Autora e Beta-Reader: Bru Carmelli.


- ? É você? - A voz de minha mãe ecoou do andar de cima.
- Sim. - Disse, tentando manter minha voz alta o bastante para que ela ouvisse, mas controlando para que o choro não ficasse aparente.
- Ah! - Ela exclamou, aparecendo no alto da escada. - Finalmente você chegou em casa, querida! - Desceu as escadas correndo e me abraçou.
Pelo menos ela, eu sabia que não iria me abandonar. E nem se revelar algo que eu nunca pude imaginar que fosse.
Ou talvez pudesse. Eu já não sabia o que era possível e o que não era, depois de tudo o que passei naqueles últimos dias.
Quero dizer, primeiro de tudo, comecei a andar com os garotos mais velhos. E aquilo já era uma novidade, uma coisa estranha, porque eles nunca demonstravam muito interesse nas meninas mais novas. Pense bem, garotos do terceiro ano do colegial, formandos, andando com as crianças do primeiro ano? Aquilo não era comum numa escola tão grande como a minha.
Mas aconteceu.
E me senti especial com aquilo. Você ser uma das poucas que são aceitas naquele grupo? Por favor, qualquer garotinha ingênua de quinze anos - o que eu, infelizmente, era - iria ficar radiante com a situação.
E os pais de qualquer garota numa situação como aquela, é óbvio, ficariam muito bravos. O que eles sempre definem como preocupados, na verdade. Mas que nenhuma das filhas acredita que seja mesmo preocupação.
De qualquer jeito, essa não foi a parte importante da história. Certo, então eu estava saindo com os meninos mais velhos. Sentia-me ótima com aquilo.
Então acabaram as aulas.
Obviamente, começaram as férias.
E os meninos estavam falando de uma viagem, sobre irmos para a praia e passar um final de semana inteiro lá. Talvez até mais tempo, se o dinheiro durasse.
Eu, como qualquer garotinha ingênua de quinze anos, queria muito ir.
- Mas por que não, mãe? - Perguntei, irritada, após ela dizer que eu teria que ficar em casa no final de semana.
- Porque a sua avó está vindo passar alguns dias aqui com você, eu já lhe disse.
- Mas é só um final de semana! Só dois dias! Dois diazinhos? Por favooooooooor?
- Eu já disse que não, !
Certo, certo. Então ela realmente não ia ceder. Suas narinas um tanto infladas denunciavam sua irritação com a minha insistência, e a expressão de seus olhos mostrava claramente que ela não estava disposta a uma argumentação racional. Que a resposta era não, e pronto.
Nesse caso, eu teria que improvisar.
Liguei para Steve, e disse para ele passar em minha casa às duas da tarde, na sexta-feira.
Minha mãe estaria no médico, então eu não teria problema nenhum quanto a isso. Além do mais, ela não interromperia sua preciosa cirurgia plástica por quase nada nesse mundo, e acho que nem por algo como isso. Quero dizer, não era muito mais fácil esperar eu voltar, e só então me dar uma bronca? Ficar sem botox e ainda aumentar o estresse? Aquilo causaria rugas no rosto perfeito - e artificial - dela. Pobrezinha.
Como o previsto, deu certo. E, na noite de sexta, estávamos na casa de praia do tio de Steve.
Então Anna - uma das poucas meninas que fazia parte desse grupo com quem eu agora estava saindo - disse que queria passear na praia, sentir a areia em seus pés descalços. E queria que queria sair daquele apartamento.
- Eu vou com vocês. Aqui está muito quente, com esse ventilador quebrado. - Steve reclamou enquanto se levantava do sofá.
O que ele devia ter esquecido era que foi ele quem quebrou o ventilador. Mais cedo, quando Luke achou uma bola de basquete, ele jogou para Steve. Este, ao invés de pensar direito e guardar a bola, para jogar lá fora, sem danos futuros, simplesmente jogou de volta para o amigo. Então ficaram jogando a bola um para o outro até que ela acertasse o ventilador. E agora estávamos todos morrendo de calor.
