
Capítulo 01
's Pov
Subi o fecho do meu vestido preto e azul Marchesa. Encaixei o sapato prata peep-toe perfeitamente no meu pé. Passei um
gloss qualquer na boca. Ajeitei a franja. Borrifei o 212 Sexy no meu pescoço e nos meus pulsos. Coloquei a pulseira com um pingente de coração no pulso direito.
Pronto. Mais 2,5km e eu chegaria lá. E acabaria com toda aquela merda.
Pus meus pés pra fora do carro e saí. Eu podia ouvir Dance, Dance do Fall Out Boy tocando muito alto do lado de fora da casa. “I only want sympathy in the form of you crawling into bed with me”. Absorvi cada palavra. Dispensei Alex e pedi pra que ele deixasse o celular ligado. Respirei fundo, abri o portão e caminhei devagar pelo caminho de pedras até a porta. Toquei a campainha.
Uma Lauren toda sorridente abriu a porta pra mim. Quando me viu, seu sorriso estancou. Não parecia estar feliz. Grande surpresa. Mas foi curta e grossa ao abrir aquela boca suja e dizer:
- Bem-vinda, .
- Foda-se. - falei, enquanto passava por ela e entrava na casa.
Era tudo um caos. O cheiro de suor, álcool e sexo estava por todos os lugares por onde eu passava. Mas a sala de estar estava intacta. Tudo aquilo entranhou nos meus poros. Respirei fundo mais uma vez. Não era divertido
eu ter de fazer aquilo. Porém era necessário. Virei o corredor a esquerda, em direção
à cozinha. Copos de ponche espalhados pelo chão. Algumas pessoas se comendo na bancada. Cinco caixas de
Pizza Hut abertas e meio vazias do lado do fogão. Como eles aguentavam comer
ali?
Não encontrei nada na cozinha. Movi meus pés devagar, sem pressa, em direção ao corredor mais próximo. Depravados. Lauren provavelmente tinha esquecido que eu estava ali. Porque ela e Bradd estavam se amassando ao lado do quarto da empregada. Ridículo.
Tudo aquilo era repugnante. As pessoas e o que elas faziam. Como se não tivessem amor próprio.
Eu não podia falar nada. Eu não tinha amor próprio. Mas gostava de destruir o dos outros.
Porque não era como se todos fossem ser felizes pro resto da vida. Uma hora a felicidade acaba e não importa pra onde você vá: pra perto dos pais, pro lugar que você gostava de ir quando era criança;
Pra puta que pariu, não importa, a felicidade não está em lugar nenhum.
E aí você fica deprimida pro resto da vida e tenta se matar. Então seus pais lembram que você existe e te colocam na rehab.
Não é a melhor fase da vida de ninguém, mas a vida “começa” de novo a partir daí. Quando você percebe que a vida em si é uma merda e resolve foder com tudo de vez.
Funciona. Mas não faz bem pra ninguém.
Aqueles escrotos eram a prova viva de tudo isso. Um bando de idiotas que só sabiam transar e gastar o dinheiro dos pais com cerveja e quartos de hotéis mega caros.
Por eu estar ali qualquer um podia me ver e pensar que eu era mais uma imbecil que só saiu de casa pra ir numa festa qualquer pra ver se esquecia da vida.
Eu não fui ali pra esquecer minha vida. Fui ali pra acabar com vidas. Era minha especialidade.
Passei direto pelo corredor sentindo cheiro de cigarro e de vodka impregnado nas paredes, no carpete e nas plantas ornamentais que a mãe de Lauren cismava em deixar por entre os corredores. Fui dar direto na sala de visita. A porta dupla de vidro estava aberta e dela eu podia ver a piscina e duas caixas de som em cantos diferentes do jardim. Na sala, um DJ no canto direito começou a tocar “Hot Mess” e a sala se tornou um purgatório.
Fui em direção às portas de vidro abertas ao lado do DJ. Parei no patamar de pisos escuros antes do gramado. Algumas pessoas estavam se jogando dentro da piscina. Alicia, prima de Lauren, estava de cabeça pra baixo com uma mangueira, acoplada
a um barril de cerveja, na boca. O que eu não faria com uma câmera na mão.
No lado direito da piscina, nas cadeiras de praia, Britt, Morgan e Lauren conversavam enquanto bebiam o que eu julguei ser ponche. Dentro da piscina, eu só reconheci o Harry nadando, ainda de bermuda.
Filho-da-puta, nem ele me contou. Que não me visse. Na margem esquerda da piscina, vi os cabelos do Tom embaixo de uma menina ruiva. Tom Fletcher chegava
a ser pior que o Bradd.
Rodei os olhos por todo o jardim. Vi mais algumas pessoas bebendo e na parede do muro, atrás da piscina, alguém muito parecido com o Dougie e acompanhando ele, alguém muito parecido com a... Becc? Dane-se. Voltei meus olhos pras meninas e elas estavam olhando pra mim. Provavelmente falando algo do tipo: “O que ela faz aqui?” ou “Eu sairia correndo se fosse ela”. Dei um sorriso na direção delas e ergui meu *anelar esquerdo. Virei às costas e entrei na casa.
“My First Kiss” ecoou na minha cabeça e eu fechei os olhos. Fiquei parada, com as costas viradas pra porta e um sorriso no rosto. O lugar ficou repentinamente quente. Eu abri os olhos e olhei pra frente. A sala estava muito mais cheia. Eu olhei pra direita e vi um corredor estreito. Saí do lugar e fui andando devagar entre os idiotas
a minha volta.
Eu andava empurrando as pessoas e os bêbados que apareciam na minha frente procurando com os olhos os imbecis que me tiraram de casa logo hoje. O único motivo pra eu estar ali. Pisei no pé de alguém que falou algo parecido com “filha-da-puta!”. Mandei um foda-se e saí de lá. Fui em direção ao corredor lateral, do lado do DJ. Subi a escada
a direita, que deu em outro corredor. Aquele corredor estava menos vazio que o outro. Mas o cheiro de cigarro, vodka e sexo continuavam impregnados ali. Acho que em todos os cantos daquele inferno que algumas pessoas chamam de casa. Ou lar.
Entrei na segunda porta a direita. Era o quarto de Lauren. Entrei e fechei a porta atrás de mim. As paredes em tons pastéis com listras cinza dividindo o azul do bege eram bem a cara dela. Na parede
a minha frente tinha uma janela grande com uma cortina branca. Ao lado da janela, uma estante com vário cd’s. The Calling, One Republic, Plain White T’s, Paramore, 3OH!3, Cobra Starship e algumas trilhas sonoras. Na parede
a direita continha uma televisão bem grande e um computador no canto, ao lado da estante. Do outro lado da janela, tinha um quadro de metal azul e com estrelas, cheio de fotos entrelaçadas por elásticos rosa. Ao lado do quadro, tinha uma parede extra e um quadro muito bonito até. Era uma garota, de perfil, com os olhos profundos e vermelhos e a pele bem pálida. Uma trança frouxa descia pela lateral do seu rosto. Uma lágrima acompanhava o contorno de sua bochecha. Ao fundo, um balanço parado no alto. Achei interessante. Profundo demais pra pertencer
à Lauren.
Porque aquela garota era a vadia mais vazia e sem sentimentos que eu já conheci. E não é exagero de minha parte.
Ao lado dessa parede, tinha uma porta que eu abri e dei de cara com um banheiro. Fechei a porta e virei de volta pro quarto.
Era um quarto bonito até. Eu sentei na cama forrada de verde claro e pensei em como a vida era injusta o bastante pra me fazer estar sentada na cama da pessoa que eu mais odiava nesse
Inferno. Olhei em volta de mim. Bem, eu podia me divertir, afinal as pessoas vão
para as festas pra isso.
Tirei meu sapato e deixei jogado no pé da cama. Descalça, fui em direção à porta e rodei a chave. O computador dela estava ligado. Era cheio de post-its coloridos em volta, como “Praia
às 14h com as meninas” e “Fazer unhas às 18h”. Liguei a tela. Uma foto dela, na Disney estampava a página inicial do computador. Ela devia ter mais ou menos uns quatorze anos quando
tirou-a. Era ela com as orelhas da Miney e o “Mickey Mouse”. Ela parecia uma adolescente normal nela. Como se não tivesse segredos nem nada do tipo. Como se fosse só mais uma pessoa querendo ser feliz.
Ah, corta essa! Pelos padrões dela, ela era a pessoa mais feliz do mundo. Não sou Deus pra contestar.
Ignorei a foto e peguei a câmera preta ao lado da tela.
Levantei e fui em direção à janela. Abri a cortina devagar. Lá de cima, dava pra ver a piscina e os idiotas enchendo a cara lá embaixo de um ângulo ótimo. Dava, inclusive, pra ver Lauren. Ela não me via. Estava ocupada demais engolindo o Bradd na cadeira de praia,
a direita da piscina. Fiquei imaginando se ele conseguia respirar. Pelo menos não era da minha conta.
Imaginei como Britt e Morgan se sentiam sendo trocados por oitenta quilos de hormônios e anabolizantes.
Usadas; O que elas realmente eram.
Apertei o zoom e procurei um ângulo melhor. Do outro lado da janela, a cena parecia épica. Apertei o botão e o flash disparou. Olhei pra baixo vendo se alguém tinha me visto. Nada. Fechei a cortina e fui em direção ao computador.
Abri uma gaveta pra achar o cabo USB ou a caixa do cartão de memória. A primeira gaveta só tinha canetas, um caderno preto e branco, fitas adesivas de todas as cores, envelopes e mais papéis coloridos. Abri a gaveta da esquerda e achei carregador de celular, um iPod, fones de ouvido, um cd perdido da Miley Cyrus, uns três cabos USB e duas caixinhas pra cartão de memória. Abri a entrada pra cartão e peguei aquela coisinha minúscula e pus em cima da mesa. Pequei a caixinha correspondente e encaixei no computador com o cartão. Esperei a pasta abrir e depois de uns cinco minutos imprimi a foto.
Ficou perfeita.
Guardei a caixinha e deixei a máquina onde estava. Vasculhei a gaveta cheia de canetas e peguei uma preta, uma fita adesiva transparente e um envelope. Escrevi atrás da foto e pus dentro do envelope azul com detalhes em preto. Deixei em cima da mesa com a fita adesiva em cima e fui em direção ao banheiro.
Acendi a luz. O azulejo branco foi demais pros meus olhos. Forcei a vista até me acostumar com a claridade. Me vi refletida em um espelho enorme com detalhes dourados em volta. Entrei no banheiro e vasculhei um armário minúsculo, branco e preto, com três gavetas. A primeira tinha curativos coloridos da MTV e alguns comprimidos pra cólica. A segunda tinha milhões de absorventes. A terceira tinha maquiagem. Peguei um batom rosa da M.A.C. e me mirei no espelho outra vez.
Minha letra perfeita inclinada pro lado não me denunciava, ela não conhecia minha caligrafia. Mas provavelmente saberia que foi eu. Passei o batom nos lábios porque o
gloss já havia secado. O deixei em cima da bancada e olhei pra estante. Creme hidratante. Shampoo, condicionador, creme depilatório. Nada. Peguei o batom, o segurei bem firme e saí do banheiro. Fechei a porta e apaguei a luz. Sentei na cama outra vez e olhei pro lado. O closet.
