DEVIL'S HEART
por Pepê M.
Beta-Reader: Loma R

Capítulo Um.

O barulho de conversa ficava cada minuto mais evidente dentro da sala. Os ponteiros do relógio pareciam se mover cada vez mais devagar. O coitado do professor, Sr. Finnigin, não conseguiu mais controlar os alunos então, decidiu parar a sua explicação até o que o sinal batesse. Eu podia escutar as meninas sentadas na minha frente falarem de mim.
- Mas você viu, ela praticamente não falou com ninguém desde que chegou! – uma morena baixinha e com uma voz irritante disse para a loira, que estava sentada ao seu lado. Pelo que eu passei aqui nos últimos quatro dias, elas eram as “rainhas” do colégio, se assim eu posso dizer.
- Eu conheço esse tipinho, ela deve se achar só porque veio de outro país. Mas ela não passa de uma qualquer, fiquei sabendo que quando ela chegou aqui na escola a primeira coisa que ela fez foi se jogar pra cima do ... Há, mas isso não vai ficar assim, o é meu! – “Que ?” pensei comigo mesma, não tinha nem uma semana que eu cheguei nessa escola e já estão falando que eu fui atrás de alguém?!
Nota mental: checar se eu ando me vestindo igual a uma vadia.
- Eu também conheço o seu tipinho... Loira de farmácia que acha que manda em todo mundo só porque o papai tem dinheiro, não é? E quanto ao seu amiguinho, , fique despreocupada desse aí eu não cheguei nem perto. – as duas ficaram me encarando assustadas pela minha resposta, pensando que eu não estava escutando.
- É bom nem chegar também, fique sabendo que ele é só meu. – ela revidou se mostrando irritada.
A morena baixinha olhava a amiga com admiração. Como isso é ridículo, ainda não sei o que me fez parar aqui. Ah, na verdade eu sei... E muito bem. Eu tinha uma vida feliz lá no Brasil, tinha meus amigos, minha mãe, Rob, meu padrasto, e a ... Aposto que se ela estivesse aqui hoje, estaria rindo de tudo isso, me dizendo pra não dar moral pra essas patricinhas de quinta categoria. Mas ela não está. E nunca vai estar de novo. A sofreu um acidente de carro começo do ano, estava voltando da casa do primo, os pais dela discutiam no carro e não viram quando o sinal fechou. Acabaram indo de encontro com um caminhão. Quando a ambulância chegou já era tarde pra ela. Irônico como todos sobreviveram e não sofreram nenhum arranhão, menos ela. Eu achei que fosse morrer quando minha mãe me deu a notícia. era como minha irmã, a conhecia desde que nasci. Ela foi sempre minha melhor amiga, minha confidente, meu apoio. Cinco meses se passaram desde a morte dela, foi quando minha mãe me obrigou a vir pra Inglaterra morar com o meu pai, que eu não via há dois anos. Ela disse que meu comportamento estava deixando ela preocupada. Quando que perguntei o que eu fiz de errado ela simplesmente me disse “A morreu filha! Ela não vai voltar, nunca mais! Você não pode ficar com essa depressão ridícula por causa disso pra sempre! Eu sei que é difícil pra você, também foi pra mim, mas agora já acabou! Você precisa voltar a viver!”. E bem, com o intuito de me fazer voltar à vida, ela me mandou pra cá. Meu inferno particular.
- Jura? Nossa agora eu fiquei com medo. – fiz uma cara de assustada e escutei algumas pessoas a nossa volta rindo. Esse sinal está demorando mais do que o normal pra bater, ou é impressão minha?
- Você não sabe com quem você ta mexendo garota! Não me provoque!
- Você que não sabe de nada menina, eu nem sei quem é e você vem me falar que eu saí dando em cima dele! Vai procurar outra coisa pra fazer fofoca, por exemplo, falar de como você fica parecendo um travesti com essa maquiagem. – sorri quando vi a cara de indignada que ela fez, e escutei o sinal tocar.
Finalmente.
Peguei minhas coisas e saí da sala indo em direção ao meu armário. Depois de guardar tudo dei meia volta e fui para o refeitório. Todos os olhares se viraram na minha direção quando eu passei pela porta meio azul. Será que esse pessoal daqui não tem coisa melhor pra fazer do que ficar encarando os alunos novos não? Fui até a fila, peguei meu almoço e fui me sentar na única mesa vazia.
- Hey, olha lá, foi ela que brigou com a Tracy hoje! – escutei uma garota do primeiro ano falar para amiga quando eu passei perto delas.
- Pois é! Escutei que elas estavam brigando por causa do ! Essa Tracy não se toca que ele nunca vai querer ficar com ela? Ele não fica com ninguém da escola desde que eu me lembre! – sorri comigo mesma quando vi que eu não era a única com uma antipatia com a Tracy. Me sentei na mesa, que ficava no canto norte do refeitório, a mesa mais longe da saída. Deixei meus olhos passearem pelo refeitório enquanto eu comia um pedaço de pizza. Procurei pela mesa dos populares para que eu pudesse ver o tão falado . Mas não vi ninguém que parecesse ser tão especial lá naquela mesa. Provavelmente era isso mesmo que ele era. Nada de especial, devia ser somente mais um idiota, assim como todos naquele lugar... Minhas lamentações acabaram quando eu coloquei meus olhos na porta do refeitório. Essa foi a primeira vez que eu o vi. Não me lembro de ter encontrado ele nos últimos dias passeando pelos corredores, aqui no refeitório ou em qualquer aula. O garoto usava uma calça jeans preta e uma camiseta branca, com uma estampa que eu não pude enxergar devido à distância que ele estava de mim. Quando ele entrou no refeitório, todos olharam, assim como fizeram comigo. Só que eu não era uma coisa bonita de se encarar. Ele sim, era. Seus olhos se encontraram com os meus por uma fração de segundos, porque logo ele desviou os mesmos para a fila da comida. Quando senti seus olhos nos meus, pareceu que uma corrente elétrica passou por mim. Nunca uma pessoa atraiu tanto a minha atenção quanto ele. Passei o resto do almoço o seguindo com o olhar, ele se sentou em uma mesa ao oposto da minha, com mais três garotos, igualmente sedutores, mas não tanto quanto ele. Eu também não tinha visto eles por aqui ainda. Podia ver que eles me encaravam de vez em quando, mas logo desviavam o olhar. Terminei meu almoço e resolvi que iria esperar ele terminar o dele também, mas mudei de ideia quando me lembrei que as pessoas iriam notar. Cada passo era notado nessa cidadezinha idiota. “Ou não tão mais idiota assim” pensei quando passei ao lado da mesa do garoto. Pude sentir seu olhar sobre mim enquanto eu saia do refeitório e ia buscar meus livros para a próxima aula.
O sinal bateu novamente, indicando o começo de outra hora de tortura. Mas depois me lembrei que o menino do refeitório poderia estar lá, então me apressei em ir para a sala. Com a minha pressa, acabei esbarrando em alguém e derrubando meus livros, e os da pessoa.
- Me desculpa, eu estava distraída... – disse me abaixando pra pegar os livros, vi que a pessoa se abaixou também e levantei meu olhar pra ver quem era. E meus olhos encontraram com os dele. Novos choques. O menino do refeitório sorria pra mim. Ele me olhava de um jeito que eu não sabia se conseguia explicar. Como se tivesse encontrado uma relíquia ou sei lá.
- Sem problemas, eu não estava prestando atenção. – sua voz era levemente rouca, mas de um jeito que deixava ele completamente sexy. Ele pegou os livros e se levantou, fiz o mesmo e o vi estender os meus livros pra mim. Peguei todos e fiquei encarando aquela criatura assustadora e divina que estava parada na minha frente.
- Sou o . – ele disse estendendo a mão. Apertei a mão dele e nesse momento as luzes do corredor se apagaram e um vento forte e frio bagunçou os meus cabelos. Comecei a escutar gritos, olhei para os lados assustada e procurando o barulho, mas não vi nada além de mim e ele. Seus olhos estavam vermelhos, as olheiras mais visíveis, mas ainda sim perfeito. Pisquei mais uma vez e sacudi a cabeça, as luzes agora estavam acesas, os alunos passavam no corredor normalmente e não tinha nenhum vento ou grito por aqui. me encarava com uma expressão divertida. Acho que eu estou ficando louca.
- , mas pode me chamar de . – ele sorriu e soltou minha mão.
- Bom , eu tenho que ir agora, a gente conversa depois... – ele disse com aquela voz rouca, acenou e foi embora, para direção oposta a minha. Ou seja, nossas aulas não são juntas. Continuei meu caminho para a sala bem mais desanimada do que antes. Acabei chegando atrasada, levando uma bronca do professor e virando motivo de conversa dos alunos, mais uma vez.
Nenhuma das minhas aulas nesse dia foram com o . Não o vi na saída também. Acho que eu ‘to começando a imaginar pessoas agora. Fui caminhando lentamente para minha casa, que não ficava muito longe da escola. Nada aqui era longe. Essa cidade era ridiculamente pequena e pacata. Enquanto caminhava fiquei me lembrando do , ele não era minha imaginação. Claro que não, se a Tracy e as meninas do primeiro ano falaram dele, eu não estava louca a ponto de imaginar alguém tão interessante. Me lembrei também das coisas que eu vi quando ele tocou minha mão. Isso sim eu tinha certeza que era invenção da minha cabeça. Cheguei na rua de casa e vi meu pai estacionando. Ótimo, tarde em família.
- ! Chegou cedo! – ele disse vindo em minha direção e me abraçando meio desajeitado. Eu não via meu pai muito, a distância era a minha maior desculpa. O Brasil fica bem longe da Inglaterra se você quer saber.
- Eu sempre chego essa hora, pai. – Era estranho ter que chamar ele de pai. Eu me sentia desconfortável.
Entramos em casa e eu falei que ia tomar um banho, passar a tarde vendo TV com ele não era meu maior desejo no momento. Subi as escadas e entrei no meu quarto. Joguei a mochila em algum canto e me deitei na cama. Pouco tempo depois eu não estava mais consciente.

Capítulo Dois.

- Eu não tenho escolha, eu preciso fazer isso. – me dizia, seus olhos estavam vermelhos como sangue e ele me olhava com dor. Parecia estar sofrendo.
- Fazer o que? – perguntei me aproximando. Ele foi andando pra trás, indo de encontro a uma parede escura.
- Eu não quero fazer, mas eu preciso. – ele disse e eu continuei sem entender o que estava acontecendo.
- Que droga! Fazer o que? – perguntei irritada com tudo aquilo.
- Te matar.

Acordei suando e caída no chão do meu quarto. Olhei no relógio e eram cinco e meia da manhã. Eu ainda estava com a roupa de ontem. Me levantei e fui em silêncio até o banheiro, que ficava no corredor. Tirei minhas roupas e tomei um banho nem tão rápido nem demorado, já que se eu demorasse de mais ia chegar atrasada no colégio. Enquanto a água quente caia na minha pele, eu tentava me lembrar do sonho que tive, mas sem muito sucesso. Só me lembrava que o estava nele e que seus olhos estavam iguais à ontem, quando eu tive aquelas visões. Saí do chuveiro e me enrolei na toalha, fui até o meu quarto e me troquei para a escola.
- Bom dia, ! – meu pai disse animado quando me sentei na mesa. Peguei uma fatia de torrada e sorri.
- Bom dia... Animado hoje? – perguntei, vendo que ele estava com uma cara melhor do que nos dias normais.
- Claro, hoje é sexta feira! Vai fazer alguma coisa no fim de semana? – ele perguntou, eu sacudi a cabeça negativamente e voltei a comer. Quando terminei, fui ao meu banheiro e escovei os dentes, dei uma última olhada no espelho e desci pegando minha mochila no caminho.
- Quer carona? – meu pai perguntou se levantando da mesa.
- Não, a escola é aqui do lado... E eu gosto de andar. – respondi já abrindo a porta. – Tchau, pai.
O dia hoje estava nublado, o que não é nenhuma novidade por aqui, mas eu podia sentir que tinha alguma coisa de diferente no clima. Não sei o que era, provavelmente iria chover... Devia ser isso, sempre que venta muito, chove. Pensei quando o barulho do vento enchia meus ouvidos. Cheguei à escola mais cedo do que planejava e fiquei sem ter o que fazer até bater o sinal. Fui até meu armário e fiquei esperando o tempo passar me distraindo com o cadeado.
- Problemas pra abrir? – me virei pra ver a pessoa que falava comigo, mesmo já sabendo quem era o dono da voz rouca e extremamente sedutora.
- Na verdade, só estava esperando o tempo passar. – respondi tentando não deixar transparecer o meu nervosismo de estar falando com ele.
- Hum... Dormiu bem? – ele perguntou, como se soubesse que eu iria dizer que não.
- Não muito, tive um sonho estranho... – disse olhando a sua expressão mudar rapidamente, ele adquiriu um olhar preocupado. Não preocupado comigo, mas com o sonho.
- Quer me contar? - sussurrou se aproximando de mim, mas sem me tocar, ficando a apenas uns centímetros de distância.
- Eu... eu não me lembro. – respondi baixinho, já que a nossa distância me impedia de falar alto. Ele sorriu aliviado e voltou à posição de antes. Longe de mim.
- Acho que o sinal vai bater. Vamos? – assenti pegando meus livros no armário. O sinal tocou assim que eu o fechei.
- Qual é a sua primeira aula? – perguntei enquanto caminhávamos em direção a sala de química.
- A mesma que a sua. – respondeu enquanto acenava para uma menina que passava.
Tracy era o nome dela. Essa garota me irrita, achei que ele não desse bola pra ela!, pensei sentindo uma raiva repentina me dominar.
- Eu não te vi nos outros dias, estava viajando? – perguntei em uma tentativa de voltar ao normal. Ele sorriu pra mim e negou.
- Estava, hum... Doente. – ele parou de sorrir um pouco. – É, eu definitivamente estava doente.
- Está melhor agora? – perguntei, já entrando na sala e me dirigindo para uma das cadeiras livres no fundo. Não estava nos meus planos prestar atenção na aula de química hoje. colocou seus livros na cadeira ao lado da minha. Eu não iria mesmo prestar atenção na aula.
- Na medida do possível. – respondeu se sentando, fiz o mesmo e fiquei calada esperando o professor entrar e começar a falar, coisa que não demorou muito tempo. Eu sentia seu olhar sobre mim durante a aula inteira e isso me desconcentrava bastante. Olhava pra ele, com intenção de que assim ele parasse, mas ele só sorria e continuava a me encarar. Ele parou de me olhar por alguns segundos enquanto escrevia alguma coisa em um pedaço de papel do seu caderno, que estava em branco desde o começo da aula. Quando ele terminou de escrever tacou o papel na minha mesa.

“Você tem olhos bonitos.”

Fiquei olhando ele, tentando entender o sentido daquilo. Corei quando ele sussurrou um “É verdade”. O sinal bateu depois de um tempo, me fazendo pegar meu material e sair da sala o mais rápido possível. Não queria ficar esperando o , aliás, nem sei por que ele começou a andar comigo... Isso vai me trazer mais problemas nessa escola, por mais lindo que ele seja eu não posso andar com ele. Não agora que eu ainda estou tentando fazer amigos.
- Não gostou da minha companhia? – ele perguntou me alcançando rapidamente no corredor.
- Só não quero chamar atenção. – respondi simplesmente.
- Eu chamo atenção? – perguntou parecendo se divertir com isso. Eu andava mais rápido deixando ele ficar um pouco longe de mim e olhava para ver se a Tracy estava por aqui.
- Chama. – e então ele segurou meu braço, me forçando a virar pra ele, quando me virei as luzes estavam apagadas e o vento e os gritos voltaram assim como da primeira vez que ele me tocou, só que dessa vez mais alto. Seus olhos estavam vermelhos como sangue. E então eu me lembrei do meu sonho.
- O que você quer? – perguntei tentando me soltar. Mais uma memória veio a minha cabeça.
Te matar.
- Ser seu amigo. – após ele pronunciar essas palavras, ele soltou meu braço e as coisas voltaram ao normal. No lugar de gritos, eu só escutava as conversas dos alunos. E a luz iluminava o corredor. Seus olhos não tinham nenhum vestígio de sangue.
- Amigo? Eu nem te conheço. – respondi. Pelo jeito que as meninas falaram antes, ele não saia muito com as meninas daqui. E desde que eu me lembre eu sou uma menina.
- Se você me desse uma chance, podia conhecer. Mas parece que você não gosta de ser vista com pessoas. – riu ao pronunciar a última palavra. Acho que não tem problema em ser amiga dele. A Tracy que se dane. Isso mesmo, eu é que não vou ficar me privando de andar com ele pra não ser motivo de fofoca.
- Ok, só não vale desperdiçar a chance. Eu só vou te dar uma.
- Não vou. – sorri e fui acompanhada dele até o refeitório, senti todos os olhares sobre a gente assim que passamos as portas azuis.
- Quer se sentar com os meus amigos, ou prefere ficar na sua mesa? – ele perguntou já andando em direção a mesa que estava sentado ontem com os outros meninos. Como se já soubesse o que eu iria escolher.
- Quero conhecer seus amigos. Só espero que eles sejam simpáticos como você. – ele sorriu e logo chegamos à mesa, em que outros três meninos, muito bonitos, já estavam sentados.
- Gente, essa é a . – ele me apresentou, os meninos olharam pra ele e riram, depois se viraram pra mim.
- Eu sou o . – começaram a se apresentar por ordem de como estavam sentados na mesa.
- .
- , e é um prazer te conhecer. Finalmente. – foi repreendido por um olhar nada amigável do .
- Finalmente? – perguntei, me sentando.
- Claro, hum... Todo mundo só falou de você essa semana. – respondeu. Suspirei e assenti.
- Imagino. – respondi.
- Você não quer comer nada? – me perguntou, só então que eu reparei que seus amigos estavam comendo.
- Acho que não, só uma coca, vou lá buscar, quer alguma coisa? – perguntei já me levantando.
- Não, tudo bem, eu busco pra você. – e então ele se levantou bem mais rápido que eu e foi para a fila.
- Da onde você é mesmo, ? – me perguntou, quando me sentei novamente.
- Brasil. Por quê?
- Seu sotaque... É diferente. – murmurei um “hum” e fiquei olhando eles comerem.
Me perguntei onde os quatro estavam essa semana. A desculpa do doente do não me convenceu, ainda mais sabendo que os seus amigos também faltaram nos mesmos dias que ele. Logo o tinha voltado à mesa e me entregado a coca.
Passei o resto do dia andando com ele e por incrível que pareça todas as nossas aulas do dia foram juntas. Eu podia sentir o olhar dos alunos em mim enquanto eu caminhava em direção ao portão da escola, com ao meu lado.
- Posso te acompanhar? – perguntou quando viu que eu pretendia ir embora.
- Você mora perto de mim? Se não, vai ser um desperdiço... – disse já começando a andar em direção a próxima rua.
- Nenhum tempo gasto com você é desperdiçado. – respondeu ao meu lado, sorrindo. Arquei a sobrancelha em sinal de dúvida e ele riu alto, fazendo algumas pessoas que estavam na rua olharem.
Fomos andando em silêncio, fato que não me incomodou, eu gosto do silêncio e chegamos na minha casa em poucos minutos, a distância era realmente pequena.
- Quer entrar? – perguntei enquanto pegava a chave da porta na minha bolsa.
- Deixa pra um outro dia. Até amanhã, . – disse sorrindo e se foi, me virei em direção a porta e abri a mesma, tendo um pouco de dificuldade com a chave. Meu pai não estava em casa, então teria a tarde toda pra mim. Sorri sozinha e fui para o meu quarto, fechei a porta e coloquei um CD antigo para tocar. Me deitei na cama e dormi, até escutar meu pai me chamando pra jantar.

Capítulo Três.

- Como foi seu dia? – ele perguntou assim que me sentei na mesa. Ele tinha pedido pizza.
- Legal. – respondi automaticamente e pegando um pedaço da pizza logo em seguida.
- Sua mãe ligou enquanto você estava dormindo... Queria saber como você estava e disse que liga amanhã de novo.
- Hum... Legal. – respondi no automático de novo. Minha cabeça estava meio longe.
- Legal... – ele murmurou meio irônico. - Vai fazer o que amanhã?
- Amanhã? Eu vou pra escola. – disse meio confusa pela pergunta.
- Vai para a escola no sábado?
- Ah, me esqueci de que amanhã é sábado... – ele riu. – Acho que vou ficar aqui. Por quê?
- Nada, pensei que talvez você fosse sair. Com algum amigo.
- Eu cheguei há uma semana pai, ainda não fiz amigos. – meus pensamentos foram parar nas palavras do hoje de manhã. Ser seu amigo.
- Claro...
Passamos o resto do jantar em silêncio, assim que eu acabei, lavei meu prato e voltei pro quarto após falar “boa noite” pro meu pai. Tomei um banho demorado, e demorei o mesmo tempo pra secar meu cabelo, tinha perdido o sono. Preciso parar de dormir à tarde. Está virando um péssimo hábito.
Já eram umas duas da manhã quando consegui dormir, acordei cedo do mesmo jeito. Sai cambaleando pela casa a procura do meu pai e encontrei um bilhete na geladeira.
“Aconteceu um imprevisto de última hora, precisei ir para Londres, volto segunda pela manhã. Tem dinheiro no pote de biscoitos lá na sala, qualquer coisa me ligue.”
Fiquei com uma raiva súbita do tal cliente, que fez meu pai me deixar sozinha por um fim de semana inteiro nessa cidade pacata. Meu pai era um advogado, muito bem sucedido se posso dizer, na verdade não sei por que ele mora aqui nesse lugar...
Ele acaba viajando muito e assim, de última hora mesmo. Mas a raiva passou quando pensei o quão bom poderia ser passar uns dias sozinha, sem ninguém pra perguntar como estou. É pensando bem mesmo, isso seria realmente bom.
Voltei ao meu quarto e coloquei uma calça jeans, uma regata branca e um casaco fino roxo por cima, calcei o primeiro tênis que achei jogado no meu chão e desci as escadas, pegando uma maçã enquanto saia, apressadamente, pela porta. Voltei quando me lembrei que esqueci da bolsa. Chequei tudo antes de sair de novo, e fui caminhando até chegar ao parque. Peguei meu I-pod e coloquei uma música qualquer para tocar no volume máximo. Eu podia odiar essa cidade com todas as minhas forças, mas precisava admitir que esse parque era o lugar mais calmo que eu já vi em toda a minha vida. Eu gostava disso. Me sentei em um banco qualquer e fiquei olhando as pessoas passearem lá grande parte da manhã. Fiquei lembrando em como minha vida se tornou nessa coisa chata e sem sentido que está hoje.
- Pensando na vida? – tirei um dos fones do ouvido e me virei para ver quem falava comigo. Como se eu não soubesse... Reconheceria essa voz até dormindo.
- É... Como me achou aqui? – perguntei, vendo-o sorrir logo em seguida.
- Quem disse que eu estava te procurando? – disse rindo. – Eu estava andando e te vi aqui sentada nesse bando molhado, parecendo uma autista.
- Claro, me esqueci que as pessoas tem o hábito de caminhar de manhã. – respondi sorrindo. Escutar a sua risada me deixava com vontade de rir junto.
Talvez minha vida não esteja tão sem sentido assim.
- Vai fazer o que hoje? – ele perguntou, depois de um tempo em silêncio.
- Provavelmente nada. Acho que vou ao supermercado, meu pai não deve ter deixado comida pra mim.
- Seu pai viajou? – perguntou, novamente com daquele jeito estranho, como se já soubesse a resposta.
- Sim, hoje cedo...
- Você pode dormir lá em casa se quiser. – fiquei encarando ele, que esperava a minha resposta.
- Claro que não! – respondi meio nervosa. – Eu nem te conheço! – ele riu, não, ele gargalhou na verdade.
- Verdade, que maluquice a minha, chamando uma desconhecida pra passar a noite comigo.
- Como se você não fizesse isso... – murmurei. O vi fazendo uma careta e olhar pra frente.
- Você podia ao menos passar o dia comigo... O que acha? – olhei pra ele e uma vontade súbita de dizer que sim me dominou.
- Tudo bem. Mas você vai ter que ir ao supermercado comigo então. - eu disse achando que ele iria pensar melhor e ir embora sem nem me falar tchau. Eu torcia pra que isso não acontecesse.
- Sem problemas. Mas depois eu vou te levar pra um lugar também.
- Que lugar? – perguntei curiosa.
- Um que eu gosto bastante de ir. – ele sorriu de um jeito que me deu medo, mas eu concordei e me levantei do banco. fez o mesmo, coloquei o fone do I-pod no ouvido novamente e voltei a caminhar, só que dessa vez, em direção ao centro da cidade.
- Eu posso te levar de carro, se quiser. – me perguntou, enquanto caminhava ao meu lado.
- Eu posso ir andando, obrigada. – ele riu e se virou, fazendo o caminho contrário ao meu.
Droga, ele vai embora. Cogitei a possibilidade dele voltar e só estar brincando comigo, mas isso não aconteceu. Fiquei um tempo olhando pro lado que ele foi, mas depois de uns cinco minutos, desisti. Voltei a andar, me xingando mentalmente por ter tratado ele tão mal. A primeira pessoa daqui que quis se aproximar de mim e eu já consegui fazer ela se afastar. E meu Deus, que pessoa... Cheguei ao supermercado em no máximo dez minutos, tudo ficava perto nesse lugar. Entrei lá dentro e peguei o primeiro carrinho que encontrei, sem me importar se era grande de mais para o que eu ia comprar. Fui caminhando pelos corredores, pegando as coisas que precisava levar, a maioria era comida. Parei na parte de frutas, que ironicamente ficava ao lado da seção de doces. Eu sorri enquanto ignorava as frutas, passava reto até chegar à prateleira cheia de chocolates.
- Quanto chocolate! Que tipo de pessoa é você? – uma risada gostosa invadiu meus ouvidos.
- Achei que você tinha ido embora. – me virei e encontrei seus olhos, incrivelmente profundos, me encarando sorrindo. Ele deu de ombros.
- Você disse que não queria vir de carro e, bem, eu não queria vir andando. – sorri aliviada porque ele não estava irritado nem nada do tipo comigo.
- O que você tem contra muito chocolate? – eu perguntei após começarmos a andar, me virei em direção a parte de frios.
- Nada. – ele levantou as mãos, como se fosse inocente e riu.
Fui pegando algumas balas e bolachas, mas infelizmente a parte das coisas calóricas acabou logo.
O me olhava sorrindo e eu sentia calafrios toda vez que olhava de volta. Associei isso ao fato dele ficar extremamente lindo com esse moletom que devia ser, pelo menos, um número maior que o normal.
Terminei de fazer as compras e fiquei feliz quando isso acabou. Não sou muito fã do supermercado, apesar de que, conversar com o enquanto eu comprava carne, foi uma experiência muito, muito interessante. Ele falava de coisas aleatórias, mas que por mais estranho que possa parecer, me agradavam. Me perguntou minhas bandas favoritas, filmes que eu gostava ou não... Eu sentia falta de conversar sobre essas coisas idiotas de adolescentes às vezes. E ele parecia saber disso.
Fiquei fitando as inúmeras sacolas de compras um segundo, antes de perceber que eu nunca ia conseguir carregar todas até a minha casa. Me perguntei se seria abusado demais pedir uma ajuda pro , afinal, ele estava de carro e bem, ele veio comigo até aqui, não bem comigo, mas ele veio pra ficar comigo, eu acho.
- Vamos, eu te levo de carro. – ele disse, já pegando metade das sacolas e indo em direção a um carro preto que estava estacionado em frente ao supermercado. Pelo menos eu nem precisei pedir... Pensei, enquanto pegava as sacolas que sobraram, meio desastradamente. Cheguei ao carro e ele pegou as sacolas da minha mão, colocando no porta-malas. Sua mão roçou na minha por uma fração de segundos e, então, tudo estava escuro.
Eu podia escutar os gritos, os mesmos que eu escutei nas outras vezes que eu encostei no . E foram poucas. Isso me deixou subitamente irritada, mas não tive muito tempo pra ficar nervosa, já que no próximo segundo, não havia mais gritos ou escuridão. Havia somente um me encarando. Eu podia sentir dor no seu olhar, e imaginar que ele estava sofrendo, por qualquer razão, me deixou angustiada, uma criatura tão divina quanto ele não merecia sofrer.
Pensei em falar pra ele sobre essas ilusões que eu estava tento no caminho até a minha casa, mas fiquei com um pouco de medo de quebrar o silêncio que se instaurou no carro desde que ele começou a dirigir. Chegamos em casa logo, mesmo parecendo não prestar atenção nas ruas, ele dirigia em uma velocidade incrível e desviava de todos os carros que apareciam na nossa frente.
Ele saiu do carro e bateu a porta com bastante força, me fazendo dar um pulo de susto. Saí do carro, receosa e o vi com as sacolas na mão.
- Você pode abrir a porta? – ele perguntou indo em direção a entrada da casa. Corri até lá pra poder chegar antes e destrancar a porta pra ele. Após fazê-lo, voltei em direção ao carro pegando as últimas sacolas. Fechei o porta-malas e andei até a minha casa. Bati a porta após entrar e tranquei a mesma, com um medo repentino de que o pudesse ir embora.

Capítulo Quatro.

Levei as sacolas até a cozinha e encontrei encostado na bancada de mármore que tinha lá. É realmente possível que alguém seja tão bonito quanto ele?
- Hum... Eu acho que vou embora. – ele disse assim que eu me aproximei.
- Você disse que ia ficar comigo hoje. – falei baixo, mas o suficiente para que ele ouvisse.
- E você disse que nem me conhecia.
- Eu não ligo se te conheço ou não... Fica mais. – implorei, chegando ainda mais perto, eu não sei o que ta acontecendo comigo.
De verdade, eu não devia estar fazendo isso. Não mesmo. Senti meu corpo chegando mais perto ao dele como um imã. E eu gostava de chegar mais perto. Dei mais um passo pra frente e quando eu podia dizer que estávamos quase nos tocando, se virou, ficando atrás de mim e sussurrou no meu ouvido, me deixando levemente arrepiada.
- Melhor não chegar tão perto se quiser que eu fique. – me virei, achando que iria encontrar seu rosto perto do meu, mas não. Ele já estava sentado na mesa.
- Tudo bem então, Sr. Distância... Você quer fazer alguma coisa? – perguntei indo em direção à mesa e pegando as compras da sacola, guardando elas logo em seguida.
- Yep. – ele disse depois de algum tempo pensando. Me sentei na cadeira em frente a que ele estava.
- O que?
- Quero saber mais de você. – eu olhei pra ele, esperando que fosse brincadeira e quando vi que não era, comecei a rir. Ele me olhou confuso. – Que foi?
- Nada, mas quem devia falar isso era eu. O estranho aqui é você. – ele me olhou com a feição meio... Triste?
- Você também é estranha pra mim, se não se lembra. – falou, voltando com seu típico sorriso no rosto. Sorri também.
- Você tem razão. – concordei.
- Então eu vou te contar de mim e você me conta de você também. Tudo bem assim?
- Tudo bem. – respondi me levantando.
Me dirigi em direção à sala e vi o vir atrás de mim, eu me sentei no sofá deixando um espaço pra ele se sentar ao meu lado. Mas ele não o fez.
Fiz uma careta quando o contornou o sofá e se sentou na poltrona. Ele riu quando viu a minha cara. Legal. Queria a aqui pra me ajudar, eu realmente não sei fazer nada certo.
- Você tem quantos anos? – ele perguntou.
- Dezesseis. – sorriu. – E você?
- Dezoito.
- Mas você tava na minha sala... Repetiu? – ele negou com a cabeça. – Então o que você estava fazendo nas minhas aulas ontem? – começou a gargalhar.
- Eu queria ficar perto de você. – deu de ombros. Eu corei.
- E os professores?
- Nem perceberam...
- Adoro os profissionais de hoje em dia... – falei irônica. Ele sorriu.
- Sua comida preferida?
A conversa seguiu assim pelas próximas horas e, quando eu percebi, já eram sete e dez. A gente não conversou tanto assim, conversamos?
- Nossa já ta tarde... – eu disse, olhando pro relógio em cima da mesinha de centro.
- Isso é uma indireta pra eu ir embora? – perguntou sorrindo.
Já comentei que eu adoro quando ele sorri? Sei que pode parecer um pouco cedo pra eu ficar adorando esse tipo de coisa, mas eu não consigo evitar.
- Não! Quer dizer, só se você quiser, claro. – eespondi, vendo o seu sorriso aumentar.
- Eu queria ficar. – queria, passado. Ele não vai ficar. – Mas tenho que resolver uns problemas ainda hoje. Se você quiser a gente pode sair amanhã. Você podeir à minha casa dessa vez, agora que já viu que eu não sou um maníaco.
- Hum... Ok, pode ser. – disse tentando parecer animada. Eu queria que ele ficasse mais.
- Então eu venho te buscar lá pelas dez. – ele disse se levantando, fiz o mesmo.
- Da noite? – perguntei assustada. Ele riu e começou, foi em direção à porta. Fui indo atrás.
- Claro que não. A não ser que você prefira ir a noite... – ele respondeu rindo. Já tínhamos chegado na porta. Eu coloquei a mão na maçaneta, mas não a abri.
- De manhã parece bom. – fiquei olhando ele, até ele sorrir ao olhar pra minha mão na maçaneta.
- Você não vai abrir? – perguntou apontando pra minha mão. Eu fiquei vermelha e abri a porta. Ele saiu e se virou pra mim e ficou me encarando, mas logo desviou seu olhar. – Até amanhã.
Foi a última coisa que ele disse antes de sair andando para entrar no carro e desaparecer. Fechei a porta e subi as escadas, indo pro meu quarto. Fui tirando as roupas no caminho pro banheiro, deixando-as espalhadas pelo chão. Depois eu arrumaria isso. Liguei o chuveiro e entrei, sem nem mesmo esperar a água esquentar. Meu corpo se encolheu ao entrar em contato com a água fria, mas logo ela esquentou, me trazendo uma sensação de relaxamento. Acho que perdi o juízo.

