala do coral. havia voltado ao seu lugar de origem, o mais longe possível de . Um leve tremor de irritação ainda agitava seus músculos a cada vez que se lembrava dos últimos acontecimentos extasiantes e vergonhosos em seu quarto na casa dos Dawson. Seu cérebro trabalhava rápido em maneiras de dar o troco, de fazê-lo tremer e se sentir tão irritado quanto ela. Queria apagar de sua carne as lembranças que deixara, e se focar somente no fato de que o garoto em questão não prestava. Nem merecia que ela gastasse tanto tempo pensando nele. Sextas. Dias de apresentação voluntária. Ela poderia fazer algo. Dar um pequeno recado ao filho do pastor, algo para que ele se lembrasse de que ela não era tão fácil assim de se intimidar. Para mostrar-lhe que não era somente um objeto que ele poderia manipular da maneira que quisesse, deliciar-se com seu uso e depois encostá-lo na parede para voltar a utilizar quando bem entendesse. poderia ter um coração congelado pelos anos difíceis, mas não era nenhuma tola. Também tinha armas a serem utilizadas naquele jogo. Perdera o primeiro round: rompera suas defesas com a facilidade de quem rasga uma folha de papel em duas partes iguais. Mas era sua vez de atacá-lo. Com um dardo que ela já havia arremessado antes, mas não com força suficiente. Era hora de tentar outra vez.
No momento em que todos os estranhos membros do coral já estavam em sua presença, o professor Ernandez dedilhou lentamente um piano negro e antigo que raramente era usado, afim de tentar prender a atenção daqueles adolescentes de hormônios em polvorosa e cabeças distantes. Abriu um sorriso sem cor nenhuma, a pele muitos graus mais branca do que o normal, pode reparar. Suas mãos se esfregavam rapidamente, como se tentassem se aquecer em pleno calor agradável que marcava num termômetro em um canto distante da sala. Quando todos os pares de olhos o fitavam curiosamente, ele apenas tossiu duas vezes, sem querer, antes de começar a falar.
- Me desculpem. Algumas crianças do primário estavam gripadas, e elas gostam de abraçar seus professores. Não estou me sentindo muito bem. Mas não se preocupem, não pretendo passar nada pra vocês – ele riu, sem humor – Tenho uma consulta daqui a 20 minutos, então, serão liberados mais cedo. Mas, já que estamos aqui, temos tempo pra ouvirmos uma dupla de meias canções. Exatamente meia canção para cada um, um trecho e um refrão. E para difícil tarefa de nos entreter por alguns minutos, eu pensei em e . Vamos ver se está sendo bem orientado. Quem pretende começar?
- As damas primeiro – dirigiu os olhos faiscantes para ela, um meio sorriso misterioso no rosto – e sua voz encantadora, no caso.
- Oh, ele é sempre tão gentil , não? – ela rolou os olhos – Idiota - Sussurrou para ele, ao esbarrar propositalmente em sua cadeira. Caminhou lentamente até ficar ao lado de Ernandez, observando os colegas por um momento antes de ter uma pequena idéia surgindo em sua mente.
- Minha meia canção é Secret, do The Pierces – ela riu baixo de uma piada interna qualquer – E eu a escolhi por que, bom, todos nós temos nossos segredinhos, não é? Segredos sujos que contaminam nossos corações tão puros – piscou inocentemente para , que fingia não perceber.
- Quando quiser – Ernandez apertou levemente seu ombro antes de sentar-se em um banquinho de madeira ao lado do já esquecido piano. Um pigarro escapou dos lábios vermelhos da garota antes de iniciar a canção.
- Got a secret, can you keep it? Swear this one you'll save. (Tenho um segredo, você pode guardá-lo? Jure que esse você vai guardar) entoava em sua voz sedutoramente angelical, passando os grandes olhos por todos os presentes ali, fixando-os junto com seu sorriso de deboche nos olhos de . Ele permanecia sério, quase entediado, como se o único motivo para que estivesse ali fosse o respeito pela companheira de coral. Mas isso não abalou a garota, extremamente teimosa - Better lock it, in your pocket, take this one to the grave. If I show you then I know you won't tell what I said (Melhor trancá-lo em seu bolso. Leve-o para o túmulo. Se eu te mostrar então eu sei que você não vai contar o que eu disse) – Pela visão periférica ela conseguia ver um sorriso divertido se formando nos lábios finos de e direcionado com uma certa maldade para . O garoto conseguira entender melhor do que ninguém o que estava acontecendo ali. Damian também se mostrava atento a canção de , mas a expressão era indecifrável. Os olhos pareciam escuros e mergulhados numa tristeza absurda. A garota resolveu ignorar e voltar a última parte de seu refrão - Cause two can keep a secret if one of them is dead. (Porque duas pessoas podem guardar um segredo se uma delas estiver morta)- A batida da banda de apoio a fez mecher as mãos de um lado para o outro, acompanhando a melodia, colocando em cada palavra cantada tudo aquilo que queria cravar na mente de . Eles estavam nas mãos um do outro, isso não podia ser negado. As pernas tremiam levemente toda vez que se lembrava que ele também teria o direito de se expressar por meio de notas e sinfonias, que poderia se vingar dela de todos os modos possiveis. Mas ela não se importava. Tudo na vida de havia se baseado nos riscos. Certezas eram raras e perigosas, e ela aprendera a lidar com aquilo - Why do you smile like you've been told a secret? Now you're telling lies, because you just want to keep it . But no one keeps a secret. No one keeps a secret. (Por que você sorri como se tivesse contado um segredo? Agora você está contando mentiras, porque você só quer guardá-los. Mas ninguém guarda um segredo. Ninguém guarda um segredo) – Apertando os olhos, apenas sentindo a música envolvendo-a e a transportando-a para um lugar qualquer. Era por isso que estava no coral. Por que precisava de música em sua vida tanto quanto de oxigênio - They burn in our brains, become a living hell. Because everybody tells. (Eles queimam em nossos cérebros,transformando-se em um inferno.Porque todos contam ) – gostava de finais. Do modo como as palavras dançavam em sua boca, sendo estendidas até onde se era possível. Num suspiro longo seguido de um abrir repentino de olhos, ela saboreou os últimos acordes - Everybody tells (Todos contam).
Talvez os aplausos fossem a melhor parte de acabar uma canção. Sentir o reconhecimento, os sorrisos estampados em rostos sinceros e olhos brilhantes de entusiasmo. Exceto os olhos que tanto a intimidavam, que num brilho fosco, pareciam tramar algo. tinha certeza que as engrenagens do cérebro de trabalhavam arduamente para achar um modo de pisar em toda a dignidade que restara no corpo esbelto da garota. Uma vingança doce talvez, uma música sobre uma boa moça disfarçada de vagabunda. Ela tinha certeza de que deveria existir algo assim em algum lugar. Mas precisava sentar-se novamente em seu banco junto à parede, enquanto se dirigia a frente do piano e sussurrava alguma coisa para um guitarrista que passava ali ajustando as cordas de sua guitarra. segurava as mãos firmemente em seu colo, somente esperando os versos iniciais. Com as mãos nos bolsos da calça social azul escuro que usava, direcionava a todos os presentes um tipo de sorriso recatado e doce que a garota tinha certeza que era falso. Mas a carga de um simples olhar em sua direção a fez se arrepiar totalmente.
- And I'd give up forever to touch you,'cause I know that you feel me somehow (E eu desistiria da eternidade para te tocar,pois eu sei que você me sente de alguma maneira)- tinha o tipo de voz deliciosa demais para que qualquer outro som fosse emitido no ambiente. Todos pareciam meio hipnotizados, seduzidos pelo modo como ele dava vida àquilo que cantava, como colocava corpo e alma em cada nova frase formada. A voz de rock pornô que tanto arrepiava a garota quando sussurrada em seu ouvido conseguia ser mais venenosa e encantadora quando usada daquela maneira. E arfou sem querer quando se deu conta da canção que saia daqueles lábios que ela havia provado no dia anterior. E o fato de que ele não a encarava agora, somente distribuía seu olhar vazio a aqueles que lhe pediam desesperadamente pelo pouco de luz que ele conseguia emanar, só fazia com que o estômago da garota se rebelasse e seu coração ficasse totalmente comprimido na caixa torácica - You're the closest to heaven that I'll ever be and I don't want to go home right now (Você é o mais próximo do paraíso que sempre estarei e eu não quero ir para casa agora) já tinha perdido completamente o coração ao ouvir aqueles simples versos, por que, no instante em que eram proferidos, um sorriso de canto surgia nos lábios daquele que domava as palavras, e os olhos pareciam lhe indagar se aquilo lhe parecia familiar. Todas as vezes que ela lhe afirmara que ele era o Inferno, somente para ele acabar com todas as suas armas a chamando de Paraíso. Tudo parecia tão azul e confuso, como se girasse num momento. Era a cartada de mestre de . Como se tirasse o coelho mais branco e peludo da cartola - And all I can taste is this moment, and all I can breathe is your life, and sooner or later it's over. I just don't want to miss you tonight (E tudo que posso sentir é este momento,e tudo que posso respirar é a sua vida,e mais cedo ou mais tarde se acaba.Eu só não quero ficar sem você essa noite) – E por mais impossível que fosse, ela tentava se concentrar em qualquer coisa que não fosse a canção mais romântica de todos os tempos sendo interpretada de um modo a mostrar todas as segundas intenções e os segredos escondidos de . Por que enquanto era boba e impulsiva a ponto de insinuar que ele tinha segredos, o garoto era inteligente o suficiente para colocá-los a vista para que todos pudessem compreende-los, mas ninguém entendesse que aquela era a verdade nua e crua sobre o filho do pastor diante dos seus olhos. Ninguém além dela - And I don't want the world to see me 'cause I don't think that they'd understand. When everything's made to be broken I just want you to know who I am (E eu não quero que o mundo me veja porque eu não acho que eles entenderiam.Quando tudo é feito para não durar eu só quero que você saiba quem sou eu)- Todo o turbilhão de pensamentos que a puxavam para que ela se afogasse eternamente em dúvidas forçavam seus canais lacrimais. Mas ela prometera que nunca choraria por um homem. Ainda mais por um homem por quem ela não sentia nada. não sentia nada por . Nada que fosse positivo. Nada além de ódio, nojo e irritação. Era disso que ela tentava se convencer. De que tudo aquilo não era um modo de o filho do pastor mostrar que ainda tinha um pouco de humanidade no monstro que ele havia se tornado. De mostrar que ainda possuía sentimentos que não lhe beneficiavam. Que ainda se importava com alguém. Aquilo não passava de outra artimanha para que ficasse confusa e se rendesse de vez a ele. Era aquilo que ela devia se agarrar. Não aos olhos fortemente fechados e as mãos que gesticulavam enquanto a boca perfeita finalizava a canção. Ela deveria continuar focada no jogo - I just want you to know...who I am (Eu só quero que você saiba...quem eu sou)
. Os aplausos enchiam a pequena sala, fazendo com que alguns se levantassem com lágrimas nos olhos e corações partidos. O Sr.Ernandez parecia tremendamente abalado e encantado ao mesmo tempo. se ordenava a manter o rosto sério, sem transparecer tudo aquilo que sua mente engenhosa se perguntava. Ela não queria saber. Não queria respostas. Aquilo era um pesadelo e assim que se cansasse, iria acabar. Mas ela deveria deixar de lado essas doces ilusões.
- Cidade dos Anjos é realmente um filme lindo...e Iris, nossa, acho que você não poderia ter feito escolha melhor – o professor apertava firmemente a mão do garoto, que somente agradecia em silêncio, um sorriso discreto formado nos lábios – Muito profunda e perfeita para o seu tom de voz. Parece que está fazendo um trabalho excelente. Semana que vem teremos a resposta definitiva – ele piscou para a garota, como se a incentivasse – Por hoje é só, crianças. Até segunda.
O único trabalho excelente que estava sendo feito ali era o de contra os pobres neurônios da garota. E o placar somente aumentava, dando a liderança da partida para o falso recatado. Ao menos por enquanto.

*Between the burning light and the dusty shade é um trecho da linda I was broken, do Marcus Foster: Entre a luz queimante e a sombra poeirenta. Uma bala pra quem adivinhar que é a luz e quem é a sombra nesse capítulo.
*Secret, música cantada pela protagonista, é a abertura do seriado Pretty Little Liars e é cantada pelas lindas do The Pierces. Já o filho do pastor canta Iris, música perfeita do Goo Goo Dolls e trilha sonora do filme Cidade dos Anjos.