Abri as portas duplas e as luzes se acenderam. Observei cada fileira. Fui em direção ao fim dele. Casacos. Peguei um
trench-coat preto de botões. Começava a serenar lá fora. O encaixei em volta do meu corpo e dei um laço com o cinto em volta da minha cintura. Me olhei no espelho.
Impecável.
Saí do closet e fechei suas portas. Peguei o batom em cima da cama e fui em direção ao banheiro
novamente. Ascendi a luz. Abri o batom e escrevi, um pouco em baixo da outra frase:
Fechei a porta do banheiro e fui em direção à mesa do computador. Peguei o envelope e a fita adesiva e pus no bolso direito do casaco. Sentei na cama, pela última vez nessa noite e encaixei os sapatos nos meus pés. Levantei e pus o batom no bolso vazio do lado esquerdo.
Girei a chave e abri a porta. Então estanquei.
Danny Jones e uma vadia qualquer estavam ali, na minha frente, se beijando, com, digamos assim, “ternura”. Isso era ridículo. Danny Jones não tinha ternura com ninguém. Nem com o sobrinho de
três anos de idade que tinha os olhos iguais aos dele. Nem com a mãe que fazia tudo pelo filho idiota.
Nem comigo.
Eu parei, na porta do quarto de Lauren, com ódio estampado nos olhos e uma feição incrédula no rosto.
Foda-se o resto, pensei. Tirei as mãos dos bolsos e fiz uma das únicas coisas impensáveis da minha vida.
Num minuto eu estava parada olhando Danny e qualquer uma se beijando “com ternura”. No outro, a porta atrás de mim estava fechada e a suposta garota estava aos meus pés com os cabelos na minha mão esquerda. Danny olhava pra mim espantado, com um olhar como quem quer dizer “Que porra você está fazendo?!”.
- O que você ta fazendo, sua idiota?! - a voz surpresa e irritante da menina soou nos meus ouvidos. Eu me irritei.
Abaixei e sussurrei no ouvido da garota desconhecida e insignificante:
- Sua vadiazinha. - murmurei, puxando o cabelo com mais força entre os meus dedos -
Você não é nada. Você é uma merda de uma coisa insignificante que ele queria comer. Então ele esqueceria que você existe no dia seguinte e ia te ignorar pelo resto da sua vidinha de merda. Sai da minha frente garota, antes que eu acabe com a sua vida. E eu não vou ser piedosa.
Ela levantou assustada e seguiu em direção à escada olhando fundo nos olhos de Danny antes de desaparecer na curva do corredor.
Estúpida.
Eu me levantei e mirei os olhos azuis profundos de Jones. Respirei fundo e esperei o esporro ridículo que ele me daria.
- Que merda foi essa?! Quem você pensa que é pra fazer isso, sua estúpida? Minha mãe? Caralho, , você é tão imbecil! Não sabe perder, não joga.
Eu levantei, me aproximei dele e moldei meu corpo ao seu. Puxei seus cabelos de leve com as duas mãos. Ele ficou estático, sem mexer nem um músculo, o corpo grudado na parede. Eu sentia a respiração dele nos meus lábios e respirei fundo.
Eu aproximei os meus lábios dos dele e mordi seu lábio inferior devagar. Ele segurou minha cintura querendo me empurrar, mas eu puxei seus cabelos com mais força, ele parou. As mãos,
finalmente no meu corpo. Ah Deus, como eu precisava disso! Eu guiei meus lábios em direção
à sua orelha e sussurrei:
- Eu não perdi. - falei aquilo como se fosse a hipótese mais idiota do mundo, e bem, realmente era-
Você sabe disso tanto quanto eu. E você sabe também, que a vida dela acabou no momento em que ela ousou beijar
você. Que a bola de cristal que é a vida dela vai cair no chão e se quebrar em milhões de pedacinhos, igual ao coração da mesma. Porque ela vai se foder Jones, no quinto dos infernos.
Ele quis abrir a boca, mas eu puxei o cabelo dele com mais força.
- Ela vai se arrepender de ter nascido, de ter te conhecido, de ter pensado em dar pra você. Ela vai rezar pra que eu pare e vai me odiar com cada célula daquele corpo que você tocou. E vai te odiar com ainda mais intensidade porque ela vai ter noção de que tudo isso, vai ser sua culpa.
Eu prendi o lóbulo da orelha dele com os dentes e depois soltei. E me recompus. Olhei fundo naqueles olhos azuis inundados de raiva e abri a porta ao lado dele. Olhei as fotos na escrivaninha ao lado da cama. Era o quarto dos pais de Lauren. Não me dei ao trabalho de esperar o Jones reagir ao meu lado e entrei. Era praticamente igual ao dela, só que maior. Fui em direção ao banheiro e tirei a fita adesiva e o envelope do bolso. Colei o envelope no espelho, um pouco acima da minha cabeça. Coloquei a fita adesiva de volta no bolso.
Apaguei as luzes, fechei a porta e saí do quarto.
Danny continuava parado na parede ao lado da porta. Eu parei ao seu lado e me abaixei um pouco pra ter certeza de que ele me ouviria.
- Não tente avisá-la Jones, ou acabo com sua vida também.
- Você não teria coragem...
- Ah teria, você sabe que eu teria.
Peguei o celular dele em seu bolso e disquei o número de Alex. Ele não se mexeu pra me impedir.
- Pode vir me pegar, eu já fiz o que queria fazer.
- Chego aí em cinco minutos.
Desliguei e deixei o iPhone na mão dele.
- Adeus, Jones - falei, um pouco distante.
Desci as escadas devagar, com as mãos nos bolsos, sem pressa. “Don’t Trust Me” terminando de tocar lá embaixo.
Ah, que pena, pensei. Passei pela sala de visitas e olhei todas aquelas vidas insignificantes. Peões num jogo de xadrez enorme que se deixavam ser conduzidos por jogadores inexperientes.
Panacas.
Passei pela cozinha outra vez e joguei a fita adesiva na lata de lixo perto da porta. Fui em direção
à sala de estar. Vazia. Saí pela porta principal. Caminhei pelo caminho de pedras em direção ao portão já podendo avistar o Volvo preto me esperando. Do jardim, dava pra ouvir “Misery Business” tocando alto,
muito alto.
“Well, I never meant to brag, but I got him where I want him now...”
Alex abriu a porta do carro pra mim e eu me virei pra ele.
- Alex, você teria um celular pra me emprestar?
- Ah, claro Srtª.
Ele me entregou um Samsung prata e eu abri a pasta de mensagens.
Eu disquei o número tão marcado na minha memória e esperei a mensagem ser enviada. Depois disquei outro número e esperei.
Tuu...Tuu...Tuu...
- Departamento de Polícia de Manhattan, em que posso ajudá-lo?
- Consumo de bebidas alcoólicas e cigarros por menores no Street Village, casa 318. Venha sem sirenes. Não são idiotas.
- Agradecemos sua denúncia. Estaremos aí em...
Desliguei antes que ele acabasse de falar. Devolvi o telefone a Alex murmurando um “Muito obrigada” e entrando no carro.
Ainda pude ver o Jones saindo pela lateral da casa indo em direção aos portões. Esperto. Ele sempre acreditava em mim. Não importa a merda que eu falasse.
Sempre. Não importa se eu dissesse que o pai dele enfartou e fosse mentira. Ele procuraria em todos os hospitais de Manhattan até descobrir que eu o enganara. Ele não era idiota. Mas ele confiava demais nos outros. Ele confiava de mais em
mim.
Alex entrou no carro e bateu a porta.
- Pra onde, Srtª?
- Pra casa, Alex. O mais rápido possível.
- Ok, Srtª.
Ele arrancou com o carro e me levou pra longe daquele caos antes que a festa acabasse. Embora, pra mim, a festa ainda nem começara.
Capítulo 02 - Como restaurar uma inocência corrompida?
Ela tinha nas mãos, um porta-retrato antigo de madeira pintado toscamente de azul, com a foto de duas crianças sorrindo pro nada. O sorriso inocente. A falta de preocupação no olhar. Toda aquela aura de magia que envolve as crianças. O céu azul pontilhado por pequenas nuvens que mais pareciam pedaços gigantes de algodão-doce, dava um contraste lindo aos olhos deles. A grama verde bem aparada de um jardim qualquer, dava a impressão de que tudo ali era vivo, especial.
Ela deixou o porta-retrato em cima da cômoda e respirou fundo. Doze anos. Doze anos tinham se passado desde que ela tirara aquela foto com o “melhor amigo” de infância. Eles não eram mais “melhores amigos, ao infinito...
E além!” como no comercial do Buzz Lightyear dos filmes de Toy Story. E como eles costumavam se considerar. Eles ainda se falavam. Mas não como antes. A amizade verdadeira e inocente de duas crianças, se perdeu em beijos, toques e sexo. Como tudo se perdia.
Ela passou a mão pelos cabelos e os pôs pra trás da orelha. Eles caíam constantemente na direção de seus olhos e ela se irritava facilmente com isso. Pegou o celular em cima da cômoda de madeira e acendeu a tela. Sete horas e vinte e quatro minutos. Olhou pra cortina branca, quase transparente, que não escondia nem um pouco a luz do sol matinal, embora não estivesse fazendo tanto sol assim. Bocejou.
Olhou mais uma vez pra foto. Um sorriso tomando conta de seu rosto. Era bom lembrar esse tipo de coisa. Porque é o que não volta nunca mais. É o que deixa saudade. Embora ela preferisse tudo como está agora. O sexo com ele era melhor do que brincar numa caixa de areia no parque.
Abriu a porta à direita da cômoda e foi em direção a pia de mármore branco. Abriu a torneira e lavou o rosto. Secou com a toalha azul pendurada ao lado do grande espelho emoldurado. Trocou de roupa e saiu do quarto. Andou devagar até a sala de jantar esperando encontrar alguém.
Mas quando virou a direita do corredor, só o que encontrou foi uma mesa posta e vazia. Típico, pensou, enquanto sentava em qualquer cadeira e pegava um pouco de café quente. Tomou um gole. A bebida desceu fervendo por sua garganta, como whisky. Só que não tão ardida.
- Bom dia Srtª - Lizzy, a empregada baixa e gordinha que veio do Sul, falou, vindo da cozinha. - Os seus pais saíram muito cedo hoje de manhã e...
- Eles falaram pra onde iam?
- Não - Lizzy disse, passando geléia em algumas torradas e deixando na frente de
- Mas me pediram pra avisá-la de que hoje, ao meio dia, tem um brunch na casa dos Felton. E que você tem que ir.
Fez uma cara de desgosto antes de enfiar uma torrada inteira na boca. Odiava esses brunchs
idiotas que os pais
a obrigavam a ir.
- Eles falaram isso mesmo?
Lizzy balançou a cabeça, confirmando.
- Ok, como se eu tivesse escolha. Obrigada Lizzy, você pode ir.
A mulher baixinha e de sotaque engraçado foi em direção a cozinha e a sala de jantar ficou em um silêncio mórbido.
olhou pro prato a sua frente sem vontade de comer. Mas pegou outra torrada e pôs na boca mesmo assim. Tomou mais um gole de café, fechando os olhos pra sentir o líquido quente em sua garganta.
