Every You, Every Me
Autor: Yasmin Albuquerque
Beta-Reader: Táh

Capítulo 01

's Pov

Subi o fecho do meu vestido preto e azul Marchesa. Encaixei o sapato prata peep-toe perfeitamente no meu pé. Passei um gloss qualquer na boca. Ajeitei a franja. Borrifei o 212 Sexy no meu pescoço e nos meus pulsos. Coloquei a pulseira com um pingente de coração no pulso direito.
Pronto. Mais 2,5km e eu chegaria lá. E acabaria com toda aquela merda.

Pus meus pés pra fora do carro e saí. Eu podia ouvir Dance, Dance do Fall Out Boy tocando muito alto do lado de fora da casa. “I only want sympathy in the form of you crawling into bed with me”. Absorvi cada palavra. Dispensei Alex e pedi pra que ele deixasse o celular ligado. Respirei fundo, abri o portão e caminhei devagar pelo caminho de pedras até a porta. Toquei a campainha.
Uma Lauren toda sorridente abriu a porta pra mim. Quando me viu, seu sorriso estancou. Não parecia estar feliz. Grande surpresa. Mas foi curta e grossa ao abrir aquela boca suja e dizer:
- Bem-vinda, .
- Foda-se. - falei, enquanto passava por ela e entrava na casa.
Era tudo um caos. O cheiro de suor, álcool e sexo estava por todos os lugares por onde eu passava. Mas a sala de estar estava intacta. Tudo aquilo entranhou nos meus poros. Respirei fundo mais uma vez. Não era divertido eu ter de fazer aquilo. Porém era necessário. Virei o corredor a esquerda, em direção à cozinha. Copos de ponche espalhados pelo chão. Algumas pessoas se comendo na bancada. Cinco caixas de Pizza Hut abertas e meio vazias do lado do fogão. Como eles aguentavam comer ali?
Não encontrei nada na cozinha. Movi meus pés devagar, sem pressa, em direção ao corredor mais próximo. Depravados. Lauren provavelmente tinha esquecido que eu estava ali. Porque ela e Bradd estavam se amassando ao lado do quarto da empregada. Ridículo.
Tudo aquilo era repugnante. As pessoas e o que elas faziam. Como se não tivessem amor próprio.
Eu não podia falar nada. Eu não tinha amor próprio. Mas gostava de destruir o dos outros.
Porque não era como se todos fossem ser felizes pro resto da vida. Uma hora a felicidade acaba e não importa pra onde você vá: pra perto dos pais, pro lugar que você gostava de ir quando era criança; Pra puta que pariu, não importa, a felicidade não está em lugar nenhum.
E aí você fica deprimida pro resto da vida e tenta se matar. Então seus pais lembram que você existe e te colocam na rehab.
Não é a melhor fase da vida de ninguém, mas a vida “começa” de novo a partir daí. Quando você percebe que a vida em si é uma merda e resolve foder com tudo de vez.
Funciona. Mas não faz bem pra ninguém.
Aqueles escrotos eram a prova viva de tudo isso. Um bando de idiotas que só sabiam transar e gastar o dinheiro dos pais com cerveja e quartos de hotéis mega caros.
Por eu estar ali qualquer um podia me ver e pensar que eu era mais uma imbecil que só saiu de casa pra ir numa festa qualquer pra ver se esquecia da vida.
Eu não fui ali pra esquecer minha vida. Fui ali pra acabar com vidas. Era minha especialidade.
Passei direto pelo corredor sentindo cheiro de cigarro e de vodka impregnado nas paredes, no carpete e nas plantas ornamentais que a mãe de Lauren cismava em deixar por entre os corredores. Fui dar direto na sala de visita. A porta dupla de vidro estava aberta e dela eu podia ver a piscina e duas caixas de som em cantos diferentes do jardim. Na sala, um DJ no canto direito começou a tocar “Hot Mess” e a sala se tornou um purgatório.
Fui em direção às portas de vidro abertas ao lado do DJ. Parei no patamar de pisos escuros antes do gramado. Algumas pessoas estavam se jogando dentro da piscina. Alicia, prima de Lauren, estava de cabeça pra baixo com uma mangueira, acoplada a um barril de cerveja, na boca. O que eu não faria com uma câmera na mão.
No lado direito da piscina, nas cadeiras de praia, Britt, Morgan e Lauren conversavam enquanto bebiam o que eu julguei ser ponche. Dentro da piscina, eu só reconheci o Harry nadando, ainda de bermuda. Filho-da-puta, nem ele me contou. Que não me visse. Na margem esquerda da piscina, vi os cabelos do Tom embaixo de uma menina ruiva. Tom Fletcher chegava a ser pior que o Bradd.
Rodei os olhos por todo o jardim. Vi mais algumas pessoas bebendo e na parede do muro, atrás da piscina, alguém muito parecido com o Dougie e acompanhando ele, alguém muito parecido com a... Becc? Dane-se. Voltei meus olhos pras meninas e elas estavam olhando pra mim. Provavelmente falando algo do tipo: “O que ela faz aqui?” ou “Eu sairia correndo se fosse ela”. Dei um sorriso na direção delas e ergui meu *anelar esquerdo. Virei às costas e entrei na casa.
My First Kiss” ecoou na minha cabeça e eu fechei os olhos. Fiquei parada, com as costas viradas pra porta e um sorriso no rosto. O lugar ficou repentinamente quente. Eu abri os olhos e olhei pra frente. A sala estava muito mais cheia. Eu olhei pra direita e vi um corredor estreito. Saí do lugar e fui andando devagar entre os idiotas a minha volta.
Eu andava empurrando as pessoas e os bêbados que apareciam na minha frente procurando com os olhos os imbecis que me tiraram de casa logo hoje. O único motivo pra eu estar ali. Pisei no pé de alguém que falou algo parecido com “filha-da-puta!”. Mandei um foda-se e saí de lá. Fui em direção ao corredor lateral, do lado do DJ. Subi a escada a direita, que deu em outro corredor. Aquele corredor estava menos vazio que o outro. Mas o cheiro de cigarro, vodka e sexo continuavam impregnados ali. Acho que em todos os cantos daquele inferno que algumas pessoas chamam de casa. Ou lar.
Entrei na segunda porta a direita. Era o quarto de Lauren. Entrei e fechei a porta atrás de mim. As paredes em tons pastéis com listras cinza dividindo o azul do bege eram bem a cara dela. Na parede a minha frente tinha uma janela grande com uma cortina branca. Ao lado da janela, uma estante com vário cd’s. The Calling, One Republic, Plain White T’s, Paramore, 3OH!3, Cobra Starship e algumas trilhas sonoras. Na parede a direita continha uma televisão bem grande e um computador no canto, ao lado da estante. Do outro lado da janela, tinha um quadro de metal azul e com estrelas, cheio de fotos entrelaçadas por elásticos rosa. Ao lado do quadro, tinha uma parede extra e um quadro muito bonito até. Era uma garota, de perfil, com os olhos profundos e vermelhos e a pele bem pálida. Uma trança frouxa descia pela lateral do seu rosto. Uma lágrima acompanhava o contorno de sua bochecha. Ao fundo, um balanço parado no alto. Achei interessante. Profundo demais pra pertencer à Lauren.
Porque aquela garota era a vadia mais vazia e sem sentimentos que eu já conheci. E não é exagero de minha parte.
Ao lado dessa parede, tinha uma porta que eu abri e dei de cara com um banheiro. Fechei a porta e virei de volta pro quarto.
Era um quarto bonito até. Eu sentei na cama forrada de verde claro e pensei em como a vida era injusta o bastante pra me fazer estar sentada na cama da pessoa que eu mais odiava nesse Inferno. Olhei em volta de mim. Bem, eu podia me divertir, afinal as pessoas vão para as festas pra isso.
Tirei meu sapato e deixei jogado no pé da cama. Descalça, fui em direção à porta e rodei a chave. O computador dela estava ligado. Era cheio de post-its coloridos em volta, como “Praia às 14h com as meninas” e “Fazer unhas às 18h”. Liguei a tela. Uma foto dela, na Disney estampava a página inicial do computador. Ela devia ter mais ou menos uns quatorze anos quando tirou-a. Era ela com as orelhas da Miney e o “Mickey Mouse”. Ela parecia uma adolescente normal nela. Como se não tivesse segredos nem nada do tipo. Como se fosse só mais uma pessoa querendo ser feliz.
Ah, corta essa! Pelos padrões dela, ela era a pessoa mais feliz do mundo. Não sou Deus pra contestar.
Ignorei a foto e peguei a câmera preta ao lado da tela.
Levantei e fui em direção à janela. Abri a cortina devagar. Lá de cima, dava pra ver a piscina e os idiotas enchendo a cara lá embaixo de um ângulo ótimo. Dava, inclusive, pra ver Lauren. Ela não me via. Estava ocupada demais engolindo o Bradd na cadeira de praia, a direita da piscina. Fiquei imaginando se ele conseguia respirar. Pelo menos não era da minha conta.
Imaginei como Britt e Morgan se sentiam sendo trocados por oitenta quilos de hormônios e anabolizantes. Usadas; O que elas realmente eram.
Apertei o zoom e procurei um ângulo melhor. Do outro lado da janela, a cena parecia épica. Apertei o botão e o flash disparou. Olhei pra baixo vendo se alguém tinha me visto. Nada. Fechei a cortina e fui em direção ao computador.
Abri uma gaveta pra achar o cabo USB ou a caixa do cartão de memória. A primeira gaveta só tinha canetas, um caderno preto e branco, fitas adesivas de todas as cores, envelopes e mais papéis coloridos. Abri a gaveta da esquerda e achei carregador de celular, um iPod, fones de ouvido, um cd perdido da Miley Cyrus, uns três cabos USB e duas caixinhas pra cartão de memória. Abri a entrada pra cartão e peguei aquela coisinha minúscula e pus em cima da mesa. Pequei a caixinha correspondente e encaixei no computador com o cartão. Esperei a pasta abrir e depois de uns cinco minutos imprimi a foto.
Ficou perfeita.
Guardei a caixinha e deixei a máquina onde estava. Vasculhei a gaveta cheia de canetas e peguei uma preta, uma fita adesiva transparente e um envelope. Escrevi atrás da foto e pus dentro do envelope azul com detalhes em preto. Deixei em cima da mesa com a fita adesiva em cima e fui em direção ao banheiro.
Acendi a luz. O azulejo branco foi demais pros meus olhos. Forcei a vista até me acostumar com a claridade. Me vi refletida em um espelho enorme com detalhes dourados em volta. Entrei no banheiro e vasculhei um armário minúsculo, branco e preto, com três gavetas. A primeira tinha curativos coloridos da MTV e alguns comprimidos pra cólica. A segunda tinha milhões de absorventes. A terceira tinha maquiagem. Peguei um batom rosa da M.A.C. e me mirei no espelho outra vez.

“Bitch,
P.S.: meus pêsames :(”

Minha letra perfeita inclinada pro lado não me denunciava, ela não conhecia minha caligrafia. Mas provavelmente saberia que foi eu. Passei o batom nos lábios porque o gloss já havia secado. O deixei em cima da bancada e olhei pra estante. Creme hidratante. Shampoo, condicionador, creme depilatório. Nada. Peguei o batom, o segurei bem firme e saí do banheiro. Fechei a porta e apaguei a luz. Sentei na cama outra vez e olhei pro lado. O closet.
Abri as portas duplas e as luzes se acenderam. Observei cada fileira. Fui em direção ao fim dele. Casacos. Peguei um trench-coat preto de botões. Começava a serenar lá fora. O encaixei em volta do meu corpo e dei um laço com o cinto em volta da minha cintura. Me olhei no espelho.
Impecável.
Saí do closet e fechei suas portas. Peguei o batom em cima da cama e fui em direção ao banheiro novamente. Ascendi a luz. Abri o batom e escrevi, um pouco em baixo da outra frase:

“Seu closet é uma graça,
xoxo

Fechei a porta do banheiro e fui em direção à mesa do computador. Peguei o envelope e a fita adesiva e pus no bolso direito do casaco. Sentei na cama, pela última vez nessa noite e encaixei os sapatos nos meus pés. Levantei e pus o batom no bolso vazio do lado esquerdo.
Girei a chave e abri a porta. Então estanquei.
Danny Jones e uma vadia qualquer estavam ali, na minha frente, se beijando, com, digamos assim, “ternura”. Isso era ridículo. Danny Jones não tinha ternura com ninguém. Nem com o sobrinho de três anos de idade que tinha os olhos iguais aos dele. Nem com a mãe que fazia tudo pelo filho idiota.
Nem comigo.
Eu parei, na porta do quarto de Lauren, com ódio estampado nos olhos e uma feição incrédula no rosto. Foda-se o resto, pensei. Tirei as mãos dos bolsos e fiz uma das únicas coisas impensáveis da minha vida.
Num minuto eu estava parada olhando Danny e qualquer uma se beijando “com ternura”. No outro, a porta atrás de mim estava fechada e a suposta garota estava aos meus pés com os cabelos na minha mão esquerda. Danny olhava pra mim espantado, com um olhar como quem quer dizer “Que porra você está fazendo?!”.
- O que você ta fazendo, sua idiota?! - a voz surpresa e irritante da menina soou nos meus ouvidos. Eu me irritei.
Abaixei e sussurrei no ouvido da garota desconhecida e insignificante:
- Sua vadiazinha. - murmurei, puxando o cabelo com mais força entre os meus dedos - Você não é nada. Você é uma merda de uma coisa insignificante que ele queria comer. Então ele esqueceria que você existe no dia seguinte e ia te ignorar pelo resto da sua vidinha de merda. Sai da minha frente garota, antes que eu acabe com a sua vida. E eu não vou ser piedosa.
Ela levantou assustada e seguiu em direção à escada olhando fundo nos olhos de Danny antes de desaparecer na curva do corredor.
Estúpida.
Eu me levantei e mirei os olhos azuis profundos de Jones. Respirei fundo e esperei o esporro ridículo que ele me daria.
- Que merda foi essa?! Quem você pensa que é pra fazer isso, sua estúpida? Minha mãe? Caralho, , você é tão imbecil! Não sabe perder, não joga.
Eu levantei, me aproximei dele e moldei meu corpo ao seu. Puxei seus cabelos de leve com as duas mãos. Ele ficou estático, sem mexer nem um músculo, o corpo grudado na parede. Eu sentia a respiração dele nos meus lábios e respirei fundo.
Eu aproximei os meus lábios dos dele e mordi seu lábio inferior devagar. Ele segurou minha cintura querendo me empurrar, mas eu puxei seus cabelos com mais força, ele parou. As mãos, finalmente no meu corpo. Ah Deus, como eu precisava disso! Eu guiei meus lábios em direção à sua orelha e sussurrei:
- Eu não perdi. - falei aquilo como se fosse a hipótese mais idiota do mundo, e bem, realmente era- Você sabe disso tanto quanto eu. E você sabe também, que a vida dela acabou no momento em que ela ousou beijar você. Que a bola de cristal que é a vida dela vai cair no chão e se quebrar em milhões de pedacinhos, igual ao coração da mesma. Porque ela vai se foder Jones, no quinto dos infernos.
Ele quis abrir a boca, mas eu puxei o cabelo dele com mais força.
- Ela vai se arrepender de ter nascido, de ter te conhecido, de ter pensado em dar pra você. Ela vai rezar pra que eu pare e vai me odiar com cada célula daquele corpo que você tocou. E vai te odiar com ainda mais intensidade porque ela vai ter noção de que tudo isso, vai ser sua culpa.
Eu prendi o lóbulo da orelha dele com os dentes e depois soltei. E me recompus. Olhei fundo naqueles olhos azuis inundados de raiva e abri a porta ao lado dele. Olhei as fotos na escrivaninha ao lado da cama. Era o quarto dos pais de Lauren. Não me dei ao trabalho de esperar o Jones reagir ao meu lado e entrei. Era praticamente igual ao dela, só que maior. Fui em direção ao banheiro e tirei a fita adesiva e o envelope do bolso. Colei o envelope no espelho, um pouco acima da minha cabeça. Coloquei a fita adesiva de volta no bolso.
Apaguei as luzes, fechei a porta e saí do quarto.
Danny continuava parado na parede ao lado da porta. Eu parei ao seu lado e me abaixei um pouco pra ter certeza de que ele me ouviria.
- Não tente avisá-la Jones, ou acabo com sua vida também.
- Você não teria coragem...
- Ah teria, você sabe que eu teria.
Peguei o celular dele em seu bolso e disquei o número de Alex. Ele não se mexeu pra me impedir.
- Pode vir me pegar, eu já fiz o que queria fazer.
- Chego aí em cinco minutos.
Desliguei e deixei o iPhone na mão dele.
- Adeus, Jones - falei, um pouco distante.
Desci as escadas devagar, com as mãos nos bolsos, sem pressa. “Don’t Trust Me” terminando de tocar lá embaixo. Ah, que pena, pensei. Passei pela sala de visitas e olhei todas aquelas vidas insignificantes. Peões num jogo de xadrez enorme que se deixavam ser conduzidos por jogadores inexperientes. Panacas.
Passei pela cozinha outra vez e joguei a fita adesiva na lata de lixo perto da porta. Fui em direção à sala de estar. Vazia. Saí pela porta principal. Caminhei pelo caminho de pedras em direção ao portão já podendo avistar o Volvo preto me esperando. Do jardim, dava pra ouvir “Misery Business” tocando alto, muito alto.
Well, I never meant to brag, but I got him where I want him now...
Alex abriu a porta do carro pra mim e eu me virei pra ele.
- Alex, você teria um celular pra me emprestar?
- Ah, claro Srtª.
Ele me entregou um Samsung prata e eu abri a pasta de mensagens.

“Sai daí, Jones. Rápido.
Eu não estou brincando, não quero te ver na cadeia”.

Eu disquei o número tão marcado na minha memória e esperei a mensagem ser enviada. Depois disquei outro número e esperei.
Tuu...Tuu...Tuu...
- Departamento de Polícia de Manhattan, em que posso ajudá-lo?
- Consumo de bebidas alcoólicas e cigarros por menores no Street Village, casa 318. Venha sem sirenes. Não são idiotas.
- Agradecemos sua denúncia. Estaremos aí em...
Desliguei antes que ele acabasse de falar. Devolvi o telefone a Alex murmurando um “Muito obrigada” e entrando no carro.
Ainda pude ver o Jones saindo pela lateral da casa indo em direção aos portões. Esperto. Ele sempre acreditava em mim. Não importa a merda que eu falasse. Sempre. Não importa se eu dissesse que o pai dele enfartou e fosse mentira. Ele procuraria em todos os hospitais de Manhattan até descobrir que eu o enganara. Ele não era idiota. Mas ele confiava demais nos outros. Ele confiava de mais em mim.
Alex entrou no carro e bateu a porta.
- Pra onde, Srtª?
- Pra casa, Alex. O mais rápido possível.
- Ok, Srtª.
Ele arrancou com o carro e me levou pra longe daquele caos antes que a festa acabasse. Embora, pra mim, a festa ainda nem começara.

Capítulo 02 - Como restaurar uma inocência corrompida?

Ela tinha nas mãos, um porta-retrato antigo de madeira pintado toscamente de azul, com a foto de duas crianças sorrindo pro nada. O sorriso inocente. A falta de preocupação no olhar. Toda aquela aura de magia que envolve as crianças. O céu azul pontilhado por pequenas nuvens que mais pareciam pedaços gigantes de algodão-doce, dava um contraste lindo aos olhos deles. A grama verde bem aparada de um jardim qualquer, dava a impressão de que tudo ali era vivo, especial.
Ela deixou o porta-retrato em cima da cômoda e respirou fundo. Doze anos. Doze anos tinham se passado desde que ela tirara aquela foto com o “melhor amigo” de infância. Eles não eram mais “melhores amigos, ao infinito... E além!” como no comercial do Buzz Lightyear dos filmes de Toy Story. E como eles costumavam se considerar. Eles ainda se falavam. Mas não como antes. A amizade verdadeira e inocente de duas crianças, se perdeu em beijos, toques e sexo. Como tudo se perdia.
Ela passou a mão pelos cabelos e os pôs pra trás da orelha. Eles caíam constantemente na direção de seus olhos e ela se irritava facilmente com isso. Pegou o celular em cima da cômoda de madeira e acendeu a tela. Sete horas e vinte e quatro minutos. Olhou pra cortina branca, quase transparente, que não escondia nem um pouco a luz do sol matinal, embora não estivesse fazendo tanto sol assim. Bocejou.
Olhou mais uma vez pra foto. Um sorriso tomando conta de seu rosto. Era bom lembrar esse tipo de coisa. Porque é o que não volta nunca mais. É o que deixa saudade. Embora ela preferisse tudo como está agora. O sexo com ele era melhor do que brincar numa caixa de areia no parque.
Abriu a porta à direita da cômoda e foi em direção a pia de mármore branco. Abriu a torneira e lavou o rosto. Secou com a toalha azul pendurada ao lado do grande espelho emoldurado. Trocou de roupa e saiu do quarto. Andou devagar até a sala de jantar esperando encontrar alguém.
Mas quando virou a direita do corredor, só o que encontrou foi uma mesa posta e vazia. Típico, pensou, enquanto sentava em qualquer cadeira e pegava um pouco de café quente. Tomou um gole. A bebida desceu fervendo por sua garganta, como whisky. Só que não tão ardida.
- Bom dia Srtª - Lizzy, a empregada baixa e gordinha que veio do Sul, falou, vindo da cozinha. - Os seus pais saíram muito cedo hoje de manhã e...
- Eles falaram pra onde iam?
- Não - Lizzy disse, passando geléia em algumas torradas e deixando na frente de - Mas me pediram pra avisá-la de que hoje, ao meio dia, tem um brunch na casa dos Felton. E que você tem que ir.
Fez uma cara de desgosto antes de enfiar uma torrada inteira na boca. Odiava esses brunchs idiotas que os pais a obrigavam a ir.
- Eles falaram isso mesmo?
Lizzy balançou a cabeça, confirmando.
- Ok, como se eu tivesse escolha. Obrigada Lizzy, você pode ir.
A mulher baixinha e de sotaque engraçado foi em direção a cozinha e a sala de jantar ficou em um silêncio mórbido. olhou pro prato a sua frente sem vontade de comer. Mas pegou outra torrada e pôs na boca mesmo assim. Tomou mais um gole de café, fechando os olhos pra sentir o líquido quente em sua garganta.
Ela amava café e todas as suas variações curiosas.
Terminou de comer e foi em direção ao seu quarto outra vez.
- O que eu vou vestir pra essa merda? - falou, abrindo a porta do quarto e ligando a TV na MTV.