Capítulo 8 – I can’t get no satisfaction

A temperatura parecia baixar um grau a cada barulho alto que os saltos gigantescos de suas botas negras faziam ao tocar o chão sem compaixão alguma. A noite sem estrelas parecia preparada para algum acontecimento grandioso, passos perigosos de criaturas que a ela pertenciam, rock’n’roll nas alturas e pecados em cada esquina. Adrenalina passava por suas veias como um veneno letal alterando os planos originais de seu cérebro confuso. Os jeans escuros nunca foram tão apertados, e a jaqueta de couro já tão conhecida ganhava outra conotação quando usada fechada por cima de somente um sutiã da mais pura seda azul-marinha. Nem as lâmpadas fantasmagóricas da Storage Street conseguiriam deixá-la intimidada naquela fatídica sexta-feira.
Porque havia passado as últimas cinco horas mergulhada nas águas mais profundas as quais se era possível alcançar em sua mente. Cada palavra, cada cena, ato e emoção passavam diante de seus olhos, como um filme em preto e branco que só conseguia fazer uma raiva eminente crescer em seu peito. As cicatrizes espalhadas por sua alma haviam deixado sua paciência reduzida a zero e a sua teimosia elevada aos mais altos níveis. O enigma começara a passar de intrigante para irritantemente desprezível. O modo como ele conseguia moldá-la a suas próprias vontades, enlouquecê-la com seus jogos mentais e debochar de suas atitudes, tudo isso na velocidade da luz já eram motivos suficientes para que se sentisse ultrajada. E naquela noite, enquanto o esperava em frente ao velho banco de praça, a única coisa que passava por sua mente era que ela tinha o direito de exercer vingança.
O ronco do motor de uma antiga Harley Davidson vermelha ressoava majestoso na rua silenciosa. O farol único de luz amarela a cegou por um instante, o suficiente para que ela crispasse os lábios pintados de vermelho e respirasse fundo uma última vez. A imagem imponente do filho do pastor e seu sorriso sarcástico de canto de lábios fora o combustível final para que sua determinação não fosse pelo ralo. A noite lhe pertencia, assim como seu livre-arbítrio. Três passos longos foram o suficiente para que ela pudesse sentar-se silenciosamente atrás dele, as mãos presas as laterais da motocicleta. A falta notável dos capacetes que ele sempre trazia consigo não a deixaram assustada, no entanto. Eles costumavam ativar suas pequenas crises de claustrofobia. Observar as costas másculas de subindo e descendo calmamente no ritmo de sua respiração começava a deixar a garota um tanto distraída. A falta de palavras mutua nos primeiros dez minutos mantinham sua cabeça no jogo.
- Bonitinha, comportadinha e quietinha – a voz quente a surpreendeu, um riso disfarçado entre as palavras, uma breve pausa para que ela as assimilasse, confusa, antes que ele completasse a sentença maliciosamente como sempre fazia – Parece que alguém descobriu o significado de ‘respeito’ e quem o detém aqui.
Mesmo com o sangue fervendo por todo seu corpo, sua boca bem desenhada continuou calada, os olhos perdidos em algum ponto da estrada. Respondê-lo com uma frase que sairia às pressas de sua língua, tropeçando nas palavras e se enrolando com as sílabas, não era uma idéia muito inteligente. Esperar o momento certo para cravar um punhal em suas costas definidas com certeza era muito mais digno de aplausos. As luzes da cidade vizinha iam se acendendo aos poucos, a rua do Incantatem se aproximando com seus risos altos e carros lotando cada vaga disponível. Mas o lugar favorito de continuava ali, vazio, como se reservado para o garoto.
Soltou-se da garupa o mais rapidamente que pode, preparando-se para andar até o Incantatem sem olhar para trás nem ao menos uma vez. Mas subestimar a rapidez e teimosia de com certeza era o ponto fraco de todo seu plano diabólico que não existia nem na teoria, nem na prática. somente seguia seus instintos mais rebeldes e insanos, esquecendo-se de que o filho do pastor era mil vezes melhor nessa arte tão perigosa. agarrou-lhe o pulso firmemente, os olhos procurando pelos dela, brilhavam como num incêndio. Bastou somente um puxão para que ela estivesse presa em seus braços, intoxicando-se com seu perfume amadeirado que parecia estar por todos os lugares nos últimos tempos. Aquele sorriso que lhe despertava ódio e desejo continuava lá, intacto, como se soubesse de coisas que a garota ainda não sabia. As respirações misturavam-se, a dele lenta como uma brisa marítima, a dela descontrolada como um furacão no meio do oceano. E a tempestade que ocorria naquela troca de olhares poderia acabar com toda a energia elétrica daquela pequena cidade. Abrindo a boca levemente, ele soltou as palavras, uma por uma, como se as saboreasse com deleite.
- Nenhuma reclamação? Nenhuma ofensa ou um palavrão sequer? – mantinha os lábios apertados numa linha fina, o olhar sustentado pelos globos de . Em toda sua vida seu cérebro nunca havia sido obrigado a trabalhar tão rapidamente como naquele momento, analisando possibilidades, formando frases e as riscando em seguida, montando o rebate perfeito para a arrogância impregnada em cada músculo atraente do corpo do garoto. – Quem é você e o que fez com a minha querida ?
- Meu nome – ela passou o indicador pelos lábios cheios e entreabertos do garoto, sussurrando, tentando não se intimidar por suas palavras ardilosas ao mesmo tempo que observava os olhos se fecharem e os lábios se esticarem num sorriso convencido. A garota não sabia o que o deixava mais animado, suas palavras felinas ou suas caricias delicadamente ousadas. Os dois pareciam extasiá-lo de um modo que faziam os cabelos da nuca de se arrepiarem permanentemente, os olhos num misto de desejo carnal e vingativo que pareciam ter sido feitos para andarem juntos – é . E caso você não tenha entendido, meu bem, eu não pertenço a ninguém. A noite é minha aliada, não minha inimiga – ria baixinho ao notar os lábios bem desenhados de se fecharem numa linha quase imperceptível, um par de olhos viciantemente a analisando de novo, esperando seu próximo passo com curiosidade – E, se você pretende passar toda a noite aqui, no sereno, eu não dou a mínima. Eu quero uma dose de vodka.
- frisou o nome da garota, as mãos no bolso do jeans depois que ela se soltou de repente, dois passos a frente com seu rebolado habitual, como se fosse a dona do mundo ou algo tão importante quanto. Os cabelos longos e balançaram suavemente quando ela o encarou uma última vez, os olhos em fendas, os dele brilhantes como diamantes, principalmente ao vê-la rolar os seus e entrar no cheio Incantatem após sua cartada final. – Vai ser um prazer dividir o Inferno com você.
O lugar estava lotado como nunca havia visto antes, cada pequeno espaço do piso de madeira ocupado por uma pessoa animada com um copo colorido em mãos, distraídos ao som de uma banda cover qualquer que tocava sob um palco improvisado ao lado do bar. Misturando-se a multidão empolgada, ela desviava-se de choques dispensáveis com estranhos bêbados demais, encaminhando-se a um lugar tranqüilo onde poderia conseguir uma bebida. Sentia a mão firme de em sua cintura, mas pela primeira vez em dias ele não a guiava, somente a deixava levá-lo, uma prova de que havia entrado no jogo, ainda que fosse cheio de segundas intenções. encostou-se na bancada de madeira escura do pequeno pub, os olhos atentos a procura de um rosto conhecido, mas os olhos verdes de Damian não pareciam estar em lugar algum. Ao invés do colega de escola, um garçom de dreadlocks coloridos e piercing no nariz sorriu para ela, os braços cruzados sobre o peito e um olhar intenso que faria qualquer garota que não fosse estranha como se abanar com um guardanapo. O garoto aproximou-se sorrateiramente pro trás do balcão, perigosamente perto do rosto um tanto surpreso da garota. A voz do garçom desconhecido era grave, intimista e tinha uma certa carga sexual que a garota poucas vezes havia ouvido antes. O caso mais notável certamente era o de . Ao lembrar-se do filho do pastor, uma de suas sobrancelhas subiu ao notar que o garoto havia sumido sem explicações aparentes, deixando-a sozinha e a mercê de qualquer lobo prestes a dar o bote na ovelhinha nada ingênua que era a garota.
- Olá – seus lábios eram finos e os dentes extremamente brilhantes, o que tornava seu sorriso algo realmente hipnotizante. Fosse pelo fato de estar um tanto irritada com , ou simplesmente por aquele garoto ser atraente por natureza, algo lhe dizia que algum tempo num canto escuro daquele pequeno pub seria uma experiência interessante e revigorante. – Posso lhe ajudar em algo?
- Pode – curvou seus lábios pintados de vermelho-sangue numa tentativa de sorriso sensual que ela não sabia se funcionaria muito bem, enquanto seus pensamentos tomavam rumos nada inocentes estimulados por aquele jogo de palavras cheio de duplos sentidos evidentes. – Você pode começar me trazendo um drink. Algo gelado e exótico.
- Como você. Antes, posso saber seu nome? – uma pergunta tão simples que o barulho no ambiente e o flerte nada disfarçado conseguiram transformar em algo sexy, que fez um arrepio eriçar todos os pelos de seu corpo. Os olhos negros a encaravam, esperando, indagando, tentando entrar em sua mente.
- Me traga a bebida primeiro, cavalheiro, e depois podemos conversar melhor. – um riso escapou travesso ao notar sua própria escolha de palavras e a piscadela discreta do barman. Sentando-se sobre um alto banco de madeira, sua cabeça balançava lentamente enquanto sua boca reproduzia a canção que tocava naquele momento. Uma música do Red Hot Chili Peppers que vivia tocando em seu Ipod dava um toque diferente aquele lugar. Como se aquelas pessoas fossem como ela, como se ela própria pertencesse ao Incantatem. Mas era só uma ilusão de ótica criada pelo vocalista de camisa xadrez. havia aberto um novo tipo de mundo para ela, um mundo ao qual ela estava começando a se acostumar, na mesma proporção a que se acostumava à presença do filho do pastor em sua vida.
O garoto dos dreadlocks voltara com uma taça alta e transparente, camadas de gelo e um líquido laranja a preenchendo totalmente, um guarda-chuva mínimo e verde preso a sua borda. Ele lhe sorriu novamente quando empurrou lentamente o copo pelo balcão, até que ele encostasse nas mãos pálidas e finas da garota.O choque térmico era desconfortável, mas ao mesmo tempo era algo de que ela gostara. Brincando com o canudinho translúcido, esperava que ele lhe dissesse primeiramente qual era o conteúdo daquilo, mas o garçom somente ergueu uma sobrancelha, como se esperasse que antes sua pergunta fosse respondida.
- Meu nome é . – ela soltou num suspiro, simples como uma rajada de vento. – E você é...
- Pode me chamar de Schmidt. Acho que nem eu mais me lembro do meu próprio nome. – a risada dele era baixa, charmosa. As mãos nos bolsos do avental negro como a camiseta que todos os garçons usavam e os olhos ainda perdidos no rosto confuso de . Mas agora ela quem queria uma resposta. Apontou discretamente para o copo, mordendo o lábio inferior lentamente – Ah, claro. A especialidade da casa. Na verdade, eu tive que subornar um dos meus colegas pra preparar, mas shhh, é segredo. Um Sex On The Beach com gelo extra para a mocinha dos olhos .
- E um whisky duplo para o acompanhante dela. – apareceu de repente, puxando um outro banco de madeira para sentar-se ao lado de , a mão firme voltando para o lugar onde parecia se encaixar perfeitamente na cintura da garota. O sorriso de canto de lábios sempre presente, e os olhos queimando de um modo diferente do habitual, um aceno de cabeça, quase como um cumprimento, para o garçom que agora os observava atônito. – Schmidt.
- . Hm, claro, já trago seu pedido. E desculpe-me, não sabia que era sua... Acompanhante. – a voz tinha uma certa insegurança, um respeito notável em cada palavra. Com que tipo de autoridade a garota andava? Porque somente o titulo de filho do líder religioso da cidade vizinha não traria todo aquele prestigio mascarado ao garoto.
- Não se preocupe. Enganos acontecem. Meu whisky, sim? – o tom autoritário estava de volta à voz de , como se fosse superior a todos ali e todos os presentes devessem se ajoelhar diante dele. Ela não se surpreenderia se algum dia ele realmente pedisse algo como aquilo. Seria tão típico do garoto. Bufando ao tomar um gole longo de sua bebida, ela desviou os olhos.
- Acompanhante. Ótimo. Ele deve estar pensando que sou uma prostituta.
- Achei que fosse essa a imagem que você gosta de passar. – sussurrava em seu ouvido, tentando recuperar a posse cega e o domínio de seus pensamentos. Ela devia admitir que na maior parte do tempo funcionava, principalmente quando ele estava tão próximo. Mas aquele era o dia de resistir às tentações, de mandar a merda e se divertir sozinha, ao menos um pouco. – E além do mais, você não precisar se importar com o que ele pensa. Com o que qualquer um aqui além de mim pensa. – terminou o drink num gole longo demais, os dedos batucando a bancada de madeira enquanto ouvia as provocações do garoto. Acenando para o primeiro garçom que viu, pediu outra bebida qualquer do cardápio, somente para não precisar encarar os olhos . Extremamente mais rápido do que Schmidt, que ainda não havia trazido o whisky de , ela já degustava uma taça alta de Blue Lagoon. – Acho que vou ter que levar alguém carregada para casa hoje. Tsc tsc. Criei um monstro.
- Eu sempre fui um monstro, . A vida me criou assim – um pequeno sorriso surgiu em seus lábios, porque no fundo ela sabia que o comentário havia sido um tanto cômico. Enquanto seu cérebro se mantinha firme a decisão de não se deixar levar por , seu corpo a traia, respondendo a cada sinal que ele enviava, como se todo o magnetismo dele a impedisse de se afastar. Era irritantemente encantador. Schmidt empurrou um copo baixo e redondo para o garoto, o rosto antes tão sorridente agora fechado e formal. O filho do pastor comentou algo sobre colocar os drinks na conta dele, o que incentivou a garota a pedir uma pina colada. O fato de estar irritada com o garoto não a impedia de mexer com o bolso dele. Já que ela sabia que Esma pagava o dizimo freqüentemente, nada mais justo do que usufruir dele por uma boa causa.
- Você sabe que eu não me responsabilizo por você, não é? – Ele erguia uma sobrancelha, os olhos divertidos ao observá-la virar quase que num gole só o terceiro copo da noite. não sabia que tipo de energia louca havia baixado em seu corpo naquele dia, mas uma vozinha em seu cérebro parecia lhe sussurrar que as coisas seriam mais fáceis com álcool correndo por suas veias. A culpa seria maior, a diversão maior. Era uma equação boa, se ela parasse pra analisar.
- Você poderia calar a merda da boca só por um momento, não é? – A má educação já era uma conseqüência dos seus drinks. descobriu um minuto depois, ao segurar o cardápio com uma das mãos trêmulas, que era fraca para bebidas. Ah sim, aquilo só melhorava. Principalmente quando ela começava a sentir nitidamente o perfume de próximo a ela.
- Não, Bloody Mary não – ele sussurrou em seu ouvido, a mão direita acariciando a barriga nua por baixo da jaqueta negra que pertencia a ele. O garoto começara a se aproveitar dela, mas ela não conseguia ligar. A única coisa que queria fazer era beber mais um drink – Tem suco de tomate, você não vai gostar. Um daiquiri de morango faz mais jus a sua delicadeza, – ele ria baixo, certamente caçoando da garota. somente deu de ombros, chamando o garçom mais próximo com o dedo indicador e um sorriso maroto. Infelizmente não era Damian ou Schmidt, nem alguém tão interessante quanto os dois, o que não a impediu de flertar descaradamente com o dono de um par de olhos cinza escuro. O garçom parecia dividido entre olhar assustado para e sorrir galante para a garota, como se tivesse que decidir a quem obedecer. Resolveu somente retirar-se, indo buscar para uma taça pequena decorada com uma cereja, que rapidamente já não existia. Ela riu quando recebeu um pequeno beliscão de em sua pele lisa e quente, e um puxão possessivo para que ficasse mais próxima ao corpo forte dele. – Comporte-se.
- Prefiro me jogar embaixo de um caminhão em movimento do que obedecer a você. – A banda tocava uma música pop conhecida, pertencente à Beyoncé, ou talvez Rihanna, ela não saberia dizer. Mas tudo que ela queria fazer era se afastar do filho do pastor e dançar até que seus pés não agüentassem mais o peso de seu corpo, até que o mundo acabasse ou simplesmente até que ela achasse algo mais interessante para fazer. E suas vontades tornaram-se atos no minuto seguinte, quando ela seguiu para o meio da multidão, deixando um estagnado em frente ao bar, e se pôs a dançar com desconhecidos adoráveis, que cheiravam a açúcar, cigarro e suor, mas que lhe sorriam a cada novo rodopio pelo espaço apertado. Seus longos cabelos balançavam no ritmo da música, seus pés deixavam o chão e voltavam tão rápido quanto haviam ido, e o ritmo nunca parava. A batida nunca parava e não havia ninguém ali que poderia impedir isso depois que a empolgação explodira por seus poros e que finalmente, pela primeira vez, ela estava se divertindo genuinamente.
Mas quando a carga de adrenalina passara num sopro do gelado ventilador, ela se deu conta de que sentia falta de algo que já havia se impregnado em sua pele com tatuagens, e permanecia adormecido até que, numa erupção violenta, viesse a tona para colocá-la em maus lençóis. sentia falta do calor dos olhos , da pele quente grudada na dela e das mãos forte presas a sua cintura. Por mais bobo, infantil e idiota que fosse tudo aquilo, ela somente conseguia rir e chamá-lo para perto de si com uma piscada marota, aproveitar a noite que ela dizia que seria a última em que o filho do pastor a levaria na conversa. Mas ela sabia que não seria. Porque no momento em que ele segurou sua mão para que eles pudessem dançar juntos ao som de um pop que geralmente ignoraria, ela sabia que era uma tola que havia caído na rede. Uma tola que em tão pouco tempo desenvolvera um vicio obsessivo por , uma doença sem cura. Mas se ela era tola, ele também. Se ela afundasse, ele iria junto.
- Desista – ele sussurrou ao seu ouvido, os corpos se movendo na mesma sintonia enquanto a batida só se tornava mais rápida, mais intensa e vibrante, e as luzes se tornavam borrões coloridos no teto. Os braços da garota jogados sobre os ombros largos de , olhares trocados e narizes grudados. Aquilo não terminaria bem, e isso não era segredo para ninguém.
- Só quando você desistir – eles dançavam juntos em direções opostas, dançavam juntos até o canto mais escuro, dançavam juntos se afastando da multidão. A música ricocheteava nas paredes, mas eles ouviam um ao outro com nitidez. Ambos conheciam o assunto, ambos sabiam do que estavam falando, mas nunca desistiam do jogo. O jogo estava sempre lá – Porque você sabe , tão bem quanto eu, que nós dois estamos fodidos. Você pode dizer o que quiser, mentir o quanto quiser, debochar de mim o quanto quiser. – as mãos dela agora percorriam os cabelos do garoto, a boca grudada ao seu ouvido e os corpos como um só. sentia a respiração gelada e calma dele em seu pescoço, os arrepios descendo por sua espinha, suas mãos quentes na base de suas costas. – Eu não sei quais são os seus malditos motivos obscuros e o quanto eles vão detonar com a minha vida, mas porra, eu não estou a fim de saber também. A única coisa da qual eu tenho certeza é isto. O aqui, o agora – seus lábios agora passeavam pelo pescoço do garoto, sem pressa nenhuma. Ela já não sabia mais qual canção estava tocando, nem quem estava ao seu redor. – A única certeza que eu tenho é que você é um filho da puta. O que não significa que eu não seja tão pior que você por aceitar estar aqui.
- O álcool entra, a verdade sai – ele ria baixinho em seu ouvido, como se a única coisa que esperasse daquela noite fossem aquelas palavras saindo dos lábios cheios de batom vermelho dela – Bem vinda de volta, . Senti sua falta.
- Você pode calar a boca de uma vez? – ela procurava pela boca dele com vontade, quase que com necessidade, mas a cada nova investida ele parecia fugir, o sorriso irônico estampado nos lábios e os olhos queimando – Porra, – O garoto mordeu o lábio inferior de , o sorriso crescendo enquanto a pegava no colo com destreza e invadia um reservado qualquer. não se importava se agora estava sentada em cima de uma mesa de madeira de um pub lotado, quando um par de olhos a devorava daquele jeito tão delicioso. O dedo indicador de desenhava calmamente cada curva do rosto da garota enquanto se aproximava lentamente, o hálito numa mistura de tabaco e canela batendo em seus lábios com delicadeza, as mãos agora puxando seu rosto mais pra perto enquanto se encaixa entre as pernas cobertas por uma calça jeans extremamente apertada. Os lábios se tocavam tão minimamente, mas mesmo assim tão sensualmente, que era impossível não querer pertencer a ele. havia ganhado-a com um beijo, e nem mesmo ela queria saber o que aconteceria nos próximos capítulos. Mas quando ele finalmente começou a beijá-la, com sua língua gelada pedindo permissão para adentrar os lábios já um pouco entreabertos, foi como se todo o peso do mundo houvesse sumido dali. Nada existia, nem um som, nem uma luz. Inferno e Paraíso eram só dois lados de uma moeda brilhante que ela carregava em seu bolso. A cada novo movimento ousado de línguas que pareciam ser velhas conhecidas era como se pedisse para morrer mais um pouco, só para chegar ao dito paraíso mais rápido. Ou ao inferno, nem mesmo ela já saberia dizer. Ela só queria que ele chegasse mais perto, queria embrenhar suas mãos em seus cabelos macios, engoli-lo, possuí-lo do mesmo modo que ele fazia.
O beijo tão quente já não bastava mais. precisava sentir a textura da pele dela por baixa da jaqueta de couro, os lábios desenhando cada curva de seu pescoço, as mãos ocupadas com os botões de metal tão irritantes, os olhos de apertados, enquanto ela somente sentia, as unhas se prendendo a qualquer pedaço da pele dele ao seu alcance. E quando os lábios foram tomados novamente enquanto sua jaqueta era jogada em cima de uma cadeira, a única reação possível era morder o lábio inferior do garoto ao constatar o quão perigosamente próximas as mãos dele estavam de seu sutiã azul. não sabia se era o calor do lugar ou do corpo dele, mas ela nunca precisara tanto de oxigênio em toda sua vida, e ao mesmo tempo nunca recusara tanto dar-se ao luxo de procurar por aquilo. só queria arrancar-lhe a camiseta branca e arranhar-lhe o peitoral musculoso, deixando marcas que demorariam a desaparecer, só pela vontade egocêntrica de passar mais tempo na mente de . As pernas desajeitadas envolviam a cintura do garoto a deixando próxima de uma parte de sua anatomia que já queria começar a dar sinais de vida. Quando as duas mãos grandes e fortes de se posicionaram sobre seus seios fartos cobertos pelo fino tecido que era a seda azul, pressionando-os sem cerimônia e pressa, desenhando-os como podia, o beijo tornou-se ainda mais urgente, as bocas mais apertadas, um suspiro de prazer preso em sua garganta. As caricias naquela área tão sensível do corpo da garota agora já eram mais selvagens, mais concentradas, e ela sentia que o pano tão caro que sustentava seu busto logo se colocaria em pedaços nas mãos de , deixando-a parcialmente nua para que ele pudesse se aproveitar ainda mais daquilo. não se importava. Seu mundo girava em torno do corpo de e de todos os sinais que ele lhe enviava, de tudo que ele lhe proporcionava e de cada situação que ainda proporcionaria. Como dois sedentos perdidos no deserto, o corpo um do outro servia como um Oasis real disposto a atender as necessidades que levariam a sua sobrevivência. O volume na calça jeans de começava a aparecer à medida que os dedos longos e finos da garota tentavam se infiltrar em seu interior, brincando com o fecho tão simples de ser aberto e provocando a agressividade deliciosa de seu corpo. Ele mordia seus lábios com possessão, puxava os longos cabelos e tentava fundi-los num só, como se só assim fosse possível uma salvação para ambos. A boca dele parecia não conseguir se decidir por onde permanecer, traçando caminhos diferentes, chupando, mordendo, deixando marcas que iam desde seus ombros delicados até o lóbulo de sua orelha. As alças de seu sutiã não estavam mais em seu lugar de origem, e a boca quente, vermelha e inchada de parecia se encaixar perfeitamente em sua clavícula, enquanto as mãos ágeis de tentavam a todo custo livrar-se da camiseta do garoto, arranhando e apertando seus músculos, trazendo-o mais para perto, moldando-se a ele. Um fino filete de suor escorria pelo lado de sua cabeça quando ele lhe mordia o queixo, procurando o rumo novamente até os lábios inchados demais de . Alguém poderia assinar o atestado de óbito da garota, ela não dava à mínima. Morrer nos braços de era um jeito glorioso de morrer, afinal.
nunca havia realmente parado para pensar como gostaria que fosse sua primeira vez, como queria quebrar o tabu do tão famigerado sexo, onde seria, com quem seria, se velas decorariam o lugar ou não. Sua mente não viajava muito por esses lugares comuns. Mas agora ela constatara o óbvio, o que cada pedaço dormente de seu corpo gritava desesperadamente. . Ali. Agora. A garota o queria com tanta vontade, queria pertencer a ele somente por aquela vez. A timidez de subir a boca até seu ouvido e, antes de perguntar-lhe, beijar o lóbulo de sua orelha, fazendo cada pelo do corpo de se arrepiar, não existia mais. O filho do pastor provavelmente carregava camisinhas consigo, e aquela era a hora de usá-las. Não se preocuparia em fazer uma voz sexy, ou um gênero qualquer. Não tinha condições psicológicas para isso. Somente deixaria seu corpo e seus instintos mais primitivos guiarem suas ações, pela primeira vez claras como o dia, e não mascaradas por outros sentimentos obscuros.
Mas deveria estar acostumadas a situações como aquela. Situações onde seus planos eram levados por água abaixo e suas expectativas eram frustradas, obrigando-a a levar sua vida para novos caminhos. O momento em que os dois puderam ouvir um pigarro alto e claro vindo de algum lugar atrás das costas de , quebrou a bolha de insanidades em que os dois estavam presos, a bolha na qual ela poderia permanecer para sempre se lhe fosse permitido. Mas a vida sempre fora uma sacana com , e não seria agora que isso mudaria. afastou-se, o fogo nos olhos que antes indicava desejo passava gradualmente para a raiva a medida que ia virando-se para encarar aquele que havia arruinado seus planos pecadores. Mas pode vê-lo antes, e o arrepio gelado que se passou por sua espinha não poderia indicar nada além de um desfecho nada bom para aquela história. Damian encarava com os olhos verdes extremamente serenos, como se aquela fosse uma cena comum. Talvez realmente fosse, pensava, mas já isso também não importava. Tudo terminaria depois daquela noite. A postura de endireitou-se, os ombros tensos e os lábios crispados, como se houvesse ali algo muito pior do que um simples estraga-prazeres de postura relaxada e cabelos loiros e bagunçados, que segurava um bloco de pedidos alvo como a neve em mãos. Em nenhum momento seus olhos se dignaram a encarar o rosto de . Eles mantinham-se fixos em , o resto do rosto sem expressão, sem sequer uma pista do que se passava no interior de sua mente.
- Senhor – a voz macia de Damian começou, o sobrenome sendo frisado com algo que não sabia dizer ao certo se era desdém ou falta de interesse, tão diferente do respeito que todos os outros presentes pareciam depositar no garoto – Acho que conhece nossas regras. Se pretende dormir com suas acompanhantes, há um motel na saída da cidade. Mas o senhor deve conhecê-lo muito bem.
- As estúpidas regras. Certo, O’Hare. Obrigado por nos relembrá-las – O sobrenome de Damian na voz de também possuía uma carga diferente do normal. Um nojo e um desprezo que ela nunca o vira usar antes com qualquer um, por maior que fosse seu sentimento de superioridade. Havia entre os dois algum assunto mal-resolvido, alguma pendência passada ou simplesmente uma briga imatura. Mas algo existia, podia notar, tão evidente quanto o cheiro de cerveja derramada no chão. – Mas não se preocupe. Não macularemos seu precioso pub. Já estamos de saída. – Os olhos se viraram para a garota, um tanto mais calmos. Capturou seus lábios por um instante, sussurrando as palavras logo em seguida – Vou pagar a conta. Fique aqui. E coloque a jaqueta, sim. Não quero ter que furar os olhos de nenhum desavisado.
Observou-o caminhar desconfortavelmente até o caixa, a animação de alguns minutos atrás parecia não ter deixado o corpo másculo de . Um pequeno sorriso ameaçou brotar em seus lábios, mas foi por um instante muito breve. Um instante suficiente para que ela encontrasse os olhos verdes de Damian encarando os seus , como se a julgasse por algum crime que ela não sabia que havia cometido. Recolocando a jaqueta de couro preguiçosamente, ela esperava receber o veredicto, a sentença final. A condenação a prisão perpétua parecia certa.
- Os boatos não são tão falsos afinal...A pequena Dawson é realmente uma vagabunda que passa as noites se esfregando em cafajestes que lhe paguem bebidas. – as palavras duras lhe atingiram como adagas afiadas. Apesar de ser exatamente aquela imagem que havia levado tanto tempo para construir, ouvi-las saindo da boca pálida de Damian havia sido a pior coisa que já lhe acontecera. Porque aquele garçom que se disfarçava de emo deprimido para sobreviver ao ensino médio era alguém que a garota considerava ser diferente. Alguém um pouco como ela. Alguém que, talvez um dia, ela pudesse gostar de verdade. Aquilo era a parte que mais doía.
- Você não sabe nada sobre mim, Damian. Nada além do meu nome e do que as más línguas dizem por ai. Assim como eu não sei nada sobre você. Já ouvi muitas histórias, mas não te julgo pelas merdas que os outros inventam de você. – as palavras saíram voando de sua boca, sem filtro algum. Não precisavam passar por uma seleção mental quando eram nada além da verdade. Levantando-se da mesa num pulo para ficar frente a frente com o garoto alguns palmos mais altos que ela, ela finalizou – Agora me de licença. Há alguém esperando por mim.
- – seu pulso fino foi agarrado com força pela mão áspera e gelada de Damian, que com um pequeno puxão trouxe-a para frente dele novamente. Os olhos verdes pareciam imersos em confusão, e seu lábio inferior estava preso pelos dentes brancos. Ele suspirou longamente uma última vez – Desculpe-me. Desculpe-me. Não deveria ter sido tão rude com você. Mas é que, vê-lo com ele – Damian apontou a cabeça na direção de , que conversava animadamente com um punk qualquer de cabelos espetados e roxos, e tatuagens de estrelas por todo o rosto – Eu fico preocupado, de verdade. Por favor, tome cuidado. Não quero vê-la machucada.
- Por quê? – seus olhos procuravam respostas na expressão realmente perturbada do garoto, o coração acelerado com a possibilidade da revelação que ele lhe faria a seguir. Mas Damian somente balançou a cabeça em negação, voltando a olhar para o lugar onde estava parado.
- Aqui não. Procure-me no intervalo, embaixo das arquibancadas da antiga quadra de basquete. Ele está vindo. Por favor, tome cuidado.
podia sentir a proximidade de , e Damian se afastando a suas costas. Sua cabeça estava cheia, de perguntas, de desejos, de devaneios que o álcool ainda lhe provocava. Mesmo com todos os avisos de Damian, ela não pode deixar de grudar seus lábios nos de quando ele se aproximou, e rir tranquilamente depois disso. Como se tudo fosse uma grande despedida, ensaiada nos mínimos detalhes, mas mesmo assim sem um SCRIPT definido. O sorriso irônico presente novamente lhe deixaria com saudades. Mas era melhor para sua sanidade que se afastasse para sempre.
- Pra onde, agora? – Ela perguntou quando puxou-lhe pela cintura, encaminhando-os para fora do pub ainda lotado. pode notar que estavam a poucas horas do amanhecer, pelo tom claro de azul que o céu noturno adquirira. A brisa era agradável após as ondas de calor extremo que ela presenciara, e, aninhada ao corpo de , tudo parecia fazer sentido. - Casa. Você já aprontou demais por hoje.
- Ah! Não é justo! – ria sozinha, como uma boba qualquer que se esquecera de tomar seus remédios controlados ou que tivesse fugido do manicômio mais próximo- Como se você não tivesse aprontado.
- Mas quem dita as regras aqui sou eu, mocinha. Vamos, suba na moto – um riso disfarçado de autoridade passou por sua voz, cada pequena cena da garota o divertindo profundamente. Ao contrário da ida conturbada, agora ela abraçava fortemente sua cintura, o nariz passeando por seu pescoço como se tentasse gravar cada nota de seu perfume.
- Vamos logo, coroinha. Eu preciso de um pouco de adrenalina nas veias.
Jogando seus braços para o alto na partida, ela gritou com toda a força de seus pulmões para o resto de noite que os abandonava, o vento acariciando-lhe o rosto. Depositando um selinho na nuca do garoto, ela sorriu uma última vez, deixando-se levar pelos embalos do motor e pela esperança vazia de que aquela seria a última vez que sucumbiria a . As estrelas os guardavam, a lua lhes dando resguardo por todo o caminho, como se fosse somente mais uma espectadora fiel, ansiosa por saber como o destino afinal daria conta daquela estranha conexão entre o filho do pastor que escondia tantos segredos quanto a não tão pequena órfã rebelde. Mas em meio a tantas máscaras, talvez nem o destino mais soubesse o que fazer.

. * I can’t get no satisfaction é um trecho da clássica Satisfaction, dos Rolling Stones: Eu não consigo ficar satisfeito