- Eu também vou. - Disse , repetindo as ações de Steve.
Certo, agora aquilo tinha ficado interessante. Anna, é claro, estava grudada em meu braço e me puxando para fora do apartamento - coisa que eu, pela primeira vez em muito tempo, fiquei feliz em ter acontecido.
O fato é que ... Bem, era o . Alto, moreno, olhos verdes, musculoso, capitão do time de basquete da nossa escola, simpático e popular. Era o garoto dos sonhos de qualquer garota.
Mas, como qualquer garoto popular, ele também tinha má fama. Aqueles boatos que são sempre espalhados para toda a escola. Como os que diziam que ele mexia com drogas, ou que saía com muitas garotas, e que, na maioria das vezes, seus encontros iam um tanto além de alguns beijos no cinema.
Não que eu acreditasse nessas coisas. Quero dizer, ele era, sim, perfeito. Então devia mesmo ser tudo invenção. Não é como se as pessoas populares e invejadas nunca fossem vítima de boatos idiotas.
- A lua está linda, não está? - Anna perguntou, olhando sonhadora para o céu.
- Está sim. - Murmurei.
De repente, Anna deitou-se na areia, e me puxou para deitar ao seu lado.
- Vamos observar as estrelas! - Ela fez um gesto amplo para o céu. - Quando é que você vai ver tantas estrelas assim na grande São Paulo, me diz?
- Nunca. - murmurou, sentando-se ao meu lado.
- Chega de estrelas! - Steve cortou o momento sonhador de Anna. - Por que não entramos na água? Parece estar muito boa. E ainda está quente por aqui.
Eu e Anna nos sentamos. Ela franziu o cenho.
- Você tem certeza? Já está de noite, e...
- Vamos logo, Anna! - Steve reclamou, estendendo as mãos para ajudá-la a se levantar. - Você não entrou no mar o dia todo.
- Nós chegamos aqui quase seis da tarde!
- Ainda assim!
- Certo, certo. - Anna revirou os olhos e segurou nas mãos dele para ser levantada.
Logo, os dois corriam na areia onde as ondas morriam, jogando água um no outro.
Não pude evitar uma risada.
- O que foi? - perguntou.
- Nada não. - Murmurei.
- Vamos, diga!
- Não é nada!
- Sei.
- É verdade.
Recostei meu rosto no ombro dele, ainda observando o mar. Aquela imensidão azul, que guardava tantas coisas em seu fundo, e...
- E você? - perguntou de repente, interrompendo meu raciocínio um tanto filosófico demais para as férias.
- Eu o quê?
- Entrou na água hoje?
- Nem comece com isso, . Eu...
- Então você não entrou?! - Ele perguntou incrédulo.
- Eu... Não.
- Está na hora de entrar. - Se levantou e estendeu as mãos para mim, exatamente como Steve estava alguns minutos antes.
- Mas por que eu preciso tanto assim?
- Porque o mar está ótimo! , você veio para a praia, precisa nada no mar. É como um dever, e, se você não nadar, Poseidon vai te castigar, e...
- Quem?
- Poseidon! O deus do mar. - Perguntou, quando continuei com a mesma cara de perdida. - Mitologia grega?
- Ah, certo! - Entendi após a última dica.
Dava pra acreditar? Além de lindo, e gentil, ainda era inteligente.
- Certo, então eu entro. Mas é só um pouquinho, viu?
- Certo. - revirou os olhos.
Andamos pela areia, nossos braços roçando de vez em quando, então paramos quando a água tocou nossos pés.
- Viu? A água está quentinha, não tem problema nenhum você entrar. - deu de ombros, então tirou a blusa.
Tentei agir como se não fosse nada demais, mas não era tão fácil quanto soava. Quando fiquei praticamente sem reação, ele franziu o cenho.
- Não vai tirar a roupa para entrar?
Então me lembrei de um problema.
- Eu esqueci meu biquíni lá no apartamento.
