
Autora: Scarlet Suelen. |
Beta: Rafah G
• Prólogo •
O tempo por ali nunca mudara sempre chuvoso e gélido, os que conheciam o lugar o chamavam de deserto dos mortos. Era o único lugar do planeta que jamais contemplaria o nascer do sol, é isso mesmo, naquela cidade esquecida pelo universo, jamais amanheceria.
Havia uma regra que nunca fora quebrada por ninguém: A vida! Ela era impedida de habitar por ali, até porque o frio impregnado no ar mataria uma pessoa ou qualquer outro ser vivo em menos de segundos.
Havia também uma casa feita de restos de madeira, uma única casa para um único habitante. E ele estava ali, rígido, fitando a rua vazia e coberta de lama a sua frente. Seus olhos azuis tinham um brilho esperançoso como se aquela solidão logo fosse acabar. Na sua mente, milhares de vozes ecoavam palavras de pavor, gritos e sussurros que demonstravam tanto medo que só de ouvir faria qualquer um ficar de pernas bambas. Mas o que o assustava em milhares de vozes era justamente a palavra não dita, o gemido quase inaudível de uma garota que ecoava em sua mente como o fogo, queimando dentro dele cada vez mais o deixando ardente de desejo.
Se algum dia você pensar em fazer algo imprudente lembre-se que o preço é alto.
• Capítulo 1 •
Eu estava ali, no topo daquela enorme e majestosa montanha de esqui, lutando ferozmente contra minhas pálpebras que cismavam em fechar. Meu corpo estava mole, o que me fez parecer um daqueles bonecos de posto. A única diferença entre mim e esses bonecos é que eles se mexem loucamente e eu mal conseguia manter os olhos abertos.
– Se você fosse uma lutadora de boxe eu diria que você foi nocauteada bem nos olhos – Corinne disse parando ao meu lado. Claro que depois de uma noite sem sono e outras noites mal dormidas que eu havia passado, era de se esperar que minhas olheiras estivessem bem visíveis.
– Com certeza eu estaria mais inteira. – disse, colocando meus óculos de proteção.
– Não dormiu de novo?
– Eu juro que tentei... Se pelo menos minha mãe tivesse dormido em casa.
– Onde ela passou a noite? – Corinne, perguntou agachando-se para arrumar sua bota. Me apoiei no meu bastão tão sonolenta quanto a Bela adormecida.
– Não tenho muita certeza – esperei ela terminar.
– Como assim? – ela me lançou um olhar surpreso.
– Acho que ela esta saindo com o chefe – respondi sentindo um nó se formar em minha garganta. Fitei os arredores de Wanaka lá de cima, e não consegui ver nada, além de pinheiros cobertos de gelo, e aquela neve fofinha que parecia estar esperando ansiosamente meu salto. Sim, sou esquiadora juntamente com Corinne, minha melhor amiga, nós não somos as melhores, mas tenho que admitir que jamais estaremos na lista das piores esquiadoras desse lugar.
– Aquele bonitão que estava na sua casa semana passada? – ela perguntou mostrando-me um sorriso malicioso.
– Esse mesmo – bocejei.
– Tia Molly é um exemplo de mulher. – fiz uma carranca pra ela que me lançou um olhar inocente.
– Sair com o chefe não é algo do qual ela deve se gabar, Corinne.
– , eu sou sua amiga, mas esses seus pensamentos de velha me deixam doida. Sua mãe é uma linda mulher, independente. Seu pai que foi o babaca de ter se divorciado dela, ou vai me dizer que naquele hospital tem alguma médica mais bonita e profissional que sua mãe?
– Acho que não – disse com toda sinceridade. Uma pontada de ciúmes bateu levemente em meu peito ao ouvi-la defender minha mãe com tanta veemência e, infelizmente, eu tinha que concordar com aquilo, Molly realmente é um exemplo de mulher. – Vamos descer antes que eu durma? – perguntei mudando de assunto.
– Vamos, aliás, você está convidadíssima para dormi em casa hoje à noite.
– Acredite, eu prefiro passar a noite em claro ao ter que aguentar seu irmão – respondi me lembrando ligeiramente de Josh, o garoto mais galanteador e irresponsável que poderia ter cruzado minha vida. Corinne riu se posicionando para descer do topo da montanha, bocejei novamente me posicionando também. Meus cabelos soltos voavam por debaixo da toca conforme o vento forte batia contra mim, me trazendo aquele ar puro. Era tudo o que eu precisava, me jogar em alta velocidade de uma montanha coberta por gelo e perigos, pelo menos a adrenalina me manteria acordada.
– Vamos lá! – Corinne gritou inclinando o corpo para frente e jogando-se montanha abaixo. Saltei logo após, meu corpo alcançou o ar rapidamente, dando-me a sensação de estar voando.
Se existe algo do qual eu deva agradecer a Deus todos os dias, é por ser nascida em Queenstown (New Zealand) e por ter Wanaka como cidade vizinha, onde eu posso esquiar a vontade e ser uma adoradora assumida do frio e da neve. Aposto que em vários lugares tropicais por ai, devem ter milhares de pessoas que acordam todos os dias com o sonho de ver a neve, de tocá-la. De olhar pra cima, numa noite e ver o céu escuro coberto de floquinhos brancos caindo tão graciosamente sobre si. De poder se jogar ao chão e não se machucar e muito menos se sujar, de criar anjos com o próprio corpo. Um corpo tão pecador podendo ser ao menos uma vez, uma imagem limpa e pura como a dos anjos.
Meu esqui encontrou novamente a montanha me fazendo perceber o quão fraca eu estava, meu corpo inclinou para frente me fazendo perder o equilíbrio e rolar sobre o gelo. Eu não consegui ver nada além de um monte de coisas brancas batendo fortemente contra meu rosto, fazendo o mesmo arder. Rolei tão rápido que mal deu tempo de respirar e já estava estatelada no chão a alguns metros da pista dos principiantes e bem distante do topo da montanha.
– – Corinne gritou esquiando rapidamente até mim e agachando-se ao meu lado. Sua pele clara poderia ser confundida facilmente com a neve de tão pálida que estava, seus olhos castanhos estavam fixos em mim e mostravam o quão preocupada estava.
– Estou bem – respondi antes dela poder perguntar alguma coisa.
– Cara, isso foi incrível – ela me ignorou olhando para o topo da montanha, agora tão distante de nós e me fitou novamente. – Você está bem? – uma voz rouca, porém familiar me fez desviar os olhos de Corinne. A voz rouca e claramente masculina era de Jimmy o instrutor dos principiantes, que também acabara de se agachar ao meu lado.
– Sim.
– Você consegue se mexer?
– Sim.
– Então, levanta logo daí! – Corinne disse impaciente. Essa é a garota que conheço, se você tiver um rasgão nas costas e dizer que está bem ela vai acreditar em você, então se você estiver morrendo perto dela, por favor fale a verdade.
– A neve está tão fofinha – Apalpei o gelo com minhas mãos cobertas por luvas de lã.
– Bateu a cabeça e ficou pancada? – ela me olhou assustada.
– Você deve ir à um hospital – Jimmy a corto me ajudando a levantar. Atrás de nós havia se formado um círculo enorme de pessoas curiosas, assim que me viram levantar bateram palmas alegremente. Eu não sabia muito bem o que havia acontecido comigo lá em cima, mas essas pessoas estavam claramente surpresas por eu estar de pé. Corinne me ajudou a tirar o equipamento de esqui e me guiou até a estrada para eu poder pegar um táxi de volta para Queenstown. – Você tem certeza de que não quer eu vá? - ela perguntou carinhosa, sorri para acalma lá.