Ela amava café e todas as suas variações curiosas.
Terminou de comer e foi em direção ao seu quarto outra vez.
- O que eu vou vestir pra essa merda? - falou, abrindo a porta do quarto e ligando a TV na MTV.
Era quase meio-dia quando terminou de amarrar o sapato Oxford marrom no pé e desceu correndo as escadas pra entrar no carro. Ela usava um vestido de flores bem colorido e um cinto fino marrom na cintura. Nos olhos, um óculos escuro daqueles enormes que ela odiava em si mesma, mas achava lindo em outras pessoas. O cabelo estava preso em uma trança lateral bem mal-feita. A bolsa clara em seu braço direito não tinha muita coisa, só um cardigã cinza chumbo, o celular quase descarregado, o iPod que estava desligado
há dias, um brilho labial hidratante que não saía de sua bolsa e trinta dólares, caso quisesse ir embora mais cedo.
Entrou no carro, recostou a cabeça no estofado de couro preto e fechou os olhos. Queria dormir. Ou ficar em casa
a tarde inteira comendo pipoca sem manteiga com brigadeiro e vendo as reprises de Friends na Warner Channel. Era meio nojento, mas ela adorava. Ou ir a pé pra Starbucks
há dois quarteirões dali e comprar “um descafeinado duplo com creme e um cupcake com raspas de chocolate, por favor”. Tudo
menos almoçar tendo que olhar pra cara de Lauren. Pensar naquilo a fazia ter ânsias de vômito.
Abriu a bolsa. Pegou o brilho labial e escorregou devagar a ponta dele pelos lábios. A única coisa que havia passado no rosto antes de sair correndo pelo gramado do quintal, foi um rímel incolor. Estava tipo,
no make-up. Pegou o iPod também. Fechou a bolsa e olhou pelos vidros escuros da janela. Enquanto encaixava os fones no ouvido. Apertou o play. “All Again For You” de We The Kings, começou
a tocar. Ela balançava a cabeça em sintonia com o ritmo da música.
Desligou o iPod quando sentiu o carro parando. Havia chegado.
Alex abriu a porta e ela agradeceu com um aceno de cabeça. Andou até o portão escuro e alto e apertou o interfone. Uma voz grave saiu pelo alto-falante dizendo:
- Seu nome, por favor.
- .
- Tudo bem Srtª , pode entrar.
O portão se arrastou devagar pro lado e ela teve a visão completa do jardim da casa. Ela deu tchau
a Alex e caminhou devagar em direção a porta. Parou em frente a porta e apertou a campainha. Uma mulher morena e meio alta que devia ter uns trinta e seis anos abriu a porta e deu passagem
a ela. Ela a seguiu até chegar á área da piscina. Várias mesas estavam espalhadas embaixo de tendas brancas, mas ninguém estava sentado nelas.
Ela pôs os óculos na cabeça.
As pessoas ficavam fazendo a social enquanto o almoço não começava. Parou na soleira da porta e procurou seus pais com os olhos. Demorou um pouco, mas ela os achou conversando com os pais de Lauren perto da piscina. Andou devagar até lá.
- Ah, ! Que bom que veio! - Marilyn, mãe dela, falou, parecendo contente. Mas quem disse que ela estava?
- Oi, gente! - ela falou, acenando e sorrindo.
- Achei que não viria mais querida.
- Não deixaria de vir, pai - falou, tentando ao máximo não se irritar com a preocupação fingida. - Então, Sr. E Srª Presccot, quando chegaram de viagem?
- Ah, hoje de manhã! - Hayley Presccot, a mãe de Lauren, falou tentando não sorrir muito. O rosto dela estava todo vermelho. - Faz muito sol na França, mas
a noite o clima é perfeito! Ainda não fomos em casa, paramos num hotel pra nos estabelecermos melhor.
“Ah, que pena! Mas vai ser lindo quando eles forem notificados pela prisão da
filha!”. pensou sorrindo amigável pra Srª Presccot.
- Se vocês me dão licença, eu vou falar com o Tom - apontou pro outro lado do jardim onde o seu “melhor amigo, ao infinito...
E além!” a chamava com um aceno.
Eles acenaram e ela andou distraída até ele. Pegou uma garrafa de H2OH! na mesa de bebidas e andou até ele.
- ! - ele disse, empolgado, a abraçando.
Ela sorriu enquanto passava os braços pelo pescoço dele e era suspensa do chão. Ele vestia uma bermuda xadrez e uma blusa bege. Ele cheirava
a menta. Ela amava o cheiro dele.
- Menos, exagerado!- ela disse se soltando.
Ele tirou os braços do corpo dela devagar e ela se equilibrou. Sorriu pra ele enquanto abria a garrafa e tomava um gole. Passou a língua pelos lábios sentindo o gosto de morango do hidratante.
- Eu soube da festa da Presccot ontem.
- Yeah, eu também soube - respondeu bebendo um pouco da bebida gelada em suas mãos.
- E soube que a Lauren dormiu na cadeia também - ele falou, a voz ficando séria
a medida que as palavras fluíam de sua boca.
Ela sorriu. Um sorriso igual ao de uma criança que ficou pedindo chocolate a mãe por dias até ela finalmente dar. O sorriso de quem conseguiu o que queria.
- Por que, ?
- Por que ela merecia. Merecia tudo isso e mais um pouco. Você sabe disso.
- Achei que você tivesse feito o que eu falei, lembra? Ignorar e seguir em frente, como você sempre faz com tudo? Até como você fez quando o seu cachorro morreu, o Luke.
- Pra quê eu faria isso Tom, me diz? Pra ouvir ela falando por aí que é melhor que eu e que meu “ex-namorado é bom de cama”?
- Ok, parece até que eu não te conheço mais. Você não fazia esse tipo de coisa
, você tinha toda uma inocência encantadora que atraía as pessoas pra perto de você.
- Você sabe onde a minha inocência foi parar, quer mesmo falar disso?
Ele olhou feio pra ela e ignorou as últimas palavras. Ele sabia muito bem onde a inocência dela foi parar. No décimo quinto andar de um hotel na Riviera Francesa. Não importa o quanto a vista do quarto era perfeita ou o quanto os sais de banho do hotel eram ótimos. A inocência de
foi perdida de uma forma horrível.
A inocência dela foi embora quando ela transou pela primeira vez na vida. Com Tom Felton, seu “melhor amigo, ao infinito...
E além!”. Não porque tenha doído ou algo assim, foi uma das melhores experiências, pros dois. Mas o fato é que depois daquilo, ela se sentiu a pessoa mais culpada do mundo por ter transado com o melhor amigo. Se sentiu péssima por ter transado com o melhor amigo quando não queria transar com o namorado. Ela se sentiu suja. E passou metade do dia dentro da banheira de hidromassagem no banheiro do quarto, chorando, sem saber o que fazer e se auto-intitulando “a pessoa mais imbecil do universo inteiro! Quase uma Lauren”. E se arrependeu amargamente depois de ter soltado aquelas palavras. Só pra... Chorar mais um pouco.
Tom ficou imensamente preocupado e ficou batendo na porta até que ela saísse. Ele ainda lembrava da pele enrugada e dos olhos vermelhos. Ela se jogou nos braços dele e jurou, pra si mesma, que nunca mais faria aquilo outra vez. Mas não adiantou de muita coisa. Um mês depois, quando as férias acabaram e eles voltaram pra Manhattan, ela invadiu a casa de Tom num sábado
a noite, xingando com todos os palavrões possíveis Lauren e o “filho-da-puta do Jones”. Então eles transaram naquela noite. E no domingo. E na segunda de manhã. Ela faltou
a aula no primeiro dia e teve que ouvir dez minutos de preocupação fingida com a voz estridente da mãe e o olhar reprovador, mas alheio, do pai.
Respirou fundo, ignorando todas as lembranças possíveis dos dias que se seguiram depois de sua “perda de inocência”. Bebeu mais um pouco do refrigerante em sua mão e olhou pra ele outra vez.
- Eu não quero mais falar disso. Podemos... Ir pra um assunto mais interessante, pra mim e, acredito, pra você também?
- O que passa por essa sua cabeça psicopata, ? - ele perguntou, sorrindo torto.
Ela sorriu pra ele e a sensação de paz voltou ao seu corpo.
- Acho melhor não, agora não - ele falou, a feição se tornando vazia. Ele inclinou a cabeça na direção dela e ela se virou.
Lauren Presccot cumprimentava os pais de Tom na entrada do jardim. Não era surpresa pra
encontrá-la ali, sabia que ela iria. Ela ia em todos os almoços e sociais que a própria odiava ir. Era o jeito vadia e Lauren de ser, dizia.
A surpresa que ela teve ao olhar na direção que Tom indicava, era Danny, Dougie,
Harry e Tom. Eles não iam a brunchs, almoços, jantares e nem nada do tipo. Eles iam
às festas que a galera dava e em qualquer balada de Manhattan. Apenas isso.
Ela olhou pra Tom como quem quer perguntar algo.
- Yeah, , fui eu.
Ela respirou fundo. Uma, duas, três vezes.
- Tudo bem, você não tem culpa.
Ele sorriu pra ela enquanto os meninos e Lauren se aproximavam. Lauren cumprimentou Tom com um sorriso falso no rosto. Quando parou de frente pra
, Lauren sorriu e se aproximou. estendeu as mãos na direção dela como quem diz “para”.
- Eu não sei se você não se tocou, mas dá pra sentir o cheiro de uma cela podre vinda diretamente de você,
a metros.
Ela olhou pra sorrindo, os dentes brancos perfeitamente alinhados. O gloss cor de areia dando um brilho aos seus lábios.
- Ah, vamos lá! Não é como se eu estivesse feliz em fazer isso.
A tensão no ar era palpável e os meninos estavam incrivelmente desconfortáveis com isso. Lauren abraçou-a devagar. Respirando fundo antes de abrir a boca.
- Você ta fodida na minha mão, . Cada parte de você.
Ela sorriu, ignorando a ameaça incrivelmente estúpida de Lauren.
- Não, eu não estou. Você não é capaz, você, eu e toda Manhattan sabe que você não é capaz. E, se me permite, a cadeia te fez muito mal.
- Então - Fletcher falou, querendo quebrar o silêncio que se estabeleceu quando as duas se soltaram-
Vamos comer?
Ela encarava o Salmão Espanhol em seu prato. A boca seca. A garganta ardendo. Os olhos vermelhos prendendo lágrimas de raiva. Lauren, ao seu lado, comia tranquilamente, com um sorriso no rosto. “Vadia”, pensou.
Os meninos se entreolhavam, mas não falavam nada. Inquietos, perturbados com toda a tensão no ambiente. Aquilo beirava o insuportável.
olhou pra frente. Os olhos claros de Tom encontraram os seus. Eles estampavam claramente um pedido de desculpas. Ela sorriu pra ele. Isso era tão desnecessário que chegava
a ser cômico. Tom realmente não tinha culpa. De nada.