Capítulo 9 – Jesus of Suburbia

A cortina de algodão cor de creme tinha um toque tão macio quando percorrida pela mão morna e pálida de uma garota de longos cabelos e olhos intimidadores. Ela fazia seu caminho pelo quarto bagunçado, os coturnos negros como a noite maltratando o assoalho e tropeçando pelas bordas do tapete cheio de manchas de café. Um par de olhos brilhantes observava seu trajeto solitário, um sorriso discreto em seus lábios e o corpo estirado no pequeno sofá de couro negro. O silêncio era quebrado momentaneamente por bufos descontrolados e suspiros entrecortados vindos da nervosa órfã que não conseguia parar de mover suas mãos por seus cabelos, e risadas baixas e claras de seu melhor amigo, visivelmente divertindo-se com toda a situação.
- Cale a boca.
- Eu não disse nada! – defendia-se, os olhos ainda presos a ela, que ainda não conseguia controlar o nervosismo e a angústia evidentes. tentava colocar a saia azul marinho no lugar, a blusa de botões branca já amassada de tantas vezes que ela se abraçava em busca de conforto. Mas nada parecia trazer um pouco de paz naquela manhã cinzenta de sábado. -Mas você pensou.
- Ok, venha cá – Não foi necessário mais do que um pulo do pequeno sofá e um ou dois passos para que se colocasse atrás de , umas das mãos grandes e finas abraçando a cintura da garota, a outra entrelaçada a pequena mão macia e totalmente fria. Com o queixo apoiado no ombro dela, ele conseguia sentir o perfume de morango que emanava de seus cabelos bem cuidados. Chegava a ser cômico, a garota escondida atrás de sua pose de durona, mas que tinha paixão por cada fio de cabelo comprido.
- Só me leve embora daqui. Eu estou tão cansada, . Você nem imagina o quanto – brincava com a barra da manga do casaco xadrez do garoto, sua cabeça pesada por idéias errôneas e vontades avassaladoras que tomavam conta de cada célula de seu corpo. A janela do segundo andar nunca lhe parecera tão brilhante e convidativa quanto naquele momento –E ela...essa maldita mulher só piora toda a situação. Por que ela não consegue me deixar em paz?
- Esma só quer o seu bem. Na cabeça dela, essa vida e as decisões que ela toma são o melhor pra você, .
- Não. Essas decisões de merda eram o melhor para aquela maldita. Eu não sou ela, . Que inferno, eu não sou ela. – Sua voz não passava de um sussurro quando o amigo a puxou para mais perto, apertando seu corpo contra o dele, confortando-a como podia – Sabe, às vezes eu penso... Se não seria melhor se eu também estivesse naquele carro. Aquele carro que levou os dois desgraçados que me colocaram nesse mundo de merda para debaixo da terra.
- Chega. Chega de drama. Cale a boca, . Eu não estou brincando – Ele a repreendia, a voz um tanto rude e os olhos estreitos como fendas – Vamos lá, toda essa chateação só porque Esma está te obrigando a ir à igreja com eles?
- Não fale assim comigo, porra. Você sabe que não é só por isso. São tantos anos engolindo em seco cada vez que ela tenta me mudar, que tenta me colocar num pedestal. Cada critica escondida e cada tentativa mascarada de me fazer ser uma pessoa diferente. – ela riu seca, sentindo a textura da mão do melhor amigo, tentando absorver um pouco de seu calor – A minha vida toda é uma grande piada, não é ? Uma piada totalmente sem graça.
- Sua vida só está começando, . Nossas vidas ainda precisam inventar muitas peças para nos abalar. Você não pode desistir agora.
- Eu não sei se ainda tenho forças. E ainda há o desgraçado do para piorar a minha vida...
- Shh, já tivemos essa conversa – sussurrava calmamente em seu ouvido, como se fosse somente outra canção de ninar de seus tempos de orfanato – A noite de ontem foi um deslize, . Nós vamos mantê-lo longe de você. Chega de mistérios. Mistérios só trazem mais dor, dor e infelicidade, e você não precisa disso agora. Você precisa de um pouco de sol nos seus dias nublados, meu bem. Você é forte. Você pode mandá-lo embora a hora que quiser.
- Quando eu era pequenininha – ela girou seus calcanhares, ficando frente a frente com o garoto, a cabeça repousada em seu peito enquanto ele a abraçava o mais fortemente que conseguia, o cheiro de loção pós-barba entrando sem permissão pelas narinas da garota, sua voz nada mais do que um sussurro – Eu prometi a mim mesma que nada me faria chorar novamente. Que ninguém era digno das minhas lágrimas. Eles me desarmaram, . Roubaram minha armadura, me deixaram nua, insegura e indefesa frente ao inimigo. Mas é hora de voltar a lutar, não? Hora de voltar ao campo de batalha.
- Exatamente. E eu vou estar aqui, amor. Vou estar aqui a cada minuto que você precisar de mim – um leve beijo foi depositado na testa fria da garota que tentava se prender cada vez mais a segurança de . Eram naqueles momentos em que ela podia ser quem ela realmente era que tudo parecia tão fácil. Tão certo. Ali, a vida não parecia uma vadia sem coração disposta a foder cada minuto em que seu coração bombeava sangue. Ali, só parecia que a garota havia feito todos os caminhos errados, as escolhas erradas, e agora era a oportunidade perfeita de corrigi-las - Eu vou te colocar de pé, empurrar-te para frente e te consolar até a minha última respiração entrecortada, . Eu me prometi isso no dia em que te conheci. E essa promessa eu vou levar até o fim.
O silêncio cúmplice demonstrava que cada um compreendia todas as coisas implícitas ali, cada uma delas, separadas e unidas intimamente. E palavras não eram necessárias, eram tolas e dispensáveis como copos plásticos no final de um festival. Ela não ser permitiria chorar, nem que fosse aos braços de e por uma única vez. Não. Aquela era a única parte dela que ainda não fora corrompida por forças externas. Ela poderia ter somente se aninhado em seu colo e deixado que o garoto cantasse para que ela dormisse, exatamente como era no antigo orfanato ao qual pertenciam, não fosse a estridente voz de Esma no corredor, e logo após sua silhueta desenhada num tailleur creme de botões azuis petróleo, os fios de cabelo ruivos presos num coque elegante e os lábios pintados de carmim. Seu sorriso tremeu ligeiramente ao ver a filha adotiva abraçada ao protegido dos Kallister, como se aquele órfão desajeitado não fosse suficiente para tomar conta de sua preciosidade. Mas sua voz era doce e seus olhos brilhavam novamente as primeiras palavras gentis soltas rapidamente.
- , querida, está na hora. Você pode se juntar a nós se quiser, . Seria ótimo.
- Agradeço o convite, senhora Dawson, mas, como a senhora sabe, minha família é judia, e meus pais devem estar me esperando para visitarmos meus avós nesse exato momento – a voz de era calma enquanto ele se soltava de sua melhor amiga, uma mão ainda entrelaçada na dela mesmo a distância. Sorrindo como se para encorajá-la, ele voltou-se a matriarca dos Dawson mais uma vez – Espero que tenham um bom dia, senhora. Nos vemos depois, . – um beijo leve nas costas da mão da garota e um sorriso leve ao passar por sua mãe adotiva marcaram a despedida de . Agora ela se sentia um tanto deprimida, um tanto sozinha. Mas a tentativa de simpatia desmedida de Esma a fez colocar sua máscara de rebelde novamente. Passando pela mulher sem dizer nada, a garota desceu os degraus um por um, se sentindo somente um pouco melhor pelo sorriso que Rick lhe abrira de sua poltrona vermelha.
- Estou me sentindo culpado.
- Não sinta. Eu sei que não é sua culpa – ela sentou-se no apoio de braço da poltrona, os olhos pousados no tapete marrom que cobria o delicado assoalho, a mente perdida pela análise das diferenças entre Esma e Rick. nunca havia parado para pensar em como os dois se conheceram, porque se casaram e se eram felizes juntos. Pelo conjunto da obra que presenciava todos os dias, tinha quase certeza de que aquele era um caso explicito de ‘os opostos se atraem’. Talvez algum dia ela perguntasse para o patriarca, mas aquele não era o momento.
- comentou que você não estava muito bem. Quer conversar sobre isso? – os olhos cor de avelã de Rick expressavam uma preocupação tão genuína e palpável que fora impossível para não abrir um pequeno sorriso.
- precisa aprender a calar a boca se quiser sobreviver. Eu vou ficar bem. Só quero que isso termine logo.
Foi somente um pequeno instante depois que Esma pisou no último degrau, os olhos atentos as duas pessoas na sala. Com seu melhor sorriso doce ensaiado esperou o marido levantar-se num pulo sem dizer uma palavra sequer. Agarrou-lhe o braço esquerdo com força, como se pedisse alguma ajuda. Rick somente beijou-lhe a mão, oferecendo o outro braço para a pequena falsa rebelde, como se pedisse, somente por aquela manhã, uma trégua. Uma bandeira branca no meio da guerra.
O silêncio reinou por boa parte do caminho no Audi vermelho. A voz de John Mayer saia alta pelas caixas de som do radio do carro. Rick balançava a cabeça, como se acompanhasse a balada romântica tão imprópria para a ocasião. Pousou os olhos cor de avelã em pelo retrovisor, a culpa ainda os embaçando. A garota mordia o lábio inferior, o pensamento voando longe, o olhar fixo num ponto qualquer da poltrona de Esma.
- , meu bem, você tem certeza que vai se sentir confortável?- a voz de Ricky soou alta e confiante acima da música, como se não passasse de um comentário qualquer sobre o tempo ou as noticias do dia- Sabemos de suas convicções. Ainda dá tempo de voltar e te deixar em casa.
- Não – a voz de Esma foi alta e clara em meio ao silêncio momentâneo que se instaurou – Somos uma família. Precisamos agir como uma família. É o que somos, não? Uma família. – o nervosismo em cada nota aguda que passava por suas cordas vocais era claro como água. Suas mãos estrangulando a pequena bolsa vermelha que carregava em seu colo só contribuíam para aquela imagem.
- Mas não podemos obrigar a participar de algo no qual ela não acredita, Esma. Nós tivemos essa conversa anos atrás. Não é justo. Não é correto. – as mãos longas dele apertavam o volante com intensidade, a reprovação pelas atitudes da mulher estampada em seu rosto.
- Nem tudo na vida é, Rick. Todos têm que ceder em alguma coisa. não vai morrer com um pouco de luz e desejos de amor e paz. Vai ser bom pra ela. Bom para a família.
- Mas...
- Sem mais. Veja, chegamos. Um sorriso, por favor.
piscou os olhos para Rick, um pequeno sorriso amarelo surgindo em seu rosto, pedindo para que ele não se preocupasse. Era somente mais uma prova de fogo, uma das muitas a que ela já havia tido durante sua curta vida. Demorou-se um pouco ao sair do carro, batendo a porta com força suficiente para descarregar cada frustração que se passava por seu cérebro tão complicado naquele momento.
A luz do dia, a igreja já não era tão arrepiante quanto a noite. O portão enferrujado estava aberto, convidando cada cidadão a se aventurar pela grama verde e macia do pátio, e o sol batia alegremente nas paredes de pedra rústica. Metade da cidade comparecera ao culto, com seus cabelos arrumados, grandes chapéus coloridos e roupas elegantes. A garota se perguntava se aquele era algum tipo de desfile de moda, uma demonstração de poder, uma ostentação de riquezas. Ou talvez fosse só um show de horrores. Caminhando atrás dos pais adotivos, sentiu um arrepio passar rapidamente por sua espinha quando adentrou a fria construção. Os bancos compridos e marrons ocupavam a maior parte do lugar. A frente um homem alto, de cabelos grisalhos curtos e olhos profundos e extremamente . As rugas em torno dos olhos o faziam parecer mais velho do que realmente era. As mãos estavam juntas sob o paletó grafite que provavelmente era de alguma grife famosa, a camisa azul destacando-se no conjunto final. O olhar tinha um que de bondade programada e uma intensidade assustadora, e o sorriso tranqüilo transmitia sinceridade. O pastor era ao mesmo tempo tão igual e tão diferente de seu filho.
Esma e Rick caminhavam rapidamente pelo corredor um tanto estreito da igreja, os braços dados e os passos elegantes sob o tapete longo e vermelho. A única coisa que temia naquele momento era a exposição pública e desnecessária que ela sofreria se os planos de seus pais adotivos fossem seguir em frente e cumprimentar o pastor. Mas o alívio de vê-los entrando discretamente na segunda fileira de bancos durou somente o tempo do choque da cena seguinte se desdobrar diante de seus olhos . Uma mulher alta, de cabelos negros como a noite curtos e repicados e lábios voluptuosos e vermelhos, assim como as maçãs do rosto salientes , levantou-se para abraçar Esma com carinho. Do alto de seu vestido azul petróleo os olhos cinzas carregavam um olhar felino, os lábios curvados num sorriso encantadoramente misterioso. Duas características que a garota conhecia muito bem, apesar de nunca ter visto a mulher graciosamente perigosa antes.
Mas quando Rick beijou sua mão longa e pálida e deixou os olhos deslizarem pelo resto da fileira silenciosa as coisas se tornaram muito mais claras. Os cachos loiros de Angelina balançavam alegremente enquanto ela conversava com alguma patricinha da fila da frente, os olhos cinzas brilhando de excitação com uma fofoca qualquer. E ao seu lado, imponente em seu blazer negro, e seus olhos provocadores lhe sorriam convidativos. Aquilo seria muito pior do que ela jamais imaginara. Pior do que os olhos inquisidores da sra. presos nos dela quando Esma e Rick se acomodaram, deixando o caminho livre para e a ponta de insegurança que se plantara com força em seu coração. Mas a esposa do pastor lhe sorriu ternamente, puxando-a para um abraço firme e delicado, a voz doce e marcante soltando as palavras com a calma de um dia de verão.
- A pequena Dawson. É tão gratificante finalmente conhecê-la, querida. Só tenho ouvido bons comentários sobre você.
- Ahn... – Se não fosse o fato de a mulher ter dito seu nome ela com certeza diria que ela havia se enganado redondamente de pessoa. Bons comentários a respeito dela? A última coisa que possuía era uma boa imagem ou admiração dos moradores daquela pequena cidade. Mas havia aquela sensação, a mesma que ela sentia quando junto a , de que aquela mulher tão imponente sabia muito mais do que transparecia. E um alerta vermelho brilhante em seu cérebro parecia gritar: ‘perigo’. – É um prazer conhecê-la, senhora .
- Você pode me chamar de Angel, meu bem. Há um lugar para você ao lado de – ela apontou distraidamente o filho mais velho – O culto já vai começar.
Mordendo o lábio inferior nervosamente, a garota espremeu-se no pequeno corredor até o lugar que Angel havia lhe indicado, os pensamentos a mil. Encarar tão próximo quando havia jurado que não cairia mais em suas tentações era como o seu teste final, o primeiro passo para uma nova realidade. Mas o garoto parecia não notar sua proximidade, ou melhor, fingia perfeitamente que não notava, os olhos presos em uma página qualquer de sua Bíblia já gasta. Talvez aquilo não fosse tão difícil afinal, iludia-se. Distraidamente, ela observava Esma conversar com Angel e Angelina, enquanto Rick tentava achar algo em seu livro de canções. A igreja ia enchendo aos poucos, o pastor sorridente cumprimentava seus fiéis. Era notável todo o respeito e admiração que os cidadãos tinham por ele, como se aquele homem realmente fosse divino.
Seus olhos começavam a ficar pesados com a falta de entretenimento notável daquele lugar. Toda a paz que Esma desejava que ela absorvesse estava ali, afinal, transformando-se em uma carga de sono excepcional. Talvez realmente tivesse cochilado discretamente no frio banco de madeira, não fosse o toque quente de uma mão forte deslizando por sua coxa firme descoberta. Um arrepio atravessou sua espinha, fazendo-a engolir em seco e manter seus olhos em alerta. Seu coração vibrava, mas seu cérebro a obrigava a tomar algum tipo de atitude. pressionava sua pele, desenhando pequenos círculos e se aproximando cada vez mais da garota, que permanecia estática, como se aquilo fosse desmotivá-lo ou algo do tipo. Mas no fundo, no fundo ela sabia que não iria.
- Bom dia – o pastor anunciou em sua voz grave, passional – Que as graças do Senhor estejam conosco nessa manhã abençoada. Levantem-se, por favor.
suspirou aliviada no momento em que separou-se dela, colocando-se em pé para que algum tipo de louvor aos céus fosse feito. Ela não queria ouvir nenhuma palavra do que o pai de tinha a dizer. Não havia Deus nenhum olhando por ela. Não havia ninguém olhando por ela.
O barulho dos fiéis voltando aos seus bancos encheu a pequena igreja, cada um prestando o máximo de atenção nos pequenos momentos de reflexão que o pastor lhes propiciava. A garota já havia se acostumado com o silêncio incomum vindo de e com seus toques insolentemente provocadores, por isso o pequeno gesto carinhoso vindo do garoto nos momentos seguintes lhe deixou realmente surpresa e intrigada. O modo com ele havia deslizado uma de suas mãos diretamente para segurar uma das dela com uma delicadeza admirável, o polegar desenhando círculos sobre sua palma macia. Foi um tanto quanto impossível não olhar na imensidão que eram seus olhos naquele instante, um sorriso de canto se formando nos lábios pecadores.
- Isso não é algo que você vai ouvir de mim com freqüência – ele sussurrou, prendendo a atenção da garota por mais um tempo – Mas eu estou genuinamente feliz pela sua presença aqui hoje.
- Por quê? – E lá ia ela de novo, deixar-se envolver por seus mistérios e seus jogos de palavras.
- Você imagina o quanto é difícil ter que estar aqui todos os dias e fingir que você está interessado? Como é uma merda ouvir toda essa gente perguntando quando meu pai vai se aposentar e quando vou assumir o lugar dele? Ter que repetir coros de aleluia e rezas enquanto eu queria estar fazendo qualquer outra coisa no mundo?
- Achei que não se importasse – ela observava suas mãos juntas meio impressionada com a perfeição com a qual se encaixavam. O contraste de temperaturas tão agradável. Aquela era mais uma maldita peça que seus olhos gostavam de lhe pregar, motivados por uma parte oculta de seu cérebro que apreciava cada fração de seu estranho convívio com .
- Não me importo. Só estou de saco cheio. Estou com medo de um dia explodir uma bomba aqui no meio num momento de fúria – ele riu, sem humor, os olhos fixos em seu pai enquanto soltava as palavras levemente – Mas de algum modo você me acalma. Eu não tenho tantas tendências homicidas com você por perto. É um motivo para agüentar até o final.
- Merda, – ela resmungou, seu cérebro havia levado um nó de escoteiro, impossível de ser aberto – Eu não consigo te entender. E isso me deixa louca.
- É essa a intenção – o sorriso irônico estava de volta ao lugar que pertencia, uma sombra do que ela conhecia passando por seu rosto – Você não precisa entender nada.
- Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine – a voz do pastor se sobressaia naquele momento, e algo a obrigou a ouvir aquele pequeno trecho. bufou ao ouvir aquelas palavras, mas silenciou por um instante - E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, eu nada seria. Ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é paciente, é benigno; o amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo tolera, tudo crê, tudo espera e tudo suporta. O amor nunca falha. Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor. – ele continuara sorrindo. Era algo bonito na teoria, pensara. Mas ela tinha chegado até ali sem o amor verdadeiro, não? E ela com certeza era alguma coisa. Uma fagulha, uma centelha. Ela iria até o fim, iria sozinha, contra todas as teorias possíveis. Mas a conversa com ainda a assombrava.
- Corintios 13* – resmungou – ele gosta desse. Sempre dedica para minha mãe.
- Eu não conheço – respondeu vagamente – Não acredito em Deus, . Não é algo que faça sentido pra mim.
- Mesmo? – ele pareceu surpreso- Isso só torna tudo mais interessante. Meu Deus, tudo se torna melhor a cada instante – ele apertou sua mão – Estou feliz que está aqui por que você é minha distração favorita, . É meu pequeno escape para a perdição que eu tanto aprecio no meio de toda essa pureza e amor. É divertido, excitante e perigoso, você não acha?
- Não. Não acho. Isso tudo precisa acabar, . Agora.
- O que, o culto? – ele se fazia de desentendido, ela podia notar – Já está quase no fim, atéia. Espere um pouquinho mais.
- Você sabe do que estou falando. Disso – ela levantou um pouco as mãos juntas, os olhos presos nelas – Essa coisa estranha que eu não faço a minima ideia do que é, mas que está me deixando louca. Acabou, .
Ela pode ouvir uma risada genuina vindo da direção dele, como se ela acabasse de contar uma piada realmente engraçada. Mas a resposta ficaria para depois que o pastor finalizasse seus pedidos de glória. Finalizando com um ‘muito obrigado’ e um desejo de paz a cada um presente ali, ele sorriu, atendendo alguns fiéis que pediam bençãos especificas. só queria ir embora o mais rápido possível.
- , , Angelina, meus queridos, por que não vão indo lá pra fora enquanto esperamos o pastor aqui? – Esma parecia radiante – Encontraremos vocês daqui a pouco. concordou, oferecendo o braço para num gesto de cavalheirismo que arrancou suspiros de Angel e Esma. Ela sabia que aquilo era proposital, para deixa-lá mais irritada do que o normal. Mas aceitar não deixava de ser uma provocação, afinal. Angelina passou a frente dos dois, indo encontrar-se com alguns amigos que já estavam parados na porta.
- Você sabe que não vai ter fim, – ele sussurrou discretamente ao seu ouvido.
- Quando um não quer, dois não brigam.
- Exatamente. Esse é o problema. Você sabe que nós dois sabemos o que queremos.
- Eu quero que isso termine.
- Não. Você finge que quer isso. Pra parecer forte, pra não parecer submissa, para não deixar-se envolver, porque você não suporta a ideia de ser mais fraca. Admita, . Você está tão viciada em mim que faria qualquer coisa para ficar mais perto. É hora de parar de fazer doce.
O sol os acertou em cheio quando sairam do lugar. Caminhavam pelo gramado com aquela conversa tão estranha, não dando muita importancia para quem estava ao redor, presos a bolha de tensão que todas aquelas evidências lhes traziam.
- Você está errado.
- Prove.
Os olhos pareciam queima-la com a iluminação intensa do sol naquela parte do pátio da igreja, os dois frente a frente, desafiando-se. As palavras haviam sumido de sua boca, escorrido de volta por sua garganta e sumindo em algum lugar de seu corpo. O modo como ele lhe envolvia com palavras, como moldava seu cérebro a suas vontades era a coisa mais doentia que ela já havia presenciado.
- Você é simplesmente o ser humano mais prepotente, egocêntrico e mimado que eu já tive o desprazer de conhecer, – foi tudo que ela conseguiu soltar, bufando pela ineficiencia de cada palavra.
- E você está sendo infantil porque sabe que estou certo. Bingo.
- Vá para o inferno, – suas mãos estavam fechadas em punhos, a irritação tomando cada pequeno pedaço de seu corpo jovem. Uma faca teria sido de extrema utilidade naquela hora.
riu novamente, dessa vez alto e claro para que qualquer um pudesse escutar. Mas em sua falsa bipolaridade, em um minuto já estava sério novamente, maquinando algum plano diabólico em seu cérebro perversamente genial.
- Você quer ter o poder de escolher não, é? Um ‘livre arbitrio’, já que você alega que eu estou lhe privando disso – ele sorria malicioso, os olhos em chamas – Então você o terá, . Estarei te esperando, a meia-noite. Você sabe onde me encontrar. Vamos sair comemorar meu aniversário. Você será meu presente perfeito, novo, brilhante, e extremamente delicioso. Eu esperarei, e entenderei caso você não apareça. Mas – ele olhou para o céu, fingindo estar pensativo – os ventos me dizem que você vai aparecer.
- Você está fazendo besteira. Está assinando sua sentença de morte. Vai se arrepender de sua insolência.
- Uh, mas eu não tenho medo. Diferentemente de você, , eu gosto de pagar pra ver.
beijou-lhe a bochecha delicadamente, rindo baixo em seu ouvido antes de afastar-se em direção a um grupo de beatas. Com o cérebro cheio de informações confusas novamente, o observava a distância, tentando pela primeira vez, agir como seu tão odiado colega. Um plano diabólico de dominação estava prestes a ser formado.

*Jesus of Suburbia é uma canção ÉPICA do Green Day, uma das minhas favoritas deles, sobre um certo Jesus do subúrbio
*Coríntios 13 : Coríntios é como é conhecida a primeira epístola de S. Paulo à igreja em Corinto. É nesta carta que é encontrada a famosa passagem sobre a importância do amor genuíno, no capítulo 13. Por isso, Coríntios é considerada uma das epístolas mais poéticas do "Apostolo dos Gentios" como Paulo de Tarso chegou a ser chamado.

Capítulo 10 – Who gets the last laugh now?

O bater do coração aflito casava perfeitamente com cada nota que o baterista de uma antiga banda de rock produzia. Havia um vazio que apertava sua garganta, um nervosismo que corroia cada célula de seu corpo. O vento frio que entrava pela única fresta da única janela não parecia capaz de varrer aquela preocupação iminente que pairava como uma nuvem negra sob sua cabeça. Mas ela não deveria estar ali. No seu rosto jovem predominava uma ensaiada confiança excessiva, como se cada letra daquela canção poderosa que ouvia houvesse penetrado em sua pele e lhe dado força para erguer seu nariz no ar e agir como a vadia que gostava de fingir que era. Escolhas eram complicadas como equações químicas, com a diferença de que não havia resposta certa ou errada. Havia só a chance de transformar uma decisão errada em algo menos pior do que parecia. Escolhas eram como a Hidra* enfrentada por Hércules: a cada uma que era resolvida, duas novas surgiam em seu lugar. sabia muito bem daquilo. Havia escolhido seguir adiante com a insanidade que era conviver com . Havia escolhido dar-se a chance de ver como aquela história terminaria. Não havia certo ou errado. Só havia muitas chances de ela quebrar a cara e infinitos modos de matar o filho do pastor passando por sua cabeça.
Os sapatos de salto eram extremamente altos. O vestido tomara-que-caia era azul como a noite, e curto demais para os padrões de qualquer uma das senhoras que havia estado no culto naquela manhã. Os lábios estavam pintados de vermelho-sangue, como sempre. Aquilo era uma mania que ela nunca perderia. Os olhos destacados por lápis preto e milhares de camadas de mascara para cílios. Os cabelos caiam lisos quase até sua cintura. A imagem refletida no espelho do quarto psicodélico de era exatamente o que ela queria naquela noite: algo que deixasse enlouquecido ao ponto de fazer qualquer coisa por ela. A intenção era boa, mas no fundo ela sabia que estava sendo inocente. O garoto era estúpido demais para demonstrar emoções desse tipo.
O quarto de era o espaço mais bizarro em que já havia pisado. As paredes eram de um colorido frenético, como se tintas de várias cores tivessem sido simplesmente jogadas a esmo na base branca. Havia milhares de luzinhas piscantes de Natal por todos os lados, e a bagunça de livros sobrenaturais em cima de um tapete azul felpudo era imensa. A cama de dossel branca havia sido decorada com frases em línguas as quais a garota nem sabia que existiam. Havia um armário antigo a um canto, com uma manta de crochê da mãe de Linda sob o móvel. A porta do banheiro era a única parte do quarto que não havia sido personalizada, assim como o espelho de corpo inteiro no qual se admirava agora. A amiga estava jogada na cama, fazendo um tipo de meditação marciana qualquer que só deixava ainda mais nervosa.
Dormir na casa dos gêmeos havia sido uma estratégia para passar a noite fora mais confortavelmente. Não que ela não conseguisse fazer isso em sua própria casa: era até mais fácil do que parecia. Mas ela sabia que tinha lábia suficiente para convencer a todos que as duas passaram a noite assistindo comédias românticas e tinha o guarda-roupa certo para que ela pudesse tomar emprestado um visual que fosse satisfatoriamente sexy e inocente ao mesmo tempo. E ela se sentiria mais tranqüila sabendo que teria alguém esperando por ela na manhã seguinte. Com a caixinha-de-surpresas-, era sempre bom ficar com um pé atrás.O que havia ali era uma atração carnal, uma obsessão cega misturada a um poço de curiosidade e desafio de ambas as partes. Havia fogo entre e . Se um dia chegaria a amor, ela não saberia dizer. Mas ela possuía o tipo de coração que adorava pregar-lhe peças. ‘Nunca’ não era uma palavra que sairia de sua boca.
O relógio apontava os vinte minutos que restavam para a meia-noite. Era hora de esperá-lo na frente da igreja. Sempre o mesmo ponto de encontro. Sempre a mesma jaqueta preta e larga que pertencia a sobre os ombros da garota. Era uma peça de roupa pela qual ela havia adquirido certo apego. Provavelmente o garoto nunca a teria de volta. Olhando-se mais uma vez no espelho, ela piscou para uma sorridente em posição de lótus e mãos juntas sobre o coração. Sua própria maneira de dizer ‘Boa sorte, meu bem’. Sorte não poderia ser uma variante qualquer. Ela deveria ser o x da questão.
Ao lado da janela do quarto de havia uma antiga escada de incêndio, entulhada por um telescópio gigante e milhares de projetos de mapas estelares e miniaturas de extraterrestres em biscuit. A escada parecia estar em bom estado, mas o problema eram os saltos que ela usava. Um passo em falso e poderia acabar com o pescoço quebrado. Não era uma maneira muito boa de começar a noite. Tirar os sapatos seria uma boa opção, não fosse à quantidade exorbitante de poeira que havia nos degraus. Respirando fundo mais uma vez, se aventurou, firmando os pés degrau por degrau, tentando não pensar em como uma queda do segundo andar seria dolorosa e como ela explicaria o que estava fazendo aquela hora e com aqueles sapatos naquele maldito lugar. Arrumando o vestido rapidamente quando saltou do degrau mais baixo, deu uma última olhada na casa dos Kallister. Em outros tempos seria só mais uma noite de diversão segura com os gêmeos. Agora, ela não tinha mais controle sobre o próprio destino.
Caminhar pelas ruas frias e escuras não era algo que estava no topo da lista da garota de ‘Coisas divertidas para se fazer num sábado à noite’. Noites traziam a ela sensações estranhas, como se estivesse sendo perseguida a cada minuto, como se cada policial nas esquinas na verdade fosse um marginal, um assassino pronto para levar embora sua juventude e dignidade. Sua garganta parecia se apertar cada vez mais, suas pernas tremiam ligeiramente a cada novo passo. Se o mundo era um lugar perigoso, as pessoas que nele habitavam conseguiam ser mais terríveis ainda. Elas não tinham piedade alguma, não se importavam com nada além delas mesmas. procurava andar o mais rápido possível, cabeça baixa e lábios comprimidos numa linha fina. Deveria ter pedido para ir buscá-la diretamente na casa dos Kallister, mas além de não cogitar a possibilidade de se humilhar diante dele daquele modo, não possuía nem ao menos o número de telefone do garoto. Era uma situação irônica. Não podia ficar cinco minutos no mesmo cômodo que sem que uma vontade louca de jogar-se em cima dele surgisse em seu intimo, mas sabia pouquíssimo sobre ele. Enquanto ele parecia saber mais sobre ela do que ela gostaria que qualquer pessoa em todo o universo soubesse.
Pela primeira vez já estava a sua espera quando ela subiu da rua para a dura calçada de pedra que fazia seus sapatos tilintarem irritantemente. procurou estampar em seu rosto seu melhor sorriso zombeteiro, juntamente com o nariz empinado e as mãos geladas nos bolsos da jaqueta. Ele estava encostado despreocupadamente em um poste iluminado, pernas cruzadas, um cigarro quase no fim preso aos lábios, o olhar vago, despreocupado. Usava uma camisa xadrez azul por cima de uma camiseta branca justa e uma jaqueta de couro que ainda não conhecia. Os jeans eram claros e surrados e ela conseguia ver marcas de cigarros por sua extensão. Tragando o cigarro uma última vez antes de jogá-lo na rua, ele analisou-a de cima a baixo, uma fagulha de desejo estampada nos olhos . Estendeu-lhe a mão direita, uma atitude muito estranha vinda do garoto que gostava de puxá-la sem aviso prévio para todos os lugares. Ela hesitou por um segundo antes de entrelaçar os dedos gelados nos dele, tão quentes. Pela primeira vez ele deixou-a aproximar-se lentamente, não forçando nada, não impondo nada. Havia uma certa confusão nos olhos da garota quando ela finalmente deixou seu corpo grudar-se no dele, num encaixe perfeito. Ele passou a mão pelos fios macios do cabelo dela, deslizando-a até que a mesma chegasse a sua cintura. Encaixando o rosto no espaço livre do pescoço dela, depositou leves beijos sobre a pele perfumada até deixar a boca próxima de seu ouvido.
- Strike . Bingo. Gol. – mordeu o lóbulo de sua orelha, fazendo com que arrepios se espalhassem por todo o corpo frio da garota – Você decide. Mas não pode negar que eu estou ganhando, disparado. – ele riu- Se eu tivesse apostado alguma coisa, aposto que teria ganhado. Bom vê-la aqui, .
resmungou, cravando as unhas compridas no pescoço descoberto do garoto, uma forma que ela encontrou de repreendê-lo pela arrogância sempre presente e de manter-se quieta. Ela iria deixar que ele se vangloriasse, ver até onde chegaria. Mas o efeito não foi o desejado. Em vez de soltá-la e massagear o pescoço pela dor, ele só fizera prendê-la mais fortemente junto a ele, os lábios passeando por todo pedaço de pele que ele conseguia alcançar, antes de chegar ao seu maxilar empinado e alcançar os lábios cheios e macios da garota, sugando-os com uma vontade extraordinária. As pernas de tremiam, e ela se apoiava na ponta dos saltos finos para tentar manter a maior proximidade possível entre os dois. Partindo os lábios rapidamente, ela esperava a língua quente e macia de invadir sua boca, mas isso não aconteceu. Num riso baixo, ele mordeu o lábio inferior da garota e os separou sem dó nem piedade, puxando-a pela mão até a Harley-Davidson vermelha parada ao lado do meio-fio alguns passos atrás dos dois. bufou, desgostosa. Esse era o tipo de coisa que ele gostava de fazer. Provocá-la o máximo para depois tirar o corpo fora. Idiota. Cruzou os braços enquanto ele ria ironicamente ao colocar um capacete preto na garota, segurando-o para olhar diretamente em seus grandes olhos .
- Apressada. Sempre apressada. Temos muito tempo pra nos divertimos juntos, meu bem. – soprava em seu rosto – A paciência é uma virtude que eu venho exercendo há muito tempo com você, não é? Sua vez de fazer o mesmo.
deu de ombros quando ele a soltou, como se não fizesse diferença. Mas fazia. Secretamente, ela queria pertencer a ele, deixar que ele a possuísse, que juntasse seus corpos e nunca os separasse. Afastou o pensamento. Tudo que ela precisava era um pouco de foco, ou acabaria se arrependendo depois. Montou na garupa da motocicleta vermelha, passando seus braços em volta do tronco de , esperando a já conhecida sensação de borboletas no estômago quando ele desse partida. Numa velocidade impressionante, os dois já estavam na estrada, aproveitando toda a adrenalina que o veículo de duas rodas podia proporcioná-los.