– Tenho, obrigada.
– Então vá à um hospital fazer um chek-up, viu? – Estarei lá – eu disse dando sinal para o táxi que passava. – No dia de São nunca – sussurrei para mim mesma.
– Vá para Queenstown, Otago casa 15, por favor – informei ao taxista que apenas confirmou com a cabeça.
Enquanto o carro andava, eu bocejava, meu corpo não estava dolorido apesar da queda o que é um verdadeiro milagre, com certeza meu anjo da guarda havia feito um ótimo trabalho e ganharia uma medalha de ouro por isso. Olhei ligeiramente pela janela do táxi e fitei a rua vazia e coberta de gelo lá fora. No encostamento da estrada havia um garoto, seu peito estava nu, deixando à mostra seu belo físico – Meu Deus! Ele vai morrer de hipotermia, pare o carro! – falei rapidamente deixando a mostra minha preocupação com o estranho. O motorista parou tão rápido quanto eu disse. Desci apressada do carro e corri em direção ao garoto.
– Você está bem? – perguntei à alguns passos de distância e me aproximei devagar, uma luz branca ofuscou minha visão me fazendo fechar os olhos bruscamente, tentei reabri-los, mas a luz continuava a me ofuscar.
– Estou bem – ele disse. – Pode abrir os olhos agora – sua voz era forte e mostrava determinação. Abri meus olhos devagar e a luz ainda estava ali, mas com menos intensidade. Seus profundos olhos azuis me fitavam curiosos, pude ver meu rosto refletido neles o que me fez fechar os olhos novamente.
– Vamos garota, abra os olhos, já chegamos – abri os olhos assustada e não era um jovem dos olhos azuis que me fitava e sim um senhor de aspecto rude. – Você me deve 20 dólares – disse. – E tente não dormi no carro de estranhos novamente, isso pode ser perigoso.
Olhei desesperada para a janela do táxi a procura do garoto e no meu campo de visão estava somente a porta de casa. Isso não podia ser um sonho, não mesmo. Eu tinha visto esse garoto e tinha certeza disso, mas ali olhando o taxista à minha frente, minhas chances eram nula a respeito disso.
– Dormiu de novo? – ele perguntou gozando da minha cara. Paguei o táxi sem questionar e desci do mesmo meio desnorteada.
Peguei no bolso da minha calça a chave colocando-a na maçaneta da porta, que abriu de repente me arremessando para frente.
– Minha querida, cuidado. – Molly me segurou antes que eu pudesse me estatelar no chão pela segunda vez no dia. Ela ainda estava com seu uniforme de trabalho, uma roupa branca seguida de um jaleco da mesma cor, mas isso não apagava nem um pouco a sua beleza, pelo contrario, a deixava mais linda do que nunca.
– O que você esta fazendo aqui? – perguntei firme. Ela deveria estar no trabalho esse horário, por isso minha surpresa.
– Não está feliz em me ver? Peguei uma folguinha. – ela disse animada indo em direção à cozinha. A segui a tempo de vê-la jogando algo em uma penela que estava sobre o fogão acesso.
– Foi seu chefe que lhe deu essa folga? - insinuei.
– Sim – ela confirmou sem tirar os olhos do fogão.
– Então, sua noite foi puxada?
– Sim. – Então, ela havia mesmo passado a noite com o chefe e nem ao menos se importava de esconder isso de mim.
– E você acha isso bonito? – As palavras de Corinne invadiram minha mente e as afugentei sem questionar.
– Isso o que? – ela me olhou desconfiada.
– Não se faça de desentendida ora, o papai mal foi embora e você já arrumou um pretendente.
– Querida, já faz um ano que seu pai foi embora – ela me lançou um olhar piedoso. Claro que ele foi embora, ele tinha que ir. Afinal porquê ele iria querer ter uma mulher que vivia no status: Ausente. Que não precisava de modo algum trabalhar, mas que vivia trancafiada dia e noite dentro de um hospital se importando com a vida de estranhos e menos com a dela mesma. Porquê?
– O que é um ano de separação pra quem viveu uma vida inteira juntos? – perguntei. Ela desligou o fogão e veio em minha direção.
– Não encoste em mim, estou com nojo de você.
– Nojo da sua própria mãe? Que sempre cuidou de você?
– Não. – balancei a cabeça e apontei pra ela. – É dessa que eu tenho nojo, dessa nova mulher que você se tornou.
– É meu trabalho, . Se eu larga, quem manterá a casa?
– Não estou pedindo pra você larga seu trabalho.
– Então por quê reclama? – ela franziu a testa. Ela deveria saber que eu sempre a admirei por querer ser independe, mesmo que isso tenha causado sua separação, mas também deveria saber que eu jamais aceitaria um novo romance. Não, isso de jeito nenhum.
– Você estava trabalhando ontem a noite?– perguntei surpresa.
– Sim querida, você não estava pensando que … – ela percebeu onde eu queria chegar, mas se ela estava trabalhando minhas suspeitas estavam completamente erradas.
– Você não ligou! Eu passei a noite sozinha, você sabe como me senti? – a culpei por minha péssima noite e pior, a culpei pelo meus próprios medos.
– Foi uma emergência filha, eu entrei na sala de cirurgia correndo com um paciente de última hora, não deu tempo de avisar você. – ela se explicou fazendo-me sentir culpada por meus pensamentos maldosos a seu respeito e principalmente envergonhada, muito envergonhada.
– E está tudo bem? – perguntei forçando um sorriso.
– Com quem? – ela perguntou fazendo uma cara engraçada de quem não havia entendido.
– Hora doutora Molly, com o paciente da noite passada. – Meu tom de voz soou totalmente descontraído.
– Ah! está sim.
– Ótimo, então vou dormi – eu disse me afastando e seguindo para fora da cozinha.
– Querida, você não dormiu essa noite? – ela perguntou um pouco alto por causa da nossa distância, mas mesmo assim sua voz soou preocupada.
– Dormi, mas quero me deitar um pouco, por quê? – menti. Eu não queria preocupa-la, mas eu estava piorando, estava deixando o medo tomar conta de mim. Não é medo da noite, é só medo do escuro e da solidão. Solidão entre aspas, porque a certeza que tenho é que no escuro encontra-se criaturas sombrias, que riem de mim por ser tão inofensiva a elas.
– Marquei uma consulta pra você com o Thomas – ela disse, me fazendo sentir raiva. Conversar com um psicólogo não era algo que eu realmente queria fazer, ainda mais sabendo que esse psicólogo é o novo namorado da minha mãe.
– Desmarque.
– Porque, querida?
– Ele é seu chefe e pelo o que me parece seu novo namorado, eu sei que você quer nos aproximar. – E não era só isso, como eu explicaria a alguém que existe sim assombrações, sendo que eu nunca vi nenhuma delas? E também, imagine o quanto ridículo essa conversa iria ser.
– Eu só quero o seu bem. – ela sorriu fraco e eu hesitei, mas ela não me venceu.
– Estou ótima.
– Thomas é um ótimo psicólogo, pense nisso.
– Eu não preciso de um ótimo psicólogo e sim da minha cama. – A deixei falando sozinha e sai dando passos largos na direção do meu quarto.
• Capítulo 2 •
Meu quarto estava ligeiramente iluminado pela janela entreaberta, o vento batia delicadamente contra a cortina fazendo o tecido fino voar pelo quarto e clarear o cômodo com a luz do dia. Minha cama estava forrada em uma colcha escura, cercada por cortinas branca. Estava tão convidativa para mim, que corri de encontro a ela como se Hipnos, o deus grego do sono estivesse ali me seduzindo.