- Deixa disso, a diferença entre biquíni e roupa íntima é só a hora em que você usa. - Ele deu de ombros. Agora a água já batia em seus joelhos. - Entra logo!
Mais uma vez, fiquei praticamente sem reação.
- Eu estou entrando de shorts, você não pode reclamar! - Ele disse.
- Claro que posso!
- Vamos, entra logo.
- Mas você tem seus shorts, já está melhor do que eu.
- Certo. - Ele se abaixou e tirou seus shorts, ficando apenas de boxers. - Agora entra?
Fiz muita força para meu queixo não cair. Espere um pouco, aquilo queria dizer que, basicamente, o garoto mais lindo da minha escola, e também dois anos mais velho do que eu, estava quase me implorando para eu nadar de roupas íntimas com ele?
Aquilo sim era uma novidade para a minha vidinha pacata.
E é claro que, como uma boa garotinha ingênua de quinze anos, eu não podia perder uma oportunidade daquelas.

No dia seguinte, não havia me arrependido. Ao acordar, percebi uma mão que envolvia minha cintura, por baixo do cobertor. Sorri levemente ao perceber de quem era.
- Bom dia! - Disse, testando se o deus grego ao meu lado estava acordado ou não.
- Bom dia, linda.
Certo, caso não tenha ficado óbvio o bastante, era ali.
Rolei para ficar de frente para ele, e ele sorriu. Meu sorriso ficou um pouco maior, se é que aquilo era possível.
- Dormiu bem, foi? - Ouvi uma voz atrás de mim perguntar. Arregalei os olhos e me virei para ver quem era.
Era só Anna, dando um sorrisinho safado e se fazendo de santa.
- Hei! Sai daqui! - jogou um travesseiro nela, fazendo nós três rirmos.
Ela saiu do quarto, ainda rindo e me lançando alguns olhares enigmáticos.
- Onde estávamos? - perguntou, aproximando nossos lábios.
Suas mãos corriam livremente por meu corpo, que estava coberto apenas pelo lençol. Não que isso fizesse muita diferença, uma vez que ele também estava embaixo do lençol, somente de roupas íntimas, assim como eu.

É claro que eu, como uma boa garotinha ingênua de quinze anos, não via o que estava por vir.
Mas logo descobri que, quando todos dizem que é verdade, normalmente, é verdade mesmo. Principalmente quanto até as pessoas mais próximas da vítima dos boatos concordarem. Nesse caso, é muito melhor não arriscar.
Não que alguém tivesse me avisado sobre isso antes.
Quero dizer, uma garota que já tinha ficado com tinha dito que ele era... Bom, tudo o que diziam. Mas, principalmente, safado. E abusado.
Ela não estava mentindo.
- Por que não? - me perguntara.
Isso já era noite, imagino que tenha sido a última que passamos naquela praia. Em todas as outras noites, eu tinha conseguido escapar desse momento. Fosse por programa de televisão, amiga com problemas, dor de cabeça, ou qualquer outra desculpa que servisse.
Mas naquela, nada tinha adiantado.
- Eu já disse que não quero, . - Sussurrei.
Já deve ser bem óbvio o motivo de nossa discussão. Primeiro, eu digo que ele é safado. Então ele está tentando me convencer - ou forçar, dependendo do ponto de vista - a fazer algo que eu não quero.
- Não é verdade. Você sabe que quer, . - E se aproximou.
- Não quero não, . - Tentei soar séria.
Ele já estava um pouco alterado - álcool, cigarros, talvez algo mais que eu não tivesse ficado sabendo - e eu esperava que ele entendesse que eu estava falando sério, se eu falasse como quando você dá bronca em uma criança, ou em um cachorro. Acho que até bêbados são capazes de captar o tom da voz de quando uma mulher está estressada.
Mas talvez eu estivesse errada. Ou talvez ele tivesse simplesmente ignorado minha seriedade, porque não funcionou.
Ele continuou se aproximando, e logo eu tinha que me debater para me soltar dele, coisa que não foi muito fácil, considerando que ele era consideravelmente maior e mais forte do que eu.