Dez e três. Ele ainda não tinha chegado. Eu devo realmente estar ficando louca. está três minutos fora da hora e eu já com esses pensamentos idiotas de que ele desistiu de mim. É claro que ele não desistiu, ele nem tentou nada pra desistir! Me olhei mais uma vez no espelho, arrumando o cabelo de novo. Já perdi a conta de quantas vezes eu mexi nele essa manhã. E isso soa completamente ridículo. Escutei uma batida leve na porta, senti meu coração acelerar e isso era ainda mais idiota do que o lance do cabelo. Eu preciso controlar meus hormônios. Só para não perder o costume dei mais uma olhada do espelho. Tudo certo. Andei em direção à porta e peguei a minha bolsa no caminho.
- Oi. – ele disse assim que eu abri a porta. Sorri e me aproximei, me levantando na ponta do pé para alcançar o seu rosto e poder dar um beijo na bochecha. Ele se estremeceu com tal ato e foi um pouco pra trás. Coisa que não adiantou, porque eu já tinha encostado nele. E então, como um flash, tudo ficou escuro e aqueles gritos idiotas voltaram. Sacudi a cabeça e me virei procurando pelo . Mas que droga era essa agora? Qual era o meu problema? E que gritos são esses, caramba!
- ? – chamei, olhando a escuridão que me cercava de todos os lados.
- Vamos? – e como o flash que fez tudo ficar escuro, assim que ele falou as coisas voltaram ao normal.
- O que? – respondi confusa, procurando algum sinal de escuridão, ou de pessoas gritando.
- Vamos embora? Você ficou parada ai encarando nada um tempão... Acho que não quer ir mais. – forcei um sorriso e dei de ombros.
- Só estava meio distraída. – ele sorriu e foi indo em direção ao carro, o mesmo de ontem.
Eu ia falar pra ele sobre essas visões que eu estou tendo, mas pelo o que ele me disse, ele não vê as mesmas coisas que eu. Acho que isso dever ser só invenção da minha mente. Mas que coisa, é claro que é invenção! Essa cidade não faz bem pra minha cabeça, não mesmo.
- Droga. – ele murmurou quando viu que começava a chover.
- Não gosta de chuva? – eu perguntei e ele negou.
- Não muito. O barulho me irrita.
- Hum...
Silêncio. O carro já estava andando há mais de vinte minutos quando o entrou em uma rua que eu nunca tinha estado antes. Se bem que eu nunca tive paciência suficiente pra sair e ficar olhando as ruas dessa cidade. Seria inútil.
Ou nem tanto. Ele parou em frente a uma casa muito bonita e grande. Na verdade, agora parando pra olhar, todas as cassas dessa rua eram assim. Enormes e bonitas.
- É a sua casa? – eu perguntei enquanto ele entrava pelo portão.
- Sim.
- Eu gostei. – vi que ele sorriu e parou o carro na garagem. Eu me atrapalhei um pouco na hora de tirar o cinto e isso rendeu algumas risadas do , que saiu, abriu a minha porta e me ajudou. Sorri agradecida e saí do carro.
- A casa é sua. – ele disse abrindo a porta que ficava na garagem.
- Seus pais, eles estão aqui? – eu perguntei enquanto entrava, dei uma olhava em volta. Só vi uma escada.
- Não... – ele murmurou. – É só subir as escadas, o ta lá na sala. Eu já vou.
Concordei me perguntando se teria mais alguém aqui. Eu achei que ia ser só nós dois. nenhum estava incluso nos meus planos. Se bem que eu não tinha um plano, e nem sabia para o que seria esse plano. Caso ele existisse, claro.
- ? – escutei uma voz, pouco conhecida vindo do fim da escadaria. Reconheci sendo a do , eu só lembrava dele do dia que almocei com o . Ele me parecia ser legal. – Eu to aqui na sala.
As escadas acabaram e eu vi uma porta na minha frente, que eu deduzi não ser a sala, já que eu podia escutar um barulho de vídeogame vindo do meu lado direito. Fui seguindo o som até encontrar o sentado em um sofá marrom jogando qualquer coisa no vídeogame.
- Hey. – eu disse chegando mais perto. Ele pausou o jogo e levantou seu olhar pra mim.
- O já te deixou sozinha né? – eu balancei a cabeça concordando e ele riu. Uma risada divertida. Me sentei ao seu lado no sofá, e ele voltou a jogar, me entregando um outro controle logo depois.
- Vamos, joga! – ele exclamou enquanto eu ainda olhava o pequeno objeto na minha mão. Olhei pra ele e comecei a rir.
- Eu não sei jogar isso. – me encarou incrédulo e se levantou, saindo da sala. O segui com o olhar, confusa por tal ato dele. Mas logo eu escutei as gargalhadas do invadirem a sala.
- Então ela não sabe jogar... – ele disse entrando na sala. vinha logo depois dele, rindo. Fiquei mais aliviada, eu não irritei o melhor amigo do cara que eu estou possivelmente gostando. Isso seria um péssimo começo.
- Eu não entendo, qualquer um sabe jogar isso, até você! – o disse com uma cara muito engraçada, que me fez rir.
- Me desculpa eu não sei mesmo... – eu disse chegando um pouco pro lado e dando espaço pro se sentar.
Ele sorriu e se jogou ao meu lado, de um jeito muito desleixado, pegou o controle da minha mão enquanto o se sentava no outro sofá. Esticando as pernas na mesinha de centro.
- Vou te mostrar como se corre, . – disse de um jeito muito ameaçador. Bom, ameaçador pro que se encolheu no sofá, mas pra mim foi apenas... Sexy.
Ok, o que ta acontecendo comigo? Qual é o meu problema? Há três dias atrás eu nem sabia quem era , eu nem queria saber quem ele era! Então por que agora eu estou desse jeito? Agindo feito uma menininha apaixonada? Não que eu não seja uma menininha, mas eu nunca agi assim antes. Nunca, e por ninguém. Ainda mas alguém que eu acabei de conhecer! Isso é completamente idiota.
- ! Acorda! – o me sacudia delicadamente, e eu o olhei confusa. Acordar?
- Mas eu to acordada. – respondi, olhando pro lado e vendo o sorrir com as minhas palavras.
- Ta nada, a gente ta te chamando tem uns cinco minutos. Você nem ligou. – voltei a olhar pro e sorri. Ele se parece com a . Isso me faz sentir confortável.
- Você é muito estranha ... O não devia ter te trazido pra casa dele. – Ele disse enquanto eu ria do tom de voz preocupado que ele tinha.
- Eu gosto de você, . – disse simplesmente, ele bateu a mão na testa e o gargalhou ao meu lado.
- Vamos, eu to com fome. – ele disse após parar de rir, se levantando e indo até a porta que ficava em frente à escada. A cozinha devia ser lá.

- Eu preciso ir... – disse me levantando do sofá em que eu estava sentada vendo o e o jogarem. De novo.
- Mas ta cedo. – o disse sem nem tirar os olhos da TV. Eu sorri.
- Tudo bem, eu te levo. – o disse simplesmente.
- É claro né, eu vim com você. – eu falei rindo.
O me mandou um beijo no ar. Eu teria achado isso muito gay se não tivesse passado a tarde com ele. Fui seguindo o pelo pequeno corredor que levava de volta a garagem e, só então eu percebi que já estava escuro. Eu sabia que estava tarde, mas nem tanto.
- Pode entrar, ta destrancado. – disse entrando na casa de novo. – Eu já volto.

Murmurei um ok e entrei no carro. Pouco tempo depois ele já tinha voltado e ligado o carro.
- Me desculpa pelo hoje... É ele ficou sem ter onde dormir e eu disse que não tinha problema ficar aqui. – ele me olhou meio sem jeito. Eu sorri de volta.
- Foi legal. Eu gosto dele, me lembra de uma amiga.
- Eu sei... Ele tem mesmo jeito de menina. – comecei a rir e fiquei feliz por ele não querer saber que amiga.
A gente já estava chegando em casa quando o se virou meio hesitante pra mim.
- Eu, quer dizer, você...
- Eu? – esperei ele continuar e o vi dar um sorriso torto.
- Quer ir pra escola comigo? Eu posso passar aqui amanhã, se você quiser, claro.
- De carro? Eu moro pertinho da escola, não precisa se preocupar comigo.
- Eu não ia fazer isso por preocupação... – demorei um tempo até entender o que ele estava falando e quando eu entendi a gente já tinha chegado.
- Que horas você vem? – ele abriu um sorriso quando eu pronunciei essas palavras.
- Às oito ta bom? – eu sorri concordando e saí do carro.
Quando eu abri a porta escutei um barulho vindo da cozinha, olhei em direção à rua, mas o já tinha ido.
- Filha? – escutei a voz do meu pai e em seguida um barulho de panelas caindo.
Deixei a minha bolsa no sofá e fui pra cozinha, encontrando meu pai pegando as panelas que ele havia deixado cair. Dei um aceno com a cabeça quando ele me olhou.
- Achei que você só ia voltar amanhã. – eu falei me sentando em um dos bancos da bancada.
- É, eu também. – ele riu. – Consegui terminar tudo antes. Onde você estava, falando nisso?
- Eu passei a tarde com uns amigos. – falei, tentando soar o mais normal possível.
- Amigos? – concordei brevemente, pegando uma maçã na fruteira. – Legal...
- Vou tomar um banho e me deitar... Boa noite.
Escutei ele murmurar alguma coisa enquanto eu subia as escadas, mas não consegui prestar atenção. Minha cabeça estava meio longe.

Capítulo Cinco.

- Eu já to descendo, pai! – gritei enquanto terminava de calçar os tênis. O tinha chegada há uns bons cinco minutos e como eu estava no banheiro meu pai abriu a porta e ficou conversando com ele. Fiquei com medo de imaginar o que eles conversaram enquanto eu terminava de colocar a minha roupa.
- Hum... Bom dia, gente. – falei quando entrei na sala e vi os dois no sofá rindo de alguma coisa. O sorriu pra mim.
- Bom dia, filha. Achei que você não ia mais aparecer, vocês estão atrasados, sabia?
- É eu sei... – falei meio envergonhada. – Melhor a gente ir logo. Tchau, pai.
- Tchau, . – meu pai disse se dirigindo à mim e estendendo a mão pro logo depois. – Foi um prazer te conhecer . Apareça mais vezes.
- Claro, o prazer foi todo meu, senhor. – rolei os olhos e fui indo em direção à porta, na esperança de que o percebesse e viesse logo.
Não era legal ele conhecer o meu pai. Talvez só um pouco, já que meu pai pareceu gostar dele. Mas continuava não sendo legal. A gente se conhece a menos de uma semana, por Deus! Isso não era pra ter acontecido, não mesmo!
- Vamos, ? – disse passando por mim na porta e indo em direção ao carro.
- Aham. – ,murmurei seguindo ele.
Fiquei em silêncio no carro até que me lembrei de uma coisa.
- O . – falei. me encarou confuso. – Ele não vai pra aula? Quer dizer, ele tava na sua casa... Achei que vocês iam vir juntos.
- O sabe dirigir... Não acredito que ele tenha se incomodado de ir sozinho.
Ficamos em silêncio mais um tempo, eu senti que tinha alguma coisa errada na expressão dele. Optei por não comentar nada, acho que ainda não tinha esse direito. Chegamos na escola em pouco tempo, graças a curta distância que a minha casa fica dela.
- Seu pai é bem legal. – ele disse quebrando o silêncio enquanto caminhávamos pelos corredores da escola.
- Eu... É, me desculpe por hoje. Acabei atrasando, não era pra ele ter te visto.
- Você não queria que ele me visse?
- Não. Na verdade deve ter sido meio desconfortável pra você.
- Nem um pouco. - Claro você já deve ter sido apresentado a vários pais... sorriu como se tivesse adivinhado o que eu pensei e continuou. – Nada que tenha haver com você me faz sentir desconfortável.
Senti meu rosto esquentar de imediato e agradeci por alguém parar o no caminho. Continuei andando tentando me lembrar onde ficava a minha sala de biologia.
- Obrigada por esperar. – o falou sarcasticamente ao meu lado de novo.
- Achei que você fosse demorar. Você sabe onde fica a sala de biologia?
- É essa. – ele apontou pra porta ao nosso lado. Os alunos já estavam entrando e se acomodando nos seus devidos lugares. – Sinto muito que não vou poder te acompanhar nas suas aulas hoje.
Eu o encarei confusa.
- Acho que os professores não iam deixar eu ficar pra mais algumas aulas. Eu te encontro no almoço, tudo bem?
- Ah. Claro. Tinha me esquecido que você é do terceiro.
- Eu sei. – ele riu e se virou me deixando parada no meio do corredor com cara de idiota.


- Você sabe com quem ela veio pra escola?
Os murmúrios sobre eu ter vindo pra escola com o me importunaram a manhã inteira. Agradeci mentalmente quando o sinal do intervalo bateu. Uma pena que eu só veria ele na hora do almoço.
Caminhei lentamente pelos corredores indo até o meu armário e me peguei varias vezes olhando para os lados, procurando o .
Senti os olhares de vários alunos nas minhas costas enquanto eu destrancava o cadeado e pegava meus livros de matemática. Essas pessoas não têm mais o que fazer não? Esse é um grande problema de cidades pequenas. As pessoas passam tanto tempo sem ter nada novo para fofocar, que quando a novidade aparece, eles não se cansam de falar sobre ela. Ou sobre com quem ela vai para a escola.
- Eu pensei que tinha deixado bem claro pra você sobre o , e sobre não se aproximar dele. – meus ouvidos chegaram a doer um pouco ao escutar a voz aguda e irritante da Tracy ao meu lado.
- E eu pensei que tinha deixado claro que não dava à mínima pra você. – retruquei irritada.
Fechei a porta do armário com uma força maior que o normal e me virei pra encarar a cara feia da Tracy.
- Bem, de qualquer forma, fique sabendo que o não gosta de garotas.
- Ta me dizendo que ele gosta de homens então? – eu perguntei rindo da cara de retardada que ela fez.
- Claro que não! Ele não gosta de meninas da escola, ele só sai com mulheres mais velhas.
- Então porque você ainda insiste nele, querida? Se você mesmo sabe que ele nunca vai te olhar. Quem dirá te querer.
Ela me encarou furiosa e algumas pessoas que estavam escutando a conversa riram. Como eu disse, eles não se cansam de escutar. Bando de fofoqueiros.
- Ele não vai querer você também, então porque você está insistindo? – ela me perguntou frisando o você.
- Eu não to insistindo em nada. Nunca nem tentei. Agora se você me dá licença, eu vou pra aula.
Deixei a Tracy parada no meio do corredor enquanto pegava meu pequeno mapa da escola na bolsa. Decorar os lugares onde as salas ficam está sendo meio complicado pra mim.
Minha memória nunca foi muito boa...

- Qual é o seu lance com a Tracy? – eu perguntei pro enquanto caminhávamos para o refeitório.
- Tracy? Nenhum, por quê?
- Nada.
- O que aconteceu? Ela te falou alguma coisa?
- Nada importante. Só que não era pra eu andar com você e que você não gostava de garotas. – falei rindo e me lembrando da cena de algumas horas antes.
- Ela falou que eu sou gay? – o riu enquanto pegava uma bandeja. Fiz o mesmo.
- Não exatamente, mas disse que você não sai com meninas mais novas. – falei olhando pra ele. – E que não era pra eu perder o meu tempo com você.
- E o que você vai fazer? – ele perguntou já seguindo para a mesa só parando pra me esperar alcança-lo.
- Eu não estava desperdiçando meu tempo de qualquer jeito. – dei de ombros. Ele sorriu e puxou a cadeira pra eu sentar. – Obrigada.
- Estamos aqui pra isso. – respondeu rindo.
- Bom dia, gente. – falei pros meninos assim que eles se sentaram também.
- Hey, . – disse sorrindo.
- Bom dia. – O respondeu meio sonolento. Eu ri.
- Sabia que eu vim sozinho pra escola? – o perguntou sentando do meu lado. estava do outro.
- Hm, acho que o comentou alguma coisa sobre isso. – respondi.
- Sabia que foi por sua culpa? Você nunca se cansa de roubar ele de mim? – ele falou pegando uma uva no prato.
- Como assim? Eu nunca roubei ele de você. – comentei confusa.
- Você só não se lembra...
- Não me lembro do que?
- Já chega, . – disse com raiva, encerrando a nossa conversa durante todo o almoço.
- Qual é a sua aula agora? – O me perguntou enquanto saíamos do refeitório. Ele e o estavam me acompanhando, já que o foi ter uma conversa com o . Eles pareciam meio tensos.
- Artes. – falei enquanto olhava o meu horário. – Que tédio.
- Tédio mesmo. Que ir lá pra casa? – o me chamou.
- Vocês não vão pra aula? – perguntei pros dois enquanto abria o meu armário.
- Cara, eu nunca vou usar sociologia na minha vida. – falou.
- Eu não sei... E se pegarem a gente? – eu vou admitir, eu sempre faltei nas aulas. Mas eu acabei de chegar aqui. Não quero ficar com a ficha suja já na segunda semana.
- Ninguém aqui liga se você vai assistir às aulas ou não. Só ligam se você vai pagar a escola no fim do mês. – ele falou enquanto o pegava o meu livro e colocava de novo no armário o fechando em seguida.
- Odeio essa escola. Cara, maldito dia que a gente concordou com o . – resmungou.
- Cala a boca, cara. – O falou bravo. – Então, vamos?
- Ok. – murmurei seguindo eles.
Nós saímos pelos fundos da escola, já que tinham dois porteiros no portão da frente. Eles me ajudaram a pular o muro e logo nós já estávamos andando pelas ruas da cidade.
- Onde vocês moram? – eu perguntei depois de uns bons vinte minutos de caminhada.
Os dois passaram o tempo inteiro falando besteiras e me fazendo rir. Há muito tempo eu não ria assim. Muito tempo.
- Na rua atrás da casa do . – o me respondeu rindo.
- A gente nunca vai chegar lá andando! – resmunguei me sentando na calçada. Eu estava cansada.
- Não mesmo. – o comentou sentando do meu lado. – A gente devia ter pegado o carro.
- Frouxo. – O disse rindo e se sentando do meu outro lado.
- Frouxo o caralho. Aposto que você também não ta mais aguentando andar. – O retrucou nervoso.
- Carro? Vocês estavam de carro e não me falaram? Não acredito! – eu falei dando tapas nos dois.
- Eu esqueci do carro. – disse dando de ombros. – Você não vai querer voltar né? A gente já ta chegando!
- Eu quero dormir, isso sim. – falei irritada.
- Quero dormir também. – O concordou.
- Então a gente tem que continuar andando e não ficar feito três mendigos deitados na calçada. – O disse se levantando.

Capítulo Seis.

Meus pés já estavam latejando quando nós chegamos a frente a uma casa bem grande na rua de trás da casa do .
- Chegamos! – o disse pulando e correndo até a entrada. Uma linda gazela.
- Cara, se você não tivesse pegado a Jamie ontem eu jurava que você era viado.
Comecei a gargalhar e o olhou pra mim dando de ombros. O abriu a porta e nós entramos.
- Fiquem a vontade. – ele disse subindo as escadas.
O tirou os tênis e tacou em um canto da sala se deitando em um sofá logo em seguida. A sala do chegava a ser quase mais bonita que a do . Olhei pro e fiz um não com a cabeça.
- O que? Ele mandou a gente ficar a vontade.
- Tanto faz. – falei tirando o meu tênis e me sentando no mesmo sofá que o estava, mas ao contrário dele eu deixei os meus sapatos do lado da minha mochila. – Eu to com tanto sono.
- Novidade... – escutei ele resmungar. – Dorme então. Acho que o vai demorar. Provavelmente foi atrás dos dois idiotas.
- Você quer dizer o e o ? – perguntei rindo.
- Tanto faz. – ele me imitou. Fiz uma careta e me deitei no sofá, de um jeito bem desconfortável, mas ainda assim deitada.
Acho que nem percebi quando meus olhos ficaram pesados de mais para que conseguisse manter eles abertos.
- Ela continua a mesma... – escutei alguém murmurar. Eu diria que foi o , mas não posso porque a minha mente ainda está meio que dormindo.
- A mesma que abandonou a gente... – o falou com tristeza na voz. Espera, eles estão falando de quem?
Eu queria abrir os meus olhos agora, mas essa história estava ficando boa de mais.
- Droga, ! Por que você fez a gente prometer isso?! Eu não posso cara! Não posso! – A voz do saiu torturada, como uma facada no peito.
A minha curiosidade aumentava a cada segundo. E por um minuto cogitei a ideia de estar sonhado, mas infelizmente ela não foi concretizada. Algo me acordou, mas espera isso aqui não é a sala do .

's POV
- Ela foi embora. – eu disse assim que cheguei ao beco.
- Ela se... Matou? – me perguntou chocado. Fiz força para que as lágrimas permanecessem presas nos meus olhos. Eu não iria derramar nenhuma por ela. Não mais.
- Sim. – sussurrei deixando meu peso cair e me sentando no chão, me apoiando na parece de tijolo, nojenta de tão suja.
- Não! NÃO! Ela não pode! – disse enquanto socava a parede acima de mim, fazendo com que alguns vestígios de cimento caíssem nos meus olhos.
- Ela não pode, ! Pode? – o me perguntou, acho que ele não vai conseguir aceitar esse fato como nós. Ele nunca vai entender.
- Tanto pode como fez. A ingrata se matou na minha frente! Usando a minha faca! A minha! – gritei pra ele, que se afastou enquanto eu sentia meu sangue ferver com a lembrança.
- Não, eu não acredito! – ele insistiu. – Ela me disse que não ia embora. Me disse que só queria se livrar disso, ela me prometeu que ia continuar aqui!
- Ela mentiu. – respondi sem emoção na voz.
- Talvez não... – disse enquanto pegava uma garrafa de alguma bebida, que eu não sabia identificar no momento, e tomava um gole. – Ela vai voltar, assim como todos os outros humanos fazem. E ela sabia disso.
- Ta falando em reencarnação? – o perguntou interessado. – Ela vai voltar?
- Vai. Como uma mera mortal. Tudo o que ela sempre quis. – falei me levantando. – E assim que isso acontecer, eu vou matá-la.
- Você tá louco cara? – me perguntou assustado.
- Aquela vadia me deixou! Ela fez isso tudo pra me atingir, pra nos humilhar! Não vou deixar ela ter o gosto de viver como alguém normal. Não quando ela devia estar aqui, com a gente! E nós vamos esperar até ela voltar, e quando isso acontecer...



- Não, NÃO! – gritei e senti algo prender meus pulsos logo depois. Abri os meus olhos temendo ainda estar naquele beco, temendo ver tudo aquilo de novo.
- ? Ta tudo bem, se acalma.
- ? – eu perguntei ainda com os olhos fechados. Mas eu sabia que era ele, nunca iria confundir aquela voz.
- É, sou eu. Pode abrir os olhos agora.
Fiz o que ele mandou e fiquei grata por ainda estar deitada no sofá bege da sala de . Olhei em volta e não vi nada além da sala e do rosto do . Que se encontrava bem perto do meu.
- O que aconteceu? – perguntei percebendo que a minha voz estava levemente rouca.
- Acho que você teve um pesadelo. – ele falou olhando pra baixo. – Como você está?
- Hm, bem, eu acho. Você ta usando luvas? – eu perguntei quando meu olhar baixou para as duas mãos amarelas que estavam segurando os meus pulsos.
Ele me soltou assim que eu falei.
- É... Eu tava lavando a louça, sabe como é, o não aprendeu a se cuidar sozinho. – ele disse sorrindo. Sorri junto.
- Onde ele está?
- Foi com os outros comprar alguma coisa pra gente comer. E seu pai ligou também.
- Meu pai ligou? – ele assentiu. – Como você sabe?
- Eu atendi seu celular. Me desculpa, mas achei que ele ia ficar preocupado... Já esta meio tarde.
- Ah... Tudo bem eu acho. Ele não ficou bravo?
- Não. Eu falei que a gente estava estudando e que você estava no banheiro.
- E ele acreditou?
- Na verdade sim. Deixou você dormir aqui também. Ele deixou até as suas roupas. – ele disse apontando pra uma mala do lado da porta.
- Ele me deixou dormir com quatro garotos, e deixou roupas? O que você fez com ele?! – falei rindo. O deu de ombros e se levantou.
- Ele ficou alegre em saber que você estava fazendo amizades. – riu. – E acho que o fato dele me conhecer ajudou também.
- Como assim?
- Digamos que seu pai gosta de mim.
Ele saiu da sala em seguida me deixando sozinha e completamente confusa. O que tinha acabado de acontecer?
Calcei meus tênis e fui até a minha... Mala?
- ? – chamei e em dois segundos ele surgiu do meu lado. – Tem certeza de que meu pai deixou essa mala aqui?
- Tenho, ele entrou viu você dormindo e deixou a mala. A gente conversou um pouco e ele foi embora.
- Hm... Acho que meu pai vai viajar. – falei enquanto pegava um papel branco que estava em cima da mala.
- Viajar? – ele me perguntou tentando ler o que estava no papel também.
- Ele me deixou aqui. – eu disse quando terminei de ler o bilhete. Entreguei pro e me sentei no chão ao lado da mala, atônita.
Meu pai foi passar alguns dias fora e alegou que não queria que eu ficasse sozinha naquela casa imensa. E como ele sabia que o era meu amigo, ele me deixou aqui. Sabe a parte nessa história que me irrita? Não vai mudar nada, nunca vai. Meu pai vai sempre continuar o mesmo, não importa o quão longe ou perto nós dois estamos. Ele nunca vai mudar. Que pai em plena consciência deixa a filha passar alguns dias na casa de um garoto que ele e ela acabaram de conhecer? E ainda mais sem avisar ninguém?!
Bom, aparentemente o meu.
- Eu acho que não tem problema você ficar com a gente alguns dias. – disse se sentando ao meu lado. Olhei pra ele e dei um meio sorriso.
- Me desculpe por isso.
- Não tem problema... E eu bem que estranhei o tamanho da mala sabe. – ele riu e se levantou. – Acho que os caras chegaram.
Eu me levantei e foi o tempo de seguir o até a cozinha que a porta se abriu. Falando em cozinha, essa aqui é enorme. Me sentei na bancada e comecei a escutar os gritos e palavrões vindo da sala. O parou na minha frente e ficou me encarando, suspirando logo depois.
- O que foi? – eu perguntei. Ele balançou a cabeça e logo depois os meninos entraram na cozinha.
Um sorriso se formou no meu rosto quando o passou pela porta rindo de alguma besteira que o tinha falado, eu não sei porquê, mas senti falta do riso dele hoje.
- O pai da foi viajar... Ela vai ficar uns dias sobre a nossa responsabilidade e eu sugiro que ela fique aqui. Ou na casa do . – O falou alto, fazendo os três prestarem atenção.
Espera aí, ele não me quer na casa dele?
- Ela não pode ficar na sua? – O perguntou em um tom debochado.
- Claro que pode. – ele murmurou fuzilando o com os olhos. – Vamos deixar ela escolher então.
Escolher? Eu? Não, obrigado.
- Eu acho que vou pra casa, sabe não quero ficar dando trabalho.
- Você não da trabalho nenhum... Nunca deu. – O suspirou.
- Vou falar uma coisa, onde ela vai dormir vai ser só um detalhe já que vocês passam o dia aqui ou na casa do . – O falou olhando pro e o . – Então seria melhor ela ficar aqui ou com o mesmo.
Ele me olhou em duvida e eu dei de ombros. Senti uma mão roçar na minha e minha cabeça começou a girar.
Gritos, escuro. Medo.

's POV
- Me solta, ! – ela me pediu rindo enquanto eu corria pelo parque com ela nas minhas costas.
- Só quando você falar que gosta mais de mim do que daqueles bobocas!
- Mas eu gosto!
Eu parei de correr e a coloquei no chão, me virei pra poder encara-la.
- Então por que você ainda mora com ele? – eu perguntei sentindo o ciúme começar a me corroer.
Ela suspirou e virou a cabeça, encarando as árvores.
- , eu não quero brigar com você. De novo, e por causa disso ok? – a disse enfim voltando a me olhar.
Acho que o fato de que ela prefere morar com o melhor amigo do que com o namorado devia me deixar bem nervoso certo? Errado, eu não podia ficar nervoso com isso. Ela não ia gostar.
- Tudo bem... Não vou mais falar sobre isso. – ela sorriu e me abraçou.


- , ta tudo bem pra você assim? – o me perguntou enquanto eu ainda piscava e tentava entender o que eu tinha visto.
Era eu naquele parque, meu cabelo estava mais claro, mas eu tenho certeza de que era eu! E o ... Tão lindo e... Feliz.
- O que tá bem? – eu perguntei confusa.
- Você ficar na casa do . – ele respondeu como se fosse óbvio.
Olhei pro lado a procura dele, mas só encontrei a sua cabeça baixada encarando o chão.
- Ah, por mim tudo bem. Eu posso ir ao banheiro? – eu pedi descendo do balcão.
- Claro, é no fim do corredor. – o murmurou.
Eu segui até o banheiro e me tranquei lá dentro, deixando meus pés escorregarem até que eu me sentasse desajeitadamente no chão frio.
Minha cabeça começava a doer e eu não conseguia encontrar sentido em tudo que estava acontecendo... Primeiro o sonho e agora isso? O que eu estava fazendo naquele parque com o ? E meu cabelo sempre foi dessa cor. Ou não foi?

Capítulo Sete.

Sequei o meu cabelo com a toalha e coloquei o pijama. Encarei o quarto enorme a minha volta, era como se tivesse sido feito pra mim.
Depois do meu surto no banheiro, eu achei que seria melhor ignorar esses sonhos loucos e voltar pra cozinha, pouco tempo depois eu e o fomos embora. O quarto de hóspedes que ele disse que eu iria ficar não parecia bem um quarto de hóspedes. Ele parecia o meu quarto, mas de um jeito bem mais meu que o meu quarto de verdade, na casa do meu pai.
- Eu posso entrar? – escutei uma voz abafada pela porta perguntar.
Murmurei algo como um sim e uns segundos depois o já estava no quarto, sentado na cama e me olhando enquanto eu arrumava algumas roupas na gaveta do armário que ele disse que eu podia usar. Não vou falar que eu fiquei constrangida com ele me olhando, porque eu não fiquei. Eu me sentia extremamente confortável perto dele.
- Você come o que no café da manhã? – ele me perguntou quebrando o silêncio.
- Eu não como. Me da ânsia. – escutei ele rir e me virei pra encará-lo.
Eu preciso dizer que chego a ficar tonta com a beleza dele? Deixei as roupas de lado e andei até a cama, me sentando ao seu lado. Eu estava definitivamente disposta a beijá-lo naquele momento, e o teria feito se ele não tivesse se levantado bruscamente e saído do quarto, me deixando sozinha e confusa. Muito confusa.