Não pude impedir minhas pálpebras de fecharem, afinal, ainda eram duas horas da tarde e eu poderia dormir à vontade antes que escurecesse e eu fosse obrigada a contar uma mentira qualquer a Molly para me deixar dormir em sua companhia. Não acredito que tenhamos noites sem sonhos, mas não me lembro de ter sonhado com nada, a não ser muita luz ofuscando minha visão. Como o sonho no táxi, só que dessa vez não havia garoto algum para que eu pudesse me preocupar. Não sei bem quanto tempo depois acordei, mas acordei transpirando como se meu cérebro mandasse uma mensagem para todo meu corpo dizendo que eu estava em perigo, e olha que coincidência, eu estava mesmo. A janela ainda estava entreaberta, mas meu quarto já não estava iluminado pela a luz do dia. Eu podia sentir o suor escorrer pelas minhas costas ensopando minha camiseta, o que diga-se de passagem, sempre acontece quando estou assustada.
Levantei da cama como um foguete e me dirigi até a janela para fechá-la, antes de sair desesperada dali. Puxei a cortina com certa força, e paralisei com a visão do lado de fora, estava nevando. Uma noite de neve tão linda que me prendeu naquela escuridão um segundo a mais do que eu planejava ficar. Não demorou muito para que minhas mãos trêmulas conseguissem fechar a janela por inteiro e, antes mesmo que eu pudesse sair dali, uma luz forte ofuscou minha visão, me fazendo congelar no lugar.
Não era possível, eu não estava dormindo, estava? Pisquei os olhos algumas vezes antes de abri-los totalmente para ter certeza. Mas a luz ainda estava ali, agora amenizada. Em volta de todo aquele clarão meu olhar encontrou um ponto fixo, um garoto, de olhos azuis tão profundos que pareciam ser lentes de contato. Seus cabelos cor chocolate batiam na altura do queixo dando-lhe uma aparecia assustadoramente linda. As maçãs de seu rosto não aparentavam sinal algum daquele vermelho vívido que a maioria das pessoas tem, elas estavam totalmente sem vida. Me senti dentro de um redemoinho e, minhas pernas pareciam ter sido chumbadas ali dentro, mas logo as forcei correr o mais rápido possível para fora dali. Corri pelo corredor tão assustada que meus pensamentos fizeram questão de parar. Abri a porta do quarto de Molly com tanta violência que a mesma pulou da cama com os olhos arregalados.
– Meu Deus , é você – disse ela, colocando a mão no peito demonstrando o tamanho susto que avia levado.
– Eu posso dormir aqui? – perguntei trêmula, olhando para trás apenas para me certificar de que não havia absolutamente nada atrás de mim. É claro que eu iria dormir ali, quer ela deixa-se ou não, eu que não me atreveria por os pés no meu quarto novamente.
– Claro, mas o que houve? – ela pareceu se acalmar um pouco, aconchegando-se em seu travesseiro.
– Está nevando e o frio está me congelando – menti. Eu realmente estava ficando boa em falar mentiras e, Molly estava realmente ficando boa em cair nelas.
– Oh querida, é claro, deite-se aqui – ela apalpou a cama. Sem pensar me joguei ao seu lado me cobrindo por inteira. Eu precisava afastar aquele acontecimento da minha mente, eu precisava acreditar que aquilo não era real, não podia ser. A sensação de estar sendo observada me fez fechar os olhos e me concentrar apenas em minha respiração na tentativa de esquecer que aquilo acabara de acontecer. O dia já estava amanhecendo quando peguei no sono novamente, afinal eu já avia dormido a tarde inteira e não estava mais com tanto sono assim, ou talvez, tenha sido culpa do garoto em meu quarto, que avia me assustado completamente fazendo com que o sono em mim evaporasse feito água fervente. Acordei pela manhã e a cama ao meu lado estava vazia. Ah Molly, esse não era um bom dia para você ir trabalhar e me deixar sozinha em casa.
Levantei, espreguiçando-me e contente por não ter sonhado com o anjo da noite passada, pelo menos eu pensava que era um anjo, o que é melhor do que pensar em algum ser mandado do inferno para me buscar. Abri as janelas do quarto para a luz do dia o invadir. Eu precisava e queria fazer minha higiene matinal, mas minha escova de dentes estava justamente no banheiro do meu quarto e nem que eu fosse beijar o Brad Pitt, entraria lá para pegá-la. Me guiei em direção à cozinha, ouvindo apenas o barulho dos meus passos sobre a madeira fria do corredor. Na porta da geladeira avia um bilhete escrito por Molly: Querida, hoje fui trabalhar um pouco mais cedo, você estava dormindo tão docemente que não pude te acordar, ligue para Corinne e convide-a para almoçar com você! Beijos, Mamãe.
Claro que eu ligaria para Corinne, mas não para o almoço e sim para o café da manhã, eu ainda estava a flor da pele como se a coisa iluminada da noite passada ainda estivense ali me vigiando.
– Não acredito, que horas você levantou? – perguntei indignada quando Corinne me informou que viria apenas para o almoço, pois já havia tomado café.
– Não faz muito tempo... Que urgência é essa em me ver?
– Molly está no hospital, eu não gosto de ficar sozinha – respondi sinceramente.
Claro que ela sabia que eu não gostava de ficar sozinha, não que isso me afetasse durante o dia, mas agora era diferente, algo estava me perseguindo e eu não fazia a mínima ideia do que era. Apenas que estava acabando com a minha visão e que era melhor providenciar uns óculos escuros para a próxima vez que isso acontecesse.
– Então nos vemos no almoço. – ela disse com a voz meio cortada, como se alguém tivesse puxado o telefone de sua mão.
– Eu também estou convidado? – era a voz de Josh. Então eu estava certa, aquele imbecil havia tomado o telefone de sua mão, cerrei os punhos tão brava que poderia quebrar o telefone se quisesse. É isso mesmo, um garoto que não larga do meu pé como se eu fosse a princesa de seus contos de fadas não merece ser tratado com carinho, pelo menos não por mim.
– Olha Josh, preciso desligar, manda um beijo pra Corinne ok? Tchauzinho. – Desliguei o telefone sem ao menos esperar sua resposta. Ele teria que aprender a me esquecer ou jamais teria uma conversa decente comigo. Fitei a casa vazia ao meu redor e tudo parecia calmo, mas um frio insistia em passar pelo meu corpo enquanto minha camiseta ensopava-se novamente de suor. Decidi que não iria pensar em nada, muito menos naquilo da noite passada ao menos até Corinne chegar. Fui para a sala e me joguei no enorme sofá, branco, a minha frente, liguei a TV na tentativa de esquecer de tudo.
Um vento gélido invadiu a sala me fazendo virar o pescoço em direção a janela que acabara de abrir. Logo após, um barulho de madeira rangindo fez meus batimentos se elevarem rapidamente, fechei os olhos na tentativa de afastar qualquer pensamento ruim, mas a madeira continuava a ranger, o que não me ajudou.
– Quem está ai? – as palavras fugiram da minha boca sem que eu percebesse, mas ninguém respondeu. O silêncio fazia uma combinação perfeita com meus batimentos elevados.
– Você está nos meus sonhos eu preciso saber o que você quer – tentei em um sussurro. Uma luz se criou na parede a minha frente e como de costume ofuscou minha visão me fazendo fechar os olhos e reabri-los novamente depois de alguns segundos. Caramba, eu ainda não tinha providenciado os óculos escuros. O medo me bateu na cara e pude sentir rasgar minha pele.