Ele não tinha culpa por Lauren ser uma vadia mal comida que não se contentava com o que tinha. Porque aquela era a personalidade de Lauren e nada mudaria aquilo. Talvez a morte. Mas era só um palpite. Ele não tinha culpa por ela mesma odiar tanto Danny que chegava
a ser intoxicante. Porque essa era a realidade por mais horrível que possa parecer. Ele era a única pessoa naquela mesa que era inocente por não ter feito algo irrevogavelmente errado.
Ainda.
Ela suspirou frustrada antes de abaixar o olhar de volta pro seu prato.
- Com licença - disse, colocando o guardanapo em cima da mesa, ao lado do prato intocado, e se levantando-
Vou ao banheiro.
seguiu devagar em direção a cozinha. Pediu um copo de água gelada a mesma mulher que a atendera na porta. Ela recebeu um copo cheio de água e pedras de gelo, nas mãos e o observou a mulher morena seguir em direção ao corredor. Ela levou o copo a boca e a água gelada adormeceu sua garganta aos poucos.
Ela terminou de beber e foi em direção ao banheiro. Abriu a porta. O banheiro preto e branco do térreo era lindo, mas muito exagerado. Bem a cara da mãe de Tom. Lavou o rosto e depois secou na toalha branca e macia pendurada na parede. Olhou seu reflexo no espelho. Estava visivelmente estressada. Se sentia completamente estressada.
Os olhos brilhavam. De raiva. De ódio. “Filha-da-puta! Ela acha que eu sou imbecil o suficiente pra cair nessa. Ela não consegue, não vai conseguir”. Respirou fundo e foi em direção
a porta. Ela tinha que encarar aquele ataque infantil com indiferença. Como sempre fazia. Com tudo.
Voltou devagar pro jardim. O som das pessoas rindo e falando alto inundando o ambiente. Sentou em sua mesa e viu que tinham posto a sobremesa. Não era fã de sorvete, preferia
frozen yogurt. Colocou o guardanapo de volta em seu colo. Passou os olhos devagar por todos os rostos da mesa. Lauren e seu sorriso de mentira. Tom e sua culpa desnecessária pesando em seus ombros. Fletcher e Harry com o olhar perdido. O brilho estranho nos olhos de Danny enquanto ele brincava com o sorvete de creme.
Era meio inevitável não olhar pra Dougie. Ele olhava pro sorvete com uma cara de adoração.
Ela sorriu. Ele parecia uma criança com aquele sorriso infantil no rosto.
- Dougie - ela o chamou e os olhos dele foram em direção a ela - Eu acho que seu nível de adoração por sorvete já se esgotou esse mês.
Ele mostrou a língua pra ela e Danny riu. Fechou os olhos e respirou fundo. Adorava o som da risada de Danny. A risada dele era perfeita e a deixava repentinamente calma. Como tudo nele. Era incrível o efeito que ele tinha nela. Era tudo tão... Mágico e especial. E ela o odiava exatamente por isso. Por fazê-la
feliz quando a felicidade não existia. Talvez ela estivesse redondamente enganada em pensar desse jeito. Mas era o que sentia.
Completo ódio por ele a fazer feliz quando ela nunca se sentia assim.
Ela abriu os olhos e pôs um pouco de sorvete na boca. O sorvete gelado derretendo devagar em sua boca;
A risada de Danny ecoando em sua mente; O vento fraco que teimava em deixar seu cabelo bagunçado. Tudo. Tudo a acalmava. Ela quase esqueceu da presença de Lauren ao seu lado. Quase.
A risada estridente dela fez o encanto que envolvia-a se romper.
- Merda! - disse, passando as mãos nas bochechas rosadas. Pegou mais um pouco do sorvete na taça e pôs na boca. O silêncio
a deixava desconfortável. Queria sair dali. Do campo de vista de Danny e de todos os outros. Se afundar na cama,
qualquer cama, com um filme idiota passando ou música alta tocando. Deprimente.
Não queria ir pra casa. Ia ficar na casa de Tom até tarde porque não queria olhar na cara dos pais outra vez. Talvez dormisse lá. É, uma boa saída.
- - ela olhou pra frente. Tom a encarava - Você vai embora quando o almoço acabar?
Ela ponderou. Dizia agora ou esperava? Não faz diferença mesmo.
- Eu... Eu acho que eu vou ficar. Tudo bem pra você?
Ele balançou a cabeça.
ficava impressionada com a conexão que eles tinham. Era como se eles fossem ligados um a outro por alguma promessa estranha. Mas não era nada de tão exagerado assim. Era só o fato de que ela confiava mais nele do que nos próprios pais, que os mantinha tão ligados assim. Só isso.
Ela terminou de comer o sorvete. Os meninos e Lauren também. Tiraram as taças das mesas e o pai de Tom começou
a falar algo parecido com: “É muito bom estar cercado de amigos tão amorosos como vocês e eu fico...”, ela não se importou em ouvir mais. Pra ela, o Sr. Felton gastava saliva
a toa.
Ele era completamente diferente de Tom. Tom ficava na dele e o pai falava demais. Tom não ligava de sair por aí andando de shorts de dormir e o pai sempre aparecia de terno ou, no máximo, camisa e calça social. Era uma contradição enorme. Mas ela não imaginava Tom de outro jeito.
A voz rouca do homem de meia idade parou e foram ouvidos aplausos por todo o jardim. As pessoas começaram á se levantar e
foi em direção aos pais.
- Então, querida - Amanda disse- Você vai ficar aqui na casa do Tom ou vai pra casa conosco?
- Vocês vão viajar não vão?
- Sim, nós pretendemos ir pra Inglaterra resolver uns problemas, mas voltamos em uma semana.
- Vão hoje?
- Hãm - a mãe dela olhou o relógio de ouro branco no pulso - Sim, vamos hoje. Nosso vôo sai em três horas.
- Ok então. Eu vou ficar aqui um pouco, mas vou pra casa mais tarde.
Ela ficava incrivelmente estressada com a frieza dos pais em relação a qualquer coisa. Acenou pra eles e voltou pra mesa. Todos estavam em pé e com um sorriso no rosto. A tensão havia se dissipado.
Chegou perto deles e parou ao lado de Tom. Os olhos de Danny foram instantaneamente pro seu rosto. Ela olhou pra Tom ignorando o olhar de Danny e o desconforto que isso lhe causava.
- Eu vou ficar aqui ok, Buzz Lightyear?
- Ei, não me chama assim!
Ele apertou a barriga dela com a ponta dos dedos e ela se encolheu e começou a rir. Ele parou porque sabia que ela ficava puta quando ele fazia isso. E porque sabia que ela morria de gastura de qualquer coisa na barriga.
- Então - ele falou, se postando ao lado dela e olhando pros meninos- Meus pais vão viajar hoje e eu queria... Dar uma, festa, por falta de palavra melhor. O que você acha?
Ela analisou a pergunta. Não era uma pergunta, exatamente. Ele só queria a opinião dela pra ela ter certeza de que ele se importava. Ele ia dar a porra da festa mesmo ela dizendo não. E já que estava ali...
- Ok Tom, é uma ótima ideia, admito.
Ele sorriu e abraçou ela de lado.
Mas o olhar de Danny Jones continuava vidrado no mesmo ponto. Nela.
O que passa pela mente de uma pessoa tão obcecada?
Era a pergunta que ele mais fazia a si mesmo a um dia e meio. Que diabos passa pela cabeça
dela? Ele tinha medo de receber essa resposta.
entrou na vida dele de uma forma inevitável. Eles se conheciam desde pequenos, quando ainda nem sabiam contar ou dizer o nome dos pais. Quando a inocência dos dois era incontestável e quando eles ainda eram virgens e nunca tinham beijado ninguém. Quando eles usavam fraudas estranhas que pinicavam e roupas fofinhas de bebê. Quando ele era só Danny Jones e ela apenas
.
Eles iam a mesma creche e depois a mesma escola infantil. E quando ficaram um pouco mais velhos, foram pro mesmo colégio também. E passaram mais da metade da infância juntos, como crianças normais que descobriam o mundo devagar e ao seu tempo.
Quando eles tinham sete anos, Danny conheceu o melhor amigo de , Tom. Ele ficou vermelho de raiva quando
a viu abraçar Tom com um carinho enorme. Ele ficou morrendo de ciúmes dela.
Porque ela era a sua melhor amiga! E agora aquele loiro magrelo ia lá e a roubava dele! Danny não gostou nem um pouco de Tom. E estampou isso no olhar de desprezo que lançou pra ele. Mas
ela não ligou. Imaginou que a cara de raiva de Danny era porque ele queria brincar com eles dois também. E então, ela pediu pra Tom esperar e foi chamar Danny. Depois de cinco minutos de muita insistência ele levantou e ela o puxou pela mão devagar. E ele viu que seria inútil discutir com
. Porque ele sempre fazia tudo o que ela pedia. Porque ele amava o sorriso dela.
Cinco anos depois, ele já tinha aceitado o fato de ter que dividir ela com Tom.
No começo, ele realmente não queria dividi-la com ele, porque ele não confiava o suficiente no “loiro de cabelo escorrido”. Mas no fim, “aceitaram-se”. Ele até o importunava por ter o mesmo nome que o melhor amigo dele, Tom Fletcher,
segundo idiota maior, como o chamava. Mas ele nunca tinha sentido uma raiva tão grande borbulhar dentro de si, quando viu o melhor amigo dela afastar uma mecha do cabelo
dela. A forma como ele sorriu carinhoso pra . O modo como os olhos dele brilharam... Ele sabia que tinha algo ali.
Então no dia seguinte, ele encontrou ela sentada na escadaria lateral da escola, sozinha, esperando sabe-se lá o quê. Ele sentou do lado dela sem falar nada e a beijou. Foi o beijo mais estranho que eles já deram. Mas
a partir daí, ele sentiu algo realmente diferente em relação à . Ele sentiu um arrepio na espinha e um calor na nuca. Então ele soube que ela era tudo pra ele. E um ano depois, quando ela tinha treze anos e ele quatorze, ele a pediu em namoro e ela pulou em cima dele dizendo
“Sim! Sim! Sim!” e o beijando.
Ele ainda lembrava da cara de puto de Tom quando viu aquilo ao sair da escola. Ele levou uma semana pra falar com
e ela ficou super deprimida durante esse tempo. Danny tinha entrado em pânico porque queria ver a namorada feliz, independentemente do que Tom achava do namoro deles. Mas a opinião do melhor amigo era deveras importante pra ela e ele foi conversar com Tom.
Levou duas horas pra convencê-lo de que, por mais que não achasse certo ela namorar com ele, ela era importante demais pros dois. Tom guardou aquelas palavras por um ano e meio. Sem esquecer o tom de voz desesperado de Danny. Ele tinha o convencido de que amava
tanto quanto ele amava.
Mas quando Tom e saíram de férias e ela contou pra ele que Danny estava impaciente, ele ficou instantaneamente puto porque ninguém poderia fazer aquilo com a sua “melhor amiga ao infinito...
E além!”. Ele xingou Danny até a quinta geração e sentou ao lado dela dizendo que ela poderia desistir de tudo. E ela acabou desistindo quando transou com ele durante as férias.