- Me solta! – eu pedi desesperadamente enquanto buscava ar pra respirar. Meu corpo chegava a doer de tanto de eu ria. – Me solta agora, !
Ele me colocou no chão e parou de fazer cosquinhas. Nós tínhamos acabado de chegar da escola e ele me pegou completamente desprevenida enquanto eu esperava o terminar o almoço. É ele cozinha... Achei estranho também.
- Você é muito brava, . – resmungou se sentando ao meu lado.
As coisas mudaram um pouco nessas duas semanas que passaram. Meu pai me ligou três dias depois de me abandonar aqui e disse que voltava no sábado. Ele voltou mesmo, mas eu continuo passando mais tempo aqui com os meninos do que com ele, quer dizer, não ia adiantar nada eu ficar naquela casa enquanto ele passa o dia e grande parte da noite trabalhando. O começou a evitar ao máximo o contato comigo, o físico quero dizer, e passa a maior parte do tempo sumido com o , enquanto eu e o fazemos coisas aleatórias e o geralmente some por aí. As coisas na escola continuam a mesma, tirando que pararam de comentar tanto sobre mim, o alvo agora é o professor de física que foi pego assediando a diretora... Mas eu não acho que quando a pessoa corresponde calorosamente às provocações seja assédio.
- Só quando é necessário. – dei de ombros. – ! Eu to com fome!
- Vem fazer a comida então... – ele murmurou de volta. Incrível como ele não precisa nem elevar a voz para que eu o escute. E mais incrível ainda é como ele parece saber disso.
- Eu vou lá ver o que ele ta aprontando. – falei pro enquanto me levantava, mas ele me impediu segurando a minha mão.
- Não vai. – sussurrou.
- Eu já volto. – respondi sorrindo e soltando as nossas mãos. Ele bufou e saiu da sala.
Caminhei silenciosamente na ponta dos pés até a cozinha, encontrei o de costas cortando alguma coisa. Continuei me aproximando em silêncio e quando cheguei perto o suficiente pulei nele, o abraçando.
Minhas visões? Continuaram também, só que eu não consigo ver quase nada agora, só uns borrões se mexendo e vozes abafadas, e o engraçado é que isso só acontece quando eu encosto no . É bem estranho eu não conseguir ver mais nada nitidamente, acho que é porque eu quase não encosto mais nele. Mas qualquer contato que tenhamos, o mínimo que seja, me faz apagar.

's POV
- Já te falei um milhão de vezes que odeio isso! – ela resmungou. Cara, algum dia eu ainda vou ficar louco.
- E eu já te expliquei que você não tem escolha... Ele não presta amor, não vai fazer diferença nenhuma.
- Vai sim. Não quero mais fazer isso, . – ela se encolheu atrás de mim e tentou me puxar. O cara que eu tinha escolhido pra hoje ainda estava em choque. Os jovens são os mais fáceis, fora que a energia deles é a melhor.
- , me solta! – a empurrei. Dói de mais a tratar assim, mas cara! Ela não entende que é assim que a gente vive? Não tem outra forma! Ou a gente mata, ou a gente morre!
- Eu te odeio. – ela murmurou saindo do beco correndo.
Encarei a vítima e, bem, fiz o que tínhamos que ter feito desde o começo. Matei o cara. Não que ele fosse fazer diferença no mundo. Nenhum assassino faz, nem mesmo eu.


- ! Acorda! – abri os olhos assustada, sentindo meu corpo inteiro doer. O me encarava, os olhos cheios de preocupação.
Me afastei dele, com medo. Eu não tinha visto nada assim nos últimos dias e o ver matando aquele cara tão nitidamente não foi uma boa experiência. Tentei organizar os pensamentos enquanto ele ainda me olhava. O que ta acontecendo comigo? E o que essas drogas de visões querem dizer?!
- O que ta acontecendo? – eu perguntei rouca. Minha garganta estava completamente seca.
- Você desmaiou... – ele murmurou. Balancei a cabeça negativamente.
- Eu perguntei o que ta acontecendo, não o que aconteceu.
O suspirou e virou o rosto. Nessa hora eu tive certeza de que ele sabia o que tava acontecendo comigo. Eu já tinha suspeitado que ele soubesse disso há algum tempo... Quer dizer, ele sempre teve o maior cuidado pra não me tocar e ele sempre ta lá quando eu acordo, com essa cara de dor. É angustiante o ver assim, mesmo depois do que eu acabei de ver.
- Eu não sei o que ta acontecendo. Você que desmaia e eu que sei o que ta acontecendo? Você devia procurar um médico. – falou por fim, seco e saindo de perto de mim. Eu quase caí já que ele estava me apoiando. Cambaleei ainda meio tonta até a cadeira e me sentei.
- E o que você sugere que eu fale pra ele? Que sempre que eu encosto em você eu desmaio e te vejo matando as pessoas? – falei exasperada.
- Você o que? – ele sussurrou, e pela sua expressão eu diria que ele está bem surpreso pra alguém que sabia do que tava acontecendo.
- Eu o que?
- O que você vê! Por que você nunca me contou o que você via?!
- Eu achei que você soubesse. – murmurei assustada com a reação dele. Os olhos brilhavam de um misto de raiva e confusão.
- O que mais você viu? – ele perguntou, quase gritando.
- Quase nada, só vejo borrões e às vezes eu escuto gritos, mais nada. – sussurrei com medo de ele me matar assim como ele fez com o garoto da minha visão.
- O que mais você viu? – insistiu, sabendo que eu estava escondendo algumas coisas.
- Vi você e os meninos em um beco discutindo. Alguém tinha se matado, você estava chorando.
- EU NÃO TAVA CHORANDO! – ele gritou me fazendo encolher na cadeira e não entender mais nada.
- Eu vi nós dois também. Você tava me perguntando por que eu ainda morava com... Ele? E tinha um parque... Você parecia feliz. – sussurrei.
- Eu era feliz. – ele murmurou atordoado.
- Eu não entendo... Você sabe do que eu to falando? – perguntei confusa, o medo ia sumindo aos poucos.
- Eu estou te matando. – o falou mais pra ele mesmo do que pra mim.
- Como? – a confusão na minha cabeça nunca esteve maior do que agora.
Eu estou... Morrendo?
- Eu acho melhor a gente conversar em outro lugar, .
- O melhor é você me contar o que ta acontecendo! Você acaba de falar que está me matando e quer conversar em outro lugar? – me levantei e desliguei os fogões, deixar a comida queimar não ia ser uma boa ideia agora.
- Em outro lugar. – ele repetiu saindo da cozinha.
Se eu tivesse o mínimo de senso eu já teria saído dessa casa correndo assim que o começou a gritar lá na cozinha, mas eu não consegui. Não me entenda errado, mas eu não posso ir embora. Não agora que ele vai falar o está acontecendo comigo.
Ele continuou andando até chegarmos ao seu quarto e assim que passei pela porta escutei o barulho da tranca.
- Pode começar, . – disse firme enquanto me virava pra poder encará-lo.
- Eu não sei por onde começar. – ele murmurou se sentando na cama. – O que você quer saber?
- Por que eu tenho essas visões quando encosto em você? E o que elas querem dizer?
- Provavelmente porque você ainda está ligada a mim, e eu não tenho a mínima ideia de sobre o que elas podem significar além de estarem te matando.
- O que você quer dizer com ainda? A gente já se conhecia?
Eu sinto que a minha cabeça vai explodir a qualquer segundo. Eu não consigo entender mais nada. Visões, morte, . O que mais eu perdi?
- Nós nos conhecemos no ano de 1827, em Londres.
- Isso é impossível! Eu tenho dezesseis anos! – interrompi nervosa.
- Por que você morreu! – gritou. – Você se matou, !
- Eu o que? Você é maluco ou algo do tipo? – comecei a caminhar em passos firmes até a porta. – Me deixe sair daqui.
- Você não queria saber a verdade? Agora escuta. – ele me respondeu frio.

Capítulo Oito.

Eu me assustei um pouco com seu tom de voz quase rude, mas ele estava certo. Eu queria saber. Foi por isso que eu larguei a maçaneta, ainda um pouco em dúvida, e caminhei em passos lentos até a cama, sentando ao seu lado.
- Eu sinto tanto. – ele falou com a voz mais calma.
Eu podia sentir os vestígios da raiva indo embora enquanto seu corpo relaxava ao meu lado.
- Eu não sei como te explicar isso... Eu achei que você ia saber quando voltasse... – ele continuou.
- Mas eu não sei. – confirmei.
- Não sei se consigo te explicar... Nós somos alguma espécie de demônio. Fomos transformados no começo de mil e oitocentos. – tentei esconder o medo e surpresa nos meus olhos, o incentivando a continuar. – Eu te encontrei vagando por Londres, morrendo de fome.
Ele suspirou.
- Continue. – pedi.
- Muitos de nós vagam por aí com fome, é algo normal. Acontece sempre, ou pelo menos costumava acontecer nessa época. E eu não tinha o costume de ajudá-los, não ia me servir de nada arrastar eles comigo, seria só um peso. Mas eu não consegui te deixar lá. Você parecia tão vulnerável, delicada... Então eu te levei comigo, para a minha casa. Eu morava com o naquela época. Ele me ajudou a cuidar de você nos dias que permaneceu desacordada.
- Eu acho que não estou entendendo... Vocês... Nós, somos demônios? Tipo do mau?
Ele ficou um tempo analisando a minha pergunta.
- Sim. – fez uma pausa, esperando pela minha reação. – Não você... Como eu disse, você se matou. Você não queria mais matar, ser uma de nós. E não tem como abandonar isso, a não ser a própria morte.
- Vocês ainda matam? – perguntei assustada enquanto imaginava meus quatro novos amigos matando garotas por ai.
E eu era uma delas.
hesitou por um momento.
- Não. Não como a gente fazia.
- Eu não te entendo. – confessei. – Isso é tudo muito confuso.
- Digamos que o nosso tipo de espécie se alimenta da energia das pessoas. – ele falou, e eu assenti. – Quando nós nos conhecemos ainda não sabíamos que tinham outros jeitos de sobreviver...
Ele me encarou de repente, parecendo ressentido.
- Você não precisava ter ido embora. – ele murmurou.
- Como vocês fazem agora? – Perguntei, tentando ignorar a dor que a sua tristeza causava em mim.
- Digamos que nós tomamos um pouco da alegria daqueles muito animados.
- Então vocês deixam eles tristes?
- Não! – ele pareceu ofendido. – Eles ficam cansados. Só isso... Depois de umas duas horas a energia já voltou na mesma intensidade de antes.
Eu fiquei em silêncio, tentando absorver tudo o que tinha escutado e pensando se devia acreditar ou não. Se devia ficar com medo ou não.
esperou pacientemente enquanto eu meditava sobre o que seria mais prudente fazer. Fugir ou ficar aqui e perguntar mais?
Eu pensei nisso por algum tempo até que uma pergunta veio a minha mente. Uma que eu realmente queria saber a resposta.
- Você disse que esta me matando. – comecei. – Você está fazendo negócio de sugar a minha energia? Tipo, lentamente, até que não sobre mais nada?
Ele me olhou triste. Os olhos profundos demonstrando mais dor do que nunca.
Seria essa uma hora ruim pra eu perceber que o amo?
- Estou. – ele disse por fim.
Tudo bem.
Eu acho que posso aguentar isso.
O cara que eu gosto é um demônio e está me matando.
Hm, talvez eu não possa aguentar.
- Por quê? – perguntei em um sussurro.
Um sentimento horrível de rejeição começou a preencher meu corpo.
Isso era óbvio. Ele está me matando porque não gosta de mim. E eu fui suficientemente burra pra não perceber. Não a parte sobre ele ser um demônio, claro, mas a parte sobre ele não corresponder aos meus sentimentos loucos e intensos de adolescente apaixonada.
Ele não me ama. Simples assim.
- É involuntário. – escutei a voz dele se pronunciar. – Quando você se matou eu fiquei com tanto ódio que prometi a mim mesmo que iria matá-la quando você voltasse. Os outros foram contra, claro, mas ninguém podia imaginar a dor que eu estava sentindo. Foi uma dor tão absurdamente grande e forte que eu achei que nunca mais ia parar. Você se matou na minha frente! Eu te amava, ! E você ignorou meu sentimento, jogou fora! Assim como você fez com a sua vida!
Ele parou sem fôlego, levantou da cama e entrou no closet, sumindo lá dentro. Senti meus olhos ardendo e logo grossas lágrimas rolavam pelo meu rosto, queimando.
Ele me amava. Ele me amava mais do que tudo! E eu, como ele disse, joguei isso fora.
Agora, o único sentimento que ele deve ter por mim é o de raiva. E ele tem completa razão em me odiar. Eu mesma me odeio.
Me encolhi na cama, abraçando meu joelho e enterrando meu rosto neles, tentando abafar meu choro. O que estava meio difícil, já que eu quase gritava.
Eu devia estar com medo, sentindo repulsa pelo . Mas ele não tinha culpa de ser quem ele é, ele não escolheu essa vida, e ele mudou.
Eu poderia ter mudado. Mas não, eu tinha que estragar tudo e me matar.
Eu precisava destruir a minha própria vida.
E destruir com a única segunda chance que eu tive. A chance que eu podia ter usado pra recomeçar.
Escutei o barulho de algo sendo deixado na mesinha de cabeceira e logo depois a porta sendo batida.
Ele tinha ido embora.
Ergui meu olhar até encontrar uma pequena caixa de veludo azul desbotado no centro da mesinha.
Não podia ser.
Eu... Por que ele fez isso comigo?
Como se já não bastasse a dor de saber o que eu tinha feito, ele precisava fazer isso!
Estiquei a minha mão, pegando a pequena e bonita caixa entre meus dedos. Fiquei admirando alguns segundos até tomar coragem para abri-la.
Mais lágrimas desceram pelo meu rosto quando meus olhos encararam o pequeno anel que ali se encontrava. Segurei a pequena joia com delicadeza, como se ela pudesse quebrar com o menor movimento.
Ele ia me pedir em casamento.
E o que eu fiz?
Eu me matei.

's POV
- Eu preciso falar com você, . – ela murmurou encarando o chão.
- Eu também. – falei animado, pensando que em alguns minutos ela iria ser minha. Oficialmente minha.
Esperei que ela erguesse o olhar até o meu, e me assustei em encontrar seus olhos aguados, tristes.
- Aconteceu alguma coisa, amor? – perguntei secando uma lágrima solitária que escorria pelo seu rosto.
Ela colocou a mão sobre a minha e suspirou. Balançou a cabeça negativamente.
- O que você queria falar? – sussurrou.
Meus lábios se contorceram em um sorriso involuntário. Minhas mãos foram até o bolso da minha calça e pegaram a caixinha de veludo, a trazendo para cima. Mas antes que eu pudesse a tirar do meu bolso, suas mãos frágeis e frias seguraram as minhas.
- Eu vou embora. – ela me falou antes que eu perguntasse o que tinha acontecido.
- C-como? – gaguejei.
Ela iria embora?
- Você não quer mais ficar aqui? – arrisquei. – Eu já te falei que não faço questão de morar em Londres, .
Mais lágrimas começaram a cair dos seus olhos. Ela me encarou, sorrindo sem humor algum.
- Não estou indo embora de Londres... Eu só não quero mais essa vida.
E então tudo aconteceu muito rápido, eu não tive tempo de fazer nada. A minha faca, antes presa na minha calça, agora perfurava o peito da garota que eu mais amava.
Seu corpo mole caiu na calçada e o grito preso na minha garganta escapou. Me ajoelhei ao seu lado, sussurrei coisas inaudíveis, mas ela já tinha ido.


Me encolhi mais ainda na cama, como se isso pudesse ajudar a dor cessar de algum modo e deixei que as lágrimas caíssem com a maior intensidade. Apertei o anel na minha mão, quase esquecendo que ele poderia quebrar, e deixei que as lembranças que eu possuía, até então esquecidas, voltassem à tona. Me sufoquei delas, querendo mais do que tudo poder voltar no tempo e poder concertar a minha vida.
Senti a cama afundar ao meu lado e não precisei erguer o rosto pra saber que quem estava lá era o . Seu perfume estava impregnado no quarto inteiro, e ele me acalmava.
Ele não disse nada, só ficou ao meu lado em silêncio até que eu parasse um pouco de chorar e entregasse o anel pra ele.
Um suspiro. Mais nada.
Suas mãos passaram pelos meus ombros, me puxando pra um abraço meio desajeitado, que eu não recusei. E foi assim que eu passei a noite, nos braços dele. Chorando por outro cara.
Um cara que me odeia e vai me matar.
Ótimo.

Capítulo Nove.

- Ele ia pedir ela em casamento? – perguntou baixo.
- Ia. – o murmurou. Eu podia sentir que ele estava dando de ombros.
- Isso explica muita coisa... – e eu quase podia sentir a raiva que o devia estar de mim agora.
Mas tudo bem, eu também estava com raiva.
- Vocês podiam pelo menos falar mais baixo. – murmurei rouca enquanto abria os olhos e via os três me encarando.
sorriu enquanto eu me sentava. Fiz uma careta quando comecei a sentir a dor no corpo se manifestando.
Eu prendi meu cabelo em um coque frouxo e tomei coragem para perguntar.
- Como ele esta? – minha voz saiu fraca.
deu de ombros.
- Igual a você. – ele me respondeu.
- Eu vou falar com o . – o murmurou sem me olhar e deixou o quarto, batendo a porta com uma força desnecessária.
- Vocês sabiam disso? – perguntei.
- Disso o quê? Sobre o anel enorme que está no seu dedo ou sobre a parte de você estar morrendo? – perguntou sorrindo enquanto olhava o anel que estava no meu dedo anelar.
Eu o coloquei ontem, durante algum momento da noite em que eu não me lembro mais. Eu sei que provavelmente – muito provavelmente – ele não deveria estar no meu dedo. Mas o o deu pra mim, ainda que de uma maneira não muito romântica ou amigável, ele deixou bem claro que o anel era para seu meu. E eu queria usá-lo. Mesmo que não tivesse mais os mesmos significados.
- Sobre tudo. – sussurrei.
O suspirou enquanto sentava na beirada da cama. estava sentado ao meu lado.
- Ninguém sabia sobre o anel, as visões que você tem ou qualquer outra coisa. – o falou. – A única coisa que nós conseguíamos pensar é que tínhamos você de volta.
Ele me olhou triste e eu sorri, mas meus olhos não transpareciam alegria.
- Você fez falta. – comentou.
- Eu queria poder lembrar... – murmurei triste. – E sobre a parte de eu estar morrendo? O comentou que vocês sabiam.
negou com a cabeça.
- Ele falou algo sobre te matar no dia em que você morreu, mas depois ele nunca mais comentou nada. Nós não fazíamos ideia. – ele falou.
- Como...?
- Eu acho que não seja só ele... – murmurou com a voz triste. – Você tem alguma espécie de fraqueza perto de todos nós. É como se nós não precisássemos tirar sua energia de você, ela vai embora sozinha.
- Involuntário. – sussurrei, lembrando do que o me disse noite passada. – Onde ele está?
- Na sala.
Meu corpo gelou. Ele estava na sala? Eu definitivamente não estava preparada pra encará-lo. Não mesmo! Eu podia jurar que ele tinha ido pra alguma floresta ou qualquer outro lugar escuro, frio e longe daqui. Mas a sala?
- Eu acho que vou tomar um banho. – falei me levantando, me sentindo meio tonta.
Os meninos assentiram e me deixaram sozinha enquanto eu ia até o banheiro.
Eu deixei que a água quente queimasse a minha pele, até que eu não aguentasse mais o calor e saísse do chuveiro. Coloquei uma das trocas de roupa que tinha deixado na casa do e tentei secar meu cabelo com a toalha, mas eu não estava com saco pra isso.
Saí do quarto e escutei o barulho do vídeo game alto no andar de baixo. Risadas. Eu sorri.
Ignorei as escadas e segui reto no corredor até encontrar o quarto que eu queria. Abri a porta com cuidado, sem fazer barulho algum e entrei no cômodo.
O perfume do estava impregnado no quarto todo. Eu gostava daquele perfume. O lugar não se parecia como o quarto de um adolescente que vive sozinho devia perecer. o deixava impecável, não tinha nada fora do lugar.
Eu andei até a cama e me deitei na mesma, abraçando um dos travesseiros dele, tentando me acalmar com o cheiro do perfume, ainda mais forte, e agora misturado com o seu próprio cheiro.
Fechei os olhos e parei para pensar claramente sobre as coisas, e cheguei a uma conclusão não muito boa: eu estou morrendo.
Lenta e involuntariamente.
E eu não fiquei apavorada com essa ideia. Eu não conseguia sentir nada; Eu não queria sentir algo além do vazio. Se eu que coloquei tudo a perder da última vez, nada mais justo do que eu me ferrar de novo, não é?
Senti a cama afundar ao meu lado, abri os olhos e encontrei irís brilhantes me encarando.
Uma onda de calor percorreu meu corpo, e eu senti ele se acumular no meu rosto. levou a mão até minha bochecha corada, mas recuou antes de chegar a me tocar.
Ele suspirou.
- Me desculpe. – murmurou. – Eu fui muito rude ontem.
Ele puxou um travesseiro e deitou de um jeito mais confortável ao meu lado. Minha pele formigou para tocá-lo. Mas eu não podia.
Ele já tinha recuado uma vez. Várias vezes na verdade... Qual seria a emoção de ver ele me ignorando de novo?
- Eu fiquei nervoso... Acho que não estava pronto pra te contar. – disse.
- Tudo bem. Eu também não fui muito legal com você... – falei me referindo ao passado. Ele deu um sorriso fraco como resposta.
Seus olhos percorreram meu corpo e pousaram sobre o anel no meu dedo. Outro suspiro.
- Fica bem em você. – comentou.
Eu baixei meu olhar até o anel e coloquei a outra mão por cima dele, o tampando.
- Eu... Eu não devia ter colocado, desculpe.
Fiz menção de tirar o anel, mas ele segurou a minha mão. Foram dois segundos de contato, mas o suficiente para que minha visão escurecesse.

's POV
- O quanto você gosta de mim? – ela perguntou enquanto eu colocava uma mecha do seu cabelo atrás da orelha.
- Muito. Você sabe. – respondi rindo da pergunta sem sentido.
Eu acho que é meio óbvio que eu sou completamente apaixonado pela .
- Gosto de ouvir você falando. – ela explicou.
- Eu te amo. – sussurrei sincero.
sorriu e acariciou meu rosto, fechei os olhos. É realmente uma merda que ela exerça todo esse poder sobre mim. Mas eu não consigo fazer nada, esse tipo de coisa é involuntária.
Senti seus lábios pousando sobre os meus com uma delicadeza que eu diria ser impossível se não tivesse contato com ela toda hora. Delicadeza, que também, sumia depois que eu me empolgava demais.


- Tudo bem? – ele me perguntou quando eu abri os olhos.
Afirmei ainda um pouco tonta, e procurei por sua mão. Ele se afastou.
- É melhor você não fazer isso. – ele disse.
- Esse é o único jeito de lembrar. – murmurei.
Ele balançou a cabeça.
- Eu posso te contar, se você quiser. Mas não quero que você encoste mais em mim.
- Por quê?
- Quando você encosta em mim, você fica mais fraca. – disse.
- Achei que esse fosse seu objetivo. – retruquei.
- Deixou de ser a muito tempo. – ele suspirou. – É meio difícil te odiar.
- E eu devo achar isso uma coisa boa ou ruim?
Ele de ombros.
- Me diga você.
Eu não respondi a pergunta. Ainda estava em dúvida sobre a minha resposta.
Isso era uma coisa boa ou ruim?
Voltei a encarar os olhos a minha frente e senti uma vontade tremenda de chorar. Agora eu entendo como as pessoas que perdem a memória se sentem.
- Eu tenho que ir pra casa. – falei baixo. – Amanhã tem aula.
- Tem. – ele concordou. – Eu vou trocar de roupa e te levo.
- Vou esperar lá em baixo. – eu disse enquanto levantava da cama.
Peguei a minha bolsa no meu quarto e desci as escadas, encontrando apenas o . Ele estava saindo da cozinha com uma garrafa de cerveja na mão, e não fez uma cara muito boa quando me viu.
- Eu to indo embora. – avisei.
- Ok. – ele disse indiferente, indo para sala.
Suspirei. Como se já não fosse ruim o suficiente ter brigado com o , agora ele? Se o não tivesse motivos eu ia estar realmente brava agora, mas infelizmente ele tinha.
- Vamos? – escutei a voz do perguntar atrás de mim.
Eu concordei e fui pra garagem com ele.
- Me conta? – pedi quando o silêncio no carro começou a me irritar.
- O quê? – perguntou confuso.
- Você disse que ia me contar se eu quisesse. – falei olhando pra ele. – Eu quero.
Ele apertou as mãos sobre o volante e me olhou brevemente.
- O que você quer saber?
- O que você quiser me falar.

Capítulo Dez.

- Sério? Ele foi preso!? – eu perguntei rindo.
- Eu juro! O não gosta muito que duvidem dele, quando você falou que ele nunca iria chamar a menina pra sair ele ficou doido! Mas na verdade, eu acho que o lance de tacar pedras na janela dela teria funcionado se ele já estivesse saindo com a garota, e se o pai dela não fosse o chefe da polícia...
Nós ficamos rindo por mais alguns segundos. Já devia fazer mais de duas horas que nós estávamos dentro do carro, parado em frente a minha casa rindo das histórias que o contava. Histórias que eu tinha participado... Que eu devia me lembrar, mas não conseguia.
- Eu acho que seu pai está começando a ficar irritado comigo. – o comentou enquanto olhava a janela de casa.
Dei de ombros.
- Eu também devia estar irritada com ele. Sabe, pelos três dias sem ligar semana passada. – falei brava.
- Mas não está. – ele afirmou.
- Não... – concordei a contragosto.
- É melhor você entrar.
- Você vai pra escola amanhã? – eu perguntei, na verdade querendo saber se ele vinha me buscar.
- Sim, e eu venho te buscar. – ele respondeu rindo, como se soubesse exatamente o que eu estivesse pensando.
O encarei com a sobrancelha erguida.
- Por favor, não me fale que você é um Edward Cullen da vida e consegue ler pensamentos! – implorei sentindo meu rosto corar.
Ele gargalhou.
- Não. Você só é meio previsível. – ele respondeu ainda rindo um pouco.
- Idiota. – murmurei rindo enquanto saia do carro.
O esperou que eu entrasse em casa para arrancar com o carro, suspirei quando encontrei meu pai em frente à escada com os braços cruzados.
- Então... Você e esse estão namorando? – ele me perguntou sem nem me dizer oi.
Eu ri sem humor.
- Esse só veio me trazer em casa. – respondi dando ênfase nas palavras dele.
- Você podia ter ligado ontem pra avisar que não ir dormir aqui. Não tinha nada que mandar seus amigos avisarem. – ele falou, tentando parecer bravo e preocupado.
Mas seus olhos não demonstraram nenhum dos dois sentimentos.
- Você também podia ter ligado semana passada. – retruquei fria. – Mas você não ligou. Nem os seus amiguinhos.
Meu pai ficou em silêncio por um momento e depois me olhou triste.
- Eu não estou acostumado com alguém em casa. – ele me disse.
- Nunca esteve. – falei antes de subir as escadas e bater a porta do meu quarto.
Me deitei na cama e fiquei imaginando se meus outros pais eram melhores. Se a minha mãe tinha me despachado pra algum lugar da Inglaterra por que a minha amiga – a única – tinha morrido. Se o meu pai lembrava que tinha uma filha e se ele se lembrava de limpar a camisa suja de batom vermelho quando ele voltava das viagens de trabalho.
Já tem um tempo que eu descobri que o trabalho estava mais para diversão. E eu não me importei. A vida amorosa do meu pai é problema dele, mas ele podia pelo menos tentar ser mais discreto e se tocar que ele não tem moral nenhuma para perguntar porquê meus amigos ligaram avisando que eu não ia dormir em casa. Ele tem sorte de que alguém ainda avise, porque por mim, ele nem ia saber onde eu estava.

Calcei meu tênis com pressa, e coloquei algumas roupas na mochila antes de sair do meu quarto. Deixei um bilhete na geladeira avisando que não ia dormir em casa, e que estava sem celular. O que era mentira, eu estava com o celular, só não iria atender se meu pai ligasse.
Escutei um barulho de motor do lado de fora e sai de casa apressada. Sorri quando vi o carro preto parado em frente a minha casa.
- Bom dia. – me cumprimentou quando eu fechei a porta.
- Bom dia... – falei de volta.
Fiquei mexendo na alça da minha mochila, meio impaciente e tentando tomar coragem pra falar com ele. Ele percebeu o meu nervosismo e riu.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou enfim.
- Mais ou menos... – respondi envergonhada. – Eu briguei com meu pai ontem e... Será que eu podia ficar na sua casa por uns dias?
Senti minhas bochechas corarem quando ele olhou pra mim e sorriu. Isso não é muito confortável.
- Você sabe que nem precisava pedir, não sabe? – ele falou sorrindo.
- Achei que você não fosse deixar por causa do negócio sobre me matar... – falei sem pensar, me arrependendo no segundo seguinte.
ficou sério e desviou o olhar do meu, ele estacionou o carro e suspirou antes de sair do carro.
- Burra, burra, burra! – resmunguei dando tapas na minha cabeça.
Eu sai do carro depois de me xingar mais um pouco e procurei o pelo estacionamento. Encontrei ele sentado no muro atrás do carro, me olhando.
Caminhei em passos lentos até onde ele estava, agradecendo por nós termos chegado mais cedo e por poucas pessoas estarem lá.
- Eu realmente não devia deixar você ir. – ele falou quando eu me sentei ao seu lado. – Mas eu ainda não vou me privar de ficar com você por medo de te matar.
Hm, isso eu não esperava. Eu já tinha sacado que ele não tinha jeito de ser um Homem Aranha da vida que não fica com a amada por medo de ela morrer, mas não achei que ele fosse falar na minha cara. Não que eu tenha ficado chateada ou algo do tipo, não mesmo. Só fiquei surpresa.
- Eu não quero que você tenha medo. – eu disse. – Confio em você.
Ele riu sem humor algum.
- Eu também confiava em você... Acho que nós dois sabemos como a história acabou.
Olhei pra ele com a sobrancelha erguida e ri. também.
- É realmente muito reconfortante saber que você não acredita que não vai me matar. – comentei descendo do muro.
Ele deu de ombros. Estiquei a mão em sua direção, ele me olhou hesitante.
- Confio em você. – repeti. – Muito mais do que você confiava em mim.
O olhou dos meus olhos para a minha mão, ainda esticada, e sorriu. Senti o calor da sua mão sobre a minha segundos depois.
Só isso. O calor. Nada de gritos, escuro ou lembranças da minha vida passada. Eu só senti o calor que sua mão proporcionava na minha, o calor que você sente quando está perto da pessoa que você ama. Quando você finalmente sente que ela te ama também.

Capítulo Onze.