– Eu sinto seu medo – uma voz firme ecoou no silêncio. A luz brilhou com mais intensidade e diminuiu consequentemente e, então pude vê-lo novamente como na noite passada. Parecia um anjo, todo iluminado. Seus olhos azuis profundos me fitavam curiosos. Sua pele clara parecia tão macia naquele pouca distância que mantínhamos que minha vontade era de tocá-lo. Ele era simplesmente lindo, não um mostro no qual eu deveria ter medo, mas ele não existia, certo? Comecei a tremer, se ele mexesse um músculo eu sairia gritando dali até alguém me socorrer.
– Não vou ficar aqui se você tiver medo de mim – ele disse tão baixinho que eu só pude ouvir por causa do absoluto silêncio, o que me ajudou bastante. Pois eu pude reconhecer a voz imediatamente, era o mesmo garoto da estrada, o que significa que eu não estava delirando quando disse que ele era real. A luz em torno dele começou a aumentar ofuscando minha visão era como se ele estivesse partindo.
– NÃO – gritei, me levantando do sofá e dando um passo para frente sem me importar com a luz forte que me ofuscava. O que eu estava fazendo? Virando suicida? Voltei a me encostar no sofá sentindo minhas pernas cambalearem – Eu devo ter medo de você? – perguntei trêmula.
– Você tem medo de mim – ele confirmou e depois abriu um sorriso maroto. Meu coração deu um salto e dessa vez não era por medo e sim pela beleza que aquela coisa estranha possuía. – Eu não tocaria em você mesmo que deixasse – ele disse por fim.
– Então o que você quer comigo? – Eu tenho que admitir que me senti a pessoa mais corajosa do mundo depois de ter perguntado isso. Em outras circunstâncias eu teria corrido dali como na noite passada, mas agora algo dentro de mim estava me confortando com a situação tão paranormal.
– Você não deve ter medo – Ah claro, quem era ele pra me falar isso? Um fantasma ou uma alma penada, seja lá como chamam isso.
– Com você aqui tornando meus pesadelos reais fica meio difícil – eu disse com toda sinceridade. Eu estava falando dos meus medos com a coisa que mais me botava medo na vida? Talvez Molly estivesse certa eu estava precisando mesmo conversar com Thomas, urgentíssimo.
– Você deveria tentar não ter, mesmo que seja meio difícil – ele piscou. As palavras dele me pareciam tão verdadeiras, e eu me sentia tão atordoada com isso.
– Porque você quer me ajudar? Como é mesmo o seu nome? – atropelei as palavras. Apesar de eu ser a pessoa mais medrosa do mundo, eu estava indo bem. E por incrível que pareça eu permanecia ali, com ele, como se fosse um novo amigo que eu acabara de conhecer. Um novo amigo estranho e sobrenatural, diga-se de passagem.
– Respire, uma pergunta de cada vez – ele sorriu. Um sorriso que me lembrava as nuvens do céu em um dia ensolarado. – Meu nome é Adam – disse. – Adam Davis.
– Certo Adam, o que você quer? – perguntei. Para uma alma penada estar parada a sua frente, algum motivo tinha que ter. Mesmo que esse motivo seja paranóia de sua mente terrivelmente fantasiosa.
– Você ainda está com medo de mim? – ele perguntou sério. Toda essa paranóia já estava me irritando, se ele não iria me machucar eu não iria ter medo, oras. Certo, talvez eu teria, se algo dentro de mim não estivesse me mantendo calma como estava me mantendo.
– Porque você se preocupa tanto com os meus medos?
– Porque você deve ter medo de tantas coisas – ele respirou fundo – Mas eu não devo ser uma delas – concluiu. Eu não sabia mais o que dizer, mesmo que inúmeras perguntas se formassem em minha mente, eu simplesmente não conseguia colocá-las para fora. Fiquei quieta até ele começar novamente – Pra você me provar que não está com medo quero que toque em mim.
– Tocar em você? – perguntei surpresa, ele apenas confirmou com a cabeça. Muito esperto, não? Afinal ele disse que não tocaria em mim, mas não disse que eu não tocaria nele. Mas, já que eu não estava correndo perigo, que mal teria encostar naquela pele aparentemente tão macia?
– Eu gostaria de tentar – disse desgrudando-me do sofá e dando alguns passos em sua direção. Meu coração parecia uma bomba com poucos minutos para explosão. Cheguei perto colocando minhas mãos em seu rosto sem tirar meus olhos dos seus. Senti meu corpo se arrepiar em uma sensação incrível, eu estava deliciada em tocá-lo. Desci minha mão por seu pescoço calmamente parando-a em seu peito.
– Eu não posso sentir seu coração – sussurrei pressionando minha mão contra o lado esquerdo de seu peito na tentativa inútil de sentir seus batimentos.
– Porque eu não tenho um – ele piscou para mim. – Eu estou morto, . O som da campainha me fez pular, o que não é aconselhável, tocar a campainha de alguém quando a mesma esta falando com um defunto em sua sala. Em um piscar de olhos Adam já não estava mais ali. Dei alguns passos até a porta totalmente desnorteada. Como ele sabia meu nome?
– , me desculpe por Josh essa manhã – Corinne foi logo se desculpando pela má educação do irmão. Abri espaço para que ela passasse. – Que cara de doida é essa, garota? – ela sorriu para mim parando exatamente onde Adam estava a alguns segundos atrás.
– Eu estou confusa – eu disse chegando perto dela, coloquei minhas mãos sobre seus braços na tentativa inútil de me arrepiar por inteira como havia acontecido quando toquei Adam, mas meu corpo continuou normal, não senti absolutamente nada.
– O que você está fazendo? – ela puxou seu braço rapidamente para fitá-lo. – Há alguma coisa de errada com meu braço? – perguntou.
– Você não me causa arrepios – Eu juro que se eu estivesse em uma situação de autocontrole jamais teria dito isso.
– Ainda bem – ela riu.
• Capítulo 3
Claro que Corinne não me causava arrepios, de fato ela não estava morta como o garoto estava, ou como ele disse estar. Mas a primeira coisa que me passou a cabeça foi a de contar tudo a ela. Alguém precisava dizer que eu não estava ficando maluca, e que os mortos estão entre os vivos, ou até que existem sim dois mundos interligados, essas coisas que poderiam explicar a aparição de Adam Davis para mim. Mas a conhecendo aposto que simplesmente diria: – E eu conversei com Deus, ele me disse que os mortos estão mortos, . E é claro, ela teria toda razão.
– Então, o que temos para o almoço? – disse ela ignorando meu ato estranho acomodando-se em meu sofá.
– Na verdade … – parei por um estante tentando me lembrar se teria algo para nós almoçarmos. Com uma mãe feito Molly eu poderia encontrar enlatados, qualquer tipo de besteira nos armários, e por alguma sorte, comida congelada. Mas nada bom o suficiente para se oferecer a uma visita, mesmo que essa visita seja Corinne, praticamente de casa. – Não sei se Molly deixou algo para nós – eu disse com toda sinceridade.
– Sem problemas, vamos almoçar no FergBurguer? – ela sugeriu animada e eu engoli a seco. Não que FergBurguer seja um lugar ruim, até que é bastante aconchegante para uma pequena hamburgueria aguentar, devido ao movimento gigantesco. E foi até uma ótima ideia, mas contando com o fato de que eu não estava com fome, não seria um almoço divertido. Lembro-me de ter me sentido assim apenas uma vez na vida, e lembro-me também perfeitamente do dia.