Era quase meio-dia quando terminou de amarrar o sapato Oxford marrom no pé e desceu correndo as escadas pra entrar no carro. Ela usava um vestido de flores bem colorido e um cinto fino marrom na cintura. Nos olhos, um óculos escuro daqueles enormes que ela odiava em si mesma, mas achava lindo em outras pessoas. O cabelo estava preso em uma trança lateral bem mal-feita. A bolsa clara em seu braço direito não tinha muita coisa, só um cardigã cinza chumbo, o celular quase descarregado, o iPod que estava desligado há dias, um brilho labial hidratante que não saía de sua bolsa e trinta dólares, caso quisesse ir embora mais cedo.
Entrou no carro, recostou a cabeça no estofado de couro preto e fechou os olhos. Queria dormir. Ou ficar em casa a tarde inteira comendo pipoca sem manteiga com brigadeiro e vendo as reprises de Friends na Warner Channel. Era meio nojento, mas ela adorava. Ou ir a pé pra Starbucks há dois quarteirões dali e comprar “um descafeinado duplo com creme e um cupcake com raspas de chocolate, por favor”. Tudo menos almoçar tendo que olhar pra cara de Lauren. Pensar naquilo a fazia ter ânsias de vômito.
Abriu a bolsa. Pegou o brilho labial e escorregou devagar a ponta dele pelos lábios. A única coisa que havia passado no rosto antes de sair correndo pelo gramado do quintal, foi um rímel incolor. Estava tipo, no make-up. Pegou o iPod também. Fechou a bolsa e olhou pelos vidros escuros da janela. Enquanto encaixava os fones no ouvido. Apertou o play. “All Again For You” de We The Kings, começou a tocar. Ela balançava a cabeça em sintonia com o ritmo da música.
Desligou o iPod quando sentiu o carro parando. Havia chegado.
Alex abriu a porta e ela agradeceu com um aceno de cabeça. Andou até o portão escuro e alto e apertou o interfone. Uma voz grave saiu pelo alto-falante dizendo:
- Seu nome, por favor.
- .
- Tudo bem Srtª , pode entrar.
O portão se arrastou devagar pro lado e ela teve a visão completa do jardim da casa. Ela deu tchau a Alex e caminhou devagar em direção a porta. Parou em frente a porta e apertou a campainha. Uma mulher morena e meio alta que devia ter uns trinta e seis anos abriu a porta e deu passagem a ela. Ela a seguiu até chegar á área da piscina. Várias mesas estavam espalhadas embaixo de tendas brancas, mas ninguém estava sentado nelas.
Ela pôs os óculos na cabeça.
As pessoas ficavam fazendo a social enquanto o almoço não começava. Parou na soleira da porta e procurou seus pais com os olhos. Demorou um pouco, mas ela os achou conversando com os pais de Lauren perto da piscina. Andou devagar até lá.
- Ah, ! Que bom que veio! - Marilyn, mãe dela, falou, parecendo contente. Mas quem disse que ela estava?
- Oi, gente! - ela falou, acenando e sorrindo.
- Achei que não viria mais querida.
- Não deixaria de vir, pai - falou, tentando ao máximo não se irritar com a preocupação fingida. - Então, Sr. E Srª Presccot, quando chegaram de viagem?
- Ah, hoje de manhã! - Hayley Presccot, a mãe de Lauren, falou tentando não sorrir muito. O rosto dela estava todo vermelho. - Faz muito sol na França, mas a noite o clima é perfeito! Ainda não fomos em casa, paramos num hotel pra nos estabelecermos melhor.
“Ah, que pena! Mas vai ser lindo quando eles forem notificados pela prisão da filha!”. pensou sorrindo amigável pra Srª Presccot.
- Se vocês me dão licença, eu vou falar com o Tom - apontou pro outro lado do jardim onde o seu “melhor amigo, ao infinito... E além!” a chamava com um aceno.
Eles acenaram e ela andou distraída até ele. Pegou uma garrafa de H2OH! na mesa de bebidas e andou até ele.
- ! - ele disse, empolgado, a abraçando.
Ela sorriu enquanto passava os braços pelo pescoço dele e era suspensa do chão. Ele vestia uma bermuda xadrez e uma blusa bege. Ele cheirava a menta. Ela amava o cheiro dele.
- Menos, exagerado!- ela disse se soltando.
Ele tirou os braços do corpo dela devagar e ela se equilibrou. Sorriu pra ele enquanto abria a garrafa e tomava um gole. Passou a língua pelos lábios sentindo o gosto de morango do hidratante.
- Eu soube da festa da Presccot ontem.
- Yeah, eu também soube - respondeu bebendo um pouco da bebida gelada em suas mãos.
- E soube que a Lauren dormiu na cadeia também - ele falou, a voz ficando séria a medida que as palavras fluíam de sua boca.
Ela sorriu. Um sorriso igual ao de uma criança que ficou pedindo chocolate a mãe por dias até ela finalmente dar. O sorriso de quem conseguiu o que queria.
- Por que, ?
- Por que ela merecia. Merecia tudo isso e mais um pouco. Você sabe disso.
- Achei que você tivesse feito o que eu falei, lembra? Ignorar e seguir em frente, como você sempre faz com tudo? Até como você fez quando o seu cachorro morreu, o Luke.
- Pra quê eu faria isso Tom, me diz? Pra ouvir ela falando por aí que é melhor que eu e que meu “ex-namorado é bom de cama”?
- Ok, parece até que eu não te conheço mais. Você não fazia esse tipo de coisa , você tinha toda uma inocência encantadora que atraía as pessoas pra perto de você.
- Você sabe onde a minha inocência foi parar, quer mesmo falar disso?
Ele olhou feio pra ela e ignorou as últimas palavras. Ele sabia muito bem onde a inocência dela foi parar. No décimo quinto andar de um hotel na Riviera Francesa. Não importa o quanto a vista do quarto era perfeita ou o quanto os sais de banho do hotel eram ótimos. A inocência de foi perdida de uma forma horrível.
A inocência dela foi embora quando ela transou pela primeira vez na vida. Com Tom Felton, seu “melhor amigo, ao infinito... E além!”. Não porque tenha doído ou algo assim, foi uma das melhores experiências, pros dois. Mas o fato é que depois daquilo, ela se sentiu a pessoa mais culpada do mundo por ter transado com o melhor amigo. Se sentiu péssima por ter transado com o melhor amigo quando não queria transar com o namorado. Ela se sentiu suja. E passou metade do dia dentro da banheira de hidromassagem no banheiro do quarto, chorando, sem saber o que fazer e se auto-intitulando “a pessoa mais imbecil do universo inteiro! Quase uma Lauren”. E se arrependeu amargamente depois de ter soltado aquelas palavras. Só pra... Chorar mais um pouco.
Tom ficou imensamente preocupado e ficou batendo na porta até que ela saísse. Ele ainda lembrava da pele enrugada e dos olhos vermelhos. Ela se jogou nos braços dele e jurou, pra si mesma, que nunca mais faria aquilo outra vez. Mas não adiantou de muita coisa. Um mês depois, quando as férias acabaram e eles voltaram pra Manhattan, ela invadiu a casa de Tom num sábado a noite, xingando com todos os palavrões possíveis Lauren e o “filho-da-puta do Jones”. Então eles transaram naquela noite. E no domingo. E na segunda de manhã. Ela faltou a aula no primeiro dia e teve que ouvir dez minutos de preocupação fingida com a voz estridente da mãe e o olhar reprovador, mas alheio, do pai.
Respirou fundo, ignorando todas as lembranças possíveis dos dias que se seguiram depois de sua “perda de inocência”. Bebeu mais um pouco do refrigerante em sua mão e olhou pra ele outra vez.
- Eu não quero mais falar disso. Podemos... Ir pra um assunto mais interessante, pra mim e, acredito, pra você também?
- O que passa por essa sua cabeça psicopata, ? - ele perguntou, sorrindo torto.
Ela sorriu pra ele e a sensação de paz voltou ao seu corpo.
- Acho melhor não, agora não - ele falou, a feição se tornando vazia. Ele inclinou a cabeça na direção dela e ela se virou.
Lauren Presccot cumprimentava os pais de Tom na entrada do jardim. Não era surpresa pra encontrá-la ali, sabia que ela iria. Ela ia em todos os almoços e sociais que a própria odiava ir. Era o jeito vadia e Lauren de ser, dizia.
A surpresa que ela teve ao olhar na direção que Tom indicava, era Danny, Dougie, Harry e Tom. Eles não iam a brunchs, almoços, jantares e nem nada do tipo. Eles iam às festas que a galera dava e em qualquer balada de Manhattan. Apenas isso.
Ela olhou pra Tom como quem quer perguntar algo.
- Yeah, , fui eu.
Ela respirou fundo. Uma, duas, três vezes.
- Tudo bem, você não tem culpa.
Ele sorriu pra ela enquanto os meninos e Lauren se aproximavam. Lauren cumprimentou Tom com um sorriso falso no rosto. Quando parou de frente pra , Lauren sorriu e se aproximou. estendeu as mãos na direção dela como quem diz “para”.
- Eu não sei se você não se tocou, mas dá pra sentir o cheiro de uma cela podre vinda diretamente de você, a metros.
Ela olhou pra sorrindo, os dentes brancos perfeitamente alinhados. O gloss cor de areia dando um brilho aos seus lábios.
- Ah, vamos lá! Não é como se eu estivesse feliz em fazer isso.
A tensão no ar era palpável e os meninos estavam incrivelmente desconfortáveis com isso. Lauren abraçou-a devagar. Respirando fundo antes de abrir a boca.
- Você ta fodida na minha mão, . Cada parte de você.
Ela sorriu, ignorando a ameaça incrivelmente estúpida de Lauren.
- Não, eu não estou. Você não é capaz, você, eu e toda Manhattan sabe que você não é capaz. E, se me permite, a cadeia te fez muito mal.
- Então - Fletcher falou, querendo quebrar o silêncio que se estabeleceu quando as duas se soltaram- Vamos comer?

Ela encarava o Salmão Espanhol em seu prato. A boca seca. A garganta ardendo. Os olhos vermelhos prendendo lágrimas de raiva. Lauren, ao seu lado, comia tranquilamente, com um sorriso no rosto. “Vadia”, pensou.
Os meninos se entreolhavam, mas não falavam nada. Inquietos, perturbados com toda a tensão no ambiente. Aquilo beirava o insuportável. olhou pra frente. Os olhos claros de Tom encontraram os seus. Eles estampavam claramente um pedido de desculpas. Ela sorriu pra ele. Isso era tão desnecessário que chegava a ser cômico. Tom realmente não tinha culpa. De nada.
Ele não tinha culpa por Lauren ser uma vadia mal comida que não se contentava com o que tinha. Porque aquela era a personalidade de Lauren e nada mudaria aquilo. Talvez a morte. Mas era só um palpite. Ele não tinha culpa por ela mesma odiar tanto Danny que chegava a ser intoxicante. Porque essa era a realidade por mais horrível que possa parecer. Ele era a única pessoa naquela mesa que era inocente por não ter feito algo irrevogavelmente errado. Ainda.
Ela suspirou frustrada antes de abaixar o olhar de volta pro seu prato.
- Com licença - disse, colocando o guardanapo em cima da mesa, ao lado do prato intocado, e se levantando- Vou ao banheiro.
seguiu devagar em direção a cozinha. Pediu um copo de água gelada a mesma mulher que a atendera na porta. Ela recebeu um copo cheio de água e pedras de gelo, nas mãos e o observou a mulher morena seguir em direção ao corredor. Ela levou o copo a boca e a água gelada adormeceu sua garganta aos poucos.
Ela terminou de beber e foi em direção ao banheiro. Abriu a porta. O banheiro preto e branco do térreo era lindo, mas muito exagerado. Bem a cara da mãe de Tom. Lavou o rosto e depois secou na toalha branca e macia pendurada na parede. Olhou seu reflexo no espelho. Estava visivelmente estressada. Se sentia completamente estressada.
Os olhos brilhavam. De raiva. De ódio. “Filha-da-puta! Ela acha que eu sou imbecil o suficiente pra cair nessa. Ela não consegue, não vai conseguir”. Respirou fundo e foi em direção a porta. Ela tinha que encarar aquele ataque infantil com indiferença. Como sempre fazia. Com tudo.
Voltou devagar pro jardim. O som das pessoas rindo e falando alto inundando o ambiente. Sentou em sua mesa e viu que tinham posto a sobremesa. Não era fã de sorvete, preferia frozen yogurt. Colocou o guardanapo de volta em seu colo. Passou os olhos devagar por todos os rostos da mesa. Lauren e seu sorriso de mentira. Tom e sua culpa desnecessária pesando em seus ombros. Fletcher e Harry com o olhar perdido. O brilho estranho nos olhos de Danny enquanto ele brincava com o sorvete de creme.
Era meio inevitável não olhar pra Dougie. Ele olhava pro sorvete com uma cara de adoração. Ela sorriu. Ele parecia uma criança com aquele sorriso infantil no rosto.
- Dougie - ela o chamou e os olhos dele foram em direção a ela - Eu acho que seu nível de adoração por sorvete já se esgotou esse mês.
Ele mostrou a língua pra ela e Danny riu. Fechou os olhos e respirou fundo. Adorava o som da risada de Danny. A risada dele era perfeita e a deixava repentinamente calma. Como tudo nele. Era incrível o efeito que ele tinha nela. Era tudo tão... Mágico e especial. E ela o odiava exatamente por isso. Por fazê-la feliz quando a felicidade não existia. Talvez ela estivesse redondamente enganada em pensar desse jeito. Mas era o que sentia.
Completo ódio por ele a fazer feliz quando ela nunca se sentia assim.
Ela abriu os olhos e pôs um pouco de sorvete na boca. O sorvete gelado derretendo devagar em sua boca; A risada de Danny ecoando em sua mente; O vento fraco que teimava em deixar seu cabelo bagunçado. Tudo. Tudo a acalmava. Ela quase esqueceu da presença de Lauren ao seu lado. Quase.
A risada estridente dela fez o encanto que envolvia-a se romper.
- Merda! - disse, passando as mãos nas bochechas rosadas. Pegou mais um pouco do sorvete na taça e pôs na boca. O silêncio a deixava desconfortável. Queria sair dali. Do campo de vista de Danny e de todos os outros. Se afundar na cama, qualquer cama, com um filme idiota passando ou música alta tocando. Deprimente.
Não queria ir pra casa. Ia ficar na casa de Tom até tarde porque não queria olhar na cara dos pais outra vez. Talvez dormisse lá. É, uma boa saída.
- - ela olhou pra frente. Tom a encarava - Você vai embora quando o almoço acabar?
Ela ponderou. Dizia agora ou esperava? Não faz diferença mesmo.
- Eu... Eu acho que eu vou ficar. Tudo bem pra você?
Ele balançou a cabeça.
ficava impressionada com a conexão que eles tinham. Era como se eles fossem ligados um a outro por alguma promessa estranha. Mas não era nada de tão exagerado assim. Era só o fato de que ela confiava mais nele do que nos próprios pais, que os mantinha tão ligados assim. Só isso.
Ela terminou de comer o sorvete. Os meninos e Lauren também. Tiraram as taças das mesas e o pai de Tom começou a falar algo parecido com: “É muito bom estar cercado de amigos tão amorosos como vocês e eu fico...”, ela não se importou em ouvir mais. Pra ela, o Sr. Felton gastava saliva a toa.
Ele era completamente diferente de Tom. Tom ficava na dele e o pai falava demais. Tom não ligava de sair por aí andando de shorts de dormir e o pai sempre aparecia de terno ou, no máximo, camisa e calça social. Era uma contradição enorme. Mas ela não imaginava Tom de outro jeito.
A voz rouca do homem de meia idade parou e foram ouvidos aplausos por todo o jardim. As pessoas começaram á se levantar e foi em direção aos pais.
- Então, querida - Amanda disse- Você vai ficar aqui na casa do Tom ou vai pra casa conosco?
- Vocês vão viajar não vão?
- Sim, nós pretendemos ir pra Inglaterra resolver uns problemas, mas voltamos em uma semana.
- Vão hoje?
- Hãm - a mãe dela olhou o relógio de ouro branco no pulso - Sim, vamos hoje. Nosso vôo sai em três horas.
- Ok então. Eu vou ficar aqui um pouco, mas vou pra casa mais tarde.
Ela ficava incrivelmente estressada com a frieza dos pais em relação a qualquer coisa. Acenou pra eles e voltou pra mesa. Todos estavam em pé e com um sorriso no rosto. A tensão havia se dissipado. Chegou perto deles e parou ao lado de Tom. Os olhos de Danny foram instantaneamente pro seu rosto. Ela olhou pra Tom ignorando o olhar de Danny e o desconforto que isso lhe causava.
- Eu vou ficar aqui ok, Buzz Lightyear?
- Ei, não me chama assim!
Ele apertou a barriga dela com a ponta dos dedos e ela se encolheu e começou a rir. Ele parou porque sabia que ela ficava puta quando ele fazia isso. E porque sabia que ela morria de gastura de qualquer coisa na barriga.
- Então - ele falou, se postando ao lado dela e olhando pros meninos- Meus pais vão viajar hoje e eu queria... Dar uma, festa, por falta de palavra melhor. O que você acha?
Ela analisou a pergunta. Não era uma pergunta, exatamente. Ele só queria a opinião dela pra ela ter certeza de que ele se importava. Ele ia dar a porra da festa mesmo ela dizendo não. E já que estava ali...
- Ok Tom, é uma ótima ideia, admito.
Ele sorriu e abraçou ela de lado.
Mas o olhar de Danny Jones continuava vidrado no mesmo ponto. Nela.

O que passa pela mente de uma pessoa tão obcecada?
Era a pergunta que ele mais fazia a si mesmo a um dia e meio. Que diabos passa pela cabeça dela? Ele tinha medo de receber essa resposta.
entrou na vida dele de uma forma inevitável. Eles se conheciam desde pequenos, quando ainda nem sabiam contar ou dizer o nome dos pais. Quando a inocência dos dois era incontestável e quando eles ainda eram virgens e nunca tinham beijado ninguém. Quando eles usavam fraudas estranhas que pinicavam e roupas fofinhas de bebê. Quando ele era só Danny Jones e ela apenas .
Eles iam a mesma creche e depois a mesma escola infantil. E quando ficaram um pouco mais velhos, foram pro mesmo colégio também. E passaram mais da metade da infância juntos, como crianças normais que descobriam o mundo devagar e ao seu tempo.
Quando eles tinham sete anos, Danny conheceu o melhor amigo de , Tom. Ele ficou vermelho de raiva quando a viu abraçar Tom com um carinho enorme. Ele ficou morrendo de ciúmes dela. Porque ela era a sua melhor amiga! E agora aquele loiro magrelo ia lá e a roubava dele! Danny não gostou nem um pouco de Tom. E estampou isso no olhar de desprezo que lançou pra ele. Mas ela não ligou. Imaginou que a cara de raiva de Danny era porque ele queria brincar com eles dois também. E então, ela pediu pra Tom esperar e foi chamar Danny. Depois de cinco minutos de muita insistência ele levantou e ela o puxou pela mão devagar. E ele viu que seria inútil discutir com . Porque ele sempre fazia tudo o que ela pedia. Porque ele amava o sorriso dela.
Cinco anos depois, ele já tinha aceitado o fato de ter que dividir ela com Tom. No começo, ele realmente não queria dividi-la com ele, porque ele não confiava o suficiente no “loiro de cabelo escorrido”. Mas no fim, “aceitaram-se”. Ele até o importunava por ter o mesmo nome que o melhor amigo dele, Tom Fletcher, segundo idiota maior, como o chamava. Mas ele nunca tinha sentido uma raiva tão grande borbulhar dentro de si, quando viu o melhor amigo dela afastar uma mecha do cabelo dela. A forma como ele sorriu carinhoso pra . O modo como os olhos dele brilharam... Ele sabia que tinha algo ali.
Então no dia seguinte, ele encontrou ela sentada na escadaria lateral da escola, sozinha, esperando sabe-se lá o quê. Ele sentou do lado dela sem falar nada e a beijou. Foi o beijo mais estranho que eles já deram. Mas a partir daí, ele sentiu algo realmente diferente em relação à . Ele sentiu um arrepio na espinha e um calor na nuca. Então ele soube que ela era tudo pra ele. E um ano depois, quando ela tinha treze anos e ele quatorze, ele a pediu em namoro e ela pulou em cima dele dizendo “Sim! Sim! Sim!” e o beijando.
Ele ainda lembrava da cara de puto de Tom quando viu aquilo ao sair da escola. Ele levou uma semana pra falar com e ela ficou super deprimida durante esse tempo. Danny tinha entrado em pânico porque queria ver a namorada feliz, independentemente do que Tom achava do namoro deles. Mas a opinião do melhor amigo era deveras importante pra ela e ele foi conversar com Tom.
Levou duas horas pra convencê-lo de que, por mais que não achasse certo ela namorar com ele, ela era importante demais pros dois. Tom guardou aquelas palavras por um ano e meio. Sem esquecer o tom de voz desesperado de Danny. Ele tinha o convencido de que amava tanto quanto ele amava.
Mas quando Tom e saíram de férias e ela contou pra ele que Danny estava impaciente, ele ficou instantaneamente puto porque ninguém poderia fazer aquilo com a sua “melhor amiga ao infinito... E além!”. Ele xingou Danny até a quinta geração e sentou ao lado dela dizendo que ela poderia desistir de tudo. E ela acabou desistindo quando transou com ele durante as férias.
Quando voltou pra Manhattan, a única coisa que se falava por todo o círculo social era que ela era a mais nova chifruda de lá. Ela disse pra Tom, no sábado seguinte, que nunca pensou que poderia odiar tanto uma pessoa como odiava Danny naquela hora. Bem, ela odiava Lauren mais ainda.
Na segunda semana de namoro de e de Danny, ele havia dado a ela um cordão em forma de coração com o nome dos dois gravados atrás. Ela tinha amado o presente. Mas um ano depois, quando ela teve a sua primeira decepção de verdade, o cordão já não tinha mais sentido. Ele foi encontrado na segunda de manhã depois do fim de semana conturbado, jogado em um canto do quarto de Tom. Esquecido. Insignificante. Ela o pegou nas mãos e leu o verso duas vezes pra ter certeza que não se arrependeria. “Porque somos eu e você, e todas as pessoas... D.J. e ..” Pegou o cordão e jogou no lixo. Tomou um banho quente e demorado logo depois.
Não se arrependeria. E de fato, não se arrependeu.
Danny ficou frustrado quando soube que ela tinha descoberto. E ficou mais frustrado ainda quando levou um soco na cara e foi correndo pra emergência do hospital mais próximo e descobriu que tinha quebrado o nariz. Ele tentou falar com , mas toda vez que chegava perto dela, Tom estava lá e ele se preocupava mais com seu nariz. Porque, por mais que ele tentasse voltar atrás, a merda já estava feita.
E a inocência dela tinha ido embora por sua culpa. Ela deixou de ser aquela menininha calma e feliz por culpa dele. Porque ela não acreditava mais nas pessoas.
Ele tinha certeza disso. Mas era só a opinião dele. Não importava mais pra ela.
Mas ele nunca imaginaria que dois anos depois, quando ela tinha dezesseis e não se importava mais com nada, ela ia olhar fundo nos olhos dele depois de tantos anos e ia o levar pra cama.
Ele tinha cinquenta por cento de culpa nisso. Porque se ele não quisesse, não teria ido. Mas ele foi, e, teve que admitir no dia seguinte, que foi o melhor sexo da vida dele. Ele tinha tentado voltar com ela uma duas vezes depois disso. Mas ela sempre o direcionava um olhar frio e com uma voz indiferente, dizia: “Talvez Lauren queira. Porque não vai procurar ela?”. Ela tinha se tornado uma pessoa fria e descrente. Por sua culpa.
É, se ele fosse analisar toda a sua vida, viria que toda ela, é uma grande merda.
E ele terminou de amarrar os tênis e foi em direção ao seu Porsche. Ia tentar mais uma vez. E desistir se não conseguisse.
É, ele podia, pelo menos, enganar a si mesmo.