Eu entrei na escola e me senti bem pela primeira vez em que o fazia. E eu tenho certeza absoluta de que me só me senti assim porque segurava minha mão. Isso pode parecer meio idiota, mas se você não pudesse tocá-lo sem ser obrigada a reviver o seu passado perfeito e destruído, você também iria se ficar radiante quando ele te tocasse e você não sentisse nada além de calor e borboletas no estômago.
- Isso é bom. – ele comentou no caminho até o meu armário.
- Bom... – concordei.
Nós rimos baixo enquanto eu guardava alguns livros. Uma pena que sempre tem alguém pra acabar com a felicidade alheia. A voz aguda invadiu meus ouvidos e eu fiz uma careta.
- Alguém já te avisou que esse moletom faz você parecer ainda mais uma marginal? – Tracy falou rindo. – Oi, .
Eu me virei pra encarar a cópia da barbie a minha frente, e me segurei para não rir quando vi o cabelo dela ainda mais claro, de um jeito absurdamente ridículo. pareceu notar o mesmo e ele sorriu discretamente enquanto acenava com a cabeça, a cumprimentando.
- E quando você foi pintar o cabelo, ninguém te avisou que essa tinta já estava vencida? – eu perguntei no mesmo tom debochado que ela havia usando para falar comigo.
Ela passou a mão pelos cabelos claros e secos, preocupada e eu ri enquanto ela o fazia.
- Realmente , eu não sei como você pode se rebaixar tanto assim. – ela voltou a falar, depois de parar de mexer no cabelo. Ou devo dizer palha?
Ele a encarou com a sobrancelha erguida e eu segurei o riso.
- E o que você me sugeria, Tracy? – ele perguntou, e eu ri quando ela sorriu maliciosa e o fez uma cara de nojo ao meu lado.
- Vamos , você não é tão burro a ponto de sair com essa garota. Até uma puta vale mais.
Eu a encarei com os olhos arregalados. Essa cabeça de palha falou que eu valia menos que uma puta?
- Você nunca mais se dirija a minha namorada assim, escutou bem? – o falou com os olhos transbordando de ódio. – E até onde eu sei, a puta aqui é você, e você não vale mais que o chão que eu piso.
Encarei o surpresa, não por chamar a Tracy de puta, isso não é novidade alguma, mas por ele me referir como sua namorada. E isso soou bem aos meus ouvidos.
Sabe, ser dele.
- Não sabe mais se defender não? – ela me perguntou um pouco atordoada pelo o que o disse, mas ainda assim sem aceitar a derrota.
Esse tipo de pessoa é daqueles que continuam sendo pisados até alguém ter dó e parar. E no momento, pena é a última coisa que eu estou sentindo.
- Você não vai querer saber o que acontece com você se eu me defender, cabeça de palha. – avisei nervosa.
- Do que você me chamou, sua vadia?! – ela gritou com a voz desafinada e eu rolei os olhos.
- Me chama de vadia mais uma vez, e você vai descobrir como apanhar de mulher não é nada prazeroso!
- Va-di-a. - ela soletrou na minha cara.
Eu nunca fui dessas garotinhas que sofrem caladas, sabe? Aprendi desde cedo a me defender, não é todo dia que eu vou ter alguém brigando por mim. E foi dando graças a Deus a isso que eu pulei em cima da Tracy e comecei a puxar aqueles cabelos, que mais parecem esponja de aço.
- Caramba garota, não tem como seu cabelo ser pior, não é? – comentei rindo, enquanto ela tentava se defender.
Tudo em vão, claro. Como foi que ela disse mesmo? Esse moletom me deixa com cara de marginal, não é? Vamos então honrar o cargo.
Foi só quando eu escutei alguns gritos em volta, que eu percebi que o momento todo teve gente assistindo a nossa pequena discussão.
Senti duas mãos na minha cintura me puxando, e logo depois eu já estava longe da barbie.
- Me larga, ! – eu pedi brava enquanto ele me arrastava pra longe.
Ele riu e prendeu minhas mãos contra seu corpo, em uma tentativa de que eu parasse de me debater.
- Você sabe que vai ser suspensa por isso, não sabe? – ele perguntou rindo quando nós já estávamos no corredor vazio do segundo andar.
Seus braços me soltaram aos poucos, como se ele estivesse com medo de que eu fugisse. E pelo o tamanho da raiva que eu estava, era bem capaz.
Dei de ombros.
- Valeu a pena. – sorri ao lembrar da cara de horror que a Tracy fez quando eu falei do cabelo palha dela. – Cadê o ?
Ele suspirou ao meu lado e abriu a porta do banheiro feminino para que eu entrasse.
- , eu não sei bem o que aconteceu hoje cedo, mas você tem que entender que não tá sendo fácil pra ele. – o encarei confusa. – Esse negócio de ficar perto de você.
- Como assim?
Umas garotas do primeiro ano olharam assustadas quando o entrou no banheiro atrás de mim, e saíram correndo, resmungando algumas coisas incompressíveis.
- Mesmo que ele não deixe transparecer, o cara está completamente puto com ele mesmo por causa de estar te matando. Não que eu acredite nisso, de qualquer forma.
- Ele falou que não ligava...
- ... Imagina como seria se você soubesse que cada vez que você encosta ou chega perto demais do , ele ficaria mais fraco e que consequentemente algum dia ele iria morrer por isso?
Fiquei em silêncio tentando absorver o que o tinha me dito. Isso soa realmente ruim vindo da boca de outra pessoa.
- Foi por isso que ele não me impediu de bater na Tracy? – arrisquei. – ele não queria me tocar?
concordou com um aceno de cabeça e saiu do banheiro, me deixando livre para pensar.

Tracy infeliz. Aquela garota devia queimar no fogo do inferno! Respirei fundo antes de sair do banheiro, somente me controlando pra não ir atrás daquela barbie e terminar de arrancar aqueles cabelos de farmácia. O dia estava ótimo! Me diz por que ela tinha que estragar tudo?
- Você ta melhor? – o me perguntou, se segurando pra não rir.
- Se você rir, apanha também. – alertei mal-humorada e quase esquecendo que ele não estava falando comigo. – Voltou a falar comigo?
Ele deu de ombros.
- Se o consegue te desculpar, eu acho que posso fazer o mesmo.
Eu sorri, não por muito tempo já que vi o coordenador andando na nossa direção com uma cara não muito boa.
- Srta. , você pode me acompanhar até a diretoria? – ele perguntou, e eu fiquei imaginando o que aconteceria se eu falasse que não.

Capítulo Doze.

- Per-de-do-ra. – Tracy soletrou quando saiu da sala do diretor, totalmente ilesa.
E eu? Eu fui obrigada a aceitar, quer dizer, não foi ela que bateu em mim. E mesmo que as palavras dela tenham me machucado tanto quanto um soco no estômago, isso não parecia ser suficiente para o diretor. Qual era o nome dele mesmo? Richard... Robert... Roman. Isso, Roman!
Ele balançou a cabeça negativamente para mim e suspirou.
- Eu vou precisar ligar para o seu pai e avisar sobre a suspensão. – ele falou em uma voz profissional, mas que soava mais como entediada.
Tudo bem Sr. Roman, eu também estou entediada.
- Melhor ligar logo, ele ia viajar hoje. – dei de ombros.
Ele me olhou, meio assustado pela minha indiferença e pegou a minha ficha olhando os números do telefone de casa antes de discar.
O Sr. Roman tentou ligar pelo menos umas três vezes e eu sorri quando ele bufou, desistindo.
- Quando ele vai voltar? – ele me perguntou impaciente.
Eu estou me segurando muito para não rir. Muito mesmo.
- Não faço ideia. A gente não se fala muito. Eu moro com um... Amigo. – inventei.
Na verdade, isso não chega a ser mentira. Eu passo mais tempo na casa do do que em qualquer outro lugar.
- Você não mora com seu pai? – ele falou incrédulo. Como esse homem é chato.
Suspirei impaciente.
- Ele viaja muito, então ele me pediu para ficar com esse amigo.
- Não é o que consta na sua ficha.
- Ah, aquela que meu pai preencheu há uns dois meses atrás? Acho que você precisa renovar seus arquivos, Sr. Roman.
- Que amigo é esse, eu posso saber?
- Você já me deu a suspensão, ligou para o meu pai, já me inscreveu para lista dos alunos que precisam de acompanhamento psicológico... Eu acho que nós estamos bem por aqui.
- Vou então presumir que você está mentindo sobre não morar com o seu pai e que você mudou o telefone na ficha.
- Como eu iria mudar o telefone, meu pai que preencheu essa coisa! – falei em um tom meio alto demais.
- Eu acho melhor você diminuir o tom de voz, Srta. , as coisas não estão muito boas para o seu lado.
- . – ele me encarou confuso, bufei irritada. – O meu amigo.
- O Sr. estuda na escola, não estuda? – confirmei entediada. – O motivo da briga...
Ele pegou o telefone e pelo que eu entendi, pediu para alguém chamar o . Beleza.
Um sentimento de raiva preencheu meu corpo, e eu queria muito sair daquela sala o mais rápido possível, antes que eu cometesse algum erro.
Uma pena que se eu saísse, provavelmente ganharia mais uma suspensão.
A porta abriu depois de alguns minutos e o pediu licença, o Sr. Roman pediu para que ele se sentasse e indicou a cadeira ao meu lado.
Quando ele se sentou, me olhou com a sobrancelha erguida e eu dei de ombros enquanto ele sorria.
- Sr. , desculpe tira-lo da sua aula. – eu tinha certeza de que por dentro, o estava agradecendo por isso. – Mas a sua... Colega me contou uma história muito interessante e eu queria saber a sua versão.
- Claro. – ele concordou.
- Bom, como sabemos, ela foi suspensa por agredir uma aluna e...
- Eu sei, estava lá. – ele cortou o diretor, que abriu a boca. – E se me permite dizer, ela só estava se defendendo. A Tracy foi completamente baixa sem motivo algum.
- Você não é suspeito para falar, já que foi a razão da briga.
- A razão da briga foi o ciúme doentio da Tracy. – o voltou a falar, completamente sério. – Eu, particularmente, acho que ela devia ter algum acompanhamento psicológico.
O diretor o encarou com os olhos arregalados e eu esbocei um pequeno sorriso no rosto.
- De qualquer forma. – ele falou após se recuperar. – Eu te chamei aqui por outro motivo. A Srta. me disse que está morando com você a pedido do pai dela, é verdade? Ou é somente uma desculpa para que o pai não fiquei sabendo da suspensão.
- Olha, Roman, a suspensão é o menor dos meus problemas agora. – murmurei.
O diretor me fuzilou com os olhos e eu desviei o olhar para a estante cheia de troféus que ficava ao lado da janela.
- É verdade. Se você quiser, pode ligar para ele mais tarde. Eu tenho certeza de que ele vai te dizer a mesma coisa.
O diretor pareceu desconfiar um pouco, mas eu acho que ele já estava tão cansado que deu de ombros e disse:
- Certo. Vocês estão liberados, e sua suspensão vai até o fim da semana, Srta. .
Assenti enquanto saia da sala com o ao meu lado.
Quando nós já estávamos no caminho do estacionamento – o também não pretende voltar para as aulas até o fim da semana –, eu finalmente pude rir.
- Meu Deus! Que cara chato! – falei. – E que história foi essa de pode ligar pro meu pai? Eu duvido que ele vai falar que eu moro mesmo com você...
parou ao meu lado meio tenso.
- Seu pai assinou um documento. Pra que você pudesse ficar comigo enquanto ele viaja. – ele deu de ombros. – Semana passada, antes de ir para Londres.
- Como? – eu perguntei meio brava.
Meio porque eu não sabia se ia querer saber desse documento. Meu pai praticamente me entregou pra um cara quase menor de idade.
- Eu achei que você não ia querer saber... – falou meio apreensivo.
- É... Talvez não.
Nós entramos no carro em silêncio e esse permaneceu até chegarmos em casa.
E eu achava que não podia ficar mais decepcionada com o meu pai... Ele me surpreendeu. Subi as escadas com raiva e taquei a mochila no chão do meu quarto antes de pegar o telefone e ligar para... Ninguém. Eu não tinha alguém pra ligar. Minha única amiga morreu. Minha mãe ignora todas as minhas ligações...
Ótimo.
Deixei meu corpo cair, e me deitei no chão. Encarei o teto do quarto, completamente decorado com estrelas que brilham no escuro. Sorri sozinha. O nem sabia se iria me encontrar de novo, mas fez o quarto pra mim. Ele se importou comigo mesmo quando eu fui uma idiota. Ele não desistiu de mim. Meus pais desistiram. Ele não.
- Esse é o meu lugar preferido na casa desde que eu me mudei. – o falou ao meu lado, e eu senti meu coração acelerar devido ao susto.
- De onde você surgiu? – eu perguntei olhando pro lado e vendo ele deitado perto de mim.
Ele franziu a testa.
- Lá da cozinha. – me respondeu.
Voltei a olhar o teto e respirei fundo. Um cheiro quase imperceptível de hortelã me dominou.
- Por que é o seu lugar favorito? – perguntei.
- Me lembra de você. – ele disse chegando mais perto.
Eu podia sentir nossas mãos roçando uma na outra. Fechei os olhos desejando que ele me tocasse como tinha feito mais cedo, sem passado nenhum para atrapalhar.
- Eu não te entendo... – murmurei, ainda com os olhos fechados. – Tem horas que você me odeia, depois vem com essa história toda melosa pra cima de mim. O que você realmente quer?
- Você. – ele respondeu, deixando todos os possíveis significados do você em aberto.
Abri os olhos e me assustei ao ver o rosto do a milímetros do meu. Seu corpo estava em cima do meu, sendo sustentado pelas suas mãos. Ele foi se aproximando mais e mais, até que eu pude sentir a sua respiração misturada com a minha. Fechei os olhos de novo e sua boca encostou na minha, tão delicadamente que eu me surpreendi. Ficamos um tempo assim, só sentindo um ao outro, e logo ele se afastou. Deitou ao meu lado e suspirou.
- Isso foi definitivamente melhor do que pensava. – ele falou.
- Definitivamente menos do que eu pensava... – murmurei me virando e ficando de frente a ele.
riu.
- Você quase matou a Tracy hoje, não foi? – eu perguntei e ficou rígido ao meu lado. Ele não me respondeu. - Foi por isso que você não encostou em mim depois. – continuei.
- Foi. – ele assentiu. – Você consegue entender o quanto é sendo difícil pra mim? Eu não sei se quero ficar perto de você.
- Não sabe? – eu perguntei meio nervosa.
Como assim não sabe? Ele acabou de quase me beijar!
- Se eu fico perto de você, eu te mato. Se eu fico longe, você me mata.
- Eu?
- De saudade. – disse todo galanteador.
Eu gargalhei e dei um tapa no ombro dele, me arrependendo segundos depois.

's POV
- Queria poder passar o resto da minha vida olhando as estrelas. – ela comentou enquanto observávamos o céu.
Já passava das três da manhã.
- O resto da vida eu não sei, mas eu deixo você ficar pelo resto da noite. – falei.
Ela deu um tapa no meu ombro e eu sorri.
- O resto da noite não serve, tem que ser pra sempre. – voltou a falar. – Assim como nós dois.
Virei meu rosto em direção ao dela e a vi esboçar um sorriso.
- Eu amo você. – murmurei antes de beijá-la. – Muito.

Capítulo Onze.
[n.a.: Coloquem para carregar]

Pisquei algumas vezes até a minha visão se acostumar com a luz, e o me olhou apreensivo.
- Tudo bem? – ele perguntou preocupado.
- Foi por isso que você colocou os colantes... – murmurei olhando pro teto.
- Você costumava passar as noites no parque, olhando o céu. – ele explicou, provavelmente já imaginando o que eu vi.
- Quanto tempo? – perguntei.
- Hã?
- Quanto tempo você acha que eu tenho? Sabe, antes de morrer.
- Eu não vou deixar você morrer. – disse, como se estivesse tentando convencer a ele mesmo. – Não de novo.
Suspirei.
- Isso é tão chato. Queria poder te beijar. – resmunguei.
riu ao meu lado e se levantou. Eu escutei ele saindo do quarto e encostando a porta. Engatinhei até a minha mochila e peguei meu Ipod, coloquei a primeira música que vi para tocar.
[n.a.: play na música!]
Voltei a me deitar e fechei os olhos, prestando atenção na letra da música, que nunca tinha me feito pensar como agora.

When you try your best but you don't succeed
When you get what you want but not what you need
When you feel so tired but you can't sleep
Stuck in reverse

Eu deixei que o medo de morrer, de novo, me dominasse pela primeira vez. Eu me permiti sentir assustada. E eu sabia que o não ia conseguir se controlar o suficiente para não me matar. Eu sabia disso porque eu não queria me controlar. Meu corpo doía em apenas pensar em me distanciar dele.

And the tears come streaming down your face
When you lose something you can't replace
When you love someone but it goes to waste
Could it be worse?

Senti algumas lágrimas molhando meu rosto enquanto pensava na confusão que eu causei quando decidi me matar, e se eu iria estragar tudo fazendo a mesma coisa outra vez... Eu tentei imaginar como eu me sentiria se o se matasse. Não consegui. Era impossível imaginar um mundo em que ele não existisse.

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you

Eu desejei mais do que nunca poder ter uma solução. Algo que pudesse salvar a mim e ao mesmo tempo a ele.

And high up above or down below
When you're too in love to let it go
But if you never try you'll never know
Just what you're worth

O problema era que a única solução que eu podia ver, incluía voltar para o Brasil, mas isso chegava a ser incogitável, eu já tinha me envolvido demais pra simplesmente ir embora. Eu gostava dele. Eu gostava dele como se nunca tivesse me esquecido de tudo.

Tears stream down your face
When you lose something you cannot replace
Tears stream down your face
And I

Tears stream down your face
I promise you I will learn from my mistakes
Tears stream down your face
And I

Uma dor que eu merecia sofrer. Foi algo que eu provoquei, e somente eu deveria arcar com as consequências. E eu não sabia o que aconteceria se, por acaso, ele me matasse. Não sabia se ele iria sofrer, se iria se culpar. A única coisa que eu sabia era: seria minha culpa de novo. Porque eu não fui forte o suficiente para ir embora.

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you

Mas eu confiava nele. Eu confiava em mim mesma para que eu achasse uma solução. Qualquer coisa que não envolvesse partir. Eu iria concertá-lo.

Capítulo Quatorze.

- Você fez um documento passando a minha guarda pra ele, pai! – gritei ao telefone.
Meu pai suspirou do outro lado da linha, parecendo impaciente.
Típico.
- Eu não passei sua guarda para ele, filha. Somente deixei um papel afirmando que eu viajo muito e que te autorizo a morar com o .
- Grande diferença. – murmurei irônica. - Você nem o conhece direito! Vai que o cara é um assassino?
Tudo bem, vou fingir que não disse isso.
- Eu preciso desligar, quando eu voltar nós conversamos melhor.
- Acho que não vai dar, pai. Eu moro com o agora, fica meio difícil de te encontrar. – falei antes de desligar o telefone.
Joguei o celular em cima da cama e tranquei a porta. Tirei as roupas e fui até o banheiro, entrei no chuveiro sem nem esperar a água esquentar, e meu corpo tremeu ao entrar em contato com o frio.
Não fiquei muito tempo no banho, somente o suficiente. Minha cabeça parecia que ia explodir a qualquer momento, e tudo que eu queria era deitar na cama e me aquecer.
Depois que o saiu do meu quarto, eu decidi ligar para a minha mãe. Só pra saber como estavam as coisas, e adivinhem. Ela não quis me atender. Eu podia escutar sua voz aguda pedindo para a empregada dizer que ela não estava. Por mais que eu já estivesse acostumada com isso, eu me senti mal. Não é lá muito reconfortante saber que os seus pais não dão a mínima para você. Então eu liguei pro meu pai, querendo descontar a raiva em alguém, e a única coisa que eu ganhei foi escutar ele falando que eu estava morando com o . Não que eu me importe de morar com ele, claro, o que me incomoda é o fato do meu pai não dar a mínima pra isso.
Coloquei uma camiseta velha e um short de ginástica antes de sair do quarto, amarrando meu cabelo enquanto descia as escadas. tinha saído para, hm, se alimentar. E eu fiquei sozinha em casa. O que foi um tanto quanto estranho, eu nunca tinha ficado sozinha aqui antes. E mais estranho ainda foi quando o disse o porquê ele tinha que sair. Eu sabia que ele precisava sair, e também sabia o motivo, só não esperei que ele fosse me falar tão explicitamente.
A casa parecia ainda maior sem ele aqui. Fui até a cozinha e peguei uma lata de coca na geladeira, vi que tinha começado a chover e senti um arrepio quando o vento frio e molhado vindo da janela aberta me atingiu.
Deixei a lata no balcão e fui até a janela, pronta para fechá-la. Cheguei perto o suficiente e a fechei, mas meus olhos se fixaram em um ponto do lado de fora. Uma sombra perto da piscina. Minhas pernas tremeram enquanto eu chegava mais perto ainda e apertava os olhos em uma tentativa de enxergar melhor. A sombra se mexeu, e uma luz forte iluminou o céu, segundos depois um barulho alto ecoou. Nos poucos segundos em que o céu ficou claro eu pude ver a sombra melhor. E não era o lá fora. Era uma garota.
Outro clarão.
Eu vi a sombra se aproximando da janela, e um objeto brilhante logo ao lado da garota.
Uma faca.
Meu corpo não conseguia se mover. Eu simplesmente não conseguia desviar o olhar da garota, que continuava caminhar em direção a casa.
O céu estava iluminado, devido aos constantes raios, o que me permitia ter uma visão melhor dela. E por um momento, um curto momento, eu pude ver os olhos da . E foi apenas um segundo depois disso para que o escuro tomasse conta da casa.
Nessa hora eu retomei a consciência, e sai da cozinha. Corri até a sala e tranquei a porta. Meu coração batia tão forte contra meu peito que eu achei ele fosse capaz de rasgar minha pele.
A casa se encontrava em um silêncio e escuro, que me deixavam à beira da loucura. E eu senti medo. Os olhos que eu vi eram o da . Mas não podia ser.
Ela estava morta.
Deixei meu peso cair, e meu corpo escorregou pela porta. Fechei os olhos e tentei colocar na minha cabeça que nada havia acontecido. Eu só fiquei impressionada por causa da tempestade que começou de repente.
E foi quando minha respiração já estava voltando ao normal que eu senti uma batida na porta. Uma não. Várias, seguidas e brutas.
Deixei um grito escapar da minha garganta enquanto eu levantava correndo e subia as escadas, tropeçando nos degraus. As batidas continuavam cada vez mais fortes, e eu senti lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
Entrei no quarto do , e tranquei a porta.
Silêncio.
O vento batia ruidosamente na janela, e meu corpo tremia. Cogitei abrir a porta, mas o medo me dominou. Eu tinha certeza de que tinha visto alguém lá fora. Alguém com uma faca e o olhar da minha melhor amiga. Minha melhor amiga morta.
Eu estava com a cabeça apoiada na porta, tentando escutar se as batidas haviam parado quando senti algo frio nos meus pés. Olhei para baixo e vi um pouco de água. Meu olhar levantou e eu vi que a janela estava aberta. A chuva misturada com o vendo, invadia o quarto.
Me afastei da porta e da janela e escutei a madeira ranger. Como se alguém estivesse andando, mas o barulho não vinha dos meus pés. As lágrimas me impediam de enxergar bem, mas eu forcei a minha vista, e vi a sombra de alguns minutos atrás perto do armário. Os olhos, que antes eu achei que pertenciam a minha amiga, agora estavam vermelhos e brilhantes, me encarando de uma maneira sádica, nada parecido com o olhar da . Meu corpo caiu, batendo em alguma coisa de vidro me cortando, e eu tentei engatinhar para longe, enquanto a pessoa se aproximava. Minhas costas bateram na parede ao lado da cama e um gemido de medo e dor escapou dos meus lábios.
Fechei os olhos, e no segundo depois escutei um baque e quando voltei a abrir os olhos, a porta do quarto tinha sido arrombada e o estava na minha frente, segurando meu rosto.
- Você está bem? – ele perguntou preocupado.
- Tem alguém aqui. – murmurei em meio a soluços, e passando meus braços pelo seu pescoço, o abraçando.
- Eu sei. – ele sussurrou, me abraçando de volta.
me soltou poucos segundos depois.
- Não se mexa, ok?
Ele sumiu antes que eu o respondesse. E apareceu de volta, segundos depois, com uma expressão frustrada no rosto.
- O que foi? – perguntei, reparando que a minha voz estava meio rouca.
- Ele já foi embora. – me disse, se abaixando para ficar na minha altura. Ele secou algumas lágrimas que ainda caiam pela minha face.
- Ela. – corrigi.
- Como? – disse ele confuso.
- Não era ele, era uma garota. – expliquei.
Seus olhos passaram pelo quarto, procurando alguma coisa, ou alguém. Mas logo me encaravam novamente, preocupados, e pararam nos cacos de vidro em volta de mim.
Senti uma dor latejante quando me lembrei dos cortes, e me achei uma idiota por saber que era psicológica e mesmo assim me incomodava.
- Vamos cuidar disso. – ele falou apontando para os machucados.
passou um braço debaixo das minhas pernas e o outro nas minhas costas enquanto eu me segurava para que ele pudesse me levantar.
Ele saiu do quarto e me levou até o banheiro da minha suíte, trancando a porta assim que passou. Me colocou sentada na pia. E foi no momento que sua pele deixou de encostar na minha que eu me lembrei de uma coisa.
- Você me abraçou. E me carregou! – gritei eufórica, quase pulando em seu pescoço novamente. – E eu não desmaiei!
Ele sorriu antes de se aproximar do meu rosto até deixar seus lábios encostarem no meu por alguns segundos. Poucos segundos. Mas que fizeram meu coração acelerar de uma maneira absurdamente vergonhosa, e meu corpo formigou pra poder ter mais que apenas isso.
- Como você fez isso? – perguntei com a voz fraca. Ainda podia sentir meu coração pulsando contra meu peito. Ridiculamente rápido.
Ele riu e pegou o kit de primeiros socorros na gaveta.
- Fica mais fácil ficar perto de você assim que eu acabo de me alimentar. – ele falou dando de ombros. – Fora que eu acho que fiquei tão preocupado com você, que acabei me esquecendo que não devia te tocar. Dói? – ele perguntou apontando para o corte na minha perna e os do meu braço.
Neguei, ignorando a pequena dor. Ele colocou um remédio em um pedaço de algodão e passou levemente pelo corte da perna. Deixei um gemido de dor escapar quando senti o líquido ardendo na minha pele.
- Me desculpe. – disse. – Você não me escutou bater na porta?
O olhei com os olhos arregalados.
- Era você? – perguntei.
- Era. Eu vi alguém rodeando a casa, e quis entrar pra te tirar daqui, mas eu não levei chave.
- Eu achei que era a garota. – murmurei brava comigo mesma por não ter aberto a porta. – Mas como você entrou se não tinha levado a chave?
- Arrombei a porta da cozinha. – ele deu de ombros. - Mas agora me conte exatamente o que aconteceu.
Eu contei pra ele tudo o que tinha acontecido resumidamente, e cortando alguns detalhes que não eram importantes.
Ele ficou algum tempo em silêncio, passando o remédio nos meus cortes, e eu analisei sua expressão concentrada. Incrível como ele ficava ainda mais bonito no escuro, com a luz da lua refletida na pele clara.
- Você sabe quem foi? – perguntei quando vi que ele não iria falar nada.
- Não. – respondeu prontamente, me fazendo achar que ele estava mentindo.
- Hm... Terminou?
Ele assentiu enquanto colocava um band-aid no corte do braço, e me ajudou a descer.
- Eu vou limpar as coisas, é melhor você descansar um pouco. – sugeriu ele, abrindo a porta e me levando até a cama.
- Tudo bem. – concordei cansada só de pensar em limpeza. – Mas quero que você fique comigo.
- Ela não vai voltar. Não precisa ter medo.
- Não é por medo que eu pedi pra você ficar.

Capítulo Quinze.

suspirou e deitou ao meu lado.
- Você não muda. Mesmo depois de todos esses anos... – ele murmurou acariciando meu rosto.
Fechei os olhos, aproveitando o momento raro, e deixei uma lágrima escapar.
- Eu senti tanta falta. – sussurrei, abrindo os olhos novamente. – Mesmo não sabendo que era você que eu procurava.
- Você não sabe o quanto eu precisava ouvir isso. – me disse.
Não tive tempo de associar o que aconteceu depois. Acho que foi uma surpresa tão grande sentir seus lábios sobre os meus, que eu não consegui corresponder o beijo. Só por alguns segundos, claro. Um choque correu pelo meu corpo quando deixei que nossas línguas se encontrassem e eu gostei dessa sensação. O abracei pelo pescoço, e o puxei para mais perto. me puxou pela cintura, provavelmente tentando fazer o mesmo que eu, e me senti bem sabendo que não era a única meio... Desesperada por aquele momento.
O ar começou a faltar, mas eu não queria interromper o beijo para respirar. Só Deus sabe quando o iria me tocar de novo, e a ideia de me afastar não agradava nem um pouco.
Ele me puxou para mais perto, deixando meu corpo por cima do dele. Suas mãos subiram pelas minhas coxas e pararam no quadril.
Desci os beijos para o seu pescoço, e senti suas mãos me apertarem com mais força.
Isso era bom.
Finquei minhas unhas na pele dele, e um gemido escapou dos seus lábios, em resposta ele apertou suas mãos no meu quadril, subindo para dentro da minha camiseta logo depois. Meu corpo se arrepiou com os seus toques, e eu já não procurava mais conter os suspiros.
- ... – murmurei antes de sentir meu corpo mais leve e de repente não estar mais lá.

’s POV
Meu corpo formigava para tocá-la, mas eu não podia. Não devia.
- Por que você resiste tanto? – ela perguntou se aproximando.
- Eu não posso fazer isso com o . – respondi.
- Mas pode fazer comigo? – disse ela, em um tom extremamente apelativo.
Encarei os olhos castanhos a minha frente, implorando por contato, e a minha resistência... Bem, ela foi pro espaço.

Senti meu rosto esquentar a medida que o silêncio aumentava. continuava com a respiração pesada e descompassada, mas seu corpo ainda imóvel ao meu lado.
Contive a vontade de olhá-lo, e continuei encarando o teto.
- Você está bem? – ele perguntou enfim, e eu me virei para encará-lo.
Seus olhos estavam escuros e tristes.
- Bem. – falei, achando que “bem” não descreveria como eu estava me sentindo. Algo como radiante seria melhor. – O que aconteceu? – perguntei quando sua expressão se tornou ainda mais triste.
- Você não estava respirando. – o encarei confusa, é claro que eu estava bem! – Eu achei que tinha te matado.
- Ótimo... – murmurei irônica. Isso tinha que acontecer.
Então, enquanto eu dava uma voltinha pelo meu passado, achando que estava tudo bem, na verdade eu estava desmaiada; Morrendo.
Eu realmente achei que iria voltar para o quarto, a cama, o beijo do , mas não. Claro que não! As coisas não podem ser tão simples para mim.
- O que você viu? – perguntou mudando de assunto, parecendo um pouco – muito pouco – melhor.
- Você pretendia partir o beijo em algum momento? Ou você só estava esperando para ver até onde o seu autocontrole ia?! – explodi, quando essa ideia me veio a cabeça, ignorando a sua pergunta.
Ele podia muito bem ter começado a me beijar só para ver até onde aguentava e foda-se se a podia morrer, não é?
Mas não pareceu tão surpreso com essa pergunta, pelo contrário, ele pareceu estar se divertindo. No segundo seguinte, seu corpo estava sobre o meu, e a boca a milímetros da minha.
- Eu sei muito bem até onde vai o meu autocontrole. O que eu quero saber é até onde vai o seu.
- O que você disse? – perguntei brava. Ele tinha acabado de sugerir que eu não tinha autocontrole?
- Você entendeu bem. – ele murmurou. Um sorriso sarcástico estampava seu rosto.
Sua respiração quente batia em mim, e me fazia querer vencer os poucos milímetros de distância entre nossas bocas. Mas eu não ia.
- Você está dizendo que eu sou a culpada de desmaiar toda vez que te toco, e não você? – sugeri ainda meio irritada.
- Fofa, eu sou 183 anos mais velho que você. Autocontrole é algo que não me falta. O que nos leva de volta a você...
- A mim?
- Eu encosto a qualquer pessoa, a todo momento, sempre encostei. E a única que passa mal, é você.
- O que você está sugerindo, posso saber?
- Que você é fraca perto de mim...
- Não! Você acabou de jogar na minha cara que fica se amassando com qualquer garota. O tempo todo!
O empurrei e levantei da cama. Escutei rir enquanto eu andava até o banheiro. E no momento em que eu abri a torneira, e a água fria escorreu pelas minhas mãos, eu me dei conta de uma coisa.
Eu não tinha direito nenhum de ficar brava com ele. Não é como se a gente estivesse namorando, ou algo do tipo, por mais que fosse o que ele tivesse falado pra Tracy. A verdade é que eu não podia me irritar com ele por isso. Eu não podia exigir que ele tivesse passado os últimos anos sem se envolver com alguém, afinal... Eu não estava aqui.

Capítulo Dezesseis.