O céu estava nublado ameaçando chover a qualquer momento, e apesar de ser o começo da tarde pareciam o fim, dando inicio para a grande noite. Eu e Molly estávamos em um velório, não um velório qualquer, mas um velório de muita importância, do meu avô. E ele estava ali, pálido, naquele caixão aparentemente tão pequeno para seu corpo comprido e magro. Por debaixo de sua barba branca, parecia sorrir enquanto Molly estava aos prantos ao meu lado. Eu não sabia como consolá-la, então fiquei quieta a deixando por para fora toda sua mágoa. Logo após o velório fomos até o cemitério onde seu corpo seria enterrado. Os coveiros jogando terra em cima do caixão e, levando para baixo da superfície o corpo de um pobre senhor fez meu coração se apertar e uma pequena lágrima escorrer em meu rosto. A morte é uma coisa que me assusta na vida. E vendo a morte ali, tão de perto, eu senti uma vontade louca de comer. Sim, de comer. Eu senti uma fome tão devastadora que meu estômago chegou a roncar tão alto que parecia que eu havia engolido um alto falante. Eu amava meu avô, mas não podia esperar, saí despercebida do cemitério e fui parar na padaria mais próxima, sentei-me em uma das mesas de madeira dali e pedi um café com leite. O cheiro de pão quentinho solto pelo ar fez meu estomago dar outra volta. Mas só foi meu olhar cruzar com o café aparentemente gostoso que a garçonete acabara de trazer que eu pude perceber que não tinha forças para comer. Meu corpo estava rejeitando comida, eu estava rejeitando. E era exatamente assim que eu me sentia agora, adormecida e rejeitando qualquer tipo de nutriente.
– Tudo bem, só espera eu tomar um banho? – perguntei ignorando meus pensamentos. Eu podia não estar com fome, mas Corinne não podia pagar por isso.
– Certo – disse ela, e com toda paciência esperou que eu tomasse um banho, e claro, escovasse os dentes. A princípio pensei em tomar banho vestida, se aquela coisa iluminada ainda estive por ali isso seria uma garantia. Mas depois desisti vendo o quão ridícula estava sendo. – Para quê uma alma penada olharia uma menina como eu tomando banho? – perguntei para mim mesma, mas não havia resposta para minha pergunta. Até porque eu não teria como saber se o garoto era algum maníaco sexual enquanto vivo, mesmo assim me forcei a repetir várias vezes que aquele garoto não era real, que jamais existira, que era simplesmente fruto da minha imaginação. E só depois disso pude tomar um banho sossegada. Meia hora depois lá estávamos nós, de frente para aquele letreiro enorme, que com sua luz azul piscava fracamente grifando o nome do lugar: FergBurguer. Meu queixo caiu, e não era o lugar amarrotado de gente que me deixou assim. A apenas alguns passos de distancia de nós, lá estava ele, parecendo totalmente atrapalhado.
– O que teu irmão está fazendo aqui? – perguntei para Corinne que balançou a cabeça negativamente como se não soubesse. O fato dele estar ali é claro que havia me perturbado, mas o fato dele estar ali e com alguns equipamentos de esqui em mãos me deixou terrivelmente perturbada, cruzei os braços em volta do meu casaco e me aproximei juntamente com Corinne.
– Meninas – ele disse calmo, enquanto tentava segurar os dois bastões em uma das mãos. Seus cabelos pretos estavam esvoaçados para cima, dando-lhe um charme irresistível juntamente com sua barba rala.
– O que são esses equipamentos? - não me forcei a perguntar.
– São meus, docinho – ele piscou para mim do jeito irritante como sempre fazia.
– Seus? – perguntei surpresa. Sério, câmera escondida, cadê você? Ele só podia estar brincando comigo. Lancei um olhar a Corinne ao meu lado. Um olhar que dizia detalhadamente cada palavra em minha mente: Você sabia disso? Você sabia?
– Vou lá dentro separar uma mesa para nós duas – ela disse lançando-se apressada para dentro do lugar, nos deixando a sós.
– Você não sabe esquiar – o lembrei.
– Terei aulas com o Jimmy.
– Você terá aulas com o... Jimmy? Então, você vai esquiar em Wanaka? – perguntei atordoada. Eu poderia esperar qualquer coisa de Josh, menos isso. E se ele quisesse mesmo esquiar que esquiasse em Queenstown mesmo, não seria necessário se deslocar até Wanaka para poder esquiar, certamente isso era pra me provocar.
– Claro, olhar você me dá inspiração – fechei minha mão contra o pulso para não mostrar um dedo bem famoso a ele, mas as palavras eu não pude segurar presas em minha garganta.
– Eu desejo que no seu primeiro dia como esquiador, você quebre as duas pernas e fique impossibilitado de ir a Wanaka por um longo tempo – eu disse exaltada, dando-lhe as costas e entrando na hamburgueria. Passei por algumas pessoas na porta a tempo de ver Corinne levantar um dos braços para que eu pudesse encontrá-la no meio de tantas pessoas.
– Você sabia disso? – perguntei, arrastando-me pelo banco de madeira a sua frente.
– Eu não acredito, aquele imbecil te contou? – ela perguntou calma apesar das palavras soarem um pouco pesadas.
– Espera aí, me contou o que? – perguntei me apoiando na mesa, pronta para matá-la ali mesmo se ela tivesse alguma coisa haver com aquilo.
– Eu achei que não tinha nada demais, então... - ela lançou um olhar para o lado sem poder me encarar. – Eu dei a ideia – disse por fim colocando a mão na boca para abafar suas palavras.
– O que? O que você queria provar com isso?
– Não dizem que amor e ódio andam lado a lado? Queria ter certeza - ela riu como se imaginasse eu e Josh de mãos dadas andando por aí.
– Eu não amo seu irmão, e isso só vai magoá-lo.
– Ele ficará bem – ela piscou para mim fazendo a cara mais angelical que conseguiu. Eu não conseguia ficar estressada com ela nem mesmo nessas circunstâncias, e pelo menos toda essa confusão havia tirado por alguns minutos os pensamentos estranhos de mim. Os pensamentos com nome e sobrenome, Adam Davis.
– Seus sanduíches – a voz falha do garçom me fez virar o rosto para si rapidamente, ele colocou os dois enormes sanduíches na mesa e se afastou. Corinne não se importou com bons modos, apenas mergulhou as mãos no prato retirando o sanduíche e o abocanhando rapidamente, talvez para eu não ter chances de perguntar mais nada.
– Você deveria ter visto sua cara quando Josh disse que aqueles equipamentos eram dele – ela disse de boca cheia, depois riu limpando o canto de sua boca com um pedaço de guardanapo.
– Tenho vontade de matá-lo, e a você também, já que a ideia foi sua – eu disse vendo o rosto de Corinne virar um borrão a minha frente. O lugar antes cheio em minha mente estava aparentemente vazio, em conta que o barulho das conversas das outras mesas havia cessado de repente. Pisquei os olhos na tentativa em vão de poder enxergar novamente. O que estava acontecendo comigo?
– Você está bem? – a ouvi dizer, forcei a voz para responder, mas eu não conseguia ouvir o som das minhas próprias palavras. – ? – ela chamou colocando uma de suas mãos frias sobre um dos meus braços fazendo-me despertar. Olhei-a em choque, agora eu podia vê-la claramente. Seus olhos castanhos estavam sobre mim com uma clara interrogação dentro deles.