Era uma rua estranha, cheia de pessoas estranhas de cima a baixo. Havia poucas luzes iluminando-a, e música num volume caótico e desorientador. Só podia haver algum engano: aquela definitivamente não era a rua calma e amigável do Incantatem. Havia cheiro de cigarro e álcool por todos os lados, além de perfume barato e outras coisas que nem gostaria de imaginar. parecia familiarizado com o local, sorrindo de lado para algumas pessoas que lhe cumprimentavam discretamente. Levou-os até um pequeno estacionamento a céu aberto, deixando a Harley com um segurança muito calvo e gordo que o chamou de ‘Senhor ’. Com certeza ele era um freqüentador dali. E isso com certeza não a tranqüilizava.
Assim que saíram pelo portão enferrujado e sujo do estacionamento, tomou-lhe a mão direita possessivamente, entrelaçando os dedos de ambos. Seu cérebro preocupado gritava ‘perigo’ em letras garrafais, vermelhas e piscantes a cada novo passo na escuridão. Havia um vento ainda mais frio ali, como se o mundo tivesse se esquecido de fornecer um pouco de calor a aquela parte da cidade. Pessoas fumavam e riam em pequenos grupos, casais de todos os tipos se amassavam encostados nos muros pichados e havia restos de bebidas que a garota não reconhecia no chão. Toda vez que ela fazia menção de virar a cabeça para que seus olhos confirmassem alguma situação absurda que violava todas as regras de higiene, saúde e ética, além de todas as leis que existiam, pressionava seus dedos delicadamente, puxando-a mais para perto dele, forçando-a a somente olhar para frente.
- Ou o Incantatem mudou de endereço, ou algo muito estranho esta acontecendo – ela sussurrou, os olhos grudados a frente, onde tinha certeza de que havia visto o brilho prateado de uma lâmina ser apontado contra o rosto de um homem miúdo e frenético
. - Não vamos ao Incantatem, não esta noite. Vamos mudar de ares um pouquinho – um sorriso enigmático surgiu nos lábios sensuais de – Aposto que você vai adorar.
Ela rolou os olhos para disfarçar o temor que a tomava, protegendo o corpo com a jaqueta ao passarem pelo assassino em potencial da lâmina prateada. O toque da mão quente de na sua a fazia se sentir protegida, mas não a ponto de fazê-la esquecer os nós que ser formavam em sua garganta. Pararam em frente a uma grande construção de tijolos a vista e milhares de palmeiras no jardim. Luzes vermelhas e douradas saiam de grandes holofotes estrategicamente posicionados, dando um ar de filme de terror ao lugar. Havia uma pequena fila em frente a duas portas gigantescas de madeira, rodeadas por dois seguranças que deveriam ter PhD em substâncias ilícitas usadas no ganho de massa muscular. Com caras de poucos amigos, eles ignoravam a maior parte das pessoas já alteradas por alguma coisa que tentavam entrar no lugar a gritos, tapas e pontapés. fez sinal para que ela caminhasse a sua frente, guiando-a com a mão direita plantada firmemente na base de suas costas. Um tanto nervosa, quase tropeçou uma ou duas vezes no caminho de concreto irregular povoado de garrafas verdes de cerveja vazias. Alguns poucos perdidos lhe direcionavam olhares vermelhos e rudes, outros somente acenavam a cabeça para , como se o respeitassem ou algo assim. Quando chegaram ao inicio da fila, um dos seguranças de dois metros de altura e cabelos rastafári empinou o nariz para a garota, e numa voz que mais parecia com giz arranhando um quadro-negro, perguntou-lhe num tom mediano:
- Identidade,por favor?
congelou por um minuto. Além de não trazer nada consigo, nenhum tipo de documento, nem um celular ou uma cartela de chicletes que fosse, não tinha idade para estar ali. Pelo meio minuto em que o segurança abominável a encarou, seu coração disparou a mil por hora, bombeando sangue loucamente por seu corpo. Estava incrivelmente fodida. Não duvidava nada de que o homem chamaria a policia. Aquilo não seria nada fácil de explicar para Esma e Rick, apesar de que ela pensava se no fundo eles não dormiam toda noite esperando receber uma ligação daquele tipo. Era bem provável.
- Boa noite, Zumiô – pigarreou, passando um dos braços pela cintura da garota e sorrindo autoritariamente –Acho que você ainda não teve o prazer de conhecer a senhorita Dawson.
Zumiô piscou atônito algumas vezes, talvez do mesmo modo que ao ouvi-lo pronunciando o sobrenome de seus pais adotivos. Ninguém nunca a chamara daquele jeito – senhorita Dawson – era sempre , ou . Ela era alérgica a sobrenomes, talvez. Não queria de modo algum que seu sobrenome verdadeiro fosse pronunciado, apesar de somente ela própria e os Dawson conhecerem. Mas nas circunstâncias atuais, talvez até isso soubesse. Mas não era extremamente agradável aos ouvidos ser chamada de Dawson. Nem desagradável. Era somente estranho demais para que ela pudesse se habituar tão rapidamente. Não parecia certo, como um tipo de heresia qualquer.
-Senhor – Zumiô corrigiu sua postura, como se sentisse intimidado pelo garoto – Desculpe-me, não percebi prontamente que era o senhor. Espero que me perdoe – uma tentativa frustrada de sorriso surgiu em seu rosto desfigurado – E é um prazer conhecê-la, senhorita Dawson – ele tentou sorrir novamente para – Entrem,entrem.
comprimiu os lábios, acenando positivamente e guiando a garota novamente, dessa vez para dentro daquele lugar tão estranho. O primeiro corredor era imenso e todo decorado com espelhos partidos que refletiam luzes verdes para todos os lados, fazendo-a se sentir meio tonta. Espelhos no teto. Ela torcia para que aquilo não fosse um tipo de motel musical, ou coisa pior. Num letreiro de neon colorido acima de uma cortina de veludo extremamente negra, era possível ler duas palavras que ela acreditava que nomeavam o lugar: Sonic Underground. Nada bom. Definitivamente,nada bom.
Ela afastou a cortina negra com a uma das mãos, apertando os olhos quando luzes fortes acertaram em cheio o seu rosto. Mas foi só por um instante. Logo foram substituídas por luzes violeta aconchegantes e intimistas e ela pode observar o lugar com atenção. Cheirava a noz moscada, álcool, suor, nicotina, uma quantidade exorbitante de perfumes importados e mais algumas coisas que ela não reconhecia. Músicas sensuais demais, quase pornográficas, explodiam em imensas caixas de sons, intercaladas com alguns clássicos que ela reconhecia. Uma boate. Um salão gigante com quadros de motos e mulheres seminuas nas paredes cuja cor ela não conseguia identificar pela iluminação roxa do local. Uma multidão de encrenqueiros vestidos de preto se divertia, sendo servidos por garçonetes em lingeries coloridas. Havia um tipo de palco no meio do lugar, onde alguns bêbados fingiam que eram estrelas do rock. O bar era gigante e cheio de variedades de bebidas que ela nunca tinha visto. Perto daquilo, o Incantatem poderia ser considerado um lugar para senhoras de meia-idade que gostavam de chá com biscoitos. Se havia uma porta para o inferno na terra, ela deveria estar na Sonic Underground.
Um pequeno grupo animado demais levantou as taças de champagne e copos de whisky ao ver e seu sorriso sacana favorito se aproximando lentamente, puxando pelo braço como um troféu de um jogo qualquer que ele havia acabado de conquistar. Não tão fácil, meu bem, ela pensava irritada, enquanto era largada sem consideração a dois passos daquelas pessoas para que o filho do pastor fosse absorvido em meio de gritos histéricos de loiras aguadas e tapas nas costas de homens já bêbados demais. Com o mesmo sorriso no rosto, ele agradecia os cumprimentos pelo aniversário, oferecendo mais uma rodada de bebidas quando uma garçonete morena e voluptuosa passou por ali para grudar os lábios cor-de-rosa em sua bochecha. Ela não se sentia enciumada: irada e provavelmente a beira de matar alguém era um adjetivo mais adequado. Odiava ser deixada de lado daquela maneira. Aprendera a trazer todos os olhares para si própria como autodefesa, e agora ali, naquele lugar tão estranho no qual ela não sabia o que lhe esperava, só conseguia se sentir boba, pequena e patética. E com vontade de pedir a lâmina do pseudo-psicopata que vira do lado de fora, e cravá-la nos pontos sensíveis de . Alguém ficaria sem bolas.
Um par de olhos cor de mel a observava, curiosamente. Pertenciam a um loiro de lábios cheios e dentes perfeitos, que lhe sorria maliciosamente enquanto jogava os cabelos bagunçados para trás. Se alguma vez na vida teve certeza de que não valia nada, aquele era o momento, quando abriu o sorriso mais sedutor que os lábios vermelhos poderiam formar, e piscou os longos cílios negros para o desconhecido. O garoto deveria ser uns dois anos mais velho que ela, e vestia preto de cima abaixo, a forma alta escondida por tecido demais. Ela gostaria de ver o que havia por baixo de tudo aquilo. Seria interessante. Mas foi no momento em que ele alargou o sorriso e levantou uma taça de Martini, cumprimentando-a, que o real objetivo por trás de toda aquela paquera desmedida fora realizado: os olhos elétricos de fizeram o trajeto da taça ainda parada no ar para o sorriso irônico que ela adorava sorrir para ele estampado no rosto de . Num riso seco e baixo, deu dois passos para trás para puxar a garota para perto de si, a mão forte apertando sua cintura, a boca colada em seu ouvido:
- , meu bem, o que está aprontando agora? – a voz sexy tinha um toque de humor ácido, um sarcasmo disfarçado e uma cobrança implícita que ela deveria levar a sério.
- Socializando, oras – provocou-o, limpando com um beijo molhado a marca de batom que a garçonete havia deixado na bochecha direita do garoto – Afinal, não é pra isso que freqüentamos esse tipo de lugar? Para fazer novas amizades?
- Quase isso – ela sentiu os lábios quentes dele repetindo o movimento que ela acabara de fazer, dessa vez na pele ainda gelada pelo frio da garota – A única diferença – a voz tornou-se mais baixa, como uma confissão – É que aqui sou eu que escolho com quem você deve se relacionar.
- Desde quando você virou meu dono, ? – ela sussurrava no mesmo tom, passando a mão levemente pelos cabelos curtos e negros dele.
- Desde o momento que você quis se tornar minha – o último sussurro a matou por dentro, como se fizesse todos os seus pensamentos derreterem num mar de lava – Pode me chamar de ‘chefe’, se quiser. Mais sexy impossível - Os olhos e o sorriso zombeteiro de agora estavam virados para o loiro, que observava os dois com uma certa curiosidade reprimida no olhar – Perdeu alguma coisa aqui, Patrick?
- O nome e o telefone da honorável dama ao seu lado. Talvez a honra de uma dança, quem sabe? – ui, ele era tão irônico e sádico quanto . Parece que um novo peão havia sido inserido no jogo. Quem daria o xeque-mate?
- Também quer um gostinho do meu punho no seu olho esquerdo? O direito não acabou de se recuperar da nossa última conversa? – o sorriso de se mantinha intacto. Ela conseguira despertar a atenção de um pseudo-desafeto do garoto. Isso era muito, muito interessante. Por que Patrick parecia o tipo de cara que se divertia em bater de frente com o que parecia ser o manda-chuva do grupo. Delicioso.
- Há dores que vem para o prazer. Minha finada avó sempre dizia isso. Talvez não nesses termos, mas o sentido é o mesmo – agora o grupo todo os observava, em polvorosa, provavelmente apostando quem seria o primeiro a puxar uma arma. Por que não era ingênua o suficiente para acreditar que as brigas de acabassem em simples socos. O que só fazia o nó em sua garganta aumentar consideravelmente. Não sabia pelo que estava mais nervosa: pelo lugar, pela tensão, pela sua integridade física ou pelo medo pela integridade de . Por que apesar de tudo, ela deveria admitir que se importava com ele. Agora que o garoto havia entrado em sua vida e virado seu mundo de cabeça pra baixo, ela não o queria mais longe. Difícil de admitir, vergonhoso, humilhante. Mas era a verdade nua e crua.
- Sério, Patrick? Você realmente vai querer levar outra surra de ? Já estou desconfiando de você. Isso tudo é tesão pelo ? – um homem alto e um tanto magrelo cutucou o amigo. Tinha olhos roxos que com certeza deveriam ser provenientes de lentes de contato, e cabelos castanhos claros cheios de gel, o sorriso de dentes brancos irregulares parecia esticado de mais em seu rosto comprido – Tudo bem que eu concordo que a garota é uma delicia, pelo menos pelo que vi até agora, mas, porra, já seria a quarta vez em dois meses, se contarmos as duas em que Zumiô teve que te tirar daqui a pontapés.
- Gosto de viver perigosamente, John – ele resmungou, levando o Martini ao lábios.
- Gosta de ser um capacho, isso sim – uma morena com mechas vermelhas no cabelo negro riu, agarrando a cintura do que se chamava John. Decididamente, aquilo era uma gangue. Uma gangue de estranhos delinqüentes liderados por .
- As garotinhas vão ficar brigando por mim na minha frente? – deu um longo gole num copo de whisky que não havia notado, enquanto descia a mão lentamente até o quadril da garota, batendo os dedos levemente por aquela área, fazendo-a morder o lábio inferior numa mania que ela sabia que ele adorava – Essa é Dawson, minha nova...melhor amiga – sua mão escorregou pela coxa da garota, apertando-a – , meu bem, tenho o desprazer de apresentá-la aos maiores delinqüentes, juvenis ou não, da região.
- E você deve ser o líder da quadrilha – ela ergueu a sobrancelha direita, fingindo surpresa quando os vários rostos lhe sorriram e balançaram a cabeça, antes de voltarem os olhares para um um tanto distraído com a barra do vestido da garota – Não me surpreende, na verdade.
- Quando eu me tornei tão previsível? – um olhar de advertência passou pelos olhos do garoto, direcionado aos amigos de preto, como se perguntasse por que eles continuavam ali os observando. O efeito foi terrivelmente rápido: em menos de um minuto eles já haviam se espalhado pela boate.
- Você sempre foi previsível – ela soprou, afastando-se dele para se sentar num banco de vinil azul junto ao extenso balcão do bar, pernas cruzadas para que pudesse visualizar melhor suas coxas desnudas. sabia que ele viria atrás, como um cachorrinho quando ofertado uma recompensa por uma boa ação. funcionava do mesmo modo – Além de ser um tremendo idiota. Por que dispensou meus novos amigos? Principalmente Patrick... é esse o nome dele,não? Gostei desse garoto – ela piscava inocentemente enquanto sentia os braços fortes do garoto envolverem sua cintura. Era um indício, um sinal de posse. Como se avisasse a todos os outros cachorros do local que aquele era o seu território.
- Achei que você quisesse passar um tempo a sós comigo – a voz irresistível sussurrava em seu ouvido – Me desejar feliz aniversário...
- Você não merece – ela riu,empurrando-o levemente – Você tem sido um menino muito, muito mau, . Você tem sido um filho da puta que não merece respirar.
- E você está louca pra me colocar de castigo, não é, mamãe? – deu um último gole no seu whisky, antes de preparar-se para atacar a garota do modo que mais apreciava. Mas, ao ouvir um grito alto do outro lado do salão que chamava por seu sobrenome, pareceu momentaneamente contrariado e irritado, antes de sorrir aquele seu sorriso tão maligno e irônico, aquele sorriso tão – Vai ter que ficar pra depois. Comporte-se – roubou-lhe um selinho rápido antes de ir atrás da pessoa que o havia chamado.
Sem a presença de ali para entorpecê-la, o receio começava a consumir seu pequeno coração, mandando nós que não podiam ser engolidos para sua garganta, fazendo seu coração pular lentamente em sua caixa torácica. Nunca em sua vida imaginou que fosse parar num lugar como aquele, com gente como aquela. Um lugar onde casais faziam sexo pelos cantos escuros sem pudor, onde viciados cheiravam carreiras e riam alucinadamente, onde prostitutas se ofereciam a seus clientes como numa feira livre e todos bebiam demais e riam demais. Para a falsa rebelde que na verdade era uma puritana, aquilo tudo era assustador demais. E ao mesmo tempo ela odiava parecer assustada. De jeito algum queria parecer uma boba diante de todos aqueles olhares de superioridade. Ela não queria ser uma Bella Swan* no meio de um grupo de vampiros de True Blood*. Com o nariz empinado e o olhar longe, ela só queria que voltasse logo para que ela pudesse se aconchegar em seus malditos braços.
Mas não era o filho do pastor que vinha na direção da garota. Era a mesma morena de lingerie que o havia cumprimentado antes. A mulher de curvas voluptuosas e seios fartos conseguia ser ainda mais branca do que a pálida . Com certeza era alguns muitos anos mais velha que ela. Tinha grandes olhos azuis e lábios cheios e vermelhos que sorriam de um modo maligno. Sua lingerie era composta por um corselete preto e uma calcinha com estampa de leopardo. Os cabelos negros eram presos em cachos a lá Marilyn Monroe. Ela era terrivelmente mais bonita do que a garota, que praticamente se abraçava enquanto ela chegava perto. Na mão comprida de unhas vermelhas ainda mais compridas, trazia uma taça com um conteúdo que reconhecia,e ficava vermelha por isso. Recados de ,oh sim. Ela parou a três passos contados da garota, se equilibrando em saltos que deveriam ter no mínimo 15 centímetros. engoliu em seco. A mulher parecia uma águia pronta para dar o bote.
- Uma pina colada para a protegida de – ela proferiu em sua voz arrastada e baixa – Ele me pediu para vir lhe fazer companhia.
- Você quer dizer que ele pediu para que você ficasse de olho em mim – aceitou a taça, tentando parecer confiante e fingindo um riso sarcástico baixo, mas escondendo o temor que tinha daquela estranha no bolso da jaqueta – Sei com quem estou lidando...desculpe, como você disse que se chamava mesmo?
- Não disse. Você pode me chamar de Kitty. É como todos por aqui me chamam – ela riu sozinha de alguma piada interna, sentando-se ao lado da garota num dos altos bancos de vinil azul e puxando um cigarro de um maço preso em sua cinta-liga – E, não quero acabar com suas esperanças meu bem, mas acho que, quando se trata do Senhor, ninguém sabe com o que está lidando – ela tragava seu cigarro lentamente, como se lembrasse de algo enquanto seus olhos percorriam o teto sem um foco aparente, um sorriso fino se formando em seus lábios – Se Deus colocou um verdadeiro enigma sobre a Terra, este enigma é . Há duplo sentido em cada palavra que saem daqueles lábios, em cada ação que ele pratica. Há intenções por trás de intenções – puxou um pequeno cinzeiro de vidro de cima do balcão, deixando as cinzas de seu cigarro caírem como flocos de neve sobre o material transparente – Ele é perigoso, e você parece uma menina boa demais. Deveria tomar cuidado.
- Você parece conhecê-lo há bastante tempo – fingiu ignorar o conselho pelo qual não havia pedido e engolir a pontada de ciúmes que se instalou rapidamente por seu corpo junto com a pina colada. Por que todas suas experiências com romances baratos de revista e livros fracassados lhe deixavam interpretar aquilo de uma única maneira singular e talvez até um pouco obsessiva: a idéia de que Kitty só lhe dizia aquilo para plantar incertezas em seu cérebro já tão confuso. Ela não iria ouvir. Não seria a garota tola que se deixava levar por fofocas ridículas – Se são tão amigos quanto parece, por que diz que ele é perigoso?
- Nos conhecemos há algum tempo sim – ela parecia ainda mais entretida por alguma lembrança qualquer, pelo tamanho do sorriso que ostentava - E é por esse tempo que eu volto a afirmar que ele não presta. Há muita sujeira escondida debaixo do colarinho branco de . Engana-se quem pensa que os únicos segredos que ele possui se relacionam a sua verdadeira identidade. Ele participa de um sistema podre. Não que eu seja a pessoa mais limpa do mundo, longe disso – ela riu desgostosa – O meio em que vivo não tem um pingo de dignidade. Mas ele consegue se envolver com gente ainda pior. Não vale a pena se associar a esse tipo de coisa por nada. Nem por amor, nem por dinheiro, nem por sexo. E você deve saber melhor do que eu que transar com é o paraíso. Te faz cometer insanidades estratosféricas, como se por de joelhos em frente a ele e pedir por mais – Kitty deu de ombros – Essa é uma parte do meu currículo da qual eu não me orgulho nem um pouco.
- Hm – se obrigou a engolir dois longos goles de sua pina colada antes que desse uma resposta que ao invés de boba a faria parecer mal-comida e ciumenta. Apenas tentou abrir seu melhor sorriso de concordância para a mulher que a observava cautelosamente, e numa voz doce e falsa, soprou – Nada do que você me disse é novidade, Kitty. Posso não conhecer há tanto tempo quanto você, mas sei o suficiente para não ser só mais uma transa, uma noite qualquer. Não sou o tipo que gosta de ser dominada. Sou o tipo que domina – Ela levantou-se, tomando o resto da bebida de uma vez só antes de bater a taça com uma violência mascarada no balcão de madeira. Preparava-se para seu gran finale, sua saída nada triunfal e até mesmo um tanto infantil, quando a mão quente e firme de Kitty segurou seu pulso.
- – ela havia assumido uma seriedade que a garota não julgava possível caber a aquela mulher. Os olhos azuis como diamantes faiscavam sinceros em sua direção – Não fui irônica em momento algum. Nem quero para mim. Só estou tentando ajudar. Pelo menos pense no que eu te disse - como se aquela conversa nunca tivesse acontecido, a meretriz largou o pulso fino de , voltando-se para o garçom de cabelos cor de fogo que empilhava copos largos e azuis sob uma bancada de vidro fumê.
Ela sabia que pensaria até demais naquelas palavras antes de entrar em seu mundo particular de sonhos naquela mesma noite, nos minutos que antecediam seu precioso sono. Mas seu cérebro acostumado a ser negativo, lhe lembrava docemente de uma coisa: depois daquela conversa tão estranha e aquele lugar tão bizarro, provavelmente seu subconsciente lhe daria pesadelos de presente. Pesadelos coloridos demais e com ervas alucinógenas queimando por todos os lados. Caminhando entre aquela multidão que dançava sem parar ao som de algum rock remixado, chegou à sublime conclusão de que havia cansado. Alguém já poderia chamar o ônibus do jardim de infância, por que certa menininha usaria todos os choros e manhas possíveis para que o filho do pastor a tirasse dali imediatamente.
Esbarrando em corpos suados aqui e ali, ela avistou os olhos brilhantemente de faiscando enquanto ria de algo que parecia o divertir demais junto a um pequeno grupo de homens de terno e gravatas coloridas frouxas nos pescoços longos e cigarros nos lábios finos. sentiu uma má vibração, um frio cortante passou por seu pescoço aparentemente protegido. Por um momento, a única coisa que quis fazer foi dar meia volta. Talvez preferisse continuar o papo cheio de duplos sentidos e cacos de vidros afiados que estava tendo com Kitty do que ter que puxar do meio daquelas pessoas. Respirando fundo e lembrando que deveria continuar com a máscara de vadia corajosa que costumava usar, endireitou sua postura sob os saltos altos e caminhou em linha reta até o maldito que a havia colocado naquela situação. Fazendo um pequeno desvio de caminho para se situar exatamente atrás do garoto, ela passou as unhas compridas por seu pescoço para chamar-lhe a atenção.
- – sussurrou ao ouvido do aniversariante, deslizando a mão pequena até o braço musculoso dele que estava preso ao lado do corpo, apertando-o levemente para que ele lhe desse atenção.
- , meu bem – ele abriu um meio sorriso – achei que tinha pedido pra você me esperar no bar.
- Cansei. Não quero mais ficar aqui. Me leve de volta pra casa, por favor – o beicinho que surgiu em seus lábios juntamente com os olhos que piscavam como asas de borboletas eram suas armas para que ele caísse em seu jogo e a levasse dali. Até um ‘por favor’, uma palavra mágica disfarçada ela incluíra na sentença. Mas seu momento de inocência fora grande demais e passou no momento em que ela viu a ruga que se formara entre as sobrancelhas agora quase unidas de . Game over, bitch*.
- Você não pode estar falando sério – ele soltou-se da mão apertada da garota, puxando-a agora pela cintura para uma parte menos movimentada e mais longe de seus amigos no Sonic Underground. Os olhos estavam escuros a meia luz, como se indicassem perigo. Como se a desafiassem a continuar com a brincadeira. Como um lago aparentemente calmo que grita ‘vamos lá, pule do precipício. Mais do que morrer você não vai’. A garota mordeu o lábio inferior, toda a segurança descendo pelo ralo imaginário que sua mente projetara.
- Eu estou. Odiei este lugar. Quero voltar pra casa – as palavras saíram num misto de sussurro com um resto de dignidade que lhe restara. Não eram altas nem baixas demais. Eram somente claras e verdadeiras.
- Você já se deu conta de como é uma estraga-prazeres, ? Como adora sair à francesa dos lugares, rápida como um tiro de raspão? – segurou-lhe o nariz rapidamente, como quem brinca com uma criança levada. Talvez na opinião dele fosse exatamente isso que ela representava. Droga, droga, droga. Aquilo não iria terminar nada bem – Não vamos embora agora. Vamos ficar até o sol raiar. Talvez mais. Talvez nunca iremos embora, que tal? Você não adoraria? – ele sorria mostrando todos os dentes, a ameaça implícita e clara ao mesmo tempo naquele sorriso encantador: ‘me provoque, mas não me desafie’.
- Hm – crispou os lábios, olhando para um ponto qualquer do outro lado da boate por um momento. Os braços cruzados sobre os seios apertados no vestido azul petróleo, ela lembrou-se por que agia como uma desgraçada: não gostava de ser pisada. Muito menos humilhada como aquele maldito filho do pastor tinha um prazer iminente em humilhar. Seu pavio era mais curto do que o de uma dinamite prestes a explodir. Uma carga de dignidade nova fora injetada em suas veias, como se algum daqueles drogados que ali estavam a tivesse picado sem querer com uma de suas agulhas. Usaria uma carta que ela nem sabia que tinha na manga até puxá-la com maestria – Ótimo. Não quer me levar? Realmente ótimo, – soltou o apelido do garoto pelos lábios vermelhos com um certo escárnio – pois eu conseguirei algum idiota pra me pagar outra pina colada e me levar para casa numa moto de marca.
- Não brinque com fogo ...
- Eu nunca disse que não gosto de estar em chamas.
Deu as costas para num rompante, se infiltrando novamente entre prostitutas e riquinhos do tipo rebelde sem causa, sem olhar para trás uma única vez para certificar-se de que ele a seguia. Ela sabia que ele o faria. Adoraria ver o próximo passo da garota. Ainda mais se este fosse direto ao chão. Ainda mais pelo fato de que não tinha plano nenhum: as palavras lhe traíram quando escaparam correndo de sua boca. Ela andava sem rumo, tentando achar uma boa saída. Quando viu um já conhecido par de olhos cor de mel a analisando.Patrick estava com o corpo encostado num dos pilares de sustentação do salão, um copo de whisky na mão e um sorriso perigoso nos lábios. achava que era insubstituível? Bom, era hora de provar que sua teoria era errônea e mal-calculada. Num giro de calcanhares milimetricamente perfeito, ela acariciou o chão lentamente com seus saltos altos, os lábios numa posição premeditadamente sexy e os olhos ensaiados para parecerem como depósitos profundos de malícia. O sorriso de Patrick aumentou consideravelmente ao vê-la se aproximar tão cheia de más intenções. Como se conseguisse tocar todos os pensamentos pervertidos que se passavam pela cabeça do loiro em questão. A distância que ela manteve dele era relativamente pouca e escandalosamente mínima para todos os pares de olhos que prestavam atenção dobrada a cena.
- Acho que não tivemos a oportunidade de sermos decentemente apresentados – não reconheceu a própria voz que saia sedutora e baixa e batia descaradamente nos lábios entreabertos de Patrick – o que, sinceramente, acho uma pena - sua mão macia brincava quase distraidamente com um pedaço do casaco de moletom preto que o garoto usava, fazendo-o dividir a atenção entre esta e os cílios longos da garota que lhe piscavam demoradamente.
- Concordo plenamente, señorita. – outro homem que gostava de apelidos em línguas calientes. Se era o galanteador francês, Patrick era o Don Juan espanhol. Era bom alguém arrumar um ventilador, por que o calor no corpo de começava a subir gradualmente – Tudo culpa de nosso querido amigo . Ele é do tipo egoísta. Mas olhando mais de perto agora, quando se trata de você, acho que eu também seria. – os olhos cor de mel passearam pelas pernas descobertas da garota, passando por seus seios comprimidos pelo vestido até chegarem aos lábios cheios e bem desenhados. Num movimento arriscado, Patrick praticamente encostou seus corpos um tanto elétricos, para sussurrar no ouvido da garota palavras que fizeram todos os músculos de seu corpo tremerem – Ele fodeu alguma coisa , foi um idiota com você e você está louca pra causar ciúmes nele, não é, cariño? Sinceramente, não me importo de ser usado nesses jogos tão baixos – ela sentiu suas mãos firmes e fortes segurarem sua cintura fina, um roçar de lábios inesperados na curva de seu pescoço e um aroma cítrico tão envolvente adentrou suas narinas despreparadas. – se eu for bem recompensado, é claro. Então, por que não deixamos o papinho de lado e partimos logo pra ação?
Dizer que ela não esperava os lábios rígidos e exigentes de Patrick se chocarem nos seus seria uma mentira boba e absurda. sabia que aquilo iria acontecer tanto quanto sabia que dois mais dois eram quatro. Ela havia conseguido achar alguém mais rápido e sacana do que , mas isso não a agradava, exatamente. Aquilo definitivamente não estava nos seus planos da noite, pelo simples fato da certeza concreta de que tudo terminaria mal. Mas o modo com Patrick apertava sua cintura e invadia sua boca com sua língua quente era no mínimo arrebatador. O gosto de whisky e limão que ela sentia enviava arrepios por toda sua medula espinhal enquanto ele num movimento arriscado a prendia contra um dos pilares de sustentação da boate. Suas mãos se ocuparam em descer e subir sem restrições pelo corpo agora quente da garota, do mesmo modo que ela lhe agarrava os cabelos loiros. conseguia sentir cada músculo definido escondido pelas roupas negras em atrito contra seu corpo, eriçando cada pelo de sua nuca. O ar lhes faltou por um momento ínfimo, no qual Patrick mordeu seu lábio inferior antes de se separar lentamente. Uma agonia interior que disfarçava uma culpa que não deveria existir se apossou do corpo da garota nos poucos instantes que eles estavam separados. Por que era extremamente estranho estar beijando os lábios de outro enquanto sentia um certo perfume amadeirado cada vez mais forte impregnando o ar. Nem cinco segundos depois mãos delicadas, mas obstinadas, a arrancaram dos braços de Patrick, levando-a para alguns metros longe da dita cena do crime. Foi o tempo de a garota abrir os olhos para vez o filho do pastor levantar o falso amigo pela gola do casaco, os olhos quase negros e uma veia lhe saltando no pescoço. Percebeu logo depois que era Kitty que a segurava, uma certa preocupação nos olhos quando sussurrou poucas palavras em seu ouvido:
- Se você não saísse dali, teria se machucado junto. Que tipo de idéia você tinha nessa cabeça de vento, garota? As coisas aqui vão piorar – sabia que a meretriz estava certa quando já não mais enxergava e Patrick no meio da multidão que parara para assistir a briga. Só ouvia gritos de êxtase e cabeças por todos os lados – Saia daqui. Ele irá atrás de você. Ele vai querer tirar satisfações. Não o provoque mais, por favor. Prometa-me que vai tentar fazer tudo ficar bem. Agora, – a voz dela era autoritária e exigente, como a de uma mãe que pede para que o filho não coma um pedaço de bolo antes da festa de aniversário. As pernas da garota estavam bambas o suficiente para saber que ela tinha razão.
- Prometo.
- Vá – Kitty a empurrou para o lado contrário da confusão, mas ainda não sabia para onde correr. Eram pessoas demais que tentavam chegar cada vez mais perto dos dois arruaceiros no centro do boate. Para todo o lugar que ela olhava, faces acusadoras e divertidas a encaravam de volta. Apontavam sua culpa implicitamente. A única coisa que ela queria era que ficasse bem. E que ela mesma continuasse viva no fim da noite. Perdida em pensamentos desagradáveis, não reparou quando esbarrou em algo que ela teria considerado um poste não fosse o tecido macio do terno.
- Senhorita Dawson? Precisa de ajuda?
- Zumiô – ela sussurrou, um tanto aliviada – Me ajude a sair daqui.