Os próximos dias foram uma sucessão de acontecimentos estranhos.
Como eu estava suspensa, não fui para escola, e como meu pai tinha sumido, não fui pra casa.
As coisas com tinham voltado ao normal, apesar de que ele andava meio paranoico. Quando eu voltei do banheiro após a nossa pseudo briga, ele não estava mais no quarto. Mas eu podia escutar sua voz vindo do corredor. Ele discutia com alguém, e não parecia muito feliz.
“Se isso se repetir, , eu não vou pensar duas vezes antes de matar aquela garota! Eu te avisei pra deixar ela longe da !”, ele rosnou.
Sua voz carregava tanta raiva, que eu resolvi ficar trancada no quarto pelo resto na noite. Bom, por isso e porque acho que fiquei meio assustada com o que ele falou. Como assim? queria manter quem longe de mim? E nessa hora eu me lembrei da garota da faca que estava na casa. Mas se fosse ela, já a conhecia? E também! O que me levava a achar que eles estavam me escondendo alguma coisa muito séria.
E esse pensamento só se intensificou quando veio ficar comigo pelos próximos dois dias. Ele veio ficar comigo porque o foi viajar. Com o .
- Então, ... – comecei a falar quando a quinta partida de vídeo game acabou.
Ele tinha ganhado.
- Fala, .
- Você não vai mesmo me contar o que tá acontecendo? – pedi, pela milionésima vez.
riu, e tirou o controle da minha mão, me puxando para fora do sofá.
- Vamos pro .
A casa do era bem perto da do , mas como estava chovendo, nós fomos de carro. E eu passei o trajeto todo tentando arrancar alguma coisa do .
- Que saco vocês! Ficam aí me escondendo as coisas! – reclamei saindo do carro e entrando na casa dele.
A porta sempre ficava aberta.
Passei reto quando vi o deitado no sofá vendo TV, e subi as escadas, escutei explicar que eu estava meio irritada hoje, e isso sim me deixou brava.
Eles ficam me enganando, como se eu fosse alguma idiota. Não é porque o os mandou ficarem de boca fechada, que eles necessariamente têm que ficar! Entrei no quarto de hóspedes e deitei na cama.
Uma vontade de gritar me dominou e eu não pensei duas vezes antes de deixar o som agudo escapar da minha garganta.
apareceu no quarto segundos depois com a feição preocupada.
- O que foi? – ele perguntou olhando em volta, procurando alguma coisa que tivesse me feito gritar.
- Nada. – respondi emburrada, e colocando o travesseiro na cara.
Escutei ele suspirar, provavelmente bravo comigo, por eu ter gritado e tudo mais. Mas logo senti a cama se afundar do meu lado, e ele tirou o travesseiro sair do meu rosto. Resmunguei alguma coisa, ele riu.
- Tudo isso é por que o foi viajar e não te contou? – ele perguntou.
O olhei brava.
- Tudo isso é porque ele foi viajar com o e mandou você e o não me contarem o que eles foram fazer!
- , não é como se eles estivessem indo pra algum strip club, ou sei lá. – ele deu de ombros.
- Eu não estava pensando nisso, mas agora que você falou, mais um motivo pra eu ficar irritada! – falei fazendo careta de imaginar os dois em alguma boate.
riu.
- Cadê o ? – perguntei.
- Foi comprar comida.
- Ah é, esqueci que você vive a base de cerveja. – murmurei. bateu o travesseiro na minha cara e eu o encarei brava.
- Seu idiota. – falei rindo.
- O volta amanhã. – ele disse depois de algum tempo em silêncio.
- Bom para ele. – respondi sem nenhuma emoção.
Pelo menos nenhuma aparente.
- O que aconteceu pra você ficar assim?
Me virei para o outro lado, tentando me esconder do olhar do , mas logo ele estava a minha frente de novo.
- Você pode confiar em mim. – ele sussurrou.
- Eu sei que posso... – respondi sem dúvida alguma. Eu confiava nele. – O que me irrita é que vocês não confiem em mim.
Isso pareceu chatear o . Ele fechou os olhos, e voltou a me encarar, como se estivesse prestes a falar algo que não devia.
- Nós confiamos. O que você tem que procurar entender é que a gente só está fazendo isso pra te proteger.
- Que clichê. – murmurei.
- Não é clichê, é a verdade. Doeu muito te perder uma vez, ninguém quer que isso aconteça de novo. E você tem que entender isso.
saiu do quarto, me deixando sozinha e com muita raiva de mim mesma.
Incrível como ele consegue me fazer sentir culpada mesmo quando a culpa não é minha! Abracei o travesseiro e fechei os olhos, sentindo minhas pálpebras ficarem cada vez mais pesada até eu não estar mais acordada.
Eu não faço ideia de quanto tempo eu dormi. Só sei que quando eu acordei não estava mais na casa do , e sim no meu quarto. O que significava uma coisa: tinha voltado. Cambaleei para fora da cama, ainda meio sonolenta, e fechei a janela. Estava escuro, e eu deduzi que deveria ser madrugada.
Sai do quarto, tentando não fazer muito barulho, afinal, eu não sabia se estava dormindo ou não, e fui até o seu quarto. A porta estava encostada, e eu entrei, só torcendo para não encontra-lo acordado. Ia ser meio embaraçoso, ele ia pensar que eu o estava espionando. Bom, não que eu não estivesse, certo?
E de repente, toda a coragem que eu estava mais cedo para confrontá-lo sumiu. E me deixou apenas com uma saudade absurda.
Mas ele não estava no quarto. Eu caminhei até sua cama, onde havia um livro aberto e o contorno do seu corpo no edredom, então ele deveria ter acabado de sair. Quando eu estava prestes a me virar e sair do quarto, escutei um barulho vindo da porta.
- Você acordou. – falou sorrindo. Como se fosse a coisa mais linda do mundo me ver acordada.
Ele estava encostado na porta, somente de boxers, e eu senti minhas bochechas corarem quando ele se aproximou. Meus olhos estavam presos no seu corpo, e ele sorriu quando reparou nisso.
- Quando você voltou? – escutei minha voz perguntar, levemente rouca.
Ridículo.
Ele realmente precisa causar esses efeitos em mim? Já não é constrangedor demais todo o resto?
- Há algumas horas. – ele respondeu meio vago, chegando ainda mais perto.
Nossos corpos estavam separados por apenas alguns centímetros, e o sorriso malicioso que estampava seu rosto, me dizia que essa distância não ia durar muito tempo.
- Não vai me contar pra onde você foi? – perguntei, com o resto de sanidade que ainda me restava.
chegou ainda mais perto, e seus braços envolveram minha cintura.
- Não. – sussurrou no meu ouvido. Ele começou a distribuir beijos no meu rosto, parando no canto ta minha boca. – Tem algum problema?
Encarei seus olhos perto dos meus e por alguns segundos me senti perdida na intensidade deles. Seu olhar caiu sobre a minha boca, e meus olhos fizeram o mesmo movimento, encarando a dele. Absurdamente convidativa.
- Nenhum. – murmurei antes de puxá-lo pelo pescoço e o beijar.
Incrível como eu consigo ser tão fraca.
Mais incrível que isso, é como ele consegue beijar tão bem.

Capítulo Dezessete.

- Você vai precisar me contar o que está acontecendo algum dia... – falei.
Depois da pequena, mas satisfatória, série de amassos, e eu nos deitamos em sua cama e ficamos abraçados e em silêncio. Coisa que eu gostei. Sabe, poder ficar abraçada com ele, sem passado nenhum atrapalhando. Só o dia de hoje para viver.
- Eu sei. E algum dia eu vou contar. – ele respondeu.
- E esse dia está perto? – perguntei esperançosa.
Mesmo já sabendo a resposta.
- Não.
Suspirei meio irritada e me deitei de costas para ele. Eu só queria sabe o que de tão importante estava acontecendo e que ninguém podia me contar.
continuou imóvel ao meu lado e não achei que ele fosse voltar ao assunto tão cedo. E isso me deixava brava. Eles já me escondem tantas coisas, que eu na faço questão nenhuma de perguntar, e a única coisa que eu quero saber, eles fazem questão me esconder. Como se isso fosse me deixar menos curiosa.
- Você tem aula amanhã? – ele perguntou após alguns minutos.
Eu podia sentir que seu corpo tinha se aproximado do meu e sua respiração batia em meu pescoço.
- Tenho. – murmurei desanimada.
Era estranho pensar que eu ia ter que voltar para escola amanhã. Quer dizer, depois da minha suspensão veio o fim de semana, prolongando ainda mais minhas férias não autorizadas.
- Vira pra mim. – ele pediu manhoso.
Não queria virar; Eu estava brava com ele. Mas por outro lado, eu não sabia quando ele ia poder encostar em mim novamente, então eu me virei.
Seu rosto estava a apenas alguns centímetros do meu e um sorriso brotou em seus lábios. Meu coração acelerou quando sua mão acariciou meu rosto.
- Você vai à escola por quê? – perguntei. Eu nunca tinha parado para pensar nisso, mas se ele era tão velho assim, provavelmente já tinha estudado antes, e eu tenho certeza de que se fosse eu – e poderia ser –, escola era algo que eu iria cortar do meu cotidiano.
Ele deu de ombros.
- É divertido. – disse . Divertido. Escola pode ser qualquer coisa menos diversão, pelo menos pra mim. – E quando você já fez todas as provas milhões de vezes, elas não são muito complicadas. E se você tira uma nota boa na prova, não precisa fazer dever de casa.
- Mas mesmo assim, se eu acho chato ter que aprender, imagina vocês que já sabem tudo!
- Não é tão ruim assim depois de alguns anos. – ele disse simplesmente.
- E quando acaba? Você não vai pra faculdade?
- Depende. Faculdade é meio chato. Escola é mais informal. – ele fez uma careta. – Mas eu já fui algumas vezes.
- Algumas? – eu ri. – O que você fez?
- Música.
O encarei incrédula, ele tinha feito faculdade de música? Eu nem sabia que ele tocava alguma coisa!
- Isso é brincadeira, não é?
Ele franziu a testa.
- Hm, não. – ele negou.
- Eu nem sabia que você tocava alguma coisa! – exclamei meio irritada comigo mesma. Pelo visto, eu sabia menos do que imaginei.
se levantou da cama e estendeu a mão para me ajudar a levantar também. Levantei meio confusa e nós saímos do quarto. O segundo andar tinha três quartos: o dele, o meu e um que eu deduzi ser para hóspedes. No final do corredor, uma pequena escada levava ao que eu imaginei ser o sótão, então eu nunca fui lá, nunca tive vontade. E foi exatamente para lá que me levou.
- Aonde você vai? – perguntei enquanto ele me puxava escada acima.
- Quero te mostrar uma coisa. – ele murmurou assim que chegamos ao fim da escada.
Ele abriu a porta, e quando eu pude ver o cômodo repleto de guitarras e violões, e um piano de cauda no meio, me senti uma estúpida por nunca ter ido lá antes.
Entrei no quarto, admirando os instrumentos. Nunca imaginei que o tocasse alguma coisa. E agora era estranho saber que ele devia ser realmente muito bom.
Me sentei no banco do piano e pousei minha mão sobre o mesmo, sentindo vontade de tocar.
- Você toca? – perguntou se sentando ao meu lado.
- Nem uma nota. – fiz uma cara triste e ele sorriu.
- Tem certeza? – ele ergueu a sobrancelha em dúvida e ajeitou minha mão em cima das teclas, como se me incentivasse a tocar.
E foi o que eu fiz. Eu toquei.
Eu toquei como se tivesse feito isso a vida toda, mesmo sem nunca ter tido uma aula e não fazer ideia da diferença entre um dó sustenido e um normal.
Não fazia ideia de que música eu estava tocando, só sabia que meus dedos, de repente, tinham vida própria e deslizavam pelas teclas, criando uma melodia agradável aos meus ouvidos. posicionou as mãos do lado oposto ao que eu tocava e logo seus dedos já acompanhavam os meus; a harmonia perfeita.
- Isso foi estranho. – murmurei envergonhada, quando parei de tocar. Quando achei que a música tinha acabado.
me encarava admirado e eu senti meu rosto corar.
- Você me ensinou a tocar. – ele explicou. – Quando nós nos conhecemos. É bom saber que seu talento continua intacto, assim como a sua teimosia.
Rolei os olhos e ri.
- Os meninos tocam também? – perguntei, levantando do banco e indo olhar as guitarras.
Todas absolutamente lindas.
- Tocam... Nós queríamos formar uma banda. Só que ia ser meio difícil, no caso de nós ficarmos famosos, forjar uma morte aos vinte e poucos anos.
Eu me virei e o encarei confusa.
- Como assim? Por que forjar uma morte?
me deu um sorriso meio triste, se levantou e veio até mim.
- Não é como se nós pudéssemos continuar tocando sem envelhecer. As pessoas iam notar algum dia. – ele deu de ombros. – Mas tudo bem. O Dougie não ia saber lidar com a fama mesmo. – ele riu, tentando amenizar o clima, mas eu não consegui sorrir também.
Eu tinha quase me esquecido desse pequeno detalhe. Sobre ele não envelhecer e eu sim.
me conduziu para fora do quarto e logo nós já estávamos de volta ao corredor.
- Fome? – ele perguntou.
- Um pouco. – dei de ombros.
- Ótimo. vai fazer o jantar.
Eu ia perguntar o porquê, mas achei melhor não. Se eu perguntasse alguma coisa, era capaz de nós ficarmos aqui mesmo e eu tinha várias coisas para falar com o .
Coisas que envolviam a garota que esteve aqui há alguns dias. Garota que eu sabia que tinha algo a ver com ele.
Tomei um banho rápido, sequei o cabelo e coloquei uma roupa de frio, o clima hoje não estava dos mais agradáveis. Encontrei já pronto na sala, com o cabelo ainda meio úmido e sorri.
Poxa, ele era tão incrivelmente lindo. Se eu não tivesse surtado com essa vida de dementador – apelido que eu dei para o – eu poderia ser linda assim. Acho que tem algo a ver com a imortalidade. Sabe, você fica mais bonito e bem, não sei.
- Vamos? – ele perguntou.
Assenti e nós fomos até o carro. O caminho todo nós permanecemos em silêncio. ficou meio estranho depois desses dias com o . Ele estava realmente melancólico e isso não era normal. Bom, não era normal perto dos outros dias que eu passei com ele.
A porta estava aberta quando chegamos e foi direto para a cozinha, deixei minha bolsa na sala e voltei para falar com o . Uma saudade surgiu em meu peito quando reparei o quanto ele tinha feito falta.
- Saudades? – falou saindo da cozinha, usando um avental rosa.
Sorri.
- Demais. – falei, correndo para abraçá-lo.
Surpreso com a minha atitude, ele cambaleou quando pulei em seu pescoço, mas logo retribuiu o abraço na mesma intensidade.
- Sua comida tá queimando, . – falou sério, aparecendo na sala.
me soltou e correu para a cozinha, xingando baixinho quando provavelmente viu que queimou alguma coisa. Olhei brava para o , ele deu de ombros.
O jantar correu normal. Bem, se fossemos ignorar a constante troca de olhares raivosos do na direção do , e os olhares culpados que recebia em troca, foi um jantar normal. Quando quase não podia mais aguentar a discussão silenciosa dos dois, resolvi interferir.
- E ai, como foi a viagem?
Os dois trocaram olhares rápidos, mas que não passaram despercebidos por mim. deu de ombros, e voltou a se concentrar na comida. E olhe que eu nem sabia que mortos precisavam comer.
- Nada demais. Só fomos dar uma volta por aí, relaxar um pouco. - falou meio indiferente.
E parecia que ele tinha feito curso de narração de apostilas. Uma fala completamente decorada.
- Legal... - murmurei.
Se eles achavam que iriam me convencer com essa de relaxar, estavam bem enganados.
Eu passei os últimos dias tentando não pensar no incidente de quarta, mas não ia mesmo deixar isso passar agora. Não quando eu podia simplesmente ter todas as respostas. Não quando eu sabia que apenas com um pouco de persuasão eu conseguiria saber o que realmente estava acontecendo. Não quando envolvia a .
- Tudo bem, eu esperava que vocês chegassem nesse assunto sozinhos, mas parece que eu vou ter que interferir. - falei. - O que está acontecendo? De verdade. - frisei.
- Do que você está falando? - perguntou com a testa franzida, parecendo realmente confuso.
Foi nessa hora que eu o considerei um melhor ator que o .
- Por favor, não finja que você não entendeu. - disse impaciente. - Eu sei muito bem que tem alguma coisa errada, e eu quero saber o quê.
- Não tem nada acontecendo. - ele falou firme. apenas continuava mexendo na comida do seu prato, provavelmente achando que assim eu o esqueceria.
Claro, como se fosse possível.
- Vocês não acham que já me escondem coisa demais? - perguntei meio ofendida. - Uma vida inteira, na verdade.
Confiança é a base de qualquer relacionamento, e eu confiava neles, mas saber que eles não confiavam em mim não era o que podemos chamar de legal.
- É melhor irmos embora. - resolveu, se levantando e saindo da cozinha, aparentemente irritado.
Eu bufei.
- Isso é com você também, ! Não adianta fingir que não está escutando, isso não te isenta da culpa! - disse antes de fazer o mesmo caminho que o .
Entrei no carro, onde já me esperava, e bati a porta com uma força desnecessária.
- Qual é o seu problema? Eu já tinha te avisado que não ia te contar onde nós fomos! - ele falou, apertando o volante.
O encarei assustada pelo seu jeito bruto e me encolhi no banco. Eu nem ao menos tinha feito alguma pergunta realmente reveladora, saber o que estava acontecendo era algo generalizado. não tinha o direito de ficar tão estressado.
- Por que você me trouxe pra jantar aqui? - perguntei. - Você já devia imaginar que eu ia querer saber o que está acontecendo.
- Ele pediu, porra! - gritou alterado.
E nesse momento eu soube que se quisesse permanecer viva, não podia mais abrir a boca. estava puto o suficiente para me matar com apenas um toque, e eu achei que a raiva em sua voz já era dor suficiente por uma noite.
Permanecemos o resto do curto caminho em silêncio, e agradeci quando chegamos em casa. Sai do carro correndo e me tranquei no quarto, sabendo o quão infantil fora minha reação. Mas eu não tinha culpa de ser curiosa. Não, não... Eu só estava zelando pela minha segurança. Alguém tinha tentado me matar e eu sabia que os dois sabiam quem era.
Deitei na cama, pegando no sono logo em seguida e só voltei a acordar pela manhã, atrasada para a aula.

Capítulo Dezoito.

Após correr contra o tempo, tomar o banho mais rápido da história e colocar uma roupa, desci as escadas, tropeçando nos próprios pés. Eu não fazia ideia se o iria na aula, se ele iria me levar, então preferi ir andando. Correndo o risco de chegar somente para o segundo período, se fossemos considerar a distância da casa dele até a escola.
- Ei, onde você pensa que vai? - escutei uma voz brincalhona falar logo atrás de mim.
Deixei a maçaneta da porta e me virei, encontrando um sorridente.
Bipolaridade?
- Eu vou para a escola. - murmurei meio alarmada. Não fazia ideia do que tinha acontecido para que ele ficasse tão feliz depois de ontem.
Ele sorriu.
- Andando? - ergueu a sobrancelha, meio descrente e sacudiu a chave do carro na mão. - Vamos, .
se dirigiu até a porta dos fundos, que levava a garagem e eu o segui. O que mais poderia fazer?
Quando cheguei lá, me esperava apoiado na porta do carona e a abriu assim que cheguei perto. Reparei o quanto ele estava bonito hoje. Bom, ele era impecavelmente lindo todos os dias, mas hoje conseguia estar ainda mais. Seu cabelo bagunçado o dava um ar de despreocupado e sexy.
Imortalidade, seria você o sinônimo de beleza?
- Alguém acordou de bom humor? - perguntei assim que entramos no carro e ele deu partida.
deu de ombros.
- Só me toquei de que não vale a pena brigar por algo insignificante.
Eu pensei seriamente em dizer que uma pessoa que queria me matar não era algo tão insignificante assim, mas temendo encontrar o irritado de ontem, apenas assenti e permaneci quieta.
Entrar na escola depois da minha breve pausa foi um tanto quanto estranho. Era como se eu não pertencesse lá. Rolei os olhos ao passar por umas amigas da Tracy, que me xingaram assim que passei e caminhei até meu armário.
estava do meu lado.
Franzi a testa.
- Você não vai pegar seu material? - perguntei confusa. O sinal já iria bater.
- Acho que vou assistir à aula com você hoje. - disse.
Logo depois, uma rajada de vento invadiu o corredor, trazendo consigo folhas e gravetos. As amiguinhas da Tracy deram pequenos gritos histéricos e segurou minha mão.
Foi nesse momento que eu percebi que algo estava seriamente errado.
Não sei se foi o vento forte e frio no meio de um corredor desprovido de janelas, ou o fato do estar tão estranhamente feliz e meloso hoje. Quer dizer, assistir as minhas aulas? O cara já deve ter ido para a escola mil vezes e ainda sim quer ver as aulas de novo? E segurar a minha mão assim que o vento esquisito invade o corredor? Isso para mim significava perigo. Ele estava sendo protetor.
Apesar de gostar do calor que sua mão proporcionava na minha, separei as duas e fechei meu armário.
- Eu quero ir pra aula sozinha. - falei, frisando o "sozinha".
Esperava que isso fosse o suficiente para que ele fosse embora, ou que fosse o suficiente para ele me contar o que estava acontecendo. Mas não.
- Vou ir com você. - falou firme. E por mais que sua voz e postura não demonstrassem, o seu olhar me dizia que eu não tinha muitas opções.
Sentei na minha carteira, irritada. tinha jogado o maior charme pra professora de Geografia e agora estava sentado atrás de mim, ainda insistindo na ideia de me seguir.
Quando faltavam uns dez minutos para o intervalo, escutei pedir licença e sair da sala, meio apressado. E todas essas coisas só me deixavam ainda mais curiosa. Por que eu não podia saber o que estava acontecendo?
Concentrar no final da aula depois da saída do foi um caso perdido, então eu agradeci quando o sinal tocou. Peguei meus livros e os dele também, saindo da sala em seguida. Procurei pelo corredor abarrotado de alunos e fui me enfiando no meio deles para chegar até a cantina. Algumas pessoas esbarravam em mim sem piedade alguma, e outras pediam desculpa. Quando finalmente cheguei no refeitório, não encontrei nenhum dos meus amigos. Nem o , ou o , que sempre estavam lá quando o e o sumiam. Nada.
Franzi a testa confusa e fiz o caminho de volta, com a intenção de ir até o meu armário e guardar os livros. No caminho, o corredor já não estava tão movimentado e o vento do começo da manhã voltou a me atormentar. Um calafrio correu minha espinha.
Apressei o passo, e logo cheguei ao meu armário. Coloquei os livros lá dentro e me virei, querendo me esconder no meio da multidão de estava almoçando. Por algum motivo, sentia como se alguém estivesse me vigiando, e não achava que fosse alguém bom.
Os meus passos ecoavam no corredor e eu sentia como se nunca fosse chegar até o refeitório. Eu andava e andava, mas simplesmente não saia do lugar. Comecei a me desesperar, e lágrimas se formaram nos meus olhos, por mais que a última coisa que eu quisesse fosse chorar. As luzes se apagaram, e o vento ficou ainda mais forte.
Parei.
Escutei alguns passos atrás de mim, e mesmo morrendo de medo, me virei. Se eu tivesse sorte, era somente algum aluno passando no mesmo corredor sinistro que eu. É, claro.
Mas quando me virei, não tinha nada lá. A luz havia voltado e o vento cessado.
- ? – escutei chamar, saindo de uma sala a minha direita. Respirei aliviada, e corri até ele, o abraçando.
- O que ta acontecendo? – perguntei em meio a soluços. Foi nessa hora que eu reparei que estava chorando.
- Tá tudo bem... – ele sussurrou, acariciando meu cabelo tentando me acalmar.
Fiquei algum tempo abraçada a ele, tentando normalizar a minha respiração e parar de chorar.
- Melhor? – ele perguntou quando me afastei. Balancei a cabeça afirmando. O sinal tocou logo depois. – Você precisa ir pra aula. Depois a gente conversa. – ele disse, visivelmente querendo adiar o assunto.
Eu concordei, porque precisava mesmo ir pra aula, mas ele que não fique achando que isso passou despercebido por mim.
Ainda meio relutante, voltei ao meu armário, peguei os livros, e fui para a minha próxima aula: História. não estava lá. Nem no estacionamento quando a aula terminou. Nem o . Nem ninguém.
Sozinha de novo.
Procurei pelo carro, mas como eu já imaginava, ele também não estava lá. Eu peguei meu celular no bolso, e liguei para o número do . Ele não atendeu.
Suspirei meio infeliz com a ideia de ficar sozinha e comecei a caminhar para casa. E não a do . A minha.
Meu pai ainda não havia voltado, então as coisas continuavam do mesmo jeito que eu me lembrava. Fui para meu quarto, e tranquei a porta. Não estava me sentindo exatamente segura hoje. Tomei um banho rápido e coloquei uma roupa qualquer que ainda estava no armário. Eu tinha levado a maioria das minhas coisas pra casa do . Quando me deitei na cama, reparei que algo estava faltando. Algo que eu não tinha tirado de lá.
Uma foto. Minha e da .
Foi tirada há alguns anos, quando nós viemos passar as férias aqui na casa do meu pai. Éramos quase crianças ainda e aquela era minha foto favorita.
Não podia acreditar que meu pai tinha pegado!
Sai do quarto e caminhei em passos firmes até o dele. Comecei a remexer em suas coisas, procurando a foto. Quando não achei nada, procurei em todas as lixeiras da casa.
Nada.
Senti uma raiva tão grande me dominar, que voltei para meu quarto e chamei um táxi. Escrevi um bilhete perguntando onde a foto estava, e pedindo pra meu pai me ligar assim que chegasse, peguei o resto das minhas coisas e fui embora.

Quando encarei a porta do me xinguei mentalmente. Eu não tinha uma chave. Tentei a maçaneta, mesmo sabendo que estava trancada.
Não abriu.
Liguei pra ele mais uma vez, só que ninguém atendeu. Bufei irritada e comecei a caminhar até a casa do , que ficava na rua de trás. Por mais estranho que isso soasse, eu tinha a chave da casa dele. Cheguei depois de uns dez minutos. A garagem ficava fechada, por isso não pude ver se o carro dele estava lá ou não.
- ? – chamei abrindo a porta com a minha chave.
Ninguém respondeu. Não estranhei ele não responder, mas não custava procurar no andar de cima. Fechei a porta atrás de mim, deixei minhas coisas no sofá e subi as escadas de mármore que ficavam no meio da sala. A enorme sala.
Às vezes eu me pergunto como os meninos conseguiram tanto dinheiro. Mas logo tiro isso da mente, com medo de uma possível resposta.
Enquanto andava pelo corredor do segundo andar fiquei imaginando porquê os quatro não moravam juntos e porquê precisavam dessas casas enormes e dignas de filmes.
- ? – tentei chamar novamente, dessa vez abrindo a porta do seu quarto.
Ele não estava lá, mas tinha alguém na janela, de costas para mim.
- Olá, .

Capítulo Dezenove.

A garota usava trajes absurdamente curtos e segurava um porta-retratos. Exatamente aquele que eu achei que meu pai tinha pegado algumas horas atrás.
Ela deixou ele escapar de sua mão, fazendo com que o vidro se partisse em vários pedaços e eu pude escutar sua risada baixa. O cabelo loiro, extremamente liso batia na sua cintura e me deixava com inveja. Meu cabelo era ruivo e tinha pequenos cachos nas pontas. Bonito, mas não como o dela. Era exatamente desse jeito que eu me sentia quando via o cabelo da...
- -? – gaguejei.
A garota se virou e um grito de surpresa escapou pela minha garganta. Bem na minha frente estava a minha melhor amiga. Aquela mesma que há um ano eu vi em um caixão.
- Quanto tempo... – ela disse. – Bom, na verdade nem tanto assim. Acho que nós tivemos um pequeno encontro semana passada, certo? Uma pena que o atrapalhou. – ela deu um sorriso malicioso e então eu entendi.
Foi sempre ela. Era ela na casa do , ela na escola. Foi atrás dela que o e o foram. Agora parecia óbvio o motivo de eles não me contarem, porque agora eu entendia.
não estava morta porque tinha a transformado em demônio também. Ele vinha cuidando dela todo esse tempo, por isso tinha ficado um pouco distante. Foi por isso que ficou tão bravo quando ela tentou me atacar, porque era a função dele mantê-la longe de mim...
- Por quê? – perguntei em um sussurro. Minha voz parecia ter sumido.
Ela queria me matar.
Algumas lágrimas se formaram em meus olhos, parte delas de medo e a outra... Bem, de emoção. Mesmo sabendo que eu devia estar correndo daqui agora mesmo e a odiando até a morte. sempre foi minha amiga, eu não conseguia digerir isso. O que eu tinha feito de errado?
Ela bufou impaciente.
- Claro, você sempre tem que ser a vítima! – ela rosnou. – Tudo tem que ser sempre sobre você!
Dei alguns passos para trás.
- E-eu não te entendo. – murmurei com a voz falha. As lágrimas agora escorriam livremente pelo meu rosto.
rolou os olhos e apontou para o porta-retrato na mesinha de cabeceira ao lado dela. Uma foto minha e do . Uma da minha outra vida. Ele tinha me mostrado alguns dias atrás.
A encarei, confusa. O que a foto tinha a ver com tudo isso?
- Os dois. Caídos por você. – ela falou debochadamente. – Nem na minha morte você me deixou em paz, ! Eu não podia simplesmente seguir com a minha nova vida sem que você interferisse. Não, você tinha que tirar o de mim, e depois, o . Qual foi o truque? Me diga, conquistar os dois não pode ser algo fácil, porque, bem, eu já tentei de tudo.
Um arrepio percorreu minha espinha quando ela disse que tentou de tudo. Era isso, então? Ciúmes? E do ?
Um sorriso sádico estampava a boca vermelha dela quando adivinhou o que eu estava pensando.
- Ele não te falou sobre mim? – perguntou provocativa.
A garota com quem eu dividi todos os meus segredos, com quem eu compartilhei minha infância e adolescência, não era essa. Não. Aquela garota não era vingativa, não usava roupas de putas ou muito menos brigava comigo por garotos. Aquela menina... Ela morreu.
Morreu e deixou no lugar uma vadia que eu não fazia ideia de quem era.
- Por que deveria? – retruquei, recuperando minha força aos poucos.
- Bom, levando em conta de que foi ele que me transformou. – ela deu de ombros. – Achei que isso fosse algo importante para se comentar.
Eu paralisei. a transformou? Mas eu pensei que ...
- E ele foi tão gentil comigo. – falou em uma voz suave e apaixonada. – Cuidou de tudo para que as pessoas achassem que eu estava morta, depois, ele me levou até sua casa. Essa mesmo onde você está morando. Bom, é claro que não fiquei no seu quarto. – ela acrescentou depressa, fazendo uma careta. – Ele tem um pouco de ciúmes de lá. De você. Mas de qualquer forma, pouco tempo depois quando ele finalmente conseguiu fazer sua mãe te mandar pra cá, ele me tacou fora. Como um brinquedo usado.
Ela rolou os olhos, claramente achando a situação idiota.
- É nessa hora que o entra na história. Ele ficou com a parte de manter um olho em mim enquanto você estivesse por perto. – ela continuou. – E eu gosto dele, sabe? Bem mais do que do , se você quer saber. Só que como se não bastasse um, você precisava do amor dos dois, não é?
deu alguns passos em minha direção e eu me sentia enjoada. Não conseguia acreditar que o tinha a transformado, porque até onde eu sabia para isso ele precisaria matá-la. E se ele nunca tivesse feito isso, eu nunca a teria perdido.
- Talvez... Se eu te tirar do caminho, eles deem mais atenção a mim. – ela falou. Dei mais alguns passos para trás, eu já estava no corredor agora.
Ela continuou caminhando na minha direção e tirou uma faca da cinta liga. Em um estilo vadia de luxo.
- Eu não tenho nada a ver com isso. Você ficou realmente pirada, não é? – falei, tentando conter o medo.
Se eu tivesse sorte, ela relembraria nossa amizade e não me mataria.
Ela sorriu.
- Achei muito bonitinha sua reação a minha morte. – disse. – Você ficou tão solitária e depressiva. Bom, eu na verdade, nem senti sua falta. Minha vida ficou tão melhor sem você. E eu só quero trazer ela de volta.
Hm, acho que ela não ia lembrar.
girou a faca nas mãos e minhas costas bateram na parede, dei uma olhada na escada e decidi que era melhor tentar correr do que ficar parada esperando a minha ex-melhor amiga me esfaquear.
Corri até a escada e desci, escutando suspirar entediada e antes que eu chegasse até a porta, ela já estava me prendendo na parede. Ela me segurava pelo pescoço e meus pés quase não tocavam o chão. Eu mal podia respirar.
Um sorriso sádico estampou o rosto dela.
- Talvez eu use a faca somente pra estraçalhar seu rosto depois de te matar. A ideia de ficar aqui te assistindo agonizar enquanto te enforco é mais convidativa.
Finquei minhas unhas curtas contra a pela dela, mas obviamente não tive muito sucesso. Minha cabeça girava, e eu precisava de oxigênio. Logo.
Minha visão começou a ficar turva e escura, eu sentia que estava desmaiando, ou talvez até morrendo. Foi quando abriu a porta com força e empurrou com tanta força que ela voou até bater na escada.
Ele me segurou antes que eu pudesse cair, e por mais que eu estivesse morrendo de raiva dele agora, eu também estava morrendo por falta de ar e força, o que não me deixava com muitas opções.
- Você está bem? – ele perguntou preocupado. Seus olhos brilhavam um pouco, mas eu não sabia dizer se era eu, ou se ele ia mesmo chorar.
Afirmei com a cabeça, já prevendo que minha voz não iria sair. A dor na minha garganta era muita.
- E lá vamos nós... – escutei murmurar do outro lado da sala.
Logo depois disso eu apaguei.