– Preciso ir pra casa – eu disse levantando bruscamente, algumas pessoas lançaram-me um olhar curioso. Corinne por sua vez jogou algum dinheiro sobre a mesa e me seguiu. Tentei passar pelas pessoas sem encostar nas mesmas, mas a lotação do lugar comparado com sua falta de espaço me impedia claramente de fazer isso. Sentir o ar puro invadir minhas narinas assim que empurrei a porta da hamburgueria com certa força. Fitei a rua do lado de fora, observando as pessoas que passavam animadas a minha frente enquanto eu sentia minha perna cambalear e meu corpo parecer cair ao chão a qualquer momento.
– Você está me assustando, dá pra falar alguma coisa? – Corinne falou ao meu lado me lembrando que ela estava ali, comigo.
– Eu estou bem – disse sabendo que isso bastaria para ela me deixar em paz.
– Você vai pra casa agora? Você nem tocou no seu hambúrguer e ... Pensei que iríamos esquiar, já que ontem foi um desastre – ela me lembrou do meu tombo, eu jamais recusaria um convite para esquiar, mas eu não estava me sentindo bem.
– Hoje não Corinne, hoje não.
• Capítulo 4
– Eu não sei o que anda acontecendo com você , mas eu desejo de coração que você fique boa logo – Corinne balançou a cabeça e voltou a entrar na hamburgueria.
– Eu também não sei – murmurei para mim mesma. Depois de alguns minutos tentando achar uma explicação para o que acabara de acontecer, eu desisti acenando para um taxi que passava.
– Me Leve até o hospital da cidade, por favor – pedi acomodando-me no banco traseiro.
– Você não esta se sentindo bem? – a voz calma do motorista chamou minha atenção. Dá ultima vez que eu havia pegado um taxi um motorista mal humorado me acordou como se fosse imprudente demais dormir no carro de um desconhecido.
– Não, está tudo bem, é minha mãe – respondi tentando parecer gentil.
– Sua mãe está doente? – perguntou enquanto me fitava curioso pelo retrovisor.
– Não, ela trabalha no hospital – respondi. Ele murmurou alguma coisa e notei que aquele ali seria o fim do assunto. Fiquei quieta até chegarmos ao hospital.
O sentimento de culpa me passava por todo o corpo, não era minha intenção deixar Corinne preocupada comigo. Semanas atrás eu era uma adolescente normal, ia a escola, almoçava no FergBurgue com ela, fugia de Josh e aos fins de semana fugia dos estudos para esquiar, mas agora tudo parecia mudado. Entrei no hospital e fui até o balcão perguntar onde eu poderia encontrar Molly.
– Oi – eu disse devagar para recepcionista.
– Oi, como posso ajudá-la? – sorriu.
– Estou procurando minha mãe, ela é medica aqui.
– Qual é o nome dela?
– Molly – respondi.
– Você é filha da Molly? – ela pareceu encantada. – Pode deixar que vou chamá-la pra você. Apoiei-me no balcão e esperei. Eu estava decidida, iria aceitar falar com Thomas, ia largar esse medo bobo de parecer maluca para as pessoas porque isso estava me distanciando delas. Alta e elegante Molly percorreu o corredor em minha direção, seus cabelos loiros brilhavam.
– Que surpresa – ela abriu um sorriso ao me ver.
– Mãe, eu não vim aqui para te ver – disse pausadamente. – Eu quero falar com o Thomas.
– Você quer falar com o Thomas? – Molly perguntou ajeitando seu jaleco para esconder a surpresa.
– Porque está tão chocada? Não foi você que marcou uma consulta para mim? Então, eu resolvi que quero aceitar.
– Não, é que... Vou ver se ele pode te atender agora, espere aqui – disse ela saindo apressada pelo corredor. Minha primeira e mais urgente vontade era de desistir e correr apresada para fora dali, mas me contive. Minutos depois eu estava sendo guiada por Molly pelo corredor até a sala de Thomas. Minha cabeça começou a martelar. Estava tudo ótimo na teoria, mas agora como eu iria colocar em pratica?
– Ela está aqui – Molly disse parando em frente a ultima sala do corredor que estava entre aberta.
– Pode mandá-la entrar – a voz grossa e firme de Thomas me fez gelar.
– Vê se não seja tão dura com ele, querida – Ela beijou o topo da minha cabeça e saiu andando elegantemente de volta para seu trabalho. Fitei a porta branca a minha frente e entrei. Thomas estava sentado com os braços apoiados em sua mesa. Seu cabelo claro e cacheado estava ouriçado como se ele tivesse saído às presas de casa a essa manhã. Percorreu a sala com seus olhos cor de mel e os repousou sobre mim com um sorriso leve.
– , que bom vê-la– disse e levantou para me cumprimentar.
– É – respondi meio sem jeito. – Sente-se aqui – apontou para uma poltrona aparentemente confortável. E foi o que eu fiz, me acomodei na poltrona e respirei fundo.
– Pode começar a me contar o que vem acontecendo com você quando se sentir a vontade – ele disse bem devagar.
– Eu só não sei por onde começar – disse sincera. Thomas não disse nada, apenas me fitou com um olhar calmo e esperou pacientemente até que eu começasse.
– Sabe, minha mãe já deve ter dito a você o que vem acontecendo comigo, não tem como facilitar? – perguntei. Que eu estava ficando paranóica eu já tinha aceitado, mas passar essa idéia a outra pessoa era meio confuso. E se eu me empolgasse e revelasse tudo a ele? Claro que Molly seria a primeira a saber, e ai eu estaria perdida. Molly não me deixaria nem respirar sozinha. Pensei cuidadosamente em cada palavra que eu iria dizer.
– Eu comecei a ter pesadelos há algumas semanas, coisas demoníacas, entende? Eu não tinha medo do escuro até esses sonhos esquisitos começarem a aparecer– falei calma, controlando a respiração. Os olhos cor de mel de Thomas me fitavam curioso como se ele esperasse que eu continuasse, mas eu não falei mais nada.
– Já ouviu a palavra nictofobia ? – perguntou ele. – Eu não tenho nictofobia – respirei fundo. Eu não estava lá para escutar alguém dizendo que eu sofro de ‘medo do escuro’ só que com um nome mais bonitinho. E também não queria ouvir toda aquela baboseira de que aquilo era só coisa da minha imaginação, que não era real. No fim das contas eu só estava ali porque eu estava com medo. Medo do que eu estava vendo, medo de deixar Molly com medo. Medo de Corinne se afastar. Medo de mim, e principalmente de Adam. Claro, Adam era o ponto principal.
– Ainda há coisas que eu deveria saber? – ele perguntou calmo na esperança de que eu continuasse.
– Você vai pensar que eu estou ficando louca se eu te contar – respirei fundo.
– Claro que não, eu só posso te ajudar se você conseguir dividir tudo comigo – Dividir tudo com ele era o que eu mais queria fazer, se aquela era a única solução eu deveria encarar, mesmo sabendo que Molly saberia de tudo depois.
– Eu vi um garoto – disparei – Ele apareceu para mim no meu quarto na noite passada e retornou hoje de manhã– disse sentindo um nó se formar na minha garganta.
– Um garoto? – ele perguntou como se tivesse perdido alguma coisa.
– Um garoto morto, uma alma penada, sei lá, só sei que ele apareceu para mim – Pronto, agora estava feito, se minha intenção era esconder as coisas de Molly ,eu havia fracassado. Qual seria o próximo passo? Thomas me passaria vários remédios e me manteria em casa sem a permissão de sair sozinha? Ele iria decretar minha loucura, ou pior mandaria me internar? Tremi ao pensar nessa possibilidade.
– Você perguntou a ele o que ele queria com você?
– O que? – perguntei surpresa.