* Who gets the last laugh now? é um trecho de Lies, dos meus meninos do McFLY, e que se encaixa muito bem nesse capítulo: Quem vai rir por último agora?
*A Hidra era um animal fantástico da mitologia grega que tinha corpo de dragão e sete cabeças de serpente cujo hálito era venenoso e que podiam se regenerar.
* Bella Swan é a protagonista insossa da saga Crepúsculo (as opiniões contidas aqui são minhas, sem ofensas) e True Blood é uma série incrível que mostra vampiros de verdade.
* Game over, bitch: Fim de jogo, vadia.

Capítulo 11 – Master of Puppets

Era um corredor escuro, apertado por suas paredes altas e lisas. Cheirava a mofo e cinzas de cigarro há muito abandonadas pelos degraus de pedra bruta. Havia marcas d’água em cada parede suja enegrecida pelo tempo, que passava rapidamente naquele lugar. Aranhas passeavam pela única lâmpada incandescente presa ao teto, gasta e quase sem energia, que pulsava uma luz fantasmagórica, transformando os rostos que por ali passavam em nada mais do que caveiras sem traços definidos e sem um pingo de vida escorrendo por suas veias.
caminhava apressado, o coração aos pulos e o cérebro trabalhando rapidamente. Cada degrau ultrapassado encarado como um obstáculo a menos até seu objetivo final. Ele não se importava se John o seguia a passos largos, atento a cada movimento daquele que considerava seu mestre. O garoto tinha outros assuntos mais importantes para lidar do que a preocupação exagerada de um de seus pupilos. A porta revestida de alumínio à sua frente tremeu ao ser empurrada para trás violentamente, dando passagem para os dois rapazes.
A sala mediana de paredes vermelhas e sofás grandes e marrons era habitada por um homem alguns anos mais velho, o cabelo ruivo brilhando sob a forte luz incandescente e contrastando com seu terno creme italiano extremamente bem cortado . Havia prateleiras de madeira repletas de cadernos negros em toda a extensão do lugar. Cadernos como aquele que o homem observava aberto sobre uma grande mesa de mogno repleta de canetas coloridas e documentos importantes. Um anel de prata incrustado de rubis girava em seu dedo anelar. Aquele homem parecia um magnata, um poderoso chefão de um esquema criminoso qualquer, o líder dos políticos corruptos. Inspiraria medo nos bêbados que se arrastavam pelo Sonic Underground. Mas ali, preso em sua sala, ele era só um subordinado. E seu chefe havia acabado de chegar.
- Senhor . – ele levantou-se rapidamente, uma meia reverência exagerada diante do garoto enfurecido.
- Cale-se, Sebastian. – seus olhos o fuzilaram – Onde está Gustav? John, feche a droga da porta de uma vez.
- Gustav foi acertar um de nossos negócios pendentes. Se me perdoa, senhor, acho que um de seus olhos está roxo...
- Ah, não diga, Sebastian. É maquiagem. Vou fazer uma audição para o próximo filme do Arnold Schwarzenegger. Eu sou o saco de pancadas, óbvio. – se jogou na poltrona, a cabeça entre as pernas, uma das veias de seu pescoço pulsando.
- Briga de bar? – Sebastian sussurrou para John discretamente, enquanto este fingia analisar algumas pastas vermelhas de uma prateleira ao leste.
- Patrick.
- Ah. – o homem suspirou, observando o chefe fazer anotações furiosamente em um caderno de capa azul escura – O que ele aprontou dessa vez?
- Arquivo 737. Arquivo Saxon.
- A garota. O que houve? – a voz de Sebastian agora exibia um pingo de nervosismo, como se soubesse os grandes problemas que estavam por vir.
- Ela é gostosa e Patrick não vale o chão que pisa. – John deu de ombros, como se fosse um tanto óbvio – Eles se agarraram, o chefe ficou puto e tentou quebrar a cara dele. Simples assim.
mantinha as mãos cruzadas abaixo do queixo, as pontas dos dedos batendo uma sobre as outras, como se houvessem muitas idéias martelando sua cabeça. E havia. Em seu cérebro passavam cenas e mais cenas, frases ditas, beijos roubados. Tudo parecia estar dando tão certo, como se seu pequeno plano estivesse sendo seguido às riscas, como um roteiro de teatro. Até aquele momento. Porque o filho do pastor esquecera de somar algumas coisas às suas equações. Uma delas era a teimosia extrema de . Porque ali, em sua cabeça e em suas divagações, ele tinha certeza de que ela seria mais suscetível ainda. De que faria qualquer coisa por ele, e que hesitaria antes de dizer uma palavra rude ou um ato impensado. Mas no final, a órfã só havia o surpreendido mais e mais a cada grito, tapa ou ato de rebeldia. Algumas coisas precisavam mudar. Suas investidas deveriam ser repensadas. Mas ainda havia aquela segunda coisa, aquele aperto no fundo de sua garganta toda vez que Damian, o maldito Damian, ou mesmo Patrick se aproximavam furtivamente. Algo como um pequeno sentimento de posse, desenvolvido rápido demais. Ele precisava se reafirmar. Colocar os dados na mesa novamente, focar nos objetivos.
Gustav talvez fosse, dos quatro, o que mais se parecia com um marginal verdadeiro, com seus cabelos raspados e tatuagens por todo o corpo, e o que menos tinha tendência a isso, no final. Dera duas batidas na porta antes de entrar, a camiseta vermelha ensopada de suor, os jeans sujos de grama e uma mala preta na mão esquerda, que foi depositada calmamente em cima da mesa de madeira. Ele sorriu para seus companheiros ao notar seus olhares curiosos, deu de ombros e somente sussurrou ‘O 424 resolveu fazer o pagamento no Stadium Park, mas os cachorros não acharam uma boa ideia’. Mas não tinha tempo de ouvir aquela história. Precisava achar o mais rápido possível.
- Gustav. – os olhos se voltaram para ele, impossíveis de se ler – O que eu te disse depois que aceitamos o 737?
- Que era a melhor coisa que tinha acontecido em séculos. Dois coelhos com um só tiro. – Gustav o encarava, um tanto curioso – Que resolvia parte de seus problemas pessoais, e que somava uma quantia extremamente interessante a nossa conta bancária que, afinal, é o que me interessa. Por quê?
- Sebastian, – ele ignorou a pergunta final – depois que pagou sua dívida, por que continuou aqui?
- Bom, o senhor paga melhor do que qualquer emprego regular na cidade, não? E, além disso, – ele pensou, antes de finalizar – teoricamente, não fazemos nada ilegal.
- Teoricamente. - avaliou a resposta. Passou seu olhar para John – E você John, por que aceitou meu convite?
- Porque queria passar mais tempo com você, delícia. – John riu, esparramado em um dos sofás – Grana, é óbvio.
- Três anos atrás, isso aqui começou como uma grande brincadeira. O arquivo número um era só um favor a um amigo. Mas a noticia se espalhou. Os arquivos cinco e seis pagaram a compra dessa sala. – ele relembrava um tanto nostálgico – Um empresário aos 15 anos. Eu tinha acabado de conhecer o mundo de verdade, fora daquela maldita igreja. E eu queria tanto o dinheiro, a sensação de poder. E agora estamos aqui, uma pequena gangue, e as coisas estão quase do jeito que eu quero. Falta tão pouco. Isso precisa dar certo. Eu preciso manter a cabeça no jogo. Eu preciso da .
Num rompante, levantou-se, passando rapidamente pelos três homens que pareciam compreender só metade de suas palavras. Ele não se importava. Há muito tempo havia aprendido a viver mergulhado em seus próprios segredos. Nunca tivera vontade de partilhá-los. Ao chegar a porta, virou-se, como se houvesse lembrado de algo muito divertido.
- Você disse que os cachorros do Stadium Park não gostam de companhia noturna, não é, Gustav? Peça pra Flanagan levar Patrick para dar uma passeada por lá.
Voltando a andar pelo corredor escuro nos subterrâneos da Sonic Underground, seu coração voltara a disparar, e suas idéias tentaram se organizar uma última vez. Alguma estratégia, alguma forma de trazê-la mais perto. Quando se quer muito algo, é normal aceitar dar alguma coisa em troca, desistir de alguma preciosidade. Talvez naquela noite, para colocar os acontecimentos nos trilhos corretos novamente, devesse desistir de algumas de suas máscaras para que outras fossem usadas em cena.