Capítulo Vinte.

Acordei com uma baita dor de cabeça e com uma dor na garganta quase insuportável. Lentamente, minhas memórias foram voltando e uma súbita vontade de voltar a dormir me dominou. Levantei de cama, reparando que estava vestindo meu pijama. O que significava que alguém tinha me trocado.
.
Eu me senti enjoada. Não acreditava que mesmo depois de tudo que ele havia feito, ainda tinha coragem de olhar na minha cara! Eu não conseguiria encarar a melhor amiga da garota que eu matei; que eu criei.
Fui até o banheiro e tomei um susto quando encarei minha imagem no espelho. Meu pescoço guardava marcas roxas e grandes, algumas ainda um pouco avermelhadas. Isso explicava a dor. Passei uma água pelo rosto, na tentativa de melhorar a minha aparência, mas vi que isso seria impossível.
Voltei ao quarto, dando uma breve olhada no relógio, ainda eram oito da noite. Eu não queria sair de lá. Não queria precisar confrontar , ou qualquer um envolvido com todos os acontecimentos deprimentes da minha vida. A única coisa que eu tinha realmente vontade de fazer era deitar na cama e dormir. Acordar somente quando as coisas fossem mais simples, a vida menos complicada e a dor no meu coração inexistente. Era o que eu queria. Poder esquecer tudo, começar de novo, sem precisar voltar ao começo quando chegasse ao final.
Uma batida na porta me acordou dos meus pensamentos e não hesitei em trancá-la. Eu sabia que poderia abri-la sem nenhuma dificuldade, mas achei que ele entenderia que esse era o meu sinal de que não queria vê-lo. Que não queria falar.
Escutei um suspiro do outro lado da madeira e eu senti ele se sentar no chão. Podia imaginar seu corpo encostado na porta, a aparência cansada, os olhos vermelhos iguais aos meus. Mas também podia vê-lo matando , depois a beijando. Trazendo ela para essa casa. Seu quarto. Sua cama.
Encostei-me à porta e me sentei. Algumas lágrimas escaparam dos meus olhos, eu não queria acreditar em tudo que tinha acontecido. Justo quando as coisas estavam indo tão bem, alguém tinha que aparecer e destruir a minha ilusão perfeita. Alguém precisava me acordar. Mas em parte, eu agradecia por isso. Se não tivesse aparecido, eu nunca iria saber que a havia matado. Eu teria continuado a viver com ele, achando que a perfeição realmente existia e que ele nunca iria fazer algo para me machucar. E agora, eu duvidava de que ele não fosse me matar. Eu não tinha mais certeza de se podia confiar nele.
- ... – escutei murmurar do outro lado. – Por favor... Eu posso explicar.
Eu queria escutar a explicação dele. Queria mesmo. Por que precisaria ser uma muito convincente. Ele transformou a minha melhor amiga. Não a mim.
Permaneci em silêncio. Eu acho que ele sabia que eu estava sentada aqui, porque alguns segundos depois, ele continuou:
- Eu não sabia o que estava fazendo. – respirou fundo. – Nunca tem como saber. Também não fazia ideia de que ela era sua amiga, até te ver no enterro. Eu não fazia ideia de que você estava viva até te ver lá. Você pode ter certeza de que eu fiquei tão surpreso quanto você.
Eu não sabia se acreditava ou não. Não sabia se podia mais confiar nele, mas sua voz soava verdadeira; dolorida.
- Abra a porta. Por favor. – ele pediu mais uma vez.
Eu me levantei e coloquei a mão na maçaneta, hesitante. Escutei ele se levantar do outro lado. já podia imaginar que eu iria abri-la. E foi o que eu fiz. Mas ele não estava esperando como eu achei que estaria. estava perto da escada. Indo embora. Se virou quando escutou a porta se abrindo e me encarou em um misto de surpresa e arrependimento.
Ele se aproximou um pouco e eu dei alguns passos para trás, com um pouco de medo. Seus olhos percorreram meu corpo, e pararam no meu rosto. Ou melhor: meu pescoço.
- Eu sinto muito. – disse ele.
- Pelo quê? – perguntei meio irônica. – Ter matado minha melhor amiga? A ter transformado em demônio, ter dormido com ela ou mentido pra mim? A lista é bem grande...
Ele suspirou.
- Por tudo. – soprou.
Dei mais alguns passos para trás quando ele chegou perigosamente perto.
- Se você quiser me contar mais alguma coisa, a hora é agora.
Ele sentou na beira da minha cama e bateu no lugar ao seu lado. Ignorei seu pedido para que fosse me sentar com ele e permaneci em pé. Ele deu ombros e começou a falar:
- Eu devia ter te explicado isso antes, mas acho que fiquei com medo de puxar o assunto e você se assustar.
- Você devia ter me falado muitas coisas antes. – resmunguei.
- Para a pessoa se transformar em alguém como eu, nós precisamos matá-la. – disse ele me interrompendo. – Só que não é só isso. Nós nunca sabemos se a pessoa vai se transformar ou não, é como se estivesse no seu sangue se você vai ou não morrer. Esse é um dos motivos pelo qual paramos de matar. Nós não podemos transformar alguém e depois deixar a pessoa sozinha por aí.
Essa me pegou de surpresa. Então eles só pararam de matar para não precisar ficar carregando mais pessoas com eles. Lógico, mas um tanto quando decepcionante.
- Quando encontrei a , não achei que ela fosse se transformar. A garota estava quase morrendo, e eu também. Há dias não me... Alimentava. Quando ela sobreviveu, fiquei tão surpreso quanto você hoje.
Sua voz soava verdadeira e arrependida. Mas o que eu podia fazer? Não era uma explicação que iria mudar os fatos. Nada nunca mais seria como antes novamente.
- Você sabe que ela vem tentando me matar? – perguntei.
- Sei.
Assenti.
- Onde você foi hoje mais cedo? – me referia às de quando ele sumiu na escola, e deixou a com o caminho livre para me atacar.
Talvez fosse essa sua intenção.
Se ele não tivesse me salvado depois.
- ligou dizendo que tinha voltado e que se eu não me encontrasse com ela no parque imediatamente, iria te matar.
- Voltado? Ela não estava aqui?
- Não... Depois que você chegou, ela quase não aparece mais. – ele falou.
- E onde o e o estão?
- Eles estavam comigo.
- Por que não os vi na escola?
- Por que eu pedi para eles ficarem do lado de fora. E quando eu saí, eles foram comigo. ficou com você.
- não ficou comigo. Ele foi embora. – falei me lembrando de quando voltei para casa sozinha.
- Porque ele é um idiota. - disse ele com raiva.
Mas ele não estava em posição de ter raiva de alguém.
- Você já sabia que a ia tentar alguma coisa hoje?
- Vi o carro dela na rua quando voltamos para casa ontem. Foi só um palpite.
Ele parecia convincente em todas as suas respostas. Mas eu sabia que mesmo se estivesse mentindo, soaria convincente. Teve muito tempo de prática.
- Bom, acho que você já falou tudo, pode sair agora. – murmurei indo até a porta, e a abrindo.
- Eu não falei tudo. – disse ele.
Fechei os olhos e respirei fundo. O que mais eu precisava saber? Quando abri os olhos novamente, estava na minha frente, o corpo perigosamente perto do meu. Eu sentia sua respiração batendo no meu rosto e o cheiro de seu perfume me dopava.
- O que você não falou? – perguntei em um sussurro.
- Que eu amo você. Amo tanto, que você não é capaz de imaginar.

Capítulo Vinte e Um.

Eu o empurrei quando seus lábios roçaram nos meus, e fechei a porta bruscamente. Não ia deixar ele me iludir. Eu não queria ser iludida dessa vez.
Tomei um banho demorado, e sequei o cabelo. O tempo parecia não passar. Quando me vi sem mais nada para fazer, peguei uma pequena mala no armário e coloquei algumas roupas dentro. Amanhã eu voltaria para casa do meu pai. Não me importava se ele era um idiota que nem ligava para mim, eu só não podia ficar aqui. Como eu ficaria? Mal conseguia encarar o , quem dirá continuar morando na mesma casa!
Ele tinha me explicado sobre a morte/renascimento da , mas sequer comentou sobre o fato de ter tido um caso com ela. Eu não me importava que ele tivesse saído com outras garotas, isso era normal. Mas quando ele ficou com ela, já sabia que era minha melhor amiga! E isso eu não conseguia admitir. Me sentia traída. Pelo , o , a e até mesmo o e o . Porque todos sabiam, mas ninguém teve coragem de me contar. E se isso tivesse acontecido talvez eu estivesse menos em choque agora. Talvez eu não precisasse voltar para casa do meu pai. Mas agora eu precisava. Meu celular tocou. Uma, duas, três vezes. Eu não atendi. Olhei na tela para ver quem me ligava e o nome “” piscou na tela.
Minha cabeça estava confusa sobre ele agora. disse algo sobre ter os dois nos meus pés, isso significa que ele gosta de mim? O ? Meu melhor amigo? Isso talvez explicasse algumas brigas entre ele e o nos últimos dias. Mas eu nem sabia se o gostava realmente de mim, que dirá o ! Eu confesso que meu estômago deu algumas voltas agora a pouco quando ele disse que me amava, e que eu senti como se estivesse completa. Só que não conseguia mais confiar cem por cento nas palavras dele. Por mais que meu coração doesse para que eu o fizesse.
O telefone tocou outra vez, e eu o joguei na cama, voltando a arrumar as roupas na pequena mala. Alguns segundos depois, a porta do meu quarto foi aberta a força. me encarou meio surpreso, e entrou no quarto, voltando a fechar a porta.
- O que você está fazendo aqui? – escutei minha voz perguntar. Na verdade, eu queria mesmo era tê-lo mandado sair.
Seus olhos pousaram na mala, e depois no celular jogado na cama.
- Você não atendeu o celular. Não achei que estivesse aqui. – ele deu de ombros. Seu raciocínio não fazia sentido algum, mas eu deixei passar.
- Bom, eu estou. – falei apontando para meu corpo. – Precisava falar comigo?
- Você vai se mudar? – ele perguntou gesticulando a mala.
Balancei a cabeça negando enquanto dobrava uma camiseta.
- Vou passar uns tempos com meu pai.
- já sabe?
Suspirei.
- Ele deve imaginar.
Nós ficamos em silêncio por alguns minutos, e logo minhas mãos ficaram vazias de roupas, e a mala estava pronta. Eu não tinha desculpas agora. Me sentei na cama ao lado de , e ele me encarou triste. Seus olhos pousaram no meu pescoço roxo, assim como fez há algumas horas.
- Eu sinto muito por isso. – disse ele. – Eu devia ter ficado com você na escola, e depois...
- Onde você foi?
- Na hora que te encontrei chorando, eu imaginei que a tinha aprontado alguma coisa, então eu fui procurar o e avisá-lo. Mas quando voltei para casa, vocês já tinham se encontrado.
- Você gosta dela? – perguntei de repente, sentindo uma pontada de ciúmes no peito. O que foi meio estranho.
riu fraco.
- Ela tem um gênio muito forte. – ele falou. – Eu prefiro você.
Senti minhas bochechas corarem instantaneamente, e desviei meus olhos dos seus. De repente, a afirmação da sobre ele gostar de mim me pareceu verdadeira.
Eu é que tinha sido tapada o suficiente para nunca perceber.
- Ela está na sua casa? – voltei a falar depois de me recuperar.
hesitou um pouco antes de responder.
- Está. – disse por fim.
- Então acho que não vou precisar disso por um tempo. – falei, pegando a chave da casa dele que estava na mesinha de cabeceira ao meu lado. Entreguei para ele.
olhou a chave, e depois a devolveu. Segurando minha mão na sua. Um calor percorreu meu corpo.
- Talvez você precise. Nunca se sabe. – ele sorriu.
Dei um sorriso singelo em resposta, e tornei a guardar a chave na gaveta. Mesmo sabendo que enquanto a estivesse lá, eu não iria aparecer. Provocá-la não estava em meus planos.
- É melhor eu ir. Você deve estar cansada, e o vai me tirar à força daqui se eu demorar mais. – ele riu.
Rolei os olhos.
- Você pode ficar o quanto quiser. – falei.
- Eu sei.
Ele se levantou, e me deu um beijo na testa, deixando o quarto logo depois.

Acordei com o despertador gritando ao meu lado. Não acreditava que além de tudo, eu ainda precisasse ir para escola. Agradeci mentalmente pelo fato de só faltar mais alguns meses até o fim do ano letivo. Tomei um banho rápido e coloquei a roupa que tinha separado ontem à noite. Peguei minha mala e a mochila da escola, e sai do quarto. Tentando fazer o mínimo de barulho possível.
Eu tinha acordado razoavelmente mais cedo hoje, para que assim tivesse tempo de ir até a casa do meu pai e deixar a mala lá. Quando alcancei a porta, escutei descer as escadas e parar a alguns metros atrás de mim, logo depois sua voz rouca ecoou pela sala.
- Aonde você vai com essa mala? – ele perguntou meio bravo.
Sua voz cansada e falha me dizia que ele havia acabado de acordar. Preferi não me virar, com medo de que se o fizesse, não conseguisse mais sair. Eu sabia que só de olhar para ele, eu seria capaz de voltar atrás e desculpá-lo. Mas eu não queria. Eu estava ressentida.
- Pra casa do meu pai. – murmurei.
Minha mão tremia enquanto eu segurava a maçaneta. Escutei ele bufar, e logo depois seus passos, o aproximando de mim.
- Você não vai pra lugar nenhum. – ele falou sério.
Seu corpo já estava praticamente encostado ao meu, e eu sentia sua respiração pesada atrás de mim. Sua mão segurou a minha, que apertava a maçaneta com uma força imensa, e a tirou de lá.
- Você não manda em mim. – falei com o pingo de lucidez que ainda me restava. Mas eu sabia que isso já não seria mais suficiente.
Eu sabia que iria me render porque a sensação de tê-lo perto de mim, e me tocando, era a melhor do mundo. Eu sabia que no final acabaria me deixando levar. Que não iria ser forte o suficiente para odiá-lo. Eu soube disso desde o primeiro momento em que pus meus olhos nele. Soube disso quando ele disse que me amava ontem. Eu sempre soube.
- Não, não mando. Mas você sim.

Capítulo Vinte e Dois.

me convenceu a continuar na casa dele. Ele me convenceu a me dar uma carona para escola, e me convenceu de que eu podia não entender agora, mas que logo ficaria claro. O que ficaria claro, eu não sabia, mas acabei confiando nele. Mesmo sabendo que não devia.
Quando cruzei as portas do refeitório na hora do almoço, com andando ao meu lado parecendo o tempo todo meio hesitante, tive uma surpresa. Uma não muito boa, devo dizer.
- O que ela está fazendo aqui? – perguntei entre dentes.
acenou para mim do outro lado do refeitório com um sorriso irônico no rosto. Eu vi rolar os olhos e mandar ela se ferrar. Sorri. Pelo menos eu não era a única que se sentia incomodada com a presença dela.
- Ela veio pra escola. – falou normalmente, me empurrando entre as mesas. Meus pés não queriam sair do lugar.
- Claro, deixar ela ainda mais perto de mim é um ótimo jeito de me proteger. Eu te contei que ela quer me matar? Não... Eu devo ter deixado essa escapar!
suspirou meio impaciente e nós paramos a alguns metros da mesa. Eu podia escutar o conversando com o sobre um carro que eles tinham visto para comprar, e também escutava e discutindo.
- Se ela estiver perto da gente, não pode fazer nada com você. – disse. – Eu não posso simplesmente colocar a garota fora da casa do . Isso ia ser ainda pior.
- Eu te odeio. – murmurei.
e se sentavam de um lado, e e em frente a eles. Sem hesitar, me sentei entre os dois primeiros. Como não sobraram mais lugares no banco, se sentou ao lado da . A deixando entre ele e o . Se eu não estivesse com tanto ciúmes, teria rido da ironia. Bom, antes ele lá do que eu.
- Meu Deus! O que foi que aconteceu com você? – ela perguntou fazendo uma cara de assustada. – E essa marca horrível no pescoço?! Você não conhece algo chamado maquiagem?
Eu me segurei muito para não pular em cima dela. Bom, eu me segurei e também.
fechou os olhos e pressionou as têmporas, cansado.
- Quando a gente sair da escola, eu vou deixar a sua cara mais amassada do que um bulldog! – ameaçou . Ela bocejou entediada.
- Vai ser engraçado ver você tentar. – disse ela sorrindo.
- Vocês dois podem calar a boca? – pediu em um tom cansado. Pelo visto eles já estavam brigando há algum tempo.
- Você está ótima, . – disse, em uma tentativa de me reconfortar.
Mas eu tinha um espelho em casa, e sabia muito bem como estava minha aparência. Olheiras escuras e profundas, a pela pálida e o roxo no meu pescoço não me deixavam, bem, bonita. Parecia que eu tinha levado uma surra, isso sim. O que não estava longe de ser o que tinha acontecido.
- Uma pena não termos ficado nas mesmas aulas essa manhã. – ela continuou falando normalmente. – Mas, pelo o que eu sei, as próximas vão ser juntas! – exclamou em uma falsa animação.
- Que ótimo! Vou até passar na diretoria e agradecer por esse feito! Também acho que vou contar pra ela que o número do telefone dos seus pais está errado, e talvez eu até passe o número verdadeiro. Só pro caso dele precisar ligar. – eu sorri.
Ela estreitou os olhos na minha direção e eu escutei rindo.
- O que você vai querer comer? – perguntou mudando de assunto, enquanto se levantava.
Dei de ombros. Ele se virou e caminhou até a fila da comida. o acompanhou com os olhos.
- Como ele é gostoso!
e fizeram uma careta e a encarou.
- Tem como você não falar essas coisas na nossa frente? – pediu ele – está comprometido comigo, e eu sou uma pessoa muito enciumada. – ele fez uma voz de gay e eu ri.
esboçou um sorriso.
- Qual é a graça? – perguntou voltando a mesa e encontrando todos rindo. Ele me entregou uma lata de Coca. Sorri agradecida.
- Nada, o só estava tornando público o relacionamento de vocês dois. – deu de ombros. Eu sorri.
- Porra, , só porque eu te pedi pra ser segredo! – exclamou olhando para , fazendo uma voz afeminada.
deu de ombros.
- Tenho que cuidar do que é meu. – disse ele.
Ignorando a presença da , e alguns dos seus comentários idiotas e desnecessários, o almoço até que foi normal. Só fiquei meio apreensiva quando o sinal tocou. Minhas próximas aulas eram com ela.
e nos acompanharam até a nossa sala. Rolei os olhos quando ela mandou um beijo para os dois e entrou na sala.
- Vai ficar tudo bem. – os dois disseram ao mesmo tempo, rindo logo depois.
- Se vocês dizem. – murmurei.
Me despedi com um aceno e entrei na sala, batendo nas costas da .
- Então, qual é a história? – ela perguntou gesticulando os grupinhos separados na sala. Tracy ria do outro lado enquanto cochichava com as amigas e gesticulava pra mim.
Estranhei a pergunta da minha ex-amiga, e dei de ombros.
- O mesmo de sempre. Os nerds. – apontei para os garotos de óculos e sentados na primeira carteira. – Os que não fazem parte de nada. – apontei para o meio da sala. – A vadia. – apontei para Tracy que ainda ria de mim.
- Problemas com ela, ? – ela perguntou sorrindo e me acompanhando até ao fim da sala. Eu sentava na última carteira, encostada a parede. se sentou ao meu lado. – Você nunca foi muito sociável. – ela falou, e incrivelmente sua voz não tinha vestígio algum de sarcasmo. – Eu também não. – murmurou quando Tracy se aproximou de nós duas.
- Vejo que você já fez uma amiga. – Tracy disse para apontando para mim.
Desfez, pensei.
- Algum problema com isso? – perguntou meio entediada.
Com as duas assim, tão perto, era possível notar a semelhança. não estava se vestindo de um jeito tão patricinha quanto Tracy, mas suas roupas justas e o salto não combinavam muito com meu jeans e All Star. Tracy deve ter notado a mesma coisa.
- Nenhum, só achei que você devesse saber que está andando com a pessoa errada. – respondeu ela, fazendo uma careta pra mim.
Infelizmente, seu rosto não continha mais vestígios da minha briga.
- Eu acho que sei quem é a pessoa errada aqui. – falou séria. – Bonito cabelo.
Eu ri.
O que foi totalmente bizarro.
Tracy bufou e voltou ao seu lado da sala, me deixando confusa. tinha acabado de me defender? As coisas não estão nada certas...
Por sorte, ou não, o professor entrou na sala segundos depois, e nada mais estranho aconteceu até o fim da aula.
Quando o sinal bateu, já me esperava na porta. Ou esperava a . Não sei dizer.
Seu sorriso alargou quando acenei para ele, indicando que ia terminar de guardar meu material e já saia. Achei isso bonitinho. Mas sua expressão se tornou tensa quando parou ao meu lado, e me ajudou a colocar as coisas na mochila.
- Você tem que aprender a ser mais rápida. – ela disse distraidamente, e indo para a porta. Trocou umas duas palavras com o e saiu.
- Tudo bem? – ele perguntou preocupado quando nos encontramos.
Dei de ombros.
- Ela foi gentil. – falei.
- Que bom. – ele sorriu. – Acho que a convivência com você vai ajudá-la a se lembrar dela mesma.
- Tomara. – murmurei meio incerta. A cena de ontem ainda estava fresca em minha memória, e eu não achava que o rancor dela ia sumir assim, da noite pro dia.
Mas nunca se sabe...
me deixou na casa do com uma pequena mala no fim da tarde. Nós tínhamos conversado de tarde e ele não me deixou ir pra casa do meu pai, mas eu não estava totalmente pronta pra continuar na casa dele, então amigavelmente se ofereceu para cuidar de mim.
- Eu te ligo. – ele disse.
Eu estava na porta da casa, esperando a porta abrir e ele no carro. O vidro estava aberto.
- Eu vou ficar bem. – falei simplesmente, respondendo a sua verdadeira pergunta.
A porta da casa se abriu e me recebeu com um sorriso.
- E ai? – falou me dando um abraço rápido.
- É bom você cuidar bem dela, ! – gritou.
- Melhor que você. – ele garantiu e eu ri.
balançou a cabeça e acelerou o carro. Logo já tinha o perdido de vista.
- Seja bem vinda. – me deu espaço para passar, e pegou minha mala. – Você já conhece as coisas por aqui, então... Fiquei à vontade. O disse que passa aqui mais tarde.
Eu sorri.
- Não sabe viver sem mim? – brinquei.
- Sem mim. – corrigiu rindo.
Ele me deixou no quarto, assim como a mala e disse que ia ao supermercado, mas que eu podia ficar à vontade. Eu já tinha ficado na casa dele algumas vezes, e já conhecia todos os cômodos, e diferente da casa do , ele não escondia um pequeno estúdio no sótão. Era apenas uma sala de TV, lotada de almofadas fofas e DVD’s de todos os tipos. Foi para lá que eu fui.
Escolhi um DVD qualquer, somente esperando que o chegasse logo. E assim que eu pensei isso, escutei a porta lá em baixo sendo aberta e logo fechada. Logo ele já tinha me encontrado na sala.
- E aí, ? Tá vendo o quê? – ele se jogou no chão ao meu lado, deitando em algumas almofadas
- Não sei. – falei.
Ele me encarou com a testa franzida, se levantou e esticou a mão para me ajudar a fazer o mesmo.
- Vamos dar uma volta então. – disse ele saindo da sala.
Nós trancamos a casa e fomos para o carro do , ele colocou um CD do AC/DC para tocar, e eu sorri quando a melodia de Highway to Hell encheu nossos ouvidos.
- Sua amiga é uma idiota. – ele falou depois de um tempo.
- Nem me diga... – concordei, feliz em poder dividir meu novo carinho pela com alguém.
- Eu sinto muito por não ter contado... Nós não achamos que ela fosse ser tão estúpida a ponto de tentar te matar, quer dizer, qual é? Você não fez nada pra ela, pelo contrário. Ninguém aqui tem culpa de você ser o tipo de garota que atrai demônios.
Eu ri.
- Não é com você que eu estou chateada de qualquer forma. – falei meio ressentida.
Por mais que eu estivesse falando com o e tudo mais, meu coração ainda estava decepcionado com ele.
- Acho que o já te falou, mas ele não fez nada disso por mal. Ele não sabia que ela era sua amiga. – o defendeu.
- Quando ele dormiu com ela, ele sabia. – falei. O ciúme transbordava da minha voz. Senti meu rosto corar.
- É, ele sabia... – ele deu de ombros. – Mas isso não quer dizer que envolveu algum sentimento. Homens não prestam. – acrescentou sorrindo.
- Falou a garota. – eu ri.
- Não, falou o cara que não presta, tentando te alertar que nenhum vai prestar. – deu de ombros. – Mas o , talvez, esteja mais perto do perfeito pra você.
- Como assim “pra mim”?
- Depois de tudo que vocês passaram, poxa, se ele não for a sua alma gêmea o mundo tá perdido! – riu.
E no momento em que ele disse isso, eu pensei no .
Não faço ideia do porquê.

Capítulo Vinte e Três.

- Se você não sair dessa cama em dez segundos, eu juro que vou te tirar a força – gritou do outro lado da porta.
Resmunguei algumas coisas incompreensíveis, algo sobre não querer ir para a aula nem ver o ou a , e voltei a enterrar a cara no travesseiro.
Exatamente dez segundos depois, abriu a porta e me tirou da cama, assim como ele tinha dito que faria.
- Me põe no chão! – exigi meio sonolenta. Ele me carregou até o banheiro e ligou o chuveiro, tudo isso comigo em seu ombro. E ele agia como se eu pesasse o mesmo que uma pluma – Eu não quero ir pra aula!
- Você vai entrar no chuveiro, acordar, colocar a roupa e eu vou te esperar lá em baixo – mandou ele – E se você não aparecer em quinze minutos, eu te levo de pijama pra escola.
Ele me colocou no chão, e saiu do banheiro, fechando a porta assim que passou. Bufei irritada, sabendo que não tinha mais escolha, e fui tomar banho.
Treze minutos depois – eu fiz questão de checar o relógio –, eu desci as escadas já pronta, e carregando minha mochila no ombro.
- Satisfeito? – perguntei emburrada assim que se levantou do sofá, e pegou as chaves do carro.
- Bastante – ele sorriu, nós passamos pela cozinha e ele me entregou uma maçã, depois fomos para a garagem.
- Eu não gosto muito de maçãs... Mas minha mãe sempre me obrigou a comer – murmurei enquanto ele dava partida.
- Eu sei disso – disse ele.
Pensei em perguntar, mas apenas dei de ombros e mordi a fruta, fazendo uma careta. O resto do caminho nós ficamos em silêncio, e somente quando ele estacionou, voltou a falar.
- Ela não vai te fazer nada de mal – ele falou me encarando seriamente – Não de novo, de qualquer forma. E se você fingir que não está ligando para as coisas que ela fala...
- Ela vai calar a boca – completei suspirando – Eu conheço a .
Ele assentiu e nós saímos do carro, caminhando lentamente até a entrada da escola.
- O que vai acontecer quando vocês formarem? – perguntei de repente, deu de ombros.
- Nós vamos esperar você se formar, e depois ir pra faculdade... Essas coisas que vocês fazem.
E envelhecer, completei em pensamento.
- Falta só um mês para o fim do ano letivo – murmurei.
- Vai ficar tudo bem – garantiu, me abraçando de lado.
Mas não parecia que iria ficar bem.
Não hoje.
Encontramos parado ao lado do meu armário, e ele me abraçou.
- E aí, como passaram a noite? – perguntou para mim e .
- Bem – falei, pulando a parte em que ficamos acordados até quase cinco da manhã vendo filmes, e que por isso eu não queria vir na aula, e meu humor está dos piores.
- Ótimo, porque o dia vai ser longo... – ele falou, me deixando confusa. deu um tapa na cabeça dele, e o mandou calar a boca, nesse momento eu avistei o e a atravessando os portões. Os dois extremamente bonitos e impecáveis, conversando como se não houvesse problemas no mundo.
- Se vocês não estão me contando alguma coisa, agora seria o momento certo pra contar – falei, me virando para os dois. Eles trocaram olhares rápidos.
- Você fica bem de azul, disse, dando um sorriso rápido e gesticulando minha camiseta.
Rolei os olhos irritada, e impaciente.
- Não é tão difícil ver porque eu me matei – murmurei – É difícil conviver com pessoas que mentem pra você o tempo todo. abriu a boca para protestar, e eu me virei, pronta para sair andando, mas no momento em que fiz isso, dei de cara com . Ele me encarava tristemente.
- , eu... – começou ele.
- Eu vou pra aula – desviei dele, e caminhei apressadamente até a sala de Biologia.
Realmente, seria um dia bem longo.

Na hora do almoço eu descobri que não tinha para onde ir. Porque bem, desde quando eu cheguei aqui eu só me sentei com os garotos, e como eu estava irritada demais com todos eles, não iria me sentar lá. Optei por comprar um refrigerante, dar uma olhada dramática na mesa deles, e me sentar sozinha na mesma mais afastada o possível.
Minha cabeça estava tão confusa, que eu mal consegui prestar atenção nas aulas. Eu tinha absorvido tantas informações nos últimos dias, que nada mais ocupava meus pensamentos se não o fato da minha vida ser uma bagunça. Uma mentira.
- Ei – cumprimentou meio hesitante, se sentando a minha frente. Ergui meus olhos até os dele, brevemente, e voltei e brincar o a latinha de coca. Ele suspirou – Posso saber o que aconteceu hoje, pra você ficar desse jeito?
Franzi a testa.
- Precisa de mais? – perguntei meio irônica.
- Ontem você parecia melhor. – ele falou, ignorando minha resposta mal educada.
- Ontem eu achei que ainda tinha algo que valesse a pena no . Mas, como vem sido ultimamente, eu estava errada.
Me levantei bruscamente, e sai do refeitório, e me sentindo de repente culpada. Culpada por envolver em uma briga, que deveria ser só minha e do , todos os meus outros amigos, e descontar a minha raiva e decepção neles.
- Eu não quero que você fique longe - segurou meu pulso, e me fez virar para ele. O corredor estava quase vazio.
- Eu não quero ficar... – murmurei chateada – Mas eu não consigo encarar os dois sem me magoar.
Senti algumas lágrimas se formando nos meus olhos, e me senti uma estúpida por chorar agora, na frente do e de novo por alguém que não era ele.
- Eu consegui – ele suspirou – Eu passei todos esses anos vendo você e o juntos, separados, sofrendo um pelo outro, e sobrevivi. Eu passei minha vida toda te vendo não ser minha e ainda estou aqui, não estou? – sua voz soava cuidadosa, como se estivesse com medo de que eu fosse correr a qualquer momento, e de fato, eu estava prestes a fazer isso.
- ...
As palavras ficaram presas na minha garganta, e algumas lágrimas já rolavam livremente pelo meu rosto. Eu não queria escutar isso. Eu amava ele, mas não desse jeito. E eu não achei que ele fosse ser tão explícito sobre os seus sentimentos.
Me perguntei se o sabia disso – provavelmente sim –, e o que pensava. Se ele não sentia culpa. Foi então que eu me lembrei de uma coisa. Uma memória meio borrada que eu tinha recuperado esses dias.

Flashback by ’s POV
- Por que você resiste tanto? – perguntei me aproximando.
- Eu não posso fazer isso com o . – ele respondeu sem convicção alguma.
Tal ato me incentivou a usar um tom apelativo na voz, e chegar ainda mais perto.
- Mas pode fazer comigo? – provoquei.