Quando voltou pra Manhattan, a única coisa que se falava por todo o círculo social era que ela era a mais nova
chifruda de lá. Ela disse pra Tom, no sábado seguinte, que nunca pensou que poderia odiar tanto uma pessoa como odiava Danny naquela hora. Bem, ela odiava Lauren mais ainda.
Na segunda semana de namoro de e de Danny, ele havia dado a ela um cordão em forma de coração com o nome dos dois gravados atrás. Ela tinha amado o presente. Mas um ano depois, quando ela teve a sua primeira decepção de verdade, o cordão já não tinha mais sentido. Ele foi encontrado na segunda de manhã depois do fim de semana conturbado, jogado em um canto do quarto de Tom. Esquecido.
Insignificante. Ela o pegou nas mãos e leu o verso duas vezes pra ter certeza que não se arrependeria. “Porque somos eu e você, e todas as pessoas... D.J. e
..” Pegou o cordão e jogou no lixo. Tomou um banho quente e demorado logo depois.
Não se arrependeria. E de fato, não se arrependeu.
Danny ficou frustrado quando soube que ela tinha descoberto. E ficou mais frustrado ainda quando levou um soco na cara e foi correndo pra emergência do hospital mais próximo e descobriu que tinha quebrado o nariz. Ele tentou falar com
, mas toda vez que chegava perto dela, Tom estava lá e ele se preocupava mais com seu nariz. Porque, por mais que ele tentasse voltar atrás, a merda já estava feita.
E a inocência dela tinha ido embora por sua culpa. Ela deixou de ser aquela menininha calma e feliz por culpa dele. Porque ela não acreditava mais nas pessoas.
Ele tinha certeza disso. Mas era só a opinião dele. Não importava mais pra ela.
Mas ele nunca imaginaria que dois anos depois, quando ela tinha dezesseis e não se importava mais com nada, ela ia olhar fundo nos olhos dele depois de tantos anos e ia o levar pra cama.
Ele tinha cinquenta por cento de culpa nisso. Porque se ele não quisesse, não teria ido. Mas ele foi, e, teve que admitir no dia seguinte, que foi o melhor sexo da vida dele. Ele tinha tentado voltar com ela uma duas vezes depois disso. Mas ela sempre o direcionava um olhar frio e com uma voz indiferente, dizia:
“Talvez Lauren queira. Porque não vai procurar ela?”. Ela tinha se tornado uma pessoa fria e descrente. Por sua culpa.
É, se ele fosse analisar toda a sua vida, viria que toda ela, é uma grande merda.
E ele terminou de amarrar os tênis e foi em direção ao seu Porsche. Ia tentar mais uma vez. E desistir se não conseguisse.
É, ele podia, pelo menos, enganar a si mesmo.
- Tom, eu não sei se é uma boa ideia tudo isso.
- Ah , vamos! Você concordou. Eu sei que é horrível encarar aquele filho-da-puta, mas você consegue!
Ela olhou pros olhos frios dele. Amava a cor de seus olhos. Não tinha encontrado ninguém com o azul chegado pro cinza dos olhos dele. Nem o azul dos olhos de Danny era assim.
Merda, pensou quando o nome dele veio a sua mente.
- O que aconteceu comigo, Tom? Eu costumava ser toda inocente e graciosa e agora eu sou fria, calculista e vingativa. Essa não sou eu - ela disse enquanto ele sentava devagar ao lado dela e levava a mão direita devagar pra sua nuca.
Ela fechou os olhos sentindo a ponta dos dedos frios dele encontrar a pele quente de seu pescoço. Mordeu o lábio.
- Você fez uma escolha, - ele disse, escorregando devagar os dedos pra trás da orelha dela
- A vida te obrigou a fazer uma escolha e você fez. As pessoas mudam, você tinha que mudar;
Não podia ser a mesma pra sempre.
Os dedos dele voltaram pro ponto exato na nuca dela onde ela ficava arrepiada.
- Tom, isso não tem graça - ela entreabriu os lábios e fechou os olhos- Me excitar não vai me deixar calma.
- , eu acho que vai.
Ela abriu os olhos e virou o rosto em direção à ele. Os olhos frios brilhavam.
- Você é um imbecil, Tom - ela disse, levantando e o empurrando devagar em direção
a cabeceira da cama. Ela tirou as sapatilhas e subiu em cima dele.
- Eu ainda não sei porquê continuo indo pra cama com você.
- Porque você me ama - no fim, ele estava certo.
E enquanto ele a beijava devagar, ela percebeu que por mais que se arrependesse amargamente de ter deixado a inocência de lado, não se via de outro modo. Quando ele mordeu seu lábio inferior devagar e abriu a fivela do cinto, ela soube que a inocência dela estava corrompida. Pra sempre.
Capítulo 03 - O melhor de nós é que conseguimos achar felicidade na miséria.
- - abri os olhos, os mesmos ardendo com a claridade repentina. - Vamos
, levanta, está tarde.
Encarei os olhos claros de Tom, sentindo seu peso sobre mim. Resmunguei qualquer
coisa de volta, fechando os olhos e tentando me virar, sem sucesso.
- Ah, , para. Você não vai voltar a dormir, não adianta! - abri meus olhos os
apertando pra me acostumar com a luz. Até imaginava meu estado: cabelos
bagunçados, rosto todo amassado; e morrendo de sono.
- Você já me tirou a paz, não tente me tirar o sono.
- , qual é! - ele reclamou, dando um suspiro de desapontamento. - A festa não
vai se organizar sozinha.
- Sei que você consegue. Agora sai de cima de mim e me deixa dormir.
Ele saiu de cima de mim e por um segundo, pensei que fosse desistir. Virei de
lado me enroscando no edredom macio e fechando os olhos. Alguns segundos depois,
senti meu corpo descoberto e ouvi uma risada.
- Vão bora, levanta! - sentei na cama, tentando inutilmente deixar meu cabelo
aceitável e com uma feição nada feliz no rosto.
- Mas que merda, Felton! - exclamei, levantando e pegando um travesseiro - Não sei
porque você insiste nessa porcaria de festa. Eu nem teria vindo pra cá se
soubesse dessa festa idiota. E você sabe disso! - joguei o travesseiro na direção
dele, mas este bateu na porta do banheiro. Ele riu da minha cara - Seu
filho da mãe! - andei em sua direção, bom, na direção do banheiro e ele me puxou
quando eu quase alcançava a porta. - Me solta, Tom.
Ele me abraçou enquanto eu tentava sair de perto e mordeu meu lábio. Eu
dava socos inúteis em seu peito. Ele ria; imbecil.
- Olha, eu sei que você deve estar cansada de festas, ainda mais com o que
aconteceu ontem, mas eu não dou festas há três meses. A galera tava sentindo falta!
- E eu com isso?! Eles tiveram a festa da Lauren ontem e a festa do Poynter
semana passada. Eu preferiria estar na casa dos meus pais sem você e sem festa
do que aguentar outra como ontem.
Ele suspirou cansado.
- , olha, não é porque a de ontem foi um fiasco, que todas
após essa vão ser também! Não precisa ficar com isso na cabeça.
Ele estava tentando um discurso clichê e fail pra me animar. Não ia funcionar. O
Tom não era bom com palavras, ele se enrolava todo quando precisava me dar um
conselho ou me dizer algo animador. Era engraçado de se presenciar. Mas não
estava pra brincadeiras, o negócio era sério.
- Tom, você não entende que não é não?
Ele olhou pra mim frustrado. Havia uma falta de brilho e de animação perceptivas
em suas feições. Meu objetivo não era deixá-lo triste. Merda.
- Você quer comer alguma coisa? - balancei a cabeça, afirmando - Desça em cinco
minutos, vou pedir pra Donna preparar algo pra gente comer. - ele beijou o topo da
minha cabeça e foi em direção à porta. Ouvi o barulho da fechadura e caí na
cama. Merda de vida.
Agora eu me sentiria uma pessoa horrível por tê-lo deixado triste e descontaria
minha frustração indo na droga da festa; era o que sempre acontecia em relação a
tudo. Não que o Tom fosse um ótimo ator, longe disso, mas ele não era muito de
mentir. Então você via nos olhos dele que quase todas as palavras eram verdade.
Tudo bem, 50% de tudo era puro drama, e isso era óbvio, mas o olhar que ele me
dirigia quase me partia o coração. Quase. Se ainda tenho um, não está em
perfeito estado.
Mas não, eu não ia na festa. Faria tudo o que ele pedisse em relação a minha
ajuda para com a festa, mas durante a duração da mesma, eu não tiraria o pé da
sala de estar climatizada do Tom. E o obrigaria a ir ao centro comprar capuccino
e cupcakes pra mim, na Starbucks. Querendo ou não.
O problema é que eu não gosto de vê-lo triste, porque todo o tempo, a única
coisa que ele se esforça mesmo pra fazer é me por um sorriso no rosto. Ele é meu
único motivo pra sorrir.
Levantei da cama e fui em direção à porta branca à minha frente, tropeçando nos
tênis azuis da Nike que Tom usara mais cedo. Chutei-os pra longe de mim e abri a
porta do banheiro, acendendo a luz. Lavei meu rosto, prendi meus cabelos em um
nó mal feito e mirei minha expressão cansada no enorme espelho. A mãe de Tom
adorava espelhos. Tinham vários espelhos, mesmo que fossem quadradinhos
minúsculos, espalhados pela casa. Mulher louca. Obcecada por espelhos, creme
hidratante e botox. Mas nunca conheci alguém tão carismática quanto ela.
Eu estava uma total bagunça! Cabelo todo arrepiado e o rosto marcado pelo
travesseiro. Lavei o rosto mais uma vez e enxuguei na toalha de rosto macia ao
lado da pia. Saí do banheiro, fechando a porta atrás de mim, enquanto procurava
uma camiseta qualquer pelo quarto. Achei uma T-shirt cinza desbotada do mickey,
enorme. Imaginei como o Tom ficaria nela e sorri. Coloquei a camisa por cima da
minha lingerie preta, pus uma sandália no pé e fui em direção ao corredor.
Fechei a porta e encarei o enorme relógio de parede branco, a alguns metros de
mim. 16:52, é, eu ainda estaria dormindo se não tivesse um melhor amigo tão
convincente.
Cheguei à cozinha a tempo de ver a empregada saindo pela porta dos fundos. Virei
meu olhar pra Tom, que me encarava curioso enquanto ele apontava com a cabeça pra
bancada e eu olhava pro que tinha em cima dela: um bolo de chocolate, café,
biscoitos, torrada e pasta de amendoim. Peguei uma xícara em cima da pia e
sentei de frente pro Tom.
- Onde você achou essa camisa? Estou atrás dela há séculos!
- Estava atrás dela... - falei sorrindo, enquanto colocava café na xícara. - Agora
que a achei, ela é minha por direito.
- Olha, não sou fã desse seu jeito de pensar.
- E eu não dou a mínima! - ele sorriu. - Agora cala a boca e me passa os biscoitos.
- Eu não vou calar a boca até ter certeza de que você vai me ajudar. - ele disse
me passando o vidro transparente.
- Eu ajudo. - falei, mordendo um biscoito e o encarando. - Ajudo em tudo o que você
precisar. Iluminação, música... Tudo. Mas na festa eu não vou.
Ele me olhou frustrado.