Capítulo 12 – Under Pressure

Trilha sonora do capítulo


O barulho dos saltos na estrada de concreto ecoava em seus ouvidos, um som que fazia com que cada pêlo de seu corpo se eriçasse, colocando todos os seus sentidos em alerta máximo a cada mínima lufada de ar diferente da anterior. Era um tipo de pânico nunca experimentado antes, algo cru e intenso, que a fazia querer sufocar de uma vez só para aplacar a dor de seguir em frente. A pouca luz emitida pelos altos postes de madeira não auxiliava em nada na sua busca por um pouco de conforto. Aquilo mais parecia um filme de terror um tanto trash, onde os efeitos especiais foram mal calculados e a protagonista parecia ainda mais patética a cada tomada.
Mas afinal, aquele era só mais um dia comum na vida de , não? Um dia em que ela se ferrava graciosamente após cair nos galanteios de algum marginal qualquer. Dias como aquele haviam se tornado recorrentes em sua vida desde que aparecera nela. Mas era uma questão de foco. Foco que ela havia perdido há muito tempo. Andar por aquela rua era tão diferente das noites em que se aventurara na Storage Street em busca do filho do pastor. Talvez porque ela conhecia cada pedra que formava aquela rua, cada árvore estrategicamente posicionada e cada poste de luz distribuído pelas calçadas. não fazia idéia de onde estava agora, e o pouco que ela enxergava eram casas grudadas demais, jardins mal cuidados e olhos amarelos de gatos que pareciam invisíveis em meio a toda aquela escuridão.
Zumiô havia sido de grande ajuda dentro da Sonic Underground, mas agora ela se perguntava se realmente tinha sido uma boa idéia pedir ajuda ao segurança. Ele a havia escondido do resto da multidão com seus dois metros de altura, orientando-a até uma pequena porta de madeira na parte sul da boate. A última visão que teve daquela festa infernal fora o companheiro de Zumiô, igualmente alto e musculoso, tentando apartar a briga que já não passava de um borrão de pessoas agitadas, gritos de excitação e olhos em polvorosa. E então foi empurrada para fora, nada delicadamente, por um par de mãos que mais pareciam duas pás, resultando num belo tombo em frente a uma lata de lixo. O joelho esfolado a incomodaria por horas a fio até que ela arrumasse outras coisas com as quais se incomodar. Mas a única atitude que tomara fora sair em disparada pelo pequeno caminho de pedras sujas que levava à única abertura no muro de tijolos gastos. E então, subitamente, ela fora parar ali, naquela rua tão diferente de todas em que já estivera antes.
já estava longe de seu ponto de partida, mesmo não sabendo exatamente para onde ir ou há quanto tempo estava caminhando. Parecia uma eternidade. Os sapatos de salto lhe machucavam os pés, mas ela não se arriscaria a tirá-los para acabar pisando em algum caco de vidro esquecido ou um prego enferrujado perdido no meio da rua. Tudo que ela não precisava no momento era uma doença ou um machucado mais sério. A única coisa que queria era algum tipo de luz no final do túnel escuro que era sua vida naquele momento. E um ponto de ônibus. Havia uma única nota apertada em sua mão, cujo valor ela não conseguia enxergar direito, mas esperava que fosse o suficiente para uma viagem para casa. Zumiô a havia empurrado para a sua mão discretamente, uma tentativa de sorriso no rosto desconfigurado. O brutamontes tinha um coração afinal, e havia se apiedado dela.
Sua cabeça começava a ficar pesada, quase como se seu pescoço já não tivesse mais forças para mantê-la erguida. Era irônico afinal, não? Já que sua dignidade havia escorrido por entre seus dedos como água gelada, era hora de sua cabeça deixar-se levar, grudar os olhos no chão e não levantá-los mais. Mas eles eram mais teimosos e rebeldes do que sua dona jamais fora capaz de ser, e, quando um fragmento de luz surgiu no horizonte, quase como uma fagulha perdida de um fogo de artifício de 4 de julho*, sua atenção foi toda roubada para aquela paisagem. E a medida que aquela luz crescia e começava a machucar seus olhos, o ímpeto de fechá-los, como seria natural, foi totalmente ignorado. Tudo pelo simples fato de que há algum tempo aquela única luz branca e intensa como as batidas de seu coração se tornara tão conhecida que a única atitude possível a ser tomada naquele momento fora crispar os lábios e manter os pés firmes no chão, mesmo que seus saltos parecessem prestes a desabar.
Quase como se ambos se preparassem para uma batalha, a motocicleta vermelha à sua frente parou a uma distância considerável, o farol ainda ligado, o piloto ainda invisível, mesmo que não precisasse de uma visão privilegiada para identificá-lo.
Os minutos se passavam, longos e intermináveis, mas nenhum dos dois se atrevia a fazer um primeiro movimento. Como se assimilassem a presença do outro e medissem cuidadosamente a próxima atitude a ser tomada. O silvo baixo de uma coruja no alto de uma árvore os tirou do transe em que se encontravam, trazendo-os de volta a uma realidade sombria. Um relógio invisível parecia ter dado sua badalada final. A hora do confronto chegara.
Ninguém nunca saberia qual movimento ocorrera primeiro, os poucos passos de ou o desligamento do farol da Harley-Davidson vermelha. Mas agora era possível enxergar o motoqueiro, mesmo sob a combinação fraca das luzes da calçada com o brilho prateado de uma lua tímida. Na viseira do capacete negro ela conseguia identificar os gloriosos olhos , queimando como loucos, medindo cada pedaço da garota à sua frente. parecia um animal, um leão prestes a atacar sua presa indefesa. Os nós dos dedos estavam brancos e machucados, mas ainda assim ele não os relaxava sob o guidão de metal. Mas por mais que a situação exalasse um perigo iminente, não sentia medo. Era mais um certo tipo de energia que se espalhava por cada tecido de seu corpo, uma adrenalina sem limites e pronta para ser expelida em forma de atos não tão educados.
Três passos, talvez quatro, era tudo que os separava. O ar parecia pesar uma tonelada, passando dificilmente pelos pulmões dos dois, sufocando-os sem pressa, quase que gentilmente. A boca de se abriu por um instante, como se fosse ela a começar aquela conversa. Mas durou pouco. Logo os olhos se tornaram duros, os lábios se tornaram uma linha branca e fina. Não. Ela queria ouvir. Desculpas, xingamentos, justificativas, ameaças. Ela precisava ouvir as palavras enunciadas por aquela voz que tantas vezes a deixara sem chão. Talvez isso acalmasse as batidas de seu coração, negativamente ou positivamente. Mas o filho do pastor permaneceu absorto em seu silêncio sepulcral. Retirou o capacete, segurando-o no colo despreocupadamente, antes de levantar os olhos frios e brilhantes em sua direção. pôde notar a sombra roxa que emoldurava seu olho esquerdo, assim como o pequeno corte vermelho vivo perto de seu lábio inferior. Uma vontade passageira de tocar-lhe e aplacar sua dor se instaurou em seu corpo, mas foi passageira. Durou até o exato momento que o sorriso, aquele sorriso tão , atravessou fantasmagoricamente o rosto do garoto. Não havia nada ali para se sentir pena. Só repulsa.
Uma palavra. Uma palavra dura, imperativa e pronunciada vagarosamente. Uma palavra que definiu o resto daquela noite. Talvez, se formos ambiciosos o suficiente, poderíamos dizer que aquela palavra definiu o resto de suas vidas.
- Suba.
Dias e dias de sentimentos presos em seu interior explodiram ali, como fogo em gasolina. Um tipo de rosnar arranhou sua garganta, os olhos brilhando em raiva incondicional. Os três passos seguintes foram totalmente irracionais, mas o tapa no lado direito da face de não. Toda a força que lhe restava fora empregada ali, numa tentativa de marcar na pele do outro tudo que seu cérebro conturbado gritava em sua cabeça. Ele não esboçou reação, quase como se esperasse aquilo. Então era a vez dela. De uma única palavra sair, alta e clara, de seus lábios que tremiam levemente.
- Chega.
O peito de subia e descia rapidamente, irrefreável. Ela tentou inspirar fundo uma última vez, para estabilizar-se. Uma queda agora não seria algo agradável. Mas seus pés lhe obedeceram, seu corpo se firmou e ela não voltou a olhar para o rosto dele. Não poderia. Ergueu a cabeça o mais alto que era possível, contornando a moto como se ela não tivesse a mínima importância. Não tinha mais, afinal. seguiu o caminho do asfalto, sempre olhando em frente, com dois meios de terminar a noite passando como filmes em preto e branco em frente a seus olhos. Nos seus melhores sonhos, ela sairia dali, iria até o final da rua, pegaria um ônibus e voltaria pra casa. Nunca mais os olhos a atormentariam novamente. Mas ela seria uma tola de marca maior se acreditasse nisso, não seria? Por isso seus piores pesadelos se faziam presentes, aqueles no qual ele a atropelava até a morte repetidamente, até que seu último suspiro ecoasse pelos quatro cantos da rua escura.
No caso de , sempre deveria contar com uma terceira opção escondida na manga de sua jaqueta de couro negro. Ela ouviu o baque repentino do capacete atingindo o chão sem cuidado algum, como se jogado a esmo no concreto frio, mas em momento algum se virou para checar se sua teoria ou seus ouvidos estavam corretos. Só continuou seu caminho apressadamente, guardando seu dinheiro no bolso, ignorando todos os sinais sonoros de passos firmes às suas costas. podia seguí-la até o inferno, ela não dava a mínima. A menos que ele não lhe tocasse do modo que tocou alguns segundos depois.
De todas as abordagens de , aquela foi a que chegou mais próxima de parar seu coração. Ela já estava acostumada aos puxões, a marcas vermelhas de dedos em seus braços finos e brancos, a arranhões em sua cintura delicada e a choques de quadris que balançavam todas as suas estruturas corporais. Mas aquele toque, a delicadeza com que ele escorregou sua mão grande e gelada até a pequena e mais gelada ainda dela, entrelaçando os dedos dos dois, desenhando círculos em sua palma. Pela primeira vez ele não a grudou em seu corpo forte e irritantemente sedutor, mas sim se moldou ao dela, a testa encostada no topo da cabeça repleta de longos cabelos da garota, a respiração tão curta e quente batendo na nuca desprotegida de . Ela congelou, coração a mil, garganta fechada, olhos perdidos no infinito. A boca de agora era encostada a um de seus ouvidos, e a mão livre acariciava seu pescoço tão lentamente que, fosse qualquer pessoa menos sensível ao filho do pastor do que , mal teria notado. Mas ela notara. E ele sussurrou, de uma vez só, e sem receio algum, como era tão comum ao garoto.
- Por favor.
- Não. – ela devolveu, com a força de uma pena caindo sobre sua cabeça. Era um pedido tão simples, mas tão complicado ao mesmo tempo, que parecia derreter como lava por seu corpo, esquentando-o, protegendo-o do frio e do perigo daquela noite tão estranha. Era a primeira vez que ela se lembrava de ouví-lo dizer aquelas duas palavras de modo tão sincero, palavras tão comuns, mas tão cheias de significados para aqueles dois.
- . – ele insistia, apertando sua mão junto à dele, a voz um décimo mais alta do que antes – Por favor.
- Merda, . Merda. Por que você continua falando? Por que você não vai embora e me deixa em paz? – Era a hora de encará-lo, finalmente, então. De girar em seus saltos, soltar a mão que lhe prendia e mergulhar nos grandes olhos que a fitavam. O perfume amadeirado penetrou fortemente por suas narinas, mas ela ignorou, empinando o nariz, sustentando seu olhar profundo – Porque eu estou cansada de você. De tudo a que me expõe e de tudo que faz comigo. Cansada da sua maldita insolência e do seu nariz erguido. Eu simplesmente não aguento mais.
- Não era eu quem deveria estar chateado aqui? Pegar minha garota agarrada num dos meus amigos no dia do meu aniversário não é algo extremamente emocionante. – riu baixinho, voltando a máscara de seriedade alguns instantes depois, aproximando-se mais e mais da garota, encurralando-a em sua própria bolha – Mas nós precisamos conversar sobre isso, não precisamos? Como adultos. Pessoas civilizadas. Estou tão cansado da brincadeira de gato e rato tanto quanto você. Quero fazer isso dar certo.
- “Isso” não existe. Não há nada aqui além da porra da sua obsessão por mim. Estou cansada de você, .
- Não está, não. – suas mãos voaram até seu rosto pequeno e pálido, trazendo-o o mais perto possível, tocando-o tão suavemente, como se fosse algum tesouro, alguma relíquia perdida de um grande império que precisava ser bem tratada – Isso significaria estar cansado de algo que te arrepia, que faz seu coração surtar e eleva a temperatura do seu corpo. Significaria estar cansada do jeito como eu toco você, de como nossos corpos ficam bem juntos e como cada beijo que demos foi como tocar o paraíso. Você se lembra do nosso primeiro beijo, não lembra? – ele sorriu, um tipo inocente de sorriso que ela nunca havia notado naquele rosto antes – Eu lembro de como me senti. Como não queria te deixar escapar dos meus braços. Como queria sentir seu calor só mais uma vez... Você não pode estar cansada disso. Porque eu não vejo meios possíveis em todo o universo para evitar a eletricidade que há entre nós dois, .
Ela não tinha resposta, e nem adiantaria ter uma. Seus lábios foram cobertos pelos dele, tão calmos, precisos e deliciosos. Ele acariciava suas bochechas, e movia-se tão lentamente que o mundo poderia estar parando de girar naquele momento. E então entendeu o que ele quis dizer, entendeu por que, por mais raiva, nojo ou repulsa que sentisse, sempre voltava para os braços do filho do pastor. Porque momentos como aquele superavam todos os outros, eram tão mágicos e lhe roubavam a respiração de um jeito que era impossível não pedir por mais. A relação doentia de e fora construída num terreno perigoso, escorregadio, com todas as chances do mundo de afundar. Ela agia como uma tola, entregando-se, deixando-se levar, largando todas as armas que possuía no chão no momento em que a pele dela ia de encontro à dele, pelo simples fato de que a paz que lhe invadia, mesmo quando os movimentos eram selvagens e agressivos, era um tipo de paz que ela nunca havia experimentado antes. O tipo de paz que calava todos os seus monstros interiores. Os momentos em que seus lábios se tocavam e os corpos se juntavam eram os únicos onde cada um podia ser o que realmente era, e se entregar do jeito que mais agradável fosse. E então ela só queria que aquilo durasse pra sempre. Que ela pudesse pertencer a ele para sempre.
Mas eles nunca duraram o suficiente. Como aquele. não lhe deu tempo nem para que ela abrisse os lábios, deixasse-lhe tomar a boca e a carregasse até o pedaço mais próximo do céu. Ele separou-os, abriu os olhos lentamente e mergulhou nos dela, testa a testa, respiração misturada com respiração. E o sussurro seguinte fora milimetricamente calculado para destruir todas as defesas que ela havia construído anteriormente.
- Por favor, . Venha comigo. Nós precisamos conversar. Se não nos entendermos, eu te levo pra casa, esqueço de você, nunca mais te procuro. Só me dê a chance de tentar te convencer.
parecia tão sincero, tão verdadeiramente honesto pela primeira vez, mas então por que algo no fundo de seu cérebro continuava a gritar ‘perigo’? Ela nunca saberia se não descobrisse por si própria. Já havia caído por tantas vezes, e levantado depois somente para cair novamente, que uma vez a mais já não faria diferença em suas contas finais. Talvez mais tarde um sentimento de culpa lhe atingiria em cheio, talvez ficasse com raiva de si mesma por ser tão idiota. Mas agora já não importava mais. Acenou a cabeça positivamente, recebendo um selinho rápido em resposta, deixando-se levar até a Harley-Davidson vermelha que tão bem conhecia. colocou-lhe o capacete sobre os cabelos , e ela esperou que ele se sentasse antes de aconchegar-se na carona. Passou os braços em torno da cintura de , perguntando-se, confusamente, qual era o destino e como afinal terminaria toda a história que os dois haviam construído tão rápida e intensamente.

As viagens na Harley-Davidson sempre foram assustadoramente silenciosas e perigosas, mas aqueles 10 minutos por estradas frias e desconhecidas foram piores do que todas as outras que ela já havia enfrentado. E daquela vez tão singular, o medo do desconhecido que a aguardava não era a pior sensação que rondava a mente de . O pior daquela noite era que a sua volta para casa não era uma imagem que ela conseguia visualizar tão facilmente. Como se simplesmente não fosse acontecer, como todas aquelas vezes no orfanato em que a esperança lhe dera as costas e a única coisa que a esperava no fim de um corredor era a escuridão devastadora. Aqueles minutos não eram muito diferentes daquilo. E, tão repentinas como algumas conclusões anteriores, a noção de que despertava duas realidades diferentes e trazia memórias tão confusas a antigira. Abandono e aceitação, adoração. Dor e cura. Morte e vida.
permanecia mergulhada nesse tipo de pensamento existencial, quase como retrospectivas de uma vida patética, quando a motocicleta foi estacionada no terreno mais escuro existente em todo o planeta. A única palavra que ecoava em seu cérebro, alta e dominadora, era morte. Morte, morte, morte. “Estou perdida. Estou fodida. O idiota vai me matar”. Porque, se não essa, qual seria outra razão plausível para a presença dos dois ali? Conversar no escuro não era uma prática muito utilizada por duas pessoas que, na teoria, estavam tentando ‘se entender’, não? Mas o que ela poderia esperar do filho do pastor, se não aquilo? Capuccino e muffins numa filial iluminada de um Starbucks de beira de estrada com famílias sorridentes e palavras doces de conforto não faziam o estilo do filho do pastor. E se ela parasse para ser sincera consigo mesma ao menos uma vez, veria que aquilo também não fazia seu estilo. O perfume amadeirado não fora a única coisa que a viciara, afinal. O perigo e a velocidade disputavam a primeira posição do mesmo ranking.
Mas todos os seus sentidos se aguçaram à mínima movimentação de . O garoto levantou-se num impulso, deixando-a sozinha em meio à escuridão, sem mencionar uma palavra que fosse. A única coisa que ela continuava a ouvir eram as corujas solitárias da madrugada. Corujas eram o símbolo da sabedoria, mas também poderiam significar que tempos sombrios estavam chegando. A neurose consumia seu cérebro, bolando mil e uma teorias de como ele pretendia desfazer-se da vida que habitava seu corpo totalmente gelado. Tudo que esperava era que tivesse o mínimo de consideração pelo tempo que os dois passaram juntos e não a fizesse sofrer. Rápido e limpo. Sem derramamento de sangue. Sem a dor excruciante que ela já começava a sentir em seu âmago.
E então aconteceu. Rápido, instantâneo, indolor. Um clarão branco a cegou e a envolveu. Os religiosos acreditariam que os anjos tinham descido dos céus para lhe buscar. só esperava que não fosse ela que tivesse que pagar aquela conta de luz.
Contudo, as imagens se tornaram mais claras, ganharam formas definidas, se ajustaram para não machucar mais ainda suas pupilas já doloridas. Os contornos de pinheiros de mais de dois metros de altura, com agulhas proeminentes e de um verde-esmeralda quase bonito, se não fosse tão assustador naquele cenário. Mas a construção antiga à sua frente era o que mais lhe chamava atenção.
Era um posto de gasolina. Abandonado, aparentemente. Colunas de concreto se erguiam majestosas até a cobertura quadrada de ferro branco que servia de telhado. O prédio era pequeno, com janelas e portas de vido tão cobertas de sujeira que já não era mais possível enxergar seu interior, as paredes deveriam ser de um tom entre o branco e o creme antigamente, mas a pintura estava tão descascada que já não era mais possível saber. O chão era coberto de folhas murchas, formando um tapete espesso sobre os lugares onde antes os carros eram provavelmente estacionados. A Harley-Davidson, por sua vez, fora parada entre duas bombas de gasolina verdes e desativadas, tão próximas uma da outra que, se estendesse os braços, tocaria as duas ao mesmo tempo. Mas não era a nenhum desses detalhes que os olhos da garota se apegavam. Eles estavam presos na figura vestida de negro parada no meio daquela cena um tanto lamentável.
mantinha as mãos dentro dos bolsos da calça jeans de lavagem clara e desbotada, a jaqueta fechada até o último botão metálico próximo ao seu pescoço e os olhos impassíveis. Ou continuava viva, ou o idiota resolvera seguí-la até mesmo após a morte. A primeira opção era mais plausível. Era chegada a hora, então. Bang bang. Ela se sentia num filme de faroeste dos anos 60. Virando-se de modo a ficar frente a frente com o garoto, ela cruzou as pernas, um sorriso falsamente doce no canto dos lábios, a sobrancelha direita erguendo-se levemente, um ‘e aí?’ ironicamente estampado no rosto. Fora o suficiente para que ele se aproximasse, o rosto indefinível, como se tantas reações fossem sido misturadas ao mesmo tempo que, ao final, nenhuma delas fora o suficiente para descrever seu estado de espírito. E essa não era realmente uma boa notícia.
- Então, , – sua voz não continha um traço de emoção visível, era fria, dura como o concreto sob seus pés – por onde você quer começar nossa ‘conversinha’, meu bem?
- Uh, senhor precavido, você não formulou um SCRIPT? – Nada bom. Nada, nada bom. Aquela conversa seria pior do que abrir a caixa de Pandora* de algum deus grego desprevenido. A diferença é que no final nem a esperança* teria coragem de permanecer dentro dela – Que tal começarmos pelo motivo principal de toda essa merda? Por que diabos, , entre todas as outras idiotas da escola, sou eu que estou sentada numa moto no meio do nada, perto de onde Lúcifer perdeu as botas?
- Você já parou pra pensar que pode ser a mais idiota de todas elas? – riu quando os lábios rosados da garota formaram um pequeno ‘oh’ de indignação, mas o bom humor foi extremamente repentino. Sua boca logo se fechou numa linha fina, seus olhos queimaram nos dela – Motivos, motivos. Eu me pergunto todos os dias porque as pessoas se importam tanto com ‘motivos’. Estão sempre procurando raízes, razões para cada pequena porcaria que acontece no Universo, e assim acabam destruindo a mágica que aquilo exercia anteriormente, não é? Mas as pessoas costumam ser tão hipócritas às vezes, , que quando o motivo verdadeiro não as agrada, elas inventam um mais agradável aos ouvidos só para ter um pouco de felicidade novamente. Isso me irrita. E você vem e me pede motivos. Você sempre pergunta pelos motivos. Mas você, mais do que ninguém, , deveria saber – ele estava perto agora, e era impossível ignorar a presença de seus olhos ou de suas palavras perturbadoras – Nós nascemos, crescemos, vivemos anos e anos, e no final morremos, não é? Você sabe me dizer o motivo disso? Não, não sabe. E mesmo assim, você continua aqui, não? Eu ainda consigo sentir sua respiração falha. Eu ainda consigo sentir seu coração disparado. Por minha causa.
- Ah, claro, , nós vamos nos entender muito facilmente assim. Mas na realidade, isso foi só uma desculpa esfarrapada para me trazer aqui, não foi? E pela primeira vez você tem razão, eu realmente sou a maior idiota de todas. – ela cuspiu as palavras, o ódio já espumando por sua boca – Você é o pior ser humano que eu já tive o desprazer de conhecer. E o pior é que eu me deixei relacionar por você. Deixei-me levar, me deixei envolver. Te deixei me tocar e sinto nojo disso. Mesquinho, arrogante, tão seguro de si. Jaquetas de couro, motocicletas vermelhas e dinheiro roubado. Senhor ‘eu-não-gosto-de-motivos’. Senhor filho do pastor revoltado. Eu sou tão maduro, eu posso ter a vadia que eu quiser. Mas eu quero aquela, a órfã que já deve ter sofrido tanto na vida que não vai se importar se eu pisar em cima dela um pouco mais. MAS ELA SE IMPORTA SIM. – Suas palavras saíam gritadas, suas mãos fechadas em punhos acertavam o peito de sem dano algum, mas ela continuava batendo pelo alívio de descontar sua raiva – Eu te odeio tanto agora, que você não pode nem imaginar. Mas no fundo eu odeio mais a mim mesma. Porque por um momento, só por um momento, lá atrás, eu pensei que poderia ser verdade. Que eu poderia parar de sentir nojo de você. Parar de sentir nojo desse envolvimento de merda. Mas foi só outro truque. E eu caí. Eu volto a falar dos motivos sim. Você queria o quê, que eu me envolvesse com você pra depois você me humilhar publicamente? EU NÃO DOU A MÍNIMA. Vá em frente, faça a merda que você quiser, mas me deixe em paz depois, PORQUE EU NÃO TENHO MAIS FORÇAS PRA CONTINUAR. – ela estava fora de si, as palavras saíam sem controle, como se o filtro tivesse sido jogado fora. Mas não se importava. Ela só queria que parasse de dirigir aquele olhar de deboche a ela.

You need cooling, baby, I'm not fooling
(Você precisa se acalmar, baby, eu não estou brincando)


- Respire fundo, . Isso não faz bem pro coração, sabe, surtar assim desse jeito. – agia como se não houvesse ouvido uma única palavra do discurso raivoso da garota – Você precisa parar de ser tão neurótica e desconfiada, meu bem. Eu tenho um nome perfeito pra isso: Paranóia. – ele falou pausadamente, como se a garota fosse alguma débil mental que não conseguiria entender a linguagem humana – Eu vi você no intervalo. Te achei gostosa pra cacete. Como qualquer cara normal e interessado, eu fui pesquisar sua vida um pouquinho. O acaso nos colocou no mesmo barco, querida, e eu usei as cartas que tinha na manga. Simples assim. Por que isso não entra na sua cabeça?
- PORQUE VOCÊ NÃO É NORMAL, PORRA. Você é insano. É doentio, é tão falso quanto os peitos da sua amiguinha Kitty. Eu não consigo acreditar, . Eu estou aqui, olhando nos seus olhos, e eu simplesmente não consigo acreditar em você.
- Porque você não quer. – ele bufou, realmente parecendo sincero ou algo do tipo. Seu lábio superior tremia ligeiramente enquanto ele falava – E só você não vê isso. Você acha que sou cheio de lados obscuros e vidas secretas, e que me aproximei de você porque quero dominar o mundo um dia de cada vez, mas você não vê o quão estúpido isso é porque não quer, . Você não quer acreditar em mim, você escolheu isso. Eu posso não valer o ar que respiro, mas não me enquadre como um vilão, porque, se eu te trato como uma criança, é porque você pede e merece isso. E quer saber – seus olhos pareceram aumentar, brilhantes e desejosos, e aquele sorriso maldito se formara no canto dos seus lábios – Palavras aqui não adiantam. Nós simplesmente não nascemos pra isso, então, pro inferno. Eu cansei.

I'm gonna send you back to schooling
(Eu vou mandá-la de volta à escola)


As mãos fortes e um tanto ásperas voaram diretamente para o rosto da garota, mas não carinhosas e delicadas como antes, mas sim cheias de energia e urgência como geralmente eram. Mas dessa vez havia também um certo cuidado, como se ele se preocupasse, ou fingisse se preocupar, com a integridade física da garota. Seus lábios se chocaram com os dela, e embora o plano original da garota fosse não deixá-lo aprofundar o beijo, uma outra ideia se apossou de sua mente no momento seguinte. Abrindo a boca de vagarinho, deixou que a língua morna de deslizasse ao encontro da sua, aquele gosto viciante de whisky, cigarro e chiclete de hortelã se espalhando por cada canto sem sua permissão consciente. Um protesto baixinho tomou conta de seus músculos quando ela executou sua vingança premeditada. Os dentes desceram, brancos e certeiros, até a carne macia da língua do garoto, se fixando ali sem qualquer dó ou piedade, empregando o resto da força que ainda lhe restava naquela tentativa frustrante de afastá-lo de si.
E funcionou, pelo minuto seguinte, no qual resmungou alto e a deixou livre somente pelo tempo suficiente para que uma quantidade significativa de ar entrasse em seus pulmões. O garoto riu baixo, engolindo o sangue que a ferida deixara, colando sua testa à da garota, uma diversão nervosa passava por seu olhar. Ele sussurrou, concentrado na confusão presente no rosto de .
- Você acha que eu desisto tão fácil das coisas que quero, ? – Ele beijava sua bochecha, seu queixo, a ponta de seu nariz – Nem morto. Dor pode ser afrodisíaca, não pode? Excitante. Menina má. Eu gosto disso. Só não deixe seu masoquismo atrapalhar nossa diversão.

Way down inside honey, you need it,
I'm gonna give you my love
(Bem lá no fundo querida, você precisa disso)
(Eu vou te dar o meu amor)


Num giro rápido de quadris, sentou-se junto a ela na Harley-Davidson, de modo a deixá-la sem saída entre seu corpo e o guidão de metal. Ela arfou quando o garoto puxou-a diretamente para seu colo, as mãos apertando sua cintura delicada por cima da jaqueta de couro. Ele não se demorou a atacar seu pescoço com os lábios nervosos, beijando-o de um modo que deixaria enormes marcas vermelhas no local. A garota só conseguira morder seu lábio inferior em resposta, suas atividades cerebrais sendo anuladas. Ela não queria retribuir. Não podia retribuir. Mas sabia exatamente o que estava fazendo, enquanto escorregava a jaqueta para fora do tronco da garota, liberando seus ombros nus expostos pelo vestido tomara-que-caia azul, área que ele logo atacou com aquela boca que era capaz de enlouquecer qualquer uma em questão de segundos. Uma mordida leve havia sido depositada perto de sua clavícula quando um último pedido por clemência fora feito.
- , não, . – Ela sussurrou, apoiando sua cabeça no ombro do garoto quando este começou a beijar o lóbulo de sua orelha – Não faça isso comigo. Por favor. Deixe-me ir.
- Por que, se você não quer ir embora? – O joguinho de sussurros era desnecessário, já que os dois deveriam ser os únicos num raio de 50 quilômetros, mas tudo aquilo tornava o ar mais quente, quase rarefeito, a fazia derreter por dentro e perder todo e qualquer sentido que possuía – Chega, . Pow, pow. – ele imitou um revólver com os dedos, mirando-o na direção da testa de , simulando um disparo - Você foi atingida em cheio. Nós dois fomos. Não existe volta. Só rendição. – grudava a boca a seu ouvido, frisando a última palavra de modo que ficasse grudada no cérebro da garota – Rendição.