Claro... Porque, no final do dia, eu sempre tinha que me sentir culpada. Eu sempre tinha alguma coisa no passado para me perseguir e me deixar sentindo mal.
- Eu não devia ter falado isso... – ele murmurou meio envergonhado – Só que eu não quero te ver longe. De novo não.
Eu já tinha escutado isso.
Suspirei, secando algumas lágrimas. colocou sua mão por cima da minha, e a tirou do meu rosto, segurando-a enquanto se aproximava perigosamente.
- Eu não vou a lugar nenhum – assegurei.
Ele fechou os olhos por um segundo, e quando voltou a abrir sua expressão era triste.
- Você não faz ideia... – ele sacodiu a cabeça, e me soltou, me deixando sozinha no corredor.
Ideia do quê?

Capítulo Vinte e Quatro.

- Minha vez – puxou o controle da minha mão, e me empurrou do sofá. Graças a sua nova força, eu caí no chão.
Eu devo ter muita merda na cabeça para ter vindo aqui no . Não, de verdade. Algo muito errado deve acontecer no meu cérebro.
Eu estava jogando videogame contra ele, quando a chegou atrapalhando minha diversão.
- Você está bem? – ele perguntou me ajudando a levantar.
Eu podia ver a revirando os olhos e fazendo uma careta. Sua reação já era previsível.
Balancei a cabeça, demonstrando que estava tudo bem e fui pra cozinha. não ia me seguir. Ele ia ficar e jogar com ela. E isso me deixava irritada.
Era como se de repente eu tivesse que dividir tudo com ela, mas não de um jeito que me fizesse feliz, como seria antigamente. De um jeito que me deixava muito brava. Ela não merecia atenção! Não conseguia entender o motivo de todos eles ficarem “criando” ela. Depois de tudo que me fez!
Peguei um copo d’água e me sentei na bancada, bebericando o liquido, pensando se o ficaria muito bravo quando eu chegasse em casa depois de ter sumido o dia todo. Bem, na verdade eu sabia que o tinha o avisado de que eu estava aqui, mas mesmo assim.
Depois de alguns minutos, desci da bancada e coloquei o copo na pia, passei na sala de jantar e peguei minha bolsa, deixando um bilhete avisando que tinha ido embora.
Eu podia escutar as risadas dos dois vindo da sala, e por um momento eu senti inveja dela. Porque ela os teria por toda a eternidade, enquanto eu... Bem, eu nem mesmo sei o que vou fazer quando terminar a escola.
Fiquei andando sem rumo por alguns minutos e quando me dei conta de que estava na rua da casa do , senti minhas bochechas corarem. Eu não sabia se ele tinha saído ou não, se estava me vendo ou não. E essa última possibilidade me fez ficar com vergonha. O que ele pensaria se me visse passando em frente a sua casa?
Meu celular tocou no bolso da minha calça, e eu franzi a testa quando “” piscou na tela. Atendi meio a contragosto.
- Você fica absolutamente linda usando azul – disse ele.
Eu já tinha escutado isso hoje.
- O que você quer? – suspirei.
- Achei que você estivesse na casa do – sua voz soava calma, mas eu podia sentir os ciúmes escondidos por trás dela.
- Eu estava – dei de ombros, mesmo sabendo que ele não veria. Ou talvez sim. A essa altura, eu já tinha me sentado no meio fio, cansada.
- Aconteceu alguma coisa? – ele perguntou, mas eu tinha certeza de que ele já tinha ligado para o e perguntando a mesma coisa a ele.
- Nada.
- Você vai ficar sentada aí a noite toda, ou vai entrar?
Olhei para trás e encarei encostado no batente da porta com o celular na mão. Ele deu um sorriso quando me levantei e caminhei em passos lentos até onde ele estava. Guardei o celular no bolso novamente, e ele o dele.
- Eu não quero entrar – falei meio rude. Seu sorriso não diminuiu.
- Mas você veio até aqui, o que já é um começo – disse ele.
Eu podia sentir seu perfume adentrando minhas narinas, e me dopando lentamente.
- Preciso que você me leve pra casa do – falei. Eu não precisava disso. Podia muito bem ir andando, mesmo que já estivesse escurecendo. Só que na hora, o pedido simplesmente escapou.
Ele parecia saber disso, e um sorriso meio irônico estampou seu rosto. E ninguém tinha ideia do quanto esse sorriso era convidativo. Ninguém tinha ideia do quanto eu queria esquecer tudo que ele já tinha me feito até agora e simplesmente beijá-lo.
- Eu te levo até a casa dele – começou. Eu podia ver uma condição, que eu certamente não iria gostar, implícita na sua voz – Mas antes quero que você vá a um lugar comigo.
Dei de ombros e o acompanhei silenciosamente até o carro, ainda meio relutante, mas sentindo que precisava fazer isso. E não era como se eu estivesse sendo obrigada ou algo do tipo. Eu queria ir com o . Sempre. Mesmo que não fosse a coisa certa fazer.
Eu não sabia para onde ele estava me levando, e continuei sem saber onde estávamos quando chegamos. Sai do carro e encarei o lago, confusa. Não confusa por não saber onde estava, mas confusa porque de repente eu sabia.
- Por que você me trouxe aqui? – perguntei
deu de ombros, e se sentou a margem do lago. Confusa, me sentei ao seu lado, esperando por uma explicação.
- Você me odeia? – ele perguntou, se virando para mim.
Imagens dele e hoje mais cedo na escola, invadiram a minha mente. Assim como imagens dos dois em uma cama. Depois rindo e vivendo juntos. Felizes.
- Não – suspirei após algum tempo. Claro que eu não o odiava. Se eu o odiasse, nada disso iria me deixar tão dolorida como está me deixando agora. Se eu o odiasse, só sentiria raiva, mas isso não era o que eu sentia.
Eu me sentia traída. Com ciúmes.
Apaixonada.
- Se eu pudesse voltar no tempo, eu faria tantas coisas diferentes... – disse ele, voltando a encarar o lago.
A água azul cintilante quase não se mexia, uma paisagem absolutamente linda. De tirar o fôlego.
- Você não faria nada diferente – falei – Você só acha que faria, mas se você pudesse voltar no tempo, não mudaria nada. Porque as coisas acontecem no momento certo, e porque precisam acontecer. É sempre assim.
- Você não mudaria nada? – ele me olhou, curioso.
- Eu queria mudar muitas coisas – comecei – Queria não ter me apaixonado por você. Nunca. Queria não ter me matado. Queria que você não tivesse matado minha amiga. Queria que você não tivesse dormido com ela. Mas eu não mudaria nada. Uma hora ou outra, as coisas iriam dar errado. Seja por essas coisas, ou por outras que viriam.
segurou minha mão e admirou o anel que tinha me dado há algumas semanas. Eu não o tinha tirado. Não ainda.
- Você acha que nós demos errado?
- Completamente.
O lugar onde sua mão encostava na minha formigava. Eu queria poder tê-lo pra sempre.
- Eu amo você.
Me virei e encarei os olhos profundos a minha frente. A seriedade que eles continham me deixava tonta.
- Eu também.
sorriu, e se aproximou até encostar nossos lábios. Um choque térmico percorreu meu corpo quando nossas línguas se tocaram, e eu percebi que sim, nós éramos completamente errados.
E ainda assim, completamente perfeitos.
- Me desculpa – ele sussurrou quando partimos o beijo, ofegantes.
- Promete que nunca vai me deixar – pedi. de repente ficou sério, e se afastou. Franzi a testa, confusa. O que eu tinha feito afinal? – O que foi?
- É melhor eu te levar embora – disse ele, completamente sério.
se levantou e começou a caminhar em direção ao carro. Era isso então? Eu dizia que o desculpava e ele simplesmente ia embora?
- Ir embora? Me diz que merda tá acontecendo, porque eu não aguento mais essas suas mentiras! Não aguento mais você escondendo tudo de mim, fazendo com que eu tenha que descobrir da pior maneira! – gritei atrás dele – Se nós não demos certo, é tudo por sua culpa! Porque você não consegue confiar em mim! Porque você não me fala nada!
Ele parou e deu meia volta, ficando de frente pra mim. Eu podia ver pelos seus olhos que ele não esperava a minha resposta. Dei alguns passos para trás, assustada, quando ele fechou as mãos em punhos. Fiquei com medo de que ele me tocasse.
Já sentia meus olhos arderem, as lágrimas queriam cair, mas eu não queria deixar.
- O que você quer saber? – ele perguntou com raiva – Quer que eu te conte sobre como me mata ficar perto de você, mal podendo te tocar? Quer saber o quando eu odeio o fato do meu melhor amigo estar apaixonado por você? Quer saber sobre quando eu quase matei sua amiga, de novo, só por ela ter ameaçado chegar perto de você? Ou você quer saber sobre a parte de que nós não vamos ficar juntos?
Minha cabeça girava confusa, com a quantidade de coisas que ele havia despejado sobre mim, mas apenas uma parecia importante suficiente.
- O que você quer dizer com “nunca vamos ficar juntos”? – perguntei com a voz trêmula. Mas eu temia já saber a resposta.
- Você não vai viver pra sempre, – ele suspirou, um pouco mais controlado dessa vez. Seus olhos marejaram, e eu me sentia uma idiota por brigar tanto com ele. Porque quando ele disse isso, doía muito mais do que escutar nos meus pensamentos. Era real – Eu vou te perder. De novo.
Somente nesse momento percebi que estava chorando também. Porque a única solução que eu podia ver, era também o motivo de tudo isso.
- Me transforme – sussurrei desesperada. Saindo da minha boca, essas palavras soavam extremamente fora da realidade.
Seus olhos se arregalaram brevemente, e então ele começou a balançar a cabeça, e voltar a andar em direção ao carro.
- O que é? – berrei em meio a soluços e lágrimas – Você prefere passar a eternidade com a minha amiga do que comigo?! É isso? Você não me quer?
socou a porta do carro, e uma marca profunda apareceu na lataria. Minha vontade era de abraçá-lo e nunca mais soltar. Mas, por outro lado, eu também estava morrendo de medo e só queria sair dali antes de me machucar mais.
- Eu te quero mais que tudo no mundo, ! – ele sussurrou atordoado, se virando novamente – Passar a eternidade com você.
Seus olhos vermelhos e cheios de lágrimas fizeram eu me sentir egoísta. Mas se ele me queria, eu não entendia porque não me transformar. Eu estava disposta a fazer esse sacrifício. Se significasse ficar com ele.
- Então qual é o problema? – perguntei baixinho, confusa.
- Eu não sei se você vai sobreviver ou... Morrer. E esse é um risco que eu não quero correr.

- Para a pessoa se transformar em alguém como eu, nós precisamos matá-la. Só que não é só isso. Nós nunca sabemos se a pessoa vai se transformar ou não, é como se estivesse no seu sangue se você vai ou não morrer. Esse é um dos motivos pelo qual paramos de matar. Nós não podemos transformar alguém e depois deixar a pessoa sozinha por aí.

Suas palavras ecoaram em minha cabeça, fazendo com que ela latejasse. Não conseguia acreditar nisso tudo. Justo agora que eu estava disposta a jogar tudo para o alto e ficar com ele, algo tinha que impedir.
- O que você vai fazer? – perguntei desolada.
parecia ainda mais perdido do que eu. Como se estivesse fazendo essa pergunta há dias. E como se já soubesse a resposta, só que ela não o agradava nem um pouco.
Ele se aproximou de mim e ameaçou segurar minhas mãos, mas eu recuei com medo de seu toque. suspirou.
- Eu vou me matar.

Capítulo Vinte e Cinco.

Minha cabeça latejava tanto que eu achei que fosse desmaiar novamente. Talvez fosse o que eu queria. Depois de ter me contado sobre seu plano ridículo e absurdamente assustador, acabei desmaiando. Presumi que ele me trouxe até a casa do , já que quando acordei minutos atrás, estava no quarto de hóspedes. Abri os olhos e suspirei quando olhei o relógio. Já eram quarto da tarde. Eu havia perdido a aula. Meu corpo estava dolorido e um gemido escapou pela minha garganta quando me virei para o outro lado. Só que isso não foi o pior.
- O que você está fazendo aqui? – perguntei assustada quando vi encostada na porta e entrando no quarto.
Me sentei na cama, rapidamente e ignorando a dor.
Ela suspirou e se sentou na beirada da cama. Sua expressão era, finalmente, familiar. Nada de olhos sádicos ou irônicos. Nada de olhar de vingança. Apenas seu velho olhar de carinho.
- Você devia considerar o que ele disse – ela falou normalmente.
- O quê? – franzi a testa confusa, sem entender sobre o que ela falava.
- Sobre o se matar – respondeu ela como se fosse óbvio.
- Como você sabe disso? – minha voz saiu brava, sem nem mesmo querer. Mas agradeci por isso.
Ela deu de ombros.
- Não interessa. Só estou dizendo que você talvez devesse conversar com ele sobre isso. Afinal, nada mais justo, já que foi você quem fez isso primeiro.
- Desde quando você se importa?
Ela fez uma careta.
- Poxa, . Eu sou sua melhor amiga!
- Você tentou me matar – relembrei - Amigas não fazem isso.
- Eu estava meio louca esse últimos dias – ela falou, como se estivesse dizendo que estava chapada. Claro – Mas já voltei ao normal.
- Não confio mais em você.
- Não te culpo – ela suspirou – De qualquer forma... Eu realmente acho que talvez o esteja certo.
- Eu quero ficar com ele! Não que ele morra! – exclamei.
Ela riu baixinho, como se eu tivesse perdido uma piada.
- , se ele morrer, não vai ser mais um demônio ou sei lá o quê!
- Mas ele vai estar morto!
- O que aconteceu quando você se matou? – ela perguntou, sem esperar uma resposta – Você renasceu, ou sei lá como vocês chamam isso. Se ele se matar, quando ele nascer de novo, você já vai ter morrido também e vão poder ficar juntos de novo!
Fazia sentido.
Mas não tanto.
- Eu não tenho garantia de que nós vamos “voltar” juntos. E mesmo que isso aconteça, seria muita sorte que nos conhecêssemos.
- Você devia conversar com ele – disse ela, parecendo não achar minhas dúvidas muito importantes, e saindo do quarto logo em seguida.
Bufei, e me enterrei novamente debaixo das cobertas, sem ânimo algum para fazer qualquer coisa que precisasse de esforço mental.
Flashes da última noite passavam como um pequeno filme em minha cabeça, e eu sentia vontade de chorar sempre que me lembrava de tudo. Eu só queria poder pedir desculpas por ter sido tão injusta com ele nos últimos dias, e dizer que não ligava mais se ele tinha matado a . Não ligava se ele tinha dormido com ela. Eu só queria que ele não se matasse. Não queria nem mesmo que ele pensasse nisso! Não quando uma solução bem mais plausível estava em nosso alcance.
Eu estava disposta a deixar ele me transformar, e eu tinha certeza de que não iria morrer, porque se isso tudo é sobre o sangue e eu já havia sido transformada antes, era provável de que fosse continuar assim. E mesmo se eu morresse...
Aposto que não faria tanta falta quanto ele.
Alguém bateu na porta e eu murmurei um “entra” sem muita vontade. abriu a porta, e me encarou meio hesitante.
- Eu não estou brava com você – suspirei.
Ele pareceu menos nervoso com meu comentário, e se sentou na ponta da cama, no mesmo lugar onde estava minutos atrás.
- Uma vez alguém me perguntou o que eu faria se eu precisasse escolher entre duas coisas muito importantes, coisas que eu amava mais que tudo – ele contou – Só que o problema de escolher entre as duas coisas que mais importam pra você é que, depois da sua escolha, sempre ficaria faltando algo. Ficaria incompleto. Então, às vezes, é melhor simplesmente desistir de você mesmo. Porque talvez essa seja a única solução.
- Por que você está me dizendo isso? – perguntei.
Essas palavras soavam tão familiares que eu fiquei assustada. E eu sabia que ele falava isso por . Só não entendia o motivo.
- Porque foi você quem me falou – suspirou pesadamente, e de repente eu me lembrei.

Flashback by ’s POV

- Às vezes nós precisamos desistir de nós mesmos – falei, encarando o mar a nossa frente – Porque a dor de perder uma das coisas seria forte demais pra suportar.
O cheiro de água salgada me enjoava, e eu gostava. Era raro que algo tão superficial quanto um enjôo me afetasse, e eu gostava de me sentir assim. Normal.
parecia pensar sobre o que eu tinha falado, ponderando minha escolha final, e eu sabia que ele estava começando a entender.
- Você não precisa desistir enquanto poder ter os dois – disse enfim.
Eu ri sem humor algum.
- Nenhum dos dois vai me querer pra sempre. Não enquanto eu ajo como uma vadia. comprou um anel – suspirei – Eu achei lá em casa esses dias. Claro que não falei nada, mas você sabe o que isso pode significar.
- Sei – falou – Mas isso pode não significar nada também. Vocês estão juntos a tanto tempo, e até hoje ele nunca quis algo mais sério. Não acho que você tenha que se preocupar.
- E se você precisasse escolher? – indaguei.
Ele fechou os olhos por um breve momento, e então encarou o mar.
- Eu iria morrer.


- Eu menti? – perguntei, já sabendo a resposta.
Só que eu não queria acreditar, precisava ouvir ele dizer.
- Você não queria que ele soubesse – deu de ombros – Porque ele iria te dizer que você podia ficar com os dois. Assim como eu falei.
- Mas isso é errado... – murmurei ainda chocada. riu.
- Foi exatamente o que você me disse.
. . Eu.
Era isso então. Era por isso que eu me sentia meio estranha pelo , e por isso que o agia estranho com ele, mesmo sendo melhores amigos. Por isso a história toda de não aceitar viver como demônio nunca colou pra mim, e por isso eu não me sentia tão mal em cogitar virar um novamente.
A culpa de tudo era realmente minha. Pelo menos isso.
Só que dessa vez, era algo milhões de vezes mais grave.
Porque o não sabia.
Ele estava disposto a morrer por mim, quando eu não merecia nem um pouco do amor dele. Eu não merecia o amor de ninguém.
- , eu sou uma idiota – choraminguei.
se deitou ao meu lado, e me abraçou.
- Idiota? – ele riu – Você é a pessoa mais corajosa que eu já conheci. Não por se matar, claro, mas por ter lidado com tantos problemas por tanto tempo e ter guardado eles todos pra você. Por ter pensado no e no antes de você, por ter se preocupado com eles. Ter se preocupado em dizer algo tão estúpido na hora de falar o motivo por querer morrer, só para que eles não se sentissem culpados. Claro que isso não adiantou nada, mas você tentou. Você tentou fazer todos felizes, menos você mesma. E eu acho que agora você deveria fazer isso.
- Eles sabem? – perguntei.
suspirou.
- Há algum tempo.
- Por que eles disseram que não? nunca falou nada... Ele sempre agiu como se fosse outra coisa.
- Ele não queria que você se sentisse como está agora. Culpada. Porque não é sua culpa. Nunca foi.
- Como não? Eu fui uma vadia, e estou fazendo a mesma coisa agora, deixando todo mundo em uma situação desagradável – falei.
- Se lembra do que você me falou? Que às vezes é doloroso demais precisar escolher? Eu acho que é hora do fazer isso. E ele está ok com isso. Nós estamos.
O encarei assustada, como alguém poderia ficar “ok” com isso? O quer se matar!
- Nós? Como vocês estão bem com isso tudo?
- , isso é algo que nós temos conversado há algum tempo, e não iríamos pensar nisso se não houvesse outra opção. E todos estão de acordo. Você voltou, o vai voltar. E quando isso acontecer, eu, e vamos tomar todas as providências para que vocês se conheçam e tudo mais.
- O está de acordo? – sussurrei.
- As coisas mudaram... – disse ele, cauteloso.
- O que mudou?
Mas eu não precisava de uma resposta, porque eu sabia exatamente o que tinha mudado: tudo.

Capítulo Vinte e Seis.

Era estranho precisar ir para a escola, considerando todo o tumulto interno da minha vida. Mas como eu era apenas uma mera mortal, continuei seguindo minha rotina monótona sem reclamar.
Passaram-se duas semanas desde que eu descobri o real motivo da minha morte, e que queria fazer o mesmo. Não tive coragem de encará-lo depois do me lembrar do que eu fiz, então simplesmente voltei para casa do meu pai. Na escola, fazia o possível para não encontrar com o ou o , o que me deixava sozinha. Bom, sozinha até misteriosamente começar a andar comigo. Ela tinha voltado a ser a minha amiga de sempre, pelo menos por fora, e isso me deixava um pouco mais aliviada.
- Você precisa falar com ele, disse enquanto caminhávamos pelo parque.
- O que você sugere que eu diga? – perguntei irônica – Que eu não consigo mais encarar ele ou o , porque sou uma vadia, e que espero que ele me desculpe por isso? Não vai acontecer, .
Ela bufou.
- Vocês todos são uns idiotas – disse ela, claramente irritada – Em primeiro lugar, você não é uma vadia. Só gostava dos dois. O que já se resolveu hoje, não é? Porque você gosta mais do do que do . Ou estou errada? – neguei com a cabeça, e ela continuou – Então, na outra vida ou sei lá o que, você só estava confusa, e os dois aceitaram essa condição de relacionamento aberto e tudo mais, o que significa que eles não ligavam muito pra isso também.
- Onde você quer chegar?
- Ignorar seus amigos não vai apagar o passado, muito menos ajudar em alguma coisa.
- Eu não quero ficar por perto novamente, e incentivar o a se matar – confessei.
Porque afinal, esse era meu maior medo. Talvez, se eu ficasse bem longe, ele me esquecesse. podia ficar com o meu lugar. Eu não ligaria, se fosse mantê-lo vivo.
- Particularmente, eu acho que você se afastar não vai mudar muito a cabeça dele não – ela falou dando de ombros.
- Estar perto também não – disse irritada.
- Não – ela concordou – Mas pelo menos você iria ter mais tempo de convencê-lo do contrário.
Filha da mãe.
Ela tinha que colocar isso na minha cabeça. precisava me deixar com vontade de falar com ele. Pedir para que ele não fizesse nada idiota. E mesmo eu sabendo que as minhas palavras não mudariam em nada sua opinião, lá estava eu. Parada feito uma retardada na porta da sua casa.
Lentamente a maçaneta girou, e logo abriu a porta por completo. Sua expressão ao me ver era indescritível. Seus olhos brilharam de uma maneira que eu chamaria de boba, se não tivesse sido nele. Eu queria abraçá-lo, pedir desculpas, chorar. Mas ao invés disso, desviei meu olhar do seu e disse:
- Eu deixei meu iPod no meu quar... No quarto – a mentira era tão óbvia que eu senti meu rosto esquentar quando um sorriso torto estampou seu rosto.
Eu poderia passar a vida toda o observando.
- Você sabe o caminho – disse ele simplesmente, me dando passagem para entrar.
Entrei hesitante na casa e subi as escadas, escutando a porta sendo fechada do andar de baixo. Quando entrei no quarto, encontrei tudo do mesmo jeito que eu havia deixado. Várias coisas ainda espalhadas no armário e meus livros no chão. E a única coisa que eu precisava que estivesse ali, eu tinha levado embora há algum tempo.
Meu iPod.
- Encontrou? – perguntou surgindo a porta, me fazendo dar um pulo de susto.
Ele riu brevemente e cruzou os braços, encostando na parede.
- Hm... Não – falei envergonhada – Eu devo ter deixado no .
- Peguei suas coisas de lá tem uma semana. Tudo no armário – ele falou sorrindo, apontando para o móvel.
Fingi procurar o iPod entre as coisas inutilmente, já que eu tinha plena certeza de que ele sabia que eu estava mentindo. Só achei que precisava de algum tempo para começar a falar.
Quando já tinha revirado o quarto todo, suspirei derrotada.
Era agora ou nunca.
- Nós precisamos conversar – falei, sentando na cama e encarando o chão.
O colchão ao meu lado afundou, e eu precisei de muita força de vontade para não abraçá-lo naquele momento.
- Quer começar? – perguntou ele.
Não. É claro que eu não queria começar.
- Pode ser – dei de ombros, mentindo – Em primeiro lugar, o já deve ter te contado, mas você não precisa mais mentir pra mim. Eu já sei de tudo.
- Eu não estava mentindo pra você – ele falou, o encarei com a sobrancelha arqueada – Só estava falando o que você me disse.
Outch. Já vai começar me humilhando, ? Eu já sei que sou uma vadia e tudo mais... Não precisa me lembrar.
- De qualquer forma... Eu sinto muito – disse, sinceramente – Eu sinto muito por ter ficado com você e o , por ter agido feito uma vadia, por ter mentido. Eu acho que só não queria precisar escolher. E agora você sabe que se eu tivesse escolhido... Teria sido você.
me olhou triste e acariciou minha bochecha. Fechei os olhos por alguns segundos, desejando poder tê-lo para sempre.
- Você não tem nada para se desculpar – ele suspirou. Abri os olhos novamente, e encontrei sua expressão pesarosa – Nós todos estávamos errados, mas o importante é que está tudo bem agora.
Meus olhos marejaram. Eu me sentia tão estúpida. Como estava tudo bem? Ele ia se matar!
- Você não pode morrer, – sussurrei – Eu fiz isso porque fui covarde, não posso deixar você fazer o mesmo.
Ele esboçou um sorriso, mas eu não conseguia entender a graça.
- Eu não vou perder nada, – disse – Ninguém vai.
- Eu vou – minha voz soava fraca e chateada – Vou perder você.
Ele balançou a cabeça negando. Segurou minhas mãos, e falou:
- Você nunca vai me perder. É exatamente por isso que eu preciso morrer. Para poder te encontrar.
- Você vai destruir a sua vida por algo que não vale a pena, – algumas lágrimas escaparam dos meus olhos – Nós não vamos ficar juntos.
Ele secou algumas lágrimas, e suspirou.
- O amor não vale a pena então? – indagou ele, parecendo um pouco ofendido – E se você quiser, nós vamos sim ficar juntos. Tudo depende de você.
- De mim?
- Você realmente pensa que eu iria me privar de não te ter por vários anos se não soubesse que no final daria certo?
- Como você sabe?
Ele deu de ombros.
- Intuição – brincou.
Eu sorri involuntariamente.
- Isso é coisa de mulher, – falei.
Ele sorriu ao perceber que o clima mais pesado tinha passado. Pelo menos superficialmente.
- Volta pra casa – ele pediu em um tom apelativo.
- Eu estou em casa – disse, me referindo a morar com meu pai.
- Você sabe que não.
Eu sabia. Sabia porque eu só me sentia em casa quando ele estava perto. Quando estava comigo.
- Se eu voltar, você promete que não vai me deixar?
- Não.
Suspirei.
- Quanto tempo? – perguntei com uma pontada de medo de sua resposta.
Nenhum tempo seria o suficiente para eu me acostumar com a ideia. Para me despedir.
- Uma semana.

Capítulo Vinte e Sete.

Uma semana. Sete dias. Dez mil e oitenta minutos. Seiscentos e quatro mil e oitocentos segundos.
Era só o que eu tinha. Um mísero grupo de dias, em que eu precisaria me acostumar com a ideia de que o ia se matar.
Eu não fazia ideia de como iria me sentir quando ele o fizesse e, por mais que procurasse não pensar nisso, era a única coisa na minha cabeça. Por esse motivo, eu concordei em voltar a ficar na casa dele. me levou em casa e trocou algumas breves palavras com meu pai enquanto eu arrumava minhas malas mais uma vez. Devido a prática, terminei de arrumar minhas coisas brevemente, e logo já estávamos no carro.
- Você quer ir a aula essa semana? – perguntou ele quando o silêncio ficou irritante.
O olhei com a testa franzida e fiz que “sim” com a cabeça.
- Nem todo mundo já foi pra escola mil vezes, – murmurei.
Quando percebi o quão rude isso soou, já era tarde demais para arrumar. Nós ficamos em um silêncio mórbido o resto do caminho.
Entrei na casa suspirando pesadamente quando percebi que, em poucos dias, ninguém mais moraria lá. Eu sentia uma vontade absurda de chorar.
- Fala comigo – pedi sussurrando quando ele passou reto por mim, indo para a sala.
se virou e me encarou confuso, deixei minha mala no chão e com ela meu orgulho, corri até ele e o abracei.
Ele não correspondeu o gesto por alguns segundos, mas logo seus braços já estavam em minha cintura, passando-me uma sensação de conforto inimaginável. Eu queria poder me sentir assim para sempre.
- Eu amo você – ele sussurrou no meu pescoço.
Meus olhos se encheram de lágrimas, e a única coisa que me segurava em pé eram os braços do .
- Não o suficiente pra ficar – choraminguei.
- Mas o suficiente pra ir.
Eu não sabia se eu considerava isso um gesto nobre ou simplesmente uma desculpa. Uma desculpa para que ele não precisasse mais sofrer ao meu lado.
Me soltei de seu abraço e fui para o quarto, querendo somente dormir. Esquecer da realidade por algumas horas, mesmo quando a minha realidade parecesse mais o próprio sonho.

- , hm... Eu queria falar com você – murmurei envergonhada – Me liga quando voltar pra casa.
Desliguei o telefone pela quinta vez, a diferença é que dessa vez eu tomei coragem de deixar uma mensagem.
Joguei o celular ao meu lado e encarei o teto. O escuro fazia com que as estrelas brilhassem, e com que um sorriso involuntário brotasse em meus lábios. Eu precisava dormir se quisesse acordar e ir para aula amanhã, mas não conseguia pregar os olhos. Eu queria falar com o , mas ele não parecia querer falar comigo. O estava em algum pub e não escutou nada do que eu disse quando liguei. E não faço ideia do porquê, a atendeu o celular do e me disse que eu tinha ligado pra ela por engano. Mas eu não tinha.
E, infelizmente, a única pessoa que estava ao meu alcance agora era o . Só que eu não queria falar com ele. Falar com ele iria me fazer chorar. De novo. E eu já me sentia humilhada o suficiente.
Suspirei, entediada, e fechei os olhos. Quem sabe se eu não fizesse esforço, o sono não vinha?
Acordei assustada com o despertador, mas feliz por ter conseguido dormir. Fui até o banheiro e tomei um banho preguiçosamente, quase dormindo embaixo da água quente. Terminei de me arrumar e peguei meu material da escola, descendo para a cozinha.
Eu esperava encontrar o lá, sentando sorrindo, parecendo alegre, como ele sempre estava. Ao invés disso, encontrei um cansado e abatido.
- Bom dia... – murmurei meio assustada ao encontrá-lo tão acabado.
sorriu brevemente, sentado no balcão, a mão apoiando a cabeça e um copo de água a sua frente. Sentei-me ao seu lado, sentindo-me um pouco desconfortável com o clima, e coloquei um pouco do suco que estava lá em um copo.
- Dormiu bem? – perguntou ele, com a voz levemente rouca.
Mas não um rouco saudável de quem acaba de acordar. Um rouco de quem nem ao menos dormiu.
- Bem – falei – E você?
Perguntei mesmo já sabendo a resposta.
deu de ombros e tomou um pouco da água. Terminei de tomar o suco e se levantou, indo até a garagem.
- Você tem certeza de que quer ir à aula? – perguntei antes de entrarmos no carro.
- É onde você vai estar – disse ele simplesmente.
Suspirei e ligou o carro.