- Tom, eu não sei se é uma boa ideia tudo isso.
- Ah , vamos! Você concordou. Eu sei que é horrível encarar aquele filho-da-puta, mas você consegue!
Ela olhou pros olhos frios dele. Amava a cor de seus olhos. Não tinha encontrado ninguém com o azul chegado pro cinza dos olhos dele. Nem o azul dos olhos de Danny era assim. Merda, pensou quando o nome dele veio a sua mente.
- O que aconteceu comigo, Tom? Eu costumava ser toda inocente e graciosa e agora eu sou fria, calculista e vingativa. Essa não sou eu - ela disse enquanto ele sentava devagar ao lado dela e levava a mão direita devagar pra sua nuca.
Ela fechou os olhos sentindo a ponta dos dedos frios dele encontrar a pele quente de seu pescoço. Mordeu o lábio.
- Você fez uma escolha, - ele disse, escorregando devagar os dedos pra trás da orelha dela - A vida te obrigou a fazer uma escolha e você fez. As pessoas mudam, você tinha que mudar; Não podia ser a mesma pra sempre.
Os dedos dele voltaram pro ponto exato na nuca dela onde ela ficava arrepiada.
- Tom, isso não tem graça - ela entreabriu os lábios e fechou os olhos- Me excitar não vai me deixar calma.
- , eu acho que vai.
Ela abriu os olhos e virou o rosto em direção à ele. Os olhos frios brilhavam.
- Você é um imbecil, Tom - ela disse, levantando e o empurrando devagar em direção a cabeceira da cama. Ela tirou as sapatilhas e subiu em cima dele.
- Eu ainda não sei porquê continuo indo pra cama com você.
- Porque você me ama - no fim, ele estava certo.
E enquanto ele a beijava devagar, ela percebeu que por mais que se arrependesse amargamente de ter deixado a inocência de lado, não se via de outro modo. Quando ele mordeu seu lábio inferior devagar e abriu a fivela do cinto, ela soube que a inocência dela estava corrompida. Pra sempre.

Capítulo 03 - O melhor de nós é que conseguimos achar felicidade na miséria.

- - abri os olhos, os mesmos ardendo com a claridade repentina. - Vamos , levanta, está tarde.
Encarei os olhos claros de Tom, sentindo seu peso sobre mim. Resmunguei qualquer coisa de volta, fechando os olhos e tentando me virar, sem sucesso.
- Ah, , para. Você não vai voltar a dormir, não adianta! - abri meus olhos os apertando pra me acostumar com a luz. Até imaginava meu estado: cabelos bagunçados, rosto todo amassado; e morrendo de sono.
- Você já me tirou a paz, não tente me tirar o sono.
- , qual é! - ele reclamou, dando um suspiro de desapontamento. - A festa não vai se organizar sozinha.
- Sei que você consegue. Agora sai de cima de mim e me deixa dormir.
Ele saiu de cima de mim e por um segundo, pensei que fosse desistir. Virei de lado me enroscando no edredom macio e fechando os olhos. Alguns segundos depois, senti meu corpo descoberto e ouvi uma risada.
- Vão bora, levanta! - sentei na cama, tentando inutilmente deixar meu cabelo aceitável e com uma feição nada feliz no rosto.
- Mas que merda, Felton! - exclamei, levantando e pegando um travesseiro - Não sei porque você insiste nessa porcaria de festa. Eu nem teria vindo pra cá se soubesse dessa festa idiota. E você sabe disso! - joguei o travesseiro na direção dele, mas este bateu na porta do banheiro. Ele riu da minha cara - Seu filho da mãe! - andei em sua direção, bom, na direção do banheiro e ele me puxou quando eu quase alcançava a porta. - Me solta, Tom.
Ele me abraçou enquanto eu tentava sair de perto e mordeu meu lábio. Eu dava socos inúteis em seu peito. Ele ria; imbecil.
- Olha, eu sei que você deve estar cansada de festas, ainda mais com o que aconteceu ontem, mas eu não dou festas há três meses. A galera tava sentindo falta!
- E eu com isso?! Eles tiveram a festa da Lauren ontem e a festa do Poynter semana passada. Eu preferiria estar na casa dos meus pais sem você e sem festa do que aguentar outra como ontem.
Ele suspirou cansado.
- , olha, não é porque a de ontem foi um fiasco, que todas após essa vão ser também! Não precisa ficar com isso na cabeça.
Ele estava tentando um discurso clichê e fail pra me animar. Não ia funcionar. O Tom não era bom com palavras, ele se enrolava todo quando precisava me dar um conselho ou me dizer algo animador. Era engraçado de se presenciar. Mas não estava pra brincadeiras, o negócio era sério.
- Tom, você não entende que não é não?
Ele olhou pra mim frustrado. Havia uma falta de brilho e de animação perceptivas em suas feições. Meu objetivo não era deixá-lo triste. Merda.
- Você quer comer alguma coisa? - balancei a cabeça, afirmando - Desça em cinco minutos, vou pedir pra Donna preparar algo pra gente comer. - ele beijou o topo da minha cabeça e foi em direção à porta. Ouvi o barulho da fechadura e caí na cama. Merda de vida.
Agora eu me sentiria uma pessoa horrível por tê-lo deixado triste e descontaria minha frustração indo na droga da festa; era o que sempre acontecia em relação a tudo. Não que o Tom fosse um ótimo ator, longe disso, mas ele não era muito de mentir. Então você via nos olhos dele que quase todas as palavras eram verdade. Tudo bem, 50% de tudo era puro drama, e isso era óbvio, mas o olhar que ele me dirigia quase me partia o coração. Quase. Se ainda tenho um, não está em perfeito estado.
Mas não, eu não ia na festa. Faria tudo o que ele pedisse em relação a minha ajuda para com a festa, mas durante a duração da mesma, eu não tiraria o pé da sala de estar climatizada do Tom. E o obrigaria a ir ao centro comprar capuccino e cupcakes pra mim, na Starbucks. Querendo ou não.
O problema é que eu não gosto de vê-lo triste, porque todo o tempo, a única coisa que ele se esforça mesmo pra fazer é me por um sorriso no rosto. Ele é meu único motivo pra sorrir.
Levantei da cama e fui em direção à porta branca à minha frente, tropeçando nos tênis azuis da Nike que Tom usara mais cedo. Chutei-os pra longe de mim e abri a porta do banheiro, acendendo a luz. Lavei meu rosto, prendi meus cabelos em um nó mal feito e mirei minha expressão cansada no enorme espelho. A mãe de Tom adorava espelhos. Tinham vários espelhos, mesmo que fossem quadradinhos minúsculos, espalhados pela casa. Mulher louca. Obcecada por espelhos, creme hidratante e botox. Mas nunca conheci alguém tão carismática quanto ela.
Eu estava uma total bagunça! Cabelo todo arrepiado e o rosto marcado pelo travesseiro. Lavei o rosto mais uma vez e enxuguei na toalha de rosto macia ao lado da pia. Saí do banheiro, fechando a porta atrás de mim, enquanto procurava uma camiseta qualquer pelo quarto. Achei uma T-shirt cinza desbotada do mickey, enorme. Imaginei como o Tom ficaria nela e sorri. Coloquei a camisa por cima da minha lingerie preta, pus uma sandália no pé e fui em direção ao corredor.
Fechei a porta e encarei o enorme relógio de parede branco, a alguns metros de mim. 16:52, é, eu ainda estaria dormindo se não tivesse um melhor amigo tão convincente.
Cheguei à cozinha a tempo de ver a empregada saindo pela porta dos fundos. Virei meu olhar pra Tom, que me encarava curioso enquanto ele apontava com a cabeça pra bancada e eu olhava pro que tinha em cima dela: um bolo de chocolate, café, biscoitos, torrada e pasta de amendoim. Peguei uma xícara em cima da pia e sentei de frente pro Tom.
- Onde você achou essa camisa? Estou atrás dela há séculos!
- Estava atrás dela... - falei sorrindo, enquanto colocava café na xícara. - Agora que a achei, ela é minha por direito.
- Olha, não sou fã desse seu jeito de pensar.
- E eu não dou a mínima! - ele sorriu. - Agora cala a boca e me passa os biscoitos.
- Eu não vou calar a boca até ter certeza de que você vai me ajudar. - ele disse me passando o vidro transparente.
- Eu ajudo. - falei, mordendo um biscoito e o encarando. - Ajudo em tudo o que você precisar. Iluminação, música... Tudo. Mas na festa eu não vou.
Ele me olhou frustrado.
- Ok , vamos ser francos aqui! - o encarei, achando ridícula a sua tentativa de parecer um cara sério. - Eu quero todos os motivos aparentes pra eu ter certeza de que nessa festa, definitivamente não vai rolar.
Olhei pro rosto dele, deixando a xícara em cima da bancada. Eu não tinha resposta para aquela pergunta. Primeiro porque não tinha nenhum motivo aparente pra eu não querer ir na festa e inventar uma dor de cabeça agora não ia colar. E o fato é que ele vai querer saber o motivo real de qualquer coisa que eu diga, o que me desanima ainda mais pra tentar inventar algo. Mas bem, ele queria uma conversa franca; eu vou dar a ele.
- Eu simplesmente não quero ir. Não é o bastante?
- Não, , não é o bastante. Tem que ter um motivo, mas que droga!
- Tudo bem, você quer um motivo? - ele balançou a cabeça, afirmando. - Eu te dou um motivo. A minha vida é uma merda Tom, eu acordo todos os dias com esse pensamento na cabeça. E eu sei que tudo aconteceu há dois anos, mas a minha mente insiste em lembrar como se fosse ontem. Eu não quero e acho muito desnecessário aparecer por aí sorrindo e transmitindo uma felicidade que não é real! E eu não quero, não importa o quanto você insista, ir numa festa com um monte de pessoas animadas pulando ao meu lado, quando o que eu sinto por dentro é tão ruim quanto um mundo cheio de zumbis. Por favor, Tom, não me pede pra ir nessa merda, eu te imploro.
Terminei o meu monólogo tomando um longo gole de café. Tom me encarava, sério.
Ele sabia de toda a história, sabia melhor do que ninguém de tudo o que eu passei. Mas o fato é que eu não saía por aí dizendo pro mundo como eu me sentia um lixo por dentro. E antes que você me diga que a melhor coisa que eu deveria ter feito era esquecer, te digo que já tentei. Ah, já tentei sim, várias e várias vezes. Mas parece que as lembranças criaram moradia fixa em meu cérebro; todos os dias fica mais difícil de tentar fazê-las "se mudarem". Eu já tentei matá-las. Mas é como a Anne sempre diz: lembranças nunca morrem, não importa o quanto você tente enterrá-las.
A Anne era a ex-namorada do Tom. Ela e a irmã, Nathalie, são as únicas garotas em quem eu realmente confio. Porque as outras são um bando de vadias escrotas que parecem cadelas no cio quando te vêem com um namorado (lê-se: Lauren). Anne e Tom tiveram um relacionamento curto, uns três ou quatro meses. Terminaram e foi ruim para os dois, mas são amigos até hoje. Eles tiveram o que eu chamo de "separação amigável". Às vezes eu me pergunto como seria se o meu relacionamento com o Jones se também tivesse tido uma "separação amigável". Aí eu me dou conta de que não seria. Se a nossa separação fosse amigável, não teria separação. Nós estaríamos juntos até hoje.
A Anne e a Nath sabiam como eu me sentia; sabiam exatamente como era difícil pra mim frequentar os mesmos lugares que ele e ver as cenas horríveis se repetindo em minha cabeça. Mas entendiam que não podiam fazer nada: ou eu me mudava pra um colégio interno, ou fingiria estar bem. Nada de colégio interno. Fingir pra mim está de bom tamanho.
Quando tudo aconteceu (eu perdi a virgindade com o Tom um mês depois de ele e a Anne terem terminado e enquanto eu fazia isso, o Danny transava loucamente com a Lauren em Manhattan), ela ignorou o fato de que eu tinha pegado seu ex-namorado tão pouco tempo depois do término e me deu tudo o que eu precisava: um ombro pra chorar e companhia pra xingar muito a Lauren. Depois, quando eu perguntei se ela preferiria nunca mais olhar na minha cara pelo que eu tinha feito e disse que entenderia perfeitamente se ela o fizesse, ela disse que isso não tinha nada a ver porque ela e o Tom não tinham mais nada, e que eu devia me preocupar em pagar a fiança dela quando ela fosse presa por quebrar a cara de Lauren. Ela me fez sorrir dois dias depois do ocorrido. Tento manter esse pensamento feliz desde então.
No fim ela não quebrou a cara da Lauren, mas posso dizer com orgulho da amiga que tenho, que ela tentou. Mas foi impedida por um grito estridente e uma suspensão de dois dias. E ainda suportou ouvir, sem fazer nada: "Muito pouco pro que essa vadia realmente merece". Palmas para a Anne.
O Tom ainda me encarava, boquiaberto. Não fazia ideia do que ele estava pensando agora. Quer dizer, podia ser qualquer coisa! O quanto eu fui hipócrita em não contar pra ele ou o quanto ele é idiota por não ter visto o que eu realmente sentia.
Ia pegar mais um biscoito do vidro quando repentinamente, ele puxou o pote pra longe de mim e eu fiz cara de poucos amigos imaginando que merda ele pretendia com isso.
- Chega de biscoitos! E ... - pela cara que ele fez, eu sabia o que viria á seguir - Mil desculpas por ser tão imbecil a ponto de não reparar tudo o que estava acontecendo, bem, acontecendo realmente com você. - bem melhor do que o que eu havia imaginado.
Eu sorri, olhando pra carinha de bebê desconsolado dele, sabe, aquele bebê que perdeu a chupeta. Ele estava incrivelmente fofo e eu quase deixei escapar uma risada, se o momento não fosse propício a isso. Eu o encarei, seus olhos claros berravam "ME DESCULPE!" e eu não tive como não deixar escapar um sorriso fraco por isso. Ele fez o mesmo, mas sem a mesma empolgação. Parecia me sondar, querendo saber se o meu sorriso era de escárnio ou se era real.
- , pelo amor de Deus, me desculpa mesmo! Eu não queria ser...
- O cara mais desligado do mundo? Eu sei que não. Agora me devolve os biscoitos. - ele me passou o vidro e sorriu, agora sem cautela nenhuma, seu olhar se iluminando.
- Mas por que você não me contou como realmente se sentia? - era estranho vê-lo dar uma de compreensivo; como eu já disse, Tom não é muito bom com as palavras.
- Eu não sei te dizer exatamente porque, só achei que deveria guardar esse tipo de coisa pra mim. Só a Anne e a Nath sabem disso, elas perceberam em pouco tempo.
- Tudo bem, eu perdoo você por não ter me contado isso! - eu mostrei a língua pra ele, que riu. - E não vou mais insistir nessa coisa de festa.
Agradeci com a cabeça enquanto pegava mais dois biscoitos e fechava o vidro. Ele cortava um pedaço do bolo e lambia os dedos que ficavam sujos de chocolate. Eu ri.
- Apesar de eu não estar na festa, quero resolver tudo o que você achar necessário logo. E você tinha razão em ter dito aquilo mais cedo, "A festa não vai se organizar sozinha". Se só você ficasse a par disso, a festa seria uma catástrofe!
- "This is becoming a catastrophe!"
Eu ri enquanto terminava meu café e levantava da bancada, colocando a xícara dentro da pia.
- Espero que você não tenha mandado todos os empregados embora. Preciso de alguém pra buscar minhas coisas.
- Não esquenta, eu te levo lá.
Assenti enquanto guardava o pote de biscoitos dentro do armário. Ele jogou, literalmente, a faca que usara dentro da pia e guardou a pasta de amendoim na geladeira. Voltamos pro quarto e quando entrei, passeei os olhos pelo cômodo enorme, atrás do meu vestido, meu cinto e dos meus sapatos. Os sapatos foram fáceis de achar, estavam um pé do lado esquerdo da cama e o outro perto da cômoda que acomodava a TV. O meu cinto eu achei pendurado em uma gaveta aberta. O meu vestido? Pendurado na janela. Não me perguntem como foi parar lá. Enquanto eu o pegava e tirava a camiseta do mickey do corpo, o Tom morria de rir sentado na cama. Eu fui até o seu lado e lhe dei um tapa na cabeça.
- Se meu vestido estiver com um pedacinho que seja em mal estado, te mato.
Ele sorriu enquanto eu botava o vestido. Fui até a janela e olhei o tempo, ventava lá fora e eu me conhecia o suficiente pra saber que sentiria frio.
- Tom. - ele levantou os olhos do celular e me encarou. - Aonde você guarda as suas camisas? - definitivamente eu não queria usar meu cardigã que estava na bolsa, não sei bem aonde. Lã não me esquenta tanto assim.
- No cabide do closet.
Assenti e fui em direção a porta branca do outro lado do quarto. Abri e fui pro cabideiro esquerdo. Ele tinha muitas, posso dizer. Mas optei por uma jeans clara, um pouco pequena pra ele, que ficou perfeita em mim. Vesti a camisa e saí do closet procurando meu cinto e o colocando por cima da mesma. Arregacei as mangas dela até meu cotovelo e encarei o Tom.
- Mais uma coisa que você vai perder. - ele me encarou e sorriu.
- Não me importo de perder a camisa, você ficou perfeita nela. - ele beijou minha bochecha e voltou ao celular.
Sentei na cama com os Oxfords em minhas mãos e os calcei. Peguei a T-shirt do mickey de sua mão e o mandei se vestir. Ele pôs uma bermuda qualquer, sandálias de dedo e uma camisa azul. Achei minha bolsa em cima do sofá perto da janela e me perguntei porque eu não havia visto antes. Pus a camiseta lá dentro e peguei meu celular. 17:32. E um dizer: Você tem duas novas mensagens. Coloquei o celular de volta na bolsa, depois leria as mensagens. Tom pegou as chaves do Camaro azul e saiu do quarto logo atrás de mim.

- Casa dos . - eu atendi o telefone na cozinha, o Tom me esperava na bancada com minha mochila nas costas e uma maçã na mão.
- ? Sou eu, querida! Pensei que você estivesse na casa dos Felton...
- Eu vim pegar umas roupas. O que você quer? – curta e grossa. Eu sempre era assim com a minha mãe, a sua ignorância me impedia de agir normalmente. Pro resto do mundo, nossa relação mãe-filha era perfeita. O que ela não faz por uma boa imagem...
- Eu só queria saber como vão as coisas por aí. E queria pedir a Carmen pra pegar a Lola no petshop às 18:30. - Lola era a cadela dela. Ela era uma gracinha e me adorava, mas pra falar a verdade, ela não tinha cara de que gostava da minha mãe.
- A Carmen já foi, mas eu pego ela pra você. Mas alguma coisa?
- Não filha, só isso mesmo. Obrigada. - desliguei.
- Nem um “como vão as coisas aí, mãe?” ou “espero que se divirta”? - encarei o Tom que ainda comia a maçã e estava com minha mochila nas costas. Coloquei o telefone de volta ao gancho na parede e fui em sua direção. Parei em sua frente e peguei a maçã dele, mordendo um pedaço.
- Pensa comigo, Tom, se eu perguntasse isso, ela me recomendaria um psiquiatra. - ele riu - E eu preciso que você vá comigo pegar a Lola no pet-shop perto da Starbucks do centro. E aproveita pra rodar comigo por lá. Já que não vou sair da sua sala, preciso de cafeína.
- Você tá viciada nessa merda. - ele disse me seguindo enquanto eu pegava as chaves e ativava o sistema de segurança da casa. Fomos pra garagem e entramos no carro dele. Ele cantou os pneus antes de seguir para o centro.