Wanna whole lotta love
(Quero um bocado de amor)


não deveria esperar por um direito de resposta. Ela sabia que não o teria. Por isso não ficou surpresa quando lhe beijou novamente, quente, rápido, molhado. À merda com os escrúpulos. Para o inferno com cada motivo negativo que seu inconsciente parecia lhe sussurrar para que ela desistisse daquilo. Mesmo que quisesse, não teria como fugir, teria? Mas pra ser sincera, teria sim. Conseguiria fugir, se fosse aquilo que ela realmente desejasse. Mas que se fodessem as aparências, afinal. Mentindo para si mesma, ela tentava se convencer de que tudo aquele desejo insano que nutria por era pura curiosidade desmedida e mortífera. Experimente da fruta proibida uma vez, e depois a abandone-a. Nunca mais volte a prová-la. Ninguém nunca mencionava que o que era proibido era geralmente viciante. era boa o suficiente em ignorar esse tipo de informação.
Então ela somente aceitou, jogou seus braços em volta do pescoço do garoto, endireitou a coluna, beijou-o com mais afinco. Suas mãos fizeram o caminho conhecido até seus cabelos, embrenhando-se entre eles, bagunçando-os, arrancando fios distraidamente. O sentimento de precisar mais e mais de a consumia por inteiro, como fogo em gasolina, derradeiro e impossivel de fingir ser inexistente. sugava seu lábio inferior, e agora ela dividia sua atenção entre a sensação que isso lhe causava e o desafio que era arrancar os botões da jaqueta do garoto, um a um, antes que todos rolassem pelo chão e ela finalmente conseguisse livrá-lo da quantiedade de couro negro que lhe cobria, que juntamente com a camisa xadrez azul fora pelos ares. O que foi suficiente para despertar o lado mais selvagem de , levando-a a tirar a camiseta branca que ainda restava em seu corpo e apertando as coxas da garota de modo a levantá-la, deixá-la alguns centímentros mais alta que ele. passava os lábios pelo seu decote, a cada movimento que fazia, fosse passando as unhas compridas pelo peitoral forte e nú dele, fosse pelo mexer involuntário de seus quadris em seu colo. Tudo parecia atiçá-lo, instigá-lo, deixá-lo com mais sede. Sede de e seu corpo bem delineado, seus gemidos baixos em seu ouvido, suas mãos numa temperatura entre o quente e o frio deixando rastros de calor em seu corpo e sede de sua personalidade bipolar e inconstante.

You've been learning, baby, I been learning
(Você tem aprendido, baby, eu fui aprendendo)


E então todo aquele contato já não era o suficiente para ambos. Mais. Essa era a palavra que vagava por eles, como se estampada em suas pálpebras e na ponta de suas línguas. Mais e mais. plantou as mãos nas costas da garota, segurando-a firme para que pudesse deitá-la sobre a motocicleta, sua cabeça repousando sobre a proeminência do farol, sua coluna se ajustando ao desenho curvilíneo, seus olhos brilhando de ansiedade. E os de grudados nos dela, como se nada pudesse ser mais interessante do que aquilo. Mas ele logo se deu conta de que podia. Seus dedos desenharam a costura lateral do vestido azul, quando um sorriso cheio de segundas intenções iluminou seu rosto. Ele abaixou-se, ficando na altura do rosto de , sugando seus lábios por um segundo antes de sussurrar:
- Eu espero que você não goste muito desse vestido.
- Por quê? – sua voz saiu mais divertida do que ela esperava. Oh, inferno, ela realmente estava gostando de tudo aquilo, observando seus próximos movimentos, deixando que ele a dominasse e a fizesse uma parte de seu próprio corpo.
riu baixinho antes de posicionar as mãos exatamente ao meio de seu decote, deslizando alguns dedos para dentro dele, deixando a pele da garota em chamas. E então, calmo e sereno como a noite, começou a rasgar o vestido, com uma precisão que assustaria uma desavisada. Ele assistia maravilhado ao tecido cedendo, a pele alva aparecendo centímetro por centímetro, até que fosse partido completamente. aproveitou para se desfazer dos sapatos de salto, deixando-os cair ao lado da motocicleta. não pode deixar de sorrir ao jogar o resto de pano agora inútil sobre uma das bombas de gasolina e notar os seios fartos e redondos de , com bicos rosados que imploravam para serem tocados. Descendo os olhos mais alguns centímetros era possível visualizar o único pedaço de tecido que ainda cobria o corpo da garota, uma calcinha de renda preta e pequenos laços nas laterais.
- O vestido não era meu. – ela sussurrou, visivelmente corada por estar recebendo tanta atenção enquanto usando quase nenhuma peça de roupa. Mas os olhos de pareciam aquecer cada pedaço descoberto de seu corpo.
- Ops. – Ele não parecia arrependido. Sua boca se encaixou na curva do pescoço da garota, e ele sussurrou contra a sua pele – Tenho vontade de fazer isso desde aquele primeiro dia no seu quarto, aquele seu maldito sutiã de renda. Parece que valeu a pena esperar.

All that good times, baby, baby, I've been yearning,
Way, way down inside honey, you need it,
I'm gonna give you my love
(Todos aqueles bons tempos, baby, baby, eu tenho tido saudades)
(Bem, bem lá no fundo querida, você precisa disso)
(Eu vou te dar o meu amor)


Ele cobriu os lábios dela com os seus uma última vez, num beijo calmo, quente e sem pretensão de terminar, enquanto suas mãos escorregavam em direção aos seus mamilos, friccionando-os, apertando-os, estimulando-os. Mesmo sob o tecido grosso da calça jeans dele, conseguia sentir um volume crescente sendo pressionado contra seu quadril, e aquela mistura de sensações a fazia arfar entre os beijos, os olhos apertadamente fechados, somente sentindo cada novo prazer que parecia ensinar a seu corpo que agora já deveria ter atingido uma temperatura febril. Suas mãos passeavam por cada músculo definido nas costas do garoto, e cada pedacinho de si parecia pedir que seus corpos se fundissem num só. A boca de agora trilhava beijos por seu pescoço, quase como se tentasse desviar a atenção das intenções de uma de suas mãos atrevidas descendo pela lateral do corpo da garota até chegar a um dos laços negros de cetim que prendiam sua calcinha. Ele o desfez rapidamente, pressionando os dedos naquela região, desenhando o caminho com o dedo indicador até o outro laço, livrando-se dele tão magistralmente quanto do primeiro. Não foi difícil puxar o fino tecido, depositá-lo junto aos restos do vestido e então provocá-la com seus olhos enlouquecedores. Era a primeira vez que se encontrava nua em frente a um homem, e tinha noção de cada parte de seu corpo vibrando, e cada parte do dele em contato com o dela. Fechando os olhos novamente, ela esperou, e riu baixinho, quase como de nervoso, ao ouvir as palavras dele.
- Ah, ...Ah, meu bem...
Seus lábios foram pressionados contra um de seus seios, para depois envolvê-lo com a boca, deslizando a língua com avidez por todo a extensão de pele macia e eriçada, mordiscando o bico já endurecido, repetindo os movimentos de novo, de novo e de novo. A palma de sua mão direita passeava pela intimidade extremamente umedecida da garota, enviando diferentes tipos de arrepios para cada músculo paralisado de surpresa daquele corpo tão feminino, tão delicado. concentrava-se em estimular, massagear seu clitóris com uma calma que parecia quase dolorosa se comparada à rapidez com que agora ele sugava seu outro seio. havia perdido cada pingo de sanidade que lhe restava a cada mexer mínimo de dedos de em si, mas não se importava exatamente com isso. A única coisa que importava no momento era acabar com aquela agonia, tê-lo dentro de si, aplacar a necessidade que ela tinha de . No mesmo instante talvez, compreendera que já era insuportável permanecer naquele estado.

You've been cooling, baby, I've been drooling
All the good times, baby, I've been misusing
(Você tem se acalmado, baby, eu tenho babado)
(Todos os bons tempos, baby, eu tenho abusado)


levantou-se rapidamente, deixando-a sozinha para tentar absorver a maior quantidade de ar que pudesse. Mas ela estava mais preocupada em assistí-lo despir os jeans, depois de retirar uma embalagem de preservativo do bolso de trás. Maldito. não saberia dizer se tudo aquilo fora premeditado ou se simplesmente era um homem prevenido, mas o fato era que logo ele já havia chutado os tênis de lona negra para algum lugar no concreto, juntamente com as meias brancas, e voltado a sua posição inicial em cima da garota. Agora, sendo separado apenas pelo tecido fino da boxer preta que ele usava, o volume que pressionava a intimidade agora descoberta da garota a fazia morder o lábio inferior para suprimir um gemido baixo que insistia em escapar por sua garganta. O encaixe deles naquele momento era tão perfeito, e o modo como o peitoral largo e definido dele pressionava os seios tão delicados era como uma explosão no cérebro. Ainda havia um resto de voz fraca tentando lembrá-la de que aquilo era terminantemente errado, de que ela poderia muito bem se arrepender depois. Mas também havia aquela voz, alta, clara, impossível de ignorar, que gritava como aquilo era excepcional. Maravilhoso. A lembrava de como ela não se importaria de morrer nos braços dele, só para nunca deixar de sentir aquele tipo de coisa. Cometeram tantos pecados juntos, e aquele era tão maior, tão mais profundamente perigoso e delicioso que simplesmente apagava todo o resto. O resto não importava. Só importava a voz dele, sua respiração contra sua boca entreaberta, os olhos profundos nos quais ela sempre mergulhava sem volta aparente.
- E aí, – sussurrava, seus corpos se movendo um contra o outro lentamente, inconscientemente – você está pronta pra isso?
- Hm. – resmungou. Não era uma pergunta que precisasse ser feita. Não era a questão de estar pronta ou não. Era a questão de precisar daquilo. Dele. Por todo lugar.
- Vou interpretar isso como um sim. – ele riu daquele jeito tão dele, roubando um selinho rápido antes posicionar as mãos da garota na barra de sua boxer – Só relaxe, sim? Relaxe e deixe tudo por minha conta.

Way, way down inside I'm gonna give you my love
I'm gonna give you every inch of my love, gonna give you my love
(Bem, bem lá no fundo eu vou te dar o meu amor)
(Eu vou te dar cada centímetro do meu amor, vou te dar o meu amor)


não precisava comandar seus movimentos, ou dizer a ela exatamente o que fazer. Suas próximas ações foram automáticas, quase necessitadas. descia calmamente o tecido negro, suas unhas arranhando a pele à medida que esta ia ficando exposta. Ela bufou alto quando o pano recusou-se a descer mais alguns centímetros, ficando preso entre os joelhos do garoto. Mas ele já parecia preparado para aquilo também, levantando-se um pouco rapidamente e retirando a última peça de roupas restante naquela cena. dedilhou seu membro ereto, quase que inocentemente, arrancando dele um suspiro pesado e um sorriso malicioso. rasgou a embalagem do preservativo com a boca, não se demorando em colocá-lo em seu devido lugar. Arrumando-se sobre o corpo de , ela conseguia sentí-lo se acomodando entre as suas pernas, roçando lentamente a sua entrada, enquanto suas mãos acariciavam sua cintura. A garota não hesitaria em dizer que poderia desmaiar a qualquer minuto. Mas, pela primeira vez, sorriu-lhe com um mínimo de ternura, antes de piscar um olho e começar, lentamente, a penetrá-la, os olhos grudados em seu rosto.
- Shh. – o garoto sussurrou-lhe, os lábios distribuindo beijos por toda a extensão de seu colo ao ver franzir o rosto e apertar os lábios. A garota sentia um certo desconforto, uma sensação de aperto, um estranhamento. O membro de lhe preenchia totalmente, e ela precisou de alguns minutos para se acostumar a isso, até que a combinação dos beijos molhados e das palavras do garoto em seu ouvido lhe relaxaram plenamente – Se acalme. Eu nunca a machuquei, não é? Definitivamente não é agora que eu pretendo começar.

Way down inside, woman, you need love.
Shake for me, girl, I wanna be your backdoor man
Keep it cooling baby
(Bem lá no fundo, mulher, você precisa de amor)
(Balance pra mim garota, eu quero ser seu amante)
(Fique calma, baby)


E então as dores, o desconforto, tornaram-se secundários no momento em que começou a mover-se, primeiro lento, calmo, mas a cada segundo aumentando a força, o vigor, o desejo. Ele se apoiava nas bombas de gasolina, o esforço ressaltando cada músculo bem definido de seu corpo, toda sua beleza masculina tão aparente naquele momento, mas tão escondida no dia-a-dia. mal acreditava que um dia chegou a pensar que o garoto não fosse atraente, porque aquele corpo ali, à sua frente, provava o contrário. Ela quase se afogava em excitação só de olhá-lo, um filete de suor escorrendo pela lateral de sua testa. Mas as investidas, o modo como saía de seu corpo e logo voltava num deslize ágil deixavam suas pernas moles, libertavam gemidos altos e palavras desconexas do fundo de sua garganta. Ela precisava se apoiar em algo, mesmo sabendo que não iria deixá-la cair, ela precisava se manter acordada para não perder um momento sequer daquilo tudo. Que apoio melhor do que o pescoço perfumado do filho do pastor, seu corpo quente, suas mãos fortes?
jogou seus braços ao redor dos ombros de , as unhas fincadas na carne rígida, a satisfação de ouvir um pequeno gemido vindo dos lábios que ela tanto gostava de beijar. Foi a vez dela de beijar languidamente seu pescoço, mordiscá-lo, deixar sua marca ali. já não conseguia lidar com a intensidade dos movimentos de sem deixar que seu quadril se movesse minimamente, ajudasse-o, puxasse-o de volta. A contração dos músculos internos de sobre o membro de o enlouqueciam, e ele já não via saída se não deixar os instintos mais profundos se libertarem, seus prazeres os dominarem totalmente, os dois tocarem o paraíso. Ele sussurrava ao seu ouvido, incitando-a a chegar ao seu ápice, provocando-a, querendo aquilo mais do que nunca.

Keep it cooling baby
(Fique calma, baby)


E então ela já não aguentou, a mistura da voz de rock pornô de em seu ouvido lhe pedindo tão suplicadamente para se deixar levar pelo prazer e os movimentos dos corpos em atrito a fizeram soltar um gemido mais alto que todos os outros, a pronúncia exata do nome do garoto. E ondas irrefreáveis de prazer se espalharam por seu corpo, trazidas por explosões de energia em cada músculo, anestesiando-a, fazendo-a imaginar algo tão abstrato como nuvens douradas ou um paraíso que só existia em sua cabeça. Em toda a sua vida ela nunca havia se sentido assim, tão próxima ou ligada a alguém, tão feliz ou relaxada. Era a melhor sensação de todo o Universo, e ela não conseguia parar de se deleitar com ela. a seguiu pouco depois, desabando cuidadosamente sobre ela, arfando em seu ouvido. Ainda que de seu modo torto e recheado de mentiras, ele sentia-se bem. Demais. Deveria ser proibido sentir-se daquele jeito junto àquela garota, como se ela fosse única e nenhuma outra transa com nenhuma outra garota fosse ser tão boa como aquela. Os dois estavam afundados até o último fio de cabelo um no outro, as respirações descompassadas se misturando, os olhos numa conexão inquebrável, os corpos suados já acostumados com a presença alheia. Cansada como nunca antes, agora ela lutava para manter os olhos abertos, para manter aquele momento dos dois, aquele momento verdadeiro e inédito. Mas, ele, talvez tão exausto quanto ela, reparou, separando-se da garota, deixando seu corpo quente, causando uma sensação de vazio a ambos. não podia dormir. Ela precisava se manter inteira. Deixou seus olhos vagarem até ele, livrando-se do preservativo, vestindo a boxer e os jeans surrados novamente. Isso a preocupou por um instante, quando lembrou que o vestido que havia lhe emprestado havia sido completamente destruído pela selvageria de . Mas ele havia pensado nisso também, voltando para perto dela, vestindo-a com sua calcinha de renda e a jaqueta de couro, mesmo que ela não houvesse pedido ou emitido alguma palavra. O cansaço era quase impossível de se aguentar agora, mais ainda quando ele pegou-a nos braços num impulso, o pescoço dolorido pelo atrito com o metal da motocicleta. não sabia para onde estavam indo, mas ao menos no final daquela noite, ela confiava em . Rindo baixinho uma última vez, ela sussurrou contra a pele de seu pescoço, antes de dormir profundamente:
- Feliz aniversário, .
curvou os lábios num sorriso discreto. Com ali, indefesa em seus braços, toda a noite valera à pena. Seu grande trunfo afinal, fora a capacidade de esconder mentiras, mascará-las como verdades simples e bobas. Se para a garota tudo aquilo havia levado a um empate no jogo, para ele, era um passo a mais para a vitória.

*Master of Puppets é o título de um clássico do Metallica : Mestre de Marionetes.
* Under Pressure é o título da parceria entre David Bowie e o Queen: Sob Pressão.
* 4 de Julho: Independência dos Estados Unidos, famoso por seus fogos de artifício.
*Caixa de Pandora: A Caixa de Pandora é um artefato da mitologia grega, tirada do mito da criação de Pandora, que foi a primeira mulher criada por Zeus. A "caixa" era na verdade um grande jarro dado a Pandora, que continha todos os males do mundo. Quando Pandora abriu o frasco, todo o seu conteúdo, exceto um item, foi liberado para o mundo. O item remanescente foi a esperança.
* A música do capítulo é Whole Lotta Love, uma música sensacional do Led Zeppelin