– Isso que eu vou lhe dizer agora foge muito de tudo o que eu deveria te dizer aqui, mas...
– Mas você está me deixando confusa – o cortei.
– , você sabe o que é auto-comunicação?
– Não.
– Bom, auto- comunicação é quando os outros tentam entrar em contato com o nosso mundo.
– Os outros? – ergui a sobrancelha – Do que você está falando?
Eu estava assustada, seja lá do que for que ele estivesse falando eu sabia que não era boa coisa, não era o que eu estava esperando ouvir quando entrei ali decidida conversar com ele.
– , os outros são as almas. São corpos vazios que procuram algo no nosso mundo. E você de alguma forma você tem alguma coisa que esse garoto quer – explicou ele. – Não precisa se apavorar, às vezes essas coisas não são todas ruins – completou.
– Essas coisas? Você está de brincadeira comigo?
– Eu não estou de brincadeira com você.
Meu coração dava várias cambalhotas no meu peito, a náusea estava começando a me dominar, a sensação que tive era de que iria vomitar a qualquer momento.
– Você está se sentindo bem? Você está pálida – Thomas perguntou preocupado. A minha garganta avia se fechado e mesmo que eu quisesse perguntar inúmeras coisas eu não conseguiria, eu queria sair dali o mais rápido possível.
– Preciso de ar – disse levantando-me rapidamente da poltrona e me guiando para fora da sala. – Volto depois – disse antes de sair apresada dali.
Do lado de fora do hospital enchi meus pulmões de ar e tentei me acalmar, mas minha cabeça latejava como nunca. Eu não queria ir para casa com medo de ficar sozinha até Molly chegar, mas também não poderia ficar rodando por ai com um garoto morto tentando contato comigo a qualquer custo. Meu celular começou a vibrar, puxei-o rapidamente e atendi.
– Oi Corinne – disse tentando manter a voz uniforme.
– Onde você está? Estou preocupada com você.
– Estou em frente ao hospital, mas já estou indo pra casa – respondi.
– Está no hospital por quê? Está se sentindo mal? Quer que vá até ai para ficar com você?
– Corinne lançou uma pergunta atrás da outra. Era bom ouvir a voz dela e saber que apesar de tudo que pudesse acontecer comigo ela nunca desistiria de mim, mas mesmo assim me sentia na obrigação de protege - lá da maluquice que minha vida avia se tornado.
– Como já disse, estou indo pra casa, mas obrigada.
– Mas eu liguei por outro motivo, vai ter uma fogueira hoje à noite na praia, bebida quente, violão, e alguns caras bonitos para poder paquerar, achei que isso seria bom pra você.
– Não sei.
– E a melhor parte ainda não chegou – disse ela mais animada do que o normal.
– Qual é a melhor parte? – perguntei tentando parecer curiosa.
– Você vai ver quando eu for as sete te buscar, esteja pronta – disse animadamente. Eu poderia jurar que ela estava dando pulinhos de alegria do outro lado da linha.
– Me buscar? – perguntei.
– Apenas esteja pronta, tchau – e desligou.
• Capítulo 5 •
Assim que cheguei do hospital liberei minha tarde para tratamentos de beleza. Meus cabelos que há dias não sabiam o que era uma hidratação agradeceram pelos cuidados. Os soltei e passei reparador em suas pontas cacheadas para que ficassem no lugar. Fiz uma mistura de mel com aveia e passei sobre a pele, e completei a sessão com duas rodelas de pepinos sobre meus olhos para tentar esconder um pouco as olheiras, que naquela altura já estavam fundas e escuras. Quando o relógio marcou sete horas, eu já estava pronta e feliz por estar com uma aparecia melhor. Meu celular vibrou no bolso e uma mensagem de Corinne apareceu no visor: Venha para fora, estou te esperando.
Peguei minha bolsa e sai trancando a porta logo atrás de mim. Eu não podia acreditar no que estava vendo.
– É lindo, não é? – Corinne gritou para mim que me aproximei às presas para olhar melhor.
– É perfeito – eu disse encantada ao ver um jipe azul parado em meu jardim.
– Meu pai me deu as chaves a essa tarde, ele disse que é meu presente de aniversário– ela sorriu. Faltavam apenas dois dias para o aniversário de dezesseis anos de Corinne e ela já poderia oficialmente dirigir. Fiquei imaginando se ganharia um presente tão bom quanto aquele de Molly no final do mês, quando eu também completaria os meus dezesseis anos.
– Você ainda não pode sair com ele – a lembrei não querendo quebrar a felicidade do momento, mas a fazendo.
– Qual é , só faltam dois dias, e além do mais só vamos até a praia, que mal pode acontecer?
– É você tem razão– eu disse empolgada abrindo a porta do carona.
– Vamos – ela sorriu sentando no lado do motorista e colocando o sinto de segurança. Abri a janela do jipe para o ar fresco poder entrar. A noite estava calma e o céu sem estrelas, o que significava que poderia chover a qualquer momento, mas mesmo assim continuamos. Uns vinte minutos depois Corinne e eu estávamos na praia. O calçadão estava todo iluminado graças às barracas de cachorro quente e aos diversos quiosques que ficavam abertos até tarde. As pessoas passavam animadamente em direção à areia onde um parque de diversões avia sido montado. Uma fila enorme se formava em frente ao carrossel e a montanha russa. E algumas pessoas gritavam eufóricas no Kamikaze.
– Vamos comprar cachorro quente – Corinne disse me puxando em direção a uma das barracas.
– Dois cachorros quentes, por favor – ela pediu.
– E dois refrigerantes – completei. A garçonete trouxe nosso pedido e então nós fomos procurar por alguém conhecido. O vento estava fraco, mas as ondas do mar batiam violentamente no píer. Algumas pessoas da escola estavam sentadas na areia em volta de uma fogueira tocando os primeiros acordes de Don’t let me down dos Beatles, nós duas nos aproximamos.
– Boa noite meninas – Jimmy disse sorridente para nós e repousou seu olhar sobre mim. Talvez ele tivesse analisando o meu estado depois do tombo milagroso que eu tivera lá na montanha. Sorri como se nada tivesse acontecido e parei para analisar as pessoas presentes ali, meu coração deu um salto olímpico e minha respiração falhou.
– O que... Você – tentei dizer alguma coisa, mas Jimmy me cortou. v – Esse é Adam, ele é novo na cidade – explicou enquanto eu mantinha os olhos presos no garoto.
– Adam? – Corinne perguntou sorridente –Lindo nome – ele balançou a cabeça em agradecimento. Eu não podia acreditar no que estava vendo, eu não podia acreditar que todos estavam vendo o que eu estava vendo. Como podia? Ele estava morto, não estava?
– E então Adam, me fale sobre você? – Corinne perguntou sentando na areia ao lado de Josh que roubou seu cachorro quente.
– Ou, é meu – ela disse o pegando de volta.
– Não vai se sentar? – Adam ignorou-a e lançou um olhar para mim que ainda estava em pé o encarando sem saber o que fazer. Sua voz era firme, e seu lábio esboçava um leve sorriso.
– É, vou – eu disse monossílaba e me sentei ao lado de Corinne. Eu estava chocada, mas do que isso, eu estava paralisada com aquela situação.
– Acho que você vai me oferecer esse cachorro quente, não é ? –Josh olhou sorridente para mim.
– Tome – eu disse surpresa por ainda estar com ele em mãos.
– Quem está preparado para ir ao colégio amanhã? – Jimmy perguntou. Todos soltaram suspiros e pela primeira vez mostraram desanimo ao se lembrar que o final de semana avia chegado ao fim.