- ! – gritei no corredor.
Algumas pessoas se viraram para me encarar e eu rolei os olhos diante da presença delas. se virou meio assustado e deu um sorriso torto ao me ver.
Caminhou até a minha direção e eu disse:
- Vestido pra matar, – apontei para a camisa xadrez que caia perfeitamente bem em seu corpo.
Ele riu.
- Você sabe que eu posso – respondeu ele, brincando, apesar de me causar alguns calafrios – Aconteceu alguma coisa?
- É... Bem, o passou mal – dei de ombros, fingindo não me importar, mas na verdade eu estava morrendo por dentro – Posso ficar na sua casa essa noite?
Ele franziu a testa e me puxou pela mão até o estacionamento, fugindo dos olhares curiosos que nos cercavam.
- Com “passou mal” você quer dizer o quê? – perguntou ele quando estávamos afastados o suficiente.
Eu não sabia exatamente como responder isso. A única coisa que eu sabia era que quando eu estava indo para a aula de História, me parou no corredor e me deu um beijo rápido antes de dizer que não estava se sentindo bem e ia embora.
E que eu provavelmente não devia passar na nossa casa hoje. É, ele disse “nossa casa”, o que me fez esquecer os problemas por alguns míseros segundos, já que nos próximos eu pude olhar sua expressão de pura dor.
E então, ele se foi.
- Ele parecia cansado... E com dor, não sei explicar – respondi.
suspirou e me olhou meio triste.
- Você sabe que não precisava nem pedir para ficar lá em casa, não sabe? – ele sorriu.
- É... Mas é sempre bom perguntar. Por exemplo, eu não poderia ir pra casa do sem pedir, porque eu corro o risco de me encontrar com alguma garota andando pelada pela casa...
Ele riu.
Como a aula já tinha acabado, eu só voltei até a escola para pegar a minha bolsa enquanto me esperava no carro.
não tinha ido na aula hoje, e o e a desapareceram depois do intervalo, então não precisei parar e me despedir de ninguém.
- O e a andam meio sumidos... – comentei.
deu de ombros.
- Você tá com fome? – perguntou. Neguei com a cabeça, achando estranho ele ter mudado de assunto – Então vamos pra casa.
Meia hora depois, nós já estávamos deitados no sofá assistindo a algum programa qualquer na TV. Eu encarava o telefone impacientemente desde quando pisamos dentro de casa, esperando o ligar e dizer que já estava melhor. Mas eu sabia que não ia acontecer tão rápido.
- O que vocês vão fazer quando o morrer? – perguntei, de repente.
E eu achei extremamente estranho ter conseguido falar isso tão naturalmente.
hesitou um pouco ao meu lado e me olhou sorrindo fraco.
- Cuidar de você – ele parou – Pelo menos é o que eu vou fazer.
Suspirei. O que ele ia fazer, porque logo eu ficaria velha e retardada, enquanto os meus amigos continuariam no auge na adolescência, curtindo a vida. Mas ele continuaria preso a mim por puro amor. E eu não iria nem mesmo retribuir do jeito que ele queria.
- Vai ser meio chato, não é? Cuidar de mim... – brinquei.
- Demais – ele riu.
- Por que você não me atendeu ontem? – perguntei, lembrando do meu surto de carência na última noite.
Ele pareceu meio constrangido e suas bochechas coraram.
Uma única resposta piscava dentro da minha cabeça: ele estava com alguma garota.
E isso me deixou com ciúmes, mesmo que eu não tivesse direito algum.
- Eu não escutei o telefone... – murmurou ele, envergonhado.
- Ah.
Nós ficamos calados por uns bons minutos e eu dei graças a Deus quando o telefone tocou. E, por um momento, eu esqueci que estava esperando por isso.
franziu a testa ao ver a bina e se levantou, indo falar longe de mim.
Obrigado, . Por sabe, manter-me informada.
Ou talvez seja só alguma das garotas com quem você tem transado e você estava me poupando de escutar uma conversa, no mínimo, muito nojenta.
Tentei disfarçar meu nervosismo quando ele voltou a sala, mas ele simplesmente entregou o telefone pra mim.
- Alô?
- ? – escutei perguntar com a voz fraca.
Meu coração deu um salto tão grande que eu achei que fosse sair do meu peito.
- Sim... Você tá bem?
Escutei ele suspirar.
- Bem fez uma pausa – O que vocês estavam fazendo?
Rolei os olhos diante a TV.
- Nada – resmunguei, e ele riu – E você?
- Eu dormi a tarde toda.
Franzi a testa. não era muito de dormir...
- Sério? E como você ainda tá cansado?
- Eu não falei que estava cansado – retrucou ele.
Senti minhas bochechas corarem. saiu da sala essa hora.
- Sua voz... – murmurei envergonhada – Ela soa como se você estivesse.
- Ah.
Outra pausa.
- ?
- Fale.
- Eu posso voltar pra casa?
Ele hesitou alguns segundos antes de responder, mas logo falou:
- Eu ia te pedir isso agora. Vem pra casa, anjo.
Sorri antes de desligar o telefone.

- , sério... Você não precisa me acompanhar – falei, assim que saímos de casa.
Ele deu de ombros ao meu lado.
- Eu preciso falar com o .
- Ah – disse, meio decepcionada – Achei que você queria ter certeza de que eu iria chegar bem.
Ele riu.
- Isso também – assegurou.
Sorri, satisfeita, e nós fomos andando em silêncio até chegar na casa familiar. Só que eu não a encontrei apagada, como achei que estaria. Pelo contrário, todas as luzes da varanda estavam acesas, a porta aberta e e conversando logo a nossa frente.
- Ah, ! – exclamou assim que me viu. Ele parecia arrasado.
- Ei... O que vocês estão fazendo aqui? – perguntei o abraçando e em seguida.
apenas entrou na casa, nos deixando sozinhos.
- Nós estávamos conversando com o respondeu.
Franzi a testa.
- Ele tinha me dito que dormiu a tarde toda – falei.
olhou para o céu e depois riu baixnho.
- Já é noite, – disse.
- Haha, muito engraçado – murmurei.
Ela também parecia um pouco mal. E agora, reparando nos dois aqui, eu fiquei em dúvida sobre uma coisa. Eles estavam... Juntos?
Porque era a única explicação que eu conseguia encontrar para o fato de os dois sempre estarem sumidos de um tempo para cá. E eles pararam de brigar.
- Vocês dois... – comecei a falar, meio envergonhada – Estão, er, sei lá... Juntos?
deu de ombros e me olhou meio apreensiva.
Eu não precisava de uma resposta. Isso bastou.
- Me desculpa por ter brigado com você pelo e o – choramingou ela. – Foi tão idiota da minha parte. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, ...
E eu sinto tanto por ter te machucado.
- Então você gosta do ? – perguntei incrédula – Todo esse tempo você gostava dele?
Suas bochechas coraram e sorriu meio bobo.
Era engraçado como as coisas podiam dar certo às vezes. No meio de todo esse caos, algo estava bem.
Escutei a porta bater e, quando me virei, vi saindo com as mãos no bolso.
Se isso fosse possível, sua aparência era ainda pior que a do .
Ele pareceu não me ver, ou me ignorou sem dó alguma e entrou em seu carro, indo embora tão rápido que eu mal pude entender o que tinha acontecido.
- Eu acho melhor nós irmos embora... – murmurou, sorrindo tristemente, antes de me abraçar.
- Tá acontecendo alguma coisa de que eu precise saber? – perguntei.
- Liga pra gente mais tarde – respondeu simplesmente, antes dos dois sumirem até o carro.
Entrei em casa, mais apreensiva que o normal, e escutei uma voz abafada vindo da cozinha. falava baixo e eu mal podia escutar suas palavras. Andei silenciosamente e me encostei na parede, procurando não fazer barulho algum que pudesse me denunciar ali, e prendi a respiração me concentrando nos sussurros que vinham do outro cômodo.
- Porra, , você sabe que eu nunca faria isso com você! – falou, soando ofendido – Por mais que pareça...
- Eu sei, murmurou, com a voz fraca – Mas se ela quiser... Se ela preferir ficar com você, não pense duas vezes.
- Você realmente acha que isso vai acontecer? – ele riu, sem humor algum – De qualquer forma... Porra, isso é muito gay, mas eu vou sentir sua falta.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos e eu achei melhor entrar na cozinha antes que eles saíssem de lá e me encontrassem parada atrás da porta.
- Hm... Oi – murmurei constrangida ao encontrar os dois abraçados.
- Ei, anjo – sorriu ao me ver e se encostou na bancada, observando enquanto me abraçava.
Correspondi ao seu abraço, estranhando sua pele bem mais fria que o normal e suas olheiras destacadas no rosto pálido.
- Eu vou indo, então – avisou, e tirou um papel do bolso e o entregou, antes que saísse do cômodo e batesse a porta da frente.
- Então, tudo bem? - perguntei, tentando conter a minha curiosidade de perguntar sobre a conversa dos dois.
Ele balançou a cabeça positivamente e segurou minha mão. Eu podia sentir que ele queria me dizer alguma coisa, mas não sabia como. E, infelizmente, eu tinha ideia do que poderia ser.
- Por que o foi embora tão bravo? – perguntei para começar.
Ele deu de ombros.
- Ele é meio estourado – riu.
Eu sorri, a contragosto, e me observava com os olhos brilhando. Um brilho fraco, mas ainda assim presente.
- ... Eu acho que a gente precisa conversar.
Meu corpo tremeu.
Eu não queria conversar. Bem, não sobre o que ele tinha para me falar de qualquer forma. Mas eu não tinha outra opção se não assentir com a cabeça e o seguir até a sala. Ele se sentou no sofá, enquanto eu continuei de pé, controlando-me muito para não começar a chorar feito uma louca.
- Você não vai sentar? – perguntou ele. Balancei a cabeça, negativamente, então prosseguiu: - Eu estou fraco. Não sei se alguma vez já comentei com você o que é preciso fazer para que alguém como eu morra, mas estar fraco é um dos requisitos.
- Um dos? – murmurei confusa. O que mais era necessário afinal?
Comecei a vasculhar minha memória, a procura de algo que pudesse responder a essa pergunta, e acabei me lembrando de um fato interessante. Eu havia me matado com uma faca. Havia a apunhalado em meu coração. suspirou assim que viu a minha expressão de horror e entendimento.
- Não é assim tão ruim... – disse ele, tentando amenizar o clima.
- Você vai enfiar uma faca em seu coração e me diz que não é algo ruim?! - exclamei irritada.
Essa história todo estava passando dos limites. As peças do quebra-cabeça estavam se encaixando na minha cabeça. , , e ... Eles vieram aqui hoje para se despedir. Por isso o choro, raiva e eu havia sido cega demais para perceber. Claro que não tinha uma semana de vida! Por Deus, ele estava planejando isso há tempo suficiente para que acontecesse hoje. Só disse que tinha mais tempo para me acalmar.
Não que eu estivesse muito calma agora.
- Pra mim já chega, . Não me importa o que vai acontecer comigo, mas é a minha vida que eu quero por em risco, não a sua – falei, decidida.
sorriu tristemente e se levantou do sofá, vindo em minha direção.
- Eu queria que fosse você a fazer – pediu ele, segurando minhas mãos.
Seus olhos me encaravam com tanta intensidade, que era impossível para de o olhar. E eu queria olhá-lo sempre, não só por mais alguns minutos. Ou por alguns míseros anos quando ele voltasse à vida e me encontrasse novamente, assim como ele disse que aconteceria. Queria tê-lo eternamente ao meu lado. Isso é pedir demais?
- Fazer o quê? - perguntei, finalmente conseguindo quebrar o contato intenso entre nossos olhos que ele havia criado.
- Me matar – explicou, calmamente.
Suas palavras me atingiram como um choque. Eu soltei suas mãos e dei alguns passos para trás, enquanto suspirava.
- Você só pode estar brincando comigo! – gritei – Como você tem coragem de me pedir uma coisa dessas? Eu não vou deixar você morrer, ! Não vou e ponto final. Isso acaba aqui.
Dei as costas a ele e subi as escadas, irritada demais para continuar a escutá-lo falar sobre aquilo. Se antes eu cheguei a considerar a ideia de deixar ele se matar, agora não existia nem mesmo uma remota possibilidade de que eu aceitasse isso de bom grado.

Capítulo Vinte e Oito.
(carregue essa música)


Foram poucos os minutos que passei sozinha no meu quarto. não me deu tempo para pensar, somente entrou e me encarou com um olhar reprovador.
- Você precisa confiar em mim – disse ele, parado na porta. Eu estava sentada na cama, tentando desviar de seu olhar. [play na música]

Turn around,
Turn around and fix your eye in my direction
So there is a connection.
Now I can't speak,
I can't make a sound to somehow capture your attention
I'm staring at perfection.


Se antes eu lutava para não chorar, agora não era mais preciso. Meus olhos já estavam marejados. Eu sabia que não conseguiria fazê-lo mudar de ideia, não importava o que eu falasse.

Take a look at me so you can see
How beautiful you are.


- Confio... – sussurrei – Mas você não tem certeza do que vai acontecer e eu não quero arriscar isso. Eu acabei de ter você de volta.
Minha voz era baixa, mas eu tinha certeza de que conseguia escutar perfeitamente, tanto que logo ele estava agachado na minha frente, segurando meu rosto entre suas mãos.

You call me a stranger, you say I'm a danger,
But all these thoughts are leaving you tonight.
I'm broken, abandoned; you are an angel
Making all my dreams come true tonight.


- Eu também, anjo – disse – E para mim foi muito mais tempo sem você. É por isso que eu preciso fazer isso. Não vai ser tão mal... vai ficar com você. Seus amigos vão ficar aqui. Ninguém vai a lugar algum.
- Eu quero você – falei, birrenta. Nada do que ele me falasse serviria de consolo. É claro que eu ficava feliz de ter os meus amigos comigo, mas isso não compensaria a falta que iria fazer, claro que não.
- Eu também quero você – ele falou, dando-me um selinho em seguida – Muito. E um dia nós vamos conseguir isso. Por completo. Uma vida inteira só para nós dois.

I'm confident,
But I can't pretend I wasn't terrified to meet you.
I knew you could see right through me


- Promete?
- Eu prometo.

I saw my life flash right before my very eyes
And any chance what we turn into
I was hoping that you could see
Take a look at me so you can see


No segundo seguinte, seus lábios estavam colados nos meus, dando início a um beijo calmo e triste, com gosto de despedida. Mas a urgência do contato entre os nossos corpos de repente deu sinais de vida.

You call me a stranger, you say I'm a danger,
But all these thoughts are leaving you tonight.


Eu puxei para a cama e ele se deitou sobre o meu corpo, ainda sem partir o beijo. Logo seus lábios desceram até o meu pescoço, fazendo com que eu suspirasse e uma mesma cena se repetisse em minha cabeça.

I'm broken, abandoned; you are an angel
Making all my dreams come true tonight.
You are an angel
Making all my dreams come true tonight.


Flashback ’s P.O.V.
- Você é impossível, garota – sussurrei contra a pele macia de seu pescoço.
Completamente irresistível.
Ela riu baixinho e puxou meu cabelo.
- – meu nome escapou pelos seus lábios, excitando-me ainda mais. Deus, como eu a queria! – Olha pra mim.
Ergui meu rosto e encarei seus olhos profundos e brilhantes, ela sorria. Eu poderia olhá-la sorrir para sempre sem me cansar. Ela pousou a mão delicadamente em meu rosto, e encarou minha boca com a expressão mais pura, e ao mesmo tempo maliciosa, do mundo.
Flashback ’s P.O.V. OFF


Take a look at me so you can see
How beautiful you are
Take a look at me so you can see
How beautiful you are


- Olha pra mim – implorei, quando minha boca praticamente berrava pela sua.
ergueu o rosto e me encarou admirado. Eu não queria perdê-lo nunca.
Sua boca se aproximou da minha o suficiente para que elas se encostassem, mas ele não as encostou.
- Me beija – sussurrou, os olhos fechados e a respiração batendo calmamente em meu rosto.

Take a look at me so you can see
How beautiful you are
Take a look at me so you can see
How beautiful you are


Flashback ’s POV
- Você não vai me beijar? – ela perguntou quando eu apenas rocei a boca na sua, afastando-me logo depois.
Sua expressão irritada era impagável.
- Por que você não me beija?
Ela rolou os olhos, e me beijou. Simples assim. E eu que achei que fosse irritá-la por algum tempo...
Flashback ’s POV OFF

Impaciente, aproximei nossas bocas até que elas se tocassem por completo, e eu senti sorrir, ao mesmo tempo apertar minha cintura. Eu me sentia acabada, meu coração doía a cada batida, mas seu beijo conseguia me tirar do chão por alguns segundos.
Eu podia reviver cada cena ao seu toque, e sabia que isso me deixava fraca, mas esperava que também o deixasse um pouco mais forte para não morrer. E eu queria que fosse assim. Queria poder viver esse momento de novo, e guardá-lo para sempre dessa vez. Coloquei minhas mãos dentro da sua blusa, e sua pele se arrepiou ao entrar em contato com a minha. Sorri. Terminei de tirar a camiseta dele, e aproveitei o tempo que ele utilizou tirando a sua calça para que eu tirasse a minha blusa.

Your beauty seems so far away
I'd have to write a thousand songs
To make you comprehend how beautiful you are.


- Você é perfeita – sussurrou ele, seus olhos brilhavam admirados enquanto me olhava.
Suspirei pesadamente quando começou a beijar meu colo, e segurei seus cabelos com um pouco mais de força. Seus dedos se dirigiram ao fecho do meu sutiã e, apesar da vergonha, eu não liguei quando ele tirou a peça do meu corpo. Um sorriso de canto surgiu em seu rosto, e minhas bochechas coraram.

Flashback ’s P.O.V.
- – ela sussurrou quando a coloquei na cama. Encarei seu corpo descoberto, admirado. Ela nunca entenderia o quanto era linda. Nunca – Eu te amo.
Três palavras. Sete letras. Algo tão simples e significativo, e que ela nunca havia falado.
- O que você disse? – perguntei atônito.
Ela deslizou seus dedos pelos meus lábios, traçando seu contorno, concentrada. Achei que não tivesse ouvido minha pergunta, mas então, encarou-me.
- Eu amo você, – disse impaciente – Você me ama?
- Já não deixei isso claro?
- Já – sorriu – Eu só queria escutar você dizer.
Flashback ’s P.O.V. OFF


- Eu quase cheguei a esquecer do quanto você é linda – murmurou ele, com o rosto a milímetros do meu. Sorri, envergonhada.
- Eu posso dizer o mesmo sobre você – respondi.
sorriu, mas logo se concentrou em beijar cada centímetro da minha pele exposta, enquanto eu arranhava qualquer parte de seu corpo que estivesse em meu alcance. E quando ele finalmente chegou ao cós da minha calça, tirou-a pacientemente, o que me fez soltar um murmúrio de reprovação. Ele riu baixinho e voltou a beijar meu colo calmamente. Arranhei suas costas quando ele desceu suas mãos para a minha coxa e a apertou.

I know that I can't make you stay
But I would give my final breath
To make you understand how beautiful you are.
Understand how beautiful you are.


- Você confia em mim? – perguntou ele, levantando o tronco para me olhar.
- Mais que tudo – respondi prontamente. Já tinha respondido a essa pergunta hoje.
Ele sorriu e meu corpo se arrepiou quando ele se deitou sobre mim, e a única coisa que eu queria agora era senti-lo mais perto. E que nada nos separasse novamente.
E pensar que era exatamente isso que iria acontecer em poucos minutos me deixava apavorada. Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto quando ele se aproximou para me beijar e, percebendo algo errado, me encarou com a expressão confusa.
- O que aconteceu, anjo? – sussurrou ele.
Balancei a cabeça e o puxei para mais perto, achando incrível que isso ainda fosse possível. Ele ainda estava meio apreensivo, mas sua expressão se suavizou quando eu dei um pequeno sorriso e desci minhas mãos pelo seu corpo até a barra de sua boxer.
- Tem certeza? – perguntou.
Eu nunca tive tanta certeza na minha vida. Pelo menos não nessa vida.
- Eu quero você, – falei – Para sempre.
E dizendo isso, nós terminamos de tirar os tecidos restantes em nossos corpos.

You call me a stranger, you say I'm a danger
But all these thoughts are leaving you tonight.
I'm broken, abandoned; you are an angel
Making all my dreams come true tonight.


Flashback ’s P.O.V.
- Promete que nunca vai me deixar? - ela pediu com a voz manhosa.
Sorri sozinho enquanto acariciava seus cabelos. estava deitava no meu peito, praticamente dormindo, mas ainda assim lúcida o suficiente para esperar a minha resposta. Uma resposta que ela provavelmente já sabia, mas ela fazia isso... Me fazia repetir. Não que eu me importasse de qualquer forma.
- Nunca.
Flashback ’s POV OFF


You call me a stranger
You say I'm a danger
You call me a stranger



Capítulo Vinte e Nove.

Eu não conseguia dormir. Meus olhos ardiam de sono, mas eu não podia tirar os olhos de . Ele estava deitado ao meu lado, os olhos fechados e a expressão mais serena do mundo estampava seu rosto. Absurdamente lindo.

All of you
Has shaped me into what I am
Carried out the better man
Do you have a master plan?


Suspirei, cansada, decidindo que era hora que colocar minhas roupas. Levantei da cama, preguiçosamente, e fui até o armário, pegando uma calcinha e uma camisola qualquer. Enquanto me vestia, pude sentir um par de olhos me observando e minhas bochechas coraram assim que me virei e vi sorrindo para mim.
Um sorriso sem malícia alguma, só um sorriso.

Somewhere I've
Let all my defenses down
And never thought they'd turn around
And you do not make a sound


Voltei para a cama, percebendo que ele tinha um pouco de dificuldade para respirar, e me deitei ao lado dele novamente, fazendo com que ficássemos cara-a-cara.
- Eu te amo. – falei com a voz baixa. – Você sabe, não é?
procurou minha mão, e a segurou.
- Sei. – garantiu. Assenti em silêncio, esperando com que ele voltasse a falar. – Eu deixei a casa em seu nome. Mas eu acho melhor que você vá morar com o ou volte a morar com o seu pai por um tempo, não quero que fique sozinha.
- Eu acho que vou querer ficar sozinha... – murmurei, sem me surpreender com o fato dele estar deixando sua casa para mim.
balançou a cabeça em reprovação.
- Você não devia.

See it turning red
Like a bullet through the chest
Lay me down to rest
It's a lovers final breath


- Como foi... – ignorei seu comentário reprovador e comecei a falar. – Quando eu me matei? – ele franziu a testa, sem entender a minha pergunta. – Como você se sentiu?
Ele fechou os olhos por alguns segundos, me encarando depois seriamente.
- Eu me senti morto. Mas meu coração continuava a bater, ainda que a dona dele não estivesse mais lá. Eu senti raiva, por você ter ido embora. Te achei egoísta, não era uma decisão somente sua quando você tinha tantas pessoas que te amavam ao seu redor. Você não tinha o direito de deixar elas sentirem a sua falta. Era... Injusto.
Ele parou de falar e me olhou com tristeza, entendendo o motivo da minha pergunta.
- Eu vou me sentir exatamente assim. – falei.
- Mas vai passar. – ele disse. – Um dia você irá acordar e vão ser esses sentimentos que te darão força para continuar.
- Qual é o ponto de continuar, se você não vai estar mais aqui?
- Me encontrar. Eu preciso que você seja forte e continue a viver para nós podermos nos encontrar novamente.

And I found out
Nothing comes without a cost
And life was just a game we lost
Do you have a better thought?


- E se... – comecei a dizer, sem ter coragem de terminar meu raciocínio.
- Se? – ele incentivou.
- E se eu me matar?
A ideia tinha acabado de aparecer na minha cabeça... Eu não precisava continuar a viver sem o , eu só precisava me matar logo depois dele. Assim não precisaria esperar tanto tempo para o encontrar de novo.
Ele cerrou os olhos, claramente irritado.
- Você não se atreva a fazer isso, . – disse com a voz fria. – Você vai continuar a viver normalmente, até que a sua hora chegue.
Rolei os olhos.
- Eu não quero mais viver.
- Você não sabe do que está falando. – murmurou, bravo. – Você já disse que confia em mim, mas será que eu posso confiar em você?
Abri a boca, indignada, mas palavras nenhumas saíram dela.
Ele podia confiar em mim?
Eu não sabia. Talvez eu ficasse triste por algum tempo, depois me ajudaria a continuar. Ele ficaria comigo, não me abandonaria, eu tinha certeza. Então, eu ficaria velhinha e morreria, finalmente. Ou talvez sofresse um acidente antes. Realmente, não havia necessidade de provocar a morte mais uma vez.
- Pode. – sussurrei enfim. – Você pode confiar em mim.
assentiu e se virou, esticando o braço para abrir a gaveta da mesinha de cabeceira, tirando de lá uma faca afiada e brilhante, que me causou arrepios.
Ele colocou a faca na minha mão, enquanto eu ainda o olhava, abismada.
- Você planejou isso? – perguntei, em choque. – Você planejou dormir comigo... Colocou essa faca aqui de propósito?
continuou em silêncio por algum tempo, me observando.
- Não. Embora todos esses acontecimentos sejam convenientes. – ele confessou. – Mas eu não planejei nada. Claro que não, ! Nunca faria algo que você não quisesse...
Ele acariciou minha bochecha, fazendo com que meus olhos se fechassem automaticamente. Uma lágrima solitária desceu pelo meu rosto, mas eu sabia que outras já estavam a caminho.
- Eu não me importaria, de qualquer forma. – murmurei, voltando a abrir os olhos, e encontrando próximo. – O que a faca fazia aqui?
suspirou.
- Foi a faca que você usou. Eu não tive coragem de jogar fora... Por bem ou mal, ela me lembrava de você.
Assenti, em silêncio, e observei o objeto reluzente em minhas mãos. Eu não tinha certeza de que conseguiria mata-lo. Mas se era o que ele queria, devia pelo menos tentar.
- Só me diz quando você estiver pronto. – murmurei com a voz falha.
- Eu estou pronto.

Now you're gone
And nothing's ever felt so wrong
A moment seems to last so long
Do you have a fear so strong?


Meu rosto estava molhado pelas lágrimas, que, como eu havia previsto, não deixaram de cair, e soluços estavam presos em minha garganta.
me puxou para mais perto, me abraçando. Seu corpo estava tão gelado, que eu me arrepiei involuntariamente. Guardei seu cheiro em minha memória, assim como o seu toque, e senti ele me soltar gradativamente, segurando minha mão que estava com a faca, guiando-a até seu peito.

See it turning red
Like a bullet through the chest
Lay me down to rest
It's a lovers final breath

- Eu não posso. – solucei, assim que a faca entrou em contato com a sua pele . puxou a minha mão, fazendo com que a face começasse a perfurar seu peito e sangue escorresse entre as minhas mãos. – Por favor...
- Você pode. – sussurrou ele, quase sem voz. – Por mim.
- Eu sinto muito.
A faca entrava cada vez mais em seu corpo, agora não pela força dele, mas sim a minha. Meu coração doía tanto que eu achei que pudesse morrer antes que ele, mas assim que seus olhos encontraram os meus já era tarde demais. Ele estava indo.
- Eu amo você. – ele falou, embora quase não pudesse ouvi-lo. – Para sempre.
aproximou seu rosto e seus lábios tocaram os meus pela última vez, ao mesmo tempo em que eu terminava de enfiar a faca em seu coração.
Estava morto.

Now I die
And kiss your tender lips goodbye
Pray to God who hears my cry


Epílogo – ’s POV

Alguns anos depois...

Encarei a garotinha ruiva com as bochechas rosadas a minha frente e sorri bobamente.
- Eu vou cair. – ela murmurou manhosa, cruzando os bracinhos firmemente sobre o peito.
Me agachei para ficar da sua altura, e segurei suas pequenas mãos.
- Eu não iria te incentivar a fazer uma coisa que fosse te machucar. – falei calmamente, omitindo a parte de que, sim, ela iria cair.
me encarou meio duvidosa, e fez biquinho quando a empurrei cuidadosamente até a bicicleta.
- Você confia em mim? – perguntei.
Seus olhos verdes e brilhantes, tão diferentes de antes, mas ainda sim perfeitamente familiares, me encararam.
- Confio. – ela falou completamente séria.
Meus lábios se curvaram em um sorriso ao ouvir sua resposta, e a ajudei a subir na bicicleta. As rodinhas com certeza iriam impedi-la de cair, por isso tomei o cuidado de não prendê-las corretamente. Se ela se machucasse seriamente, nunca me perdoaria.
Chequei o relógio no pulso, e vi que estava em cima da hora. Se eu me atrasasse mais uma vez, me mataria. Quer dizer, se isso fosse possível.
Senti meus olhos marejarem, e logo algumas lágrimas começaram a cair. Nunca era fácil deixa-la. Não importa quanto tempo passasse.
- Por que você tá chorando, ? – ela perguntou, passando sua mãozinha por meu rosto, e secando as lágrimas. Balancei a cabeça, e voltei a colocar suas mãos no guidão da bicicleta.
- Eu te amo muito, pequena. Prometa-me que nunca vai esquecer. – pedi.
Ela me encarou séria, em um misto de tristeza e compreensão.
- Você vai embora? – sua voz manhosa e persuasiva me perguntou, adivinhando.
Sua capacidade de entendimento me assustou. Vi um garotinha que brincava com um carrinho de controle remoto rindo a poucos metros de nós dois. Suspirei.
- Eu vou voltar. – disse simplesmente, beijando sua testa, e a ajudando a começar a pedalar.
Logo a bicicleta já tinha adquirido velocidade, e se aproximava cada vez mais do carrinho do garoto. Ela iria cair. O menino encarou , completamente assustado, e gritou “cuidado”.
Era tarde demais.
Senti alguém me puxar para trás, e vi me encarando bravo. Dei de ombros e nos escondemos atrás de uma árvore mais afastada.
- Ela não pode mais te ver! – ele disse me repreendendo, mas eu só conseguia prestar atenção nas crianças que estavam a alguns metros.
chorava silenciosamente, e abraçava o joelho machucado, enquanto o garoto assoprava o corte.
- Tá doendo muito? – o garotinho perguntou, visivelmente preocupado.
Ela balançou a cabeça, negando e mentindo; estava doendo. O menino riu.
- Não precisa mentir pra mim. – disse ele. – Como você se chama? Eu acho que já te vi antes. – perguntou ele, pensativo.
- , vamos embora. – me puxava em direção a saída do parque.
- Só mais um pouco. – pedi com os olhos presos em minha menina.
- . – respondeu ela, timidamente. Suas bochechas coraram. Um sorriso estampou meu rosto involuntariamente. Como eu a amava. – E você?
O garotinho sorriu para ela, come se de repente entendesse tudo.
- . – respondeu.

O tempo é subjetivo. Vinte, trinta anos podem se passar rápido, assim como podem parecer demorar uma eternidade.
Os dias que sucederam a morte de foram dias que demoraram a passar. Os dias que sucederam a morte de , alguns anos depois, demoraram a passar. Os dias que tive com os dois ao me lado, entretanto, sempre passaram rápido demais.

FIM


N/A:Fim... Acho que ainda não caiu a ficha de que Devil's Heart acabou. E ai, vocês gostaram do final? Choraram? Ficaram putas, felizes, decepcionadas? Eu, particularmente, gosto do final. Esse epílogo foi uma das primeiras coisas que eu escrevi quando comecei DH e é, sem dúvidas, minha parte favorita. Porque todo mundo aqui sabe que minha afinidade pelo segundo guy é maior que tudo, né? HAHAHA Enfim...
Eu tinha tanta coisa pra falar aqui, mas agora as palavras sumiram da minha cabeça. Eu, primeiramente, quero agradecer as minhas betas (sim, no plural!! DH teve mais betas que todas as fics rs): Any, Loma e Mari, porque sem vocês Devil's Heart nunca teria sido postada. Any, eu não sei se você vai ler isso, mas anyways, obrigada por tudo! Todos os comentários positivos que você me mandou quando eu comecei a postar DH foi o que me incentivou a continuar, acho que você sabe disso. <3 Loma, muuito obrigada por ter aceitado betar DH quando a Any saiu e ter sido tão carinhosa com a minha fic! E a Mari, que pegou DH no último capítulo... Sem você ninguém ia saber o final! HAHA Obrigada! :)
E obrigada a você, que teve a paciência de ler Devil's Heart até o final e aguentar a minha demora absurda para enviar as atts. Eu não tenho palavras suficientes pra dizer o quanto cada comentários de vocês, leitoras, me fizeram feliz. Cada elogio e crítica me fez crescer. E eu só tenho que pedir desculpa por não ter conseguido fazer com Devil's Heart o que eu queria. Eu sei que muita coisa é completamente sem sentido, mal explicada e etc, e mesmo assim vocês leram tudo. Mesmo assim vocês falaram que DH era perfeita, o que está longe de ser verdade. Mas saber que vocês acham isso, me deixa extremamente realizada. Muito obrigada, do fundo do meu coração. Eu só espero um dia poder escrever algo realmente bom para vocês, algo que seja realmente "perfeito", assim como vocês <3 Bom, é isso... Eu não vou ficar enrolando até porque sei que ninguém gosta de ficar lendo todo esse drama HAHA Só quero falar mais uma coisinha, quem tiver alguma pergunta sobre assuntos mal resolvidos aqui, podem me perguntar por email ou formspring, ok? Perguntem mesmo porque eu sei que tem coisa sem sentido aqui no meio e já vi umas dúvidas nos comentários, só que eu não gosto muito de responder vocês por aqui, então sintam-se à vontade para perguntar, combinado? Mais uma vez, obrigada, leitora. Devil's Heart não seria nada sem você.
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Xx, pê.