- Ok , vamos ser francos aqui! - o encarei, achando ridícula a sua tentativa
de parecer um cara sério. - Eu quero todos os motivos aparentes pra eu ter
certeza de que nessa festa, definitivamente não vai rolar.
Olhei pro rosto dele, deixando a xícara em cima da bancada. Eu não tinha
resposta para aquela pergunta. Primeiro porque não tinha nenhum motivo aparente
pra eu não querer ir na festa e inventar uma dor de cabeça agora não ia colar.
E o fato é que ele vai querer saber o motivo real de qualquer coisa que eu diga,
o que me desanima ainda mais pra tentar inventar algo. Mas bem, ele queria uma
conversa franca; eu vou dar a ele.
- Eu simplesmente não quero ir. Não é o bastante?
- Não, , não é o bastante. Tem que ter um motivo, mas que droga!
- Tudo bem, você quer um motivo? - ele balançou a cabeça, afirmando. - Eu te dou um
motivo. A minha vida é uma merda Tom, eu acordo todos os dias com esse
pensamento na cabeça. E eu sei que tudo aconteceu há dois anos, mas a minha
mente insiste em lembrar como se fosse ontem. Eu não quero e acho muito
desnecessário aparecer por aí sorrindo e transmitindo uma felicidade que não é
real! E eu não quero, não importa o quanto você insista, ir numa festa com um
monte de pessoas animadas pulando ao meu lado, quando o que eu sinto por dentro
é tão ruim quanto um mundo cheio de zumbis. Por favor, Tom, não me pede pra ir
nessa merda, eu te imploro.
Terminei o meu monólogo tomando um longo gole de café. Tom me encarava, sério.
Ele sabia de toda a história, sabia melhor do que ninguém de tudo o que eu
passei. Mas o fato é que eu não saía por aí dizendo pro mundo como eu me sentia
um lixo por dentro. E antes que você me diga que a melhor coisa que eu deveria
ter feito era esquecer, te digo que já tentei. Ah, já tentei sim, várias e
várias vezes. Mas parece que as lembranças criaram moradia fixa em meu cérebro;
todos os dias fica mais difícil de tentar fazê-las "se mudarem". Eu já tentei
matá-las. Mas é como a Anne sempre diz: lembranças nunca morrem, não importa o
quanto você tente enterrá-las.
A Anne era a ex-namorada do Tom. Ela e a irmã, Nathalie, são as únicas garotas
em quem eu realmente confio. Porque as outras são um bando de vadias escrotas
que parecem cadelas no cio quando te vêem com um namorado (lê-se: Lauren). Anne
e Tom tiveram um relacionamento curto, uns três ou quatro meses. Terminaram e foi ruim
para os dois, mas são amigos até hoje. Eles tiveram o que eu chamo de "separação
amigável". Às vezes eu me pergunto como seria se o meu relacionamento com o
Jones se também tivesse tido uma "separação amigável". Aí eu me dou conta de que
não seria. Se a nossa separação fosse amigável, não teria separação. Nós
estaríamos juntos até hoje.
A Anne e a Nath sabiam como eu me sentia; sabiam exatamente como era difícil pra
mim frequentar os mesmos lugares que ele e ver as cenas horríveis se repetindo
em minha cabeça. Mas entendiam que não podiam fazer nada: ou eu me mudava pra um
colégio interno, ou fingiria estar bem. Nada de colégio interno. Fingir pra mim
está de bom tamanho.
Quando tudo aconteceu (eu perdi a virgindade com o Tom um mês depois de ele e a
Anne terem terminado e enquanto eu fazia isso, o Danny transava loucamente com a
Lauren em Manhattan), ela ignorou o fato de que eu tinha pegado seu ex-namorado
tão pouco tempo depois do término e me deu tudo o que eu precisava: um ombro pra
chorar e companhia pra xingar muito a Lauren. Depois, quando eu perguntei se ela
preferiria nunca mais olhar na minha cara pelo que eu tinha feito e disse que
entenderia perfeitamente se ela o fizesse, ela disse que isso não tinha nada a
ver porque ela e o Tom não tinham mais nada, e que eu devia me preocupar em
pagar a fiança dela quando ela fosse presa por quebrar a cara de Lauren. Ela me
fez sorrir dois dias depois do ocorrido. Tento manter esse pensamento feliz
desde então.
No fim ela não quebrou a cara da Lauren, mas posso dizer com orgulho da amiga
que tenho, que ela tentou. Mas foi impedida por um grito estridente e uma
suspensão de dois dias. E ainda suportou ouvir, sem fazer nada: "Muito pouco pro
que essa vadia realmente merece". Palmas para a Anne.
O Tom ainda me encarava, boquiaberto. Não fazia ideia do que ele estava pensando
agora. Quer dizer, podia ser qualquer coisa! O quanto eu fui hipócrita em não
contar pra ele ou o quanto ele é idiota por não ter visto o que eu realmente
sentia.
Ia pegar mais um biscoito do vidro quando repentinamente, ele puxou o pote pra
longe de mim e eu fiz cara de poucos amigos imaginando que merda ele pretendia
com isso.
- Chega de biscoitos! E ... - pela cara que ele fez, eu sabia o que viria á
seguir - Mil desculpas por ser tão imbecil a ponto de não reparar tudo o que
estava acontecendo, bem, acontecendo realmente com você. - bem melhor do que o que
eu havia imaginado.
Eu sorri, olhando pra carinha de bebê desconsolado dele, sabe, aquele bebê que
perdeu a chupeta. Ele estava incrivelmente fofo e eu quase deixei escapar uma
risada, se o momento não fosse propício a isso. Eu o encarei, seus olhos claros
berravam "ME DESCULPE!" e eu não tive como não deixar escapar um sorriso fraco
por isso. Ele fez o mesmo, mas sem a mesma empolgação. Parecia me sondar,
querendo saber se o meu sorriso era de escárnio ou se era real.
- , pelo amor de Deus, me desculpa mesmo! Eu não queria ser...
- O cara mais desligado do mundo? Eu sei que não. Agora me devolve os biscoitos. -
ele me passou o vidro e sorriu, agora sem cautela nenhuma, seu olhar se
iluminando.
- Mas por que você não me contou como realmente se sentia? - era estranho vê-lo
dar uma de compreensivo; como eu já disse, Tom não é muito bom com as palavras.
- Eu não sei te dizer exatamente porque, só achei que deveria guardar esse tipo
de coisa pra mim. Só a Anne e a Nath sabem disso, elas perceberam em pouco
tempo.
- Tudo bem, eu perdoo você por não ter me contado isso! - eu mostrei a língua pra
ele, que riu. - E não vou mais insistir nessa coisa de festa.
Agradeci com a cabeça enquanto pegava mais dois biscoitos e fechava o vidro. Ele
cortava um pedaço do bolo e lambia os dedos que ficavam sujos de chocolate. Eu
ri.
- Apesar de eu não estar na festa, quero resolver tudo o que você achar
necessário logo. E você tinha razão em ter dito aquilo mais cedo, "A festa não
vai se organizar sozinha". Se só você ficasse a par disso, a festa seria uma
catástrofe!
- "This is becoming a catastrophe!"
Eu ri enquanto terminava meu café e levantava da bancada, colocando a xícara
dentro da pia.
- Espero que você não tenha mandado todos os empregados embora. Preciso de
alguém pra buscar minhas coisas.
- Não esquenta, eu te levo lá.
Assenti enquanto guardava o pote de biscoitos dentro do armário. Ele jogou,
literalmente, a faca que usara dentro da pia e guardou a pasta de amendoim na
geladeira. Voltamos pro quarto e quando entrei, passeei os olhos pelo cômodo
enorme, atrás do meu vestido, meu cinto e dos meus sapatos. Os sapatos foram
fáceis de achar, estavam um pé do lado esquerdo da cama e o outro perto da
cômoda que acomodava a TV. O meu cinto eu achei pendurado em uma gaveta aberta.
O meu vestido? Pendurado na janela. Não me perguntem como foi parar lá. Enquanto
eu o pegava e tirava a camiseta do mickey do corpo, o Tom morria de rir sentado
na cama. Eu fui até o seu lado e lhe dei um tapa na cabeça.
- Se meu vestido estiver com um pedacinho que seja em mal estado, te mato.
Ele sorriu enquanto eu botava o vestido. Fui até a janela e olhei o tempo,
ventava lá fora e eu me conhecia o suficiente pra saber que sentiria frio.
- Tom. - ele levantou os olhos do celular e me encarou. - Aonde você guarda as suas
camisas? - definitivamente eu não queria usar meu cardigã que estava na bolsa,
não sei bem aonde. Lã não me esquenta tanto assim.
- No cabide do closet.
Assenti e fui em direção a porta branca do outro lado do quarto. Abri e fui pro
cabideiro esquerdo. Ele tinha muitas, posso dizer. Mas optei por uma jeans
clara, um pouco pequena pra ele, que ficou perfeita em mim. Vesti a camisa e saí
do closet procurando meu cinto e o colocando por cima da mesma. Arregacei as
mangas dela até meu cotovelo e encarei o Tom.
- Mais uma coisa que você vai perder. - ele me encarou e sorriu.
- Não me importo de perder a camisa, você ficou perfeita nela. - ele beijou minha
bochecha e voltou ao celular.
Sentei na cama com os Oxfords em minhas mãos e os calcei. Peguei a T-shirt do
mickey de sua mão e o mandei se vestir. Ele pôs uma bermuda qualquer, sandálias
de dedo e uma camisa azul. Achei minha bolsa em cima do sofá perto da janela e
me perguntei porque eu não havia visto antes. Pus a camiseta lá dentro e
peguei meu celular. 17:32. E um dizer: Você tem duas novas mensagens. Coloquei o
celular de volta na bolsa, depois leria as mensagens. Tom pegou as chaves do
Camaro azul e saiu do quarto logo atrás de mim.
- Casa dos . - eu atendi o telefone na
cozinha, o Tom me esperava na bancada com minha mochila nas costas e uma maçã na
mão.
- ? Sou eu, querida! Pensei que você estivesse na casa dos Felton...
- Eu vim pegar umas roupas. O que você quer? – curta e grossa. Eu sempre era
assim com a minha mãe, a sua ignorância me impedia de agir normalmente. Pro
resto do mundo, nossa relação mãe-filha era perfeita. O que ela não faz por uma
boa imagem...
- Eu só queria saber como vão as coisas por aí. E queria pedir a Carmen pra
pegar a Lola no petshop às 18:30. - Lola era a cadela dela. Ela era uma gracinha
e me adorava, mas pra falar a verdade, ela não tinha cara de que gostava da
minha mãe.
- A Carmen já foi, mas eu pego ela pra você. Mas alguma coisa?
- Não filha, só isso mesmo. Obrigada. - desliguei.
- Nem um “como vão as coisas aí, mãe?” ou “espero que se divirta”? - encarei o Tom
que ainda comia a maçã e estava com minha mochila nas costas. Coloquei o
telefone de volta ao gancho na parede e fui em sua direção. Parei em sua frente
e peguei a maçã dele, mordendo um pedaço.