- Ow, você tá a coisa mais fofa, Lola! - eu falei, fazendo carinho na cabeça dela e tentando não tirar o laçinho de Poá rosa em sua cabeça. Geralmente ninguém conseguia fazer com que ela ficasse com o laçinho. Ela cismava em ficar mexendo com a patinha até tirar. Ela é uma figura.
O Tom segurava meu capuccino e alguns cupcakes recheados de doce de leite e brigadeiro em duas sacolas. Andava quieto do meu lado, super informal com sua bermuda azul e chinelos pretos. Qualquer coisa que ele usasse em azul ficava perfeito nele. Realçava seus olhos.
A ida de volta pra casa do Tom foi a Lola querendo os cupcakes e eu o Tom conversando sobre iluminação e música. Meu humor estava consideravelmente melhor do que mais cedo e, eu acho, o Tom estava eternamente agradecido por isso. Ele, sei lá, meio que tinha um receio por mim quando eu ficava estressada. Eu tenho o gênio difícil igual ao do meu pai. Me estresso incrivelmente fácil com qualquer coisa boba. E ele é oposto de mim.
Quando eu cheguei na casa do Tom, Dougie já estava lá com as bebidas e Rian estava montando o equipamento de som na sala. Eu ajudei o Tom a por as bebidas no frízer da garagem e prendi a Lola lá. A cara que ela me fez quase me convenceu a carregar ela comigo pra sala de estar. Mas se eu fizesse isso, me arrependeria amargamente porque um dos seus passatempos preferidos era destruir almofadas. O Tom me mataria. Eu prendi a coleira dela na perna de uma mesa cheia de ferramentas e pus dois potes com água e comida. Passei a mão na cabeça dela antes de voltar pra cozinha.
Peguei um copo com água e me apoiei na bancada. O Tom veio em minha direção.
- Você pode subir, se quiser. - eu assenti enquanto largava o copo na pia e ia em direção às escadas. Que se dane o inferno que estaria lá embaixo. Eu trancaria as portas da sala do Tom e só sairia de lá numa emergência.

- Eu sou o homem mais feliz desse mundo! - estava no começo de American Pie 3 e no final do meu quarto cupcake. Um copo de capuccino já tinha ido embora e eu fui obrigada a concordar com o Tom de que café é um dos meus vícios. Eu estava esperando ansiosamente o comercial porque estava na vontade pra fazer xixi, sei lá, dez minutos.
Estava totalmente alheia a qualquer fato relevante da festa que acontecia lá embaixo. Mas já imaginava que agora, 00:42pm, o Dougie já estaria bêbado e se atracando com a Becc ou com qualquer uma; o Harry já teria achado um quarto e o Fletcher estaria na beira da piscina conversando com sei lá, qualquer um. E Tom... Provavelmente se pegando com qualquer uma pra passar o tempo. E se preocupando em não deteriorar nenhuma obra do Séc. XVIII de sua mãe.
O Jones? Foda-se onde ele está. Não to pra pensar nele no momento.
- Aleluia, Stifler! - eu olhei pra tela e tinha dado comercial. “É, aleluia Stifler”. Levantei e coloquei o copo de capuccino ao lado da TV. Estava usando um short jeans curto, uma blusa qualquer do Tom e meias 7/8 pretas. Fui em direção a porta e ouvi “The Time (Dirty Bit)” já no fim, vindo da direção da escada. Encostei a porta atrás de mim e segui o corredor, ignorando o casal que se comia alguns metros a frente, antes da porta do banheiro. Bom, pelo menos eu tentei.
Porque quando eu passei na frente do “casal que se comia” eu senti um cheiro tão viciante, sexy, conhecido... Dele. Era o Jones ali. Se pegando com aquela vagabunda de ontem. O sangue subiu a minha cabeça e eu fiquei ali, parada e não me abalei quando ele abriu os olhos.
O corredor estava muito escuro. A única luz vinha de uma luminária na parede no fim do corredor. Mas mesmo no escuro, o brilho dos olhos dele era inconfundível. Eu reconheceria aqueles olhos e aquele perfume até no inferno. Tive certeza disso.
Uma dor enorme descia da minha cabeça e se alastrava pelo meu peito. Meus olhos transbordavam ódio e eu nunca estive tão perto de cometer homicídio como agora.
Não sei exatamente qual era minha ideia, mas meus pés me levaram até o fim do corredor. Não sei quem teve a ideia de colocar o painel de luz ali, mas estava me sendo muito útil. Eu puxei o quadro de uma menininha brincando num campo de flores e corri os dedos até achar a alavanca. E a puxei pra baixo.
A casa ficou incrivelmente quieta e mais escura do que já estava. E eu corri.
Uma corrente de adrenalina passou por cada terminação nervosa do meu corpo e eu corri em direção aos dois, que ainda se pegavam. Danny continuava de olhos abertos.
Enrosquei minha mão direita no cabelo dela, mais rápido do que julguei ser possível e a arrastei em direção a escada. E gritei:
- TOM! - desci os degraus com ela berrando atrás de mim e eu ignorava os sons agudos de sua voz insuportável indo na direção da luz de uma lanterna que arranjaram e apontaram pra mim. Tom me olhava horrorizado, estático, provavelmente pensando o que diabos eu estava fazendo agora.
Ela se debatia e gritava atrás de mim, não surtindo efeito nenhum. E em uma atitude retardada, que se já tivesse sido feita evitaria tudo aquilo, eu ouvi os passos do Jones descendo as escadas.
Cheguei ao fim da escada e a deixei jogada atrás de mim. Desenrosquei minha mão de seu cabelo e olhei pro Tom. Ele, obviamente como todos ali, não entendia que merda era aquela. Mas quando ele viu Danny descendo as escadas um lampejo de compreensão passou por seus olhos. E de decepção também. E foi um erro eu ter me distraído porque senti um peso em minhas costas e caí de quatro no chão. Senti uma mão atrás da minha cabeça e várias tentativas falhas de empurrá-la em direção ao chão.
Aquela vagabunda estava tentando me atingir. Não mesmo.
Eu impulsionei meu corpo pra trás, ofegando e a fiz cair no chão me virando e subi em cima dela, agarrando seus cabelos e batendo sua cabeça freneticamente no chão. Ela tentava me empurrar e eu me desequilibrei, o que a fez subir em cima de mim e puxar meus cabelos com força. Eu dei um soco em seu estômago e me levantei, enquanto levava meu pé, furiosamente, repetidas vezes até sua barriga.
Eu não pararia até ver aquela filha-da-puta desacordada pelas minhas mãos. E o Tom percebeu isso. O Jones também.
Braços envolveram a minha cintura e o cheiro dele invadiu minha cabeça. O Tom segurava aquela vadia e a arrastava em direção a cozinha.
- TIRA ESSA VAGABUNDA DAQUI, TOM, AGORA!- eu me debatia, embora não adiantasse em absolutamente nada. Ele me levou de volta ao mesmo corredor. Eu sentia seu coração batendo nas minhas costas. Ele foi até o fim do corredor e levantou a alavanca, a luz solitária do corredor voltando.
Minha vontade de fazer xixi? Sumiu instantaneamente.
Ele voltou pra sala de estar e me jogou, mesmo, na pilha de almofadas em que eu estava deitada mais cedo, antes do caos. Parou na frente da TV, a despedida de solteiro do Jim não condizendo com meu momento agora.
- Eu vou perguntar só uma vez... - ele respirou fundo. - Que merda foi essa? - eu levantei e fiz menção de sair da sala, ele me segurou pelos ombros. - QUE MERDA FOI ESSA, ? ME DIZ, PORRA!
Minha garganta apertou. Não, eu não iria chorar. Não agora.
- Você é um filho-da-puta! - eu batia em seu peito, não surtindo efeito algum. - Tudo isso é culpa sua, TUDO! Você destrói cada pedaço de mim devagar, aos poucos e não tá nem aí pra isso! - eu batia com mais força, ainda sem efeito, mas ele cansou da minha atitude infantil.
Ele me empurrou pra parede e bateu com as mãos na mesma, o barulho ecoando nos meus ouvidos. Ele escondeu a cabeça no meu pescoço, respirava fundo e rápido. Estava com raiva. Eu sentia isso. Sentia raiva e frustração exalando dele.
- Não me diz isso, , você sabe que não é verdade. Se eu te destruo aos poucos, o mesmo acontece comigo, embora você não perceba. Você acha que eu gosto de ver você sorrindo ao lado de outra pessoa, sabendo que nunca vai ser eu de novo? Hãm? ACHA?!
Um estalo. Meus dedos marcados momentaneamente na pele macia de sua bochecha. Eu lhe dei um tapa e meu Deus, eu nunca tinha feito isso antes. Me preparei pra um, mas já devia ter aprendido que ele é incrivelmente imprevisível. Principalmente em relação a mim.
Ele me beijou. E sentir seu lábio em contato com o meu me fez gemer. Aquela sensação tão familiar, aquele cheiro tão viciante intensificado pela proximidade... Eu não esbocei reação nenhuma, só fiquei lá parada, enquanto ele forçava tanto sua boca contra a minha que eu sentia um gosto metálico na boca. Então eu entreabri meus lábios, sentindo gosto de sangue misturado a menta e álcool. E a língua macia dele com a minha, me fez perder uma batida do coração.
Eu enrosquei meus dedos em seu cabelo, num ato desesperado enquanto ele me segurava pelas pernas e me levantava. Ele sentou no meio das almofadas, uma perna minha de cada lado do seu corpo, sem quebrar o beijo. Ele mordeu meu lábio inferior devagar; eu ofegava. Suas mãos passeavam pelas minhas costas e um arrepio subia pela minha espinha cada vez que a ponta de seus dedos gelados encontrava minha pele. Ele me redescobria aos poucos, cada pedaço de mim.
Eu puxei seu cabelo macio devagar, quebrando o beijo e ofegando. Ele tentou voltar, mas eu recuei.
- Danny, não...
Ele olhou nos meus olhos. Aquele mar azul inundando minha mente; era como se eu não visse mais nada. Eu sentia a intensidade daquele olhar dentro de mim, passeando pelas minhas veias, embaixo da minha pele. Não existiam olhos como os dele. Os de Tom eram únicos, mas não eram como os dele.
Ele se aproximou novamente, e eu não recuei dessa vez.
Ele encostou os lábios nos meus devagar, dessa vez. E me beijou com uma ternura imensa, com cuidado, como se tivesse medo de que eu fosse me quebrar; como se tivesse medo de que eu fosse desistir. Isso me fez lembrar de uma noite e alguns minutos atrás. Eu levantei de um pulo e parei de costas pra TV, encarando o semblante confuso dele. Ele levantou devagar e chegou perto de mim. Esticou a mão pra tocar no meu rosto.
- NÃO ME TOCA, JONES! Eu não quero as suas mãos sujas em mim!
- Do que você tá falando, ?
- Eu não tenho amnésia, Jones. Ontem você estava lá na festa da Lauren se pegando com a mesma vagabunda do corredor de alguns minutos atrás. Eu não sou ela, Danny, NÃO SOU!
Ele suspirou, passou a mão pelo cabelo bagunçado e olhou pra mim. Seus olhos estavam escuros, quase azul marinho. Eu me lembrava da última vez que os olhos dele ficaram dessa cor. Uma das melhores noites da minha vida.
Ele se aproximou devagar, enquanto eu dava passos incertos pra trás até encontrar a parede fria e dura em minhas costas. Eu respirava falhamente e não fazia ideia do que ele faria dessa vez.
Seu corpo foi impulsionado pro meu e eu prendi a respiração. Seu rosto correu pelo meu pescoço, clavícula e parou na direção do meu rosto. Ele grudou seus lábios no meu, mas eu não me mexi. Danny mordeu meu lábio inferior devagar e colocou a cabeça na curva do meu pescoço, sussurrando em meu ouvido:
- Não, você não é. - as mãos dele seguiram pra minha cintura e a apertaram, por baixo da blusa. - Você é melhor. Nenhuma chega aos seus pés, , porque você é única. - ele beijava meu pescoço devagar e eu mantinha minhas mãos paradas ao lado do meu corpo.
- Se você acha - falei com minha voz entrecortada-, que aumentar meu ego vai funcionar, se enganou.
Ele riu e marcou meu pescoço com os dentes, me fazendo morder o lábio e reprimir um gemido.
- Não, , você se enganou.
E eu mandei a segunda festa que eu destruí, aquela vagabunda que apanhou, todos os meus conceitos e o mundo pra merda. Porque ele me encarou com aqueles olhos que estavam infinitamente mais escuros e me beijou. E eu passei as mãos pelos seus braços, seguindo o contorno de seus ombros e puxando seu cabelo devagar.
(n/a: Ouçam “All I Wanted” do Paramore e “Love The Way You Lie” nessa parte, é importante)
Ele me guiou a passos cegos em direção a pilha de almofadas e me acomodou nelas, deitando seu corpo em cima do meu. Nosso beijo era desesperado, como se fosse nosso oxigênio. Suas mãos apertavam minha cintura e minhas coxas e eu quebrei o beijo pra arrancar sua camiseta e sua camisa. A joguei por cima do meu ombro enquanto o empurrava devagar e o fazia sentar. Passei minhas pernas cada uma de um lado e sentei em seu colo. Ele passou as mãos pelos meus braços e desceu pelo meu tronco, parando na barra da minha camiseta e a puxando pra cima.
Meu coração batia freneticamente. Eu sabia onde aquilo ia dar. E esperava que não fosse em arrependimento e lágrimas. Mas era muito tarde pra desistir.
Ele me virou mais uma vez, desabotoando meu short e o puxando pra baixo, pelas minhas pernas. Segurou a esquerda em seu peito e foi tirando minha meia devagar, beijando cada pedaço de pele que aparecia enquanto a meia ia embora. Fez o mesmo com a outra e cada toque de seu lábio me fazia estremecer de ansiedade. Ele tirou sua calça jeans e voltou a me beijar enquanto tirava os sneakers da Nike com os pés. Ele passeava com as mãos pelo meu corpo, alternando entre minhas costas e coxas. Parou as mãos no fecho do meu sutiã preto de renda e tentou abrí-lo, sem sucesso. Eu o empurrei devagar enquanto o tirava e ele tirou um pacote do bolso da calça. Voltou pra perto de mim e colocou a cabeça no vão do meu pescoço, dando pequenas mordidas atrás da minha orelha, seguindo um caminho torturante até a minha boca.
Sua língua pediu passagem e eu cedi, sem pensar duas vezes. Suas mãos seguiram até o meu quadril, descendo minha calcinha branca devagar. Ele ficou ajoelhado entre as minhas pernas, puxando-a devagar, passando o tecido fino e macio pelas minhas coxas, joelhos, canela e panturrilha. Eu levei meus pés até a barra de sua boxer preta, descendo-a devagar. Ele se levantou e arrancou pelas pernas. Eu peguei o pacote abandonado do meu lado e o abri, me aproximando dele, que parou em pé a minha frente. Eu coloquei a ponta em seu membro e a desenrolei até a base, devagar. Ele levava a cabeça pra trás, mordendo o lábio.
Peguei sua mão quando terminei, o puxando de leve. Ele se deitou em cima de mim de novo.
- Não tem volta. - sussurrou no meu ouvido.
- Eu sei. - respondi, quando o senti dentro de mim.
E automaticamente me arrependi. Porque aquela sensação era tão perfeita e tão viciante. Parecia a primeira vez de novo, só que não era. Tão boa quanto, mas não era a mesma coisa. Eu sabia que só de sentí-lo tão intensamente em mim de novo, eu desistiria de tudo o que eu acredito pra ter aquilo todo dia. Eu não me cansaria, porque a sensação era como deitar em nuvens. Tão sublime e especial que eu queria eternizar aquele momento. Mas bem no fundo eu me sentia suja; porque por mais que fosse aquilo que eu queria, eu me condenaria depois, como sempre. E eu preferia ser condenada a prisão perpétua a ter que aguentar o arrependimento depois.
Ele se movimentava dentro de mim num ciclo vicioso e lento, enquanto eu arranhava suas costas com minhas unhas azuis. Eu mordia meu lábio quando ele mordia meu pescoço, como se fosse combinado. Sentia um arrepio percorrer minha espinha toda vez que ele entrava e saía de mim. Eu estava em êxtase, completo, e nem tinha tido um orgasmo ainda.
Ele aumentou a velocidade de suas investidas contra mim, procurando meus lábios com desespero. Ele mordeu meu lábio inferior antes de invadir minha boca com a língua quente e macia que eu tanto amava. Que eu ainda amo.
Meu corpo todo tremeu e ele segurou minhas mãos, entrelaçando seus dedos nos meus. Senti um arrepio infinitamente maior passar por todas as terminações nervosas do meu corpo. Uma sensação incrível, como se eu fosse ser feliz pra sempre. Alguns segundos depois ele tremeu sobre mim e parou.
Eu não queria que acabasse, mas acabou. E a sensação maçante de culpa tomou conta de mim.
- Promete que não vai embora de manhã?
Mas eu fechei os olhos e dormi.

*-*-*-*

Eu abri os olhos. A TV ainda estava ligada e passava “De Volta pro Futuro”. A cortina branca deixava passar toda a luz fraca que vinha de fora. Estava chovendo. Eu ouvi as gotas grossas de chuva batendo na janela de vidro.
Minha boca estava seca e com um gosto horrível de plástico. Eu me virei, devagar. O cabelo dele caía nos olhos do jeito que ele sempre odiou. A boca estava entreaberta e os olhos fechados calmamente. Ele fica lindo dormindo. Ele fica lindo de qualquer jeito.
Eu varri meus olhos pela sala. Minha camiseta estava embolada e amassada embaixo da TV ao lado do último capuccino que eu não tomei ontem a noite. Me arrastei até lá, engatinhado por entre as roupas do Jones, tentando não me mexer muito pra não acordá-lo. Sentei ao lado da minha camiseta e encolhi os joelhos olhando pra frente, a camisa xadrez que ele usara ontem a noite estava largada no chão na minha frente. Estiquei meu braço e a coloquei, sentada mesmo. Peguei o copo de capuccino e tomei um gole, só pra tirar o gosto ruim de plástico da boca, e o coloquei no mesmo lugar depois. Levantei e andei até a porta. A abri devagar, tentando não fazer barulho.
Quando cheguei ao corredor, um vento frio me envolveu. A casa estava quieta e aparentemente vazia. Eu segui o corredor, virando pra esquerda e passando na frente da escada em direção ao outro corredor. Lá embaixo, no meio de almofadas estava a Anne dormindo tranquilamente ao lado de uma garrafa vazia de Smirnoff. Segui pelo corredor, abri a segunda porta à direita e entrei.
Pensei que o quarto estivesse vazio, mas o corpo de Tom descansava embaixo do edredom claro. Ele estava igual ao Jones; cabelo caindo nos olhos, boca entreaberta...
Fechei a porta atrás de mim e andei devagar até o outro lado da king syze. Levantei o edredom e o Tom se virou, os olhos apertados pra focalizar meu rosto. Eu me enfiei embaixo da coberta grossa e ele me abraçou, enquanto eu escondia meu rosto em seu peito.
- Você...
- Eu não quero falar sobre isso. - ele suspirou, cansado.
- Tudo bem, você precisa dormir.
Ele me apertou e eu fechei os olhos tentando ignorar o perfume na camisa do Jones e me concentrando no barulho da chuva.

POV's Danny

Eu abri os olhos e a procurei. Ela não estava ali. Ela deixou pra trás o sutiã, a camiseta, o short, o par de meias, a calcinha e seu perfume impregnado em cada centímetro da sala. E um copo da Starbucks. Ela não estava ali. Eu olhei pra TV. Passava “De Volta Pro Futuro”. Eu ouvia o barulho da chuva batendo no vidro da janela. Que merda, ela não estava ali!
Ontem a noite eu quis congelar cada momento em que nossos corpos estavam juntos, pra eu me lembrar disso pra sempre; embora eu não ache que se eu não o fizer, vou esquecer. Fazia tanto tempo... E foi tão bom quanto da última vez. Não... Foi melhor.
Mas o fato de ela não estar ali significava pra mim que ela não se importava. Não se importava com o que eu sei que ela sentiu ontem a noite. Não se importava com nós - se é que existe algum “nós”.
Eu suspirei e passei a mão no rosto. Levantei e procurei minha Box e meus jeans. Os vesti e sentei no sofá com a camiseta no corpo, me perguntando onde diabos estava minha camisa xadrez. Coloquei os tênis. Olhei pra baixo e vi a bagunça que nós dois fizemos ontem. Peguei uma almofada e a coloquei perto do meu rosto, inspirando. Era o perfume dela ali. E eu me controlei pra não pegar a almofada e levá-la comigo.
Levantei e desliguei a TV, colocando as mãos nos bolsos e sentindo a chave no direito. Fui em direção à porta e saí, indo pras escadas e depois pra cozinha. Parei na frente da geladeira e mirei minha imagem distorcida. Eu estava um caco - duvido que ela não esteja também. Abri a porta da garagem e apertei o alarme do meu Porsche, acordando um cachorrinho com um laço na cabeça que estava encolhido numa cama aos pés de uma mesa. Abri a porta e entrei, acelerando em direção aos portões e ligando o rádio.
Tocava "Love The Way You Lie".


