Baby Blue Eyes
Autora: Juliane Mergener
Beta-Reader: Jules



Eu estava na festa, mas não pretendia ficar ali por muito mais tempo. Ela estava me dilacerando enquanto dançava daquele jeito, naquele vestido preto sob saltos altos da mesma cor, balançando os cabelos louros como se mais nada no mundo importasse além da sua própria diversão aquela noite. Eu a observava desde que pusera os pés na casa de Danny e já a tinha visto beber mais que o suficiente. Mas ela era , a party girl da universidade, a garota que não perdia um agito, que vivia para festejar e já era conhecida por isso. Isso era ela. E quem eu era? Um loser de nome Dougie Poynter infinitamente apaixonado por ela, um alguém para quem sequer ela tinha olhado um dia. Um coitado, se você preferir.
, como seus amigos mais íntimos a chamavam, tinha sido minha colega durante todo o colegial, portanto não é de hoje que aqueles olhos azuis bebê me fascinavam e me causavam falta de ar. Naquela época ela já era bonita e arrancava suspiros até dos caras do último ano, e como se não bastasse, estávamos na mesma universidade e fazíamos duas cadeiras juntos por semana. Mas ainda assim ela não sabia meu nome, não sabia quem eu era, ela não se importava com nada além dela mesma. E claro, as festas dela.
Peguei mais um copo de vodka e voltei a me escorar na parede. Tinha ficado ali desde que chegara e já começava a ver os casais se formando, agarrando-se nos cantos, enquanto alguns ainda continuavam na pista de dança que havia virado a sala de jantar de Danny. continuava lá, dançando incessantemente. Não sei como ela aguentava tanto tempo sobre aqueles saltos altos, eu já teria morrido de dor. A festa continuou madrugada adentro, e com isso, muitos dos casais que se formaram deixaram a festa juntos, o que fez com que o número de pessoas diminuísse. Danny tinha achado uma garota para se divertir e estava no sofá com ela. Deviam ser umas cinco da manhã quando notei que não estava mais ali. Ela tinha evaporado do mapa, e então, de cabeça baixa, deixei meu copo sobre uma mesa e saí também.
A noite do lado de fora ainda estava fria, e então abotoei minha flanela xadrez até a metade do peito, tapando minha regata azul marinho. Busquei as chaves do carro no bolso e entrei no i30 preto estacionado. Andei calmamente pela vizinhança até achar a saída do bairro quando avistei uma figura de vestido preto e saltos na mão caminhando na calçada sozinha. Bom, eu tinha duas escolhas: podia passar reto por ela e dar o troco porque já estudávamos juntos há anos e ela nem sabia o meu nome, ou podia ser gentil, pedir-lhe se queria uma carona e quem sabe assim podia ter a oportunidade de falar com ela uma vez na vida. Fiz a coisa mais sensata e diminuí a velocidade do carro, parando ao lado dela. Abaixei o vidro.
- Carona? - Tentei dar um sorriso fatal. Deve ter saído uma careta.
- Não, obrigada. - Ela respondeu sem nem menos olhar para mim, continuando a andar. Pisei no acelerador para acompanhá-la.
- Está frio, . - Eu disse o apelido dela, e ela então me olhou.
- Posso suportar o frio. - Ela respondeu.
- Não, você não pode. Você vai ficar doente e perder uma semana de aula, e temos que entregar o portfólio para o Sr. Collins na segunda. - Porque ela sempre achava que sabia de tudo? Que irritante.
- Você é meu colega? - Ela arqueou uma sobrancelha.
- Por incrível que pareça, sim. E em duas cadeiras semanais.
- Oh. - Ela abriu a boca ligeiramente.
- Você vai entrar ou não? Qual é , se eu quisesse te sequestrar ou te estuprar eu já teria feito isso nessa rua escura. - Revirei os olhos.
- Tudo bem. - Ela respondeu baixo, quando notou que a rua estava realmente escura. Alguns postes adiante não estavam funcionando. O lugar estava macabro. Danny morava em um bairro sinistro.
Destranquei a porta para ela, que entrou meio cambaleante. Devia ser o efeito do álcool correndo livre por suas veias. Eu perdi a conta de quantos copos ela bebeu naquela noite. Dei-me conta, de repente, que , garota dos olhos azuis bebê que perambulava em minhas fantasias desde adolescente estava no meu carro. Do meu lado. Minhas mãos começaram a suar e ficar geladas. Ela pôs o cinto e olhou para frente, meio constrangida, como eu.
- Hã, então, onde você mora? - Perguntei, arrancando o veículo.
- Não precisa me levar em casa, quando estiver bom eu aviso. - Ela disse sem me encarar.
- Ok, como quiser.
Levei a mão ao som no painel e conectei meu Ipod na entrada USB. Yellow do Coldplay começou a tocar, e me perguntei se ela gostava desse tipo de música, afinal ela sempre estava em festas onde só tocava eletrônica, mas a feição dela não se alterou, pelo contrário, até ficou mais branda. Andamos pela cidade por uns cinco minutos até que ela resolveu falar.
- Então você é meu colega...
- Desde o colegial.
Ela me examinou com atenção, como se buscasse no fundo da memória alguma lembrança relacionada a mim.
- Não me lembro, sinto muito. - Ela respondeu baixo depois de um momento.
- Tudo bem, não importa. - O que eu achava? Que ela ia pular no meu pescoço e dizer que era apaixonada por mim desde o primeiro ano? Sonhe, Dougie Poynter.
- Vou seguir para Toteham Court Road, e você?