- Pensa comigo, Tom, se eu perguntasse isso, ela me recomendaria um psiquiatra. -
ele riu - E eu preciso que você vá comigo pegar a Lola no pet-shop perto da
Starbucks do centro. E aproveita pra rodar comigo por lá. Já que não vou sair da
sua sala, preciso de cafeína.
- Você tá viciada nessa merda. - ele disse me seguindo enquanto eu pegava as
chaves e ativava o sistema de segurança da casa. Fomos pra garagem e entramos no
carro dele. Ele cantou os pneus antes de seguir para o centro.
- Ow, você tá a coisa mais fofa, Lola! - eu falei, fazendo carinho na cabeça dela e
tentando não tirar o laçinho de Poá rosa em sua cabeça. Geralmente ninguém
conseguia fazer com que ela ficasse com o laçinho. Ela cismava em
ficar mexendo com a patinha até tirar. Ela é uma figura.
O Tom segurava meu capuccino e alguns cupcakes recheados de doce de leite e
brigadeiro em duas sacolas. Andava quieto do meu lado, super informal com sua
bermuda azul e chinelos pretos. Qualquer coisa que ele usasse em azul ficava
perfeito nele. Realçava seus olhos.
A ida de volta pra casa do Tom foi a Lola querendo os cupcakes e eu o Tom
conversando sobre iluminação e música. Meu humor estava consideravelmente melhor
do que mais cedo e, eu acho, o Tom estava eternamente agradecido por isso. Ele,
sei lá, meio que tinha um receio por mim quando eu ficava estressada. Eu tenho o
gênio difícil igual ao do meu pai. Me estresso incrivelmente fácil com qualquer
coisa boba. E ele é oposto de mim.
Quando eu cheguei na casa do Tom, Dougie já estava lá com as bebidas e Rian
estava montando o equipamento de som na sala. Eu ajudei o Tom a por as bebidas
no frízer da garagem e prendi a Lola lá. A cara que ela me fez quase me
convenceu a carregar ela comigo pra sala de estar. Mas se eu fizesse isso, me
arrependeria amargamente porque um dos seus passatempos preferidos era destruir
almofadas. O Tom me mataria. Eu prendi a coleira dela na perna de uma mesa cheia
de ferramentas e pus dois potes com água e comida. Passei a mão na cabeça dela
antes de voltar pra cozinha.
Peguei um copo com água e me apoiei na bancada. O Tom veio em minha direção.
- Você pode subir, se quiser. - eu assenti enquanto largava o copo na pia e ia em
direção às escadas. Que se dane o inferno que estaria lá embaixo. Eu trancaria
as portas da sala do Tom e só sairia de lá numa emergência.
- Eu sou o homem mais feliz desse mundo! - estava no começo de American Pie 3 e no
final do meu quarto cupcake. Um copo de capuccino já tinha ido embora e eu fui
obrigada a concordar com o Tom de que café é um dos meus vícios. Eu estava
esperando ansiosamente o comercial porque estava na vontade pra fazer xixi, sei
lá, dez minutos.
Estava totalmente alheia a qualquer fato relevante da festa que acontecia lá
embaixo. Mas já imaginava que agora, 00:42pm, o Dougie já estaria bêbado e se
atracando com a Becc ou com qualquer uma; o Harry já teria achado um quarto e o
Fletcher estaria na beira da piscina conversando com sei lá, qualquer um. E
Tom... Provavelmente se pegando com qualquer uma pra passar o tempo. E se
preocupando em não deteriorar nenhuma obra do Séc. XVIII de sua mãe.
O Jones? Foda-se onde ele está. Não to pra pensar nele no momento.
- Aleluia, Stifler! - eu olhei pra tela e tinha dado comercial. “É, aleluia
Stifler”. Levantei e coloquei o copo de capuccino ao lado da TV. Estava usando
um short jeans curto, uma blusa qualquer do Tom e meias 7/8 pretas. Fui em
direção a porta e ouvi “The Time (Dirty Bit)” já no fim, vindo da direção da
escada. Encostei a porta atrás de mim e segui o corredor, ignorando o casal que
se comia alguns metros a frente, antes da porta do banheiro. Bom, pelo menos eu
tentei.
Porque quando eu passei na frente do “casal que se comia” eu senti um cheiro tão
viciante, sexy, conhecido... Dele. Era o Jones ali. Se pegando com aquela
vagabunda de ontem. O sangue subiu a minha cabeça e eu fiquei ali, parada e não
me abalei quando ele abriu os olhos.
O corredor estava muito escuro. A única luz vinha de uma luminária na parede no
fim do corredor. Mas mesmo no escuro, o brilho dos olhos dele era inconfundível.
Eu reconheceria aqueles olhos e aquele perfume até no inferno. Tive certeza
disso.
Uma dor enorme descia da minha cabeça e se alastrava pelo meu peito. Meus olhos
transbordavam ódio e eu nunca estive tão perto de cometer homicídio como agora.
Não sei exatamente qual era minha ideia, mas meus pés me levaram até o fim do
corredor. Não sei quem teve a ideia de colocar o painel de luz ali, mas estava
me sendo muito útil. Eu puxei o quadro de uma menininha brincando num campo de
flores e corri os dedos até achar a alavanca. E a puxei pra baixo.
A casa ficou incrivelmente quieta e mais escura do que já estava. E eu corri.
Uma corrente de adrenalina passou por cada terminação nervosa do meu corpo e eu
corri em direção aos dois, que ainda se pegavam. Danny continuava de olhos
abertos.
Enrosquei minha mão direita no cabelo dela, mais rápido do que julguei ser
possível e a arrastei em direção a escada. E gritei:
- TOM! - desci os degraus com ela berrando atrás de mim e eu ignorava os sons
agudos de sua voz insuportável indo na direção da luz de uma lanterna que
arranjaram e apontaram pra mim. Tom me olhava horrorizado, estático,
provavelmente pensando o que diabos eu estava fazendo agora.
Ela se debatia e gritava atrás de mim, não surtindo efeito nenhum. E em uma
atitude retardada, que se já tivesse sido feita evitaria tudo aquilo, eu ouvi os
passos do Jones descendo as escadas.
Cheguei ao fim da escada e a deixei jogada atrás de mim. Desenrosquei minha mão
de seu cabelo e olhei pro Tom. Ele, obviamente como todos ali, não entendia que
merda era aquela. Mas quando ele viu Danny descendo as escadas um lampejo de
compreensão passou por seus olhos. E de decepção também. E foi um erro eu ter me
distraído porque senti um peso em minhas costas e caí de quatro no chão. Senti
uma mão atrás da minha cabeça e várias tentativas falhas de empurrá-la em
direção ao chão.
Aquela vagabunda estava tentando me atingir. Não mesmo.
Eu impulsionei meu corpo pra trás, ofegando e a fiz cair no chão me virando e
subi em cima dela, agarrando seus cabelos e batendo sua cabeça freneticamente no
chão. Ela tentava me empurrar e eu me desequilibrei, o que a fez subir em cima
de mim e puxar meus cabelos com força. Eu dei um soco em seu estômago e me
levantei, enquanto levava meu pé, furiosamente, repetidas vezes até sua barriga.
Eu não pararia até ver aquela filha-da-puta desacordada pelas minhas mãos. E o
Tom percebeu isso. O Jones também.
Braços envolveram a minha cintura e o cheiro dele invadiu minha cabeça. O Tom
segurava aquela vadia e a arrastava em direção a cozinha.
- TIRA ESSA VAGABUNDA DAQUI, TOM, AGORA!- eu me debatia, embora não adiantasse em
absolutamente nada. Ele me levou de volta ao mesmo corredor. Eu sentia seu
coração batendo nas minhas costas. Ele foi até o fim do corredor e levantou a
alavanca, a luz solitária do corredor voltando.
Minha vontade de fazer xixi? Sumiu instantaneamente.
Ele voltou pra sala de estar e me jogou, mesmo, na pilha de almofadas em que eu
estava deitada mais cedo, antes do caos. Parou na frente da TV, a despedida de
solteiro do Jim não condizendo com meu momento agora.
- Eu vou perguntar só uma vez... - ele respirou fundo. - Que merda foi essa? - eu
levantei e fiz menção de sair da sala, ele me segurou pelos ombros. - QUE MERDA
FOI ESSA, ? ME DIZ, PORRA!
Minha garganta apertou. Não, eu não iria chorar. Não agora.
- Você é um filho-da-puta! - eu batia em seu peito, não surtindo efeito algum. -
Tudo isso é culpa sua, TUDO! Você destrói cada pedaço de mim devagar, aos
poucos e não tá nem aí pra isso! - eu batia com mais força, ainda sem efeito,
mas ele cansou da minha atitude infantil.
Ele me empurrou pra parede e bateu com as mãos na mesma, o barulho ecoando nos
meus ouvidos. Ele escondeu a cabeça no meu pescoço, respirava fundo e rápido.
Estava com raiva. Eu sentia isso. Sentia raiva e frustração exalando dele.
- Não me diz isso, , você sabe que não é
verdade. Se eu te destruo aos poucos, o mesmo acontece comigo, embora você não
perceba. Você acha que eu gosto de ver você sorrindo ao lado de outra pessoa,
sabendo que nunca vai ser eu de novo? Hãm? ACHA?!
Um estalo. Meus dedos marcados momentaneamente na pele macia de sua bochecha. Eu
lhe dei um tapa e meu Deus, eu nunca tinha feito isso antes. Me preparei pra um,
mas já devia ter aprendido que ele é incrivelmente imprevisível. Principalmente
em relação a mim.
Ele me beijou. E sentir seu lábio em contato com o meu me fez gemer. Aquela
sensação tão familiar, aquele cheiro tão viciante intensificado pela
proximidade... Eu não esbocei reação nenhuma, só fiquei lá parada, enquanto ele
forçava tanto sua boca contra a minha que eu sentia um gosto metálico na boca.
Então eu entreabri meus lábios, sentindo gosto de sangue misturado a menta e
álcool. E a língua macia dele com a minha, me fez perder uma batida do coração.
Eu enrosquei meus dedos em seu cabelo, num ato desesperado enquanto ele me
segurava pelas pernas e me levantava. Ele sentou no meio das almofadas, uma
perna minha de cada lado do seu corpo, sem quebrar o beijo. Ele mordeu meu lábio
inferior devagar; eu ofegava. Suas mãos passeavam pelas minhas costas e um
arrepio subia pela minha espinha cada vez que a ponta de seus dedos gelados
encontrava minha pele. Ele me redescobria aos poucos, cada pedaço de mim.
Eu puxei seu cabelo macio devagar, quebrando o beijo e ofegando. Ele tentou
voltar, mas eu recuei.
- Danny, não...
Ele olhou nos meus olhos. Aquele mar azul inundando minha mente; era como se eu
não visse mais nada. Eu sentia a intensidade daquele olhar dentro de mim,
passeando pelas minhas veias, embaixo da minha pele. Não existiam olhos como os
dele. Os de Tom eram únicos, mas não eram como os dele.
Ele se aproximou novamente, e eu não recuei dessa vez.
Ele encostou os lábios nos meus devagar, dessa vez. E me beijou com uma ternura
imensa, com cuidado, como se tivesse medo de que eu fosse me quebrar; como se
tivesse medo de que eu fosse desistir. Isso me fez lembrar de uma noite e alguns
minutos atrás. Eu levantei de um pulo e parei de costas pra TV, encarando o
semblante confuso dele. Ele levantou devagar e chegou perto de mim. Esticou a
mão pra tocar no meu rosto.