Capítulo 4 – Eles queriam ter o que tínhamos, essa é a verdade

“Where’s my Angel?
Go on and take my life”


“O esqueleto dela jazerá na câmara para sempre”. As palavras saíram pelos lábios rachados, ricochetearam pelas paredes claras do quarto e voltaram aos ouvidos da pessoa que as pronunciou. Ela fechou o exemplar de Harry Potter e a Câmara Secreta e o jogou longe. Deu um suspiro profundo e afastou o edredom macio de seu corpo. Colocou os dois pés no chão e saiu da cama.
Acordara duas horas atrás. O relógio digital embaixo da TV marcava 17:03pm. Não saíra do quarto um único minuto. Comeu no quarto, assistiu a Tom brincando com Lola no jardim do quarto, olhou a chuva do quarto, viu uma perseguição entre a polícia e um traficante ao vivo pela TV a cabo no quarto. Não ousou se olhar no espelho, estava reunindo aos poucos coragem pra tal.
Seus pés descalços a guiaram pelo chão frio até o closet. Ela abriu a porta devagar e andou até o fundo, em direção ao espelho, vendo a si mesma se aproximando. Parou há 1 metro de sua imagem, analisando cada parte de si e tentando não entrar em pânico.
Ainda estava do mesmo jeito que chegou ao quarto de Tom de manhã. Descalça, pernas de fora, cabelo bagunçado, rosto amassado, com uma camisa xadrez que não era sua, com um perfume que não era o seu; nua. Seu corpo estava marcado em dois pontos: um pouco embaixo da orelha e perto de seu colo. As marcas disformes avermelhadas nas pontas e arroxeadas no centro; ela esticou o pescoço pro lado, pra ver melhor. Sentiu uma dor forte na nuca subindo pra sua cabeça. Tum. Tum. Tum. Era como se, em vez de um cérebro, o que tinha dentro de seu crânio era o seu coração; e ele batia freneticamente.
Alguns chamariam isso de ressaca. Mas na noite anterior ela não pôs uma gota de álcool na boca.
Na verdade, por tudo o que ela havia feito na festa na noite anterior, qualquer um poderia dizer que ela estava bêbada, adulterada, maluca. Provavelmente, era só disso que todos falavam. Que ela era uma bêbada completamente maluca que pegou uma garota inocente de porrada. ”Inocente o caralho”, ela pensou, girando devagar em frente ao espelho pra analisar seu corpo - pra ver se Daniel não havia levado um pedaço dela com ele.
Pra falar a verdade, ele levara. Levara um pedacinho minúsculo de cada parte de

Não sabia o que fazer. Meus pés pareciam grudados no carpete da escada com super-cola. As imagens passavam em slow motion pelos meus olhos; eu não sabia mais o que era ou não real. Vi Anne jogando uma garrafa de Smirnoff do outro lado da sala e a partindo em pedaços. Depois, assisti enquanto ela pulava do sofá e ficava gesticulando desesperada e olhando pra mim. Não sabia se ela falava. Mal ouvia o que eu pensava. Só conseguia enxergar com clareza os dois homens da minha vida se atracando em um tapete de $1.600,00. Puta merda.
Anne olhou pra mim com os olhos arregalados. Abriu a boca como se fosse falar alguma coisa, mas nenhum som saiu. Eu, pelo menos, não ouvi nada.
Ela veio em passos decididos até mim. Eu prestei atenção nos dois, lá embaixo. A boca de Danny tinha um pequeno corte no lábio inferior; duas gotas de sangue pingaram no tapete. Tom tinha o olho esquerdo avermelhado e um corte na ponte do nariz. Eles pareciam querer se matar.
- ! - Anne puxou meu braço e eu a olhei - Você vai esperar eles se matarem e chamar o IML?
Ela tinha razão. Não podia ficar parada ali contando com a sorte de eles cansarem de se matar. Olhei pra ela, meus olhos transmitiam desespero; não sabia o que faria, minha posição era delicada demais.
- Vamos logo, ! - ela puxou minha mão e desceu pela escada comigo. Minha mente ainda trabalhava lentamente. Quando chegamos na ponta do sofá, eu parei, ela soltou minha mão e tentou puxar Danny pelo braço, sem sucesso.
Eu fiquei parada uns trinta segundos assistindo os dois se xingando e distribuindo socos pelo corpo um do outro.
- ! - Anne me berrou, ainda tentando puxar o braço de Danny. Eu respirei fundo e fui até eles.
Puxei o braço de Danny, que relutou de primeira, mas afundei minhas unhas em seu antebraço e ele recuou. Empurrei-o pro sofá. Anne arrastava Tom pro sofá da frente com certa dificuldade, ele era vários centímetros mais alto que ela.
- Que MERDA vocês dois estão fazendo? – gritei, olhando de um pra outro. Danny se impulsionou pra frente e eu olhei pra ele outra vez - Você não vai sair daí. - não era uma pergunta.
Olhei pra Tom num misto de decepção e fúria. Seus olhos transmitiam tudo o que ele pensava (algo entre “não me arrependo de ter feito isso” e “ele é um canalha filho-da-puta, não te merece”), pelo menos pra mim. Eu queria que ele abrisse a boca e me dissesse: “Desculpe”, mas a palavra seria uma grande e bela mentira.
Tom tentou se levantar mais uma vez e Anne deu um empurrão que o fez cair de novo.
- Eu quero que todos os dois calem a boca e FIQUEM SENTADOS. - ela gritou, olhando pra mim e de volta pra Tom - Já olharam um pro outro? Danny, ele quase estourou seu lábio, e Tom, o seu olho com certeza vai ficar roxo, e esse corte no seu nariz tá sangrando. O que vocês querem? Se matar?
Eu sentia o coração de Danny batendo e o seu peito subindo e descendo conforme ele respirava. Tom não falou nada e não olhou pra mim. Passava as mãos nos cabelos constantemente. Anne olhava pra mim, querendo saber o que fazer.
- Anne, leva o Tom pro banheiro do térreo, por favor. - ela assentiu e puxou o braço dele em direção ao corredor esquerdo - Você vem comigo.

- Ai! , isso arde! - Danny reclamou enquanto eu passava um algodão com álcool em seu lábio cortado. Foi exagero da Anne, Tom não tinha quase “estourado” o lábio do Jones, só fez um corte com o anel de prata com as iniciais da família que ele usa.
Ele estava sentado na tampa do vaso do banheiro do corredor. As gotas da chuva escorriam pela vidraça atrás da banheira, que dava vista pro jardim. As gotas caíam na piscina, que borbulhava como se estivesse sendo fervida.
- Foda-se. – joguei o algodão na lata de lixo – E, se eu me lembro bem, a Anne te mandou calar a boca. - dei um pedaço de algodão seco pra ele e me encostei na bancada da pia, os braços sustentando o meu corpo.
- Não estou vendo a Anne aqui. - ele me olhou com os olhos sérios, quase sem brilho.
- Isso não muda o que ela disse.
- Você quer parar? Para de agir como se eu não tivesse saído na porrada com o Tom e como se você não estivesse nem aí.
Ele levantou, jogou a algodão fora e veio em minha direção. Parou há um palmo de mim, olhando nos meus olhos.
Foi meio tenso. Eu não tirava os olhos dele em sinal de desafio, qualquer coisa que eu falasse desencadearia numa discussão sem fundamento e sem um fim aparente. Ele também não desviava o olhar. Como sempre, parecia que ele previa, ao passo em que eu pensava, o que eu pretendia falar ou fazer. O fato era que eu não chegava a lugar nenhum e toda aquela tensão entre nós se tornou ridícula e desnecessária em pouco tempo.
Eu respirei fundo, pisquei e olhei pra vidraça; a chuva não diminuiu. Ele puxou o meu queixo e a minha atenção de volta a ele. Tive vontade de cair no choro.
- Não encosta em mim. - disse pausadamente.
Ele respirou fundo, seu hálito batendo em meu rosto. Ele cheirava a pasta de dente e sabonete de limão.
- , eu...
- Só cala a boca e me escuta. - ele balançou a cabeça e sentou na tampa do vaso de novo. Eu andei por uns segundos em círculos e parei na frente dele - Eu passei a manhã e a tarde inteiras no quarto me martirizando por ter transado com você ontem à noite. - ele olhou feio pra mim, eu ergui um dedo pedindo silêncio - Mas não adianta me sentir mal por algo que eu fiz. Se eu fiz, eu queria fazer. - um brilho passou pelos olhos dele, eu ignorei - Isso não muda o fato de que foi errado; isso não muda o fato de que eu sou uma trouxa. Você vir aqui, discutir com o Tom, só aumentou essa certeza em mim. Se você tiver um bom motivo, um bom motivo mesmo, um motivo nobre, você pode abrir a boca pra explicar porque perdeu seu tempo. Se não tiver, ou se não quiser falar, eu vou virar as costas e ir embora. Espero que você faça o mesmo.
Eu pus as duas mãos na cintura, olhando séria pra ele. Internamente, tinha medo do que ele talvez fosse falar. Eu não tinha sobre ele o mesmo poder que ele tinha sobre mim. Eu não conseguia olhá-lo e imaginar cada palavra que ele pensava, cada ato que ele estava prestes a realizar. Ele era uma folha em branco pra mim. Uma folha em branco incrivelmente encantadora.
E eu continuava sendo uma trouxa.
Contei até dez, vinte, trinta. Estava em trinta e oito quando ele me desarmou completamente.
- Ontem à noite, depois que nós... Hum, terminamos... Eu te pedi pra não ir embora de manhã.
Foi como se eu tivesse tentado comer uma maçã inteira e agora ela estivesse entalada na minha garganta. Só consegui respirar quando se tornou insuportável, mas mesmo assim, o nó em minha garganta continuava lá. Meus olhos ardiam e eu respirava fundo e descompassadamente.
- Eu ouvi. - ele olhou furioso pra mim.
- Então por que você foi? Por que você ignorou o que tinha acontecido e fez como da primeira vez? Vai continuar jogando na minha cara que eu sou um canalha e me mandar correr atrás da Lauren?
Ele estava furioso. As veias de suas mãos e de seu pescoço estavam saltadas e seus olhos claros, vermelhos. Ele não gritava, mas falava alto o suficiente pra alguém no início do corredor ouvir.
- Sabe por que eu fui? Porque eu não aguentei acordar e ver nós dois naquele estado sem sentir saudade do que a gente era. Nós ficamos juntos por um ano e três meses, mas você acabou com tudo com a sua necessidade idiota de sexo. E aproveitou a primeira chance que apareceu pra comer a primeira vadia que abrisse as pernas pra você. E quando eu penso que você já desistiu de insistir em nós, você vem e arranca um pedaço de mim e leva com você. Eu me sinto como uma prostituta: usada e um lixo.
- Se você não se importa, me diz por que quase arrancou os cabelos da Kate ontem. - ele falava devagar e tentando parecer calmo, mas seus olhos continuavam vermelhos e as veias de seu pescoço estavam mais pronunciadas que nunca. Não sei se sentia culpa.
Eu o analisei, tentando entender a pergunta. Kate era a vadia do corredor. Meus olhos se iluminaram e eu estava pronta pra falar e ir embora, encerrar aquele diálogo inútil.
- Eu nunca disse que não me importava. - ele me encarou, sério - E sabe por que eu fiz aquilo? Porque toda vez que eu vejo você com outra pessoa, parece que meu coração é feito de vidro², cada batida é uma dor profunda, como se estilhaços dele perfurassem cada órgão próximo. Eu amo você, Daniel Jones. - ele prendeu a respiração - Mas isso não é uma surpresa.
- Você... Trata isso com uma frieza enorme. - ele disse, encarando os próprios pés e torcendo os nós dos dedos.
Eu passei a mão pelos cabelos, os puxando de leve e os jogando pra trás. Não sabia o que minha expressão significava. Frustração, talvez.
- E você quer que eu fique feliz em dizer que te amo? Quer que eu me emocione e caia no choro? Talvez eu faça isso se estiver bêbada, porque sóbria eu não tenho motivos pra tal. Acha que é simplesmente fácil dizer “eu te amo” pra um filho-da-mãe que se importa, mas age como um canalha? Demonstre Daniel, mas talvez seja tarde demais pra você. - longa pausa - Agora você pode me dizer o porquê de ter vindo aqui? Por favor?
Ele olhou pra mim. Nunca o vi tão perto de chorar; aquilo deveria ter me feito sentir pena, ou culpa, ou arrependimento pelas palavras bruscas e repentinas, mas não. Tudo o que eu sentia era um alívio e um arrepio atrás da cabeça.
Ele se levantou e parou na minha frente, me fazendo olhar pra cima.
- Eu vim aqui passar infinitas horas olhando pra você pra ver se criava coragem de dizer o que eu queria ter dito ontem à noite, quando você apareceu no corredor. - ele esperou minha curiosidade trabalhar. Eu queria saber, não perguntar me faria morder a língua, mas sabia que ouvir seria uma dor muito maior.
- O que você queria ter dito?- perguntei, fechando os olhos e respirando fundo.
Minha curiosidade não me preparara pra aquilo.
Ele passou a mão direita pela minha nuca, enrolando nas mãos mechas finas do meu cabelo úmido e cheirando à shampoo anti-caspa. Antes que eu pudesse abrir os olhos e reclamar, seus lábios frios e com gosto de remédio se encontraram com os meus. Ele parecia querer mudar de idéia a cada vez que respirava, se afastando por milímetros e desistindo antes que ficasse longe o bastante pra que deixasse de sentir minha respiração se misturando à sua. Sua frustração foi passando pra mim devagar. Eu apertei seu antebraço direito, mas não fiz nenhum outro contato. Ele afastou nossos lábios devagar, murmurando baixo enquanto seu hálito entrava em meu nariz.
- “Me desculpe”. - não entendi de primeira. Achei que ele estava pedindo desculpas pelo beijo inusitado e distante, mas quando ele se afastou o suficiente pra que eu olhasse em seus olhos, percebi que era a resposta da minha pergunta.
Engoli em seco, saí do banheiro e segui pelo corredor. Ele poderia me chamar de covarde quantas vezes quisesse, a palavra “verdade” piscaria em um letreiro chamativo de lâmpadas coloridas acima de minha cabeça toda vez que ele dissesse. Porque era isso o que eu era, uma covarde: ignorando o que eu sentia e privando outras pessoas de sentirem o mesmo.

- Anne, dá licença pra gente, por favor? - pedi a ela entrando no banheiro e me encostando na parede, de braços cruzados. Ela passou por mim, deixando o algodão na lata de lixo - Fecha a porta.
Ele olhava pros pés, segurando uma compressa de gelo no olho machucado. Eu tentei segurar minha língua o máximo que eu pude, mas o beijo, a transa e toda a discussão que isso causou estavam me estressando ao máximo.
- Que porra foi aquela?
Os olhos dele me faziam a mesma pergunta.

Capítulo 5 – Todo mundo comete erros, é isso que nós fazemos

- Eu não te prometi nada.
- Mas isso não significa que você tinha que fazer!
Eu parecia uma criança recebendo uma bronca do pai por ter quebrado um vaso caro da sala de estar.
Eu fiquei quieta por uns segundos.
- Você quase fez a garota vomitar sangue.
- E você quer que eu me sinta culpada? Vai sonhando!
- É isso que me irrita em você! Você vai lá e faz uma merda enorme e não tem capacidade de aceitar que errou depois.
Eu olhei pra ele tentando transmitir uma calma que não era verdadeira.
- Não vem me dizer o que é certo e o que não é. Você não tem moral nenhuma pra me dizer o que é certo ou errado aqui. - falei pausadamente.
Ele ficou quieto e passou pela minha cabeça a possibilidade de ele não falar mais nada. Mas qual é! Ele é Tom Felton, simplesmente não cala a boca.
- Eu já te pedi pra esquecer, não pedi?
- Quer saber? Que se dane! Nós dois somos péssimos melhores amigos e não sabemos dar bons conselhos.
Ele olhou pra mim. Parecia angustiado.
- Eu vou pra casa.
Eu saí do banheiro e não ouvi mais a voz dele.

Poucas vezes eu chorei na vida.
Quando tinha uns cinco, seis anos acho, chorei quando vi meus pais discutindo (algo sobre uma “loira de vestido vermelho que parecia uma vadia”), eu me encolhi entre a parede que dividia a escadaria da cozinha e me arrependi de ter saído da cama. Eles gritavam tanto, estavam vermelhos. Achei que um dos dois iria embora no dia seguinte. Mas no dia seguinte teve um almoço na casa dos Poynter, e lá estavam eles: sorrindo, de mãos dadas e agindo como se aquela briga nunca tivesse acontecido. Naquela tarde, enquanto eu comia uma tortinha de pêssego sentada na mesa das crianças, eu disse a mim mesma que não queria crescer, casar e ficar igual a eles. Eu não precisei casar pra ficar igual a eles. Meu namoro com Danny era brigas, sexo de reconciliação, brigas, tapas. Eu fiquei pior que eles.
Eu chorei outra vez quando constatei isso.
E todas as outras vezes em que eu chorei, os nomes Jones e Felton estavam envolvidos. O primeiro deve se vangloriar por isso, o segundo se culpa.
E agora, eu chorava por ser uma adolescente estúpida regida pelos hormônios e pelo coração mais estúpido ainda.
Lola lambia minha bochecha.

POV Felton

Eu sabia que ela estaria chorando. E queria me matar por isso.
Como pode, mesmo sem querer, mesmo sem a intenção de magoá-la; como pode eu machucá-la tanto a ponto de fazer com que ela chore?
Fazer alguém chorar é perfeitamente normal. Mas ela não era alguém, ela era minha melhor amiga, minha razão e, muitas vezes, a falta dela. Eu não imaginava a minha vida sem aqueles cabelos compridos, sem aqueles olhos tão profundos. Eu não queria nem imaginar o quão insuportável seria minha existência se eu não tivesse seu sorriso, seu perfume, todos os dias. Eu era um viciado e ela era a minha droga.
Mas eu era um inútil. Porque não conseguia fazer com que ela entendesse que Danny Jones é um filho da puta sem fazer com que ela chorasse.
Que tipo de melhor amigo é esse?!
Eu sabia que não tinha a quem culpar. Porque ela o ama com a mesma intensidade que eu a amo, e o amor às vezes cega a gente. Mas é muito ruim ver quem você ama se desgastar por causa de um desgraçado que não dá a ela o valor merecido. era uma pedra preciosa, e Daniel não sabia como lapidá-la.
Eu queria abrir os olhos dela a qualquer custo. Parar de vê-la sofrer por quem não a merecia - ela não merecia sofrer num todo -, mas não é como se a vida dela só fosse torta nesse aspecto. O casamento dos pais dela era insanamente falso, a maioria das pessoas com quem ela convivia não eram amigos de verdade. Sorrir me machucava, porque eu sabia que ela não compartilhava da mesma alegria que eu. Mas não podia privá-la da família, mesmo sendo problemática, e nem dos amigos, mesmo sendo falsos; eram as únicas coisas que ela tinha.
E embora ela também tivesse a mim, e embora ela me amasse tanto quanto eu a amo, não era o bastante porque ela não tinha a ele.
Merda!, falei enquanto jogava o copo com Whisky na parede. Vi-o se estilhaçar em pedacinhos de vidro e cair no chão e percebi que, a cada lágrima que ela derramava a quilômetros dali, meu coração se estilhaçava como aquele copo.



Sua cabeça pulsava. Triim, triim, triim. A cada toque ela parecia querer explodir. Triim, triim... HU!
- Sai Lola. - levantou a contragosto, a camisa do Chelsea grande demais cobrindo o short branco - Alô?
- ? Sou eu, Nath! A Anne me pediu pra te ligar, ela ficou preocupada. Posso saber com o quê?
- Eu não acho que seja eu a pessoa certa pra te responder essa pergunta.
- Jones?
- E Felton.
- Os dois? !
Ela apertou quatro dedos da mão que sobrava na têmpora direita. Não bastava seu consciente afirmando que ela tinha feito besteira, agora era obrigada a aguentar lição de moral da Nathalie.
- Eu não fiz nada de errado, ok?
- É, mas também não é como se tivesse feito algo de bom.
- Você nem sabe do que rolou! Olha... Fala com a Anne e aparece com ela mais tarde aqui em casa?
- Você não ia ficar no Felton?
- É, eu ia.
Nathalie não falou nada por alguns segundos.
- Tudo bem, te vejo mais tarde.
colocou o telefone no gancho da parede e, sabendo que não voltaria a dormir, ignorou o barulho que vinha da televisão e sentou num banco da bancada da cozinha. Sua testa bateu no mármore frio e ela sentiu uma sensação quente abandonar-lhe o corpo.
Pretendia ficar ali por um bom tempo. Pra esquecer que em algumas horas teria que explicar o que ela não queria explicar e responder a perguntas as quais ela nem queria ouvir. Tentava inutilmente fazer com que sua cabeça bloqueasse as lembranças daquela tarde pra não ter que responder absolutamente nada às meninas. Obviamente, seu esforço não adiantava de nada e era como se ela lembrasse de tudo com mais nitidez. E sentisse as lágrimas lhe cortando outra vez.
Achava aquilo tudo incrivelmente inútil. Nada na vida podia ser perfeito por mais de duas horas antes que viesse alguém (qualquer alguém) e estragasse tudo. Parecia que fazia anos desde que tinha dado seu último sorriso sincero, desde que riu com gosto de alguma coisa - qualquer coisa. Um beijo, um abraço; não lembrava a última vez que algo do tipo a tinha reconfortado. Não que ela estivesse dando uma de rainha do drama, mas parecia que a felicidade, com todas as suas consequências e significados, não se aplicava à sua vida.
Como se Deus - ou quem quer que passasse os dias assistindo sua vida como assistia a um filme lá de cima - estivesse lendo seus pensamentos, o momento raro de paz foi surpreendido por latidos finos de cachorro. teve vontade de chorar, mas lágrimas não fariam Lola parar de latir.
Ela levantou a cabeça, a testa gelada, e olhou pras portas da cozinha. Lola estava lá, aquele pedacinho minúsculo de ossos, órgãos, músculos e pêlo caramelado com um laço torto atrás da orelha, latindo, julgava, pro nada.
- Lola, quer parar? - a cachorrinha olhou pra ela, ainda latindo, impulsionando o corpo pra frente e desistindo de ir onde quer que fosse.
levantou e parou do lado da cachorrinha, agachando e a pegando no colo; mas ela não parava de latir. Então ela olhou pra direção em que os olhos de Lola brilhavam. Seu coração se apertou.
- Oi.