Capítulo 13 – Dark Paradise

Eram feixes de luz. Raios de sol perdidos que conseguiam atravessar as grossas camadas de poeira e sujeira que recobriam as grandes janelas de vidro. Eram poucos, mas iluminavam o lugar, pintavam as paredes brancas com um amarelo luminoso. Mas ela enxergava azul. Azul claro. Azul hospital. A imensidão azul era macia. Confortável. Poderia ser uma nuvem. Mas nuvens não costumavam ser , costumavam? E nuvens não possuíam cheiro de café. Ao menos aquilo nunca fora dito nas aulas de ciência. Nuvens de café. Seus olhos não queriam se abrir decentemente para confirmar ou não as teorias mal formuladas. Quase como uma recém-despertada de um coma, ela não queria enfrentar a realidade. Principalmente por não saber qual era exatamente aquela realidade que estava prestes a encontrar.
Mas a curiosidade sempre fora o ponto fraco de . Grogue de sono, ela tentava abrir os grandes olhos , uma voz interior lhe sussurrando que aquela não era a sua casa. Onde diabos a garota estava? Mas, na mesma velocidade em que seus cílios se separaram de vez, e o ambiente foi focalizado, as memórias lhe inundaram o pensamento. A única coisa que ela conseguiu fazer foi arfar, alta e longamente.
A cama em que estava deitada era de casal, extremamente simples, a cabeceira de madeira branca servindo de apoio para sua cabeça confusa. A imensidão azul que antes enxergava com os olhos semi-abertos era na verdade um conjunto de travesseiros fofos e lençóis comuns. Na parede sul, balcões e aéreos de madeira escura formando uma pequena cozinha, um fogão e a geladeira branca em linha reta com os outros móveis. E ao leste, ao lado de uma porta pintada de marrom, um espaçoso sofá estampado, lençol e travesseiro brancos e amassados sobre ele.
A garota não sabia exatamente onde estava, mas alguém podia claramente morar ali. Ela notou que continuava usando a jaqueta de couro com que havia lhe coberto na noite anterior. Noite que renderia inúmeras outras noites em claro em que cada acontecimento seria analisado, e possivelmente, mascarado de arrependimento.
Levantou-se vagarosamente, tropeçando em seus próprios pés. Não confiava totalmente em seus olhos, muito menos em seus movimentos, apesar da mínima quantidade de álcool ingerida na véspera. Era uma coisa um tanto psicológica, não confiar em si mesma. Tivera provas suficientes de que seu corpo não lhe obedecia do modo como ela gostaria. Ele se jogava, se rendia, achava maneiras de bloquear os pensamentos sábios, abafá-los entre sensações. Muito divertido. Teria que ficar de olho em si mesma. Apoiou-se em um dos balcões de madeira, procurando por um pouco de equilíbrio. E então aquele formigamento estranho atrás das orelhas, aquele arrepio que atravessava sua nuca e a conhecida impressão de estar sendo observada tomaram conta de si. não precisava levantar os grandes olhos para descobrir quem era o seu admirador, mas o fez mesmo assim, só para honrar a fama de grande tola que havia adquirido com o passar do tempo.
estava encostado no batente da porta que parecia levar até um pequeno banheiro, calças de linho que combinavam perfeitamente com sapatos negros extremamente bem polidos e uma camisa azul clara meio aberta mostravam que ele tinha voltado aos seus trajes de filho pródigo. Mas o sorriso sedutor no canto dos lábios não conseguia esconder o tipo de alma que animava aquele corpo que a envolvera somente algumas horas atrás. A situação só piorara quando notou os cabelos molhados, pingos d’água escorregando lentamente por entre os fios muito , provocando um tipo diferente de coceira em suas mãos, uma vontade de tocá-los, de sentir sua textura mais uma vez. Mas ela se conteve. Não sabia como agir. Muito menos o que deveria fazer. Já não lembrava em qual casa do jogo estava parada, e nem qual fora o último número que os dados indicaram.
- Bom dia. – ele soprou, olhando a garota da cabeça os pés, como se alguma memória conveniente o agradasse profundamente. E ela poderia apostar todas as suas fichas de que sabia exatamente qual lembrança ele havia escolhido. Corar já não era uma opção, era uma certeza irrevogável – Dormiu bem?
- Acho que sim. Não sei exatamente, considerando o fato de que eu teoricamente desmaiei. – ela tentava ser razoavelmente agradável. Mesmo que se afogasse num constrangimento profundo – Onde estamos?
- No mesmo lugar onde estávamos, aonde mais? – riu, indo até o balcão mais longe da garota, servindo-se de uma xícara de café diretamente de uma cafeteira repleta de botões.
- Você quer dizer o posto de gasolina?
- Acho que isso aqui não é mais um posto de gasolina há mais ou menos uns dez anos, mas, se você gosta de pensar assim, quem sou eu para contrariar?
- Isso aqui... é seu? – ela não conseguiu mascarar um certo choque no rosto quando ele confirmou com a cabeça, tomando um longo gole de sua xícara – Como?
- Sistema de trocas. Um amigo precisava de dinheiro, eu emprestei, ele não tinha como me devolver, então passou o posto de gasolina abandonado da família pro meu nome. – deu de ombros, como se não fosse grande coisa – É bem útil depois de uma noite de trabalho duro. – ele riu, achando graça da própria piada mal feita – Sabe, não acredito que dona Angel acharia divertido se eu chegasse em casa suado, cheirando a cigarro e álcool, e usando jaquetas de couro. Quer sobreviver nesse mundo? Desenvolva seus próprios truques. – ele jogou os grandes olhos em direção à garota, o divertimento estampado no rosto – Mas eu não preciso dizer isso pra você, não é, senhorita ‘borrifo cerveja nas minhas roupas antes de chegar em casa’? Esma deve enlouquecer com isso.
- Como você sabe ?
- Já vi você fazendo do lado de fora da sua casa, à noite. Aliás, – secava o cabelo com uma toalha vermelha, despreocupadamente, como se fosse normal observá-la em momentos como aquele - o seu talento para voltar pro seu quarto pela árvore ao lado da janela é impressionante.
- Cada um se vira como pode. Cada um esconde o que precisa esconder, não é? - Aquela revelação tão simples fizera a mente de dar um giro de 360 graus. Quantas vezes ele a teria observado sem que a mesma reparasse? Quantas noites ele estivera por perto sem que ela desconfiasse? Provavelmente como parte da ‘pesquisa’ que fizera sobre a vida da garota, mas ela não tinha certeza se ficava mais tranquila com aquilo. Resolveu mudar de assunto – É engraçado, não é? Você tentando esconder que não presta, eu tentando esconder que sou uma pessoa decente afinal. E às vezes nós fazemos isso tão mal, mas ninguém repara...
- Porque ninguém quer reparar, . As pessoas não gostam de sair de sua zona de conforto. O novo assusta, desencoraja, machuca. – remexia em um armário alto que ela não havia notado antes, concentrado em procurar alguma coisa em meio ao que pareciam mais lençóis e toalhas – É mais fácil para eles acreditarem que eu sou um honorável religioso e que você é uma prostituta drogada. – a última frase doera um pouco em seu estômago. Prostituta drogada. Não era muito elogioso. Era assim que ele a via? Como uma prostituta? não falara nada sobre a noite anterior. Embora ela não esperasse abraços e beijos de bom dia, aquela frieza era um tanto estranha – Mas no final, todos saem ganhando, não é mesmo? Aqui – ele lhe entregou uma toalha branca e macia, juntamente com uma camisa de botões de um azul muito escuro – Tem água quente no chuveiro hoje, sinta-se sortuda. E você pode vestir isso – apontando para a camisa – enquanto o socorro não chega.
- Hm. – murmurou, perguntando-se o que ele queria dizer com ‘socorro’. Direcionando-se lentamente ao banheiro, ela deixou seus olhos pousarem novamente sobre o sofá desarrumado no caminho, a boca abrindo-se ligeiramente para deixar escapar uma pergunta que deveria ter sido guardada para si mesma – Por que você dormiu no sofá?
- Você não esperava que dormíssemos abraçadinhos, sua cabeça no meu ombro, de mãozinhas entrelaçadas, esperava? – riu alto, como se aquilo fosse o maior absurdo que já houvesse saído de sua boca, ignorando-a novamente, toda a sua atenção voltada para um pequeno celular prateado na palma de sua mão direita.
- Não. Claro que não. – engoliu em seco, fechando a porta de madeira atrás de si. Era difícil de admitir que, por algum motivo obscuro, aquilo havia doído. Como um soco, acertando diretamente seu peito, fazendo sua garganta ficar apertada. Mas não havia motivos para isso, não é? nunca havia lhe prometido nada. Aliás, ela nem ao menos gostava do garoto! Com exceção do lado sexual. Ela nunca deixaria de se sentir completa e furiosamente atraída pelo filho do pastor.
Era um banheiro pequeno, azulejos de um tom de cinza esbranquiçado cobrindo-o do chão ao teto. Um vaso sanitário de mármore branco combinava perfeitamente com uma pia do mesmo material, sobre a qual pairava um espelho ovalado, revelando o quão acabada a garota estava. Cabelo extremamente bagunçado, olhos borrados por rímel preto, expressão de decepção eminente. Despiu-se rapidamente, adentrando o mínimo box de vidro, deixando que a água quente escorresse pelos seus cabelos, relaxasse seus ombros, clareasse sua mente. Era melhor assim, não? Eles haviam transado, conseguira o que queria, a deixaria em paz dali por diante. Viveriam suas vidas separadas. Exatamente o que ela desejava. riu sem humor algum, encostando a testa no vidro gelado. Mas que grande mentira ela estava tentando impor a si mesma.
Mas enfrentaria aquilo de cabeça erguida, o que aprendera a fazer durante toda a sua vida. Terminou seu banho rapidamente, o nariz erguido no ar, sua melhor expressão de força impressa no rosto tão jovem. Deixou o cabelo molhado, vestindo a camisa que pertencia ao filho do pastor. O decote formado pelos inúmeros botões que ela não se preocupara em fechar era tão acentuado quanto o do vestido destruído, mas aquela peça não lhe marcava as curvas como a anterior, muito pelo contrário. Somente deixava uma parte de suas coxas descobertas, mas, avaliando-se no espelho uma última vez, gostou do que viu. Havia um apelo diferente em vestir uma roupa que pertencia a , uma sensualidade escondida na dobra das mangas, traços do perfume amadeirado que ele usava memorizados no tecido. Calçando seus bons e velhos sapatos de salto negros, um último suspiro prolongado antes de reabrir a porta.
servia-se de outra xícara de café, ainda entretido pelo mesmo celular que a garota vira antes em suas mãos. Ela não esperava que ele a olhasse instantaneamente, e ele não o fez, confirmando todas as suas expectativas. forçou um riso baixo, encostando-se no batente da porta, da mesma maneira que ele fizera alguns minutos antes.
- Então, é agora que você me manda embora da sua vida? – Sua voz saíra baixa, doce, sensual, de uma maneira que ela realmente não esperava. Com os braços cruzados sobre os seios, a garota esperava o filho do pastor esboçar uma reação, o coração sem sossego em seu peito.
Mas a única coisa que fez foi sorrir. Abrir aquele sorriso de canto de lábios extremamente atraente, antes de tomar mais um gole de café, largando a xícara e o celular em cima da pia sem muito cuidado. Os olhos a encaravam de uma maneira que tirava qualquer vestígio de oxigênio de seu corpo, a cada pequeno passo que ele dava em sua direção. Foram milésimos de segundo que separaram as duas ações seguintes, quando ele chegou perto demais da garota, escorregando suas mãos por suas costas, até que chegassem as suas nádegas, onde ele as posicionou estrategicamente para puxar o corpo de para cima. A dor localizada no alto de sua cabeça quando ele a prensou sem cerimônias contra a parede logo foi esquecida. Suas pernas se posicionaram, quase que automaticamente, ao redor da cintura do filho do pastor, como se pertencessem àquele lugar. Testas coladas e olhos que não conseguiam desgrudar-se, uma mistura dos e dos , e a boca tão macia de deslizando sobre a dela, sem pressa, mas despertando nela aquele sentimento tão conhecido e ao mesmo tempo tão estranho. Aquela vontade de mandar o mundo pro inferno. Como se o mero contato físico entre os dois fosse seu remédio para aplacar todas as dores que lhe afligiam. Como morfina. E a dose diária necessária pra sua sobrevivência se tornava cada vez maior.
Quando finalmente a beijou, o resto ficou em segundo plano. Todos os medos, todas as preocupações. O modo como as bocas se moviam uma contra a outra nunca fora tão urgente. Tão essencial. Igual, mas de certo modo diferente. O gosto de café da boca dele destruía cada traço de dúvida, extinguia dela o que chamava de sanidade. A mão dele voando pelo seu corpo despertava lembranças que a deixariam vermelha se ela não estivesse tão concentrada em . Ele sugava seu lábio inferior lentamente, e aquela resposta era suficiente. Não. Ele não a tiraria de sua vida. Ao menos não naquele momento.
A garota não queria deixá-lo ir quando ele fez menção de afastar-se. Jogou os braços em volta de seu pescoço, puxou-o mais perto. E pela primeira vez deixou que ela o comandasse, que recomeçasse mais um beijo, seguido de inúmeros outros, até que não passassem de toques de lábios repetidos, a tensão sexual presente somente nos olhares profundos e cheios de significados que os dois trocavam. Mas ambos sabiam que por mais que quisessem externar todos os desejos ocultos de suas mentes pecadoras e jogar cada peça de roupa no outro lado do cômodo, não podiam. A realidade os chamava baixinho a cada tique-taque do relógio. Depois do último beijo trocado, o mais longo deles, sorriu. Um sorriso diferente dos outros. O tipo de sorriso que faria sorrir junto.
- Às vezes você é tão tola, meu bem. – ele soprou em seu ouvido, antes de depositar os lábios suavemente sobre seu pescoço – Mas eu gosto. É sexy.
- Não me provoque. – devolveu, deslizando as unhas compridas sobre a camisa clara que ele vestia, quase como uma punição – Você não sabe o quão irritada eu estou depois que descobri que não precisava ter detonado meu pescoço naquela maldita moto lá fora, quando aqui dentro havia uma cama extremamente confortável.
- Isso. Minta pra mim. Diga que não gostou. Diga que não vai ficar na sua memória pela eternidade. – Ele a soltou de repente, voltando para sua xícara abandonada. bufou ao notar que o maldito sorriso de escárnio habitava seu rosto novamente. Outra grande piada. Ela era uma grande piada para ele.
- Você é impossível. – ela resmungou – Me faz ir de 0 a 100 num minuto, e depois voltar ao 0 drasticamente. Odeio você.
- Igualmente, meu bem, igualmente. – Mas ele já não estava prestando atenção em . Um ronco de motor do lado de fora do posto de gasolina o havia atraído. Ótimo. Mais bandidos. Todos os que ela havia conhecido na noite anterior não foram suficientes? Seguindo até as grandes portas de vidro, ela espiou por cima de seus ombros largos.
Estacionada ao lado de uma das grandes colunas brancas, havia uma moto muito menos impressionante do que a Harley Davidson que possuía. Era simples, de um azul elétrico chamativo demais, com labaredas de fogo gravadas nas laterais. Montados nela, um casal excessivamente excêntrico para ser verdade. A garota de longos cabelos muito loiros e cacheados usava sapatos de saltos roxos que faziam o par perfeito com o vestido lilás estampado com gatos brancos, o qual balançava em suas tentativas de levantar-se. Como a haviam convencido a colocar o capacete negro, não fazia ideia. O garoto que estava na direção era alto e magrelo demais, olhos assustadoramente roxos e um sorriso quase desconfigurado de tão esticado, se vestia como o da noite, jaqueta de couro sobre camisa xadrez e calça jeans gasta demais. E, para seu desgosto, a garota conhecia as duas figuras que agora brigavam ao tirar os capacetes. Angelina e John. A irmã e um dos amigos de boate de .
- ! – A voz estridente de Angelina ecoava pelo posto abandonado, uma agitação nervosa em cada passo que ela dava na direção do irmão – Esse crápula nojento dos infernos tentou me assediar de casa até aqui. Por que você não pediu para o Flanagan ir me buscar? Ele ao menos é um cavalheiro.
- Shh, não tenho tempo pra isso agora. – A seriedade havia voltado ao rosto do garoto, as mãos no bolsos da calça enquanto ia na direção de John – Leve lá pra dentro. Você sabe o que fazer. Tenho assuntos mais importantes que suas histerias para resolver.
- Grosso. Por que eu te faço favores mesmo? – Angelina já empurrava de volta ao apartamento improvisado, resmungando baixarias pelo caminho.
- Porque eu te pago muito bem pra isso. – Foi a última coisa que a garota ouviu antes que a porta fosse fechada com força. Angelina girou os calcanhares quase em câmera lenta, jogando a intensidade dos grandes olhos cinzas em cima de . Eram os mesmos olhos da matriarca dos , intimidadores, como se conseguissem ler cada linha fora de ordem dos pensamentos da garota. Naquela situação, eles a analisavam de cima abaixo, como se medindo cada centímetro bagunçado que era naquele momento.
- Eu realmente não sei se quero saber o que vocês dois aprontaram ontem. – ela empinou o nariz, dirigindo-se a uma grande bolsa cor de rosa que a garota não havia notado inicialmente – Mas eu vi os restos do vestido lá fora. Que pena. Parecia bonito.
- Ahn. – ela realmente não sabia a resposta apropriada praquilo – Por que você está aqui, mesmo?
- Porque você não vai querer chegar em casa desse jeito. – Angelina organizava ordenadamente objetos sobre os lençóis bagunçados da cama de casal do lugar – E você por acaso reparou no olho do meu querido irmão? – Ela parou subitamente, encarando por um segundo – Espera, não foi você que fez aquilo, foi?
- Não! Foi Patrick...
- Ah. O bonitinho. – Angelina deu de ombros – Ao menos ele não é um nojento como John. Argh. Bom, venha cá. E não reclame, não é nada fácil achar um modelo decente às pressas. Num domingo de manhã. No fim do mundo.
Ela segurava um vestido cor de creme, com alças de um verde envelhecido e pequenas flores roxas por toda a sua extensão. Aquele, definitivamente, não era o tipo de roupa que a falsa rebelde usaria de jeito algum. Ela só precisava achar um jeito de dizer aquilo para a senhorita olhos de gato.
- Hm...
- , meu bem. – Angelina usava a mesma maldita expressão eternizada pelos lábios pecadores de seu irmão. Nada bom – me disse que você seria...resistente. Mas não é uma opção. E hoje não é um dia qualquer. Vista a droga do vestido, sim? Você vai entender tudo mais tarde – A peça de roupa fora jogada de qualquer jeito na direção da garota, enquanto a patricinha da família procurava alguma coisa entre as milhares de inutilidades que havia posto em cima da cama. Bufando, vestiu-o, voltando para o banheiro para poder admirar-se no espelho oval. A garota precisava admitir que o vestido lhe caía bem, marcando sua cintura e destacando seu colo. Mas continuava a ser um vestido de menininha. chegou à conclusão de que estava no sangue dos irmãos serem desprezíveis e controladores.
- Viu? Ficou lindo em você. Eu sou genial. – ela batia palminhas nervosas, como um poodle adestrado ao realizar um truque corretamente - Agora vamos. Antes que aquele babaca lá fora chegue e atrapalhe minha obra de arte – Angelina puxou-a pela mão, levando a garota até o sofá estampado onde havia dormido. Sentando-se desconfortavelmente, deixou que a mais nova arrumasse seu cabelo e maquiasse seu rosto limpo. Ela se sentia como uma Barbie. Muda, suscetível, controlável e com uma expressão plastificada. nunca gostara das bonecas. Elas sempre foram a idealização de tudo que a garota abominava. Bonecas infláveis provavelmente recebiam mais simpatia dela do que as populares melhores amigas de menininhas podres de ricas.
Alguns minutos depois adentrou o imóvel, as sobrancelhas unidas por uma ruga de preocupação em sua testa. Caminhava de um lado para o outro, resmungando coisas ininteligíveis, mandando mensagens em seu celular. Angelina bufava, atribuindo ao irmão mais velho apelidos nada elogiáveis. Contando até mil, esforçava-se para não gritar. O filho do pastor devia algumas explicações fundamentais para ela.
- Pronto, pronto! – A loira exclamava, observando a outra novamente, ajudando-a a calçar seus sapatos negros – Você até parece uma garota normal agora. Quando precisar, é só me ligar. Faço um preço especial pra heroína que consegue dormir com meu irmão sem matá-lo sufocado. – Virando-se para , ela sorriu – Sua vez, maninho.
Ele levantou uma sobrancelha para ela, o que era um sinal irrefutável de perigo. O garoto não estava em seu melhor humor, e isso transparecia em seu rosto. Deixando que a irmã lhe aplicasse corretivo nos machucados coloridos, ele observava pelo canto dos olhos, os lábios rígidos em uma linha fina. A garota não sabia como agir. O silêncio no ar parecia errado e pesado, como se alguém houvesse morrido naquela sala e um luto involuntário tivesse sido instaurado ali. Mentes perturbadas viajavam por caminhos sinuosos, bolando estratégias, planos triunfais e próximos passos. Próximas jogadas.
O olho antes machucado de agora parecia perfeitamente normal. Angelina tinha um dom com pincéis e bases, isso era impossível negar. Ela encarava o irmão com seu melhor olhar triunfal, e o garoto só pode fazer rir e abraçar a caçula. Aquilo era algo interessante. O afeto que só demonstrava pela irmã, o cuidado com que a segurava e o modo como sorria pra ela. Era um lado do filho do pastor que não conhecia, e duvidava que um dia fosse. Para ela não havia carinho. Só provocações ao pé do ouvido, implicância mascarada e postos de gasolina abandonados. Não que ela se importasse. Ela não o fazia. Não. Com certeza não. Definitivamente não. Não.
Passado o momento ‘Ursinhos Carinhosos’*, as atenções foram voltadas a parte não integrante da família naquela sala. Pares de olhos cinzas e a encaravam, a mediam, a analisavam. Uma sensação de ter que provar algo para aqueles dois, provar que era boa o suficiente, que podia agradá-los, tomava conta da pequena órfã. Ela tentava esconder isso no buraco mais profundo de sua alma, fingindo que os ignorava, que não valiam nada para ela. foi o primeiro a quebrar o silêncio, proferindo palavras sobre a garota, mas que não eram dirigidas para ela.
- Eu me curvo a você, Angelina. Realmente, um trabalho excelente. Era exatamente o que eu precisava. – os imensos olhos não haviam desgrudado um minuto sequer de , e ela não sabia por que despertava tanta atenção dele agora. Não tivera a oportunidade de olhar-se no espelho, mas não sabia o que de tão importante poderia ter em sua aparência.
- Ela parece um anjo, não parece? – A mais nova soprava, sonhadora – Eu disse que você podia confiar em mim, bebê. Eu sou sensacional. Ainda não entendi exatamente o porquê de tudo isso, mas...
- Você não precisa. – ele cortou-a, um tom duro na voz – Ao menos não agora. – Voltando-se para , ele sorriu – É um dia muito importante, . Um daqueles que ficam marcados na história. Você só precisa se comportar. – Ele aproximou-se, tomando o rosto dela entre as mãos – Promete que vai fazer exatamente o que eu disser?
- Você sabe que não, não sabe? Ao menos não até eu souber o que está acontecendo. – ela soprou, tentando não se deixar hipnotizar pelos olhos .
- Vou te fazer mudar de ideia. Você sabe que vou. – Sem tirar os olhos da garota, dirigiu-se a irmã – John está te esperando lá fora. Você sabe o que fazer agora, Angs.
A menina resmungou, batendo a porta de vidro com uma força que não imaginava que ela possuísse ao sair. Roubando um beijo breve da garota à sua frente, abriu seu conhecido sorriso, oferecendo o braço direito para ela com um floreio.
- Hora de ir.
- Você não vai me dizer onde, certo?
- Qual a graça de um aniversário sem uma boa surpresa?
Abrindo a porta de vidro, vislumbrou um carro de pintura prata extremamente polido.

Capítulo 13, Parte 2 (capítulo bônus) – Hell or Heaven?

Algum horário entre 5h e 6h da manhã, interior do posto de gasolina abandonado

A escuridão ainda reinava entre espaços vazios de um pequeno apartamento improvisado no interior da antiga construção, quase aos pedaços. As lâmpadas incandescentes que um dia iluminaram a parte exterior do estabelecimento vazavam reflexos de luz pelas janelas imundas. O frio típico da noite agora começava a aplacar-se com a proximidade do nascer do sol. As corujas já haviam voado de volta para seus ninhos no alto de pinheiros, preparando-se para o momento em que poderiam finalmente adormecer. Nenhum barulho era notável ali, só o silêncio se manifestava entre as quatro paredes pintadas de branco. A não ser pelo som baixo e quase doce de uma respiração feminina adormecida.
a observava, de longe, o velho sofá estampado que pertencera ao seu avô servindo-lhe de repouso naquela noite. Os cubos de gelo do sempre presente copo de whisky tilintavam cada vez que ele o levava a boca, o líquido forte queimando sua garganta. Ele tentava esquecer de que era o corpo de que preenchia a cama que lhe pertencia, imaginando em seu lugar uma vagabunda qualquer, mas a tarefa era quase impossível. Em parte porque nenhuma mulher antes houvera habitado aqueles lençóis. Ela era a primeira a entrar no que gostava de chamar de seu purgatório reverso, o lugar onde ele esperava por outra manhã infernal de sua vida tão falsa. Não sabia ao certo por que resolvera trazê-la justo ali, o único lugar que ainda permanecia puro de mentiras e armações. Talvez porque ela fosse igualmente pura. O outro motivo que lhe atormentava veementemente era que, mesmo daquela distância, ele conseguia sentir o cheiro do perfume que era tão característico dela. Era um floral marcante, mas não enjoativo, que combinava perfeitamente com a órfã. Delicado, mas forte. , em suas associações costumeiras, juntava aquele odor com a cor vermelha. tinha cheiro de vermelho. Vermelho tinha o tom do pecado. O tom da perdição.
E a tentação de estar lá, deitado junto a ela, abraçando seu corpo delicado contra o dele, sentindo aquele perfume de perto novamente, era seu teste supremo. Uma prova de resistência, um jogo mental onde o único adversário de era o próprio . Ele não podia se deixar cair. Mas era difícil. Era difícil não se pegar vagando em pensamentos, imaginando em colorido como seria acordar com em seus braços. Nesse momento, ele tomava outro gole de whisky. Repreendia-se. Acendia outro cigarro. Lembrava por que estava ali. Porque havia transado com a garota. E o motivo era maior. Maior do que a simples atração física desesperada que ele se repreendia por sentir. Esquecer-se significava perder o rumo.
levantou-se. Deu voltas ao redor do sofá duas ou três vezes. Ensaiou-se. Um passo para frente, dois para trás. E então chegou mais perto. Uma olhada bastaria. Ao aproximar-se da cama, um pequeno detalhe o paralisou. sorria durante o sono. Enfurecendo-se, saiu porta afora, o resto de brisa tocando-lhe o rosto tão jovem. O copo de whisky continuava em sua mão, e os olhos perdidos no horizonte. Sem pestanejar, jogou o vidro delicado contra uma das grandes colunas brancas. Era chegada a hora de diminuir o contato físico e lidar com aquilo friamente. Caminhando em direção à rodovia, assistiu ao primeiros raios de sol anunciando que um novo dia havia chegado.

Algum horário entre 8:30h e 9:30h da manhã, exterior do posto de gasolina abandonado

Fraco. Era assim que ele se sentia depois de ter cedido novamente aos desejos carnais. Beijar daquele modo, e deixar-se ser beijado por ela com certeza não fazia parte de seus planos. Mudanças deveriam acontecer mais uma vez. Algum modo de incluir aqueles deslizes sem que eles afetassem o resultado final. Seria outra madrugada em claro planejando, ajustando, reorganizando suas ideias anteriores. Mas ele trabalharia nisso. E passaria por cima, como fizera de todas as outras vezes.
Angelina havia acabado de trancar-se com a garota no interior do posto de gasolina, uma expressão mal humorada no rosto que ele havia aprendido a ignorar com o passar dos anos. À sua frente agora só restava John, as sombras de problemas estampadas embaixo dos olhos. Esse seria outro daqueles dias em que precisaria se transformar em 20 pessoas diferentes para não enlouquecer de uma vez por todas. Aproximando-se do pupilo, deixou que ele descarregasse as últimas bombas em cima dele.
- Patrick fugiu. Flanagan não faz ideia de onde ele pode ter se enfiado. – O garoto começou o relatório matinal, o lábio inferior tremendo como toda a vez que o nervosismo tomava conta de si. Mas aquilo era pouco. já esperava que depois de tantas vezes, o dito amigo já teria aprendido a se esconder melhor. Outra noite, em outra noite ele se vingaria – E Greenfield ligou de novo. Ele parecia um pouco ansioso. Dissemos que você estava fora lidando com o caso, mas ele não acreditou. Quer que agilizemos o processo.
- Greenfield que se foda. Ele aceitou os termos do contrato. – A voz de saíra uma oitava mais alto, a veia em seu pescoço saltando diante de seu nervosismo – E está tudo saindo conforme o plano. Hoje é o dia de um grande passo. Você sabe disso.
- Eu sei... – John não encarava o chefe. Preferia olhar para o alto de um pinheiro ou para qualquer uma das nuvens do céu, menos para os assustadores olhos de – Não que isso seja da minha conta, , mas não seria melhor se a garota soubesse o que vai acontecer? Ela poderia ajudar.
- Não. Conheço . A chave aqui é o elemento surpresa. Se dissermos qualquer palavra que seja antes, ela vai ficar furiosa e enlouquecida. Eu sei o que estou fazendo, Mackenzie.
- Claro que sabe. Eu só me pergunto...E se ela ficar enlouquecida depois e resolver armar um escândalo? Não seria nada bom pra você.
- O choque vai ser suficiente pra acalmá-la. é influenciável e pensa demais. E se deixa levar por sentimentos muito facilmente. – Ele parou, pensativo – Essa é a minha vontade. é sentimento puro, mesmo que não admita isso. Como eu já disse, eu a conheço.
- Eu bem que gostaria de ter o mesmo tipo de conhecimento que você tem dela, . – John esboçou um sorriso malicioso, apagado de seu rosto drasticamente a ver a expressão de .
- Lave sua boca. Cuide a sua escolha de palavras, Mackenzie. Não quer acabar como Patrick, quer? - John negou com a cabeça, colocando as mãos nos bolsos e evitando encarar o filho do pastor novamente. Mas sua língua coçava, e ele deixou a pergunta escapar, quase inocentemente:
- Você disse que é influenciável e que se deixa levar facilmente. Mas você não tem medo, ? Não teme se apegar demais a ela, se importar demais, querê-la demais?
- Não seja ridículo. – quase cuspiu as palavras – São só negócios. Agora vá buscar o carro. Ainda temos muito o que fazer.

*Dark Paradise é uma música da sensacional Lana Del Rey: Paraíso Negro
*Os Ursinhos Carinhosos faziam parte de uma série de 1985. No Brasil, foi exibida até 2003. O desenho conta a hist,brória de uma família de ursos carinhosos que ajudam as pessoas a trocarem bons sentimentos.
* Hell or Heaven? é uma música da banda Lynyrd Skynyrd: Inferno ou Paraíso?

CONTINUA...

N/a(28/3/12): Alô folks! Tudo certo com vocês? Então, essa att demorou um pouquinho sim, eu sei. Mas eu tenho bons motivos. Eu acabei de mudar de cidade, as aulas na faculdade começaram e eu também comecei a trabalhar. Foi um mês BEM corrido, e eu só consegui finalizar a att agora. Me desculpem. As coisas vão ser mais dificeis agora, mas eu NÃO vou abandonar HF. Eu sou muito envolvida com a história pra isso. Ao menos uma att por mês vai aparecer no site, quando eu puder, mando mais de uma, ou uma dupla. Não se sintam esquecidas. Outra coisa, sobre os capítulos. Eu tinha comentando no twitter, mas pra quem não me segue lá, basicamente é isso: Terminei o capítulo 13 e tive uma ideia boa, e lembrei que todo mundo gostaria de ver o lado do filho do pastor da história. Como o que foi denominado 13, parte 2, não se encaixava no 14, e eu também não queria colocar no final do 13 pra confundir todo mundo por causa do tempo, resolvi fazer um capítulo bônus. Considerem um presente pela demora da att. Outra coisa, o SCRIPT JÁ foi corrigido. Não surtem mais hahaha. Anyway, vocês sabem onde me encontrar, sintam-se a vontade pra bater um papo comigo. Até a próxima, folks! Xx Trailer de Holy Fool - Formspring - Twitter de Holy Fool. - Tumblr de Holy Fool

N/B: Nem preciso dizer nada, né, já que minhas notas tão ficando repetitivas, mas vou dizer mesmo assim: ODEIO O FILHO DO PASTOR COM TODAS AS FORÇAS DO MEU CORAÇÃO. E a principal também tá começando a me irritar profundamente, ôoo menina volúvel. SAUIDHSIUDHS Ok, parei.