- NÃO ME TOCA, JONES! Eu não quero as suas mãos sujas em mim!
- Do que você tá falando, ?
- Eu não tenho amnésia, Jones. Ontem você estava lá na festa da Lauren se pegando
com a mesma vagabunda do corredor de alguns minutos atrás. Eu não sou ela, Danny,
NÃO SOU!
Ele suspirou, passou a mão pelo cabelo bagunçado e olhou pra mim. Seus olhos
estavam escuros, quase azul marinho. Eu me lembrava da última vez que os olhos
dele ficaram dessa cor. Uma das melhores noites da minha vida.
Ele se aproximou devagar, enquanto eu dava passos incertos pra trás até
encontrar a parede fria e dura em minhas costas. Eu respirava falhamente e não
fazia ideia do que ele faria dessa vez.
Seu corpo foi impulsionado pro meu e eu prendi a respiração. Seu rosto correu
pelo meu pescoço, clavícula e parou na direção do meu rosto. Ele grudou seus
lábios no meu, mas eu não me mexi. Danny mordeu meu lábio inferior devagar e
colocou a cabeça na curva do meu pescoço, sussurrando em meu ouvido:
- Não, você não é. - as mãos dele seguiram pra minha cintura e a apertaram, por
baixo da blusa. - Você é melhor. Nenhuma chega aos seus pés, , porque você é
única. - ele beijava meu pescoço devagar e eu mantinha minhas mãos paradas ao lado
do meu corpo.
- Se você acha - falei com minha voz entrecortada-, que aumentar meu ego vai
funcionar, se enganou.
Ele riu e marcou meu pescoço com os dentes, me fazendo morder o lábio e reprimir
um gemido.
- Não, , você se enganou.
E eu mandei a segunda festa que eu destruí, aquela vagabunda que apanhou, todos
os meus conceitos e o mundo pra merda. Porque ele me encarou com aqueles olhos
que estavam infinitamente mais escuros e me beijou. E eu passei as mãos pelos
seus braços, seguindo o contorno de seus ombros e puxando seu cabelo devagar.
(n/a: Ouçam “All I Wanted” do Paramore e “Love The Way You Lie” nessa parte, é
importante)
Ele me guiou a passos cegos em direção a pilha de almofadas e me acomodou nelas,
deitando seu corpo em cima do meu. Nosso beijo era desesperado, como se fosse
nosso oxigênio. Suas mãos apertavam minha cintura e minhas coxas e eu quebrei o
beijo pra arrancar sua camiseta e sua camisa. A joguei por cima do meu ombro
enquanto o empurrava devagar e o fazia sentar. Passei minhas pernas cada uma de
um lado e sentei em seu colo. Ele passou as mãos pelos meus braços e desceu pelo
meu tronco, parando na barra da minha camiseta e a puxando pra cima.
Meu coração batia freneticamente. Eu sabia onde aquilo ia dar. E esperava que
não fosse em arrependimento e lágrimas. Mas era muito tarde pra desistir.
Ele me virou mais uma vez, desabotoando meu short e o puxando pra baixo, pelas
minhas pernas. Segurou a esquerda em seu peito e foi tirando minha meia devagar,
beijando cada pedaço de pele que aparecia enquanto a meia ia embora. Fez o mesmo
com a outra e cada toque de seu lábio me fazia estremecer de ansiedade. Ele
tirou sua calça jeans e voltou a me beijar enquanto tirava os sneakers da Nike
com os pés. Ele passeava com as mãos pelo meu corpo, alternando entre minhas
costas e coxas. Parou as mãos no fecho do meu sutiã preto de renda e tentou
abrí-lo, sem sucesso. Eu o empurrei devagar enquanto o tirava e ele tirou um
pacote do bolso da calça. Voltou pra perto de mim e colocou a cabeça no vão do
meu pescoço, dando pequenas mordidas atrás da minha orelha, seguindo um caminho
torturante até a minha boca.
Sua língua pediu passagem e eu cedi, sem pensar duas vezes. Suas mãos seguiram
até o meu quadril, descendo minha calcinha branca devagar. Ele ficou ajoelhado
entre as minhas pernas, puxando-a devagar, passando o tecido fino e macio pelas
minhas coxas, joelhos, canela e panturrilha. Eu levei meus pés até a barra de
sua boxer preta, descendo-a devagar. Ele se levantou e arrancou pelas pernas. Eu
peguei o pacote abandonado do meu lado e o abri, me aproximando dele, que parou
em pé a minha frente. Eu coloquei a ponta em seu membro e a desenrolei até a
base, devagar. Ele levava a cabeça pra trás, mordendo o lábio.
Peguei sua mão quando terminei, o puxando de leve. Ele se deitou em cima de mim
de novo.
- Não tem volta. - sussurrou no meu ouvido.
- Eu sei. - respondi, quando o senti dentro de mim.
E automaticamente me arrependi. Porque aquela sensação era tão perfeita e tão
viciante. Parecia a primeira vez de novo, só que não era. Tão boa quanto, mas
não era a mesma coisa. Eu sabia que só de sentí-lo tão intensamente em mim de
novo, eu desistiria de tudo o que eu acredito pra ter aquilo todo dia. Eu não me
cansaria, porque a sensação era como deitar em nuvens. Tão sublime e especial
que eu queria eternizar aquele momento. Mas bem no fundo eu me sentia suja;
porque por mais que fosse aquilo que eu queria, eu me condenaria depois, como
sempre. E eu preferia ser condenada a prisão perpétua a ter que aguentar o
arrependimento depois.
Ele se movimentava dentro de mim num ciclo vicioso e lento, enquanto eu
arranhava suas costas com minhas unhas azuis. Eu mordia meu lábio quando ele
mordia meu pescoço, como se fosse combinado. Sentia um arrepio percorrer minha
espinha toda vez que ele entrava e saía de mim. Eu estava em êxtase, completo, e
nem tinha tido um orgasmo ainda.
Ele aumentou a velocidade de suas investidas contra mim, procurando meus lábios
com desespero. Ele mordeu meu lábio inferior antes de invadir minha boca com a
língua quente e macia que eu tanto amava. Que eu ainda amo.
Meu corpo todo tremeu e ele segurou minhas mãos, entrelaçando seus dedos nos
meus. Senti um arrepio infinitamente maior passar por todas as terminações
nervosas do meu corpo. Uma sensação incrível, como se eu fosse ser feliz pra
sempre. Alguns segundos depois ele tremeu sobre mim e parou.
Eu não queria que acabasse, mas acabou. E a sensação maçante de culpa tomou
conta de mim.
- Promete que não vai embora de manhã?
Mas eu fechei os olhos e dormi.
Eu abri os olhos. A TV ainda estava ligada e passava “De Volta pro Futuro”. A
cortina branca deixava passar toda a luz fraca que vinha de fora. Estava
chovendo. Eu ouvi as gotas grossas de chuva batendo na janela de vidro.
Minha boca estava seca e com um gosto horrível de plástico. Eu me virei,
devagar. O cabelo dele caía nos olhos do jeito que ele sempre odiou. A boca
estava entreaberta e os olhos fechados calmamente. Ele fica lindo dormindo. Ele
fica lindo de qualquer jeito.
Eu varri meus olhos pela sala. Minha camiseta estava embolada e amassada embaixo
da TV ao lado do último capuccino que eu não tomei ontem a noite. Me arrastei
até lá, engatinhado por entre as roupas do Jones, tentando não me mexer muito
pra não acordá-lo. Sentei ao lado da minha camiseta e encolhi os joelhos olhando
pra frente, a camisa xadrez que ele usara ontem a noite estava largada no chão na
minha frente. Estiquei meu braço e a coloquei, sentada mesmo. Peguei o copo de
capuccino e tomei um gole, só pra tirar o gosto ruim de plástico da boca, e o
coloquei no mesmo lugar depois. Levantei e andei até a porta. A abri devagar,
tentando não fazer barulho.
Quando cheguei ao corredor, um vento frio me envolveu. A casa estava quieta e
aparentemente vazia. Eu segui o corredor, virando pra esquerda e passando na
frente da escada em direção ao outro corredor. Lá embaixo, no meio de almofadas
estava a Anne dormindo tranquilamente ao lado de uma garrafa vazia de Smirnoff.
Segui pelo corredor, abri a segunda porta à direita e entrei.
Pensei que o quarto estivesse vazio, mas o corpo de Tom descansava embaixo do
edredom claro. Ele estava igual ao Jones; cabelo caindo nos olhos, boca
entreaberta...
Fechei a porta atrás de mim e andei devagar até o outro lado da king syze.
Levantei o edredom e o Tom se virou, os olhos apertados pra focalizar meu rosto.
Eu me enfiei embaixo da coberta grossa e ele me abraçou, enquanto eu escondia
meu rosto em seu peito.
- Você...
- Eu não quero falar sobre isso. - ele suspirou, cansado.
- Tudo bem, você precisa dormir.
Ele me apertou e eu fechei os olhos tentando ignorar o perfume na camisa do
Jones e me concentrando no barulho da chuva.
POV's Danny
Eu abri os olhos e a procurei. Ela não estava ali. Ela deixou pra trás o sutiã,
a camiseta, o short, o par de meias, a calcinha e seu perfume impregnado em cada
centímetro da sala. E um copo da Starbucks. Ela não estava ali. Eu olhei pra TV.
Passava “De Volta Pro Futuro”. Eu ouvia o barulho da chuva batendo no vidro da
janela. Que merda, ela não estava ali!
Ontem a noite eu quis congelar cada momento em que nossos corpos estavam
juntos, pra eu me lembrar disso pra sempre; embora eu não ache que se eu não o
fizer, vou esquecer. Fazia tanto tempo... E foi tão bom quanto da última vez.
Não... Foi melhor.
Mas o fato de ela não estar ali significava pra mim que ela não se importava.
Não se importava com o que eu sei que ela sentiu ontem a noite. Não se importava
com nós - se é que existe algum “nós”.
Eu suspirei e passei a mão no rosto. Levantei e procurei minha Box e meus jeans.
Os vesti e sentei no sofá com a camiseta no corpo, me perguntando onde diabos
estava minha camisa xadrez. Coloquei os tênis. Olhei pra baixo e vi a bagunça
que nós dois fizemos ontem. Peguei uma almofada e a coloquei perto do meu rosto,
inspirando. Era o perfume dela ali. E eu me controlei pra não pegar a almofada e
levá-la comigo.
Levantei e desliguei a TV, colocando as mãos nos bolsos e sentindo a chave no
direito. Fui em direção à porta e saí, indo pras escadas e depois pra cozinha.
Parei na frente da geladeira e mirei minha imagem distorcida. Eu estava um caco -
duvido que ela não esteja também. Abri a porta da garagem e apertei o alarme do
meu Porsche, acordando um cachorrinho com um laço na cabeça que estava encolhido
numa cama aos pés de uma mesa. Abri a porta e entrei, acelerando em direção aos
portões e ligando o rádio.
Tocava "Love The Way You Lie".