Dois anos antes.


11 de Julho
14:23pm



- Meu cabelo tá cheio de areia. Eu detesto areia.
Tom ria. Sentado na espreguiçadeira da praia privativa do hotel, ele segurava um coquetel e ria de . Suas bochechas estavam vermelhinhas e, mesmo com o wayfarer preto, ele franzia a testa por causa do sol forte. Seus pés estavam com a marca dos chinelos e ele tinha a impressão de que ficaria ardido.
- , eu realmente acho que nós devíamos entrar.
- Olha só! Pra quem disse que aguentaria passar a tarde toda torrando.
- Eu aguentaria se meu protetor solar fosse fator sessenta. - ela sorriu - Vem, vamos voltar pro hotel, o seu cabelo tá bizarro.
Ela deu um tapa na barriga dele e saiu correndo.
- , sua filha da mãe, volta aqui!
Ela só olhou pra trás quando estava no saguão do hotel. E quando virava pra frente outra vez, certificada de que Tom estava bem longe, só percebeu que estava no chão ao sentir um peso em cima de seu corpo. Não eram malas.
Era um par de olhos escuros, cabelos pretos caindo na testa, um cheiro forte de sol e mar e 212 Men. Nenhum dos dois se mexeu. Ela por vergonha, porque nunca foi desastrada, e ele porque já tinha visto aqueles olhos castanhos em algum lugar.
- ? - Tom vinha em direção aos dois, preocupado. A confusão de malas tinha chamado a atenção da mocinha simpática e bronzeada atrás do balcão, e de mais uns quinze hóspedes.
- O que está acontecendo?
Esse era o tipo de momento em que você não se concentra muito nas coisas ao seu redor, alguma outra coisa prende a sua atenção e você fica sem saber o que fazer. Os olhos escuros, de um castanho quase preto, prendiam a atenção de . Ela sentiu uma vontade imensa de se afundar naqueles olhos, se perder no castanho e deixar os problemas em Manhattan pra trás. Os olhos escuros sorriram gentis pra ela e se afastaram, enquanto mãos a ajudavam a se levantar.
- ?
Era Tom, com o semblante preocupado, mas ao mesmo tempo aliviado de ver que ela estava bem apesar de ter feito malas voarem. Ela endireitou a blusa branca escrito “I <3 NY”, embora a mesma continuasse torta. Tom passou os braços pela sua cintura. Os olhos escuros a fitaram, ela tentou decifrar o que eles queriam dizer, mas Tom beijou sua bochecha e disse que eles tinham que subir. Ela só balançou a cabeça, sem dizer nada ao carinha simpático e com cheiro de praia que ela tinha tombado. Virou as costas e foi pro elevador.

11 de Julho
20:47pm


- Vão bora, ! Isso é um lual, não um baile do MET!
riu com a comparação idiota e colocou a pulseira de cinco pingentes no pulso. Cada pingente foi dado a ela em seu aniversário por pessoas diferentes. De Tom, ela recebeu um Buzz Lightyear um pouco maior que a unha do seu indicador. De Dougie ela recebeu a carinha de um cachorro. De Harry, ela recebeu uma rosa azul de safira (naquele dia, Harry havia dito que ela parecia uma flor, em todos os aspectos. Ela o achou incrivelmente fofo por isso). De Fletcher ela recebeu um ursinho - porque quando eles eram menores, ela dizia que as bochechas dele pareciam as de um urso, então ele achou que aquilo a faria lembrar dele. E de Danny, ela recebeu um coração vermelho com nuances rosa. A corrente era dourada. E ela ainda lembrava da felicidade que sentiu ao ver a caixinha da Tiffany & CO. Apesar de toda a composição não ter ficado assim, tão harmoniosa, foi o melhor presente que já ganhou.
Quando o cordão que Danny lhe deu foi parar no chão do quarto na noite passada, a primeira coisa que Tom pensou que ela fosse fazer (depois que ela o jogou no lixo), era arrancar o coraçãozinho da pulseira e dar a ele o mesmo destino que o colar. Mas ela não o fez, e ele também não perguntou por que.
Ela borrifou um pouco de Flower no pescoço e nos pulsos e arregaçou as mangas do casaco jeans podrinho. O vestido floral com renda rosa na barra e fundo de mesma cor, combinava perfeitamente com a rasteirinha de bolinhas brancas e fundo cinza.
- Você tá linda. - Tom falou quando ela saiu do banheiro. Ela sorriu.
- Eu sei. - ele sorriu e ajeitou o cabelo - Tom.
- Eu.
- O que foi aquilo hoje à tarde, no saguão?
Ele sabia do que ela estava falando. Do carinha moreno que ficou olhando pra
sua como quem nunca tinha visto um ser humano na vida, e da reação possessiva dele quando percebeu que o olhar dela estava quase igual ao dele.
Ele provavelmente não teria agido assim se eles não tivessem transado há menos de vinte e quatro horas. Mas eles
tinham transado há menos de vinte quatro horas, e esse fato mudava tudo. Na cabeça de Tom, esse fato mudava tudo, porque ela tinha se entregado a ele na noite passada, e ele tinha se entregado de corpo e alma a ela. Por alguns minutos, eles foram um só e, naqueles minutos, Tom sabia que daria tudo no mundo pra manter aquele sorriso de satisfação nos olhos dela. Porque quando ela sorria com os olhos, não era um sorriso falso. Quando ela sorria com os olhos, era a alma dela sorrindo. E todo o seu ser sorria com ela.
E, de tarde, quando ele viu que os olhos dela começaram a sorrir pros olhos azuis daquele estranho, ele deu uma de retardado possessivo como quem quisesse dizer: “Ela é
minha, então faça um favor ao seu traseiro e suma daqui”. E, nada bem que os olhos dela tenham parado de “quase sorrir”, mas ele não ia querer ver os olhos dela sorrindo pra outra pessoa. Ele agora tinha a impressão de que os olhos dela, o sorriso dos olhos dela, o sorriso da alma dela lhe pertenciam.
Mas ela não pertencia a ninguém. Ele só precisava de um tempo pra perceber isso.
- Nada de mais. Vamos descer? - não insistiu. Sabia que, quando Tom mudava de assunto bruscamente, significava que o restante da conversa o deixaria constrangido.
- É, vamos. - ela disse, indo pra porta enquanto ele fechava a mesma com o cartão e passava o braço pela cintura dela.

11 de Julho
21:13pm


- Sabe, Tom... - ela falou, dando um gole na bebida rosa - esse é o tipo de momento em que eu gostaria de estar com todo mundo. - ele olhou pra ela - Mas aí a vontade passa e eu quero mais é que eles se fodam, todos juntos.
Ele sorriu. Sabia de quem ela estava falando, e também sabia que comentar qualquer coisa - falar os nomes, perguntar o por quê -, seria pedir pra vê-la chorar. Ele não queria vê-la chorar outra vez tão cedo. Porque quando ela chorava, parecia que toda a felicidade dela se esvaía, e era como se os olhos dela nunca fossem sorrir outra vez. Na verdade, ele não queria vê-la chorar nunca mais.
Ela estava linda. Tom tinha ainda mais certeza disso. A luz da fogueira batia em seus olhos, deixando-os com um brilho incrível; ela dançava devagar, o que era estranho porque a música era animada, mas ela estava perfeita daquele jeito suave, lindo,
dela.
Tom sabia o que tudo isso significava- somando o ciúme dele e
tudo -, e sua mente lhe perguntava insistentemente na merda em que ele tinha se metido.
Ele sinceramente não fazia idéia.
- Eu vou pegar algo mais forte, você quer alguma coisa?
- Não, valeu. Quando aqueles garçons engraçadinhos passarem aqui de novo, quem sabe. - ele riu não querendo rir e foi em direção ao bar.
via gente de todo tipo ali. Alguns rostos que ela já se acostumara a ver no sobe e desce de elevadores do hotel, alguns que ela não tinha reparado.
Aí ela viu os olhos.
E os olhos a viram.
Ficou ali, parada, o coquetel rosa pela metade nas mãos. Sorriu, um sorriso de verdade, os lábios se curvando, as bochechas se erguendo. Assistiua ele caminhar em sua direção, a areia no seu chinelo o fazendo sacudir o pé.
- Você vai me tombar de novo?
Ela riu. E o sorriso dele aumentou enquanto as bochechas dela ficavam levemente coradas - mas ele não percebeu isso, porque a luz não colaborava tanto assim.
- Pra ser sincera eu adoraria, mas meu cabelo ia encher de areia.
- Sou Finn Petrie.
- , prazer. - ela apertou sua mão direita erguida.
Eles conversaram por alguns minutos, nenhum dos dois sabem dizer quantos. Mas, ao final da conversa, ela sabia bastante coisa sobre ele. Sabia que ele tinha dezessete anos, morava na Inglaterra e, assim como ela, estava ali de férias. Mas ela não precisava saber nada disso pra ter certeza de que queria beijá-lo. E foi o que ela fez.
Depois de mais um comentário engraçado dele, ela riu, se aproximou e o beijou; simples assim.
Ela sentiu os braços dele ao redor de sua cintura, uma sensação quente na nuca e vontade de sorrir. E entre o beijo ela sorriu, como havia sorrido com os olhos naquele dia mais cedo. E ele a acompanhou, sorrindo como queria ter sorrido com os olhos mais cedo.
E era o beijo, a música e o coquetel. E era a alma dos dois sorrindo.

12 de Julho
1:35am


- , você não o conhece!
- Não é como se eu não soubesse o nome dele.
- Você não sabe!
- Sim, eu sei. - ela respondeu, irritada - O nome dele é Finn, ele tem dezessete, é inglês e muito simpático.
- Um cara precisa só disso pra beijar você?
ia ignorar a frase, mas foi só ouví-la pra ela ter certeza de que Tom não precisava ter dito aquilo.
Ele viu os olhos dela pararem de brilhar e os lábios dela pararem de sorrir. Percebeu que tinha falado besteira assim que as palavras pularam de sua boca. Não era como se ele também não tivesse acabado de agarrar uma garota que ele nunca vira na vida, mas com ela era diferente.
Por quê? Afinal de contas,
por que com ela era diferente?
Porque ela não era só mais uma na multidão. Ela era a garota que ele ia proteger pra sempre, um pedacinho dele; ela era a garota que ele
amava. E um inglesinho de merda não tiraria isso dele.
Ele já sabia do que ele sentia. Mas pensar isso com tanta clareza chegava a assustar.
Ainda não tinha certeza se ela ia usar a língua afiada que ele sabia que ela tinha pra responder; desejava que não. Mas ouví-la o chamando de filho-da-puta, despejando na cara dele o que ele realmente era, seria melhor do que vê-la chorar. Ele se culparia infinitamente.
- E do que uma menina precisa pra beijar você? Pagar de piranha e agir como uma? Então, pelo seu ponto de vista, deve ser por isso que a gente transou. - e ela chorou.
Enquanto ela saía pelo quarto, sem previsão de que voltaria e sem dar a ele chance de se desculpar - embora ele não soubesse
como faria isso-, ele quase teve certeza de que se tivesse ficado se agarrando com a tal da ruiva de nome Peggy atrás do bar, sua noite seria bem mais produtiva. Ele já tinha fodido a merda toda mesmo! A única coisa que ele tinha a fazer era esperar pra vê-la de novo e dizer a ela o quão idiota ele tinha sido.
O amor era uma droga. Ele não queria sentí-lo, mas não era como se ele simplesmente pudesse arrancar seu coração do peito e ordenar a ele que afastasse sentimentos inúteis. Porque era isso que o amor lhe parecia naquele momento: inútil.

12 de Julho
1:53am


- Vai ver ele não quis dizer isso.
- Sim, ele quis.
- Vai ver ele só... - ele procurava as palavras certas - Vai ver ele só achou que você tinha feito uma besteira muito grande.
piscou - não caíram pequenas lágrimas de seus olhos, mas ela queria que tivessem caído, como se a cada vez que chorasse Tom se machucasse por isso. Tinha certeza de que todas as palavras que Finn dissesse não a convenceriam de que Tom tinha feito besteira - e todo ser humano faz besteira.
- Ah, é assim que você enxerga a si mesmo? - ela tentou fazer piada, mas tinha soado mais idiota depois de ela ter dito do que em sua cabeça. Ele achou engraçado. Tudo embaixo do mar de estrelas acima deles, do oceano aos seus pés, da grama verde embaixo do casaco azul; tudo parecia mais engraçado - pelo menos, era isso o que Finn pensava.
- Eu sou uma besteira muito grande. - ele disse, apoiando o queixo nos cabelos dela - Mas eu sei que você tá adorando essa besteira muito grande.
Ela riu, seu riso ecoando por todo o gramado em volta da piscina. Eles poderiam ter ficado em uma das cadeiras de madeira, mais próximos da água, mas ambos concordaram - mesmo que sem ter dito nada -, que se jogar na grama e ver as estrelas era mais legal. Embora romântico seja a palavra certa.
- Eu estou adorando essa besteira muito grande, e vou adorar até o momento em que ela fizer uma besteira muito grande. Aí a gente conversa. - ele riu e beijou o topo da cabeça dela.
Passava pela sua cabeça que ele nunca havia visto menina mais perfeitinha que aquela. E ele pensava assim porque não conhecia seus defeitos - na sinceridade, ele estava com vontade de conhecê-los.
Ela chegou na porta de seu quarto repentinamente - por mais que ele tenha dado o número, não imaginou que ela fosse. Chorava, e quando ele perguntou o que ela tinha, sabia que ela estava aliviada em ter alguém pra contar o que a afligia. Ele sentiu vontade de rir quando ela mencionou o ciúme do melhor amigo, mas sabia que a faria pensar que estava caçoando dela - até porque ele não conhecia a relação dos dois. Então sugeriu que eles fossem lá pra fora pra que ela pudesse respirar fundo, e ela simplesmente balançou a cabeça e o seguiu.
Ele não conseguia entender como ela era tão compreensiva e acabava sempre falando as coisas certas quando ele precisava ouví-las. Isso o relaxava, e ele se sentia incrivelmente bem, melhor do que ele se lembrava desde que as férias começaram. E ele a conhecia há menos de vinte e quatro horas.
- Quando você vai embora?
Tentou ignorar a pergunta, mas o jeito que ela foi feita – repentinamente -, e por
quem ela foi feita, o impediram de fazê-lo.
Sabia que aquilo eram férias, que as férias acabam e que ele voltaria pra Inglaterra e ela pra Nova York. Mas era tão bom imaginar que aquilo duraria mais um pouco... Só que ela tinha razão em querer saber, porque geralmente as mulheres são a parte mais emocional da relação - o que quer que o que eles não tinham fosse -, sendo assim mais fáceis de se envolver. Ele não gostava de títulos, e eles se conheciam há muito pouco tempo pra rotular alguma coisa, mas a palavra certa, se não
relação, seria ligação.
- Na quarta-feira.
Ela respirou fundo.
- E você?
- Amanhã.
Ele prendeu a respiração.
Era injusto! Ele não teria tempo de conhecê-la o suficiente pra saber se a relação/ligação era mais que um casinho de verão. E as pessoas ainda achavam que as mulheres eram mais fáceis de se envolver.

12 de Julho
2:47am


-Toma café comigo?
Seu rosto estava entre os cabelos dela, as costas curvadas, já que os centímetros a menos que ele o impediam de se manter reto. Ele sentia cheiro de shampoo de amêndoas com chocolate, e lhe parecia o melhor cheiro do mundo.
- Se eu acordar antes das nove eu te encontro no saguão.
- Tudo bem. - ele murmurou, a voz se perdendo entre aquele mar castanho.
Ela afastou as mãos do peito dele e ele, devagar, encostou a sua testa na dela e seus narizes se tocaram enquanto ela respirava contra a boca dele; cheiro de menta e morangos.
- Boa noite. - ele disse.
Ele a beijou no rosto antes que ela fechasse a porta.

12 de Julho
8:14am


Era tudo meio desconexo. Ela abrira os olhos há uns dois minutos, mas tudo eram nuances. Uma sombra perto da janela a encarava e por alguns segundos, ela ficou curiosa. Mas a luz do sol refletiu os cabelos loiros de Tom, e ela respirou fundo, tampando a cabeça e virando pro outro lado.
Mesmo não enxergando muita coisa, não queria olhar pra ele.
Tom a encarava e sabia que ela era cabeça dura o suficiente pra não falar com ele até que tivesse um motivo realmente bom pra isso. Suspirou, deixou o pacotinho do lado da cama dela e saiu.
Quando ouviu o barulho da porta, esperou um minuto. Depois tirou as cobertas do rosto. Ela piscou uma, duas, três vezes. A visão foi voltando ao normal e reparou que estava um lixo. Ainda estava com o mesmo vestido da noite anterior e seu cabelo estava uma bagunça. Não era como se ela estivesse de ressaca ou algo do tipo. Era só o fato de que ela
se sentia um lixo, por dentro. Por ter brigado com Tom, por tê-lo deixado se preocupar; por culpa dele. Odiava brigar com Tom. Mas ela tinha razão. Ele tinha que aprender a medir suas palavras antes de dizê-las. Poderia machucar outras pessoas - embora não ligasse a mínima pras outras pessoas.
Sentou na cama virando o rosto pro pacotinho ao seu lado. Tinha um bilhete.

“Eu sou um imbecil, admito. E esse imbecil te pede desculpas.
E você pode me odiar com todas as suas forças daqui pra frente, você vai estar certa.
Abra o pacote e não se atrase pro café. Você precisa comer, o nosso avião parte ás 15:30,
Amo você,
Tom”


Sorriu. Era tão fácil pra ele! Por mais que a merda fosse grande, sabia que no dia seguinte a conseguiria de volta. Ela sempre voltava.
Abriu o pacotinho. A pulseira que estava em seu pulso quando se deitou, reluzia à luz do sol com mais um pingente: um Martini. sorriu outra vez e se espreguiçou. Ia descer, procurar Tom e abraçá-lo com força. É.

12 de Julho
14:03pm


- ! - ela se virou.
Finn vinha em sua direção. Tom fez cara feia.
- Eu te espero no carro. - ela concordou com a cabeça.
- Oi. - ela disse, sorrindo e o abraçando.
- Eu tenho uma coisa pra você.
franziu o cenho.
- Se você não vai me dar seus olhos, não tenho idéia do que possa ser. - ele sorriu, encostando a testa na dela e deixando entre seus dedos um pacotinho.
- Eu reparei na sua pulseira e quis te deixar uma... lembrança. - ela olhou pra ele - Abre.
Ela se afastou centímetros pra que pudesse abrir o pacotinho. Virou-o de ponta cabeça, uma estrela caiu em sua mão. Uma estrela dourada pequena e linda.
- É perfeita.
- Como você.
Ele se aproximou e ela o beijou devagar, memorizando o gosto dele e tudo o mais que dava pra memorizar.
- Até. - ela seguiu em direção à saída do hotel, acenando.
- Até. – ouviu-o dizer.
E ela foi em direção ao carro com uma estrela na mão e a impressão de que nunca veria aqueles olhos novamente.



Dias atuais.


- Oi. - aquilo poderia ser uma miragem, uma brincadeira sem graça de seus olhos para consigo mesma, mais um problema em sua vida. Mas realmente era ele ali. Os mesmo cabelos pretos, a mesma pele pálida, os mesmo olhos... Aqueles olhos; ela estava quase mergulhada neles, outra vez. Sua expressão era quase a mesma e ela quase não reparou na barba rala crescendo no queixo e na lateral do rosto. Ele continuava tão encantador quanto naquela tarde, no hotel, dois anos antes.
Lola se mexia impaciente nos braços de querendo descer. Ela não quebrou o contato com os olhos, mas agachou e pôs a cachorrinha no chão. Lola correu pra perto do garoto. E Finn ignorou o focinho gelado tentando entrar em seus jeans e correu em direção à , agarrando em sua cintura, a tirando do chão e a beijando. ficou sem ar e realmente surpresa nos primeiros dois segundos, mas quando a língua dele encostou na dela a necessidade pareceu ser tão estupidamente grande que ela ligou um foda-se pra todo o resto e se agarrou nele como se necessitasse daquilo pra viver - mesmo que isso significasse ficar sem respirar.
Como conseguiu passar dois anos inteiros sem aquilo?!

Capítulo 6 – E carros potentes atropelam corações

- ?
Eu quebrei o beijo e olhei pra porta. Nath e Anne estavam paradas ali, ambas de sapatilhas nos pés e semblantes confusos. Finn sabia que alguém estava ali, mas não tirava seus olhos de mim.
- Só um minuto. - sussurrei, sentindo os lábios de Finn sobre os meus novamente, mas não querendo prolongar o momento porque me parecia o tipo de coisa que a gente não compartilha.
- Eu posso te pegar mais tarde? - a proposta não me surpreendeu, o que me surpreendeu foi a forma como ela foi feita: ele disse devagar, com cuidado, com medo de que eu fosse recusar, me pareceu. E, em outras circunstâncias (por exemplo, se ele tivesse me aparecido ontem), eu realmente teria recusado. Mas não hoje.
Eu balancei a cabeça e ele me beijou outra vez antes de segurar meu pulso e sorrir, olhando pra estrelinha dourada pendurada entre um Martini e um coração rosa e vermelho. Depois virou as costas e passou reto pelas meninas, fechando a porta atrás de si, deixando pra trás duas garotas perplexas e quinhentas perguntas que eu preferiria não responder, de jeito nenhum.
- Quem é ele?!