– Você tinha mesmo que nos lembrar disso, não é? – Maria a líder de torcida perguntou irônica para ele. Ela estava com os olhos presos em Adam e parecia tentar seduzi-lo ao som dos Beatles.
– Eu tenho que estudar e trabalhar amanhã, você vai ficar melhor do que eu – garantiu. Minha vontade era ignorar todos eles e perguntar a Adam qual era a dele, que diabos ele era, e o que queria comigo, mas me contive. Os primeiros pingos de chuva começaram a cair do céu, apagando a fogueira e fazendo com que todos corressem para um lugar seguro.
– Vamos , corra – Corinne disse puxando meu braço em direção a estrada onde aviamos estacionado o jipe.
– Não, espere eu preciso falar com uma pessoa – eu disse olhando em direção a roda que agora estava vazia. Desesperada fitei a praia inteira e nada, Adam avia ido embora com as minhas respostas. A chuva apertou e eu e Corinne fomos pegas, corremos o mais de presa possível até o jipe, mas já era tarde demais, estávamos ensopadas.
– Isso é culpa sua – Corinne riu abrindo a porta do carro. – Mas até que você precisava tomar um banho de chuva pra se animar um pouco – completou.
– O que você está insinuando?
– Que você estava meio aérea, mas deixa pra lá – ela piscou para mim e deu partida no jipe. Olhei pela janela e a chuva só se apertava do lado de fora, o capo parecia não suportar a quantidade de água que batiam fortemente sobre si. Pisquei os olhos algumas vezes tentando afastar qualquer pensamento sobre Adam e tentar me concentrar só no caminho de volta para casa enquanto Corinne estava com os olhos presos na estrada. Aconcheguei-me no banco e me permiti fechar os olhos enquanto acompanhava o vai e vem do limpador de para brisa. Acordei assustada com Corinne me cutucando, ainda relutante e morta de sono eu a fitei. Ela estava parecendo um gatinho molhado e abatido, seus olhos castanhos estavam acompanhados de um vermelho leve que indicava que ela estava com sono e que acordaria gripada pela manhã.
– Que horas são? – perguntei observado que ainda chovia forte. – Quase duas da manhã – ela respondeu olhando o relógio em seu pulso. Já era bem tarde, e nós não aviamos ficado todo esse tempo na praia, talvez Corinne tivesse parado em algum lugar. Rezei mentalmente para que Molly estivesse de plantão, caso contrario eu teria que explicar por onde eu andara até aquele horário.
– Paramos em algum lugar no caminho de volta? – perguntei espantando o sono rapidamente.
– Ficamos presas na estrada, uma arvore caiu e parou o transito por duas horas – ela disse enquanto bocejava.
– Você devia ter me acordado pra ficar com você.
– Está tudo bem, você só estava cansada – ela sorriu. Concordei ainda sonolenta e abri a porta do jipe me colocando para fora o mais de presa possível para não me molhar ainda mais. Assim que estava segura em baixo do patente da porta olhei para trás e acenei a Corinne que já se afastava. Entrei em casa e tranquei a porta, em seguida tateei a parede a procura do interruptor e respirei de alivio assim que o encontrei. A sala ficou iluminada, e fui assim iluminando todos os cômodos até chegar ao banheiro onde eu parei para tomar um banho quente. Meu corpo estava moído e eu podia sentir a friagem me abandonar enquanto a água do chuveiro caia sobre meus ombros. Depois do banho coloquei meu pijama de frio e abri o armário à procura de um fraco de tylenol, colocando dois compridos goela a baixo. O dia avia sido intenso e aquela altura da noite eu já estava faminta, fui direto a cozinha tentar improvisar alguma coisa. Coloquei um sanduiche no microondas e esperei até que três apitos suassem no ar indicando que meu lanche estava pronto. Virei em direção à sala com meu lanche em mãos e paralisei.
– Como você entrou aqui? – perguntei sentindo uma onda calma me abraçar.
– Pela porta, pequena – Adam respondeu olhando-me atentamente. Não havia sequer um sinal de luz a sua volta como das outras vezes, o olhando assim até parecia que ele estava vivo. Seus olhos azuis brilhavam mais do que nunca, e sua boca estava rosada e moldada de uma forma séria e linda.
– Saia da minha casa agora, isso é invasão de domicílios sabia? Vou chamar a policia. – Ele riu como se achasse engraçado – Você não estava me procurando na praia? – perguntou.
– Como sabe que eu estava te procurando se você não estava mais lá? Quem diabos é você?
– Diabo é um nome muito forte para se dar ao seu guardião, não acha? – disparou ele.
– Guardião? – arqueei a sobrancelha.
– Tenho que protegê-la.
– Só quero lhe informar que eu não preciso da sua proteção – ele franziu a testa – Eu preciso que você saia da minha casa agora.
– Você precisa é conter esse seu gênio, pequena.
– Pare de me chamar de pequena, você não tem essa intimidade comigo. Alias quem é você? Você não estava morto?
– Estava – ele bocejou como se me achasse chata e desinteressante. A luz da cozinha piscou uma, duas, três vezes até nos deixar completamente no escuro.
– Você fez isso? – perguntei largando meu sanduiche na mesa para poder me defender caso ele tentasse alguma coisa.
– Não – ele negou indo em direção a sala, o segui. A casa estava silenciosa ao não ser pelo o som dos nossos passos e o barulho forte da chuva que batia fortemente no telhado. A sala estava fria e misteriosa, parecia mais um cenário de filme de terror, o papel de parede antigo brilhava naquela completa escuridão e os moveis de mármore pareciam nos observar. – Vou pegar uma lanterna, não tente nada – eu disse o olhando cuidadosamente. Se não fosse pela completa escuridão eu poderia jurar que ele estava sorrindo. Subi as escadas em direção ao meu quarto segurando firmemente no corrimão para não escorregar. Assim que cheguei ao topo da escada pude observar o corredor que ainda estava iluminado por uma luz fraca vinda do lustre, era a única luz da casa que ainda parecia funcionar. Firmei meus passos e fui direto ao meu quarto. O cheiro de terra molhada me entorpeceu assim que entrei, a janela estava aberta e a luz da rua o iluminava fracamente. Em cima da cama em baixo do travesseiro lá estava ela, minha lanterna que eu ganhara de Corinne semanas atrás. – Isso vai te ajudar, quando estiver com medo – disse ela ao me entregar a lanterna. E agora estava me ajudando mesmo, não por medo, mas para poder ficar com os olhos bem abertos em cima de Adam. Eu não confiava nele, e não importava seus lindos olhos azuis e nem seu sorriso aparentemente encantador, ele era suspeito e eu não podia me descuidar. Liguei a lanterna e sai do quarto, o corredor já estava numa completa escuridão, passei por ele rapidamente e desci as escadas. Encontrei Adam no mesmo lugar onde eu o havia deixado, só que um pouco mais acomodado, sentado em meu sofá.
– Ótima lanterna– disse ele
– Comece quando quiser – eu disse apontando a luz da lanterna sobre seu rosto para observar suas expressões.
– O que você quer saber? Mas que droga, tira essa luz daí – reclamou olhando para o lado para fugir da claridade.
– Eu quero saber tudo. Quem é você? O que quer comigo? E que papo é esse de guardião? E outra você ofuscou minha visão várias vezes, lei do retorno – eu disse me aplaudindo por dentro por ter parecido tão madura.
Continua...
N/A:: Loucura, loucura rs. Espero que gostem. Beijos.
n/b: Já estou intrigada. Na espera dos próximos capitulos. Qualquer erro envie um email para mim