- Eu moro em Greenwich. - Ela respondeu.
- Posso deixar você em casa.
- Não precisa.
Suspirei pesadamente. Ela era tão teimosa, tão altruísta.
- Qual o seu nome?
- Dougie, Dougie Poynter.
Ela não disse nada, e então peguei a rua principal em direção a Greenwich. Ela suspirou alto, como eu fizera um pouco antes quando notou que eu me dirigia ao bairro dela, sem o seu consentimento. No entanto seguimos calmamente, sem trocarmos mais nenhuma palavra.
- Esquerda. - Ela disse quando chegamos a Greenwich.
Andamos mais um pouco e ela foi me indicando o caminho a seguir até que me pediu para parar em frente a uma casa azul de aberturas brancas, com um bonito gramado verde e bem cuidado. Nunca imaginei que ela morasse num lugar tão... normal e familiar.
- Quer entrar? - Ela perguntou. Gelei.
- O quê? - Me virei para ela, sentindo-me suar frio.
- Posso te oferecer um café, afinal você me trouxe em casa. - Ela deu de ombros.
- Eu, hã... Se não for incômodo.
- Vem. - Ela saiu do carro e foi em direção a casa.
buscou algo num vaso de plantas da varanda, e de lá tirou uma chave, com a qual abriu a porta.
- Vou trocar de roupa e já trago o café. - Ela sorriu de leve e entrou.
Me sentei nos degraus e passei a mão sobre o rosto. Podia sentir meu coração batendo acelerado por baixo da roupa. Durante anos meu sonho foi trocar meia dúzia de palavras com sem que eu gaguejasse ou babasse, e agora estava aqui, na casa dela. Era muita loucura para minha mente.
Ela apareceu um tempinho depois, vestindo um short jeans velho e curto (muito curto) com um moletom preto. Em cada uma das mãos ela trazia uma xícara de café. Ela me entregou e sentou ao meu lado.
- Nunca imaginei que você morasse num lugar assim. - Soltei sem pensar.
- Por quê? - Ela perguntou olhando para a xícara em suas mãos.
- Não sei, imaginei que você morasse num apartamento com várias garotas e que toda noite vocês apostavam quem ia chegar mais tarde.
- Sério? - Ela riu.
- Juro!
- Todo mundo deve pensar isso. - Ela devolveu.
Fiquei em silêncio.
- Tudo bem, eu faço por onde. E gosto.
Mais silêncio.
- Isso é um monólogo? - Ela sorriu.
- Desculpe. Eu gosto do som da sua voz. - Respondi e ela me olhou nos olhos.
- Sinto muito por não lembrar de você. - Ela sussurrou.
- Tudo bem.
- Não! Você estuda comigo desde o colegial, como eu não te reconheço?
- Bom, você está sempre muito aérea...
- Está me chamando de tapada? - Ela riu e me cutucou.
- Não! Mas você está sempre assim, tipo, no seu mundo.
- É, faz sentido.
O dia começava a raiar e o céu estava passando para um alaranjado bonito quando terminei minha xícara de café. Era quase inacreditável que tivéssemos passado aqueles momentos juntos, mesmo que para ela não significassem nada.
- Tenho que ir. - Suspirei.
- Claro. - Ela se levantou e deixou a xícara no degrau, ao lado da minha e foi me acompanhando até o carro.
[Baby Blue Eyes – A Rocket To The Moon]
- Caramba, adoro essa música! Ela disse quando chegávamos ao veículo. Eu tinha deixado o rádio ligado e os vidros abertos.
- Então me dê o prazer. Estendi minha mão para ela, que a pegou enquanto ficava levemente corada.
Ela ficou de frente para mim enquanto eu colocava minhas mãos em sua cintura e ela levava as dela até meus ombros. Começamos a dar passos lentos e ela colocou a cabeça no meu peito. Permiti-me sentir o seu cheiro, que me lembrava baunilha e flores frescas, em notar cada linha de seu rosto enquanto ela estava de olhos fechados. Então pude perceber que a garota dos meus sonhos estava ali.
Ela mexeu a cabeça devagar e nossos olhos se atraíram com magnetismo. Aqueles olhos azul bebê, para os quais eu olhava toda manhã, buscando receber um segundo de atenção, aqueles olhos que agora estavam grudados nos meus. Olhei para os lábios dela e sem pensar muito, beijei-a. Ela levou suas mãos ao meu cabelo e senti isso como um sinal. Ela deu passagem para a minha língua e tive a certeza de que jamais conseguiria tirá-la da minha cabeça. Puxei-a para mais perto, acabando com toda e qualquer distância entre nós e afundei uma de minhas mãos naquele cabelo macio. me deu arranhões na nuca e deixei escapar um gemido baixo, enquanto ela deu um meio sorriso entre o beijo. Diminuímos o ritmo e ela mordeu meu lábio inferior.
- Vejo você na faculdade segunda? - Perguntei.
- Estarei lá.
Dei-lhe mais um beijo e entrei no carro, deixando-a para trás, não acreditando que meus melhores sonhos tivessem virado realidade.

Já estava na minha carteira há um tempo, o Sr. Collins já falava sobre os portfólios que tínhamos que entregar e nada de chegar. Será que ela não iria apresentar, ou será que havia ficado doente? Enquanto revirava minha mochila atrás de alguns papéis, ouvi a porta ranger e olhei naquela direção. Lá vinha ela, os cabelos presos num rabo de cavalo frouxo e meio de lado, um moletom azul claro, calça jeans e all star pretos. Ela sentou na minha frente, virou para trás e moveu os lábios, formando duas palavras: oi Dougie.

Fim




N/A: Mais uma fic no ar, espero que tenham gostado. A música me inspirou e está aí! Comentem ali e quem sabe, futuramente, uma parte dois? xX JuleMergener_


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