*-*-*


Depois de contar tudo – e, por mais que eu odeie admitir, tudo mesmo -, sobre Finn, a hora de levar sermão tinha chegado. Eu já havia passado por aquilo milhões de vezes, e digo que nunca me acostumei com o tom autoritário delas.
- O que aconteceu ontem, afinal de contas? - Nath falou do fogão.
- A Anne não te contou? Ela tem o dom de contar as coisas antes das pessoas e estragar a surpresa. - Anne olhou feio pra mim, enfiando a colher no pote de sorvete de cheesecake. A cozinha estava quente e com cheiro de panquecas - Eu transei com o Danny, acordei de manhã e saí do quarto sem acordá-lo, me encolhi nos braços do Tom; o que convenhamos, sempre acontece; e, enquanto eu tomava banho umas horas depois, o Danny apareceu lá me procurando e o Tom meteu aquele nariz grande dele onde não foi chamado. Eles saíram na porrada, a Anne acordou e ficou instantaneamente nervosa pensando que os dois iam se matar. A gente fez o que pode, eu ouvi palavras bonitas do Jones e discuti feio com o Tom. Eu cheguei aqui querendo morrer, dormi um pouco; sabe-se lá como; e depois você me ligou e eu acordei, e dei de cara com o Finn.
Eu ouvi um chiado vindo da frigideira nas mãos da Nath. Ela soltou o cabo de borracha e abriu uma das portas duplas que davam pra varanda. Ainda chovia lá fora.
- Então o Tom saiu na porrada com o Danny porque vocês transaram, foi isso?
- Bem, isso foi o que pareceu. - peguei um pouco do sorvete da Anne - Não sei se posso dizer que os dois brigaram por isso mesmo, mas não vejo qual outro motivo.
Silêncio e outro chiado.
- Quando eu acordei eles já estavam brigando, então não posso dizer que ouvi alguma coisa.
- Além de chutes, socos e palavrões.
- É, além de chutes, socos e palavrões.
A Nath desligou o fogão, sentou do meu lado na ponta da mesa e colocou três pratos com panquecas na mesa.
- Tudo bem, concordamos que esse aparentemente é o motivo principal, mas não pode ser o único.
- E por que não? - coloquei duas bolas de sorvete em cima de uma panqueca e a dobrei no meio, cortando um pedaço e passando na goiabada - Pelo amor de Deus, Nath, não inventa mais problema!
- Eu não estou “inventando mais problema”! É meio óbvio, não é ? A gente tem que considerar que eles já se odeiam bastante, e você transar com o Danny foi mais um fator. Agora, que não foi o único, não foi. Se tivesse sido o único, o Tom teria levantado da cama no momento em que você deitou e ido atrás do Jones na sala. Você sabe como ele é esquentado. Principalmente quando envolve você.
Ela estava certa, mas eu não queria que estivesse. Isso significava que o Tom se importava mais comigo do que o necessário, do que o permitido. E isso me dava uma culpa enorme porque, tudo bem, eu o amo e ele sabe disso, mas perto do dele, meu amor é... minúsculo.
- Ok Nath, mas o que poderia ter causado a briga deles, além da estupidez da ? - Anne comia a panqueca dela embebida em leite condensado. Não tentei corrigí-la, ela estava certa mesmo. Prendeu o cabelo em um nó que se soltou no momento em que ela achou que estava firme.
- Aí fica foda pra eu te dizer. Porque eu não sei quase nada do relacionamento deles três, então mil e uma coisas podem ter encadeado isso.
A Nath fazia panquecas inacreditavelmente bem, mas nem o gosto doce quebrando o amargo na minha língua me fazia esquecer que eu estava com mil e um problemas sem solução na minha frente - e eu não fazia idéia de como resolvê-los.
- ... Aquelas coisas que o Jones te falou no banheiro, será que...?
Admito que não entendi de primeira o que ela quis dizer. Mas depois, a compreensão foi enchendo os meus olhos, como água enchendo uma garrafa vazia.
- Anne, não! Por Deus, não! O Danny não poderia dizer tudo aquilo pro Tom, ele estaria morto antes que pudesse completar a primeira frase!
- E você acha que o Felton não tentou matá-lo? Eu não sei você, mas quando abri os olhos e vi tudo aquilo, me pareceu muito igual à um campo de guerra.
- Anne, você está supondo... - a Nath apontou o garfo pra ela - Você está supondo que talvez o Tom tenha tentado impedir que o Danny falasse aquelas coisas pra ?!
- Meu Deus, gente! Isso tudo é insano! O Tom não é tão egoísta assim. - eu torcia os nós dos meus dedos de nervoso, e uma veia proeminente em meu pescoço pulsava - E, por favor, parem de falar nisso porque eu estou perdendo a fome e essas panquecas estão boas demais pra eu não comê-las. - enfiei mais um pedaço de panqueca com sorvete na boca e mastiguei com raiva.
Fazia sentido. E isso era uma merda porque não devia fazer sentido nenhum! De acordo com aquela versão, o Tom era a “madrasta má” filha da puta que não queria me ver feliz (e isso era insano, porque a única coisa que Tom fazia era tentar me colocar pra cima, assim que ele percebesse que eu estava mal - e ele geralmente não desistia antes de conseguir). E o Danny era o mocinho que fez besteira e queria uma segunda chance. E deveria ser o total oposto, mas fazia tanto sentido que eu senti vontade de chorar.
A cozinha ficou silenciosa e eu só ouvia o barulho dos talheres batendo de leve na porcelana, os pingos de chuva atingindo o gramado com força e as respirações alteradas minha e das meninas. Lola havia parado de latir- e eu preferiria que ela tivesse continuado com o alvoroço; porque pelo menos eu teria que concentrar as minhas forças em gritar com ela, ao invés de ficar tentando enganar a minha mente de que aquela história toda da Anne não fazia sentido.
Chovia forte do outro lado da parede da cozinha, e eu nunca odiei tanto a chuva – porque, por mais que amenizasse o silêncio, o barulho e o clima que ela fazia só deixava a situação toda mais deprimente.
Não. Eu não ia chorar. Não outra vez.

*-*-*


POV Anne

- Foda-se! Eu não quero saber. Ela está dormindo agora, e custou muito pra ela dormir. Então você vai pegar esse seu traseiro e cair fora daqui antes que ela acorde e caia no choro!
Eu esperava que ele sorrisse - aquele sorriso prepotente, sabe? Aquele sorriso de quem sabia que era “O” fodão e causava mesmo esse efeito nas mulheres, mas seus olhos caíram e pararam de brilhar; então eu tive certeza de que tinha falado demais.
- Ela... Ela chorou?
É esse o tipo de momento em que você percebe que já fez merda e jogar a mesa pro alto, quebrando todos os copos de vez, não vai fazer diferença.
- O que você esperava que ela fizesse? Ela ama você, seu estúpido, e mesmo você dizendo coisas bonitas e afirmando que sente o mesmo, não diminui a dor porque ela sabe que a intensidade não é a mesma. Porque ela daria a vida dela pela sua, mas você faria isso, Daniel?
Homens não nasceram pra ser sensíveis e se ligarem em todas essas coisas de sentimentos. Eles são frios, se importam menos (muitas vezes, não se importam nada). Geralmente só querem nos comer e nos ter na palma da mão deles, pra quando quiserem comer a gente de novo, não receberem um “não”. Nas raras ocasiões em que um homem se encontra realmente apaixonado, ele age sem pensar nas conseqüências – que na maioria das vezes, são maiores do que o previsto.
Mas o Danny... Danny não se encaixava em nenhuma das alternativas anteriores. Ele era o 1% que não se encaixava. Porque ele amava a , disso ninguém tinha dúvidas, mas tinha um jeito particularmente ridículo de demonstrar isso. E era exatamente esse jeito dele de demonstrar que a ama que a fazia pensar o contrário. Ele só tinha que demonstrar, é complicado?
- Por favor Anne, me deixe vê-la!
- Danny, pelo bem dela.
Ele pareceu considerar a opção de virar as costas, entrar no carro e sair dali antes que ela acordasse. Ele pareceu considerar a opção de deixar de insistir, de deixar de me ouvir negando. Ele pareceu.
Eu tomei um susto quando as mãos dele tomaram conta das minhas coxas e me ergueram, me colocando em seus ombros.
- Daniel Jones, me põe no chão! – eu falava baixo pra que não acordasse.
- Desculpa Anne, mas eu preciso vê-la. – me jogou no sofá e correu pras escadas.
Ótimo, ninguém me ouve e todo mundo se fode.

POV Danny

Ela dormia enrolada no edredom branco e preto. Eu gostava de vê-la dormir. Ela parecia aquela menininha encantadora que apareceu com o maior dos meus problemas no jardim de infância me dizendo que era seu amigo, quando dormia.
Pensei em sentar na cama, mas seu sono era leve e eu não queria que ela acordasse e me visse assim do nada, parado, olhando pra ela. Me contentei em sentar na poltrona azul perto da janela e ficar observando seu peito subir e descer enquanto ela respirava, a mente provavelmente entorpecida com sonhos menos estressantes que a sua realidade.
Respiro fundo mordendo os lábios. Eu sou um babaca. Ela sabe disso, e a cada olhar que me direciona, me faz lembrar com mais intensidade.
Mas eu tinha voltado à casa do Felton, eu tinha ido até ali pra provar a ela que eu me importo – embora ela demonstrasse o contrário. E eu sei que não devia julgá-la – porque se eu sou um babaca e ela sabe disso, ela tem mais é que não se importar -, mas porra, eu estava tentando! Estava tentando desesperadamente abrir os olhos dela pro que eu sinto e ela não se esforçava em me ouvir.
Ela era uma filha da mãe orgulhosa, que me odiava e me amava ao mesmo tempo – e por mais incrível e confuso que pareça, fazia isso com razão -, e, tudo bem, eu sei que eu estava correndo atrás dela feito um cachorro de rua correndo atrás das sobras de um açougue, eu sei que eu estava me humilhando, mas era por ela. E se isso, algum dia, a fizer abrir os olhos e ver que eu realmente vou me esforçar apesar de tudo, então vai ter valido a pena.
Não tirava meus olhos de seu rosto. Ela estava tão tranqüila, tão diferente de horas atrás. Devia ser a chuva, ou o azul aconchegante do quarto. Ela me dizia que só amava azul pela cor dos meus olhos. Ela dizia que só amava chuva porque quando a beijei pela primeira vez, tantos anos antes, estava chovendo. Tudo me envolvia, e porra, eu não merecia isso. Porque eu acabei com os sonhos de criança, destruí o protótipo de conto de fadas que era sua vida. E eram coisas tão simples e tão puras que não deviam me envolver, mas mesmo assim eu estava lá.
Levantei, dando a volta em sua cama e parando ao seu lado, de frente pra porta. Seu celular vibrou.
Me senti meio intrometido, mas como não conhecia o número, cliquei em abrir e digitei sua senha.

“Te pego às 8, ok?
Nada de especial, mas acho que vc vai gostar ;)
Beijo, Finn”


Quem é Finn?
Futuquei o iPhone procurando informações e só achei duas mensagens. Cliquei pra ouvi-las.
Quando a voz de sumiu, eu prestei bastante atenção na voz desconhecida.
- “Bem, oi. Provavelmente você não deve se lembrar da minha voz, então deve estar se perguntando quem é. Sou eu, Finn Petrie. Dois anos atrás, Riviera Francesa...” – apertei o telefone na orelha - “ Não sei se refresquei a sua memória. Se mesmo assim você ainda não lembrou de mim, não se preocupe. Eu só queria te ligar pra avisar que eu estou em New York, e quero te ver. É, é isso. Até qualquer dia, ”.
Minha mente pipocava. Quem diabos é Finn Petrie? Esperei pra ouvir a segunda mensagem, mas era da mãe de .
Larguei o telefone na mesinha de cabeceira e fui em direção às escadas. Lá de baixo, Anne conversava com alguém.
- Eu vou subir!
- Pra quê, Anne? Agora que ele já está lá em cima você só pode esperar que ele desça!
As formas da Anne e da Nath se formaram nos meus olhos quando eu desci a escada, com aquela pergunta na cabeça; “Quem é Finn?!”.
- Ah, satisfeito?!
- Quem é Finn? – perguntei, chegando perto das duas e olhando pros olhos de ambas. Elas prenderam a respiração, mas não abriram a boca.
Passei infinitos segundos olhando pros olhos das duas esperando uma resposta que provavelmente não viria. E não veio.
- Ótimo, o Felton deve saber.
Anne arregalou os olhos e a última coisa que eu ouvi antes de sair da casa de foi a Nath gritando “Danny, não!”. Mas eu só via o carro, o portão e o caminho dali até a casa do Felton. Eu não sairia de lá até ele me dizer quem era Finn. E eu tinha a impressão de que ele sabia.

*-*-*


- Seu nome, por favor.
- Danny Jones. – falei pra caixinha cinza grudada na parede ao lado dos portões da casa do Felton. Tamborilava os dedos no volante, esperando impaciente que os portões se abrissem de uma vez. Provavelmente ele pensaria que eu tinha ido ali pra brigar, que de manhã não tinha sido o suficiente. Deve ter sido por isso que demorou mais do que o suportável pro portão abrir.
Parei com o carro em frente à porta, a figura dele aparecendo na varanda. Saí, deixando o rádio tocando American Idiot ligado.
- Se você veio aqui com a intenção de me culpar por qualquer coisa que tenha acontecido de manhã, dê meia volta e não perca o seu tempo. Pela , eu estou fazendo o possível pra não te matar.
- E é por ela que eu estou aqui. – parei em sua frente, as sobrancelhas erguidas, o cabelo pingando pela chuva.
Ele me encarou, curioso.
- O que você quer dizer?
- Quem é Finn Petrie?
Compreensão inundou os seus olhos e eu tive certeza de que tinha ido ao lugar certo. Primeiro compreensão, depois raiva e eu fiquei sem entender merda nenhuma. Minha cabeça estava uma confusão só; seus olhos também.
- Da onde você tirou isso?
- Do celular da . Eu fui vê-la e o celular estava apitando. Tinha uma mensagem desse tal de Finn. Algo sobre dois anos atrás e Riviera Francesa...
- É melhor você entrar. – ele me cortou.
Fui em sua direção com a ponta do nariz gelado e uma sensação estranha no peito.

*-*-*


Ele estava parado no portal da sala de jantar, um copo com whisky e gelo na mão e o semblante preocupado. Tinha algo nos olhos dele e no modo com que seus dentes rangiam que não me parecia boa coisa. Geralmente, ele não se estressava à toa. Então ou era eu, ou esse tal de Finn estava na cidade errada, na hora errada e tinha mexido com a pessoa errada. Seu silêncio era quase tortura. Mil e uma coisas passavam pela minha cabeça e seus lábios fechados não saciavam minha curiosidade. Eu tinha milhares de perguntas. Queria saber quem era Finn, como ele conheceu , o quê tinha acontecido na Riviera Francesa a dois anos atrás... E estava impaciente com a falta de respostas.
Aí ele cortou minha linha de pensamento.
- Finn Petrie é um inglês que se hospedou no mesmo hotel que eu e na Riviera Francesa dois anos atrás. Eles se esbarraram de manhã e se pegaram à noite.
- Assim? – podia significar várias coisas, mas tratando de quem se tratava, ele sabia exatamente do que eu estava falando.
- É, assim. E eu discuti com ela – e não, eu não preciso que você me diga que eu fui um idiota porque eu soube disso no momento em que ela saiu porta a fora. Mas eu discuti porque ela não o conhecia e simplesmente estava lá, no meio de um lual, se agarrando com ele.
Eu podia dizer que ele foi infantil. Que todo mundo faz isso e, se ela não é todo mundo em muitos aspectos, às vezes era nesse e que ele próprio já tinha feito isso. Mas pro Tom, a era perfeita e ainda conservava aquela “inocência” que eu afirmo ter tirado dela. E não seria eu a pessoa a tirar essa certeza dele. - Eles se envolveram um pouco demais nas vinte e quatro horas que ficaram juntos, e quando pegamos o avião de volta pra New York... – ele tomou um pequeno gole do whisky – ...me deu alívio. Achei que ele tinha morrido ou sei lá...
- O que você quer dizer com “se envolveram um pouco demais”? – apertei os nós dos dedos, mordendo a língua e sabendo que aparentava estar nervoso; eu estava nervoso.
Ele tomou o resto do whisky indo pro bar no canto da sala e colocando mais do líquido âmbar no copo quadrado. Tomou mais um gole e encarou o nada; não me respondeu.
- Felton, eles transaram? – perguntei, sério.
Seus olhos continuaram vidrados no nada, e eu estava me irritando com toda aquela falta de respostas. Não era difícil; ele só precisava abrir a boca e me tirar essa dúvida. Eu só precisava de uma palavra pra saber se esse tal Finn era digno de morrer pelas minhas mãos. Porque eu a amo do tipo que se ela matar alguém, eu escondo o corpo e não faço perguntas.
- Eu não sei. – sua voz veio do canto da sala e inundou o ambiente, ficando (aos meus ouvidos) mais alta que o barulho da chuva.
- Como não sabe? Como assim não sabe? Você tem que saber!
- E eu tenho cara de vidente, Jones?! – ele respirou fundo, encostando o copo nos lábios e fazendo uma cara estranha quando o líquido desceu por sua garganta. Eu já estava com vontade de pegar o copo e jogá-lo na parede – Quando eu briguei com ela, ela simplesmente saiu pela porta sem me dizer mais nada. Pode ter ido vê-lo, pode ter ido comer torta no salão de jantar. Eu não sei.
Respirei fundo, passando as mãos pelo rosto.
- O que você quis dizer com se envolveram um pouco demais?
Ele parecia estar tentando evitar exatamente essa pergunta. Colocou o copo em cima da bancada do bar, uma pedra solitária de gelo descansando no fundo.
- Quando eu vi os dois abraçados, no meio do lual, me pareceu... Me pareceu o tipo de coisa sólida. – eu o encarava, minhas sobrancelhas erguidas.
- Coisa sólida?
- É, tipo “amor à primeira vista” ou algo tão clichê quanto. Mas eu disse a mim mesmo que isso era insano, porque eles só tinham se esbarrado de manhã e “amor à primeira vista” é história pra criança dormir. Mas o jeito que ele olhava pra ela quase me fez pôr abaixo meus conceitos. Então eu simplesmente a tirei daquele torpor todo e a levei pro quarto. O resto da história você já sabe.
Ele saiu de perto do bar, parando na poltrona na minha frente. Eu levantei e peguei um copo, colocando uma pedra de gelo e uma dose de vodka. Tomei um gole, minha garganta esquentando instantaneamente e o resto do corpo à medida que a bebida descia.
- É só a sendo a . – falei com a voz rouca – Encantando todo mundo mesmo sem intenção de fazê-lo. É só... Por ela ser ela.
A chuva não melhorava a tensão na sala. Minha cabeça estava longe, no quarto da garota que tem meu coração nas mãos. Me perguntava insistentemente se, de acordo com a descrição do Tom, esse Finn Petrie era problema.
- Eu tô indo.
Ele virou os olhos pra mim. Não expressava emoção nenhuma neles, e isso era perturbador. Quando eu estava na porta, meus dedos quase tocando a maçaneta gelada, sua voz me alcançou.
- Sobre o que a mensagem falava? – o tom de sua voz me dizia que aquela resposta era importante.
- Eles vão sair. Ele disse “Te pego às 8”.
O seu olhar me dizia que Finn Petrie estava na cidade errada, na hora errada e que, definitivamente, tinha mexido com as pessoas erradas.

Capítulo 7 – E tem gente achando que é Deus

“É como sempre teve que ser
Quando você for mais velha você entenderᔹ


Sua cabeça doía. Ela culpava a forma abrupta com que tinha acordado aos acontecimentos de manhã e àquele perfume forte que não lhe era estranho e que estava por todo o caminho da porta até a poltrona azul.
Do lado de fora da janela já escurecia, mas a chuva batia no vidro com a mesma intensidade que antes. E, apesar da surpresa de estar se sentindo desconfortável em seu próprio quarto, as vozes que subiam pelo corredor a faziam sentir menos estranha. Internamente, ela culpava aquele perfume pelo seu mal estar. Porque ela suspeitava de quem ele era, mas um pouco de certeza não faz mal a ninguém. E foi pensando assim que ela afastou o edredom preto e branco do corpo e foi em direção às escadas. Quando seu corpo tomou forma diante das duas meninas, o assunto que parecia tão interessante lá de cima simplesmente morreu.
- , tá tudo bem? Você quer alguma coisa? Alguém te acordou? - ela sorriu, um sorriso triste, e não respondeu, indo em direção à cozinha. As meninas a seguiram.
- Francamente, vocês precisam aprender a disfarçar melhor. – colocou água gelada em um copo de vidro verde – Não precisei nem me esforçar pra ter certeza de que o Danny esteve aqui. – tomou um gole, molhando os lábios ressecados.
Ouviu Anne bufando algo como “Eu disse!” enquanto sentava na bancada e mordia uma maçã, aparentemente com raiva.
- Como você...? – Nath perguntou, com voz surpresa.
- O perfume. Eu sabia que era dele, estava por todo o quarto.
- Isso é ridículo, sabia? – Anne levantou, mastigando a maçã – Pelo perfume... Dá no mesmo que dizer que você o sentiu!
- Isso não é impossível, Anne. – bebeu mais um gole – Você sabe o que ele é, o que significa pra mim. Não é nenhuma surpresa.
- Não disse que é impossível, só disse que é insano.
Ela estava certa, era mesmo insano. Por isso não discutiu, era tudo uma insanidade.
- Anne não queria deixá-lo subir. – Nath suspirou, olhando a chuva cair no deque da piscina, do lado de fora do vidro das portas – De acordo com ela, ele a colocou sobre os ombros e a jogou no sofá.
riu, era bem a cara dele mesmo. Fazer o que tiver que ser feito pra conseguir o que queria. E ela tinha de admitir que saber que ele ergueu Anne só pra subir as escadas e vê-la fazia seu ego aumentar um bocado.
- E ele definitivamente não devia ter subido!
- Anne, irmãzinha, será que mamãe não te ensinou que é inútil tentar impedir o inevitável? – Nath falou, rindo, passando um braço sobre os ombros finos dela.
poderia rir de toda aquela situação, mas seu coração perdia uma batida porque sentia o perfume dele em sua pele, como se ele a tivesse abraçado.
- Eu vou tomar um banho. – falou, colocando o copo em cima da pia.
- É, você precisa. Que horas o inglês bonitão vai vir te pegar?
Ela sorriu, indo pras escadas.
- Não faço ideia.