- Deixa de frescura, querida. - Ele sussurrou.
- Para com isso, ! - Tentei me forçar a não gritar, enquanto ainda tentava me soltar.
Minha salvação foi quando eu mordi o braço dele, então saí correndo antes de ele se recuperar.
Ao chegar à sala, Anna estava junto de Steve no sofá. O resto dos garotos estava em alguma festa, não disseram onde era.
Eu fazia um esforço enorme para não chorar, mas então ficou muito difícil, minha visão começou a ficar embaçada, e logo estava aos prantos. De repente, eu sentia muita falta das minhas antigas amigas - sabe, aquelas com quem eu tinha parado de andar assim que me aproximei dos garotos mais velhos? As que, de uma hora para a outra, tinham parecido simplesmente menos importantes, e bobas? Que eu jurava que não ia sentir falta?
Essas mesmas.
Somente no dia seguinte foi que voltamos para São Paulo. Depois de muitas horas de viagem, durante as quais não me permiti chorar, coisa que foi difícil, Steve me deixou na porta de casa. Apesar de ser um chato irritante às vezes, ele era um cavalheiro por dentro.
Ou quase.
E por isso que, no momento, eu estava em frente à minha mãe, que fazia tanta cara de preocupada quanto era possível, com sua cara claramente artificial e um tanto sem expressão.
- Você está bem, bebê? - Ela perguntou.
- Não. - Chorei e a abracei.
É claro que, mesmo que tivesse corrido tudo bem na viagem, eu teria feito a mesma coisa. Normalmente, aquilo me salvava de muitas semanas de castigo, e melhorava demais a minha vida.
Por isso, daquela vez ela não acreditou que aquilo estava mesmo acontecendo. Ela demorou meses, na verdade, para entender que eu havia parado de andar com os garotos mais velhos, e agora tentava recuperar minha velha amizade com as meninas da minha sala de aula.
Moral da história? Acabei com três meses de castigo, sem sair de casa, e com todas as lições de casa meticulosamente controladas por minha mãe. Se eu faltasse com uma lição que fosse, por melhor que fosse o motivo, ela me deixaria mais uma semana de castigo.
Digamos que, depois disso, eu tinha desistido de surpreender garotos lindos mais velhos. Afinal, era justamente por que eu queria ir nessa viagem.
E acabei descobrindo que o que eu amava, não era o mesmo presente naquele carro. Ele era somente minha imaginação, falando mais algo do que os boatos - verdadeiros - que corriam pela escola.

FIM!


N/A/B: Aqui estou eu de novo, com outra short, aeae. Acho que estou melhorando nisso, hehe. Espero, pelo menos. É, essa história acabou ficando sem um final feliz. Foi meio... Drama, ou algo do tipo. Mas não sei, queria tentar algum outro tipo de texto mesmo, senão eu ia ficar acostumada demais com finais felizes para minhas personagenzinhas lindas! Hahahaa.
Mas, se tiverem muitos comentários, quem sabe eu faço uma segunda parte, e essa história toda fica com um final feliz decente, hein? Estou tentando escrever dramas, mas é meio estranho. Eu, pelo menos, acho que ficou meio estranha essa história... Gostei muito não. Finais felizes são muito mais legais, hihi.
E pra essa fic eu até fiz uma capa! É, fui eu que fiz aquela coisa lá em cima. Deu um trabalhão, e nem ficou direitinho do jeito que eu queria, hahaha. É nisso que dá ser perfeccionista, er. Mas me diverti fazendo. õ/ Agora acho que vou colocar capas nas minhas outras fics também, hahah.
E então, o que acharam? Sugestões, opiniões, críticas, qualquer coisa?
Ah, é. Minhas outras fics no site (se quiserem ler também *-*):
- Os Novos Vizinhos (McFLY/Em Andamento)
- Just The Way You Are (Outros/Finalizada)
Antes de ir, só queria agradecer a você, que leu essa fic até o final, até essa minha big n/a, hehe. Beijo! :)