*-*-*


É impressionante a rapidez com que o mundo gira. Em vinte e quatro horas, ela fez tanta besteira que se fosse contar lhe faltariam dedos, e entre essas vinte e quatro horas, uma besteira antiga retornou do além como se tivesse estado lá o tempo todo.
Ela ainda tentava entender a sua reação de total entrega quando o viu. Nas raras ocasiões em que se pegava pensando nele – na época em que ainda esperava voltar ao hotel e encontrá-lo -, imaginava cenas desconexas onde ela era uma espevitada batendo freneticamente nele e cobrando respostas: “Por que diabos você sumiu?!”. Sentia-se meio infantil de simplesmente ter se deixado levar, mas a sensação dos braços quentes dele em volta de seu corpo era aconchegante demais pra ela pensar em querer sair. O simples fato de que ele estava ali, a quilômetros de Londres e tinha ido lá pra vê-la, era o tipo de coisa que a faria sorrir num velório, por mais bizarro que isso fosse.
Mas ela não podia ignorar o fato de que ele era um problema. Um problema grande e complicado de se resolver, como álgebra. E tinha aparecido num momento péssimo.
Considerando a situação num contexto maior, tudo parecia uma bola de neve. Eram vários problemas que podiam ser pequenos, mas se acumulavam a outros maiores, e daqui a pouco a coisa estaria fora de controle. Como, por exemplo, o fato de que ela queria estar puta com Danny, mas simplesmente não podia porque pela primeira vez em, sei lá, anos, ele tinha sido sincero em relação ao que sentia. Porque ele tinha sido fofo e ela se derretia por pessoas fofas. Porque ele tinha voltado lá depois de ela ter ido embora do nada, surpreendendo a todos, inclusive a ela.
Estava frágil, surpresa e confusa. Podia atribuir a sua reação de total entrega em relação a Finn a tudo o que sentia; devia. E podia culpar Danny por fazê-la se sentir assim. Mas aí, ela se jogar nos braços de Finn como uma menininha indefesa seria culpa de Danny, e a coisa toda não faria sentido nenhum.
E tinha o fator Tom, que se imaginasse que Finn estava em New York ia querer matá-lo – e não, não era exagero. Ela ainda lembrava de suas feições e das palavras frias que bateram em seu rosto como um tapa.
Tinha que arranjar um jeito de sair com Finn sem que ninguém além das meninas soubesse. Isso não parecia tão complicado, mas só o fato de estar em Manhattan complicava tudo. Aquela ilha minúscula nunca te dava uma saída quando você precisava.
Pensar em tudo aquilo tinha estragado o seu banho. E quando ela saiu do banheiro enrolada na toalha e viu a mensagem de Finn (dizendo que a pegaria às 8 horas), já sabia que se atrasaria antes de olhar no relógio; 20:11pm. As pessoas tinham que aprender a não cobrar pontualidade dela.

-Então, aonde vamos?
Eu olhava seu perfil, sentada no banco do carona do Volvo. Ele sorriu, um sorriso parecido com aquele de dois anos atrás, e parou num sinal, olhando pra mim.
- Eu pensei em te levar pra jantar, mas achei que seria formal demais e definitivamente nada a sua cara.
- É, eu não estou vestida para um jantar. – ele dobrou numa esquina, passando em frente às escadarias do Met. Vestidinho e sapatilha definitivamente não é roupa pra um jantar. As meninas reclamaram, disseram que eu estava simples demais. Eu mandei elas calarem a boca e pedi a Nath pra prender o colar de cupcake no meu pescoço. Não fazia ideia pra o quê eu estava me vestindo, obviamente que não colocaria algo tipo o último vestido da coleção nova da Barneys. Quando desci as escadas e o encontrei vestido com bermuda e camiseta, achei que estava vestida apropriadamente para onde quer que fôssemos.
- Aí considerei um cinema. Mas achei meio piegas e insinuante demais. – sorri – Cogitei boliche ou patinação no gelo. Mas como te conheci na praia, achei que talvez você não gostasse muito.
- Então...
Ele estacionou em frente a um McDonald’s.
- Então aqui está o seu programa de segunda à noite.
Olhei pro letreiro amarelo e de volta pra ele. Sorri.
- Sério? – ele balançou a cabeça – Eu quero o brinquedinho do McLanche Feliz.
- Tá bom bebê, eu te dou o brinquedinho do McLanche Feliz. – ele falou, abrindo a porta do carro e dando a volta, abrindo a minha e estendendo a mão.

- Eu não acredito que você estava falando sério em relação ao brinquedo. – ele dizia, balançando a cabeça e comendo uma batata.
- E por que não?
Ele só balançou a cabeça enquanto eu comia meu McFlurry.
Já vi encontros bizarros antes. De andar de balão até descer escadas em uma canoa. O meu até que era bastante normal, mas nunca na vida eu tinha ido ao McDonald’s no primeiro encontro. Onde vivo, com quem vivo, isso é ridículo. Não existem primeiros encontros, existem olhares cúmplices e quartos de hotel. Existem toques superficiais e vontades saciadas. E só.
Já era de se imaginar que Finn não agiria assim. Ele era da Inglaterra, lá as pessoas não se comportam como animais no cio o tempo inteiro. Mas nunca passaria “McDonald’s” pela minha cabeça. Ponto para Finn Petrie, ele me surpreendeu mais uma vez.
- Sabe – ele me olhou enquanto tomava Coca-Cola -, isso foi a coisa mais inusitada que me aconteceu.
- Me conhecer?
- Isso também, mas não. – ele sorri – É que eu nunca tive um primeiro encontro de verdade. – suas sobrancelhas se ergueram.
- Como assim nunca teve um primeiro encontro de verdade?
- É que as coisas não funcionam assim por aqui. Os meus amigos...
- Tá dizendo aquele loiro aguado? – eu sorri.
- Ele também. Bom, eles não são do tipo românticos que armam encontros no McDonald’s e falam coisas fofas.
- Eles são uns otários. – balancei a cabeça – Mas tecnicamente, esse não é o nosso primeiro encontro. Então ainda existe uma chance de você ter um primeiro encontro decente. – eu sorri – E eu não preciso te falar coisas fofas.
- Mas aposto que você fala. – eu me inclinei sobre a mesa e ele sorriu.
- Tem certeza?
- Mais do que a calda do meu sorvete é de chocolate. – ele deu uma risada alta, fazendo com que a garotinha de olhos claros da mesa ao lado risse também – É, parece que até as crianças gostam de você.
- Fazer o quê, é um dom natural.
- Eu vou ao banheiro, Sr. Convencido.
Antes de fechar a porta, a última coisa que vi foi o seu sorriso pra menininha que balançava as mãos em sua direção.

- Que foi, mulher? – endireitei minha franja, tirando o cabelo dos olhos.
- Qual foi o ser humano idiota que te deu um celular com GPS?
- Papai, pra fingir que se importa. Por quê?
- Porque Tom chantageou a mulherzinha do SAC e eles estão indo pro McDonald’s.
- Eles o quê?! – eu não precisava perguntar pra saber a quem ela se referia; era agora o momento certo de ficar louca.
- Isso aí que você ouviu. Eu e a Nath estamos indo pra casa do Dougie, me encontra lá em dez minutos?
- Correndo.
- Ah, eu vou pegar seu carro! – mas a última coisa que eu tinha pra me preocupar agora era o meu carro nas mãos da Anne.

- Finn, a gente precisa sair daqui agora. – falei, não ligando muito pra mãe (ou o que quer que ela fosse) atirada da garotinha fofa que riu pra ele, tentando puxar uma conversa que o levaria, mais tarde, a um coquetel no Palace e uma promessa vã – isso, claro, se eu não interferisse.
- Por quê? – ele disse, cutucando o nariz da garotinha. A mulher não olhava muito feliz pra mim.
- Lembra do loiro aguado? Então, ele está vindo, e não está sozinho.
- Como assim não está sozinho? – ele disse, pegando o casaco e levantando, acenando pra mulher enquanto ia comigo até a saída.
- Ele e meu ex namorado descobriram que eu estou aqui. E descobriram que você está aqui comigo, o que piora tudo.
- O seu ex não me conhece. – ele entrou no carro e deu a partida, não sabendo exatamente pra onde nós iríamos.
- Eu sei que não, mas o Tom conhece, e se ele te odeia por minha culpa, isso já é o bastante pro Danny te odiar também. Vira à esquerda e segue reto. – eu estava nervosa. Como Tom descobriu que Finn estava em Manhattan? Como o Danny descobriu? Era pra eles estarem querendo se matar a essa altura do campeonato.
Cacei meu celular na bolsa e disquei o número de Anne.
- Fala. – Nath quem atendeu.
- Cadê a Anne?
- Tá dirigindo, você sabe que ela não gosta de falar no celular enquanto dirige.
- Como Danny descobriu?
Achei que ela responderia rápido, com aquele ar de culpada que ambas assumiram quando me disseram que ele esteve lá em casa. Achei que ela não hesitaria, que abriria a boca e falaria rápido, me fazendo enlouquecer de vez antes de chegar à casa de Dougie. Mas levou uns bons dois minutos com um silêncio insuportável e a cada minuto minha sanidade saía pelas janelas abertas do Volvo.
- A gente não sabe... com certeza. - ela completa, percebendo que eu ia retrucar – Mas temos uma leve suspeita de que ele deve ter lido alguma coisa no seu celular. Porque desceu as escadas muito puto, nos perguntando quem era Finn.
- Filho da puta! – do meu lado, Finn olhou assustado pra mim.
Ouvi um barulho ao fundo, parecendo You Make Me Feel... do Cobra Starship - elas chegaram na festa do Dougie. Anne pegou o celular.
- Agora você entende porque eu não queria que ele subisse? Toda história tem seus dois lados, graças a Deus o ruim dessa não demorou muito a aparecer. - Obrigada, Anne. – não sabia se estava sendo sarcástica, mas uma parte de mim realmente agradecia a ela. Mas é que ela tem esse jeito meio bruto de esfregar as coisas na nossa cara, mesmo sem intenção de nos magoar.
- Vem logo pra casa do Dougie, vem. – desligo o telefone.
- Dobra à direita, Finn. – ele tinha um semblante preocupado no rosto – Para nesse muro cinza. Eu me inclinei sobre ele, apertando o botão do interfone.
- Eu não poderia fazer isso? – ele me parecia um pouco desconcertado (e confuso também).
- Desculpe. – falo, o olhando por sobre meu ombro – Juro que te compenso mais tarde, mas realmente não quero ver seu rosto desfigurado. E não, você não poderia fazer isso porque o Dougie é chato e não te conhece, então não te deixaria entrar. – ouço algo parecido com “quem é?” vindo do interfone – homem, abre logo isso.
Voltei ao meu lugar no banco do passageiro enquanto o portão abria. Finn acelerou e parou na entrada da casa. Desci do carro enquanto ele me seguia pra dentro da casa. As portas escancaradas deixavam escapar para os jardins alguma música que eu tinha certeza ter ouvido em algum episódio de Hellcats, do 3OH!3. Finn me alcançou e encaixou seus dedos entre os meus.
Eu nunca gostei de andar de mãos dadas – nem com Danny. Me sentia desconfortável, sei lá. Mas a situação estava tão tensa que me senti um pouco menos estressada com esse ato dele – embora os olhares que se viravam pra nós, sem o menor tipo de disfarce, não ajudassem muito.
Quando estávamos a poucos metros da escada, Anne nos alcançou. E, ignorando minhas mãos juntas às de Finn, falou, com um semblante preocupado:
- Eles estão no portão. Sabia que seu celular tem um botão que o desliga?
- Merda. – eu olhei pra Finn, ficando na ponta dos pés e encostando minha testa na dele – Você vai subir, e entrar na segunda porta à esquerda. Me espera lá e não manda mensagem, nem me liga.
- , o quê...
- Vai logo! – ele me olhou uma última vez e subiu, um pouco perdido por ter sido deixado no meio de uma selva de gente desconhecida.
- , – olhei pra Anne - o quê você vai fazer?
- Tentar acalmar os ânimos deles.
- Você sabe aonde isso vai levar... Tem certeza?
- Não. Mas ou faço isso ou eu faço isso. Então eu acho que você já sabe a resposta.

POV Danny

- É ela?
Eu olhei pro patamar em frente à entrada da casa, dois degraus acima do gramado, onde Lauren conversava com Kate. Pela primeira vez em todos os dezesseis anos dela, parecia que ela estava pouco se fodendo pra garota que mais queria estar em seu lugar; ela olhava pra dentro do carro e, mesmo com a distância, dava pra ver que seu olhar não demonstrava outra coisa a não ser decepção.
Engoli seco.
- Sim, é ela.
Ele parou o carro ao lado de um Camaro azul que parecia com o de Harry e me olhou.
- Alguém tem que achar o inglês.
- E alguém tem que enfrentá-la. Infelizmente, nenhuma das opções é agradável. Mas no final das contas el...
- Ela é quem sempre escolhe. – eu balancei a cabeça. Nós saímos do carro.
Os momentos que antecederam o “confronto”, na minha cabeça, foram tensos. Agora que pensava com mais clareza, a única coisa que piscava em minha mente era o quanto eu tinha sido estúpido. Ela não cometeu nenhum crime. Ela estava fazendo o que eu sempre faço (não tão grave quanto). Mas ela é ela; e ela é minha. Não importa o quanto o loiro aguado do meu lado discorde disso.
Achei que ela pularia no nosso pescoço. Que bateria na nossa cara e gritaria palavrões não estando nem aí com a festa ou com quem assistisse ao pequeno show. Achei que ela olharia fundo nos nossos olhos, criando uma tensão quase palpável e diria que nunca mais falaria com nós dois.
Mas ela é ela; e ela é imprevisível.
- Satisfeitos?
- Você sabe que não. – ouvi a voz de Tom vir do meu lado. Ela riu.
- Vocês chantagearam uma pessoa e saíram me perseguindo feito dois loucos. Vocês invadiram a minha privacidade. Vocês não pensam? – ela tinha as mãos na cintura e parecia que estava brigando com os dois filhos que tinham feito besteira – Sempre quis que vocês se dessem bem. Que fossem normais e não achassem que eu pertenço mais a um do que a outro. Mas depois de hoje, isso passa longe da minha mente.
- Aborrecer você não foi a nossa intenção.
- Jura? Não foi o que pareceu. – ela não parecia querer nos dar o benefício da dúvida – Como vocês esperavam que eu me sentisse? Feliz de ter dois caras gatos disputando minha atenção com mais um? Sabe, eu me senti uma boneca. Daquelas que a gente discute por e, depois que a ganha de volta, brinca por trinta minutos e joga fora. Vocês não podem sair por aí brincando de Deus e tentando controlar a vida das pessoas. Vocês não têm esse poder.
Nós somos dois otários submissos. O problema é que ela nos tem na palma de sua mão, sempre foi assim. Pelo visto, não está na hora disso mudar.
Ela bate palmas que, apesar do barulho de qualquer música preenchendo o ambiente, parecem ecoar muito mais alto em meu ouvido (pela cara do Felton, ele tem a mesma impressão).
- Parabéns, vocês conseguiram perder a minha confiança. Acho que já estavam tentando a um bom tempo.
Como se o momento não fosse catastrófico o suficiente, Lauren estava concentrada na nossa conversa. Não é como se aquilo fosse algo particular (estávamos no meio de uma festa, afinal!), mas a perspectiva de ver Lauren metida nisso tudo só fazia o prédio ruir mais rápido. E ela provavelmente estava lendo meus pensamentos.
- Vocês realmente vão deixá-la agir assim? – ela saiu de perto de Kate e parou do lado de , que visivelmente se incomodou com isso, mas como sempre mantinha a pose – Ah, qual é! Ela praticamente pisa em vocês e vocês simplesmente continuam aí, de cabeça baixa feito uns dois babacas.
- Talvez eles sejam. Nunca pensou nisso, Rainha da Futilidade?
- Eu não me dirigi a você. Mas já que mencionou, não creio que eles sejam. Eles, por incrível que pareça, só se preocupam com você.
- Ah, ótimo, t-u-d-o o que eu preciso é de uma lição de moral da vagabunda mais rodada da Kaufman.
Provavelmente Lauren teria pulado nela, mas Tom e eu subimos os degraus e eu a segurei. Enquanto Lauren se contorcia – em vão, pois estava firme em meus braços -, o olhar que me lançou foi... decepcionante. Parecia que ela preferiria que Lauren tivesse pulado em seu pescoço do que eu a tivesse impedido. Isso não fazia sentido nenhum.
E a minha vontade era deixar que as duas se matassem e sair pela casa do Dougie procurando o tal Finn Petrie – porque a culpa de tudo era dele. Se ele não tivesse saído da Inglaterra, atravessado o Atlântico e vir procurar a pessoa errada em New York, nada disso estaria acontecendo.
- Me solta, Tom. – e ele o fez (não tinha muita escolha, afinal). Mas não pulou no pescoço de Lauren, como achei que ela faria. Ela olhou fria pra nós dois, ignorou Lauren completamente e virou as costas, se infiltrando no mar de gente que dançava Who Dat Girl.
Poderia imitar a Britney Spears agora: “Oops... I Did It Again”.
Dougie contornou o gramado e parou na nossa frente.
- Éééé, agora começa a festa!
Mas a festa tinha acabado de terminar.

POV

Eu queria chorar. Queria arrancar tudo o que sentia do meu peito e deixar jogado em qualquer corredor daquela casa. Talvez quem encontrasse o bolo confuso de sentimentos fizesse bom uso. Queria arrancar meu coração. Deixá-lo às moscas, bem longe de mim.
A professora Dipsy, de biologia, diz que o coração serve pra bombear o sangue que percorre todo o nosso corpo. O coração pra mim, só serve pra nos dar aquela impressão ruim da vida – de que ela é difícil, de que é uma merda. Só serve pra nos fazer sentir mal com nós mesmos. Porque nós sentimos com o cérebro e pensamos com o coração. E quando fazemos isso, quebramos a nossa cara. Mas não é como se aprendêssemos com nossos erros.
Eu parecia um zumbi. Praticamente me arrastava pelos corredores da casa de Dougie, tentando andar rápido caso Danny ou Tom estivessem correndo atrás de mim – mas sem sucesso nisso. Quando alcancei a porta e a abri, senti braços em volta do meu corpo, me mantendo em pé quando eu queria cair. A porta atrás de nós foi fechada e eu não ouvia mais nada. Meus passos eram cegos, iam em direção a só Deus sabe onde, guiados por Finn, que mantinha seus braços firmes à minha volta.
Ele me sentou no sofá, minha cabeça caiu no encosto.
- Você está bem? – balancei a cabeça – Não, você não está.
- Eu só preciso descansar.
- , olha pra mim. – virei meus olhos pra ele, deixando a cabeça parada. Ele suspirou, confuso e cansado, aparentemente não sabia o que dizer.
- É sério Finn, eu estou bem.
- Não , não está não! – ele passou a mão pelos cabelos, bagunçando-os – Não minta fingindo que é forte, isso só faz as pessoas terem pena de você. Chore. – eu levantei a cabeça devagar, prestando atenção nas palavras dele - Mesmo que faça com que pareça fraca, mesmo que faça com que pareça vulnerável. Você está sendo sincera, e é isso que importa no final das contas.
As palavras dele ecoaram pelo ambiente, parecendo até balançar as cortinas vermelhas e finas da janela que ia quase até o teto. Se ele tivesse falado mais alto, poderia ter tombado os vasos de alguma dinastia chinesa que estavam colocados em cima de uma mesa ao canto. As palavras ecoaram pelo ambiente e preencheram meus ouvidos. Ele estava certo.
Se me magoar não foi a intenção dos dois, tinham fracassado terrivelmente. Mas nessa coisa de abalar corações, ambos são especialistas.
- Me abraça.
Seus braços me envolveram novamente e me apertaram devagar. Dava pra ouvir seu coração batendo pela camisa fina. Dava pra ouvir a sua respiração lenta e reconfortante acima de minha cabeça. Dava pra perceber que sua camiseta estava ficando molhada no peito. Droga.
Preciso saber se estou chorando pelos motivos certos.

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¹Música: Trust Me – The Fray

CONTINUA...

n/a: well, o capítulo sete está aí! E sinto dizer queridas que EYEM está se encaminhando pro fim. Não vou terminar do nada, óbvio, mas dou mais uns três ou quatro capítulos. E aí não dá pra sentir falta dos comentários, já que eu quase não os recebo. Dá um desânimo gente, sério. Enfim, não foi o melhor capítulo que eu já escrevi, mas dei uma finalização boa às loucuras do Tom e do Danny. Comentem!